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Candido Malta Campos Filho Reinvente seu bairro Caminhos para voce participar do planejamento de sua cidade © professor, arguitero« rbanita Produtvan doses tecidos (a do ‘nto excludente da populagae erabalha Toraje projet para Eocla Vera Cruz ia, ectclando meta antign fibre iain Como podemos mehorar a qualidade de vida em nos sas cidades? Como podemos participar da formagio e trans- formacto dos locais em que moramose trabalhhamos? rartindo do nivel mais proximo aos cidadaos — 0 baiero —o autor apresenta, em linguagem diretae acess fos procestox que regem a configuracto dos tecidos urbane ‘das cidades, endo como pano de fund ‘de Sto Palo. Postula modos de re ‘cpcvalizado ou no, uma nova compreenado do urbaniamo ¢ de plancia Indispensivel para que possamos excree sidadania © rinventar o expago em que ¥ editoralli34 ‘novo Plano Diretor EDITORA 34 Editora 34 Ltda. Rua Hungria, 592 Jardim Europa CEP 01455-000 Sao Paulo - SP Brasil Tel/Fax (11) 3811-6777 www.editora34.com.br Copyright © Editora 34 Ltda., 2003 Reinvente seu bairro © Candido Malta Campos Filho, 2003 © autor oferece este livro a todos aqueles que Iutam por uma cidade melhor, mais justa ¢ humana, bonita ¢ agradavel de nela se viver, econémica e culturalmente produtiva, especialmente aos que esto organizados no Movimento Defenda Sao Paulo, a qual destinara os ganhos auferidos com os direitos autorais desta publicagao. A FOTOCOPIA DE QUALQUER FOLHA DESTE LIVRO £ ILEGAL E CONFIGURA UMA APROPRIAGAO INDEVIDA DOS DIRFITOS INTELECTUAIS E PATRIMONIAIS DO AUTOR. Edigao conforme o Acordo Ortografico da Lingua Portuguesa. © autor agradece a arquiteta ¢ urbanista Lucila Lacreta, competente técnica da Prefeitura Municipal de $40 Paulo militante do Movimento Defenda Sao Paulo, por sua valiosa contribuigéo para a acuidade das informacdes contidas nos Quadros 1 e 7 deste livro. Capa, projeto grafico e editoragao eletrénic: Bracher & Malta Producao Grafica Revisa Alexandre Barbosa de Souza 1° Edicao - 2003 (2 Reimpressées), 2* Edicdo - 2010 (1* Reimpressao - 2012) Catalogag4o na Fonte do Departamento Nacional do Livro (Fundagio Biblioteca Nacional, RJ, Brasil) Campos Filho, Candido Malta, 1936- c198r Reinvente seu bairro: caminhos para voc® partuspar do planejamento de sua adade / Candido Malta Campos Filho, — Sao Paulo: Editora 34, 2010 (2* Edigio), 224 p. ISBN 978-85-7326-268-1 1. Urbanisme - Planejamento do espaco urbano, 2, Estrutura € localizagao dos bairros. 3. Cidade de Sio Paulo - teoriae histéria, I, Titulo, bb - 711.4 Introdugao i aye nw n oe 10. 1 = 13. REINVENTE SEU BAIRRO Caminhos para vocé participar do planejamento de sua cidade Parte I A LOGICA DE FORMACAQ, DO TECIDO URBANO . O ambiente de moradia como foco do seu interesse, cidadao de Sao Paulo . A organizagao urbana do comércio, dos servigos em geral e dos servicos de educagio e satide A escola ¢ 0 posto de satide: onde devem ficar? . O cométcio deve ficar encostado, perto ou longe de sua moradia? .. O conceito de unidade ambiental de moradia..... . Os trés niveis do céleulo da capacidade de suporte do sistema de circulagao © conceito da unidade ambiental de moradia estabelece “ilhas de tranquilidade urbana”, como nas pequenas vilas . O conceito de malha cerrada de transporte coletivo . A valida politica de inclusao social nos Centros Histérico e Expandido e os congestionamentos do sistema de circulago que esto ai ocorrendo .. esvaziamento do poder indutor urbanistico da outorga onerosa aprovada ... . O enorme adensamento previsto no Plano Diretor em desproporcéo com a capacidade de suporte existente ¢ prevista _ Os Corredores Metropolitanos e a possibilidade de criagdo de centralidades da mais alta qualidade no Centro Expandido e na periferia metropolitana. Como avaliar os tipos de zonas da lei de zoneamento 1s 17 19 21 23 29 34 36 43 45 48 50 54 14. Qual é a cara, cidadao, 1s, 16, 17, 18. do tecido urbano de sua preferéncia? Os tipos basicos de tecido urbano Como todos 0s tecidos urbanos basicos podem tender para o tipo 4, e isso ser um grande problema para a maioria dos cidadaos ... Como alterar os tecidos existentes? .. - Como os quatro tipos basicos podem ser desdobrados 19. 20. 21. 22. 23. 24. 25. 26. 27. 28. em muitos outros tipos de tecido urbano A localizagao dos tipos de tecido urbano na estrutura urbana em processo de mudanga .. O grande proceso em curso de reestruturacdo urbana da metrépole .. Tipos de lugares na cidade: lugares comuns, magnéticos e nao-lugares, qualificados e degradados..... As configuragées basicas produtivas imobilidrias e sua influéncia na discussio do zoneamento .. A insuficiente verso de outorga onerosa aprovada no novo Plano Diretor de Sao Paulo Os Planos de Bairro inseridos nos Planos Regionais: em busca de um planejamento mais protetor e amigavel, qualificador de nossa vida na cidade Um momento propicio de afirmagio e aprofundamento da cidadania .. Parte Il COMO DIRECIONAR POSITIVAMENTE A. FORMACAO E TRANSFORMACAO DO TECIDO URBANO. Roteiro para desenvolver os Planos Regionais com base nas diretrizes do Plano Diretor e dos Planos de Transporte, Uso do Solo ¢ Habitagao . Questdes-chave resultantes a serem equacionadas nos Planos Regionais .. As tipologias de tecido urbano, as centralidades urbanas ¢ a l6gica da circulagdo SS 60 65 68 70 77 82 88 91 95 97 99 107 109 113 29. Como 0s tipos esquematicos de tecido urbano se transformam nos tortuosos e complicados tecidos reais da cidade 118 30. As tipologias de tecido urbano como organizagées do espaco da cidade que deverdo constar da lei de zoneamento revisada 134 31. O tecido urbano e a politica habitacional .... 136 32. Os necessdrios trés niveis de calculo do estoque de potencial construtivo ... 33. Os tecidos urbanos, a diversidade cultural e os estilos de vida decorrentes .. ee 141 34, Uma importante questo: manter ou modificar 0 conceito de zoneamento atualmente em vigor? .. 143 35. Uma avaliagao da regulacéo tipo “tudo pode desde que” .. 145 36. A desregulacao paramétrica... 146 37. A tinica regulagao parametrizada admissivel . 154 38. Os estudos de impacto de vizinhanga 156 39. Um quadro referencial dos tipos de zona com foco na qualidade ambiental da moradia ... 158 40. A polarizagao do zoneamento em vigor em dois extremos 41. As velhas e novas zonas ¢ o grande salto de qualidade que agora pode ser dado .... 42. As zonas-corredor .. 165 180 43, Como classificar as zonas-corredor da legislagao em vigor? ... 44, O zoneamento final resultante: uma aparente colcha de retalhos recobrindo um palimpsesto 134 45. O tombamento de bairro: 187 46. Os Planos de Bairro ¢ as escolas 189 47. A questdo da regularizagao fundiéria ¢ edilicia... 191 48. O foco nos negécios ao invés do foco na moradia ¢ a especulagio imobilidria como “estimuladora” do emprego.... 194 Apéndice TEXTOS CONEXOS RECENTES i. Burguesia ambientalista x burguesia predatéria ii, A mais grave lacuna do Plano Diretor Estratégico . iii, Diretrizes para uma nova lei de protegio a0s mananciais: a questao dos limites da ocupagao do solo para fins urbanos iv. Justificativa da linguagem adotada no artigo 3° do Plano Diretor dos Bairros Branca Flor e Campestre. v. Antes tarde do que nunca .. vi. Daslu: um caso emblematico 201 207 209 212 215 220 INTRODUCAO No Brasil, mais do que em outras nacées latino-americanas ou paises da Europa e da América do Norte, existe uma enorme desinformagao das questdes urbanisticas, como elas se apresen- tam e as solugées que esto ao nosso alcance. Visando contribuir para atenuar essa desinformagao gene- ralizada, especialmente no que se refere 4 melhor organizacio de nossa vida cotidiana no espaco da cidade, resolvi escrever este texto. A minha experiéncia pratica de 40 anos, aliada a 40 anos de pesquisa tedrica, creio que me permite e me obriga a realizar esse esforco. E uma retribuicao as oportunidades de estudo e tra- balho que a sociedade brasileira me propiciou. ainda mais oportuno que nés, urbanistas, oferegamos con- tribuigdes para a reflexdo, pois, com a experiéncia que temos € coma sua ajuda, cidadao, através dos deputados federais e sena- dores que elegemos, conseguimos, primeiro, introduzir na Cons- tituigdo Federal de 1988 (em seu artigo 182) a exigéncia de que cidades com mais de 20 mil habitantes tenham planos que diri- jam o seu desenvolvimento — os chamados “planos diretores” — ¢ recentemente. em 2001, conseguimos que fosse aprovado um conjunto de instrumentos urbanisticos inovadores na lei federal de desenvolvimento urbano, que regulamenta a Constituigao e tra- a a0 mesmo tempo uma politica federal de desenvolvimento ur- bano — 0 que recebeu o nome de Estatuto da Cidade. Fui um dos urbanistas que mais contribuiu para a elabora- ao do Estatuto da Cidade, que teve sua base constituida, posso afirmar com seguranga, pelo projeto de lei federal n° 2.191 do Reinyente seu bairro 9 deputado Raul Ferraz (PMDB-BA), que coordenamos tecnicamen- te entre 1986 c 1988. Se ja existe hoje uma ordenacao legal definida no nivel fe- deral, cabe a nés cidadaos contribuir para que, nos niveis muni- cipal e estadual, o planejamento urbano, traduzido no Plano Di- retor ¢ leis correlatas de regulacdo urbanistica, sejam normas es- tabelecidas para o nosso bem e nao dos especuladores imobilid- tios. Pois é disso que devemos tratar com prioridade, segundo diretriz estabelecida pelo Estatuto da Cidade. Ora, s6 saberemos agir nesse sentido, tomando parte efeti- vamente do processo participativo de sua definicao, agora torna- do obrigatério pelo Estatuto da Cidade, se soubermos raciocinar com relacao a organizagao do espago urbano, conhecendo bem quais as consequéncias para as nossas vidas cotidianas das varias alternativas que temos pela frente, analisando criticamente o pro- cesso de crescimento urbano dentro do qual estamos metidos. E esse 0 nosso objetivo com este texto, a partit de uma sdo que seja possivelmente a sua, cidadao, e tendo como foco a sua moradia. Vamos escrevé-lo com uma linguagem que lhe seja acessi- vel, com um minimo de jargio técnico, apenas quando for impres- cindivel para a compreensao das normas urbanisticas em vigor ou que poderao entrar em vigor. Por isso, vamos defender aqui o que chamamos de Plano de Bairro ou Plano Diretor de Bairro. E um modo novo de colocar voc, cidadao, no centro da discusséo do Plano Diretor. E justa- mente um jeito de colocé-lo como ponto de partida no pensar a qualidade de vida urbana. no que ela tem de dependéncia em re- lagao 8 organizacao do espaco de uma cidade. Claramente nos opomos, como espero demonstrar, a uma visdo de que o que esté ai é necessariamente assim e nao hd como mudar, Um fato consumado e pronto, com o qual temos de aos conformar. Queremos mostrar que, mesmo nos casos mais deses- peradores, de quase nenhuma qualidade de vida, como o viver em favelas ou cortigos, ha esperanga de melhora substantiva. 10 Candido Malta Campos Filho Vamos defender, como se vera, uma cidade plural, onde mui- tos estilos de vida devem poder encontrar espacos bem-organiza- dos para abrigé-los, Em que os conflitos sejam aos poucos redu- zidos, mas dando ganho de causa aos que prezam uma qualidade ambiental sempre melhorada, e perda aos predadores sociais. Estes Gltimos, quando burgueses ou pequenos-burgueses, estando bem de vida, deveriam ter um posicionamento positivo, de contribui- cdo para um avanco social, e nao o papel de retardadores do pro- gresso social. Uma teoria mais ampla, que busca compreender os papéis de trabalhadores e burgueses na organizacao historica que corres- ponde ao sistema capitalista periférico em que vivemos no Bra- sil, é desenvolvida por mim em outros textos. Recomendo aos que quiserem conhecer melhor esses fundamentos mais amplos, que leiam outros textos que escrevi, especialmente o livro Cidades brasileiras: seu controle ou o caos.' Aqui vou me esforgar para escrever sucintamente, de modo direto e em linguagem clara, Nao se trata de um texto académi- co, Nao foi escrito, em seu conjunto, segundo uma légica formal do geral para o particular ou vice-versa. Entendi que 0 encadea- mento das ideias deveria nortear o rumo do texto. Assim, 4 me- dida que uma ideia ia puxando a outra, eu ia as desenvolvendo, € assim, pensei, iria manter o leitor interessado do inicio ao fim. O texto visa ampla divulgacao para todos os cidadaos, especialmen- te para aqueles que esto de algum modo querendo contribuir pa- ra a elaboragio de Planos Diretores que beneficiem os morado- res da cidade assim como seus bens imobilidrios, estes mais co- mo valor de usa do que como valor de troca. Este pequeno livro tem duas partes: na primeira, desenvol- vo mais os fundamentos de uma explicagao de como ocorre a estruturacdo das cidades. Na segunda, desenvolvo mais uma apli- cago desses fundamentos, especialmente o papel do planejamento 1 S30 Paulo, Nobel, 1988, hoje em sua 4* edicio. Reinvente seu baicro rut da circulagao urbana articulado ao do zoneamento do uso do solo, uma questdo-chave, como demonstrarei, para assegurar a sua qua- lidade de vida. Em apéndice, acrescento seis textos tornados puiblicos, por jornais ou posicionamento em congressos e reunides de trabalho com 6rgao governamentais, que destacam falhas basicas do Pla- no Diretor Estratégico do Municipio de Sao Paulo (PDMSP) re- centemente aprovado em agosto de 2002, e um posicionamento relativo a falhas sendo praticadas pelo poder piiblico no encami- nhamento da nova legislagao especifica de protegdo aos manan- ciais de 4gua da metrépole paulistana. Gostaria de receber seus comentarios sobre 0 mesmo, espe- cialmente os que virem o seu aperfeigoamento como um instru- mento de conscientizacao do cidadio. Nao tive muito tempo para elabord-lo, apenas algumas se- manas, devido a urgéncia dos assuntos envolvidos. Por isso peco ao leitor que compreenda as falhas que porventura encontrar, como uma certa repetigao de temas. Essa repeti¢do, no entanto, ajuda a compreender a articulacdo dos temas entre si. 12 Candido Malta Campos Filho Parte I A LOGICA DE FORMACAO DO TECIDO URBANO Capitulo 1 O AMBIENTE DE MORADIA COMO FOCO DO SEU INTERESSE, CIDADAO DE SAO PAULO texto que desenvolvemos ao longo dos capitulos que compéem este livro propée-se a apresentar modos de andlise das questées urbanas, partindo em um primeiro momento do nivel local para o geral da cidade de Sao Paulo, com foco na ética do cidadéo comum. O ambiente de moradia, uma espécie de ancora do cidadio no espago urbano, é 0 nosso ponto de partida. Mas nao sera fo- cado 0 ambiente interno detalhado da moradia, ou seja, a sua ar- quitetura especifica, mas sim 0 tipo de edificio em que se localiza, € 0 que este tipo pressupoe como estilo de vida urbano. Os edifi- cios como organizacao interna pressupoem uma ideia de cidade ¢ isso é poucas vezes percebido. Como, por exemplo, a auséncia de quintais ou espagos de lazer privados no lote da moradia pro- duz provavelmente uma caréncia a ser resolvida no espaco cole- tivo da rua, da praca ou até em espagos privados ou semiprivados de vizinhos. Ou a producéo doméstica da comida ¢ da lavagem de roupas, que nao gera a necessidade de servigos com essa fina- lidade nas suas proximidades. Parece um enfoque estético em que 08 tipos nao se alteram com o passar do tempo. Veremos logo que intreduziremos o processo de sua mudanga. de alteracdo de sua organizacao interna por forgas externas que os condicionam. A partir da moradia como tipo, buscaremos conhecer os ti- pos de estruturagdo de bairros e quanto, por exemplo, os mesmos. estao servidos de comércio e servicos e de equipamentos de edu- cagdo, satide, lazer e cultura, distinguindo claramente essas for- mas de organizagao em fungao do nivel de renda e de estilos cul- turais de vida de cada familia ou grupo social. Reinvente seu bairro 15 Em uma primeira abordagem, nao se levara em conta o ni- vel de renda ou as preferéncias culturais que podemos entender como tipicas. Mais adiante isso ser considerado. A andlise desenvolvida por enquanto nao levaré em conta 0s diferentes padrdes sociais dos bairros, tampouco as dreas de problematica assemelhada conforme foi dividida a cidade de Sao Paulo pelo Plano Diretor, correspondendo a quatro tipos basi- cos de macrorregides: 1) a do Centro Expandido consolidado; 2) a de uma Area a ele adjacente em processo de consolidacio; 3) uma terceira drea adjacente segunda, constituida em geral por bairros periféricos em desenvolvimento; e 4) uma quarta regido constituida por dreas de ocupacio rarefeita ou no, que devem ter preservagdo ambiental (ver Desenho 1). Essas especificidades serao objeto de capitulos posteriores. Desenho 1 Os quatro tipos basics de macrorregides da cidade de Sao Paulo. Serra da Cartareira Rio Tiete Rio Pinheiros 4 Represa Guarapiranga —__ Rio Tamandvatet Fopres Billings Ly’, Serra do Mar Sao Viverte 16 Candido Malta Campos Filho Capitulo 2 A ORGANIZAGAO URBANA DO COMERCIO, DOS SERVIGOS EM GERAL E DOS SERVIGOS DE EDUCACAO E SAUDE Propée-se assim, nesta abordagem inicial, que cada cidadao examine como a sua vida est organizada para se servir do comér- cio € dos servicos, em trés niveis de sua organizacao. Essa questo serd abordada desde o nivel do espago organi- zado no entorno imediato da moradia e, aos poucos, ampliada para questdes de abrangéncia cada vez maior. Esses trés niveis sao: 1) O comércio e servigo de apoio imediato a moradia, que tende a ter uma frequéncia didria ou semanal de utilizagao, ca- racterizado como “local”. Exemplos: 0 agougue, a quitanda, o bar ou boteco, 0 pequeno supermercado ou mercadinho, o barbeiro, o cabeleireiro etc. 2) O comércio e servigo ainda de apoio 4 moradia mas de frequéncia menor de demanda, caracterizado como “diversifica- do”. Exemplos: a loja de sapatos, de roupas, de eletrodomésticos, © supermercado grande etc. 3) O comércio e servico de apoio a outras atividades urba- nas, caracterizado como tipico de centros de hierarquia superior de cidade com toda a diversificag4o possivel coerente com o mer- cado para 0 qual é oferecido, com frequéncia de demanda muito menor, rara e até esporddica (frequéncia semestral, anual ou até maior). Exemplos: relojoaria, artigos de cama e mesa, de automé- veis, de equipamentos para indiistrias, para a realizacao das ati- vidades de comércio ¢ servigos etc. Essa abordagem pela frequéncia da demanda tem a quali- dade de colocar a questo da mobilidade urbana em foco, que é Reinvente seu bairro 17 © maior problema urbano da cidade. Em principio, podemos di- zer que para o morador interessa que, quanto maior for a frequén- cia da demanda, mais facil deve ser 0 acesso a esse comércio ou servigo. Isto é, o “local” deve estar 0 mais perto de sua casa; 0 “diversificado” pode estar um pouco mais longe, e 0 “sofistica- do” mais longe ainda. Nao que tenha que ficar mais longe; té-los por perto significa, como veremos, aceitar viver em bairros cen- trais com certos inconvenientes ¢ qualidades proprias. Mas isso sera mais bem discutido a seguir. Desenho 2 A \6gica da localizagéo da moradia em relagdio ao comércio e servigos locais. Sua casa eae 7 ef ee Concugao 6 exigida }+—~}__-+- bvy 0 comércio e os servigos locais, de apo1o a moradia, podem ficar ao lado da sva casa (11, perto a uma distancia confortavel a pé (2), ou distante o suti- ciente para exigir uma condugdo (3) © mesmo raciocinio pode e deve ser feito em ralagac ao comércio e aos servigos diversificados, assim como para os equipamentos de educagac ¢ saude de uso mais ou menos frequente. fitth 18 Candido Malta Campos Filho Capitulo 3 AESCOLA E O POSTO DE SAUDE: ONDE DEVEM FICAR? Com relacao aos servigos de educacao e satide, especialmente aqueles de realizagao didria, como o maternal, a pré-escola e os ensinos fundamental e médio, que atendem criangas e adolescen- tes, podemos dizer que, por sua frequéncia e pelas questées de se- guranga envolvidas na circulacdo urbana, exigem das familias uma atengdo especial. Tenhamos presente que, tanto para a organizagao do comér- cio e servigos em geral como dos servigos de educagao, devem ser discutidos a realidade presente nas diversas configuracées da es- trutura¢ao urbana e os tecidos correspondentes, avaliando-se as suas qualidades e dificuldades. De um lado, ha o problema da familia fazer com que a crian- a va para a escola em seguranga. Isso ocorrerd tanto com a crian- ¢a que precise ser levada no colo ou acompanhada pela mae ou pessoa mais velha de confianga, como com aquela que pode ir so- zinha, a pé ou de conducao. Esta questo dependerd da distancia dos caminhos que a crianga ter4 que percorrer em seguranga, ¢ se vai a pé ou com alguma condugao publica ou privada, coletiva ou individual. O grau dessa mobilidade urbana afetara 0 custo material (tempo) e econdmico (gasto com transporte) e o envol- vimento maior ou menor de familiares ou amigos acompanhan- tes. De modo geral, pode-se dizer que a proximidade desses equi- pamentos em relac3o a moradia é desejavel, de modo a permitir que a crianca com idade suficiente possa andar a pé sozinha em poucos minutos e com seguranga de sua casa até ele. Nos planos de bairros populares desenvolvidos no escritério profissional que Reinvente seu bairro 19 tenho com 0 arquiteto ¢ urbanista Luiz Carlos Costa (Urbe Pla- nejamento, Programagao e Projetos), 800 metros tem sido a dis- tancia maxima definida como cémoda para se andar a pé até o comércio, servico ou equipamentos sociais. Essa distancia nao é definida tecnicamente. £ uma definigdo dependente de uma op- cdo por se andar a pé maiores ou menores distancias. Hé, por exemplo, aqueles que nao gostam de andar a pé e depois pagam academias de gindstica para gastar energia fisica acumulada. Um, certo contrassenso, admitamos. A questao da escolha do melhor servico influi nessa definicdo porque muitas vezes o melhor ser- vigo pode estar mais longe do que se pode percorrer a pé, 0 que exigird um esforco adicional, como pegar um dnibus, um taxi ou um automével. Um conjunto de moradores organizados e tomando conta de uma escola ou posto de satide vizinho facilmente acessivel a pé e garantindo qualidade de atendimento por uma gestdo com- partilhada, especialmente quando se trata de equipamentos da rede publica estadual ou municipal, parece ser um objetivo desejavel para a maioria dos cidadaos, tanto os de baixa como os de mé- dia renda. Esse tipo de organizagao urbana tem sido conseguido na maioria das cidades do chamado Primeiro Mundo. Consegui- remos isso para nés em Sao Paulo? 