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CIDADES MESOPOTAMICAS: HISTORIA E REPRESENTACOES © mundo urbano — espago profano e sagrado Katia Maria Paim Pozzer A antiga Mesopotémia foi fundamentalmente uma civilizacdo ut bana, As causas da otigem dos grandes centros urbanos continuam em. discussdo, mas hoje podemos afirmar que o principal fator foi o desen- volvimento dos templos, que exerceram um papel religioso, mas tam bbém econdmico e administrativo. Segundo os pr6prios mesopotimicos, as cidades cram o lugar de moradia dos deuses e possufam tr@s fungies, principais: centro politico, centro de comércio e centro religioso. 3s textos mesopotamiicos sublinham a origem divina das cidades, e, ‘20 mesmo tempo, relatam que suas realizagGes foram obras dos reise seus stiditos. Cada divindade do pantedo possufa sua residéncia principal, sua Cidade predileta. O deus An, uma divindade primordial e lider dos deuses, cujo nome significa “eéu”, tinha um templo em Uruk. O templo de Enlil, © tei dos deuses, segundo o pantedo sumétio, localizava-se em Nippur, ¢ ‘Marck era o deus principal da cidade de Babildnia (Black e Green, 1998), No inicio do LV milénio a.C. diferentes grapos populacionais existen- tes na Mesopotamia estabeleceram relagdes entre si, eram pastores do de serto, pescadores dos pantanos e agricultores das planicies. Eles formaram ‘umnticleo de contato com.os povos de érees montanhosas distantes, em busca cde matérias-primas inexistentes no sul da regia, tais como pedra, metal madeira, Iniciou-se, assim, um processo de diferenciago social, onde um. _Brupo conquistou o monopolio sobre « produgao da riqueza daquela socie dade. Em3.500a.C. surgem centros como Uruk, com uma insttuigio urba- na fundamental -otemplo, construfdo sob uma plataforrna monumental, sim- bolizando visivelmente seu poder. E foi sob a responsabilidade destes tem- pplos que vérios aspectos da sociedade surgiram: a escrita, o Estado, o siste- ma juridico, a arte e a arquitetura, entre outros (Pozzer, 1996). ‘Katia Maria Pulm Pozzer é professora no Curso de Histria da Universidade Luterana ‘do Brasil e doutora em Histria pela Universieé de Paris! Panthéon Sorbonne. Anos 90, Porto Alegre, 0.17, julho de 2003 ot Por volta de 2.800 a.C. iniciaram-se disputas pela hegemonia po- litica dos territdrios vizinhos entre os varios centzos urbanos no sul mesopotimico. O resultado dessas guerras transformou o deseavol- vimento dessas cidades: as revoltas no interior do pafs levaram a uma migracdo significativa do campo para a cidade, fazendo com que a maioria da popalagdo se tornasse urbana, macigas fortifieagdes fo- ram construidas para garantir a seguranga destas cidades, definindo assim a diferenga entre 0 espago urbano ¢ rural e restringindo o aces- 80 as cidades a determinados pontos, que eram os portées das mura- Ihas. As necessidades de guerra exigiram um maior desenvolvimen to da autoridade politica e militar, fazendo nascer a segunda princi- pal instituigdo urbana - 0 palécio. As cidades mesopatamicas passa- ram onto, a contar com dois centros de poder: um politico e militar - © palécio-, e outro econdmico e religioso - 0 templo-, um espago pro- fano, outro sagrado, Contudo, ¢ dificil fazer generalizagdes sobre as cidades mesopot micas, pois a maioria das escavagdes arqueol6gicas concentrou-se em cidades datadas da segunda metade do III milénio e do inicio do HI milé- nio aC.; somente Babilénia, que foi capital de um grande império, so- frou escavagdes no nivel de ocupagao do I milénio a.C. ‘0 PAPEL DO TEMPLO E DO PALACIO. A Ginica caracteristica arquiteténica que pode ser imediatamente Iocalizada nas cidades do sul mesopotatmico é 0 templo’ principal, que pode ou nao estar acompanhado de um zigurate®. Os templos nao eram sempre localizados no centro da cidade. Os