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O CONTO

“Na verdade, a escrita não é uma técnica e não se constrói um poema ou um conto como se
faz uma operação aritmética. A escrita exige sempre a poesia. E a poesia é um outro modo
de pensar que está para além da lógica que a escola e o mundo moderno nos ensinam. É uma
outra janela no nosso olhar sobre as coisas e as criaturas. Sem a arrogância de as
tentarmos entender. Só a ilusória tentativa de nos tornarmos irmãos do universo.

Não existem fórmulas feitas para imaginar e escrever um conto. O meu segredo (e que vale
só para mim) é deixar-me maravilhar por histórias que escuto, por personagens com quem
cruzo e deixar-me invadir por pequenos detalhes da vida quotidiana. O segredo do escritor
é anterior à escrita. Está na vida, está na forma como ele está disponível a deixar-se tomar
pelos pequenos detalhes do quotidiano.

O conto é feito com pinceladas. É um quadro sem moldura, o início inacabado de uma
história que nunca termina. O conto não segue vidas inteiras. É uma iluminação súbita sobre
essas vidas. Um instante, um relâmpago. O mais importante não é o que revela mas o
sugere, fazendo nascer a curiosidade cúmplice de quem lê. No conto o que é importante não
é tanto o enredo mas o surpreender em flagrante a alma humana. No conto (como em
qualquer género literário) o mais importante não é o seu conteúdo literário mas a forma
como ele nos comove e nos ensina a entender não através do raciocínio mas do sentimento
(será que existem estas categorias, assim separadas ?).”
Uma palavra de conselho e um conselho sem palavras

Mia Couto

O conto é um tipo de narrativa que se opõe, pela extensão, quer à novela, quer ao
romance. De facto, é sempre uma narrativa pouco extensa e a sua brevidade tem
implicações estruturais: reduzido número de personagens; concentração do
espaço e do tempo, acção simples e decorrendo de forma mais ou menos
linear.

ORIGEM

Embora o conto seja hoje uma forma literária reconhecida e utilizada por inúmeros
escritores, a sua origem é muito mais humilde. Na verdade, nasceu entre o povo
anónimo. Começou por ser um relato simples e despretensioso de situações
imaginárias, destinado a ocupar os momentos de lazer. Um contador de histórias
narra a um auditório reduzido e familiar um episódio considerado interessante. Os
constrangimentos de tempo, a simplicidade da assembleia e as limitações da
memória impõem que a "história" seja curta. Essas mesmas circunstâncias
determinam, como já vimos, a limitação do número de personagens, a sua
caracterização vaga e estereotipada, a redução e imprecisão das
referências espaciais e temporais, bem como a simplificação da acção.

Dada a sua origem popular, o conto não tinha propriamente um autor,


entendido como um ser humano determinado, ainda que desconhecido. Na
realidade ele constitui uma criação colectiva, dado que cada "contador" lhe introduz
inevitavelmente pequenas alterações ("Quem conta um conto, acrescenta um
ponto.").
O interesse dos intelectuais pelo conto popular surgiu no século XVII, quando, em
1697, Charles Perraut publicou a primeira recolha de contos populares franceses,
que incluía histórias tão conhecidas como "A Gata Borralheira", "O Capuchinho
Vermelho" e "O Gato das Botas". Esse interesse pela literatura popular acentuou-se
no século XIX, com os trabalhos dos irmãos Grimm, na Alemanha, e Hans Christian
Andersen, na Dinamarca. Em Portugal destacaram-se nessa tarefa investigadores
como Teófilo Braga, Adolfo Coelho, Leite Vasconcelos e Consiglieri Pedroso. O
próprio Almeida Garrett recolheu no seu Romanceiro numerosas narrativas em
verso, que são afinal parentes próximos do conto popular.

Estrutura

Fruto da sua origem oral, os contos têm quase sempre uma estrutura muito
simples e fixa. As próprias fórmulas inicial ("Era uma vez...") e final ("...e foram
felizes para sempre.") revelam isso. Essa estrutura pode ser traduzida da seguinte
forma:

• ordem existente - situação inicial;>


• ordem perturbada - a situação de equilíbrio inicial é destruída, o que dá
origem a uma série de peripécias que só se interrompem com o
aparecimento de uma força rectificadora;
• ordem restabelecida .

