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Apostila de Educação Ambiental recomendada pelo Prof. M.Sc. Márcio Souza (souza.mlm@gmail.com)
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A constituição do campo da Educação Ambiental

Histórico da Educação Ambiental
Considerando-se que educação ambiental é um processo em construção permanente e que, portanto, torna-se um instrumento de aprendizagem em constante movimento, alguns fatos e acontecimentos marcantes na história mundial têm sua importância para o estudo proposto neste texto, como os que agora destacamos. Em 1869, Ernest Haeckel propõe o vocábulo “ecologia” para os estudos das relações entre espécies e seu ambiente. Três anos depois, é criado o primeiro Parque Nacional do mundo, o de Yellowstone, nos Estados Unidos. Desde então, e principalmente após a 2ª Grande Guerra quando do crescimento desenfreado da produção industrial e do conseqüente acirramento da degradação do meio ambiente, começaram a surgir problemas de dimensões globais, que rompiam fronteiras e extrapolavam a regionalidade, como a poluição de rios e mananciais internacionais, a chuva ácida, o buraco na camada de ozônio, o efeito estufa, as ilhas de calor nos grandes centros urbanos, entre outros. Nesse momento, percebeu-se a importância de uma reflexão mais profunda e a necessidade de um trabalho conjunto entre as nações, concentrando recursos financeiros e tecnológicos para a solução dessas questões e/ou para minimização dos impactos desses fenômenos no meio ambiente. Nesse sentido, diversas atitudes passam a ser tomadas, principalmente nos países do hemisfério norte. Algumas delas são emblemáticas, tais como a fundação em 1947, na Suíça, a UICN – União Internacional para a Conservação da Natureza, a mais antiga instituição ambientalista de que se tem registro. No entanto, ainda não se relaciona diretamente as alternativas de solução aos problemas ambientais a mudança de comportamento e a questão educacional. Só em 1965, foi utilizada pela primeira vez, a expressão “Educação Ambiental” (Environmental Education), durante a “Conferência de Educação”, da Universidade de Keele, na Grã-Bretanha.

O Clube de Roma e o Crescimento Zero
Em 1968, é fundado o Clube de Roma pelo industrial italiano Aurélio Peccei e pelo químico inglês Alexander King, que agregou 100 empresários, políticos, cientistas sociais, preocupados com as conseqüências do modelo de desenvolvimento predatório adotado pelos países ricos do ocidente e que rapidamente se espalhava por todo o globo terrestre. Em 1971, o Clube encomenda ao MIT – Instituto de Tecnologia de Massachussets, Estados Unidos - um estudo sobre a situação do Planeta. Como resultado é publicado no ano seguinte, um relatório que leva o nome de “Limites do Crescimento”, que recomenda crescimento zero da atividade econômica e da população, como forma de garantir a continuidade da existência da espécie humana do Planeta. Tal documento é duramente criticado, principalmente porque congelava desigualdades e não previa mudanças nos padrões de produção e consumo adotados pela sociedade, nem tampouco propunha uma redistribuição de riquezas entre os países e as diferentes camadas da população. De qualquer modo, foi a primeira vez que um sério instituto de pesquisa, financiado por poderosos empresários do primeiro mundo, apontava a situação a que o Planeta estava exposto. Por fim, o mundo tomava conhecimento, oficialmente, das limitações ambientais ao crescimento.

A Conferência de Estocolmo
No mesmo ano da publicação, 1972, e como sua conseqüência direta, aconteceu a Conferência das Nações Unidas, em Estocolmo, debatendo o tema “Crescimento Econômico e Meio Ambiente”, com a presença de 113 países. Esta Conferência é considerada um marco político internacional para o surgimento de políticas de gerenciamento ambiental. Ali foram propostos novos conceitos como o do Ecodesenvolvimento, uma nova visão das relações entre o meio ambiente e o desenvolvimento; gerados e criados novos importantes programas como o das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA); gerados documentos da relevância da Declaração sobre o Ambiente Humano, uma afirmação de princípios de comportamento e responsabilidade que deveriam governar as decisões relativas à área ambiental e o Plano de Ação Mundial, uma convocação à cooperação internacional para a busca de soluções para os problemas ambientais. A Conferência também constituiu o Dia Mundial do Meio Ambiente, a ser comemorado no dia 05 de junho de cada ano.

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A partir dela, a atenção mundial foi direcionada para as questões ambientais, especialmente para a degradação ambiental e a poluição interfronteiras, popularizando o conceito da dispersão, de grande importância para evidenciar o fato de que a poluição não reconhece limites políticos ou geográficos e afeta países, regiões e pessoas para muito além do ponto em que foi gerada.

A posição brasileira
O Brasil, a esta época em plena vigência do regime militar, havia adotado o chamado modelo econômico “nacional-desenvolvimentista”, onde o crescimento a qualquer custo era visto como ferramenta fundante para o progresso e para a melhoria da qualidade de vida da população e vinha acumulando sucessivos índices positivos de crescimento do Produto Interno Bruto. Era a década do “milagre brasileiro” e os investimentos governamentais em grandes obras eram consideradas prioritários, a rodovia Transamazônica, a Ponte Rio - Niterói, a Usina de Energia Nuclear de Angra, entre outros, ampliavam a infra-estrutura que, por sua vez, possibilitava o crescimento desenfreado que exigia ainda mais infra-estruturas de base. Novas estradas, novos portos, novas fronteiras agrícolas, imensos conjuntos habitacionais e assim consecutivamente. Não era de se estranhar, portanto que, diante das discussões em Estocolmo, os representantes brasileiros não tenham reconhecido a gravidade dos problemas ambientais. Mesmo enfrentando discordâncias, a Conferência de Estocolmo representou um avanço nas negociações mundiais e tornou-se o marco para o entendimento dos problemas planetários e para a emergência de políticas ambientais em muitos países, adotando o slogan “Uma Única Terra” e propondo a busca de uma nova forma de desenvolvimento para o mundo. No mesmo Plano de Ação, foi recomendado o desenvolvimento de novos métodos e recursos instrucionais para a Educação Ambiental e a capacitação de professores.

Congresso de Belgrado
Três anos mais tarde, o Congresso de Belgrado propõe a discussão de nova ética planetária para promover a erradicação da pobreza, analfabetismo, fome, poluição, exploração e dominação humanas. Censurava o desenvolvimento de uma nação à custa de outra e propõe a busca de um consenso internacional. Sugeriu também a criação de um Programa Mundial em Educação Ambiental. Como resultado, a UNESCO cria, então, o Programa Internacional de Educação Ambiental (PIEA), que até os dias de hoje tem continuamente atuado na EA internacional e regionalmente. O PIEA mantém uma base de dados com informações sobre instituições de EA em todo o mundo, além de projetos e eventos que envolvem estudantes, professores e administradores.

A Conferência de Tbilisi
A reunião internacional que de fato revolucionou a EA foi a Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental, promovida pela UNESCO e realizada em Tbilisi, na Geórgia em 1977. Embora o evento fosse governamental, participantes não-oficiais se fizeram presentes, marcando posições e interferindo nas discussões. Conseguiram grandes avanços e estratégias e pressupostos pedagógicos foram adicionados aos seus documentos. A declaração final de Tbilisi estabelece os princípios orientadores da EA e remarca seu caráter interdisciplinar, crítico, ético e transformador. Anuncia que a EA deveria basear-se na ciência e na tecnologia para a tomada de consciência e adequada compreensão dos problemas ambientais, fomentando uma mudança de conduta quanto à utilização dos recursos ambientais.

Nosso Futuro Comum
Durante toda a década subseqüente, a humanidade buscou conhecimentos e acordos para propor uma nova sociedade, de caráter local e global. Em 1983, por decisão da Assembléia Geral da ONU, foi criada a Comissão Mundial de Meio Ambiente e Desenvolvimento – CMMAD. Presidida pela então primeira ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland, tinha como objetivo analisar a interface entre a questão ambiental e o desenvolvimento e propor um plano de ações.

