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Índice
Mensagem na Garrafa
Eliana Ruiz Jimenez
Tração Humana .......................................................... 3
Chuvisco Biográfico ................................................... 4
Chuva de Versos ................................................................ 5
Poeta Homenageada:
Olga Savary............................................................... 5-12
Chuvisco Biográfico ....................................................... 12
Trovadora Homenageada:
Jesy Barbosa ............................................................... 14
Chuvisco Biográfico ....................................................... 17
Jean de La Fontaine
O Carvalho e o Caniço .................................................. 17
Chuvisco Biográfico ....................................................... 18
Folclore Indígena Brasileiro
Maire-Monan e os Três Dilúvios .................................... 19
Laé de Souza
Esmeraldo, o Garçom.................................................... 22
Chuvisco Biográfico ....................................................... 23

Antonio Brás Constante
Zero à Esquerda ou Fora de Série? .............................. 24
Um Dedão de Prosa com o Escritor Antonio
Brás Constante............................................................... 25
Deonísio da Silva
Expressões e suas Origens Parte IV ......................................................................... 31
Chuvisco Biográfico ....................................................... 37
Kathryn VanSpanckeren
Panorama da Literatura dos Estados Unidos
Parte II ........................................................................... 37
Alba Krishna Topan Feldman
A Identidade da Mulher Indígena na Escrita de
Zitkala-Ša e Eliane Potiguara ....................................... 47
Chuvisco Biográfico ....................................................... 56
Estante de Livros
José Saramago
Memorial do Convento.............................................. 56
Chuvisco Biográfico .................................................. 64
Errata do número anterior ............................................... 64

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Eliana Ruiz
Jimenez
Tração Humana
Sábado, 8h de uma manhã de inverno. Dirigia
devagar sem familiaridade com as ruas daquele bairro
distante. Numa colina logo à frente reduzi a velocidade
ao ver uma carroça de duas rodas amontoada com
toda sorte de materiais recicláveis, reaproveitáveis ou
nem tanto. Pilhas de papelão, teclados de computador,
monitores antigos, embalagens plásticas, vidros e até
uma cadeira de três pés.
A carroça vencia a subida metro a metro
penosamente e não havia espaço para ultrapassagem.
Atrás de mim o motorista de um carro de luxo
começou a buzinar incessantemente. Pelo retrovisor
observei que fazia gestos obscenos e depois começou a
bater ensandecido com as duas mãos no volante num
acesso de fúria.
Tentou por duas vezes me ultrapassar de maneira
perigosa, mas acabou demovido do intento pelo fluxo
de carros em sentido contrário.
Sem pressa e somente quando tive segurança,
ultrapassei a carroça. Observei o homem que a
arrastava: idoso, com longa barba branca, vestindo
uma roupa surrada e descalço. Confesso que se tal

carga fosse conduzida por um cavalo, já me traria
comoção pelos maus-tratos ao animal, mas era muito
pior. Uma carroça de despojos de toda sorte conduzida
por tração humana, na verdade tração desumana.
Assim que terminei a ultrapassagem, o carro de
luxo já passou por mim e mais uma vez acionou a
buzina registrando o seu protesto por ter sido retido
em seu trajeto.
Trocamos olhares durante os segundos em que
nossos carros ficaram emparelhados. Tinha o
semblante enfurecido e balbuciou um xingamento na
minha direção, daqueles fáceis de entender por leitura
labial. Seguiu o homem do carro de luxo cantando
pneus, indiferente ao padecimento alheio.
Observei mais uma vez o carroceiro. Um pobre
coitado que carregava o peso do descaso de uma
sociedade desigual. Um homem sem chances, sem
dignidade, em estado de miséria, cuja visibilidade
passa a existir somente no momento em que atrapalha
o fluxo de trânsito.
Acabei por me sentir mal em também passar por
aquele homem sem dar-lhe nenhum conforto além de
uma solidariedade em pensamento, que de nada lhe
adiantaria.
As pessoas estão preocupadas apenas com a
própria vida, no máximo com a própria genética,
cuidando dos seus familiares sem se imaginarem como
componentes de uma família única e universal de seres
humanos com as mesmas necessidades e os mesmos
anseios.

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Membro da Academia de Letras de Balneário Camboriú e União Brasileira dos Trovadores. antigas. Crônica selecionada para antologia no Prêmio SESC de Literatura: Crônicas Rubem Braga –Brasília/DF – 2013. espalhar atitudes fraternas. Presidente da Comissão de Meio Ambiente e Urbanismo da OAB e secretária do Conselho Municipal de Meio Ambiente de Balneário Camboriú/SC. contos. Eliana Ruiz Jimenez. recém- nascidas. Ligada a entidades de proteção ao meio ambiente. bem tratadas. engajadas na busca de um novo tempo de trabalhos dignos. e reside em Balneário Camboriú desde 2001. sonhei com um mundo de mãos justapostas. mas que fossem mãos enlaçadas.A indiferença precisa ser combatida. trovas. Olhar o outro como o próximo. calejadas. Escritora de crônicas. 4 . haicais e literatura infantojuvenil. Tem formação em Letras e em Direito. iguais e diferentes. poemas livres. coloridas. Capital. opções ou religiões é o caminho que leva ao bem comum. atenuar fronteiras. nasceu em São Paulo. não separar as pessoas por crenças. No meu trajeto naquela manhã fria. pés calçados e sofrimentos apaziguados.

um torrão de sal na anca roubam para a pele o calor de animais simples e vorazes. Uma Trova Humorística de Curitiba/PR Vanda Fagundes Queiroz Menina linda “essa fada” – diz o moço… e vejam só – surpresa ela diz. Olga Savary MAPA DE ESPERANÇA Vinha pisando sobre toda a praia. nos momentos de descanso. pele de mel.Uma Trova de Maringá/PR Dari Pereira Mesmo tachado de antigo. sem barulho. vem à tona um triste fato: a saudade é um pedregulho que não sai do meu sapato! PELE Um Poema de Belém/PA Um Poema de Belém/PA Um favo de mel na boca. pele de água. a saudade cochilar na cadeira de balanço!… pele de asno. soltos como numa catedral. zangada: – Mais safada é a sua vó! Uma Trova de Mogi-Guaçu/SP Olivaldo Júnior Olga Savary Vou andando e. Uma Trova de Juiz de Fora/MG Arlindo Tadeu Hagen Eu quase posso notar. ainda espalho esperança ao mundo sincero e amigo do coração da criança. o sangue quieto — ou quase quieto —. os pensamentos leves como espumas 5 .

! ¡Cuando la paz sola anida en tu alma. a areia grossa de Amaralina. bota tudo no lugar! 6 . minha bandeira. Uma Trova Hispânica da Argentina Margarita Dimartino de Paoli ¡No hay mejor CAMBIO en la vida que el que vos quieras sentir. de vez em quando. sete rosas na ponta de um alfinete. podrás existir. em Goiás Velho urdir a tarde com Bernardo Elis e Cora Coralina. farejar cheiro de candeia por toda Ouro Preto. queria estar pisando a areia fina de Arraial do Cabo. Ainda assim. Uma Quadra Popular Autor Anônimo Sete cravos.. alegria.. Trágica como princesa de elegia. te festejo.. Uma Trova de São Paulo/SP Selma Patti Spinelli Com a bagunça rolando. mas estou presa à molduras de todos os meus retratos. meu estandarte é o desespero... Meu benzinho está no meio servindo de ramalhete. ao dizer-te quanto a saudade me consome. indecisão. sem ter mais o que falar.e os cabelos soltos como nuvens. Trovadores que deixaram Saudades Carlos da Silva Guimarães Júnior Rio de Janeiro/RJ (1915 – 1997) Na carta..! Um Poema de Belém/PA Olga Savary LIMITE Ausente e lassa. chilique. as reticências do pranto quase apagaram meu nome...

perdido o amor. Só sabes que teu rosto não mudou mas em turvo mudou-se o transparente riso de antes. Uma Trova de São Paulo/SP Héron Patrício A alvorada. mais. em grande gala. no fundo de um espelho. tece a rica fantasia que faz do Sol. Viraste uma mulher que acordada e de frente vê um sonho mau se sonho e distante já nem sente e que já não amando é como se amasse e. Assim tão exata sem se assemelhar a nada sendo vária e vaga. Uma Trova de Fortaleza/CE Nazareth Serra Quando a saudade é tamanha 7 . não como é visto sol a pino ou através da água. como quem vê dentro do mar ou através de um vidro fosco. Um Poema de Belém/PA Olga Savary OUTRA CENA Sentada estavas quando ele entrou seguido de uma princesa ou uma serpente. clara. pesados os gestos. exata. é como se o tecesse.Um Poema de Belém/PA Um Haicai de Belém/PA Olga Savary Olga Savary UMA CENA PAZ Vês acordada como em sonho o sonho mau tal fosse belo — o belo horror do real que nem consciência nítida ou lúcida. não o que mostra a imagem mas aquele que a deforma inteiro fora de foco. mestre-sala na passarela do dia.

eu. a dor. que de saudade o devora. em tudo presença. Associação Estadual de Poetas Populares-RN em 2010 com o Tema: IMPROVISO: 8 . a tristeza me acompanha mas a oração me conforta. teu adeus é o sobrepreço do preço que um erro cobra. canta um verso de improviso. tu. Prof. tu. felicidade do corpo embasado em brasa. Uma Setilha de Caicó/RN Um Poema de Belém/PA Olga Savary NOME Tu.que minh'alma não suporta. Garcia Quando a tarde se despede. depois de saudade chora! 1º lugar no II Concurso da AEPP. que nem nome tenho. em dor se desdobra. veneno curare — e eu é que me chamo naja? Uma Aldravia de Juiz de Fora/MG Cecy Barbosa Campos Luar indiscreto banhando meu corpo despido Uma Trova de São Paulo/SP Darly O. eu. jamais nua de água. sequer lembrança.. vibrar de asa. mero eco na sala. um poeta canta um hino. diz adeus e vai embora. tristonho.. finge um sorriso. Barros Nem o remorso amorteço.

aumentando a tensão. ___________ O título “Retrato em Branco e Preto” surgiu com a letra dramática de Chico Buarque. treze são absolutamente iguais. Tom Jobim sabia como ninguém partir de uma célula simples e enriquece-la ao máximo. Mais uma vez. Ritmicamente dos dezesseis compassos de “Retrato em Branco e Preto”. Fonte: Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello. A Canção no Tempo. o que é muito bem aproveitado no poema do Chico. com harmonizações diferentes. O intervalo inicial da canção. Os três primeiros compassos. Tom Jobim oferece uma lição de economia e inteligência. 9 . que trata de um amor desesperado. Tais observações podem à primeira vista. o bicho-papão metendo medo em quem anda acordado inda a essas horas. Um Haicai de Bauru/SP Em outro lugar cisma outra criança.Um Poema de Belém/PA Olga Savary MÃOS ESTENDIDAS Nessa direção da janela aberta vem o Murundu. a dramaticidade. levar à conclusão de que a canção é repetitiva e até pobre quando na realidade é exatamente o oposto. mas. Triste é não poder ter um outro voo que não o poético da imaginação para a consolar. E assim ficamos entre o querer estendendo as mãos e deixando-as cair. um tratado sobre o que é possível fazer com um intervalo de duas notas. v. 2. formados por oito colcheias. uma segunda menor. mi e dó natural — são idênticos. vai sendo ampliado e explorado de várias maneiras à medida que a melodia avança. criados sobre uma melodia de quatro notas vizinhas ré. dó sustenido.

minha cara Ainda volto a lhe escrever Pra lhe dizer que isso é pecado Eu trago o peito tão marcado De lembranças do passado E você sabe a razão Vou colecionar mais um soneto Outro retrato em branco e preto A maltratar meu coração Vou colecionar mais um soneto Outro retrato em branco e preto A maltratar meu coração Já conheço os passos dessa estrada Sei que não vai dar em nada Seus segredos sei de cor Já conheço as pedras do caminho E sei também que ali sozinho Eu vou ficar. noites claras Versos. tanto pior Gilson Faustino Maia O que é que eu posso contra o encanto Desse amor que eu nego tanto Não sonhei quando dormia. que voz de prata te embala toda desfolhada? Tendo como um só adorno o anel de seus vestidos ela própria é quem se encanta numa canção de acalanto presa ainda na garganta. afogada. Recordando Velhas Canções Retrato em branco e preto (1968) Chico Buarque e Tom Jobim Evito tanto E que no entanto Volta sempre a enfeitiçar Com seus mesmos tristes velhos fatos Que num álbum de retrato Eu teimo em colecionar Lá vou eu de novo como um tolo Procurar o desconsolo Que cansei de conhecer Novos dias tristes. cartas. sempre sonhei acordado.Um Poema de Belém/PA Olga Savary ÁGUA ÁGUA Menina sublunar. Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ 10 .

faltam chaves.Quando o seu barco partia. naquela escolhida. Para o incerto amanhã dos tempos novos. Padre Max. Daqui dou o viver já por vivido. Quero estar quieta. que acendeste Nestas plagas a primeira luz Te lembramos. Tuas asas seguem as estações. Hinos de Cidades Brasileiras Cerro Largo/RS Quando o século vinte amanhecia. Um Haicai de Curitiba/PR José Marins tempo rigoroso – meu maior tesouro estas velhas ceroulas Uma Trova de São Paulo/SP Alba Christina Campos Netto Se abro as páginas da vida buscando instantes risonhos. igual a uma cobra de cabeça chata. É tua a curvatura da terra. ficar sentada sobre os meus joelhos como alguém coagulado em outra margem. Um Poema de Belém/PA Um Poema de Belém/PA Olga Savary Olga Savary SEXTILHA CAMONIANA PÁSSARO A noite não é tua mas nos dias —curtos demais para o vôo — amadureces como um fruto. hoje e sempre Operário da enxada e da cruz. flor da audácia Flor do trabalho. sempre. 11 . metáfora de poeta. Serro Azul nascia. Flor do tempo. sonhava estar ao seu lado. Pássaro. sobram sonhos Daqui dou o viver já por vivido. sozinha agora. hoje e sempre Operário da enxada e da cruz Te lembramos. Sob o chão imortal dos Sete Povos.

Cerro Largo. dores. Chorando a saudade do Reno. indo morar com parentes e estudando. de longe. Serro Azul. Sua mãe. Glória viva plantada no Sul. saudade… Disso esqueça por momentos. Nesse tempo ela começa a escrever e a guardar seus escritos em um caderninho preto. Olga volta a Belém. Fortaleza e no Rio de Janeiro. no início. onde fixa moradia em Fortaleza. aos 16 anos. aqui. e pense em felicidade! Um Poema de Belém/PA Olga Savary CERNE Nada a ver com a fonte mas com a sede Nada a ver com o repasto mas com a fome Nada a ver com o plantio mas com a semente Olga Savary nasceu em Belém do Pará. Contudo. coisa que Olga detestava. transmitidos por sua família materna.desistindo por achar que ainda estaria muito perto da mãe. recriminava a vocação da filha. e ela vai para o Rio de Janeiro onde passa a morar com um irmão de sua mãe. filha única do engenheiro eletricista russo Bruno Savary e da paraense Célia Nobre de Almeida. incentivada por um vizinho. teve a vida dividida entre Belém e Monte Alegre. em 1933. onde começa a alavancar sua carreira de escritora. Até os três anos de idade. que sempre era deixado com o bibliotecário da ABI para que sua mãe não o destruísse. Posteriormente decide voltar para o Rio. Em 1942 os pais de Olga se separam. Sua convivência com a mãe tornar-se-á difícil ao ponto de a escritora. Cerro Largo.Era o sangue do imigrante. por motivo de trabalho. Serro Azul. absorveu fortemente os elementos da cultura da terra onde nasceu. Seja sempre azul teu destino. pensar em ir morar com o pai . cidade de seus avós maternos. 12 . sendo remunerada por isso. no interior do Pará. Uma Trova de Curitiba/PR Adélia Maria Woellner Claro que existem tormentos. Como teu nome de batismo. leva a família para o Nordeste. pois queria que ela se dedicasse à música. Nos remansos do Rio Ijui. aos 18 anos. angústias. Que chegava. Olga estudou em Belém. Como teu nome de batismo. Chorando a saudade do Reno. Aos onze anos passa a redigir um jornalzinho. Seja sempre azul teu destino. começando a desenvolver suas habilidades literárias. Em 1936 seu pai. Nos remansos do Rio Ijui. Na infância. para quem escrevia.

como Borges. Traduziu mais de 40 obras de mestres hispano-americanos. 1989 . e também os mestres japoneses do haicai . Neruda. 1982 . É poeta. Buson e Issa. pelo livro Sumidouro. Colabora com vários jornais e revistas do Brasil e do exterior. concedido pela Câmara Brasileira do Livro (1971). com 18 poetas — inclusive dois prêmios Nobel: Pablo Neruda e Octavio Paz. Correspondente de diversos periódicos no Brasil e no exterior.Natureza Viva (poemas). 1986 . da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da ABI Associação Brasileira de Imprensa e do Instituto Brasileiro de Cultura Hispânica. etc.Berço Esplendido (poemas). vinculada à Unesco. 1987 Linha d'água (poemas). Cortázar. editada nos Países Baixos. A escritora acumulou vários dos principais prêmios nacionais de literatura. 'Edu.wikipedia. contista. pelo livro Espelho Provisório. como a Antologia de Poesia da América Latina. associação mundial de escritores. Membro do PEN Club. Foi presidente do Sindicato de Escritores do Estado do Rio de Janeiro em 19971998. crítica. Jorge Semprún e Mário Vargas Llosa.O Olhar Dourado do Abismo (contos). Sua obra também está presente em diversas antologias brasileiras e internacionais. Alguns livros publicados: 1970 .Altaonda (poemas). o Prêmio de Poesia.org/wiki/Olga_Savary 13 . e o Prêmio Artur de Sales de Poesia. 1987 .Hai-Kais (poemas). Lorca.Bashô.Retratos (poemas). concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte (1977).Participou do filme de 1968. em 1994. Coração de Ouro.Sumidouro (poemas). organizou várias antologias de poesia. concedido pela Academia de Letras da Bahia pelo livro Berço Esplêndido (1987). romancista. 1979 . entre eles o Prêmio Jabuti de Autor Revelação1 .Espelho Provisório (poemas). Octavio Paz. 1977 . tradutora e ensaísta. Carlos Fuentes. 1997 . Fonte: http://pt.

14 .