Personagens

A caracterização das personagens é sumária e estereotipada: os heróis


concentram em si os traços positivos, enquanto os vilões evidenciam todos os
aspectos negativos da personalidade humana. Dessa maneira, personifica-se o bem
e o mal e manifesta-se insistentemente a vitória do primeiro sobre o segundo.

A caracterização indirecta prevalece sobre a directa, visto que é sobretudo


pelas suas acções que as personagens revelam o seu carácter.

Tempo e espaço

A fórmula inicial ("Era uma vez..." ou outra equivalente) remete para o


passado e, desse modo, funciona como um sinal de que se vai passar do mundo
real para um mundo irreal, o mundo da fantasia, onde tudo é possível. Esse
mergulho no imaginário termina com a fórmula final: "...e viveram felizes para
sempre."

Ao longo do conto as indicações de natureza temporal são sempre limitadas


e vagas, não permitindo determinar com rigor a duração da acção ou a localização
num contexto histórico preciso. O mesmo acontece relativamente ao espaço:
um palácio, uma casa, uma fonte, uma floresta...

Na verdade, as vagas referências espácio-temporais aparecem apenas


porque são uma exigência da narrativa, visto que nada acontece fora do tempo
e do espaço. Não é o onde nem o quando que interessa, mas sim o que acontece, a
acção. As próprias personagens são um mero suporte da acção, daí a sua
caracterização estereotipada.

A conjugação dessas características (personagens estereotipadas e espaço e tempo


indeterminados) concede às histórias um carácter atemporal e universal, que
permite a sua reactualização permanente: é algo que poderia acontecer em
qualquer tempo e em qualquer lugar.

Simbologia

Nos contos tradicionais existe uma imensa simbologia: dizem mais do que
parecem dizer. A manifestação mais evidente é a referência sistemática ao número
três, símbolo da perfeição desde tempos imemoriais. Mas há mais... A rosa
aparece como símbolo do amor puro e total. O beijo desperta e faz renascer. A
heroína é frequentemente a mais nova (e por isso a mais pura e inocente) e
afirma-se por oposição às irmãs mais velhas e mesmo aos pais. O herói quase
sempre tem que enfrentar uma série de provas antes de alcançar o objecto -
símbolo do amadurecimento que fará dele um homem. Outras vezes sai da casa
paterna em busca da autonomia.

in Aprender Português • Dezembro 1999 (adaptado)

NARRATIVA
Comunicação literária

O que faz do homem aquilo que ele é, um ser distinto de todos os demais seres
vivos, é a linguagem, a capacidade de comunicar com os outros homens, partilhando
com eles todo o tipo de informação. Pela linguagem o homem é capaz não apenas de
comunicar (transmitir e receber informações), mas também, e principalmente, de
recolher e tratar dados, elaborando a informação que transmite. Em suma, graças à
linguagem, o homem é capaz de pensar e de comunicar. Pensamento e linguagem estão,
portanto, indissoluvelmente ligados. Podemos dizer que não há pensamento sem
linguagem, nem linguagem sem pensamento,
A Literatura é uma forma particular de comunicação, provavelmente tão antiga
como o homem. Também aqui encontramos um emissor (autor) e um receptor (leitor) e
uma mensagem (a obra literária), que circula de um para o outro.

Autor Texto literário Leitor

Ao distinguirmos uma variedade específica de comunicação – comunicação literária –


caracterizada por uma mensagem diferenciada, estamos implicitamente a estabelecer
uma oposição entre o texto não literário e o texto literário. Vejamos então de forma
sintética quais são esses traços distintivos.
Texto não literário Texto literário

• Linguagem denotativa • Linguagem conotativa


• Tendência para a objectividade • Tendência para a subjectividade
• Predomínio da função informativa • Predomínio da função poética
• Significante como suporte do significado • Significante assume valor expressivo
• Respeito pela norma linguística • Desvio relativamente à norma
• Finalidade utilitária • Finalidade estética
• Relação de correspondência com o real • Relação de verosimilhança com o real

