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OS VALORES MOBILIARIOS BRASILEIROS COMO TITULOS DE CREDITO WALDIRIO BULGARELLI SUMARIO; 1, Introdugéo — 2. A mengio aos valores mobiisrios pelas Ieis braileiras — 3, A mobilizaclo dos créditos — 4. A teotia peral dos ttvlos de crédito — 5, A terminologia brasileira dos papéis de crédito — 6. Nocio 4e valores mobiliétios — 7. Os efeitos de comércio e 0s valores mobilirios 8. Os valores mobiliérios na Itilia — 9. Os valores mobilirios nos EUA = 10. 0s valores mobilirios na Inglaterra — 11. Os valores mobilirios pa Alemanha — 12. Os valores mobilirios na Holanda — 13. Os valores Ad. Os valores mobilirios na Suiga — 15. Titulos fe valores mobiliérios — 16. Os valores mobilétios como titulos de crédito <7. Conclusées. 1. Introdugdo A insergdo do termo valores mobilidrios na legislagao brasileira, como bas? de operagdes na Bolsa e no Balcdo e como critério para distinguir as sociedades andnimas abertas, ¢ a sua divulgagao pela doutrina, esta a ensejar maiores estudos sobre 0 seu verdadeiro significado e sobretudo a sua posi¢ao, no nosso mais precisamente perante a teoria dos titulos de crédito. A falta de uma conceituacéo legal © emprego simultaneo da expressio valores mobilidtios, ao lado de outras, como efeitos de comércio, titulo, titulos cambiais, ete., nas disposigdes legais, j& encaminha naturalmente 0 método do estudo para uma abordagem néo necessariamente dogmética, para ajustéla ac sistema juridico, mas, a0 contrério, implica partir de uma visio geral da teoria dos documentos, procurando através da comparagio e da qualificacio juridica encontrar a sua exata caracterizagao e identificagéo no sistema. Com efeito, ha de se questionar, 0 que se entende por valores mobiligrios; se estéo incluidos na categoria dos ‘itulos de crédito, dos efeitos do comércio, ou de meros quiré- ‘rafos. Despiciendo ndo seré também se procurar a ratio legis da clei¢ao de apenas alguns papéis, considerados pelo legislador como valores mobilidrios. ircito © 2. A mengio aos valores mobilirios pelas leis brasileiras ‘As mengSes mais importantes da expresso valores mobilidrios, encontram-se atualmente (além daquelas feitas pela Lei 4.728/65), na Lei 6.385, de 7.12. 1976, que enumera os valores mobiliérios sujeitos ao regime da lei (art. 1.°) conside- rando como tais: I — as agGes, partes beneficiérias e debéntures, os cupdes desses titulos e os bénus de subscrigao; II — os certificados de depésito de valores mo- biliérios; TIT — outros titulos criados ou emitidos pelas sotiedades anénimas, a critério do Conselho Monetério Nacional. Verificase, assim, desde logo, que o rol incluiu papéis (designaco que empregaremos até final conclusio) conside- rados como titulos de crédito; outros cuja natureza de titulo € discutivel, e por fim, a0 mesmo tempo em que abre a possibilidade de o Conselho Monetério Na~ cional vir acrescentar novos a lista, limita entretanto essa possibilidade apenas a DOUTRINA 95 fitulos emitidos por sociedades anénimas, o que j& enseja também a questio de se saber que outros titulos além dos tradicionais (agGes, debéntures, etc.) po- deriam vir a ser emitidos pelas sociedades andnimas. € de se ressaltar nestas premissas, a excluséo estabelecida pelo do referido art, 2° da Lei 6.385/76, da consagracdo legal como ios dos titulos que arrola, ¢ que sio: ““T — os titulos da divida piiblica federal, estadual ou municipal; II — os titulos cambiais de responsabi- lidade de instituigdo financeira, exceto as debentures”, Do que decorre a conclusio inicial de que o critério legal nio restringiu a relagio apenas aos titulos ditos de Bolsa, mas, também néo alargou o suficiente para abranger todos os papéis negocidveis no mercado, A outra mengao importante, encontrase no art. 4°, da Lei 6.404, de 15.12.1976, como critério diferenciador entre as companhias abertas e fechadas. Com efeito, dispde 0 referido dispositive, que sero consideradas companhias, abertas aquelas cujos valores mobilidrios ‘de sua emissao estejam admitidos & negociago