20 Candido Malta Campos Filho Capitulo 4 O COMERCIO DEVE FICAR ENCOSTADO, PERTO OU LONGE DE SUA MORADIA? A proximidade espacial do comércio e dos servigos estard definida pelo mercado imobilidrio, em grande medida, quando nao houver planejamento piblico ou privado interferindo nessa légi- ca, no que se refere aqueles que so oferecidos pelo setor priva- do. Aqueles que dependem de oferta piiblica ficario na dependén- cia de critérios ptiblicos de localizagao de seus equipamentos de educagao, satide e lazer. Nem sempre a légica locacional do mercado imobilidrio ou a do poder piiblico atende o interesse da maioria, Muitas vezes 0 poder public, movido pela necessidade de dar a maior visibili- dade possivel a suas ages para obter 0 necessario apoio nas ur- nas, localiza esses equipamentos em lugares barulhentos e peri- g0s0s devido ao tréfego de veiculos, quando seria melhor que os mesmos, especialmente os destinados a mies, idosos e criangas, estivessem em lugares tranquilos de um bairro. Verifique no seu bairro qual critério foi utilizado na localizagao das escolas e cre- ches ou outro equipamento destinado a pessoas mais vulnerdveis. Entendendo que 0 comércio e os servigos diversificados se heneficiam da alta acessibilidade das vias movimentadas, assim como as delegacias de policia, os postos de bombeiros, as insta- lagdes de educagio e satide que dependam da acessibilidade ge- rada por corredores de transporte, especialmente as que atendem jovens ¢ adultos, muitos urbanistas defendem diretriz. pablica nes- se mesmo sentido, embora o mercado jd tenda a localizar tais ati- vidades nesses locais quando sao atividades privadas. Esses ur- banistas, entre os quais me incluo, querem que o poder publico Reinvente seu bairro 21 distinga claramente as atividades que se beneficiam da localiza- cdo nos corredores de transporte das que sao prejudicadas por essa mesma localizacao. Tais urbanistas defendem assim uma diretriz. urbanistica de planejamento que — pelo zoneamento ¢ pelo di- recionamento do investimento puiblico, como nos planos de ni- vel local, seja ele regional, como nas subprefeituras, seja ele no bairro ¢ nas operacées urbanas, estes “locais” inseridos naquele “regional” — distinga clara ¢ enfaticamente as “ilhas de tranqui- lidade” dos “rios de tréfego intenso”. 22 Candido Maica Campos Filho Capitulo 5 O CONCEITO DE UNIDADE AMBIENTAL DE MORADIA O conceito de unidade ambiental de moradia (ver Desenho 3) consagra essa diretriz. como unidade territorial de um estilo de morar, pelo qual as energias fisicas e emocionais gastas na huta pela vida durante o trabalho séo recompostas no espaco de mo- rar, propiciada essa recomposi¢ao pela tranquilidade do local onde se mora. Desenho 3 0 conceito de unidade ambiental de moradia, / Vias de tego ntensa lthas de trenquilidade com was internas de trétego apenas local. com poueo ou neshum traiego d3 cascagem Reinvente seu bairro, 23 E este espaco de morar, ao invés de estar confinado no es- paco interno do lote — mesmo que este inclua algum espago li- vre, verde quando possivel e desejado pelos moradores — se es- praiaria para o espaco de uso coletivo da rua, da praca (quando existe) e dos parques (estes muito raros nas cidades brasileiras). Esse espraiamento da tranquilidade encontra-se hoje con- flitando com o uso cada vez mais intenso dos veiculos, que pro- vocam a degradagao ambiental do espago de uso coletivo. Inclu- sive a violéncia urbana do roubo, do assalto e do sequestro, por sua vez, se soma a poluigdo ambiental trazida pelo excesso de veiculos, e conjuntamente empurram os cidadaos para tras de grades e paredes e trancas e sistemas cada vex mais sofisticados de alarme e supervisdo, isolando-os do espago de uso coletivo, separando e isolando os cidadaos entre si. De cidadaos, enriquecidos culturalmente com os contatos hu- manos variados, diversificados e até certo ponto imprevisiveis que a cidade propicia, que é a esséncia do conceito de “urbanidade”, vio passando a simples individuos, perdendo sua humanidade, cada vez mais dependentes de meios eletrénicos para se comuni- carem entre si. Tal modalidade de comunicagao nao consegue substituir 0 contato pessoal fisico, envolvendo todos os sentidos, 0 emocional, que se enriquece com esse maior envolvimento. Desse modo, podemos dizer que, provavelmente, a maioria das pessoas que vivem nas cidades gostaria de ter um espago mais tranquilo para morar, podendo dispor de opgdes de ambientes mais intensos e agitados, quando isso é desejado ou inevitdvel. A organizagao da cidade em unidades ambientats de mora- dia de qualidade variada propicia essa diversidade ambiental Sempre haverd na lade dreas com ambientes mais ruido- sos e agitados tanto durante o dia como durante a noite, para quem assim preferir. Podemos chamé-los de ambientes “24 horas”, co- mo algumas Areas de vida noturna intensa, ou algumas ruase pra- gas que ao longo da histéria de uma cidade conformaram tal am- biente ou foram produzidos por intengao deliberada do planeja- mento urbano, como as chamadas “ruas 24 horas”. 24 Candido Maka Campos Filho E possivel, portanto, identificar uma gradagao de niveis de tranquilidade no espaco de uma cidade. Desde 0 mais tranquilo possivel, o de uma rua apenas com moradias ¢ sem saida (assim denominada equivocadamente, pois se sai por onde se entra!), até © mais barulhento, junto a casas de festas e shows, bares ¢ res- taurantes quando se abrem para o espaco urbano do entorno. O cidadao deve, ao avaliar o tecido urbano onde mora, veri- ficar o nivel de tranquilidade que hoje possui, e o nivel de tranqui- lidade para o qual o bairro se dirige, dado o proceso de transfor- magao urbana por que passa a regido onde mora e especialmente 0 bairro ea rua onde vive. O nivel de raido pode ser medido por aparelhos especificos. Dois fatores se conjugam nesse proceso: © tipo de mobilidade das pessoas, por onde passam e quais meios de transporte utilizam, e por quais vias tendem a transitar e quais meios de transporte tendem a usar, mudando seus meios atuais. E claro que, analisando 0 conjunto de uma macrorregiao ¢, no caso de Sao Paulo, o municipio inserido na regiao metropoli- tana, tais transformagées ficam mais claras. E 0 que se busca le- vantar a cada dez anos e agora a cada cinco anos com pesquisas cientificas da origem e destino do trafego na metropole. A primeira pesquisa foi feita em 1967, a segunda, a terceira, e a quarta, em 1977, 1987 e 1997, e agora, em 2002, a quinta pesquisa. Séo pes- quisas muito caras, por amostragem domiciliar (5% dos domici- lios, 0 que é uma amostra cientifica) ¢ por linhas de contorno de sireas especificas centrais, Centro Expandido do conjunto da area rbanizada, onde se mede diretamente o tréfego nas principais vias. E um trabalho que pode e deve ser feito com grande serie- dade. pois dele se extraem as conclusdes sistematicas, cientificas. Isso é feito mediante um cdlculo que utiliza metodologia técnico- -ctentifica da capacidade de suporte para cada regiao, em fungao do sistema de circulagao existente e do que se pretende implan- tar. Na Escola Politécnica da USP, por exemplo, professores en- sinam e aperfeicoam tais técnicas. Nos EUA, 0 governo central s6 da dinheiro as prefeituras para implantar projetos de «do se tais métodos comprovam a necessidade e adequacio dos ircula- Keinvente seu bairro 25 investimentos. Aqui no Brasil ainda nao definimos legalmente tal obrigatoriedade. Mas em Sao Paulo, pelo Plano Diretor, tal obriga- toriedade foi introduzida. Os Planos Diretores anteriores muni- cipais (PUB, Plano Urbanistico Basico do Municipio de Sao Pau- lo, 1968) e metropolitanos (PMDI, Plano Metropolitano de De- senvolvimento Integrado, 1970, do qual fui um dos diretores) consideram tais técnicas imprescindiveis. Por isso, nado ha razao alguma para nao utilizé-las. O zoneamento deve nascer desses cdlculos no que se refere 4 intensidade do uso do solo. Desenho 4 As diferentes capacidades de suporte do sistema de circulagao. < A capacidade de suporte de uma rua 6 obviamente menor do que & “ey a de uma avenida, visto que esta tem largura maior Nao se pode permitir a instalagao de atividades que exigi- rio maior capacidade de circulagéo do que conseguimos implan- tar, dados os recursos disponiveis, que tém sido escassos, Se nao agirmos assim, estaremos fazendo 0 jogo da especlagao imobi- lidria, gerando ganhos indevidos para os que construiram mais sem pagar pela infraestrutura que possa suportar essa maior car- ga de demanda por circulagao dai decorremte. Esse prego sera jo- gado para nés, com o tempo, até que paguemos essa conta de modo disfargado, pois estaré diluido nos orgamentos puiblicos ao 26 Candide Malta Campos Filho longo dos anos. Se nos recusarmos a esse pagamento, argumen- tando corretamente que nao fomos os causadores do problema, sofreremos as consequéncias das deseconomias sociais, econdmicas e ambientais decorrentes desse excesso de atividades nas regides por ele afetadas, resultando cada vez mais em estressantes desor- dens ambientais e congestionamentos do trafego. Estaremos en- tre a cruz e a espada. Lutar pela qualidade de vida, 0 que para a maioria dos cida- daos provavelmente significa um estilo de vida mais tranquilo, é lutar por um célculo cientifico da intensidade de usos permitida belo zoneamento em coeréncia com determinado sistema de trans- porte existente ou a ser construido, previsto por um sério e siste- miatico planejamento. E isso que esperamos ainda do novo Pla- no Diretor, num segundo tempo, como se verd a seguir. Desenho 5 A proporcao entre Gnibus e automéveis @ as mudangas da capacidade de suporte para um mesmo sistema vidrio, A Quanto mafor for a proporgdo de automéveis usando tanto uma avenida oma uma ‘ua, menor serd a sua cepacidade de suporte A mesma avenida no desenho A: se 0 uso dela € mais por automéveis ela suporta prédios baixos distantes entre si. A mesma avenida no desenho B: se o uso dela é mais por nibus ela su- ara arédios mais altos e mais juntos entre si Reinvente seu bairro 27 Dai porque nao se pode aceitar que 0 Plano Regional tenha essa intensidade definida sem que um sério e sistemdtico calculo, com a utilizacdo das melhores técnicas disponiveis, seja elabora- do. Foi o que se quis ao se definir, na lei do Plano Diretor, que 0 Plano Regional depende, para a sua elaboracao, de que sejam ar- ticuladamente feitos com ele o Plano de Transporte, o de Uso do Solo e o da Habitagao para 0 conjunto da cidade, todos com data definida pelo Plano Diretor a serem terminados, ao mesmo tem- po, em 30 de abril de 2003. Provavelmente, essa simultaneidade nao serd cumprida, de- vido a subordinagao do particular, que é 0 Plano Regional de cada uma das subprefeituras, ao geral, que corresponde aos Planos de Transporte, de Uso do Solo e da Habitagdo para o conjunto do municipio. Isso provavelmente nos levard a pedir uma prorrogagio dos prazos finais para além de 30 de abril de 2003, pelo menos para 0s Planos Regionais. Isso se os Planos gerais em questao acaba- rem a tempo € a contento, tecnicamente falando. 28 Candido Malta Campos Filho. Capitulo 6 OS TRES NIVEIS DO CALCULO DA CAPACIDADE DE SUPORTE DO SISTEMA DE CIRCULAGAO Faz-se necessario, portanto, dadas as gigantescas dimensdes desta metrépole, levantar e avaliar claramente a capacidade de su- porte por niveis estruturais do sistema de circulacdo. Ha um primeiro nivel da estrutura urbana metropolitana (ver Desenho 6), um segundo nivel da estrutura urbana munici- pal (ver Desenho 7) ¢ um terceiro nivel da estrutura urbana re- gional ou da subprefeitura (ver Desenho 8). Desenho 6 1} 0 nivel metropolitano, que € 0 de um Plano Diretor Metropolitano, Keinvente seu bairre 29 Desenho 7 2).0 nivel municipal, que ¢ 0 do Plano Diretor da Munic(pio de Sao Paulo. _ —f Mogi das Cruzes Santo André \tagererica Desenho 8 3) 0 nivel das 31 subprefeituras: © dos Planos Regianais. Santana Lapa Butanta SA Vile Mariana Pimevrusvatain rauuste —- Santo Amaro 30 Candido Malta Campos Filho O nivel dos Planos Regionais e das subprefeituras apresen- ta dificuldades técnicas de definigao, pois as bacias de circulagéo nao coincidem minimamente com as dos distritos usados para a definigao das subprefeituras, que foram definidas mais por crité- rios burocraticos e politicos, e nao por problematicas urbanas a serem resolvidas, como a dos congestionamentos vidrios. Para se cquacionar os congestionamentos, por exemplo, é preciso se ra~ ciocinar por bacias de tréfego. Esse descolamento entre 0 territé- rio abrangido por cada subprefeitura e 0 territ6rio sobre o qual o problema a ser resolvido se coloca, reduz a capacidade de atua- 0 na solugao dos problemas urbanos mais estruturais. Hé ainda um quarto nivel, que é 0 das vias de um bairro, incluindo todas as vias coletoras e locais. Desenho 9 4) 0 nivel do seu bairro: o nivel local € vias jcais Vias coletoras ov estruturais, interligadoras de bairtos Nelas, a pressio do crescente mimero de veiculos leva a se querer fazer subir uma via na hierarquia do sistema de circula- Gao. Isso acontece quando a CET (Companhia de Engenharia de Trdfego) pensa em transformar uma via local em via de passa- Reinvente seu baicro 31 gem de muitos veiculos para resolver problemas de congestiona- mentos nas vias do sistema até entéo considerado principal. Mais especificamente, isso ocorre quando se quer transformar uma via local em coletora, ou uma via coletora em estrutural, mesmo sem ampliar sua capacidade de circulagao, elevando o nivel hierarqui- co pelo papel que passam a cumprir, mesmo que precariamente. Por tras dessa légica de circulago, que degrada vivencialmente a qualidade de vida dos usos lindeiros do novo local por onde passara esse movimento crescente de veiculos, esta a espreita, sub- -repticia ou declaradamente, a légica especulativa, segundo a qual os usos devem propiciar o maximo lucro locacional, tendo como pretexto a légica da circulagao. Pesquisas realizadas nos Estados Unidos por pesquisadores da Universidade da California, em Berkeley, na regido metropo- litana de $ o Francisco, mostram que 1a existe uma concordan- cia publica de que, para até trés veiculos por minuto, ou cerca de 180 por hora, hd uma convivencia pacifica e até produtora de uma animagdo da vida de rua e, portanto, entre os moradores e usua- rios dos prédios lindeiros a ela e os que passam por ela a pé ou no interior de veiculos. Aumentando para a faixa de trés a oito veiculos por minuto, o nivel de perturbagao passa a ser pior po- rém tolerdvel. Mas quando o seu ntimero aumenta para mais de oito por minuto, ou seja, um veiculo a cada 7 ou 8 segundos, en- tra-se na faixa de um nivel ambiental da rua muito desagraddvel e 0s cidadaos abandonam as ruas como espaco de convivio e se isolam dentro dos lotes e suas edificac6es, criando barreiras pro- tetoras entre o espago publico degradado e o espaco privado, res- guardado. No entanto, por isso os especuladores querem mudar 0 zoneamento, permitindo usos mais intensos ao longo dessas vias, que vaio se transformando em corredores de circulagao. Isso poderd valorizar por um tempo os imbveis envolvidos, gerando pontos de comércio e servigos, até que a partir dos 800 veiculos por hora por faixa de trafego, ou seja um vetculo a cada 5 segundos, se instala um nivel de degradagao que desvaloriza muito os iméveis. Mas entao o especulador, especialmente 0 da 32 Candido Malta Campos Filho burguesia predadora, espertamente jd vendeu e se mudou, como moradia ou apenas como negécio de investimento, para outro local, onde poderé repetir o processo especulativo e depredador! Esse processo est visivel em seu inicio, por exemplo, na Avenida Brasil. Esta em sua fase final na Avenida Santo Amaro. Esté em fase intermediaria na Avenida Reboucas. Muitos outros exemplos poderiam ser citados. Assim, podemos concluir que viver com maior ou menor qua- lidade de vida depende hoje, em Sao Paulo, de sabermos utilizar us meios de circulagao em nosso beneficio, para melborarmos a nossa qualidade de vida, e nao para piord-la e destrui-la em be- neficio de alguns espertos. Isso significa o poder piblico, através dos diversos meios de que dispde e em nosso nome, controlar 0 modo de transporte, se individual ou coletivo, e quanto a este, se Onibus, em suas varias dimens6es, ou 0 veiculo sobre trilhos, desta- cadamente o metré. E esse controle ter4 que incluir um grande entrosamento com a regulacao do Uso do Solo. E esse entrosa- mento entre Uso do Solo e Transporte tem sido dificil, porém nao impossivel de implementar. Mas este entrosamento é uma chave para encontrarmos a solugao necesséria. Reinvente seu bairro 33 Capitulo 7 © CONCEITO DE UNIDADE AMBIENTAL DE MORADIA ESTABELECE “ILHAS DE TRANQUILIDADE URBANA”, COMO NAS PEQUENAS VILAS. As unidades ambientais de moradia sao aquelas em que se conseguiu controlar o aumento do volume de veiculos atraves- sadores de um bairro, estabelecendo nele “ilhas de tranquilida- de”. Essas ilhas podem ser ruas com volume de trfego controla- do, 0 que podemos chamar de “travessia ilizada”, ou ruas sem. saida, vilas, ou o trdfego de passagem dificultado ou proibido para um conjunto de quadras. Esse conceito sera tanto associado a um uso civilizado e contido do automével nas Areas em que isso ain- da é possivel, porque a densidade das atividades urbanas associada a um determinado sistema vidrio assim 0 permite, como também nas dreas em que 0 adensamento ja atingiu t: niveis que s6 0 transporte coletivo consegue dar conta, com qualidade de servi- go, do volume de circulago que jé se produz ou que venha em horizonte previsivel de tempo de planejamento, a se produ Neste caso, em que se deseja a redugao do uso do automével, um transporte coletivo que cumpra o mesmo papel de oferta de uma mobilidade mutltidirecional terd que ser proposto, como através das malhas cerradas de micro-6nibus e de malhas cerradas de me- tr6. Ao mesmo tempo, e 0 estudo de cada caso o dira, muitas vezes a solugio do bolsao no seu terior se impord como protetor do trafego de passagem, s6 permitindo o trafego local, como solu- ao extrema, devido as fortes presses existentes. Mais adiante explicaremos melhor como conseguir uma garantia de tranquili- dade nas ruas quanto ao trafego, planejando essas snidades am- bientais de moradia, com ou sem bolsdo protetor contra um ex- cessivo volume do trafego de passagem. 34 Candido Malta Campos Filho Note-se que, ao contrario do que se argumenta, a garantia do convivio entre pessoas do bairro ou de fora do bairro que vém nele passear, em busca de sua tranquilidade, depende de se impe- dir 0 trafego excessivo de veiculos por dentro dele. E. 0 que se vé, por exemplo, no Brooklin Velho. O que exclui socialmente o con- vivio enriquecedor urbano é 0 uso excessivo do autombvel, de- predando a qualidade ambiental; transformando a rua de lugar de convivio em nao-lugar, como conceitua 0 antropélogo fran- cés Mare Augé, um dos grandes te6ricos do urbanismo contem- poraneo. Quem privatiza o uso ptiblico do espago vidrio é 0 pe- queno ntimero dos que esto dentro dos numerosos automoveis que ali passam em excesso. Desenho 10 A malha mukidirecional de transporte coletivo. Pontos de transbordo A distincia entre linhas & determinada por ocd, cidado, em uma relagao custo-beneficio. Sugerimas 1 km, de modo @ ninguém andar mais que $00 m 208 at6 9 nant de acesso a0 sistoma Em formulagéo abstrata 8 malha de micro-dnibus @ idéntica a do metré, st) que com capacidade de suporte logicamente muito menor. Para se andar en- 2 pontos sitvedos em diagonal na malha, que € a situagéo mais desfavord- vel de deslecamento por um sistema de transporte coletivo em malha, havera 4 ‘opcGes com um dnica transbordo, como se vé no desenho acima Nemyente seu bairro 35 Capitulo 8 © CONCEITO DE MALHA CERRADA DE TRANSPORTE COLETIVO Esse conceito corresponde a um sistema de linhas de trans- porte coletivo, sobre trilhos ou sobre pneus, formando malhas que, quando estamos dentro de quaisquer delas, nao precisamos an- dar mais que uma distancia que admitimos ser aceitével em ter- mos de conforto e seguranca, para ir a pé acessando 0 sistema em um ponto de entrada do mesmo, num ponto de énibus ou esta- cao de metré, por exemplo (ver Desenho 10). Esta unidade terri- torial pode ser, assim, a unidade ambiental de moradia que defi- ne a sua dimensao pela distancia maxima a ser andada com con- forto para se acessar 0 comércio e servigo locais, quando for © caso, assim como os equipamentos escolares e de satide de grande fre- quéncia de uso. Temos usado em planos de bairro que desenvol- vemos 800 m como disténcia maxima para se andar a pé. Mas vock, cidadao, é 0 arbitro para defini-lo. O sistema de transporte coletivo em So Paulo nasceu e se desenvolveu de forma radial e concéntrica, da periferia para 0 Cen- tro Histérico da cidade, a partir da matriz histérica dos caminhos regionais dos tropeiros e bandeirantes (ver Desenho 11). Até hoje © sistema conta com poucas linhas de transporte coletivo que nao sejam radioconcéntricas, tais como as do espigao da Paulista, as da Avenida Angélica, da Avenida Mateo Bei, na Zona Leste, ow ainda da Avenida Tereza Cristina, no Ipiranga |ver Desenho 12). A partir desse sistema radioconcéntrico é possivel ir desen- volvendo essa malha, que é 0 que de certa forma esta sendo feito com base no plano de transporte recentemente aprovado na Ca- mara Municipal, e que é parte integrante do PDMSP 2002. 