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COLEÇÃO HABITARE

HABITAÇÃO E ENCOSTAS
Flavio Farah

Grupo Coordenador

Programa de Tecnologia de Habitação HABITARE


D esde 1994, com financiamento e coordenação da
Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP/MCT), o
Programa de Tecnologia da Habitação (Habitare) vem
alavancando projetos de pesquisa em busca de soluções
para um dos principais problemas brasileiros. E sabemos
que, tão importante quanto financiar esses projetos, é
difundir seus resultados. Por isso, perseguindo o objetivo
de fazer com que o Programa Habitare seja o promotor de
um desenvolvimento científico e tecnológico que
contribua com a redução do déficit habitacional brasileiro,
o Grupo Coordenador do Programa lança a Série Coleção
HABITARE.

A série surge logo após o lançamento do Portal Habitare


(http://habitare.infohab.org.br/). Enquanto o portal vem
permitindo a transformação dos principais resultados das
pesquisas em reportagens, a Série Coleção HABITARE vai
permitir a publicação de obras com autoria das próprias
equipes de pesquisa. Assim, acreditamos estar abrindo um
novo canal para difusão dos resultados gerados em mais
de 40 projetos, desenvolvidos em áreas como
Disseminação e Avaliação do Conhecimento Disponível,
Construção e Meio Ambiente, Utilização de Resíduos na
Construção, Proposição de Critérios de Urbanização,
Normalização e Certificação, Inovação Tecnológica,
Avaliação de Políticas Públicas, Avaliação Pós-Ocupação e
Gestão da Qualidade e Produtividade.

Trata-se de mais uma estratégia que leva em conta a


importância de que os projetos contemplados tenham
desdobramentos, pois o Habitare é só o pontapé inicial de
iniciativas que devem chegar à sociedade.

Grupo Coordenador
Coleção HABITARE/FINEP

HABITAÇÃO E ENCOSTAS
Flavio Farah

São Paulo
2003
© 2003, Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Editores da Coletânea HABITARE
Paulo S.A. - IPT Roberto Lamberts – UFSC
Av. Prof. Almeida Prado, 532 - Cidade Universitária "Armando de Maria Lúcia Horta de Almeida - FINEP
Salles Oliveira" - 05508-901 - São Paulo-SP ou
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Tel: (11)3767-4000 - fax (11)3767-4099 Ana Maria de Souza
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Diretor: Fernando de Nielander Ribeiro (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Área de Instituições de Pesquisa/AIPE


Farah, Flavio
Superintendente: Maria Lúcia Horta de Almeida
Habitação e encostas / Flavio Farah.
São Paulo : Instituto de Pesquisas Tecnológicas, 2003.
Grupo Coordenador do Programa HABITARE
(Publicação IPT ; 2795)
Financiadora de Estudos e Projetos - FINEP
312p.
Caixa Econômica Federal - CEF
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - Bibliografia.
CNPq ISBN 85-09-00120-0
Ministério de Ciência e Tecnologia - MCT
Associação Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído - 1.Encostas (Geografia física) 2. Habitações 3. Política
ANTAC habitacional I. Título II. Série.
Secretaria Especial de Desenvolvimento Urbano da Presidência da
República - SEDU 02-3435 CDD-690.8
Serviço Brasileiro de Apoio à Pequena Empresa - SEBRAE
Comitê Brasileiro da Construção Civil/Associação Brasileira de
Normas Técnicas - COBRACON/ABNT Índice para catálogo sistemático :
Câmara Brasileira da Indústria da Construção - CBIC 1. Habitações em encostas : Tecnologia 690.8
Sumário
Agradecimentos
Apresentação
Introdução
1. Encostas, cidades e sociedades 14
1.1 O “admirável mundo plano” 19
1.2 O Brasil e sua capital ingressam no mundo moderno 24
1.3 A segregação da pobreza 28
1.4 Os desastres 31
1.5 Desastres naturais e encostas: o quadro internacional 33
1.6 Aproximação a um quadro nacional 37
1.6.1 Mortes 38
1.6.2 Prejuízos materiais e transtornos sociais 38
1.6.3 Tendências de agravamento da situação 40
1.7 Efeitos indiretos da ocupação inadequada de encostas no Brasil 42
1.8 Instabilizações em encostas: desastres naturais? 43

2. Ocupação urbana e estabilidade de encostas 46


2.1 Considerações Preliminares 47
2.2 Formação, características, inserção e estabilidade das encostas 48
2.2.1 Características Geométricas 48
2.2.2 Características Geológicas 49
2.2.2.1 Encostas em solos residuais 50
2.2.2.2 Encostas em bacias sedimentares 51
2.2.3 Ambiente fisiográfico 52
2.2.4 Processos naturais de instabilização de encostas 52
2.2.4.1 Erosões 53
2.2.4.2 Rastejos 53
2.2.4.3 Escorregamentos 54
2.2.4.4 Quedas e tombamentos 54
2.2.4.5 Rolamentos de matacões 55
2.2.4.6 Corridas de massa 55
2.2.5 Ocupação urbana e instabilizações em encostas 55
2.2.5.1 Ocupação urbana e erosão 56
2.2.5.2 Ocupação urbana e rastejos 58
2.2.5.3 Ocupação urbana e escorregamentos 58
2.2.5.4 Ocupação urbana, quedas de blocos e tombamentos 59
2.2.5.5 Ocupação urbana e rolamentos de matacões 59
2.2.5.6 Ocupação urbana e corridas de massa 61
2.2.6 Ocupação urbana e instabilizações em encostas em solos transportados
e residuais: a Região Metropolitana de São Paulo 62
2.3 Instrumentos de orientação à ocupação 64
2.3.1 Cartas Geotécnicas 64
2.3.2 Levantamentos locais 69

3. Legislação e ocupação de encostas 72


3.1 Legislação de natureza ambiental 75
3.1.1 Leis ambientais e encostas 75
3.1.2 Legislação ambiental e realidade 79
3.2 Leis relacionadas ao uso do solo urbano 82
3.2.1 Legislação, sistema viário e encostas 84
3.2.1.1 Leitos carroçáveis 87
3.2.1.2 Passeios 88
3.2.1.3 Declividades de vias 90
3.2.1.4 Traçado viário 93
3.2.1.5 Uso de unidades habitacionais com acesso exclusivo por vias para pedestres 94
3.2.1.6 Percurso horizontal máximo, em vias para pedestres 95
3.3 Legislação, insolação e encostas 96
3.4 Aproximação a uma legislação específica para assentamentos habitacionais de interesse
social em encostas 97
3.4.1 Uso intensivo de unidades atendidas exclusivamente por vias para pedestres 99
3.4.2 Larguras de vias para pedestres 100
3.4.3 Número de vagas de estacionamento frente ao número de unidades habitacionais 100
3.4.4 Desnível máximo a tolerar entre a soleira de uma unidade habitacional atendida
exclusivamente por via para pedestre e o último ponto atendido por acesso a veículo 101
3.4.5 Percurso horizontal máximo, em vias para pedestres 101
3.4.6 Declividades e larguras de vias para veículos 102
3.4.7 Dimensionamento de dispositivos de manobra para veículos 102
3.5 Diretrizes para técnicas para legislação específica para empreendimentos
habitacionais de pequeno porte em encostas 103
3.5.1 Criação de legislação específica para empreendimentos habitacionais de interesse social
em encostas 103
3.5.2 Estabelecimento de mecanismos que assegurem a pronta atuação do Poder Público
Municipal sobre assentamentos precários emergentes em encostas 104
3.5.3 Estabelecimento de procedimentos e critérios para a elaboração de projetos 105
3.5.3.1 Requisitos quanto à elaboração de diretrizes geotécnicas detalhadas para o
balizamento ao projeto 105
3.5.3.2 Fixação de critérios urbanísticos e edilícios específicos 107
3.5.4 Estabelecimento de mecanismos para o monitoramento permanente das ocupações
condominiais em encostas 110

4. Os resultados desastrosos da ocupação de encostas no brasil e seu enfrentamento 112


4.1 Os espaços habitacionais produzidos e seus resultados 113
4.1.1 Conjuntos habitacionais e encostas 115
4.1.1.1 A rígida padronização de edifícios 115
4.1.1.2 Os viários dos conjuntos: superdimensionamento e baixa utilização efetiva 124
4.1.1.3 Conjuntos habitacionais, encostas e meio ambiente 126
4.1.2 Loteamentos, auto-construção e encostas 128
4.1.3 Favelas e encostas 132
4.2 O enfrentamento técnico dos problemas instaurados 135

5. Método para o projeto habitacional em encostas 142


5.1 Caracterização geral de método para projetos habitacionais de pequeno porte em encostas 145
5.2 Método para levantamentos expeditos de condicionantes do meio físico 147
5.3 Método para análise de condicionantes do meio físico e geração de recomendações para o projeto 157
5.4 Método para a elaboração do projeto propriamente dito 161
5.4.1 A interdisciplinaridade como método 161
5.4.2 A concepção de unidades habitacionais 163
5.4.3 A concepção da implantação (projeto urbanístico) 170
5.5 Projetos para encostas e insolação 173

6. Alternativas de projeto para a ocupação de encostas: Proposições estrangeiras e nacionais 178


6.1 Proposições de profissionais de projeto estrangeiros 181
6.1.1 Projetos de cunho urbanístico 181
6.1.2 Projetos de cunho localizado 192
6.2 Proposições de profissionais de projeto brasileiros 198
6.3 Diversificação de tipologias habitacionais e a administração paulistana 1989/1992 206
6.4 Considerações sobre os projetos estudados 209
7. Tipologias de habitações para encostas desenvolvidas pelo IPT 212
7.1 Tipologias associadas à Carta Geotécnica dos Morros de Santos e São Vicente 214
7.2 Sistema construtivo em madeira de reflorestamento: ocupação de encostas em
Campos do Jordão - SP 218
7.3 Tipologias associadas à Carta Geotécnica de Petrópolis 222
7.4 Tipologia desenvolvida para ocupação do Morro do Ilhéu (Santos – SP) 230
7.5 Tipologias desenvolvidas para pequenos terrenos fictícios 232
7.5.1 Projeto 1 – Sistema de casas escalonadas e sobrepostas 233
7.5.2 Projeto 2 – Sistema de casas geminadas sobrepostas 234
7.5.3 Projeto 3 – Prédios de implantação flexível 235
7.6 Tipologias desenvolvidas para áreas situadas em Jacareí - SP 236
7.6.1 Tipologia para o Jardim Colinas 238
7.6.2 Tipologia para o Parque Imperial 239
7.6.3 Tipologia para o Jardim Maria Amélia I 241
7.6.4 Tipologia para o Jardim Maria Amélia II 243
7.7 Anexo de desenhos 245
Conclusões 294
Bibliografia 302
Siglas 310
Agradecimentos

R
egistram-se aqui sinceros agradecimentos a todos que, direta ou indiretamente,
contribuíram para a concretização desta publicação.

Agradece-se, em especial, à FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos), que, através do


FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) no Habitare (Programa
de Tecnologia de Habitação), conjuntamente com a CEF (Caixa Econômica Federal), permitiu o
desenvolvimento de pesquisa que alimenta, em parte, a presente publicação.

Agradece-se também, em especial, ao Prof. Dr. Sylvio de Barros Sawaya, orientador do autor
em seu doutoramento. A Tese de Doutoramento por ele orientada – Habitação e encostas - alimenta
boa parte desta publicação.

Agradece-se a todos os colegas e ex-colegas do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas)


que participaram, ao longo de décadas, de diversas experiências com ocupações em encostas,
permitindo acumular o conhecimento que, em parte, compõe o presente trabalho. Em especial,
agradece-se ao Geólogo Fernando Luiz Prandini (in memorian), aos Geólogos Márcio Angelieri
Cunha, Valdir Akihiko Nakazawa, Oswaldo Iujiro Ywasa, Leandro Eugênio da Silva Cerri, Antonio
Manoel dos Santos Oliveira, Omar Yazbek Bitar, Carlos Geraldo Luz de Freitas, Agostinho Tadashi
Ogura, Oswaldo Augusto Filho e Eduardo Soares de Macedo. Agradece-se também aos
Engenheiros Claudio Michael Wolle, Geraldo Figueiredo de Carvalho Gama Jr., Luiz Claudio
Rosa da Silva, Pedro Alexandre Sawaya de Carvalho e Ricardo de Sousa Moretti.

Agradece-se à Prefeitura Municipal de Jacareí, que forneceu apoio para a seleção de áreas
em encostas para projetos de tipologias no município (e nos levantamentos que se fizeram
necessários). Em especial, agradece-se à Engenheira Ana Thereza Prazeres de Lemos, à arquiteta
Rosa Kasue Saito Sasaki, e a Senio Pedro Lapinha (da Fundação Pró-Lar).
Apresentação

E
sta publicação resulta da fusão de dois trabalhos, a saber:
- a Tese de Doutoramento do autor, denominada “Habitação e encostas”, concluída em
fevereiro de 1998, no âmbito do curso de pós-graduação “Estruturas Ambientais Urbanas”,
da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo; e
- a pesquisa “Desenvolvimento de tipologias para habitações de interesse social em encostas,
sistematização de procedimentos para sua concepção e subsídio à revisão de critérios urbanísticos
aplicáveis”, concluída em fevereiro de 2002. Tal pesquisa foi desenvolvida no IPT (Instituto de
Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo), com recursos da FINEP (Financiadora de Estudos
e Projetos, através do FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), do
programa HABITARE, e da CEF (Caixa Econômica Federal).
No conjunto, o trabalho apresentado nesta publicação trata da questão da ocupação de encostas
no Brasil, em abordagens que abrangem desde aspectos históricos, sociais, legais, políticos e
econômicos aos aspectos essencialmente técnicos ligados ao assunto.
Na pesquisa realizada com o apoio da FINEP e da CEF, anteriormente mencionada, possibilitou-
se, principalmente, sistematizar e consolidar metodologias de abordagem para o projeto habitacional
em encostas, que vêm se delineando, no IPT, pelo menos a partir da década de 1970, e que não
haviam sido ainda apresentadas, de forma organizada, de maneira a atingir de maneira ampla o
público envolvido na questão, em particular arquitetos, engenheiros e geólogos, conduzindo a uma
desejável ação integrada destes profissionais na concepção de novos assentamentos habitacionais
em morros.
Para a consolidação da metodologia, a pesquisa desenvolvida utilizou, como expediente, a
produção de tipologias habitacionais para áreas reais em encostas, situadas no município de Jacareí
(SP). Em tais áreas foram aplicados e aperfeiçoados métodos de levantamentos, processando-se, em
seguida, as informações obtidas e gerando-se diretrizes para o projeto. Seguiram-se então fases de
produção e aperfeiçoamento dos projetos, sempre através de discussões interdisciplinares,
aperfeiçoando-se também os próprios métodos de trabalho. Possibilitou-se ainda, com base nos
projetos desenvolvidos e em seu cotejamento com a legislação paulistana concernente ao assunto,
assim como a adotada em Jacareí, delinear os quesitos desejáveis para a revisão ou elaboração de
diretrizes para leis específicas para a concepção de assentamentos habitacionais destinados a encostas.
Introdução

E
ste livro trata da ocupação de encostas com uso habitacional de interesse social. Sua
motivação básica decorreu da experiência de uma instituição - o IPT (Instituto de Pesquisas
Tecnológicas do Estado de São Paulo) que, amiúde, em algumas gerações de técnicos e
pesquisadores, auxiliando o Poder Público, prestou assistência à recuperação de inúmeros
assentamentos habitacionais sinistrados por instabilizações em encostas.
O contato diuturno da Instituição com este tipo de desastre levou, além da triste e óbvia
constatação de que as encostas afetadas poderiam ter sido ocupadas de forma mais adequada, à
busca do desenvolvimento de instrumentais que permitissem melhores critérios na ocupação.
Assim, ainda na década de 1970, o IPT disponibilizava, pela primeira vez no Brasil, uma carta
geotécnica para áreas urbanas, elaborada para os morros de Santos e São Vicente.

Capaz de encaminhar ocupações mais seguras para a ocupação de alguns dos morros da
Baixada Santista, a Carta foi, porém, “esquecida” por longo período, sendo seu uso parcialmente
ativado, somente quando da elaboração do Plano Diretor de Santos, em meados da década de
1980. Sintoma claro do descompasso entre os benefícios da produção técnica e sua efetiva absorção
pela coletividade, este fato, isoladamente, ilustra apenas a ponta do iceberg que constitui o pouco
caso com que tratamos o desenvolvimento de nossas cidades e, em particular, a ocupação de
encostas.

No que diz respeito aos setores habitacionais destinados às camadas de população de baixo
poder aquisitivo, as cidades brasileiras, em geral, refletem muito mais a improvisação e o laissez-
faire que, propriamente, o avanço do conhecimento e da tecnologia aplicável à orientação do
desenvolvimento urbano. Acumulamos, com o descaso com o crescimento desordenado de nossas
cidades, prejuízos para várias gerações, que se evidenciam tanto através de episódios de desastres
(como inundações, escorregamentos em encostas etc.), como na geração de paisagens urbanas
cada vez mais comprometidas e deterioradas, onde a improvisação, aqui no seu pior sentido,
impera.

No caso de encostas, o laissez-faire cobra preços elevados. Não afeta somente o pobre indivíduo
que, durante uma noite chuvosa, sente um baque surdo, seguido dos ruídos da destruição e, antes
mesmo que compreenda o que está acontecendo, tem sobre si algumas toneladas de escombros e
de terra. Este indivíduo, mesmo que por sorte escape com vida, perde o eventual patrimônio que
conseguiu acumular. Tais desastres afetam também, pesadamente, os cofres públicos. Desde a
dramática tentativa de resgate de eventuais sobreviventes soterrados, até os investimentos, (em
geral elevados,) na posterior recuperação e estabilização do terreno e na eventual introdução de
melhorias urbanas no setor habitacional atingido, compromete-se muito tempo e dinheiro, e com
resultados quase sempre longe dos ideais.

Ao mesmo tempo, aos desastres nas encostas, assim como à simples presença de solos
expostos à erosão nos morros, justapõe-se o assoreamento dos fundos de vales e várzeas, criando-
se condições mais favoráveis à ocorrência de inundações nas baixadas.

No Brasil, a ocupação de morros com habitações, seja através de processos formais, seja
através de processos com diversos graus de informalidade, tem-se dado, principalmente, em padrões
que variam entre o inadequado e o perigoso. Isto tende, no meio técnico e acadêmico, a propiciar
reflexões sobre diversos dos aspectos envolvidos.
Vivemos num país cujo processo de ocupação incluiu o nascimento de inúmeras cidades em
regiões com importante presença de morros. Na formação das cidades brasileiras verifica-se ainda
uma perversidade na distribuição social dos terrenos. Em regiões com morros, os eventuais trechos
planos dos sítios originais são logo engolfados pela indústria imobiliária. Tendem a restar, para os
mais pobres, justamente os terrenos mais problemáticos, aí incluindo os situados em encostas.

O próprio Estado, em seus empreendimentos habitacionais de interesse social, mormente a


partir da década de 1980, passa a ocupar terrenos mais acidentados, experimentando também
sérios reveses ou originando prejuízos ambientais relevantes, como no exemplo clássico do Conjunto
de Santa Etelvina, construído, pela COHAB-SP (Companhia Metropolitana de Habitação de São
Paulo) na zona leste de São Paulo. Em função de projeto típico para terreno plano e que, até hoje,
é utilizado largamente em qualquer tipo de terreno, a implantação do conjunto de Santa Etelvina
envolveu uma movimentação de terra equivalente à quarta parte da necessária para a construção
da hidrelétrica de Itaipu. O conjunto acabou sofrendo intensos processos erosivos, redundando
na perda de inúmeras unidades habitacionais e em danos ambientais impressionantes.

Busca-se inferir, no breve panorama até aqui apresentado que, no Brasil, em formações
urbanas situadas em regiões com morros, há uma pronunciada tendência de se encontrar nas
encostas justamente a população de menor poder aquisitivo. Cabem os piores terrenos aos que
têm menos recursos financeiros e técnicos para a construção de moradias, sejam elas simples
barracos em áreas invadidas, sejam casas humildes, produzidas através da autoconstrução, nos
chamados loteamentos populares, seja até mesmo, como foi dito, em casas construídas em
programas habitacionais do Estado.

Se a situação poderia, pelo menos num plano teórico, ser revertida por diretrizes gerais de
planejamento urbano que, por exemplo, reservassem as áreas planas para setores habitacionais
destinados à população de baixa renda, nossa realidade acaba refutando tal possibilidade. Os
interesses imobiliários e a tendência de valorização, com rápido esgotamento dos “bons terrenos”
tendem a reservar a distante periferia ou o refugo da terra urbana para a pobreza. Assim segue, de
forma praticamente inexorável, a tendência de que encostas, no Brasil, sejam progressivamente
ocupadas por setores habitacionais de baixa renda, formais ou informais.

Tendo este quadro por pano de fundo, desenvolveu-se o trabalho adiante apresentado.
Permanece, porém, a triste consciência de que, ao mesmo tempo em que se procede uma abordagem
técnica da questão, nossas reflexões estão sendo atropeladas por uma vigorosa realidade, onde
milhares de habitações “penduradas” em morros estão surgindo, na maior parte das vezes à
revelia de qualquer critério técnico, acumulando áreas de risco e permitindo a antevisão de um
quadro cada vez mais preocupante para o futuro.

Resta apenas torcer para que as contribuições deste trabalho e de tantos outros similares
venham a se incorporar em algum plano político, com maior desejo de ver efetivamente resgatada,
pelo menos, esta parte da imensa dívida social que se acumula em nosso país.
14

1.
Coleção Habitare - Habitação e Encostas
1.
Encostas, cidades e sociedades

A
inadequação da ocupação urbana, no Brasil, com certeza extrapola as encostas. Se fossemos,
porém, enquadrar o presente trabalho num espectro tão amplo, poderíamos iniciar dizendo que
a inadequação de nossos preceitos urbanísticos e também de nossa sensibilidade social ficam
mais claramente desmascarados nas encostas.

À luz de condicionantes sócio-espaciais e de aspectos da formação da cultura técnica que pautam o

desenvolvimento da cidade formal brasileira, tratados de forma intercalada, busca-se fornecer, neste capítulo,

elementos para a compreensão das determinantes da forma da ocupação de encostas no Brasil, apontando- 15

se que, nas origens sociais e técnicas da questão, há fatores que tendem a encaminhar fatalmente a inadequações.

Isto é feito através da observação de alguns dos aspectos da evolução de algumas das cidades brasileiras,

com algum privilégio ao Rio de Janeiro, como se verá mais adiante. Atribua-se, porém, um caráter generalizante

às particularidades. Pretende-se falar, através de exemplos significativos, de como se desenvolvem nossas

principais cidades com encostas e, em seguida, mostrar que efeitos as ocupações inadequadas têm gerado.

Do ponto de vista sócio-espacial, a maioria das grandes cidades brasileiras experimentou, em algum

Encostas, cidades e sociedades


momento, uma cisão, dando origem a “duas cidades”: uma concêntrica com a primeira, podia ser construída. Neste
formal, teoricamente pautada por preceitos urbanísticos e mesmo período, em cidades mercantis litorâneas, às vezes
legais, e outra destinada às classes mais pobres, implantadas em estreitas planícies logo confinadas por
compreendendo desde ocupações com diversos níveis de montanhas, as encostas tendiam igualmente a sediar a
formalidade (estas, no geral, segregadas através da ocupação urbana. Muitas são as cidades medievais
distância), até a mais precária das ocupações informais - a remanescentes em encostas - por toda a Europa, Oriente
favela. Favelas ocupam vazios urbanos, muitas vezes Médio e Norte da África - que se encontram até hoje
constituídos por morros ou áreas inundáveis sem interesse seguras, pelo menos do ponto de vista da estabilidade
para a especulação imobiliária, até mesmo em regiões mais geotécnica.
centrais das cidades. Em muitos casos vão galgando os
Desde o período colonial o Brasil também já
morros, em impressionantes desafios ao perigo, que nem apresenta também inúmeras ocupações urbanas em
sempre são recusados, como será visto ao final deste
encostas. Herança da não distante Idade Média, a tradição
capítulo. E já se ocupou bem encostas, em outros períodos de escolha de sítios elevados, por requisitos militares de
históricos, tanto no Brasil quanto na Europa, berço de
defesa, desembarcou com os portugueses. Neste sentido,
muitos dos conceitos urbanísticos que herdamos. MARX (1980)1 , p.20, assinala:
Ocupações urbanas em encostas foram bastante
“Se os portos bons atraíam os portugueses, eram atraentes também
comuns, por exemplo, na Europa da Idade Média. Neste
para os seus rivais. Por isso, além do remanso importava
período, a busca de sítios de implantação que propiciassem
igualmente a defesa. Os costumes da metrópole assentados na
segurança do ponto de vista militar valorizava, entre outros
Idade Média se transpunham para cá. Assim, a concepção mais
sítios estratégicos, os topos de colinas ou de montanhas,
imediata da proteção de uma praça forte foi dificultar o assédio
de onde a defesa era facilitada: a visão de eventuais
do inimigo através das escarpas e dos canais. A construção de
movimentos inimigos era completa e o acesso ficava
cidades em acrópole se impôs.”
16 dificultado aos incursores. Nos cumes implantavam-se
castelos, mosteiros ou bispados, com guarnições militares Caracterizada por um profundo apego à costa,
e, ao redor de muitos destes, protegidas por muralhas, manifestando um vínculo duvidoso às novas terras e a busca
brotaram cidades constituídas por aqueles que buscavam, da maior proximidade possível em relação à Metrópole, a
à sombra dos poderosos, a defesa contra invasores, colonização teve inicialmente pequena intensidade no
acabando, não raro, ocupando até mesmo trechos íngremes interior. Porém, muitas das nossas primeiras vilas e cidades
das vertentes. No interior das muralhas, as cidades se interiorizadas, indispensáveis para o apoio à exploração
desenvolviam e, se crescessem em demasia, nova muralha, do território, também brotaram em sítios acidentados. É o

1
MARX, M. (1980). Cidade Brasileira.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


caso de São Paulo, que teve sua origem (através da Vila de foram calcando o traçado viário sobre seus acessos e interligações.
Piratininga) num relevo montanhoso, e das cidades mineiras E, muito especialmente, determinaram pela sua situação também
do ciclo da mineração. a dos núcleos urbanos e dos seus sítios originais.”
Algumas das cidades coloniais brasileiras Para o desenvolvimento das cidades, porém, as
implantadas em relevos montanhosos, e que ainda mantêm construções acabavam ocupando, com freqüência, terrenos
seus núcleos históricos preservados, nos dão mostra de com camadas mais profundas de solos em encostas, o que
que a tradição construtiva dos portugueses, no tocante à não raro propiciou a ocorrências de sérios acidentes.
construção em encostas, foi suficiente para que alguns No que diz respeito a Salvador, por exemplo,
testemunhos atravessassem os séculos. GONÇALVES (1992)4 compilou registros de inúmeros
Desastres, porém, chegaram a ocorrer, em parte episódios de escorregamentos ocorridos desde 1549.
refletindo uma diferença importante dos sítios de Só até 1800 já se registravam pelo menos seis acidentes
implantação no Brasil e na Europa e Mediterrâneo, para a de maior porte, com muitas mortes e destruição de casas e
qual os portugueses não estavam, aparentemente, de obras públicas. Em seu trabalho, a partir de dados colhidos
suficientemente preparados. Do ponto de vista geológico, em obra de ACCIOLI (1969), GONÇALVES (1992)5 , p.
a maior parte da Europa e regiões mediterrâneas apresenta 77/78, transcreve um ilustrativo ofício enviado pela Câmara
camadas de solo pouco profundas, às vezes ausentes, e as de Salvador ao Rei, datado de 14 de Agosto de 1671, onde
construções se fundam praticamente em rocha sã. Este são solicitados recursos para obras para prevenir novos
fato parece ter influenciado os portugueses na escolha de escorregamentos em encosta de Salvador:
sítios de implantação no Novo Mundo. Nas implantações
“Senhor. - Em Abril d’este ano forão as invernadas, e inundação
em acrópole, buscavam terrenos rochosos, pelo menos para
das águas tantas, que levarão do monte em que está fundada
a construção de fortificações. A este respeito, MARX
esta cidade, quantidade de terra, com o que se arruinou meia
(1980)2 , p.88, comenta, com base em ARGAN (1966) e
praia d’esta cidade, arrazando muitas casas de custo, e não foi
REIS FILHO (1964): 17
este damno, sendo muito, tanto de sentir, como a morte de mais
“Os seus sítios3 são exemplarmente escolhidos entre promontórios de trinta pessoas, que perecerão sem confissão, que como foi de
rochosos, faldas de montanhas ou rasos cabedelos. ... noite se lhes não pode acudir, e estava a parochial da mesma
...Essas vetustas construções marcaram o perfil das marinhas e praia ida, e só pelo milagre do Santíssimo Sacramento, e da
condicionaram a expansão de muitas das cidades litorâneas, que Virgem da Conceição escapou, e são já tres vezes as d’este sucesso;

2
MARX, M. (1980). Cidade brasileira.
3
Os sítios de implantação de fortificações (nota do autor).
4
GONÇALVES, N.M.S. (1992). Impactos fluviais e desorganização do espaço em Salvador, BA.
5
GONÇALVES, N.M.S. (1992). Impactos fluviais e desorganização do espaço em Salvador, BA.

Encostas, cidades e sociedades


mas em nenhum fez tanto estrago. Tudo nasce das immundicies não chega a desaparecer com a modernidade. Em matéria
que no despenhadeiro das ladeiras se deitão, a que não podemos publicada no jornal Folha de São Paulo, a 18 de maio de
acudir, nem com castigo, nem com penas, porque como o serviço é 1988, por Mario Innocentini6 , intitulada “Precisa e pode
feito por escravos não considerão o damno, nem temem o castigo: parar”, pode-se ler:
para o remédio é necessário fazer paredes, que impidão o lançal- ... . O pobre migrante que planta seu barraco numa encosta –e
as, e querendo nós tratar de fazer, demos parte no provedor da assim atrai outros a seu redor- é tão poluidor e destrutivo como o
comarca, para nos levar em conta a sua despeza, o que diz não
empresário poderoso que finca seu arranha-céu numa zona de
pode na forma do seu Regimento. Pedimos a V.A., como par
habitações horizontais. Mas na teia generalizada de cumplicidades
d’estes vassalos , que tanto o amão, seja servido mandar por
políticas, já se ouviu algum crítico tratar desse tema? As coisas
Provisão, que se nos leve em conta esta despeza, e as mais que
se passam como se a burguesia tudo pudesse e o operário explorado
forem publicadas e necessarias. Da Mercê que V.A. nos faz
fosse um impotente, uma vítima, um coitadinho.
esperamos o despacho á nossa pretenção.” (sic)
Alguns dos que assim argumentam fazem-no, até concordo, de boa
Além do relato dramático de um episódio fé. A maioria, porém, está tentando resgatar uma consciência
significativo de instabilização de encosta, este ofício já deixa culpada, típica da pequena burguesia, ou então, evitar comprometer
transparecer alguns dos desvios no trato da ocupação de a “unidade das forças populares”. Ora, desde Gramsci, pelo menos,
encostas no Brasil. Atribui-se, nele, com destaque, a “culpa” sabemos que mesmo o proletariado mais espoliado é sujeito da
da instabilização às camadas “inferiores” da população. história, é responsável por ela, e não apenas uma vítima da alienação
Em seguida, para prevenir novos escorregamentos, comandada pela burguesia. Assim, não é possível ser intransigente
lança-se mão de obras que visam simplesmente eliminar o na crítica ao túnel7 e, ao mesmo tempo, ser complacente com a
risco encosta abaixo sem maiores preocupações com o que ocupação indiscriminada das encostas, dos morros, dos fundos de
ocorre encosta acima. A solução técnica proposta é a vale, das beiras de córrego. Sob este prisma, o homem da periferia
construção de uma parede que impeça, fisicamente, que é tão ou mais poderoso que o mais corrupto empresário imobiliário.
os escravos lancem detritos nas encostas, ao invés de Não é mesmo, povo, prefeitos, e burgueses de Petrópolis, Acre,
18
promover eventuais melhorias nos sistemas de coleta e Cubatão, Rio de Janeiro e Ubatuba8?...
destinação de lixo ou de efluentes sanitários, o que, além ... A luta que travamos para desestimular novas indústrias nos
de eliminar o risco, promoveria a melhoria da qualidade de grandes centros só terá êxito se soubermos também criar
vida de todos, indistintamente. mecanismos que desestimulam o crescimento de uma população
Aparentemente, em essência, este tipo de postura que precisa, exatamente, de indústrias para trabalhar, receber

6
Sociólogo e presidente, à época da publicação da matéria, da “Associação Ecológica Fiscais da Natureza” (nota do autor).
7
A matéria diz respeito a São Paulo e situa-se na polêmica construção do túnel sob o Ibirapuera. O texto, referindo-se a diversas das argumentações antagônicas em uso
à época, envolvendo algumas de caráter ambiental e outras de alternativas de destinação das verbas (a oposição sugeria que os 350 milhões de dólares destinados ao túnel
fossem, por exemplo, destinados à habitação de interesse social), tenta argumentar que casas populares seriam tão “poluidoras” quanto o túnel (nota do autor).
8
Cidades afetadas, à época, por desastres importantes envolvendo escorregamentos em encostas e inundações (nota do autor).

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um salário e viver. O social não contradiz o ecológico, ao contrário, eficiente, que destaca as características do objeto em estudo
como mostraram as ocorrências do Rio e Petrópolis. que se deseja “puxar” para primeiro plano.
São Paulo precisa parar. Pode parar por uma catástrofe. Pode Com o desenvolvimento tecnológico e, em
parar por um modelo stalinista. Pode parar por um modo ecológico. particular, da tecnologia bélica, com o aparecimento de
Cabe-nos explicitar esse modo e, com coragem, responsabilidade canhões de maior alcance, capazes de lançar projéteis
individual e senso de futuro, pô-lo em debate, denunciando os explosivos, as encostas deixaram de ser sítios “inexpugná-
vícios do capitalismo selvagem e do “coitadismo” benevolente, no veis”, perdendo boa parte de seu sentido de áreas privilegiadas
fundo duas faces da mesma moeda. quanto à segurança militar, que passa a ter novo enfoque.
O velho e o novo, juntos, mostram que “culpar” os Em meados do século XIX, a Revolução Industrial, na
mais pobres por desastres em encostas não é nada original. Europa, já havia gerado um impressionante crescimento
Apesar do absurdo, isto demonstra, no mínimo, o das cidades, onde proliferavam situações críticas de
reconhecimento de uma dimensão social no problema. saneamento, além de focos potenciais de revoluções
Porém, comparando-se o ofício de 1671 com o texto de políticas. Têm lugar, então, as primeiras grandes reformula-
Innocentini, vê-se que hoje, “mais modernamente”, desejos ções urbanas, que estão na origem do urbanismo moderno,
de exclusão social se travestem, entre outras formas, na de ocorridas principalmente em Londres e Paris, mas com
“preocupações ecológicas”. ecos nas principais cidades do Velho e do Novo Mundo.