Géneros literários

Dissemos atrás que a literatura, entendida como a busca do prazer estético


através da linguagem, é tão antiga como o homem. É uma afirmação arriscada, porque
não existem documentos que a comprovem. Dado que a invenção da escrita é
relativamente recente na história da humanidade, os registos literários mais antigos têm
escassos milhares de anos. Mas sabemos todos que a linguagem oral precede a escrita e,
por isso, não corremos o risco de errar ao afirmarmos que antes de as primeiras
narrativas serem registadas pela escrita já existiam contos que os mais velhos
transmitiam aos mais novos; antes de a poesia circular em cancioneiros já existiam
canções; antes de Ésquilo e Aristófanes escreverem as suas tragédias e comédias já
havia certamente representações por ocasião das festividades.
Tradicionalmente distinguem-se três géneros literários: o lírico, o narrativo e o
dramático. Os seus traços distintivos podem ser apresentados da seguinte forma:

Expressão do mundo interior Expressão do mundo exterior


(emoções, sentimentos, estados de alma) (acontecimentos, envolvendo personagens)

Carácter estático Carácter dinâmico


(suspensão do fluir do tempo) (os acontecimentos sucedem-se no decorrer do tempo)

Acontecimentos narrados Acontecimentos vividos


Género lírico
Género narrativo Género dramático

As formas narrativas mais frequentes são o romance, a novela e o conto. De


forma algo simplista podemos dizer que do romance para o conto há uma progressiva
redução na complexidade da acção, no número de personagens, na diversidade de
espaços e na duração temporal.
Menos frequente, a epopeia é uma narração, geralmente em verso, de
acontecimentos grandiosos com interesse universal ou nacional (p. ex. Os Lusíadas).

Categorias da narrativa

A narrativa, como qualquer outro texto literário, obedece ao esquema


apresentado atrás: pressupõe sempre a existência de um emissor (autor) e de receptores
(leitores), enquanto o texto narrativo é a mensagem.
Mas a narração é também ela um acto comunicativo. Encontramos aí um emissor
(designado narrador), receptores (os narratários), uma mensagem (o discurso narrativo
que recria a história). Essa história recriada pelo discurso do narrador contempla uma
acção, envolvendo personagens e decorrendo em certos espaços e ao longo de um certo
período de tempo. Narrador, narratário, acção, personagens, espaço e tempo são as
chamadas categorias da narrativa.
Portanto no género narrativo encontramos de facto dois actos comunicativos,
estando um encaixado no outro. É o que se pretende mostrar com o seguinte esquema:

Narrativa

Autor Narrador Discurso Narratário Leitor

Obs.: O traço cheio representa o acto comunicativo real, pelo qual um autor produz uma obra literária
destinada a ser lida pelos leitores, enquanto as linhas tracejadas representam o acto comunicativo virtual
que é a narração.

Analisemos mais pormenorizadamente cada uma dessas categorias.

Narrador

É a entidade responsável pelo discurso narrativo, através do qual uma "história"


é contada. O narrador nunca se identifica com o autor: este é um ser real, enquanto
aquele é um ser de ficção, uma "personagem de papel" que só existe na narrativa. Pode
ser exterior à "história" que narra ou identificar-se com uma das personagens
(presença) e só pode contar aquilo de que teve conhecimento (ciência).

Presença
NARRADOR PARTICIPANTE
Autodiegético O narrador identifica-se com a personagem
principal. A narração é feita na 1ª pessoa
Homodiegético O narrador identifica-se com uma personagem
secundária. A narração é feita na 1ª pessoa.
NARRADOR NÃO PARTICIPANTE
Heterodiegético O narrador é totalmente alheio aos acontecimentos
que narra. A narração é feita na 3ª pessoa.

Ciência (ponto de vista)


Focalização omnisciente O narrador revela um conhecimento absoluto, quer dos
acontecimentos, quer das motivações. É capaz de penetrar no
íntimo das personagens, revelando os seus pensamentos e as
suas emoções.
Focalização externa O narrador é um mero observador, exterior aos acontecimentos.
Narra aquilo que pode apreender através dos sentidos: descreve
os espaços, narra os acontecimentos, mas não penetra no
interior das personagens.
Focalização interna O narrador é também um observador: narra aquilo que vê e
ouve. Este tipo de focalização distingue-se da "focalização
externa", porque o narrador adopta o ponto de vista de uma
personagem, narrando os acontecimentos tal como eles são
vistos por essa personagem.
Narratário

Enquanto a existência do narrador é evidente, a do narratário é menos visível. É


que o narrador revela sempre a sua presença, através do discurso que elabora (se existe
uma narração, ela é da responsabilidade de alguém), enquanto o narratário pode ser
explicitamente identificado pelo narrador, ou, o que é mais frequente, ter apenas uma
existência implícita. Normalmente, não encontramos ao longo do discurso do narrador
nenhuma referência ao destinatário do discurso (narratário), o que leva a que a sua
existência seja frequentemente ignorada. Mas na realidade existe sempre um narratário,
cuja existência é exigida pela própria existència do narrador, já que quem narra narra
para alguém. O narratário nunca se confunde com o leitor/ouvinte.