zigurates de sin, Sippar, Kis outros estao localizados junto da borda do sitio, enquanto que em Li sa, Nippur, Ur e Unuk estao assimetricamente dispostos, em uma locali- zagao periférica. Isto pode ser entendido como uma separagio fisica en- treo dominio do sagrado e do profano. A segunda maior instituigao urbana, 0 palacio’, é de mais dificil localizagao, pois nfo se erigiu sobre uma plataforma como 0 templo. ‘Também nio hé evidéncias de que todas as cidades tenham tido palici- 6s, 20 longo dos periodos hist6ricos, pois em momentos de centraliza- 0 politica, as cidades que nao eram capitais no tinham reis, apenas governadores. B esta circunstdncia refletiu-se na arquitetura e no plano urbanistico destes lugares, ainda que nos textos nao existam palavras iferentes para distinguir a residéncia dos governadores ¢ a dos eis, e ‘Anos 90 0s palicios mesopotamicos nao eram apenas residenciais, cerimo- niais ou centros administrativos, mas, sim, um conjunto arquiteténico icluindo templos secundérios, silos e oficinas de artesanato. As cons. trugdes do sul mesopotimico que se enquadram na categoria “palicio real” sdo todas associadas a soberanos independentes. Virias outras.cons- ‘rugdes piblicas que foram escavadas sto ainda enigrnéticas, e podem ter pertencido, total ou parcialmente, ao poder secular ~ rei ou governa- dor ~ ou ao templo. Nas cidades onde foi possivel localizar tanto o templo prineipal como © palicio, os palicios encontram-se ao lado do templo, como em Lars, ‘ou muito afastados do centro religioso, como em Babilénia, conforme as, figuras 2. 3. Na maiotia dos sitios arqueolégicos mesopotimicos, a loca lizagao dos templos e dos centros administrativos reflete um modelo de ‘oposigdo, onde o paralclismo conflitivo de fungies das duas instituigées mais importantes da cidade esta claramente simbolizado, CIDADES - MORADIA DOS DEUSES Nos perfodos de Isin-Larsa (2004-1792 a.C.) e Paleobabilénico (1792-1595 a.C,) foram construfdos zigurates na maior parte das cida- des mesopotimicas e, na época Neobabildnica (626-539 a.C.) cles fo- ram restaurados ou reconstru‘dos. Analisaremos a seguir como a importancia dessas construgdes re- ligiosas péde se traduzir no urbanismo mesopotamico, através do exe plo de duas importantes cidades ~ Larsa ¢ Babil6nia. Larsa e 0 modelo urbantstico oriental O sitio de Larsa mede 1.750m de comprimento por 1.600m de lar- ¢gura, & pouco elevado (1.0m em média, 22m em seu cume) ¢ recobre uma rca total de 190 ha. O tel de Senkereh (Sinkara) se estencle em uma zona atualmente desértica do Iraque meridional, a uns vinte km a leste de Uruk ce uns quarenta a0 norte de Ur. 0 primeiro relato sobre o sitio de Larsa foi escrito por W. K. Lof- tus, que Id esteve e realizou uma sondagem em 1854, Em 1903, Larsa foi o objeto de uma exploragdo conduzida por W. Andrae, que descobri riao sitio de Kisurra no mesmo ano. A primeira escavacdo regular acon- teceu somente em 1933, sob a diregao de Parrot (1933). André Parrot, em seu relato, deplora as pilhagens que devastaram o sitio durante o ano de 1931, explicitando que infelizmente tratava-se de uma pritica de lon- Anos 90 3 ga data, como ele pode constatar de acordo com os objetos comerciali- zados nos mercados de antiguidades. Foi somente em 1967 que 0 arquedlogo francs pode retornar 20 sitio © empreender novas escavagdes (2* campanha em janciro, 3* cam. panha em dezembro). Em seguida, as escavagdes teria uma certa re- gularidade, pois entre dezembro de 1969 e janeiro de 1970 houve a 4° ‘campanha e em outubrofdezembro de 1970 2 5*, todas as duas empreen- didas por Margueton (1980-1983), que nos descreve assim o sitio, ocu- pando hoje uma superficie de 190 ha: (el de Senkereh (Sinkara) se estende em wma zona atualmente desértica do Iraque meridional, a uns vinte km a leste de Uruk