36 Candido Malta Campos Filho Desenho 11 A matriz histérica radioconcéntrica dos caminhos regionais, formadora de nossa estrutura urbana. Caminho para Goias Minas Gerais Serrd\da Cantareira Learninho do. Sul (Peabirs Caminho pata o Rio de Janeiro Pinheiros| Santo Andeé E importante ressaltar, no entanto, que esse plano de trans- porte recentemente aprovado por lei (que sera complementado pelo outro Plano de Transporte a ser apresentado em 30 de abril dv 2003) visa racionalizar 0 sistema municipal de transporte co- Reivente seu bairro 37 letivo existente. Nao pode, por enquanto, incluir o transporte cole- tivo metropolitano, que depende do poder estadual, caso dos 6ni- bus intermunicipais, metré e trens de suburbio gradativamente transformados em metré. O Plano Diretor incluiu algumas pou- cas diretrizes mais consensuais, como a linha 4: Vila Sénia-Re- bougas-Repiiblica, ¢ a linha 5 do Metré: Santo Amaro-Avenida Ibirapuera-Vila Mariana. Excluiu maiores visdes de futuro, mes- mo porque, para evitar tal critica, reduziu o horizonte de tempo de 2020 para 2012. Para incluir diretrizes com um félego maior, € preciso um entendimento técnico-politico ainda a ser feito en- tre o Governo Estadual ¢ os municipais da regido metropolitana, que somam 38 municipios, incluindo a cidade de Sao Paulo, o que, por razées politicas, sabemos nao ser facil implementar. Mas fa- zé-lo é uma exigéncia constitucional federal, e por isso dela nao se pode escapar (ver 0 texto “A mais grave lacuna do Plano Dire- tor Estratégico”, ao final deste volume). Também o Plano de Transporte recentemente aprovado pela Camara Municipal em separado do Plano Diretor, ao apenas ra- cionalizar o sistema existente, nao definiu proposta para o futu- ro. Esta ficou por conta do Plano Diretor, ¢ este, como vimos, re- duziu o horizonte de tempo de planejamento para dez anos, en- quanto o governo estadual, para o plano de transporte metropo- litano PITU 2020, tem como horizonte de tempo vinte anos. Mais um descompasso entre o nivel estadual e municipal que ficou pa ra ser resolvido no Plano de Transporte e de Circulagao que de- ver ficar pronto até abril de 2003. Mas, contraditoriamente, embora nao quisesse inovar para nao ter que discutir com o nivel estadual tais quest6es, a Prefei- tura “espichou” a linha que termina hoje na Vila Madalena (a li- nha da Paulista) até 0 CEAGESP, uma inovag3o que nao sabe- mos se conta com 0 apoio do Governo Estadual. F uma extensio que o secretario Jorge Wilheim sempre defendeu, como em 1983 no Plano Diretor que elaborou para o entao prefeita Mario Co- vas, plano esse que ndo chegou a ser aprovado pela Camara Mu- nicipal, j4 que foi entregue a ela pelo prefeito na ultima semana 38 Candido Malta Campos Filho da sua gestdo, como a sugerir que nao acreditava muito em suas propostas. Ao nosso ver, 0 tinico modo de eliminar esse desencontro é © municipio de Sao Paulo ¢ os municipios vizinhos adotarem o mesmo horizonte de tempo do plano metropolitano de transpor- 1c urbano, que é o ano 2020. $6 assim sera possivel o imprescin- divel planejamento conjunto entre o governo estadual e os gover- nos municipais envolvidos na metrépole. S6 assim poderemos ver solucionados os congestionamentos que sofremos. Temos que, como cidadaos, exigir, por todos os meios ao nosso dispor, que esse entrosamento técnico-politico seja efetivado. Voltando a questao das malhas cerradas de transporte co- Ictivo, observamos que uma malha que é ortogonal na escala no bairro é influenciada pelas avenidas radiais na escala da cidade. Desenho 12 A influéneia das grandes avenidas radiais da cidade na matha vidria ortogonal dos bairros. Serra de Cantareira od Hopaso Ay. Celso Garcia lavares Radial Leste fw. Prof are aii cisco Morato fr tow ce ante | ‘Av. do Estado ‘Av. Santo Amaro Billings Guarapiranga Reinvente seu bairro 39 Ocorre que ninguém gosta de mudar de modo de transpor- te: por exemplo, do micro-6nibus ou van para o Gnibus e deste para os trens dos subiirbios e o metré. Esse transbordo toma tempo e, por enquanto — enquanto a tarifa inica integrada nao for im- plantada, o que depende de acordo ainda a ser obtido entre os go- vernos municipais da regio metropolitana, incluindo o munici- pio de S40 Paulo, ¢ o Governo Estadual — custa mais dinheiro. Por isso devernos caminhar para a introducao no Centro Ex- pandido de malhas cerradas unimodais de transporte coletivo que oferecam o suficiente conforto, pela auséncia de transbordos, que possa atrair o automobilista de seu elevado patamar de conforto, pois 0 servico que utiliza é porta a porta, nem precisando andar trechos a pé, a menos quando o estacionamento fica longe (e os “valet service” estao proliferando por isso mesmo, assunto sobre © qual também devemos tomar posicao). Desenho 13 0 conceit de malha cerrada de transporte coletivo adaptada ao sistema hidrogratico de Sao Paulo Rio Tiete Rin Tamandvate O conceito de malha cerrada adaptada ao sistema vidrio existente seguindo aproximadamente espigdes @ fundos de vale, que corresponde ao tragado viario basico existente no Centro Expandido. A malha cerrada do metro em rede subterrdnea nao necessariamente se- guiré como tragado o da matha de micro-Onibus de mais qualidade, que Ihe sera precursora 40 Candido Malta Campos Filho Uma primeira malha com esse objetivo poderd ser propiciada por micro-nibus especiais, com at condicionado e tarifa mais ele- vada que a do ja previsto sistema local de micro-énibus, alimenta- dor dos troncos de 6nibus de grande capacidade. Serd uma ma- tha complementar ao sistema principal de transporte coletivo. E © que estamos propondo desde 1988, e agora estd prestes a ser implantado, pois conta com a concordancia do governo munici- pale integra o PDMSP 2002. O outro sistema unimodal que cria uma acessibilidade multidirecional idéntica & propiciada pelo au- tomével serd uma malba cerrada de metré, no Centro Expandi- ilo, onde as densidades de uso do solo assim exigirem. E nessa di- recdo que temos que caminhar, e esse deve ser 0 objetivo maior de wm Plano de Circulagao e Transporte associado a um Plano de Uso do Solo e um de Habitacao, previstos pelo PDMSP 2002 para ficarem prontos até 30 de abril de 2003. O cdlculo dessa relagao de Circulagao com a Densidade de Uso do Solo deve levar em conta o tipo modal de circulagao uti- Iizado pelo cidaddo. Quanto maior for a proporgao da modali- dade transporte coletivo, maior poderd ser a Densidade de Uso do Solo e vice-versa. A dosagem modal é assim outra questao- cbave. O problema é que estamos ainda na diregao errada. A pro- porcao do transporte coletivo esté diminuindo a cada ano ao in- ves de ir aumentando! E preciso reverter esse processo social! S6 conseguiremos essa reverséo com sua ajuda, cidadao. O Plano Diretor 2002 até agora nao equacionou claramen- de vssa questao, com medo provavelmente de uma reagao negati- vu da sociedade. Timidamente afirma a prioridade do transporte coletivo, mas ndo discute a suficiéncia do rodizio e nem ao me- nos menciona a sua existéncia eo papel que vem cumprindo. Nao discute a introdugo do pedagio urbano como meio para conter esse processo social que estamos vivendo, de um uso cada vez mais titenso do automével, como fez o PITU 2020 citado. Sabemos a dificuldade de se discutir publicamente a intro- dugio do pedagio urbano. Um peddgio urbano, cobrado a razao de US$ 1 por automével no Centro Expandido, sera suficiente Keinvemte seu bairro 41 para aumentar dez vezes a velocidade de implantagao de uma rede de metr6. Disso resultaria uma espetacular mudan¢a em seu beneficio, pois teriamos uma malba cerrada atendendo ao Cen- tro Expandido de 150 km de extensao em dez anos! Assim, sera possivel pér em prdtica uma ampla e vigorosa contengao do uso do automével, ao mesmo tempo que se amplia de modo cabal o sistema de transporte coletivo, oferecendo-se ai, de modo definitivo, uma qualidade substancialmente melhor, tinica capaz de reverter a degradacdo produzida pelos conges- tionamentos crescentes. Se controlarmos de perto a destinagao desse dinheiro, eli- minando os superfaturamentos, teremos ai um instrumento po- derosissimo a reverter a expectativa de uma decadéncia gradati va mas inexordvel de nossa metropole, asfixiada aos poucos por tais congestionamentos. 42 Candido Malta Campos Filho Capitulo 9 A VALIDA POLITICA DE INCLUSAO SOCIAL NOS CENTROS HISTORICO E EXPANDIDO E OS CONGESTIONAMENTOS DO SISTEMA DE CIRCULAGAO QUE ESTAO Af OCORRENDO. No interior do Centro Histérico e do Centro Expandido de Sao Paulo vem ocorrendo perda de densidade demogrdfica com aumento de densidade de viagens por automéveis, e essa perda significa a expulsdo, da regidio, de familias de menor renda utili- zadoras do transporte coletivo, substituidas por familias de maior renda utilizadoras do automével. Assim, é valida uma politica de assentamento populacional de familias de menor renda nessas dreas para tirar proveito do sistema de transporte coletivo sobre pneus, que tem nos tiltimos anos perdido expressiva parcela de usuarios. No entanto, existe um perigo em associar tal politica a setores de classe média que tendem fortemente, hoje em dia, a usar o trans- porte individual. E 0 que acontece com o denominado Programa de Moradias Populares com drea construida maxima de 70 m?, com um ou dois baheiros, associados que so com incentivos quanto a outorga onerosa a serem aplicados nas ZEIS, as Zonas Especiais de Interesse Social, especialmente no Centro Histérico da cidade, ou seja, na area da Subprefeitura da Sé (ver Desenho 14). Isso porque com tal drea construida e ntimern de hanheiros, 0 mercado imobilidrio oferecerd, como ja oferece, apartamentos para a classe média e média alta, fraudando o objetivo de se incen- tivar a moradia popular e contribuindo para piorar os congestio- namentos no Centro Expandido, o qual se situa no entorno do Centro Histérico, indo desde o Rio Tieté ao Rio Pinheiros na zo- na oeste, desde a Lapa até Pinheiros e, indo em direcao a Santo Amaro, ao longo das avenidas Faria Lima e Luiz Carlos Berrini. Reinvente seu bairro 43 Mantida essa diretriz, interpretamos que ela é decorrente de uma estranha alianga entre movimentos populares pré-moradia e especuladores imobilidrios. Alianga que, se no curto prazo pode obter beneficios de algum empreendimento que possa mesmo ter destinaco popular, no médio e longo prazo anula as politicas que visam combater a especulagao imobilidria, as tinicas capazes de reverter 0 processo socialmente perverso de produgdo de mora- dias insalubres ¢ ilegais para a populagao de menor renda. Desenho 14 As ZEIS-3: Zonas Especiais de Interesse Social Tipo 3. Projetos interigados da classe média c com as classes populares Situagao A: no mesmo prédio Situagdo 8: no mesmo lote Situagdo C: em lotes distantes 1a mesma ZEIS 44 Candido Malta Campos Filho Capitulo 10 O ESVAZIAMENTO DO PODER INDUTOR URBANISTICO DA OUTORGA ONEROSA APROVADA O instrumento direcionador do crescimento urbano previs- to no novo Plano Diretor pelos Fatores de Desenvolvimento Ur- bano e de Desenvolvimento Social — que oferecem reduces cada vez maiores do prego a ser cobrado pela outorga onerosa, quan- to mais desejavel seja atrair para certa regio determinado tipo de morador — ficou muito esvaziado pelas concessées feitas aos incorporadores imobilidrios, que tiveram garantidos seus direitos histéricos de construir sem nada pagar por eles. Os proprietarios e incorporadores ainda ganharam direitos adicionais, mediante outorga onerosa, isto é, direitos de construir pagos. Alguns desses direitos serdio pagos automaticamente quan- do forem aprovar na Prefeitura os seus projetos de construgao. A aprovacio automatica desde jé € autoaplicavel com a aprovagao do PDMSP 2002. Outros direitos adicionais ainda dependem de aprovacio por lei especifica, como no caso das Operagées urba- nas ainda nao aprovadas, mas listadas no Plano Diretor 2002. A aplicaco automatica da outorga onerosa é 0 que ocorre nas atuais Z2, ronas onde quase todo tipo de uso pode ser localizado, e que cabrem cerca de §0% da cidade. Os incorporadores e proprieté rios ganharam direitos de construir adicionais automaticos tam- bém nas Z6 e Z7. Essas duas tiltimas zonas, as Z6 e as Z7, as lnicas Zonas Industriais da cidade, antes proibiam edificios de apartamentos de classe média e, com 0 Plano Diretor recentemente aprovado, passaram a permiti-los. Como dreas atrativas para ins- talago ou ampliagao de indiistrias, com a valorizacao especulativa que passarao a sofrer como resultado dessa permissao, tenderio Reinyente seu bairro 45 Desenho 15 As macrozonas de estruturagéo e qualificagao urbana @ as macrozonas de protegao ambiental do POMSP 2002, 46 Macrozona de estruturago e qualficago urbana: ‘MARU: Macrozona de restruturagao e requaliicagao urbana MUCada" Macroarea tle urbanizacio consolidads MUC30: Macrostea de urbanizagzo em consolidagao, MUO: Macrodrea de urbanizagao e qualificagao. Macrozona de protegao ambiental MPL. Macroarea de protegao integral MUS: Macrodrea de uso sustentével MCR: Macroarea de conservacao recuperagao. Plano Diretor no definiu onde se localizam as Macrodreas de protegio ambiental 0 interior da Macrozana ficou para ser definido nos Planos Regionais (e 62 baitro) Candido Malta Campos Filho a desaparecer. Nao teremos mais areas de localizacao preferen- cial de médias e grandes induistrias, com preocupantes reflexos na oferta de empregos industriais na cidade. Mas essa € uma outra questo que ndo vamos aqui aprofundar, mas que é importante dado o macigo desemprego de cerca de 20% hoje ocorrendo em nossa cidade. Um erro que Maud e Santo André iam cometendo em sua legislacao urbanistica, mas que reverteram a tempo. Nao. sabemos como a FIESP (Federagao das Indistrias do Estado de Sao Paulo) possa ter concordado com tal orientag4o, que tanto deverd prejudicar o parque industrial paulistano. Outras dreas da cidade, como vimos, ainda dependem da fi- xagdo do coeficiente de aproveitamento, mediante calculo da ca~ pacidade de suporte, que é uma obrigacdo metodolégica aprova- da no PDMSP 2002. Essa fixagdo deverd ser efetivada por uma lei para cada uma das Operacies Urbanas, a serem aprovadas, uma por uma, na Camara Municipal. & bom lembrar que nao se pode calcular a capacidade de suporte isolando uma Operagio Urba- na do conjunto da regio onde est inserida. Porque o aumento de intensidade de uso permitido pela Operacao gerard e atraird viagens em um entorno de pelo menos 10 km, uma area muito mais ampla do que a da propria Operacio. Assim, além disso, essas areas de operagdes urbanas ganha- ram possiveis direitos adicionais, que podem chegar a quatro ve- zes a area dos terrenos, a serem pagos mediante outorga onero- sa, quatro das quais j4 estao em funcionamento e outras sete de- pendem de projeto de lei a ser aprovado na Camara Municipal. Isso s6 poder tecnicamente ocorrer cotejando esse aumento de densidade urbana local que as operagées urbanas produzirao em relagdo ao entorno urbano de cada uma delas de pelo menos 10 km, 0 que significa para o seu conjunto verificar esse impacto para a rea do Centro Expandido, onde a maioria se situa e que € jus- tamente hoje a Area mais critica de congestionamentos. Reinvente seu bairro 47 Capitulo 11 © ENORME ADENSAMENTO PREVISTO NO PLANO DIRETOR EM DESPROPORGAO COM A CAPACIDADE DE SUPORTE EXISTENTE E PREVISTA Mas ficou no novo Plano Diretor, contra o nosso parecer, além dos adensamentos previstos pelas 11 (onze) Operagdes Ur- banas, uma preocupante diretriz: que é desejdvel adensar-se com aumento do coeficiente de aproveitamento (CA) até o valor de area construida igual a quatro vezes a area do terreno (que é 0 valor maximo a ser permitido em toda a cidade) em area de 300 m de cada lado ao longo de corredores de transporte coletivo da mas- sa, incluindo nesse conceito 0 metrd, os subtirbios, 0 VLP (vei- culo leve sobre pneus) e o VLT (vefculo leve sobre trilhos), con- forme Mapa 3 ¢ Quadro 12 do PDMSP 2002 (ver artigos 146, 221, 121 e 122, nessa ordem). O texto fala também em adensar com CA de até quatro ve- zes em até 300 m ao lado de eixos e polos de centralidades con- forme Mapa 4 ¢ Quadro 8 do PDMSP 2002, 0 que é vago e preo- cupante como conceito, e mais ainda se atentarmos para 0 que estd escrito no artigo 127, abrindo preocupantemente a definicao feita. Ver também o artigo 126. Ver ainda, quanto ao Rodoanel, © artigo 223, também propondo adensamento ao longo dele quan- do estiver situado na Macrozona de Estruturacao Urbana com a mais alta intensidade. E também a diretriz de uso do solo ao lon- go da linha ferrovidria desativada da CPTM na zona leste entre a Vila Matilde e Guaianazes, no artigo 224. Todos prevendo 0 po- tencial adensamento urbano maximo. Com todo esse adensamento posto em pratica, a nossa po- pulagao poderia quadruplicar, passando dos atuais 10 milbdes 48 Candido Malta Campos Filho para 40 milhes de habitantes! Uma enormidade inadmissivel! Nem haverd populagdo em niimero suficiente para preencher todo esse potencial fisico possivel de ser construido. O crescimento demografico da cidade tem taxa decrescente tendendo a zero. A melhoria do nivel de renda da populagao pres- siona, no entanto, para moradias maiores, assim como mais am- plos locais de trabalho e de lazer. Isso, a médio e longo prazo, de- verd ocorrer. No curto prazo, 0 que vemos é 0 encolhimento das dreas construidas oferecidas de moradia, dos apartamentos tipo 2, 3 e 4 dormitérios, pelo mercado imobilidrio, inclusive para as classes média e alta. Ver Desenhos 10 ¢ 13, mostrando que a légica multidire- cional introduzida pelos automéveis exige, para que eles sejam substituidos por um meio coletivo, que este seja organizado por malha cerrada, que é também multidirecional, com distancia en- tre linhas da ordem de 1.000 m, para nao se andar mais que 500 ma pé para acessé-la. Desenho 16 0 médulo basico da malha cerrada de transporte coletivo km oh Reinvente seu bairro 49 Capitulo 12 OS CORREDORES METROPOLITANOS E A POSSIBILIDADE DE CRIACAO DE CENTRALIDADES DA MAIS ALTA QUALIDADE NO CENTRO EXPANDIDO FE NA PERIFERIA METROPOLITANA Essa politica de adensamento urbano nao distingue dois ca- sos como deveria. Primeiro teriamos que examinar casos ao longo dos eixos ferrovidrios, de aproveitamento igual a quatro vezes a area do ter- reno, onde tal diretriz é em principio valida, pois neles é possivel colocar em seus leitos ferrovidrios jé existentes até seis linhas pa- ralelas de metrd, em dois niveis sobrepostos. Ao longo das linhas ferrovidrias sera possivel, provavelmente, conforme nos dird 0 c4l- culo da capacidade do suporte do sistema de circulagdo nos ei- xos ¢ polos de centralidades, permitir que 0 coeficiente de apro- veitamento st ja igual ou até superior a quatro, a baixissimo custo de implantacao do sistema de circulacao, que é 0 mais alto custo ptiblico de uma cidade, correspondendo a cerca de 70% do to- tal. Esse foi o centro de nossa tese de doutoramento defendida em 1973 na FAU-USP, na qual propusemos um forte adensamento a0 longo dos eixos ferrovidrios que coincidem com os trés rios mais importantes da metropole, 0 Tieté, o Pinheiros e o Tamanduat Com 0 tempo, dessa politica resultaria o desenvolvimento de te- cidos urbanos lineares de alta conectividade, a que propus 0 nome de Corredores Metropolitanos. Os Corredores Metropolitanos po- dem levar centralidades de alto nivel ao conjunto da metrépole, incluindo a sua periferia hoje destituida dessa importante quali- dade urbana. E de se salientar que este custo é muito baixo dada a minimizagao de desapropriacées. Segundo, teriamos que examinar a situagao das linhas de transporte sobre pneus, que andam por vias congestionadas e que, 50 Candido Malta Campos Filho quando se quer que fiquem com o trafego coletivo separado do individual para aumentar um pouco a sua capacidade de supor- te, segrega-se em faixas exclusivas o transporte coletivo e, para isso, acaba-se por entupir o espaco da via com grades, edificacées de abrigos, separadores de concreto, degradando-o definitivamen- te. Como se vé, por exemplo, nos corredores de trafego coletivo segregado nas avenidas Santo Amaro e Nove de Julho. Um dese- nho urbano mais cuidadoso desse assim chamado “mobilidrio urbano” pouco pode fazer, dadas as timidas proporgées atuais das vias segregadas. S6 uma operacao urbana de porte serd capaz de modificar esse quadro, alids, como esta previsto corretamente no PDMSP 2002 para o entorno da Avenida Santo Amaro. O novo Plano Diretor simplifica excessivamente essas ques- tes, induzindo a erros graves. Iguala a reestruturacao urbana de amplissimo félego, possivel e desejavel de ser feita ao longo dos eixos ferrovidrios hoje degradados e com enorme potencial de de- senvolvimento urbano e novas centralidades, com uma atuagao0 de curtissimo fdlego. Essa de longuissimo folego, foi desenvolvida por mim como tese de doutoramento na FAU-USP em 1973, co- mo dito acima, e esse conceito foi introduzido em 1970 no PMDI (Plano Metropolitano de Desenvolvimento Integrado), que aju- dei a dirigir como um dos seus quatro diretores técnicos. Outro exemplo de proposta de intervengao de alcance mais amplo foi a que fizemos, através de meu escritério Urbe, contra- tado pela Prefeitura Municipal de Santo André, em 2000 e 2001, no plano urbanistico para o denominado Eixo Tamanduatef, rea com 8,5 km de