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Essa Comissão, chamada de Comissão Brundtland, circulou o mundo e encerrou seus trabalhos em 1987, com um relatório chamado “Nosso Futuro Comum”. E é nesse relatório que se encontra a definição de desenvolvimento sustentável mais aceita e difundida em todo o Planeta: “Desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade das gerações futuras satisfazerem suas próprias necessidades”. Segundo a Comissão, o desafio era trazer as considerações ambientais para o centro das tomadas de decisões econômicas e para o centro do planejamento futuro nos diversos níveis: local, regional e global.

Conferencia de Moscou
A conferência seguinte foi a de Moscou (capital da antiga União Soviética), que reuniu cerca de trezentos educadores ambientais de cem países. Visou fazer uma avaliação sobre o desenvolvimento da EA desde a Conferência de Tbilisi, em todos os países membros da UNESCO. A EA, nessa conferência não-governamental, reforçou os conceitos consagrados pela de Tbilisi, a saber, a Educação Ambiental deveria preocupar-se tanto com a promoção da conscientização e transmissão de informações, como com o desenvolvimento de hábitos e habilidades, promoção de valores, estabelecimento de critérios padrões e orientações para a resolução de problemas e tomada de decisões. Portanto, objetivar modificações comportamentais nos campos cognitivo e afetivo.

Rio-92
A Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD), oficialmente denominada de “Conferência de Cúpula da Terra” e informalmente de Eco-92 ou Rio-92, foi realizada no Rio de Janeiro entre 03 e 14 de junho de 1992, 20 anos após a Conferência de Estocolmo e teve grande importância para reforçar e ampliar essa nova abordagem ambiental, que já vinha sendo discutida em documentos anteriores. Fez história ao chamar a atenção do mundo para uma questão nova na época: a compreensão de que os problemas ambientais estão intimamente ligados às condições econômicas e à justiça social. Reconheceu a necessidade de integração e equilíbrio entre as questões sociais e econômicas para a sobrevivência da vida humana no Planeta. Reuniu 103 chefes de estado e um total de 182 países e centenas de organizações da sociedade civil cuja ação teve relevante impacto ao demonstrar claramente os limites da exploração dos recursos naturais. A Conferência aprovou cinco acordos oficiais internacionais: a Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento; a Declaração de Florestas; a ConvençãoQuadro sobre Mudanças Climáticas; a Convenção sobre Diversidade Biológica e a Agenda 21, um documento que propõe novos modelos políticos para o mundo em busca do desenvolvimento sustentável. Paralelamente, as organizações não governamentais reunidas no Fórum Internacional das ONGS e dos Movimentos Sociais, finalizaram e aprovaram o Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global. Assim, no âmbito governamental e no da sociedade civil, o conceito de sustentabilidade ganha força e esta nova visão implica na implantação de um modelo de desenvolvimento que garanta a manutenção da Vida no Planeta sob todos os aspectos.

Carta Brasileira para a Educação Ambiental
Paralelamente à Rio-92, o governo brasileiro, através do Ministério da Educação e Desporto – MEC organizou um workshop, no qual foi aprovado um documento denominado “Carta Brasileira para a Educação Ambiental”, enfocando o papel do estado, estimulando, em particular, a instância educacional como as unidades do MEC e o Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras (CRUB) para a implementação imediata da EA em todos os níveis.

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Quadro-síntese do histórico da Educação Ambiental no mundo
ANO ACONTECIMENTOS SÉCULO XIX 1869 1872 Ernst Haeckel propõe o vocábulo “ecologia” para os estudos das relações entre as espécies e seu ambiente. Criação do primeiro parque nacional do mundo “Yellowstone”, USA SÉCULO XX 1947 1952 1962 1965 Funda-se na Suíça a UICN- União Internacional para a Conservação da Natureza Acidente de poluição do ar em Londres provoca a morte de 1600 pessoas Publicação da “Primavera Silenciosa” por Rachel Carlson Utilização da expressão “Educação Ambiental” (Enviromental Education) na “Conferência de Educação” da Universidade de Keele, Grã-Bretanha. Pacto Internacional sobre os Direitos Humanos - Assembléia Geral da ONU Fundação do Clube de Roma Publicação do Relatório “Os Limites do Crescimento” - Clube de Roma Conferência de Estocolmo - Discussão do Desenvolvimento e Ambiente, Conceito de Ecodesenvolvimento. Recomendação 96 Educação e Meio Ambiente Registro Mundial de Programas em Educação Ambiental - USA Seminário de Educação Ambiental em Jammi, Finlândia – Reconhece a Educação Ambiental como educação integral e permanente. Congresso de Belgrado - Carta de Belgrado estabelece as metas e princípios da Educação Ambiental Programa Internacional de Educação Ambiental - PIEA Reunião Sub-regional de EA para o ensino Secundário Chosica, Peru. Questões ambientais na América Latina estão ligadas às necessidades de sobrevivência e aos direitos humanos. Congresso de Educação Ambiental em Brasarville, África, reconhece que a pobreza é o maior problema ambiental. Conferência de Tbilisi – Geórgia. Estabelece os princípios orientadores da EA e remarca seu caráter interdisciplinar, critico, ético e transformador. Encontro Regional de Educação Ambiental para América Latina em San José, Costa Rica. Seminário Regional Europeu sobre EA , para Europa e América do Norte. Assinala a importância do intercâmbio de informações e experiências. Seminário Regional sobre EA nos Estados Árabes, Manama, Bahrein. UNESCO PNUMA. Primeira Conferência Asiática sobre EA Nova Delhi, Índia Formação da Comissão Brundtland Divulgação do Relatório da Comissão Brundtland, Nosso Futuro Comum. Congresso Internacional da UNESCO - PNUMA sobre Educação e Formação Ambiental em Moscou, URSS. Realiza a avaliação dos avanços desde Tbilisi, reafirma os princípios de Educação Ambiental e assinala a importância e necessidade da pesquisa, e da formação em Educação Ambiental .

1966 1968 1972 1972

1973 1974 1975 1975 1976

1976 1977

1979 1980 1980 1980 1983 1987 1987

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1988

Declaração de Caracas, Venezuela, sobre Gestão Ambiental na América. Denuncia a necessidade de mudar o modelo de desenvolvimento. Primeiro Seminário sobre materiais para a Educação Ambiental em Santiago, Chile. Declaração de HAIA, preparatória da RIO 92, aponta a importância da cooperação internacional nas questões ambientais. Conferência Mundial sobre Ensino para Todos, satisfação das necessidades básicas de aprendizagem, Jomtien, Tailândia. Destaca o conceito de Analfabetismo Ambiental ONU Declara o ano 1990 como Ano Internacional do Meio Ambiente. Reuniões preparatórias da Rio 92. Conferencia sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, UNCED, Rio/92 - Criação da Agenda 21. Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis. FORUM das ONG’s - compromissos da sociedade civil com a Educação Ambiental e o Meio Ambiente. Carta Brasileira de Educação Ambiental. Aponta as necessidades de capacitação na área. MEC. Congresso Sul-Americano - continuidade Eco/92 - Argentina Conferência dos Direitos Humanos. Viena. Conferência Mundial da População. Cairo I Congresso Ibero Americano de Educação Ambiental. Guadalajara, México. Conferência para o Desenvolvimento Social. Copenhague. Criação de um ambiente econômico-político-social-cultural e jurídico que permita o desenvolvimento social. Conferência Mundial da Mulher (Pequim, China) I Conferência Mundial do Clima (Berlim, Alemanha) Conferência Habitat II (Istambul, Turquia) II Conferência Mundial do Clima (Genebra, Suíça) II Congresso Ibero-americano de EA . Junho (Guadalajara, México) Conferência sobre Educação Ambiental (Nova Delhi, Índia) Conferência Internacional sobre Meio Ambiente e Sociedade: Educação Conscientização Pública para a Sustentabilidade, Thessaloniki, Grécia. Rio + 5 Sessão especial da Assembléia Geral da ONU realizada en Nova York. III Conferencia das Partes (Quioto, Japão) onde foi proposto. O PROTOCOLO DE QUIOTO, acordo para diminuição dos gases efeito estufa. Conferência Mundial do Clima (Bonn, Alemanha) Conferência Mundial do Clima (Haia, Holanda) I FÓRUM SOCIAL MUNDIAL (Porto Alegre, Brasil) Rio + 10 (Joanesburgo, África) II Fórum Social Mundial ( Porto Alegre, Brasil) VIII Conferência Mundial do Clima, adoção da Declaração de Déli sobre Mudanças Climáticas e Desenvolvimento Sustentável ( Nova Déli, Índia) III Fórum Social Mundial (Porto Alegre, Brasil) I Conferencia Brasileira de Meio Ambiente IV Fórum Social Mundial (Índia) V Fórum de Educação Ambiental ( Goiânia, Brasil) e

