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bernardo secchi PRIMEIRA LICAO DE URBANISMO Sy, GZ, _E PERSPECTIVA Ww MN Til do orignal ea tallano Prima eioned vba (© 250, Gis Late & Fil Spa, Roms-Bar Fag beaseita public ov acerdo cia alma erry Agency. Roma Dados lnteoacionais de Catalogu na Pablicagio (CIP) (Camara Brasleie do Livro SP Brasil Secchi Bernaréo Prisca gh cde uanisn Hers Sec (iran Nasa Bande Pao MER les = Se Pal; Perspectn, 2012 (Debs 306 Agila or Cus) Fe rvimpressods igi de 2006 Faull Pina levione dian bogs ISINS78-A5a73.0775.4 1. Chas 2 Panchamenio urbano 3 Uibnisnn 1. Gilosburg Th Te. See Ices para ito i Titanate 71 aig — 1 repress ito sservndon cm Kinga portugues EDITORA PERSPECTIA' SA 2 Bega Lis Aso, 5028 LAO Si Pas SP Bas Teen (1) 2885-8388 sreditoraperspectivacom be i ‘Apraclecimentos Para a Badigio Brasileira 1 Usha 2. Figueas 5. Urbanistas . 4. Ratzes - ~ 5. Cidade Moderna e Cidade Contemporica 6. Projetos soos 1.0 Projeto da Cidade Contemporinea 8. Atravessar 0 Tempo Poslicio: O Her do Pensamento de Bernardo Secchi ‘Marisa Barda e Pedro M. R, Sales bibliografia SUMARIO " 5 25 45 59 85; oI Mas 175 189 195 |. URBANISMO. A maior parte da superficie im imenso deposit de signos conscientemente deixados par quem nos prece du: cidadles,vilareias, casas e barracos isolados, russ € trilhas, canis, galerias, diques, terragos, desmatamentos, divisio de terrenos rurais e sua destinagio a cultivos es pecificns, linhas de drvores e plantagies. Nas palavras de’ André Corbor, 0 teritbrio & um palimpsesto: as diversas ito, corrigilo, apayado v acrescentado 180 arquivo de signos, podemos apreender um vaste conjunto de intengi bem como de ages concretas de pessoas, de pequenos pos ou mesmo de sociedades inteiras. Fst Drepondo-se, deformando-se es vezes, contradizende-se, cessas ages, nao rar, levaram a resultados surpre para os proprios autores, e de dl wraloente de projetos, 1. A.Corbor tenis comme ptimpsete, Pion 124 Os territorios as cidades que observamos so os resultados de um longo processo de selegao cumulativa ainda agora em curso, Todos os dias selecionamos algo, tuma casa, um trecho de rua, uma ponte ou um bosque, € destinamos a destruigio; outra coisa usamos le mode di ‘verso do passido, a modificamos e transformamos; out ainda, decidimos conservi-la, como era e onde estava. A _maioria das veres nds o fazemos por motivos priticos: por aque temos necessidade de casas novas, de ruas mais larga, dle hospitais mais eficientes, mas, continuamente, tambem conferimos um sentido e um valor ~ monetario ou simbo. Tico - ao que nos cireunda, Muitas vezes, trata-se de um sentido ¢ de um valor que sio compartithados por toda a + partes sociedade na quall nos inserimos, ou por rele dela, Como acontece quando decidimos conservar um me- ‘humento ou um higas em que sociedad reconlece parte da propria identidade e da propria histria, Mas outras co sas t2m um sentido e um valor mais intimos e particulates, vilidas somente para nos ou para poucos. Em muitos ca 4505, trata-se de um sentido e de um valor consolidados ha tempo, enquanto em outros, trata-se de valores e sentidos novos, que consideramos interessantes pois mostram um aspecto diferente e inesperado em relagio a0 que f exist. (O que nos é mais evidenie, o imenso arquivo de signos ma- teriais deixadlos no territsrio, por nds mesmwos e por quem nos precede, é 0 resultado cumulative cesses decisies, Frequentemente, se faz referencia a alguns desses signos com se fossem construgies espontineas, contr pondo- as aquelas que sto realizagies evidentes de uma in tengio, explictada em um projeto:o vilargjo ou 0 mosaic ‘de montanha, em um extreme no outro, Versalhes ou Sao Petersburgo, nas palayras de Dostvski a cidade “mais abstratae premeditada de todo ‘o glabo"s a abra, no nando rural, de iniimeros autores des conhecis cantraposta A de um re, de seus funciontios agrivio de muitas regioes cede alguns grandes arquitetos na