em bolsa ou no mercado de Balcao. Também o n. I, do art. 183, da citada lei, na parte referente aos critérios de avaliacio do ativo, faz mencSo a valores mobiliérios, distinguindo-os dos titulos de crédito, © que mereceut a critica de Philomeno Joaquim da Costa. * 3. A mobilizagio dos créditos Por sua vez, a referéncia a mobilizag8o dos créditos através desses paptis, demonstra a orientacio do legislador em selecionar alguns que seriam aptos, a seu ver e a seu critério, de serem negociados, naquilo que denominou de mercado de capitais, embora nao esgote essa designagio a amplitude do mercado, que com- preende (e a propria Lei 4.728/65 fez tal referencia) também o mercado nanceiro. Nesse sentido, jé apontava Ascarelli (Corso di Diritto Commerciale, 3.* ed., 1962), como 20 lado das cambiais que emitidas pelos comerciantes ser descontadas nos Bancos, as agGes e obrigagdes das sociedades andnimas pas- saram a ser negociadas em Bolsas (ligagio alids, entre as duas instituigdes que fez com que ambas prosperassem, sociedades andnimas e Bolsas), ensejando a dissemi- nnacao da propriedade mas também propiciando o seu controle por um grupo (banqueitos € controladores). © aparecimento e a surpreendente difusdo dos titulos de massa, inicialmente, através das agdes de emissio das sociedades anénimas logo encontrando respaldo nas negociagdes nas Bolsas, seguidas de outras obrigagdes por elas emitidas, além dos chamados titulos piiblicos, de emissio governamental, © ainda a difuséo entre titulo de crédito e valor 1. “Constitui_ um equivoco concsitual a disting mobiliério existente no disposto pelo n. I do at. 183, como jé se viu Ali se dispée, ropésito de critrios de estimagto para balango, que o custo ou colacio no mercado, se este for menor, fixarko registro dos direitos e,ttulos de crédito “e quaisquer valores ‘mobiiérios no. clasificados como investimentos". Se os ultimos representam espécie dos outros, a referéacia a este traduz também qualguer valor’ mobiliario” — Philomeno Toaguim da Costa, Anoragdes as Companhias, vol. 1, Ed. RT. 1980, nota 12, p. 203. 96 REVISTA DE DIREITO MERCANTIL — 37 no mercado dos titulos cambiais, pelo desconto nos Bancos, trouxeram a baila uma nova realidade no mundo até entdo restrito as negociagdes com os titulos cambiérios, limitados aos particulares nas feiras e mercados © aos poucos so expandindo, E conhecido que tal fendmeno se deve a0 aparecimento, apés a Revolucéo Industrial, de novas empresas e pelo seu desenvolvimento, a exigir grandes re- cursos, que os deviam recolher de quem deles dispusesse (chamado no seu con- junto de Mercado de Capitais), e tal arrecadacdo se fez através da emissio de agdes e obrigagdes. A sociedade andnima tem ai o seu desempenho, surgindo como a grande méquina de arrecadacdo de capitais, no dizer de Ripert, inserin- do-se entre 0s chamados “‘mecanismos jurfdicos”, por Tullio Ascarelli Evidentemente que @ negociacdo de tais papéis exigia uma organizagio ¢ uma técnica, ® desenvolvendo-se entio as Bolsas e aperfeigoando-se os mecanismos des- tinados as operagées destinadas a operagdes burséteis (como 0s contratos a termos, ‘com suas variantes, 0 reporte, deporte, e hoje, o hedging, etc.) ¢ por outro lado, aperfeigoando-se as técnicas bancérias, com o crescimento do mercado financeito. A verdadeira substituigéo da moeda como forma de pagamento pelos papéis nego- cidveis e a estruturagdo da técnica e organizacao dos Bancos e das Bolsas marcam profundamente © mercado moderno, Os papéis negocidveis, por seu tumno, de um lado aperfeigoam-se, nio 36 no sentido da sua citculabilidade e da sua exigibilidade, em razo da seguranca € certeza que devem ofetecer, mas, também aumenta o seu mimero para atender as necessidades da mobilizagao ctediticia, saindo do estreito limite hist6rico das cambiais (Letras de Cambio e Notas Promiss6rias) para atingir uma variada gama de operagies crediticias com base em bens e servigos, 0 que obrigou a uma re- visio profunda na teotia geral dos titulos de crédito. 