1989 1989 1990

1990 1991 1992

1992 1992 1993 1993 1994 1994 1995

1995 1995 1996 1996 1997 1997 1997

1997 1999 2000 2001 2002 2002 2002 2003 2004 2004

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Conceitos de Educação Ambiental
Na Conferência de Tbilisi (1977), a Educação Ambiental foi definida como “uma dimensão dada ao conteúdo e à prática da educação, orientada para a resolução dos problemas concretos do meio ambiente, através de enfoques multidisciplinares e de uma participação ativa e responsável de cada indivíduo e da coletividade”. No entanto, os que convivem com a EA se depararam com uma surpreendente diversidade sob o guarda-chuva dessa denominação. Atualmente, podemos encontrar uma gama imensa de conceitos, práticas e metodológicas que, por sua vez, ora se subdividem, ora se antagonizam, ora se mesclam. Não é, pois, tarefa fácil analisar, qualificar e adjetivar a educação ambiental. Suas práticas têm sido categorizadas de muitas maneiras: Educação Ambiental popular, crítica, política, comunitária, formal, não formal, para o desenvolvimento sustentável, para a sustentabilidade, conservacionista, socioambiental, ao ar livre, entre tantas outras. Vejamos algumas destas principais correntes do ambientalismo e como se dá a inserção da educação ambiental, em cada uma delas:

Conservacionismo:
Com significativa presença nos países mais desenvolvidos, ganha grande impulso com a divulgação dos impactos sobre a natureza causados pelos atuais modelos de desenvolvimento. Sua penetração no Brasil se dá a partir da atuação de entidades conservacionistas como a UIPA e a FBCN, e da primeira tradução para o português de um livro (Tanner, 1978) sobre educação ambiental. A partir de então, esta corrente é mantida no país especialmente por ONGS de origem internacional que se dedicam à proteção, conservação e preservação de espécies, ecossistemas e do Planeta como um todo; à conservação da biodiversidade; às questões do aquecimento global e o efeito estufa; ao enfrentamento da questão da rápida deterioração dos recursos hídricos; ao diagnóstico e análise dos grandes fenômenos de degradação da natureza, incluindo a espécie humana como parte da natureza; ao estudo e formulação de banco de dados que sirvam de base para a conservação e utilização dos recursos naturais. Na última década, no entanto, a atuação destas instituições no Brasil tem se alterado substancialmente. Com freqüência, elas mantêm programas de Educação Ambiental, com as comunidades do entorno de suas áreas de atuação, com caráter prioritário de disponibilizar informações sobre os ecossistemas em estudo, mas também agregando projetos de inclusão social e emancipação política.

Socioambientalismo
Tem suas raízes mais profundas fincadas nos movimentos de resistência aos regimes autoritários na América Latina. No Brasil, esses ideais foram constitutivos da educação popular que rompe com a visão tecnicista, difusora e repassadora de conhecimentos. Paulo Freire teve papel preponderante na defesa deste tipo de educação e inspirou centenas de educadores brasileiros e em todo mundo que romperam com a visão tecnicista e reprodutora de conhecimentos para construir uma educação emancipatória, transformadora, libertária. Uma importante vertente da EA se inspira nos ideais democráticos e emancipatórios da Educação Popular e lhe acrescenta a dimensão ambiental buscando compreender as relações sociedade e natureza para intervir nos conflitos socioambientais. Entre as principais expressões desta corrente estão o histórico seringalista Chico Mendes e sua discípula Marina Silva, hoje Ministra do Meio Ambiente. Seus pressupostos apontam para o fomento de uma cultura de procedimentos democráticos; de estímulo a processos participativos e horizontalizados; de formação e aprimoramento de organizações, de diálogo na diversidade; de auto-gestão política; de inclusão social e de uma organização social mais justa e eqüitativa.

Desenvolvimento Sustentável e/ou a Economia Ecológica
Vertente que surge na década de 70, inspirada no conceito de ecodesenvolvimento (Ignacy Sachs, 1986) e no “O negócio é ser pequeno” (Schumacher, 1981). Ganha grande impulso na segunda metade da década de 80, quando governos e organismos internacionais começam a se preocupar com o futuro da vida no Planeta e passam a publicar documentos como “Nosso futuro comum” , a propor mecanismos de

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regulação do uso dos recursos naturais, a criar novas legislações. Se expressa hoje, sobretudo no chamado “Capitalismo Natural” (Lovins, 2002) e no Ecodesign, entendido como planejamento das intervenções antrópicas no ambiente, utilizando tecnologias e materiais desenhados ecologicamente. De grande influência nos países do hemisfério norte, esta corrente representa um grande avanço no uso racional dos recursos naturais, na redução do consumo de energia, na minimização de emissão de gases poluentes, na redução e no tratamento dos resíduos, na ecoeficiência etc. Exerce grande influencia nos bancos internacionais e nos organismos multilaterais e em especial em documentos do PNUMA, FAO, UNESCO entre outros. Seu sucesso está intimamente relacionado ao surgimento dos conceitos de “responsabilidade social e desenvolvimento sustentável”, frutos de décadas de trabalho dos movimentos da sociedade civil, especialmente o movimento feminista, de direitos humanos e o ambientalista que forjaram consumidores, eleitores e investidores mais exigentes. Surge um grande número de fundações, institutos e associações governamentais, privadas e mistas que passam a trabalhar a educação ambiental sob a ótica da construção de um novo modelo de produção, distribuição, consumo e descarte. Algumas ONGs ambientalistas que tradicionalmente trabalham a questão da Educação Ambiental se associam e/ou firmam parcerias com instituições de pesquisa nacionais e internacionais e passam a atuar fortemente com tais conceitos e práticas.

Ecopedagogia
Tem como fundamento a concepção de Paulo Freire da educação como ato político que possibilita ao educando perceber seu papel no mundo e sua inserção na história. A ecopedagogia prega um olhar global a partir das práticas do cotidiano. Nela a noção de natureza está embasada na Hipótese de Gaia, de James Lovelock e no pensamento de Fritjof Capra e Leonardo Boff e está associada a elementos espirituais. Assim, os referencias teóricos que fundamentam suas práticas são: o holismo, a complexidade e a pedagogia freireana. As duas últimas características, especialmente, dão o tom da abordagem metodológica desta vertente que busca contribuir para a formação de novos valores para uma sociedade sustentável. Compreende a educação a partir de uma concepção ”dinâmica criadora e racional onde a harmonia ambiental supõe tolerância, respeito, igualdade social, cultural, de gênero e aceitação da biodiversidade” (Gutierrez e Prado, 2000). A ecopedagogia se afirma como movimento social em torno, principalmente, da formulação e discussão da Carta da Terra.

Para saber mais, consulte: Carta da Ecopedagogia (em defesa da pedagogia da Terra): www.paulofreire.terra.com.br
Educação para Sociedades Sustentáveis
Apresenta-se como uma possibilidade única de reconstruir nossa história, nossa relação com a natureza, como o desejo de construir uma nova globalização, verdadeira, solidária capaz de gerar valores que ofereçam novo sentido à existência humana no Planeta. A falência do modelo de desenvolvimento adotado pelos humanos nos últimos dez mil anos, a compreensão de que a dimensão social, econômica, ambiental, política e cultural de cada sociedade estão absolutamente interconectadas, a percepção de que a sustentabilidade só pode ser construída coletivamente através de um grande processo de mudança cultural aponta os caminhos para esta vertente da EA no Brasil, que apresenta características bastante peculiares e inovadoras. Tomando como referência contribuições que a ciência e a tecnologia, especialmente na década de 90, trazem à ecologia e aos movimentos ambientalistas, esta nova vertente acrescenta a eles a sensibilidade social e a busca emancipatória advinda dos movimentos sociais. Na prática, busca aplicar cientificidade aos projetos educacionais, incorporando a eles o arcabouço científico da Teoria da Complexidade, da teoria dos Sistemas Vivos e do pensamento sistêmico sem, no entanto, deixar de contemplar a dimensão social, cultural e pedagógica da sustentabilidade. Um dos pontos principais deste pensamento fundamenta-se nos princípios do respeito à diversidade, na inclusão, na horizontalidade e no trabalho em rede.

