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Textos modernistas para leitura e análise - POESIAS

Texto 1
Quando eu morrer quero ficar
Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.
Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.
No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.
Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.

Texto 2

O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade...
Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade...
As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.
Mário de Andrade

Texto 3
Quando o português chegou

O BICHO

Debaixo de uma bruta chuva

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.

Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português

Manuel Bandeira

Oswald de Andrade

diretor.Eu (1912) Texto 4 POÉTICA Estou farto do lirismo comedido Do lirismo bem comportado Do lirismo funcionário público com livro de ponto espediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. . . Acende teu cigarro! O beijo. amigo. A mão que afaga é a mesma que apedreja. Quero antes o lirismo dos loucos O lirismo dos bêbados O lirismo difícil e pungente dos bêbados O lirismo dos clowns de Shakespeare. De resto não é lirismo Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar &agraves mulheres. nesta terra miserável. é a véspera do escarro. Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo. Manuel Bandeira Texto 5 Versos Íntimos Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. Somente a Ingratidão. Mora. que. esta pantera — Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O homem. Abaixo os puristas. sente inevitável Necessidade de também ser fera. Toma um fósforo. etc.Não quero saber do lirismo que não é libertação. Poesias . entre feras. Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis Estou farto do lirismo namorador Político Raquítico Sifilítico De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.

Escarra nessa boca que te beija! Augusto dos Anjos .Se a alguém causa inda pena a tua chaga Apedreja essa mão vil que te afaga.

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