4, A teoria geral dos titulos de crédito ‘A teoria geral dos titulos de crédito, como sabido, no foi concebida para © estudo, explicacio, compreensio, qualificaggo ¢ classificagéo de documentos constitutivos de direitos ctiados racionalmente em gabinetes, fora da realidade, ¢ como hoje, muitas vezes, s6i ocorrer com freqiiéncia reprovavel, mas destinava-se antes de mais nada, a explicar a existéncia e efeitos de papéis, surgidos histori- ‘camente a0 sabor das necessidades do comércio, dotados de uma verdadeira forga magnética de exigibilidade dos créditos neles mencionados, que 0s usos e as pré- ticas comerciais, haviam consagrado, numa lenta evoluca 2. Cf, Marco Onado, Le Operation! di Mercato Aperio nel sistema bancario statunitense, Milo, 1975 3. Oscar Barreto Filho, “As Operagses a Termo sobre Mercadorias hedging)", in RDM ‘nova fase, n. 29, pp. 1 © 583 Nofmio Spinola, Commodities — 0. preco do futuro, Ed. YBMEC, 1973. 4, Quase diriamos num laboratério. VE-se, na evolugio dos titulos de erédite, 0 exemplo da grande carga de historiidade de que 0 diteto esté Impregnado, nem sempre passivel de ser substituida pela racionalidade pura. DOUTRINA 97 De documento meramente probat6rio de uma transferéncia cambial (o cambio ‘trajecticio) na Idade Média, a cambial vai atingit no periodo dito moderno (a partir, sobretudo, da Lei alema de 1848) uma configuragao toda propria e carac- terfstica, bem diversa sendo contréria, aos documentos meramente probatérios. Firmam-se, nesta sltima fase, 0s contornos que vieram se desenhando nos periodos ditos italiano e francés, passando a ser considerada, a cértula, como um valor em si mesma, dotada de uma grande dose de abstracao, em relagdo & causa da sua emissio (que na conhecida concepcio de Ascarelli, € a fungi de que deve desempenhar, ditada pela convencio executiva, entre as partes) e suscetivel de circular égil e solertemente, em comparacio com as formas tradicionais da cessfio de direitos ou de contratos. Pée-se em causa, destacadamente, 0 objetivo essencial das cambiais que € 0 de conferir seguranca e certeza & sua circulagio. Despiciendo assinalar o papel da doutrina na elaboracéo da teoria geral dos aitulos de crédito, sobretudo a alema, mas, por justiga, deve-se ressaltar o papel de Cesare Vivante que a bem dizer, pondo ordem nas desencontradas opinioes € assertivas € sobretudo descartando os exageros das construgdes. doutrinérias ‘como a alema, por exemplo, tao afeita as elucubragdes metafisicas, configurou os elementos bésicos norteadores da que poderiamos chamar a moderna teoria geral dos titulos de crédito. E é com base na construgdo vivanteana que a doutrina segue aperfeigoando-a, levando em conta ndo s6 as cambiais (agora, compreen- dendo além da letra de cémbio também a nota promissoria rediviva da antiga ‘eautio do contrato de cdmbio medieval) mas também outros documentos ® dotados de certo rigor formais e suscetiveis de circular, com ampla aceitaco pritica, que conferem direitos varios, como o de participagdo, de direito real ou & prestagao de servigos. Isto esté bem claro na classificagdo de Vivante que os divide em: 1) titulos de crédito propriamente ditos, que dio direito & prestago de coisa fungivel em mercadoria ou em dinheiro (como a letra de cambio); 2) 05 que con- ferem um direito real (cédula pignoraticia); 3) os que atribuem a qualidade de sécio (como a ago); 4) os que dao direito a servigos (bilhete de passagem). Vése, portanto, que nunca esqueceu Vivante a5 cambiais e foi, naturalmente, mirando-as que as considerou como titulos propriamente ditos. Essa classificagao que no dizer de Eundpio Borges teria sido seguida, com pequenas diferencas por J. X. Carvalho de Mendonga (afirmasao criticada por Newton De Lucca? que a acha equivocada, pois Eundpio Borges nao teria atentado para outros aspectos & portanto a classificagio oferecida por Carvalho de Mendonca se distanciatia e muito da de Vivante) de qualquer forma reflete, a nosso ver, a influéncia das cambiais ne andlise dos vérios titulos de crédito, ensejando expresses como titulos de crédito propriamente ditos, a0 lado de outros que nao se ajustam estri- tamente 20 modelo caracteristico das cambiais. Notese, a propésito, que J. X. Carvalho de Mendonca considera titulos de crédito propriamente ditos os que 5. A respeito da revislo critica da teoria geral cléssica, e sua nova concepeso do titulo We erédito como fendmeno de mobilizagio da riqueza em fungio do mercado, cf. Filipo Chiomenti, 11 Titolo di Credivo, fauispecte e disciplina, Mildo, 1977. 