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Zelia Gattai - Anarquistas Graças a Deus

Zelia Gattai - Anarquistas Graças a Deus

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O grupo saiu de casa, como previsto, muito antes da hora costumeira e eu fiquei
entregue aos cuidados de vovô Eugênio, pai de mamãe, que passara a morar conosco
desde a morte de vovó Josefina. Chorei baixinho, arrasada, vendo a caravana partir. Não
me consolou o olhar penalizado de Maria Negra — a única a se preocupar comigo —, ao
contrário, me fez ainda mais infeliz.
Papai havia saído à tarde, não voltara para jantar. Minha esperança era de que
ele chegasse logo, queria desabafar minha mágoa. Sabendo que encontraria nele ora
peito aberto, resolvi esperá-lo no portão da rua. Ali me plantei, encostada às grades de
ferro, e depois de longa espera, cansada, resolvi sentar-me na borda da janelinha do
porão, à sombra de uma enorme árvore da rua. De repente parou um carro, papai saltou
dele. Não perdi, tempo, rompi num pranto convulso. Papai aproximou-se: quem chorava
ali, daquele jeito?

—Ê você, minha filha? — perguntou-me alarmado. — Por que é que está

chorando aqui na rua?

Os soluços quase me impediam de falar.
—Foram todos para o cinema e me deixaram sozinha em casa... —: desabafei.

—E o Nono não está?
—Está dormindo...
—Vamos lá pra dentro, você vai me contar tudo direitinho, o que foi que te

fizeram.

A par do sucedido, enxugando com um lenço as lágrimas de sua inconsolável

caçula, falou-me:

—Vá depressa se arrumar, passe água na cara e vamos dar uma lição naquelas

mulheres malvadas.

Não esperei segunda ordem, entrei em meu quarto, ligeira, apanhei um gorro de
crochê de lã, verde com listas vermelhas, enterrei-o na cabeça, quase até os olhos, enrolei
no pescoço um cachecol preto e verde de papai, e me apresentei:
—Pronto!
Saímos de mãos dadas, papai aquele gigante, eu lá embaixo. Coisa boa ter um

pai daqueles!

—Agora nós vamos comprar uma frisa para nós dois. Quero ver a cara delas
quando descobrirem a gente lá... — Papai ria divertindo-se com seu plano, contente de
sentir a minha emoção, de poder me vingar e, sobretudo, de ter conseguido secar minhas
lágrimas, de me restituir o riso.

A sessão começara havia muito. O "natural" já terminara — graças a Deus! — e a
fita cômica chegava ao fim. Coisa mais estranha! Não havia o barulho costumeiro que
provocavam as comédias, apenas algumas gargalhadas. O maxixe que
acompanhava a fita era ouvido perfeitamente, o violino de Carmelti fazendo misérias. O
cinema estava repleto, sobravam apenas algumas frisas vazias. Bem razão tinha Terêncio
ao anunciar à Vera que naquela noite as crianças iriam cedo para a cama. Segundo as
teorias de mamãe, "vítimas dos sanguessugas do povo".
Que delícia estar ali naquela frisa acima da platéia, ao lado de meu pai! Puxa! Eu
nunca sonhara com tal coisa! Meu interesse pela comédia, naquele momento, deixara de
existir. Tudo o que eu desejava era o acender das luzes.
Por fim a sala clareou. A primeira a nos descobrir — não podia ser outra — foi

Vera. Deu um grito!

—Olhem só papai com a Zélia numa frisa!
Gritou e veio correndo.
—Aqui ninguém senta — foi anunciando papai, categórico.
— Esta frisa é só de nós dois. Pode ir correndo dizer à tua mãe e às outras. Aqui

não entra mais ninguém.

Meu coração estourava de contentamento. Pena não estarem presentes as
crianças com quem eu disputava sempre. Haviam de morrer de inveja.
O recado de papai deixou mamãe contrafeita. "Homem mais sem juízo!" Fazendo-
lhe as vontades desse jeito, acaba estragando a menina. Aliás, já está estragada. Se

Ernesto estava pensando que ela desejava sentar em frisa, estava redondamente
enganado. Para ela, Angelina, bastava a cadeira comum. A fita era a mesma tanto para os
"burgueses" das frisas quanto para os "proletários" das cadeiras.
Esses recados insultuosos — e outros mais — foram transmitidos por Vera, tintim
por tintim, num leva e traz de não acabar, até a hora de recomeçar a sessão.
Assisti a todos os lances do diabo e da sombra até o fim. Nessa noite não dormi
nem no cinema, nem na cama, mais tarde. Fita mais apavorante! Mamãe tinha razão. O
diabo a colocar um candelabro com velas acesas atrás do violinista durante o seu
concerto, no palco, para que todos percebessem que o músico já não possuía sombra.
Devia ser horrível uma pessoa não ter sombra. Nunca pensara nesse problema antes.
Jamais confessei a ninguém, muito menos à minha mãe, o medo que senti ao ver

Petrolini transformado em diabo.

Voltei para casa de mãos dadas com papai. Eu lá embaixo, ele um gigante quase
alcançando o céu, me protegendo. Sempre me protegeria — disso estava certa — com sua
força e sua bondade, contra todas as injustiças, contra qualquer diabo que quisesse se
apoderar de minha sombra.

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