Fazer muros que escondam a pobreza e seus As reformulações consideraram em nova medida
problemas, ou simplesmente deportá-la das encostas não as questões do saneamento e a da segurança militar. A
parece ser uma solução técnica ou socialmente correta. nova concepção de saneamento faz com que se privilegiem,
agora, terrenos menos acidentados, que facilitem a
implantação de sistemas de abastecimento de água e de
1.1 - O “admirável mundo plano” destinação de esgotos. Tratando destas reformas,
Longe de se querer, pretensiosamente, questionar BENEVOLO (1974)9 , p. 97, destaca que: 19
as correntes urbanísticas surgidas desde meados do século “... a atenção dos reformadores se fixa apenas em alguns setores
XIX, que estão nas raízes do urbanismo moderno, há que e sua ação se dirige a eliminar alguns males particulares, como a
se analisar alguns de seus traços que resultam em prováveis insuficiência de esgotos ou de redes de água potável, ou a difusão
incompatibilidades com a ocupação urbana de encostas. de epidemias. Se, tratando um problema, aparecem outros novos,
Se a análise adiante apresentada denota, até mesmo, um isto ocorre, por assim dizer, involuntariamente. A construção da
certo tom caricatural e irreverente, há de se compreender rede de evacuação e de abastecimento de águas exige um mínimo
que a caricatura é um instrumento de comunicação de regularidade, planimétrica e altimétrica, das novas construções”.

9
BENEVOLO, L. (1974). Historia de la Arquitectura Moderna.

Encostas, cidades e sociedades


No tocante aos aspectos militares, o “inimigo” agora enfim, para a própria instalação de indústrias, que os
pode ser parte da própria população da cidade. Como terrenos sejam preferencialmente planos. Quando estes são
afirma BENEVOLO (1974)10 , p. 99, o plano Haussmann acidentados, trata-se de alterá-los.
para Paris, sob Napoleão III (Luís Napoleão) teve como
A tendência a um urbanismo plano se cristaliza,
um de seus importantes germes a preocupação do posteriormente, nos congressos internacionais de arquitetura
Imperador com aspectos militares: (CIAM) e até mesmo na Carta de Atenas de Le Corbusier:
“Por sua vez, Luis Napoleão constrói seu poder sobre os temores os padrões urbanos por ela apregoados dizem mais respeito
causados pela revolução socialista de fevereiro de 1848 e apóia- a terrenos planos, ideais, onde de fato se perpetuaram seus
se na força do exército e no prestígio popular para se opor à principais legados, dentre os quais a Brasília de Lúcio Costa.
burguesia intelectual e à minoria operária. Tem, portanto, um
As quatro funções da cidade preconizadas na Carta
interesse direto na realização de grandes obras públicas em Paris, de Atenas - habitar, circular, trabalhar e recrear - e sua
preteridas pelos governos precedentes, para consolidar sua
separação na composição do tecido urbano, assim como a
popularidade com testemunhos tangíveis, e também para tornar
organização dos setores em blocos, requerem, principal-
mais difíceis futuras revoluções, demolindo as estreitas ruas mente em decorrência de uma das funções - circular -, um
medievais e substituindo-as por artérias espaçosas e retilíneas,
escoamento de veículos ágil, através de um sistema viário
adequadas ao movimento de tropas.” de traçado regular e amplo, pouco compatível com terrenos
Os tipos de vias (artérias) mencionadas por mais acidentados.
Benevolo são, em boa medida, incompatíveis com
A “cidade ideal” tem agora por paradigma idealizado
topografias mais acidentadas, a menos que se procedam
um sítio de implantação capaz de dar a sensação de um
alterações vultosas de terrenos ou construam-se obras de fundo infinito, como ilustra a Figura 1.1, onde se vê a
arte de grande porte, o que significa alto custo.
perspectiva do projeto de “Cidade contemporânea para três
Considerando-se estas duas questões - a do sanea- milhões de habitantes”, de Le Corbusier, exposto em Paris
20 mento e a da segurança militar -, é compreensível que novas pela primeira vez em 1922. Os largos eixos de circulação e
ocupações em encostas passem a ser evitadas a partir de a distribuição “plana e racional” dos componentes da cidade
meados do século XIX, pelo menos na Europa. mostram uma idealização geométrica que poucas vezes
caracteriza terrenos na natureza.
O desenvolvimento dos meios de transporte reforça
também a tendência da busca de terrenos mais planos para Os contra-exemplos, que confirmam a hipótese, na
o desenvolvimento das cidades. O trem, o bonde, o metrô, própria obra de Corbusier, podem ser verificados nos
o ônibus e os primeiros automóveis são também mais ade- estudos que elaborou para o Rio de Janeiro e para São
quados aos terrenos planos. A cidade industrial requer, Paulo (Figura 1.2) no final da década de 20 e para Argel na

10
Idem. Ibidem.

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década de 30 (Figura 1.3). Tais estudos nunca tiveram rebatimentos concretos em função, principalmente, de motivos
econômicos.

Figura 1.1. Le Corbusier e o “admirável mundo plano”: Projeto de uma cidade contemporânea (exposto em 1922) para três milhões de
habitantes. Fonte: CRESTI 11 ( 1981), p.16.

21

Figura 1.2. Esboço de plano urbanístico para São Paulo (final da


década de 20), de Le Corbusier, onde se destacam dois extensos eixos
viários apoiados sobre blocos de diversas funções, como artérias
básicas de circulação. Fonte: in CRESTI (1981)12 , p. 25.

11
CRESTI, C. (1981). Le Corbusier.
12
CRESTI, C. (1981). Le Corbusier

Encostas, cidades e sociedades


Mas, se por um lado, os projetos urbanísticos para moderno, dispunha-se ainda de um expressivo estoque de
terrenos acidentados de Le Corbusier resultam em grande terras planas, o que permitiu o estabelecimento dos novos
consideração e na manutenção das condicionantes padrões apregoados. As reformas urbanas do século XIX
topográficas, por outro lado, seus custos de implantação e sua grande influência em todo o urbanismo moderno
os tornam inviáveis. fariam praticamente desaparecer dos tratados urbanísticos
as menções específicas sobre a ocupação de encostas, que
Nos três casos, a topografia acidentada foi enfren-
passavam ao âmbito da curiosidade histórica e a raros e
tada com a adoção de extensos viadutos (elevados) ou pistas
exóticos projetos isolados, quase nunca implantados.
sobre blocos de diversas funções (habitacionais, admi-
nistrativas etc.) como artérias básicas de circulação, para Nas recomendações para a implantação de novas
vencer as irregularidades dos terrenos e para manter os cidades ou para a expansão das existentes, os “manuais de
princípios gerais da Carta de Atenas. urbanismo” passam a recomendar a busca de terrenos de
baixas declividades, que permitam redes públicas de
implantação mais “econômica” e “eficiente”. Isto se reflete
na própria tipologia de edifícios que se passa a adotar.
Em “La vivienda racional”, AYMONINO (1973)14 ,
p. 262/313, reúne novamente os 26 projetos de conjuntos
habitacionais que acompanharam, sob forma de exposição,
os CIAM de 1929-1930, nos quais a questão habitacional
era alvo de fortes preocupações específicas dos arquitetos,
e era a partir daí tratada com grande destaque. Constata-se
que todos os 26 projetos destinam-se a terrenos planos.
Esta tendência se mantém, nos países europeus, nas
Figura 1.3. Bloco habitacional do projeto de Le Corbusier para próprias transformações por que passa o conceito da
22
Argel, “encaixado” entre duas vertentes. À meia altura, um viaduto, construção: a industrialização dos edifícios, mormente
artéria de circulação da cidade, no projeto proposto. Fonte: in
SMITHSON, A. et SMITHSON, P.(1970)13 , p. 101. adotada a partir do término da Segunda Grande Guerra,
requer a padronização de projetos e de componentes e
elementos construtivos.
Na Europa da Revolução Industrial e, principal-
mente em Londres e em Paris, onde ocorreram as inter- O concomitante avanço da coordenação modular
venções urbanas que estão nas raízes do urbanismo na construção, ainda que tenha contemplado as dimensões

13
SMITHSON, A. et SMITHSON, P. (1970). Ordinariness and light.
14
AYMONINO, C. (1973). La vivienda racional.

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verticais, não foi capaz de resolver, satisfatoriamente, a atribui às infraestruturas urbanas, a seguinte:
utilização dos edifícios pré-fabricados ou industrializados
“São as maiores condicionantes de todo desenvolvimento urbano,
nos terrenos de topografia acidentada.
maiores até, nesta época de nível tecnológico mais elevado, que a
A maioria dos sistemas construtivos industrializados topografia e os acidentes geográficos.”
ou racionalizados padece de uma incapacidade crônica de
Aos poucos, nos países desenvolvidos e parti-
adaptação a terrenos mais íngremes, requerendo movimentos
cularmente nos Estados Unidos, a crescente popularização
de terra pronunciados para sua implantação, ou a construção
do automóvel reforça ainda mais o urbanismo das grandes
de estruturas convencionais de transição, de custo e
vias: critérios utilizados para o dimensionamento de auto-
racionalidade incompatíveis com o restante do sistema.
estradas passam a se aplicar nas vias expressas das cidades e
Sistemas construtivos industrializados, efetivamente
passam a definir as larguras das demais vias, até mesmo de
satisfatórios para encostas, constituem poucos exemplos
simples vias locais, às vezes com exageros notáveis.
isolados, jamais construídos em escala.
Os novos princípios urbanísticos passam a influenciar
A própria construção convencional, quando aplicada
e a compor legislações urbanas por todo o mundo, inclusive
aos grandes programas habitacionais, busca a maior
no Brasil, onde as leis, geradas para terrenos planos, ideais,
padronização possível nos projetos. Torna-se “indesejável”
vão sendo adotadas sem nenhuma diferenciação em qualquer
diferenciar os detalhes de implantação para cada edifício ou
tipo de terreno, tendo até mesmo papel potencializador de
os edifícios entre si. Em nome da economia e da raciona-
situações de risco, pelo menos no tocante à ocupação de
lidade, não se pensa duas vezes para alterar profundamente
encostas.
os terrenos, de maneira a possibilitar a implantação
“adequada”. Os preceitos básicos da circulação, ainda que
necessários na interligação entre os diversos pontos da cidade,
O urbanismo da infra-estrutura e das grandes artérias
são indistintamente incorporados a normas de parcelamento
de circulação espalhar-se-ia por todo o mundo. As
local de solo e a padrões a observar na abertura de vias,
administrações dos prefeitos passam a ser avaliadas através 23
independentemente das características de meio físico e do
dos metros de largura ou dos quilômetros de extensão de
significado de cada assentamento na malha urbana.
avenidas abertas, e dos “obstáculos” naturais (ou construídos
ao longo da história) removidos para possibilitar o O princípio das vias contínuas prevalece. Muitas
desenvolvimento das suas cidades. É ilustrativa, neste sentido, soluções de inquestionável qualidade funcional ficam
a afirmação de PALET (1969)15 , p.185, em Interdependencia afastadas do pequeno rol de tipologias de urbanização e
de elementos urbanos, na coletânea La infraestructura del de edificações que as leis, influenciadas por preceitos
urbanismo, quando arrola, dentre várias características que urbanísticos questionáveis, efetivamente induzem. Mesmo

15
PALET. A.S. (1969). Interdependencia de los elementos urbanos en la implantación de infraestructuras. Tecnicas implicadas. In La Infraestructura del Urbanismo.

Encostas, cidades e sociedades


no Brasil, onde uma mescla das características da integração cada vez mais estreita do país ao contexto do
colonização e das condicionantes geográficas, torna capitalismo internacional. Neste quadro, fez-se necessário,
duvidosa a aplicação pura e simples do novo urbanismo. entre outras coisas, que se caracterizasse uma porta de entrada
Como fruto da colonização portuguesa, nossas e uma sala de visitas condizentes com o novo status da
principais cidades encontram-se junto ou próximas à costa, nação. Isto impeliu o então presidente, Rodrigues Alves, a
tendência que se mantém até, pelo menos, as três primeiras empreender uma reforma na capital da República, em moldes
décadas do século XX e que só se reformula, de forma mais inusitados e marcantes no contexto nacional. A reforma
acentuada, a partir da década de 60. Em diferentes medidas, empreendida visava, em princípio, o embelezamento da
nossas planícies costeiras acham-se confinadas entre o mar capital. Mas refletiu também uma antiga aspiração das elites
e o planalto, por serras extensas ou isoladas, numa faixa que por uma reorganização do espaço urbano carioca, com base
abrange desde o Rio Grande do Sul até, pelo menos, na sua reestratificação social, repetindo, em parte, o modelo
Pernambuco, e com uma importante presença de solos adotado na reforma Haussmann de Paris, em meados do
tropicais, cuja instabilização não requer grande esforço. Como Século XIX.
reflexo, a expansão de muitas das cidades situadas nesta faixa Como pode ser visto em REIS (s/d)16 , p. 126, o
tende logo a encontrar terrenos mais acidentados e de fácil Rio de Janeiro, que contava em 1808 com uma população
instabilização, que requerem procedimentos próprios para a relativamente modesta (por volta de 60.000 habitantes),
ocupação, com certeza distintos dos atualmente induzidos chegaria ao final do Século XIX com cerca de 500.000
pelas atuais legislações urbanas. habitantes,. A expansão da cidade se deparava, porém, com
Mesmo nos sítios urbanos mais acidentados, aplica- inúmeros “obstáculos” de meio físico, incluindo lagoas,
se uma cultura técnica que procura adaptar a natureza às mangues e morros. Seu centro passou, ao longo do Século
características pretendidas para as novas exigências da XIX, por um intenso processo de adensamento, em parte
urbanização. O mundo é plano. O trator remove montanhas. ditado pelas deficiências do transporte para a periferia e
pelas “barreiras físicas” de morros, como o do Castelo, o
24
do Senado, o de São Bento, o da Conceição e o de Santo
1.2 - O Brasil e sua capital ingressam no
Antônio. No coração da capital da República viviam
mundo moderno
grandes contingentes populacionais, abrangendo todas as
Na virada do Século XIX para o Século XX, o Brasil classes sociais, da elite aos recentes ex-escravos, habitando
experimentava um importante crescimento na economia, de casarões a cortiços. As condições precárias de
principalmente através do café paulista. Houve uma sensível saneamento então vigentes passaram a originar surtos e
intensificação da atividade exportadora e promovia-se uma epidemias com freqüência cada vez maior, mais notada-

16
REIS, J.O. (s/d). As administrações municipais e o desenvolvimento. In Rio de Janeiro 400 anos.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


mente a partir de 1850. Neste contexto, às aspirações das da periferia, que já se queixava do “martyrio do trem da
elites de reestratificar o espaço urbano e de “arrumar a sala Central”, por outro lado causou, através dos bondes, um
de visitas” do país, somaram-se questões sanitárias. adensamento ainda mais pronunciado das regiões mais
centrais, agravando suas condições sanitárias.
Rodrigues Alves incumbiu então Pereira Passos das
obras do plano denominado “Embelezamento e sanea- Como pode ser visto na revista Nosso Século18 ,
mento da cidade”, implantado a partir de 1903, e delegou p. 32, Rodrigues Alves assumiu a presidência da república
a Oswaldo Cruz intervenções no campo da saúde pública. em novembro de 1902. A 29 de dezembro do mesmo ano,
promulgava lei que reorganizava a administração do
A verdadeira epopéia que teve lugar na capital da
Distrito Federal, dando amplos poderes ao seu prefeito e
República, no início do Século XX, capaz de forjar a
minimizando a capacidade de obstrução dos políticos locais.
imortalidade do trabalho de Oswaldo Cruz e de celebrizar
Indicado prefeito por Rodrigues Alves, Francisco Pereira
nomes como os dos engenheiros Francisco Pereira Passos,
Passos aceita a incumbência em janeiro de 1903. O Dr.
Lauro Müller e Paulo de Frontin, dentre outros, foi também,
Oswaldo Gonçalves Cruz, por sua vez, assume o cargo de
porém, marco destacado da marginalização e da periferização
diretor da Saúde Pública em março do mesmo ano. Tem
de expressivas parcelas da população menos favorecida da
início a grande reforma da capital. No que pese o vulto do
então capital da República. Este tipo de reforma passou,
trabalho de Oswaldo Cruz, cabe aqui destacar, com
aos poucos, a caracterizar não apenas o Rio de Janeiro daquela
centralidade, a atuação de Pereira Passos, que no cômputo
época à atual, como a maioria das grandes cidades brasileiras.
geral da cidade vai ser responsável por transformações
O fenômeno de “duas cidades” recrudescia no Brasil com
inusitadas.
os prenúncios da modernidade. Nas terras cariocas isto se
viabilizou, em parte, pela disponibilidade de alguma infra- No campo do urbanismo, Pereira Passos já havia
estrutura - ainda que bastante deficiente - de transportes, participado, com destaque, a partir de 1875, de comissão
que vinha se formando, a partir de 1858, com a inauguração municipal denominada “Comissão de Melhoramentos da
do primeiro trecho da Estrada de Ferro Central do Brasil, Cidade do Rio de Janeiro”, que elaborou um primeiro plano
25
apontando a periferia como destino breve da maior parte da de conjunto para a capital, cujo propósito central era o
pobreza. À Central, somou-se a implantação de linhas de “...alargamento e retificação de várias ruas e abertura de novas praças
bondes17, então puxados por burros, atendendo regiões mais com o fim de melhorar suas condições higiênicas e facilitar a circulação
próximas ao centro. entre seus diversos pontos, com mais beleza e harmonia.”.
A incipiente e problemática estrutura de transportes Tal plano, porém, não foi colocado em prática, tendo
se, por um lado, gerava constantes protestos da população sido considerado fantasioso. Teve no Engenheiro Luís

17
A Botanical Garden Railroad Company, em 1868; a Rio de Janeiro Street Railway Company, em 1870; a companhia de bondes do Barão de Drummond (o criador
do jogo do bicho), em 1872 e a Companhia de Carris Urbanos, em 1878.
18
UM PRESIDENTE e dois ditadores para mudar tudo. Coleção Nosso Século , no 1.

Encostas, cidades e sociedades


Rafael Vieira Souto um de seus mais fortes opositores. De mais das vezes são descritas (à exceção da reforma do porto)
qualquer forma, ao assumir a prefeitura, Pereira Passos como obras municipais e, por extensão, de Passos.
não chegava de mãos vazias, mas trazendo a experiência
Independentemente de autoria, porém, o conjunto
da elaboração de um plano anterior, de porte considerável, de obras implantado transcendeu qualquer iniciativa
agora expurgado de algumas metas que, segundo Reis19 anterior no Brasil, quer em vulto, quer em desdobramentos
(p.127), descritor ufano da obra de Passos, eram
técnicos e sociais.
“...caracterizadas por muito maior censo 20 de realismo.”.
Somente para a abertura da Avenida Central (que, a
É relevante mencionar que o plano “Embelezamento
partir de 1912, passaria a se chamar Avenida Rio Branco),
e Saneamento da Cidade”, implantado a partir de 1903, mesmo montou-se uma verdadeira operação de guerra. Foram
que tivesse raízes em atividades anteriores de Pereira Passos, demolidos cerca de 700 prédios para dar lugar à “Grande
foi fruto do trabalho de uma equipe de engenheiros, Avenida”, cuja implantação foi, por muito tempo, um dos
topógrafos e desenhistas da prefeitura carioca, liderada por orgulhos da engenharia carioca, como bem mostra esta
três engenheiros: Carlos Augusto Nascimento e Silva outra citação de REIS (s/d)21 , p.129:
(Diretor de Obras), Francisco de Oliveira Passos (consultor)
e Alfredo Américo de Sousa Rangel, este último responsável “Avenida Central - Embora haja sido a Avenida Central
uma conseqüência natural da construção das duas grandes vias
pela implementação, no Rio, de um “novo” instrumento
ao longo do mar (Av. Rodrigues Alves e Av. Beira-Mar), a
de gestão urbana, denominado Carta Cadastral, que daria
grande avenida carioca merece a honra da primazia.
ainda origem à uniformização dos projetos de alinhamento
De fato, aberta de mar a mar, da Praça Mauá ao Obelisco,
e de melhoramentos, que mais tarde passariam a ser
tendo no eixo o Pão de Açúcar, símbolo da cidade, a Av. Central
denominados, por longo período, simplesmente por P.A.s,
representou para o Rio de Janeiro, nos últimos 60 anos, seu
designando tanto projetos de alinhamento quanto projetos
principal logradouro e sua rua mais querida...
aprovados.
......A importante diagonal tem 1.820 m de comprimento e 33
26 Embora parte importante das obras realizadas no m de largura, inclusive os 7,50 m de passeios laterais
Rio de Janeiro, durante a administração Pereira Passos, pavimentados à pedra portuguesa, à maneira de Lisboa.
tenha sido conduzida pelo governo federal (tais como, entre A artéria liga dois pontos diversos da orla marítima e passava
várias outras, a reforma do porto e a abertura da Avenida entre dois morros, o do Castelo e o de Santo Antônio, hoje
Central, a cargo, respectivamente, dos Engenheiros Lauro desaparecidos para dar lugar a esplanadas, de urbanização
Severiano Müller e André Gustavo Paulo de Frontin), no moderna.

REIS, J.O. (s/d). As administrações municipais e o desenvolvimento. In Rio de Janeiro 400 anos.
19

censo, no original (nota do autor).


20

REIS, J.O. (s/d). As administrações municipais e o desenvolvimento. In Rio de Janeiro 400 anos.
21

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


Para abri-la, foram demolidos 700 prédios, sendo levada a Ainda segundo REIS (s/d)22, p. 132, no tocante ao
demolição a uma faixa mais larga que a rua, para que se sistema viário, inúmeros logradouros, muitas vezes situados
obtivessem sobras de terrenos, a permitir melhores fachadas para em locais densamente habitados, passaram por
as novas edificações, favorecendo a formação de maiores lotes. alargamentos, prolongamentos ou retificações. Incluem-
Na sua abertura a Avenida cortou vários logradouros e absorveu se, por exemplo, na região central, a Av. 13 de maio, as
outros. Deles restam esses trechozitos de rua que não se ruas Camerino, Sete de Setembro, Acre, S. José, Ramalho
compreenderiam sem esta explicação.” Ortigão, Bittencourt da Silva, Miguel Couto, Conselheiro
Saraiva, São Bento, General Pedra, Santa Luzia, Luís de
Logo, a Avenida Central passaria a abrigar os princi-
Camões, Catete, Conde de Bonfim, Mariz e Barros e um
pais magazines, escritórios e jornais cariocas. A valorização
sem número de outras.
imobiliária era também um fato. Conta-se, por exemplo,
que um certo construtor, de nome Januzzi, responsável pela Pereira Passos cuidou ainda da pavimentação urbana,
finalização do primeiro prédio novo da Avenida (em 1905), introduzindo em escala inédita, no Brasil, o uso do asfalto.
havia adquirido o respectivo terreno por 20 contos e Utilizou também o macadame em muitas vias, em São
investido 138 contos na construção. Vendeu-o, em 1910, Cristóvão e no Engenho Novo, e paralelepípedos em ruas
por 500 contos, à Cia. Souza Cruz. centrais, tais como a do Catete. Experimentou ainda
Se a Avenida Central constitui a obra de cunho diversos outros processos de pavimentação, buscando
urbanístico mais lembrada do período, ela pode, soluções alternativas adequadas às condições de clima e
contraditoriamente, ser considerada modesta frente à soma uso verificadas no Rio de Janeiro. As obras não se limitaram
das demais obras realizadas na administração Pereira a vias. Importante é o legado da época no tocante ao
Passos, espalhadas pela Zona Sul. Vale a pena listar algumas sistemas de esgotos, de abastecimento de água e de energia
delas, como a abertura de outras inúmeras novas avenidas, elétrica, assim como o de edifícios públicos ligados à
tais como a Rodrigues Alves (3.090m de comprimento, educação, à cultura, ao esporte e lazer, à saúde e ao
largura de 40m); a Francisco Bicalho (1.380m de abastecimento. Criaram-se ou remodelaram-se praças, 27
comprimento, 95m de largura); a Beira Mar (5.200m de parques e jardins, além de estradas de caráter turístico.
comprimento, 33m de largura) e a Mem de Sá (1.550m de Construíram-se obras de arte e incrementou-se a
comprimento, 17m de largura). arborização da cidade23.

22
REIS, J.O. (s/d). As administrações municipais e o desenvolvimento. In Rio de Janeiro 400 anos.
23
Vale a pena ainda listar as demais obras importantes do período, de acordo com REIS: conclusão do túnel do Leme, abrindo o acesso de bondes a Copacabana;
construção do Teatro Municipal, do Mercado Municipal, do Pavilhão de Regatas de Botafogo, do Cais Pharoux (praça XV) e do Pavilhão Mourisco; remodelação ou
construção de estradas turísticas (Tijuca, Cascatinha, Açude, Gávea Pequena, Furnas, Pica-Pau, Vista Chinesa e outras); criação da Assistência Pública; introdução
dos bondes elétricos; implantação do Mercado das Flores; aperfeiçoamento do sistema de coleta e destinação de lixo, com a criação de depósito na Ilha de
Sapucaia; remodelação do Canal do Mangue; canalização de diversos rios; conclusão da demolição do morro do Senado. Através de posturas municipais, Pereira
Passos “declarou guerra” ao comércio em quiosques, aos ambulantes e à mendicância.

Encostas, cidades e sociedades


A meta de “arrumar a sala” concretizava-se e seu de 50.000 francos à construção de um conjunto habitacional
coroamento ocorreria pouco depois de encerrada a gestão na Rua Rochechouart, o “Cité Napoléon”. Em 1852, nada
de Pereira Passos (o prefeito exerceu o cargo até 1906), menos que 10.000.000 de francos foram investidos em
com a realização da Exposição Nacional do Rio de Janeiro, mais dois conjuntos, em Batignolles e Neully, durante a
em 1908, em parque de exposições construído na Praia reforma implementada por Haussmann, como pode ser
Vermelha. visto em BENEVOLO (1974)25 , p.105.
O vulto das obras realizadas na administração Na reforma Pereira Passos, o único empreendimento
Pereira Passos é suficiente para impressionar os mais de habitações populares de que se tem notícia foi a
cépticos. Lendo-se sobre o assunto, mesmo em autores construção de 120 “casas operárias”, com o aproveitamento
mais à esquerda, percebe-se uma ponta de admiração. de “sobras de terrenos” decorrentes das demolições para a
Transparece, nos textos, o mesmo clima quase eufórico abertura de uma nova via (Salvador de Sá). A rigor, este
que Benevolo24 , pp.96-134, involuntariamente assume, ao pequeno conjunto habitacional seria destinado à moradia
falar sobre Haussmann e a reforma de Paris. de funcionários da Prefeitura. O investimento de Passos
Como curiosidade, é interessante mencionar que o na periferia, para onde se transferiu boa parte da população
Barão do Rio Branco se referia a Pereira Passos como “o pobre do centro, por sua vez, foi nulo. Ao lembrarmos que
Haussmann brasileiro”. a simples abertura da Avenida Central gerou a demolição
de 700 prédios (dentre os quais muitos tinham uso
habitacional, alguns abrigando várias famílias), a cifra de
1.3 - A segregação da pobreza “reposição” de habitações já se mostra duvidosa. Se
Na grande reforma de Paris, em meados do Século considerarmos, porém, as desapropriações e demolições
XIX, a exemplo do que aconteceria no Rio de Janeiro da de numeroso casario para o restante das obras anterior-
virada do Século, houve intensa remoção da população mente descritas, envolvendo inúmeros cortiços, imagina-
28 pobre do centro da cidade. Porém, no caso de Paris, o se que a Reforma Passos seja responsável por uma
Estado investiu também na geração de habitações agudização profunda da questão da habitação popular no
populares, capazes de atender, pelo menos parcialmente, Rio de Janeiro da virada do século. Estima-se que, no total,
os que perderam a possibilidade de morar nas regiões mais foram demolidos de 2000 a 3000 prédios. Isto sem contar
centrais. Por desejo expresso de Luís Napoleão, a reforma o casario interditado ou demolido por questões sanitárias,
de Paris contemplaria a construção de casas populares, por ordem da equipe de Oswaldo Cruz.
iniciada modestamente com a destinação de verba específica E para onde foi esta população expulsa? Grande

24
BENEVOLO, L. (1974). Historia de la Arquitectura Moderna.
25
BENEVOLO, L. (1974). Historia de la Arquitectura Moderna.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


parte, de fato, foi para a periferia distante, utilizando-se da hygiene, sem luz, sem nada.
precária Central do Brasil. Mas parte permaneceu nas Imaginem-se, de facto, casas tão altas como um homem, de chão
proximidades do centro. Para falar desta parcela vale, batido, tendo para paredes trançados de ripas, tomadas as malhas
inicialmente, mencionar que poucos anos antes do início com porções de barro a sopapo, latas de kerozene abertas e
da grande reforma de Pereira Passos, a partir do final de justapondo-se, taboas de caixões; tendo para telhado esta mesma
1897, parte dos soldados desmobilizados com o fim da mixtura de materiaes presas à ossatura da coberta por blocos de
Guerra de Canudos foi destinada ao Rio de Janeiro. Não pedras, de modo a que os ventos não as descubram. ...
tendo onde se alojar, os soldados se instalaram em barracos ... Alli não moram apenas os desordeiros e os facínoras como a
improvisados no morro da Providência, juntando-se à legenda que já a tem a “Favella” espalhou: alli moram tambem
miséria que já caracterizava o local. operarios laboriosos que a falta ou a carestia dos commodos atiram
Em Canudos, a posição da artilharia governamental, para esses lugares altos. ...
na batalha final, era um local conhecido por “Alto da É interessante fazer notar a formação dessa pujante aldeia de
Favela”26 . casebres e choças no coração mesmo da capital da Republica,
Em artigo denominado Onde moram os pobres, de eloquentemente dizendo pelo seu mudo contraste a dois passos da
Março de 1905, assinado por Everardo Backheuser27 , a Grande Avenida, o que é este resto de Brasil pelos seus milhões
revista mensal carioca Renascença, do princípio do século de kilometros quadrados.”
XX, dedicada, como destaca seu cabeçalho, a “Letras, O fenômeno da favelização já ocorria, no Rio de
Sciencias e Artes”, além de uma rica descrição das Janeiro, desde meados do século XIX, mas o termo favela
condições de vida nos cortiços (então ainda numerosos no só se incorporaria ao vocabulário carioca na virada do
Rio de Janeiro), apresenta o seguinte texto: século, ao mesmo tempo que a cidade formal conhecia o
“...O morro da Favella” nada mais é que o antigo morro da urbanismo moderno. Extrapolar-se-ia depois esta
Providência, perfurado pelos dois tunneis da Gamboa, os quaes denominação a todo assentamento precário e improvisado
ligam a linha tronco da Central à Estação Marítima. É assim que, no Rio de Janeiro e, posteriormente, no Brasil se 29
chamado depois da lucta de Cannudos, pelos soldados que de lá instalasse. Diga-se, de passagem, que a associação dos
voltaram e que por certo acharam o seu quê de semelhança entre termos morro e favela é forte, pois a maior parte destes
o reducto dos fanaticos e o reducto da miséria do Rio de Janeiro. assentamentos surgiu inicialmente em morros, tendo em
O “morro da Favella” é íngreme e escarpado: as suas encostas vista que muitas das encostas cariocas, próximas aos centros
em ribanceiras marchetam-se, porém, de pequenos casebres sem geradores de empregos, não eram ocupadas pela cidade

26
Por sua vez, o termo favela designa uma leguminosa muito resistente, típica da caatinga, cujas favas se prestam à alimentação.
27
Conforme reprodução contida na revista Arquitetura em Revista, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, V. 7/1989,
p.45-50.

Encostas, cidades e sociedades


formal. Esta buscava terrenos mais planos, ganhando-os de baixa renda passa a se alojar na periferia, em loteamentos
até mesmo do mar, se necessário, através de aterros com populares e, concomitantemente, proliferam favelas nos
material proveniente do arrasamento de alguns morros, vazios da cidade, principalmente em morros e áreas
como o do Senado (1904) e o do Castelo (1920). inundáveis.
Paralelamente ao processo de modernização urbana No período compreendido entre as décadas de 20 e
do Rio de Janeiro, e, em certa medida, também em função de 60 do Século XX, o Poder Público carioca oscila entre
deste processo, formaram-se lentamente verdadeiras políticas de erradicação das favelas e políticas de
“cidades paralelas” nos morros. Se estas eram pouco implementação de melhorias destes assentamentos, sem
expressivas, pelo menos até a década de 30, ganhariam em sua remoção. No início da década de 60, um crescimento
breve grande impulso. “espontâneo” da periferização encorajou o governo a
intervir de maneira mais radical, adotando uma diretriz
Diferentemente do que ocorria na Europa, a nova
mais inequívoca de erradicação de favelas e de transferência
mentalidade urbanística, no Brasil, não era devidamente
da sua população para bairros distantes. É nesta época que
acompanhada por uma política clara de produção de
tem início, no Brasil, com maior significado, a construção
habitações de interesse social, o que abria uma grande
de conjuntos habitacionais de maior porte, como os de
lacuna, ao longo dos anos, para o surgimento de “soluções
Vila Kennedy e Vila Aliança.
espontâneas”. Ainda que o Estado esboçasse periodica-
mente ações no sentido de resolver o problema habitacional, Na adoção de políticas de erradicação de favelas
suas iniciativas, nesse sentido, sempre estiveram num pesou também o receio da “infiltração comunista” nos
patamar bastante aquém das reais necessidades. morros (receio que já estava presente desde a década de
1940, uma vez que os morros já constituíam, no pós-guerra,
Como pode ser visto em SOBREIRA (1989)28 , p.
redutos eleitorais importantes). O então governador, Carlos
10/14, se até a década de 30 as favelas não chamavam tan- Lacerda, esbarra, porém, em determinados entraves à
to a atenção no cenário carioca, a partir da década de 40, erradicação. As deficiências do transporte coletivo para a
30 com o incremento da migração do campo para as cidades, periferia e o significado dos gastos com transportes no
e da década de 60, quando se manifestaram fortes fluxos orçamento dos mais pobres, assim como a necessidade de
migratórios do Nordeste para o Centro-Sul, elas experimen- pagar prestações para a aquisição de casas produzidas pelo
taram um crescimento pronunciado. Estado em lugares distantes do centro gerou uma forte
Isto se dá tanto como decorrência do recrudes- reação nas favelas mais organizadas, cujos moradores não
cimento da especulação imobiliária quanto de um quadro queriam se transferir. A “briga” foi também “comprada”
econômico fortemente inflacionário. Parte da população por intelectuais da hoje denominada “esquerda romântica”,

28
SOBREIRA, F.G. (1989). Estudo de encostas ocupadas desordenadamente na cidade do Rio de Janeiro – a favela do Vidigal.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


e seu testemunho ficou registrado no show Opinião, que já haviam experimentado, em função de uma periferização
congregando músicos de origem popular (como Zé Keti e mais constante da pobreza, alcançariam nossos dias com
João do Vale) e alguns músicos mais “politizados”, populações impressionantes, como no caso da Rocinha e
pertencentes à intelectualidade (como a cantora Nara Leão), de Santa Marta, que têm hoje populações equiparáveis às
apresentava, entre outras composições, o samba Opinião, de cidades de médio porte.
de Zé Keti, do qual se trancreve um trecho:
Podem me prender, podem me bater, 1.4 - Os desastres
Podem até deixar-me sem comer,
Que eu não mudo de opinião. A partir de meados dos anos 60 intensificam-se
Daqui do morro, eu não saio não. acidentes nas favelas em encostas do Rio de Janeiro nas
Se não tem água, eu furo um poço. estações chuvosas. Inicialmente, escorregamentos
Se não tem carne, eu compro um osso e ponho na sopa. manifestavam-se em episódios isolados, mas logo passam
E deixa andar, deixa andar a assumir proporções mais vultosas. Favelas em morros
Fale de mim quem quiser falar, são, via de regra, assentamentos expostos a riscos de
natureza geológico-geotécnica.
Aqui eu não pago aluguel.
Se eu morrer amanhã, seu doutor, A ocupação desordenada, principalmente quando
Estou pertinho do céu. atinge um adensamento médio, onde trechos de encostas
já ocupados convivem com trechos de terreno desmatados
Efetivamente, no início dos anos 60, parte
e expostos, consegue reunir todos os fatores que induzem
importante das favelas cariocas teve sua população
a instabilização. Nas favelas observam-se, com grande
transferida para a periferia, mas parte considerável
freqüência, cortes e aterros indiscriminados, ocupação de
permaneceu, apesar da intenção inequívoca de Lacerda de
aterros não contidos, retirada indiscriminada de vegetação,
erradicá-las totalmente. Com o golpe militar de 1964 e o
modificação inadequada do regime de escoamento das
período de repressão que se seguiu, o temor do significado 31
águas pluviais, ocupação de drenagens naturais, infiltrações
político das favelas se arrefeceu bastante. Passam a ocorrer
de águas pluviais, de abastecimento e de esgotos,
novamente oscilações do governo carioca entre políticas
lançamento de lixo em vertentes etc.
de erradicação e de implementação de melhorias nos
morros. Ao mesmo tempo em que se abriam novos Os morros cariocas e suas favelas sintetizam, numa
loteamentos e se construíam conjuntos habitacionais na medida assustadora, a problemática habitacional e a da
periferia, desenvolviam-se projetos isolados de urbanização ocupação de áreas expostas a riscos de natureza geotécnica
das favelas mais centrais. Estas passam a fazer parte dos no Brasil. O fenômeno constituído por este tipo de
ingredientes exóticos da paisagem carioca, apresentando ocupação, que no Rio de Janeiro se manifestou de maneira
até mesmo interesse turístico. Algumas delas, ainda que precoce, hoje está disseminado por inúmeros municípios
apresentassem, doravante, um crescimento inferior ao que brasileiros e pode se verificar tanto em áreas centrais quanto

Encostas, cidades e sociedades


nas periferias das cidades. populares e até mesmo de ocupações promovidas pelo
próprio Poder Público, em conjuntos habitacionais de
A incapacidade do Estado em equacionar a questão
periferia, abrange hoje desde regiões metropolitanas até
da ocupação do solo urbano (e a questão habitacional) e o
cidades de pequeno e médio porte; desde municípios
aumento da pobreza, com a crise econômica e social das
litorâneos e cidades serranas e até municípios de sítios mais
décadas de 1980 e 1990, tem ampliado, em muito, as
planos, mesmo interiorizados, onde um morro perdido
ocupações desordenadas e perigosas em morros. Para ilustrar
interessa à ocupação urbana, seja pela especulação imobiliária,
esta afirmação, vale lembrar que, apenas no município de
seja como única alternativa possível para a pobreza.
São Paulo, das cerca de 1.600 favelas existentes em 1990,
nada menos que 240 apresentavam situações de risco em No rastro de qualquer atividade econômica mais
intensidades variadas, incluindo 500 moradias em risco expressiva, contingentes populacionais buscam se alojar nas
iminente, como mostra o IPT (1990)29 , p.26. periferias das cidades-palcos, quase sempre se localizando
em favelas, nas áreas de meio físico mais problemático.
Agora não só favelas ocupam perigosamente as
encostas: os loteamentos populares, que surgem a partir Hoje é possível ver favelas com as mesmas caracte-
da década de 1940, esparramam-se pelas periferias na rísticas típicas das que se encontram em áreas metropo-
década de 1960 e se adensam nos anos 1970. Passa a se litanas até mesmo em regiões há pouco incorporadas às
esgotar e a encarecer também o estoque ainda disponível fronteiras da expansão da economia brasileira, como o autor
de terrenos menos problemáticos nas periferias, fazendo pôde constatar em Tucuruí e Carajás, na Amazônia, em
com que a especulação imobiliária se volte, também em Minaçu, no extremo norte de Goiás, e em tantas outras
localidades onde não se imaginaria que estivessem
áreas periféricas, através de loteamentos populares
presentes. E muitas dessas favelas, por incrível que pareça,
(regulares ou clandestinos), à ocupação das encostas,
estão situadas em encostas e em áreas inundáveis, em
oferecendo nesta situação os lotes mais baratos.
situações de risco.
Se, inicialmente, a fixação em morros denotava, em
32 Em muitas cidades litorâneas e serranas, de pequeno
boa parte, o desejo da população de manter-se próxima
e médio porte, associadas ao turismo, o quadro se repete.
aos principais centros geradores de emprego, agora ela
Nelas, a atividade da construção civil, apesar da crise, foi
atinge também os distantes morros das periferias, que
capaz de manter algum nível de emprego, ampliado pelo
constituem parte significativa da terra urbana ainda
comércio e pela prestação de serviços aos turistas. Nestas
disponível para os mais pobres.
cidades, a especulação imobiliária tende a esgotar as planícies
A disseminação de ocupações inadequadas de rapidamente, destinando-as ao turismo, comprimindo a
encostas no Brasil, tanto por favelas quanto por loteamentos população de baixa renda em direção às encostas.

