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C

e t ol l v ra g e .

publ ié

d o n s l e cu d r e du p r og r a mm e

I ' I I h1i c o fi o ll , bénéficie du so n t i e n d u Min is r e r e [ r a n ça is

d e p a rt i c i pa/ i a , n

à I a

de, ffa i r f !. ~ Et ro n g e r ,l ' ' '' '

A

d e l'A mbu ss a de

dr F ra nc e 0 1 1 Br é s i l , d e I a M oi s on [ m n ç n í s e d e R I O d e l n n r i ro

1: ' 1d ll Con s utot

G e n é ra l

de F r un ce

l i Siio P a u t o.

E

s t e l i v r o,

pu b l i c a d o

no â m bi t o

d o p r ng r u m a

c

E

co m m bai x ad a

o n t o u

o ap o i o do M i ni stér i o

d a F ra nç a

C do C o u s ul u d o

n o B r a s il ,

I r un çês d a Mai so n

G e r a l d a Fran ça

d e p a r t i c ip açã o d a s R e la çõ e s

à pu b li ca ç ã o,

du

E x t er i o r es,

I r u n ça i sc

d o Ri o d e J a n e i ro

e m S ão P au l o .

CONSULADO GERAL DA FRANÇA! SP

M I N I S T ÉR I O

D A CU LT U R A

Clássicos & Comentadores

ARISTÓTELES E A POLÍTICA

FR ANC IS W OLFF

tra d u çã o de Th e re za C hri s t i na Fe rre ira Stummer e L y g i a A r a u jo Wa t a n a be

d iscur s o ed itoria l

Es

t e p e qu e n o

li v r o n ão t e m o ut r a pr e t e n são

a l é m d e pr e p a r a r

ou acomp a nh ar

a l e itur a

d a Política d e A ri s t ó r e l es.

O Ca p ítul o

1

é

um a a pr e se nt ação

g e r a l d est a o br a , a p a rtir d a hi s t ó ri a

- o u a nt e s, da

pré-hisrória

- d o p e n sa m e nt o

p o l í ti co

g r ego, seg ui d a

d e u m r es u m o

an a líti c o de s t i n a d o

a f ac il i t a r

seu a cesso . O Ca pítul o

2 pr o p õ e

um

com e nt á ri o

do s d o i s prim e iro s

ca p í tu l os

da Política, r e s sal ta ndo

s e u s

obj e ti vo s pr ó pri os e r ess itu a nd o -o s

d e Aristóreles:

ão , ex p o s t a

ag r a do

n

o qua d r o

m ai s ge r a l d a f i l o so fi a

so b r e a t e o r i a d a es cr av i -

3 é co n -

seg u e - se um br eve a p ê ndi c e

n os ca p í t ul os

d

s

vi

r eg im e s. V e r e m os q u e d a í se d e pr e e nd e,

g u l a r d o r e g i m e " d e m oc r á t i c o" .

4 a 7 d o m esm o li v r o . O Cap ítul o

à a n á li se

d o L i v r o lI! : é o li v r o fund a m e nt a l ,

d o p o nt o

d e

s t a p o lí t i co ,

p or qu e a li Arisróteles

c l ass ifi c a e co mp a ra o s dif e r e nt es

em p ar ti c u la r ,

um a d e fe s a s in-

A e s co l h a d as p ass age n s e m qu e n os c o nc e ntr a m o s ev id e nt e -

m

at

vr o s . E s c o lh e m os a b o rda r a Política d e A ri s t ó re l e s p o r o nd e e l a m a i s

a hi s t ó ri a alimentá-I a .

m

e nte

n ão e s g ot a o int e r esse

o " p o lit ó l ogo",

d a Política: o so c i ó l ogo

o u o hi s toriad o r,

o ut r o s

li-

a

é m es m o

a rc o u

te r i a m s em dúvid a pri v il e g i a d o

da fi l osof ia p o l í tic a

e p o r o nd e e l a p o de c o ntinu a r

D e pr ee nd e - s e

um a ce r t a liç ã o g e r a l : a d e qu e só h á p o lític a

d e t e rmin a da

p o r a q u e l e s aos q u a i s e l a é d e s ti n a d a .

As r e fe r ê n c i a s à Política são d a d as, c o n f o rm e

O núm e r o e m a l ga ri s m o s

r o m a n o s

e m al g a ri s m o s

a r á bi co s , indi ca nd o

o u s o, d a seg u in t e

indi ca o l iv r o ; é s eg uid o

o ca pítulo ,

m

d

p o i s d o n ú m e r o d a p ág ina d a e di çã o B e kk e r (a e di çã o m o d e rn a d o

a n e ir a .

e um número

e d e-

t

e xto d e Ar i s r ó r e l es

a c u j a p ag i n aç ã o

se r efe r e m

t o d as as e d i ções

e

t

r a du ç õe s di s p o ní ve i s ),

e m seg uida,

da letr a ( a o u b ), in d i c and o

a

co l un a , e , finalm e nte,

d a linha, d ess a m e s ma e di ção. A tr a du ç ão

qu e

utili z am os

é a d e P. P e ll eg rin , Aristote, L es Poliriques,

C o l eç ão

GF,

F l a mma r i o n ,

P a ri s , 1 99 0 . A s r e f e r ê n c i a s

a os o u t r os

t ex t os d e A r i s ró-

reles s ão d a d as seg und o

essa m esm a co n ve n ção,

utili za n d o-se

as se -

g

uin t es a br e v ia ções :

Fís. p a r a Física ( e di ç ã o fr a n c esa :

Physique, tr a d.

e

l e H . C a r re r o n ,

e d , L es B e ll es L e t t r e s) :

Met., p a r a a Metafisica;

É t .

Nir., p a r a a Ética a Nicômaco (Métaphysique e Etbique à Nicomaque,

nmbns n a e di ção f r a n c e sa

t r a d u z i da s p o r J. T ri co t , Vr in ).

Da política até a Política de Aristóteles

J

á s e c o nse g uiu

di z er qu e a filo s ofi a fal a gre g o . É

possível . Em todo caso, é certo qu e a política, sim, fala

g rego . Não s e pod e , com efeito , fal a r ac e rca d e p o lítica sem a língua greg a : " tirania ", "monarquia " , " oligarquia ",

" aristocr a cia " , " plutocracia " ,

"

democracia "

todo o nos-

so vocabu l ário político saiu d e l a. E, em primeiro

lugar, a

própri a pa l avra política. A palavra tanto quanto

a coisa.

A política, de fato , a própria id é ia de política, é o produ- to de um momento singular em que se cruzaram, em nossa

história , dois frutos

pensar surgido por v olta do século VI antes d e Cristo, fund a d o no liv re e xa me e na interrog açã o s obr e o fund a - mento d e todas as coisa s, e ncontrou um modo li v re e novo

de viver juntos , surgido no s é culo VIII antes de Cristo,

ch a m a do polis. Produto d e ss e c ruz a mento ,

pr á tica d a polis qu e s e tornou consciente de s i própria,

ou, inv e rsam e nte,

de uma vida

livr e. " P o l í t i c a" é, c om e feito , uma de s sas p a la v r a s curio-

sas (como a p a l av r a " hi s t ó ria " ) que d es ign a m ao me s mo

tempo uma " ciê nc ia" e o seu o bjeto: ent e nde- se

mente por e l a um c onjunto

m e n s se d e di c a m p a r a co ex i s tir , e t a mb é m o e s tudo o bje -

tiv o d e s sas m es m a s prátic as . (D a m es m a fo r ma , a história

d e pr á tic a s às qu a i s o s ho-

da história grega: um novo modo de

a política é a

a inv e stig aç ão sistemática a plicada à

polis. É, numa pala vra , o livr e pen sa mento

e fetiv a -

8

FRANCIS WOLFF

é ao mesmo tempo o devi r das sociedades e o seu estudo.) Ora, de certa maneira, um não a nda sem o outro: enquan- to o político não se deu ao olhar dos homens como um . objeto que se possa estudar e interrogar por e le próprio, os homens "não fizeram" política. Sem dúvida, a ntes do aparecimento da política , já e x istiam sociedades , e os ho- mens se acomodavam a e las, bem ou m a l, pa r a viverem

juntos. Mas, enquanto não pensaram aquilo que viviam como algo que pertencia a um domínio que chamamos de político , isto é, como algo que dependia deles, e le s não poderiam, e s pecific a mente f a lando , fazer polític a (e a re- c íproca, a [ortiori , é verdadeir a ): submetiam-se a um po- der como a um destino, contr a o qual nada se p o de fazer, uma v e z que não existe enquanto t a l, t ã o pró x im o e s tá daquilo que se é; um poder, fr á gil ou todo-poder oso , mas sempre vindo do alto, no qual mal se distinguem a a uto-

ridade do chefe, a irrecu s abilidade

aos deuses . E assim como um po v o sem memóri a hi s t ó ri- c a não tem verdadeirament e história , uma vez que n ã o pode agir sobre ela, da mesma forma um povo sem a cons-

ci ê ncia de um domínio próprio da s coisa s da c id a d e n ã o pode agir pol i ticamente , uma ve z qu e nã o s abe qu e a po- lítica é aquilo que lhe pertence . Aquil o que a própria ex is- t ê ncia da polis permitiu, na vertente das práticas (a políti-

se faz) , a e x ist ê ncia d o p e n s am e nto r a cion a l o

c a qu e

p e rmitiu , na v ert e nte da con s ci ê nci a refle x i va ( a política qu e s e e s tud a ) . E esta foi desd e logo descritiva e normativa:

po i s p o de r pensar a maneira p e l a qual se vive politicamen- t , po d e r di s t a nciar-se d e la p a ra tomá-Ia como objeto , já

da tradição e o t e mor

i m p l e s m e nt e p e n s ar que s e poderia não viver assim (mas

Da política até a Política de Aristóteles

< ,

9

viver de outro modo). Se a política é aquilo que depende de nós , depende de nó s tamb é m que e la s eja outra , e , por

que não ? , p e rfeit a. O p e nsamento político c lássico s e deu s empre esses tr ê s objetivos : pensar o que é a v id a política,

o qu e e la poderia ser e o que e la deveria ser. Tratemos en-

tret a nto de definir m e lhor o a s sunto. Em sentido estrito, a polític a são os negócio s da polis. E s ta palavra grega designa a urbe [uille] (por oposi-