extensdo ao longo da ferrovia e da Av. do Esta- do. e com 1,5 km em média de largura. Outros arquitetos tam- bém foram chamados a apresentar suas propostas, com pressu- postos estruturadores de planejamento urbano, como Joan Bus- quets, de Barcelona, Eduardo Leira, de Madri, ¢ Christian de Port- zamparc, de Paris. O PDMSP 2002 confunde esse tipo de intervengao com a reestruturagao de félego curtissimo dos corredores vidrios estrei- tos e congestionados, como o da Avenida Santo Amaro, onde a Reinvente seu bairro SL Desenho 17 Os Corredores Metropolitanos (a0 longo dos rios, a0 fongo das ferravias) ( Serra da Cantareira Eixo Tamanduate’ (Diagonal Sul) Guarapiranga 0 conceito macroestruturador da metrépole enquanto centralidades de alta qualidade: os Corredores Metropolitanos, que propus nos anos 70 e que enten: do continuam validos. Eles foram inseridos apenas parcialmente no novo Plano Diretor, por meio do Corredor Diagonal Sul, de Sao Caetano a Perus, passando pelo Centro Histérico (sendo que o trecho Lapa-Perus no consta da minha pro- posta, pois nao vejo sentido nele) requalificagao sera muito dificil e por isso limitada, seguramente com capacidade de suporte muitissimas vezes inferior a dos eixos ferrovidrios requalificados. Vemos, entao, essa confusio de politicas piblicas, igualan- do erradamente o forte adensamento desejavel ao longo dos ei- xos ferrovidrios e 0 indesejavel adensamento ao longo de aveni- 52 Candido Malta Campos Filho das ja congestionadas. Além disso, inexplicavelmente, o PDMSP 2002 exclui dessa diretriz de adensamento o espago urbano ao longo das ferrovias, correspondente a cerca de 20 km, do Bras a Guaianazes, justamente onde a auséncia de centralidade de hie- rarquia superior é mais demandada em Sao Paulo: a gigantesca zona leste, com mais de 1 milhao de habitantes! Contraria assim outra diretriz do PDMSP 2002 que quer levar maior qualidade de vida urbana e empregos para a maior regido carente do munici- pio em ntimero de habitantes, que é a zona leste! Um contrassen- soe uma contradicao do PDMSP 2002! E, ao mesmo tempo, quer levar essa centralidade para a regido de Pirituba-Perus, onde a mesma é muito menos necesséria, por ter uma populagZo muito menor numericamente falando. Esse é 0 conceito da centralidade denominada Diagonal Sul, no Plano Diretor 2002, que correta- mente comega na divisa com Santo André e Sao Caetano e vai até a Lapa, mas, ao invés de se dirigir para a Vila Leopoldina, vai, a meu ver erradamente, para Pirituba-Perus. Teremos que priorizar um eixo leste-oeste para melhor dis- tribuir as centralidades metropolitanas. Parece que, para a zona leste, esto priorizando a ligagdo do Aeroporto de Guarulhos com © ABC através da avenida Jacu-Péssego, recentemente inaugura- da. Embora seja uma importante ligacdo em formato de anel, podendo ser considerado parte do sistema do Rodoanel que se quer implantar pelo Governo Estadual (que é bom no sul da metrépo- le desde que fique fora dos mananciais), nao tera folego para se tomar uma centralidade metropolitana de grande expressdo, como a passivel de ser implantada ao longo da ferrovia. Uma avenida jamais poderé concorrer com um tronco composto por varias li- nhas paralelas de metrd. O fator principal que comanda essas transformagoes pelo mercado imobilidrio é a indugao resultante da oferta de melhor acessibilidade. Reinvente seu bairro 53 Capitulo 13 COMO AVALIAR OS TIPOS DE ZONAS DA LEI DE ZONEAMENTO Como podemos avaliar especificamente os tipos de zonas da lei de zoneamento em vigor até a aprovagio de PDMSP 2002, comparando-os com os tipos propostos em linhas gerais ¢ os ti- pos mais especificos definidos pelo novo Plano Diretor, ¢ ainda, como propor novos tipos para o seu bairro? Pela anilise feita, conclui-se que a estruturagiio do sistema de circulagio define as qualidades ambientais fundamentais e que 0 tecido urbano € totalmente dependente das qualidades ou de- feitos ambientais dele decorrentes. O Plano de Circulagao ou de Transporte é assim de impor- tincia fundamental para a definigao do Plano de Habitacao e do Zoneamento, os quais devem ser elaborados de modo conjuga- do, pela sua interdependéncia, como esté exigido expressamente nos artigos 183 e 271 do PDMSP 2002 e no Estatuto da Cidade. Hé diversos modos de organizagao das densidades maiores ou menores com qualidades ambientais especificas, cada densi- dade definindo tecidos urbanos de “caras” diferentes. Qual se- rd, cidadao, a cara do tecido urbano de sua preferéncia e de sua familia? 54 Candido Malta Campos Filho Capitulo 14 QUAL E£ A CARA, CIDADAO, DO TECIDO URBANO DE SUA PREFERENCIA? Vocé prefere uma cidade-jardim horizontal, somente com casas (Desenho 18)? Ou prefere uma cidade-jardim semi-horizontal, como as su- perquadras de Lucio Costa do Plano Piloto de Brasilia, com edi- ficios de apartamentos de seis pavimentos (Desenho 19)? Ou prefere uma cidade-jardim vertical com prédios-torres? De até dez pavimentos, por exemplo (Desenho 20)? Ou prefere uma cidade-jardim vertical sem limite de altura para os prédios (Desenho 21)? Ou prefere uma cidade-jardim de prédios com gabaritos heterogéneos (Desenho 22)? Ou prefere uma zona com o maximo de usos locais ¢ diver- sificados por perto (Desenho 23)? E sobre isso, especialmente, que nés cidadaos devemos nos debrucar, no que se refere aos condicionantes da qualidade de nossa vida na cidade. Mantenhamos como pano de fundo em nosso raciocinio os processos estruturadores e desestruturadores em curso em nossa cidade, que se dao a partir basicamente das mudangas nas condi- Ges de acessibilidade. Tenhamos em mente, especialmente, uma questiio-chave, que é a questio do prego que se paga, na compra ou aluguel de iméveis, pelo acesso ao solo urbano. Ele é infla- cionado pela sistemdatica especulacao imobilidria, a ser também sistematicamente combatida pelos novos instrumentos a nds ofe- recidos pelo Estatuto da Cidade — instrumentos que, de forma fraca, embriondria, mas promissora, foram aprovados no Plano Diretor Estratégico do Municipio de Sao Paulo em 2002. Reinvente seu bairro 55 Desenho 18 A cidade-jardim horizontal [a (ZER-1 ou ZML-1 FER | até 2 pavimentos} Desenho 19 A cidade-jardim semi-horizontal, como as superquadras de Brasilia (ZER-2 ou ZML-2 até 6 pavimentos} Desenho 20 A cidade-jardim vertical © (ZER-3 ou ZML-3 até 10 pavimentos). 56 Candido Malta Campos Filho Desenho 21 A cidade-jardim vertical sem limite de altura (ZER-4 ou ZML-4 com mais de 10 pavimentos), Desenha 22 A cidade-jardim de gabaritos heterogéneos (6H) misturando casas @ prédios de até 5, até 10 € com mais de 10 pavimentos (ZERew ou ZML gy) Desenho 23 Maximo de usos lacais e diversificados por perto (2MO). Na Zona Mista de Uso Diversificado este uso geralmente associado a densidade demogrética local alta. No entanto, ele pode também estar servindo a uma grande érea cuja baixa densidade demografica é compensada pela sua grande extensao. Reinvente seu bairro S7 © IPTU progressivo no tempo depende ainda de lei comple- mentar, por exemplo. Devemos avaliar o alcance desse instru- mental inovador para aperfeigod-lo, buscando agora sua aplica- dio mesmo dentro dos limites do modo como foi aprovado no no- vo Plano Diretor. Devemos nesse momento focar nossa atengao na estrutu- racio do espago urbano ¢ como ela se da concretamente em rela- cio as nossas vidas. JA observamos como sao as relagées de vizinhanga com o comércio e os servicos e também com os equipamentos sociais, especialmente os de educacao e satide. Vejamos agora como des- sa andlise decorre 0 que podemos chamar de tipos basicos do te- cido urbano, nogao central para definirmos 0 zoneamento, que nada mais é que a definigdo de tipologias de tecido urbano, a regrarem a implantacgao de um bairro ou, o que é mais comum entre nos, controlar a sua transformacao direcionando o seu fu- turo. O estilo de vida em um bairro, o ambiente que ele oferece aos cidadaos, pode ser resultado apenas do que quer um merca- do imobilidrio sem regras ou com regras desobedecidas, ou en- tao resultado de regras que nds, cidaddos, queiramos colocar pa- ra direciond-lo em nosso beneficio. No caso da educagao, os equipamentos principais sao: a cre- che, a escola maternal, o ensino fundamental do 1° ao 5° ano (an- tigo pré-primério e primario), do 6° ao 9° ano (antigo gindsio) e © ensino médio (antigo colegial). O ensino de nivel superior tem outra légica de localizacao, a qual pode ser bem mais distante da moradia que a dos equipamentos de ensino fundamental e médio. Os cursos superiores ou os do tipo de ensino de reciclagem. por exemplo, de mao de obra, mais especializados, também de- vem estar localizados nos locais de acessibilidade metropolitana, isto é, nas centralidades de mais alto nivel. No caso da satide, os equipamentos basicos sao: 0 posto de satide (unidade basica de satide) ¢ 0 hospital geral regional. Cada regiao de cerca de 200 mil habitantes deve ter o seu hospital, eo posto de satide deve atender a, no maximo, 20 mil habitantes, Es- 58 Candido Malta Campos Filho ses so os padrdes de atendimento que tém sido utilizados no Brasil. Cada regido abrangida pelo Plano Regional deveria ter 0 seu hospital geral, em principio, somado a um niimero proporcio- nal de unidades basicas de satide. E preciso verificar se, de fato, a sua subprefeitura tem o seu sistema completo de unidades de en- trada no sistema de satide, como é denominado, e se est bem lo- calizado para atender a demanda do conjunto dos moradores que nela vivem. Os hospitais mais especializados devem se localizar nas centralidades de maior hierarquia, de nivel metropolitano, atendentes de 1 milhao de habitantes ou mais, como € 0 caso, por exemplo, dos intimeros hospitais no eixo da Avenida Paulista. Reinvente seu bairro 59 Capitulo 15 OS TIPOS BASICOS DE TECIDO URBANO Esquematicamente, podemos desenhar os tecidos urbanos existentes mais comuns, que chamaremos de bdsicos. Eles podem ser simplificados, no que se refere a moradia, em quatro tipos, tendo em conta o tragado bdsico de quadras e a distribuigéo do trafego de veiculos e dos usos a ele associados: Tipo 1: bairro nascendo e se desenvolvendo isoladamente, usualmente na periferia do espaco urbano da época em que € ini- ciado (Desenho 24). Tipo 2: bairro se relacionando a bairros vizinhos formando uma malha de bairros, conforme o territério urbano vai se expan- dindo (Desenho 25). Tipo 3: bairro planejado tipo “jardim”, que nasce usualmen- te nas periferias urbanas da época em que sao implantados, e de- pois podem ir ficando centrais (Desenho 26). Tipo 4: bairro que se transformou em central na estrutura urbana devido a expansao do territério da cidade (Desenho 27). Desenho 24 Tecido urbano basico tipo 1 vomercie Moradias servigns locas sispersos Via de ligagéo interbairras /_ Comércia @ ~ servigas diversiticados polarizedos. 60 Candido Malta Campos Filho Desenho 25 Tecido urbano basico tipo 2. Via de ligagao interbairros Comercio & __= setvigas locais dispersos Moradias _ Via de ligagao interbairros. Comércio ¢ —~ servigos diversiticados polarizados Desenho 26 Tecido urbano basico tipo 3. Vias de ligagao imerbairros Moradios eee it 1 Comércio e servigas Comércio & diversificadas servos locais concentrados concentrados Desenho 27 Tecida urbano basico tipo 4. Vias de ligagéo interbairos AME! SD yee ed ETE Comercio & Be senviges locas ; # i Til — e diversiticados dispersos Moradias _ Reinvente seu bairro 61 Todos os bairros passam por uma transformagdo desde a sua fundagao. Podemos relacionar esses quatro tipos basicos de tecido urbano com o processo gradativo de formagao de um bair- ro desde a sua fundagio até a sua consolidagao, ou seja, até o preenchimento da maioria dos lotes. Estes tiltimos, enquanto per- manegam vazios, constituindo um estoque especulativo, devem ser taxados progressivamente, ao longo do tempo, no que se re- fere ao IPTU, e também com a urbanizacdo compulséria, como dispée a Constituigdo Federal em seu artigo 182, e como dispoe agora o Estatuto da Cidade. Se vocé tem um tinico lote e espera juntar o dinheiro suficiente para construir nele, no deve ser ta- xado como especulador. Exija isso, como um direito seu. Nessa etapa hist6rica da evolugao de um bairro, que dura varias décadas, o bairro mantém o padrao 1 de tipologia basica de tecido com centralidades lineares ao longo das vias coletoras e estruturais, por onde passa a linha de énibus. Nos cruzamentos de vias estruturais, ou junto a estacées de transbordo de trans- porte coletivo, surgem centralidades polares constituindo o tipo basico 2. Esse cruzamento de vias se da por forca do surgimento ou desenvolvimento de bairros laterais vizinhos. O tipo 1 tende a ser 0 que nasce de uma auséncia de plane- jamento, com o mercado agindo livremente, sem zoneamento ou com sua desobediéncia sistematica, como na regiéio dos manan- ciais, ou regulado por um zoneamento misto aberto, sem contro- le sobre essas transformages, como nas Z2 em So Paulo. O tipo 2 é 0 mesmo caso, com a diferenca de que bd um en- troncamento de duas vias importantes em seu interior, em geral estruturais, mas podendo ser apenas vias coletoras ou 0 encon- tro de uma via coletora com uma via estrutural. O tipo 3 pode nascer de um planejamento privado, como é 0 caso da Cia. City em Sao Paulo, ou de um planejamento pii- blico, como é 0 caso da Cohab-SP, Cecap e CDHU-SP, entida- des piiblicas produtoras de habitacao popular. Esse tipo de teci- do é sempre resultado de algum tipo de planejamento; quando essa iniciativa é do loteador, é em geral destinado as classes mé- 62 Candido Malta Campos Filho dias, e quando é do poder priblico, é em geral destinado as clas- ses populares, como nos conjuntos habitacionais. O tipo 4 nasce, em geral, de uma centralidade advinda do crescimento demogrdfico de bairros adjacentes e por um proces- so de adensamento urbano no proprio bairro, que pode ser po- pular on de classes médias ou misto, ou os dois processos ocor- rendo simultaneamente, um fortalecendo 0 outro. Os centros de cidades, em seus diversos niveis, apresentam tecidos do tipo 4. Esses quatro tipos basicos de tragado, com definigao de usos do solo de comércio e servigos pelo mercado ou pelo planejamento urbano privado ou publico, podem ser desdobrados em diversos tipos associados a diversas intensidades e mesclagens de usos ou das atividades, correspondendo basicamente a diversas alturas das edificag6es, ou seja, de sua drea construida. Também podem ser resultado da atuagio livre do mercado imobilidrio ou deste regu- lado por legislacao urbanistica, ou ainda como resultado de in- tervengdo publica na produgao de moradia popular ou de implan- tagdo das chamadas Operagées Urbanas e, agora, pelo Plano Di- retor, de Projetos Estratégicos, que envolvam moradia popular. As centralidades do comércio e servigos tendem a ser au- toalimentantes, intensificando cada vez mais a sua densidade urbana até o limite de saturacdo, quando as vias onde se insta- lam, dado 0 excesso de trafego de veiculos, passam a repelir clien- tela ao invés de atrair, e os negécios ai instalados entram em de- cadéncia e acabam sendo substituidos por outros de menor ren- tabilidade, ou entao os iméveis sao abandonados. Devemos verificar quais so as qualidades e os defeitos des- ses tipos basicos de tecido quanto ao tragado das vias. O traga- do pode ser apenas ortogonal, radioconcéntrico e com vias diago- nais, ou ainda podemos ter tracados organicos completos, com ruas curvas, muito apropriados para terrenos ondulados, como os utilizados pela Cia. City no Alto da Lapa e no Pacaembu. Também podemos ter tragados curvilineos como no Jardim Amé- rica, embora nesse caso a regido seja plana. Podemos ter ainda, logicamente, alguns desses tipos de tracado se combinando, co- Reinvente seu bairro 63 mo no centro de Belo Horizonte, uma cidade que teve em seu ini- cio um tragado radioconcéntrico com diagonais, e foi planejada no comego do século XX. Ou no tecido urbano de Ildefonso Cer- da para Barcelona, na Espanha, com sua quadricula de quadras chanfradas nos cantos com patios internos, onde a malha orto- gonal vidria é cruzada por duas gigantescas avenidas diagonais (que em catalao sdo curiosamente denominadas “avingudas dia- gonais”), tracado esse planejado j4 em 1857. Essa capacidade de andllise é 0 que se quer desenvolver, apro- fundando a viséo do cidadao leigo associada a visdo do arquite- to urbanista, distinguindo claramente os interesses sociais vdlidos associados aos valores de uso, relacionados a estilos de vida. Es- tes devem ser percebidos como distintos dos socialmente repro- vdveis, associados aos valores especulativos imobilidrios, que sao valores de troca. Nem sempre valor de uso alto corresponde a valor de troca também alto. E pode acontecer o inverso. Alto valor de troca nos corredores comerciais com baixo valor de uso habi- tacional, por exemplo. Este é um trabalho coletivo de avaliacdo da qualidade de vida oferecida por cada um dos bairros de Sio Paulo, em uma visio dindmica do processo de sua transformagio urbana, processo que pode ser para algo melhor, para algo dife- rente porém igualmente bom ou para algo igualmente ruim ou até pior do que a situacdo existente. 64 Candido Malta Campos Filho Capitulo 16 COMO TODOS OS TECIDOS URBANOS BASICOS PODEM TENDER PARA O TIPO 4, E ISSO SER UM GRANDE PROBLEMA PARA A MAIORIA DOS CIDADAOS Podemos afirmar, mais uma vez com uma grande simplifi- cacao dos fatos, visando uma abordagem inicial da problemética da transformagao dos tecidos urbanos, que, historicamente, um mesmo bairro da cidade pode ter sido iniciado como tipo 1, pas- sando pelo tipo 2 e chegando ao tipo 4 (ver os respectivos dese- nhos). Esse 6 0 caso de muitos bairros que foram periféricos ese transformaram em centrais em Sao Paulo com o cresctmento do territério da cidade. Outros foram planejados pelos loteadores ou pelo poder publico, neste caso constituindo conjuntos habitacionais como tipo 3 e se transformaram em tipo 1 ou tipo 2 e depois até tipo 4, de- vido a correntes de trdfego que os foram penetrando e atraves- sando por auséncia de um controle ptiblico, produzindo o abando- no gradativo das qualidades previstas no planejamento inicial. Outros foram idealizados como tipo 3, como os planejados pela Cia. City, em Sao Paulo, de alta qualidade urbanistica, na perife- ria urbana, quando foram langados, e muitos se transformaram em bairros de posigao central, como o Jardim América e o Pacaem- bu e como comega a acontecer com o Alto de Pinheiros. Isso de- vido a sua localizagao na estrutura urbana de Sao Paulo, tendo em vista 0 espantoso crescimento da cidade durante o século XX, que se transformou de um burgo de 200 mil habitantes em uma gigantesca metropole de 15 milhdes de moradores! Por isso, e devido 4 falta de um planejamento urbano que os resguarde suficientemente de correntes de trafego, sofrem pres- sao para que passem a ser do tipo 1, depois do tipo 2, ¢ final- Reinvente seu bairro 65 mente do tipo 4. Essa é a vontade, também, de muitos especula- dores imobilidrios, que nao se preocupam nem um pouco com a qualidade de vida que se perder com essa transformagao. Este é0 problema sofrido pelo Pacaembu, atravessado pela Avenida Pacaembu, pelo Jardim América, atravessado pela Avenida Bra- sil, ¢ pelo Jardim Paulistano, atravessado pela Avenida Faria Li- ma, dentre intimeros exemplos que seria exaustivo aqui citar. Dois sao os fatores que podem produzir as transformacées de acessibilidade geradoras das condicées locacionais que pro- piciam o surgimento de “pontos” de interesse para o comércio € para os servigos, dentro de uma légica de mercado imobilidrio, sem regras urbanisticas que o impecam: 0 aumento do trafego de passagem em uma via, que gera a visibilidade atratora do cliente, e 0 aumento de densidade demografica acompanbada de poder aquisitivo, que gera a proximidade fisica do potencial cliente. Ambos sio fatores produtores de potenciais corredores de comér- cio e servicos. Esse processo de transformagio urbana, ao lado de deter- minados valores de uso, produz aumento ou redugao, dependen- do da circunstancia, do valor de troca dos iméveis envolvidos. Resulta dessas transformagées um crescente conflito entre aqueles que prezam uma moradia em local tranquilo, com muita arborizacdo e jardins — que é um importante valor de uso em uma conturbada e violenta cidade como estd sendo a nossa —, e aqueles que preferem o valor de troca, mesmo com prejuizo da tranquili- dade (ndo necessariamente para si, pois podem mudar para ou- tra rua ou bairro tranquilo, ficando o prejuizo para os vizinhos que ld permanecerao) Hé ainda, mas acredito que seja uma minoria em nossas ci- dades, os que prezam a vida intensa ¢ até agitada tipica de areas mais centrais e que tém suas raz6es para pregar a transformagao de bairros tranquilos, para os quais nao dao valor, em bairros de grande intensidade de trdfego e com a mistura maxima de usos compativeis. Os cidadaos desse tipo preferem morar em dreas cen- trais, mas eles ndo precisam necessariamente eliminar os bairros 66 Candido Malta Campos Filho tranquilos para isso, como estamos vendo. Podem se localizar em bairros que jé adquiriram tais caracteristicas, que so intimeros em Sao Paulo, ou em outros que queiram desenvolver esse am- biente urbano. Assim vemos que 0s quatro tipos basicos dependem, para uma definicéo mais precisa dos tipos concretos existentes, nao apenas dos tracados vidrios definidores das quadras, mas também do tamanho dos lotes nas quadras e, nestes, das tipologias arqui- tet6nicas construidas, especialmente no que se refere 4 intensida- de de uso urbano que condiciona, por sua vez, a mesclagem de usos. Essas tipologias arquitetonicas se distinguirdo fundamental- mente