29
IPT - INSTITUTO DE PESQUISAS TECNOLÓGICAS DO ESTADO DE SÃO PAULO (1990). Análise de risco em favelas críticas do município de São Paulo.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


Às belezas naturais (e construídas?), por exemplo, dos desastres. Reúnem-se nela profissionais das mais
em Ubatuba, Guarujá e Campos do Jordão, no Estado de diversas áreas de formação, abrangendo desde Ciências
São Paulo, e em tantas outras localidades turísticas Brasil Exatas até Ciências Humanas e Sociais, envolvendo ainda
afora, contrapõem-se favelas e loteamentos problemáticos a atuação de um grande número de entidades públicas e
em encostas, quase sempre longe das vistas dos turistas. privadas, tais como organizações de Defesa Civil e de
Segurança Pública, de assistência emergencial (como a Cruz
Cidades serranas como Petrópolis, no Rio de Janeiro
Vermelha Internacional), além de instituições privadas
e Ouro Preto, em Minas Gerais (onde além do turismo
como, por exemplo, companhias de seguros.
desenvolvem-se outras expressivas atividades econômicas
industriais), com demanda habitacional, têm sido também Ainda que desastres em geral tenham sempre
palcos de implantações perigosas nos morros, quase inquietado a humanidade, é apenas por volta de 1950 que se
sempre associadas às camadas sociais de menor renda, iniciam, nos países desenvolvidos, programas mais
capazes de causar muitas mortes, como 171 ocorridas, em organizados de prevenção contra acidentes de larga escala.
1988, em Petrópolis. A Segunda Grande Guerra, durante a qual o bombardeio de
cidades populosas foi rotina, havia catalisado a consolidação
de planos de Defesa Civil mais desenvolvidos. No período
1.5 - Desastres naturais e encostas: o quadro
subseqüente, o da denominada “Guerra Fria”, a preocupação
internacional
com um conflito nuclear fez com que se aperfeiçoassem
Encostas e suas adjacências constituem ou novos mecanismos de proteção a massas. Por sua vez, o
compreendem, freqüentemente, áreas expostas a riscos, acelerado desenvolvimento industrial e tecnológico do pós-
quer de origem natural, quer induzidos por intervenções guerra trouxe consigo a proliferação de indústrias perigosas.
do homem (ações antrópicas). Tornou-se então necessário organizar planos de defesa contra
O assunto risco é hoje tratado no âmbito de uma acidentes industriais de larga escala.
linha específica de atuação técnica, de cunho fortemente No que diz respeito à proteção contra acidentes de 33
multidisciplinar e interdisciplinar, que busca uma origem natural, o tratamento da questão, de forma mais
compreensão cada vez maior dos fenômenos (naturais ou organizada, só passa a ser mais notório por volta do final
produzidos pelo homem) que oferecem riscos à da década de 60, como afirma CERRI (1993)30 , p.9, citando
humanidade e/ou ao seu patrimônio. Esta linha de atuação várias fontes de renome31 . Evidentemente, a preocupação
técnica desenvolve ações no sentido de minimizar os efeitos com desastres naturais e o aprofundamento de seu estudo

30
CERRI, L.E.S. (1993). Exame de qualificação.
31
A este respeito, CERRI afirma, citando alguns dos autores importantes da linha de atuação em riscos: Particularmente quanto aos riscos naturais, as publicações
pioneiras foram editadas na década de 60 (principalmente final dos anos 60) e início dos anos 70, como pode ser verificado analisando-se a base bibliográfica utilizada
por BOLT et al.(1975); BURTON et al.(1978); KELLER (1982); PETAK & ATKISSON (1982); WIJKMAN & TIMBERLAKE (1985); RAHN (1986) e PARK (1991).

Encostas, cidades e sociedades


antecede, em muito, o período aqui mencionado. O que de diversos países, concluem que há também uma relação
ocorre de novo é a sistematização da informação já dispo- geoeconômica entre ocorrências e seus efeitos. Destacam,
nível, uma busca mais organizada de novas informações e, por exemplo, que o número de mortes por desastre, é
principalmente, a efetiva aplicação do conhecimento à inversamente proporcional à renda nacional de cada país:
minimização dos efeitos dos desastres. menor a renda, maior o número de mortes. Apontam ainda
Dados do COMMITTEE FOR DISASTER um dado de particular interesse para o Brasil: a maioria dos
RESEARCH OF THE SCIENCE COUNCIL OF JAPAN desastres com muitas vítimas ocorre em países de renda
nacional média. Neste sentido, estes dois autores incorporam
(1989)32, p.10, apontam que, no período compreendido
entre 1900 e 1989, ocorreram cerca de 4,08 milhões de a opinião de Gunnar Hagman, da Cruz Vermelha Sueca,
mortes, em todo o mundo, como decorrência de desastres que atribui esta situação ao fato de que os países de renda
média em desenvolvimento tendem a apresentar formas mais
naturais. Este número é bastante impressionante, mesmo
quando comparado com as mortes ocorridas em função agressivas, do ponto de vista ambiental, de uso e ocupação
da Primeira e da Segunda Guerra Mundial (8,5 e 17 milhões, do solo, o que exponencia os riscos.
respectivamente). Estimativas da UNDRO - OFFICE OF Destaca-se ainda que vem ocorrendo uma tendência
UNITED NATIONS DISASTER RELIEF ao incremento no número de desastres naturais a partir da
COORDINATION, apud OGURA (1993)33 , s/p, indicam década de 70, como ilustra a Figura 1.4, mais adiante (onde
que, apenas nas duas últimas décadas, cerca de três milhões a reta inclinada representa a tendência).
de pessoas morreram em decorrência de acidentes naturais
Para o COMMITTEE FOR DISASTER
associados a terremotos, erupções vulcânicas,
RESEARCH OF THE SCIENCE COUNCIL OF JAPAN
escorregamentos em encostas, enchentes, tsunamis34 e
(1989)36 , p.10, no tocante ao número de mortes em
furacões.
desastres naturais, a distribuição de mortes por tipos de
WIJKMAN e TIMBERLAKE (1985)35 , p.31/32, desastres, no mundo, se daria de acordo com o apresentado
34
analisando dados estatísticos referentes aos desastres naturais na Figura 1.5, mais adiante.

32
COMMITTEE FOR DISASTER RESEARCH OF THE SCIENCE COUNCIL OF JAPAN (1989). International Decade for Natural Disaster Reduction: Proposals by
Japanese Scientists.
33
OGURA, A. T. (1993). Riscos geológicos urbanos no Brasil.
34
Maremoto com origem em abalo sísmico submarino, muitas vezes de alto poder destrutivo sobre regiões litorâneas (nota do autor).
35
WIJKMAN, A. et TIMBERLAKE, L. (1985). Desastres naturales: ¿Fuerza mayor u obra del hombre?
36
COMMITTEE FOR DISASTER RESEARCH OF THE SCIENCE COUNCIL OF JAPAN (1989). International Decade for Natural Disaster Reduction: Proposals by
Japanese Scientists.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


Figura 1.4. Número de desastres naturais, no período
1970-1989. Fonte: “Sigma 2/90, Swiss Reinsurance
Company” (1990), in ONU - ORGANIZACIÓN DE LAS
NACIONES UNIDAS (1992), p.10.

35

Figura 1.5. Percentuais de mortes diretamente


decorrentes de acidentes naturais, por tipo de acidente,
no século XX (sob um total de 4.080.000). Fonte:
Adaptado de COMMITTEE FOR DISATER RESEARCH OF
THE SCIENCE COUNCIL OF JAPAN (1989), p.10.

Encostas, cidades e sociedades


Como se vê na Figura 1.5, as mortes causadas por
escorregamentos corresponderiam a apenas 0,1% de um
total de 4.080.000 ocorridas no século XX, até 1989, o
que redundadria em 4.080.
Mas para JONES (1992)37 , p.117/141, que reuniu
dados sobre grandes escorregamentos ocorridos também
no século XX, até 1988, em todo o mundo, as mortes por
este tipo de acidente somariam mais de 266.600, o que
mostra grande disparidade em relação aos dados obtidos
pelos japoneses. As informações reunidas por Jones
encontram-se na Tabela 1.1.
Ora, se apenas reinjetássemos os dados considerados
por Jones nas estatísticas elaboradas pelos japoneses, as
mortes provocadas por escorregamentos passariam a
significar, pelo menos, 6,5 % do total. Verifica-se que as
disparidades são acentuadas. Estas também se originam
na própria deficiência dos dados estatísticos no âmbito
internacional, não permitindo interpretações suficien-
temente seguras. Com certeza, as perdas de vidas decor-
rentes de instabilizações em encostas propriamente ditas
são bastante superiores às consideradas pelos japoneses e
inferiores às compiladas por Jones.
36
Os escorregamentos, no âmbito internacional, não
constituem os acidentes mais danosos. Estes são
principalmente gerados por terremotos, inundações, furacões, Tabela 1.1. Mortes em grandes escorregamentos do Século XX (até
tufões, tornados e congêneres que, à exceção das inundações, 1988). Fonte: adaptado de JONES (1992)38
não se manifestam, de maneira importante, no Brasil.

37
JONES, D.K.C. (1992). Landslide hazard assesment in the context of development. In McCall, G.J.H., Laming, D.J.C. et Scott, S.C. (organizadores): Geohazards:
Natural and man-made.
38
Id, Ib.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


Do ponto de vista de prejuízos materiais imediatos, Além do patrimônio diretamente destruído em
aqui entendidos como o valor do patrimônio material acidentes, as instabilizações em encostas podem determinar
destruído diretamente pelos acidentes, as estatísticas transtornos sociais, assim como a necessidade de ações
encontradas são também pouco esclarecedoras. Para corretivas, por parte do Estado, cujos custos tendem a ser
BRABB (1991), apud AUGUSTO FILHO (1993)39 , p.1, elevados e incluem, entre outras:
no tocante a instabilizações em encostas, tais prejuízos - necessidade de mobilização de organizações de defesa
podem ser estimados na casa dos bilhões de dólares anuais civil e paralisação parcial ou total das atividades normais
em todo o mundo. Este dado, ainda que bastante impreciso, nas áreas atingidas;
encontra forte eco nas estatísticas isoladas de alguns países
- remoção, em caráter provisório ou definitivo, de
como Itália e Estados Unidos da América do Norte.
habitantes dos locais afetados, o que exige alojamentos
Na Itália, no princípio da década de 70, estimou-se provisórios e/ou a obtenção ou construção de unidades
um prejuízo anual em torno dos 1.140.000.000 dólares, habitacionais em local seguro, para relocações
em virtude de escorregamentos, enquanto que nos EUA, definitivas;
as perdas, no mesmo período, giravam em torno de - implantação, nas áreas afetadas, de obras emergenciais
1.000.000.000 de dólares anuais, como destaca JONES para refrear novos escorregamentos;
(1992)40, citando SCHUSTER (1978), p.124. - implantação, nas áreas afetadas, de obras definitivas
Jones citava ainda os prejuízos medidos ou que tendem a incluir:
projetados desde o início dos anos 1970 até o final da · obras de drenagem e contenção
década de 1990, apenas para o Estado da Califórnia (EUA), · urbanização ou reurbanização das áreas afetadas
por ALFORS et al. (1978), que seria de 9.850.000.000 · novas remoções provisórias ou definitivas de
dólares. Neste último caso, as perdas projetadas unidades habitacionais.
pressupunham a manutenção dos níveis então correntes
de investimentos em ações preventivas. Note-se que apenas 37
1.6 - Aproximação a um quadro nacional
para aquele Estado americano, considerava-se um prejuízo
anual médio, associado a escorregamentos, de cerca de Há grande dificuldade de se avaliar o significado de
330.000.000 de dólares, superado apenas pelos prejuízos cada tipo de risco físico no Brasil. Se no âmbito
relacionados a terremotos, para os quais se previam perdas internacional há estatísticas, apesar de suas disparidades,
anuais médias por volta de 700.000.000 de dólares. no Brasil há carência quase absoluta de dados confiáveis.

AUGUSTO FILHO, O. (1993). Carta de risco de escorregamentos: uma proposta metodológica e sua aplicação no Município de Ilha Bela – SP.
39

JONES, D.K.C. (1992). Landslide hazard assesment in the context of development. In McCall, G.J.H., Laming, D.J.C. et Scott, S.C. (organizadores): Geohazards:
40

Natural and man-made.

Encostas, cidades e sociedades


Em se tratando de riscos físicos, conta-se no Brasil com 1.6.1 - Mortes
uma avaliação mais qualitativa que quantitativa, ainda que A Tabela 1.2, a seguir, apresenta o número de mortes
alguns autores, como GONÇALVES (1992)41 , p. 79/92, ocorridas em desastres em encostas, no Brasil, com cinco
no referente a escorregamentos em Salvador (BA) e órgãos ou mais óbitos, do início do século XX até abril de 1994.
como o IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas do
Estado de São Paulo, no especificamente tocante a acidentes Acidentes isolados, com menos de cinco vítimas
de natureza geológico-geotécnica, tenham dado início à (que não estão considerados na Tabela), se somados,
sistematização de informações de episódios históricos perfariam ainda mais dezenas de vítimas. Observando-se
disponíveis e ao registro mais sistemático dos episódios a Tabela 1.2, cabe um comentário: se, apenas no Brasil,
recentes. Na ausência de bases de dados adequadas, fica- no período de 1928 a 1989 ocorreram 2.838 mortes (re-
se principalmente à mercê do pragmatismo dos técnicos sultado da soma parcial até 1989, inclusive), torna-se ainda
para se delinear uma hierarquização. mais difícil aceitar a exatidão dos dados do COMMITTEE
FOR DISASTER RESEARCH OF THE SCIENCE
Enchentes e instabilizações em encostas, sem uma COUNCIL OF JAPAN (que indicavam apenas 4.080
hierarquização explícita, são consideradas, no meio técnico mortes, em todo o mundo, entre 1900 e 1989), como re-
nacional, como os principais riscos físicos presentes no sultantes de escorregamentos.
Brasil. Considera-se ainda que as enchentes e inundações
são responsáveis pelas mais severas perdas materiais, Note-se ainda disparidade destacada no dado usado
causando, porém, um número relativamente pequeno de por Jones para o Rio de Janeiro, em 1966 (1.000 mortes),
mortes. Aceita-se que as instabilizações em encostas geram frente a dados compilados no Brasil, que apontam apenas
o maior número de perdas de vidas, mas tendem a ocasionar 100 mortes.
danos patrimoniais imediatos menos pronunciados que as
1.6.2 - Prejuízos materiais e transtornos sociais
enchentes. Outros riscos físicos estão também presentes
no Brasil, tais como secas, tormentas, vendavais, precipi- Do ponto de vista de prejuízos materiais, poucos
38 tações de granizo e geadas, sismos ou terremotos, erosões, são os dados sistematizados disponíveis no Brasil, desta-
subsidências e colapsos de solo. À exceção das secas (cujos cando-se os reunidos por AUGUSTO FILHO (1993)42 ,
efeitos, tanto diretos quanto indiretos, são de difícil p.2, apresentados no Quadro 1.1. Note-se que os dados se
aferição), tais riscos têm gerado perdas essencialmente referem apenas a componentes de patrimônio, e não a seu
econômicas,em escalas menos expressivas que as inun- valor, impossibilitando comparações com os do âmbito
dações e instabilizações em encostas. internacional.

41
GONÇALVES, N.M.S. (1992). Impactos fluviais e desorganização do espaço em Salvador - BA. Tese de Doutoramento.
42
AUGUSTO FILHO, O. (1993). Carta de risco de escorregamentos: uma proposta metodológica e sua aplicação no Município de Ilha Bela – SP.
43
Fontes: A tabela apresentada congrega dados de GONÇALVES (1992) e de quatro autores pertencentes aos quadros do IPT, a saber: CERRI (1992), GAMA JR
(1992), AUGUSTO FILHO (1993) e MACEDO (1997).

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


39

Tabela 1.2. Mortes em escorregamentos, no Século XX, no Brasil (até 1994)43

Encostas, cidades e sociedades


Ainda segundo Augusto Filho, por ocasião dos escorregamentos ocorridos em Fevereiro de 1988 em Petrópolis,
estimou-se a necessidade de investimento de cerca de 30.000.000 de dólares, apenas em obras de contenção, para estabilização
das áreas afetadas.

40
Quadro 1.1 - Perdas materiais e prejuízos sociais em alguns dos principais escorregamentos, no Século XX, no Brasil (até março de 1992).
Fonte: Adaptado de AUGUSTO FILHO (1993)44 , p.2.

1.6.3 - Tendências de agravamento da situação Brasil, fica de antemão prejudicada frente à exigüidade dos
Do ponto de vista quantitativo, a projeção de dados dados estatísticos disponíveis. Isto não impede, porém, que
sobre tendências de variação do número e da gravidade se mostre, a título de ilustração, as interpretações e projeções
dos desastres envolvendo a instabilização de encostas, no elaboradas por AUGUSTO FILHO (1993)45 , p.3, com base

44
AUGUSTO FILHO, O. (1993). Carta de risco de escorregamentos: uma proposta metodológica e sua aplicação no Município de Ilha Bela – SP.
45
Idem. Ibidem.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


nos levantamentos que efetuou (cujos resultados compõem encostas. Tais previsões, em boa medida, se confirmaram.
parte das tabelas 2 e 3). O autor destaca, por exemplo, Segundo dados sistematizados por MACEDO (2001)46 ,
ocorreram, no Brasil, entre janeiro de 1990 e janeiro de
... a deflagração de um acidente de grandes proporções, com mais
2000, nada menos que 815 mortes em virtude de 256
de 10 mortes, a cada 3,5 anos, no período de 1928 a 1992. Na
episódios de escorregamentos na década de 1990.
década de 70, este tempo de recorrência reduz-se para 1,5 anos e,
na de 80, para 1 ano, indicando uma tendência de aumento na As projeções apresentadas, ainda que passíveis de
freqüência destes acidentes. discussão, espelhavam em boa medida o panorama
preocupante presente em muitas das cidades brasileiras com
Com base nos dados disponíveis, Augusto Filho
ocupação indiscriminada de encostas, onde iam se
chega a elaborar projeções sobre o provável número de
acumulando novas situações de risco, em especial a partir
acidentes que poderiam ocorrer até o final da década de
de meados da década de 80. Este agravamento em muito
90, que se apresentam na Figura 1.6.
reflete condições inerentes ao nosso processo de urbanização,
As projeções de Augusto Filho, à época consideradas no qual fatores sócio-econômicos “empurram” os segmentos
exageradas, apontavam um panorama preocupante para a sociais menos favorecidos para a ocupação de áreas mais
década de 90, no Brasil, no tocante a possibilidade de problemáticas, do ponto de vista do meio físico. Isto se dá,
ocorrência de acidentes associados à instabilização de no geral, sem qualquer tipo de apoio técnico, indispensável

41

Figura 1.6. Freqüência de grandes acidentes associados a


escorregamentos no Brasil. Fonte: AUGUSTO FILHO (1993)47, p.4.
(*) Os dados para a década de 90 são projeções a partir dos
acidentes ocorridos até 1992.

46
MACEDO, E.S. (2001). Elaboração de cadastro de risco iminente relacionado a escorregamentos: avaliação considerando experiência profissional, formação
acadêmica e subjetividade. Tese de Doutoramento. Universidade Estadual Paulista. Instituto de Geociências e Ciências exatas. Rio Claro.
47
Carta de risco de escorregamentos: uma proposta metodológica e sua aplicação no Município de Ilha Bela – SP.

Encostas, cidades e sociedades


para que, pelo menos, as ocupações se dêem dentro de entes de terrenos desprotegidos, abrangendo desde grandes
padrões que garantam segurança. áreas terraplenadas até pequenas áreas, pulverizadas, no
aguardo de construção. Ainda que se verifiquem muitas
áreas nestas condições, destinadas ao assentamento indus-
1.7 - Efeitos indiretos da ocupação trial e comercial, é nos loteamentos populares da periferia
inadequada de encostas no Brasil que se concentram muitas das fontes de material erodido,
Como pôde ser visto anteriormente, instabilizações talvez as principais, como esclarece o IPT (1993)48 , p.75/
em encostas, no Brasil, têm causado, diretamente, mortes 78.
e prejuízos materiais, além de outros prejuízos de curto, À inadequação das características dos loteamentos
médio e longo prazos, relacionados com os efeitos dos soma-se ainda a inadequação da maneira com que são
desastres. implantados e mantidos. A cultura e a obrigatoriedade do
A breve análise realizada prendeu-se, porém, aos “terreno limpo” geram fortes deseconomias nas cidades,
aspectos ligados diretamente a acidentes. Cabe aqui através da erosão e do conseqüente assoreamento dos
mencionar outros efeitos sobre o funcionamento das cursos d’água, o que requer elevados investimentos
cidades, que tendem a passar desapercebidos, no tocante à permanentes em dragagem de rios e desobstrução de
sua relação com a ocupação inadequada de encostas. sistemas de drenagem de córregos e canais, o que nem
sempre é realizado na freqüência necessária, penalizando
Um primeiro aspecto a mencionar é o da relação do
as baixadas com riscos de inundação.
uso urbano inadequado dos morros com inundações. Aos
deslizamentos de terra e, principalmente, à erosão paulatina Um segundo aspecto diz respeito ao saneamento:
que tende a se desenvolver em loteamentos e favelas em largamente preteridos na priorização de implantação de
encostas, corresponde um assoreamento importante dos redes de esgoto, as favelas e loteamentos populares em
cursos d’água, favorecendo, nas baixadas, as inundações. No encostas fornecem, para as baixadas, quantidades impor-
Brasil, a erosão é particularmente intensa nos loteamentos tantes de efluentes sanitários, através de lançamentos a céu
42
populares em encostas, cuja ocupação pode ser lenta, aberto ou em redes de drenagem de águas pluviais. Assim,
propiciando longos períodos de exposição de solos. as baixadas podem funcionar como verdadeiras cloacas, o
que visualmente se dissimula, pois o transporte dos efluen-
O fornecimento de solo particulado aos córregos e
tes a longas distâncias permite, pelo menos, a dissolução
rios chega a cifras assustadoras. No caso da Grande São
dos dejetos sólidos.
Paulo, os rios Tietê e Pinheiros recebem, anualmente, nada
menos que 5.000.000 m3 de material de assoreamento, em Aos incontáveis assentamentos precários das encos-
sua maior parte constituído por partículas de solo proveni- tas de Petrópolis (RJ), por exemplo, corresponde uma ver-

IPT - INSTITUTO DE PESQUISAS TECNOLÓGICAS DO ESTADO DE SÃO PAULO. (1993). Erosão e assoreamento nas bacias dos rios Tietê e Pinheiros na Região
48

Metropolitana de São Paulo: Diagnóstico e diretrizes para a solução integrada do problema.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


dadeira “cloaca” na baixada fluminense. Torna-se desne- deslizamentos entre riscos naturais, parece haver uma certa
cessário comentar os aspectos ambientais e de saúde pública inadequação. Ainda que autores como CERRI (1992)49
envolvidos. Nos municípios turísticos litorâneos, de pouco admitam, nos riscos naturais, sua indução ou intensificação
adianta a rede de esgotos das planícies: os efluentes através de ações do homem, é pertinente a seguinte reflexão:
sanitários provenientes dos assentamentos precários nas se o próprio Cerri identifica uma outra classe específica de
encostas são suficientes para assegurar condições de riscos, distinta dos naturais, que denomina por tecnológicos,
balneabilidade inadequadas nas praias. Os córregos que associados aos processos produtivos, opções e concepções
chegam ao mar são ricos em efluentes sanitários das encos- técnicas, dentre estes, seria perfeitamente plausível
tas. Neste contexto, falar em melhorias no meio ambiente considerar uma subclasse de riscos denominados por
urbano sem mencionar as disfunções que a miséria e a geotécnicos, dizendo respeito às concepções técnicas
omissão ou a intervenção inadequada do Poder Público utilizadas na ocupação ou transformação de terrenos50,
determinam no uso urbano das encostas, torna-se falar de especialmente em encostas. O termo natural tem uma forte
quase nada, ou quando muito, só de “meio” ambiente. conotação com imponderabilidade e com imprevisibilidade.
Seu emprego, para boa parte dos acidentes que ocorrem
em encostas, em função da ocupação urbana, não é
1.8 - Instabilizações em encostas: desastres
efetivamente adequado.
naturais?
O avanço científico e técnico alcançado no trato de
Em classificações de riscos, escorregamentos em
questões de estabilidade de encostas permite hoje, em
encostas são sempre classiificados entre os riscos naturais.
muitos casos, diferenciar opções técnicas adequadas e
Torna-se necessário esclarecer, inicialmente que os inadequadas. Nesta ótica, eventuais riscos decorrentes de
termos “escorregamentos” e seu sinônimo, “deslizamen- opções técnicas inadequadas no processo de ocupação
tos” (landslides, na literatura de língua inglesa), são urbana de encostas não se enquadram satisfatoriamente
genericamente empregados, na literatura sobre riscos, para entre riscos naturais. Esta questão transcende o mero
designar instabilizações em encostas, independentemente aspecto conceitual. Numa sociedade responsável, munida 43
das características específicas dos fenômenos envolvidos. de instrumentos técnicos adequados, não é aceitável encarar
Na realidade, as instabilizações em encostas abrangem a ocorrência freqüente de acidentes advindos, por exemplo,
diversos fenômenos, para os quais os termos “desliza- da ocupação incorreta de encostas, com a conotação tão
mentos” e “escorregamentos” nem sempre constituem difundida de “obras do acaso”. Neste sentido, é ilustrativo
designações adequadas, como será visto no Capítulo 2. o título da obra de WIJKMAN e TIMBERLAKE (1985):
Quanto à classificação de escorregamentos ou Desastres Naturales - ¿Fuerza mayor u obra del hombre?.

49
CERRI, L.E.S. (1993). Exame de qualificação.
50
O autor chega a definir riscos geotécnicos (como caso particular de riscos geológicos, classe específica de riscos naturais), para as situações onde a ocorrência de
processos geológicos sofre a interferência direta de algum tipo de obra de engenharia.

Encostas, cidades e sociedades


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Encostas, cidades e sociedades


46

2.
Coleção Habitare - Habitação e Encostas
2.
Ocupação urbana e estabilidade
de encostas

2.1 - Considerações preliminares

H
á uma estreita relação entre características da ocupação urbana de encostas e a manutenção ou
incremento de suas condições de estabilidade (ou de instabilidade). Há também uma estreita
relação entre as características deste tipo de ocupação e os aspectos de custos associados às
implantações, a curto, médio e longo prazos. Nesse quadro, ocupar encostas deveria significar, pelo menos
em parte, buscar uma otimização nestas relações.

No presente capítulo apontam-se, inicialmente, os principais elos entre a estabilidade de encostas e a 47

ocupação urbana. Em seguida, aponta-se para o fato de que já se dispõe, em medida importante, de recursos
técnicos capazes de melhor conduzir à otimização da ocupação nos morros do ponto de vista da segurança
e da economicidade, que quase nunca são utilizados, pelo menos no Brasil. Não se tenciona aqui dotar os
textos de uma conotação de conhecimento mais profundo de geologia e de geotecnia, mas apenas destacar
aspectos básicos destas áreas do conhecimento, cuja consideração é necessária em projetos voltados a encostas,
demandando a participação de especialistas, preferencialmente, desde os primeiros passos do processo de
concepção de novos assentamentos.

Ocupação urbana e estabilidade de encostas


2.2 - Formação, características, inserção e pode facilmente implicar a alteração da condição de
estabilidade das encostas estabilidade. Perceba-se também que encostas geométrica
e geologicamente idênticas podem apresentar condições
A superfície da Terra, ao longo dos tempos, vem
de estabilidade diferenciadas, de acordo com sua inserção
sendo esculpida por forças internas e externas à superfície,
fisiográfica (por exemplo, em regiões com distintos regimes
exercidas por agentes geológicos, climatológicos, biológicos
de chuvas).
e, mais recentemente, por ações do próprio homem (ações
antrópicas). Algumas destas transformações necessitam de
milhares de anos para se fazerem sentir. Outras são 2.2.1 - Características geométricas
relativamente rápidas, podendo ser assistidas na escala de Do ponto de vista geométrico, quatro são as
tempo de uma vida humana. principais características das encostas: inclinação (a),
O relevo resulta de um equilíbrio temporário entre declividade (D), amplitude (H) e perfil, assim definidos:
forças internas à superfície terrestre e forças externas a Inclinação (a): é o ângulo, expresso em graus, for-
ela. As primeiras tendem a elevar a superfície e as demais mado entre o plano horizontal e o plano médio da encosta,
a nivelá-la. Estacionada, porém, num determinado local, a medido usualmente a partir da base (Figura 2.1).
ação de esforços de grande magnitude, internos à crosta, e Amplitude (H): é a diferença de cotas verificada entre
atingindo-se uma situação de equilíbrio interno, tende a o topo e a base da encosta (Figura 2.1).
continuar a ação de forças externas e de esforços que, apesar
de internos, são subsuperficiais (tais como cargas Declividade (D): é a relação, expressa em
piezométricas), além da gravidade. Note-se aqui uma porcentagem, entre a amplitude e o comprimento da
primeira e importante constatação: no ambiente natural, projeção horizontal da encosta. Seu valor corresponde a:
as encostas podem ser consideradas como terrenos em D = 100 x (H / L),
equilíbrio transitório, principalmente expostos à ação da onde: H é a amplitude e L é o comprimento da
48 projeção horizontal da encosta, denominado simplesmente
gravidade e a agentes subsuperficiais e externos à superfície
terrestre, que tendem a remodelá-las, procurando comprimento da encosta, como pode ser visto na Figura
transforma-las em terrenos planos. 2.1, mais adiante apresentada.

A estabilidade de uma encosta, em seu estado Perfil: é a característica de variação da declividade


natural, é condicionada concomitantemente por três fatores da encosta ao longo de sua seção transversal, que define
principais: por suas características geométricas, por suas três principais tipos - as retilíneas, as côncavas e as convexas,
características geológicas (tipos de solos e rochas que a como mostra a Figura 2.2, mais adiante.
compõem) e pelo ambiente fisiográfico em que se insere Note-se que, efetivamente, a inclinação e a
(abrangendo clima, cobertura vegetal, drenagens naturais, declividade se referem a uma mesma característica,
etc.). A alteração natural ou artificial destas condicionantes constituindo apenas formas diferentes de expressão de uma

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


mesma grandeza. Os termos são aqui diferenciados porque No âmbito geral do estudo do relevo, as encostas
as duas denominações são de emprego corrente. No âmbito são ainda associadas a denominações particulares de acordo
da presente tese, as referências a esta grandeza são feitas com as relações predominantes entre amplitudes e
predominantemente pela declividade, estando, portanto, declividades. Como afirma CUNHA (1991)2 , p.5:
expressas em percentuais. A opção decorre de um uso mais
“A combinação de diferentes amplitudes e declividades de encostas
freqüente, pelos arquitetos, de percentuais para expressar
define as diversas formas de relevo acidentado, tais como morros
aclives ou declives.
(declividades acima de 15% e amplitudes entre 100 e 300m);
relevo montanhoso (declividades acima de 15% e amplitudes acima
de 300m) e escarpas (declividades acima de 30% e amplitudes
acima de 100m).”
Por extensão, uma elevação de terreno, considerada
isoladamente, é denominada morro, montanha ou escarpa,
com base nestes mesmos critérios.