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É nesta corrente que está abrigada a pedagogia formulada pelo físico, ecologista e pensador Fritjof Capra, a alfabetização ecológica, que parte do pressuposto que a sobrevivência da nossa espécie no Planeta está diretamente vinculada à nossa capacidade de entender os princípios de organização que os ecossistemas desenvolveram para sustentar a teia da vida e assim obter o conhecimento e o comprometimento necessários para desenhar comunidades humanas sustentáveis. No Brasil, esta corrente vem ganhando adeptos entre ONGS e órgãos públicos e tem sido aplicada especialmente em escolas de ensino fundamental.

Para saber mais consulte: www.ecoliteracy.org
Dentre os chamados projetos de construção de sociedades sustentáveis, se apresentam os projetos ecologicamente desenhados, rurais e urbanos. A agroecologia, os projetos de seqüestro de gases efeito estufa, os de energia alternativa com geração de renda para as comunidades envolvidas, as ecovilas, os projetos agroflorestais, nela se inserem, apresentando, diferentemente dos projetos de ecodesenvolvimento, um forte viés de desenvolvimento local sustentável, inclusão social e fortalecimento das comunidades. As cinco correntes de educação ambiental citadas apresentam uma vasta diversificação de temas, objetivos e estratégias, cada uma delas influenciando e se identificando com distintos projetos de educação ambiental, em diversos locais do país. Em comum, o desejo de contribuir para a conservação da biodiversidade, para a inclusão social; para a participação na vida pública, para o aprimoramento individual e coletivo, para um modelo de desenvolvimento mais justo e eqüitativo. Todas elas são uníssonas na compreensão da fundamentalidade dos processos educativos para que este percurso se faça possível.

Os princípios básicos da educação ambiental:
É fundamental que a EA esteja calcada em princípios básicos, por isso, a seguir, uma seleção dos mais relevantes: ♦ Considerar o meio ambiente em sua totalidade, ou seja, em seus aspectos naturais e nos criados pelos seres humanos, tecnológicos e sociais (econômico, político, técnico, histórico-cultural, moral e estético); ♦ Constituir um processo educativo contínuo e permanente, começando pelos primeiros anos de vida e continuando através de todas as fases do ensino formal e não-formal; ♦ Aplicar um enfoque interdisciplinar, aproveitando o conteúdo específico de cada disciplina, de modo que se adquira uma perspectiva global e equilibrada; ♦ Examinar as principais questões ambientais, do ponto de vista local, regional, nacional e internacional, de modo que os educandos se identifiquem com as condições ambientais de outras regiões geográficas; ♦ Trabalhar com o conhecimento contextual, com estudos do meio. ♦ Concentrar-se nas situações ambientais atuais, mas levando em conta, a perspectiva histórica, resgatando os saberes e fazeres tradicionais; ♦ Insistir no valor e na necessidade de cooperação local, nacional e global para prevenir e resolver os problemas ambientais; ♦ Considerar, de maneira explícita, os aspectos ambientais nos planos de desenvolvimento e de crescimento; ♦ Ajudar a descobrir os sintomas e as causas reais dos problemas ambientais; ♦ Destacar a complexidade dos problemas ambientais e, em conseqüência, a necessidade de desenvolver o senso crítico e as habilidades necessárias para resolver os problemas; ♦ Utilizar diversos ambientes educativos e uma ampla gama de métodos para comunicar-se e adquirir conhecimentos sobre o meio ambiente, estimulando o indivíduo a analisar e participar na resolução dos problemas ambientais da coletividade; ♦ Estimular uma visão global (abrangente/holística) e crítica das questões ambientais;

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Educação Ambiental nas escolas:
Seria a Educação Ambiental “uma vocação da educação como prática social?” (Brandão, 1996). Todas as vezes que são feitas reflexões sérias sobre os conceitos fundantes da Educação Ambiental, detecta-se a necessidade de uma reavaliação profunda do processo de formação do próprio sistema de educação de base em nosso país e em grande parte do Planeta. No ensino formal, ainda se prioriza a disponibilização de uma enormidade de conteúdos e conceitos aos alunos de diferentes graus e diversas realidades geográficas, sociais e ambientais, de forma pasteurizada, segmentada e desintegrada do cotidiano e da realidade local dos educandos. Mais do que meramente informativa ou uma imposição de regras de bom comportamento ecológico, a educação ambiental deve permitir que cada pessoa explore o seu potencial, adquirindo habilidades necessárias para determinar e buscar soluções para sua emancipação. Vejamos agora como os que querem trabalhar com educação ambiental no Brasil, vêm enfrentando este problema. O Ministério da Educação e Cultura, MEC, lança em 1997, os Parâmetros Curriculares Nacionais com o objetivo de reorganizar e modernizar o instrumento de orientação ao ensino de base do Brasil. O novo PCN traz orientações para o ensino dos chamados “temas transversais na escola”, meio ambiente e saúde, ética e cidadania, orientação sexual, pluralidade cultural, trabalho e consumo. A transversalidade é uma estratégia de trabalho onde o educador se coloca de forma aberta, com vontade de dialogar e integrar o seu trabalho criativo ao trabalho de equipe. Desta forma, a temática ambiental não deve ser inserida como uma única disciplina, mas deve fundamentar e enriquecer a prática pedagógica do educador, com a absorção da dimensão ambiental nos conteúdos específicos das disciplinas. A iniciativa do MEC esbarrou num problema sério: a falta de formação dos educadores em trabalhar, de forma transversal, conteúdos ambientais, uma vez que advinham de práticas de ensino fragmentado e o tema meio ambiente tradicionalmente era responsabilidade dos professores de Ciências. Em um primeiro momento, não havia materiais de apoio sobre a temática, adequados àquele público. Em 2001, o MEC, preocupado em suprir lacunas dos PCNs, lançou o documento “O PCN em Ação de Meio Ambiente”, com o objetivo de demonstrar possibilidades de perpassar as atividades pedagógicas com a temática ambiental, a partir de exemplos concretos vividos em situações cotidianas. O documento disponibilizou aos educadores endereços onde encontrar maiores informações, textos de apoio, sítios da Internet, indicação de materiais paradidáticos, além de exemplos de atividades de educação ambiental para serem desenvolvidas com os alunos. O documento mostrou também os ganhos que as diversas disciplinas têm ao trabalhar transversalmente o tema ambiental, como a possibilidade de convívio harmonioso e enriquecedor entre o conhecimento científico e as disciplinas de base. Os PCNs e o PCN em Ação de Meio Ambiente são instrumentos de apoio específicos para o educador e destinado ao envolvimento direto com os educandos. As exigências e princípios traçados para a Educação Ambiental e a orientação para que ela seja adotada como eixo transversal, no contexto do projeto pedagógico de cada curso, possibilitam a discussão e a análise do tema meio ambiente em diferentes áreas do conhecimento, demandando a adoção de uma visão sistêmica e possibilitando discussões e práticas que congreguem diferentes saberes, transcendendo as noções de disciplina, matéria e área. Independentemente da exigência em nível das diretrizes curriculares, a questão ambiental deve, por expressa previsão legal, obrigatoriamente integrar todos os níveis e modalidades do processo educacional, no denominado eixo transversal. Essa obrigatoriedade atinge, portanto, de forma integral, todos os níveis e modalidades da educação básica (educação infantil, ensino fundamental e médio) e da educação superior (cursos seqüenciais, de graduação, de pós-graduação e de extensão), uma vez que a degradação ambiental tem alcançado níveis jamais vistos e vivemos hoje uma crise ambiental sem precedentes. Nesse sentido, cabe à educação um papel de fundamental importância: formar cidadãos comprometidos e capacitados para a preservação do meio ambiente, melhorar a qualidade de vida e garantir a saúde de todos. Para Reigota (1994), uma educação ambiental crítica, desta forma, apresenta-se impregnada da utopia de mudar de forma radical as relações que hoje conhecemos, tanto entre a humanidade, como entre esta e a natureza. Trata-se, portanto, de uma educação de natureza política, onde se enfatiza antes a questão do “porque fazer” do que a questão do “como fazer”.