em sua altura, ¢ este seré um dado importante a ser consi derado, como também a sua posigao mais central ou mais perifé- rica na estrutura urbana da cidade, para se perceber a ligica trans- formadora a que estar sujeito, para o bem ou para o mal. Reinvente seu bairro 67 Capitulo 17 COMO ALTERAR OS TECIDOS EXISTENTES? E certo admitirmos ser muito mais dificil, para uma comu- nidade urbana, se alterar os tragados vidrios do que se alterar a tipologia arquiteténica do miolo das quadras. O custo de desa- Ppropriagao para a abertura ou alargamento vidrio é altissimo, e 08 custos sociais decorrentes do deslocamento de pessoas ¢ do fechamento de atividades também. A remodelagio de bairros inteiros pode e deve ser uma meta para aquelas comunidades que estejam muito descontentes com co seu atual tecido urbano. Na atual etapa histérica de nosso de- senvolvimento urbano, entendo que devemos limitar essas inter- vengoes “cirtirgicas”, nesses proximos anos, a ambientes urbanos muito degradados, como o de algumas favelas e edificios encor- ticados, se suas comunidades assim o desejarem. Talvez possamos, dentro de algum tempo, remodelar bair- ros inteiros, como foi feito na periferia de Madri nos tiltimos 20 anos, utilizando nao o instituto da desapropriagdo, mas sim o da requisicao urbanistica, Esse instrumento juridico, de uso corren- te na Espanha, ainda nao foi aprovado no Estatuto da Cidade, embora constasse do projeto de Lei Federal de Desenvolvimento Urbano n° 2.191/88, que coordenamos tecnicamente, e que foi apresentado pelo deputado Raul Ferraz ao Congresso Nacional (e do qual se originou basicamente o Estatuto da Cidade). A sua introdugdo no mesmo deve ficar para uma proxima etapa, visan- do ao seu aperfeigoamento, diante da experiéncia que vamos ad- quirir com a sua aplicacio, Com a requisigéo urbanistica, a re- modelagao de bairros inteiros se tornard financeiramente possi- 68 Candido Malta Campos Filho vel, pois elimina a necessidade de prévia desapropriagao da area a ser reurbanizada. Em nossos planos de bairro, devemos levar em conta a in- crivel experiéncia madrilena para levantar nossas esperangas de requalificacdo urbanistica, dada a precariedade, a nosso ver, da grande maioria dos tipos de tecido urbano existentes em Sao Pau- lo por sua exiguidade vidria, com ruas de menos de 10 m de lar- gura, especialmente nos loteamentos de origem clandestina aber- tos na segunda metade do século XX. Neles, lotes so ocupados até o limite por todos os lados, com edificagées as vezes invadindo o espago publico da rua, dificul- tando e mesmo impedindo o plantio de drvores, criando uma mas- sa construfda que, nos dias quentes, funciona como pedras de la- reira, conservando, difundindo ¢ aumentando o calor ambiental, que fica durante muitos dias do ano quase insuportavel. Devemos buscar a recuperacdo de dreas verdes e espacgos institucionais ocupados pela populagdo empobrecida, sem alter- nativa de moradia, e também a recuperagao das dreas ocupadas por espertos predadores sociais de classe média, que injustamen- te pegaram carona nesse proceso. Temos que reconhecer, quan- to aos empobrecidos, que este processo é socialmente justo, ape- sar de, muitas vezes, ele possibilitar uma estranha alianga, como veremos mais adiante. Devemos ainda buscar refazer o tragado vidrio e das qua- dras dai decorrente. Isso possibilitara no futuro de algumas dé- cadas, como ja se fez em Madri, melhorar radicalmente a quali- dade do nosso espago urbano pobre e periférico, como também era 0 daquela cidade, fazendo isso com participagao popular, com aconcordancia dos moradores, sem expulsé-los, respeitando seu estilo de vida e sua identidade cultural. Reinvente seu bairro 69 Capitulo 18 COMO OS QUATRO TIPOS BASICOS PODEM SER DESDOBRADOS EM MUITOS OUTROS TIPOS DE TECIDO URBANO Um mesmo tipo 1 ou um tipo 2, 3 e 4 de tecido urbano ba- sico pode apresentar diferentes tragados vidrios basicos. Estes podem ser em xadrez (ou hipodamico, como historicamente fo- ram chamados, a partir dos gregos da antiga Mileto) com vias se cruzando de modo fundamentalmente ortogonal. Podem ser de vias de tracado curvilineo, como é a preferéncia dos desenhadores de cidades-jardim, tirando a rigidez dos tracados retangulares, criando com isso muitos espagos verdes intersti is, mas exigin- do em contrapartida mais terreno por familia ¢ assim aumentan- do seu custo (ver Desenho 18). Devido a essa critica buscou-se li- berar a localizagao das edificagées das divisas dos lotes, dispon- do nas quadras inteiras mais livremente edificagdes em altura, para que surja o verde intersticial a um custo de produgdo menor, por habitante, devido & maior densidade possibilitada por esse arranjo (ver Desenhos 19 a 22). Este é, em muitos casos, 0 tecido basico do tipo 3 de produ- Gao publica como conjunto habitacional popular. Essa qualida- de, no entanto, é prejudicada pela monotonia no caso dos arran- jos de prédios padrio tipo H muito proximos entre si, algo a ser muito criticado, mas de interesse das empreiteiras que os produ- zem e, por ignorancia da possibilidade de outras solugdes, com aceitagio sem maiores criticas pelos seus usuarios de baixa e mé- dia renda (ver Desenho 28). Essa € outra dimensao critica a ser desenvolvida para os te- cidos urbanos com essas caracteristicas. As superquadras, como as de Brasilia do Plano Piloto de Lucio Costa, utilizam esses conceitos que buscam inovar no tra- 70 Candido Malta Campos Filho Desenho 28 Exemplo de tecido urbano de um conjunto habitacional popular. seul]? T. ado vidrio e nas definigdes das quadras que das decorrem, como também estabelecem normas de localizagao dos edificios de modo a garantir as qualidades paisagisticas de uma cidade-jardim de prédios horizontais de seis andares no maximo, formando edifi- cios laminares geradores de um espago interno nas quadras com uma generosa proporcao de areas verdes entre os prédios, que tendem a circundé-las (ver Desenho 29). Esses so exemplos de espaco urbano planejado que, no es- paco de produgao privada, a partir de loteamentos constituidos por quadras, por exemplo, de 50 m de largura por 100 m de com- primento, com ruas de largura média de 10 m, constituem os te- cidos de tipo 1, depois 2 e finalmente de tipo 4. Nestes torna-se extremamente dificil a implantagao de projetos de requalificagao estrurural urhana com o instrumental juridico-financeiro hoie dis- ponivel no Brasil. © Ginico instrumento operacional para isso hoje disponivel so as operagdes urbanas, mas de dificil implantagao em bairros de menor renda, pelo desinteresse que tém os incorporadores imo- bilidrios de atuar sobre eles refazendo substancialmente a divisiio de lotes, unificando-os em tamanhos maiores, chegando até ao tamanho da quadra inteira (ver Desenho 14). Reinvente seu bairro 7 72 Desenho 29 ‘As superquadras e unidades de vizinhanga de Brasilia {em desenhos de Lucio Costa) Candido Malta Campos Filho O mercado imobilidrio tem preferido atuar em lotes de 800 42.000 m? com uma tipologia arquiteténica de torres isoladas e dificilmente busca unificar lotes de uma quadra inteira para ga- nhar liberdade de um desenbo com mais verde intersticial. No caso dos bairros populares, se os incorporadores decidem escolhé-lo como alvo de uma transformagao maior, passam a sistematica- mente investir neles, substituindo moradores de menor renda por outros de maior renda, mas lote a lote, dando preferéncia a lotes maiores de 2 a 5 mil metros quadrados, quando disponiveis. O que assistimos no Brasil é a transformago do espago ur- bano dos bairros de tecidos urbanos basicos 1 ¢ 2 — com seus tragados vidrios e de quadras decorrentes de variada qualidade, depois de sua consolidacao horizontal — em bairros populares ou de classe média. Desenho 30 0 provesso de construgdo de edificios altos em bairras horizontais consolidados Depois da urbanizagéo horizontal consolidada, comega 0 pipocar de pré- dios. Vocd gostaria que ista ndo se iniviasse em seu bairro? Ou que seu bairro fosse congelado, no sev estado atual? Ou que 0 processo continuasse? Ou que 0s prédios pudessem existir, mas em menor ndmero, com determinado gabarito, @ mais distantes entre si? Reinvente seu bairro 73 Desenho 31 0 resultado final do pipocar de prédios com as atuais regras (mostrado aqui) 6 previs(vel, se 0 zoneamento permitir ou se a lei for sistematicamente desobedecida e as iméveis itregulares anistiados. 0 resultado sera uma Zona Mista de tipo 2: diversificada, de alta densi- dade ¢ de alta centralidade, e por isso variada como oferta de tipos de comér- cio e servigos. Esses bairros se tornam progressivamente verticalizados, através de um pipocar de prédios em meio a um casario horizon- tal, que vai aos poucos adensando 0 espago construido. Em muitos casos, provavelmente a maioria, vao se transfor- mando de bairros populares em bairros de classe média, reduzin- Parque Ibirapuera astituta Bolegica Pavilhao da Bienal 74 Candido Malta Campos Filho Desenho 32 0 caso da Vila Mariana: edificios que ja perturbam 0 espago envaltério. do a populagao moradora, mas aumentando exponencialmente os automéveis em circulacao. E isso que muitos urbanistas, defensores da mencionada es- tranha alianga entre movimentos populares e especuladores imo- bilidrios, no enxergam ou nao querem enxergar. Multiplicando ‘0s automéveis em circulagao cerca de 20 vezes, como um simples cAlculo demonstra, ao substituirem, por exemplo, uma casa por 20 apartamentos de classe média no mesmo lote. Iopigu de dignidade inbolica @ garanti. ‘Ay. Paulista |Espigio Central), Desenho 33 0 caso da Vila Mariana: diretrizes para area envoltoria de preservago do Instituto Bioldgico (perfil esquematico desde o Parque Ibirapuera até 0 Espigao Central). Reinyente seu bairro 75 Isso aconteceu em Moema e no Brooklin Novo, que sao bair- ros com cinco ou mais décadas de idade. E 0 que esta acontecen- do na Vila Mariana, em frente ao Instituto Biolégico, um bairro mais antigo que Moema. A Vila Mariana, por exemplo, est resis- tindo a essa verticalizagao: muitos moradores querem horizon- talizar 0 adensamento, com edificios de no maximo quatro pavi- mentos. Receberam para isso meu apoio, pois nele se situa 0 mag- nifico edificio do Instituto Biolégico, que é um marco arquitetd- nico na historia do bairro, da cidade e do pais, e que por isso foi tombado pelo Condephaat. No entanto, o Condephaat nao inte- grou suficientemente o seu entorno, de modo a garantir a requeri- da visibilidade desse edificio monumental, de arquitetura eclética de grande beleza (ver Desenhos 32 e 33). E 0 bairro continua lutando por essa légica complementa- gio. A questo da existéncia de marcos monumentais como par- te do tecido urbano nos coloca frente a distingdo entre “lugares comuns”, “lugares magnéticos” e “nao-lugares”, como veremos mais adiante. 76 Candido Malta Campos Filho Capitulo 19 A LOCALIZAGAO DOS TIPOS DE TECIDO URBANO NA ESTRUTURA URBANA EM PROCESSO DE MUDANGA Essa tipologia basica de tecidos urbanos constituida pelos quatro tipos se insere em uma estrutura urbana em posigées va- riadas, recebendo influéncia e, por isso, modificando-se em razao dessa localizagao relativa. Simplificadamente, poderemos graficamente apresentar a es- trutura urbana da metrépole paulistana em dois momentos: em 1957, quando foi levantada sistematicamente pelo Padre Lebret através da instituicao francesa de pesquisa que dirigia, a SAGMA- CS, contratada pelo prefeito Toledo Piza, da democracia crista, e esta estrutura urbana comparada com a estrutura urbana atual. Lebret levantou uma estrutura urbana polarizada por dreas centrais organizadas por niveis, desde o mais abrangente enquanto drea de influéncia, que é 0 centro da metrépole, naquela ocasiao correspondendo ao Centro Histérico, até 0 nivel mais local, do centro de apoio de comércio e servicos de um bairro de moradia. E fez o levantamento de tais centros por sua ligagdo entre si, com os espacos de moradia e com centros de emprego fora desses lu- gares centrais, relacionando-os ainda com os espagos externos metrépole. Para cada nivel desses centros de bairro, e para cada um dos hairros, levantou a oferta existente de comércio e servi- os privados e piiblicos, incluindo a rede escolar e a rede de sati- de (ver Desenho 34). Com isso mediu cientificamente a desigual- dade de qualidades urbanas entre centro e as periferias, que j4 ocorria em 1957, quando realizou sua pesquisa. Chamou esses bairros pobres periféricos desestruturados de “acampamentos”, vendo neles uma organizagao provisoria. E o que aconteceu com eles nos tiltimos 40 anos? Transformaram-se em bairros de ver- Reinvente seu bairro 7 dade? E os novos acampamentos que foram sendo produzidos a0 longo do tempo? Fa légica dessa producao continuada que te- mos que compreender para alterd-la no que ela tem de perversa em termos sociais. Desenho 34 A hierarquia dos diferentes niveis de centratidade. Rio Tiete Serra da Cantareira Osasco Mogi das Cruzes © Santo André Repose Guarapiranga $80 Bernatda Represa Billings Cada nivel da Area Central superior polariza todos os niveis inferiores a le, como simplificadamente se quer mostrar no desenho acima, ¢ 0 sistema es- trutural de circulacéo interliga as dreas centrais entre si. Em Sdo Paulo, metro- pole, temos pelo menos 6 niveis na hierarquia de lugares centrais, segundo 2 pesquisa Lebret (SAGMACS} 78 Candido Malta Campos Filho Um exaustivo levantamento da desigualdade de oferta des- sas atividades na cidade permitiu ao Padre Lebret afirmar que a periferia constituia um “grande acampamento”. Essa falta de rai- zes vai se modificando com o tempo. E como se as pessoas, de tanto passarem por lugares ou viverem neles, fossem desenvolven- do em suas solas dos pés raizes imagindrias, que as vao relacio- nando com eles transformando “nao-lugares”, como os acampa- mentos, em “lugares”, na acepcao do antropélogo francés Marc Augé. Quando vivemos nesses lugares, vamos com eles nos rela- cionando, e muitas vezes passamos a amé-los mesmo que sejam_ hostis e adversos. Quando essa adversidade atinge limites insu- portaveis, abandonamos esses lugares. Essa insuportabilidade se refere muitas vezes, como no caso dos cidadaos de baixa renda, a0 prego monetério a ser pago para neles ficar, ou entio a falta de emprego, e por isso migramos. Usualmente isso ocorre, mas nao sempre, como vemos pela andlise que estamos desenvolvendo, por exemplo, nos corredo- res de transporte que vao se formando com o aumento do transi- to: o valor de troca, ou seja, 0 prego a pagar aumenta, mas simul- taneamente se reduz o valor de uso, ou seja, a qualidade de vida, para os que preferem lugares sossegados para morar, que penso sejam a maioria esmagadora da populagio. A cidade em seu dinamismo proprio vai produzindo modi- ficagdes na qualidade de seu espaco, destruindo “lugares” e subs- tituindo-os por “ndo-lugares”, em sentido negativo se o planeja- mento urbano nao é praticado por uma forte atuagdo governa- mental, monitorada por ativa participagao da cidadania, contro- lando 0 sistema de circulacao e a localizagao de atividades pelo zoneamento no espaco de uma cidade, medida que ela vai cres- cendo, Obviamente, para que se possa agir assim, o poder pibli- co ndo pode estar desmoralizado por uma desobediéncia sistema- tica da legislagao urbanistica. Perceber a posigao relativa de cada bairro nessa estruturacao urbana que vai se modificando com 0 tempo (mudanca medida por uma velocidade de tantos habitantes por década de crescimen- Reinvente seu bairro 79 to, e também pelo aumento de tantos automdéveis por ano) e as consequéncias disso para o meio ambiente em que se vive, isto é, em que se mora, se trabalha e se desenvolve atividades de lazer e cultura, 6 0 que pretendemos com este roteiro de andlise destina- do a vocé, que esta nos lendo. Desenho 35 A posigio de seu bairro em relacao a estrutura urbana da cidade. Serra da Cantareira Bio Tiete io Temanduatel Guarapiranga Billings Onde est4 seu bairro em relagdo a estrutura urbana? Ao lado de um eixo estruturador que por meio do tréfego atrai atividades de todo tipo? Por dentro de seu hairre nassam vias interligadoras de outros bairros. gran- des avenidas ou ruas estreitas com papel de avenidas? Por onde passam os prin- cipais corredores de transporte coletivo em relagdo ao seu Bairro? Por ande passa 6 fluxo de tréfego, por dentro ou ao lado de seu bairro? Vocé poderd ser expulso do bairro no qual deitou raizes, seja por um insuportavel valor de troca que supere a sua capaci- dade aquisitiva, ou um insuportdvel, porque indesejavel e nega- 80 Candido Malta Campos Filho tivo, valor de uso. Defenda-se desse processo de expulsio aderin- do d ideia de que o planejamento democratico, isto é, aquele que vocé ajudou a definir, deve prevalecer. O Plano de Bairro é um instrumento para sua insercao no planejamento da cidade como um todo. Através dele e do Plano Regional que retine os Planos de Bairro de sua subprefeitura, é possivel compreender 0 jogo especulativo em que estamos meti- dos. No final das contas, a especulacao acaba fazendo com que todos percamos, inclusive os especuladores que ganham moneta- riamente com os mecanismos legais (na verdade, esses mecani mos esto se tornando ilegais com a aplicagao do novo instrumen- to de politica urbana que o Congresso Nacional nos outorgou pela lei que aprovou o Estatuto da Cidade). O grande ganho especula- tivo é fruto da desobediéncia a lei urbanistica (que é obviamente © caso mais odioso), mas, no caso, se os especuladores ganham monetariamente, também saem perdendo com o valor de uso. Essa perda de valor de uso corresponde a um ambiente urbano cada vez mais hostil as nossas vidas, que vai jd se tornando cada vez mais estressante e violento. Reinvente seu bairro. 81 Capitulo 20 © GRANDE PROCESSO EM CURSO DE REESTRUTURACAO URBANA DA METROPOLE Podemos resumidamente expor o grande processo de rees- truturagdo urbana em curso em Sao Paulo. Inicialmente, isto é, na primeira metade do século XX, te- mos a formagao de uma estrutura urbana radioconcéntrica. Isto 6, o sistema de circulagdo radial e convergente para o Centro Histérico, com bairros se formando ao longo desses eixos e mui- tas vezes sendo cruzados por eles. Esses eixos so formados por avenidas servidas no inicio por bondes, depois por énibus. Finalmente, no Brasil (pois em paises como Alemanha e Holanda, os bondes continuam existindo), re- tiram-se os bondes, aumenta a proporcdo de dnibus e cresce cada vez mais o ntimero de automéveis. Com essa mudanga modal, re- duz-se a capacidade de uma via, pois os automéveis, conforme vao proporcionalmente aumentando sua presenga em uma determi- nada via, vo reduzindo sua capacidade de transporte de passa- geiros e mercadorias. Essa organizacao vidria e dos usos radioconcéntrica foi a constatada por Lebret em 1957. Esses eixos so formados também pelo sistema de subiirbios ferrovidrios, que — diferentemente dos dnibus, que disseminam © comércio e servigos ao longo das ruas mais movimentadas — concentram comércio e servigos junto as estagdes de transbordo, localizadas a distancia média de 1 km umas das outras. Isso sig- nifica a geracao de centralidades lineares no primeiro caso e de centralidades polares no segundo caso, Nos eixos lineares de um bairro em inicio de formagao, 0 comércio € © servico que se instala é 0 local, de estrito apoio a 82 Candido Malta Campos Filho Desenho 36 Centralidades lineares ao longo des avenidas € polares junto as estagdes das ferrovias Ferrovia Estagdee Avenida moradia, Sao as padarias, as quitandas, 0 acougue, 0 pequeno supermercado, o barbeiro, a cabeleireira etc. Corresponde ao te- cido urbano basico do tipo 1 (ver Desenhos 24 ¢ 37). Quando passamos para o tipo 2, a centralidade gerada, ser- vindo a mais de um bairro, em um cruzamento de eixos, j4 possi- bilita ao mercado definir uma centralidade que, além do comér- cio e servicos locais, vai abrigar o de tipo diversificado (ver Dese- nhos 25, 38 ¢ 39). Em uma hierarquia urbana de centros considerados de bai- xo para cima, 0 centro de tipo 1 corresponde ao tecido urbano basico tipo 1, que é0 local. O centro de tipo 2. que inclui o comér- cio e servigo local, ¢ j4 comeca a acrescentar 0 uso diversificado, € 0 que corresponde ao tecido urbano basico de tipo 2. O tecido urbano basic de tipo 3 exige, em suas proximidades, muitas ve- zes uma centralidade ou centro de tipo 1 local (ver Desenho 26). O tecido urbano de tipo 4 tem as correntes de tréfego se entrecruzando no xadrez de vias, as vezes numa diregao predo- minante, como é 0 caso da Chacara Santo Antonio, na regiao de Reinvente seu hairro 83 Santo Amaro, com a Rua Verbo Divino ligando a Avenida Santo Amaro 4 Marginal Pinheiros. As vezes, 0 tecido urbano de tipo 4 ocorre como em Moema ou como em Cerqueira César (entre a Rua Estados Unidos, avenidas Reboucas, Paulista e Brigadeiro Luiz Antonio, onde ocorre 0 fendmeno nas duas diregdes). E um fendmeno que est se consolidando no Centro Expandido (ver De- senhos 27 e 40), com excegao das Z1, que resistem a essa pene- tracdo do trafego de veiculos. Nesses casos, 0 comércio se diversifica, e essa diversificagao pode ir se acentuando com o tempo. A centralidade relativa do bairro em relagao a uma regido determinada, que concentra gran- de capacidade aquisitiva, pode fazer surgir um comércio ¢ servi- Desenho 37 1) Centra linear. Desenho 38 2) Centro estelar. 