. Mergulhei nos teus abraços em linda noite de luz. que a lareira. tão profanado e desfeito. . É tão triste a minha casa. tão bizarro. sem saber que.Vagalumes. que hoje é noite de Natal!… Da uva bem machucada é que o bom vinho provém. Felicidade esmagada nos dá saudade também. o meu lar é tão vazio. Duvidas que numa trova eu encerre o nosso amor? Na hóstia tu tens a prova: Não cabe Nosso Senhor? Meu vestido colorido.. em seu mantol. tão sozinha em meu quintal! .Alvas nuvens enrolando o Poente... Certas noites surpreendo o meu sonho. nos astros o meu cigarro! Há uma árvore tão feia.. nos teus braços. 15 . era um pássaro ferido. Não ter amor é pobreza mais triste que não ter pão. ela própria sente frio. encontrava a minha cruz!. toda nua sob os beijos do luar. Nas lindas noites de lua que ciúme sofre o mar vendo a rocha. rolando aos pés de teu leito… És rico..são os anjos enxugando a face exausta do Sol. acendei-a. acesa em brasa. Mas que tristeza! Tens vazio o coração. e tão alto que reacendo...

pelo muito que te quero! 16 . numa trova. sufocando na garganta o pranto de cada dia!. bem no ouvido. Pôr a saudade num verso. Mas aquela que se cala. que emoção! É concentrar o Universo na palma da minha mão! Surpreendente maravilha a que agora me acontece: .. Quando a mágoa chora e fala. cigano andejo! Minha tenda é hospitaleira. Quanto mais teu corpo enlaço. tarde ou cedo finaliza. um ao outro perdoamos. Perguntas de que maneira nosso amor alimentamos? . a vida inteira.Em que difere meu pranto do pranto de Madalena? Velho mar. por saber que o meu abraço não prende o teu pensamento.Nenhuma angústia suplanta aquela que silencia. E na taça do meu beijo beberás a noite inteira.Minha mãe é minha filha à medida que envelhece! Por eu ter te amado tanto. no silêncio se eterniza. será que Deus me condena? .. numa angústia que apavora.. o teu bramido. faz pensar que teu gemido é do próprio Deus que chora! Pousa aqui. Vou dizer-te. minha angústia e desespero: eu te odeio.Das culpas que. meu querido. mais padeço o meu tormento..

Joubert de Carvalho. Aos poucos foi deixando as interpretações românticas das canções brasileiras passando a atuar. Em 1931. futuro rei Eduardo VIII da Inglaterra. e Medroso de amor.000 votos na frente de Zaira de Oliveira. na Rádio Sociedade. tocava violão e teve aulas de canto. És débil e deves. posteriormente. sua especialidade eram "as canções de emoção e pensamento". teatróloga. de Zizinha Bessa. Lopes de Castro). de M. atuando. com as canções Olhos pálidos. Pioneira da gravadora RCA Victor. Queixar-te da sorte! Inclinas-te ao peso da frágil carriça. desenvolveu intensa e variada atividade intelectual: foi contista. conferencista e poetisa. sou forte. e o fox-canção Saudades do arranha-céu (1933. de Josué de Barros. entre outros. Livraria Freitas Bastos. Tomás e Orestes Barbosa). de Zelita Vilar e Rhea Cibele). Fonte: http://luisnassif. Cândido das Neves. Segundo Orestes Barbosa no livro "Samba". quase todos na RCA Victor. de J. Faleceu no Rio de Janeiro/RJ em 30/12/1987. interpretando composições de Marcelo Tupinambá. quando da sua visita ao Brasil. Uma das suas novelas de sucesso foi “Ressurreição”. a canção-toada Volta (1930. em 1928 lançou seu primeiro disco. Em agradecimento Jesy Barbosa gravou o tango “Príncipe de Gales”. Seus maiores sucessos foram as canções Minha viola e Sabiá cantador (ambas de Randoval Montenegro). 17 . tendo publicado Cantigas de quem perdoa. o Príncipe de Gales. ficando cerca de 30. Iniciou carreira profissional em 1928. Gastão Lamounier. no Rio de Janeiro a convite de Roquete Pinto. atuou na Rádio Tupi com grande sucesso. De 1929 a 1933 lançou 26 discos. Henrique Vogeler. São Paulo. nas quais colocou os versos. Lopes de Castro). de 1933.(Gastão Lamounier e M. em concurso promovido pelo Diário Carioca. Foi redatora da Rádio Globo durante nove anos. 1963.com/profiles/blogs/jesy-barbosa-rainha-da-can-o-brasileira Jean de La Fontaine O Carvalho e o Caniço Dizia ao caniço robusto carvalho: “Sou grande. Além da carreira de cantora. Filha de um jornalista e mãe musicista. teceu grandes elogios à cantora Jesy Barbosa e comprou seus discos para curtir na Inglaterra. Foi eleita Rainha da Canção Brasileira em 1930. o tango Queixas (1932. com justos motivos. como rádio atriz e escritora de novelas transmitidas pela Rádio Nacional.Jesy de Oliveira Barbosa nasceu em Campos/RJ em 15 de novembro de 1902. como apresentadora. também. Em 1935.

sem custo. mas seu maior interesse sempre foi a literatura. Jean de La Fontaine foi um poeta e fabulista francês. dispara do fundo Dum céu carregado O mais formidável dos filhos que o Norte No seio há gerado. de boa madeira para construção (Camla siberiana). dividida em seis partes. _ * Suis – árvores leguminosas-mimóseas. Por terra lançava O roble que às nuvens se erguia e as raízes No chão profundava. Filho de um inspetor de águas e florestas. O livro era uma coletânea de 124 fábulas. Eu vergo e não quebro. Da luta com o vento Fazeis grande alarde: Julgais que heis de sempre zombar das borrascas? Até ver não é tarde. Do sol aos fulgores barreiras opondo. dobrando de força. Que o vento devasta. Em 1668 foram publicadas as primeiras fábulas. Confesso que sobram razões de acusares A sorte madrasta. nasceu na pequena localidade de Château-Thierry/França.” Mas crede que os ventos. Te soa aos ouvidos. E menos sofreras. E a mim se afiguram suaves favônios Do Norte os bramidos. Domina a floresta. Amparo eu te fora de suis* e procelas. Responde o caniço: “Das almas sensíveis É ter compaixão. A abrigo nasceras. La Fontaine dedicou este livro ao filho do rei Luís 14. Que enruga das águas a linha tranqüila Te averga a folhagem. Minazes vos são. num volume intitulado "Fábulas Escolhidas". Com serras entesta. Estudou teologia e direito em Paris. que ensombra os contornos. do zéfiro o sopro.E a leve bafagem. em 8 de julho de 1621. Qual rija lufada. Ereto o carvalho. 18 . Mas logo a nortada. faz frente à refrega. E o frágil arbusto Vergando. flexível — do vento aos arrancos Resiste. Escreveu o romance "Os Amores de Psique e Cupido" e tornou-se próximo dos escritores Molière e Racine. Mas minha cimeira tufões assoberba.” Mal isto dissera. Se desta ramagem. Mas tens como berço brejais e alagados. não menos que os fracos.

mais adiante. um ser chamado Monan. tomando. as fábulas de La Fontaine conquistaram imediatamente seus leitores. nos primórdios do tempo. até o dia em que eles deixaram de ser justos e bons. Em 1692. após muitas súplicas. Faleceu em Paris. o fato é que Monan criou os céus e a Terra. como vemos. Então. contendo um fundo moral. cheia de saliências e sulcos que os homens. mas aí perdeu o interesse. ele preferiu converter-se em defensor obstinado da humanidade. estupidez e agressividade humanas através de ani mais. mas aquilo que se convencionou chamar de um “herói civilizador”. arrasada e sem habitantes. Desse apocalipse indígena sobreviveu um único homem. seguiu o estilo do autor grego Esopo. o cuidado de poupar um ou mais exemplares dela. a terra não poderia ficar do jeito que estava. num clima de cordialidade e harmonia.As fábulas continham histórias de animais. 19 . é tão velha quanto o mundo: um ser superior cria uma raça e logo depois a extermina. ele podia não ser exatamente um Deus. Deus ou não. que foi morar no céu. Escritas em linguagem simples e atraente. a fim de recomeçar tudo outra vez. escrita em três partes. A cada nova edição. repovoarei aquele lugar amaldiçoado! – disse Monan. Segundo alguns etnógrafos. e também os animais. Ali. A história. conseguindo. converteu-se ao catolicismo. no período de 1668 a 1694. a superfície do planeta tornou-se enrugada como um papel queimado. La Fontaine. tentou ser teólogo. Irin-magé. também entrou para um seminário. 13 de abril de 1695. Além disso. porém. em vez de conformar-se com o papel de favorito dos céus. “Fábulas”. Depois do fogo. foi poeta. o qual falava da vaidade. Ele viveu entre os homens. já doente. Até ali a Terra tinha sido um lugar plano. Monan investiu-se de um furor divino e mandou um dilúvio de fogo sobre a Terra. Folclore Indígena Brasileiro Maire-Monan e os Três Dilúvios Os tupinambás creem que houve. A sua grande obra. afinal. novas narrativas foram acrescentadas. magistralmente contadas. Segundo Irin-magé. Antes de vir a ser fabulista. amolecer o coração de Monan.Várias novas edições das "Fábulas" foram publicadas em vida do autor. – Está bem. chamariam de montanhas e abismos.

Maire-monan fez muitas outras coisas úteis para a humanidade. os homens decidiram aprontar uma armadilha para esse novo semideus. certo dia. ascendido aos céus. que até então estava oculto nas espáduas da preguiça. desta vez arrasador. sem queimar-se. Diante dos olhos de todos os índios. isso deve ser muito fácil! Instigado pelos desafiantes. Maire-monan acabou aceitando o desafio. Desses raios e trovões originou-se um segundo dilúvio. espalhandoos depois sobre a Terra. estas três fogueiras. na qual lhe foram feitos três desafios. Ela também tinha o dom de se metamorfosear em criança. bastava dar umas palmadas na criançamágica e a chuva voltava a descer copiosamente dos céus. converteram por conta própria no Deus das sagradas escrituras. Maire-monan passou incólume pela primeira fogueira. uma estrela resplandecente. além de autorizar o uso do fogo. ensinando-lhe o plantio da mandioca e de outros alimentos. – Esta Maire-monan é um feiticeira! – dizia o cochicho intenso das ocas. e talvez um pouco por sua própria vaidade. – Assim como criou vegetais e animais. Irin-magé foi encarregado de repovoar a Terra com o auxílio de uma mulher criada especialmente para isto. grandes labaredas o envolveram. e foi graças a isto que pôde criar uma série de outros seres – os animais –. – Muito bem. que era tudo quanto restara do corpo de Maire-monan. Um dia. – Você só terá de transpor. Mairemonan foi convidado para uma festa. na verdade – disse o chefe dos conspiradores. – É simples. Para um ser como você. autorizando o seu repovoamento. as nuvens se desfizeram e por detrás delas surgiu. ao chegarem ao Brasil. mas na segunda a coisa foi diferente: tão logo pisou nela. Essa Maire-monan tinha poderes semelhantes aos do primeiro Monan. porém. Apesar de ser uma espécie de monge e gostar de viver longe das pessoas. querendo pôr logo um fim à comédia.E foi exatamente o que aconteceu: Monan mandou um dilúvio à Terra para apagar o fogo (aqui o dilúvio é reparador) e a tornou novamente habitável. ela estava sempre cercado por uma corte de admiradores e de pedintes. dando origem aos raios e aos trovões que são o principal atributo de Tupã. Os estilhaços do seu cérebro subiram aos céus. o deus tonante dos tupinambás que os jesuítas. brilhando. No fim de tudo. essa bruxa há de criar monstros e Tupã sabe o que mais! Então. 20 . e sua cabeça explodiu. vamos a isso! – disse ele. Quando o tempo estava muito seco e as colheitas tornavam-se escassas. Maire-monan foi consumido pelas chamas. a humanidade começou a murmurar. porém. Além disso. e desta união surgiu outro personagem mítico fundamental da mitologia tupinambá: Maire-monan. – Bela maneira de um anfitrião receber um convidado! – disse Mairemonan. desconfiada.

a rivalidade cedo se estabeleceu entre os dois irmãos. e ambos começaram a escalá-lo como dois macacos. Tamendonare podia ser bom. depois de tomar a esposa pela mão. o irmão afrontado golpeou o chão com o pé e logo começou a brotar da rachadura um fino veio de água. e num instante o chão sob os pés dos dois. As 100 melhores lendas do folclore brasileiro. à condição de escravos. Ariconte pôs-se a rir debochadamente. E assim permaneceram os dois casais. Quando as águas baixaram. inclusive seu irmão. o tempo passou e vieram à Terra dois descendentes de Maire-monan: eles eram filhos de um certo Sommay . e de Ariconte brotaram os Temininó Fonte:Ademilson S. mas sua bondade não ia ao extremo de suportar uma desfeita dessas. cada qual trepado no topo da sua árvore. Aterrorizado. enquanto Ariconte era amante da guerra e tinha o coração cheio de inveja. 21 . 2011. enquanto as águas cobriam pela terceira vez o mundo – ou. bem como os de toda a tribo. Acontece que a risquinha rapidamente converteu-se num jorro d’água. Franchini. Tamendonare era bonzinho e pacífico. pai de família exemplar. Porto Alegre/RS: L&PM. deixando subir à tona um verdadeiro mar impetuoso. Como normalmente acontece nas lendas e na vida real. Tamendonare fez o mesmo e. Seu sonho era reduzir todos os índios. Erguendo-se. e se chamavam Tamendonare e Ariconte. rachou-se como a casca de um ovo. subiu com ela numa pindoba (uma espécie de coqueiro). Depois de diversos incidentes.Depois que o mundo se recompôs de mais um cataclismo. o irmão perverso correu com sua esposa até um jenipapeiro. a aldeia deles. e não tardou para que a fogueira da discórdia acirrasse os ânimos na tribo onde viviam. os dois casais desceram à Terra e repovoaram outra vez o mundo. aconteceu um dia de Ariconte invadir a choça de seu irmão e lançar sobre o chão um troféu de guerra. pelo menos. Ao ver aquela risquinha inofensiva de água brotar do solo. De Tamendonare se originou a tribo dos tupinambás.

e era mesmo. passo para a copa. se o senhor quer fazer reclamação do serviço da produção. enquanto outro cliente fazia insistentes sinais chamando-o. se ocorreu alguma coisa que me diz respeito como: Seu pedido veio trocado? Sua cerveja chegou quente? O refrigerante diet da sua esposa e as cocas normais dos seus filhos não vieram certinhos. vejo se está bem separada. até que eu ouça dois toques da sineta. como pedidos? Sua comida veio misturada. é quem tem que ouvir essas reclamações. porque esse 22 . mas não no serviço de distribuição. Daí para a frente não interfiro em nada. fingindo não perceber para não interferir no seu trabalho. atendeu com presteza e só então deslocou a sua visão à outra mesa. portanto. Então apanho a mercadoria. mas a sineta tocou e eu já corri para trazer sua refeição. sentia-se indignado com a refeição. o sinal de que o meu pedido está à disposição. Agora. é a logística. Acostumado com os tipos e pela cara sentiu que era reclamação. Quanto a verificar se os produtos estão perfeitos. O sujeito. coleto os pedidos do cliente. Aliás. Agora. – A minha função aqui. senhor Jonas. perguntou: – Como é o seu nome. posso chamar o cozinheiro ou então o senhor Manoel. não eu. às vezes está vendo e finge que não vê). seria antiético. que é o dono. – Pois é senhor Jonas. senhor? O cliente mais irritado ainda respondeu: – Jonas. que manda para a cozinha. aqui pra nós. vou lhe explicar como funcionam as coisas -. foi lá para dentro. Se houve demora. com o que o senhor há de concordar. decorrente do transporte da copa até a sua mesa? Deixei cair um copo ou derramei molho na mesa ou em algum dos senhores? O senhor pode não ter percebido. Esmeraldo. é responsabilidade minha e o senhor pode me chamar a atenção que eu vou abaixar a cabeça. disse-lhe Esmeraldo. estaria me intrometendo no trabalho de outro setor.Laé de Souza Esmeraldo. Ou seja. se a qualidade é boa. irritado. Ele. foge ao meu alcance e se o fizesse. (Aí que descobri que quando chamamos um garçom e parece que ele não vê. o Garçom Esmeraldo servia um bife acebolado. cada qual em sua bandeja e faço a distribuição para os clientes. acho que o senhor tem que reclamar com ele sim. O macarrão estava grudado e o molho salgado. educadamente.

escreveu as peças “Noite de Variedades” (1972). que todo solícito dizia um “pois não”.cozinheiro é muito folgado e anda fazendo as coisas de qualquer jeito. nem sabendo do que está acontecendo lá por dentro e alguns clientes sem atentar para isto.br/cronica01.ube. Acredite se Quiser!. não diga que falei nada. “Ler É Bom. É cronista. Seu Manoel! Seu Manoel . o senhor reclama do macarrão. como colaborador no “Diário de Sorocaba”. Site: http://www. Fonte: http://www.html. bem-humorada e crítica. Criou o jornal “O Casca” e grupos de teatro no Colégio Tuiuti e na Universidade Camilo Castelo Branco. “Dia do Livro” e “Leitura não t em idade”. Nos campos da poesia e crônica iniciou sua carreira em 1971. foi por culpa sua que iniciou a conversa. em 15 de março de 1952. Laé de Souza. Com estilo cômico e mantendo a leveza em temas fortes. “Minha Escola Lê”. “Livro na Cesta”.projetosdeleitura. cujo foco é o incentivo à leitura. “Casa dos Conflitos” ( 1974/75) e “Minha Linda Ró” (1976). SP). Projetos: “Encontro com o Escritor”.com. Esmeraldo cochichou para o cliente: – O senhor pode reclamar do que quiser seu Jonas. uns dois clientes já reclamaram. mas pode reclamar que a carne está dura. Jornalista. “Viajando na Leitura”. SP).br/ Fontes: http://www. objetivando gerar alternativas que favoreçam e criem o hábito da leitura. dramaturgo. “Leitura no Parque”. Laé de Souza já ministrou palestras em mais de 300 escolas de todo o Brasil. Espiando o Mundo pela Fechadura. tendo escrito para “O Labor”(Jequié. dirigida a estudantes e “Como formar leitores”. O “Avaré” (Avaré. “Minha Cidade Lê”. Obras: Acontece.projetosdeleitura.com. faz o favor! Enquanto o Sr. Palestras: Ao longo de sua carreira de escritor e na aplicação de seus projetos de leitura. “Nossa Terra” (Itapetininga. mas não da comida fria. É a segunda reclamação injusta que recebo hoje. Experimente!”. Preocupado com o déficit educacional e inconformado com o slogan “Brasileiro não gosta de ler” vem criando projetos de leitura. BA). Manoel se aproximava. Iniciou no teatro aos 17 anos. Que culpa tenho eu. bem macio.org.com. poeta.asp?ID=97 23 . “Dose de Leitura”. articulista. Coisas de Homem & Coisas de Mulher. Manoel. do molho e. palestrante. “Caravana da Leitura”. diretor e dramaturgo) para desenvolver seus textos utilizando uma narrativa envolvente. unifica sua vivência em direito. “A importância da Leitura no Desenvolvimento do Ser Humano”. sinceramente. Nos Bastidores do Cotidiano (impressão regular e em braille) e o infantil Quinho e o seu cãozinho – Um cãozinho especial. produtor cultural e autor de vários projetos de incentivo à leitura. pois.html O escritor Antonio Laé de Souza nasceu em Jequié/BA. porque se esfriou. Jonas. SP) e o “Periscópio” (Itu. não acha que é injusto seu Jonas? Vou chamar o seu Manoel. que estou aqui do lado de fora. “Lendo na Escola”.br/biografias-detalhe. porque sei que está. http://www. literatura e teatro (como ato r. administrador de empresas e Agente Fiscal de São Paulo. SP). participou de festivais de teatro amador e filiou-se à Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. advogado. “O Tatuapé” (São Paulo. mulher e filhos boquiabertos olhavam para o Esmeraldo e o Sr.projetosdeleitura. Lá está o seu Manoel. Bacharel em Direito e Administração de Empresas. “A Cidade” (Olímpia.br/autor. SP). me chacoalham? O senhor. senhor Jonas. voltada para professores são alguns dos temas abordados nessas palestras. deixando-a esfriar.

