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CAPÍTULO V VIOLÊNCIA CONTRA HOMENS

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CAPÍTULO V: VIOLÊNCIA CONTRA HOMENS

Beatriz Chaves Ros de Castro Denis Soares da Rocha Tavares Karine Reis Almeida Luiz Felipe Castelo Branco da Silva Roseli de Fátima M. de Lima Dutra1

Embora a literatura referente à violência contra o homem não seja tão vasta quanto à dirigida à mulher, os estudos e reflexões sobre o tema podem indicar caminhos para sua compreensão e contextualização. Para tanto, por questões óbvias, tratar deste tema exigiria a definição prévia do termo “violência”. No entanto, revela-se pertinente ressaltar que não objetivamos tecer discussões em torno desse conceito. Esta opção se coaduna com o fato de ter-se na literatura um direcionamento sobre este tema. Diversos autores afirmam sobre a prudência de uma compreensão do fenômeno “violência” enquanto fato social plural e multifacetado, não se revelando fecundo buscar-se uma definição única e definitiva (BONETTI; WIGGERS, 1999; DALBOSCO, 2006; LEVISKY, 1998; MAFFESOLI, 1997; MICHAUD, 2001; ZALUAR, 2004; ZIMERMAN, 2001). Para orientação de nossa discussão, adotaremos a definição de Michaud (2001), que embora não almeje definir violência, busca circunscrever este tema em torno dos atos e estados mais insidiosos que o caracterizam. Segundo este pensador tem-se que:
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Os autores são todos Psicólogos e Terapeutas de Casais e Famílias em formação por meio do convênio entre o INTERPSI e a Pontifícia Universidade Católica de Goiânia.

Há violência quando, numa situação de interação, um ou vários atores agem de maneira direta ou indireta, maciça ou esparsa, causando danos a uma ou várias pessoas em graus variáveis, seja em sua integridade física, seja em sua integridade moral, em suas posses, ou em suas participações simbólicas e culturais. (p. 11)

Nesta definição, o citado autor busca contemplar dimensões da violência que se revela em sutilezas que nem sempre se apresentam bem definidas em seus contornos ou efeitos, ressaltando três elementos: 1) tipo de interação; 2) tipos de ação e 3) tipos de efeitos. Deste modo, as situações de interação onde se há violência, podem acontecer de maneira aberta e circunscrita, como no enfrentamento franco entre dois adversários, ou distribuída entre diversos atores. Neste segundo aspecto, a inserção de múltiplos participantes, ocasionaria uma diluição das

responsabilidades, produzindo efeitos cuja origem seria percebida como anônima. Outro elemento de destaque se revela na distribuição temporal da violência, coadunada com os tipos de ação. Para Michaud (2001), esta pode ser ministrada instantaneamente (maciça) ou gradualmente (distribuída). Deste modo, pode-se matar, deixar morrer de fome ou favorecer situações que resultem em desnutrição até o óbito, dependendo da gradação adotada. Por fim, o autor amplia a discussão para os tipos de efeitos da violência que não se restringem aos prejuízos materiais e físicos, agregando aqueles de ordem psicológica, morais, de crenças e de costumes como capazes de gerar danos graves.

Ampliando a conceituação de Michaud (2001), concordamos com o posicionamento de Magagnin e Almeida (2000) quanto ao imperativo de considerar-se o espaço das relações sociais estabelecidas, como fator importante ao se lidar com o fenômeno da violência. Não desconsideramos, com isso, a dimensão familiar e seus dinamismos autoreguladores, advogando sobre a importância de considerar-se o fenômeno da violência contra o homem em sua complexidade e em sua natureza sistêmica. De acordo com o desenho da violência urbana, nos conflitos das ruas, entre desconhecidos, aparecem como principais vítimas de homicídios os jovens do sexo masculino, entre 20 e 29 anos, sendo a proporção de 15 vezes para um de óbitos por projétil de arma de fogo, de homens em relação às mulheres da mesma faixa etária. Pesquisas na área da saúde reafirmam a incidência de homicídios entre jovens do sexo masculino, mostrando que os homens são, no Brasil, as maiores vítimas da violência (DALBOSCO,