Furopa do periodo das cortes, 16 Mas ‘espontineo’ ness content, bm emo catete desigiicado,Osestudashistrcosmostam enn cos tric transormagto da clade medial, do aro doer dapeieriaforam tamibim determina por desejdo, de incagds e decides em sempre coordowe em rgrstadas por ease imagines ncorporades na radio enquanto ous signos soo renutad ded um grupo e, eventualmente de especial, que ell tdose indiseuiveis Deseja-seafirmar quan dese signos sno esllada dem projto que procure desere ver antecipadamente un possiele lo de coisas futur, © outros sin 0 resultado de ums sucess de iniciativas, por meio das quais se procurow responder a um conjunto Uiyperso de exigéneias eon com o tempo. Nao obstante 0 p ngentes, que se medificavan fodo mais préxime a nds ser ea ractetizado por agdes que pretendem recorret, com maior frequéncia, Aguile que designames como raciomalidale em Vista de um objetivo, ¢ apesar da ampliagio dos direitos de participacao politica © da secularizagi dos valores & slay norms, ¢difiell acreditar que 6 processo de centinta translormaga do territérie, com 0 continuo deeantar de novos signos que destroem ou modificain agueles existen tes, acontega sempre ¢ em tod hagares ele mee Ie, mesmo, que acontega por meio da interayao de uma plural de sujeitos livres de tabus ¢ caergdies. As con dligtes nas quis & possivel cileulo racional nunca vee ein na pritca, mesmo ni ais democrat ce secularizadas. Nem por iso as diversas steltos soe sociedad se comportam de modo fortuita, A peolongacla exposigie «a condigdes semethantes, mesino se nao idénticas, ovienta implicitamente seus comportamentos, por um lado e, por ‘outro, apesar de imersos em campos culturais especiticas| e tradigbes consolidac troem 0 proprio futuro, ndo somente como continuidade «do passado, mas, também, coma confionto entie as condi bes do presente € 0s seus proprios de ‘© urbanismo ocupa-se de tudo isso: das transforma §8es do territério, do modo como elas acontecem e acon: teceram, dos sujeitos que as promovem, de suas intengaes, «das écnicas utilizadas, dos resultados esperadis, dos éxitos ‘obtidos, das problemas que surgem, aan de cada ver, in= dduzindo novas transformagoes, Trata-se de questies nio facilmente distinguiveis entre si E dificil etalver também equivocado, distinguir as modalidades pelas quais seas sume uma tinica decisio de transtormagio, ou se lesen volve toda uma sequeéncia ce decides, do aspecto concreto «material da mesma transformagio. E dificil separar 0 as pecto concreto de uma transformacio dos argumentos propostos para justificd-Ia, das intengies que, presum vvelmente, a impulsionaran, da cultura, das imag crengas ¢ tradigdes, a partir das quais as varias decisses de transformagio tomaram forma: mesmo que isso amplie ‘enormemente » campo que & preciso observar e estudar, Portanto, por urbanism entendo ni tanto um con. junto de obras, de projetos, de teori alas am tema, # uma Linguagers © dliscursivas muito menos @entende como um determina . das uma orgenizagio selor de ensino, mas, a0 contririo, como testemunho de tum vaste conjunto de pri e consciente modificagao do estado do territorio eda ci dade, Se durante uma aula se faa muito, e talvez de modo preval textos, enquanto registros mais sensiveis das aplicagbes do urbanismo sio evocados somente através de histirias, fo quais sejam as da continua teorias€ projets, isto &, sobre togratia, filmes ou outros materia, € porque os livros, as 2 1 Bourn, es es. 18 teorias e projetos slo feitos da mesma matéria de que & feita uma ligdo, ist 6, de palaveas, eventualmente expres sas na forma de desenhos ou imagens vistais, Mas tudo ‘sso nunca nos deveria fazer perder de vista que aquilo que ‘gostarfamos de estudare discutir pata, eventual. dificar ¢ molhorar ¢ uma atividade pritica produtora de resultados muito concretos, de as, pracas, jardins ‘e espacos de diferentes tipos e conformaao, ‘Analisanclo os vestigios, tenho em vista, principal mente, as