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Vy: - BIBLIOTECA DIGITAL DD: 194 A MATEMATICA COMO PARADIGMA DA CONSTRUGAO FILOSOFICA DE DESCARTES: _ DO DISCURSO DO METODO E DA TEMATIZACAO DO COGITO MIGUEL SPINELLI OTEC) Universidade Federal de Santa Maria Catza' Postal 5082 i OTT ~ Santa Mario, RS, Br Rerumo: Detar Descartes we revela um analste do entendimento ou rasdo humana. E assim a #4 pre- ‘ccupariofondamentalconsnte em compremnder » conaltuigho do aparetho cognitive hi ‘no a fim de elaborar um mitodo ajuttado para regrilo. No tipo mental etesoltive das "natemtcas ele encentin ae conden Biicae para slaborag demas repro A sum consrusio flodticn se orgaian em fungi deste teu faacini palo carkter racional ccessilade de determinar “objeto” flosoicamente demonstrévei Palavens-chavea: Filosofia; matemétia; conbecimente; método; exer racional; represen aes; entendimente; cgi Indiscutivelmente, a tradigio filoséfica tem feito do discurso matemitico uma espécie de modelo para o discurso floséfico. Assim fizeram ot gregos e principal- mente os sistemas filoséficos modernoe; inspiravam-se no diecurso matemitico a fim de buscar garantia metodolégica e objetividade para o filosafar. Seus objeti- vos consistiam basicamente em querer transportar o caréter decisivo do conhecer abstrato da matemétice para a investigagio racional da verdade e para a ela- Cad, Hint. iL Ci, Campinas, sie 2,21): $20, jana. 1900. Miguel Spinelli soragio de proposicdes filoséficas objetivas. Descartes, portanto, na instauragio i |, portanto, Na Matemitica (em oposigo a légica formal, que ele tinha como estéri ( cho & Negi le tinha i), um cave principle o atu método pare a elaborag norma do eterno cn doeamcorecinal A hrtimdicaee Goon, ‘seu ver, eram as que melhor se prestavamn prestavam para o seu empreendimento: SL Men i cite wee ne dre expra ewan ie frogs uma certera igual b dan demoneraciee seomdiccas (DESCARTES, Kesler par le direst Gren pa) Anata do prin = inion 6 ms echt do ins Je das micas ders, arte cesta to crn mate, me mpi part ° Seal eats eee areas ‘Eee ep. fat mye wr pm os os matematicos estavam a condigdes bicicaseapropriadas para ve com. Preender «contitugso do So do aparelho cognoniiva ha Sens see ails ae ee ag Como estudante das “Letras” em La Fliche, era sbretudo com ae mateméticns, ‘sad com eam por nda cen da iin nie ri y 32). Nao que na “Letras”, ocorre que o seu em- que nio extuds i lasse com igual interesse as “Letras”, ocor penho em tal etudo na Ihe faciltara alcangar es mesos resultados do que con tultados do que com ‘as Matemiticas*. Se destas se 4 piepeses tas se regorijaré, convencido, das Letras se lamentaré, il soto nae ido eeu desde a minh inna yore de polinada wm coniments Se cepa de tatoo ae Vi wenn extraorini dao do aprenstan, Mast logo teed todo cate curso de estudoe (..) tmudetintdramente de opintko (DESCARTES, 5} (DESCARTES, Gramiticne RetsinsWieténin, Geogr Fiien » Cat. Fil Ci, Caympina, Série 2, 2(1: 5-20, ann. 1990. ‘A Matemétice como Paradigma da Constragdo Flosfica de Descartes 7 [A sua deslusio com as Letras vse entiéo compensads Pele sus admiragio Seen cere Sropiekcia das argumentacies das Matemticns, © pele seguinte conclusie decir todas 1» ncilinns conocian ob» Asiumdscn ¢ = Grams cy ‘potty SOR Se ada oe nceneun.. (DESCARTES, Rein re Ue ‘Ereceén del expt P39). ‘Blas sfo mais certas do que as demais disciplinas pongo a yoauem un shisha pe «simple cue nSe¢ neces 5% porque ln poe a oxpevinca no tan evdencin,« im abn on ae ee mune ie de conencian a deve Ged PF sate sbedamt cctemente, ax mal faci ara de Vas etna WDESCARTES, Rgln poe le verde epi B42) Seno o exerccio matemtico um exercicio de raaio, ¢acreditando ah & 1s aaa sguarda” desea mesma ranio, o grande fascinio de Dessaies 72% loch i ign e-« Geometrin parece reduri-e mas auas duns grandee ote, crn cas oguire que parcem implica na fandamentacio de todo 9s edi tata epee reaulados carne evidentes das taxes ou demoneiteclet Ales Pre ovenientes da apicaio de negrs referents a quests ets mater conseghind: anecesidade de produit regras