2.2.2 - Características geológicas


Os solos que constituem os terrenos podem ter duas
Figura 2.1. Inclinação (a), comprimento (L) e amplitude (H) de uma origens principais:
encosta. CUNHA (1991),p.4.
- a alteração de rochas locais (rochas-matrizes), por
processos físicos, químicos, físico-químicos, biológicos
etc.), que dá origem aos genericamente denominados
solos residuais ou
49
- o transporte e deposição de solos de outros locais
(incluindo locais às vezes distantes e épocas remotas
de transporte), que podem dar origem, com o tempo,
às denominadas rochas sedimentares e, posteriormente,
por novos processos físicos, químicos, físico-químicos,
Figura 2.2. Perfis típicos de encostas: a - retilíneas; b - convexas; c -
côncavas. Fonte: CUNHA (1991)1 , p. 4. biológicos etc., dão origem a novos solos.

1
CUNHA, M.A. (Coordenador). (1991). Ocupação de encostas.
2
CUNHA, M.A. (Coordenador). (1991). Ocupação de encostas.

Ocupação urbana e estabilidade de encostas


2.2.2.1 - Encostas em solos residuais de montante, sob ação da gravidade (origem coluvionar).
Os processos de formação de solos a partir da - solo saprolítico (solo de alteração ou residual jovem), de alteração
alteração local de uma rocha matriz ocorrem em quase ou saprolítico: unidade subjacente ao solo superficial, com
todos os tipos de clima, dando origem à formação do propriedades texturais e estruturais diretamente relacionadas à
denominado manto de alteração, que se constitui por camadas rocha sobre a qual está assentado e que deu origem à sua formação.
de solos de diferentes características, definidas pelos Apresenta, freqüentemente, cores variegadas.
diferentes processos de transformação por que passaram - saprolito (transição solo-rocha): unidade que não pode ser mais
e por características da rocha-mãe (rocha-matriz). Tais considerada como solo, devido a suas características de resistência;
processos são bem mais intensos e rápidos em climas porém, apresenta-se muito alterada e fraturada, o que lhe confere
tropicais, que compreendem parte importante do território um comportamento intermediário entre o solo e a rocha.
brasileiro. A ação de intempéries como calor, chuvas e - rocha: é a unidade mais profunda do manto de alteração,
umidade, mais vigorosa nas regiões tropicais, favorece as apresentando resistência superior às das unidades subjacentes.
alterações. Em climas temperados, o manto de alteração é Em função de seu grau de alteração e fraturamento, pode ser
em geral pouco espesso, enquanto em climas tropicais tende dividida em sub-unidades.”
a apresentar maior profundidade.
Além destas camadas seqüenciais, tendem a se
O manto de alteração é normalmente composto por formar, geralmente junto à base das encostas (ou,
uma série de camadas (unidades) sobrepostas, normal- eventualmente, em trechos mais altos, confinados em colos),
mente paralelas à superfície do terreno. Cada uma destas depósitos constituídos por fragmentos de rocha e por solos
camadas apresenta características geotécnicas próprias (tais provenientes de montante, constituindo um material
como resistência mecânica, plasticidade, erodibilidade etc.), heterogêneo, do ponto de vista textural, que pode apresentar
e separa-se das outras por regiões de contato que podem fragmentos de rocha de dimensões variadas (de poucos
ser bruscas ou graduais. Um modelo geral do número e decímetros a alguns metros), em matriz composta por solo.
disposição de camadas (unidades) pode ser sintetizado, das São os denominados depósitos de tálus ou corpos de tálus.
50 mais superficiais para as mais profundas, de acordo com
Apesar de se constituírem por solos e fragmentos
CUNHA (1991)3 , p.9:
de rochas efetivamente transportados (classificando-se,
- “Solo laterítico (solo superficial ou residual maduro) ou portanto, a rigor, como solos transportados), os depósitos
laterizado: unidade mais superficial, apresenta-se freqüentemente de tálus tendem a ocorrer associados a encostas em solos
laterizado (concentração de óxidos de ferro e alumínio), com alta residuais, como o representado, esquematicamente, na
porosidade (volume de vazios / volume total), predominantemente Figura 2.3. Sua ocorrência pressupõe que, a montante, haja
argiloso e com cores em tons amarelados e avermelhados. Pode ser solos efetivamente residuais, formados por alteração de
originário de alteração local de rocha ou de materiais transportados um embasamento (rocha-mãe) local.

3
CUNHA, M.A. (Coordenador). (1991). Ocupação de encostas.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


2.2.2.2 - Encostas em bacias sedimentares O Município de São Paulo tem uma parte
Assim como o clima tropical favorece a formação particularmente importante de sua formação urbana
de solos residuais, favorece também o seu transporte e assentada sobre sedimentos, na chamada Bacia Sedimentar
deposição em outros locais, principalmente pela ação das de São Paulo (BSSP), formada em períodos geológicos
águas das chuvas, que desencadeiam erosões e correspondentes ao Terciário (de 1,8 até 65 milhões de anos).
escorregamentos em encostas e atingem cursos d’água As várzeas dos rios paulistanos são também
capazes de transportar os solos, às vezes a grandes formadas por sedimentações, mas ocorridas desde o
distâncias. Em regiões tropicais, torna-se então também Quaternário (de 0 até 1,8 milhões de anos), sem litificação
mais expressiva que em climas temperados a ocorrência e e pouco expressivas em associações com encostas íngremes.
profundidade das denominadas bacias sedimentares.
Constituem-se por camadas de sedimentos associadas aos Os sedimentos encontrados nas bacias terciárias
diversos materiais transportados, litificados (transformados apresentam camadas de espessura e textura bastante variada,
em rochas) ou não, e submetidos ou não a novos processos com diversos graus de consolidação. Estão geralmente
físicos, químicos ou biológicos. Sua profundidade relaciona- associados a relevos de colinas com encostas suaves mas,
se com as características geométricas e dimensionais do eventualmente, podem formar relevos mais pronunciados,
embasamento local sobre o qual se deu a deposição do com morrotes e morros, apresentando declividades
material transportado. superiores a 15%. A Figura 2.4 apresenta, a título de
ilustração, um perfil comum de terreno formado por solos
transportados, no Terciário.

51

Figura 2.3. Camadas (unidades) típicas em encostas em solos Figura 2.4. Perfil típico de sedimentos terciários. Fonte: CARVALHO
residuais. (corte) Fonte: Adaptado de CUNHA (1991)4 , p.8. (coordenador). (1991)5 , p.56.

4
CUNHA, M.A. (Coordenador)(1991). Ocupação de encostas.
5
CARVALHO, P.A.S.(Coordenador). (1991). Manual de geotecnia: taludes de rodovias.

Ocupação urbana e estabilidade de encostas


Neste tipo de terreno, como mostra a figura, não é determinado período de tempo, correlacionam-se
incomum a presença de diversos lençóis d’água suspensos, estreitamente com a deflagração de instabilizações em
que surgem em função da ocorrência de camadas encostas.
impermeáveis, alternadas com camadas permeáveis. Ainda que o papel das chuvas não seja isolado,
combinando-se com características geométricas e
2.2.3 - Ambiente fisiográfico geológicas dos terrenos, sua importância é fundamental.
O ambiente fisiográfico, como já se inferiu No que diz respeito a um dos particulares tipos de
anteriormente, desempenha papel importante na fenômenos de instabilização (que serão mais adiante
constituição dos terrenos ao longo do tempo. Seu papel, estudados) - os escorregamentos - GUIDICINI et NIEBLE
porém, não cessa aí. No caso de encostas, pode favorecer (1983)6 , p.11, afirmam:
novos processos mais rápidos (tendo por referência a escala “As chuvas não representam senão um dos aspectos a serem
de períodos geológicos) e capazes de alterar as condições considerados na tentativa de análise de condições que conduzem
de estabilidade anteriormente atingidas, propiciando novas ao aparecimento de escorregamentos. Inúmeros outros fatores
remodelações de terreno. Constituído por componentes de
atuam ... .... Trata-se, entretanto, do aspecto mais significativo,
clima, de capeamento vegetal, de relevo e de aspectos
distanciando-se dos demais fatores em importância. Se não todos,
topográficos locais, o ambiente fisiográfico envolve, por
quase todos os escorregamentos registrados em nosso meio
exemplo, ações do gelo, da água, do sol e dos ventos, cujos
fisiográfico estão associados a episódios de elevada pluviosidade,
efeitos sobre a encosta podsem variar, de acordo com os
de duração compreendida entre algumas poucas horas até alguns
demais componentes (vegetação presente e peculiaridades
dias.”
topográficas ou de relevo, tais como proeminências de
terreno e/ou drenagens naturais). É ilustrativo, neste
sentido, o fato de que em latitudes sul, as encostas voltadas 2.2.4 - Processos naturais de instabilização de
52 para o sul, recebendo pouco sol, tendem a ser mais úmidas encostas
e instáveis, em chuvas, que as voltadas para o norte. Como já foi dito anteriormente, as condições
No Brasil que, em grande parte, está situado em naturais de equilíbrio das encostas dependem
região tropical quente e úmida, as chuvas acabam concomitantemente de três fatores: das suas características
configurando o principal fator do ambiente fisiográfico na geométricas, das suas características geológicas e do
transformação natural das encostas. A intensidade das ambiente fisiográfico em que se inserem. Em seu estado
chuvas, seu tempo de duração e seu acúmulo, num natural, as encostas podem estar, assim, muitas vezes

6
GUIDICINI, G. et NIEBLE, C.M. (1983). Estabilidade de taludes naturais e de escavação.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


expostas a instabilizações. Os principais processos naturais formar vazios internos, através do fenômeno denominado
de instabilização que se verificam são os denominados por “piping”. Aumenta-se então a instabilização do terreno,
transportes de massa (erosões e processos correlatos), e os podendo ocorrer desabamentos laterais na erosão e, em
movimentos gravitacionais de massa (rastejos, suas proximidades, afundamentos de superfície. Neste
escorregamentos, quedas, tombamentos, rolamentos de estágio, o fenômeno erosivo recebe o nome particular de
matacões e corridas de massa. Descrevem-se, a seguir, em boçoroca, e o fenômeno pode atingir grandes proporções.
linhas gerais, os referidos processos.
Na natureza, as erosões tendem a se formar em áreas
2.2.4.1 - Erosões menos vegetadas ou que, por motivos naturais, tenham
Erosões são fenômenos sintetizáveis no perdido vegetação (por exemplo, em incêndios naturais ou
desprendimento e transporte de partículas de solo sob a em arrancamento de árvores por ventos fortes). A presença
ação dos denominados agentes erosivos (tais como água, de vegetação inibe a erosão, quer pela atenuação do impacto
vento e geleiras). Para o caso do Brasil, a água constitui o direto da chuva sobre o solo, quer pela estruturação que as
principal agente. raízes conferem ao terreno.
As erosões podem se restringir a efeitos lentos da 2.2.4.2 - Rastejos
água sobre o terreno, com o desprendimento e transporte,
Rastejos são movimentos gravitacionais de massa
apenas, de partículas superficiais do solo, de maneira
que se processam de forma lenta, abrangendo grandes áreas
uniforme ao longo da superfície, constituindo o que poderia
da encosta afetada. Originam-se, com mais freqüência, nas
ser considerado como uma simples lavagem do terreno, sem
variações climáticas sazonais, pela alternância do
a formação de veios preferenciais, mais pronunciados, de
umedecimento com a secagem. Não apresentam superfícies
escorrimento. Nesta situação a erosão é dita laminar.
nítidas de ruptura, abrangendo, em geral, diversas camadas
Quando além do transporte das partículas de solo e rocha.
superficiais passam também a se desprender, por arraste,
Podem ser percebidos, principalmente, através do 53
partículas não superficiais, podem se formar veios
(caminhos preferenciais), canais ou cavidades, e podem aparecimento de fendas na superfície e pela alteração da
ser atingidas camadas de solos com menor resistência ao inclinação do terreno, que se observa, por exemplo, através
fenômeno. A erosão pode então evoluir para sulcos e da inclinação de árvores.
ravinas, que constituem denominações específicas para A ordem de grandeza da movimentação em rastejos
diferentes profundidades de canais, chamando-se de ravinas corresponde, normalmente, à de centímetros por ano. No
os mais profundos. que pese a lentidão característica deste tipo de movimento
Caso a erosão se aprofunde até o lençol freático, gravitacional de massa, os rastejos, muitas vezes, são o
este último poderá carrear, para o interior da ravina, prenúncio de movimentos mais bruscos, tais como os
partículas de solos da camada que o contém, podendo escorregamentos, mais adiante tratados.

Ocupação urbana e estabilidade de encostas


Como afirmam GUIDICINI et NIEBLE (1983)7, deflagrados por diversos mecanismos como, por exemplo,
p.20: por uma chuva muito forte, mesmo que de duração pouco
prolongada, que pode ocasionar a perda de coesão num
“Massas em processo de rastejo, que atinjam taludes mais
trecho mais superficial de solo, que se destaca e se desloca
íngremes, poderão bruscamente passar ao estado de escorregamento,
sob ação da gravidade. Em chuvas menos intensas, mas
principalmente no caso de rastejo de rochas.”
prolongadas e, numa situação crítica - quando após alguns
WOLLE (1980), apud CARVALHO (1996)8 , p.14, dias de chuvas menos intensas, mas contínuas, ocorre uma
no que diz respeito a rastejos em solos superficiais, associa precipitação mais intensa - podem ocorrer elevações
três possíveis origens ao fenômeno: a alternância de ciclos importantes do nível de água subterrânea, com conseqüente
de umedecimento e secagem; as ocorrências de aumento da carga piezométrica, o que tende a originar
escorregamentos de pequenas porções de solo, com escorregamentos. Lençóis d’água confinados por camadas
transferência de tensões para regiões adjacentes superiores impermeáveis, sofrendo incrementos de pressão,
anteriormente estáveis e a ação constante da gravidade, são também capazes de destacar as camadas superiores de
produzindo fenômeno de fluência (deslocamento sob solos, igualmente originando escorregamentos.
solicitação constante).
Os mecanismos de ruptura, em escorregamentos,
Os depósitos de tálus, já definidos anteriormente, podem ser classificados em translacionais e rotacionais.
tendem a apresentar fenômenos de movimentação de Diferentemente dos rastejos, tendem a se dar em superfícies
natureza correspondente à dos rastejos. Por mostrarem de ruptura mais nítidas, muitas vezes em descontinuidades
condições mecânicas pouco uniformes, uma vez que se entre camadas de solos ou entre camadas de solo e rocha.
constituem por uma deposição irregular de solos e Nos escorregamentos translacionais, a superfície do
fragmentos de rocha, podem apresentar igualmente fendas escorregamento tende a assumir forma planar (paralela ao
em superfícies irregulares, decorrentes de movimentações perfil da encosta) ou de cunha, enquanto que nos
lentas, que também podem anteceder movimentações mais rotacionais, a forma assumida é a do lado côncavo de uma
54
bruscas. calota esférica.
2.2.4.3 - Escorregamentos 2.2.4.4 - Quedas e tombamentos
Escorregamentos são movimentos gravitacionais Quedas e tombamentos são instabilizações
bruscos de massa, envolvendo solo ou solo e rocha, caracterizadas pelo desprendimento de blocos de solo ou
potencializados, na natureza, no caso do Brasil, prin- rocha de um maciço, seguido da queda livre ou rotação
cipalmente pela ação das águas de chuvas. Podem ser (tombamento) da parte destacada. As quedas ocorrem a

7
GUIDICINI, G. et NIEBLE, C.M. (1983). Estabilidade de taludes naturais e de escavação.
8
CARVALHO, C.S. (1996). Gerenciamento de riscos geotécnicos em encostas urbanas: uma proposta baseada na análise de decisão.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


partir de proeminências do terreno, em encostas íngremes, 2.2.5 - Ocupação urbana e instabilizações em
pela ruptura brusca em trechos com descontinuidades de encostas
material (tais como fraturas ou planos de menor resistência) As ações humanas sobre as encostas, seja para a
ou por variações térmicas que, ocasionando dilatação e agricultura e para a pecuária, seja para a mineração, seja
contração do material, favorecem rupturas. Os ainda para a ocupação urbana, alterando as características
tombamentos (ou basculamentos) ocorrem principalmente originais dos terrenos, podem potencializar instabilizações.
em paredões de rocha ou solo, em encostas íngremes, que Dentre estas ações (denominadas antrópicas), tendem a
apresentem falhamentos verticais, paralelos à superfície. apresentar grande impacto - e muitas vezes riscos mais
Às vezes se dão mesmo na ausência de falhamentos. O pronunciados, pela presença mais intensa de seres humanos
bloco destacado tomba, girando em torno de um eixo - as impostas pela ocupação urbana. Existem diversas
horizontal situado ao longo da sua parte inferior. demandas e imposições freqüentes da ocupação urbana
2.2.4.5 - Rolamentos de matacões que se traduzem em alterações das encostas naturais,
Os rolamentos de matacões, como diz o próprio algumas das quais se destacam:
nome, consistem no rolamento, encosta abaixo, de blocos - retirada de vegetação, com alteração do ambiente
de rocha que se desprendem do terreno, principalmente fisiográfico;
por ação de águas pluviais. Ocorrem predominantemente - movimentações de terra, com alteração das
em áreas graníticas, que originam matacões de rocha sã, características geométricas da encosta, podendo
isolados e expostos em superfície. envolver ainda:
2.2.4.6 - Corridas de massa . exposição de solos originalmente situados em
As corridas de massa extrapolam a encosta isolada, camadas mais profundas, mais suscetíveis frente a
verificando-se em regiões de relevo acidentado onde, em algum ou alguns dos processos de instabilização já
chuvas excepcionais, ocorre um elevado aporte de materiais mencionados;
para as drenagens, a partir de escorregamentos e/ou erosões . aterros com solos diferentes do original ou com 55
múltiplas. O material desprendido e encharcado é condições de compactação e proteção diferentes da
canalizado num vale, criando um curso viscoso de lama. original9 .
O escoamento de lama, por sua vez, é capaz de sustentar o - alteração do regime natural de escoamento e infiltração
transporte de, por exemplo, árvores de grande porte ou até de águas pluviais, modificando, mais uma vez, o
mesmo de grandes matacões, conferindo ao fenômeno um ambiente fisiográfico, abrangendo, quase sempre fluxos
alto poder destrutivo. e lançamentos concentrados de água;

9
A exposição de solos originalmente mais profundos ou a importação de solos para aterros acabam, na prática, alterando as características originais da encosta.

Ocupação urbana e estabilidade de encostas


- introdução de novas fontes de águas superficiais e comum a permanência de grandes áreas de solo expostas
sub-superficiais associadas a redes de água e de esgotos por períodos longos, dando espaço ao desenvolvimento
com vazamentos e a fossas negras e sépticas; de erosões.
- deposição de materiais estranhos ao terreno natural É também freqüente, em loteamentos, a execução
(principalmente lixo e/ou entulho), caracterizando dos denominados desbastes de quadras, cuja finalidade é a
sobrecargas, principalmente quando encharcados, e com de nivelar as testadas de lotes com o viário, o que acaba
comportamento geotécnico que pode afetar o do terreno também por expor solos mais suscetíveis, dando origem a
original. intensos processos erosivos, além de patrocinar o
Tendo por referência os processos naturais de assoreamento de bacias e cursos d’água a jusante, como
instablização de encostas, anteriormente tratados, passa- ilustra a Foto 2.1.
se aqui a estabelecer relações entre as transformações com Em muitos municípios brasileiros, a erosão urbana
origem na ocupação urbana e o desencadeamento de vem gerando fortes deseconomias, com a necessidade de
instabilizações. A ocupação é freqüente indutora de elevados investimentos públicos para a sua recuperação,
processos de instabilização, similares aos já mencionados assim como para o desassoreamento de cursos d’água: os
para as condições naturais, mas pode propiciar ainda outros solos transportados para jusante preenchem bacias e cursos
processos, mais característicos de terrenos remodelados, d’água, com prejuízos notáveis.
como será visto a seguir.
2.2.5.1 - Ocupação urbana e erosão
Como primeiro fator indutor de erosão em encostas,
a ocupação urbana demanda desmatamentos, que expõem
mais os solos à ação da água e, conseqüentemente, ao
desenvolvimento de fenômenos erosivos. Em seguida,
56
várias outras conseqüências da ocupação determinam novas
fontes de erosões: a mudança do regime natural de
escoamento das águas, com a tendência a criar Foto 2.1. Loteamento Vila Lígia, em Mauá, Região
concentrações de fluxos, é capaz de dar origem a sulcos, Metropolitana de São Paulo, com erosões generalizadas por
“desbastes de quadras”. Fonte: Arquivo IPT.
ravinas e boçorocas. Na execução de cortes, é freqüente a
exposição de solos mais suscetíveis ao fenômeno. Em
Em Bauru (SP), por exemplo, onde são freqüentes
aterros pouco compactados e desprotegidos, a
os processos erosivos em áreas urbanas, alguns assumem
suscetibilidade à erosão tende a ser também elevada.
dimensões assustadoras, como uma boçoroca que evoluiu,
Em terraplenagens extensas, seja para a criação de em 1993, no loteamento denominado Parque Bauru. Esta
loteamentos residenciais, seja para implantar indústrias, é resultou em altura superior a 25m e largura superior a 30m

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


(na cabeceira), e comprimento superior a 800m, tragando A ocorrência de erosões pode se dar até em encostas
trechos inteiros do referido loteamento, destruindo o com declividades suaves e há uma forte interação entre a
arruamento e nove casas, além de propiciar um urbanização e a eclosão de processos erosivos em áreas
impressionante assoreamento de dois lagos situados em urbanas e periurbanas. Dos aspectos de traçado viário e de
clube de campo vizinho e de um curso d’água a jusante.
De acordo com o IPT (1994)10 , p.15, a boçoroca do Jardim
Bauru movimentou cerca de 300.000m3 de solos, o
equivalente a cerca de 50.000 caminhões de terra. As fotos
2.2, 2.3 e 2.4 apresentam aspectos deste episódio.
Como já foi dito no Capítulo 1, estima-se que na
Grande São Paulo ocorre o carreamento anual de cerca de
5.000.000m3 de solo para as calhas dos rios Tietê e
Pinheiros, proveniente, principalmente, de terrenos
expostos em loteamentos habitacionais e industriais.

57

Fotos 2.3 e 2.4. Lago do clube de campo a jusante do


loteamento Parque Bauru, em Bauru (SP), antes e depois de
assoreado pelo material proveniente da boçoroca. Fonte: IPT
Foto 2.2. Vista aérea da boçoroca do Parque Bauru, em Bauru (1994) - Relatório no 32.207 - Plano de obras de contenção das
(SP). Fonte: IPT(1994) - Relatório no 32.207 - Plano de obras de erosões urbanas do município de Bauru, SP - 2a fase (a foto 3
contenção das erosões urbanas do município de Bauru, SP - 2a foi cedida ao IPT pelo Prof. Dr. Nariaqui Cavacuti, da UNESP -
fase. p 10. Bauru). pp. 34 e 35.

10
IPT (1994) - Relatório no 32.207 - Plano de obras de contenção das erosões urbanas do município de Bauru, SP - 2a fase.

Ocupação urbana e estabilidade de encostas


infra-estrutura de drenagem a procedimentos adotados em podem também originar rastejos, que às vezes evoluem
obras, acumulam-se fatores predisponentes à erosão. para escorregamentos, em chuvas mais críticas.
Conforme o nível de fragilidade dos solos, a simples adoção A Figura 2.5 mostra, esquematicamente, a indução
de vias inclinadas (até mesmo com baixas declividades) e de um rastejo pela ocupação, em corpo de tálus, por corte
longas, sem obras intermediárias, ou de extremidade, para
na sua região média inferior.
a dissipação da energia das águas pluviais, pode dar espaço
a grandes erosões em áreas a jusante.
Destaca-se ainda que, em taludes de corte e de aterro,
assim como em taludes naturais, a evolução de erosões
devidas à ocupação urbana pode originar quedas de blocos
de solos e escorregamentos, mais adiante tratados.
2.2.5.2 - Ocupação urbana e rastejos
Rastejos podem ser induzidos pela ocupação urbana
e, na literatura brasileira, este assunto é mais tratado no
que diz respeito ao caso específico de corpos de tálus.
Mencionam-se, por exemplo, o efeito de cortes na
região média inferior de corpos de tálus, assim como a
execução de aterros sobre tais depósitos, como alguns dos Figura 2.5. Rastejo em corpo de tálus devido à ocupação urbana
(corte). Fonte: adaptado de CUNHA (1991)11, pág. 42.
fatores agravantes da condição de instabilidade natural que
já os caracteriza, favorecendo sua movimentação mais
2.2.5.3 - Ocupação urbana e escorregamentos
generalizada em função do processo de ocupação.
Ainda que se tenha apresentado, anteriormente, um
Corpos de tálus sofrem igualmente instabilizações exemplo dramático dos efeitos da erosão em áreas urbanas,
58 decorrentes de elevações de cargas piezométricas, podendo esta tende a causar mais prejuízos ambientais e econômicos
assim apresentar incrementos de instabilização em chuvas. que propriamente riscos de vida. Os escorregamentos,
As infiltrações de água típicas da ocupação urbana, tais porém, envolvem freqüentemente este tipo de risco e
como vazamentos de tubulações de água e de esgotos ou a constituem fatos bastante corriqueiros e fortemente
presença generalizada de fossas, tendem a colaborar neste favorecidos pela ocupação urbana em encostas no Brasil.
processo.
Sua ocorrência que, na natureza, está basicamente associada
Cortes, em encostas de declividades acentuadas, às ações da gravidade e da água (como as já mencionadas

11
CUNHA, M.A. (Coordenador). (1991). Ocupação de encostas.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


no item 2.1.2.3), ficam agora acrescidas das ações das águas que, instabilizadas, podem sofrer quedas livres ou
tipicamente introduzidas pela ocupação urbana, voluntária tombamentos. Em alguns casos, o fenômeno pode se dar
ou involuntariamente. Além disso, a retirada da vegetação, a despeito da ausência de falhamentos, pelo simples
as alterações de geometria e a remoção ou substituição das desconfinamento. O fenômeno pode se deflagrar também
camadas superficiais de solo tendem fortemente a a partir de paredões e proeminências rochosas naturais,
prejudicar as condições naturais de estabilidade da encosta que não sofreram alterações. Em taludes inclinados podem
quanto a escorregamentos, se não forem executadas com ocorrer, de acordo com os solos expostos, erosões
critérios técnicos específicos. diferenciadas ou remontantes, e o descalçamento de porções
de solo superiores pode também possibilitar sua queda. A
Fatos corriqueiros associados ao uso urbano do solo
simples identificação da presença de paredes e/ou
podem também agravar a situação. Deposições ou
proeminências, numa área a ocupar, remete à necessidade
lançamentos superficiais de lixo e entulho e lançamentos
de elaboração de estudos específicos por especialistas.
de efluentes sanitários são freqüentes fatores de indução
de escorregamentos. Isto aponta para outro fato importante: 2.2.5.5 - Ocupação urbana e rolamentos de
não só aspectos de concepção e implantação interferem na matacões
segurança na ocupação urbana de encostas, como também A presença de matacões dá-se tanto em terrenos em
aspectos logísticos, ligados aos serviços urbanos e à própria estado natural (principalmente em áreas graníticas, como
educação ambiental. já se disse anteriormente) quanto em terrenos já alterados
pelo homem, para a retirada de terra (áreas de empréstimo)
A sistematização de relações entre alterações impostas
ou para a mineração. Nestas duas últimas situações, blocos
pela ocupação com deficiências de obras geotécnicas ou de
de rocha podem ter sido deixados em condições de
serviços urbanos e escorregamentos é tratada por CUNHA
equilíbrio precário pelas ações antrópicas anteriores. Áreas
(1991)12 , p. 47/63 e, de forma mais aprofundada, mas tendo
em encostas (e suas adjacências) com presença de matacões,
por referência taludes de rodovias, por CARVALHO13
quando ocupadas sem cuidados específicos, oferecem riscos
(1991), p.107/135. No presente trabalho, com base nestes
óbvios. Alterações na geometria do terreno, próximas a 59
dois autores, elaborou-se uma síntese destas relações,
matacões, assim como ações das águas de chuva ou das
apresentada, a seguir, no Quadro 2.1. águas típicas associadas à urbanização, podem desprender
2.2.5.4 - Ocupação urbana, quedas de blocos e blocos de rocha que, rolando encosta abaixo, oferecem
tombamentos grande poder destrutivo. A verificação da presença, em
A execução de cortes para a implantação de vias ou encostas, de matacões em superfície, ou mesmo de
para a construção de unidades habitacionais pode matacões semi-enterrados, numa área a ocupar, remete à
desconfinar porções de solo ou rocha com falhamentos necessidade de consulta a especialistas.

12
CUNHA, M.A. (Coordenador). (1991). Ocupação de encostas
13
CARVALHO, P.AS.(Coordenador). (1991). Manual de geotecnia: taludes de rodovias.

Ocupação urbana e estabilidade de encostas


60

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


Quadro 2.1 - Demandas típicas da ocupação urbana em encostas, inadequações geotécnicas e/ou de infra-estrutura e potencialização de
escorregamentos

2.2.5.6 - Ocupação urbana e corridas de massa Reforça-se, porém, que as condicionantes para a
A ocupação indiscriminada de regiões de relevo com ocorrência deste fenômeno (assim como dos demais
presença expressiva de morros pode favorecer a ocorrência fenômenos de instabilizações em encostas) não se 61
de deslizamentos múltiplos nas encostas, em chuvas fortes, restringem a aspectos de relevo. Representam, como já foi
dando origem a corridas de massa. Se o relevo geral da dito, a combinação de fatores de relevo, de geologia, do
região de implantação apresentar feições que indiquem a capeamento vegetal e das características de clima locais,
possibilidade da ocorrência de corridas de massa, e se a requerendo-se efetivamente a opinião de especialistas para
situação específica de um terreno a ocupar constituir uma uma melhor avaliação da possibilidade de ocorrência de
possível rota de uma eventual corrida de massa, o projetista uma corrida de massa.
deve consultar especialistas no fenômeno. Por exemplo, Um exemplo clássico de corrida de massa, no Brasil,
uma porção baixa de encosta, situada à margem de um é a que sucedeu em 1967, em Caraguatatuba, que chegou
vale, ladeado por várias outras encostas, pode estar situada a atingir o centro urbano do município. Após cessado o
na rota de uma eventual corrida de massa. fenômeno, verificou-se uma deposição de sedimentos com

Ocupação urbana e estabilidade de encostas


espessura de até 1m. O episódio causou, pelo menos, 120 (1992)14, em trabalho específico para cobrir esta deficiência.
mortes, além de prejuízos materiais de grande monta, como Tais autores apresentam uma interessante sistematização
a destruição de cerca de 400 casas. dos tipos de instabilizações de taludes na Bacia, que está
reproduzida no Quadro 2.2.
2.2.6 - Ocupação urbana e instabilizações em Dentre os fenômenos de instablização de taludes
encostas em bacias sedimentares: a Região
na BSSP sistematizados por Wolle e por Silva, são bastante
Metropolitana de São Paulo
significativos, merecendo especial destaque, os associados
Ainda que o presente trabalho não pretenda à erosão diferenciada, em taludes, de camadas arenosas.
estabelecer um recorte geográfico de abrangência, cabe tecer Isto pode acarretar o descalçamento de camadas superiores,
comentários específicos sobre o sítio de implantação da constituídas por outros sedimentos mais resistentes à
Região Metropolitana de São Paulo, quer por sua expressão erosão, possibilitando escorregamentos ou quedas de
urbana, combinada à presença importante de encostas em blocos. Cortes que exponham camadas arenosas podem
seu relevo, quer pela ocorrência, além de solos residuais, também propiciar o “destamponamento” de lençóis d’água
de importantes porções de terrenos formados por suspensos (freqüentes na BSSP), possibilitando fluxos
sedimentos, em regiões urbanas, de especial significado d’água que, por “piping”, agravam os descalçamentos. Tais
para a cidade. fenômenos podem ser considerados como dos mais
No que diz respeito a sedimentos, a denominada expressivos mecanismos de deflagração de instabilizações
Bacia Sedimentar de São Paulo (BSSP) se estende tendo em encostas, induzidos pela ocupação urbana, na Bacia
por limites principais, como referência, as calhas dos rios Sedimentar de São Paulo.
Tietê e Pinheiros, incluindo a calha do Rio Tamanduateí. Ultrapassados os limites gerais da Bacia Sedimentar,
Note-se que o núcleo histórico da formação da cidade, as encostas da região Metropolitana apresentam
assim como partes importantes do que hoje se chama de predominantemente solos residuais. Mesmo que expostas
62 centro expandido, fundaram-se em terrenos de origem a quase todos os fenômenos de instabilização induzidos
sedimentar. pela ocupação urbana, já descritos anteriormente, encostas
No âmbito nacional, os solos da Bacia Sedimentar em solos residuais da Região Metropolitana de São Paulo
de São Paulo (BSSP) é dos mais pesquisados, em função apresentam uma especial susceptibilidade à erosão,
da intensa urbanização. Mostram-se, porém, bastante principalmente em camadas de solos subsuperficiais,
escassos os estudos específicos de estabilidade de taludes particularmente nos denominados solos de alteração,
na Bacia Sedimentar, como afirmam WOLLE et SILVA quando expostos em terraplenos.

14
WOLLE, C.M. et SILVA, L.C.R. (1992). Taludes. In Solos da Cidade de São Paulo.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


63

Quadro 2.2 - Tipos de instabilizações de taludes em solos da bssp.Fonte: WOLLE et SILVA (1992)15 . p.252.

15
Id. Ib.

Ocupação urbana e estabilidade de encostas


2.3 - Instrumentos de orientação à ocupação instrumentos, mais recentes e, em parte, ainda em
aperfeiçoamento, tratam de levantamentos e análises
Como pôde ser visto até o momento, do ponto de
específicos de meio físico de terrenos a ocupar, na escala
vista geológico e geotécnico, existem inúmeras condi-
da gleba, que transcendem a tradicional investigação de
cionantes de meio físico para a ocupação de encostas que,
subsolo para fundações e direcionam os resultados segundo
se não observadas, podem facilmente conduzir a desastres
uma linguagem mais aplicável ao projeto urbanístico e de
e a deseconomias. E a consideração de condicionantes do
arquitetura. Como será visto mais adiante, este último
meio físico para a ocupação urbana é, no Brasil, uma
instrumento apresenta características similares à de Cartas
necessidade poucas vezes observada.
Geotécnicas, diferindo basicamente daquelas apenas pela
O processo desordenado de urbanização a que temos escala de trabalho e pelo nível de detalhamento.
assistido em nosso país atinge, indiscriminadamente,
terrenos situados em áreas inundáveis, em solos erodíveis,
2.3.1 - Cartas Geotécnicas
em solos passíveis de colapsos e subsidências e em encostas,
dentre outros problemáticos, sem a utilização de critérios Cartas Geotécnicas são mapas legendados que
específicos. Neste quadro, a ocupação inadequada de compartimentam o meio físico de uma região segundo
encostas, no Brasil, nada mais é que uma manifestação unidades que apresentem potenciais ou restrições
particular, ainda que de forte apelo, de um quadro mais homogêneos frente à ocupação, fornecendo ainda um perfil
generalizado de descaso institucional com o desenvol- geral de características a adotar na ocupação para que se
vimento urbano, desta feita expresso pela desconsideração mantenham condições de segurança geotécnica e de
de condicionantes de meio físico. adequação ambiental. Tais cartas podem abranger desde
escalas de grandes regiões, como a produzida pelo IPT
Nas últimas décadas têm sido desenvolvidos
para o Estado de São Paulo16 (com dados introduzidos
instrumentos de orientação à ocupação urbana
em escala 1:250.000 e com formatação final em escala
64
concernentes a condicionantes geológicas e geotécnicas,
1:500.000), assim como escalas mais adequadas ao
cujo uso no Brasil pode ser considerado como incipiente.
planejamento urbano, entre 1:50.000 e 1:10.000.
Dentre estes instrumentos destacam-se, inicialmente, os
destinados a um âmbito mais amplo de aplicação que Como pode ser visto em SOUZA (1992)17, p.1, as
propriamente ao projeto isolado em encostas. São as Cartas Geotécnicas têm sua origem na Europa, na segunda
denominadas Cartas Geotécnicas, particularmente úteis na década do presente século. Inicialmente, tinham emprego
orientação ao planejamento regional e urbano. Outros mais associado à orientação na escolha de sistemas de

16
Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo – Ipt (1994). Carta geotécnica do Estado de São Paulo.
17
SOUZA, N.C.D.C. (1992). Abordagem metodológica – História da cartografia geotécnica no mundo. Apostila.