e uns quarenta ao norte de Ur. O Eufrates corre atualmente muito ‘mais ao sul, préximo de Ur; mas pesquisas conducidas recentemen te sobre o terreno e o estudo de textos mostram que a cidade de Larsa encontrava-se sobre a antiga rede de dguas do Fufrates, que do possui nenhuma relagdo com o atual, As escavagdes prosseguiram sob a dirego de Huot (1996), e elas produziram varios relatérios durante estes tltimos anos. Os ikimos re- sultados publicades explicamn como, a partir de algumas fotografias a reas, foi possivel estabelecer um levantamento preciso da cidade de Larsa. Sabe-se que antes do III milénio a.C. Larsa jé era ocupada por popu- ages sumérias e que depois da queda do império de Ur (2004 a.C.) uma dinastia amorvta se instalou garantiu sua hegemonia pol por mais de dois séculos, tendo alcangado seu apogeu durante a época cha- mada de Isin-Larsa (2004-1792 aC), até a cidade ser conquistada por Hammu-rabi de Babil6nia, em 1792a.C., mum cerco que durou cerca de 6 meses e envolveu um exército de 40.000 homens. A correspondéncia real dos arquivos de Mari permitiu-nos eonhecer alguns aspectos do fim do reinado de Rim-Sin de Larsa (Birot, 1993). Através desta documentagio, possfvel, de fato, rtragar todo umn processo de deteriorago das relagdes politico-diplomiticas entre este reino ¢ o reino babilénico, um process ‘que engendrou uma guerra da qual Babil6nia saiu vitoriosa, Mas o sucessor de Hammu-rabi, Samsu-iluna, perdeu 0 controle das regides do sul do pais e, a longo de 300 anos, Larsa nao forneceu nenhuma documentag3o, Foi somente com a dinastia cassita, no final do sculo XV e metade do século XTV a.C. que tivemos novamente informagSes sobre a ci- dade. Um novo siléncio de mais de-400 anos se impés, apés um incéndio devastador ocorrido em 1047 aC. Finalmente, vimos Larsa renascer sob a 6 Anos 90 dinastia neobabilénica. O tiltimo rei desta dinastia, Nabonida (555-539 aC.) restaurou 0 zigurate¢ ali deixou uma inscriga0 (Huot, 1990, p.199): Nabonida, rei de Babilénia... que renova as cidades santas dos grandes deuses... sou eu! (..) Samai’, 0 grande senhor, conce- beu a engenhosa idéia de elevar mais alto do que nunca havia ssido 0 topo do zigurate... Sob a ordem de Marduk (..) 08 ventos sse elevaram a seus quatro cantos em uma grande tempestade que soprou a areia ¢ recobriu a cidade ¢ este templo (...). Eu ali vi uma inscrigao em nome de Hammu-rabi, rei antigo que recons- truite para Samax o E.babbar' ¢ o zigurate sobre fundagées anti- as... Eu recrutei trabathadores para Samak (...) segurando a pé, portando a enxada ...) Eu reconstrut este templo, semethante ao (que foi outrora. Ei vium tablete de alabastro com uma inscrigao em nome de Hammu-rabi, rei antigo que se encontrava ent seu interior. Eu o coloquet com uma inscrigdo emt meu nome ¢ os de positei para sempre, Depois da conquista de Babilénia por Ciro, rei persa, em 539 aC, © santuério continuou cxistindo. Ainda no templo de Samas, f trado um documento da época de Alexandre Magno. O material cerami- co permite constatar a sobrevida da construcao até fins do século Ie infcio do século 1 a.C. Tal permanéncia, a uma data tao tardia, vern sublinhar a importincia do templo de Samaé, corago e ponto central da cidade de Larsa durante vérios milénios. ‘A partir de algumas fotografias aéreas, foi posstvel estabelecer se uum levantamento preciso da cidade de Larsa. Os arquedlogos descobri- ram uma evidéncia das muralhas da cidade, as quais revelaram trés quar- teirdes (Pozzer, 1996): um bairro administrativo € religioso, onde estavam situados 0 tem- plo de E.babbar (a casa brilhante, 0 templo do deus-sol Sama¥), o pal cio de Nar-Adad e os conjuntos de grandes edificios; —um baitro residencial, onde © povoamento era mais denso e onde hravia imimeras casas no centro, enquanto que, na