Antonio Brás Constante
Zero à Esquerda ou Fora de Série?
“Ninguém cometeu maior erro, do que aquele
que errou ao fazer tudo errado”.
Antonio Brás Constante
Números. Números. Números. Não passamos de
um conjunto numérico, perdido em uma equação
qualquer. Uma equação ainda não totalmente
resolvida, conhecida como vida. O ser humano na sua
essência é feito de números. Somos compostos
orgânicos com bilhões de células disto, sei lá mais
quantos bilhões de outras células formando aquilo, etc.
Os números determinam padrões na sociedade.
Somos classificados por um número variável chamado:
“idade”, e nos dizem que devemos agir conforme esta
idade. Ou seja, em alguns casos somos muito velhos,
em outros nos acham muito novos e ainda em outros
temos a idade certa, mesmo que seja para algo que
naquele momento não nos interessa.
Apesar de não nos darmos conta, nós somos
geralmente atraídos pelos números que compõe as
outras pessoas. Por exemplo, na busca por
relacionamentos amorosos, muitos procuram saber
sobre a altura, peso, quadril, busto, idade e até conta
bancária de seus pretendentes.

Ainda na parte dos relacionamentos, podemos
imaginar a seguinte situação: você sai para passear
com sua amada. Resolve levá-la a um lugar especial,
onde possam namorar, trocando beijos e carícias.
Então você, aproveitando aquele momento lindo,
totalmente enlouquecido de amor, dá uma, duas, três,
até quatro idéias de como o futuro seria maravilhoso se
vocês ficassem juntos para sempre. É a matemática do
amor, agindo nos pensamentos do enamorados.
Também no trabalho somos um mero número,
conhecidos no sistema como o funcionário de
matricula tal, que tem o RG tal e o CPF etecetera e tal.
Em qualquer novo plano diretor, onde haja
necessidade de cortes para maximizar custos, o fator
humano é logo substituído por algum índice
matemático, e de um instante para outro passamos de
nove para seis, ou seja, nossa vida vira de cabeça para
baixo.
A própria empresa é um emaranhado de números,
que aparentemente parece ser feita de tijolos e movida
através de carne e sangue, mas que no fim de cada

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semestre passa a ser um relatório contábil repleto de
números e indicações positivas ou negativas, traçando
geralmente perfis pouco amistosos sobre ações futuras.
Um assunto como este pode até causar insônia,
algo que tentamos amenizar contando carneirinhos
lanosos, que para desespero de qualquer fazendeiro,
conseguem pular cercas com extrema facilidade. Em
outros casos apenas contamos com algum tipo de
calmante. Então percebemos que nossa saúde também
é vista através de números, que medem pressão,
batimentos cardíacos, taxa de glicose, entre outros
tantos pontos que flutuam em nossos exames. Se
notarmos, a própria política começa com a escolha de
números, onde muitos se elegem apenas para fazer
número e, principalmente, desviar números.
Sua classe social, sua localização em sua rua ou
mesmo no universo (latitude e longitude), ou o máximo
de caracteres que devo digitar neste texto, tudo é

formado por números. Podemos dizer que Deus é um
número. Talvez o número mais básico que exista e por
isso tão complexo. Algo similar ao computador, que é
capaz de efetuar maravilhas, feitas a partir da
combinação de dois únicos dígitos (0s e 1s) que
formam o código binário.
Enfim, na matemática da vida, não devemos ser
apenas mais um número. Devemos somar esforços,
dividir os problemas na busca de soluções, subtrair
pensamentos negativos, e elevar a enésima potência às
energias e ações positivas, passando a ser
multiplicadores de algo melhor, deixando de ser um
zero a esquerda para nos tornamos pessoas fora de
série.
Fonte:
http://www.recantodasletras.com.br/autores/abrasc

Um Dedão de Prosa com o Escritor
Antonio Brás Constante
entrevista realizada por José Feldman ao escritor em 31 de março de 2012

NOTA DO ESCRITOR ENTREVISTADO: Antes de
iniciar, gostaria de frisar aos que forem continuar
lendo esta singela entrevista, que sou um escritor meio
fora dos padrões convencionais ao termo (por isso

mesmo definido como eterno aprendiz de escritor), por
isso lhes peço, não me desejem mal…

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INFANCIA E PRIMEIROS LIVROS
• Conte um pouco de sua trajetória de vida,
onde nasceu, onde cresceu, o que estudou.
Parafraseando o Analista de Bagé, posso dizer que
minha infância foi normal, o que não aprendi no
galpão, aprendi atrás do galpão. Nasci em Porto Alegre
e me perdi por Canoas, onde cresci. Me formei em
Ciência da Computação, mas daí me apaixonei
perdidamente pela escrita, e passei a ser seu escravo,
transcrevendo os delirios que esta Diva sussurra em
minha mente.
• Como era a formação de um jovem naquele
tempo? E a disciplina, como era?
Não existiam computadores, algo que pode parecer
meio pré-histórico para essa gurizada hi-tech, mas não
vejo tanta diferença para os dias de hoje (também não
sou tão velho assim), no fim tudo se resume a querer
aprender, pois no nosso mundo ou você aprende
enquanto é novo ou alguém te prende depois.
• Recebeu estímulo na casa da sua infância?
Sim, meu maior estímulo foi ser péssimo em
futebol, algo que me deu bastante tempo livre para me
dedicar aos livros.
• Qual o seu primeiro livro e do que falava?
Meu primeiro e único livro chama-se: “Hoje é seu
aniversário – PREPARE-SE” e trata-se de um livro de
crônicas que considero genérico aos livros do L.F.

Verissímo, pois dispõe do mesmo princípio ativo: O
Humor.
P.S: se a pergunta foi qual o primeiro livro que eu li,
sinceramente não lembro…
• Quais livros foram marcantes antes de
começar a escrever.
Foram muitos, mas a série “para gostar de ler” foi
bem importante para mim nessa época.
O ESCRITOR
• Fale um pouco sobre sua trajetória literária.
Como começou a vida de escritor?
Minha vida literária se dividiu em duas partes. Na
primeira etapa (fase adolescente) escrevi alguns textos
na época do segundo grau (era assim chamado
naqueles tempos), buscando melhorar minhas notas
nas aulas de português, acabei gostando muito de
escrever, mas tão logo concluí os estudos parei,
adormecendo o escritor que dentro de mim existia.
Somente ao final da faculdade voltei a escrever (quase
quinze anos depois), graças ao empurrão de um grande
amigo chamado Zé Gadis, que era chargista. A coisa
começou como uma brincadeira, ele desenhava
caricaturas dos colegas de empresa e eu fazia as
mensagens para os cartões de aniversário. Aos poucos
fui me viciando no ato de escrever, e não parei mais.
• Como foi dar esse salto de leitor pra escritor?
Foi estranho, tanto que até hoje me defino como
um eterno aprendiz de escritor. Não me intitulo como

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tratando a arte de escrever como uma deliciosa brincadeira. errar. temperando situações do dia-a-dia com pitadas de humor. e não gosto de sentir este tipo de obrigação nas costas.escritor profissional. um tropeção em uma pedra. mas torcem o nariz para o que é produzido aqui. como um filho textual. • Teve a influência de alguém para começar a escrever? Além do meu amigo Gadis. porque acho que isso acarreta uma responsabilidade muito grande. me chamou a atenção por total falta de opções. • Como foi que você chegou à poesia? Para mim a poesia é como um arrepio de frio. Falando sério.uol. mas não sobrevivo dela. Por isso prefiro ser um aprendiz. acho que o primeiro ponto para alguém se tornar escritor é gostar daquilo que escreve. viajar. SEUS LIVROS E PREMIOS • Como começou a tomar gosto pela escrita? Quando comecei a rir do que escrevia. como um fardo. do qual já citei antes. um bocejo. na verdade eu tento dar vida a literatura. • Que acha de sua obra? Fiz um livro que eu gostaria de ler se fosse outra pessoa. • Em que você se inspirou em seus livros? No cotidiano. Algo que me chama a atenção neste País é que muitos leitores tem preconceito com a literatura nacional. • Tem Home Page própria (não são consideradas outras que simplesmente tenham trabalhos seus)? Sim. chega sem aviso e se vai sem explicação. • Como definiria seu estilo literário? Posso dizer que meu estilo literário ainda encontrase em construção… • Dentre os livros escritos por você.com. qual te chamou mais atenção? E por quê? Foi o livro “Hoje é seu aniversário – PREPARE-SE” que por ter sido o único até o momento. Barão de Itararé e Douglas Adams. F. Verissímo. São pessoas que consomem tudo que vem de fora. todos os meus textos publicados estão disponíveis no site: recantodasletras. poder ousar.br/autores/abrasc • Você encontra muitas dificuldades em viver de literatura em um país que está bem longe de ser um apreciador de livros? Viver de literatura?? Rsrsrs… isso existe?? Rsrss. também tive as influências literárias de escritores como: L. mas não sou exatamente um poeta. Para não perder a viagem acabo escrevendo o que senti naquele momento. 27 . e olhando a obra desta forma posso dizer que considero este livro.

Também ganhei uma mochila cheia de chocolates BIS em uma promoção de frases da Nestlé. • Você acredita que para ser escritor basta somente exercitar a escrita ou vocação é essencial? Acho que sem vocação. tente conseguir alguma verba para pagar a editora.• Qual a sua opinião a respeito da Internet? A seu ver. meus livros tem em média 28 textos. na categoria crônicas. • Quanto tempo você leva escrevendo um livro? Deixe-me ver… Escrevo um novo texto a cada semana. para me inspirar a situação ideal seria poder relaxar em uma sauna com aproximadamente umas cinco beldades seminuas ao meu redor. algo que poderia ser feito em várias bibliotecas ou 28 . fui vencedor do oitavo concurso de poesias. você projeta a ação. • Tem prêmios literários? Sim. contos e crônicas. • Como foi o processo de pesquisa para a escrita de seus livros? Alguns textos realmente precisam de pesquisa. precisa de algum ambiente especial ? Na realidade. CRIAÇÃO LITERÁRIA • Você precisa ter uma situação psicologicamente muito definida ou já chegou num ponto em que é só fazer um “clic” e a musa pinta de lá de dentro? Para se inspirar literariamente. não haveria prazer em escrever e consequentemente a pessoa não seguiria por este caminho. ou seja. ela tem contribuído para a difusão do seu trabalho? Posso dizer sem sombra de dúvidas. e o resultado será o mesmo. onde possa rabiscar ideias para depois colocá-las no micro. depois coloco tudo no papel (entenda-se “papel” o editor de texto) e vou aprimorando o texto até ficar de um jeito que acho interessante. • Como surge o momento de escrever um livro? O momento certo para se escrever um livro é quando uma editora cai do céu e se propõe a publicalo. • Você projeta os seus textos? Ou seja. argumentando silenciosamente com seu rolo de macarrão em punho. levo em torno de sete meses para ter material suficiente para um novo livro. que se não fosse a internet. meu trabalho como escritor praticamente não existiria. mas como minha esposa desencoraja este tipo de “ambiente” para mim. venho me contentando com um tempinho livre em qualquer lugar mesmo. você projeta o esquema narrativo antes? Como é que você concebe os textos? As ideias sobre novos textos vem em golfadas dentro da minha cabeça. Se isto não acontecer. Prêmio oferecido pela fundação cultural de Canoas. ou se seguisse. não seria por muito tempo.

sempre tem alguma gaveta vazia em algum lugar. • Qual o papel do escritor na sociedade? Com certeza seria um papel escrito. de tal forma que nada mais parece chocar. comidas diferentes. e sempre que tenho tempo dou uma olhadinha no Big Brother Brasil. Mas o melhor lugar para se guardar a boa poesia é dentro dos compartimentos de nossas mentes. saciando nossa fome poética. sou fã de tirinhas de jornal. por exemplo.blogspot. pois teria o seu mérito. Para nós. • Na sua opinião. A PESSOA POR TRÁS DO ESCRITOR • O que o choca hoje em dia? Quando percebo que a insensibilidade anda tomando conta do mundo. cuja leitura é indispensável para uma vida saudável. mas uma fruta suculenta que é sorvida. o Dário Banas (http://estranhamobilia.com) . já que sou adepto da leitura • Há lugar para a poesia em nossos tempos? Claro que há. autores diferentes. deliciosamente.utilizando o Google. Vou aproveitar este espaço para divulgar o trabalho de um mestre-poeta que conheci ao acaso no mundo virtual. sua leitura já deveria ser desejada e incentivada. A poesia não é um almoço que se come religiosamente todo santo dia. terminei há pouco de ler o livro “Ensaio 29 . É função do escritor abrir as janelas da imaginação para que as pessoas possam olhar o mundo e viajar por ele. que livro ou livros da literatura da língua portuguesa deveriam ser leitura obrigatória? É dificil opinar sobre o que seriam livros “obrigatórios”. gosto de sempre que possível experimentar coisas novas. O escritor é aquele sujeito que cutuca o outro. • O que lê hoje? Além das tradicionais bulas de remédio. Rsrsrs. chamando sua atenção para uma outra realidade. Suas poesias são fantásticas. que autores são importantes descobrir? Sou um curioso nato. leio o que me cai nas mãos. adoro ler gibis (considerados por muitos como porcarias). confesso que fico chocado. • No processo de formação do escritor é preciso que ele leia porcaria? Tudo depende do que a pessoa vai querer escrever. espontanea. Acho que se um autor consegue cativar um leitor. lugares diferentes. Eu. O ESCRITOR E A LITERATURA • Mas existe uma constelação de escritores que nos é desconhecida. Considero a pesquisa essencial para dar profundidade ao texto e para não escrever minhas “pérolas textuais” de forma equivocada. e escorre seu néctar pela boca. a quem chega apenas o que a mídia divulga.

crítica. publique estas minhas respostas espontâneas em seu portal. CONSELHOS PARA OS ESCRITORES • Que conselho daria a uma pessoa que começasse agora a escrever ? Querer se consagrar como escritor é o mesmo que se lançar ao oceano buscando chegar a uma ilha repleta de tesouros. estou apenas na companhia das revistas e suas reportagens criativas. Não possuo outros projetos. • Se Deus parasse na tua frente e lhe concedesse três desejos. Por isso quero dizer para quem quiser começar a escrever. opiniões. 30 . Deixo aqui registrado meu muito obrigado. Estou distribuindo meu livro em PDF gratuitamente para quem quiser conhecer a obra.br e pedir uma cópia. Fico na torcida para que meu amigo virtual. Gostaria de acrescentar mais alguma coisa? Outros trabalhos culturais. a cultura nasce no seio da população. • De que forma você vê a cultura popular nos tempos atuais de globalização? Toda raiz cultural começou através de uma veia popular. Não se escreve uma poesia para que ela seja “bonitinha”. sem querer visualizar um horizonte. a poesia é a essência dos sentimentos. para viver. nada e muitas vezes não acontece nada. A melhor recompensa para quem escreve é gravar para eternidade seus pensamentos. derramados no papel de um jeito ritmado. de termos contato com outras culturas. ou se afoga. José Feldman. ou a maré te leva de volta para o anonimato de onde saiu. enriquece e muitas vezes acaba elitista. Por enquanto. etc. Se desistir. quais seriam? PRIMEIRO pediria que ele aumentasse a dose de humanidade nos seres que se definem como humanos. • Você possui algum projeto que pretende ainda desenvolver? Atualmente ando respondendo um questionário sobre literatura da melhor forma possível. suas loucuras. que escreva por prazer. você nada. • O que é preciso para ser um bom poeta? Entendo que a poesia é uma forma de dança onde as frases ocupam o lugar dos movimentos. e confesso que estou adorando. basta me enviar um e-mail para : abrasc@terra. E para encerrar a entrevista Quero agradecer a iniciativa do Feldman em ceder este espaço para que os escritores possam falar um pouco sobre suas obras e divulgá-las.sobre a cegueira” do Saramago. suas ideias.com. Escreva pelo mesmo motivo que respira. Acho que a globalização é um bom instrumento de fomentar e divulgar a cultura. O resto é pura consequência.

entretanto. é pronunciada também como advertência ou ameaça disfarçada de boas intenções. das Mil e uma noites. Esta é uma das muitas frases célebres da autoria do crítico literário Agripino Grieco (1888-1973). muitas vezes confundido com sua posição social ou política. já que depois do sexto dia (ele parou para descansar no sétimo) as coisas andaram piorando bastante por aqui. meia palavra. TERCEIRO pediria para ele sair um pouco para o lado (já que ele estaria parado na minha frente) para que eu pudesse terminar de ver na televisão a sua maior obra. Recordações de um mundo perdido e Gralhas e pavões. o seriado de “Os Simpsons”. não poderiam ter suas obras criticadas. proferidas pelo herói do episódio “Ali-Babá e os quarenta ladrões”. imune às tradicionais igrejinhas e confrarias tão presentes na cultura brasileira. famoso por tiradas cheias de verve e maledicência. não poupava ninguém e levou à posteridade uma obra de crítica literária desassombrada. Abre-te sésamo Esta frase reúne as palavras mágicas e cabalísticas que. Os franceses são ainda mais sintéticos: para bom entendedor. do celebérrimo Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616). o talento. meia palavra basta Esta frase. meio falador. pois sugere que os interlocutores compreendem o sentido exato do que se disse por meio das mais leves alusões. está coberta de sutilezas. culto e irônico. resultam na 31 . E os espanhóis dizem: a bom entendedor. até então convictos de que. a não ser em comentários favoráveis. A burrice é contagiosa. não. Às vezes. proferidas contra pomposos escritores nacionais. A frase consagrou-se no famoso livro Dom Quixote de la Mancha. Entre seus livros estão Vivos e mortos. dando conta de que não são necessárias muitas palavras para um bom entendimento entre as pessoas. Deonísio da Silva Expressões e suas Origens Parte IV A bom entendedor. O corajoso paraibano.SEGUNDO Pediria a ele que largasse este bico de gênio realizador de desejos e voltasse a trabalhar em prol do mundo. dado o ofício que praticavam.