Coleção Habitare
Coletânea Habitare
- Habitação
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e Encostas
e Encostas
fundações, ainda que já apontassem outras características comprometimento de técnicos locais nos levantamentos e
e potenciais do meio físico em sua relação com a ocupação análises visa, principalmente, a obtenção de uma maior
urbana, tais como a delimitação de áreas inundáveis ou a chance de incorporação dos resultados obtidos à gestão do
eventual presença de materiais aplicáveis à construção. Logo desenvolvimento urbano local.
após a Segunda Guerra Mundial, o desenvolvimento da Em alguns dos trabalhos de Cartografia Geotécnica,
cartografia de caráter geotécnico foi mais notável no Leste o IPT contou com a colaboração de diversos órgãos muni-
Europeu, onde servia de base para orientar a reconstrução cipais, metropolitanos, estaduais e federais.
e a expansão das cidades. Nas décadas de 1960 e 1970, sua
As universidades dedicam-se hoje, também, à
utilização se disseminou no Ocidente, quando adquiriu as
produção de Cartas Geotécnicas no Brasil, assim como de
principais feições em que hoje são produzidas as
trabalhos correlatos, destacando-se, entre outros, os
denominadas Cartas Geotécnicas. O uso mais intensivo
desenvolvidos por equipes de Rio Claro, São Carlos e
destes instrumentos dá-se principalmente na França, onde
Limeira, no Estado de São Paulo, de Maceió (AL), de
sua observância tornou-se obrigatória em planos de
Florianópolis (SC), do Rio de Janeiro (RJ), e de Recife (PE),
desenvolvimento urbano.
entre outras. Determinadas instituições ligadas ao Estado,
No Brasil, é a partir da década de 1960 que aparecem como o IG (Instituto Geológico), do Estado de São Paulo,
os primeiros trabalhos de cartografia geotécnica, têm igualmente produzido Cartas.
inicialmente mais voltados ao uso na agricultura. Em 1979,
Dispõe-se assim desses instrumentos para alguns
era concluída a primeira Carta efetivamente dedicada ao
dos municípios brasileiros (ou, às vezes, para áreas críticas
planejamento da ocupação urbana, abrangendo parte dos
de municípios), mas em quantidade que pode ser
morros de Santos e São Vicente (SP), elaborada pelo IPT.
considerada bastante modesta, tendo em vista o importante
Nas décadas de 1980 e 1990, aquele mesmo Instituto processo de urbanização pelo qual passamos e as
produziu cartas para as seguintes localidades, dentre outras: peculiaridades do nosso meio físico que, envolvendo solos
65
São Paulo (município) (SP), Guarujá (SP), Itapevi (SP), tropicais, inspira maiores cuidados.
Região Metropolitana de São Paulo (SP), Bairros Cota, em
Além da disponibilidade efetivamente baixa destes
Cubatão (SP), Ubatuba (SP), Petrópolis (RJ), Guaratinguetá
instrumentos, no âmbito nacional, sua aplicação ao
(SP), Serra do Mar, no Estado de São Paulo, Cajamar (SP),
planejamento urbano, nos casos onde está disponível, não
Bauru (SP), Santo André (SP).
fica absolutamente assegurada. Os confrontos com
O IPT passou ainda, na década de 90, a orientar interesses privados ou políticos nos municípios, a ausência
equipes dos próprios municípios na elaboração de Cartas de continuidade administrativa e até mesmo o simples
Geotécnicas e, desta forma, foram elaboradas as Cartas de descaso com a questão maior do desenvolvimento urbano
Campo Grande (MS), de Cuiabá (MT) e de Jacareí (SP). podem facilmente transformar Cartas Geotécnicas em
Destaque-se que esta filosofia mais recente de trabalho, de arquivo morto. O percurso inicial da Carta Geotécnica dos

Ocupação urbana e estabilidade de encostas


Morros de Santos e São Vicente, por exemplo, incluiu este equipe responsável pela elaboração dos estudos referentes
revés, como se ilustra a seguir. a habitações.
A Casa Militar do Estado de São Paulo, através de O produto final, concluído em 1979, permaneceu
sua coordenadoria de Defesa Civil, solicitou ao IPT, no por quase uma década sem uso. Sua efetiva aplicação só
início de 1978, em função de desastres, então recentes, ocorreu a partir de 1988, quando a administração pública
relacionados a escorregamentos em morros de Santos e de Santos passa às mãos de políticos com compromissos
São Vicente, um estudo de medidas que pudessem mais claramente assumidos com a população de baixa renda,
minimizar a possibilidade da ocorrência de novos acidentes. incluindo-se aí os cerca de 30.000 habitantes dos morros.
Já havia um histórico anterior de desastres de maiores
Inicialmente, em Santos, o uso da Carta se deu como
proporções em tais morros. Em 1928, um escorregamento
subsídio à elaboração do Plano de Defesa Civil da região
no Monte Serrat ocasionara 60 mortes. Em 1956, em novos
escorregamentos, ocorreram mais 43 mortes. Em novos e, posteriormente (1989), com a formação, na prefeitura
acidentes, em 1978, além da destruição de vasto patrimônio, local, do denominado “Grupo de Ação para os Morros”, a
percebe-se uma situação ainda mais preocupante: agora é Carta passou a ser utilizada como peça básica para
bastante intensa a ocupação dos morros, exponen- planejamento, para a prevenção de acidentes geotécnicos e
cializando-se os riscos. O IPT propõe então o uso da para a reurbanização das encostas. Mais tarde, tornar-se-ia,
metodologia, então recente, da cartografia geotécnica, o ainda, importante subsídio para a elaboração do Plano
que é aceito e implementado nos morros, abrangendo uma Diretor de Santos.
área de cerca de 8km2.
Se a aplicação dos resultados dos estudos e
O produto elaborado transcende as dimensões proposições do IPT fosse imediata, provavelmente teriam
geológicas e geotécnicas do problema. Embrenha-se sido menores os efeitos dos desastres ocorridos na madru-
também, claramente, por sua dimensão social, cuja compre- gada de 16/12/1979 que, em vários escorregamentos,
66 ensão é fundamental para um correto equacionamento da causaram a morte de 14 pessoas em áreas apontadas pelo
ocupação de encostas. Entre outros sub-produtos, a Carta Instituto como instáveis.
Geotécnica dos Morros de Santos e São Vicente contempla
também o da orientação a novas ocupações de caráter Poucos municípios brasileiros com encostas dispõem
habitacional. Foram produzidos modelos de habitações (que de cartas geotécnicas. Nestes, fica facilitado o estabele-
serão vistos, no presente trabalho, no Capítulo 7), segundo cimento de critérios, ainda que gerais, para a ocupação,
intervalos de faixas de declividades, e desenvolvidos estudos pois nelas, como mais adiante ilustram as figuras 2.6 e 2.7
iniciais de urbanização dos morros do Saboó e da Penha, (fragmentos da Carta Geotécnica dos morros de Santos e São
incluindo-se o equacionamento dos arruamentos, da infra- Vicente), estão geralmente caracterizados os solos presentes,
estrutura etc. Este foi o primeiro contato do autor com o as espessuras das camadas em que tendem a ocorrer, seu
problema da ocupação de encostas, enquanto membro da comportamento em relação às ações antrópicas (tais como

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


cortes e aterros) e suas suscetibilidades aos diversos agentes
deflagradores de instabilizações. Com base nestas
informações, já se dispõe de um balizamento básico para
o desenvolvimento de projetos, com uma noção geral de
limites a observar na ocupação.
Tendo em vista, porém, as escalas gráficas em que
as cartas geotécnicas são normalmente produzidas, fica
evidente que a elaboração de projetos para encostas deve
também ser antecedida por um estudo local mais
aprofundado do particular terreno ou gleba sob intervenção,
identificando-se as peculiaridades a considerar e transfor-
mando-as em diretrizes mais refinadas de projeto.

67

Figura 2.6. Trecho da Carta Geotécnica dos Morros de Santos e São


Vicente. Fonte: Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São
Paulo- IPT (1980). Carta Geotécnica dos Morros de Santos e São
Vicente. (Publicação IPT no 1.135).

Ocupação urbana e estabilidade de encostas


68

Figura 2.7. Trecho de legenda (áreas passíveis de ocupação) da Carta Geotécnica dos Morros de Santos e São Vicente. Fonte: Instituto de
Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo - IPT. (1980). Carta Geotécnica dos Morros de Santos e São Vicente. (Publicação IPT no 1.135).

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2.3.2 - Levantamentos locais variados e, muitas vezes, pouco significativos no cômputo
Tanto na ocupação de áreas situadas em sopés de geral. Tendem a ser onerosas, porém, grandes estruturas
encostas quanto em encostas propriamente ditas tornam-se de contenção, que podem setornar facilmente necessárias,
necessários levantamentos mais cuidadosos de meio físico. conforme as características dos solos presentes e do partido
que se adote no projeto.
No primeiro caso, como é fácil perceber,
instabilizações nos morros podem facilmente atingir Movimentos de terra, que devem ser efetivamente
ocupações a jusante. Assim, a rigor, a ocupação de terrenos encarados como obras geotécnicas e, portanto, realizados
planos que se localizem nas imediações de encostas de acordo com preceitos técnicos específicos, podem
requereria um estudo das condições de equilíbrio natural também onerar os custos, seja pelo volume a movimentar,
destas últimas. seja por condições técnicas específicas de execução, seja
ainda pela eventual necessidade de investir, a médio e longo
No segundo caso, mostra-se necessário um melhor prazos, na correção de patologias decorrentes de
conhecimento das características específicas do terreno, de inadequações de concepção ou execução.
suas capacidades e restrições frente às alterações
normalmente impostas pela ocupação que, se inadequadas, Em contrapartida, inúmeras obras geotécnicas
podem gerar desastres ou, no mínimo, deseconomias. necessárias, às vezes até mesmo de baixo custo, acabam
sendo muitas vezes preteridas, seja por duvidosa economia
O projeto para encostas deve ser, antes de mais nada, ou simples despreparo técnico, podendo determinar, por
multidisciplinar ou, preferencialmente, interdisciplinar. A sua ausência, a ocorrência de patologias às vezes graves,
atuação conjunta e complementar de profissionais das áreas seja do ponto de vista econômico, seja por desastres.
de arquitetura, geologia e de geotecnia pode, neste caso,
ser considerada como altamente desejável. A interação deve Levantamentos locais adequados devem evitar
se dar, preferencialmente, desde o início dos trabalhos, determinados desvios ou vícios profissionais. Bem mais
permitindo ao arquiteto considerar, de antemão, as que a simples denominação geológica das camadas de solos
69
capacidades e restrições dos diversos trechos do terreno- presentes e de suas capacidades de carga, o projetista deve
alvo frente à ocupação, o que influirá nas características extrair, dos geólogos e engenheiros, informações
que adotará no projeto, considerando suas implicações, por efetivamente balizadoras de projeto
exemplo, na demanda por diversos tipos de obras Alguns destes levantamentos podem exigir
geotécnicas. Dependendo do tipo de obra envolvida, podem sondagens e ensaios, mas as informações que se obtém
ocorrer agravamentos de custos capazes, até mesmo, de tornam bastante facilitada a elaboração de projetos
inviabilizar o empreendimento, principalmente quando se adaptados, de fato, às características do terreno, que
pensa em habitações de interesse social. Não se tenciona transcendem, como foi visto, suas simples feições
aqui atribuir à obra geotécnica um caráter oneroso. Existe topográficas. A adaptação do projeto ao terreno, jargão
uma ampla gama de obras desta natureza, cujos custos são bastante utilizado na arquitetura, no caso de encostas, só

Ocupação urbana e estabilidade de encostas


se torna completa através do conhecimento e consideração jável visão integrada - esta sim, imprescindível para o
mais aprofundados das diversas condicionantes do meio arquiteto - de solos com planejamento urbano, com projetos
físico. urbanísticos e de edificações, nos moldes delineados
anteriormente.
Acredita-se que a ocupação segura e econômica de
encostas não pode prescindir de levantamentos com No Capítulo 5, mais adiante, tratar-se-á com maior
características gerais próximas ao que foi apresentado e especificidade de um método para balizar o projeto de
que é absolutamente necessário que novas ocupações sejam ocupações restritas em encostas, com habitações de
efetivamente frutos do trabalho multidisciplinar ou interesse social, envolvendo desde orientações gerais para
interdisciplinar entre arquitetos, engenheiros e geólogos. a execução de levantamentos nas encostas a ocupar,
É enriquecedor e eficaz dotar o processo de passando pelo processamento das informações coletadas,
pela elaboração de diretrizes para o projeto e pelo método
concepção da troca de idéias com técnicos das outras áreas
ou, no mínimo, embasar o projeto em documentação de projeto propriamente dito.
especificamente produzida por profissionais das áreas de
geologia e geotecnia sobre o terreno a ocupar, a partir de
levantamentos, constituindo subsídios mais sólidos.
Longe de criarem uma nova camisa de força, tais
subsídios tendem a conduzir a soluções mais harmônicas
com o ambiente natural e, principalmente, mais econômicas
e seguras. Nem por isso, a geologia e a geotecnia, associadas
a projetos habitacionais em encostas, devem constituir
“caixas pretas” para o arquiteto. Acredita-se ser impres-
cindível um conhecimento básico que, contraditoriamente
70
é pouco tratado na formação profissional em arquitetura,
pelo menos no sentido de efetivamente possibilitar ao
arquiteto o relacionamento da geologia e a geotecnia com
o planejamento urbano e com projetos arquitetônicos e
urbanísticos.
A tendência dos cursos associados a solos, nas
faculdades de arquitetura no Brasil, tem sido a de privilegiar
o cálculo de fundações e de estruturas de contenção, o
que, além de constituir uma sobreposição desnecessária
com a formação do engenheiro civil, deixa de lado a dese-

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


Referências bibliográficas

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decisão. Tese (Doutorado) - Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, São Paulo, 1996.

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Paulo: IPT - Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo, 1991. Publicação IPT n. 1843.

CUNHA, M.A (Coord.). Ocupação de encostas. São Paulo: IPT - Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São
Paulo, 1991. Publicação IPT n. 1831.

GUIDICINI, G.; NIEBLE, C.M. Estabilidade de taludes naturais e de escavação. São Paulo: Ed.Edgard Blücher
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INSTITUTO DE PESQUISAS TECNOLÓGICAS DO ESTADO DE SÃO PAULO Carta geotécnica dos morros
de Santos e São Vicente São Paulo: IPT, 1980. Publicação IPT n. 1.135. Anexo 1 – Carta Geotécnica.

INSTITUTO DE PESQUISAS TECNOLÓGICAS DO ESTADO DE SÃO PAULO Plano de obras de contenção


das erosões urbanas do município de Bauru, SP – 2a fase. São Paulo: IPT, v. 1,1994. Relatório IPT no 32.207.

INSTITUTO DE PESQUISAS TECNOLÓGICAS DO ESTADO DE SÃO PAULO Carta geotécnica do Estado de


São Paulo. São Paulo: IPT, 1994. Publicação IPT n. 2.089.

SOUZA, N.C.D.C. Abordagem metodológica / histórico da cartografia geotécnica no mundo / desenvolvimento


da cartografia geotécnica no Brasil. In: CURSO DE CARTOGRAFIA GEOTÉCNICA DE ÁREAS URBANAS
- IPT/ METROPLAN / CPRM. Porto Alegre, 14 a 17 de Setembro de 1992. Apostila. São Paulo: IPT, 1992. 71

WOLLE, C. M.; SILVA, L.C.R. Taludes. In: SOLOS DA CIDADE DE SÃO PAULO. São Paulo: Associação Brasileira
de Mecânica dos Solos (Núcleo Regional de São Paulo) / Associação Brasileira de Engenharia de Fundações e Serviços
Geotécnicos Especializados, 1992.

Ocupação urbana e estabilidade de encostas


72

3.
Coleção Habitare - Habitação e Encostas
3.
Legislação e ocupação de encostas

H
á, no Brasil, um degrau muito pronunciado entre as leis e seus reflexos na realidade. Muitas

vezes, textos legais minuciosamente elaborados por técnicos, juristas, políticos etc, agregando

o conhecimento de ponta na área tratada, não são capazes de se impor. Esta questão geral

permeia, com grande vigor, a questão da ocupação urbana de encostas, principalmente no que diz respeito à

legislação de natureza ambiental. No campo das leis de cunho urbanístico, uma cultura profundamente

arraigada no meio técnico correspondente ao urbanismo (cujas origens são estudadas no Capítulo 1) tem

mostrado uma profunda inadequação com relação à ocupação de encostas, e se traduz em normas pensadas 73

para um mundo plano, ideal.

Inicialmente, cabe destacar que limites gerais à ocupação de encostas no Brasil, no que diz respeito a

faixas de declividades máximas aceitáveis para a ocupação, são bastante vagas. Com reflexos mais notáveis

neste sentido, pode-se afirmar que na legislação federal brasileira apresentam-se apenas duas principais leis

associadas ao assunto. A primeira, ainda que não possua correlação explícita com o uso urbano do solo, está

contida no Código Florestal (Lei no 4.771 de 15 de setembro de 1965), que define, em seu Artigo Segundo,
que independentemente do tipo de vegetação presente e da situação do terreno (se urbano ou rural), fica
Legislação e ocupação de encostas
proibido o desmatamento nas encostas (ou partes destas) faz-se menção, isto sim, como será visto mais adiante, à
com declividades superiores a 45o (o equivalente a 100%) declividade máxima a observar em lotes, o que não impede
na linha de maior declive e nos topos de morros, montes, que terrenos de maior declividade sejam adaptados, através
montanhas e serras. de terraplenos, aos limites legais.

Como conseqüência indireta do prescrito no Código Para se entender, num âmbito mais específico, a
Florestal (pela permissão do desmatamento em encostas legislação associável à ocupação urbana de encostas, torna-
até determinado limite de declividade), infere-se que a se inicialmente necessário fragmentar as leis envolvidas
ocupação urbana de encostas pode, teoricamente, abranger segundo dois grandes grupos.
terrenos de declividade de até 100% (45o). Cabe comentar Num primeiro grupo, situam-se leis de origem
que este limite não reflete um respaldo técnico nas áreas ambiental: encostas estão incluídas, muitas vezes, em áreas
da geologia e da geotecnia, podendo até mesmo ser sob proteção ambiental, com variadas restrições à ocupação
considerado, para muitos tipos de terrenos, no Brasil, como ou, simplesmente, com ocupação proibida, quer por
bastante exagerado. motivos geológico-geotécnicos, quer como elementos
Além do Código Florestal, a Lei Lehmann (Lei Federal importantes da paisagem, quer ainda por abrigar,
n 6.766 de 19 de dezembro de 1979), esta sim de cunho
o eventualmente, espécies animais e/ou vegetais protegidas
essencialmente ligado ao uso urbano do solo, determina ou, finalmente, porque sua ocupação pode também, por
condições precárias de geotecnia e saneamento,
que não será permitido o parcelamento
comprometer áreas e cursos d’água a jusante. Este último
...em terrenos com declividade igual ou superior a 30% (trinta aspecto é de particular relevância, pois morros ocupados
por cento), salvo se atendidas exigências específicas das autoridades de forma inadequada podem significar riscos para as
competentes; baixadas, o que é ainda mais sensível, por exemplo, em
74 Ainda que a Lei Lehmann remeta a ocupação de áreas de proteção a mananciais de água de abastecimento.
áreas com declividades acima de 30% a análises específicas, Num segundo grupo de leis inserem-se as que
não estabelece efetivamente um limite superior de disciplinam o uso urbano do solo e as questões correlatas,
declividade a observar. Prevalece, portanto, a definida englobando requisitos a observar no parcelamento do solo,
(indiretamente) pelo Código Florestal, que é de 45o (100%). nos loteamentos, nos conjuntos habitacionais de interesse
No âmbito estadual (para o caso do Estado de São social e nas edificações em geral.
Paulo) e municipal (para o caso do Município de São Paulo), Nos dois grupos mencionados incluem-se leis
não se encontram também menções explícitas, na legislação, federais, estaduais e municipais. Sem se pretender aqui
que definam claramente limites superiores de declividades estabelecer um recorte geográfico, far-se-á uma abordagem
de terrenos a ocupar. Na legislação municipal de São Paulo, mais centrada em leis de São Paulo (Estado, Região

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


Metropolitana e Município). Tem-se consciência, porém, - Área de Proteção Ambiental - APA
que as constatações para São Paulo são, em sua maioria, - Área de Relevante Interesse Ecológico - ARIE
extensíveis à grande maioria das metrópoles e dos - Estação Ecológica
municípios brasileiros com encostas. - Floresta Estadual (ou Municipal)
- Floresta Nacional
- Horto Florestal
3.1 - Legislação de natureza ambiental
- Jardim Botânico
3.1.1 - Leis ambientais e encostas - Jardim Zoológico
A preocupação com questões ambientais vem - Monumento Natural
gerando a delimitação de um número cada vez maior de - Parque Estadual (ou Municipal)
áreas com restrições à ocupação e, dentre estas, encostas - Parque Nacional
são especificamente ou circunstancialmente incluídas. - Reserva Biológica
- Reserva Ecológica
Como afirmam SILVA e FORNASARI FILHO
Além dessas, existem outras áreas sob proteção, que
(1992)1 , p.1, em trabalho que compila informações sobre
áreas do estado de São Paulo sob proteção ambiental (por Silva e Fornasari denominam por Áreas Correlatas (às
unidades de conservação), que são igualmente definidas pelo
leis estaduais e federais), havia à época da elaboração da
publicação citada, no estado, um total de 205 áreas protegidas, Poder Público, com o objetivo de proteção, preservação, ou
controle ambiental, de 26 tipos, conforme segue:
situadas em 190 municípios. Observe-se que não estão aí
incluídas as áreas sob proteção de leis ambientais municipais, - Área Especial de Interesse Turístico
que têm também proliferado de maneira expressiva. Afirmam - Área de Interesse Especial
ainda os mesmos autores (p.1) que: - Área Natural Tombada
- Área sob Proteção Especial - ASPE
...os diplomas de proteção são expedidos com variados
- Estação Experimental (Reserva de Preservação 75
objetivos de conservação e vinculam estas unidades a diferentes
Permanente)
órgãos administrativos, o que torna o assunto bastante complexo.
- Estância
O CONAMA - COnselho Nacional do Meio - Estrada Parque
Ambiente, apud. SILVA E FORNASARI FILHO (1992), - Local de Interesse Turístico- Monumento Cultural
p.9, através de diversas resoluções, define treze tipos de - Parque de Caça
áreas que denomina Unidades de Conservação Ambiental, - Parque Natural
conforme segue: - Parque Ecológico

1
SILVA, W.S. et FORNASARI FILHO,N. (1992). Unidades de conservação ambiental e áreas correlatas no Estado de São Paulo.

Legislação e ocupação de encostas


- Refúgio de Vida Silvestre . a serra do Itapeti
- Região Ecológica . a Região Metropolitana de São Paulo
- Reserva de Biosfera . a bacia do rio Pardo
- Reserva Estadual . a Mata Atlântica
- Reserva Extrativista . a Serra do Mar
- Reserva de Fauna . a zona costeira
- Reserva Florestal . o complexo estuarino lagunar de Iguape e Cananéia
- Reserva Indígena
- Reserva Particular do Patrimônio Cultural A leitura das listagens de Unidades de Conservação,
- Reserva do Patrimônio Cultural de Unidades Correlatas e de outras áreas sob proteção pode,
- Reserva do Patrimônio Mundial em alguns casos, conduzir a falsas impressões: áreas
- Reserva Particular de Fauna e Flora protegidas cujas denominações sugerem algo muito
- Rio Cênico distanciado de formações urbanas estão hoje nos calcanhares
- Viveiro Florestal de cidades ou se sobrepõem total ou parcialmente a
perímetros urbanos, principalmente nos estados com rede
Destaca-se ainda que, para o caso do Estado de São
urbana mais expressiva. Neste sentido, vale mencionar que,
Paulo (o que se repete também em outros estados), outras
apenas no município de São Paulo (SP), havia até 1991, entre
áreas específicas são objeto de proteção ambiental de
27 áreas protegidas por leis federais e estaduais (excluídas
naturezas variadas (áreas especialmente protegidas), para
as municipais) de diversas naturezas, cinco Reservas
as quais o Poder Público federal, estadual, metropolitano
Indígenas (Jaraguá, Krukutu, Barragem, Rio Branco e M’Boi
ou municipal estabelece restrições específicas à ocupação.
Mirim). Áreas de Proteção Ambiental (APAs) diversas
Entre estas, destacam-se leis que tratam, no Estado de São
abrangem também inúmeras porções de perímetros urbanos
Paulo, por exemplo:
através do estado, e assim por diante.
76 - do uso do solo nas áreas de proteção aos mananciais;
- do uso do solo metropolitano; e Nas definições legais de cada tipo de Unidade de
- do uso do solo e/ou de restrições a determinadas Conservação e de cada Unidade Correlata são encontradas
atividades industriais em áreas ou regiões localizadas, apenas menções indiretas a restrições à ocupação de
tais como: encostas (através de termos como “paisagens naturais de
. a bacia e o vale do rio Paraíba do Sul interesse, por suas características geomorfológicas, geológicas, pedológicas
. a bacia e o vale do rio Paranapanema etc”), onde o enquadramento mais preciso da restrição fica
. as áreas de drenagem do rio Piracicaba na dependência de interpretações, não sendo possível uma
. a bacia do rio Itapetininga análise específica satisfatória. Menções claras somente se
. o vale do Ribeira verificam nas definições referentes às APAs e às Reservas
. o vale do Tietê Ecológicas.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


As APAs constituem Unidades de Conservação Ecológicas que constituem florestas e demais formas de
destinadas a proteger e conservar a qualidade ambiental e vegetação consideradas de preservação permanente, exclui-
os sistemas naturais existentes dentro de seu perímetro. se qualquer tipo de desmatamento (e, como conseqüência,
Sua regulamentação pressupõe a elaboração de um qualquer tipo de ocupação urbana), nas seguintes situações,
zoneamento ecológico-econômico, estabelecendo normas dentre outras:
de uso, condições bióticas, geológicas, urbanísticas, - no topo de morros, montes e montanhas, em áreas delimitadas
agropastoris, extrativistas, culturais e outras, podendo a partir da curva de nível correspondente a 2/3 da altura mínima
abranger propriedades públicas e privadas, como descrevem da elevação em relação à base;
SILVA e FORNASARI FILHO (1992), p.14. No
- nas linhas de cumeada, em áreas delimitadas a partir da curva
especificamente associado ao presente trabalho, que se
de nível correspondente a 2/3 da altura, em relação à base do
circunscreve, por excelência, ao uso urbano do solo, a
pico mais alto da cumeada, fixando-se a curva de nível para
aprovação de projetos de urbanização em APAs requer
cada segmento da linha de cumeada equivalente a 1.000 metros;
sua análise pela entidade administradora correspondente
(no caso do Estado de São Paulo, pela Secretaria do Meio - nas encostas ou parte destas, com declividade superior a 100%
Ambiente). Aos projetos de ocupação urbana em APAs, ou 45o na sua linha de maior declive;
impõem-se as seguintes exigências, de acordo com SILVA - nas bordas dos tabuleiros ou chapadas, a partir da linha de
E FORNASARI (1992)2 , p.15: ruptura do relevo, em faixa nunca inferior a 100 metros em
projeções horizontais;
- adequação com o zoneamento ecológico-econômico da área;
- implantação de sistema de coleta e tratamento de esgotos; - em altitude superior a 1.800 metros, qualquer que seja a sua
vegetação;
- lotes de tamanho mínimo suficiente para o plantio de árvores
em, pelo menos, 20% da área do terreno; - nas áreas metropolitanas3 , assim entendidas as compreendidas
- programação de plantio de áreas verdes com uso de espécies nos perímetros urbanos, definidos por Lei Municipal, e nas regiões
nativas; metropolitanas e aglomerações urbanas, em todo o território
abrangido, observando-se o disposto nos respectivos planos diretores 77
- traçados de ruas e lotes comercializáveis adequados à topografia,
e leis de uso do solo...;
com inclinação inferior a 10%.
- nas montanhas ou serras, quando ocorrerem dois ou mais morros,
Note-se que a última exigência listada praticamente cujos cumes estejam separados entre si por distâncias inferiores a
inviabilizaria, em APAs, a ocupação urbana de encostas. 500 metros a partir da curva de nível correspondente a 2/3 da
Ainda de acordo com Fornasari e Silva, nas Reservas altura em relação à base do morro mais baixo do conjunto.

2
SILVA, W.S. et FORNASARI FILHO,N. (1992). Unidades de conservação ambiental e áreas correlatas no Estado de São Paulo.
3
Apesar de o termo metropolitanas ser o utilizado neste ponto do texto da lei, acredita-se tratar-se de um erro de revisão, uma vez que a provável idéia pretendida
seria nas áreas urbanas, estas sim definidas por leis municipais (nota do autor).

Legislação e ocupação de encostas


A delimitação de Reservas Ecológicas independe se uma área está sob algum tipo de proteção ambiental é
da localização geográfica da área afetada, abrangendo hoje uma tarefa árdua e, às vezes, inconclusiva: nela
quaisquer pontos do território nacional onde haja vegetação envolvem-se inúmeros órgãos federais, estaduais e
sob proteção, incluindo até mesmo áreas urbanas ou municipais, responsáveis pela sua gestão e regulamentação.
metropolitanas. Só no Estado de São Paulo, podem ser relacionados, entre
outros, os seguintes órgãos federais e estaduais:
Destaca-se ainda que o Código Florestal, neste
aspecto, sobrepõe-se com maior rigor às características Federais:
definidas para áreas sob proteção do tipo Reserva - IBPC – Instituto Brasileiro do Patrimônio Cultural
Ecológica. No Código, a proibição do desmatamento não - IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e
se refere apenas a espécies vegetais com particular interesse dos Recursos Naturais Renováveis
de preservação (como é o caso das Reservas Ecológicas), - FUNAI – Fundação Nacional do Índio
mas se estende a qualquer tipo de vegetação. Estaduais:
Ainda que o trato específico da questão particular - SMA – Secretaria de Estado do Meio Ambiente
das encostas seja aparentemente restrito na legislação - CONDEPHAAT – Conselho de Defesa do
ambiental, a possibilidade de uma encosta estar situada em Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e
área com algum tipo de proteção ambiental é alta. Tomando- Turístico do Estado
se o caso do Estado de São Paulo como exemplo, vale - Instituto Florestal -órgão da SMA - (Secretaria do
recordar que são protegidos por leis ambientais, entre outros: Meio Ambiente)
- diversos vales de rios, o que interfere na possibilidade - Institutos Agronômico, de Botânica, de Zootecnia e
de ocupação de eventuais encostas lindeiras; outros congêneres
- a Serra do Mar (e, conseqüentemente, todas as suas - Departamento de Apoio ao Desenvolvimento das
encostas), que abrange os municípios litorâneos do Estâncias
78 Estado, os serranos e os lindeiros à Serra, no planalto;
Além desses, envolvem-se, de acordo com o tipo de
- a Mata Atlântica, que ocupa predominantemente proteção a que se submete a área, inúmeros outros órgãos
encostas; municipais, estaduais e federais, o que nos dá uma primeira
- a zona costeira, onde são freqüentes os morros; e noção das dificuldades na tramitação e aprovação de projetos.
- as áreas de proteção aos mananciais Como agravante, ao grande número de órgãos
Cabe salientar mais uma vez que as Unidades de públicos envolvidos no assunto, agrega-se um nível de
Conservação ou Correlatas (ou áreas específicas de proteção regulamentação ainda incipiente, às vezes inexistente, de
ambiental) não implicam, necessariamente, na interdição muitas das áreas protegidas, o que vem congelando, pelo
do uso urbano do solo, mas suas restrições devem ser menos do ponto de vista formal, a ocupação urbana. Neste
consideradas na elaboração de projetos. Porém, identificar quadro, muitos municípios situados em áreas sob proteção

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


ambiental encontram-se de mãos atadas para a imple- Exemplo típico e ilustrativo deste fato é o da própria
mentação de planos de desenvolvimento urbano. Lei de Proteção aos Mananciais da Região Metropolitana
da Grande São Paulo (Lei estadual no 898, de 1º de
Além da complexidade do emaranhado de órgãos
novembro de 1975, regulamentada pela Lei no 1.172 de 17
envolvidos destaca-se ainda a própria complexidade de
de novembro de 1976). Do ponto de vista técnico, o nível
algumas das leis, cujo entendimento fica às vezes dificultado
de elaboração deste instrumento legal é primoroso e
ou até mesmo impossibilitado, até mesmo para profissionais
detalhado, o que o tornou também muito complexo. Tendo
de projeto e, com maior razão, para o cidadão comum.
em vista que muitos dos municípios afetados eram recém
egressos de economias rurais e que não dispunham de
3.1.2 - Legislação ambiental e realidade corpos técnicos capazes de compreender e aplicar
A nossa legislação ambiental constitui, em boa satisfatoriamente o diploma legal, criou-se uma certa
medida, uma reação à ocupação desordenada e agressiva dependência do sucesso da legislação à assistência técnica
imposta tanto pela especulação imobiliária quanto, da instância metropolitana, cuja atuação, no caso da Região
involuntariamente, pela população carente, respondendo Metropolitana da Grande São Paulo, foi se arrefecendo
nos últimos anos.
também à pressão dos ambientalistas do âmbito nacional
e internacional. Na elaboração de leis, por cautela, os Os principais efeitos objetivados pela legislação não
técnicos envolvidos nos órgãos ambientais preferem pecar se verificaram. Nos mais de 20 anos passados a partir da
por excesso que por falta, tendendo a proibições regulamentação da Lei de Proteção aos Mananciais,
generalizadas e a regulamentações complexas, gerando inúmeras das áreas protegidas foram ocupadas de maneira
lentidão ou impossibilidade de tramitação, por exemplo, absolutamente inadequada, gerando-se vários focos de
de novos empreendimentos imobiliários em áreas contaminação. Este fato deveu-se a um emaranhado de
ambientalmente protegidas, incluindo-se aí os destinados fatores. Porém, em última instância, deve-se principalmente
às camadas de baixa renda. à incapacidade do Poder Público em abrir, paralelamente
às proibições, alternativas satisfatórias para a questão da 79
À profusão de áreas sob proteção, porém, não se
habitação de interesse social nas regiões envolvidas.
agrega uma máquina de fiscalização proporcional e, muito
menos, traçam-se políticas paralelas e eficazes de habitação Em curto período de tempo, a administração pública
para a população de baixa renda. Como resultado, áreas local, em municípios recém egressos de uma atividade
protegidas em geral, e áreas em encostas, protegidas ou predominantemente rural, passa a administrar um intenso
não, em particular, continuam em regime expressivo de processo de urbanização que, em certa medida, não lhe
expansão de ocupação, à margem de qualquer lei. Fechando diz respeito e, ainda sob o peso de uma legislação rigorosa
os olhos para a realidade, o Estado contenta-se em barrar de uso do solo, também gerada sem sua participação.
teoricamente as ocupações, ao mesmo tempo em que elas Neste quadro, ainda que não seja justificável, é pelo
se alastram. menos compreensível que não se impeça a formação de

