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Patrimônio Imaterial: Conceito e Panorama Histórico

Patrimônio Imaterial: Conceito e Panorama Histórico

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Este artigo trata da importancia da valorização do patrimônio imaterial desde seu historico de surgimento como termo.
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Published by: stagliano26 on Feb 09, 2010
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Patrimônio Imaterial: conceito e panorama histórico

No atual mundo contemporâneo, a princípio, patrimônio significa, mais do que nunca, riqueza acumulada por gerações passadas, disponível hoje como recurso, que deve ser valorizada e transmitida para as gerações futuras. Antes do reconhecimento do patrimônio imaterial como um bem coletivo, o destaque era dado para o patrimônio material1. A trajetória tem como ponto de partida a preservação dos monumentos históricos da Europa no século XIX, por parte de instituições governamentais e civis. Os países europeus consolidavam a idéia de patrimônio histórico e artístico nacional através de leis de proteção, criadas até como uma forma de catalogar e organizar seus bens materiais. Dentre o patrimônio selecionado estavam os edifícios, obras de arte, templos religiosos, castelos da Idade Média, etc. com valor reconhecido pela arqueologia ou pela história da arquitetura erudita. Este quadro começa a ser alterado somente às vésperas da Segunda Guerra Mundial quando passam a ser selecionadas como patrimônio todas as formas de arte e de construção, eruditas ou populares, urbanas ou rurais, edifícios públicos ou privados, suntuosos ou utilitários, conjuntos de edifícios, vilas, cidades e até conjunto de cidades. Paralelamente, a fronteira cronológica do patrimônio também se expandiu. De início, contemplando apenas produtos excepcionais da antiguidade e da Idade Média, ao longo do século XX passou a incluir a primeira metade do século XIX, depois a segunda, o começo do século XX, até chegar a obras produzidas pelo modernismo (SANT’ANNA, 2001:151). A expansão territorial da valorização dos bens materiais, antes restrita à Europa, se expandiu muito mais tarde. Em 1972, em Paris, 80 países não-europeus assinam a Convenção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural da UNESCO2, o que demonstra o definitivo reconhecimento mundial da importância da valorização do patrimônio cultural, porém ainda com muitas restrições.

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Também são utilizados os termos patrimônio tangível e intangível (material e imaterial). UNESCO (United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization). Organismo especializado do sistema das Nações Unidas criado em 16 de novembro de 1945 com o objetivo de contribuir para a paz e segurança no mundo mediante a ciência, a educação, a cultura e as comunicações. Com sede em Paris, França.

Sendo assim, acrescentaram-se outras experiências àquela européia, novas categorias foram postas em cena pelos países asiáticos e também por muitos países de modernidade tardia3, sendo chamadas de “patrimônio imaterial”. Se para os ocidentais, exclusivamente os europeus, a seleção de certos bens materiais cria um testemunho e define uma perspectiva histórica numa relação específica com o passado; para os orientais as tradições são vividas no presente importando mais a transmissão dos saberes a elas vinculadas do que a conservação dos objetos produzidos. Segundo Márcia Sant’Anna: “Os templos japoneses, por exemplo, são mantidos sempre novos mediante reconstrução idêntica, periódica e ritual, o que evidencia uma concepção de preservação totalmente diversa da ocidental, cuja ênfase recai na permanência do objeto e na noção de autenticidade. Para os orientais, ao contrário, o que importa não é a permanência da coisa, mas a preservação do saber. Do saber fazer e refazer monumentos, escritos ou construídos, mas também do saber reproduzir fielmente tradições que se manifestam de outro modo na execução de rituais, por meio de expressões cênicas ou plásticas, de celebrações. Há muito tempo, no Japão, tais manifestações são percebidas como monumentos ou bens culturais e, desde os anos 50, aquele país possui legislação voltada para a sua conservação e transmissão, por meio de incentivos a grupos ou pessoas que as mantêm, preservam e transmitem” (2001:154). Deste modo, o patrimônio imaterial pode ser definido como o conjunto de bens culturais formado por saberes, modos de fazer, formas de expressão e comunicação e celebrações, enraizados no cotidiano das comunidades, vinculados ao seu território e às suas condições materiais de existência, dando sentido às noções de identidade cultural e de lugar. Esta definição tem raiz eminentemente oriental e sua assimilação pelo mundo ocidental só se alarga a partir dos anos 80.
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Por sua coerência, empresto aqui o termo utilizado por Stuart Hall (2001) em A identidade cultural na pós-modernidade, para referir-me aos países que antes (ou para alguns autores ainda hoje), eram chamados de sub-desenvolvidos ou de terceiro mundo - termos ultrapassados e que não condizem mais com a atual realidade.