ção ao campo), m a s também a civilização (por oposição à natureza s e lv a gem ou à barb á rie ), e finalmente , e sobretu-

do , a cidade [ ci t e ], e ntid a de comunit á ria a utônoma, à qu a l

algumas dezenas de milh a res de h a bitantes têm consciên-

c ia de pertencer (os at e nienses , ou os espartanos , ou os

coríntio s

A cidade tem seu território - que ultrap ass a amplamente

os limites d a "urbe " - e se abriga por detrás de seu " regi-

me" próprio . C a da uma

federadas s ob instituiç ões políticas e r e ligios a s comuns ,

mas o s particulari s mo s " rrib a is " foram logo digeridos, a

tal ponto que no século V o sentimento de pertencer

sua cidade é par a todo s primordi a l e vence até me s mo o enrai z a mento no h e lenismo (ma r c a do , e ntretanto , por uma comunidad e é tnic a, lingüístic a e de culto) . Portanto, em certo sentido, a política tem , para um grego , um terr e n o m a i s estreito do qu e p a r a nós , poi s conc e rne ao s ne g ócios da cid a de , no s e ntido bem parti- cular do termo. Não viver numa cidade é , para um grego da época c l á ssica , não viver politicamente (isto é, de ma- neira civilizada). É b e m v erdade que, a pós a conquista a lexandrin a , qu a ndo todos dependerão do mesmo rei da

a

) , re c onhecendo n e la a lgo como sua "p ã tria" .

d e las s a iu d e diver s as tribos,

10 FRANCIS WOLFF

Ma cedônia , e as cidades terão perdido su a autonomia, os

g regos, num certo sentido, já não "far ã o " mais política.

E m todo caso, as grandes obras do pen samento

g rego (entre a s quais, a de A r i st ót ele s ) s ão ainda contem-

p or â neas d a polis, a desp e ito de certos descompassos c ro - n o lógico s a o s quais v ol ta remos adiante.

político

Da política até a Política de Aristóteles

1 1

< ,

é, qu e n ão dev e m se r o priv ilégio ex c lu s i v o de nin g u é rn '",

" tod as as atividad es r e l a tiv a s a um mundo comum ",

oposição à quelas " qu e concernem à m a nutenção d a vida'2.

A ss im, " f az er política',

n ão é , n a época c l ássi ca, uma

po r

isto é, p a rticip ar da vida c o mum,

a tivid a d e e ntr e o u t r as pos-

sív eis: é a a tiv id a d e n o br e por ex c e l ênc i a, a ún i c a qu e v ale

M

a s a política n ã o é a penas um a r ef le x ão sobre uma

o

sac rifício de s u a v id a. ( Desp reza-se o ne g oc ia nt e ,

o ho-

form a hi s t o ri camente d a t a d a ou um a s in g ularidade e tno-

m

e m qu e " fa z n egóc i os" ,

isto é, n egóci o s pri va d os . )

O

grá fi ca, a c i d a de: e la t e m um escopo

n os , g e r a l. E o s " negócio s d a cid a d e " , p a r a alé m d as p a rti-

c ul a rid a d es d a polis, têm um a e x ten são bem maior do que

un iv e r s a l ou , ao m e -

p a ra nó s , modernos. Com efeito, dize r " política', par a n ó s ,

é as soci a r a lgumas i m a g e ns (campanh as e leitorai s, lutas

pa rtid á ri as, a mbiçõe s p essoa is ) e algun s aspectos b e m d e -

d estin o de um j ove m a tenien se só po d e ri a s er a "car r e ir a '

política - que ju s t a m e nt e

qu e um a t a l valor izaçã o ? Há três tipo s de ra zã o pa r a isso .

n a d a t e m d e uma c a rr eira . Por

que a i d é i a de " su-

c e sso privado" s eria uma contradi ção numa civili zaç ão que

id e ntifica o suce ss o c o m os seu s sign os : o hom e m s uperi-

Acontece, e m primeiro lug a r,

inido s d a v id a soci a l : h á " h o m e n s

f

po lít icos" ( pr of i ss i o -

o

r é a qu e le r econh ec id o como t a l . A língua gr ega d es igna

nais) e o utr os qu e não o são, a ssi m co m o h á c l ér i gos e

c

om um a única p a l av r a o s v alo r es reconhecidos, j u s t a men-

l e igos; m o m e nto s polític os e out ros qu e o s ão m e no s ; even -

tos po lít i c os e outro s qu e a b s olut a m e nt e

P a r a o s gregos, tod a a e s fe r a d a vid a públ i c a é, nu m cer t o se nti do, p o l í tic a, e a esf e r a priv a d a é mu i to mai s es t re ita do q u e p a r a nós : ne m a " mor a l " , n e m a r e ligião , nem a

e

d a po lí tica . N ã o que " tud o sej a político" , is to equiv a l er i a

d u cação d as crianças, p or ex emplo, est ão fora do c a m po

n ão o são, etc .

di zer q u e " n a d a é políti c o ", i s to é , ser i a nega da s u a es p e -

n

i fic id a de : o "e c on ô m i co " ,

l t a rn e nt e po l í t i co, p e rt e n ce

por e xem pl o, que p a r a n ós

é

par a e l es à e s fe ra p r i va d a e

n m e à g e s t ã o do p a trim ônio

q u s i n i fi c a " casa' , pr op r ie d a d e) .

I ' 11

(a p a l avra ve m de oikos, O t er r e n o pol í tico p er -

p a r a os g regos , ao koinon, o c o mum , e "a b ar c a to-

i sto

lns a s at i v i d a d e s e p r á ti cas que deve m s er p a rtilhad as,

t e e nqu a nto e l es se o f er e ce m ao rec onh eci men to:

b e l o) é dito de um a co i sa , de um a ação ou d e um h o mem

qu e seja o bjet o d e a d miraçã o , se j a no pl a no " m o r a l " , se ja

no "es t ético" . Civ iliz açã o da v i s ibil i dade: a e s t a tu á ri a g r e- ga l e v a ao seu a p og eu a ar te de ofere cer aos olh a r es de to-

d

kalos (=

os

u ma forma a dmir áve l que s e j a se u centro. N a mesma

é p o c a , os gregos inv e nt a m o t ea tr o ( tr a gédi a,' c o m é dia),

qu e per m a nec e o a rqu é tipo do espe t ác ulo: n e l e tud o é v i s to

p o r tod os o s l a d os , tud o está m a ni fes to , e r eves t e - se dos

s

in ais ex t e riore s d a vi s i bili d a de ; n e l e , o " pen sa m e nt o "

es t á

1

J. - P . Ve rn a n t . E i ndi v idu , I a mort , l ' amo u r. Pa ri s , Ga llim ard , 1 989, p. 2 1 8 .

2

H . A r en dr, L a condition de l 'homme moderne, p. 66 .

12 FRANCIS WOLFF

voltado p a r a o exterior , como o espaço do te-

a tro se repr o duz no esp aç o d a cidade. Poi s o deu s d e pe-

to t a lmente

Da politica-até a Pol í tic a de Aristótefes

1 3

A gr a nde cis ão entre homens livres e escravos distingue

aqu e les que t ê m qu ase t od o s o s pod e res sobre outro s ho-

dr

a o u o ator se acham no centro de uma or dem o r g a ni-

m

e n s. As cria n ç as de ve m natur a lmente

o bedi ê nci a

a os

za

d a po r e les , no ponto d e con v erg ê ncia d e todos os pontos

a

dul t o s , e as mulh e re s ao s hom e n s , a inda

qu e esta s tenh a m

d

e v ist a possíveis. E s te é o lug ar id ea l do heró i a rc a ico (o

 

poder sobre a c a sa famili a r (esp aço priv a do ). E stes , os ci-

g

u e rreiro hornérico),

o u, na id a de c lássic a , do homem

dad ã os, constituem o conjunto d a comunidade ch a mada

p

o lítico,

um e outro,

no centro do círculo

comum.