semebantss); segunda: simples (conse cometrn we oewpam unicamente daguelesebjetosaue es D> 2 Ariimittjuia de conbecimento de um mado certo eindubitavel (covsedicuss ie aii de determinar “objetos” fileoficamente demonstrveis). seo alatapio, Com base nesta primeira constatagéo, podemos disc ae imei fo notice geal, que Deecattn nao adiite para o Slower eno ie ees racionais ou do entendimento” capazes de chegar & céncis 8 ‘conhe- ant rite angranga e sem porigo de erro, Se existem somente dues Wes do Cimento, «om tee liber que “96 o entendimento & capat de ciéncin’), ex aan en contrapartida,outras tres “fsculdades” ob “nstrumentos!» 40 “Audsin ou aizapalham 0 entendimento, © que so: a imaginasso, sentidos e aude OM salem destas tres faculdadey, existe ainda ur outro Seamtinhe ae ae cla, Ma assim como a experénca ea imaginacSo, o #900 © 8 ear catia isentos de eros, e podem, inclusive, nos enganar. Resist, A rtano,vomente a intugio e a dodo que, em principio nls OSS ‘temor bortaniosrrrinipio, poravesomente a intuigso nasce da “luz da xar80", © dado Cad. Hist Fit Gi, Carmina, Séie 2, 2(1): 5-20, jan-jun, 1990 [nc 8 Miguel Spinelli que é a mais simples, possui mais certeza do que a prépria dedugio. Se bem que Descartes admite prontamente que todo erro que cometemos no provém jamais de uma mé inferéncia, mas sim porque damos por supostas certas experiéncias pouco compreendidas, Descartes entende por intuigio um coneeito que forma a inteligéncin pur ‘tenta, com tanta facilidade e distingio, de tal modo a néo permanecer nenhuma ivida sobre aquilo que entendemos; ou ainda, um conceite que nasce somente pela luz da razio, Autim, cada qual pode ver, por intuigho, que existe, que penas, que o tridngulo ‘sth Tntado somente a tetany a eafera por uma 0 superficie, © outer cea ‘melanie. (DESCARTES, Reglas pare le dice del ear, . 4) Por deducio, entende tudo o que é conseqiiéncia necessétia a partir de outras coisas conhecidas com certera; em outros termos, a pura operacio de inferir uma, coing de outra. E nas suas Regras para a divecio do esptrito que Descartes dé infcio as suas investigagdes metodolégicas. E elas atendem perfeitamente, e expressam com {igual atengio, o que expusemos como sua primeira grande constatagio: aexemplo da Aritmética e da Geometria, elaborar regras faces e simples a fim de conduzir ' propria razdo e alcancar finalmente demonstragies indubitaveis e evidentes im odo ete trabalho (cscreve Descaret) nos eforgremos po (.) tomar fécis on caminhor que 4 ofeecem para conhecer a verdade... (DESCARTES, Reslet Mas para “tornac ficeis” esses “caminhos", era preciso, antes, © a0 mesino tempo, examinar o proprio “entendimento” humano: sno podemon conhecor nada antes de conhecer o entendimento, porg onhecimento de todas as cia depende dele . (DESCARTES, Regla pore le ‘icin del expiry, p65) Além disso, era preciso também, e conjuntamente, examinar 0 conhecimento Ihumano ¢ a sua extensio: ‘nfo podemon fazer nada mais sil do que investiga em que consate scimento humano até onde ae estende (DESCARTES, Rejler pure le Cad. Hist. Fit Ci, Crmpinas, Série 2, 2(2): 5-20, jan. 1980 A Matemética como Paradigma da Construgao Filoséfica de Descartes 9 E conclui prontamente: Ada esta investigacio encerra 04 verdadero intrumentot do saber « todo © ‘ndtodo (DESCARTES, Replas poral dreeiém del capita . 68). (© que Descartes buscava, preferencialmente, era uma teoria normativa para ‘oentendimento humano, expresta, todavia, em forma de “Regras". Dentro dessa teoria, mais do que a descriglo de um método rigoroso para a producio do saber, visava, acima de tudo, a uma exposigio de como, em geral, o entendimento hhumano se exercita na aquisigio de conhecimento. Examinado o “entendimento”, Sinico eapaz de certeza (a certean nko we encontra no sentido, mas 26 no entendimento, quando este tem ppercepgSes evidentes (DESCARTES, Princfice de files, P-34)). descobre nele dois modos mediante os quais ele conhece, sem erro, a intuigio a dedugio, e que sio, por conseguinte, todo o método. Ja a experiéncia, imaginagio, 08 sentidos a meméria sio