Acção

Por acção, entendemos o conjunto de acontecimentos que se desenrolam em


determinados espaços e ao longo de um período de tempo mais ou menos extenso.
Acção principal – É constituída pelo conjunto das sequências narrativas que
assumem maior relevo.
Acção secundária – É constituída por sequências narrativas consideradas
marginais, relativamente à acção principal, embora geralmente se articulem com ela.
Permitem caracterizar melhor os contextos sociais, culturais, ideológicos em que a
acção se insere.
Sendo a acção um conjunto de sequências narrativas, existem vários
possibilidades de articulação dessas sequências.

Encadeamento – As sequências sucedem-se segundo a ordem cronológica dos


acontecimentos:

S1 S2 S3 S4 S5 S6 Sn

Encaixe – Uma acção é introduzida no meio de outra, cuja narração é


interrompida, para ser retomada mais tarde:

A B A

Alternância – Duas ou mais acções vão sendo narradas alternadamente:

A B A B A

Personagens

As personagens suportam a acção, visto que é através delas que a acção se


concretiza. Elas vão adquirindo "forma" à medida que a narração evolui, num processo
designado por caracterização.
Caracterização directa – Os traços físicos e/ou psicológicos da personagem são
fornecidos explicitamente, quer pela própria personagem (autocaracterização), quer pelo
narrador ou por outras personagens (heterocaracterização).
Caracterização indirecta – Os traços característicos da personagem são
deduzidos a partir das suas atitudes e comportamentos. É observando as personagens em
acção que o leitor constrói o seu retrato físico e psicológico.

Relevo
Assume um papel central no desenrolar da acção e por
Personagem principal ou protagonista
isso ocupa maior espaço textual.
Participa na acção, sem no entanto desempenhar um papel
Personagem secundária
decisivo.
Não tem qualquer participação no desenrolar da acção,
Figurante cabendo-lhe apenas ajudar a compor um ambiente ou
espaço social.

Composição
É dinâmica; possui densidade psicológica, vida interior, e por
Personagem redonda ou modelada
isso surpreende o leitor pelo seu comportamento.
É estática; caracteriza-se por possuir um conjunto limitado de
traços que se mantêm inalterados ao longo da narração.
Personagem plana ou desenhada Frequentemente assume a forma de personagem-tipo, na
medida em que representa determinado grupo social ou
profissional.
Representa um conjunto de indivíduos, que age como se fosse
Personagem colectiva
movido por uma vontade única.

Funções (estrutura actancial)

destinador objecto destinatério

adjuvante sujeito oponente

Destinador Entidade ou força superior que permite (ou não) ao sujeito alcançar o objecto.
Personagem ou entidade sobre quem recaem os benefícios ou malefícios da
Destinatário
decisão do destinador.
Sujeito Personagem ou entidade que procura alcançar determinado objecto.
Objecto Personagem, entidade ou aquilo que o sujeito procura alcançar.
Adjuvante Personagem ou entidade que ajuda o sujeito a alcançar o objecto.
Oponente Personagem ou entidade que dificulta a obtenção do objecto por parte do sujeito.

Espaço

Espaço físico È o espaço real, exterior ou interior, onde as personagens se movem.


Designa o ambiente social em que as personagens se integram. A
Espaço social caracterização deste espaço é feita principalmente pelo recurso aos
figurantes.
É o espaço interior da personagem, o conjunto das suas vivências, emoções
Espaço psicológico
e pensamentos.
Tempo
Aquele ao longo do qual decorrem os acontecimentos
Tempo da história ou cronológico
narrados.
Resulta do modo como o narrador encara o tempo da história.
O narrador pode respeitar a ordem cronológica ou alterar essa
ordem, recuando no tempo (analepse) ou antecipando
Tempo do discurso acontecimentos futuros (prolepse). Pode ainda narrar ao ritmo
dos acontecimentos, recorrendo ao diálogo (isocronia), fazer
uma narração abreviada (resumo ou sumário), ou até omitir
alguns acontecimentos (elipse)
É de natureza subjectiva; designa o modo como a personagem
Tempo psicológico
sente o fluir do tempo.