O

cid

a d e (esp a ç o público) . A polític a é, portanto , ocup a ção

o

r a dor d a as s e mbl é ia do po v o, que " acon s e lh a a s u a c id a -

ex

c lu s i v a daqu e les qu e a priori j á e s tão ch e io s de pod e r es :

d

e", a tr a i todos os olh a re s e brilh a por s u a do xa, n o duplo

m

a i s do qu e uma ocup açã o,

tra t a - se d e um pri v ilé g io , e ,

se

ntido do p o nto de v i s t a que e l e t e m s obre as coi sas (o pi-

por iss o , de um a obrigaçã o . M as é t a mbém o c up açã o p ar a

ni

ã o ) e do p o nto de vist a qu e se tem s obr e e le ( r e puta-

todos, colet ivament e, e , bem ou m a l, de tod os, di s tribu-

ç ã o). O

suces s o po l ítico, dito d e o utra form a, públ i co por

tiv a mente,

ou a o men o s daqu e le s que se mostr e m ,

a os

se u domínio e public a ment e

ún i c o possí v el.

s

a ncionado,

é port a nto

o

A p o lítica é, por outro l a d o, o úni co lugar em que

s e d ec ide o po der: o qu e defin e a polis é qu e , c o n trar i a -

olhos de tod os, os m e lhores entre os iguai s . Afin a l, se a pr á tica polític a r e ve s t e - se de um v a lor

t ã o e leva do , é porque a ex c e l ê ncia políti ca to ra liz a d e a l-

lu-

gum mod o tod as a s outras e x c e l ê n c i a s. Em prime iro

m

e nt e à tribo ou à s gr a nde s m o n a rqui as, co ntrari a mente

g

ar , porqu e o t e rren o político re co bre tod as as comp e t ê n-

à

co munid a d e famili a r , ali ninguém po ssui a priori o po-

cias p a rticulares e e x i ge uma compet ê nci a

univer sa l: na

d

er. Não se tr a ta do objeto de um "ter" rese rvado, mas o

asse mbléia d e libera t iv a de um a democracia direta, com

lu gar de um a luta p e l o r e conhe ci m e nto p ú blico , princi-

efeito , todos o s cidadã os devem se pronunci a r a respeito

p

a lm e nt e - m as não ex c lu s i va m e nt e

- , qu a ndo a polis é

d

e todos o s as sunto s ,

p e lo m e n os todo s o s a ssunto s

de

d

e mocr á ti ca (cas o d e A t e n as). R ec onhe ci m e nto- r i v alid a -

inte r e s s e g e r a l (ve r Pl a t ão, Protágoras, 21 9 b-d ). A l é m do

d

e qu e con cern e aos c id a d ã o s, d e finido s p e l os pod eres que

m

a i s, o home m polític o d eve d e mon s tr ar

o ma i s e l eva do

j á pos s uem po r out ra p a rt e, l á onde o po d er j á n ã o é um

o bj e to de di s put a , m as um atributo que s e possui po r na-

t u r eza , p e lo qu e se é um hom e m livre, a dulto e m a cho ' .

I I . cmb r c m o s q u e es t ão e x c lu í d os

d a c i da d a n ia o s es tr a n ge ir o s , os

. s rnvos, as c ri a n ç a s e a s mulh e r es .

-- - - --------

l

grau de tod as as qualid a des

so de honra e de sacrifíc io. Por fim, e simplesmente, o

hom e m comple to só pod e ser o c idadão, p o rque s eu g r au

de c o rnpletude

s eu s p a res. C o mo M ê n o n indica, no di á lo g o M ên o n, de

um a man e ira g e r a l, a v irtude d o h o mem " é a capacid a de

d e comand a r

homens " ( 73 b); e, no Górgias, Górgia s r e -

mora i s : justi ç a , piedad e, s e n-

se m a nife s ta p e l o poder que e le t e m s obre

~

~

14 FRANCIS WOLFF

p e t e, f aze ndo ec o : o domíni o polít i co r eco b re " as m a i s im -

po r t a n t es e a s m e l hor es c o i sas hum a n as "

h á b e m m a ior p ar a o hom e m d o qu e co n ve nc e r o s o utr os

e m q u a l qu e r r e u ni ã o d e c id a d ã o s (4 5 2 d ) . N um a c i v ili za -

(4 5 1 d ), e n ã o

ção d o pr e st íg io, tod a qu a l i d a d e ( ind i v i d u a l ) é tr ad u z i d a

(s obr e os o u tr os) , e n u m a s oc i e d a d e s e m

e m s up e ri o r i d a de

Da política até a Política de Aristôteles

1 5

o u ro d a polis é o s é c ul o V ; a d a f i l oso fi a, é o séc u l o IV A p olítica, n o se ntid o d e v id a so b o t e t o d a po li s, p o rt a nto , n ão co in c id e exata m e n t e c o m a p o lític a, n o se n t i do d e

r ef l exão so br e a po l is: a f il osofi a p o l í ti ca é a co n s ci ê ncia

se a c h a no cr e pús c u l o , co m o Heg e l j á

d e um a f or m a qu e

i ndi cava. E m A t e n as, no s é c ul o V, d esco nfi a - se d as es pe -

m on a r ca ( a p ol is), t od a s uper io r i d a d e reconh e cid a deve s er

cu

l ações t eó ri cas d os " fi l ó sofo s " s obre a N a tur eza e s o br e

t r a du z i d a e m poder . É pr eciso in ve rter a id é ia mod er n a

o

Se r , e o pr i m e iro f il ós ofo d a cid a d e, Sóc r a t es,

foi c o n -

s eg u ndo a qu a l o púb l i c o é o p ri va do po s t o e m c o mu m ,

o u a po l ítica d o s in g ul a r q u a n do

c id a d e n ão é uma so m a

d u o priva do que a p riori é p e n sado como " re dobr a m e nt o

so b re s i m es mo " do públ ico . A po l í t ica n ão p a ssa d a re a l i - zação de s i , um a vez qu e o "s i " é r e l açã o co m o o u tr o. A po l ít i ca , cruz a m e n to d o " p e ns ame nto r ac i o n a l "

e d a pol is , te m f in a lm e nt e um te rr eno t ã o a mp l o , q u e se u s l im it e s conf undem- s e c o m os l imit es do h u mano, e um

va l o r t ão e m i n e n te , q u e d e ce r t o mod o e n g l ob a tod os os

o utr os va lore s . Pod e r íam o s espe r a r e nt ão q ue , do e n co n -

tr o d a fo rm a m a i s li v re d o pe n sa ment o,

n ã o t e m d e d a r s ati s f ações a n e nhu m m est r e , a n ão se r a s i

m esma) , co m a f o rm a ma i s l i vre d a vi d a co mum , a po l is

( q u e p o r s u a v e z t am b é m n ão dá . sat i s fações a n e nhum m es tr e, a n ão s e r a s i m esma), n a s ce u a fi l osofia po l ítica,

qu e t e r ia s id o af in a l a rea li zaç ã o id í li c a d e u m a e d a ou t ra

e m s u a uni ão. Não foi b e m ass i m . D e fa t o , e nt re f il o s o fi a e p o lí -

co l o c ad o no plu r a l. A

d e i ndi v ídu o s , é a n t es o i n d i v í -

a f i l o s of ia ( qu e

d en ~ do p o r e l a à m o r t e . T u do se p assa c omo se, n a i da d e

c l á ss i c a d a ci d a d e , a s e xig ê n cias d a p o l ítica se o p u sess em às d a f il o s ofia. A prese r vaçã o d a c i dade n ã o re qu e r o utra

es p e c ul a çã o a l ém d os v e lhos pr i n c í pi o s de um a moral

pr ag m á t i c a , e, p or conse guinte , pr o íb e a d o " li v re-p e nsa-

do r ", o f il óso f o : p e n sa r d e mai s , o s de u se s d a c id a d e o pro-

í b em ; p e n sa r b em d e m a i s, é uma ameaç a p a ra o e quilí- b rio e ntr e c i da d ã o s (ve j a - se a in s t it ui ção d o " o s t ra ci s mo " ); p e n sa r dif e r e nt e d e m a i s, é um a a m eaça p a r a a h a rmo ni a d a ci d a d e (ve j a m- se os num e r os o s p rocessos "a nt i int e l ec-

tu a i s " d o séc ul o V ) . Os pou cos p ensa d o r es po lít icos do

séc ul o, como P r o t ágo r as, são " es t ra n geiros" e m A t e n as , o n d e são pe r seg u idos e indici a d os p o r " i mp i eda d e " ; co mo t a mb é m o são a l g un s f il ós of os d a n a t ur eza , qu e , a ex em-

p l o d e A n ax á goras, t e n ta m fazer ca r re ir a e m A t e n as . C om S óc r a t es , nu m ce rt o se n tido , tud o mud a , e , num o utr o se ntid o , a co nt ra di ção f il oso f i a -p o l í t i ca t or n a - se ex tr e m a. T u d o mud a , porq u e e l e é , a o m es m o t e mp o , c id a d ã o a te -

fi l ó s ofo p o r exc e l ê nc i a , e, po r

ni e n se e f i l ó s o f o , e m e s m o

t

i ca , t u do se p ass ou , ao co nt rár i o,

co mo se ti vesse h av id o,

exc e l ê n c i a , o fi l óso fo d a c i d a d e . Mas o div ó rci o fi l ó sofo-

d

s d e o i n í c i o, u m i m e n s o m a l -e n t e nd i d o . O d e s comp ass o

cid a d e a t i n ge se u ponto m áx i mo : n ão so m e n t e p e l a c on -

d

as d a t as d e se u s a po ge u s r es p ec tivo s o a t es t a: a i d a d e do

d e n ação d e Sóc r a t es à mo r te , m as p o r s u a vid a , c uj a n o -

16 FRANCIS WOLFF

re-

sidia justamente

n e la. O que n ã o o impedia , s egundo Platão (Gó rg ias) , de

s e proclamar " o único homem político verdadeiro d e seu

tempo " (isto é, o único preocupado com a justiça

t a), e de se orgulhar , segundo Xenofonte ( M em ordu e is),

por homem e a cidade é a inda grande demais. O qu e e la quer é o oposto daquilo que e le lhe oferece: ela exige não uma dedu ção universalmente v á lid a, mas um a a dapt açã o à s c i r -

s obre a e s sênci a , m a s o

c un s t ân c ia s , não uma int e rrog a ç ã o

entr e o

táv e l originalidade, aos olhos de seus contemporâneos,

no fato de a política ter pouco espaço

absolu-

formar hom e n s

de Est a do. M a s a di s tânci a

s e nso das oportunidades , não o e nunci a do de uma verdade

sem concessões,

d i sc ord an te s . A e sse título , os s ofista s são o s verd a deiros

pen s ador e s

polític o s do s é culo V, e Protágoras é o verda-

m a s a soma d e pontos d e v i sta múltiplos e

d

e iro representant e da polis. Quanto ao filósofo, sua con-

d

e nação à morte p e la cidade a caba por consum a r

o di-

vó rcio e con s ign a a impo ssibilidad e

política " no grand e século d a cidad e. Inversamente , o século seguinte será o d a f ilosofia.