Legislação e ocupação de encostas


favelas e de outros assentamentos precários clandestinos, da Bacia do Guarapiranga, destinado a sanear o
muitas vezes situados em morros ou à margem de cursos Reservatório, que assumira condições de contaminação
d’água, direta ou indiretamente conectados ao reservatório. alarmantes, principalmente em função dos inúmeros setores
Evidentemente pesam neste processo, ainda, habitacionais problemáticos surgidos a despeito da
interesses de proprietáros locais ou forasteiros, na legislação. Entre suas principais metas, o programa
especulação com terras interditadas. Mas não se pode perder contemplou o equacionamento de alternativas para a
de vista que a demanda de terrenos em loteamentos remoção de favelas em encostas e em margens de cursos
populares é forte e não encontra ofertas formais. d’água e/ou sua urbanização, estimando-se a necessidade
de, no mínimo, produzir 1.860 novas habitações. Neste
Nas encostas em áreas de proteção aos mananciais contexto, a CDHU (Companhia de Desenvolvimento
passam também a brotar, então, assentamentos precários, Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo) foi
às vezes em trechos de altíssima declividade, com riscos chamada para desenvolver estudos de alternativas, tendo
evidentes, propiciando, através de movimentos de terra fora encontrado entraves quase irremovíveis à sua atuação
de padrões tecnicamente aceitáveis e de lançamentos de convencional, através de conjuntos, como manifesta, para
esgotos in natura, o assoreamento e a contaminação, por o caso de Itapecirica da Serra, através de texto contido no
exemplo, do reservatório de Guarapiranga. documento Unidade de Gerenciamento do Programa de
Note-se que encostas também são áreas parcialmente Saneamento Ambiental da Bacia do Guarapiranga (1994)4 , pp.
interditadas à ocupação pela própria legislação de proteção 12-13:
aos mananciais, como determina a Lei no 1.172 de 17 de “O Município de Itapecerica da Serra, por se encontrar em área
novembro de 1976 em seu Artigo 2 o, inciso VII, que de proteção aos mananciais, não encontra as mesmas condições de
considera como não passíveis de ocupação, entre outras, São Paulo e Embu para construção de conjuntos habitacionais
... VII - As áreas onde a declividade média for superior a 60%, dadas as restrições de parcelamento do solo. A alternativa que
80 calculada a intervalos de 100 metros a partir do nível de água vem sendo estudada prevê o levantamento de terrenos/lotes urbanos
máximo dos reservatórios públicos existentes e projetados, e dos regularmente existentes face à legislação vigente, e construção de
limites do álveo dos rios, sobre as linhas de maior declive. unidades habitacionais unifamiliares para posterior
comercialização, dentro da mesma sistemática do atendimento
A ineficácia da Lei de Proteção aos Mananciais
convencional da CDHU.
conduziu, na década de 1990, ao desenvolvimento de mega-
projeto, denominado Programa de Saneamento Ambiental Esta pesquisa de áreas já se encontra em curso, mas não está

4
UNIDADE DE GERENCIAMENTO DO PROGRAMA DE SANEAMENTO AMBIENTAL DA BACIA DO GUARAPIRANGA (1994). Programa de saneamento ambiental
da Bacia do Guarapiranga. V.4. Plano geral de reassentamento.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


concluída pois depende de um levantamento bastante detalhado. vem enfrentando o forte antagonismo dos ambientalistas
sAssim, o prazo de produção destas unidades deve ser bastante mais radicais, cuja aspiração é a remoção efetiva dos
longo em relação aos usualmente observados, sendo as remoções assentamentos.
iniciais (94/95) atendidas pelo mecanismo da Carta de Crédito...” As referências feitas à Lei de Proteção aos
Percebe-se, nesta citação, que as dificuldades criadas Mananciais da Região Metropolitana da Grande São Paulo,
à ocupação habitacional formal, nas áreas protegidas, no âmbito do presente trabalho, visam simplesmente
revertem-se agora contra a própria atuação convencional demonstrar que a proibição do uso habitacional do solo
do poder público. por motivos ambientais, seja em função de mananciais,
seja ainda por qualquer outro motivo entre os arrolados
A ausência de alternativas formais para atender a uma no início do presente capítulo, não encontra rebatimento
elevada pressão por espaços habitacionais, combinando-se satisfatório na realidade. Neste contexto, esperar que a
com fortes interesses do setor imobiliário acaba dando espaço legislação de natureza ambiental seja capaz de barrar, por
a novos e refinados recursos para comercializar terras com si só, ocupações problemáticas em encostas, mostra-se
uso praticamente interditado. Como exemplo, proprietários como uma postura ingênua e afastada da realidade.
de terras fomentam, indiretamente, a formação de
Acredita-se que, ao invés de adotar proibições ou
cooperativas de interessados, às quais vendem suas áreas.
restrições generalizadas, a legislação de natureza ambiental
Os cooperados, geralmente num fim de semana, derrubam
deveria incorporar as possibilidades oferecidas pelo
a mata eventualmente existente na área, delimitam seus lotes
desenvolvimento tecnológico e indicar possibilidades de
(de acordo com projetos previamente elaborados) e dão início
ocupações, até mesmo densas, em trechos criteriosamente
imediato à construção de habitações. Instala-se aí um delimitados no interior de áreas protegidas, mesmo que
problema social (e político): dificilmente o administrador estabelecesse, para tanto, parâmetros técnicos rígidos de
público local optará pelo uso da força para a retirada dos concepção, implantação, uso e monitoramento, adequados
ocupantes que, no geral, são bastante organizados e aos resultados ambientais pretendidos. Proibir ou restringir, 81
conseguem permanecer. sem a criação paralela de alternativas, tem significado,
Fatos como este impulsionam hoje o meio técnico a apenas, incentivar o inadequado.
novas reflexões, quando se encontrava em curso a revisão No caso específico de encostas, se o Estado se
da Lei de Proteção aos Mananciais. Percebia-se claramente antecipasse à improvisação, promovendo ele mesmo a
que a simples proibição não assegura a preservação, mas ocupação com critérios adequados, teria menos problemas
apenas dá espaço ao surgimento de soluções informais ambientais, sociais e de segurança geotécnica a curto, médio
espontâneas, e no geral problemáticas. A simples intenção e longo prazos e conseguiria ainda, junto à população
de, por exemplo, consolidar os assentamentos precários hoje beneficiada, agora pouco mais próxima à cidadania (através
existentes, dotando-os de toda a infra-estrutura necessária de condições mais dignas de moradia), parceiros mais
para a neutralização de seus efeitos sobre o reservatório, já prováveis na preservação ambiental.

Legislação e ocupação de encostas


3.2 - Leis relacionadas ao uso do solo urbano encostas, demandando alterações discretas de terreno,
possam conduzir a ocupações seguras, cabe comentar que
Em alguns pontos do presente trabalho sugeriu-se
é perfeitamente possível, do ponto de vista geotécnico, de
que, muitas vezes, associam-se riscos à ocupação
arquitetura e de urbanismo, utilizar ocupações bastante
desordenada, espontânea, de encostas. Esta tônica pode
densas em encostas. Muitos padrões de implantações
conduzir à conclusão errônea de que, se aplicássemos aos
habitacionais adensadas, através de tipologias específicas
morros a normalização vigente na cidade formal, estaríamos de desenho urbano e de edificações, podem definir
assegurando boas ocupações. Nesta parte do trabalho, verdadeiras estruturas de contenção capazes de conferir à
através de considerações sobre a legislação urbana de São encosta uma estabilidade até mesmo superior à natural. A
Paulo, mostra-se a inadequação das leis no que diz respeito definição de “áreas mínimas a adotar em lotes”, neste
à ocupação de encostas. Mostra-se que, contraditoriamente, contexto, não é assim um instrumento tecnicamente
a observância da legislação vigente tende, nesta situação, embasado. Além disso, através deste tipo de restrição, pode-
até mesmo a conduzir a ocupações inadequadas. se mais uma vez conduzir, através das restrições, ao
Não há vestígio, na legislação paulistana, de posturas desenvolvimento de ocupações informais, o que, como já
urbanísticas específicas para encostas, ou de princípios foi dito, tende a resultar em sérios problemas.
gerais para sua ocupação, como se sugere (ainda que de Na legislação urbanística paulistana, de um ponto
maneira bastante discutível), por exemplo, no âmbito de vista mais geral, menções - apenas implícitas - à ocupação
estadual: a FUNDAÇÃO PREFEITO FARIA LIMA de encostas são feitas através de declividades máximas
(1981)5 , p.32, considera que ocupações de baixa densidade permitidas em loteamentos, mas como declividades
são mais adequadas a encostas, associando-as prefe- resultantes do parcelamento do solo, sem nenhuma
rencialmente a ocupações destinadas à população de alta referência à declividade original, natural dos terrenos.
renda. No mencionado trabalho da Fundação, destinado a
No âmbito do município de São Paulo, as leis condu-
orientar a elaboração da legislação urbana nos municípios
zem ainda, via de regra, a alterações de grande monta nos
82 paulistas, sugere-se:
terrenos em encostas. É o caso, por exemplo, da lei n o 9.413,
“Nos terrenos com declividade igual ou superior a 30%, só será de 30 de dezembro de 1981, que permite, para loteamentos
permitido o parcelamento do solo quando os lotes resultantes populares, declividades de até 30%, em 70% dos lotes,
tiverem área não inferior a 2.500 m 2 e só puderem ser ocupados mas abre para o restante a possibilidade de lotes com até
por uma única habitação, cuja área construída não deverá 45% de declividade. No caso de parcelamentos de padrão
ultrapassar o coeficiente de aproveitamento de 0,2”. médio, são admitidos lotes com declividades de até 45%.
Ainda que ocupações de baixa densidade em Nos loteamentos de alto padrão, a lei admite lotes

5
FUNDAÇÃO PREFEITO FARIA LIMA. (1981). CEPAM. Diretrizes para o controle de obras no município - Código de obras / Lei de loteamentos.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


com declividades superiores a 45%, não estipulando um exigências cujo claro objetivo é a implantação de loteamentos
valor máximo. Observe-se ainda que, através de terraplenos, mais seguros e menos predatórios, esbarra fatalmente com
é possível obter lotes com declividades de 30% ou 45% exigências de âmbito municipal relativas, por exemplo, a
em terrenos de declividade bastante superior. A mesma lei requisitos geométricos de sistema viário a observar, mais
(Lei Municipal no 9.413) estabelece faixas de declividades adiante estudados, que acabam neutralizando as boas
máximas a observar para a implantação de áreas verdes e intenções.
de áreas institucionais: pelo menos 50% das áreas verdes Vale a pena, de qualquer forma, citar como ilustração
devem se situar em terrenos com declividade inferior a o Artigo 3° da mencionada Resolução, o qual apresenta,
30%. Para áreas institucionais só podem ser destinados entre outras recomendações, a seguinte:
terrenos com, no máximo, 15% de declividade. Como
“...O projeto de parcelamento do solo e as especificações de sua
decorrência, em terrenos acidentados, os loteadores acabam
execução, devem ser elaborados considerando:”
lançando mão de extensos terraplenos para atingir as
situações exigidas. a) a implantação do sistema viário ajustado à conformação do
terreno, reduzindo-se ao máximo o movimento de terra e
Ao fixar declividades para lotes habitacionais ou assegurando proteção adequada às áreas vulneráveis;...
institucionais, a legislação acaba também ignorando a
Quando se consideram, porém, os requisitos geo-
possibilidade de adoção de boas soluções de projeto, tanto
métricos preconizados na legislação municipal, tais como
para habitações quanto para equipamentos comunitários
dimensões requeridas no sistema viário, gabaritos de
(escolas, creches, postos de saúde, etc.) específicos para
edificações, frentes, fundos e áreas mínimas de lotes, recuos
terrenos mais declivosos, com tipologias que não se baseiam
mínimos obrigatórios de edificações, áreas mínimas a
no princípio do simples loteamento, capazes de evitar
destinar a equipamentos comunitários etc., vão se somando
maiores movimentos de terra e favorecendo a segurança.
fatores que têm influência negativa na própria segurança
Como já foi dito anteriormente, o parcelamento do na ocupação de encostas. Tais fatores dificilmente podem
solo para fins urbanos deve seguir, em primeiro lugar, a ser analisados isoladamente, pois se encontram imbricados, 83
Lei Lehmann (Lei federal no 6.766 de 19 de dezembro de na realidade, num “projeto de projeto” de cidade, baseado
1979), que exige, para loteamentos a situar em declividades no parcelamento, à exaustão, do solo, que a própria
superiores a 30%, pareceres específicos das autoridades legislação urbana na realidade preconiza, e que não se presta
competentes. adequadamente às encostas.
No caso da Região Metropolitana de São Paulo, a Em loteamentos em encostas, o traçado e o
responsabilidade de análise de projetos de loteamentos para dimensionamento do viário, definindo a conformação das
terrenos com declividades iguais ou superiores a 30% é de quadras, acabam também condicionando a disposição dos
alçada da Secretaria de Estado dos Negócios Metropolitanos, lotes e das futuras edificações. Sua concepção influi, assim,
de acordo com a Resolução SNM no 036/81, de 14 de maio não só em movimentos de terra para sua própria im-
de 1981. Tal resolução, ainda que contemple, em seus artigos, plantação, como também em movimentações futuras de

Legislação e ocupação de encostas


terra para a adaptação dos terrenos à edificação. Em vias no mais das vezes, conduzem a soluções inadequadas.
principais, por exemplo, onde há, por lei, necessidade de
Expõem-se, a seguir, considerações gerais sobre cada
adoção de grandes larguras e baixas declividades, a
um destes assuntos, tomando-se por parâmetro a legislação
disposição assumida, em encostas, tende a ser mais próxima
vigente no Município de São Paulo, por se tratar de um
à direção das curvas de nível, gerando grandes cortes e
referencial mais completo e exigente, com profundas
aterros para sua construção e criando, às suas margens,
influências nas legislações de outros municípios do estado
lotes “ortogonais” às curvas de nível, altamente desfa-
e do país.
voráveis à implantação de edificações convencionais. E
justamente as tipologias mais convencionais tendem a ser Num âmbito mais geral, a legislação paulistana prevê
as adotadas, na ocupação, exigindo-se adaptações de três tipos básicos de vias (Lei Municipal no 9413/81),
terreno, com novos e volumosos movimentos de terra. abrangendo:
Deposita-se ainda, no viário, toda uma série de - as destinadas exclusivamente a veículos (vias
expectativas referentes a outros requisitos do urbanismo expressas);
que não a circulação, como, por exemplo, o da insolação - as de uso misto (veículos-pedestres); e
adequada, e busca-se assegurar através de generosas lar- - as exclusivas para pedestres.
guras de vias tais condições, muitas vezes com inadequações No âmbito geral, as vias exclusivas para pedestres
gritantes. são entendidas apenas como ligações entre vias de uso
misto que apresentem comprimento mais longo (ligações
3.2.1 - Legislação, sistema viário e encostas intermediárias em quadras extensas), com o intuito de
Há um notório conflito entre critérios e leis reduzir o percurso para os pedestres.
usualmente observados na concepção e dimensionamento Ainda num âmbito geral, obedece-se ao pressuposto
do sistema viário e a estabilidade de terrenos e o uso mais de que qualquer edifício deve ter acesso direto a partir de
racional do solo em encostas. Destacam-se quatro principais vias que possibilitem o trânsito de veículos.
84 características do viário que interferem fortemente na
As vias expressas têm sua largura definida de acordo
ocupação deste tipo particular de terreno: a largura exigida
com cada caso, mas tomando-se por referência a largura
para as vias, as declividades máximas permitidas, o traçado
mínima utilizada na categoria inferior subsequente, deve
geral a adotar e, finalmente, a tolerância à adoção de lotes
superar 37m. Nas vias expressas, a declividade longitudinal
ou unidades habitacionais atendidas, exclusivamente, por
máxima tolerada é de 6%.
vias para pedestres, combinada com desníveis e distâncias
considerados a percorrer a pé. Note-se que as duas As vias de uso misto veículos-pedestres abrangem as
primeiras características são alvos de prescrições rígidas arteriais (de primeira categoria, com largura mínima de 37m
na legislação, enquanto as duas últimas, apesar de e de segunda categoria, com largura mínima de 30m, ambas
encontrarem algumas limitações legais explícitas, são com declividade máxima de 8%), as principais (largura
cercadas, isto sim, por arraigados preceitos técnicos que, mínima de 20m e declividade máxima de 10%) e as locais

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


(largura mínima de 12m e declividade máxima de 15%). 4,00 (quatro) metros nos trechos em que não houver acesso
Finalmente, as vias exclusivas para pedestres devem direto a unidades habitacionais.
ter largura mínima de 8m e declividade máxima de 15% No que diz respeito a vias exclusivas para pedestres,
ou escadaria. o Decreto prescreve, em seu 29o artigo:
Após a consolidação de nova legislação, na década Art. 29 o - As vias de pedestres deverão ser executadas de forma
de 1990, iniciada através do Decreto Municipal no 31.601 que:
de 26 de maio de 1992, específico para empreendimentos I - A distância a ser percorrida entre qualquer edificação e uma
habitacionais de interesse social, muitos “abrandamentos” via local, coletora ou arterial seja no máximo de 50,00 (cinqüenta)
foram postos em vigor no que diz respeito ao dimensio- metros;
namento de vias nos empreendimentos.
II - O desnível entre a soleira de qualquer unidade habitacional
O Decreto considera, em seu Artigo 25 o, quatro e uma via local, coletora ou arterial seja no máximo de 14,00
categorias de vias para empreendimentos habitacionais de (quatorze) metros.
interesse social, que denomina por Coletoras Tipo 1, Parág. único - Nas interseções das vias de pedestres com vias
Coletoras Tipo 2, Mistas, Locais e de Pedestres. O conceito locais, coletoras e arteriais, deverá ser previsto local para deposição
de “via mista” se traduz no Artigo 28o do Decreto, como de lixo, dimensionado em função do número de unidades
segue: habitacionais a ser implantado.
Art. 28o - As vias mistas, destinadas preponderantemente à
No que diz respeito aos denominados parâmetros
circulação de pedestres, devem ser projetadas de forma a permitir
geométricos, sua definição se dá de acordo com o quadro
a circulação de veículos leves de passageiros apenas para acesso
3.1, a seguir, que constitui o Quadro I do Anexo I do Decreto
aos lotes, e a eventual entrada de caminhões e veículos pesados.
no 31.601/92. Como pode ser visto no quadro, a menor
Parág. 1 o - As vias mistas terão uma extensão máxima de
largura de via prevista pela legislação paulistana é de 4m
100,00 (cem) metros e terão traçado que permita que a distância
(via para pedestres). Esta largura pode ainda ser considerada
a ser percorrida entre qualquer edificação e uma via local ou 85
exagerada em implantações em encostas em muitas situações.
coletora seja no máximo de 75,00 (setenta e cinco) metros.
Parág.2 o - As vias mistas poderão ser implantadas como calçadão, Na realidade, ao se fixar a largura mínima de 4m, a
sem leito carroçável, devendo nesses casos ser prevista a implantação intenção transcende a simples questão da circulação,
de guias rebaixadas nas interseções destas vias com outras. procurando também assegurar distâncias mínimas entre
Parág. 3 o - Nos Empreendimentos Habitacionais de Interesse testadas de construções para melhor insolação e mesmo
Social que envolvam a edificação de unidades habitacionais, as maior privacidade dos moradores.
vias mistas devem ser projetadas de forma a dar acesso no máximo Em encostas, estes requisitos podem ser atendidos
a 75 (setenta e cinco) unidades habitacionais. com soluções envolvendo vias para pedestres bem mais
... estreitas, como ilustra a Figura 3.1, mais adiante, onde a
Parág. 5o - Será admitida via mista com largura mínima de largura total adotada é de por volta de 2m.

Legislação e ocupação de encostas


Quadro 3.1 - Quadro 1 do decreto 31.601/92 (do anexo I do decreto)

86

Figura 3.1. É possível, em determinadas situações, utilizar vias para


pedestres bem mais estreitas, sem prejuízo da circulação, da insolação
ou da privacidade.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


3.2.1.1 - Leitos carroçáveis a necessidade de uma revisão de critérios para definição
A definição da largura mínima a observar em vias de larguras de vias em empreendimentos habitacionais,
para veículos provém de relacionamentos entre a largura questão esta que será também retomada no Capítulo 4, em
dos veículos e a velocidade de deslocamento prevista, além análise do real papel que as generosas larguras de vias em
de espaços necessários para estacionamento. No Brasil, os uso têm assumido nos conjuntos habitacionais construídos
parâmetros considerados para o dimensionamento do viário pelo Estado.
têm origem, principalmente, nos utilizados em rodovias
No Brasil, o dimensionamento de vias, em cidades,
americanas. Como destaca YAMAGUISHI (1983)6, p.15,
acaba efetivamente sendo baseado nas normas de 1974 do
tratando mais especificamente de critérios para
Departamento Nacional de Estradas de Rodagem. A largura
desenvolvimento de curvas horizontais:
mínima a se adotar em cada faixa de rolamento, para o
“Atualmente, no Brasil, têm sido utilizados os gabaritos DNER, não pode ser inferior a 3m. Além disso, a via
desenvolvidos pela AASHTO -American Association of State mais estreita que o órgão admite deve ter, pelo menos,
Highway and Transportation Officials, baseados nos veículos duas faixas de rolamento, o que resulta em uma largura
produzidos nos E.U.A., cujas dimensões são bem maiores que mínima de 6m só de leito carroçável. Note-se que não estão
as nacionais. O DNER -Departamento Nacional de Estradas aí incluídas as larguras necessárias para a implantação de
de Rodagem, por exemplo, propôs para sua norma de projetos passeios laterais.
geométricos três tipos de veículos que são correspondentes aos
Diferem bastante destes critérios os adotados, por
gabaritos americanos.”
exemplo, por MC CLUSKEY (1985)7 p. 290, para quem as
A adoção dos gabaritos americanos, pelo DNER, larguras de ruas residenciais são simples função da largura
em estradas, portanto, já consiste em exagero, mas ainda dos veículos, de tolerâncias requeridas para ultrapassagens
se justifica, remotamente, como segurança complementar, e das necessidades colocadas para a circulação de ciclistas.
tendo em vista que as velocidades desenvolvidas em Com base no DEPARTMENT OF ENVIRONMENT
estradas são normalmente bem mais elevadas. (1973), Mc Cluskey estuda vias locais (residenciais) de
larguras entre 5,5m e 3,0m (de leito carroçável), concluindo 87
No caso de projetos de vias em áreas urbanas, a
que:
maioria desses gabaritos pode ser considerada
hiperdimensionada, principalmente quando é notório, no a) uma via de 5,5m permite que veículos de todo tipo possam
Brasil, um esforço para a redução da velocidade nas vias realizar ultrapassagens, com uma tolerância total de 0,5m para
urbanas, como medida preventiva contra acidentes. Mas os maiores, e muito mais ampla para o restante. Considerando-
os gabaritos sugeridos pelo DNER são os efetivamente se a baixa freqüência do trânsito de veículos grandes por vias
utilizados no dimensionamento de vias urbanas. Faz-se clara residenciais, esta largura é normalmente a máxima que se requer

6
YAMAGUISHI, A.T. (1983). Áreas de Estacionamento e gabaritos de curvas horizontais.
7
MC CLUSKEY, J. (1985). El diseño de vías urbanas.

Legislação e ocupação de encostas


Figura 3.2. Larguras necessárias para pistas de rolamento de ruas
residenciais. Fonte: MC CLUSKEY (1985)8 p.290.

para absorver o trânsito neste tipo de via. ... Note-se que Mc Cluskey, para vias com larguras
... b) Em 4,8m, a pista permite que um veículo de passeio largo iguais ou inferiores a 4,8m, lança mão de alargamentos
ultrapasse um caminhão de mudanças, com uma tolerância total periódicos, para ultrapassagens, como mostra a Figura 3.2.
de 0,5m, o que permite que o tráfego possa prosseguir com fluidez. Cabe, de imediato, um comentário: se em países desen-
c) Em 4,1m, a pista torna-se muito estreita para que um caminhão volvidos leva-se em consideração o uso de vias tão “estrei-
de mudanças ultrapasse algo maior que um ciclista, mas permite tas” como as sugeridas por Mc Cluskey 9 , por que no Brasil
que veículos de passeio, incluindo os mais largos, possam proceder a deveríamos implantar, em qualquer situação, vias tão mais
ultrapassagens, com uma tolerância total de 0,5m. ... largas como, por exemplo, as exigidas pela legislação
d) A escolha de larguras inferiores a 4m depende muito da paulistana?
88 freqüência das ultrapassagens e das folgas que os ciclistas e
3.2.1.2 - Passeios
automóveis necessitem para efetuá-los. É recomendável um mínimo
de 3m nos tramos entre ampliações da via para ultrapassagem A legislação paulistana exige, no caso geral (lei
de veículos. ... 9.413/81), passeios dos dois lados das vias, com largura
... nos casos em que os tramos estreitos são colocados só para criar mínima de 3m para as principais e de 2,5m para as locais.
estreitamentos transitórios da via, sua largura mínima poderá No caso de conjuntos residenciais, são admitidos passeios
ser de 2,75m com largura mínima de 1,5m em vias internas aos

8
MC CLUSKEY, J. (1985). El diseño de vías urbanas.
9
Mc Cluskey é Engenheiro Civil (Universidade de Glasgow) e Arquiteto Paisagista. Por ocasião da edição do livro El diseño de vías urbanas, aqui citado, era membro
do Greater London Council, no departamento de Arquitetura e Urbanismo. N.A.

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conjuntos, exigidos nos dois lados.
No caso específico de vias de comprimento inferior
a 50m (de largura mínima de 8m e leito carroçável de 6m),
a legislação não regulamenta o mínimo a observar na largura
dos passeios, e vêm sendo adotados, nestes casos, pelos
agentes promotores de conjuntos habitacionais, diferentes
combinações de larguras que, somadas, perfazem 2m.
A largura mínima a observar em passeios deve
considerar, além da circulação de pedestres, duas principais
condicionantes:
- o transporte de volumes de diversas naturezas pelos
pedestres;
- o espaço para implantação de postes e hidrantes
(quando aplicável) assegurando-se ainda as condições
normais de circulação;
- o espaço para plantio de árvores (quando aplicável).
Para MC CLUSKEY(1985), p.290, os espaços para
circulação de pedestres e de volumes são suficientemente
atendidos pelas dimensões apresentadas na Figura 3.3, que
indica as larguras mínimas necessárias para cada tipo de
utilização dos passeios e, entre parênteses, larguras para
circulação com maior folga. Como pode ser visto na figura, 89
uma largura livre de 60cm é considerada suficiente para a
circulação de apenas um pedestre. Uma largura livre de
90cm já é considerada folgada para a circulação de um
carrinho de bebê para gêmeos e permite ainda a passagem
simultânea de duas pessoas, em condição limite.
Para a implantação de postes, torna-se necessária
Figura 3.3. Larguras necessárias (em milímetros) para passeios,em
uma faixa adicional, na largura do passeio, de 80cm, diversas situações de uso. Fonte: MC CLUSKEY (1985)10. p. 290.

10
MC CLUSKEY, J. (1985). El diseño de vías urbanas.

Legislação e ocupação de encostas


correspondente à soma de 30cm (diâmetro usual dos postes) permitidas no sistema viário e a demanda por movimen-
com 50cm (distância recomendável entre o poste e a borda tações de terra para a implantação de ruas. Quanto maior
externa do meio fio). O mesmo critério pode ser utilizado for a declividade permitida, maiores são as possibilidades
para hidrantes. de conseguir traçados viários que exigem menores
A adoção pura e simples das larguras de passeios movimentos de terra para sua implantação.
preconizadas na legislação paulistana pode conduzir, em A adoção de declividades elevadas em vias para
qualquer tipo de terreno, a soluções inadequadas, tanto veículos gera muitas controvérsias no meio técnico. Os
por excesso quanto por falta. Exigir, em qualquer terreno, mais conservadores tendem a limitá-las aos 15%, enquanto
calçadas de 3m em vias principais e 2,5m em vias locais outros consideram perfeitamente praticáveis até mesmo
pode constituir um exagero, conforme o tipo de circulação valores superiores a 20%.
de pedestres que efetivamente se dará na via. Isto se
Normalmente, o que se observa é uma ausência de
confirma através de simples comparação com as dimensões
critérios. As discussões tendem a girar em torno de fatores
adotadas por Mc Cluskey. Em encostas, em vias paralelas
subjetivos e não de conceitos, e a bibliografia disponível,
às curvas de nível, a adoção do estritamente preconizado
tanto em fontes nacionais quanto estrangeiras, apenas
na legislação significa agravar os movimentos de terra e os
estabelece, de forma pragmática, limites de declividades,
riscos geotécnicos.
sem justificá-los.
Para ilustrar esta afirmação, suponha-se a adoção de
Acredita-se ser necessário, pelas condições topo-
passeios com 1m de largura em cada lado da via (a lei exige
gráficas de muitas de nossas cidades, que se desenvolvam
apenas que a soma dos passeios seja de 2m, neste caso) e
estudos com as montadoras e importadoras de veículos,
que haja posteamento num dos lados. Neste, o espaço
procurando caracterizar as reais capacidades de rampas dos
remanescente entre postes e o alinhamento dos lotes será
veículos em circulação, permitindo uma formulação segura
por volta de 20cm, inutilizando o trecho para a circulação.
de limites de declividades admissíveis.
O que se observa, na realidade, é que passeios
90 Para vias urbanas, nos Estados Unidos, a Federal
estreitos, bastante utilizados em vias secundárias, em
Housing Administration (s.d.) apud DE CHIARA e
conjuntos habitacionais, são efetivamente pouco utilizados
KOPPELMAN (1978)11 , p.117, estabelece um máximo de
por pedestres, que tendem a usar o próprio leito carroçável
17% de declividade longitudinal, em vias locais, em rampas
nas caminhadas.
de acesso. Para estacionamentos, DE CHIARA e
3.2.1.3 - Declividades de vias CALLENDER (1973)12, p. 675, sugerem um máximo de
Existe uma correlação implícita entre as declividades 20%.

11
DE CHIARA, J. et KOPPELMAN, L.E. (1978). Site planning standards.
12
DE CHIARA, J. et CALLENDER, J.H. (1973). Time-saver standards for building types.

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A legislação paulistana, para vias locais internas aos quais temos maior contato. Em rampas de garagens de
conjuntos residenciais, admite 18%, como já foi visto prédios de apartamentos, por exemplo, são comuns as
anteriormente, em extensões inferiores a 50m. Note-se superiores a 20%, como afirma MORETTI (1993)14 , p.122.
também que a declividade, além de fatores objetivos, Em vias de bairros mais centrais de São Paulo, como
envolve ainda fatores subjetivos (sensações)13 . Para ilustrar algumas das apresentadas no Quadro 3.2, mais adiante,
esta afirmação, vale lembrar algumas declividades com as verificam-se igualmente valores superiores a 20%.

91

Quadro 3.2 - Declividades em algumas vias de bairros centrais de São Paulo. Fonte: MORETTI (1993)15 , p.121.

13
Moretti argumenta que a avaliação da declividade com base em simples sensação conduz a enganos: são bastante diferentes os efeitos e os problemas de uma
via que tem um trecho de 15% de declividade e 50m de extensão, ligando dois trechos praticamente planos (7,5m de amplitude) e de uma via, também com 15%
de declividade, porém com 300m de extensão (45m de amplitude). A sensação é que a declividade no segundo caso é maior que no primeiro.
14
MORETTI, R.S. (1993). Critérios de urbanização para empreendimentos habitacionais.
15
Id. Ib.