transformagdes da cidade e do territorin que n ‘caer no dominio da experid ‘ou escuto, Mas minhas experiéncias sobre essa transfor ia sensivel: que vejo, lace ages sao inevitave discursos que foram mobilizados para produiclas« key tima-las, para justificd-las ex ante eex post, Naturalimente, side de considerar juntos tanto 0s vestigios nente influenciadas pelo Muxo de cconcretos da aplicacao pritica come os discursas a cla re fetidos nio ¢ especifica do urbanisine, Muilas outras pri ticas, sob esse ponto de vista, se parecer basta pensar no vastissimo campo das priticas micas € aeministeativas, Recusando a idcia banal de que as prt io mera pl cagio dos discursos, em particular daguela sua parte cht Dorada na forma de teoria, os vestigios sensivers lew pritica, ¢ os discursos que duas camadas| sociedade: um dlimensio opaca de aeontecimentis ¢ de apoiaram, aparecem come processos que interligam vestigios discusses de maneiea znem sempre clara e previsivel Ao atravessar essa dimensio, 0 ut sovinh alts, esse campo esti bastante congestionade, Cidade € territsrio pertencem inevitavelmente 3 expe igncia cotidiana d Jk um. Pensar queo naundo possa ser subdividido em tantos compartimentos, caca am sob a algada dle algum estudioso ou especialists, nin € um pensamento somente ingénuo, mas imente equivocado, Portante, ndo surpreende que muitos est diosos, seguindo seus proprins caminhos, tenham feito princip » ‘mapas provis6rios dessa mesma dimensio. Gedgrafos & gedlogos, antrapologos, botinicos, topdgrafos e enge- inbeitos, agrnomos, sociélogos, médicas e economistas, advogaudos, historiadores, arquitetos e urbanista, inces sante e continuamente a atravessam, fazendo trechos do percurso juntos e, depois, de repente, se separam, colidindo, ver ou outra, entre si, Porém, viajantes-exploradores em pequenos grupos ou em stua totalidade. F que, na tentativa de elaborar uma descricio « procurar uma explicagao do que observam,¢ prefigurar -Ihe possiveis mudangas, esses recortem, frequentemente, aestilos de anaise ea estruturas discursivas semelhantes, dentro dos quais eles se movem come que orientados por algumas figuras prin. ‘A maior parte das diseiplinas, por exemplo,adoton, a0 longo da modernidade, dois estlos de analise principais, lum dominado pela "retrica da reaidade’ o outro pela "re ‘rica da precisio irrefutavel”®, Um por ver, esses estilos procuraram deserever e interpretar 0 mundo a partir ds ‘experiéncias que podiam realizar, ou elaborar aparatos ca tegoriais que permitissem expor os resultados aleangados por meio da experiéncia em termos sempre mais precisos e incontestiveis, tendo que, de tanto em tanto, verificar se go une esses estavam falando de algo que pudesse inclusive ser apreent dlido por novas experiéncias, O urbanisme, assim como ‘outras disciptinas, tem ascilado constantemente entre es sesdlois estilos de anise construindo sobre eles diferentes programas de pesquisa, volando, de quando em quando, avalorizar a experineia direta para, depois, procurar ex /or, emt termos rigorosos, gerais e abstratos, seus princi pais resultados, submetenda, incessantemente, as priprias interpretagies ¢ partes das teorias a0 crivo de novas ex periéncias, em um incessante vai-e-vem entre a pritica ea) 3 M, Kemp, Zann «New Hoyo the Visual 20 De modo anilogo, ¢ aspirando mesmo constituir um conjunto de enunciados relacionados mais a falos que a valores, grande parte das disciplinas modernas adotou, smuitas vezes de modo implicito, uma estrutura discursiva na qual a narrativa da emancipagao individual e coletiva, imaginada como progresso e superacio do obscurantismo e da ignorincia, ocupa um papel construtivo fundamen- tal. Sobre essa narrativa, fundou-se em grande medida a respeitabilidad e a legitimidade da ciéncia moderna’. O urbanismo recorreu amplaniente a iss0, Ci narrativa, agi do urbanista foi, por muito tempo, apre- sentada na 56 como aquila ue pée fim a umn inexorivel processed