84 Candido Malta Campos Filho Desenho 39 3} Centro junto a terminal ou estagao de transbordo. Terminal ov estacio de transbardo Desenho 40 4) Centro em malha de vias. | gos de rara frequéncia individual de demanda, mas que, na soma das raridades individuais de frequéncia das demandas, pode sur- gir um mercado suficiente para justificar 0 surgimento de comér- cio e servigos de alta sofisticagao, com a clientela’que os busca vindo até de fora da cidade. Reinvente seu bairro 85 Desenho 41 A dispersdo do Centro Expandido pelo crescente uso do automdvel Rio Tiote Serra da Cantareira Osasco Santo Amaro Guarapiranga Billings Centra. Expandido Sobre a estrutura polarizada de centros identificada por Lebret est atuan- do a pressdo dispersadora de usos urbanas produzida essencialmente pelo cres- cente uso dos automéveis, Esté sendo diluida a estrutura antes tormada de cen 110s fundamentalmente lineares que seguiram a lagica do transporte caletivo. Esse provesso diluidor jé se completou no chamado Centro Expandido de $40 Paulo, delimitado pelos rios Pinheiros e Tieté. 86 Candide Malta Campos Filho Assim, ao centro de tipo 1 de carater local ¢ um de tipo 2 que comega a se divei sificar, podemos acrescentar outros niveis com diversidade crescente em fungi da amplitude dos mercados, definindo esta em termos de numero de habitantes servidos, cru- zada essa caracteristica com o nivel de renda dos mesmos. Os analistas de mercado, ao estudarem a localizagao de em- preendimentos de comércio e servigos, notadamente os shopping centers, estudam essas caracteristicas associadas as facilidades e dificuldades relativas de acesso, e assim definem a melhor locali- zagdo para o empreendimento. Reinvente seu bairro 87 Capitulo 21 TIPOS DE LUGARES NA CIDADE: LUGARES COMUNS, MAGNETICOS E NAO-LUGARES, QUALIFICADOS OU DEGRADADOS O papel dos monumentos como referéncia histérica, pon- tuando e destacando fatos que engrandecem a cultura de um povo, testemunhas de sua memoria piblica, criam o que tedricos do urbanismo qualificam como espacos magnéticos, que fazem con- traponto aos espagos comuns, que so os espagos de nossa vida cotidiana. A dialética de uma cidade como valor de uso é consti- tuida pelo evoluir histérico em meio aos conflitos sociais que lhe sdo inerentes na producdo, apropriacdo e consumo das estrutu- ras urbanas e dos tecidos urbanos com elas coerentes. No terri- torio assim decorrente, devem existir poucos lugares magnéticos para que nao sejam banalizados (conforme o geégrafo urbano Marco Torres, de Veneza) e estes devem dialogar, mas muitas ve- zes se opdem a lugares comuns que sao os da vida cotidiana da maioria (conforme o arquiteto e urbanista Giuseppe Paba, de Flo- renca). Esses lugares comuns, onde hoje mora a maioria dos ci dadaos, por sua vez apoiam ou se opdem aos magnéticos. Esses lugares comuns e magnéticos sao interligados por “ndo-lugares” (conforme 0 antropélogo Marc Augé, de Paris), espagos altamente codificados ou regrados no seu uso, como so os aeroportos e co- mo tendem a ser os shoppings (que, no entanto, se esforgam para se tornarem “lugares”). Citamos os lugares de onde provém os pesquisadores por- que sao a base de seu trabalho intelectual; a0 mencionarmos os lugares urbanos vistos e vividos de certo modo por tais autores, contextualizamos culturalmente suas obras. Na nossa interpreta~ G40, esses autores estao fundamentalmente refletindo sobre seus 88 Candido Malta Campos Filho lugares de moradia e vivéncia maior, Veneza, Florenga ¢ Paris. A Veneza historica, uma cidade magnética como poucas. A Floren- a.com sua periferia de lugares de produsio coletiva (os lugares comuns de Paba) e seu Centro Hist6rico magnético, em didlogo. A Paris com os nao-lugares do tipo shopping proibidos de serem instalados no tecido hist6rico, em beneficio dos lugares consti tuidos pelo entrelagamento harmonioso entre comércio, servicos € habitacao, caracteristico do estilo de vida do centro da cidade. Esses lugares tambem podem ser analisados se transforman- do gradativamente em lugares da manifestagao da sociedade do espetaculo ou da imagem, como mostra Guy Debord,? especial- mente ocorrendo nos lugares magnéticos e nos nao-lugares. Ou da especulagao financeira e imobiliéria como multiplicagao do ca- pital ficticio em contradigéo com o capital produtivo, como mostra Giovanni Arrighi, a partir de Fernand Braudel, em O longo sé- culo XX,3 ao longo de quatro gigantescos e histéricos macroci- clos seculares de nascimento e transformagio do capitalismo do século XIII ao XXI. Esses autores, por exemplo (e comentamos isso brevemente, por no caber aqui um aprofundamento dessa tematica), nos fazem pensar no gradativo surgimento de uma bur- guesia produtiva e ambientalista, derivada e fortalecida, a cada macrociclo hist6rico, através de uma crescente afirmagao do capi- tal produtivo sobre o especulativo, com retrocessos temporarios, por algumas décadas, a cada um desses ciclos, quando retorna a especulagao como etapa transitéria no aguardo de novo ciclo de acumulagao. A burguesia progressista vinculada a produgao, que é a am- bientalista, como proponho interpretar, vai se opondo a uma deca- dente burguesia predatéria, vinculada a todos os tipos de espe- culacio, inclusive a imobilidria, mantendo, no entanto, imbrica- ‘ges entre si. Essas burguesias, a produtiva ¢ ambientalista de um 2 A sociedade do espetéculo, Rio de Janeiro, Contraponto, 1997. * Rio de Janciro/Sao Paulo, Contraponto/UNESP, 1996. Reinvente seu bairro 89 lado, e a predatéria especulativa de outro, disputam a hegemo- nia do processo social quanto as estruturas organizagbes sociais de passagem de uma estrutura arcaica capitalista da acumulacao primitiva para uma estrutura avangada da reproducao ampliada do capital. Como exemplo desse processo, vemos 0 que ocorreu no Bra- sil na produgio escravista do acticar de exportagao pelos enge- nhos do perfodo colonial, como nos mostra José de Souza Mar- tins (ver O poder do atraso*), onde a configuragao produtiva as- sociou a mao de obra escrava com o capital mercantil de atuagao internacional. £0 que ocorre ainda hoje nas configuragdes produtivas da construcio civil. Veja-se especialmente o rentismo, 0 loteamento urbano ¢ a incorporagao imobilidria que atuaram durante 0 sé- culo XX e agora adentrando 0 XXI na producio do espago ur- bano, objeto desta nossa andlise pela ética do cidadao que quer entender sua insergdo na estrutura e no tecido urbano. O livro que escrevi, Cidades brasileiras: seu controle ou 0 caos, jé citado, 6 uma introdugio a essa temdtica onde se desta- cao papel da especulagio imobiliéria na produgio, apropriagao e consumo do espaco urbano no Brasil. Recomendo a sua leitura ao leitor que quer enveredar por um conhecimento mais apro- fundado dessas questGes. 4 Sao Paulo, Hucitec, 1994. 90 Candido Malta Campos Filho Capitulo 22 AS CONFIGURAGOES BASICAS PRODUTIVAS IMOBILIARIAS E SUA INFLUENCIA NA DISCUSSAO DO ZONEAMENTO Os agentes citados de producao, apropriagio e consumo do espaco urbano se organizam segundo configuragées basicas: 1) loteadores privados; 2) autoconstrugao pelos empobrecidos, incapazes de com- prar no mercado imobilidrio sua moradia; 3) “por encomenda” do projeto e construgao pelos peque- nos-burgueses e burguesia, de uma casa em um lote; 4) “rentistas”, que constroem ou compram de quem cons- tréi, para af alugar para terceiros; 5) “incorporadores”, historicamente substituindo, aos pou- cos, os “rentistas”, especialmente a partir da década de 1950 no Brasil, sendo que os segundos alugam, enquanto os primeiros vendem no mercado imobilidrio; 6) produgao publica da habitagao para a baixa renda; 7) produgao publica da requalificagao urbanistica de areas degradadas de uma cidade, em agées urbanisticas pontuais, que podem ser em um lote sé ou em uma ou mais quadras, somando varios hectares, que estamos chamando de “Operagées Urbanas”, mas que, no contexto do PDMSP 2002, se acrescentou o que se chamou de “Projetos Estratégicos”. Essas configuragdes se combinaram e ainda se combinam ao longo da histéria de uma cidade, no parcelamento, uso e ocupa- go do solo urbano, produzindo a simultaneidade de modalidades produtivas nao coetaneas. Isto é, vemos atuando ao mesmo tem- po, e até combinadamente, configuragdes produtivas que, em prin- Reinyente seu bairro 1 cipio, pertenceriam a épocas hist6ricas diversas, mas que, como vemos na realidade dos fatos, existem simultaneamente, com in- teresses imbricados e potencialmente conflituosos. Essas sete configuragées produtivas imobilidrias dependem das configuragdes produtivas “dos servigos urbanos”. Dentre elas, destaca-se, como vimos, a configuragao produtiva “da circulagao urbana”. Outra de importancia fundamental para a qualidade da vida urbana é a “do saneamento ambiental”, que lida com agua, esgoto, enchentes e lixo. A configuracao produtiva da circulagao se subdivide na que produz o espaco vidrio (tendo como agente privado principal as empreiteiras de obras puiblicas) ¢ a dos veiculos que sobre ele tra- fegam (a indiistria automobilistica). Distingue-se claramente ai a questao da disputa do espago vidrio entre o automével e 0 6ni- bus, que, embora aparentemente nao signifique uma disputa no interior da industria automobilistica, assim se configura na reali- dade dos fatos urbanos, pelos empregos e renda gerados na mui- to maior producio de automéveis do que de énibus, para a eco- nomia nacional. Mas, contraditoriamente, pelos congestionamen- tos crescentes que prejudicam o transporte coletivo mais que 0 in- dividual, 0 cidadao, ao se ver congestionado em um cendrio de vias lotadas por veiculos, passa a preferir 0 automével ao énibus, e passa a querer utilizar todo o sistema vidrio disponivel. Dessa forma vai, sem querer, contribuir para a transformagao dos teci- dos urbanos basicos do tipo 1, 2 e 3 no tipo 4, desqualificando, aos olbos da maioria dos cidadaos, assim pensamos, a qualidade ambiental dos bairros de moradia. Se no passado, durante todo o século XX, mais na segunda do que na primeira metade, o planejamento urbano foi fortemente influenciado pela combinagio de interesses — de um lado, 0 das empreiteiras produzindo espacos vidrios mais amplos (as aveni- das, viadutos e ttineis), e de outro, o da crescente indistria auto- mobilistica, para atender a demanda crescente por veiculos auto- motores (cada vez mais por automéveis do que por énibus) —, os incorporadores logo assumiram essa légica urbanistica de um lho. 92 Candido Malta Campos modo proprio, brasileiro, com a defesa e disseminagao do estilo de vida de moradia em edificios altos. Talvez tenham ai desenvol- vido uma versao da sensibilidade mediterranea, preferindo espa- cos urbanos mais construidos do que verdes. O que é 0 oposto das culturas do centro ¢ norte da Europa, que até hoje preferem espacos mais verdes e menos construidos, proporcionalmente, com prédios baixos de até seis pavimentos, no maximo. Em Berlim, por exemplo, o gabarito maximo permitido é de 21 m de altura. Surgiram entao em Sao Paulo edificios cada vez mais altos, se desenvolvendo e predominando o tipo, enquanto altura edifi- cada, de prédios de apartamentos com formato de torres, que no inicio de século XX tinham quatro ou seis pavimentos, no meio do século tinham de 10 a 15 e no final do século estavam atin- gindo de 20 a 30 pavimentos. Onde vai chegar essa légica? No inicio do século XX tinhamos um tecido urbano mais assemelha- do ao tipo europeu, com as edificagdes ocupando toda a testada do terreno dando para a rua, e um prédio encostando no outro com uma variacao de altura de dois a seis ou oito pavimentos. A partir do Prédio Martinelli, enveredamos pela preferéncia das torres isoladas, em que estamos até hoje. Ela corresponde a uma opcao consciente de muitos? Acredito que sim, embora ela possa mas nao deva estar associada a processos especulativos imobilid- rios, pois estes artificialmente pressionam por prédios cada vez mais altos, que tendem a se isolar nos lotes (mas nao o suficiente, a nosso ver, com relago aos recuos laterais, de frente e de fun- dos, para resultar em boa ventilacdo e privacidade). A outorga onerosa do direito de construir para os edificios altos ser4 um modo de nao mais se jogar os custos de urbaniza- cao dos servicos de suporte, especialmente de circulago, que os moradores desses prédios adensadores da demanda exigem, nas costas de toda a populagao, através do seu pagamento com o di- nheiro arrecadado pelos impostos gerais. A cobranga de um pre- ¢0 pelo potencial construtivo adicional que se compre sera um modo de ressarcir 0 que j4 foi investido por nds na infraestrutura de suporte dos edificios enquanto servigos urbanos. Assim, a ou- Reinvente seu bairro 93, torga onerosa sera um instrumento novo a municiar o poder pé- blico com recursos, sem que o dinheiro tenha que ser 0 no: so, € sim o dos diretamente beneficiados pelos novos investimentos necessdrios em infraestrutura para suportar a maior intensidade dos usos urbanos. Desse modo, 0 impeto adensador deverd de agora em dian- te arrefecer, mas nao o suficiente, dada a versao aprovada da ou- torga onerosa no PDMSP 2002, pouco efetiva e que deve ainda ser aperfeicoada no futuro. Mas, mesmo assim, nao se poderd des- cuidar dos célculos da capacidade de suporte do sistema de cir- culacdo, se quisermos corrigir aos poucos 0 histérico desequilibrio que os especuladores imobilidrios estabeleceram em nossa cida- de, ao construir muito mais do que a capacidade de suporte ins talada. Acrescente-se o proceso de redugao da capacidade de cir- culagao do sistema vidrio existente, pois a utilizacao dessa mes- ma capacidade instalada, no caso do sistema vidrio, é cada vez menor pela indevida, mas muito dificil de ser evitada, substitui- ga0 dos dnibus grandes por pequenos, destes por peruas e vans destes por automéveis ¢ dentre esses, dos pequenos pelos médios e destes pelos grandes! Veiculos coletivos cada vez menores € vei- culos individuais cada vez maiores reduzem o ntimero de passa- geiros transportados que conseguem circular no espaco dado por uma largura de via, numero limitado também em fungio da de- clividade da via ser maior ou menor, de interrupgdes por sinais de transito etc. Essa substituigdo cada vez mais rapida em curso, do transporte coletivo pelo individual, é a raiz da crise do siste- ma de 6nibus que estamos vivendo em So Paulo. 94 Candido Malta Campos Filho Capitulo 23 A INSUFICIENTE VERSAO DE OUTORGA ONEROSA APROVADA NO NOVO PLANO DIRETOR DE SAO PAULO A versao de outorga onerosa aprovada no PDMSP 2002 é boa, mas insuficiente, pois ficou mantida a possibilidade de ga- nho especulativo com a mudanca de zoneamento, especialmente a partir das Z1. Ao se ter mantido o coeficiente de aproveitamento basico, que € gratuito, isto é, nao é sujeito a cobranga da outorga onero- sa, igual a duas vezes a drea do terreno para os edificios de apar- tamentos da classe média, caso dos edificios identificados pela lei de zoneamento como uso R3, que constituem o maior mercado para os incorporadores, ficou mantido o interesse especulativo de transformagao das Z1. Estas foram denominadas ZER do tipo 1, “zonas estritamen- te residenciais”, onde apenas casas sao permitidas, as quais tem coe! jentes de aproveitamento igual a 1, Esse ganho especulativo ocorre todas as veres que as ZER-1 so mudadas para zonas mistas com coeficiente de aproveitamento basico, gratuito, igual a 2. Continua-se assim a dobrar o valor de troca com uma simples mudanga de zoneamento, que é 0 jeito mais simples de especular. Pode-se ai ganhar fortunas, jogando-se a conta do custo da infraes- trutura adicional decorrente, se a mesma tiver que ser ampliada {como quase sempre ocorre), nas nossas costas, como pagadores de impostos. E claro que a mudanga de zoneamento, pelos escdndalos pit blicos produzidos quando € especulativa (como recentemente vi- mos ocorrer nos casuismos aprovados na calada da noite por oca- sido da aprovagao do Plano Diretor), gera um obstéculo politico importante, a0 desmoralizar quem a pratica, Gragas a isso, con- y Reinvente seu bairro 95 seguimos que tais emendas fossem vetadas pela prefeita e respei- tados os vetos pela Camara Municipal. Assim, as presses por alteragGes casuisticas do zoneamen- to visando especialmente as Z1 continuar4o muito presentes, a espreita de uma oportunidade para serem aprovadas. Certamente se utilizardo de todos os meios, licitos ¢ nao licitos muitas vezes, para atingir essa finalidade, como parte de um comportamento que podemos denominar burgués predatério, em oposigao a uma burguesia ambientalista, progressista e produtiva, como também pode ser denominada (ver 0 texto “Burguesia ambientalista x burguesia predat6ria”, ao final deste volume). 96 Candido Malta Campos Filhe: Capitulo 24 OS PLANOS DE BAIRRO INSERIDOS NOS PLANOS REGIONAIS: EM BUSCA DE UM PLANEJAMENTO MAIS PROTETOR E AMIGAVEL, QUALIFICADOR DE NOSSA VIDA NA CIDADE A discussao dos Planos Regionais e dos Planos de Bairro cria um novo palco de debate piiblico, onde os interesses conflitantes podem se apresentar — embora os interesses especulativos, enver- gonhados dos valores antissociais que defendem, prefiram a aco nos bastidores, como vimos recentemente na aprovacio das emen- das especulativas do Plano Diretor. Nesse caso, a imprensa levan- tou, inclusive, a suspeita de que setores interessados na valoriza- cdo das dreas envolvidas haviam entendido que deviam pagar um preco para obter apoio de determinados vereadores, e estes, por isso, preferiram permanecer no anonimato em sua maioria, pro- tegidos pelas liderangas que conduziram as negociagées. Oportunamente vetadas pela prefeita, essas e outras emen- das casuisticas certamente voltaro a baila por ocasido da discus- sio dos Planos Regionais e, principalmente, do projeto de lei a ser enviado 4 Camara Municipal, reformulando a Lei de Zonea- mento em suas diretrizes gerais para 0 conjunto do municipio. Essa reviséo da Lei de Zoneamento em vigor desde 1972, como muitas leis aprovadas na década que vai de 1972 a 1982, redefinird as tipologias basicas e outros critérios que nés, cida- daos, considerarmos pertinentes, Por exemplo, devemos avaliar se é prioritaria a definico da altura dos edificios (gabarito de altura) ao invés do coeficiente de aproveitamento como ferramenta importante de definigo paisa- gistica, para caminharmos no sentido da redugao do caos paisa- gistico na maior parcela do territério urbano municipal. Quem gosta da diversidade de alturas dos prédios, como € hoje predo- Reinvente seu bairro 97 minante na paisagem em Sao Paulo, defende 0 coeficiente de apro- veitamento como instrumento de controle. Quem acha que a pai- sagem esta cadtica demais defende determinado gabarito de al- tura maxima, pelo menos para o seu bairro de moradia e de tra- balho. Hoje apenas as zonas Z1, Z14, Z15, Z16, Z17 € Z18 de- finem alturas maximas para as edificagées, e a soma das areas protegidas por essa definigao corresponde apenas a cerca de 10% da cidade. Veja no capitulo 39 um quadro referencial dos tipos de zo- nas existentes que permite compreendé-las melhor e, ao mesmo tempo, perceber as lacunas e imperfeigdes do zoneamento em vi- gor até a aprovagao do PDMSP 2002. Muitos urbanistas brasileiros vém se preocupando cada vez mais com a qualidade paisagistica no interior dos bairros, defen- dendo um zoneamento mais protetor, como no caso das zonas com gabarito de altura para os prédios. O desrespeito A lei instituida, comprando-se a vista grossa de autoridades mediante influéncia politica e/ou propinas, tem sido um importante fator do aumento da feiura e da inospitalidade da cidade, que prejudica a todos nés. ‘As zonas gabaritadas s4o aquelas onde se define o nimero maximo de andares, assim como a altura maxima de um prédio. Sao verificaveis, fiscalizaveis pelo cidadao comum. O coeficiente de aproveitamento sozinho, com parametro definidor de volume construido, nao é verificavel pelo cidadao leigo, nao técnico. Por isso, sou favordvel a utilizagao maciga de zonas gabaritadas. Pesquisas, semindrios, congressos, artigos e livros sao pro- duzidos levantando essas questées nas universidades e centros de pesquisa. A morfologia urbana est entrando cada vez mais na agenda de ensino e pesquisa em arquitetura ¢ urbanismo no Brasil. 