GUIÃO PARA PRODUÇÃO DE TEXTO NARRATIVO


(conto)

Narrar é contar um facto ou acontecimento de modo a captar a atenção do leitor.


É indispensável que exista uma acção, protagonizada por personagens que se
movem no espaço e no tempo. O narrador pode participar ou não na história que
narra.
Não esqueça que a capacidade de uma narrativa prender o leitor depende de
factores como:
• a habilidade na criação do interesse, da curiosidade
• um bom começo
• vivacidade da narração
• vivacidade das personagens e dos seus diálogos
• um bom final (inesperado…)
• equilíbrio dos elementos
• verosimilhança.

Sempre que quiser produzir um texto narrativo, deverá proceder de forma faseada,
tomando opções que orientarão o processo de escrita.
Assim, propõe-se a adopção da seguinte metodologia de trabalho:

 FASE A
1. Definição de um tema-título (intriga de acção, de espaço, de personagem,…).
2. Proposta das linhas gerais da história baseada nesse tema-título.
3. Construção da intriga e dos seus pontos-chave, seguindo a lógica apresentada:
a) uma situação inicial;
b) um factor de desequilíbrio;
c) um ponto culminante na intriga;
d) um desenlace que retoma nova situação de equilíbrio.
4. Localização da acção no espaço e no tempo, que podem ser
descritos/caracterizados, de acordo com a sua importância na história.
5. Concepção e caracterização das personagens (personagens principais e
secundárias; personagens planas, redondas; traços físicos e psicológicos).
6. Determinação das relações a estabelecer entre as personagens (coadjuvantes,
oponentes).
7. Orientação da narrativa segundo momentos narrativos, descritivos, dialogais e,
eventualmente, com situações de monólogo.
8. Opção por um tipo de narrador (presente/ausente no discurso; com/sem relação
explícita com o narratário; participante/não participante; crítico/não crítico
relativamente ao que vai narrando).
9. Recurso a estratégias de linguagem relacionadas com a adequação do registo de
língua, utilização correcta dos tempos verbais (Pretérito Imperfeito, Pretérito
Perfeito, Pretérito Mais-Que-Perfeito, Condicional), articuladores (temporais,
adversativos, causais, consecutivos…) e recursos estilísticos.

 FASE B
1. Segmentação do texto em parágrafos, segundo a lógica de progressão textual
adoptada na fase anterior (distribuição do ponto 3 por parágrafos).
2. Textualização de acordo com as opções tomadas, atendendo
a) à coerência lógica das acções;
b) à coesão da escrita;
c) às especificidades dos diferentes modos de expressão;
d) à correcção linguística (ortografia, acentuação, pontuação,
morfossintaxe
e) selecção vocabular

 FASE C
1. Revisão do texto, atentando
a) à organização esquematizada (lógica das acções narradas, segmentação
por parágrafos);
b) à correcção linguística do texto.

O esquema que a seguir se apresenta permite visualizar, de forma simples, a construção


da intriga:

Divisões Narrador Etapas de Personagens Leitor


construção
Identidade
Intenções
Mentalmente
Local (morada,
cria
trabalho,
Expõe imagina
ambições,
Situação Introduz descobre
Estado inicial passatempos,
inicial (elementos informa-se
viagens …)
novos) (fase decisiva
Tempo (manhã,
para a
tarde, noite,
continuação
semana, mês,
da leitura)
ano…, tempo
indefinido)
Desenrolar Apresenta Desequilíbrio Modificação do Mentalmente:
das acções desequilíbrios do estado estado inicial por: actua
e caminha inicial a) fuga, morte, participa
para um rapto, acidente, envolve-se
ponto tempestade,
culminante viagem,
desaparecimento…
b) dádiva,
herança,
achado, fortuna,
descoberta,
destino…
Reparação dos
Busca de um
males em a)
novo
Desenvolvimento
equilíbrio
das potencialidades
em b)
Acesso à
(re)solução:
Reequilíbrio
castigo
ou recompensa
Estado final Diferentes estados,
Retoma uma Prazer ou
ou sentimentos,
Desenlace nova situação desilusão
perspectivação antecipação do
de equilíbrio
do futuro futuro