6. Cf. Ascarelli, em seus vitios escritos, mas, principalmente na sua Teoria Geral dos Titulas de Crédivo, 2 ef, SP, 1969. 7. Aspectos da Teoria Geral dos Titulos de Crédlto, Ed, Pioneira, 1979. 98 REVISTA DE DIREITO MERCANTIL — 37 decorrem de uma operacao de crédito (titulos de divida péblica, letras de cimbio, ‘os warrants, as debéntures, etc.) — 0 que € tipico das cambiais — ¢ impropria- mente ditos, os que, embora nao decorrentes de operagoes de crédito, sio reves tidos dos requisitos da literalidade e da autonomia (entre os quais incluiu as aces), mas, sentindo as dificuldades pedia que ndo criticassem a sua classificacao. © conceito de titulo de crédito oferecido por Vivante, como 0 “documento necessério para 0 exercicio do direito literal e aut6nomo nele mencionado”, fez fortuna, como é not6rio. Assim, aceito basicamente pela doutrina em geral, acabou até recolhido pelo Projeto de Cédigo Civil (Projeto 654, de 1975, Mensagem 160/1975) ora em tramite no Congresso Nacional, embora com duas alteracdes de monta, A primeira, substituindo a expresso “'nele mencionado”, pela de “nele contido”, 0 que parece significar que o projetista entendew que 0 dircito inserido na cértula (preferimos esta expresso a de incorporagio, que como € sa- bido, peca por falta de maior conciséo e que vem sendo considerada pela dou- trina, como mera imagem) desapareceria, com 0 desaparecimento da cértula, 0 que nao € correto, pois que ele, o direito inserido no titulo, pode perfeitamente sobreviver sem 0 seu suporte fisico, como ocorte, por exemplo, por forga do art, 36, do Decreto 2.044/1908, ao disciplinar a ago de anulacao da cambial per- dida, extraviada, furtada ou roubada ou destruida, ensejando ao beneficidrio se vencedor na ago, a cobranga do crédito, nao pela eértula inexistente, mas, por via da execugao da sentenca anulatéria. A outra alteragao diz respeito a tipicidade, parecendo ter 0 projetista desprezado a regra do numeros clausus e adotado 0 sistema da ampla liberdade de criagdo de tftulos de crédito, 0 que mereceu de Ant6nio Mercado Jiinior,* os conhecidos reparos que fez a essa passagem do Pro- jeto, manifestando seus temores por tal liberdade num meio despreparado como © nosso e apresentando substitutivo & redagao do art. 923 do Projeto. Na variada série de documentos hoje existentes expressando diteitos ¢ obri- ‘gagdes, torna-se cada vez mais dificil, classificé-os e identificé-los, sobretudo, em relagdo aqueles que podem ser considerados titulos de crédito. Desde os syngraphae, que eram documentos atestando uma obrigacio de estrangeiros, assinado por ambas as partes e os chirographa assinedo apenas pelo devedor, considerado como cautio, entendido como promessa de pagamento de soma determinada — os primeiros j abandonados no periodo justinianeu que acolheu apenas os chirographa® — intimeros documentos se utilizam com valor € efeitos juridicos, multiplicados hoje, na economia de massa, tornando tarefa ingléria a sua classificagao. De lembrar que s6 0 mimero dos titulos de crédito, entre n6s, atinge hoje, a cerca de quarenta. Dat as dificuldades da doutrina em classificé-los, 0 que é atestado pela construcio dos titulos impréprios, na doutrina italiana, subdivididos em titulos de legitimagao e documentos de legitimagao, agravados ainda pela diversidade nos varios pafses, como por exemplo, os do common law nao assimiléveis exatamente os negotiables instruments aos titulos de crédito do direito europeu continental, também pela peculiaridade do conceito de consideration. Agravam-se ainda as dificuldades pela tendéncia moderna cada 8. Cf. RDM, nova fase, n. 9, p, 113. 