agravam io das condigbes da cidade on do territ6rio examinados, mas come o inicio de um virtuoso processo de tia propria melhoria, O urbanista, frequen temente, quis Fepresentar-se a si mesmo em uma dimen sto n 0 Jor drag, este representade como aquile 4 vacio da cidade: o poder das traclighes, de uma classe, da especulacao, da renda, da mi administragi, Praces sos de agravamento e de melhoramente foram allernada otados de nex dil expécie de que mata 0 se opie 3 sah ne: 0 primeire, come como distanciamenta das conclighes orig e felizes, como perda de uma ordem ¢ de wma medida com empolyrecimento progressiv 0 seg tens de teticamente mais satisfatr indo, coin ob 1 situagio salubre, conortivel, extra e es- Ko pereurse entre dais, como sendo de identificagie dos obsticulos a serem _minadlos, dos meios ¢alfadlos que possam aprese _melhoria, A pritica do urbanism quase sempre adyuirin seu sentido por ums narrativa™ Em uma mesma estrutura discus tipo narrativa, pod as. Uso esse lermo como na retdrica: a met figurassa sindloque ow a hipérbole, operag por exemplo, do nes, no enfant, reconhever mai fit |. B.tyotnd, Lacoltion postmen Bs Secchi tl raxonarbunitca 21 ddo discurso, através das quais objetos,situages ou even: tos nem sempre homagéneos ~ por exemplo, a cidade ¢ 0 corpo humano, a parte €0 todo -, vém relacionados entre si. Naturalmente, nao ha nada de estranho no fato de que os discursos dos urbanistas, como também dos outros est liosos, estejam repletos de figuras retoricas; clas abundars| também na linguagem comum e nem sempre sto usadas no sentido descritivo, para dizer o que nos & desconhecido em termos de algo que conhecemos, mas, muito frequen- temente~ eeste € 0 caso que aqui interessa indagar ~as ft guras sio usadas em um papel consteutive, de arganizagio do nosso pensamento, Por iso, utilizo 0 mesmo termo de figura para indicar, também em um nivel mais abstrato, formas de pensamento ou, no outao extreme eem um nivel aparentemente menos abstrato, formas da cidade, de suas partes ou arquiteturas. Quero dizer que algunas dessas fi ‘guras tém funcionado como uma metaisicainfluente, que Unificou e orientou analogicamente todo 0 pensamento de ‘uma época, pondo em relagio as cepeio do real. Outras figuras, progressivamente menos abstratas, exerceram uma ago mais especific, limitada somente a algumas éreas disciplinares tratando alguns de seus aspectos particulares. Mais do que estlos de andlise ou cestruturas discursivas,¢ justamente através do estud das figuras: afinidades ¢ influéncias reciprocas passageitas, isto 6 re ‘hos do caminho que elas percorrem juntas. A figura da continuidade, por exemplo, orientou a smaioria dos campos disciplinares 20 longo de todo 0 pe iodo moderno, assim como hoje, a do fragmento orienta todo 9 pensamento contemporsineo, Ammbas tiveram ¢tém ‘um papel crucial einsubstituivel no gu de observar, interpretar © construir a cidade, Encontra mos seus tragos no somente nos discursos sobre a cidade ‘mas, também, na constituigao fisica da cidade moderna, eda contempori cliscursos de arquitetos e urbanistas, mas também naque- ectos diferentes da per is cada disciplina recorre que se revanhecem ¢ elere ao modo 1, Reencontramo-las mio somente nos 2 Jes ee quase todos os estudiosos que atravessaram c con- ‘imuany a percorrer a densa dimensio dos movimentos da sociedade. Reencontramo-las na literatura e nas ares, as sim como na linguagem comum., Nesse sentido, clas trans _pSem, encantrando muita resistencia o espago que se as priticas discursivas dos resultados concretos, das agbes de transformacao da cidade, do territorio ¢ da sociedad, relacionando aquilo que, com alguma simplificagao, desig ramos como o real palavras que usamos para refeti-lo Seguir a historia eas dif as principais figuras, desviando-nos, por um momento, a nossa principal linha de reflex, nos permite com- preender melhor seu papel na canstrucao do urbanismo, ates formulagdes de algumas