Para saber mais consulte: www.mec.gov.br

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A Atuação das ONGS
O marco do surgimento das ONGS ambientalistas no Brasil pode ser datado em 1971, com a criação, no Rio Grande do Sul, da Agapan, Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural. A sociedade civil aos poucos se organiza em torno das questões naturais e/ou socioambientais e passa a cumprir um papel fundamental na defesa dos recursos naturais e na mobilização pela elaboração de novas leis ambientais, na elaboração e financiamento de projetos que visem à conservação dos ecossistemas, na denúncia dos abusos cometidos e na melhoria da qualidade de vida da população. As organizações ambientalistas se colocam, desde sua formação, como instrumentos de resistência democrática e de vanguarda conceitual. Agrupam intelectuais, acadêmicos, artistas, ativistas e aos poucos se aproximam de lideranças populares, sindicalistas e populações tradicionais. Desta forma se fortalecem a ponto de terem um alto grau de mobilização, passando a influenciar políticas públicas e a legislação vigente. Um importante momento para o fortalecimento das ONGs foi o ano de 1992, quando, paralelamente à RIO 92, realizou-se o FÓRUM GLOBAL, um significativo evento onde a participação da sociedade civil foi altamente expressiva, reunindo milhares de ativistas de todo o Planeta, em uma grande tenda armada na cidade do Rio de Janeiro. Este evento assinalou o avanço da sociedade civil organizada e sua preocupação com as questões ambientais, sobretudo pela ampla participação de entidades de diferentes natureza, como universidades, organizações sindicais, associações comunitárias, ongs, de todo o mundo, que ali defenderam conjuntamente seu direito de ter voz nas decisões governamentais cujas implicações interferem no cotidiano de cada um dos humanos e na construção do futuro da humanidade. Imbuídas do desejo de contribuir para uma mudança de paradigma em nosso processo civilizatório, diversas instituições ambientalistas, fundadoras da Rede Brasileira de Educação Ambiental – a REBEA – vinham elaborando o “Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global”, e durante a Rio-92, a centenas de mãos, finalizaram sua redação e o aprovaram em assembléia. Este documento passou a inspirar e orientar as ações da sociedade civil organizada nos anos seguintes e até hoje, ao lado da Agenda 21 e da Carta da Terra, é considerado um dos documentos mais fundamentais para educadores, formais e não formais, de todo o Planeta. Apesar dos esforços realizados pelas ONGS para divulgar estes documentos e difundir seus princípios pode-se avaliar que ainda muito pouco se cumpriu das propostas traçadas no Fórum Global. Este fato não invalida os princípios ali estabelecidos, que continuam em plena vigência e atuam como orientadores gerais de grande parte das ações ambientalistas. A construção da Agenda 21 local, por exemplo, apesar de não ter se transformado em política pública de âmbito nacional, vem sendo realizados por diversas ongs brasileiras, em consórcio com governos municipais, fóruns intersetoriais etc. Recentemente, o Ministério do Meio Ambiente, por meio do FNMA, influenciado pela proficuidade e legitimidade destas ações, criou uma linha especial de financiamento para a construção das agendas. Há que se destacar, como importante atuação das ONGS no Brasil, os Fóruns Nacionais de Educação Ambiental que a REBEA vem realizando desde 1989, com os objetivos de possibilitar a formação de um campo de diálogo, disponibilizar informações, debater o papel da Educação Ambiental frente ao atual modelo de desenvolvimento, entre outros. Estes importantes espaços de locução ocorreram nos anos de 1989, 1992, 1994 em São Paulo/SP, em 1997 em Guarapari/ES e em 2004 em Goiânia/GO. Nestes sucessivos encontros percebe-se claramente o poder diverso da EA nos trabalhos apresentados e o número cada vez maior de participantes (4 500 em Goiânia). O interesse cada vez maior de educadores, ativistas, estudantes, funcionários públicos entre outros pelo tema e uma forte atuação articuladora da Rede Brasileira de Educação Ambiental – REBEA fomentou e/ou fortaleceu o surgimento de 18 redes estaduais de educadores ambientais como a Rede Paulista REPEA e a Rede Mato-Grossense - REMTEA entre tantas outras. Inúmeros encontros de EA, além dos Fóruns Nacionais têm acontecido em todo o país, mas é preciso destacar a Conferencia Nacional de Meio Ambiente realizada em Brasília em 2003 que congregou 5 660 000 pessoas em todo o país e em especial, a Conferencia Infanto-Juvenil que contou com a participação de jovens de 15 452 de escolas, em uma iniciativa dos Ministérios do Meio Ambiente e da Educação. Pode-se afirmar também, que no grande e diverso universo das organizações não governamentais, de caráter ambientalista, a EA ocupa lugar de grande destaque, perpassando as diversas áreas de atuação. Em algumas delas, é fio condutor e missão, em outras é instrumento de promoção de melhoria de qualidade de vida do público-foco do projeto, em muitas é vista como estratégia para garantir os resultados dos trabalhos implementados, também como instrumento para conservação da biodiversidade e assim por diante. Pode-se dizer que elas têm sido pioneiras nos processos de formulação e aplicação da Educação Ambiental não-formal e têm colaborado fortemente na procura de alternativas metodológicas e realização de experiências inovadoras na EA formal e na capacitação dos professores. - 12 -