98, Candido Malta Campos Filho Capitulo 25 UM MOMENTO PROPICIO DE AFIRMAGAO E APROFUNDAMENTO DA CIDADANIA Este é um momento propicio para debatermos amplamente 0 planejamento da cidade com a populagdo, com destaque para 0 planejamento dos bairros, a ser sempre articulado com os ni- veis mais gerais. O Plano de Bairro é uma novidade que estd sen- do introduzida no planejamento da cidade de Sao Paulo, por pro- posta e insisténcia do Movimento Defenda Sdo Paulo, Essa pos- sibilidade consta do Plano Diretor, embora nao ainda com a for- ¢ae a clareza que queriamos. Mas de modo suficiente (conforme artigo 2, § 2, inciso VIL, artigo 198, incisos III e IV, ¢ artigo 278 do mesmo Plano Diretor) para que sejam inseridos nos Planos Regionais, deles fazendo parte integrante e sendo por isso apro- vados por lei em seu bojo. Mas 0 cidadao nao conseguir sozinho desenvolver os tra- balhos necessarios para que um plano de bairro seja feito. $6 uma uniao de moradores em torno das entidades representativas do bairro Ihe dara condigdes materiais e de representatividade para desenvolver proposigdes com condigées de aceitabilidade pelo poder piiblico. E 0 que nés, do Movimento Defenda Sao Paulo, estamos fazendo através das entidades organizadas de morado- res dele participantes. Se vacé ainda nao é parte desse movimento, entre em con- tato com a sede do Movimento pelo telefone (11) 5561-2920. Em outubro e novembro de 2002, a Prefeitura relutava em aplicar varios dispositivos que ela mesma quis aprovar no Plano Diretor. A pressa com que 0 mesmo foi aprovado parece ter im- pedido, até agora, que o préprio Poder Executive municipal ab- Reinvente seu bairro 99 sorvesse todas as consequéncias administrativas dos dispositivos ali aprovados. Ele alega nao ter suficientes recursos humanos, materiais e financeiros. Nao temos, assim, até o momento, um roteiro metodolégico de elaboracdo de como a Prefeitura entende que os Planos Regio- nais devam ser elaborados, em articulagdo com o Plano de Trans- porte, o de Habitagao e 0 de Uso do Solo, como exigido por dois artigos, o 183 e 0 271, do PDMSP 2002. S6 se tem uma compilacao elaborada pela SEMPLA, dos diversos dispositivos do Plano Diretor que influenciam os Planos Regionais, que omite, no entanto, a articulagao exigida pelo Pla- no Diretor, dos Planos Regionais com os citados Planos de Trans- porte, de Habitacao e de Uso do Solo. Ouviu-se dizer que tais trabalhos ainda seriam contratados externamente a Prefeitura. Um contrato com a Fundagao Getii- lio Vargas foi feito com o objetivo de defini¢do de metodologia dos Planos Regionais somente na segunda quinzena de novembro de 2002. Mas simultaneamente, enquanto a metodologia dos Pla- nos Regionais esta ainda sendo elaborada, a prépria Prefeitura, que nao tem metodologia, exige de nés, cidadaos, que facamos um diagnéstico dos problemas! Com que metodologia? Que cada um invente a sua! Mas, dos oito meses legalmente disponiveis a partir da aprovacao do novo Plano Diretor até 30 de abril de 2003, ja haviam se passado dois. Ha informac&es de que, por enquan- to, nao existem recursos suficientes para as contratagées externas de elaboragao de Planos Regionais. Mas, como se vé, nem a meto- dologia foi definida. Por outro lado, existem dados essenciais, co- mo as relativos a uma nova Pesquisa O/D (Origem e Destino) de trafego na regiao metropolitana, feita em 2002 pela Secretaria de Transportes Metropolitanos do Governo do Estado de Sao Pau- lo e que serve muito oportunamente para a elaboragao do PDMSP 2002, que ainda nao esto disponiveis, pois seus dados ainda nao foram tabulados. E a Prefeitura, em seus poderes centrais, que- ria receber prontos os Planos Regionais até o final de fevereiro de 2003, para poder ter dois meses para integré-los, rediscuti-los 100 Candido Malta Campos Filho com a populagao e envié-los a Camara Municipal para exame. Tudo indica que nao havera tempo habil para tudo ser feito com s6lida base técnica. E 0 que se ouve é que, em nome dos prazos curtos que se definiu para elabord-los, é necessdrio aceitar uma diminuigao das expectativas de qualidade. Uma mediocrizacao de objetivos parece ser o resultado des- se processo, como vimos na definigéo do préprio Plano Diretor, no qual questées-chave, como o lixo, os mananciais, os transpor- tes e a habitacdo (especialmente quanto aos recursos para inves- timentos), ficaram com metas mediocres ou nulas, foram formu- ladas de forma simplificada e insuficiente (caso dos transportes), ou até amadora (como no caso do lixo). Um segundo tempo foi estabelecido, o de 30 de abril de 2003, mas, ao que tudo indica, nao poderd ser cumprido com um minimo de qualidade técnica e de efetiva participagao popular. Pela dependéncia que vimos que os Planos Regionais tém em relacao aos Planos de Transpor- tes, Habitagao e Uso do Solo, se estes nao sao elaborados a con- tento, com qualidade técnica e orientagéo, simplesmente os Pla- nos Regionais poderdo ficar tao capengas que nao devam ser por nés aprovados. Poderemos ter, por exemplo, uma definicao nao calculada com suficiente base técnica do potencial construtivo a ser permitido para edificios em cada regio de cada subprefeitura. Isso, por si s6, produzird uma piora em nossa qualidade de vida, o que é inaceitavel. Devemos estar atentos a todos esses aspectos, porque pode ser pior um plano ruim, que agrava problemas, do que nenhum. Mas devemos nos esforgar para oferecer 0 maximo de contribui- cao que pudermos como cidaddos, ainda que nao seia possivel substituir 0 poder ptiblico enquanto meios técnicos e financeiros. Muitos de nés, como é 0 meu caso, tém profunda experién- cia na elaboragio de Planos Diretores e leis de zoneamento em todo o pais. No que se refere ao municipio de Sao Paulo, pelo fa- to de ter sido Secretério de Planejamento por cinco anos segui- dos (nas gestdes Olavo Setubal e Reynaldo de Barros, entre 1976- -1981}, em um perfodo hist6rico em que estava se completando Reinvente seu bairro 101 a Lei de Zoneamento, me foi possivel dirigir a definicao de 31 leis e 15 decretos regulamentadores de parcelamento, uso e ocupagao do solo que esto em vigor, os quais podem ou nao ser substitui- dos, dependendo da dire¢o que caminhem as propostas de nova legislagao urbanistica. Mas as pressées adensadoras especulativas estavam muito presentes na verso de Plano Diretor enviada pelo Poder Executi- vo a Camara Municipal em 2002. Elas foram amenizadas, mas o novo Plano Diretor é ainda nitidamente adensador, sem distin- guir claramente, como vimos, um repovoamento necessdrio por familias de baixa renda de um adensamento congestionador pe- las classes médias. Também, pela importancia que j4 dava e ainda dou as defi- nigdes do sistema de circulagao para o futuro da cidade, tanto do ponto de vista econémico como social e do ambiente urbano, fi- zemos durante trés anos um gigantesco esforco para produzir um software, um programa de computacao que permitisse a simula- ¢o por modelos matemiaticos das relagées entre o uso do solo ur- bano e o sistema de transportes. Conseguimos desenvolver um. conhecimento especifico, de modo articulado entre a Prefeitura Municipal de Sao Paulo e o Governo Estadual, através da entao COGEP, hoje SEMPLA (Secretaria Municipal de Planejamento}, que entao dirigimos; da CET (Companhia de Engenharia de Tra- fego); da Cia. do Metré, na ocasiao dirigida pela Prefeitura e par- ticipando pelo Governo do Estado; e da EMPLASA (Empresa Me- tropolitana de Planejamento). Isso foi feito com um trabalho de equipe do mais alto nivel, com a consultoria de um téenico de transporte de erande reputagao internacional. 0 chileno Marcial Echenique, entéo reconhecido como quem mais havia consegui- do avangar em termos metodoldgicas na criagio de um modelo de representagao do funcionamento de uma cidade, enquanto re- laces entre as atividades distribuidas no territério urbano e o sis- tema de circulagao. Tal modelo, denominado Modelo de Uso do Solo e Transporte (MUT), exigiu, durante os trés anos em que foi desenvolvido, inclusive em gastos com o pessoal técnico local que 102 Candido Malta Campos Filho foi treinado para operd-lo e na Pesquisa O/D feita em 1977, US$ 3 milhdes. Quem quiser conhecé-lo pode consultar a publicagao técnica da COGEP-MUT publicada em 1981. Esse modelo é re- conhecido nos meios técnicos de planejamento de transportes ur- banos, assim como no Departamento de Transporte da Escola Po- litécnica da Universidade de S40 Paulo, como o mais completo e avancado no estabelecimento das relagSes entre o transporte ur- bano e 0 uso do solo de uma cidade no Brasil. E possivel, pois, retomar tais objetivos pela Prefeitura Mu- nicipal de Sao Paulo. Ela jd praticou hd 20 anos tal modo de pla- nejar. Nao se pode dizer, portanto, que tal postura é teérica, des- ligada da capacidade real de fazer as coisas da prefeitura de nos- sa cidade. Outras prefeituras ja se utilizaram desse método de célculo, de forma mais simplificada, sem diivida, como a de Campinas, pa- ra a fundamentagao de seu Plano Diretor aprovado por lei. Na gesto de Luiza Erundina, foi desenvolvida metodologia de cél- culo para a definigao de estoque de direitos de construir com base na capacidade infraestrutural de suporte, que deve ser considera- da como uma contribuicao positiva para essa finalidade, embora incompleta em seu resultado. E se Sao Paulo quer ser um exem- plo de qualidade para as outras grandes cidades brasileiras, é esse © caminho que deve voltar a trilhar. Mas, diante da ansia adensadora indiscriminada, é impor- tante termos esse instrumento de andlise, pois com ele é possivel, através de seu método de calculo, muito bem discernir quando 0 adensamento é bom e quando ele é mau. E 0 que pode segurar tal diretriz adensadora, dos maleficios que poderé produzir, s40 os Planos de Transporte, Uso do Solo, de Habitagao, bem pormenorizados nos Planos Regionais, feitos com seriedade, competéncia técnica e efetiva participagao popu- lar. Esperamos ainda que possamos caminhar nesse sentido. Relembrar esses fatos hoje é importante para mostrar a dis- crepancia existente entre 0 nivel técnico elevado que jé foi prati- cado na Prefeitura Municipal de Sao Paulo e a atual precarieda- Reinvente seu bairro 103 de de prazos, recursos técnicos e financeiros com que se esta de- senvolvendo o Plano Diretor da maior cidade brasileira, uma das mais importantes metrdpoles mundiais. As simplificages devem ser balizadas por limites de quali- dade especificos, abaixo dos quais os riscos decorrentes para a ci- dade podem ser inaceitaveis. Devemos estar atentos para nao ter- mos de aceitar algo que nao é de nosso interesse como cidadaos, pois poderemos ser muito prejudicados pelas consequéncias, es- pecialmente pelo agravamento dos congestionamentos e pela nao resolucao dos demais problemas da cidade, como as enchentes, a presenca de favelas, cortigos e moradores de rua, ¢a gradual per- da dos mananciais de agua potavel dos arredores da metrépole. 104 Candido Malta Campos Filho Parte II COMO DIRECIONAR POSITIVAMENTE A FORMACAO E TRANSFORMACAO DO TECIDO URBANO Capitulo 46 OS PLANOS DE BAIRRO E AS ESCOLAS Em Sao Paulo, nos anos de 1990 e 1991, elaboramos para a FDE (Fundaco para o Desenvolvimento da Educaco), da Se- cretaria de Educagao do Governo do Estado, seis planos direto- res de bairro de carater pioneiro no Brasil. Tratou-se da primeira elaboracao de planos diretores de bair- ro de modo participativo. Devido 3 preocupagao da FDE com a insergao de escolas de 1° e 2° grau nos bairros, buscando evitar especialmente a depredacao constante dos edificios, por meio de seu presidente Cesar Callegari, hoje deputado estadual pelo PSB (Partido Socialista Brasileiro), quis que houvesse uma participa- cao maior da comunidade no seu planejamento. Propusemos que se desenvolvessem Planos Diretores do bairro onde a escola esta- va sendo construida, com a participagao da diregao da escola, quando houvesse, e da associagio de moradores que reivindica- va a escola. No municipio de Sao Paulo, foram elaborados os Planos Diretores de Bairro para o Jardim D. José, na estrada de Itapecerica, e o Jardim Sao Carlos, na zona leste, na Estrada do Imperador, regido da Vila Matilde. Foi uma excelente experiéncia pedagdgica com o sentido de relacionar escola e comunidade, mas que infelizmente foi s6 par- cialmente praticada. Essa experiencia é, alias, uma orientagio pedagogica assu- mida na Franga, Italia e Espanha, e também nos Estados Unidos e Inglaterra, para comunidades socialmente carentes, nas quais se espera que a relacdo escola-comunidade dé mais concretude aos ensinamentos, interessando mais os alunos no processo de apren- Reinvente seu bairro 189 dizagem. Essa ideia é a orientagao basica do consagrado educa- dor brasileiro Paulo Freire, que possivelmente influenciou as ci- tadas experiéncias estrangeiras. Na América Latina, a Argentina, ou melhor, Buenos Aires, com seu prefeito agora eleito pelo povo, esta desenvolvendo um aprofundamento dessa nova pedagogia, em que as questdes ur- banas assumem importancia no aprendizado da crianga. Veja-se por exemplo o texto coordenado por Silvia Aldero- qui, arquiteta © pedagoga, ¢ Pompi Penchansky, Cindad y ciuda- danos,5 relatando tal experiéncia. No Brasil, tal encaminhamento est ainda incipiente, mas com um grande potencial de desenvolvimento futuro, no qual a escola, assumindo um papel de produtora de conhecimento da co- munidade, envolvendo os pais, mestres e criancas, estard, junta- mente com as associacgdes de moradores ¢ outras entidades atuan- tes no bairro, desenvolvendo um papel protagonista em pensar 0 futuro do bairro. Isso deve ser feito inserindo-o no contexto regional, ensejan- do um controle nao clientelistico do poder ptiblico, desenvolven- do um aprofundado proceso participativo de ago governamen- tal, onde ganha a ideia de democracia. 5 Buenos Aires, Paidés, 2002. 190 Candido Malta Campos Filho Capitulo 47 A QUESTAO DA REGULARIZACAO FUNDIARIA E EDILICIA A maioria dos loteamentos historicamente desobedeceu a le- gislagao propria. Isso significa que as ruas nem sempre obedece- ram a largura minima, que, ao longo do tempo, vem diminuindo. No inicio, em 1916, a largura minima de uma rua era 16 m (como se vé ainda hoje no Alto da Boa Vista e Cerqueira César). Na década de 1930, no Cédigo Saboia, que continha toda a le- gislagdo urbanistica em vigor, admitiram-se ruas particulares de até 6 m de largura, mas as ruas ptblicas tinham que ter no mini- mo 12 m. Na década de 1970, na gestdo seguinte a minha, admi- tiu-se rua pablica com 10 m de largura com tolerncia para 9 m. Ao legalizarem-se loteamentos com ruas de menos de 10 m, as calgadas praticamente deixam de existir. As vezes, elas tém apenas 50 cm de largura. As ruas com essa largura fazem com que © trafego de veiculos fique muito dificil, especialmente quando es- taciona-se no meio-fio. E o trafego de pedestres torna-se muito perigoso, especialmente para idosos, criangas e deficientes fisicos, que passam a andar pelo meio da rua. Os loteamentos com largura de rua mais generosa, do tipo 15 a 16 m, hoje encontram-se quase todos no Centro Expandi- do, ou seja, na regido entre os rios Tieté e Pinheiros, fechando com © minianel vidrio. Tal regio corresponde 8 Macrozona Consolidada. Na re- gido metropolitana seguinte, que corresponde 4 Macrozona em Consolidagao, predomina o niimero de loteamentos com largura de via de 10 m ou menos. E, nas macrozonas seguintes, nao sa- beria afirmar qual é a largura média das ruas, mas creio que seja Reinvente seu bairro 191 da ordem de 6 m. No interior de favelas, nao existem ruas mas sim vielas sem continuidade, muitas vezes formando um verda- deiro labirinto. A regularizagao fundidria é uma legitima aspiragdo dos mo- radores que foram compelidos a ocupar ou comprar terrenos nessa situagao. Isso quando se trata, obviamente, de moradores sem op¢ao, isto é, cujo poder aquisitivo nao lhes possibilita adquirir ou alugar imével previamente legal, que supostamente teria pa- drao e prego correspondente superior a sua capacidade aquisitiva. Mas 0 processo histérico que se percebe é, entao, um rebai- xamento dos padrées exigidos para os loteamentos, no que se refere a largura das vias, e também uma redugdo de padrao de exigéncias quanto as reas doadas pelo loteador para a Prefeitu- ra para se tornarem dreas verdes ¢ areas institucionais, ou seja, reas para escolas, creches e postos de satide. Os loteamentos irregulares, também chamados de clandes- tinos, no seguem os padrées legais ¢ com isso caracterizam qua- lidade urbanistica muito baixa, prejudicando enormemente seus moradores, em geral de menor renda. Outra questo refere-se 4 regularizacao edilicia. Ou seja, dos edificios construidos, por exemplo, sem os recuos obrigatérios por lei ou com drea superior & permitida. Nesse caso, a familia ou o proprietario do negécio precisa de uma drea maior, mas néo tem recursos para comprar um terreno mais amplo que permitisse que a lei fosse obedecida. O resultado final dessa desobediéncia é um tecido urbano pouco qualificado, o qual provavelmente exigiré no futuro re- qualificagao estrutural como a realizada em Madri em sua perife- ria, que tomou 20 anos de aco ininterrupta da prefeitura local. Nio se pode, no entanto, confundir alhos com bugalhos. Uma coisa é a regularizacéo em que a populacio é vitima de um processo perverso de produgio, apropriagao e consumo do espa- go urbano, e outra coisa é a regularizacao de transgressores de clas- se média ou alta, que desobedecem a lei apenas para lucrar mais. Isso, no nosso entendimento, é uma pratica imobilidria especula- 192 Candido Malta Campos Filho tiva, como construir andares a mais em um prédio de apartamen- tos ou de escritorios, fora da lei. Nesses casos, em que se vé a acdo de uma burguesia preda- t6ria, ndo se pode aceitar tal imposicao por fatos consumados. £ um exercicio de forca politica que desrespeita os funda- mentos da democracia que € 0 respeito pelo Estado de Direito. Além de estragarem desnecessariamente 0 tecido urbano, porque no geral, além de reduzirem areas verdes, contribuem pa- rao congestionamento vidrio com seus prédios maiores, tais pro cedimentos produzem problemas de ventilacao ¢ insolagao para os vizinhos. ‘A sua legalizacao corresponde a desmoralizacao do plane- jamento legal. A desmoralizagao da ago legal, resultado de um planejamento, corresponde ao impedimento da manutengao da pouca qualidade urbanistica onde ela ainda existe e ao impedi- mento da desejada e merecida melhoria por quem vive ainda em tecidos urbanos de baixa qualidade. O Estado se torna impoten- te diante dos depredadores urbanos. Como vimos, ir baixando os padroes legais urbanisticos ofi- ciais e reais ao longo do tempo tem sido a regra, aqueles a rebo- que destes. Algumas prefeituras chegam a optar por nao ter pa- drao algum de qualidade urbanistica exigido por norma legal. E uma grande equivoco. Equivale a se ir reduzindo os niveis de sa- lario minimo legal, com se isso atendesse aos interesses dos tra- balhadores e da populagao em geral. Da mesma forma que luta- mos por aumentar o salario minimo, como padrao de referéncia, temos que elevar os padrées que definem um minimo de qualida- de urbanistica. Temos que definir um direito urbanistico minimo, como parte dos direitos dos cidadaos, e disso nao abrir mao. Aju- de, cidadao, a defini-los. Reinvente seu bairro 193 Capitulo 48 O FOCO NOS NEGOCIOS AO INVES DO FOCO NA MORADIA E A ESPECULAGAO IMOBILIARIA COMO “ESTIMULADORA” DO EMPREGO E comum ouvirmos dos especuladures imubilidrivs que, pet- mitindo-se construir prédios de maior altura ou com mais metros quadrados em um mesmo terreno, ou permitindo-se construir on- de é proibido, aumenta-se a oferta de empregos. Essa afirmacao sé seria verdadeira caso 0 zoneamento fosse restritivo como um todo, de modo que a oferta de potencial cons- trutivo fosse inferior 8 demanda dos interessados em construir. Ocorre que, como vimos, 0 potencial construtivo para to- dos os usos que se deseja € muito superior a demanda. Avaliando esse ntimero pela oferta global do atual zoneamento, vemos que © potencial construtivo disponivel permitiria abrigar o total das atividades hoje existentes. Dito de outro modo, pode-se dobrar a atual cidade que abriga 10 mithes de habitantes. Essa é a ordem de grandeza da citada oferta de potencial construtivo que cor- responde aos direitos de construir ja disponiveis, isto é, ainda nao utilizados. Mas o que os especuladores querem é construir mais e mais nos bairros de maior prestigio, sem se preocupar com a sobrecarga em relac&o a infraestrutura e & qualidade ambiental decorrente. E necessario, no entanto, discutir se as dreas possiveis de serem ocupadas pela populaciio empobrecida sao suficientes. Mas a questo nao esta na existéncia de uma disponibilidade fisica, € sim no prego alto a ser pago para esse acesso. Para conseguir que 0 preco desse acesso se torne compati- vel, é necessario implementar politicas publicas que consigam, de um lado, baixar o prego dos terrenos e aluguéis e, de outro, am- pliar a oferta pablica de habitacao popular. O Estatuto da Cida- 194 Candido Malta Campos Filho de definiu um conjunto de instrumentos de indugao do mercado imobiliério para a redugao do custo dos terrenos — destacada- mente a urbanizagao compulséria e o IPTU progressive no tem- po sobre iméveis subutilizados — os quais, para serem imple- mentados em Sao Paulo, dependem ainda de medidas complemen- tares ao Plano Diretor, conforme expressamente previsto. E 0 Pla- no Diretor definiu Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS) que correspondem a um zoneamento que visa criar éreas especialmen- te destinadas a habitayav popular, para indusir maior oferta. O cotejo para verificar se existe oferta suficiente de poten- cial construtivo para cada atividade (ou uso, como é denomina- da a atividade pela legislagdo de zoneamento tradicional) tanto pode como deve ser feito, mas estou convencido de que a oferta é mais que suficiente. E um raciocinio basico sera suficiente para sustentar essa posi¢ao. A oferta global é o dobro da demanda. E pelo menos 0 do- bro, pois chega-se a esse montante mesmo sem contar o aumento. potencial contido na diretriz das Areas de Intervengao Urbana que triplica essa oferta, se implementada, mas que depende para isso, como vimos, de célculo da capacidade de suporte do Sistema de Circulagao. E, pelo zoneamento, praticamente todos os usos po- dem se localizar em quaisquer das Z2, Z3, Z4, ZS, que somam aproximadamente 90% do espago urbano da cidade. Podem in- clusive abrigar legalmente as lojas de decoracao da Gabriel Mon- teiro da Silva ou as lojas de automével da Rua Colémbia e Ave- nida Europa, que esto ilegais em corredores que permitem ape- nas servigos, e no comércio nem show-rooms. Falo isso com se- guranga, pois sou o autor técnico dessa lei, definida durante mi- nha gestdo a frente da Secretaria de Planejamento da PMSP. Desse modo, argumentar que as restrigdes atuais provocam uma redugao da oferta de emprego é uma inverdade. Basta a ati- vidade de comércio e servicos se situar onde ela é permitida e isso poder ser feito em 90% do territério urbano do municipio. Nao se podera dizer que, por exemplo, uma loja de idénti- cas dimensdes oferece mais empregos se situada na Rua Melo Al- Reinvente seu bairro 195 ves ou na Gabriel Monteiro da Silva, pois esto ha poucos quar- teirdes uma da outra! £ ébvio que tanto faz! Esse argumento da oferta de empregos é sempre brandido por especuladores que querem a possibilidade