por maior que seja. mostraram como o poder. cargo atualmente ocupado pelo poeta. patrono da cadeira 33 da Academia Brasileira de Letras. Acta Est Fabula O cuidado com dois momentos decisivos das narrativas. Gustave Flaubert (1821-1880). muito pequenas e amareladas. em Dona Anja. e “foram felizes para sempre”. O autor do famoso romance O ateneu foi um dos poucos escritores que. mas freqüentemente hostilizados.abertura da porta misteriosa da caverna onde eram guardados os tesouros. ‘Casa da mãe Joana’ virou sinônimo de prostíbulo. Aqui está presente também a etimologia para explicar o significado de sésamo. 32 . aos 21 anos. Segundo ele. Água mole em pedra dura. O imperador romano Caio Júlio César Otaviano Augusto escolheu esta frase como última a ser pronunciada por ele antes de morrer. A mulher que deu nome a tal casa viveu no século XIV. onde ninguém manda. utilizado nas padarias para o fabrico de pães especiais e outras delicadezas de sabor muito raro. de lugar onde impera a bagunça. O sésamo nada mais é do que o nosso popular gergelim. o fim dos espetáculos era anunciado aos espectadores com a frase acima. onde vivia refugiada. Escritores como Jean Paul Sartre. esforçaram-se por praticas ou entender a crítica. uma espécie de grau zero de poder. A casa da mãe Joana A expressão ‘casa da mãe Joana’ alude a lugar em que se pode fazer de tudo. mas a alcunha é injusta. para a conclusão. e Josué Guimarães. A crítica não ensina a fazer obras de arte. Tinha feito uma administração tão primorosa que o século em que viveu foi chamado pelos historiadores de o século de Augusto. com isenção. que significa “a peça foi representada”. Os críticos nem sempre foram bem entendidos. Joana e era condessa de Provença e rainha de Nápoles. ensina a compreendê-las Frase do jornalista e romancista carioca Raul d’Ávila Pompéia (1863-1895). o respeito e outros quesitos de domínio conexo são nítidos nos bordéis. tanto bate até que fura Utilizada para designar a pertinácia como virtude que vence qualquer dificuldade. Uma das normas dizia: “o lugar terá uma porta por onde todos possam entrar”. em A prostituta respeitosa. em latim sesamum. tinha opinião radicalmente contrária. era crítico quem não podia criar. está contida numa cápsula que se abre sem muita pressão. também romancista. obviamente. Chamava-se. que é uma planta em cujas sementes. regulamentou os bordéis da cidade de Avignon. Seu contemporâneo francês. Foi também diretor da Biblioteca Nacional. Teve vida cheia de muitas confusões. No teatro romano. resultou na criação de formas fixas como “era uma vez” para a abertura das fábulas. crítico e ensaísta Affonso Romano de Sant’Anna. Em 1347. o começo e o desfecho. assim como tornava-se delator quem não podia ser soldado.

as ações do segundo e as decisões do terceiro. Célebre em razão de quem a pronunciou em situação tão dramática. tomada após reflexão e seguida de risco. o Legislativo. a imprensa seria o quarto poder pela influência exercida sobre as votações do primeiro. chefe militar e estadista prussiano. Alea Jacta Est O general e estadista romano Júlio César (101-44 a. que foi exilado sem que soubesse o motivo. mas um de seus primeiros registros literário foi feito pelo escritor latino Ovídio (43 a. Ele decidira atravessar o rio Rubicão. Foi o que fizeram com o provérbio portugueses e brasileiros.esta frase perde-se nas brumas do tempo.C. em 49 a. o Panegírico de Santa Mônica. sobre quem escreveu um texto famoso.. autor de célebres livros como A arte de amar e Metamorfoses. garantindo-lhe unidade não apenas 33 .C. defendendo a mesma concepção.) pronunciou esta frase. mas uma arte Frase pronunciada pelo lendário príncipe. A tradição consagrou-a como sinônimo de decisão importante. Quem mais divulgou a frase em seus escritos. levou vida amorosa das mais conturbadas. Otto von Bismarck (1815-1898). transgredindo a lei do Senado romano que determinava o licenciamento das tropas toda vez que um general de Roma entrasse na Itália pelo norte.-18 d. deve sua criação ao escritor e grande orador britânico Edmund Burke (1729-1797). Para um dialético como Agostinho.C). que significa ‘a sorte está lançada’. na África.C. Os primeiros romances brasileiros foram publicados em jornais e revistas. “A mulher é a porta de Deus” também poderia ser uma frase agostiniana. É tradição das culturas dos países em que a escrita não é muito difundida formar rimas nesse tipo de frase para que sua memorização seja facilitada. nem que se queira. doutor da Igreja e um dos pilares da teologia cristã e da filosofia ocidental. foi o famoso historiador e crítico inglês Thomas Carlyle (1795-1881). Ao lado dos três poderes clássicos de A política não é uma ciência. durante a campanha da Gália. A imprensa é o quarto poder Esta frase. nada mais sintomático: sua salvação e perdição foram obras femininas. que fez da Alemanha uma grande potência. Sua conversão é atribuída às orações de sua mãe. Escreveu o poeta: “A água mole cava a pedra dura”. que expressa em boa síntese a importância que tem a imprensa. uma sociedade democrática. A mulher é a porta do diabo Esta famosa frase foi originalmente dita e escrita em latim – mulier janua Diaboli – por Santo Agostinho (354-430). o Executivo e o Judiciário. bispo de Hipona. Antes de proferi-la. entregando-se a prazeres que depois condenou. entretanto. A imprensa foi sempre importante também para nossas letras. É lembrada quando se quer ressaltar ou não há mais possibilidade de voltar atrás. tem sido com freqüência para ilustrar decisões irrevogáveis.

Dois dos principais personagens. mas também em frases picantes. Assim é.territorial. As mulheres perdidas são as mais procuradas Cantores e cantoras.). não apenas com o trabalho importantíssimo que realiza. Para tanto. apresentam um espelho da vida provinciana. entre os quais Lucano (39-65) e seu tio Sêneca (4 ªC. por meio de diálogos. mas também grande compaixão humana. acrescentou que a pressa é também “mãe do tumulto e do erro”. aludindo a amores passageiros que podem durara penas por um trecho de suas longas viagens. marcado por fina ironia. encontrável em vários escritores antigos que escreviam em latim. Os detalhes sempre foram importantes. Bismarck enfrentou sérias dificuldades e ousou sustentar uma de suas guerras até mesmo contra o partido católico. Algumas de suas obras foram transpostas para o cinema. A frase passou a ser usada para encerrar uma discussão. se lhe parece. romances e peças de teatro. no estilo habitual do autor. Seus livros mais conhecidos são O falecido Matias Pascal. deu especial atenção às classes trabalhadoras. Luigi Pirandello (19671936).-65 d. souberam inspirarse num imaginário rico em metáforas. comédia em três atos que discute a busca da verdade. A pressa é inimiga da perfeição Esta frase antológica passou ao acervo de ditos célebres pela pena do famoso jurisconsulto brasileiro Rui Barbosa de Oliveira ao comentar a rapidez com que se redigia o Código Civil Brasileiro. várias foram as escolas de samba que perderam pontos importantes pelo desleixo com pormenores. extraída do pára-choques de um caminhão. Além disso. presente em frases como esta. como era chamado por sua atenção em famosa conferência que pronunciou na Holanda. inclusive carregando este livro até você.C. o senhor e a senhora Ponza. então. Ao longo dos carnavais. como Roberto Carlos e Sula Miranda. grande dose de sarcasmo. autor de contos. o desenvolvimento brasileiro dos anos de pós-guerra deu preferência ao transporte rodoviário. se lhe parece Frase de autoria do célebre escritor italiano. pois com ele o povo alemão conquistou sua autonomia. um tipo de profissional que está presente desde então na cultura brasileira. Prêmio Nobel da Literatura em 1934. protegendose numa espécie de socialismo de Estado. O águia de Haia. Formou-se. o primeiro lamentando a rápida transformação do seu 34 . Tendo abandonado os projetos de ferrovias. A frase acima foi dita pela primeira vez num discurso pronunciado em alemão no dia 18 de dezembro de 1863 e desde então insistentemente repetida em muitas outras línguas. nas redações das leis como nas obras artísticas. muso e musa de caminhoneiros. À sombra de um grande nome Esta frase tem sua origem na expressão latina Magni nombris umbra. a quem dedicaram várias de suas canções. Seis personagens à procura de um autor e Assim é. que trouxe em sua versão final preciosas anotações do mestre. leitor.

O enteado pagou caro por tramar a morte do pai e.) que abandonou suas virtudes guerreiras ao tornar-se paisano. mas alguém que. mas morreu ao entrar em órbita. nos idos de março de 44 a. Brutus? A história desta frase famosa.). A Terra é Azul Esta frase foi a declaração do cosmonauta soviético Yuri Alekseyevich Gagarin (1934-1968).C. Um de seus mais antigos registros foi feito pelo apóstolo São Paulo (10-67) em sua Primeira Epístola aos Coríntios. comumente aplicada a situações de traição. Integra também a ensaística que trata das relações entre marido e mulher na estrutura familiar. teria pronunciado esta frase que o historiador Suetônio celebrizou em A vida de César. lançou um olhar humano sobre o planeta e soube expressá-lo com simplicidade e poesia. Está presente em numerosas narrativas. o primeiro a fazer um vôo espacial. A vítima defendeu-se quanto e como pôde de punhais e espadas. Maria! Uma das mais célebres frases de todas as religiões cristãs. a cadelinha Laika. ainda que sob os eflúvios solenes da toga. Até que a morte os separe A história desta frase prende-se às cerimônias de casamentos. foi o primeiro ser vivo a ir ao espaço. mas por Deus. Ao vê-lo. por Marco Júnio Bruto (85-42 a. também soviética. se é que se pode dar nacionalidades a cachorros. derrotado. a bordo da nave Vostok 1. As boas recordações são apagadas e o povo passa a relembrar apenas os malefícios da grande figura. Gagarin disse a famosa frase quando contemplou a Terra de um lugar onde homem nenhum estivera. como ocorre a auxiliares de vários governantes. Não foi apenas um pioneiro. significando salve. estadista e general romano Caio Júlio César (101-44 a. romances ou poesias. sejam contos.C. Maria! Foi transcrita do 35 . em 12 de abril de 1961. remonta ao episódio que resultou no assassinato do grande imperador. A frase é citada quando um grande homem. até que reconheceu entre os que o atacavam e feriam o próprio filho adotivo. Antes dele.).C.caráter do grande general romano Pompeu (106-48 a. novelas. vítima de conspiração organizada por senadores e aristocratas e liderada. por seus atos. mas que vão para a vala comum dos esquecimentos em virtude de seus desvios.C. no Sputnik 2 (um dos dez satélites soviéticos lançados a partir de 1957). entre outros. não pelos homens. faz com que se apaguem antigas lembranças de feitos memoráveis que o credenciaram à admiração. Até tu. que concebem os laços do matrimônio como indissolúveis. em que se esforça para demonstrar aos leitores e ouvintes daquela famosa carta que os laços que unem homem e mulher no casamento foram instituídos. suicidou-se dois anos depois. É também utilizada para identificar quem faz o mal à sombra de um bom nome. principalmente dos ritos cristãos. ainda no paraíso. a bordo de sofisticada tecnologia da época. Ave.

Ave já era forma de saudação na antiga Roma. A vida é breve Esta frase constitui o primeiro dos célebres aforismos de Hipócrates (460-377 a. inserindo-a nos versos de uma de suas famosas músicas. esculturas e até músicas. que o escreveu originalmente em grego. fazia a pergunta ao oráculo. o animal correu para o mendigo. ainda que praticando uma ciência. Caesar. onde o deus Hermes se manifestava em seu templo do seguinte modo: o consulente entrava. reconheceu ser a arte mais duradoura do que a vida. no Peloponeso.C. Tudo começou em Acaia. Querendo ser justo. que estava no meio dos dois. Tal crença tem raízes na cultura das mais diversas procedências. Perguntava-se a um deus. o marido pagou uma moeda de ouro pelo cãozinho. Lady More trouxera para casa um cachorrinho extraviado e um dia um mendigo apresentou-se como dono do animal. O pai da medicina. A frase teria sido pronunciada pela primeira vez por Thomas More (1478-1535). depois transformado em santo.). mas era o povo quem respondia. A voz do povo é a voz de Deus A expressão veio do latim vox populi. traduzida quase literalmente. vox Dei. ordenando que cada qual chamasse ao mesmo tempo o cachorrinho. Tão famosa ficou a expressão que tornou-se tema e título de diversas obras artísticas. Tem sido muito citada ao longo dos séculos. A voz do dono Tornou-se célebre a figura de um cão ouvindo um fonógrafo. incluindo a brasileira. constituindo-se na saudação com que o anjo Gabriel anunciou à Virgem Maria que ela estava grávida do Espírito Santo e iria ganhar um menino a quem deveria pôr o nome de Jesus. o famoso humanista inglês pôs sua esposa num dos cantos da sala e o mendigo no outro. acompanhada desta expressão que foi utilizada por um fabricante de discos e de um aparelho destinado a reproduzir os sons gravados. É também o nome de uma das mais notórias orações. 28. porém em ordem inversa para fazer a rima: “breve é a vida”. Para não deixar muito triste sua esposa. precedido de outra frase: a arte é longa. presentes em todas as literaturas do mundo. em que se destacam autores que exerceram a medicina como ofício principal.Evangelho de Lucas 2. quando atuava como juiz de uma causa entre sua esposa e um mendigo. inaugurando assim uma linhagem de médicos escritores. As palavras errantes ditas pelos primeiros transeuntes seriam as respostas divinas. depois do que tapava as orelhas com as mãos e saía do recinto. como o clássico Ave. Há milênios o povo simples considera que o julgamento popular é a voz de Deus. como pinturas. e o cantor e o compositor Tom Jobim foi um dos que a aproveitaram. reconhecendo a voz do dono. que tem uma segunda parte acrescentada às palavras proferidas pelo anjo Gabriel no momento da anunciação. No Brasil. Sem vacilar. um instituto de pesquisa de opinião pública chama-se Vox Populi e foi um dos primeiros a prever a vitória de Fernando Collor 36 .

vinculado às universidades Unijuí. dando aulas e videoaulas de Língua Portuguesa e respectivas literaturas e desenvolvendo projetos editoriais. Ahab. "Nos bastidores da censura" (sua tese de doutoramento na USP) e o livro de etimologia "De onde vêm as palavras". Professor. Canadá etc. Segundo a definição de Hawthorne. Kathryn VanSpanckeren Panorama da Literatura dos Estados Unidos Parte II O Período Romântico. emocional e simbólica da narrativa ficcional. impregnadas de significados míticos. Curiosamente. alguns dos quais publicados também em Portugal. se sobrepõem ao seu “eu” inconsciente mais profundo. No caso de escritores de ficção. soldados: para trás" (Prêmio Internacional Casa de las Américas. em júri presidido por José Saramago). RJ (2003-2015) e Unisul. As 37 . Autor de 34 livros. Arthur Dimmesdale ou Hester Prynne. mas literatura de ficção séria que recorria a técnicas especiais para comunicar significados complexos e sutis. Melville e Poe construíram figuras heróicas maiores do que a vida. Os protagonistas típicos do chamado romance americano são pessoas atormentadas e isoladas. De onde vêm as palavras? Deonísio da Silva nasceu em Siderópolis/SC em 1948. de Hawthorne. como fazia a maioria dos romancistas ingleses ou continentais. escritor e etimologista brasileiro. Teria faltado a vox Dei? Fonte: Deonísio da Silva. membro da Academia Brasileira de Filologia. os “romances” não eram histórias de amor.nas eleições presidenciais de 1989 por larga margem. Em vez de definir cuidadosamente os personagens de forma realista por meio da riqueza de detalhes. não previu seu afastamento. Ficção Walt Whitman. a visão romântica tendia a se expressar na forma que Hawthorne chamava de “romance”. e muitos dos personagens segregados e obcecados dos contos de Poe são protagonistas solitários jogados ao destino sombrio e impenetrável que. de alguma maneira misteriosa. Hawthorne. em Moby Dick. Alemanha. Suas obras referenciais são o romance "Avante. de Melville. SC (2014-2015). RS (1972-1981). em A Letra Escarlate. Estácio. uma forma sofisticada. Ufscar. SP (1981-2003). Itália. Herman Melville e Emily Dickinson — assim como seus contemporâneos Nathaniel Hawthorne e Edgar Allan Poe — representam a primeira geração literária importante dos Estados Unidos.

como em Taipi – Paraíso de Canibais. Aos 19 anos. Mas essa trama não desafia a estrutura social aristocrática da Inglaterra. Apesar de sua criação. O romancista americano. O americano democrático teve. Taipi. Os romancistas ingleses — Jane Austen. foi baseado no tempo em que viveu entre o povo taipi. das tradições familiares e do trabalho árduo. obra-prima de Melville. de se “inventar” a si mesmo. o personagem principal de uma narrativa americana poderia se encontrar sozinho entre tribos canibais. A Baleia. Portanto. bem articulada e complexa. Praticamente todos os grandes protagonistas americanos são “solitários”. como os caçadores de peles de James Fenimore Cooper. uma geografia de vastos ermos não desbravados e uma sociedade democrática fluida e relativamente sem classes. em constante movimento. ou explorar terras selvagens. além de compartilhar com seus leitores atitudes que embasavam sua ficção realista. George Eliot e William Thackeray — viviam em uma sociedade tradicional. Seu primeiro livro. ou. em parte. Charles Dickens (o grande favorito). talvez devido a um bom casamento ou à descoberta de um passado aristocrata desconhecido. Herman Melville (1819-1891) Herman Melville era descendente de uma família antiga e abastada que caiu repentinamente na pobreza com a morte do pai. ou encontrar o demônio durante uma caminhada pela floresta.tramas simbólicas revelam ações ocultas do espírito angustiado. Os Estados Unidos eram. foi para o mar. ela a confirma. tinha de adotar uma estratégia própria. como o jovem Goodman Brown de Hawthorne. O romancista americano sério também precisou criar novas formas: daí o formato disperso e idiossincrático do romance Moby Dick de Melville e a narrativa em clima de sonho e divagação de Poe. de Melville. ao contrário. Anthony Trollope. é um épico sobre a história da baleeira Pequod e de seu capitão. como os personagens solitários de Poe. uma fronteira indefinida. Ahab. Os romancistas americanos enfrentavam uma história de conflito e revolução. Moby Dick. no Sul do Pacífico. por assim dizer. nas Ilhas Marquesas. Seu interesse pela vida dos marinheiros foi uma conseqüência natural de suas próprias experiências e seus primeiros romances foram em grande parte inspirados em suas viagens. Melville não teve educação universitária. Uma razão para essa exploração ficcional dos recôncavos da alma era a ausência na época de uma comunidade estabelecida. O Relato de Arthur Gordon Pym. cuja busca obsessiva pela baleia 38 . ou ter visões de sepulcros isolados. habitada por imigrantes que falavam diversos idiomas e cujo estilo de vida era estranho e rude. Muitos romances ingleses mostram um personagem principal pobre que galga os degraus da escada social e econômica. Ao contrário. A ascensão social do personagem principal satisfaz a realização do desejo dos leitores que na Inglaterra daquela época eram principalmente de classe média.