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Os projetos de Educação Ambiental no Brasil
A educação ambiental no Brasil tem sido adotada por escolas e por ongs como já vimos, mas também por órgãos governamentais - como o IBAMA, que assumiu as ações educativas voltadas aos diferentes segmentos sociais no processo de gestão ambiental em Unidades de Conservação e Projetos de Manejo de Fauna por meio de seus Núcleos de Educação Ambiental - e por empresas do setor público e privado. Em alguns casos, os chamados projetos de EA se restringem à coleta seletiva e reciclagem de resíduos sólidos, em outros a campanhas informativas de cuidados com o uso dos recursos naturais não renováveis. Ainda há poucos casos de projetos inovadores e de transformação social que sejam reconhecidos como de educação ambiental. Normalmente são considerados projetos de desenvolvimento local sustentável, recuperação de áreas degradadas etc. No entanto, em uma análise mais profunda percebe-se o quanto de EA existe em cada um deles. Vamos então dar uma olhada no cenário que se apresenta: A respeito da natureza jurídica das organizações executoras de projetos de Educação Ambiental no Brasil pode-se verificar que estes são desenvolvidos proporcionalmente tanto pelas instituições nãogovernamentais como governamentais. Um dado interessante apontado numa pesquisa realizada em 1997, por ocasião da I Conferencia Nacional de Educação Ambiental, foi de que o eixo principal dos projetos, em sua maioria (58,3%), era a Educação Ambiental, entretanto, um número quase tão expressivo (41,7%) era de projetos que tinham na Educação Ambiental uma atividade relevante para o seu desenvolvimento, mas centravam-se em atividades de desenvolvimento sustentável, preservação de ecossistemas específicos, problemas da realidade local e questões referentes ao lixo, reciclagem, contaminação de cursos de água, entre outras. Tomando os projetos, que têm como eixo principal a Educação Ambiental, observa-se que a maioria destes, 38,8%, trata da sensibilização da comunidade, 32,8% da educação não-formal e 27% da educação formal. Neste aspecto, em particular, embora não haja dados sistematizados, percebem-se alguns avanços relevantes que possivelmente tenham modificado este panorama: A adoção do Meio Ambiente como tema transversal nos PCNs, a partir de 1997, e a introdução da temática ambiental no ensino formal. A aprovação da Lei 9795/99, Lei da Política Nacional de Educação Ambiental, que orientou a implantação da Educação Ambiental nos diferentes âmbitos do ensino, formal ou não-formal. A ampliação das ações de Educação Ambiental, fomentadas pela Diretoria de Educação Ambiental do Ministério do Meio Ambiente. O financiamento, pelo Fundo Nacional do Meio Ambiente, da construção de Agendas 21 locais, da Gestão de Resíduos Sólidos, da criação e fortalecimento de Fóruns e Redes de Educação Ambiental, entre outros. É importante frisar que em todas as áreas contempladas nos editais e nas ações da política de meio ambiente no país, a educação ambiental é vista como pressuposto básico para a elaboração dos projetos, sejam eles de conservação, de geração de renda, de fomento florestal, agroecologia, e outros, assim como para o atendimento aos Termos de Ajuste de Conduta, faz parte dos processos de licenciamento ambiental e dos processos de certificação das ISO da série 14 000. Dentre as atividades tradicionalmente tidas como de pura EA está a produção de materiais didáticos e paradidáticos. Em 1996 foi lançado pelo Instituto Ecoar para Cidadania, com o apoio do Fundo Nacional do Meio Ambiente, uma publicação intitulada “Avaliando a Educação Ambiental no Brasil” onde um grupo de estudiosos analisou os materiais impressos de EA produzidos no país por organizações governamentais e não governamentais. Esta publicação mostrou a extraordinária diversidade de formas, conteúdos e linguagens nos materiais de EA, assim como chamou a atenção para a quantidade de autores e publicações de material educativo nesta área. Em 2001, reconhecida a proliferação dos meios audiovisuais, a democratização dos equipamentos como televisores, vídeos e computadores nas escolas e nas comunidades, uma nova publicação foi elaborada, desta feita avaliando a produção dos materiais áudio visuais de EA. A pesquisa apontou a existência de inovações na linguagem dos materiais e nas formas pelas quais os educadores os utilizavam, mostrando que vídeos, CD-ROM e internet têm potencialidades didáticas que podem ser exploradas como aliadas do educador e da educadora ambiental. O livro publicado mostra a preocupação com o desenvolvimento de novos processos de ensinoaprendizagem criativos, uma vez que a EA se propõe a formar jovens que conheçam, entendam e respeitem o meio ambiente para intervir com qualidade nos caminhos da sociedade.

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No sistema de educação formal, a grande ênfase está nos Ensinos Fundamental e Médio, onde o Plano Nacional de Educação faz referência explícita à Educação Ambiental. Os profissionais da área de Biologia lideram os trabalhos de Educação Ambiental, seguidos pelos Pedagogos e Geógrafos. No entanto, educadores com formação em outras áreas têm participado cada vez mais dos trabalhos e projetos de EA nas escolas. Esta diversidade de formação permite inferir, somada às orientações dos PCNS e àquelas emanadas da Lei 9795/99, a consolidação futura da interdisciplinaridade, essencial para a efetivação dos trabalhos de Educação Ambiental. Para capacitá-los, o Ministério do Meio Ambiente preparou, durante o período de 1999/2000, um Curso Básico de Educação Ambiental à Distância, lançado inicialmente para 23 municípios dos Estados da Bahia e Espírito Santo. O modo de fazer Educação Ambiental nas escolas e fora delas, vem, gradativamente, mudando em nosso país, ampliando sua esfera de atuação para além da dimensão ambiental, uma vez que a Lei 9795/ 99, em consonância com documentos internacionais, aponta para a inserção de valores sociais, éticos, econômicos, políticos, psicológicos, científicos e culturais aos ecológicos nos objetivos que perpassam as atividades ambientais. Além disso, dentre os princípios básicos expressos nesta Lei, temos o enfoque humanista, holístico, democrático e participativo; a concepção do meio ambiente em sua totalidade, considerando a interdependência entre o meio natural, o sócio-econômico e o cultural, sob o enfoque da sustentabilidade; o pluralismo de idéias e concepções pedagógicas; a vinculação entre a ética, a educação, o trabalho e as práticas sociais; a abordagem articulada das questões ambientais locais, regionais, nacionais e globais; o reconhecimento e o respeito à pluralidade e à diversidade individual e cultural. Desse modo, a EA terá um caráter muito mais plural, inserindo no seu escopo uma abordagem socioambiental, como a que está expressa no Programa de Educação Ambiental do Ministério do Meio Ambiente.

A Gestão Ambiental
O artigo 225 da Constituição Federal estabelece o “meio ambiente ecologicamente equilibrado” como direito dos cidadãos deste país, definindo-o como “bem de uso comum e essencial à sadia qualidade de vida”. Atribui ainda, ao “Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”. No entanto, o processo de uso e gestão dos recursos ambientais é, em sua essência, conturbado, dado os interesses em jogo e os conflitos que podem existir entre atores sociais que atuam sobre o mesmo meio ambiente, físico/ natural ou construído. Os que objetivam a posse e o controle do recurso natural brigam entre si e com os grupos que defendem o ambiente como patrimônio da humanidade. A tensão entre a necessidade de assegurar às populações o direito ao meio ambiente saudável e equilibrado, como bem público, e a definição de como, por quem e para que devem ser usados os recursos naturais na sociedade, tem sido uma constante ao longo da história de nosso modelo civilizatório. Com a rápida degradação e até mesmo extinção de muitos destes recursos naturais, cada vez mais a humanidade tende a deflagrar conflitos pelos que restaram. O escasseamento da água doce potável é, por exemplo, questão potencialmente geradora de grandes disputas entre as comunidades e as nações. Fica claro, portanto a importância da educação no processo de Gestão Ambiental. Só o entendimento contextual mais amplo pode fazer com que os atores envolvidos, os protagonistas e os que sempre ficaram com o ônus histórico da degradação ambiental, possam compartilhadamente pensar alternativas de solução harmônicas e apropriadas para o bem de todos. Ao se falar em Educação no processo de Gestão Ambiental, está se falando de uma concepção de educação ambiental que tem como foco a organização e a capacitação das partes interessadas para a interlocução qualificada e para a gestão conjunta do ambiente comum. No Brasil, o IBAMA é o órgão executor da política ambiental no âmbito federal e, desde sua criação, tem trabalhado a educação ambiental numa perspectiva de gestão ambiental. Deste modo, com a criação formal do espaço da Educação Ambiental na sua estrutura organizacional (1989) e dos NEAS (1992), nas 27 Representações Estaduais, alguns passos foram fundamentais para o processo de institucionalização desta temática. O primeiro foi a realização, ainda em 1992, de dois cursos intensivos (80 horas) de capacitação para cerca de 70 técnicos, que queriam trabalhar com Educação Ambiental, ou já vinham atuando na área em algumas representações, antes da criação dos NEAS. Este curso, cujo foco foi a Conferência de Tbilisi, proporcionou as condições iniciais para que todos os envolvidos pudessem ter um mínimo de entendimento comum sobre um campo ao qual se atribui tantos significados como o da EA.