Legislação e ocupação de encostas


Ainda que vias com declividades iguais ou superiores O uso de declividades acentuadas no viário é às vezes
a 20% sejam relativamente freqüentes em cidades brasileiras enfrentado por expedientes específicos para facilitar as
de topografia mais acidentada, há que se considerar algumas atividades corriqueiras em assentamentos habitacionais. Os
de suas implicações negativas, dentre as quais se destacam: sistemas normais de coleta de lixo por caminhões, de
distribuição de gás engarrafado e de entregas domiciliares
- dificuldade mais pronunciada de circulação de veículos
de cargas mais pesadas recebem adaptações.
de carga e de ônibus urbanos, e aumento de nível de
ruídos: (para subir ou descer rampas, os veículos devem Em Petrópolis (RJ), tendo em vista as severas
utilizar marchas reduzidas, com rotação elevada no condições topográficas, foram adotadas especificidades, por
motor, o que produz mais ruído); exemplo, no sistema de distribuição de gás engarrafado nos
- riscos de acidentes por falhas de freios; e morros. Ao invés de caminhões, são utilizadas picapes-jipes.
O lixo, por sua vez, em muitos casos, é recolhido apenas em
- necessidade de cuidados especiais na pavimentação e
vias de declividades mais baixas, toleráveis para caminhões,
nas drenagens, para evitar degradação das vias e para
requerendo caminhadas dos moradores de vias mais
assegurar aderência adequada entre os veículos e a pista,
inclinadas para sua deposição, o que pode e é, às vezes,
mesmo que esta esteja molhada.
contornado pela adoção de sistemas locais (particulares) de
A estas acrescentam-se outras, destacadas por coleta manual nas casas, e de encami-nhamento aos pontos
MORETTI (1993)16 , p.120: de coleta.
- dificuldades de circulação de pedestres, deficientes físicos e ciclistas;
No tocante a deficientes físicos, empreendimentos
- dificuldades de estacionamento de veículos paralelamente ao habitacionais em encostas, independentemente de sua
meio fio; comprometimento do uso de lazer na via. concepção, tendem a constituir inúmeras barreiras. Às vezes,
Alguns destes inconvenientes não se mostram, nem mesmo as unidades habitacionais situadas mais
porém, intransponíveis. No caso do ruído decorrente do próximas a vias de circulação, com desníveis menores, podem
92 uso de marchas reduzidas, considera-se que a circulação ser acessadas sem escadarias. Dificilmente, uma implantação
de veículos mais pesados é pouco significativa no período em encosta adequada, do ponto de vista geotécnico, pode
noturno, não interferindo sobre o repouso dos moradores. possibilitar aceso favorável aos portadores da maioria das
Quanto aos riscos de perdas de freios pode-se, através do deficiências. Entende-se que o equacionamento do problema
traçado viário e da previsão de elementos construídos para de acessibilidade a deficientes, nos conjuntos de interesse
absorver choques, minimizar os perigos. social, deve extrapolar o assentamento isolado, ponderando

16
MORETTI, R.S. (1993). Critérios de urbanização para empreendimentos habitacionais.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


possibilidades de locação de unidades especiais para a avaliar o desempenho dos conjuntos da companhia
deficientes fora dos assentamentos em encostas. implantados durante o Programa denominado SH-3, na
década de 90 (até 1992), quando foram construídas 78.000
Mesmo considerando-se os aspectos negativos,
unidades habitacionais em 376 empreendimentos
mostra-se ainda desejável tolerar declividades mais elevadas
localizados em diferentes municípios paulistas. A amostra
em vias para veículos. No tocante a vias principais, a limitação
estudada pelo IPT, constituída por 50 conjuntos, incluía
seria fornecida pela capacidade de rampa de ônibus urbanos.
26 onde se previam ruas sem saída ou em alça. Nestes, em
Ainda que o autor do presente trabalho tenha observado a
13, ocorreram alterações de traçado viário durante a
circulação de coletivos em vias com declividades superiores
pavimentação, ou mesmo a posteriori, quando se
a 20 %, como no Morro dos Turcos, em Petrópolis –(RJ),
transformaram em contínuas vias cuidadosamente previstas
acredita ser razoável admitir trechos curtos (com
em projeto, como sem saída ou em alça.
comprimentos inferiores a 50m) com declividades de até
15%. Em vias locais, essencialmente residenciais, considera- Os prolongamentos para emendas com outras vias
se adequado ampliar a tolerância para 20%, em trechos de atravessam sistemas de lazer, áreas institucionais e/ou
comprimentos iguais ou inferiores a 50m. comerciais não ocupadas. Em muitos casos, os prolon-
gamentos recebem pavimentação, o que os reveste de um
3.2.1.4 - Traçado viário
caráter institucional, com participação das próprias
Quanto ao traçado e à posição de vias, a legislação
prefeituras, na alteração dos projetos originais. Vias sem
prevê apenas que a prefeitura estabeleça um traçado geral,
saída apresentam particular interesse na ocupação de
cuja função básica é o de assegurar a continuidade com o
encostas. Permitem, por exemplo, restringir a ocupação às
viário do entorno. Isto se, de direito, não restringe obriga-
partes mais baixas dos morros, encaminhando a uma
toriamente, por exemplo, o uso de vias sem saída, ou de
desejável preservação das partes mais altas e evitando vias
vias exclusivas para pedestres tem, de fato, se traduzido
à meia encosta, que normalmente demandam grandes
em recomendações de concepções de traçados viários
movimentos de terra.
bastante convencionais, quase sempre tendentes à 93
reprodução da tradicional grelha hipodâmica. Há uma No espírito vigente na ocupação atual, tem-se dado
tendência arraigada na manutenção de um sistema viário preferência à transposição dos morros com viários
contínuo (onde qualquer via tem continuidade através de contínuos, abrindo-se espaço à sua completa ocupação, quer
outra via). Para ilustrar este fato, vale mencionar que o dentro de parâmetros exigidos por lei, que redundam muitas
IPT (1997)17, desenvolveu pesquisa para a CDHU destinada vezes em inadequações geotécnicas gritantes, quer à revelia

17
INSTITUTO DE PESQUISAS TECNOLÓGICAS DO ESTADO DE SÃO PAULO (1997). Retroavaliação do Programa SH-3.

Legislação e ocupação de encostas


da legislação, igualmente em padrões inadequados. Em Petrópolis (RJ), o autor pôde observar diversos
assentamentos habitacionais consolidados, construídos em
No Brasil, porém, é tendência geral a não utilização
moldes que constituíam, até a década de 1960, um padrão
do recurso de atender lotes ou unidades habitacionais
comum de ocupação de encostas naquele município. A
exclusivamente com vias para pedestres. Mesmo em
partir de vias para veículos posicionadas paralelamente às
terrenos de condições topográficas extremas busca-se
curvas de nível e nos trechos de declividades mais brandas,
garantir o acesso a veículos.
têm origem escadarias em direção às declividades mais
3.2.1.5 - Uso de unidades habitacionais com acesso acentuadas, dispostas ortogonalmente às curvas de nível,
exclusivo por vias para pedestres dando acesso direto às habitações e/ou a vias transversais
Na legislação paulistana (Decreto no 31.601), nos estreitas. Muitos destes assentamentos, principalmente os
artigos no 29, 37 e 48, referentes, respectivamente, a vias situados em pontos mais centrais da cidade, abrigam hoje
para pedestres, a conjuntos horizontais multifamiliares e moradores de classe média, que convivem, sem maiores
verticais multifamiliares, tolera-se um desnível máximo de problemas, com as especificidades deste tipo de implan-
14m: tação. Alguns destes assentamentos apresentam desníveis
- entre a soleira de qualquer unidade habitacional consideráveis, superando os 80m entre a via de veículos
atendida apenas por via para pedestres e uma via local, mais próxima e as habitações mais elevadas, que são aten-
coletora ou arterial; e didas exclusivamente por escadarias.

- entre a soleira de qualquer unidade habitacional e a Pondera-se aqui que vias exclusivas para pedestres,
vaga de estacionamento vinculada. como acesso exclusivo a unidades habitacionais em
encostas, podem e devem ser utilizadas em escala bem mais
Estas determinações, únicas referências mais claras ampla do que hoje se verifica em novas ocupações. Desde
disponíveis na legislação de fato, parecem traduzir o que haja a definição de limites para deslocamentos verticais
“espírito da Lei”, que seria o de admitir, nas implantações (pois estes exigem maior esforço físico), o recurso é
94 habitacionais em geral, desníveis máximos de 14m para altamente favorável para melhores ocupações em encostas.
percurso a pé. Para a limitação de diferença de cotas toleráveis, o IPT
Na prática, é só em projetos de reurbanização de (1992)18 , p.23, sugeriu para a nova legislação urbana, em
favelas que se utilizam unidades servidas apenas por vias Petrópolis, uma tolerância até mesmo superior (de até 18m).
mais estreitas para pedestres. Estas, diga-se de passagem, No âmbito do desenvolvimento da pesquisa
têm atendido perfeitamente às necessidades dos moradores “Desenvolvimento de tipologias para habitações de interesse social
no que diz respeito aos deslocamentos a pé. em encostas, sistematização de procedimentos para sua concepção e

18
IPT-Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (1992). Carta geotécnica de Petrópolis.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


subsídio à revisão de critérios urbanísticos aplicáveis”, que em boa cuidadosamente planejados. Propõe-se aqui, porém, o
barte alimenta esta publicação, a equipe técnica envolvida amplo debate desta proposição, ao mesmo tempo em que
procedeu a intensa discussão do desnível a tolerar entre se reforça sua sugestão.
uma soleira de unidade habitacional e a via ou estaciona- 3.2.1.6 - Percurso horizontal máximo em vias para
mento para veículos. Um forte argumento para se adotar pedestres
desníveis superiores aos 14m tolerados pela legislação A legislação paulistana prescreve, para vias mistas
paulistana e aos 18m sugeridos para o caso de Petrópolis (preponderantemente destinadas à circulação de pedestres),
se origina na própria experiência da equipe, que, com seu uma extensão máxima de 100m, devendo-se ainda observar
extenso conhecimento de assentamentos “espontâneos” uma distância máxima de 75m entre qualquer edificação e
em morros, tem observado: uma via local ou coletora.
- não são raros desníveis superiores aos 100m; Em vias exclusivas para pedestres, a recomendação
- são freqüentes os desníveis de até 50m; é ainda mais restritiva, limitando a 50m a distância máxima
- são incontáveis os desníveis superiores aos 20m. tolerável entre qualquer edificação e uma via local, coletora
ou arterial.
Mesmo que se leve em conta toda a série de
Acredita-se que a limitação a 50m, na legislação
inconvenientes que se associam a esta situação, as soluções
paulistana, pelo menos em ocupações para encostas, é
espontâneas, neste sentido, mostram, ao não procurar
excessivamente restritiva. Ainda que, nos deslocamentos a
assegurar o acesso a veículos a qualquer ponto da encosta,
pé em encostas, o agravante dos desníveis se faça sentir,
uma sabedoria, porque a eventual abertura das vias
considera-se que um percurso horizontal por volta de 100m
necessária inutilizaria parcelas importantes do terreno,
seja ainda bastante razoável.
francamente utilizáveis para a implantação de habitações.
A própria legislação já admite 75m no caso de vias
Considerou-se que a adoção de algo em torno de
mistas (preponderantemente destinadas à circulação de
20 ou 25m, neste tipo de desnível, seria um limite bastante 95
pedestres).
tolerável frente à própria observação de assentamentos
espontâneos com estas características, onde a população A adoção do limite de 100m favoreceria im-
mostra conviver bem com os problemas do desnível. Em plantações com configurações mais próximas ao que se
projetos de reurbanização de favelas, o Estado tolera poderia chamar de um sistema viário “ideal” para encostas,
desníveis bastante superiores aos aqui sugeridos. Acredita- que aponta para a adoção de vias bastante inclinadas ou
se que, ao tolerar-se desníveis entre 20 e 25m, com a escadarias “ortogonais às curvas de nível” que dêem acesso
a vias estreitas, transversais, para pedestres, “paralelas às
contrapartida de melhores características urbanísticas nos
curvas de nível”, e lindeiras a blocos extensos de habitações.
assentamentos, a população só auferiria vantagens com
relação à ocupação espontânea, desfrutando de maior Uma vez que se limite o percurso vertical a padrões
segurança e qualidade ambiental em assentamentos próximos aos colocados anteriormente, acredita-se ser

Legislação e ocupação de encostas


tolerável a admissão de um percurso horizontal total por verificação era efetivamente inútil. Ainda que se
volta de 100m entre uma unidade habitacional atendida demonstrasse, graficamente, que uma janela - considerada
exclusivamente por via para pedestres (de qualquer largura) isoladamente em sua orientação de projeto - satisfazia à
e uma via para veículos. condição, bastaria que qualquer corpo construído nas
vizinhanças projetasse sombra permanentemente sobre ela,
para que a insolação direta se anulasse.
3.3 - Legislação, insolação e encostas A profusão de edifícios nas grandes cidades, por sua
A construção das cidades exige preocupações com vez, considerando-se ainda os diferentes gabaritos e recuos
a insolação dos edifícios, o que é tratado, na legislação permitidos ao longo dos diferentes códigos e leis vigentes -
urbana atual, através da adoção de limitantes de altura isto sem considerar as construções clandestinas (que têm um
(gabaritos) das edificações, da adoção de recuos obrigatórios significado numérico expressivo, pelo menos na Região
dos edifícios com relação às divisas do terreno e da Metropolitana de São Paulo), faz com que projetos com
definição de faixas de orientação interditadas ao uso para aberturas “meticulosamente” dispostas para receber
fins de insolação. Requisitos de insolação somam-se ainda, insolação, mas sem considerar o entorno, possam jamais
implicitamente, na definição de larguras mínimas de vias, “ver o sol”, frente a presença de obstáculos construídos ou
como já se comentou anteriormente. naturais nas imediações. O caráter necessariamente geral que
se adota na legislação acaba, em determinadas situações,
No Brasil, a questão da insolação tem sido bastante mostrando-se ineficiente, quando não prejudicial, criando
privilegiada e, nos diversos códigos de obras de municípios “camisas de força” para projetos a partir de requisitos que,
considerados no espaço e no tempo, tem constituído parte ainda que observados, não asseguram um bom desempenho
destacada dos requisitos legais, traduzindo-se em do edifício regularmente projetado.
características a observar nos projetos, às vezes pertinentes
e, às vezes, em descolamento nítido da realidade. Neste Esquecendo-se transitoriamente os requisitos legais,
96 último sentido, vale a pena recordar, por exemplo, um destaca-se que, no especificamente tocante à insolação, os
requisito do antigo código Arthur Sabóia, do Município de projetos para encostas demandam maior acuidade na locação
São Paulo, que obrigou arquitetos e engenheiros de algumas das aberturas de iluminação e insolação dos edifícios.
gerações a trabalhar com os denominados diagramas de Acredita-se que, no tocante à insolação, não se aplicam com
sombras. O profissional, para satisfazer os requisitos legais propriedade os requisitos legais atualmente em voga, pelo
concernentes à insolação, deveria demonstrar, graficamente, menos no que diz respeito a encostas. Nesta situação, não
com a utilização do diagrama de sombras, que a janela de são os recuos (de frente, laterais ou de fundos) os mecanismos
qualquer dormitório de seu projeto receberia, pelo menos, capazes de assegurar a boa insolação de edificações.
duas horas de insolação direta no dia do solstício de inverno. Em terrenos íngremes, nem mesmo voltar aberturas
No entanto, como o código não fazia menção à para “faixas privilegiadas de insolação” resolve o problema.
interferência, na insolação, das construções vizinhas, esta Para cada situação de orientação e de entorno há que se

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


estudar as formas mais favoráveis de disposição dos habitações de interesse social em encostas, sistematização
edifícios e de suas janelas. de procedimentos para sua concepção e subsídio à revisão
Como já foi dito anteriormente, se estudos mais de critérios urbanísticos aplicáveis” foram desenvolvidos
acurados de geometria de insolação, no passado, quatro projetos para áreas reais em encostas situadas em
constituíam procedimentos complexos e trabalhosos, quase Jacareí - SP. Tais projetos foram propositalmente condu-
inacessíveis à maior parte dos profissionais de projeto, hoje zidos, a título de experiência, sem observância (pelo menos
eles se tornam bem mais acessíveis através dos recursos intencional) aos requisitos legais aplicáveis, buscando-se
da computação gráfica. Nesta situação, ao invés de lançar pauta-los por critérios essencialmente técnicos. A pesquisa
mão de mecanismos indiretos para “assegurar” a insolação contemplou ainda o cotejamento do resultado dos projetos
(recuos e orientações preferenciais), que acabam com a legislação de São Paulo e de Jacareí. Observou-se
constituindo, às vezes, “camisas de força” inúteis, a que as maiores disparidades constatadas dizem princi-
legislação poderia se limitar a, simplesmente, estabelecer palmente respeito às características das implantações
requisitos mínimos a observar, tais como um tempo adotadas, e não exatamente a requisitos legais de edifi-
desejável de exposição ao sol, a assegurar, em aberturas de cações.
ambientes de insolação considerada necessária, levando-
De uma maneira mais global, uma fonte primária de
se em consideração as construções e/ou obstáculos naturais
conflitos se dá na questão do próprio enquadramento dos
do entorno, e exigir a verificação de sua efetividade com
tipos de soluções que foram adotados nos projetos, que não
recursos computacionais gráficos.
se associam a lotes, na acepção tradicional da palavra, nem a
Se esta sugestão, em certa medida, retoma uma edifícios verticais propriamente ditos, nem a edifícios
exigência já criticada do antigo Código Arthur Sabóia, o multifamiliares com até dois pavimentos, todos previstos,
faz com propriedade: hoje é possível, com maior facilidade, por exemplo, na legislação paulistana. Além disso, as
fazer este tipo de verificação, mesmo com a consideração circulações internas adotadas nos conjuntos, cuja concepção
das construções vizinhas previamente existentes. Em
se baseia na predominância de vias para pedestres, limitando- 97
contrapartida, poderia ser dispensada a documentação desta
se bastante, no geral, o acesso e a circulação de veículos,
verificação nos processos de aprovação de projetos,
acabaram definindo tipologias urbanísticas pouco
deixando-se por conta da responsabilidade técnica do
convencionais no Brasil, pelo menos no que diz respeito a
projetista o atendimento ao requisito.
novas implantações em programas habitacionais de interesse
social conduzidos pelo Estado.
3.4 - Aproximação a uma legislação Passa-se doravante a arrolar e a comentar os
específica para assentamentos habitacionais principais conflitos identificados.
de interesse social em encostas
Inicialmente, cabe destacar que a legislação urbana
Na pesquisa “Desenvolvimento de tipologias para no Brasil, frente ao princípio prevalecente de subdivisão

Legislação e ocupação de encostas


da terra urbana em lotes, tende, no geral, a basear seus princípio, não seguiriam necessariamente a legislação,
requisitos considerando, em primeiro lugar, o simples acabaram se encaminhando na direção de tipologias que,
parcelamento do solo, seguido, a posteriori, de ditames para involuntariamente, quebram o arraigado e inadequado
a edificação. Reflete-se claramente o princípio da grelha conceito de parcelamento do solo, trabalhando padrões
hipodâmica das quadras retangulares ou quadradas, diferenciados de ocupação. As implantações resultantes,
circundadas por vias e subdivididas em lotes. Mesmo que na ausência de denominações mais precisas, poderiam ser
o Decreto no 31.601 da legislação paulistana introduza denominadas condomínios habitacionais de interesse social em
brechas para uma diversificação pouco maior de tipologias, encostas. Nelas não se caracterizam claramente ruas, lotes
é ainda carregado deste espírito. ou áreas individuais de terrenos, mas padrões globais de
No exercício de projeto com maior liberdade, em ocupação, onde os princípios de acesso e circulação ficam
encostas, fica patente a necessidade de uma postura automaticamente diferenciados dos convencionais.
urbanística diferenciada, onde não é convidativo tratar Na legislação paulistana, a figura de condomínios
isoladamente questões de urbanismo e de edificações. A habitacionais de interesse social não se caracteriza claramente. O
rigor, a experiência mostra, através dos milhares de termo condomínio e seus correlatos comparecem em baixíssima
loteamentos populares abertos em terrenos mais declivosos, freqüência ao longo dos textos da lei e referem-se, predomi-
no Brasil, que aos drásticos movimentos de terra necessários nantemente, a assuntos ligados à previsão, demarcação e
para a abertura das vias convencionais de circulação nestes utilização de áreas comuns, verdes e institucionais. Na
assentamentos, seguem-se novos movimentos de terra legislação de Jacareí, os termos simplesmente não
pronunciados para a implantação de cada edifício, comparecem e, no Código Sanitário do Estado de São Paulo
exponencializando-se situações de risco e, o que é pior, (que rege obras e edificações em Jacareí), aparecem uma
redundando em implantações que, no geral, apresentam única vez, mas ao se tratar de piscinas.
características duvidosas quanto à paisagem urbana
formada e mesmo quanto à salubridade. Ainda que A análise mais cristalina das implantações propostas
98
atendessem rigorosamente à legislação (o que raramente fica assim prejudicada, uma vez que eventuais requisitos a
acontece), no que diz respeito a recuos e demais requisitos observar estão distribuídos, de forma pulverizada, nas
de implantação, as edificações que tendem a aparecer, neste concepções prévias de simples subdivisão do solo e de
quadro, constituem quase sempre blocos contínuos de tipologias de conjuntos multifamiliares horizontais (com
unidades predominantemente implantadas em lotes edifícios de até dois pavimentos) e verticais. Se, porém,
individuais, onde boa parte dos compartimentos das utilizarmos os requisitos dispersos na legislação, que
edificações não recebe nem mesmo a mínima insolação apontem na direção da intenção das leis, o exercício de
desejável. comparação torna-se mais factível.
As edificações e implantações concebidas no âmbito Cabe então listar um rol de questões observadas
da pesquisa anteriormente mencionada, uma vez que, por como conflitantes com as leis (ou com o espírito das leis),

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nos projetos, e comentar seus rebatimentos nos diplomas unidades habitacionais que neles forem construídas)
legais. Destacam-se os seguintes aspectos: atendidos por vias para pedestres faz-se no Artigo 36o do
- uso intensivo de unidades habitacionais atendidas Decreto no 31.601 da legislação paulistana, com tolerância
exclusivamente por vias para pedestres; a esta situação em 50% dos lotes do conjunto. Porém, não
é cristalina a afirmação, podendo ser também compreendido
- larguras de vias para pedestres;
que, no restante do loteamento, as vias deverão ser mistas,
- número de vagas de estacionamento frente ao número com uso predominante para pedestres.
de unidades habitacionais;
Ainda no decreto paulistano, para os denominados
- desnível máximo a tolerar entre a soleira de uma
conjuntos multifamiliares horizontais, admite-se o emprego de
unidade habitacional atendida exclusivamente por via
vias exclusivas para pedestres, com largura reduzida para
para pedestre e o último ponto atendido por acesso a
até 1,50m, interligando lotes (com até 12 unidades
veículo;
habitacionais agrupadas) com a via oficial de circulação.
- distância máxima de percurso horizontal, em vias para
Se o número de unidades atendidas for superior a 12,
pedestres, para se atingir o último ponto atendido por
admite-se ainda via para pedestres com largura mínima de
acesso a veículo;
3m, calçada em largura de, pelo menos, 1,20m. Porém, a
- declividades e larguras de vias para veículos; e redação deixa dúvidas quanto ao real significado destas
- dimensionamento de dispositivos de manobra para vias, permitindo entender, por exemplo, que tenham papel
veículos. apenas complementar ao viário como um todo. Tal dúvida
se reforça na leitura do Inciso VII do Artigo 37o, segundo
3.4.1 - Uso intensivo de unidades atendidas o qual os conjuntos horizontais deverão dispor de uma
exclusivamente por vias para pedestres vaga de estacionamento para veículo, dentro do lote, para
No Brasil, em programas de construção de conjuntos cada três unidades habitacionais, o que pressupõe o acesso
de veículos e, consequentemente, a presença de vias para 99
habitacionais, é pouco usual a utilização intensiva de
unidades habitacionais atendidas apenas por vias exclusivas veículos. O mesmo requisito se repete-no Inciso V do
para pedestres. Tolerada largamente em projetos de Artigo 42o, com relação aos denominados conjuntos
recuperação de assentamentos precários, esta modalidade multifamiliares verticais. A conclusão possível é que tanto
de implantação é pouco mencionada na legislação os conjuntos multifamiliares horizontais quanto os verticais
paulistana. Nesta, fala-se com freqüência, isto sim, a devem ser atendidos por vias para veículos.
respeito de vias mistas para uso predominante de pedestres, Na legislação de Jacareí não se encontram menções
constituindo logradouros onde o acesso de veículos é mais claras a unidades habitacionais atendidas
apenas eventual, mas assegurado. exclusivamente por vias para pedestres, ainda que sejam
Uma menção isolada e indireta a lotes (portanto às previstas vias para pedestres na legislação do município.

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3.4.2 - Larguras de vias para pedestres ainda ser possível o cruzamento de duas pessoas cami-
Como foi visto anteriormente, a legislação de São nhando em direções opostas, não se verificando maiores
Paulo considera, no caso geral de empreendimentos conflitos de circulação. Como complementação vale
habitacionais de interesse social, a largura mínima de 4m, lembrar que 1,20 m é também largura usual em circulações
que pode ser reduzida, em situações especiais, aos mínimos coletivas (tais como corredores), em edifícios de
de 1,50m e 3m (no caso de lotes destinados à implantação apartamentos, atendendo a diversas unidades habitacionais.
de conjuntos horizontais com até 12 unidades Acredita-se que esta possibilidade de vias para pedestres
habitacionais). Nas de 3m, admite-se ainda que apenas com largura de 1,20m possa ser estendida, sem ônus aos
1,20m da largura total receba calçamento. Na legislação de usuários, a projetos para encostas, ressalvada a reserva de
Jacareí, por sua vez, exige-se a largura mínima de 6m nas espaços livres laterais, constituindo-se em vias não
vias para pedestres. confinadas.

Nos projetos desenvolvidos no âmbito da pesquisa Como argumento complementar, cabe destacar que
mencionada, visando minimizar movimentos de terra e vias mais estreitas, do ponto de vista geotécnico, conduzem
favorecer a estabilidade do terreno, ponderou-se ser a soluções mais seguras e econômicas, frente à demanda
aceitável reduzir significativamente as larguras de vias para mais discreta de movimentos de terra e, na maioria das
pedestres, nas quais adotou-se um mínimo de 1,20m de vezes, à dispensa de obras de contenção.
largura, principalmente nos casos em que tais vias fossem
“mais paralelas às curvas de nível”. Mesmo nas condições 3.4.3 - Número de vagas de estacionamento
mínimas preconizadas na legislação paulistana, o projeto frente ao número de unidades habitacionais
não seria aprovado. Tanto em São Paulo quanto em Jacareí utiliza-se, na
legislação, a proporção obrigatória de, no mínimo, uma
Nos projetos elaborados, porém, as vias de 1,20m
100 vaga de estacionamento para veículo para cada três unidades
de largura, para pedestres, situam-se de tal forma que os
habitacionais, em se tratando de implantações de edifícios
espaços laterais não apresentam elementos construídos, o
multifamiliares. Em loteamentos com lotes para unidades
que amplia o espaço efetivamente disponível para, por
unifamiliares, a expectativa tende a ser o da obtenção de
exemplo, permitir o transporte de volumes com excessos
uma vaga, no próprio lote, por unidade habitacional.
laterais, bem superiores aos 1,20m efetivamente disponíveis
no nível de piso. Acredita-se que o projeto de assentamentos como
Como argumentação técnica da utilização de apenas os tratados no presente trabalho deva estar submetido a
1,20m de largura no piso de circulações para pedestres, requisitos legais pouco mais permissivos, no tocante à
considera-se que tal largura permite que duas pessoas proporção de vagas de estacionamento a exigir.
caminhem juntas na mesma direção. Disto depreende-se As encostas são buscadas, via de regra, pela população

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mais pobre, cujo acesso à aquisição e manutenção de veículos - entre a soleira de qualquer unidade habitacional
é bastante limitada. Além disso, não se pode perder de vista atendida apenas por via para pedestres e uma via local,
a própria dinâmica da população em sua localização na coletora ou arterial; e
cidade. A médio e longo prazos, com a eventual aquisição - entre a soleira de qualquer unidade habitacional e a
de um veículo, é também possível que o morador de uma vaga de estacionamento vinculada.
habitação de interesse social em encosta, que não disponha Estas determinações, únicas referências claras
de vaga de estacionamento, venha a buscar nova situação de disponíveis na legislação, parecem traduzir o “espírito da
habitação. Lei”, que seria o de admitir, nas implantações, desníveis
Acredita-se, enfim, que o mecanismo de finan- máximos de 14m para percurso a pé.
ciamento habitacional para programas de interesse social Nos projetos elaborados, houve casos de unidades
em encostas, com transparência, deva prever a explicitação habitacionais, atendidas apenas por vias exclusivas para
das condições de disponibilidade limitada de vagas para pedestres, cujas soleiras se situavam em desnível de, pelo
estacionamento para os inscritos. menos, 20m com relação à via para veículos ou estacio-
Do ponto de vista técnico, porém, o que se pode namento mais próximos.
afirmar é que estacionamentos são efetivamente equi-
3.4.5 - Percurso horizontal máximo, em vias para
pamentos urbanos altamente demandatários de terrenos
pedestres
mais planos e, em encostas, tendem a comprometer áreas
de boa qualidade para a implantação de habitações, via de Comparando-se os projetos elaborados com os
regra exigindo, ainda, volumosos movimentos de terra para requisitos da legislação, no que diz respeito aos máximos
percursos horizontais necessários entre unidades
sua implantação e, não raro, custosas obras de contenção,
habitacionais e vias para veículos, através de vias exclusivas
redundando em relação custo-benefício altamente
para pedestres, observou-se que a tolerância da legislação
desfavorável. 101
paulistana (Decreto no 31.601), foi também “desrespeitada”.
3.4.4 - Desnível máximo a tolerar entre a soleira As distâncias máximas entre as soleiras das unidades
de uma unidade habitacional atendida habitacionais e vias locais adotadas nos projetos resultaram,
exclusivamente por via para pedestre e o último em alguns casos, superiores aos 118m.
ponto atendido por acesso a veículo
Acredita-se que a limitação a 50m, na legislação
Como foi visto, na legislação paulistana (Decreto n o
paulistana, pelo menos em ocupações para encostas, é
31.601), nos artigos nos 29, 37 e 48, referentes, respec- excessivamente restritiva. Ainda que, nos deslocamentos a
tivamente, a vias para pedestres, a conjuntos horizontais pé em encostas, o agravante dos desníveis se faça sentir,
multifamiliares e verticais multifamiliares, tolera-se um considera-se que um percurso horizontal por volta de 100m
desnível máximo de 14m: seja ainda bastante razoável.

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3.4.6 - Declividades e larguras de vias para passeios com um mínimo de 0,6m de largura.
veículos
Dentro do princípio de se minimizar, na medida do
Em apenas dois dos projetos desenvolvidos
possível, a largura de vias, acredita-se que as características
envolveram-se questões de vias para veículos, internas aos
adotadas nos projetos respondem plenamente aos requisitos
assentamentos e, num deles, foi mantido trecho de via
funcionais esperados. Como foi visto, quanto à largura de
previamente existente, com declividade em torno de 20%.
leito carroçável, foram atendidas as prescrições legais, ficando
Com respeito às declividades toleradas em vias locais as “transgressões” por conta da dotação e dimensionamento
para veículos, o decreto paulistano no 31.601 admite, no dos passeios. Considera-se ser altamente adequado dispô-
máximo, 18%, em trechos que não ultrapassem os 50 m los apenas nos trechos de logradouro onde se façam
de comprimento. Pela legislação de Jacareí, para a via em efetivamente necessários para a circulação de pedestres, ou
questão é permitido um máximo de 15% de declividade. seja, onde se localizem edificações ou acessos a estas.
Ao manter a declividade previamente identificada, a equipe
Se uma via, em um de seus lados, não dá acesso a
técnica reportou-se ao verificado em diversos logradouros,
edificações, não há razão para dotá-la de passeio, neste
até mesmo na região central de São Paulo, com declividades
lado. Além disso, acredita-se que, principalmente em
até mesmo superiores, como já se apontou. Acredita-se
encostas, admitir passeios com largura mínima de 1,20m
que tolerar, em trechos curtos, declividades de até 20% em
(ao invés dos 1,50m determinados pela legislação de
vias para veículos é expediente que não encontra
impedimento técnico de destaque, recomendando-se apenas Jacareí), é critério tecnicamente aceitável.
o uso de pavimentos que apresentem rugosidade adequada,
3.4.7 - Dimensionamento de dispositivos de
para evitar derrapagens.
manobra para veículos
Quanto às larguras de vias adotadas nos dois projetos, Os dispositivos para manobras (retorno) de veículos,
destaca-se inicialmente que, quanto ao leito carroçável exigido utilizados nos projetos responderam unicamente ao critério
102
pela legislação, no caso de São Paulo, demanda-se uma largura de possibilitar manobras de caminhões (de tamanhos usuais,
mínima de 6m em vias locais, sendo este o mesmo valor
com preocupação mais específica com os destinados ao
adotado na legislação de Jacareí. Tal valor foi adotado no
transporte de lixo). Este critério possibilitou o emprego de
projeto como fruto de discussões no âmbito da equipe,
conceitos diferentes do tradicional “balão de retorno” que,
buscando-se estritamente responder às condições de
pela legislação paulistana, se as vias forem consideradas
circulação de veículos a que estariam submetidas as vias
locais, devem apresentar raio mínimo de 11m, valor
envolvidas. Porém, na legislação de Jacareí, a largura total
simplesmente incompatível para a implantação em encostas
da via local, incluindo leito carroçável e passeios laterais,
sem movimentos de terra de grande monta.
não pode ser inferior a 9m. No caso de São Paulo, a largura
mínima, incluindo passeios, deve ser de 8m, admitindo-se Na legislação paulistana, prevê-se, porém, nas vias

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consideradas de uso misto (predominantemente destinadas técnico associado à habitação de interesse social, no âmbito
a pedestres, mas que possibilitem, também, o tráfego nacional, pois envolvem até mesmo algumas questões
eventual de veículos), balões de retorno com 6,m de raio polêmicas, principalmente no que diz respeito à tolerância
mínimo. Na legislação de Jacareí, por sua vez, requer-se o a desníveis e distâncias horizontais a serem percorridos a
raio mínimo de 9m nos balões de retorno, nas vias pé, em vias exclusivas para pedestres e escadarias.
consideradas como estritamente locais.
Os subsídios produzidos incluem quatro principais
Tendo em vista o grande volume de cortes e/ou de frentes de recomendações, abrangendo:
aterros que se associam à implantação de balões de retorno
a) a criação de legislação específica para empreen-
em encostas, acredita-se ser adequado substituí-los por
dimentos habitacionais de interesse social em encostas;
dispositivos alternativos que permitam o retorno, mesmo
b) o estabelecimento de mecanismos que assegurem a
com a necessidade de manobras.
pronta atuação do Poder Público Municipal sobre
assentamentos precários emergentes em encostas;
c) o estabelecimento de procedimentos e de critérios
3.5 - Diretrizes para técnicas para legislação
específica para empreendimentos urbanísticos e edilícios para a elaboração de projetos; e
habitacionais de pequeno porte em encostas d) o estabelecimento de mecanismos para o
monitoramento permanente das ocupações resultantes.
De maneira sintética, destacam-se agora os pontos
considerados como fundamentais para o que seria uma 3.5.1 - Criação de legislação específica para
legislação voltada para pequenas implantações habitacionais empreendimentos habitacionais de interesse
em encostas, aqui circunscritas a pequenas ocupações, de social em encostas
até 100 unidades habitacionais, congregando apenas aquilo Poucos são os municípios brasileiros que dispõem
que, ao longo dos trabalhos, foi se mostrando como de legislação relativa a edificações destinadas a 103
nevrálgico para a obtenção de ocupações mais seguras. As empreendimentos habitacionais de interesse social.
diretrizes sugeridas destinam-se a orientar futuramente as Predominam, isto sim, nos municípios, leis que tratam do
prefeituras de municípios com presença expressiva de problema na esfera do planejamento urbano, onde se
morros, na elaboração de critérios urbanísticos de legislação definem setores, zonas ou locais da área urbana ou
voltada à habitação de interesse social, em modalidade urbanizável onde podem ser situados tais empreendimentos.
especificamente voltada para encostas. Se a este fato agregarmos, ainda, a questão de situações
Como já foi dito anteriormente, algumas das particulares de terrenos, como é o caso de encostas, o
sugestões para revisão de critérios urbanísticos que serão descalçamento da legislação se torna ainda mais patente.
tratadas merecem ainda uma discussão mais ampla no meio A legislação tende a envolver ainda, corriquei-

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ramente, critérios para o parcelamento do solo urbano, acumulada no IPT no trato das questões relativas à
regulamentando os loteamentos que, como já se comentou ocupação de encostas, no Brasil, considera-se ainda que as
anteriormente, não constituem mecanismos, a princípio, formas condominiais de ocupação constituem
adequados à ocupação de encostas. Acredita-se que, para provavelmente a melhor opção para a ocupação de encostas,
os morros, as ocupações devem ser projetadas de forma pois, do ponto de vista da concepção, os projetos
integral, envolvendo simultaneamente a concepção urbanísticos e de edificações estarão caminhando juntos,
urbanística e as edificações. Assim, ainda que a questão de cobrindo todo o espectro das alterações de meio físico que
“loteamentos populares” em encostas não seja aqui tratada, se farão necessárias. Além disso, a caracterização de formas
cabe sugerir que nos eventuais projetos de loteamentos, condominiais de ocupação de encostas define respon-
nesta situação, seja obrigatoriamente atrelada, a cada lote, sabilidades, junto aos condôminos, possibilitando melhor
uma entre diversas tipologias habitacionais pensadas para perspectiva, na fase de uso dos assentamentos, da
todas as situações típicas do loteamento. Tais tipologias manutenção da infra-estrutura associada, assim como da
devem ainda responder, no mínimo, às condicionantes inibição da invasão e ocupação espontânea de trechos de
topográficas locais do terreno, de maneira a minimizar terrenos que tenham sido mantidos sem edificações, como
movimentos de terra em sua implantação e propiciando áreas verdes e de lazer. Inibe-se ainda, desta forma, a
condições adequadas de insolação. implementação de reformas individuais que envolvam
novas alterações de terreno, contribuindo-se mais uma vez
Sugere-se, inicialmente, que cada município
na manutenção da estabilidade geotécnica do assentamento
estabeleça legislação específica de habitação de interesse
como um todo.
social, abrangendo não só a questão da localização de
conjuntos habitacionais na área urbana, mas também, e Passa-se, doravante, a assumir a forma condominial
com ênfase, a questão de edificações. Tal legislação, ainda de agrupamento de unidades habitacionais, em encostas,
que possa se pautar por legislações de outros municípios como o centro das prescrições de critérios técnicos e de
104 (como o Decreto no 31.601 do município de São Paulo), orientação à legislação, criando-se aqui a classificação
deve primar pela melhor consideração das condicionantes de empreendimento que passa a ser denominada “Con-
locais de clima, relevo etc. Um dos principais traços domínios Habitacionais de Interesse Social em Encostas”,
negativos da política habitacional vigente no país é, tendo por sigla CHISE.
justamente, a uniformização inadequada das soluções.
3.5.2 - Estabelecimento de mecanismos que
No caso de municípios com a presença expressiva assegurem a pronta atuação do Poder Público
de morros, acredita-se ser necessária, porém, a criação de Municipal sobre assentamentos precários
legislação específica para balizar a ocupação. Como emergentes em encostas
resultado das reflexões levadas a cabo no desenvolvimento Como primeiro passo, na legislação municipal, cabe
do presente trabalho, agregando-se ainda toda a experiência a instauração de mecanismos legais que obriguem e