d e um a " filos o fia

Pois Pl a tão far á d este divórcio a sua razão de

t é ri a -prima d e sua r e fle xã o . Rea bilit a r Sócr a tes e a fil os o-

ser , e a ma-

fi a , e liminar o espectro d a cicuta, é, em primeiro

p a r a Pl a tão, tornar a filosofia totalmente política: s ua obra

m a ior , a Rep ú bl ica ( Polit eia),

p e n s áv e l ( " moral " , " met af ísic a " , " conhecimento " ,

a b a rc a ass im a tot a l i dad e do

lugar,

" arte " )

- e n ã o a pen a s " os negócios da cid a de" - a fim de lançar

a s b as es de uma cidad e ideal na qu a l os filósofos seriam

p a r a Pl a tão , tentar re conciliar a polis e a filoso-

r e i . M a s,

fi a é tam b é m , s im e tricamente , torn a r a cidade t ã o filosó-

Da política até a Política de Aristôteles

17

fica quanto possív e l; a vida de Platão é pontuad a por s uas tentativa s de fund a r em Siracusa uma cidade conforme ao ideal filo s ófico. Numa pala v ra, para Platão , a cidade digna desse nom e era filosófica, e a filo s ofia e r a inteira e

profundamente política; mas é também a razão p e l a qual nã o hd filo s of i a pol í tica propr ia me n t e dit a em Pla t ã o . En- tend a - s e : reflexão s obre a cid a de enqu a nto t a l , eng a jada nas vicissitudes imprevis í veis da hi s tória . É poi s a Polític a de Aristóteles que inaugura a filo- sofia política , just a mente no momento em que a poli s c lás - sica e stá se a cabando. Em que s entido? Primeiramente, no s e ntido de que, com Aristóre- les , a express ão " filosofia política" deixa de s er tautológica ou contraditó ria. Aquilo qu e s empre fora , em c erto senti- do , até e le. P a ra Pl a tão, por exemplo , não há filosofia polí- tica porque a política praticad a no dia-a-dia da cidade não

é da conta do filó s ofo ; qu e a filosofia s e torne política neste

s

entido, que e la se ponha na medid a das contingênci a s da

cidad e, ' seria

algo contr a ditório . Ma s é ao me s mo t e mpo

porque esta

política não é verdadeiramente política: a

verdad e ira cidad e não seria n a da m a i s do que a v erd a dei-

r a filo s ofia ; a pr á tic a p o lítica r ea l, n ã o a c a ricatura que e le

es tim a ter diante d e si, domin a da

gos, é uma questão de perfeito conhecimento, e xa usti v o e

e terno . Se é precis o p ô r o fil ós ofo à frente da s oci e d a de

( República, 47 3 c) , é porque e le é o único a poder a tingir

p e los r e tores e dem a go-

o

ser imut á v e l (484 b),

isto é , a ser capaz

de se e levar aci-

m

a d as vici s situdes do de v ir (485 b). A decisão política

bia (e ub ou lia ) é, com ef e ito , um sa ber , re s er va do ao s ra-

r os indiv íduo s su s cetíveis de estab e lecerem p a r a si como

18 FRANCIS WOLFF

objeto "a cidade em seu todo, tanto em sua orga~izaçã~

interna,

(428 b-d), pois a ciência da justiça é necessária à pr á tica

política (Górgias, 459 d) ; " a c iência do político" exige com

efeito que e le m a ntenha

e é por e ss a razão que e le po s sui a c iência suprem a . Estes

traços m a rcantes do pensa mento político de Platão s ó podem s er e s quematic a m e nte levantados a qui. M as b as - tam para mo s trar que c om Pi a rão re a liz a -s e uma tend ~ n-

cia da filosofia que de s de s ua

das coisas um ponto = vista

gir

que as a barque num saber total, imut á v e l e perfeito, que

possa pôr fim a tod a s a s contradições

gui a ~ ,

de um a vez por todas, as pr á ticas humanas. Pcpoiis, e mais

con s tituir um a o mundo do

céu e, m a i s g era lment e , d a na t urez a imut áve l: um a o rd e m

úni ca r eg ul a o mundo e h a rmoni z a o co njunto d as c oi-

s as, e o h o mem que est á e m condi çõe s d e domin a r p e lo

quanto em suas r e lações com a s outras Cidade s

s eus olhos fixos na idéia de Bem

origem é dominante: atin-

a respeito da totalid a de

e

, portanto,

geralmente a s " coi s a s humanas", n ã o pode

mundo distinto ou a ut ô nomo

em r e laç ã o

seu sab er ess a unid a d e t o t a l é a qu e m c a be condu z ir

dade, e s sa co is a entre as c oisas. Long e d e

de vist a, um pensador " du a lista", a qu e é freqüentemente

r edu z ido, é enquanto p e n sador da unid a de e da unicid a de

do m u n do - d a natur eza a t é o hom e m , d o c é u at é a t e r r a ,

da c id a d e a té o indi ví du o

d a c id a de . E e le é r e s olut o a o recu sar à id é ia de a utono-

a ci-

ser, neste p o nto

- que Pl a t ão põe o pr o bl e ma

mi a d o po l í ti co qu a lqu er p e rtin ê nci a

ma t e m á tic a, à a s tr o nom ia ou à di a l é tic a . Es t a aut o nomia

c

- sej a com r e l açã o à

o n s i g n a ri a

a derrot a d o

p e nsamen t o , ass im com o signi-

Da política até a P o l ítica de Aristôteles

19

M as a filosofi a de A ris t ó tel es p e rmitirá justamente pen-

sar e s s a autonomia. Pois e l a não sub o rdina a pr á tic a política à posse de um saber imutável, mas de qu a lidades p a rticular- mente reb e ldes ao conceito, a "prud ê ncia" e a "e x p e ri ê ncia".

E s ta é a p a nágio d a qu e les que sab em n ã o por t e rem a prendi-

do , m as por terem v ivido , poi s e l a n ão nasce da tr a n s mi ss ão do uni v er sa l , mas d a r e p e tiç ã o do p a rtic u l a r. A o co ntr ár i o d a

ciê ncia que conce r n e a o que é n e c essár io e ao qu e n ã o de- pend e d e nó s, a " prud ê n cia" ( isto é , a sa b e doria n a o rdem da aç ã o) conc e rne a o qu e é contingent e, e se ad a pt a à va riabili- dad e de indivíduos e de circunstâ n c i a s ; desse mod o, est á na medid a da c idade, n a qu a l se delib e r a sobre aquilo que pode ser diferente do que é, já que isto dep e nde de nós ( ao c o ntrá- rio do m ov imento do s a stros , que só p o demos admir a r, s em

pod er f aze r nada ), e n a qu a l nos d ef r o nt a mos com a h is tó r ia, isto é, co m a suc e s são d e e v ento s p a rticul a res. A nal isan do o

s entid o e o lugar d esse c onc e ito de "p rud ê nci a" n a filos ofi a

de A ristó teles, P. A ub e nqu e demo n s tr o u o quan t o e l e é s oli-

dário d e toda a co s m o logia do fil óso f o, que di st in g u e

d e m imutáv e l e nece s s ár i a do " mund o c e leste" (" s upr a lun ar")

e a ordem conting e nt e do mundo " t er r es tr e" ( " sublun a r " ). O acaso, a temporalid a d e , a c ircunstâ nci a não têm n e l a um lu-

ga r marginal, mas s im es sencia l , e, de c e rto mod o,

e leva do , pois são a co ndiçã o de e x i stê n c i a da liberd a d e d es te mundo : es te mundo qu e, na falt a d e s e r di v ino, é hum a no ;

dema s i a do hum a no , se m dúvid a , t e ndo em v i s t a o i de a l c on-

t e rnpla riv o , mas b e m hum a no m es m o, par a que se p ossa a gir

e es colh e r . É ne s t e mundo que a polis, a cidad e re a l , n ão um

s o nho de cidade c e l es te, e x i s te, e é e l a que o filóso fo p o der á

a or-

o m a is

20 FRANCIS WOLFF

Há , portanto, para A r is t ó reles , um a especificidade

das "coisas humanas" . E, nesta esfera, h á uma autonomia da política, especialmente em relação à ética. A "filosofia das coisas humanas", segundo a expressã o de Ari s t ó t e les