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O passo seguinte foi a elaboração em 1994, pela Equipe de Educação Ambiental do IBAMA, de uma proposta de Programa Nacional de Educação Ambiental. Em seu trabalho, a equipe propunha que o Programa tivesse três linhas de ação: Capacitação (de educadores, gestores ambientais, grupos sociais que usam diretamente recursos ambientais em suas atividades econômicas, tomadores de decisão, formadores de opinião etc.), Desenvolvimento de instrumentos e metodologias (para prática da EA) e Ações Educativas (na educação formal e na gestão ambiental). Esta proposta, acordada com o Ministério da Educação, serviu de base para o Programa Nacional de Educação Ambiental – PRONEA, aprovado pelo Presidente da República, em 1994. Com o PRONEA aprovado (que não incorporou integralmente a proposta apresentada, mas grande parte dela), a equipe da Coordenação Nacional, após consultas aos NEAS, elaborou em 1995, as Diretrizes para Operacionalização do PRONEA pelo IBAMA. O documento consolidava e oficializava a proposta de EA, estruturada a partir da problemática da Gestão Ambiental, que vinha sendo construída desde 1992. O terceiro passo foi a instituição de uma prática de EA, nacional e descentralizada, inspirada nos princípios e orientações de Tbilisi. Com esta perspectiva iniciou-se o processo de elaboração do Plano de Trabalho para 1995, tendo como base os temas indicados como prioritários pelas Diretorias do IBAMA (Ordenamento Pesqueiro, Unidades de Conservação, Prevenção de Queimadas e Incêndios Florestais, Proteção à Fauna etc.). Com base nesta temática, cada NEA, em conjunto com setores internos da Representação do IBAMA, escolhe o tema prioritário no Estado para elaborar e desenvolver os Projetos de EA, com possíveis parceiros externos (órgãos estadual e municipal de educação e de meio ambiente, Universidades, entidades da sociedade civil etc.). Era o passo inicial para estruturação das ações educativas, com jovens e adultos, a partir das atividades de gestão ambiental promovidas pelo IBAMA. O quarto passo fundamental foi o esforço para estruturar um processo de formação de educadores voltado explicitamente para atuação na Gestão Ambiental. Em 1995, com o acúmulo de conhecimentos e reflexões sobre as práticas dos NEAS, a equipe do PEA (Coordenação e NEAS), sentiu-se madura para debater em um seminário o problema da formação de educadores para atuarem nas atividades de gestão de meio ambiente. Deste seminário saiu a proposta de um Curso de Especialização voltado especificamente para a Gestão do Meio Ambiente. Adotando-se a modalidade de curso à Distância, esperava-se atender, além das necessidades do IBAMA, aos órgãos estaduais e municipais de Meio Ambiente, e entidades da sociedade civil envolvidas com a gestão ambiental. Este curso não se realizou. A equipe do IBAMA iniciou então, em 1997, o Curso de Introdução à Educação no Processo de Gestão Ambiental, com uma etapa de imersão total de 88 horas (duas semanas) e outra de 40 horas, à distância, para elaboração do projeto final. Os núcleos das Representações Estaduais são responsáveis pela coordenação e execução das ações de Educação Ambiental desenvolvidas nas atividades de Gestão do Meio Ambiente de competência do IBAMA. São ações educativas executadas em Unidades de Conservação e no seu entorno, no ordenamento do uso dos recursos pesqueiros e florestais, no Licenciamento Ambiental, na prevenção de desmatamentos e incêndios florestais, na proteção da fauna e outras atividades de gestão ambiental de responsabilidade do IBAMA. Na configuração atual o MMA atua como órgão central do Sisnama, o IBAMA como entidade executiva das atividades da competência da União, as Secretarias de Estado do Meio Ambiente e os órgãos estaduais como órgãos seccionais e os municípios como órgãos locais do Sisnama. No âmbito estadual as Secretarias de Meio Ambiente são as responsáveis pela política ambiental de cada unidade da federação. No entanto, nem todos os estados têm tais secretarias. Alguns mantêm diretorias, coordenadorias ou gerências de meio ambiente ligadas a outras Secretarias, tais como Turismo e até mesmo Indústria e Comércio. Na esfera municipal, a situação é dramática. Atualmente, segundo o MMA, dos 5.561 municípios apenas 648 contem órgãos ambientais, e estes estão concentrados principalmente na região sudeste. Ao longo da história, tem sido constituídos fóruns de discussão e de interlocução entre as entidades da sociedade civil e as entidades públicas como, por exemplo, o Fórum Nacional de ONGs e dos Movimentos Sociais – FBOMS - , o GTA – Grupo de Trabalho Amazônico, a Rede Mata Atlântica, a REBEA, a ABONG Associação Brasileira de ONGs entre outras muitas disseminadas em todo o país. As ONGS têm reconhecido o seu papel de representantes da sociedade civil organizada, participando da Comissão de Julgamento e Aprovação de Projetos a serem financiados pelo Fundo Nacional do Meio Ambiente – FNMA-, do Conselho Nacional do Meio Ambiente – CONAMA – e do órgão Gestor da Educação Ambiental, juntamente com o MMA e o MEC.

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A Legislação Ambiental
O marco zero da legislação ambiental no Brasil aconteceu em 1981 com o advento da Lei federal 6.938 que estabeleceu a Política Nacional do Meio Ambiente e introduziu pela primeira vez no Brasil, mecanismos de gestão colegiada e participativa através da criação do Conselho Nacional do Meio Ambiente, o CONAMA, colegiado de natureza deliberativa, em cuja composição já àquela época, assegurou-se a participação da sociedade civil. Esta lei representa também a primeira iniciativa do poder Executivo Federal de organizar nacionalmente a gestão ambiental ao instituir o SISNAMA, composto de órgãos e entidades ambientais da União, estados e municípios. A Constituição de 1988 traz um outro grande evento para a questão ambiental brasileira ao proclamar em seu artigo 225 a necessidade de estudo de impacto ambiental para toda atividade potencialmente causadora de danos e a publicação de um relatório sobre os impactos. A obrigatoriedade de tornar público este relatório, modificou a relação entre a sociedade e o meio ambiente no Brasil, permitindo que as ONGs, associações de moradores, sindicatos e técnicos pudessem participar de audiências públicas sobre a realização dos grandes projetos de intervenção urbana e rural. Outras importantes leis de proteção e regulamentação do uso dos recursos naturais foram sendo promulgadas no Brasil, como a Lei Federal de Crimes Ambientais 9.605 de 12 de fevereiro de 1999 e a Lei Federal 9.985 de 18 de julho de 2000 que cria o SNUC, Sistema Nacional de Unidades de Conservação instituído para estabelecer critérios e normas para a criação, implantação e gestão de Unidades de Conservação, regulamentado pelo Decreto 4 340 de agosto de 2002. O SNUC classifica as Unidades de Conservação em duas categorias: Unidades de Proteção Integral, Estações Ecológicas, Parques Nacionais, Monumentos Naturais e Refúgios da Vida Silvestre) e Unidades de Uso Sustentável (Áreas de Proteção ambiental, Áreas de Relevante Interesse Ecológico, Florestas Nacionais, Reservas Extrativistas, Reservas da Fauna, Reservas de Desenvolvimento Sustentável e Reservas Particulares do Patrimônio Natural). Não se pode falar em Gestão Ambiental no Brasil sem citar a Lei Federal 9.433/97, a Lei das Águas, que instituiu o Sistema Nacional de Gerenciamento dos Recursos Hídricos (SNGRH), consolidou os conceitos de gestão participativa em colegiado criando os Conselhos Nacional e os Estaduais de Recursos Hídricos como instâncias máximas de deliberação sobre as políticas, normas e padrões de gestão das águas nas respectivas esferas de poder. Foram criados os Comitês de Bacias, lócus das decisões sobre a aprovação do plano diretor de recursos hídricos da bacia, a definição das normas e procedimentos sobre a concessão da outorga de direito do uso da água, a decisão sobre a cobrança pelo uso das águas, prioridades e planos de investimentos. Cada comitê conta com uma agencia paraestatal executiva e representa um novo mecanismo de cooperação multilateral entre os entes federativos. No Estado de SP, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente tem investido reiteradamente na capacitação da sociedade civil para a participação qualificada nos comitês e subcomitês de bacias. Um vasto trabalho de educação ambiental e de educação para a gestão vem sendo realizado junto aos diversos subcomitês. Assim, a política das águas no estado de SP ganha cores e formas mais democráticas e pluralistas. Dada a premência e relevância do tema, em 2001 foi criada a Agencia Nacional das Águas (ANA) para regular nacionalmente, as questões ligadas aos recursos hídricos no Brasil. Lei da Política Nacional de Educação Ambiental - Lei 9795/99 Em 1993, o Deputado Fábio Feldmann propôs, na Câmara dos Deputados, o projeto de lei 3792/ 93, que instituía a Política Nacional de Educação Ambiental. Este projeto de lei, durante a sua tramitação, foi submetido à análise por vários setores da população (MEC, IBAMA, MMA, organizações nãogovernamentais, universidades, dentre outros) que fizeram várias sugestões ao documento. Com o intuito de atender às sugestões apresentadas, o então presidente da Comissão de Meio Ambiente, Deputado José Sarney Filho, apresentou o substitutivo ao Projeto de Lei que, em 1999, foi aprovado pelo Congresso Nacional. Alguns pontos desta Lei valem ser ressaltados por serem considerados grandes avanços. A definição de EA (artigo primeiro) foge dos antigos padrões meramente biológico-ecológicos e preservacionistas, inserindo o homem como agente das transformações e responsável pela qualidade e sustentabilidade da vida no Planeta. Desta forma, a inclusão da EA como componente da educação nacional (artigo 2º) em todos os processos educativos garante um espaço privilegiado de ação, inserindo-se no âmbito da educação formal e dos processos educativos não-formais.