2006; SOUZA, 2005). Adicionalmente, os homens possuem uma expectativa menor do que as mulheres; respondem por 90% do contingente carcerário; morrem mais em acidentes de trânsito, ingestão de álcool e drogas; e cometem mais suicídio do que as mulheres (BIDD8ULPH, 2003; NOLASCO, 2001). Esses dados contribuem para evidenciar a importância de se pensar a figura da vítima, assim como a do agressor, e desmistificar a questão do gênero como construções simbólicas, sobretudo diante da associação naturalizada entre violência e masculinidade. Esta condensação semântica, tão presente no imaginário social, que identifica o homem com o agressor, ao fazer da violência um atributo da masculinidade (NOLASCO, 1995), pode produzir lógicas

equivocadas e coadunadas com um modelo teórico-prático disjuntivo e não sistêmico que engessa os lugares de agressor e vítima de acordo com o gênero (MACHADO, 2004; SILVA, 2009). A identificação prévia de quem pode ser vítima de violência por uma vulnerabilidade é uma construção social que acabou por naturalizar-se em muitas análises sobre a violência contra as mulheres, diante de relações de poder destacadas como domínio masculino. Esta condição pode resultar em dificuldades de concepção e assimilação da ideia do homem como vítima de um ato violento ou ocupando um lugar submetido numa relação violenta. Nessa configuração de gênero, que identifica na masculinidade um lugar absoluto, consubstanciado em poder e controle, não há espaço para o reconhecimento, no homem, da vulnerabilidade presente no humano (CUSCHNIR; JÚNIOR, 2001; GIKOVATE, 1989; NOLASCO, 2001). Exemplo disto revela-se em tendências preconceituosas, inclusive entre profissionais de saúde, em torno da impossibilidade de homens adultos e heterossexuais não poder ser vítima de violência sexual, mas apenas como potenciais agressores (SARTI; BARBOSA; SOARES, 2006) Tais fatos contribuem para pensarmos que a família moderna reproduz essa desigualdade social, construída culturalmente, no que se refere às expectativas geradas sobre o comportamento de homens e mulheres. Existem acordos coletivamente compartilhados que geram expectativas sobre as mulheres, exigindo delas delicadeza, sensibilidade, passividade, subordinação e obediência (BOURDIEU, 2005). E, devido a sua condição biológica de engravidar e amamentar, a sociedade também se delegou a ela o cuidado com o marido, o lar e os filhos sendo, inclusive, responsabilizada por qualquer coisa de errado que acontece.

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Por sua vez, os homens estão relacionados, no espaço público, a papéis como o de provedor e chefe da casa; relativos ao exercício de uma virilidade; de coragem e agressividade. Ao mesmo tempo em que se destina ao homem o papel de dominador social e mantenedor de sua família, espera-se dele a capacidade de suportar doses diárias de frustração no desempenho destes papéis (BOURDIEU, 2005; RAVAZOLLA, 1997). Essa ambigüidade apresenta-se como uma violência dissimulada, de origem dispersa nas relações sociais, que afeta e aprisiona o homem. Tais circunstâncias podem ter como destino a depressão, os problemas associados com o consumo de álcool ou outras drogas e/ou a violência contra si ou seus pares. Em escalada simétrica, pode atingir proporções tais que sua manifestação pode resultar em banalizações e naturalizações nos contextos nos quais se manifesta. Silva (2009) demonstrou a presença de padrões de violência intrafamiliar constituídos e transmitidos transgeracionalmente, tendo a dimensão do álcool como elemento autoregulador de dinâmicas familiares disfuncionais. Foram apontados casos em que meninos serviram como receptáculo aliviador das angústias e dissabores da vida de suas mães, muitas vezes manifestadas em agressões físicas e verbais contra os filhos pequenos, ciclo este mimetizado ao longo das gerações familiares, quando os filhos se tornavam pais. Não obstante, foram destacados as repetições de padrões transgeracionais de violência paterna cuja organização mantinha relação com esquemas de delegações de missões que eram cumpridas em concordância a lealdades invisíveis e no sentido de

manutenção de uma linhagem paterna engendrada sobre uma dinastia alcoolista e reprodutora de violência. Muitas vezes, ao invés da mãe e do pai cumprir as tarefas de proteção e cuidados dos filhos, estes assumem o lugar daqueles e passam a servir como amortecedores da tensão intrafamiliar. Esta inversão passa a ser a regra, podendo os filhos ficar tão sobrecarregados que ficam impedidos de ser criança. Tornam-se crianças com responsabilidades adultas (KRESTAN;