Como Édipo na peça de Sófocles. ainda que bela. deseja o conhecimento absoluto. A despeito de seu heroísmo. Finalmente. Essa obra. A pesca da baleia era inerentemente expansionista e ligada à idéia histórica de um “destino manifesto” para os americanos. os próprios fatos tendem a se dissolver em símbolos. Ahab é atingido pela cegueira antes de ser morto no final. A pesca da baleia. Por trás do conjunto de fatos relatados por Melville está uma visão mística — mas se essa visão é do mal ou do bem. é uma grande metáfora da busca por conhecimento. talvez. Ahab é condenado e talvez amaldiçoado no final. o atual estado do Havaí caiu sob o domínio americano porque era usado como importante base de reabastecimento de combustível para os navios baleeiros). assim como não existem formas acabadas. refere-se a uma tribo indígena extinta da Nova Inglaterra. Melville desafia a idéia otimista de Emerson de que os seres humanos podem entender a natureza. Mas o romance mostra que. da mesma maneira que obceca Ahab. Os membros da tripulação do Pequod representam todas as raças e várias religiões. não é explicado. principalmente para lamparinas. ao contrário. romance de aventura aparentemente realista. não há respostas definitivas exceto. faustiano e divino. Os fatos sobre a baleia e sua pesca não podem explicar Moby Dick. a grande baleia branca.branca. Insensatamente. A natureza. leva o barco e seus homens à destruição. O nome do barco de Ahab. Algumas referências literárias ressoam pelo romance. já que exigia que navegassem ao redor do mundo em busca de baleias (de fato. Moby Dick. é misteriosa e potencialmente fatal. Ahab insiste em imaginar um mundo de absolutos atemporal e heróico. A pesca da baleia. uma resposta. ele exige um “texto” acabado. cujo nome vem de um rei do Antigo Testamento. Em Moby Dick. Pequod. Ahab incorpora a versão trágica do individualismo americano democrático. em especial na Nova Inglaterra: ela fornecia óleo de baleia como fonte de energia. Ahab. o nome sugere que o barco está fadado à destruição. a morte. Ele afirma sua dignidade como indivíduo e ousa se opor às inexoráveis forças externas do universo. que paga de forma trágica pelo conhecimento equivocado. bem como de um caldeirão cultural. foi uma indústria importante. Embora a busca de Ahab seja filosófica. Portanto. representa a existência cósmica e impenetrável que domina o romance. sugerindo a idéia de um Estados Unidos como um estado de espírito universal. contém uma série de reflexões sobre a condição humana. ela é também trágica. na verdade. O livro tem ressonância histórica. a baleia literalmente “lança luz” sobre o universo. que percorre todo o livro. assim. Moby Dick. A Ascensão do Realismo A Guerra Civil Americana (1861-1865) entre o Norte industrial e o Sul agrícola e escravagista foi um divisor 39 . humana ou desumana.

e as greves levaram ao conhecimento da nação a difícil situação da classe trabalhadora. A nação endividada de 1860 havia se transformado no Estado mais rico do mundo em 1914. quando a teoria de Darwin sobre a evolução biológica e a “sobrevivência dos mais aptos” entre as espécies foi aplicada à sociedade e parecia sancionar a falta de ética ocasional nos métodos utilizados pelos magnatas empresariais de sucesso. Na época da Primeira Guerra Mundial. No início do século 19. os Estados Unidos passaram de excolônia agrícola a uma imensa nação industrial moderna. inaugurado em 1869. James voltou-se para a Europa a fim de avaliar a natureza dos novos americanos cosmopolitas. Antes da guerra. especialmente a abolição da escravidão. que começou a operar em 1861. mercados e comunicações.de águas na história dos EUA. cresceu também o distanciamento. Twain voltou-se para o Sul e o Oeste no coração dos Estados Unidos rurais e fronteiriços para encontrar seu mito definidor. O ingresso constante de imigrantes propiciou o fornecimento aparentemente interminável de mão-deobra barata. a partir de então. deram à indústria acesso a materiais. os escritores americanos tendiam a ser demasiadamente rebuscados. na cidade fronteiriça de Hannibal. os idealistas defendiam os direitos humanos. Essa foi a era dos industriais e dos especuladores milionários. Surgiram os problemas da urbanização e da industrialização: habitações pobres e superlotadas. e o telégrafo transcontinental. cresceu à beira do Rio Mississippi. de Mark Twain. condições de trabalho difíceis e controle inadequado dos negócios. com ela. mas em 1919 metade da população estava concentrada em cerca de 12 cidades. a maioria dos americanos vivia em fazendas ou pequenos povoados. mais conhecido por seu pseudônimo Mark Twain. Mais de 23 milhões de estrangeiros — alemães. cada vez mais imigrantes da Europa Central e do Sul — entraram nos Estados Unidos entre 1860 e 1910. De 1860 a 1914. os americanos passaram a idealizar cada vez mais o progresso e o “self-made man”. baixos salários (chamados de “escravidão assalariada”). As Aventuras de Huckleberry Finn. Em 1860. Os sindicatos trabalhistas cresceram. como chamam as pessoas que conseguem vencer na vida pelo próprio esforço. no Missouri. falta de saneamento. sentimentais ou 40 . O novo sistema ferroviário intercontinental. Os agricultores também se viram lutando contra os “interesses monetários” do Leste. depois da guerra. Samuel Clemens (Mark Twain) (1835-1910) Samuel Clemens. Os negócios prosperaram rapidamente após a guerra. A industrialização cresceu e. os Estados Unidos tinham se tornado a maior potência mundial. escandinavos e irlandeses nos primeiros anos e. Ernest Hemingway disse que toda a literatura americana vem de um grande livro. Dois grandes romancistas desse período — Mark Twain e Henry James — reagiram cada um à sua maneira.

a irracionalidade cruel da sociedade. Mas Huck não se adapta à sociedade civilizada e planeja fugir para “os territórios” — terras indígenas. Huck e Jim descem o majestoso Mississippi em uma canoa. especialmente a literatura. longe das influências moralmente corruptas da “civilização”. Temendo por sua vida. O final dá ao leitor outra versão do clássico mito da “pureza” americana: a estrada aberta levando a terras ermas intocadas. Ele captou suas gírias peculiares e humorísticas e o espírito iconoclasta. Os dois passam por muitas aventuras cômicas e perigosas à margem do rio mostrando a variedade. as complexas relações entre americanos ingênuos e europeus cosmopolitas. menino pobre que decide seguir a voz da consciência e ajudar um escravo negro a fugir para a liberdade. Huck foge. “faz a vida. o ameaça de morte. Daisy Miller (1879) e sua obra máxima. cuja dona. Henry James (1843-1916) Henry James certa vez escreveu que a arte. Retrato de uma Senhora (1881). A obra-prima de Twain. às margens do rio Mississippi. chama de primeira fase ou a fase internacional de James inclui obras como The American [O Americano] (1877). Christopher 41 . a generosidade e. os hinos de Walt Whitman à estrada livre. sofisticada e difícil de sua época. Leon Edel. e uma família respeitável está cuidando do rebelde Huck. apesar de pensar que isso o condenaria ao inferno por infringir a lei. Portanto. era profundamente libertador e potencialmente hostil à sociedade. Para Twain. às vezes. Mark Twain foi o primeiro autor importante do interior do país. senhorita Watson. faz a importância”. Petersburg. descobre-se que a senhorita Watson já havia libertado Jim. O que seu biógrafo. Huck acabara de ser adotado por uma família respeitável quando seu pai. tem como cenário a aldeia de St. fingindo estar morto. lançada em 1884. faz o interesse. A ficção de James é a mais consciente. Em The American. deu aos escritores do país uma nova valorização de sua voz nacional. em estupor alcoólico. Filho de um vagabundo alcoólatra. assim como para outros escritores americanos do final do século 19. por exemplo. Os romances de James Fenimore Cooper. está pensando em vendê-lo rio abaixo para a escravidão mais empedernida do extremo Sul. James se destaca pelo “tema internacional” — ou seja. No final. mas ela é abalroada por um barco a vapor e afunda. O exemplo mais conhecido é a história de Huck Finn. O estilo de Twain. baseado na fala americana vigorosa. eles se separam e mais tarde voltam a se encontrar. junta-se a ele outro marginal. realista e coloquial. Nessa fuga.pomposos — em parte porque ainda tentavam provar que poderiam escrever de forma tão elegante quanto os ingleses. O Urso de William Faulkner e On the Road — Pé na Estrada de Jack Kerouac são outros exemplos literários. o escravo Jim. o realismo não era apenas uma técnica literária: era uma maneira de falar a verdade e detonar antigas convenções.

A classe média prosperou. Embora a Lei Seca — proibição nacional da venda de álcool instituída por meio da 18º Emenda à Constituição do EUA — tenha começado em 1919. bares ilegais. Em sua terceira fase. Ele explorou novos temas — feminismo e reforma social em The Bostonians [Os Bostonianos] (1886) e intriga política em The Princess Casamassima [A Princesa Casamassima] (1885). Quando a família da moça o rejeita por não ser aristocrata. Os americanos dos chamados “loucos anos 20” se apaixonaram pelos entretenimentos modernos. vai para a Europa em busca de uma noiva. mas os trata com crescente sofisticação e profundeza psicológica. os soldados americanos retornaram à sua pátria. os americanos começaram a desfrutar da renda média nacional mais alta do mundo dessa época. ao decidir nada fazer. oferecendo jazz. Modernismo e Experimentação Muitos historiadores caracterizaram o período entre as duas guerras mundiais como o “amadurecimento” traumático dos Estados Unidos. apesar do fato de que o envolvimento direto dos americanos foi relativamente curto (1917-1918) e com muito menos mortos do que seus aliados e inimigos europeus. ir ao cinema. Dançar. ele tem a oportunidade de vingança. Em James. e nightclubs proliferaram. Se o tema principal da obra de Mark Twain é a diferença sempre cheia de humor entre a falsa aparência e a realidade. ingênuo. aprovada 42 . O complexo e quase mítico As Asas da Pomba (1902). Elas cortaram o cabelo curto (“a la garçonne”). muitos deles agora ansiavam por uma vida moderna e urbana. em particular. muitos americanos entraram no ensino superior — na década de 1920 as matrículas universitárias dobraram. Os Embaixadores (1903) — que James considerava seu melhor romance — e A Taça de Ouro (1904) datam desse importante período. ou a “principal”. os negócios floresciam e os bem-sucedidos prosperavam além do que podiam imaginar em seus sonhos mais desvairados. só a autoconsciência e a clara percepção do outro levam à sabedoria e ao amor altruísta. No “grande boom” do pós-guerra. mas inteligente e idealista. conhecidos como “speakeasies”. Tampouco os soldados provenientes da zona rural do país conseguiram voltar facilmente às suas raízes. James volta aos temas internacionais.Newman. As mulheres americanas. usavam vestidos curtos estilo “melindrosa” e vibraram com o direito ao voto garantido pela 19a Emenda à Constituição. Pela primeira vez. se sentiram liberadas. mas nunca mais puderam recuperar a inocência. Depois de conhecer o mundo. industrial milionário que venceu por seu próprio esforço. bebidas e maneiras ousadas de vestir e dançar. A maioria das pessoas ia ao cinema uma vez por semana. Chocados e para sempre transformados. A segunda fase de James foi experimental. fazer passeios de carro e ouvir rádio eram manias nacionais. mostra sua superioridade moral. a preocupação constante de James é a percepção.

com graus variados de sucesso. a atmosfera e a aparência da vida diária no início do século 20. Estudou sânscrito e filosofia oriental. Freqüentou a Faculdade de Harvard. A famosa abertura de “Prufrock” convida o leitor para vielas urbanas de mau gosto que. foi para a Inglaterra cedo e se tornou figura de destaque no mundo literário inglês. de Fitzgerald. Scott Fitzgerald. Gertrude Stein e Ezra Pound — vivessem no exterior confortavelmente com pouquíssimo dinheiro e absorvessem a desilusão do pós-guerra e também outras correntes intelectuais européias. Em “A Canção de Amor de J. À medida que as máquinas modernas mudavam o ritmo. Como seu amigo. evocam a extravagância e a desilusão do que a escritora americana expatriada Gertrude Stein chamou de “a geração perdida”. de Hemingway.S.S. o que influenciou sua poesia. a Sorbonne e a Universidade de Oxford. Alfred Prufrock” (1915). expressava um sentido de vida moderna pela arte como uma ruptura brusca com o passado. e Este Lado do Paraíso (1920). aparentemente ilógica ou abstrata teve impacto revolucionário. que surgiu na Europa e depois se espalhou para os Estados Unidos nos primeiros anos do século 20. o poeta Ezra Pound. Eliot. longo e influente poema de T. as condições econômicas difíceis do pós-guerra na Europa permitiam que os americanos endinheirados — como os escritores F. sua poesia iconoclasta modernista. tu e eu. reinventavam formas artísticas tradicionais e buscavam radicalmente outras novas — eco estético do que as pessoas haviam passado a chamar de “era da máquina”. Diversos romances. em particular a psicologia freudiana e. Em “A Terra Desolada” (1922). enfurecidos e desiludidos com a guerra selvagem e com a geração mais velha que responsabilizavam. como a vida moderna. Apesar dessa prosperidade. muitos artistas e escritores. o impotente e velho Prufrock acha que “mediu sua vida em colherinhas de café” — a imagem das colherinhas de café refletindo uma existência enfadonha e uma vida desperdiçada. o marxismo. Eliot (1888-1965) Thomas Stearns Eliot recebeu a melhor educação em comparação a qualquer outro grande escritor americano de sua geração. Modernismo A grande onda cultural do modernismo.em 1920. a civilização ocidental é simbolizada por um deserto desolado necessitando desesperadamente de chuva (renovação espiritual). Falavam o que pensavam com ousadia e ocupavam funções públicas na sociedade. T. Ironicamente. não oferecem respostas às questões da vida: Sigamos então. em menor grau. Ernest Hemingway. Um dos poetas mais respeitados de sua época. Enquanto o poente no céu se estende 43 . os jovens ocidentais na “vanguarda” cultural encontravam-se em um estado de rebelião intelectual. em especial O Sol Também se Levanta (1926).

estradas rurais. que ecoa o “Inferno” de Dante para evocar as ruas apinhadas de Londres na época da Primeira Guerra Mundial: Sob a fulva neblina de uma aurora de inverno. Em 1924. cercas. Jamais pensei que a morte a tantos destruíra… (I. Este Lado do Paraíso (1920). se tornou um best-seller. muros de pedra. mas foi criado em uma fazenda no nordeste dos EUA até os 10 anos. fica na aldeia. a aproximação não de todo indesejada da morte. seu trabalho muitas vezes só é simples na aparência. Escreveu sobre a vida nas fazendas tradicionais da Nova Inglaterra (no nordeste dos Estados Unidos). foi em busca de sua fortuna literária na cidade de Nova York para poder se casar com ela. Depois de ter sido dispensado no fim da guerra. Seu primeiro romance. que morava em Montgomery. mudaram-se para a França para economizar e retornaram sete anos depois. F. e aos 24 anos se casou com Zelda. Como Eliot e Pound. Fitzgerald se alistou no Exército americano e se apaixonou por uma moça rica e bonita. Zelda tornou-se 44 . Por exemplo. no entanto. Seus temas são universais — colheita de maçã. foi para a Inglaterra. no Alabama. uma noite tranqüila e nevosa pode sugerir. mostrando nostalgia pelo estilo de vida do passado. de modo geral os americanos escreviam de maneira mais realista do que os europeus. por meio de uma combinação de rimas quase hipnótica. Muitos poemas sugerem um sentido mais profundo.Como um paciente anestesiado sobre a mesa… (Tradução de Ivan Junqueira) Imagens semelhantes permeiam “A Terra Desolada” (1922). atraído por novos movimentos poéticos. Durante a Primeira Guerra Mundial. 60-63) (Tradução de Ivan Junqueira) Robert Frost (1874-1963) Robert Lee Frost nasceu na Califórnia. Ele não me verá parado aqui Olhando seu bosque se cobrir de neve. A importância de enfrentar a realidade tornou-se tema dominante nas décadas de 1920 e 1930: escritores como F. Embora sua abordagem fosse clara e acessível. Embora a prosa americana no período entre guerras tenha feito experimentações relativas ao ponto de vista e à forma. Zelda Sayre. Nem um dos dois estava preparado para lidar com as pressões do sucesso e da fama. onde ele estava estacionado. Sua casa. eram tantos. e acabaram dissipando o dinheiro que tinham. Scott Fitzgerald (1896-1940) A vida de Francis Scott Key Fitzgerald parece um conto de fadas. Fluía a multidão pela Ponte de Londres. Scott Fitzgerald e o dramaturgo Eugene O’Neill retrataram diversas vezes a tragédia que aguardava aqueles que vivem de sonhos frágeis. De “Stopping by Woods on a Snowy Evening” [“Parado no Bosque Numa Noite de Neve”] (1923): De quem é esse bosque acho que sei.

mas foi ferido e ficou hospitalizado por seis meses. Dreiser e muitos outros romancistas do século 20. e nesse sentido ele é universal. Ernest Hemingway (1899-1961) Poucos escritores tiveram um vida tão intensa quanto Ernest Hemingway. Acossado por um histórico familiar problemático. continuou gostando de caçadas e da pesca esportiva. Hemingway é considerado o mais popular romancista americano. Como Fitzgerald. Seus interesses são basicamente apolíticos e humanísticos. encontrou os escritores americanos expatriados Sherwood Anderson. O Velho e o Mar (1952). como correspondente de guerra baseado em Paris. apesar disso. a morte e a “geração perdida” de sobreviventes desiludidos. Depois de ficar famoso com o romance O Sol Também se Levanta. Como Fitzgerald. cuja carreira poderia ter saído de um de seus romances de aventura. cujo peixe imenso pescado em mar aberto é devorado por tubarões. há sete oitavos debaixo d’água. como fez Fitzgerald. a Segunda Guerra Mundial e a luta na China na década de 1940. descobre o preço devastador do sucesso em termos de realização pessoal e do amor. ele continuou a trabalhar como jornalista. Se intelectuais. Ezra Pound. atividades que inspiraram alguns de seus melhores trabalhos. Hemingway se tornou porta-voz de sua geração. no ano seguinte. Seus personagens não são sonhadores. Fitzgerald captou a vida de esplendor e desespero dos anos 1920. doenças e por acreditar que estava perdendo o dom de escrever. são profundamente marcados e desiludidos. breve romance poético sobre um pobre e velho pescador. É só um golpe baixo. recebeu o Prêmio Nobel. feriu-se em um acidente com seu pequeno avião. O protagonista. Fitzgerald garantiu seu lugar na literatura americana principalmente com seu romance O Grande Gatsby (1925).mentalmente instável e precisou ser internada. cobrindo a Guerra Civil Espanhola. Durante um safári na África. Hemingway veio do Meio Oeste dos EUA. que nunca lutou na Primeira Guerra Mundial. Depois da guerra. influenciou seu estilo conciso. o misterioso Jay Gatsby. o escritor se matou com um tiro em 1961. Em Adeus às Armas (1929) a heroína morre ao dar à luz dizendo: “Não tenho medo.” Certa vez comparou sua produção literária a icebergs: “Para cada parte que se revela. mas toureiros. Sua marca registrada é o estilo claro desprovido de palavras desnecessárias. Hemingway escreveu sobre a guerra. em particular.” 45 . Apresentou-se como voluntário para trabalhar como motorista de ambulância na França durante a Primeira Guerra Mundial. F. história escrita com brilhantismo e economicamente estruturada sobre o sonho americano do homem que se fez sozinho (self-made man). soldados e atletas durões. Usa com freqüência a contenção. rendeu-lhe o Prêmio Pulitzer em 1953. Fitzgerald virou alcoólatra e morreu jovem como roteirista de cinema. Scott Fitzgerald e Gertrude Stein. Mas ao invés de retratar seu glamour fatal. Mais do que qualquer outro escritor. Stein.