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Do mesmo modo, (artigo 3º) a definição das políticas públicas, por parte do poder público, com a incorporação da dimensão ambiental, além de fortalecer a educação ambiental no espaço escolar propicia o engajamento da sociedade nos processos de gestão ambiental. Os princípios da EA ali apontados incorporam o enfoque humanista, ampliam a concepção de meio ambiente, incorporam aspectos sócio-ambientais e culturais. Além disso, a Lei imprime às abordagens da EA, o caráter participativo, democrático e amplo, abrindo espaço para a participação efetiva da comunidade na construção dos marcos referenciais, e das sínteses inovadoras entre os novos conhecimentos e o saber comunitário tradicional. Garantir a democratização de informações, estimular a participação individual e coletiva na solução dos problemas ambientais, estimular a cooperação entre regiões, entre ciência e tecnologia e o fortalecimento da cidadania, são também objetivos desta Lei, mostrando e valorizando a participação nos processo da EA e no desenvolvimento sustentável do país. No artigo 6º é instituída a Política Nacional de Educação Ambiental. Isto significa dizer que a EA não é mais pano de fundo das políticas públicas, mas é elemento determinante dessas políticas, estruturada em princípios e objetivos claramente definidos. Outro aspecto interessante que se nota neste instrumento legal é a preocupação com relação à sua aplicabilidade, uma vez que consta como linhas de atuação, assim expressas no artigo 8º, a preocupação com a capacitação, com a pesquisa e com a produção de material educativo. O parágrafo 3, que trata da formação e atualização de pessoal, remarca a busca das alternativas curriculares e metodológicas para a capacitação de recursos humanos, abrindo um novo campo de pesquisa e experimentação em EA. Além disso, apóia as iniciativas e experiências locais e regionais na produção do material didático e estimula a montagem de banco de dados da EA. De modo a operacionalizar a inserção da EA no ensino formal de maneira interdisciplinar, a lei é bastante clara ao tirar o aspecto disciplinar deste tema, incentivando a abordagem integrada e contínua em todos os níveis e modalidades do ensino formal. A exceção se faz para os cursos de pós-graduação e extensão universitários, onde, quando necessário se fizer, pode ser criada disciplina de Educação Ambiental, com a finalidade de avançar na capacitação de recursos humanos. Destaca também o papel dos meios de comunicação de massa na divulgação dos temas ambientais, dos princípios, objetivos e ações de EA. A lei estabelece a responsabilidade destes meios com a sensibilização das pessoas e o acesso à informação sobre os problemas ambientais, a situação ambiental do país, a divulgação de alternativas de soluções. Ao mesmo tempo atribui à imprensa, como formadora de opinião pública, o papel de difundir valores e gerar, a partir de exemplos, atitudes coerentes com a defesa do meio e a consolidação da qualidade de vida das pessoas, minimizando a exacerbação do consumo supérfluo, dando dicas sobre a importância da construção de uma sociedade sustentável e de um meio social saudável, onde a participação democrática e a cooperação e solidariedade sejam entendidos como valores básicos. No âmbito da educação não-formal é destacado o papel das empresas, públicas e privadas, na busca das alternativas tecnológicas, juntamente com as universidades e outros setores da sociedade, reforçado pelas certificações de qualidade ambiental: a ISO 14000. A sensibilização da comunidade para o uso dos espaços de preservação e áreas protegidas, papel que historicamente tem sido desempenhado pelo IBAMA, passa a ter destaque especial nesta lei. As Empresas de Extensão Rural e Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – EMBRAPA têm tido destacado papel no que se refere a sensibilização dos agricultores para os aspectos ambientais, do mesmo modo que esta tem sido a preocupação da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST). Estas ações, até então isoladas, aí encontram seu respaldo legal. De modo a garantir a exeqüibilidade desta lei, ficou definida no seu escopo a figura de um órgão gestor. Este órgão gestor foi definido na Câmara Técnica de Educação Ambiental do Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA), sendo formado pelos Ministérios do Meio Ambiente e da Educação. Para executar a Política Nacional de Educação Ambiental de modo descentralizado, o artigo 16 leva para a competência dos estados e do Distrito Federal a competência de elaborar as diretrizes a partir de diagnóstico local. Para tanto foi feito um trabalho de sensibilização nos estados, no sentido de se constituir as comissões interestaduais de educação ambiental.

Para conhecer a Lei na íntegra consulte: www.mma.gov.br
O ProNEA
O Programa Nacional de Educação Ambiental é coordenado pelo órgão gestor da Política Nacional de Educação Ambiental. Suas ações objetivam assegurar, no âmbito educativo, a integração equilibrada das múltiplas dimensões da sustentabilidade - ambiental, social, ética, cultural, econômica, espacial e

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política - ao desenvolvimento do país, resultando em melhor qualidade de vida para toda a população brasileira, por intermédio do envolvimento e participação social na proteção e conservação ambiental e da manutenção dessas condições ao longo prazo. O ProNEA propõe-se a ser o grande articulador da criação de espaços de locução entre os diversos órgãos do governo federal, em um constante exercício de transversalidade. Parte do princípio que é necessário internalizar a educação ambiental na esfera governamental, para que os princípios da sustentabilidade influenciem as decisões dos investimentos e das grandes obras federais e para que se possa monitorar e avaliar, sob o ponto de vista da sustentabilidade, os impactos socioambientais negativos e positivos de tais políticas. A utopia, de acordo com o Pronea, é expandir esta prática a outros níveis de governo e para a sociedade como um todo. A versão do Programa Nacional de Educação Ambiental de 2004 revela os avanços obtidos em relação à primeira versão aprovada em 1994, uma vez que contemplou uma ampla discussão entre os Ministério da Educação e do Meio ambiente, e destes com universidades e organizações da sociedade civil. Conheça os princípios fundantes do ProNEA: ♦ Respeito à liberdade e apreço à tolerância; ♦ Vinculação entre ética, estética, educação, trabalho e práticas sociais; ♦ Liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar cultura, o pensamento, a arte e o saber; ♦ Compromisso com a cidadania ambiental ativa, transversalidade construída a partir de uma perspectiva inter e transdisciplinar. ♦ Reconhecimento de que a definição dos sujeitos no processo educativo passa pela identificação dos grupos sociais em condições de vulnerabilidade ambiental, decorrentes dos riscos a que estão submetidos em função de preconceitos e/ou desigualdade econômica na sociedade. Com a regulamentação da Política Nacional de Educação Ambiental, o ProNEA compartilha a missão de Fortalecimento do Sistema Nacional de Meio Ambiente (SISNAMA), por intermédio do qual a PNEA deve ser executada, em sinergia com as demais políticas federais, estaduais e municipais de governo. Dentro das estruturas institucionais do MMA e do MEC, o ProNEA compartilha da descentralização de suas diretrizes para a implementação da PNEA, no sentido de consolidar a sua ação no SISNAMA. Considerando-se a Educação Ambiental como um dos elementos fundamentais da gestão ambiental, o ProNEA desempenha um importante papel na orientação de agentes públicos e privados para a reflexão e construção de alternativas que almejem a Sustentabilidade. Assim propicia-se a oportunidade de se ressaltar o bom exemplo das práticas e experiências exitosas.

Para conhecer a versão do ProNEA 2004, na íntegra, acesse o site do Ministério do Meio Ambiente: www.mma.gov.br

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Texto: Miriam Duailibi Luciano Araujo

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