periferia, encontravam- se prédios de significativas dimensdes; —um baisro intermedidtio, abrigando, também, moradias ¢ fornos, ‘os quais testemunhavam uma atividade artesanal importante. Larsa possui uma verdadeira estrutura urbana, com zonas muito dis- tintas: um bairro administrativo € religioso, com os templos e palécios; ‘uma zona de grandes residéncias ma periferia, algumas com mais de Anos 90 65 Figura 1, Plano da cidade de Lats, Fonte: Hoot, 1989, 500m, tudo isso contrastando com o centro, denso e ocupado por pe- ‘quenas casas; ¢, mais ao sul, uma zona de atividade artesanal (fig. 1) E este modelo contrastava com o padrao urbanistico oriental até entao conhecido ¢ que tinha a cidade de Ur como paradigma. No inicio do II milénio a.C., Ur possuia um baicro habitacional com casas de pe- quenas dimensdes, entre 40.¢ 70m, cujas ruelas eram estreitas e sinuo. sas, As ruinas da cidade permitem uma reconstituigio parcial de seu ur- banismo (Huot, 1990, p.192): Os habitantes viviam a sombra dos grandes santudrios, Ruas es- reitas delimitavam blocos compactos de habitacdes cujas facha- das apresentavam apenas portas estreitas, 66 ‘Anos 90 Figura 2. Plano detalhaco de Larsa Fonte: Hoct, 1990, Legenda: |. zigurate;. templo de Ebabbar; 3. palécio; 4.elevacio; 5. bairo de grandes residéncias pivadas: 6. rans Babildnia, capital do mundo Babilfnia® foi o principal plo religioso e cultural do sul mesopo- t8mico e a capital do maior império do mundo oriental anterior aos per- sas, entre os séculos Vile VI a.C. Ela foi construfda a beira do Eufrates, acerca de 90km ao sul da atual Bagda (Huot, 1990, p.232).A historia de suas escavagdes pode ser resumida e' 1786 - padre Joseph de Beauchamp visita o sitio, faz uma descri- cdo e algumas sondagens; 1807 - Claudius Rich, da Companhia das fndias, estabelece o pri- meiro levantamento preciso das imensas ruinas da cidade; 1899 - primeira eseavagio arqueoldgica de cardter cientifico é en- viada a Babil6nia, uma equipe alema inicia 0 trabalho que iria durar até 1917. Depois disso, o canteiro s6 é retomado em 1978 dentro do progra- ‘ma de reconstrugao empreendido pelas autoridades iraquianas. ‘Anos 90 7 Figura 3. Plano da cidade de Babildnia, Fonte: Huot, 1990. Legenda: 1,2.€. palcios; 4. Via Processional; 5. Portade ltr; 6, zigrate; 7.14, 15, 16, 7 18. templos; 8, Bairro de residencies privadas, 9¢ 10. murals; 1. curso antigo do Eufraes; 12. curso atal do Butrates; 13. aldcins modernas, 6s ‘Anas 90 Devido a um aumento do nivel da camada frestica, que inundou os niveis mais antigos, hoje nio se pode escavar em BabilOnia mais que Im- 1 5mabaixo do nivel da planicie, Assim, a arqueologia ndo pode mais con tribuir para o conhecimento da cidade, sob épocas mais antigas; € somen- te através de documentos escritos, encontrados em outros siicos, que se pode reconsttuir a histéria desta magnifica cidade. No final do III milénio a.C. Babil6nia era uma cidade modesta, sub- metida & IP dinastia de Ur, mas quando as populagiies amortitas inva- demo sul da Mesopotamia no século XIX a.C., uma nova dinas la-se na cidade, sob o comando de Sumu-abum, No século XVII a.C. a F dinastia de Babilénia domina a regio e toma-se uma poténcia, sob 0 comando de Hammu-rabi (1792-1750 a.C.). Mas a unidade politica ha- bilmente conquistada demonstrou-se frégil 20 longo de dois séculos e, em 1595 a.C., a cidade foi tomada pelos hititas, povos do norte anatél co, atual Turquia, transformando-se, entio, em uma cidade de menor importincia no cenério politico. ‘Sob o dominio assirio a cidade foi parcialmente destrufda e depois reconstruida, como atesta este documento, uma inserigo real de Assur- banipal, rei assirio entre 668-627 a.C. (Roaf, 2000, p.431): Egigunu, o zigurate de Nippur, a fundacéo a qual foi colocada no coragao do oceano, as