um obj e to

uno , o humano enqu a nt o

t a l , ma s qu e p o de ser foc a liza -

do de dois ponto s de v i s t a di s tintos ,

mente adot a dos p e las du as obras que conh e c e mo s co m o

( Ét . Nic ., X , 10 , 1181 b 15) , tem seguramente

qu e s ão r e s pectiva-

nome de É t ic a a N i cô ma co e d e Pol ítica. A condut a

indivíduos constitui a m a t é ri a -prim a d a é ti ca , e a his t ó ria

das cidades c om seus r e gimes con s titui

uma para outra, há múltiplos l a ços, com sentido duplo: a

- é a o m e nos o

que e l e a f i r ma no iní c i o

cia , da qu a l d e pendem o estudo e a ef e ti vação do " so b e r a -

n o bem "; o h o mem só p o d e r e a lizar s u a n a tur e z a d e h o - mem n a e p e l a cid a d e . In v er sament e , a cid a de, qu a nd o

digna d esse n o me , t e m um a f in a lid a d e a lt a m e n te

co m o Arisróteles

mais , a c o ndu t a individu a l s oment e p o d e ri a s er b oa e m

p e r-

manentem e nt e qual é a regr a e dispõem d e um poder c o- er citi v o qu a ndo f a lta v irtud e ; r e ciproc a ment e, são n eces -

sá rio s muito s l e gisl a d ores v irtu o sos

c

geral com o a u x ílio d a s lei s da cidade, qu e m ost ra m

nã o p á r a d e repetir n a P o l ítica . A l é m d o

do s

a d a polític a . D e

política continua sendo, p a r a Aristóteles

d e su a É tica -, a s uprem a c i ê n-

m o r a l ,

p ara d ar b oas l eis à

d a p o l í ti-

i dad é.

A é tic a , port a nt o , n ã o é ind e p e n d ente

ca . E a política depend e d a é tic a e m seu

dir e c i on a m e n to

t

a nto qu a nt o e m seu s mei os. N o ent a nt o, um a p a rte es -

4

É t . N i c ., X, 1 0, 11 8 0 a 21 . E ss e Ca p í rul o X, 10 d a Ét. Nic . t r a t a

d as r e l a ções t ão contr ove r t id as, em Aristóreles,

e ntr e a é ti ca e a

Da política até a P o l í tica de Aristóteles

21

s encia l d a é tica, a t é m es mo a m a i s e l eva d a , é a pol í ti ca . A vid a m a i s e levada , p a ra o Sábio, é , c o m efeito, a vid a c o n-

templ a tiv a daqu e le qu e conhece ( É t . Nic., X, 7-8),

que

dispen sa qualqu e r participação na ação polític a ; o Sá bio

v iv e só, à margem d a c id a d e , e d e l a es p e ra ap e n as

cio. I n v ersa ment e,

amo r a l. A "c i ê nc ia p o l í t ica" , c o m e f e it o , tem c o mo o b je -

to, e ntre o utro s, es tud ar friam e nt e

e d a dec a d ê ncia do s d i f e r e nt es re g im es, e pode- s e utili z ar tal conhecimento p a r a e l a bora r p o líti cas de m a nut e n çã o da o r d e m , ou par a a u x ili a r qualqu e r p o der, me s m o tirâ - nico, a se sa lvaguard ar-' . E m suma, c o m Arist ó tele s, a po-

lítica n ã o é independ e nt e

s u a a u-

ton o mia: dize r " a pol í tic a" do r a va nte tem s entido. C om a

é

si l ê n-

um a p a rte import a nte

d a pol í tic a

a s c a u s a s d a g r a nd eza

da étic a , m as a dqui r iu

Pol ítica d e Ari s t ó t e l es , a fil oso fia p ôs - se fin a lm e nte

à a l-

tura d a cid a de , d e se u lu g ar propri a mente

hum a n o

no

mund o,

m a n as ". Prim e iro liv r o d e " filo s ofia p o l í tic a' ' ", em qu e se

cru za m então, p e la p r ime i ra e úl t im a vez , es ta s du a s r o t as

gre gas qu e a t é entã o p e rma n e cia m

p a ra l e las: a filoso fi a e

e d e s eu lu gar p r ó prio n o mund o da s " co i sas hu-

a

cid a d e .

 

p

o lí t i c a . A e sse re s p ei t o , p o d e rão ser lid os os a r t i gos d e P.A u b e nq u e ,

"

Po lí tic a e é tica e m A ri s t ó t e l es" , in K t ema , Uni ve r s id a d e d e E s tr a s -

 

bur

g o , n ° 5 , 1 980 ; e a r es pos t a d e P. P e l l eg r in , n a Intr o d u ção de

 

s

u a e diç ão d e Le s P o lit iq u es, p. 24- 3 0 . P o d e r á ser co n s ul t a d a tam-

b

é m a o b r a d e R. B o d é ü s (c f R e f e r ê n c i as b i bli o gráfica s) .

O

q u e é o bj e t o d o f in a l do L i v r o V ( cap s. 8 a 1 1 ) . Sobr e o co n se -

lh

o da d o ao s tir a n o s p a r a se r es g u a rd ar e m d e p e rturb aç õ es e se d i-

ç

ões , v e r V , 1 1 , 1 3 1 3 a 3 4 e ss.

6

A p r ó p ri a e x pr essão " f i l oso f i a políti ca ' s ur ge e m I1I , 12 , 1 282 b 23.

22 FRANCIS \VOLFF

M a s o qu e isso qu e r di zer ? O q u e h á p a r a se di zer s obr e a c id a d e? Tudo d e p e nd e d a p e r g unt a que s e fi ze r , e

d a m a n ei r a p e l a qu a l se int e r roga . E i s po r qu e , se é qu e h á

m es m o um a filo s ofi a p o líti ca d e A ri s r ó t e les ,

redutí v e l a um único p ro j e to . A fil o s o fi a polític a é d es d e l ogo d e s c riti va e pr es-

cri t i v a, c om o di sse mo s . P o i s n ã o s e p o d e pro c ur a r sa b e r c omo v i ve m o s hom e n s , se m pr evia m e nt e s e t e r tom a do di s t â nci a da p ró pri a m a n e ir a d e v i v er , p a r a pod e r d esse modo objetiv á -la, ou sem conc e ber qu e s e poderia v iver de outro modo , e busc a r como v i v er m e lhor . Da polític a que se f a z at é aquela que se dev e ri a f az er h á um a pa s s~- gem n e c e ssária. Inversament e, não s e pod e bu s car qual s ep

o m e lhor regime político se m ter pr e vi a mente recens e a-

do , org a ni za do e classific a do tod o s o s regimes po s sí ve is .

e s t a n ão é

N ã o h á pre s crição sem d e scri çã o . A cr es cent e mo s qu e , n a

de

qu e t e m um a str ô nomo : , a

e s p ec ul a t iv a , v i sa o ag ir b e m ( Et.

II , 2 , 110 3 b 26 ), como a p o l í ti c a v i sa o b e m v i v er

junto s . Am b as as p reoc up açõ es, d es cr it i va e pr esc ri tiv a.

o rd e m d as " c o is a s hum a n as ",

se u o bj e to o di s tan c i a m e nt o

étic a n ã o é pur a ment e

N i c . ,

nã o s e pode ter di a nt e

o p o rt a nt o s olid á ri as , e m uit as v e zes sã o di fíc e i s d e s e

di

s tin g uir um a d a out r a . S ã o m es m o in s e p a r á v e i s, num a

f il o s o f i a qu e , c omo a d e Ar i s t ó t e l es. i d e ntifi ca a quil o qu e

é um s e r e m s u a e s s ê n c i a , e o b e m na dir eção d o qu a l e l e

t e nd e .

N ão o b s t a nt e, é in eg á v e l qu e h a ja , e m t e rmo s a b so- . luto s , du as g r a nd e s qu e s t õ es d e " f il o s o fi a p o lític a ' : " Co m o sã o as co i sa s d a c id a d e ? " e " Co m o e l a s d eve ri a m s e r ? "

Da política até a P o l í ti ca de Aristáteles

23

A d e m a i s , h á t a m b é m d o i s g r a nd es t i p o s d e pro c e-

d ime nt os

l a d o, p o d e- s e bu s car , co m o um t eó ri co , a p a rtir d as ques- t õ e s ge r a i s q ue s e po nh a m a r es p e it o d a c id a d e , di s cer nir o s f und a m e n to s d a v i d a p o lític a, r ec u a r a t é s e u prin c í pio ide a l ou a b s o lut o , pr e o c up a nd o-s e e ss e n c i a lm e nt e co m o rigor ra c ion a l , a riqu eza co n ce itu al e a s i s t e m a ticid a d e . E st a é, a li á s, a im a ge m c l á s s i c a do t ra b a lh o fil o s ó fi co. P o d e - se t a mb é m , e m a i s " p os itiv a m e nt e " , p a rtir d e r e a lid a de s e m-

piricament e con s t a t á veis ( esta ou aqu e l a c id a de , e s te ou aqu e le regime , es t e ou aquele acontecimento hi s tórico), e tentar pen s ar s u as r e l a ções, evitando qualqu e r julgamen- to ou hipótese qu e ultrapasse os dados d a pr á tica re a l. Ora,

a filosofi a polític a d e Aristóteles é or a " e s pecul a tiv a", ora " positiva ', do m es mo modo que e l a est á a nimad a por uma dupl a pr eo cup açã o, d es critiva e pre s criti va. E , um a vez

qu e pod e m os co mbin a r as duas int e n ções e o s d o i s pro-

cedim e nt o s, são qu at ro os p r o jetos d e f i l o s ofi a po l ític a q ue

p os s í ve i s : "e s p e cul a ti vo " e " po s iti v o ". P o r um

p o d em ser di s c ernido s na P o l í tica d e A ri st ót e l es: p oi s pod e-

so b re o s fund a m e nt os d a p o l í t ica co m

f in al id a d e s d e s cr iti y as ( p erg unt a r-no s, p o r exe m p l o, o que

