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Fé, mesmo sem Deus

Quando li "A Estrada" (Relógio D'Água), pensei logo que este livro seria o pretexto ideal para a
crónica do dia de Natal. "A Estrada", meus amigos, foi a minha estrada de Damasco.

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

Sexta-feira, 1 de Jan de 2010

http://aeiou.expresso.pt/fe-mesmo-sem-deus=f555340

Neste romance, Cormac McCarthy cria um cenário apocalíptico. Uma desgraça bíblica obliterou a
vida na terra. Estamos num Inverno nuclear. É tudo gelado e inóspito. Mas no meio desta
brancura agreste aparece um homem. Um homem sem nome. É o último Adão, um Adão ao
contrário, um Adão no apocalipse. Ao lado do homem, vemos um menino, também sem nome.
É, se quiserem, o último anjo de um Deus foragido. Pela estrada, caminham em direcção à
costa. Passam fome e frio. Fogem de bandos de canibais num espaço sem qualquer rasto de
humanidade. Não há lei. Não há ética. Não há deus. Não é possível ter esperança neste mundo,
mas ele, o homem, continua a lutar, continua a andar, continua a proteger o seu filho. O mais
lógico seria pôr um ponto final no sofrimento de ambos, mas ele continua a resistir. Porquê?
Para quê?

Deus deixou de existir. Foi vencido, e alguma coisa governa no seu lugar. Mas, mesmo assim, o
homem continua a lutar como se Deus existisse. E é esta a força que nos arranca pela raiz ao
longo do livro. É esta a força que nos deita abaixo. É esta a força que funciona como uma
revelação para um pobre descrente como eu. Não importa se Deus existe ou não, porque o
único deus que interessa é aquele que cada homem transporta dentro de si. E esse deus existe
mesmo. Tem, aliás, vários nomes: 'amor', 'ternura', 'honra', 'direito natural', 'fé', e, claro,
'Deus'. Mas o nome não interessa. O que interessa é o significado que está escondido em todas
essas palavras: existe um 'dever' situado acima da lógica e da história. É esse dever que nos
salva desse Inverno nuclear interior que é o mundo sem consciência individual.

Sou agnóstico. Não consigo dar o salto da fé. Não consigo suspender-me e entrar no deserto
que, uma vez atravessado, vai dar à fé. Mas isto não quer dizer que sou insensível à presença
do 'dever'. Mesmo perante a morte de Deus há uma centelha sagrada que não se apaga. Mesmo
na ausência de Deus eu sei que devemos reforçar a trincheira da bondade e fazer fogo sobre
tudo o que ponha em causa essa mesma bondade. E o Natal, meus amigos, é o renovar anual
dessa centelha. Haja ou não haja Deus. Aos 30 anos, precisei de ir até ao apocalipse para
entender o Natal. Talvez aos 40 tenha a coragem para atravessar o deserto. Bom Natal.

Texto publicado na edição do Expresso de 24 de Dezembro de 2009