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Mãe, vou casar, Luís Fernando Veríssimo

Mãe, vou casar, Luís Fernando Veríssimo

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«Mãe, vou casar!

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http://sorumbatico-longos.blogspot.com/2010/01/mae-vou-casar.html . Por Luís Fernando Veríssimo - Mãe, vou casar! - Jura, meu filho?! Estou tão feliz! Quem é a moça? - Não é moça. Vou casar com um moço. O nome dele é Murilo. - Você falou Murilo... Ou foi meu cérebro que sofreu um pequeno surto psicótico? - Eu falei Murilo. Por que, mãe? Tá acontecendo alguma coisa? - Nada, não... Só minha visão que está um pouco turva. E meu coração, que talvez dê uma parada. No mais, tá tudo ótimo. - Se você tiver algum problema em relação a isto, melhor falar logo... - Problema? Problema nenhum. Só pensei que algum dia ia ter uma nora... Ou isso. - Você vai ter uma nora. Só que uma nora... Meio macho. Ou um genro meio fêmea. Resumindo: uma nora quase macho, tendendo a um genro quase fêmea... - E quando eu vou conhecer o meu. A minha... O Murilo? - Pode chamar ele de Biscoito. É o apelido. - Tá! Biscoito... Já gostei dele... Alguém com esse apelido só pode ser uma pessoa bacana. Quando o Biscoito vem aqui? - Por quê? - Por nada. Só pra eu poder desacordar seu pai com antecedência. - Você acha que o Papai não vai aceitar? - Claro que vai aceitar! Lógico que vai. Só não sei se ele vai sobreviver... Mas isso também é uma bobagem. Ele morre sabendo que você achou sua cara-metade... E olha que espetáculo: as duas metade com bigode. - Mãe, que besteira ... Hoje em dia... Praticamente todos os meus amigos são gays. - Só espero que tenha sobrado algum que não seja... Pra poder apresentar pra tua irmã. - A Bel já tá namorando. - A Bel? Namorando?! Ela não me falou nada... Quem é? - Uma tal de Veruska. - Como?

- Veruska... - Ah !, bom! Que susto! Pensei que você tivesse falado Veruska. - Mãe!!!... - Tá..., tá..., tudo bem... Se vocês são felizes. Só fico triste porque não vou ter um neto... - Por que não? Eu e o Biscoito queremos dois filhos. Eu vou doar os espermatozóides. E a ex-namorada do Biscoito vai doar os óvulos. - Ex-namorada? O Biscoito tem ex-namorada? - Quando ele era hétero... A Veruska. - Que Veruska? - Namorada da Bel... - "Peraí". A ex-namorada do teu atual namorado... E a atual namorada da tua irmã. Que é minha filha também... Que se chama Bel. É isso? Porque eu me perdi um pouco... - É isso. Pois é... A Veruska doou os óvulos. E nós vamos alugar um útero. - De quem? - Da Bel. - Mas... Logo da Bel?! Quer dizer então... Que a Bel vai gerar um filho teu e do Biscoito. Com o teu espermatozóide e com o óvulo da namorada dela, que é a Veruska... - Isso. - Essa criança, de uma certa forma, vai ser tua filha, filha do Biscoito, filha da Veruska e filha da Bel. - Em termos... - A criança vai ter duas mães : você e o Biscoito. E dois pais: a Veruska e a Bel. - Por aí... - Por outro lado, a Bel..., além de mãe, é tia... Ou tio.... Porque é tua irmã. - Exato. E ano que vem vamos ter um segundo filho. Aí o Biscoito é que entra com o espermatozóide. Que dessa vez vai ser gerado no ventre da Veruska... Com o óvulo da Bel. A gente só vai trocar. - Só trocar, né ? Agora o óvulo vai ser da Bel. E o ventre da Veruska. - Exato! - Agora eu entendi! Agora eu realmente entendi...

- Entendeu o quê? - Entendi que é uma espécie de swing dos tempos modernos! - Que swing, mãe?!!.... - É swing, sim! Uma troca de casais... Com os óvulos e os espermatozóides, uma hora no útero de uma, outra hora no útero de outra... - Mas... - Mas uns tomates! Isso é um bacanal de última geração! E pior... Com incesto no meio... - A Bel e a Veruska só vão ajudar na concepção do nosso filho, só isso... - Sei!!!... E quando elas quiserem ter filhos... - Nós ajudamos. - Quer saber? No final das contas não entendi mais nada. Não entendi quem vai ser mãe de quem, quem vai ser pai de quem, de quem vai ser o útero, o espermatozóide... A única coisa que eu entendi é que... - Que...? - Fazer árvore genealógica daqui pra frente... vai ser f... (*) Esta crónica aparece na internet com algumas variantes, nomeadamente na última linha. No entanto, tendo em conta quem a fez chegar ao Sorumbático, esta versão (à parte o título, que não foi possível apurar) parece ser a que foi originalmente publicada na Folha de S. Paulo, onde o autor escreve semanalmente.

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