é a c i da d e em s u a e s s ê n c i a ) ; ou pr esc riti va s ( p e r g untar - no s, p o r exe mpl o , o q u e é , e m ter m o s a b so lut os , a c id a d e

i d e a l );

d o s d a e x p e ri ê n c i a po l í ti ca c om f in a lid ad es d e s c riti va s

p or e xe m p l o, qu a i s são o s ti po s d e r eg i-

me s p o líti cos ), o u pr e s c ri t i vas ( p e r g unt ar -n os , p or ex e m-

p lo , o qu e é pr e c i s o s e r f e ito p a r a pr ese r var co ntr a a r uín a c a d a r eg im e ex i s t e nt e) .

( p e r g unt a r - n o s,

p o d emo s t am b é m n os a ter p o s iti v a m e nt e a o s d a-

m o s no s int e r r ogar

" 1

I

I

I

(~ I

J

24 FRANCIS WOLFF

Por conseguinte, proporemos o quadro ab a ixo, no

a l estão c la s sificad a s a s tend ê ncias domin a ntes dos oito

qu

li v ros da Política de A ri s t ó tel es:

PROCE D IMENTO

S PECU L ATIVO

E

PRO C EDI MEN TO PO S I TIVO

IN T ENÇÃO DES CR ITIVA

LIV RO S I e ! lI

LIVRO I V

INTENÇ Ã O PRES CR ITIVA

LIVROS n. V II e V I I I

LIV R OS V e VI

D e sse modo, o s oito li v ros ap a rec e m em quatro qu a dros

s itua do s em duas linh a s:

• O con j unt o dos li v r os r ea grupados

a linh a s uperior

n

c on s titu i um a t e ori a d os f und a mento s

d

a políti ca.

• A linha i nf e rior re a g r up a o s liv ros que co nstitu e m se denomina geralmente com o " bloco re a list a".

• O quad ro noroeste corresponde aos li vr o s de "fil os ofia

o que

a me- e, até m a i s ge ne-

ri camente , a o s pr ob l e m a s d a fi lo s o fia po l í ti ca. Um de-

lh o r i ntr o duç ã o

p

o l í tic a" no s entid o estrit o do t e rmo. Co n s titu e m

à p o l í tic a aris t oté lic a

l es ( o Liv ro I ) tr a t a d os

o utro (L i v ro III) tr a t a do s diferente s

políticos. É princip a lment e

qu e c o n sag r a rem os o re s tant e desta s p ág inas.

de um dire ciona- p osi ti v o , a ch a - se o

Livro I V, qu e re ag rup a estud os que ch a m ar í amos, e m

me nt e

difer e ntes tip os d e vi d a socia l, o

tip o s d e r eg ime s

ao cont e údo dess es livros

• No qu a d ro s udoe s t e , no cr u za mento

d es crit ivo e d e um m é todo

t e rmos m o derno s , d e s oc i ol óg icos .

Da política até a Polític a de Aristóteles

25

• O quadro sudeste corresponde aos estudos mais " maquia- vé l i cos " de A ris t ó t e l es: ac o n s e lh a r o príncipe, qu a lquer

que seja e l e ; estab e lecer e pre s ervar o s r e gime s, qu a is- quer que s ejam e les .

• O quadro nordeste correspond e aos estudos mais " idea- lis tas" da Política: r e flexão focalizada na busca da cida-

teóric a fre- surg e uma

in v e s tig a ç ã o , uma pre o cupaç ã o , como que um tom que

e vocam o s do Pl a tão d a República.

d e perfeita, ou do m e lhor regime , construção

qüentem e nt e feit a a priori. C om freq üê n c ia

Vê -se e ntão que a Política é um conjunto d e e stu-

e m que

mu i t a s di s c i plin as ( filos o fia ou "c i ê ncia s política s " , so cio-

logia ou h ist ó ria, ec o n o mia ou a ntropolo gia

d

soci a l ) po-

do s v ariados nos qu a i s os gêne ros se misturam,

e m e ncontra r

s ua s o rigens , e n as quai s poder ã o muito

bem ter-se in s pirado Mo ntes qu ieu ou R o u s s e au , M a r x ou

do

pen sa ment o gr ego pr o curaram co m freqü ê nci a d a r c o nta

d

ch egaram a t é n ós (sa b e - se qu e n ão s ão t ra t a dos d es t i na-

do s à publicaçã o , m as not as d e a ula s,

redig idas e s em dú v id a re t o m a d a s em m o mento s difer e n-

t

e v olução do próprio p e n s ament o de Ar i st ó t e les: é um a das

d a cr í tic a do sé cul o XX , a p ós os

t e nd ê ncias d o minant es

influ e ntes t r a b a lho s d e W J a e ge r. A reuni ã o de sses l iv r os,

n a ord e m qu e c onh e c emos h oje, d a t a pro vave lm e nte da

tr ês séc ulo s a p ós s ua

ed i ç ão

M a quiav e l , M . Web e r ou H. A r e ndt. Os historiadores

essa diversid a d e p e lo e s tilo d as o b ras d e A ri s t ó t e l es

que

mais ou menos

es do ensin a mento de Arist ó t e le s

no L iceu ) e p o r uma

tardi a do Corpu s a ris toré l i c o

mo r te, e com i ss o era tentador

para o s erudito s pr o por

26 FRANClS \VOLFF

Da política até a Polític a de Aristôteles

27

r e organizações dessa ordem tr a dicional, de acordo com o

que cad a um d e les e s timasse ser a ordem cronológic a . Esse procedim e nto esteve por muito tempo n a moda, mas seus resultado s foram logo conte s t a do s; hoj e , a incertez a d e les

a c a bou po r empan a r a fé no outro. Contentamo-nos em

constatar a diversid a de

Arist ó teles . A " c lassificação " que nós me s mos a c ab a mos

e o estilha çamento "da" Pol í tica de

lar es importa ntes

mente a d es orient a nt e

ou as famos as a n á lises de " econ o m i a políti c a " d os

a 11, que serão retom a d a s por Ma r x no Liv ro I d e

pontu a m a se qüência do li v ro , n o t ad a-

defe sa d a e scravid ã o ( cap s . 4 a 7),

ca p s . 8 O c a pi-

-tal, reconhec e ndo su a dívida par a com "o grand e pensa- dor que foi o primeir o a analis ar a forma v a lor, bem como

tantas outras form as , se ja d e pensam e nto ,

sej a d e s o-

d

e propor n ã o t e m qu a lquer outro objetivo, par a alé m d a

cie

d

e m as iado

s imple s opo s iç ã o entre " r e ali s mo " e "i d ea lis-

mo " , do qu e locali za r a s tend ê nci a s, i s to é , as ten sões, deste livro, e at é mesmo de qualqu e r - e s crito fil osófico s obre a

política. É pr e ciso, no entanto , completar esta tent a tiva de

r e corte da Pol í tic a e m qu a tro g r a nde s o r i e ntaç õ e s po s sí-

v eis , por meio de um re s um o a n a lítico d e s eu c o nt e údo, que dará um a idéi a m e lhor d e s u a vari e d a de.

d a de, se j a d a nature za " . Ei s o pl a no g er a l do livro:

A) A c i d a d e, a me lhor d as c o muni d a des humanas

( c ap s , 1- 2)

B) A f a mília ( ca ps. 3-1 3 )

1 . As relaçõ e s de pod e r que constituem a f a mí-

lia (C a p. 3 )

2 . A escra v idão (c a p s , 4 - 7)

3 . A gestão f a miliar ( " economia ")

4. A s outras r e laçõe s f a miliare s (c aps, 12-1 3)

( caps. 8- 11 )

L i vro 1: A c idade e a famíli a ?

e s te

lu gar e m nossas e d i çõe s, es t á

~ a e s -

sencia de t o da Vid a p o l í tica , r ecolocando- a no mt er i o r de

o utras form a s, mais e lement a res,

Qu a lqu e r

que s ej a a d a t a de su a co mpo s i ção,

\ ~ l iv ro , situ a do em primeiro

. J~'~ . 4 , 0 " " de v ido l~gar, p ~ i . s di s c er ne o fund a me ~ t o

}i

d C' f V )J l

de vid a s oci a l. O s dois

yl~ primeiros c a pítulos, que s ã o ess enciais, serão an a lisa dos

em nosso próximo c a pítulo . E ntretant o, e s tudo s p a rticu-

7 Pr o p o m os es t es tí tul o s d e ca pí t ul o s e d e li v r o s par a f a ci lit a r s u a

l e itur a . Ev id e nt e m e nt e , n ão são de Arist ót e l e s.