GUIÃO PARA PRODUÇÃO DE TEXTO DESCRITIVO


(momentos)
Descrever é um processo no qual se empregam os sentidos para captar uma
realidade e transportá-la para o texto.
Descrever é, assim, pintar com palavras, mostrar aos leitores ou ouvintes, através
de palavras, como é uma pessoa, um ambiente, um objecto ou, até mesmo, um
sentimento ou emoção.
Aquando da produção de um texto descritivo, seja enquanto sequência que
compõe um outro tipo de texto seja enquanto dominante textual, propõe-se a adopção da
seguinte metodologia de trabalho:

 FASE A
1. Definição do tema-título que vai ser descrito (normalmente associado a espaços,
paisagens, períodos temporais, retratos, imagens, produtos resultantes de uma
sucessão de acções, comparações).
2. Adopção de uma perspectiva ou ponto de vista face à descrição a fazer: subjectiva
(reflectindo o ponto de vista do emissor)/objectiva (transmitindo informação
factualmente comprovável).
3. Observação - sem observação não há descrição; é preciso confrontar a realidade
a descrever com a que se encontra no papel. A observação implica os cinco sentidos
(vista, ouvido, olfacto, gosto e tacto). Observados os pormenores, seleccionam-
se aqueles que melhor caracterizam a realidade a descrever.
4. Esquematização do plano da descrição pela:
a) enumeração das partes constitutivas do tema-título;
b) associação de características/propriedades a cada uma dessas partes;
c) definição de campos de descrição/observação: sectores (direita,
esquerda, superior, inferior…); planos (primeiro, segundo…, de
fundo);
d) construção de relações adequadas à expansão descritiva
(comparações,
metáforas, metonímias, relações de palavras, estruturas modificadores);
e) escolha do ponto e da ordenação da descrição/observação (estático/
dinâmico; geral/de pormenor).

 FASE B
1. Elaboração de um primeiro registo escrito que dê conta:
a) de uma ordenação no processo de descrição;
b) de uma impressão de conjunto da realidade a descrever;
c) da descrição pormenorizada das partes e das características mais
individualizantes (formas, matéria, cheiro, sons, cor, brilho, etc.), tendo
em atenção o recurso a:
 estruturas nominais;
 estruturas adjectivas ou outras equivalentes na função de
expansão e modificação da entidade a ser descrita;
 processos estilísticos sugestivos para a descrição (recurso a
comparações,
 metáforas, adjectivação, sinestesias…);
d) de uma conclusão que utiliza outros dados considerados relevantes
ou que corresponde a uma apreciação final de conjunto face à entidade
descrita;
e) da natureza factual da entidade descrita (predominando o tempo
verbal do presente) ou da dimensão ficcional dessa entidade
(predominando o pretérito imperfeito).

 FASE C
Revisão do texto, atentando:
a) à organização esquematizada (ordenação da descrição, segmentação
por parágrafos);
b) à correcção linguística do texto.

 ALGUNS CONSELHOS PRÁTICOS


1) Não é aconselhável apresentar todos os pormenores acumulados num
único período.
2) Deve-se, ao contrário, apresentá-los ao leitor pouco a pouco, verificando
as partes focalizadas, associando-as ou interligando-as.
3) Na descrição de uma pessoa, por exemplo, podemos começar uma visão
geral e depois, aproximando-se dela, passar aos pormenores: os olhos, o
nariz, a boca, o sorriso, o que esse sorriso revela (inquietação, ironia,
desprezo, desespero...), etc.
4) Na descrição de objectos, é importante que, além da imagem visual
(cores, formas…), sejam transmitidas ao leitor outras referências
sensoriais, como as tácteis (o objecto é liso ou áspero?), as auditivas (o
som emitido pelo objecto), as olfactivas.
5) A descrição de paisagens ou de ambientes também não deve limitar-se a
uma visão geral. É preciso ressaltar os pormenores, o que não depende
apenas da visão. Certamente, numa paisagem ou num ambiente haverá
ruídos, sensações térmicas, cheiros, que deverão ser transmitidos ao
leitor, evitando que a descrição se transforme numa fotografia fria e
pouco expressiva. Também poderão integrar a cena pessoas, vultos,
animais ou objectos, que lhe dão vida. É, portanto, fundamental destacar
esses elementos.
GUIÃO DE VERIFICAÇÃO
Para verificar até que ponto o seu trabalho respeita o que é esperado na produção
de um texto narrativo, propõe-se que, no final, avalie o percurso seguido e os
processos utilizados.