de ter uma valori- za¢ao imobilidria, quando ela é impedida pelo zoneamento. O comércio pode pagar pregos imobilidrios mais altos que os servi- cos. E € 6 por isso que 0 comércio invadiu onde apenas os servi- 08 so permitidos! Essa é a verdade. Os argumentos que temos em relayao a oferta de empregos apontam exatamente no sentido contrario. A medida que a cida- de vai se congestionando por excesso de prédios ¢ prédios muito altos, ou excesso de lojas em determinada 4rea, como em corre- dores de transporte (que como vimos é de sua légica intrinseca na busca de clientela), 0 que teremos seré um aumento do que os economistas chamam de “deseconomias de aglomeracio”. Dito de outro modo, os prejuizos coletivos serao produzidos pelas ho- ras perdidas no transito de pessoas e mercadorias, pelo combus- tivel gasto a mais, pelo desgaste dos veiculos e ainda por todo o tipo de poluig&o decorrente: a poluigao do ar, a poluig&o sonora ea poluigdo difusa resultante da lavagem das vias pelas chuvas, sujas de dleo, fuligem, pé de fios metalicos e da borracha resul- tante do desgaste dos pneus etc. Um enorme prejuizo que, conforme vai aumentando, como vem acontecendo ha muitos anos, vai atingindo um ponto criti- co, e faz com que empresas desistam de se instalar em Sao Paulo e prefiram Curitiba, por exemplo, uma cidade mais bem-plane- jada. Ou saem de Sao Paulo e vao para outra cidade, do interior do estado, como esta acontecendo em escala crescente. Ai sim, vé-se um claro vinculo entre a especulagao imobi- lidria e a perda de emprego. Deve-se, assim, combater antes de mais nada todo tipo de especulacao imobilidria, se quisermos ter um aumento da oferta de emprego com sustentabilidade social e ambiental. Outro argumento com foco nos negécios que tem sido le- vantado com cada vez maior frequéncia é que se o emprego ficar 196 Candido Malta Campos Filho mais perto de voce, vocé teré que se deslocar menos na cidade. E isso é uma verdade inquestionavel. Mas perto de vocé nao precisa ser dentro de sua casa ou ao lado dela, embora possa ser uma op¢ao, se voce o quiser. Mas existem outras solucdes de ficar perto, a uma distancia a pé, sem ficar do lado ou dentro de seu terreno. Desenho 69 Coma 0 emprego pode ficar perto de voce sem incomodar a sua moradia. Centralidades ‘com comércio servigo local e diversificado f indistrias ndo incomodas Comercio & servigo local tranquilidade com roradias com ou sem eomércia &: dist¥ncia maxima _- que vor’ aceita ‘andar a pe Vias de ligagao interbairras Os que querem viver em ambientes tranquilos, devem poder ter essa pos- sibilidade. Ao invés de poucas “ilhas de tranquilidade” para poucos, defendo, jun: to com 0 Movimento Defenda Séo Paulo, muitas “ilhas”, tantas quantas sejam necessarias para atender todos que quiserem nelas viver. As vilas @ as ruas sem saida s8o pequenas ithas de vida tranquila nessa cidade de trafego revolto. Eias so exemplos a serem saguidos ¢ isso é possivel de ser feito atra- ves de bolsdes de tréfego, ja previstos em lei e pelo novo Plano Diretor, tam- bém jé em vigor. E preciso colocar essa diretriz em pratica, e a consulta a po- pulagdo sobre esse assunto 6 uma questdo-chave para voc®, cidado consciente — e 0 emprego poderé ficar préximo de sua moradia sem que ele perturbe vocé além da medida que esté disposto a aceitar. Reinvente seu bairro 197 A ideia de unidade ambiental de moradia prevé solugdes para isso hd muito tempo, exatamente desde 1929, quando o ur- banista norte-americano Clarence Perry concebeu a “neighbor- hood unit”, a unidade de vizinhanca. Ela significa distinguir uma area mais ou menos tranquila de moradia, com ou sem comércio e servigo local no seu interior, oferecendo a vocé mais de uma opcao, conforme os tipos de teci- do urbano de sua preferéncia, em termos de altura dos edificios e modo de situd-lus nas quadras, continuo uu descontinuo, confor- me as tipologias basicas apresentadas. Esse ¢ 0 principal ponto para o qual quisemos chamar sua atengio. E uma opgao sua a ser feita dentro da dinamica de de- senvolvimento da cidade. Nao é uma forca natural sobre a qual nao temos controle, como uma frente fria que traz chuvas e frio. £ um processo social que, se quisermos controlar, e se atuarmos conjuntamente, controlaremos. Dentro do processo histérico de transformagao da organi- za¢ao do espago urbano, temos como atuar, exigindo que o siste- ma de circulagao seja planejado em conjunto com o zoneamento. Sao esses os fatores determinantes do futuro de seu bairro e do futuro da cidade. Exerga o seu papel de cidadao consciente exi- gindo que a Prefeitura de S40 Paulo cumpra o seu papel. $6 rever- teremos a degradacao gradativa e agora jd acelerada de nossa qualidade de vida quando a nossa forga de cidadaos superar a de cidadaos especiais. Sobre isso, a questo da boutique Daslu é em- blematica, onde estranhas aliancas politicas simulam defender 0 interesse coletivo, mas na verdade defendem interesses dos que, para ganhar, depredam a nossa qualidade de vida (ver a respeito 0 texto “Daslu: um caso emblematico”, no final deste volume). 198 Candido Malta Campos Filho Apéndice TEXTOS CONEXOS RECENTES v. ANTES TARDE DO QUE NUNCA (Texto publicado na Folha de S. Paulo, 15/3/2002) Em 1980, quando eu, como secretario de Planejamento da Prefeitura de Sao Paulo, e os técnicos que me assessoravam, dis- cutiamos o que viria a ser a Lei dos Corredores de Servigos, criando as Z8-CR1, que dentre intimeros outros, criaram esses corredo- res em zonas entao estritamente residenciais (2:1), dentre elas a Alameda Gabriel Monteiro da Silva, a Avenida Brasil, a Rua Co- lémbia ¢ a Rua Estados Unidos, nos Jardins Paulistano, Améri- ca, Europa e Paulista, indagavamos se valeria a pena ceder a pres- sio de alguns poucos servicos instalados, criando 0 corredor de servigos, ou se valeria mais a pena resistir a ela, mantendo a zona estritamente residencial. © argumento central daqueles que advogavam a mudanga do zoneamento era de que o aumento do trafego de veiculos nao mais justificava a manutengao dessas vias como estritamente re- sidenciais, j4 que tal trafego invial Obviamente, havia também o interesse especulativo dos proprie- izaria a moradia nesses locais. térios em querer aumentar sua renda imobilidria com a instala- go de usos nao residenciais, como os de servicos. Muito ponderamos essas opgdes naquela ocasiio, pois 0 debate era puiblico ¢ as Sociedades Amigos de Bairro dos bairros de classe média onde tais corredores eram demandadas se levan- taram contra, Tais servigos queriam se instalar no meio de bair- ros residenciais pelo atrativo ambiente que oferecem, por serem bairros arborizados onde o estacionamento era mais facil, com casas bonitas constituindo uma possivel clientela. Entendi naquela ocasiaio que se cedéssemos apenas para ser- vicos selecionados, os que gerassem 0 menor tréfego de clientela ¢ de fornecedores, estariamos estabelecendo um padrao de con- Reinvente seu bairro 215 vivéncia civilizada entre interesses conflitantes, um exemplo de proximidade entre usos diversificados. Nos primeiros dez anos de funcionamento da Lei 9.049, aprovada em 24 de abril de 1980, essa convivéncia civilizada se manteve em grandes linhas. O que se quer agora, como fizemos inadvertidamente em 1980, é consagrar 0 principio do fato consumado, o que é muito perigoso como sabemos. Se a infragio continuada no tempo fos- se critério da sua legalizacdo, e a pratica costumeira de atos ile- gais apontasse para a necessidade de absorvé-los como atos legais, terfamos, por exemplo, que pensar em legalizar os sequestros! Assim é que a SAJEP, uma das mais antigas e atuantes So- ciedades Amigos de Bairro da cidade de Sao Paulo, que sempre atuou em defesa da qualidade de vida de seus moradores e pela centralidade dos bairros em que atua, representa também um in- teresse-chave para a cidade: a regiao é um dos seus mais impor- tantes pulmédes verdes, o que justificou seu tombamento pelo CONDEPHAAT, que é, alias, um dos atrativos para que 0 co- mércio ilegal se instale em seu interior, mas paradoxalmente des- truindo-o logo em seguida. Na maioria dos casos, o comércio derruba as arvores e des- tr6i os jardins que existem na frente das outrora residéncias onde se instala, pavimentando os recuos frontais para criar estaciona- mentos, rebaixando guias, instalando enormes placas, faixas € outdoors, para tornar 0 comércio mais visivel ¢ atrativo. Ea logica do comércio entre n6s. Nao é necessariamente assim em outras cidades do mundo, como Santiago do Chile ou Sao Francisco, na Califérnia. Essa destrui¢ao ambiental é comprovavel por quem conhe- cia as avenidas Brasil e Europa, as ruas Colémbia e Estados Uni- dos e a Alameda Gabriel Monteiro da Silva (alids, esta fazia jus a denominagio de alameda, pelas arvores que possuia ¢ que po- dem ser vistas ainda hoje onde o comércio ilegal nio se instalou, nos trechos entre a Avenida Brasil e Rua Estados Unidos, ¢ en- tre Avenida Brigadeiro Faria Lima e Rua Hungria (Marginal Pi- 216 Candido Malta Campos Filho nheiros). Além disso, esse comércio atrai muitos veiculos, o que piora ainda mais as péssimas condigGes de tréfego dessas vias ¢ especialmente das avenidas Nove de Julho e Rebougas, duas das mais importantes artérias de Sio Paulo. Ora, resumindo, 0 que aconteceu com a aceitacdo por mim da implantagao dos corredores de servigos no meio das Z1, pela Lei 9.049/80, nao foi o paradeiro civilizado das pressdes espe- culativas imobilidrias com a implantagao dos servicos. Viu-se e estd se vendo que tal procedimento incentivou o surgimento do comércio de automéveis ¢ de lojas de decoracao, principalmente, e mais recentemente de lojas de materiais de construgao de gran- de porte, como as ja instaladas Telha Norte, Madeirense e Coni- bra na Avenida Brasil. E uma escalada incentivada pela promessa do prémio da anistia a sua ilegalidade, como inadvertidamente eu mesmo aju- dei a dar em 1980, Esses comerciantes parecem estar tao seguros de sua impu- nidade que declaram sua surpresa na imprensa com o veredito da Justiga, que obriga a Prefeitura a fecha-los. Como poderiam ter tal expectativa? Imaginam que a justiga se molda sempre a seus interesses? Se assim foi em nosso pais, os ventos estéo mudando, As eleigdes que acabamos de ter em nossa cidade apontam nessa direcdio. Sessenta por cento da populacao, pelo menos, mos- trou no aceitar esses métodos de fazer politica, que comecaram a ser denunciados por uma dona de academia de gindstica, a So- raia, hoje uma figura emblematica entre nés, pela coragem que demonstrou ao ser achacada por fiscais da prefeitura. Hoje, trans- formou-se em uma figura emblematica do Movimento Defenda So Paulo, ao qual se filia a SAJEP. Nao é com subornos e caixinhas que se deve administrar uma cidade. A Justica brasileira, para surpresa de muitos, est fazen- do cumprir a lei, seja para ricos, remediados ou pobres. Ora, todo esse relato comprova que anistias incentivam um passo adiante na ilegalidade, ao contrario do que entendi em 1980 Reinvente seu bairro 217 como Secretario de Planejamento do Prefeito Olavo Setubal, quan- do imaginei que ceder um pouco a esses interesses corresponde- ria. a uma convivencia civilizada. Percebe-se que quando cedemos a mao, querem nosso bra- 0. Se cedermos os bracos, quererao 0 nosso corpo inteiro. E tempo de dar um basta a esse processo histérico de impu- nidades incentivadoras de mais impunidades. Se acharmos que é tarde para isso, ao invés de colaboramos para dar um fim as in- fracdes, que rapidamente se associam as propinas, estaremos es- timulando tais irregularidades. Nao se pode argumentar com aqueles que querem pegar ca- rona nas anistias necessarias nos bairros populares, especialmen- te favelas, onde o baixo nivel de instrugao da populagao se soma a impossibilidade econémica de adquirir terrenos maiores, o que Ihe permititia obedecer aos recuos ¢ Ihe daria mais privacidade e seguranga contra incéndios, como previsto na Lei de Zoneamento € no Codigo de Edificagdes. Mas se esta populagao pobre nao tém condigdes econdmi- cas ¢ culturais para se utilizar da legislagao urbanistica em seu be- neficio e no beneficio da coletividade, nao é esse 0 caso das clas- ses médias, seja a alta, a média ou a baixa. Estancar esse processo destruidor da qualidade ambiental de nossa cidade é uma necessidade imperiosa, a menos que queira- mos nivela-la pelos piores padrées. Hoje se discute, por exemplo, o fechamento de 43 estabele- cimentos comerciais irregulares em um universo de 614 na Ala- meda Gabriel Monteiro da Silva, ou seja, 7% do total. Por que eles fazem tanto barulho? Porque so o Cavalo de Troia da destruigao das zonas estritamente residenciais de nossa cidade e porque desmoralizam a legislagao urbanistica, pelas in- verdades que dizem sobre ela, muitos desconhecendo-a comple- tamente. Fazem isso para obter 0 dominio total e completo dos interesses especulativos, penalizando os legitimos interesses pro- dutivos imobilidrios, assim como os dos cidadaos cumpridores da lei, que se esforcam, através das associagdes de moradores ¢ de 218 Candido Malta Campos Filho outras entidades da sociedade civil, na fiscalizagao da lei, cola- borando com as instituigdes pablicas que tém essa atribuigao, mas nem sempre a exercem em sua plenitude, por interferéncia de in- teresses menores (embora muitas vezes politicamente muito gran- des, de poucos). Misturando alhos com bugalhos. Uma cidade sem planejamento € 0 caos. Sao Paulo nao tem falta de planejamento. Tem falta é de sua obediéncia. Mudar casuisticamente o zonea- mento, mesmo que se pague por isso, é instituir 0 caos com ares de agdo social. E se isso tiver sido resultado de pressdes espe- culativas associadas a suborno e caixinhas ainda ser pior, por- que se estar construindo uma fachada que pode até ser conside- rada bonita por alguns, mas que esconderd e incentivara a prati- ca corrupta da propina. Comegar agora combatendo essa prati ca é melhor do que incentivar 0 seu contrario. Antes tarde do que nunca. Por isso, niio podemos aprovar o projeto de lei do vereador do PT José Mentor, que visa exatamente dar essa anistia! Uma cidade do porte de Sao Paulo, uma das maiores metré poles do mundo, nao pode prescindir de regras que organizem os uusos dos espacos urbanos. A auséncia de regras equivale a lei da selva, onde os mais fortes e poderosos levam a melhor: no caso, os grandes interesses econdmicos imobiliérios especulativos, que querem se impor a custa do comprometimento da qualidade de vida coletiva. Reinvente seu bairro 219 vi DASLU: UM CASO EMBLEMATICO (Texto publicado na Folha de S. Paulo, 7/2/2003) ‘A Daslu e um caso emblematico para o futuro de $40 Pau- lo. Com a sua regularizagao ou fechamento administrative por ilegalidade, esta em jogo se prevalecera o planejamento democra- tico aprovado em lei pela Camara Municipal ou a vontade de poderosos cidadaos que querem que as leis vao se dobrando a sua vontade. O império da forga de um grupo social por sobre as leis é 0 fundamento dos regimes autoritarios. Neles, fecham-se as casas legislativas quando esses regimes se colocam a servico da legiti- macio das transgressées legais de cidadaos poderosos. [sso tam- bém acontecera com a regularizagao de irregularidades que sao ilegalidades cometidas por cidadaos poderosos. E como se esti- vesse o poder instituido fechado para as vontades dos cidadaos despossuidos, de menor poder politico. Sabemos que, historicamente, os sistemas politicos ociden- tais, mais que os orientais, esto evoluindo no sentido de uma cres- cente afirmagao dos princfpios democraticos. Principios esses que tem seu fundamento na forca da lei igual para todos. Por isso, por mais que a Daslu envolva a todos com seu char- me de loja que abastece, com gosto e refinamento, muitos cida- daos poderosos, com roupas de padrao elevado e obviamente de custo acima da capacidade aquisitiva da imensa maioria dos bra- sileiros, esse charme nao pode ser colocado acima dos principios da igualdade da lei para todos. Como se seus proprietarios e usud- rios fossem cidadiios especiais, e como tal dispensados de seguir as normas de planejamento de uma cidade. 220 Candido Malta Campos Filho £ como se determinados cidadaos, ¢ s6 eles, pudessem tra- fegar na contramio, fumar na cara de nao fumantes, ou construir © que bem quiserem onde bem entenderem. E s6 isso que queremos: que esses cidadaos — que querem aparentar ser altamente sofisticados pelo que vestem, mas na ver- dade se comportam como cidadéos de um periodo histérico que imaginamos ja tenha sido superado pela redemocratizago que h4 cerca de 20 anos estamos reconstruindo — obedecam a lei que foi feita para todos. Os cidadaos — que nos bairtos ficam indignados com uma aceitac4o por tanto tempo dessa ilegalidade pela Prefeitura, ou por uma justica que parece ndo enxergar 0 que esta em jogo e que pro- tela a decisao final do fechamento por parte da Prefeitura — tem toda a raz3o para se indignar. Caso contrério estariam fazendo 0 papel de tolos diante de cidadaos supostamente espertos. O ve- Iho lema do clientelismo no Brasil, “aos amigos tudo, aos inimi- gosa lei”, se transmutaria em “aos espertos tudo, aos tolos a lei”. Todo cidadao verdadeiramente democrata deve se indignar. Alguns, talvez, precisam pesar melhor os argumentos para perce- ber o que realmente esta em jogo. Se prevalecerd em nossa cida- de a vontade de poderosos transgressores da lei, visando ganhos especulativos, ou a vontade do cidadaos comuns na defesa de sua qualidade de vida. Esse é 0 fundo da questio. O argumento da oferta de empregos a ser perdida nao resiste a poucos minutos de reflexdo. Basta que a empresa mude a sua lo- calizacao para um lugar que permita lojas com a dimensao e ativi- dades que ela necessita, e pronto: estarao assegurados os respecti- vos empregos. E preciso que os nossos poderosos cidadaos, a elite do po- der, deem 0 exemplo certo. © povo mais simples muitas vezes no tem como seguir a legislacao urbanistica. Nao porque nao quei- ra. E, sim, porque nao consegue, especialmente por falta de po- der aquisitivo. Nao podemos igualar as anistias muitas vezes necessérias de cidadaos necessitados com a anistia a cidadaos abastados, que s6 Reinvente seu bairro 221 desobedecem a lei para beneficio proprio e prejuizo ambiental pa- ra todos os vizinhos e para a cidade como um todo, que vai fi- cando assim mais congestionada, irrespirdvel e violenta, chegan- do ja ao limite do insuportavel, cada vez mais ingovernavel. Se 0 exemplo dado por parcelas importantes das elites é que vale a pena desobedecer as leis, o que esperar do comportamento dos demais cidadaos? Se querem contribuir para a desorganiza- 4o social, 0 estao fazendo com charme e elegancia. Isso muda para melhor alguma coisa? Nés, na situacao de extrema violéncia que estamos vivendo, nao podemos aceitar qualquer contribuicao ao aumento do caos em nossa cidade. Com relacao a aqueles que assim esto agindo, esperamos que se deem conta do verdadeiro papel que represen- tam. Nés, que somos cidadaos que querem 0 controle do caos € no a sua exacerbagao, esperamos que juntem-se a nés, transfor- mando-se de burgueses predatérios em burgueses ambientalistas € progressistas. 222 Candido Malta Campos Filho SOBRE O AUTOR Paulistano nascido em 1936, Candido Malta Campos Filho é arqui- teto e urbanista, professor-doutor de Urbanismo ¢ Planejamento Urbano da Faculdade de Arguitetura e Urbanismo da Universidade de Sa0 Paulo (FAU-USP) desde 1962, tendo sido Secretario de Planejamento da Prefei- tura de Sao Paulo entre 1976 ¢ 1981 (gestdes Olavo Setubal e Reynaldo de Barros) e responsavel técnico pelo projeto de 31 leis de uso do solo em vi- gor na cidade de Sao Paulo. F conselheiro fundador do Movimento Defen- da Sao Paulo, membro da Comissao de Justica e Paz da Arquidiocese de Sao Paulo e presidente da SAJEP (Sociedade Amigos dos Jardins América, Europa, Paulista ¢ Paulistano). Iniciou suas atividades profissionais na década de 1960, trabalhan- do principalmente com projetos de arquitetura, varios deles premiados. A partir da década de 1970, suas atividades académicas e profissionais 0 le- varam para uma atuagao maior na area de planejamento urbano, onde tem desenvolvido trabalhos de consultoria através da Urbe, seu escritério em sociedade com o arquiteto ¢ urbanista Luiz, Carlos Costa. Foi coautor do projeto de lei que deu origem a Lei Federal de Lotea- mentos em 1979 (lei n” 6.766/79) € responsavel técnico pelo projeto de lei apresentado pelo deputado Raul Ferraz (PMDB-BA) em 1988 (n° 2.191), que foi base para a elaboragao do Estatuto da Cidade, aprovado em 2001. Com Luiz Carlos Costa, realizou os projetos do Bairro Coqueiral para a empresa Aracruz Celulose, no Espirito Santo, em 1976, e da cidade de Matupa, no Mato Grosso, em 1983, e elaborou o Plano Diretor de Itape- cerica da Serra, aprovado por lei em 2002 juntamente com o Plano Dire- tor dos Bairros Branca Flor e Campestre, o primeiro Plano de Bairro apro- vado por lei no Brasil. Como consultor, coordenou a elaboragao do Plano Diretor de Belém do Para, aprovado por lei em 1993, que utilizou antecipadamente quase todos os instrumentos inovadores presentes hoie no Estatuto da Cidade. Em 2000 e 2001, contribuiu para a formulagao do VI Plano Diretor da Cidade Universitéria da USP, em Sao Paulo, ¢ elaborou, a convite da Pre- feitura de Santo André, com equipe propria ¢ em paralelo com as equipes coordenadas por Eduardo Leira, Joan Busquets e Christian de Portzamparc, uma série de propostas urbanisticas para 0 Eixo Tamanduatei, Em ambos 08 casos, assim como no recente projeto de arquitetura da Escola Vera Cruz na Rua Baumann, em Sao Paulo, aplicou seu conceito de integragao de te- cidos urbanos inovadores com tecidos preexistentes.