por ele considerados os verdadeiros instrumentos de todo o saber. © entendimento humano é algo que se exercita, e assim o fazem of ma- lematicos, mas mediante regras faces e simples que se oferecem para se conhecer verdade, Método, portanto, é isto: entendo por método,regras certes © thers, cua vigoroen cbeeriacio impeca {que ae suponha verdadeioo fala «fagn com que a intaligencin, erm gaat ini ‘Socatange sim aumentando sempre a citncin, veg no verdadre conheclrents ‘Ae tudo'o que €capas (DESCARTES, Hepes pare la dirtecion del eoirite,b. 45) 0 método explica (prossegue Descartes), corretamente, 0 uso que se deve f er da intuigéo intelectual e esclarece como se deve encontrar as dedugSes para se chegar ao conhecimento, Mas isto nio quer dizer que o método deva estender- fe até ensinar como a intuigio e a dedugéo dover fazer aa suas operagdes; ¢ por duse rages: ums, porque elas sio as primeiras © as mais simples de todas ‘8 operagées; outza, porque se nosso entendimento ja nio pudesse fazer uso de- lag antes do método, nko poderia sequer compreender os preceitos do pré rétodo, Quer dizer, intuiglo ¢ dedugio aio duas operagSes intelectuais inatas, ad. Hint. Fi, Ci, Campinas, Séeie 2, 2()¢ 5-20, anja. 1900 — 10 Miguel Spinelli préprias da “luz” ou inteligéncia natural. As suas operagSes se processam espon- taneamente e com simplicidade, e no hé nenhuma outra operagio que se possa ‘acrescentar & pura luz de razio sem obscusecé-las, Mas elas ndo podem per ‘manecer errantes, envolvidas com coisas obecuras e desconhecidas, e desse 1nodo atingir conjecturas apenas proviveis, Elas devem eet “regradas” de tal modo que se ocupem unicamente de coisas transparentes e certas. Regté-las, portanto, nifica dar um método ao entendimento humano, a fim de que ele possa estudar © ‘meditar ordenadamente sobre tudo o que efetivamente eeja capaz. Método, pois, ‘uma espécie de divisa, isto é, a delimitagio de um territério dentro do qual a inteligéncia humana pode operar, Delimitar um terrtério é 0 mesmo que plantar determinados marcos através dos quais se deve seguir a fim de se permanecer na linha demarcada. De modo semelhante, 0 método comporta tal demareagio; ao invés de marcos, io preceitos ou regras que delimitam, com a finalidade de serem cumpridos rigorosamente Regras e preceitos ndo faltam na obra metodalégica de Descartes. Ha inclusive, tum congestionamento deles. Sio preceitos que se estendem por toda a sua obra, Mas Descartes os reduziu somente a quatro em seu “Discurso do Método”: o da ‘evidéncia, da anilise, da sintese e da enumeragio completa. E assim fazendo-o, reduziu-os a quatro, em oposigio (como ele diz) a0 sande mimeo de precios de que se compée a Légica etccistica? (DESCAR- TES, Disesre do metede,. 3) Mas o seu “Discurso do Método” ndo é um discurso de Légica, ou um novo tema que se opie a0 da Ligica aristotéico-escolistica. Ele € autobiogrifico, epistemolégico, metaisico..,easua redugio ce apresenta como uma justa sintese do (também) “grande mimero” de seus préprios preceitos (contidos nas “Regras”, no “Discurso do Método" € nos “Principios da Filosofia®). Ele elaborou uma redugo, mas mesmo assim é permitido enumerar (de modo livre ¢ geral) alguns desses seus preceitos (ou regras féccis e simples) 4) dispor de tempo para se entreter com os préprios pensamentos; b) a exe: plo da Aritmética ¢ da Geometria, no tratar seni de coisas muito simples; ¢) nutrirse de paciéncia para conduzir ordenadamente todos oa préprios pensamen tos, comegando pelos mais simples; d)conceber distintamente varias coisas, uma, de cada vee, fave logo que » un defnigio &, acima de tudo, uma afronta ao esolastciamo ¢ A wn Infratfern Disiicn Cat. Hi Fil. Ci, Campinas, Série 2,2(1: 6-20, jana. 1990, A Matemética como Paradigma da Consirugio Filoséfica de Descartes 11 is aque que quer ver com um enna gop de vite mito objcton de re ‘ev no ver nenhum dtiamete, «de igual modo aqsdle que ne acstuma 8 (ir atengao arian colas de uma ver {ih capidte conto (DESCARTES, Resi «) dividir as difculdades em exame em tantas parcclas quantas possiveis © ne- cessérias para melhor resolvé-las; f) fazer em toda parte enumeragies tio com- pletas e tio gerais a fim de se ter carteza de nada omitir; 6) crever vempre smn Inger nenbum afirmasio robre questées que potsam ser Sbjeto de controvérsia (DESCARTES, Reglas per le aiveceion del eapirity P. 0): hh) tomar sempre cuidado em nio acolher em confianca novas opinides sobre as quais nio se tenha demonstragées muito certas; i) acolher somente aquelas que ‘a evidéncia da razio as faa aceitar. a Do que ficou exposto anteriormente (sobre a sua primordial preocupacio de examinar o entendimento, © conhesimento e a sua extensio) vé-se logo que as ‘suas “regrad” plerm-se como resultado deste exame. Elas encerram, digamos, uma “ontologia do espirito”, algo que ultrapassa uma reflexio puramente metodolégica fe que se excede em subjetivismo metafisico, Talves por isso as suas “Regras" levam como titulo: “Regras para a direcio do Espitito; do mesmo modo, © “Discurso do Método”, eujo eubtitulo encerra o seguinte: “para bem conduzir a Propria Htazao e buscat a verdade nas ciencias”. Método e Espirito, ou Método € Razio, acompanham-ee reciprocamente no eeu “Discurso do Método”. Por isso, antes de ser um discurso do método, ele & também, ¢ concomitantemente, um discurso eobre 0 espitito ou razio. E assim o seu “Discurso” néo se reduz & cexposigio de uma técnica (a da Légica demonstrativa matemética), uma vez que ‘a sua investigasSo (metafisica e gnoseolégiea) ce eatende ao exame do aparelho cognescitivo humano, visando, enfim, uma explicitagio correta do processo ou exercicio racional de produgio de eonhecimento (ou de verdade nas ciéncias) Ento a sua questio do-método néo se orienta como discurso técnico, mas sim como discurso epistemolégico, pois visa atender a questo do método & medida ‘em que busca conhecer 0 exercicio mesmo do entendimento ou da racionalidade, fe assim o faz, mediante o paradigma da Matematica. Seus preceitos, todavis ima instancia, podem também ser considerados como conselhoa amplos e genéricos, Mas isto no quer dizer que no sejam liteis (na elaboragio de uma dissertagio de Mestrado, por exemplo). Leibniz, ‘no entanto, zombou desses quatro preceitos cartesianoe, por consideré-los vagos Cad. Hist. Fit Ci, Campinas, Série 2, 2(1: $20, jan.jun. 1990, —_—— ee a 2 Miguel Spinetti ‘© cootéricos. Chegou inchusive a escrever que seria « mesma coisa que aconselhar lum quimico a seguir semelhante método: sume quod deber, operare ut debes habebit quod optae (Lome aguilo que deve omar aga como deve faser, « obtetd agilo que dena) (LEIBNIZ apud DUK TTERIIUIS, Mecenicioma pp. 641-3). Ressaltamos que.os seus preceitos foram concebidos para 0 seu préprio uso; ‘em fungio disso, adaptou-se segundo aa necessidades de sua prépria inteligénciae, inclusive, de suas crengas. Ele tem, pois, uma intencio subjetiva, como atesta:n ‘suas prépriae palavras: meu design nto &ensinar aqui ométodo que cna qual deve seguir pars bem enduro rando, mas apenas mortar de que manci me ecforcel por conde sinha (DESCARTES, Discurso de métede, p30) ‘Também em outro trecho, mostra o quanto era zeloso em advertit o leitor, de ue determinadas atitudes metodolégicas que Ihe convinham, poderiam nie se adequar necess nente a outrem: A simples resolsko deve dear de todas a opines dido am exemple que cada qual deve seguir = (DESCANT! Indiode p. 3), Afinal, isto requereria uma constante desest ruturagivo do préprio aparato men: tal, o que nem sempre ¢ facil, e muitas vezes penoso, e por veres indispensivel Seja como for, o método cartesiano & um roteita de preceitos formulados segundo as necessidades de sua propria inteligéncia, ¢ adaplados ao seu proprio estilo ¢ rojeto de pesquisa, As suas “Meditagies", als, so um exemplo de como condusia a sua propria, ratio, segundo o método que a si prescrevera, E logo no inieio, no “resumo” de seu tratado, procura esclarecer o leitor sobre 0 iodo como procedera a fin de Aemonstrar a existéncia de Deus e a distingio real entre a alma o corpo: tendo procurado nada eacrever neste tratade de qu ‘alto exatas, vem