L

,p

\ y /~

v" ' ' ' ' ,IV

C)

q1

~ . ~

· turo : stuao crittc o aas m e nores constttutço es

,.

.

.

-

Este liv ro somente s e liga a o pr e c e dente

11 E

J

J

l'T,

~

Y ? , /

por a lgu- y

m as linh as fin ais do Li v ro I ( 1 2 60 b 2 0- 4), que tal vez te- '

nh a m sido a cr es centa d as

p a dos em d a r a impress ã o de continuidade entre doi s livros tão opostos e m espírito como e m conteúdo. Desta vez,

Arist ó teles concentr a s uas an á lise s na me lhor maneira de

v i v e r politic a mente ,

lh o r " con s tituição ".

a n á lis e crítica de con s tituiç õ es exi s tente s , a qu e l a s que ex i s -

t e m em teo r ia nos projetos do s gr a ndes reformad o re s po-

p e l os ed i tor es a nt i gos , preo c u-

i s to é , s obre a m e lhor politeia , a me-

Ne s te liv ro, cont e nta- s e

com um a

\

28 FRANCIS WOLFF

Í It i co s, n a pr i meir a fil a do s qu a i s e s t á Pl a t ã o 8 ,

q u e e s t ã o e fetiv a m e nte e m v igor na s cidades reput a da s co-

mo a s mais bem go v ern a d a s .

t u do s p a rti c ul a res,

merecem no ssa aten çã o . Por ex emp l o , a p assage m do Ca p o

8 ( 1 2 68 b 25-1269

M as exi s tem, a qui e a l i , es -

e a qu e l as

b e m c omo outr as t a nt a s in se r ções que

a 28), t ã o e s timul a nt e,

e e m ce r to s

as p e cto s t ão mod e rn a, e m que A r i s t ó te l es p e r g unta- s e

s e

é " m e lhor m u dar a s lei s, qu a ndo

s e vê - o u q u a ndo

se

acredita v er - um meio d e m e lho r á - I as",

ou se é " preferí-

ve l deix á - I a s como s ã o, ai n d a q u e p e l o

fat o de qu e são

. "9

I

eIs

.

E

i s o p l ano gera l do li vro:

A) A s c o ns t i tu iç õ es i d ea i s e m te ori a ( caps. 1- 8 )

1 . A

d a R e p ú bl ica de P l a tão ( c a p s. 1 - 5 )

2 . A d as L eis de Pla t ão ( C a p. 6 ) 3. A de F a l é i as ( C a p . 7)

4

. A d e Hip ó d a m o

(Ca p. 8)

8

Q

u e se j a l e mbr a d o o fa t o de q u e a o br a prin c ip a l d e Pl a t ão , qu e

tr

ad u z im o s p or República, e m g r ego s e d e n o min a Politeia, e q u e

s

u a ú l tim a o br a, As leis, ret o m a sobr e no v a s b ases se u pr o j e to de

co

n s t i t u i ção id ea l.

9

E

s ta p assag em f o i a n a li s ada p o r J. d e R o mi l l y, La loi dans Ia pensée

grecque, Le s Be ll e s L e m es, P a ri s, 1 97 1 ; p . 2 20 - 5 , e pr i n c i pa lm e n -

t e p o r J. Br un s c h w i g, r es pon d end o a o t e x to pr e c e d e n t e, e m "Do

m ov im e n to e da im o bilid ade da l e i " , a rti g o p ubl i c a do n a Revue

Internationale de Philosophie ( L a m é th o d o l og i e d ' A ri s t o c e , n ° 1 33-

4 , 1 9 80 ) e do qu a l tomamo s e mpre s tada a f o rmu l a ç ã o d o p r ob l ema.

Da política até a P olít i ca de Aristáteles

29

B ) As constituições r eais r eputadas c o m o as m elho res (ca p s.9 -12 )

1 . Es parta (C a p . 9 )

2 . C r e t a (Ca p . 10 )

3. Ca rtag o ( Ca p . 1 1 )

4 . A l g un s g rande s l eg i s l ad o re s (Ca p . 12 )

Livro lIJ· A

cidade, o cidadão

e

os diftrentes regimes políticos possíveis

Dedic ar emo s n os s o C a p í tu l o 3 à a n á l i se d e t a l hada de s te Li v r o lU . Eis o s eu plano de conjunto:

I

,

A ) Qu estõ es p révias a o e xame dos r e gi m e s (c a ps . 1 -5 ) y' _ ' (,; {

1. O q u e é u m cidadão ? ( c a p s. 1 e 2 )

,

,

, , ;"-\ J v

( ,

,

2

3. A v irtud e po l í tic a

. O ~ u e é a cid~~e ? ( Cap. 3 )

ap. 4 )

(C

bY'~<{V~ /

<vy\

4 . Limites da c id a d a ni a

(Ca p . 5 )

/

B ) O s dife rentes regime s ( c a p s . 6-8 )

1 . Prin c ípio d e c l a ssif i c açã o do s regim es (Ca p . 6)

2 . C l assifi cação d os re g im es (Ca p . 7)

3 . Definiçã o d a oligarquia e da demo c racia ( Ca p . 8 )

C) O p ro bl ema da justiça p o l í t ica (ca p s . 9 -1 3)

1

. O fim d a c idad e (Ca p . 9)

2.

Os d i ve r sos pr e t e nd e nte s

ao g o v e rn o (Ca p . 10)

)

3.

O gove rn o do p o v o é ju s t o? (Ca p . 11 )

I

4 . S obr e a ju s tiça política ( c a p s. 1 2- 1 3)

D ) O p r o b l ema da rea l eza ( ca p s , 1 4 a 1 7)

R e capitu l a ç ão (Ca p . 1 8)

30

FRANCIS WOLFF

Da política até a P o líti ca de Aristóteles

31

L ivro IV

Tip o s d e r e gim e

2 . A n á lise d a d e mo c r ac i a e da oli ga r q uia

naq uil o q u e tradicio -

nalm e nt e

d a P o l í tica d e A ri s t ó r e l es, e m qu e pr e domin a a o b s tin a d a

Com o L i vr o IV, e ntr a mo s

é c h a m a d o d e " bloco r ea li s t a" ( l i v ro s IV- V-VI)

~ -- a dv e rt ê n c i a

r<\J~go ga nh a d o m e t a fí s ico .

qu a nto à d iversi d a d e do s fatos. A qui o biólo-

W ]a ege r ~ o u tro s d e poi s d e l e

de p e rs?e ~ ti va a con ~ eqü ê ncia d as

n o L I c e u , que l h e

permitiram in v ent a ri a r e d escre v er 15 8 " c o n s titui çõ ~ s " , d a s

qu a i s s om e nt e

mod o qu e , na c las s ificação compl e tamente conc e ptual dos

r

empíricas d o C apít u lo IV, 3 . O s critério s a p riori do Ca - pítul o III, 8 d ã o lu ga r , q ua ndo se t r a t a d e r e tom ar um a an á li s e comp a rad a d a oli ga rqui a c om a democr a cia (e m

con-

um a c h eg ou a t é n ós, a d e A t e n as. E d es s e

v i r a m nest a mudan ça pe s qui sas f o m e nt a d as

~~ /

1\

ti

p

o r A ri s t ó t e l es

e gim e s,

no Capítulo

111, 7, opõem - se

as precisões

. ,\V- IV, 4 -6 ) , a critér i o s econômicos,

sociais ou é tni co s . O

~ / J unto

d o li v r o, a li ás, preo c u pa - se co m nu a nce s soc io l ó g i-

~,,/

V c as, o qu e m uit as vezes lh e c onf e r e um tom . r e l a tiv i ~ta , e

d

e s u as co n c l usões é qu e o m e lh o r

reg I me v a r r a de

<""V A m a

.jY. f ! Y V a co r d o ~~

if Y

co m os p o v os c o n s ider a d os

do li vr o é a nunc i a do

(Ca p . 12 ). O pl a no

2

d

(1289 b 1 2-2 6 ) , e pr oj e t a um pr og r a m a

to s, os qu a tro prim ei r os d os qu a i s s ão s uc ess i va m e nt e a b or -

d a d os nes t e li v r o, f i ca nd o o q uin to r ese rva d o p a r a o livr o seg uint e.

e conj un to

no fin a l do Ca pítul o

e m cinc o pon-

A

) O bjet i vos do e studo dos regimes (ca p s. 1 -2)

B

) A v a r i ed a d e dos tipos de reg i mes ( c a p s . 3 - 1 0 )

1 . F und a m e nto s

dessa va ri e d a d e (Ca p . 3)

( cap s. 4- 6 )

3. An á l ise d a a ris tocr a cia e do regim e con s ti t uc i o-

na l (c a p s . 7 -9) 4. A tira ni a (Ca p . 10 )

C ) O me l hor regime ace s síve l (C ap. 11)

D ) O re gimea d a p ta do

E ) O s trê s "poderes" constitu c ionais

a o tipo d e ci d a d e (caps, 12 - 13)

(ca p s, 1 4 -16 )

1

. O poder d e lib e rati vo

( C a p. 1 4)

2. O pod e r e xe cutivo ( Cap. 15 )

poder judiciário (Cap . 16)

3 . O

,~-s

L

ivr o V

Aq ui lo

q ue p rese rva e qu e de st r ó i o s re gi me s

~ ~ v

' \ .