paredes que tornaram-se velhas e cafram em ruinas, - eu construi esta casa com tijolos cozidos e betume € completei esta construcio. Com a arte do deus dos tijolos eu res- taureie fizele (zigurate)brithar como o dia. Eu erigi seu topo como uma monianha e causei seu esplendor e britho. A cidade conheceu um novo momento de grandiosidade sob a di- nastia neobabildnica, quando tornou-se, efetivamente, a capital do mun- do oriental. No planisfério mais antigo conhecido até hoje, um tablete neoba- bilénico datado do VII ot VI século a.C., Babilénia é caracterizada comio centro do mundo. Nesta representacao, o mundo é citeular limi- tado por fguas amargas, isto é, 0 oceano. No interior de um cftculo, tum trago vertical, o Eufrates, corre do norte em dirego ao sul e umn trago horizontal corta o rio: a cidade de Babildnia © em torno delas ou- tras cidades. No exterior do efrculo, tridngulos simbolizam regides iticas ¢ ithas distantes. Anos 90 os) Figura 4, Planisério do séeulo VI-VI aC, Fonte: Walker, 1992 Anos 90 © mais famoso de todos os zigurates € 0 de Babildni E,TEMEN. AN.KI (a casa da fundacao do eéu e da (erra), e que € a ins} ragdo para a Torre de Babel biblica. estrutura original foi construida por Hammu-rabi (1792-1750 a.C.) foi restaurada por Nabucodonossor 11 (604-562 a.C.) rei da dinastia caldéia, Figura 5. Reconsttigio de Zigurate Fonte: Roaf, 1991 Da Torre de Babel subsistem apenas suas fundagées construidas sobre tim plano quadrado de 91m de lado. O interior era de tijolos secos ‘a0 sol, enquanto que as paredes externas eram de tijolos cozidos, com 15m de espessura. Bla teria atingido uma altura de no minimo 55m, 0 que nocessitaria cerca de 36 milhies de tijolos para sua eonstrugao. A torre teria sete andares, sendo que os quatro andares inferiores eram pin- tados de branco, preto, rosa e azul respectivamente. Cada andar simbo- lizaria, pela sua cor, os cinco grands planetas que 0s babildnicos conhe- ciam: Saturno, Jipiter, Marte, Vénus e Merctirio, além dos dois satéli- tes, 0 Sol ea Lua (Roaf, 2000). A Torre de Babel serviria a duas funcoes, principais: uma de caréter cientifico, para observagdo astronémica did- ria tealizada pelos escribas ¢ registrada em tabletes de argila ¢ outra, de cunho religioso, pois os mesopotémicos acreditavam que os zigurates mais altos permatiriam a descida dos deuses a terra a fim de aliviar os males ¢ 08 sofrimentos dos homens (Lacambre, 1994, p.70). ‘Anos 90 n Na concepgio mesopotimica, a cidade era o lugar onde residiam (68 deuses, ¢ 0 santuétio era edificado para abrigar a sua residéncia, Nos textos conhecides como “lamentagses” sobre as cidades destruidas, a ‘existéncia das mesmas é objeto de longas discusses entre os deuses an- tes de decidirem o seu destino (Michalowski, 1998). Estas lamentagoes descrevem a destruigdo das cidades e de seus templos, levando as divin- ddades a abandonarem suas cidades e, com isto ao desaparecimento dos ceultos. Nelas 0 aniquilamento € atribuido a uma decisdo tomada pelos ‘deuses, Elas descrevem ainda a restauragao das cidades, de seus templos, 0 retomo dos deuses. Apoiacas em acontecimentos histéricos reais, como guerras de con. quista e destruigio das cidades, estas composigdes literérias sdo signifi ceativas da estreita relacdo que havia entre a cidade e sua divindade prin- cipal e do papel do rei de mantenedor desta relagdo privilegiada, pois ele deveria cuidar do estado dos templos, devendo construir, restaurar © or nar as casas dos deuses, pois o templo era o coragao da cidade ¢ a razio de sua existéncia, REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS BIROT,M. Cosrespondance des gouverneurs de Qaitundn. ARM 27, Patis: ERC, 1993. BLACK, 1; GREEN, A. Gods, Demons and Symbols of Ancient Mesopotamia. 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