O primeiro documento a valorizar a importância do patrimônio imaterial foi a Carta de Veneza, de 1964. Em seu artigo 1º estabelece que a noção de monumento histórico se estende a “não só as grandes criações, mas também às obras modestas, que tenham adquirido com o tempo, significação cultural”. Ao longo dos anos 70 e 80, nos encontros internacionais em países menos periféricos, com destaque para o México, vários países reagem ao conceito restrito da UNESCO de considerar o patrimônio cultural como sendo marcadamente material. A Bolívia lidera a reivindicação da realização de estudos a fim de se propor um instrumento internacional para as “expressões populares de valor cultural”. Estes estudos avançam, e em 1989 é aprovada pela 25ª Conferência Geral da UNESCO em Paris, a Recomendação sobre a Salvaguarda da Cultura Tradicional e Popular, definida da seguinte forma: “Conjunto de criações que emanam de uma comunidade cultural, fundadas na tradição, expressas por um grupo ou por indivíduos, e que reconhecidamente respondem às expectativas da comunidade enquanto expressão de sua identidade cultural e social. Seus padrões e valores são transmitidos oralmente, por imitação ou por outros meios. Suas formas compreendem, entre outras, a língua, a literatura, a música, a dança, os jogos, a mitologia, os ritos, os costumes, o artesanato, a arquitetura e outras artes”. Esta recomendação é o documento que vigora a fundamentação do patrimônio imaterial ou intangível. Nela se recomenda: - identificação dos bens produzidos por essa cultura, por meio de inventários nacionais ou outros registros; - a sua salvaguarda contra a influência da cultura industrializada, dando-se suporte econômico a essas atividades e introduzindo-as como tema nos sistemas educativos; - sua conservação por meio de documentação, registro, acesso aos dados sobre suas manifestações, bem como o estudo de sua evolução e modificação; - sua difusão com vistas à sensibilização das populações; - sua proteção – definida como análoga à das produções intelectuais – mediante dispositivos semelhantes ao do direito autoral, com vistas à proteção da privacidade dos detentores da tradição e dos interesses dos pesquisadores.

Vale um parêntese para ressaltar que neste documento não se menciona a expressão “patrimônio imaterial ou intangível”, mas sim o conceito de cultura tradicional e popular que inclui aspectos materiais e imateriais. De qualquer modo dá importância aos processos de criação e manutenção do conhecimento sobre o produto da manifestação popular expressado pela festa, dança, celebrações, música, pela peça de artesanato, etc. “As expressões ‘patrimônio imaterial’ ou ‘intangível’, procuram ressaltar que o que interessa preservar como bem cultural é o modelo e suas transformações/variações e não o objeto resultante, embora este seja sua expressão material e seu fim. O problema é que estas expressões levam a desconsiderar, não só o produto destas manifestações, mas, principalmente, suas condições materiais de produção. Enfim, a cultura material que está por trás ou imbricada em sua produção/reprodução. O que se conclui é que ambas as expressões não dão conta da complexidade do objeto que pretendem definir” (SANT’ANNA, 2001:155). Outras expressões tentam complementar a definição de patrimônio imaterial ou intangível, como por exemplo, “patrimônio oral”, “espaço cultural” e “paisagem cultural”. A primeira tenta dar ênfase ao modo de transmissão dos bens culturais, a segunda vincula essas manifestações ao espaço físico ou ao território em que ocorrem, e a terceira busca realizar a síntese dos aspectos materiais e imateriais do patrimônio cultural por meio da idéia de paisagem, que abarca todo esse conjunto e o enraíza no território. Porém todas elas deixam lacunas. Como conseqüência dos avanços para o reconhecimento das tradições populares como patrimônio imaterial, em 18 de março de 2001, a UNESCO criou o título de “Obras Primas do Patrimônio Oral e Intangível da Humanidade”, para homenagear dezenove espaços culturais ou formas de expressão de diferentes regiões do mundo. Em 2003, foram acrescidos mais vinte e oito itens e a última, de 2005, chega a 90 obrasprimas inscritas. É curioso observar que a representatividade dos países menos desenvolvidos é bastante significativa4.

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O Brasil possui dois itens inscritos na lista de “Obras Primas do Patrimônio Oral e Intangível da Humanidade” da UNESCO: a arte Kusiawa dos índios Wajãpi e o samba de roda do Recôncavo Baiano.

Os critérios utilizados na seleção desses valores foram as raízes das tradições culturais, a afirmação da identidade cultural, a fonte de inspiração e as trocas interculturais, a cultura contemporânea e o papel social, a excelência na aplicação das práticas, o testemunho único de uma tradição cultural viva e o risco de desaparecimento. Esta iniciativa tem por objetivo preservar a cultura tradicional popular, devendo se tornar complemento na lista dos Patrimônios da Humanidade. As discussões em torno do reconhecimento do patrimônio cultural imaterial trouxeram, a partir da década de 80, uma nova visão a respeito da preservação das tradições e dos bens culturais dando um grande destaque à questão. Uns implementaram um sistema de proteção há mais tempo como a Coréia, França e Japão, mais tarde vários países começaram a repensar a valorização dos seus bens culturais, tomando medidas, criando leis e incentivando projetos, que se não são completamente satisfatórios, ao menos impulsionam um avanço para o reconhecimento da autenticidade de uma identidade cultural. Bibliografia SANT’ANNA, Márcia (2001). Patrimônio Imaterial: do conceito ao problema da proteção. In: Patrimônio Imaterial. Rio de Janeiro: ORDECC, pp.151-162 (REVISTA TEMPO BRASILEIRO Nº 147 - 2001).

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