9. M, Ortolan, Explication Historique des Institutes de L'Empereur Justinen, 7.9 ey Paris, vol. 3, 2, 1-429, pp. 254 € 38 DOUTRINA 99 vver mais intensa, de, em certas dreas, procurar-s eliminar ou 0 uso dos documen- tos ou a sua circulagao (como as ages escriturais e as factures protestables fran- esas). Ora tal quadro esta a demonstrar o verdadeiro desafio que representa tentar lassificar todos esses documentos, o que lembra as dificuldades dos pandectistas fem tentar arrolar todos os atos e fatos juridicos, dificuldades que remanescem ainda nos chamados negécios juridicos stricto sensu, a ponto de se negat a possi- bilidade da construgdo de um conceito unitério de negécio juridico, da mesma forma que se chega a negar hoje também o cardter unitério dos titulos de crédito, Mas, como ciéncia tipoldgica que é, por exceléncia, o Direito, além de uma cigncia de justificagao — como se tem posto em relevo, entre nés, ultimamente — deve a doutrina enfrentar 0 desafio ¢ mesmo & custa de revendo criticamente toda a teoria geral dos titulos de crédito, lograr, explicar, demonstrat, justificar ¢ Finalmente qualificar e classificar os documentos constitutivos ¢ declaratérios de direitos. E parte desse desafio tentar demonstrar a posicio dos valores mobilidtios perante a Teoria Geral dos Titulos de Crédito, 5. A terminologia brasileira A expresso valores mobilidrios se bem que utilizada na doutrina de hé muito, € relativamente nova entre nds, tendo-se consagrado, praticamente, apds a edigdo da lei do mercado de capitais, a Lei 4.728/1965. © nosso vetusto, porém rico incompreendido ¢ pouco conhecido Cédigo Comercial de 1850, sempre empregou uma terminologia variada, ora referindose «a papéis de crédito (art. 10, 4), papéis de crédito comerciais (art. 191, 2), papéis de crédito negocidveis em comércio (art. 273), letras e papéis de crédito endos- saveis (arts. 54 € 55), escritos ao portador (art. 426), além da mengo de documen- tos com forga de titulos de crédito, como a escritura ou letra de risco referida no art. 635. Para J. X. Carvalho de Mendonga (T'ratado de Direito Comercial Brasi- leiro, vol. V, 2.* parte, n. 461, p. 55) a expressdo paptis de crédito era perfeito singnimo de Titulos de Créd Com a Lei 4.728/65 (art. 23, § 5.°) e a Lei 5.474/68 (art. 2.°) adotou-se também a expressao efeitos de comércio, de origem desenganadamente francesa. Finalmente, a Lei 4.728/65 consagrou também, usando abundantemente da expressio valores mobiliérios, adicionando-a a expresso efeitos de comércio & a de titulos cambiétios. A idéia que se recolheu da expressdo valores mobilidrios era a de que fora empregada para significar titulos e documentos negociados ‘em massa, especialmente na Bolsa ¢ no Balcéo, o que se verifica pelo seu uso posterior pela regulamentacéo dada as Bolsas de Valores, através da Resolugdo 59, de 20.4.1966, do BC. Atualmente, a emprega © enuncia os documentos entendidos como Valores Mobiligrios, a Lei 6.385, de 7.12. 1976 (arts. 1° ¢ 2.°, principalmente) Como entender tal expresso em relago aos titulos de crédito, aos titulos cambiétios ¢ aos efeitos de comércio? 100 REVISTA DE DIREITO MERCANTIL ~ 37 6. Nogio de valores mobilirios Valores ¢ expressio genética, tanto mais vazia quanto ampla; em relago aos titulos de crédito ditos abstratos, poder-seia entender que a expressio Ihes & des- tinada? Isto sera visto mais adiante, Mobilidrios, também nao significa sic et simpliciter muito, ou quase nada. De mével, poder-seia entender o que esta mobi- lizado, 0 que € mobilizavel; como os titulos de crédito so considerados coisas mdveis (arts, 47-48, do CC brasileiro), sujeitos as regras de circulagdo desse tipo de bens, ¢ até prevalecendo segundo a doutrina dominante, em relagio a eles, a regra “en fait de meubles, possession vaut titre”, tem-se af um ponto de contato, Contudo, a nogdo juridica exige mais. E tarefa do jurista pesquisar ¢ tentar ‘obter 0 exato significado das expressdes legais, dentro dos parimetros da cha- mada construgao dogmética. Daf ser importante um estudo, ainda que sucinto, no direito comparado, nao sem antes observar, com Ascarelli,!