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Células da pele transformadas em neurónios

directamente
Por Clara Barata

http://jornal.publico.clix.pt/noticia/28-01-2010/celulas-da-pele-transformadas-em-
neuronios-directamente-18680252.htm

Transformar directamente células normais da pele de ratinhos em neurónios, sem ser preciso
passar pela fase de células estaminais, foi o que uma equipa de cientistas a trabalhar na
Califórnia relata ter conseguido fazer na edição de hoje da revista científica Nature.
Este método tem o potencial de acelerar e facilitar a medicina regenerativa, evitando uma fase
crucial, em que as células estaminais podem dar origem a tumores - o lado negro destas
células, que são a maior aposta da biomedicina. "Este estudo é um grande passo em frente",
comentou Irving Weissman, director do Instituto de Biologia das Células Estaminais e Medicina
Regenerativa da Universidade de Stanford (EUA), uma das instituições que participaram e
detém a patente do trabalho.
Por ora, foi testado apenas com ratinhos, mas os cientistas acreditam que este resultado
deverá ser replicável em células humanas, para dar origem a tratamentos para doenças que
afectam não só as células nervosas, mas também outros órgãos, como fígados ou pâncreas.
Os cientistas chamaram células neuronais induzidas a estes neurónios criados directamente a
partir de células da pele. Para os produzirem, os investigadores usaram três factores de
transcrição - proteínas que se ligam a determinadas sequências de ADN e as transformam em
instruções que a maquinaria da célula é capaz de ler e usar para começar a produzir outras
proteínas. O desafio foi identificar quais os factores de transcrição que conseguiriam fazer o
truque de transformar células da pele em neurónios, sem passar pela fase de célula estaminal.
A equipa conseguiu-o, trabalhando com uma selecção de 19 genes que são activados apenas
em tecidos neuronais, e que se sabe que desempenham papéis importantes no
desenvolvimento das células do sistema nervoso. "São neurónios completamente funcionais.
Fazem todas as principais coisas que os neurónios fazem", disse Marius Wernig, de Stanford, o
coordenador do estudo, citado pela Reuters, surpreendido ainda pelo sucesso do trabalho.
"Para ser sincero, não tinha a certeza de que funcionasse."
Quererá isto dizer que não será mesmo mais preciso usar células es- taminais, manipular e
destruir embriões? Estas novas células não duram muito em laboratório, nem proliferam tão
bem. "Mas, em último caso, seria apenas necessário encontrar o factor de transcrição certo e
poderíamos transformar qualquer célula no que quiséssemos", diz Wernig, esperançoso.