46 . com a ação transcorrendo no período de uma noite. no estado do Mississippi. Suas peças posteriores incluem as reconhecidas obras-primas The Iceman Cometh (1946). da Universidade de Harvard. Sua peça Desejo sob os Ulmeiros (1924) recria as paixões escondidas de uma família. e Absalom. em Berkeley. enfocando a própria família e sua deterioração física e psicológica. sobre as relações complexas e violentas entre um mulher branca e um homem negro. Faulkner recria a história da terra e das várias raças que nela viveram. Eugene O’Neill (1888-1953) Eugene O’Neill é a grande figura da dramaturgia americana. diferentes pontos de vista e vozes (inclusive a de párias. duas obras modernistas que fazem experimentações com pontos de vista e vozes para explorar fundo o drama de famílias sulistas sob a tensão de perder um membro da família. Suas diversas peças combinam enorme originalidade técnica com visão renovada e profundidade emocional. obra cabal sobre o tema da morte. sobre a ascensão de fazendeiro que subiu na vida por seu próprio esforço e sua trágica queda. Escritor inovador.D. Ela lecionou literatura americana no exterior. talvez seu melhor livro. continua… Fonte: http://embaixadaamericana. As primeiras peças de O’Neill tratam da classe trabalhadora e dos pobres. Recebeu seu bacharelado pela Universidade da Califórnia. onde viveu grande parte de sua vida. trabalhos posteriores exploram o mundo subjetivo e destacam sua leitura de Freud e a tentativa angustiada de aprender a conviver com as mortes da mãe.br/HTML/literatureinbrief/ Kathryn VanSpanckeren é professora de Inglês na Universidade de Tampa. e Longa Jornada Noite Adentro (1956) — poderosa autobiografia em forma dramática. Foi somente no século 20 que peças sérias americanas tentaram fazer inovações estéticas. Luz em Agosto.William Faulkner (1897-1962) Nascido em uma antiga família sulista. e seu Ph. constituído de frases extremamente longas.org. Absalom! (1936). Entre os melhores romances de Faulkner estão O Som e a Fúria (1929) e Enquanto Agonizo (1930). crianças e analfabetos) e um rico e absorvente estilo barroco. Dramaturgia americana no século 20 A dramaturgia americana foi uma imitação do teatro inglês e europeu até o século 20. do pai e do irmão. Faulkner fez experimentações brilhantes com a cronologia narrativa. William Harrison Faulkner foi criado em Oxford.

a escrita jornalística de informação com relação à situação indígena. enquanto Zitkala-Ša é Yankton Dakota. O foco de estudo deste artigo recairá nas estratégias utilizadas pelas duas autoras como forma de manter e questionar sua condição como mulher e como indígena em períodos igualmente marcados pela violência e repressão em seus respectivos países. mas muitas vezes similares. escritora brasileira contemporânea. mostrar aspectos desconhecidos e calados dos sentimentos e angústias vividas pela mulher indígena diante de uma sociedade opressora retomando fatos históricos e também as condições contemporâneas de suas tribos e do povo indígena como um todo. reafirmando o papel da mulher indígena como contadora de histórias e como educadora. Ambas buscaram por caminhos às vezes diferentes. A primeira parte da análise se focará na etnia e na 47 . Zitkala-Ša. e Trinh (1989) fornecerão a base teórica para a análise. e muitas vezes conflitantes pela diferença de cultura e objetivo final com relação aos leitores. Este trabalho tem por objetivo discutir como a identidade de gênero e etnia se apresenta na escrita de duas autoras de origem indígena. e viveu no final do século XIX e início do século XX. Eliane Potiguara. Uma breve intervenção biográfica das duas autoras será seguido do estudo de excertos que demonstram seus estilos e suas estratégias para tornarem-se agentes de suas etnias e de seu gênero. Estados Unidos. uma brasileira contemporânea. e outra Estadunidense do início do século XX.Alba Krishna Topan Feldman A Identidade da Mulher Indígena na Escrita de Zitkala-Ša e Eliane Potiguara RESUMO: O estudo de crítica feminina tem se desenvolvido para abarcar mulheres de diferentes etnias e também de diferentes formações culturais e épocas. As duas autoras estudadas misturam de forma vivaz a ficção. nação Sioux. além de poesia e narração com moldes na oralidade. 1 – Introdução Eliane Potiguara é descendente de índios Potiguaras do Recife. Ashcroft (2002). Hall (2002).

pelo Conselho das Mulheres do Brasil. seus momentos de aluna em uma boarding school dirigida por missionários e também como professora de outra boarding school. Participou durante anos. chamadas de trilhas de lágrimas. Seus contos autobiográficos. na ONU em Genebra. na reserva Yankton. como as marchas forçadas. da elaboração da ”Declaração Universal dos Direitos Indígenas”. É formada em Letras e participa de diversas ONGs. os Potiguares (Comedores de Camarão). por seu trabalho como ativista. caiu no esquecimento após sua morte. da língua Dakota. nascida Gertrude Simmons (18761938). Conselheira do Impbrapi. 1996). quando os estudos da crítica feminina. mesmo com todas as suas realizações. escolas indígenas que trouxeram doenças. Porém. da Paraíba. que mescla informações 48 . Metade Máscara. autora da única ópera com tema indígena e composta por um indígena. por ter criado o GRUMIN. em 1900 e mais tarde transformada em dois livros. Old Indian Legends recupera as estórias que ouvia enquanto criança.reafirmação do indígena procedido pelas duas autoras. escritora e ativista pela causa indígena. adotou Eliane Potiguara para homenagear a tribo de onde veio. como o Atlantic Monthly Magazine. além das chamadas guerras índias. Seus escritos foram recuperados no final do século XX. A autora enfrentou momentos amargos na história indígena americana. Nascida com outro nome. Recebeu em 1996 o título de “Cidadania Internacional”. entre 1920 e 1922. 56 anos. como representante do Brasil na campanha “Mil Mulheres Para o Prêmio Nobel da Paz 2005”. poemas e artigos foram publicados em periódicos de renome na época. mas optou pelo nome indígena Zitkala-Ša como escritora. ao redor da fogueira (LISA. Eliane Potiguara é brasileira. Instituto Indígena de Propriedade Intelectual e Coordenadora da Rede de Escritores Indígenas na Internet e do Grumin – grupo de mulheres indígenas/ Rede de Comunicação Indígena. Ela tornou-se um dos raros Nativos Americanos que conseguiram chegar ao Ensino Superior. Foi nomeada uma das 10 mulheres do ano em 1988. que significa “Pássaro Vermelho”. musicista. concedido pela filosofia Iraniana Bahai. 2 – As autoras: vidas e obras Zitkala-Ša. enquanto a segunda discutirá o corpo indígena e o corpo feminino. Foi premiada pelo Pen Club da Inglaterra pelo seu livro A Terra é a Mãe do Índio. Sua última obra publicada é Metade Cara. Foi indicada. do pós-modernismo e do pós-colonialismo questionaram a construção do cânone literário. trauma e morte. Sua obra American Indian Stories aborda momentos de sua infância. Tornou-se Gertrude Bonnin pelo casamento. do qual quase nada se sabe. em uma das reservas mais pobres dos EUA era filha de mãe indígena e pai provavelmente branco. a conhecida Carlisle School. que trabalha pela implantação da Paz Mundial. que dizimaram os indígenas no século XIX e início do século XX. a aculturação em massa exercida pelas boarding schools.

contracapa). contra a cultura branca e seus efeitos devastadores dos processos de assimilação aos indígenas de sua época. fazendo com que elas perdessem sua tradição étnica. confissões e histórias autobiográficas. ou seja. nem domada” (ZITKALAŠA. I was neither a wee girl nor a tall one.A identidade fragmentada e reafirmada A etnia indígena que vivia nos EUA na época de Zitkala-Ša passaram por diversos problemas que comprometiam suas identidades. internatos religiosos ou militares que traumatizaram as crianças. um “bloco” uno. além da narrativa poética ficcional de Cunhataí e Jurupiranga. contracapa). neither a wild indian nor a tame one” (ZITKALA-ŠA. ou as boarding schools.a invasão cultural europeizante.as teorias secundárias às idéias darwinianas. algumas inclusive disfarçadas em “pele de cordeiro”. e passa os séculos pelo sofrimento de seu povo. sua educação e criação acabou por representar nela o dilema existencial que fazia parte da vida da maioria do povo indígena na época: “Mesmo a natureza parecia não ter lugar para mim. . para se reencontrar no presente. No caso de Zitkala-Ša. que questionaram o posicionamento de poder e de gênero. Foucault e o feminismo. 3 . mas utiliza sua hibridez cultural ao fazer uso de sua educação e conhecimento da língua inglesa para escrever.1 1 “Even nature seemed to have no place for me. A questão da pluralidade de identidades está presente em Zitkala-Ša de diversas formas: ela assume. 2003. um casal que se separa na época da colonização. o que ela nunca deixou transparecer em sua escrita. sua condição de índia. nem grande. inclusive mostrando sua erudição. A identidade fragmentada é apontada por Hall (2002) ao afirmar que. a identidade vista sob o prisma dos estudos pósmodernos vai variar de acordo com os sistemas culturais que a interpelam. Não era uma índia selvagem. de 1887.sobre a situação indígena atual. que possibilitava aos brancos um roubo legalizado das terras das reservas indígenas. como a Psicologia (que cindiu a mente em consciente e inconsciente). que procurava aculturar e “assimilar” o indígena em um projeto bem planejado e que assumia diversas formas. Eu não era uma menina pequena. com um único centro. que incluíam: . publicamente. Por outro lado. que estabeleciam as raças não européias como inferiores. e passa a ter diversos centros. mas ao mesmo tempo não conseguissem se adaptar à sociedade euro-americana. assume os dois papéis destinados às mulheres 49 . abandonando sua hibridez física. a identidade deixa de ser um todo. o marxismo (que cindiu a sociedade em classes). como a distribuição de terras aos índios através do Dawes Act. há uma forte possibilidade de que seu pai seja um homem branco. Mesmo assim. e o hibridismo como degeneração. 2003. sua linguagem. a partir de certos movimentos que tiveram início no final do século XIX.

neta do chefe. também de forma híbrida: misturam diversos gêneros literários. personificada pela filha do chefe Powhatan. então. já era mãe solteira. Zitkala-Ša o faz de maneira velada. que participou da troupe circence do velho oeste de Buffalo Bill e venceu o general Custer na batalha de Little Big Horn). p. Por outro lado. vítima da violação sexual praticada por colonos que trabalhavam para a família inglesa X”(POTIGUARA. narrativa e poesia. narrando a própria história em terceira pessoa: “Foi impactante porque eram todas mulheres. o papel de princesa. como ensaio reflexivo. que são apenas entrevistos é utilizada pelas duas autoras. Sua avó. Pode-se. uma vez que é comprovado através da análise dos anos de nascimento. Enquanto Potiguara se afirma diretamente e denuncia as violências sentidas por seu povo.índias na época. e nem por favores sexuais. como quando. a menina Maria de Lourdes. Potiguara também deixa entrever o hibridismo e a fragmentação em sua história. O primeiro é a a squaw. palavra para “vagina” em algumas línguas indígenas e “moça” em outras. O segundo estereótipo é a princesa. porém.. como forma de generalização e representação da identidade indígena como um todo: não são apenas elas ou suas famílias que passaram por situações parecidas. mesmo resistindo com chutes e unhadas selvagens. Ambas as autoras hibridizam também suas literaturas: fazem um resgate dos acontecimentos e as tradições de seus respectivos povos utilizando a linguagem do dominante. ela usou esse expediente para ter acesso aos corredores do poder como ativista em Washington D. ao narrar o corte de seu cabelo no internato. e sua por competência em ganhar. Também é chamada de squaw na forma de um cartaz quando ganha um concurso de oratória na faculdade. místico e ativista.C. usada desdenhosamente pelos brancos para designar as mulheres indígenas que. arrisca sua vida pelo homem branco. 50 . mas não menos incisiva. A história reticente e muitas vezes imprecisa quanto a dados históricos. sendo a única concorrente indígena. assumindo. portanto. quando afirma. que é impossível para Zitkala-Ša ser neta biológica de Touro Sentado. mas por ousadia em competir em um ambiente cultural não-indígena. fui carregada pela escadaria abaixo e amarrada com força a uma cadeira. a famosa Pocahontas. considerada desonra para seu povo. ela o faz com as tintas de um estupro: Eu me lembro de ter sido forçada e puxada. por exemplo. mas toda uma população indígena. Zitkala-Ša deixa em suspenso o fato de que seria ou não neta de Tatanka Yotanka (O famoso chefe indígena Touro Sentado. Ela também subverte o estereótipo de squaw. as quatro filhas do índio X. mais a mãe Maria da Luz. porque recebe este nome não pela sua subordinação aos brancos. que. além de servir de mediadora entre brancos e índios. são forçadas a se prostituírem e abandonarem suas aldeias para servirem aos homens brancos. 27). Totalmente contra minha vontade. com apenas 12 anos. observar que a autora subverte os dois papéis. muitas vezes às custas da destruição de seu próprio povo. 2004.

ela entrevê índios dançando felizes. esta crescia mais. Era tão suave que parecia que uma respiração poderia 51 . é o testimonio.” (POTIGUARA. subvertendo a erudição e o uso da linguagem dominante aprendida como forma de chamar a atenção dos não-indígenas para a problemática indígena. 69. Uma das provas da insistência na cultura dominada é a utilização. seja através de mímica. mas também uma forma de o dominado denunciar o que ocorre em seu mundo. Enquanto isso. Cunhataí e Jurupiranga se reencontram e juntos criam presenciam o renascimento da cultura. Uma das formas de resistência. Enquanto observava a figura. mescla sua cultura. não pintada em tela. 47). Potiguara mistura uma escrita informativa. Então. 2004. e também como forma de recuperação da auto-estima alquebrada de seus povos. balançando minha cabeça o tempo todo até sentir as lâminas geladas da tesoura contra meu pescoço e as ouvir destruírem uma de minhas grossas tranças. Zitkala-Ša oscila entre uma esperança febril e o desânimo ante os poucos resultados de sua luta. Esta é uma forma não apenas de autoexpressão e de arte literária.. Ambas as autoras o fazem por meio de suas narrativas autobiográficas e ficcionais. Quando ela olhou para dentro. para a formação de seu próprio espaço e. perdi meu espírito. a narrativa de histórias do cotidiano dos povos dominados. seja na forma da linguagem. enchendo a área do baú de cedro.⁄ Eu reclamo. nem mesmo escrita.. ou seja. Desta forma. fugindo ao controle do dominador. o líder indígena Marçal Tupã-y.. produzem a felicidade para si e para seu povo. Metade Máscara. ⁄ Eu denuncio. da união de suas lágrimas. A doçura da infância na reserva convivendo com o carinho da tribo contrasta com o tratamento desumano recebido na escola. em diversos contos.. segundo Ashcroft (2002).. como nunca havia visto: O presente era uma coisa fantástica. O testemunho é usado pelas duas autoras em suas escritas autobiográficas e também na recuperação de tradições e da filosofia indígena. ensaística e poética: “Em 18 de abril de 1997. (ZITKALAŠA. assassinado em 25 de novembro de 1983. sua linguagem e qualquer elemento de suas tradições sob pena de surras e todo tipo de violência.⁄Eu falo. p. ou de sua negação. da arte de contar histórias. ultrapassando as dimensões do baú.Eu gritava alto. Era feita de sonhos. de ironia. tradução nossa). a figura ficou mais e mais real. suspensa no ar. Potiguara aponta para caminhos mais esperançosos: ao final de sua saga de seu livro Metade Cara. E esta era a realidade de milhares de crianças indígenas na época de Zitkla-Ša. entre outros recursos. a textura muito mais delicada que a teia brilhante de uma aranha. 2003. Era uma visão! Uma figura de uma aldeia indígena. Esta é apontada por elas como o método de educação das crianças indígenas. proibidas de usar as roupas e adereços das tribos. a escrita autobiográfica. esteve nas terras do Sul do Brasil e disse: „Eu não fico quieto não. por parte de ambas. No início de sua obra. p.. o dominado também se apropria das armas do dominante.

mas isso não é suficiente.. ainda assim. tradução nossa) Imagens como a reunião da tribo em volta de uma fogueira para contar histórias ou dançar. p. seja ela física ou simbólica em ambas. sentada às margens do Missouri sussurrante. eles encontraram o corpo do estudante fugitivo: o pequeno Garras de Urso fugira para onde os internatos não poderiam torturá-lo mais. por mais que estejam forçadamente no limiar de duas culturas. Desta forma. fiquem felizes! Olhem e vejam o novo dia nascendo! A ajuda está próxima! Ouçam-me todos. p. Porém. utilizando-se de expedientes da cultura e do conhecimento do dominante para transmitir seu conhecimento e sua indignação com a situação em que vivem suas respectivas etnias. tradução nossa). a cultura branca imposta e a cultura indígena perdida. cheio de tendas brancas em forma de cone. seu final não é feliz. na figura do Medicine Man. em algumas obras. as duas autoras. mas procurarem a resolução dos problemas no presente. eu me maravilho com o grande azul acima. A identidade fragmentada e a opção pela indianidade (o desaparecimento das origens brancas) 52 ..” Ela sentiu as ondas de alegria e ficou emocionada com nova esperança para seu povo” (ZITKALA-ŠA. 2003. 96.] Ela ouviu distintamente as palavras Dakota que ele proclamava ao povo. fazem a opção pela cultura indígena. (em busca de Garras de Urso. Potiguara coloca a aldeia como símbolo da própria identidade indígena para aqueles que a perderam: Eu não tenho minha aldeia / Minha aldeia é minha casa espiritual / Deixada pelos meus pais e meus avós / A maior herança indígena [. como pode ser mostrado nesse excerto: “Quando o espírito penetra meu peito. A tribo usa sua tradição para encontrá-lo. A relação respeitosa e simbiótica do indígena com a natureza também está presente nas autoras. 114) No poema “Eu não tenho minha aldeia”. procuram estabelecer aspectos de identidade do índio e lembrar as tradições. 2001. Já tenho minha aldeia / Minha Aldeia é Meu Coração ardente / É a casa dos meus antepassados / E do topo dela eu vejo o mundo (POTIGUARA. 2004.tê-la destruído. Porém. 131-132). gosto de andar calmamente entre as montanhas verdes. p. [. onde ela conta a história de um menino que foge da repressão do internato. 142. pois a morte aparece como a libertação para o pequeno fugitivo: “Ali. o estudante perdido). a comunhão com a natureza e a aldeia. hibridizando seus conhecimentos e o uso que fazem dele. ou. “Alegrem-se. em ZitkalaŠa.. como no conto Search of Bear Claws. the lost schoolboy. de forma a não ficarem presas ao passado. ambas mostram-se conscientes de que é necessário o conhecimento do idoso e a ação do jovem para que a cultura indígena sobreviva.. viva com o povo indígena. 2003. p. às vezes. o curandeiro. sob o manto da neve.” (IDEM. era real como a vida – um acampamento circular. o uso das ervas para Potiguara.” (IDEM.] Ah.