GUIÃO DE VERIFICAÇÃO NA
SIM NÃO
PRODUÇÃO DE UM TEXTO NARRATIVO
Antes de redigir o texto
• Defini o tema-título
• Esquematizei as linhas gerais da acção imaginada
• Situei a acção num determinado espaço e tempo
• Imaginei uma situação inicial marcada pelo equilíbrio
• Inventei um acontecimento perturbador do equilíbrio
inicial
• Propus um conjunto de peripécias retardadoras do
desenlace
• Construí um momento auge para o conflito
• Determinei a situação final – o desenlace
• Concebi as personagens,
a) atribuindo-lhes um determinado relevo na história
b) segundo um determinado tipo de comportamento
c) estabelecendo relações entre elas
• Construí um esquema organizador do texto
Ao redigi-lo
• Apoiei-me nas opções e no plano concebido
• Construí uma introdução
a) com a indicação da situação inicial da história .
b) com a opção por uma determinada perspectiva de
narrador .
• Produzi o desenvolvimento
a) em função da lógica narrativa concebida
b) tendo em conta um fio condutor claro e coerente
c) atendendo às características das personagens e às
relações que para elas estabeleci .
d) não esquecendo os momentos-chave que predefini
e) seguindo uma sequência temporal e espacial
• Fechei o texto com um desenlace adequado
• Preocupei-me com a adequação
a) do registo de língua
b) dos tempos verbais
c) dos articuladores
d) dos recursos estilísticos utilizados
• Respeitei as especificidades dos diferentes modos de
expressão (narração, descrição, diálogo, monólogo)
No final da produção escrita
• Verifiquei a disposição lógica do texto
• Atentei na correcção linguística
a) da ortografia
b) da pontuação
c) da acentuação
d) da sintaxe
e) da selecção vocabular
FIG.1

TEXTO NARRATIVO

Uma narrativa é um texto que conta um


acontecimento; nele se articulam de modo
equilibrado momentos de avanço
(NARRAÇÃO) e momentos de pausa
(DESCRIÇÃO). Estrutura habitual:

 INTRODUÇÃO – momento de pausa


que ou apresenta a situação, ou faz a
localização espacio-temporal, ou FIG.2
descreve as personagens.

DESENVOLVIMENTO – momento de
avanço que conta a acção propriamente
dita; partindo de um equilíbrio, gera-se
um desequilíbrio que se continua por
uma reacção das personagens que
encontram uma solução.

CONCLUSÃO – momento de pausa


que relata o equilíbrio restabelecido ou FIG.3
comenta a situação.

Esta estrutura corresponde à narrativa


fechada mas pode haver narrativa aberta
na qual a acção não fica concluída.

CARACTERÍSTICAS DA
NARRAÇÃO:

predomínio do pretérito perfeito (ou


presente histórico)
importância das categorias gramaticais
– verbo, advérbio, nome, conjunções.
FIG.4
existência de um narrador.
existência de informantes – expressões
que servem para enraizar a ficção no
real, situando num espaço e tempo
precisos.
Existência de indícios – elementos que
dão uma pista para o desenvolvimento
da acção.
DESCRIÇÃO DO CENÁRIO

A descrição é um momento de pausa na narração,


pois interrompe-se a acção.. É um momento
importante visto elucidar o leitor sobre o ambiente
(cenário). O que caracteriza e enriquece uma
descrição:
• Predomínio do pretérito imperfeito
(estática)
• Preocupação com a concretização de
vários planos observados
• Riqueza de sensações a transmitir
• Riqueza linguística – expressividade de
verbos e advérbios; comparações,
metáforas, enumerações, animismos que
contrariam o estatismo do texto,
adjectivação rica.
DESCRIÇÃO DAS PERSONAGENS - O RETRATO

Há que pensar sempre em dois aspectos do retrato:


o físico e o psicológico, devendo fazer-se uma
interligação de ambos, através da qual, por
exemplo os aspectos físicos deixem adivinhar os
psicológicos.
Para o retrato físico, proceder como para uma
descrição:
• Predomínio do pretérito imperfeito
(estática)
• Preocupação com a concretização de
vários planos observados
• Riqueza de sensações a transmitir
• Riqueza linguística