. E s te l ivro é a seqü ê nci a lógica d~ p r eceden t e. ~~or - ,

;,~JJ

d

a o últi mo

po n to do program a anunci a do

e m IV, 2: Ex- o:

p

o r qu ais sã o os mo d os d e corrup ção e d e sa l v a g u ar d a da s )\

c o nstitui ções, tanto a qu e l es qu e lh es são c o mun s, qu a nt o

d e l as, e po r quai s ca usa s

ocorre m da man e ira m a is natur a l "( 1 289 b 22-6) . P a r a tan-

t o, pulul a m o s exe mplo s h i stó rico s, as ref e r ê nci a s g eog rá-

fic as, d e t a lh es biogr áf i cos c o n cre to s. A l é m d o m a i s, A ri s-

t ó tel es a dot a a qui um a lib er d a d e

se gur a n ça a f as t a d a d e qu a lqu e r pre co n ce it o, um

uma

os qu e sã o pr ó prios a c a da um a

d

e p e n sa ment o ,

a mora l i s m o tra nqüi l o v e rd a d e ira m e nte

vro V s e t or n a assim", co m o esc r e v e ] . A ubonn e t ,

d e s u a e d ição, "a qu e l e m a nu a l pr á ti co do h o m e m de Es-

se in s pirou p a r a

único s . "Es t e L i -

n a Not a

t a do , n o qu a l Ma qui av e l pr ovav e l m e nte

32 FRAN C I S \ V O L FF

o príncipe e para os Discursos sobre a pri:nei-:a década de

Tito Lívio. " Com freqü ê ncia ap a rentando mdlferença p a r a com a natur e z a do re g ime cuj a sal va gu a rd a se tr a t a d e as -

se gur a r , A ri s t ó t e le s multiplic a o s conse lh os .d :s tinados a os dirigente s , p a ra se prot e gerem c ontra . s e diç õ es e r ev olu- ções, na segund a parte d e ste livro. Sórdido cI~lsmo de con-

s e lh e ir o m e r cen á rio ? C on s er v anti s mo p asc a ll a no de quem, por du v id a r qu e s e po ssa fort a l e c e r a ju s ti ça, a t~rn a for-

b e m ( P as c a l , nem o outro .

çosa , a fim d e qu e haj a p az, " qu e é o sober a n o Pensées, Art. V , Laf. 81, Br. 299 )? Nem um

O

tom é dif e rente: é o tom do naturalist a que calmamen-

te

considera com o lhos também fascinados todas as cons-

tituições qu e p ô de coletar. Tendo longame~te observado

o modo

mor r em , p o de tira r de ssa e x peri ê ncia uma sabedona

ve t e rin á rio

cuidar de um sa po, de uma g az e la,

de um a s erpente,

p e lo qual os regimes e os sere s V I V OS nasc~m e

de

qu e não s e preocup a m a is em s aber se trata de

ou

de um cav alo .

A) Causas gerais das sedições ( c a p s . 1- 4 )

B) Causas das sedições de acordo com o regime e a ma- neira de se resguardar contra elas (caps . 5-1 2)

1

. Co mo morrem a s d e mocrac ias

(C ap. 5 )

2. as olig a rqui as

3

4 . Co mo p rese r va r o s dif e r e nt es r eg im es ( ca p s . ~ - 9)

( r ea l eza e tir a -

(Ca p. 6 )

11

11

as ari s tocr a ci as (Ca p. 7)

.

5 . Co mo m or r e m as m o n a rqui a s

ni a ) e co m o p rese r vá -I as ( ca p s . 1 0-11 )

pl a t ô ni ca

v olu ções (Ca p. 12 )

6. Exa m e c rí tic o d a c o n ce p ção

d as r e -

Da política até a P o l í t ica de Aristóteles

Livro VI- Como estabelecer os diferentes regimes

33

o);

'írY'1 . c~'' ,

\

Es te liv ro , que p a r ece c omple m e nt a r m a i s a s a n á li-

s es do Li v ro I V d o que as d o Li v ro V , s upõ e, no e nt a nto,

que o e s tudo

te dos regimes, tenha sido feito, uma vez qu e a gora se pre- ocup a em como fundá-Ia s da m e lhor man e ira. Aqui , o

destin a t á rio

hom e m d e E s t a d o d o qu e o " leg i s l a dor ", i s t o é, o fund a- dor d a cid a de , en c arreg a do de lhe conferir as in s titui ç õe s iniciai s mais s egura s.

ou o

d o liv ro precedente , s ob r e as c a u sas da mor-

d essas p á gin as s er á m e no s o dirig ente

Introdução: Generalidades sobre a variedade de consti- tuições e as constituições mistas (Cap. 1)

A) As democracias: o que são elas ( c a ps. 2-4 ) e como esta- belecê-Ias ( C a p . 5 )

B) As oligarquias e como estabelecê-Ias ( caps . 6-7)

C) As magistraturas (Ca p. 8)

Livro VII: A cidade "ideal"

O s liv ro s V II e V III , que fo r m a m um t o do, g e ral-

como a p a rte m a i s a ntig a d a Política,

ment e co n s id e r a d o

s

do s três livro s pr ec ed e ntes , m as qu e é comum a numero s os

a utores d a A ntig uid a de: a d es crição d a c i d a d e " id ea l " . V e r e -

m os dur a nte a l e itu ra d esse l ivro que n ã o se tr a t a d e um a

" utopia' , se e nt e nd e r mo s

qu e tud o ex i s t e p ara o m e lhor, m as , a nt es, do mod e lo d e

um a cid a de po ss í v e l p a r a um " legi s l a dor " empr ee ndedor.

e m

up õe m um a

fun çã o do di s cur s o p o lítico qu e é opo s t a à

p or i ss o um p a í s im ag in á ri o

34 FRA eIS WOLFF

A ) A vid a m e lho r (ca p s . 1- 3)

B) D e scri ção d a me lhor c i dade ( c a p s. 4-7)

1 . De n s id a de

d e mo gráf i c a (Ca p . 4 )

2 . E x ten são t e rrit o r i a l

3. Ac e s s o a o m a r ( Cap. 6) 4. Po v o a m e nt o e n a cion a lid a d e

(Ca p . 5 )

(Ca p . 7)

C) Or ga ni zaçã o d a me l h o r c id a d e ( c a p s . 8 a 1 7)

1 . A s c la sses soc i a i s e s u as fun çõe s ( c a p s , 8 -10 )

2

3. Ed u cação ( c a ps. 1 3 a 1 5 )

4 . Co nt ro l e dos casame nt os, nasc im e nt os e da p r i-

. Ur b anismo

( c a p s , 11-12 )

meira idad e (caps . 1 6- 1 7)

Livro VIII: A educação na cidade ideal

, /I

7\.ç ão ini c i a d o no C a p ítul o

Es t e l iv r o é a s e qü ê n c i a d o . t ra t ado so br e a e du ca -

C o m o

1

3 d o li v r o pr ~ced e nt e .

. ,/;9-

r"

ob s er va J. A ubonn e r , " co mpõ e - se ess e n c i a lm e nt e

post as d a d as à s tr ê s qu e s tõ es c ol o c a d as no fin a l do L~ v ro

VII , a sa b e r: 1) A e duc aç ão d as cri a n ças deve se r o bjeto

2) E s sa e ducaç ã o deve s e r pú-

de um a r eg u l amenta çã o ?,

d e ""

bli ca o u

priv a d a? , 3) S ob qu e form a

A) A

e du caçã o e m ge r a l (ca p s. 1 a

d e

·

e ve s er re i t a .

3)

? "

B ) A ginás tic a (Ca p. 4)

C) A música ( c a p s . 5 a 7)

A br a mo s ago r a a P o l ític a.

Prim e iro livr o , prim e ir a fra s e

A felicidade de se viver junto

Análise dos dois primeiros capítulos da Política

o PRI M E I RO CA P Í T U LO

T e se g era l

1 e 2 d a P olític a de A ri s t ó t e l es e s t a be-

l ecem o s funda m e n tos de toda s u a filo s ofi a po l í ti ca . C ons -

tit uem u m todo, e este todo já e s tá de a lgum mo d o contido

na primeir a fra s e: e s t a es b oça um r a cio c í nio cujo s s up o rte s

Os ca pítu lo s

e

con s eqü ê ncias se r ã o d e sen v ol v ido s n o conjunto do s doi s

c

a pítul o s, e, a l é m di s s o , a nuncia a s u a c o n c l u s ão ,

qu e é a

tese d o min a nt e d a Po l ítica. Ei - l a : " A c id a d e t e m p o r fin a - lid a d e o so b e r a no b e m " .

Es t a c o n c l u sã o fund a men ta- se e m tr ês p r emi s s as :

1 . " A cid a d e é um a ( um certo tipo de) comunida-

d

e " ( 1 252 a l ) .

2.

" T o d a comunid a de é con s titu í d a e m ce rto b e m " ( 1 2 5 2 a 2 ) .

vi s t a d e um

3.

" D e t o d as as co munid ad es,

a c id a d e é a m a is s o-

b

e r a n a e a qu e l a qu e in c lui t o d as a s o utr a s " ( 1 2 5 2

a3 - 5 ) .

Di

ss o s e d e p ree nd e

f ac ilm e nt e qu e o b e m p r ó p ri o

v isa do p o r e ssa c o m u ni d a de s o b era na é o b e m sober a no .