BEPPKO,1989/1995), cuidando de pais pueris e imaturos que possivelmente não receberam os devidos cuidados quando crianças, fenômeno este denominado parentalização ou papel de filho parental (BOSZORMENYI-NAGY & SPARK, 1973/2008; PENSO, 2003; PENSO; SUDBRACK, 2004). A possibilidade de ruptura da família (separação dos pais em virtude dos problemas associados ao consumo de álcool e à violência, por exemplo) mobiliza algo ou alguém que promova um adiamento dessa desconstituição familiar. Assim, um dos filhos é eleito como aquele que assumirá essa tarefa, sendo privado da constituição de uma autonomia própria, estando sua identidade subordinada àquilo que os pais demandam em suas carências emocionais (SILVA, 2009). Desta maneira, é de fundamental importância compreender que a construção da violência no âmbito doméstico não tem relação com as diferenças biológicas entre homens e mulheres. Esses papéis sociais são, na realidade, constituídos e mantidos por crenças e valores culturais e presentes no tecido sócio-familiar. A família vivida, diferentemente da família idealizada, vem se constituindo em cenários de relações violentas. A vivência de violência familiar interfere na construção da identidade masculina, haja vista que os homens

tendem a reproduzi-la nas relações sociais, em especial nas relações com suas companheiras e filhos. Como conceito a violência doméstica pode ser compreendida como:

a violência, explícita ou velada, literalmente praticada dentro de casa ou no âmbito familiar, entre indivíduos unidos por parentesco civil (marido e mulher, sogra, padrasto) ou parentesco natural pai, mãe, filhos, irmãos etc. Inclui diversas práticas, como a violência e o abuso sexual contra as crianças, maus-tratos contra idosos, e violência contra a mulher e contra o homem geralmente nos processos de separação litigiosa além da violência sexual contra o parceiro (DAHLBERG, KRUG, 2006, p. 53).

Este conceito destaca a dimensão da violência contra o homem como faceta existente, contribuindo para uma reflexão mais abrangente do tema da violência doméstica. Conforme Cecchetto (2004) quando se referem à violência intrafamiliar é imediato o movimento em definir, até mesmo devido à assimilação física, que a mulher é a vitima e o homem o agressor. Como frisamos anteriormente, esta crença necessita ser desconstruída e ampliada, uma vez que as mulheres também podem ser reprodutoras de atos violentos contra homens adultos. Esta condição nos conduz a frisar que a violência doméstica não inclui “apenas” a violência física. Não raras vezes, a forma de violência a que estas pessoas são sujeitas é, sobretudo, psicológica. Para Ballone e Ortolani (2002) e Guerra (2001), a violência psicológica se caracterizaria pelos atos de

depreciação, de humilhação, de discriminação, de chantagens e xingamentos cujas marcas não comparecem no corpo físico, mas podem causar danos na saúde mental para o resto da vida como destacou Braghini (2000) apud Braz (2005). Neste ambiente, a cristalização do homem como agressor, pelas características físicas evidentes, oculta sua posição de vítima, quando, por sua companheira, lhes são dirigidas f8rases depreciativas, insultantes, humilhantes ou desonrosas, colocando em cheque quanto a sua capacidade de exercer o papel de gênero a ele destinado. Vivido no silêncio do lar, este é um problema cujas repercussões podem estender-se por muito tempo. O homem, neste caso, sente-se progressivamente desvalorizado, humilhado e vulnerável, e assim como, muitas mulheres vítimas de violência não são capazes de pôr termo à relação porque estão financeiramente dependentes dos maridos, também é verdade que muitos homens temem sofrer as consequências de uma possível ruptura. A perda da guarda dos filhos, associada a outras ameaças, como o medo da solidão, está muitas vezes na origem do medo da separação. Segundo Braz (2005, p. 98):

O homem vítima de Violência Doméstica, geralmente, possui pouca auto-estima (por desemprego, depressão, alcoolismo, etc.) e encontra-se preso à relação com quem agride, por dependência emocional ou material. A agressora sabe-o e faz uso disso. Geralmente acusa a vítima de ser o responsável pela agressão, a qual acaba por sofrer uma enorme culpa e vergonha.