O homem indígena em Zitkala-Ša é respeitável e amado. a neve representando o branco – como em outros contos da autora. generalizações e ideologias sexistas e racistas. o conto the snow episode mostra uma outra faceta da relação índio/ branco: as meninas índias brincam de marcar a neve com seus corpos e são duramente repreendidas. a frieza e o motivo da dor do índio). e não “avermelhar” o branco. Os temas de outremização e identidade também estão presentes no corpo. mas geralmente está perdido. 2004. pelos veículos nos quais publicou. do conto The Warrior’s daughter. pois a diferença gera hierarquias e dominação (TRINH. Outros símbolos. o homem indígena serve de inspiração à mulher. uma visão. mas o choque entre a cultura branca e indígena procura ser resolvido pelas autoras de uma forma suave. as crianças estariam indo contra a proposta assimilacionista. Potiguara afirma que Jurupiranga “Percebeu a comunhão da nova e avançada tecnologia utilizada por alguns indígenas com as tradições indígenas. Ao marcarem o branco da neve com seus corpos vermelhos. 129). no entanto. louco. além de oferecer terrenos seguros para essencialismos. motivo 53 . onde o diálogo jovens versus velhos era uma realidade” (POTIGUARA. não violenta. que era “embranquecer” o índio. como o cobertor e a fogueira do centro da aldeia (para Zitkala-Ša) e a pintura (para Potiguara) também representam a afirmação do índio e a busca de sua identidade. mas ela tem uma escrita que contrasta e ressalta sensações corporais. p. Metaforicamente. A união da modernidade e da tradição são patentes nas duas obras. enquanto Potiguara é mais incisiva na apresentação e na busca da resolução dos conflitos em a que a solução aparece pela união da mulher indígena e do homem indígena. como a personagem Tusee. com respeito mútuo. a neta ativista recebe de presente do avô. de Zitkala-Ša. No conto A dream of her grandfather. e contrasta o corpo branco e indígena. além de reiterar exaustivamente a agência feminina. 1989).O corpo e o gênero O corpo marca as diferenças visíveis entre etnias e entre gêneros. que sempre será a guerreira e portadora da tradição. utilizando-se de diferentes armas. talvez pela educação rígida que recebera. ou pelas próprias limitações da época em que viveu. um medicine man. Esta tentativa é mais forte em ZitkalaŠa. No mesmo sentido.aparece propositadamente nas duas escritas autobiográficas. pois é inconcebível que deixem as marcas de seu corpo vermelho na pureza da neve branca (mais uma vez. Impressions mostra o tio da personagem narradora como um guerreiro honrado enterrado nas montanhas da reserva. A terra é mãe do índio. cores. que liberta o amado da tribo inimiga com sua inteligência e seu conhecimento da linguagem. Zitkala-Ša não é direta sobre questões sexuais. A mulher tem a agência. 4 . ou tratase de um nobre antepassado já morto.

“Então tomaremos o mel da manhã. Ambas autoras enfatizam o choque das culturas... o frio e a opressão da prisão são vivazes na escola e o inverno impera. comedores de camarão / Que HOJE – carentes / Nos recomendarão a Tupã / E te darão o anel do guerreiro – parceiro. como a de Zitkala-Ša. sejam elas o eu narrador autobiográfico. como a mãe (no caso de Zitkala-Ša) ou a avó. As personagens femininas são fortemente retratadas dentro das obras das duas autoras. é também sensual: a terra não é apenas a mãe do índio. na obra de Potiguara.de inspiração e contato com a divindade e a mulher é aquela que liberta o homem. A mulher é consciente de seu poder. as parentes. que faz Jurupiranga renascer. ou Cunhataí. mas reforça sua identidade (no caso de Potiguara) ou é 54 . / E a mim? / Me darão a honra do Nome / A ESPERANÇA – meu homem! / De uma pátria sem fim” (IBIDEM. 2004 p. A escrita é sensorial em Zitkala-Ša – os sentidos são aguçados a todo o momento. enquanto a escuridão. 34-35). / A barriga da mãe fecunda / E os cânticos que outrora cantava / Hoje são gritos de guerra / Contra o massacre imundo (POTIGUARA. mas é também um guerreiro nobre e está em vias de despertar. mas sua esposa prometida: a cunhã. como a avó que opta por ficar para trás num período de guerra. Ela salva o homem em quase todas as obras. o que faço com a minha cara de índia? Não sou violência / Ou estupro / Eu sou história / Eu sou cunha / Barriga brasileira / Ventre sagrado / Povo brasileiro / Ventre que gerou / O povo brasileiro / Hoje está só . mas são fortes e questionam o mundo que as cerca. mas está no aguardo de um momento para quebrar o silêncio: Que faço com a minha cara de índia ? E meus espíritos / E minha força / E meu Tupã / E meus círculos ? Que faço com a minha cara de índia? / E meu sangue / E minha consciência / E minha luta / E nossos filhos ? Brasil. Enquanto isso. / Pra que todos os antepassados renasçam / E olharemos pro céu do amanhã / Pra que nossos filhos se elevem / E beberemos a água do carimã / Pra suportar a dor da Nação acabada / E os POTIGUARAS. mesmo que seja uma salvação simbólica. mas apostam na sua resolução de maneira menos invasiva e violenta. 138139). pequena. p. e as descrições são vivazes neste sentido – gostos e cheiros da aldeia dentro da reserva são suaves e coloridos e é sempre verão ou primavera. a escrita de Potiguara além de profundamente sensorial. O homem indígena não é superior ou inferior à mulher. mesmo sabendo que ia morrer. se levantar e voltar a usar as tintas de sua tradição. ou personagens fictícias. As mulheres nas obras das duas autoras podem ser empurradas e sofrerem pelas circunstâncias. O índio de Potiguara está fraco (Jurupiranga). em consonância com a modernidade. para procurar seu netinho (Zitkala-Ša). no caso de Potiguara.

Tradução: Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. Enquanto isso. pela diferença de cultura e por seu objetivo final com relação aos leitores. com outros assuntos explorados de forma mais dramática. Post-colonial transformation. oferecendo uma hibridez e resistência tendo como uso a linguagem dominante subvertida. como o tratamento cruel recebido nos internatos. com nomes e situações históricas comprovadas e claras contra o modo velado de Zitkala-Ša aludir a situações como as marchas forçadas. Bill. HALL. Potiguara mistura a escrita acadêmica e sóciohistórica. Stuart.fonte nobre e inspiradora de ação independente por parte da mulher (no caso de Zitkala-Ša). e muitas vezes conflitantes. 2002. os índios brasileiros passam por lutas parecidas com relação ao preconceito. e a ONU. Identidade cultural na pós-modernidade. além da escrita autobiográfica.Considerações finais As duas autoras misturam de forma vivaz a ficção. Referências Bibliográficas ASHCROFT. mesmo que essa não seja uma realidade. 7. com poesias que discutem a posição da mulher e do índio na sociedade e perante si mesmo. mostrar aspectos desconhecidos e calados dos sentimentos e angústias vividas pela mulher indígena diante de uma sociedade opressora. enquanto Zitkala-Ša recupera as histórias e a oralidade de seu povo. à luta pela demarcação de suas terras. mas muitas vezes similares. por marchas forçadas. mas não totalmente igual: os índios americanos nos século XIX não eram considerados cidadãos. ed. A principal diferença nas formas está na denúncia direta por parte de Potiguara. a escrita jornalística de informação com relação à situação indígena. além de estarem circunscritos ao bel prazer do governo em reservas. 2002. poesia e narração com moldes na oralidade indígena. o massacre de índios em Wounded Knee e às guerras. apostando na captura do leitor através da identificação do mesmo com o sofrimento e a bravura das personagensa. onde recebiam parcas rações de subsistência. mas procuraram negociações de suas identidades. Ambas buscaram por caminhos às vezes diferentes. além de narrativa ficcional e também escrita autobiográfica. Eliane Potiguara e Zitkala-Ša partiram de uma realidade até certo ponto parecida. Rio de Janeiro: DP&A. As duas autoras não deixaram que a ânsia e a necessidade de dizerem suas identidades ou a identidade da mulher indígena fosse maior que a forma de talento literário que se apresenta em suas obras. 5 . As duas também fazem uma retomada dos mitos e tradições para esclarecerem às outras etnias e lembrarem os próprios indígenas de seu passado. por guerras e ataques do exército. de forma que pudessem viver em um mundo de culturas e corpos híbridos sem caírem no identitarismo vazio. 55 . que ouvia quando criança. entre outros órgãos mundiais procuram garantir sua liberdade e tratamento humano. Eram exterminados por doenças e pela fome. London and New York: Routledge. não tinham direito a voto e muito menos representatividade política.

Cathy and NORRIS. may 1996. 2004 TRINH. escrita de autoria feminina. especialmente para gerar o sucessor ao trono de D. ZITKALA-ŠA. Dreams and Thunder: Stories. legends and other writing. 227 p. Maria Ana Josefa parece não conseguir engravidar. Metade Cara. Lincoln: University of Nebraska. Woman. (with introduction and notes by DAVIDSON. 2003. Other: Writing Postcoloniality and Feminism. Metade Máscara. ela é quem é considerada infértil e. conseqüentemente. Bloomington and Indianapolis: Indiana University Press. a rainha D. Estante de Livros José Saramago Memorial do Convento Apesar de ter sido trazida da Áustria já há dois anos. lendas. atuando principalmente nos seguintes temas: pós-colonialismo. Atualmente é docente e coordenadora do curso de Secretariado Executivo Trilingue. Quando. chega ao palácio D. Ada). poetisa com poesias premiadas. Possui graduação em Letras Inglês/Português pela Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão (1992) e mestrado em Letras . casada com José Feldman. membro da Ordem Nacional dos Escritores. Sendo o rei um símbolo de virilidade. POTIGUARA. com ênfase em Teoria Literária. Laurie. Minh-ha. Dissertation of requirement for the Degree Doctor of Philosophy. Antônio de S. é natural de Ubiratã/PR. a única culpada pelo fato de o rei ainda não ter tido herdeiros. São Paulo: Global.Estudos Literários pela Universidade Estadual de Maringá (2006). de São José do Rio Preto (2010). Native. o rei se prepara para ir ao quarto da rainha para mais uma tentativa. USA: Arizona State University.Cascavel / PR Alba Krishna Topan Feldman. acompanhado de um velho frade franciscano. reside em Maringá. João V. Tem experiência na área de Letras. 1989. nos Estados Unidos. multiculturalismo. Doutorado de Letras na UNESP. ______. escritora. American Indian Stories. USA: Penguin Classics. Diz o frade que a 56 . bispo inquisidor. da Universidade Estadual de Maringá (PR). e complementação na Louisville University (2009). Nuno da Cunha. T. Ensino e Linguagem UNIOESTE . que propõe uma solução para o problema do rei. Poems. ao cair da noite. Foi uma das fundadoras da Associação dos Literatos de Ubiratã/PR. The life story of Zitkala-Ša: Gertrude Simmons Bonnin: writing and creating a public image. Fonte: II Seminário Nacional em Estudos da Linguagem: 06 a 08 de outubro de 2010 Diversidade.LISA. and The Sun Dance Opera: Introduction by Jane Hafen. José. rei de Portugal. Eliane. 2001.

D. Baltasar anda pelas ruas da capital e conhece João Elvas. Em tom irônico. um homem de 26 anos. Maria Ana não podia gozar dessas liberdades. Diz-se. enquanto o rei sonha que seu pênis está se transformando em árvore e. caminhando pela estrada real. talvez a rainha já estivesse grávida e que talvez o padre o já sabia disso. cada um conta 57 . agora se encontrava grávida. o Infante D. depois de ter sido soldado e perdido a mão esquerda em uma batalha contra a Espanha. segundo outros. A gravidez da rainha foi atribuída ao poder milagroso de Santo Antônio ou. mata um ladrão que havia tentado assaltá-lo. Depois de consumado o ato sexual. se a concepção da rainha ocorresse. Em contraste com os conflitos da família real está a história de Baltasar Mateus. suas diferentes fantasias: ela sonha que tem um encontro amoroso com seu cunhado. Não sabendo ainda se ficaria em Lisboa ou se continuaria viagem em direção a Mafra . todas as mulheres retornaram para a reclusão de suas casas. durante a quaresma as ruas se encheram de gente que fazia cada um suas penitências. como se por acaso. mesmo depois de morto. Em todo caso. Baltasar dirige-se a Lisboa. Francisco de Xabregas conta-se que. conservara seu corpo intacto durante dias. Feita a promessa. que vigiava uma igreja franciscana.rainha engravidaria assim que o rei prometesse construir um convento para os frades da ordem dos franciscanos na vila de Mafra. Segundo a tradição. onde ainda viviam seus pais. E do convento de S. tendo ido para a cama cedo. certa vez. num mosteiro de jesuítas. antes mesmo da promessa. locomovera-se até à janela. vai passar a noite num “telheiro abandonado”. uma grande quantidade de devotos para sua igreja. junto a outros mendigos. onde ladrões tentavam entrar. e logo depois foram encontradas. desde então. em colunas do convento que ele prometera construir para os franciscanos. o fato seria visto como mais um entre os vários milagres tradicionalmente relacionados à ordem de São Francisco. Passada a quaresma. a quaresma era a única época em que as mulheres podiam percorrer as igrejas sozinhas e assim gozar de uma rara liberdade que lhes permitia até mesmo de se encontrarem com seus amantes secretos. a caminho de Lisboa. Francisco. conhecido como “o Sete-Sóis”. Baltasar pede esmola em Évora e. Francisco. consolou-se em sonhar outra vez com D. com quem. à ameaça que um frade velho fizera contra a imagem do santo. Assim. Porém. como de costume. Com um que lhe servia de mão e um espigão de ferro que funcionava como uma arma. seu cunhado. o casal real vai finalmente para o quarto. que um tal frei Miguel da Anunciação. além de ser rainha. o narrador revela suspeitas de que. passando-lhes assim um grande susto. logo em seguida. atraindo. Passado o “entrudo” . a imagem de Santo Antônio. por exemplo. rei e rainha dormem e sonham cada um com seus próprios desejos. Antes de dormir. pois. Em outra ocasião. acusando o protetor de descuido. suas lâmpadas tinham sido roubadas. para decidir a quem pertenceria o trono espanhol.

a rainha Maria Ana deixa de freqüentar o grande auto-de-fé na praça do Rossio em Lisboa. Ele já tinha tentado descobrir o mistério através do padre Bartolomeu Lourenço que. chamando de “a passarola”. Baltasar. tentando desvendar esse mistério de uma vez por todas. dizendo apenas que voar é um mistério pequeno se comparado ao mistério de Blimunda. Blimunda. Entre os condenados pelo Santo Ofício. mas enquanto não chega o dinheiro para o material necessário. Sebastiana. Baltasar aceita o convite do padre para ser seu ajudante no projeto de construir a tal “máquina de voar”. Enquanto isso. que estava procurando usar sua influência no palácio para conseguir dinheiro. come um pedaço de pão e promete a Baltasar que nunca o olharia “por dentro”. Ao encontrar-se com o padre Bartolomeu Lourenço. os quais são comparados às mortes que alguns deles presenciaram na guerra. sem abrir os olhos. no palácio. Baltasar Mateus. que já há dois anos não ocorria. apesar de conhecer a verdadeira razão. ao acordar. Maria Xavier Francisca Leonor Bárbara. que sempre dormia no lado direito da enxerga . começa a procurá-lo desesperadamente. para decepção do rei. Voltando a sua casa. fica trabalhando em um açougue. Ali seriam castigados pela Inquisição diversos casos de heresia. jovem de poderes sobrenaturais. um é focalizado com maior destaque. depois de receber o pão das mãos de Baltasar. heróis da historiografia oficial. a promessa do rei de construir o convento seria mantida. que é batizada por sete bispos. acusada de ser feiticeira e cristã-nova. o Sete-Sóis. torna-se a narradora da história. que ocupará o centro da narrativa. Começa aqui a fiel e duradoura amizade entre os três personagens que se contrapõem aos personagens da família real.histórias de crimes que ocorreram na cidade. Finalmente. não a quis revelar. Inicia-se também a relação amorosa entre Baltasar e Blimunda. Blimunda leva consigo o padre e deixa a porta aberta para que o recém-conhecido também possa entrar. Sebastiana Maria de Jesus tem uma filha de 19 anos: Blimunda. Depois de o padre sair. procura saber por que Blimunda sempre comia pão ao acordar. Blimunda revela que tem o poder de “olhar por dentro 58 . Baltasar fica sabendo que o padre era conhecido como “o Voador”. ao acordar. Não somente por causa da gravidez de cinco meses. No dia seguinte. durante alguns parágrafos. É Sebastiana Maria de Jesus. Perto dela está um homem. a rainha dá à luz uma menina. Certa manhã. a quem ela se dirige e cujo nome procura saber. antes mesmo de abrir os olhos. por ter criado uma máquina a qual todos ridicularizam. José já ter morrido quando do nascimento da criança. que assiste à procissão ao lado do padre Bartolomeu Lourenço. pelo menos até que ele tivesse que voltar a Mafra . evento muito popular. Baltasar esconde o pão de Blimunda que. Blimunda convida Baltasar para que fique morando em sua casa. mas também por estar de luto pela morte de seu irmão. Apesar de o frade Antônio de S.