® que “a tarefa ‘mais dificil da investigagao dogmética consiste justamente, em separar, dentre os ‘varios caracteristicos de um instituto, os que Ihe so essenciais, em’ colocilos como fundamento da construgao dogmética e, por isso, como premissa da apli- cago analégica. O fim e a justificagao da investigaco dogmética consistem jus- tamente no fato de que ela constitui um instrumento para resolver os novos problemas que a vida vem sempre propondo, mantida a continuidade entre as solugdes ja aceitas e as que so propostas quanto aos novos problemas. Justa- ‘mente por isso, a maior dificuldade na constru¢do dogmatica esta na escolha dos varios dados juridicos para individuar os que, no seu desenvolvimento, melhor podem permitir alcangar a solugéo dos novos problemas, observada a continui- dade ea necesséria harmonia com as solugdes aceitas nos casos resolvidos ante- riormente. Ao preencher essa fungao, 0 estudo do direito comparado revela-se de utilidade singular, sob um duplo aspecto. Em primeiro lugar, na construgio de uum instituto dentro de um determinado sistema, isoladamente considerado. O co- nhecimento do direito comparado permite-nos, realmente, como ja lembrei, apre- ender methor os diversos direitos, isoladamente considerados; perceber o alcance © as razées das suas solugdes; descobrir as “premissas implicitas”, que lhe si0 peculiares” 7. Os efeitos de comércio e os valores mobilidrios A doutrina mais moderna, na Franga, conccitua os efcitos de comércio como titulos negocidveis que constatam a existéncia em favor do portedor de um er a curto prazo e serve para 0 seu pagamento, Esses titulos porque originariamente eram utilizados apenas no comércio, tomaram esse nome. Sao hoje, basicamente, as letras de cémbio, as notes promiss6rias, os warrants, os cheques, as faturas € borderds protestiveis. Jé os valores mobilidrios so conceituados como titulos negocidveis representando direitos de sécios ou de empréstimos a longo ptazo, € 10 Problema das Sociedades Andnimas e Direito Comparado, 2 ed., 1969, p. 1. DOUTRINA 101 no obstante se empregue igualmente a expressio titulos de Bolsa, esta expressd0 € mais restrita que a de valores mobilidrios, posto que nem todos os valores mobilidrios so negocidveis em Bolsa (Traité Elémentaire de Droit Commercial, 72 ed., 1973, Ripert-Roblot). Vé-se, pois, como a doutrina francesa tem presente, na caracterizago dos efeitos de comércio, a sua assimilagdo & moeda (valor determinado; prazos curtos e fécil circulabilidade) e por conseqiiéncia ainda que reconhecendo em alguns papéis ou titulos certas similitudes com os efeitos de comércio, descarta-as por no se enquadrarem em todos os seus termos nas caracteristicas (como, por exemplo, 0s billets de banque) dos efeitos de comércio. E segundo essa linha de assimilagdo & moeda (como instrumento de pagamento) que é feita também a distingdo entre efeitos de comércio ¢ valores mobiliétios. Partindo da nogo de efeitos de comércio como titulos negociveis, com a indicagao do seu valor, comprovando crédito em dinheiro, constata-se que embora apresentem certa analogia com 0s valores mobilidrios, essa analogia se revela mais aparente do que real e em conseqiiéncia as suas diferencas sao bastante profundas, podendo ser assim enumeradas: * a) A emissdo de valores mobilirios equivale a um emptéstimo a longo prazo contratado pelo emissor (companhia publica ou privada; o Estado, etc.) quer se trate da emissdo de ages ou de obrigacées. E claro que do ponto de vista estri- tamente juridico, como ressalva Roblot, a situago do acionista néo pode ser assimilada a do obrigacionista, somente este podendo ser considerado como um verdadeiro credor. Mas, no fundo, ambos ao subscrever, tém o mesimo objetivo; emprestar dinheiro a outro para obier um resultado, realizando assim uma colo- cacao de capitais. Ora, se é certo que aquele que subscreve ou negocia um efeito de