A violência sexual, outra extensão da manifestação da violência doméstica, é vista como um abuso do poderio exercido sobre determinada vítima (no caso deste projeto crianças do sexo masculino) sem seu consentimento como carícias indesejadas, incesto, exploração sexual, exibicionismo, pornografias infantis e estupro, conforme definido por Braghini (2000) apud Braz (2005). Existem estudos que apontam correlações significativas entre o histórico de abuso sexual e o consumo posterior de drogas e álcool (BASTOS; BERTONI; HACKER, 2005), assim como consumo de bebidas alcoólicas como fator de risco para abuso sexual (CHAVES AYALA et al, 2009; BALTIERI; ANDRADE, 2008). Como se vê tais violências podem ser exercidas não somente pela companheira, mas também, por parentes (pai, mãe, irmãos, etc.) ou pessoas próximas, o que não significa afirmar que se deva pensar a violência doméstica como a única violência praticada/sofrida pelo homem. Existem outras formas de violência ao qual o homem está inserido, não somente como agressor, mas como vítima. Podemos mencionar a violência de gênero que segundo Saffioti e Almeida (1995) apud Araújo, (2002), designa um tipo específico de violência que visa à preservação da organização social de gênero, fundada na hierarquia e desigualdade de lugares sociais sexuais. Segundo essas duas autoras, a violência de gênero tem duas faces: é produzida no interior das relações de poder, objetivando o controle sobre quem detém a menor parcela de poder, e revela a imponência de quem a perpetra para exercer a exploração-dominação, pelo nãoconsentimento de quem sofre a violência de exercer posições de dominância.

Nestes termos, ações destinadas à promoção de intervenções que veiculem estratégias de prevenção e manejo da violência contra os homens revelam-se como pertinentes. Essas iniciativas podem auxiliar na ressignificação desta temática não apenas entre profissionais, que por sua vez redefinirão suas práticas em consonância a uma visão mais ampliada, como entre os homens vítimas de violência que passarão de uma condição marginalizada para outra de maior visibilidade. Para uma reflexão maior sobre a violência contra os homens, pode-se colocar questões as quais eles se reconhecem em seus relacionamentos com sua parceiras, seus parceiros ou familiares. Isto pode tornar mais visível a violência a que o homem pode estar sendo submetido.

A sua (seu) parceira (o): 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. sentimental? 10. bancárias, cartões de crédito ou o carro. Não o deixa ter acesso aos bens da família, como contas Bate, esmurra, esbofeteia, empurra ou morde você? Ameaça feri-lo ou aos seus filhos? Ameaça ferir amigos ou membros da família? Tem súbitos acessos de raiva ou fúria? Comporta-se de maneira superprotetora? Fica com ciúmes sem motivo? Não o deixa visitar a sua família ou os seus amigos? Não o deixa trabalhar ou estudar? Destrói sua propriedade pessoal ou objetos de valor

11. daquilo que você gasta? 12. 13. 14. 15. seus filhos? 16. 17. discussões? 18.

Controla todas as finanças e, obriga-o a prestar contas

Obriga-o a fazer sexo contra a sua vontade? Força-o a participar de atos sexuais que você não aprecia? Insulta-o ou chama-a por nomes pejorativos? Usa a intimidação ou a manipulação para controlá-lo ou a

Humilha-o diante dos filhos? Transforma incidentes insignificantes em grandes

Maltrata ou ameaça maltratar animais de estimação?

Uma educação de ação deve promover que cada pessoa torne-se responsável por sua existência e atitudes. A responsabilidade é pessoal e podemos ser o que nós mesmos fazemos de nossas circunstâncias na autodeterminação pela paz.

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