onde dizem que os sábios conhecem os mistérios da alquimia e a natureza do éter . Padre Bartolomeu. Pedro. com a ajuda de Baltasar e Blimunda. seu irmão aproveita as perspectivas que lhe são favoráveis e 59 . proveniente do churrasco realizado no final da festa _ . enquanto Baltasar iria trabalhar com o pai no cultivo de terras que não lhes pertenciam. Assim como os autos-de-fé . Dos dois filhos desse casal. No dia seguinte. estava casada com Álvaro “Pedreiro” Diogo. Antes de partir. Baltasar fica sabendo que sua única irmã. o único elemento que. o órgão sexual de um jovem. pois elas haviam sido desapropriadas para a construção do convento. evitando olhá-lo. traria muitos empregos para os moradores da região. amigo do rei. Baltasar vai visitar as obras do convento e. ao invés de mais um auto-de-fé que seria realizado na praça do Rossio. Blimunda. João V. estava trabalhando no campo. já que antes tinha prometido não “olhá-lo por dentro”. ainda em jejum. e até mesmo uma moeda enterrada no chão. já que João Francisco. a uma outra festa popular. segundo ele. uma obra monumental que. Baltasar é recebido por sua mãe. o que existe no subsolo. segundo acreditavam. o que podia fazer somente quando estava em jejum. Encontrando-se o rei bastante enfermo. a tourada. Inês Antônia. de quem a jovem se tornaria companheira e ajudante. com sua amizade e influência protegia o padre das garras da Inquisição que. apodrecido por doença venérea. Baltasar e Blimunda mudam-se para a abegoaria na quinta do duque de Aveiro. encontra Blimunda conversando com Maria Marta. Enquanto no palácio nascia D. Baltasar fala à família de suas intenções de ficar morando com a mulher em Mafra . depois que o padre parte. caso viesse saber dos projetos do padre. prossegue na construção da passarola. depois de se certificar de que ela não era judia ou cristã-nova . apenas um sobreviveria. partir à Holanda. Na quinta do duque de Aveiro. Pedro. seu pai. especialmente para o cunhado de Baltasar. Além de proporcionar-lhe o lugar de trabalho. o rei. Sebastião da Pedreira. para provar-lhe seu poder (ou infortúnio). sendo que o outro morreria ao atingir a mesma idade em que o infante D. terra natal de Baltasar. também morreria. Dentre as coisas que vê. e o rei viajava a Mafra para escolher o lugar onde seria erguido o convento monumental. Marta Maria. o que não era completamente verdade. o casal decide assistir. O pai informa ao filho recém-chegado de que abrira mão de suas terras na Vela. segundo filho da família real. Baltasar e Blimunda.das pessoas”. que se interessara pelo projeto do padre como uma criança se interessa por um brinquedo novo. teria motivos suficientes para acusá-lo de heresia. ao retornar. Decide. Ao chegar à casa da família em Mafra . em S. estava faltando para que sua invenção fosse concluída. Blimunda descreve a gravidez de uma mulher. que era pedreiro. acompanhado de Blimunda. decidem mudar-se para Mafra . filho de D. sai à rua com Baltasar. A família acolhe bem Blimunda. então. anos mais tarde. as touradas sempre terminavam com um forte cheiro de carne queimada.

pela primeira vez Blimunda comunga conforme manda os ensinamentos da igreja católica. E que. o padre pede a Blimunda que olhe dentro das pessoas e encontre essa “vontade”. Mesmo depois de recuperada a saúde do rei. em jejum. Em conversa com Blimunda e Baltasar. Dias antes da inauguração dos alicerces. realizou-se uma grande festa pública. fosse ela casada com um ou outro irmão. o éter não é uma substância que possa ser encontrada pelas artes da alquimia. O infante D. já que ela tem plena consciência de que sua condição de mulher e rainha mudaria pouco. que lhe oferece um quarto para ficar hospedado. encontrando a albegoaria abandonada. Ao fazê-lo. de modo que o que era catástrofe passou a ser visto como milagre. a 17 de novembro de 1717. encontrava-se com a estrutura enferrujada e os panos cheios de mofo. ou seja. abandonada. ao chegar. antes de subir ao céu. o casal decide partir de volta à quinta. que logo quer saber quantas vontades Blimunda já recolhera. Pouco tempo depois chega o padre.revela à rainha seu interesse em tornar-se seu marido e o novo rei. o padre Bartolomeu conta-lhes o que descobrira na Holanda. Ao ouvir que até então havia apenas trinta “vontades” na garrafa. Já tendo o padre ido para Coimbra há algum tempo. que ao contrário do que se pensa. uma grande tempestade de vento. decide visitar o casal amigo em Mafra . mas que. onde. de onde conta retornar já “doutor em cânones”. Sabendo do acidente. Algumas semanas depois. No primeiro dia de festividades. onde estivera por três anos. numa conversa que seria a primeira entre tantas que finalmente acabariam por destruir o desejo original que ela experimentara. o padre Bartolomeu Lourenço dirige-se à quinta de S. encontra um pároco. Voltando da Holanda. cada vez que percebesse a vontade de alguém escapando. no dia seguinte. seus antigos sonhos nunca teriam aquele mesmo encanto de antigamente. que é como uma nuvem fechada. que é a substância que atrai o éter. Antes. a inauguração foi feita em cerimônias restritas a poucos convidados e. Sebastião da Pedreira. porém. vê na hóstia uma nuvem fechada. Baltasar desmonta a passarola que. seis anos depois de o rei ter feito sua promessa). Baltasar continua trabalhando na “máquina de voar” enquanto padre Bartolomeu vai 60 . cujas primeiras pedras seriam colocadas pelas mãos do próprio rei. pois nada mais é do que a “vontade” de cada um. o éter existe dentro das pessoas. Em Mafra. comparável ao “sopro de Adamastor” derruba a igreja de madeira construída especialmente para a cerimônia. o rei começa a distribuir moedas de ouro. Assim. o padre lhe diz que eram necessárias pelo menos duas mil. parte em direção a Coimbra. assim que passassem as festividades de inauguração dos alicerces do convento. que ela a capturasse usando um frasco contendo âmbar. De volta à quinta do Duque de Aveiro. (ou seja. o que muito a impressiona. e distribui ainda mais quando os pedreiros voltam ao trabalho e reconstroem a igreja em dois dias. Francisco Gonçalves. ou seja. Francisco declara saber que é objeto dos sonhos da rainha.

o rei já não pode fazer nada para que o Duque de Aveiro lhes empreste a quinta onde trabalham. a fim de concluir seus estudos. Assim. napolitano de 35 anos.constantemente a Coimbra. se alastrava por Lisboa e já matara quatro mil pessoas em três meses. deixando para trás apenas o cravo de Domenico Scarlatti . que a princípio receberia a aprovação e até mesmo a admiração dos padres e censores do Santo Ofício. o padre fica conhecendo o músico Domenico Scarlatti . Maria Bárbara que. o músico Scarlatti vai tocar-lhe cravo. onde o padre revela seu segredo ao músico e apresenta-lhe a “trindade terrestre”. tendo prometido que voltaria trazendo seu cravo e o tocaria para o casal e para a passarola. só lhe resta propor ao casal que os três terminem rapidamente o projeto e juntos fujam na “máquina de voar”. Além disso. antes de lançar o instrumento ao fundo de um poço. o padre questiona os fundamentos da doutrina cristã da trindade divina. onde várias pessoas vêem a máquina voadora. O casal acaba se tornando conhecido em Lisboa. Depois de cumprida a tarefa. a “passarola” enfim levanta vôo. no final da epidemia. Blimunda fica doente e. Assim. por sempre andar pela cidade sem medo da epidemia. durante toda sua convalescença. O encontro dos dois homens estimula uma discussão sobre o poder extraordinário da música e a essência da verdade. Scarlatti . nada falta para que o invento do padre seja testado. consegue recolher as duas mil vontades necessárias para fazer voar a “passarola”. composta por ele. Quando volta definitivamente para Lisboa. julgando ser uma aparição do Espírito Santo. Sebastião da Pedreira. Blimunda faz o que o padre lhe pedira e. Encontrando dificuldades para controlar a máquina. mas volta aflito. trazida do Brasil. o padre Bartolomeu pede a Blimunda que aproveite a ocasião para recolher as vontades que se desprendem do peito dos moribundos. O padre. que chegara à quinta a tempo de ver a máquina subir aos ares. o que contribui para a restauração de sua saúde. já tem nove anos de idade. o padre e o compositor se encontram e juntos vão à S. Sabendo de uma epidemia de febre amarela que. depois de retirarem o telhado da abegoaria e colocarem tudo o que possuem dentro da máquina. pois descobrira que o Santo Ofício já estava a sua procura. Depois de passarem despercebidos sobre a cidade de Lisboa. a essas alturas. o amigo e ajudante Baltasar e sua companheira Blimunda. Depois da partida do italiano que. finalmente a 61 . vai ao palácio se certificar da proteção e amizade do rei. os três sobrevoam a vila de Mafra . que andava receoso do Santo Ofício. senta-se ao cravo e toca uma música. Estando as vontades recolhidas e a máquina de voar já pronta. comparando-se finalmente a música do italiano com a oratória do padre. professor particular de música da infanta D. o padre Bartolomeu Lourenço começa a trabalhar em um sermão que estava preparando para a festa do Corpo de Deus. Nesse sermão. Em outra ocasião.

Ao se cruzarem na rua. de uma imensa pedra. Um dos casos mais dramáticos foi o do trabalhador Francisco Marques. se certificasse de que as vontades ainda estavam guardadas dentro de cada uma das duas esferas. Blimunda. a Mafra . Chegam notícias do terremoto de Lisboa. ficando hospedado na casa de um visconde. em particular. Depois de lá chegarem. conversam às escondidas. Ali. da igreja. resolvem passar a noite para que. graças à iniciativa de Blimunda de segurar junto a seu peito as duas esferas contendo as “vontades”. até chegarem. A partir de então. Seiscentos homens e um grande número de bois foram utilizados na empreitada. Domenico Scarlatti chega a Mafra . depois de alguns dias. que durou oito dias. que freqüentemente se aproveitava das catástrofes para alimentar a religiosidade popular. apesar de achar o ritmo com que se desenvolve demasiado lento. onde haviam deixado a máquina de voar. o dia da tempestade em Lisboa. mas necessitando de alguns reparos. Baltasar decide voltar ao Monte Junto. Dois meses depois de terem chegado a Mafra . Baltasar. onde fora visitar as obras do convento. Apesar dos estragos causados por ambos os desastres. ao amanhecer. que foi seguido de inaudita tempestade _ . Blimunda e Baltasar escondem a máquina sob a ramagem e partem na mesma direção tomada pelo padre. cuja dimensão e quantidade de homens que emprega muito o impressionam.fazem aterrissar. sempre com uma certa esperança de reencontrar o padre. de atar fogo à máquina. durante os quais não faltaram acidentes fatais. da vila de Pêro Pinheiro até a vila de Mafra . tentando evitar as suspeitas dos moradores. O músico trazia a notícia da morte do padre Bartolomeu de Gusmão em Toledo. A construção do convento exige esforços colossais e causa muitas vítimas. Blimunda pela primeira vez pede a Baltasar para acompanhá-lo em uma de suas visitas periódicas ao Monte Junto. enquanto no palácio o rei medita sobre suas riquezas. ele faria visitas freqüentes ao local. para onde ele havia fugido no dia 19 de novembro. destinada a ser a laje de uma varanda sobre o pórtico da igreja. Depois de quase quatro anos em Mafra . Blimunda e Scarlatti . começa a trabalhar nas obras do convento. para nunca mais voltar. Em seguida. cuidando da manutenção da máquina. Algum tempo depois. Mas não podem impedir que ele parta sozinho mata adentro. que se encontrava aflito de emoção ou de medo. que acabou esmagado sob uma roda de um carro de bois. 62 . Ele a encontra no mesmo lugar. onde uma procissão celebrava o milagre que o povo acreditava ter presenciado. celebra-se em Mafra uma missa para um grande número de trabalhadores. ainda em jejum. Um dos eventos mais penosos foi o transporte. No dia seguinte. a exemplo de tantos outros moradores locais. Espanha. implementaram-se os negócios de vários setores da sociedade e. que poderiam achar estranho duas pessoas de níveis sociais tão diferentes se conhecerem. o casal impede o padre.

seu amigo Baltasar. as famílias reais de Portugal e Espanha. Ao conversar com um certo Julião Mau-Tempo. Mariana Vitória. sobre o rio Caia. ao invés de 80. Finalmente. em Elvas. o rei chama o arquiteto alemão João Frederico Ludovice (ou Ludwig). Assim. no nível popular. que menciona a enorme pedra transportada até Mafra. Baltasar decide ir sozinho ao Monte Junto. verificar o estado da “passarola”. mesmo estando as obras. Além da coincidência entre o nascimento da princesa e a promessa do rei de construir o convento de Mafra . Convencido. ainda longe de serem concluídas. o que muito agrada ao provincial dos franciscanos da Arrábida. os trabalhadores. na residência real. enquanto Maria Bárbara. uma comitiva leva a família real até a fronteira dos dois países. o rei decide que a sagração da basílica deveria ser realizada dois anos mais tarde. pouco mais de um ano depois da “troca das princesas”. os santos passariam a noite conversando pela última vez. a “troca das princesas” uniria. no dia vinte e dois de outubro de 1730. junto a um grupo de pedintes. Ao tentar fazer 63 . seria levada a Espanha para unir-se a Fernando. seria trazida a Portugal para que se casasse com o infante D. Blimunda e Baltasar resolvem ver as imagens dos santos Segundo acreditam. passando por Mafra . De fato. as famílias reais de Portugal e de Espanha logo se preparariam. tornara-se necessário que se recrutasse um grande número de trabalhadores. com o argumento de que o rei não viveria o suficiente para ver a obra concluída. de 11 anos. Em 1730. entre o rei e o almoxarife ou guarda-livros. Pedro. o que se reflete em conversa. de 17 anos. ambicioso demais para os recursos do reino. a comitiva à fronteira onde está situada sua cidade natal. Ao amanhecer. a basílica do convento seria enfim consagrada. que conhecera Baltasar em Lisboa logo depois da guerra. João V manifesta seu desejo de construir uma Basílica em Portugal como a de S. Pedro em Roma. João Elvas lembra-se do exsoldado.Enquanto isso. duas outras histórias convergem. de modo que. acompanha. dois anos mais novo que a noiva. da Espanha. na basílica. imaginada pelo narrador. com quem o interlocutor havia trabalhado. Com a ampliação do projeto. que o dissuade da idéia. coubessem nele 300 frades. para se unirem através de dois casamentos. quando ele completasse 41 anos. sem dúvida. o que causaria grande tristeza a muitas famílias de toda a região. Na região de Mafra . D. João Elvas. antes de serem isolados em seus nichos. o rei decide então ampliar a dimensão do projeto do convento de Mafra. Para dar conta do projeto gigantesco. Simultaneamente. dentre os quais muitos seriam levados a fazer o trabalho contra a própria vontade. O projeto é. em 1729. Várias estátuas de santos desfilam pelas ruas e são transportadas até o local onde seriam instaladas. em 1729. estivesse ou não a obra concluída. segundo um acordo que já havia sido concluído havia quatro anos. chamam a atenção da princesa e por um momento lhe despertam compaixão. tanto as da basílica como as do convento. que à força são levados às obras do convento.

em 16 de novembro de 1922. mudando-lhe o sentido. Baltasar tropeça e rasga os panos que cobriam as esferas. O seu primeiro emprego foi de serralheiro mecânico. onze vítimas encontram-se a caminho da fogueira – inclusive o dramaturgo Antônio José da Silva. “O Judeu”. livro que conquista definitivamente a atenção de leitores e críticos. Saramago era funcionário público. a máquina inesperadamente levanta vôo. que ela não hesita em usar quando um frade a tenta violá-la. Depois surge o romance Memorial do Convento. onde um revisor é tentado a introduzir um "não" no texto histórico que corrige. Blimunda continua a procurar Baltasar durante nove anos. o autor trouxe a lume mais quatro romances que remetem a fatos da realidade material. sobre as andanças do heterónimo de Fernando Pessoa por Lisboa. em um auto-de-fé na praça do Rossio. funcionário da Editorial Estudos Cor. de modo que quando os raios de sol as atingem. De 1980 a 1991. As marcas características do estilo "saramaguiano" só apareceriam com Levantado do Chão (1980). em situação semelhante àquela em que conhecera Baltasar. do cristianismo.os já costumeiros reparos na máquina. no Diário de Lisboa. Blimunda vai procurá-lo no dia seguinte. (CD ROM) José Saramago nasceu na vila de Azinhaga. apenas o espigão de ferro. 64 . Aos 25 anos. problematizando a interpretação da "história" oficial: O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984). que conheceu em 1986 e ao lado da qual viveu até à morte. do sofrimento e da morte. A sua vida é passada em grande parte em Lisboa. depois. Num espa ço de cinco anos. Em 1975. mais dois livros de poesia: Provavelmente Alegria (1970) e O Ano de 1993 (1975). no concelho da Golegã. e O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991). Tecnologia Ltda. questiona o lugar de Deus. Nessa época. entre 1970 e 1986 com a escritora Isabel da Nóbrega. publica. Três décadas depois de publicado Terra do Pecado. retorna ao DN como Director-Adjunto. livro no qual o autor retrata a vida de privações da população pobre do Alentejo. casar-seia com a jornalista e tradutora espanhola María del Pilar del Río Sánchez. Dezenove anos depois. troca a prosa pela poesia. CEC0004 – Digerati Com. lançando Os Poemas Possíveis. Demonstra desde cedo interesse pelos estudos e pela cultura. mas não encontra seu amado. cujo vulto Blimunda vê. publica o primeiro romance Terra do Pecado (1947). de uma família de pais e avós agricultores. Dificuldades económicas impedem-no de entrar na universidade. sua “vontade” se desprende e é finalmente recolhida dentro do peito de sua amada Blimunda. ao mesmo tempo em que romarias se dirigem à sagração da basílica. em que se questiona o papel Ibérico na então CEE através da metáfora da Península Ibérica soltando-se da Europa e encontrando o seu lugar entre a velha Europa e a nova América. Em 1988. perambulando por todas as partes do país. A Jangada de Pedra (1986). fruto do primeiro casamento com Ilda Reis – com quem se casou em 1944 e com quem permaneceu até 1970. Formou-se numa escola técnica. sendo que esta curiosidade perante o Mundo o acompanhou até à morte. Estava lá também Baltasar. para trabalhar no Diário de Notícias (DN) e. É quando troca também de emprego. Viveu. no mesmo ano de nascimento da sua filha. Saramago retornou ao mundo da prosa ficcional com Manual de Pintura e Caligrafia. a fundo. para onde a família se muda em 1924. Sua jornada termina em Lisboa. Em 1739. Quando Baltasar está para morrer. Violante. onde permanece por dez meses. onde Saramago reescreve o livro sagrado sob a óptica de um Cristo que não é Deus e se revolta contra o seu destino e onde. História do Cerco de Lisboa (1989). Fonte 1100 Cursos e Apostilas.

a última palavra deste verso está incorreta (indefinida).págs..wikipedia.. 3/4 Somente o último parágrafo pertence a Drummond (que está em seu livro Fazendeiro do ar). que possui o mesmo significado. vítima de leucemia crónica. pois é originária do latim “indefinitus”. 65 . quando o correto é “indefinita”.. Ensaio sobre a Lucidez (2004).. O Homem Duplicado (2002).pág. na sua casa em Lanzarote onde residia com a mulher Pilar d el Rio.. Fonte: http://pt. e As Intermitências da Morte (2005). em Lisboa em 18 de junho de 2011. A Caverna (2001). Foi erro na publicação original. Saramago faleceu no dia 18 de Junho de 2010... As cinzas do escritor foram depositadas aos pés de uma oliveira. último verso . de Portugal.org/wiki/Jos%C3%A9_Saramago Errata do número anterior (397): Mensagem na Garrafa: Carlos Drummond de Andrade (Reverência ao Destino).. Todos os Nomes (1997). o restante do texto é de autoria desconhecida. aos 87 anos de idade.Entre 1995 e 2005. Chuva de Versos: Bastos Tigre (Poema Vita Brevis). Saramago publicou mais seis romances. dando início a uma nova fase em que os enredos não se desenrolam mais em locais ou épocas determinados e personagens dos anais da história se ausentam: Ensaio Sobre a Cegueira (1995)... 8 Como bem observado pela trovadora Elisabete Aguiar.

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