comércio contrata igualmente um empréstimo, s6 pode ser um empréstimo a curto prazo, da mesma forma que o empréstimo pelo desconto, € sempre uma aplicagdo temporéria ¢ de duragao limitada. Justamente por isso, os valores mobi: idrios ndo se prestam as operagdes de desconto, ¢ desse fato, provém em grande parte, sua inaptiddo para substituir a moeda nos pagamentos. Os efeitos de comércio, pelo contrério, sd0 suscetiveis de serem descontados e € um dos motivos pelo qual eles se constituem, nas relagées comerciais, um stil instrumento de troca. b) A responsabilidade como garante assumida por aquele que negocia uma ago ou uma obrigacéo nao tem um alcance legal semelhante aquela que é im- posta pela lei ao emitente de uma letra de cémbio ou de uma nota promiss6ri primeiro se obriga unicamente a entregar 20 cessionétio um titulo de crédito contra o emitente; ele ndo se torna garante da solvabilidade da companhia emis- sora, j4 que o empréstimo contratado no reembolsével sendo a longo prazo € até 0 vencimento, a situagdo do devedor pode se modificar. Isto nfo ocorre quanto aos efeitos de comércio, pois que ao transferi-los a um terceiro, geralmente ele efetua um pagamento, sendo necessério certificar 0 valor do documento através do qual cle quitou o seu débito. Engaja assim a sua responsabilidade plena. ©) Os valores mobiligrios, como os billets de bangue so emitidos em série € por fragdes iguais, distinguindo-se os da mesma série entre eles, se for 0 caso, 11, Seguimos aqui a resenha feita por Roblot, Les Effects de Commerce, Paris, 1975, 102 REVISTA DE DIREITO MERCANTIL — 37 pelo ntimero. O que nao ocorre com os efeitos de comércio, emitidos cada um por vez, em fungao de uma determinada operacio, e cada um com seu préprio valor. 4) Por fim, os valores mobiliérios, pelo menos as obrigagdes sao reembol- séveis por sorteio, individualmente ou por lotes, 0 que nao ocorre jamais com os efeitos de comércio. Michel Vasseur, em relat6rio apresentado a0 Instituto de Estudos Europeus, da Universidade Livre de Bruxelas, por ocasiéo dos Trabalhos do Grupo de Estudos sobre ““Aspectos Juridicos das Relagdes Econémicas entre a Europa e a ‘América, Comissio de Valores Mobiliérios”, # baseando-se basicamente na obra de Ripert-Roblot (Traité Elémentaire, ob. cit.) esclarece que a expressio valores mobilidrios designa titulos negociéveis que representam direitos de sécios ou de cempréstimos a longo prazo, E conquanto a expressao titulos de bolsas seja mais estreita do que a de valores mobilirios, ambos exprimem a mobilizacao do titulo: © € por causa dessa mobilidade que esses titulos estao ligados ao direito comercial, ‘mesmo que nao sejam utilizados no comércio e negociados por nao comerciantes. valor mobilidrio é por exceléncia um titulo de investimento (placement), e seu caracterstico distintivo € que o direito que ele representa é um diteito de sécio ou de empréstimo, ou seja, um direito suscetivel de obter uma renda, Néo cons tuem, pois valores mobilidrios, nem os billets de banque que tém uma funcio monetéria, nem os efeitos de comércio, nem o cheque, que néo rendem juros, rnem os cupdes que dio direito a0 pagamento de um dividendo ou de juro, ou a tum direito de subscricao. As trés categorias classicas de valores mobilidrios, na Franga, sio constituidas pelas agdes, as obrigagdes ¢ as partes do fundador. 8. Os valores mobiliérios na Itilia ‘A doutrina italiana sempre apontou como “estrangeira” a terminologia juri- dica italiana, a nogao de valores mobilidrios. # E nesse sentido, asseveram Renzi Moreira e Francesco Argan, " que essa denominago — ademais de pouco uti zada pela doutrina € nas decisGes jurisprudenciais — nio corresponde a uma categoria juridica precisa, na Itélia, que seja utilizada como o é, por exem- plo, @ nogio de titulos de crédito. E notam esses autores, que se encontra na Lei de 20.3.1913, n. 279, sobre a organizagéo da Bolsa, uma referéncia logis- lativa & nogio de “valor” compreendendo os titulos tanto puiblicas como privados admitidos & cota¢ao a Bolsa. No capitulo Il, dessa lei, que se refere “& admissio dos valores & cotacdo” sio enumeradas certas categorias de titulos admitidos & cotagdo de pleno direito (titulos de crédito piiblico e outros valores piblicos ou que podem vir a ser admitidos por decisio da Camara de Comércio, titulos de pessoas juridicas, titulos de sociedades come estrangeiros, titulos de pessoas juridicas estrangeiras e titulos de sociedades por 12. Le Régime Juridique des Tires des Sociétés en Europe et aus Etats Unis, Brurellas, 1970. 13. G. Ferri, 1! Tiolo di Credito, 2.* ed, Turim, 1965; Renzo Moreira e Francesco ‘Argan, “Les_Valeurs Mobilis “en droit ittien”; in Régime Juridigue des Titres de Socieiés en Europe et aux Etats Unis, ob. cic, p. 30%; Felipe. Chioment 14. Ob. cit, pp. 304 e ss DOUTRINA 103 agbes estrangeitas). Esta enumeragio cortesponde, substancialmente & nogdo de valor mobiliério da forma como é concebida pela doutrina francesa. Por seu turno, observa G. Ferri (ob. cit., pp. 32 e ss. ao considerar o titulo de crédito como um meio técnico de circulagao, e ao defender a tese de que essa funcdo a ser preenchida pelo titulo & dependente da vontade do emitente — portanto, a funcdo ndo é revelada simplesmente pela imagem pléstica da “incor- poragio", mas, ao contrério, é pela fungio do documento que se esclarece a incorporaggo e dé-selhe um significado juridico, Para o autor, a fungio de circulagao se revela pela legitimagdo e titularidade. Diz a certa altura: “Quando a legitimagao seja conexa a um documento, pode haver um titular nio-legitimado um legitimado; e € em relagdo a essa dualidade de conceitos que se acentua a disciplina dos titulos de crédito; a seguranga da circulaggo e a mobilizagao dos ceréditos oorrem em virtude da fungdo de legitimagao do titulo, o qual permite, io do documento, o exercicio do direito, mesmo por parte de quem nao ¢ titular”. E ao analisar # expresso francesa “valores mobilidrios” a ‘considera como referente a titulos de massa, em contraposigo aos titulos indivi duais (chamados na doutrina francesa, como vimos, de efeito de comércio). A dis- tingdo que para ele, se baseia essencialmente numa diviso de fun¢do econémica — instrumentos de mobilizagéo do crédito — os titulos individuais; e instru- mentos de dissociagdo da propriedade — no sentido econémico e controle da riqueza — os titulos de massa, assumem relevo na determinagao do conceito juridi- co dos titulos de crédito. Nos titulos de massa, de um lado, o principio da incor- poragio ¢ atenuado com mais intensidade, e de outro, o destaque entre 0 rapporto sottostante e 0 rapporto cartolare parece totalmente claro, nao admitindo nenhuma influéncia, mesmo indireta, do primeiro sobre o segundo, © fazendo qualificar ‘como venda de uma res, mestno em operagdes de diversas naturezas (empréstimo, sociedade) a emisséo do titulo. Apés mostrar algumas diferengas entre 0s titulos de massa € 0s individuais — a0 menos em termos de circulagao, sobretudo, em relagdo aos titulos ao portador — Ferri assinala que se do ponto de vista da prética, pode haver uma situagdo diversa entte os diversos possuidores do titulo ‘que assume especial relevo para os titulos individuais e possa restar praticamente inoperante perante um titulo andnimo e de larga circulagdo, sob o aspecto juridico, entretanto, nao existe diversidade substancial e justfica-se perfeitamente a subor- dinagdo a uma tinica disciplina do aspecto circulatério — que € o aspecto essencial dos titulos de crédito — e sob 0 qual todos os diversos titulos se apresentam com ‘caréter comum, E prossegue Ferri, dando a chave da questio do relacionamento entre valores mobilidrios (ou titulos de massa como prefere) e os titulos de crédito — afirmando ‘que na fase da circulagao do titulo — que € 0 aspecto que a lei considera — nao existe diversidade entre titulos individuais e titulos de massa. E se a emissio do titulo possa ter nas duas hipdteses, uma justificago econémica essencialmente diversa, permanece, contudo, idéntica a justificativa da atribuigao ao titulo de