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orientem inequivocamente a municipalidade a uma atuação não constituam reservas de terras efetivamente atreladas a
imediata, no caso de ocupações espontâneas emergentes outras necessidades da comunidade local.
identificadas em encostas. Tal atuação pode ter dois
principais objetivos alternativos: 3.5.3 - Estabelecimento de procedimentos e
critérios para a elaboração de projetos
- barrar o desenvolvimento da ocupação, transferindo
Os Condomínios Habitacionais de Interesse Social
moradores para outros locais, ligados a programas
(CHISE), aqui entendidos como empreendimentos com
habitacionais do município; ou
até 100 unidades habitacionais destinados a trechos de
- barrar o desenvolvimento da ocupação, desenvolver
encostas com declividade situadas entre 20% e 60%, devem
projeto de ocupação circunscrita, e implantá-lo.
ser alvos de legislação diferenciada dos demais empreen-
Ainda que, no segundo objetivo, entraves legais de dimentos habitacionais de interesse social, abrangendo:
natureza fundiária possam gerar sérias obstruções ao - requisitos quanto à elaboração de diretrizes geotécnicas
balizamento da ocupação, observa-se que, no Brasil, a falta detalhadas para o balizamento ao projeto;
de orientação técnica das ocupações em encostas está na - fixação de procedimentos de projeto e de critérios
raiz do quadro caótico que hoje se manifesta nos nossos urbanísticos e edilícios específicos.
morros. Acredita-se que o fundamento constitucional do
princípio contido no Título II da Constituição da República Passa-se, doravante, a detalhar um pouco mais tais
(Dos Direitos e Garantias Fundamentais), no Capítulo I requisitos, fornecendo o espírito básico a imprimir à
legislação.
(Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos), Artigo
5o, Inciso XXV, onde se pode ler: 3.5.3.1 - Requisitos quanto à elaboração de diretrizes
geotécnicas detalhadas para o balizamento ao
“no caso de iminente perigo público, a autoridade competente projeto
poderá usar de propriedade particular, assegurada ao proprietário Consideram-se passíveis para a implantação de um
indenização ulterior, se houver dano.” 105
CHISE todo terreno com declividades predominantemente
Seguindo-se o espírito deste princípio, possibilitar- situadas entre 20% e 60% onde não haja processos de
se-ia ao Poder Público local assumir papel orientativo em meio físico capazes de contra-indicar a ocupação ou
ocupações espontâneas emergentes, pelo menos em impedimentos legais, de natureza fundiária ou ambiental,
terrenos particulares em encostas, para eliminar o “iminente incontornáveis para dar curso à ocupação.
perigo publico”. Também para terras públicas em encostas, Como recomendação de cunho geral, deve-se passar
e no mesmo princípio, a municipalidade deve criar a necessária imagem de que o projeto e construção de um
possibilidades de intervenção imediata, uma vez assentamento condominial em encosta deva ser fruto de
identificada alguma ocupação espontânea, possibilitando, uma interação interdisciplinar prolongada entre arquitetos,
se for o caso, a orientação à ocupação nos terrenos que geólogos e engenheiros civis da área de geotecnia. Devem

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ser utilizados métodos de levantamentos locais das - a definição de portes de edifícios adequados à área,
características de meio físico dos terrenos, já insinuados com fundações diretas;
no Capítulo 2, e que serão exemplificados, mais adiante, - a caracterização, com base em cálculo, utilizando-se
no Capítulo 5, através do método desenvolvido pelo IPT métodos consagrados, de condições limites para taludes
na pesquisa “Desenvolvimento de tipologias para de corte ou aterro sem estruturas de contenção (alturas
habitações de interesse social em encostas, sistematização e inclinações máximas para os taludes, sem necessidade
de procedimentos para sua concepção e subsídio à revisão de obras de contenção para sua estabilidade) e de
de critérios urbanísticos aplicáveis”. No Capítulo 5 trabalha- tratamentos de proteção a dispensar aos taludes,
se também a questão do método a utilizar para a elaboração envolvendo proteção superficial e drenagem interna,
do projeto propriamente dito. quando for o caso;
- a definição de obras preliminares e de limitações ao
Assim, os projetos serão precedidos de levanta-
projeto, no interior da área, com a indicação de trechos
mentos e análises específicas do terreno a ser ocupado,
do terreno com especial susceptibilidade a processos
que deverão constar do processo de aprovação, envolvendo
de meio físico, que possam conduzir a riscos (tais como
obrigatoriamente profissionais das áreas de geologia e de
rolamentos de matacões, quedas ou tombamentos de
geotecnia, além da arquitetura e urbanismo. Tais atividades
blocos de solo ou rocha, instabilização de taludes de
devem redundar em documento circunstanciado,
corte ou aterro previamente existentes, progressão de
descrevendo as capacidades e restrições do meio físico local
erosões etc.), destacando-se:
e de suas imediações frente às ações antrópicas, traduzidas
- para taludes de corte ou aterro previamente
em recomendações para projetos.
existentes, definir eventuais obras de retaludamento
A descrição do meio físico, em seus aspectos necessárias e estabelecer distâncias mínimas a
geológicos e geotécnicos, deve ser traduzida em dois observar entre os edifícios a implantar e a crista ou o
106 principais blocos de informações: pé dos taludes (originais ou já retaludados); indicação,
se for o caso, de obras de contenção para estabilização
- os resultados da observação da área através de
de taludes previamente existentes;
investigação geológico-geotécnica de superfície,
- para matacões em superfície, ou para paredões de
enfatizando a identificação e compreensão dos
rocha ou solo com risco de tombamento, definir
processos de meio físico presentes; e
remoções necessárias e/ou obras de estabilização
- a análise de amostras de solo colhidas através de aplicáveis;
sondagens, seguida da definição de suas características
- para erosões internas à área, definir eventuais obras
geotécnicas, através de métodos consagrados.
de recuperação e, num âmbito mais geral, prescrever
Quanto às recomendações para o projeto, o tratamentos superficiais para trechos de terreno que
documento deve apresentar, pelo menos: forem permanecer sem edificação;

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- para eventuais corpos de tálus em “colos” ou limites oficialmente, o privilégio de vias de circulação exclusivas
de encostas, definir as restrições locais à movimen- para pedestres, mesmo enquanto acessos exclusivos à
tação de terra (cortes e/ou aterros) e alertar quanto à maioria das habitações a construir no condomínio. Para
necessidade de eventuais obras que assegurem a balizar a questão de fixação de parâmetros para a
estabilidade; concepção, sugere-se:
- definição de diretrizes gerais de drenagem para a Na concepção urbanística (projeto de implantação)
área, considerando também a destinação das águas
- exigir, na implantação, a maior observância possível
captadas para terrenos ou áreas públicas lindeiras.
dos limites sugeridos na diretrizes geotécnicas para
Além dos requisitos já arrolados, os levantamentos taludes e para portes de edificação;
devem contemplar ainda o registro de observações sobre: - exigir, em soluções em desacordo com as recomen-
- a presença e estado de construções externas à área, dações, avaliações específicas das questões em desacor-
próximas a seus limites; do, com parecer circunstanciado de especialista da área
- descrição sucinta, do ponto de vista geotécnico, das de geotecnia, comprovando a adequação da solução
áreas externas ao terreno e limítrofes; adotada;
- descrição sucinta da infra-estrutura presente na área - admitir um desnível máximo de 20 a 25m entre a
ou em sua região, com destaque para: soleira de qualquer unidade habitacional e o ponto mais
próximo atendido por via para veículos;
- o sistema viário existente, externo e interno à área;
- admitir vias para circulação exclusiva de pedestres com
- a rede de abastecimento de água;
largura de, no mínimo, 1,20m livres e desimpedidos no
- a rede de esgotamento sanitário;
solo, observando-se ainda espaço aéreo desobstruído,
- a rede elétrica; sem edificação ou outros obstáculos, pelo menos em
- a rede pública de drenagem; e um dos lados, com largura não inferior a 1,50m; 107

- a descrição de vegetação presente na área, com eventual - admitir vias exclusivas para pedestres para acesso às
interesse para a preservação. edificações, com declividades longitudinais máximas de
3.5.3.2 - Fixação de critérios urbanísticos e edilícios 10%. Quando em declividades superiores, adotar
específicos escadarias, também com largura mínima de 1,20m e
Nos CHISE, deverão ser utilizados critérios espaço livre suplementar de 1,50m em pelo menos um
urbanísticos e de edificações específicos para encostas. No dos lados;
que diz respeito a critérios urbanísticos, sugere-se uma forte - admitir percursos horizontais máximos de 100m entre
flexibilização quanto à concepção do sistema de circulação a soleira de qualquer unidade habitacional e a via para
interna ao assentamento a projetar, admitindo-se, veículos mais próxima;

Legislação e ocupação de encostas


- admitir uma proporção de uma vaga de estacionamento com necessidade de manobras, de um caminhão de lixo;
de veículo para, no mínimo, cada quatro habitações; - exigir a previsão de pontos para a disposição
- em terrenos onde a proporção mencionada no item temporária de lixo (à espera da retirada, por caminhão)
anterior seja difícil de se obter, sem drásticos movimentos nas vias com acesso a veículos internas ao CHISE ou,
de terra, poderá se admitir menor proporção, desde que na ausência destas, junto à via pública que dá acesso à
haja a concordância da população a atender; área. Em tais pontos de deposição, poderão ser exigidos
- tolerar desníveis de até 20 ou 25m entre uma vaga de ainda abrigos específicos ou simples caçambas,
estacionamento e a unidade habitacional vinculada; dependendo da população a atender e da freqüência e
forma da coleta;
- exigir período de insolação mínimo de uma hora diária
nas aberturas de dormitórios das unidades habitacionais - exigir projeto detalhado de coleta e destinação de
agrupadas na época do ano correspondente ao inverno. esgotos. No caso de sistemas baseados em tratamento
O atendimento a este requisito deverá ser comprovado local e infiltração de efluentes abrandados, não admitir
através de simulação computacional da insolação, “em infiltrações nas proximidades das áreas a edificar,
maquete eletrônica” da implantação, ou através de outro dirigindo-as para trechos vagos, planos, e sem riscos de
deslizamentos, na própria área ou em suas
método de estudo de insolação consagrado;
circunvizinhanças. Dar-se-á preferência, sempre que
- admitir, no interior dos CHISE, vias para veículos
possível, ao tratamento de esgotos fora do terreno
com leito carroçável de, no mínimo, 6m de largura,
destinado à implantação das habitações. As redes de
privilegiando-se ainda vias sem saída dotadas com
coleta devem também receber projeto cuidadoso, de
dispositivos para retorno;
maneira a evitar, ao máximo, a possibilidade de
- tornar obrigatórios passeios, em vias para veículos, vazamentos;
apenas onde o uso exigir a circulação de pedestres, para
- exigir projeto completo de drenagem de águas pluviais
108 acesso direto ou indireto às habitações e demais
do empreendimento e da destinação das águas coletadas
edificações;
no condomínio para o entorno, que assegure a não
- admitir passeios com largura máxima de 1,20m; ocorrência de fluxos descontrolados de águas;
- admitir declividades longitudinais de até 20% em vias - exigir projetos básicos de eventuais obras de contenção
para veículos internas aos CHISE, em trechos com advindas do partido adotado na implantação, assim
comprimento inferior a 50m; como das demais eventuais obras geotécnicas
- admitir dispositivos de retorno, nas extremidades preliminares necessárias, envolvendo também os
fechadas de vias sem saída, internas aos CHISE, não movimentos de terra;
necessariamente de planta circular, mas atendendo - exigir os demais itens usualmente aplicáveis às
apenas ao requisito de possibilitar o retorno, mesmo implantações em geral (tais como a necessidade de

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


previsão e projeto de redes de abastecimento de água, o diversas tipologias ou, no mínimo, que a tipologia básica
tratamento a auferir aos pavimentos, nas circulações, etc.); apresente flexibilidade para adaptação a diversas faixas
- exigir, para a aprovação do projeto, a co-respon- de declividades;
sabilidade explícita do encarregado de assuntos de - admitir unidade sobrepostas, em porte correspondente
geotecnia, que deverá agregar ao processo um parecer a dois ou até três pavimentos (três unidades sobre-
circunstanciado sobre a segurança geotécnica obtida postas), utilizando-se, para acesso às unidades, escadas
com o projeto final desenvolvido, além de incluir sua comuns com larguras livres mínimas entre 80 e 90cm,
chancela nos projetos de arquitetura das edificações e desde que cada escada comum dê acesso, no máximo, a
de implantação desenvolvidos; e duas unidades habitacionais;
- exigir o acompanhamento periódico das obras de - admitir tipologias de unidades habitacionais que
implantação, por parte de todos os profissionais empreguem grupos de ambientes em cotas distintas
envolvidos na elaboração de diretrizes e de projetos, (escalonamento), com desníveis inferiores a um pé-direito,
registrando-se eventuais alterações em decisões de desde que sejam observados os seguintes critérios:
projeto necessárias por detalhes de natureza geotécnica - reduzir, ao mínimo possível, o número de níveis,
identificados apenas por ocasião da implantação. mantendo-os, de preferência, até o máximo de dois; e
Na concepção das edificações (projetos de edificações) - agrupar, num mesmo nível, ambientes mais afins,
- exigir tipologias de edificações efetivamente adaptadas ou seja, os que por motivos funcionais devam se situar
aos requisitos estabelecidos nas diretrizes geotécnicas num mesmo nível, e que são basicamente os seguintes:
para o projeto, de maneira a respeitar os limites para - sala, cozinha e área de serviço; e
cortes e aterros estabelecidos, buscando-se não só a - dormitórios e banheiro.
adaptação à topografia como também às capacidades e - admitir a geminação e a sobreposição total ou parcial
restrições dos solos presentes; de unidades térreas ou escalonadas, permitindo-se 109
- divulgar tipologias adequadas para encostas já edifícios que constituam blocos com até 12 unidades
disponíveis e fomentar a produção de novas tipologias habitacionais;
aplicáveis; - caso sejam adotadas unidades habitacionais ampliáveis,
- exigir tipologias de edifícios que, isoladamente, ou de as eventuais ampliações devem se basear em soluções
forma combinada com sua implantação no terreno e que evitem a necessidade de novos movimentos de terra,
com a definição das circulações condominiais, resultem caracterizando-se como simples sobreposições a áreas
em equilíbrio de cortes e aterros, evitando-se a já edificadas, observando-se ainda o porte final de
exportação ou importação de solos; edificação recomendado nas diretrizes geotécnicas;
- em terrenos com declividades mais variáveis, exigir - admitir o emprego de tipologias ampliáveis com base

Legislação e ocupação de encostas


na adoção inicial de pés-direitos duplos, de forma a de manual, produzida pelos autores dos projetos, onde
permitir a futura subdivisão vertical, com inclusão de constem os cuidados a observar na fase de uso do assen-
nova laje intermediária; tamento. No manual produzido deverão ser indicados os
- recomendar que paredes em contato com terra estejam cuidados de manutenção a cargo do condomínio, visando
preferencialmente localizadas em banheiros ou preservar as condições de segurança. Incluir-se-ão aí tanto
circulações privativas ou comuns, sejam elas escadas itens relativos à garantia de livre escoamento de águas
ou corredores; pluviais, através de canaletas e galerias permanentemente
- recomendar a utilização de caixões perdidos entre desobstruídas, assim como a manutenção adequada de
paredes de cômodos onde a umidade é indesejável eventuais proteções superficiais de taludes.
(dormitórios, por exemplo) e a terra, assegurando-se
A documentação a produzir deverá também alertar
melhor proteção contra a umidade;
os condôminos quanto à necessidade de comunicação
- exigir, para quaisquer paredes em contato com a terra,
imediata, à Prefeitura, de eventuais sintomas de
detalhes específicos de impermeabilização e drenagem
instabilização de terreno que venham a ocorrer, que deverão
da face em contato com terra;
estar arrolados e descritos de forma adequada no manual.
- exigir projeto básico de destinação de águas pluviais
Este deverá conter também a informação da obriga-
captadas nas coberturas das edificações, mostrando
toriedade da comunicação imediata da ocorrência de outros
ainda sua conexão com o sistema geral de drenagem
fatores que possam ameaçar a estabilidade do terreno, tais
do condomínio; e
como vazamentos em redes de água ou de esgotos e tenta-
- manter os demais requisitos usuais em projetos de
tivas de invasão e de construção clandestina, nas áreas con-
edificações, respeitando-se as especificações correntes
dominiais ou no entorno imediato do terreno.
quanto ao dimensionamento de ambientes e de
aberturas de iluminação e ventilação (para os quais se Uma vez implantada a obra, a prefeitura municipal,
110
sugerem os valores adotados atualmente no município por seu lado, deverá estabelecer um calendário rígido de
de São Paulo), além das características específicas a inspeções periódicas no condomínio, programando-se para
observar em materiais, componentes e sistemas constru- verificações da manutenção das condições de drenagem e
tivos em geral, de acordo com a normalização brasileira. da estabilidade geral do assentamento.

3.5.4 - Estabelecimento de mecanismos para o


monitoramento permanente das ocupações
condominiais em encostas
Os CHISE, quando entregues à população, deverão
ser acompanhados de documentação suplementar, na forma

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


Referências bibliográficas

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SH3. São Paulo: IPT, 1997 Relatório IPT n 35.110. v. II – Infraestrutura e Urbanismo. Versão preliminar.
INSTITUTO DE PESQUISAS TECNOLÓGICAS DO ESTADO DE SÃO PAULO. Subsídios técnicos para
111
elaboração de um plano de desenvolvimento sustentável para o município de Itapecerica da Serra. São Paulo:
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São Paulo: CET - Companhia de Engenharia de Tráfego 1983.

Legislação e ocupação de encostas


112

4.
Coleção Habitare - Habitação e Encostas
4.
Os resultados desastrosos da ocupação
de encostas no Brasil e seu enfrentamento

A
soma de uma duvidosa sensibilidade social com uma susceptibilidade particular dos terrenos

em encostas e, ainda, com uma cultura técnica que se traduz em leis e posturas pensadas para

um mundo plano, ideal, tem propiciado, no Brasil, uma ocupação de encostas que varia entre o

inadequado e o perigoso. No presente capítulo, mostram-se os resultados físicos e ambientais desastrosos

que se tem obtido na ocupação urbana de encostas, com as posturas atuais, e as maneiras com que vem

sendo enfrentadas suas manifestações mais danosas. Para tanto, tratar-se-á, inicialmente, de identificar os
113
principais processos formais e informais de produção do espaço urbano nas encostas, aqui limitados aos

espaços habitacionais destinados à população de baixa renda.

4.1 - Os espaços habitacionais produzidos e seus resultados

Numa escala decrescente de nível de formalidade, podem ser observadas quatro principais modalidades

de produção de espaços habitacionais associados à população de baixa renda:

Os resultados desastrosos da ocupação de encostas no Brasil e seu enfrentamento


Totalmente formal solo vigentes, tendo em vista uma possibilidade futura de
No caso de habitação voltada à população de baixa regularização. Neste sentido, loteamentos clandestinos
renda, a produção formal do espaço urbano é principalmente procuram hoje seguir, em aspectos de concepção
caracterizada por conjuntos habitacionais com parcelamentos geométrica, as mesmas exigências feitas aos loteamentos
e edificações projetados, analisados e aprovados através do regulares, formais. Eventuais diferenças físicas ficam mais
Poder Público, portanto, predominantemente de acordo com notáveis por menor dotação de infra-estrutura, nos
as legislações urbanas e posturas técnicas em vigor. Este clandestinos, o que possibilita maior chance de degradação
processo de produção abrange também os parcelamentos do solo pela ausência de pavimentação, de sistemas de
formais (loteamentos formais privados ou “lotes drenagem e de redes de esgotos.
urbanizados” produzidos através do Poder Público), seguidos
Totalmente informal
de edificações construídas segundo procedimentos também
Caracterizado por favelas, este processo de produção
formais (com aprovação de projetos etc.), por agentes
do espaço urbano diferencia-se dos loteamentos clan-
privados, de cunho empresarial ou individual. Num cômputo
destinos, no tocante ao parcelamento do solo, por não
geral, o parcelamento formal seguido de edificações formais,
seguir, necessariamente, diretrizes prévias de implantação.
no que diz respeito à população de baixa renda, é pouco
O parcelamento tende a decorrer, neste caso, da própria
expressivo.
dinâmica da comunidade, podendo assumir tanto
Formal no parcelamento configurações mais regulares quanto caóticas. A despeito
Corresponde aos parcelamentos de solo de se encontrar, no IBGE, para fins estatísticos, uma
(loteamentos) formais seguidos de construções informais. definição de favela baseada em características de
Neste caso, só o parcelamento é projetado, analisado e edificações, não reside aí a principal faceta deste tipo de
aprovado pelo Poder Público. As edificações, em geral, assentamento, pois neles podem ser encontradas tanto
são auto-construídas, sem procedimentos formais de análise habitações toscas (barracos de madeira, por exemplo), até
e aprovação de projetos. Este processo é bastante expressivo habitações de alvenaria com todos os acabamentos.
114
no Brasil e constitui, provavelmente, a variante mais
Para se agrupar os processos de produção do espaço
utilizada pela população de baixa renda.
urbano e relacioná-los com seus efeitos sobre encostas,
Informal organizada percebeu-se ser mais próprio considerar as conseqüências
Corresponde aos parcelamentos de solo mais típicas relacionadas aos diversos processos. Deste ponto
(loteamentos) informais (clandestinos) seguidos de de vista, não estaríamos incorrendo em erro se, para analisar
construções necessariamente informais, mesmo que a ocupação totalmente formal, nos restringíssemos ao estudo
projetadas e concebidas de acordo com códigos de dos conjuntos habitacionais promovidos pelo Poder Público,
edificações. Nesta situação há, normalmente, um projeto pois nesta situação cristaliza-se, a princípio, a observância a
de parcelamento de solo que, principalmente a partir da lei todos os preceitos legais aplicáveis, seja no tocante ao
Lehmann, tende a seguir os parâmetros de parcelamento do parcelamento do solo, seja no que diz respeito às edificações.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


Ainda para os propósitos específicos do presente - a utilização, nas unidades do tipo casa, de uma relação
trabalho, não estaríamos ainda incorrendo em erro ao casa-lote altamente convencional, com recuos de frente,
agrupar loteamentos formais e informais (clandestinos) de fundo e laterais, buscando-se sempre a caracterização
enquanto uma segunda categoria para análise, que é a do de um “terreno plano” convencional para a unidade
simples parcelamento do solo, onde a edificação, seja ela habitacional;
formal ou informal, vem a posteriori, predominantemente - uma resistência absoluta à utilização de formas
por auto-construção, no caso da população de baixa renda. alternativas de implantação, tais como condomínios
Denominar-se-á, assim, esta categoria simplesmente de escalonados ou unidades sobrepostas, enfim, de outras
loteamentos. Numa terceira categoria colocar-se-á a favela, formas de agrupamento de unidades não herdeiras da
caracterizada principalmente, como já se disse anteri- grelha hipodâmica; e
ormente, pela inexistência de uma concepção prévia e global - a busca de patamares amplos de terraplanagem, para
de parcelamento. maior facilidade de trabalho das máquinas, traduzindo
uma busca discutível de economia de escala na
4.1.1 - Conjuntos habitacionais e encostas terraplenagem.

Implantar um conjunto habitacional, em moldes Neste quadro, as conseqüências ambientais das


convencionais, numa área de topografia acidentada, tem implantações tendem a ser altamente negativas, com efeitos
significado proceder volumosos movimentos de terra, em sensíveis, seja na própria área de implantação e em seus
função de alguns vícios bastante arraigados no meio técnico arredores, seja na cidade como um todo. O assoreamento
dos órgãos habitacionais, ao qual pode-se atribuir a maior de cursos d’água decorrente dos extensos movimentos de
parte das características da produção neste sub-setor. Dentre terra pode se fazer sentir mesmo a longas distâncias,
os referidos vícios destacam-se: favorecendo inundações.
- a adoção de um elenco reduzido de tipologias de 4.1.1.1 - A rígida padronização de edifícios
projetos de edifícios, pouco adaptáveis a terrenos de A partir da década de 70, o Estado praticamente só 115
topografia mais movimentada; trabalhou, em seus conjuntos, com duas principais
- uma diretriz quase absoluta de padronização na tipologias de edifícios: casas térreas (isoladas ou geminadas)
construção dos edifícios, que veta até mesmo e prédios de até quatro ou cinco pavimentos, no geral
adaptações, no escasso repertório de tipologias, capazes compostos por duas “lâminas” intermediadas por caixa de
de dispensar maiores movimentos de terra em terrenos escadas. Mesmo que se verifiquem raras exceções, em
acidentados; alguns projetos isolados e em projetos mais recentes, o
- a utilização de projetos urbanísticos bastante mesmo padrão se espalhou de norte a sul do país, em
convencionais, tendentes à grelha hipodâmica, terrenos das mais diversas características topográficas. Isto
compreendendo vias exageradamente largas, que são, demandou amiúde que, em morros, literalmente se
no mais das vezes, incompatíveis com encostas; construíssem terrenos capazes de receber projetos tão limitados.

Os resultados desastrosos da ocupação de encostas no Brasil e seu enfrentamento


A excessiva padronização, utilizada principalmente A Tabela 4.1, a seguir, apresenta a localização, os
em nome de uma suposta economia de escala, perdura até tipos e tipologias de edifícios empregados e o número de
mesmo no período mais recente, quando a produção unidades construídas nos conjuntos estudados pelo IPT.
habitacional de iniciativa do Estado, no Brasil, salvo raras
Note-se, na Tabela 4.1, inicialmente, que 20 dos
exceções (como no caso do Estado e do Município de São
conjuntos apresentam mais que 300 unidades. Destes 20,
Paulo), manteve-se em níveis de pouca expressão. Continua-
oito apresentam 500 ou mais unidades habitacionais,
se assim, mesmo em pequenos novos conjuntos, a construir
incluindo um conjunto com 1.102 unidades, em São José
praticamente os mesmos prédios e as mesmas casas térreas
do Rio Preto, e outro com 903, em Valinhos. Ainda na
isoladas ou geminadas, utilizados, aos milhares, na década
Tabela 4.1, chama a atenção a construção de alguns
de 70 (por exemplo, na construção de Itaquera I, II e III,
conjuntos com menos de 100 unidades (como Cruzeiro,
em São Paulo). Será que a escala atual de produção consegue
ainda auferir economias com uma padronização tão rígida Ibirarema, Oscar Bressane e Penápolis).
de projetos? Ainda que em 100 unidades se possa usufruir alguma
Vale a pena, neste sentido, fazer uma breve análise economia de escala através da padronização rígida de
de programa habitacional promovido pelo setor público, projeto, o que se poderia dizer do caso de Oscar Bressane,
na década de 90. No Estado de São Paulo, até 1992, através que contempla apenas 48 unidades, do tipo TI13A (que
da CDHU - Companhia de Desenvolvimento Habitacional serão mais adiante estudadas)?
e Urbano do Estado de São Paulo). Construíram-se 78.000 É também difícil aceitar que a tipologia TI13A
unidades habitacionais em 376 empreendimentos de ofereça economias de escala em situações tão diferentes
diversos portes, localizados em inúmeros municípios quanto as 48 casas de Oscar Bressane e as 1.102 casas de
paulistas, no programa denominado SH-3. O IPT (Instituto São José do Rio Preto. Neste quadro poderíamos,
de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo) realizou ironicamente, concluir que em Oscar Bressane construiu-
um trabalho para a CDHU visando avaliar o desempenho se um pequeno grande conjunto que, por motivos de economia
116
de 50 destes conjuntos, que compreendem 14.174 unidades de escala reproduz, em 48 casas, um mesmo modelo
habitacionais. repetido aos milhares, ao longo do Estado. O número de
Nos 50 conjuntos estudados pelo IPT, na pesquisa unidades TI13A presente, apenas nos 50 conjuntos
denominada Retroavaliação do Programa SH-3, mais uma vez estudados pelo IPT, é de 10.278. No que diz respeito às
foram encontradas as mesmas tipologias básicas já tipologias específicas empregadas, a aparente variedade
mencionadas - casas térreas isoladas ou geminadas em lotes sugerida pela Tabela 4.1 traduz, na realidade, três tipos
planos, e edifícios compostos por “lâminas”, com quatro básicos de construções.
pavimentos, intermediadas por caixas de escadas - nas mais
diversas situações geográficas, geológicas, topográficas,
culturais e de clima do estado.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


117

Tabela 4.1. Conjuntos da CDHU estudados pelo IPT

Os resultados desastrosos da ocupação de encostas no Brasil e seu enfrentamento


As tipologias TI13A e 07/88 correspondem a casas tipos denominados D.A. 24 e D.A. 25 na figura, a flexibi-
térreas isoladas, com formas e dimensões similares, cujo lidade na implantação, em terrenos de topografia mais aci-
projeto está calcado em lotes planos, com áreas mínimas, no dentada, é exígua.
caso das TI13A, de 172m2, com frente de, no mínimo, 9,4m Percebe-se ainda que seria perfeitamente possível
e profundidade mínima de 18, 3m. Ambas utilizam ainda utilizar maiores desníveis entre lâminas, aumentando-se o
recuos laterais, de frente e de fundo. Trata-se de unidades número de lances de escadas, melhorando-se, em muito, a
ampliáveis, com um dormitório em fase inicial e três na final. capacidade de adaptação às condicionantes de terrenos mais
A Figura 4.1 apresenta as características das unidades do inclinados. No entanto, para não se utilizar obras de
tipo TI13A, de acordo com a CDHU (1993)1 (s/p). contenção, o recurso nunca é utilizado.
A tipologia TG13 A, também presente na tabela, Os grandes desníveis são simplesmente remetidos
corresponde a um par de unidades térreas geminadas, e é para as divisas. Em encostas, para a criação dos terrenos
também destinada a lotes planos, com área de 142m2 para planos necessários à implantação das tipologias atualmente
duas unidades (71m2 para cada uma). A frente mínima em uso nos programas habitacionais conduzidos pelo
utilizada para cada par de unidades é de 14,3m, o que acaba Estado, e visando evitar a necessidade de obras de
igualmente exigindo, em encostas, terraplenos para a contenção em espaços públicos, transferem-se desníveis,
obtenção do lote plano necessário. A Figura 4.2 apresenta com freqüência, para divisas de fundos ou laterais de lotes.
as características das unidades TG13A, de acordo com a
Note-se que o Estado não constrói, em seus progra-
CDHU (1993)2, s/p.
mas habitacionais, muros de divisa entre lotes, sejam eles
As demais tipologias mencionadas na Tabela 4.1 destinados a unidades habitacionais isoladas ou gemina-
referem-se a prédios com quatro pavimentos, com pequenas das, sejam a prédios com vários pavimentos ou condomí-
variações de planta na unidade tipo (que contém sempre nios de prédios.
dois dormitórios). As variações utilizadas dizem mais
A construção de muros de divisa fica, assim, por
respeito à forma de agrupamento horizontal de lâminas. A
118 conta e risco dos moradores. Em terrenos acidentados isto
Figura 4.3 apresenta uma tipologia bastante típica de
tem gerado até mesmo situações de risco. Em locais onde
edifício com 16 apartamentos utilizada pela CDHU.
deveriam ser construídos muros com características de
Na Figura 4.4, através de vistas laterais, percebe-se obras de contenção, nada é construído, ou surgem, muitas
que são efetivamente escassas as possibilidades de adap- vezes, frágeis muros expostos à ruptura e ao desabamento,
tação dos prédios a diferentes topografias. Note-se que, seja pela incapacidade financeira dos moradores em cons-
apesar da possibilidade da obtenção de desníveis de meio truir uma obra de contenção, seja por simples desconhe-
pé-direito entre lâminas, permitida pelo uso de escadas dos cimento técnico.

1
CDHU (1993). Casa Própria para o trabalhador.
2
CDHU (1993). Casa Própria para o trabalhador.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


119

Figura 4.1. Tipologia TI13A, intensamente utilizada pela CDHU. Fonte: CDHU (1993), s/p.

Os resultados desastrosos da ocupação de encostas no Brasil e seu enfrentamento


120

Figura 4.2. Tipologia TG13A, utilizada pela CDHU. Fonte: CDHU (1993), s/p.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


121

Figura 4.3. Tipologia de edifício com 16 apartamentos utilizada pela CDHU (VI22F). Fonte: CDHU.(1993)3 , s/p.

3
CDHU (1993). Casa Própria para o trabalhador.

Os resultados desastrosos da ocupação de encostas no Brasil e seu enfrentamento


122

Figura 4.4. Vistas laterais de prédios de apartamentos típicos produzidos pela CDHU, mostrando lâminas e escadas, Fonte: CDHU.(1993)4, s/p.

4
Idem.Ibidem.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


As Fotos 4.1, 4.2 e 4.3, ilustram esta situação. Na menos desejáveis) de contenção, implantadas por conta dos
Foto 4.1, destaca-se linha de divisas de fundos entre lotes condôminos. A área em questão está sendo usada,
de habitações unifamiliares, com desníveis que superam coletivamente, para a secagem de roupas.
os 3m. Na foto 4.2, mostra-se um detalhe onde pode ser
observado um trecho de calçamento periférico (da unidade
a montante), parcialmente em balanço, em evidente situação
de risco, ocasionado pela ausência de um muro de
contenção.
Ambas as fotos se referem a conjunto construído
pela CDHU em Monte Aprazível – SP, vistoriado pelo
IPT na Pesquisa Retroavaliação do Programa SH-3.

Foto 4.2. Detalhe mostrando desnível e calçamento periférico


(da unidade a montante) “em balanço”, no conjunto de Monte
Aprazível. Fonte: Arquivo IPT.

123

Foto 4.1. Linha de divisa de fundos de lotes em conjunto de


casas da CDHU em Monte Aprazível - S.P. Fonte : Arquivo IPT

A Foto 4.3 apresenta uma vista da região dos fundos


de um condomínio de conjunto habitacional da CDHU
Foto 4.3. Fundo de condomínio de prédios (conjunto
constituído por prédios, em Itapetininga (SP). Observe-se, habitacional da CDHU em Itapeteninga – SP) , onde se vê
pronunciado desnível na divisa e obras implantadas pelos
nesta foto, que o talude (que constitui a divisa de fundos condôminos. Fonte: Arquivo IPT.
do condomínio) recebeu obras com características (pelo

Os resultados desastrosos da ocupação de encostas no Brasil e seu enfrentamento


4.1.1.2 - Os viários dos conjuntos: principais). No que diz respeito a vias secundárias, somente
superdimensionamento e baixa utilização efetiva um conjunto apresentou movimentação considerada média.
O extenso tratamento dado no Capítulo 3 à questão Em todos os demais casos, seja em vias principais, seja em
do dimensionamento de vias em empreendimentos vias secundárias, a movimentação mostrou-se baixa.
habitacionais aponta para o fato de que ocupações
Se considerarmos que, nos conjuntos estudados,
adequadas, em encostas, e vias com as larguras e
entre vias principais e secundárias, encontram-se larguras
declividades preconizadas na legislação estão quase sempre
em rota de colisão. Isto fica também evidenciado nos de leitos carroçáveis variando, aproximadamente, de 6 a
conjuntos habitacionais produzidos pelo Estado, que 22m, e que a maioria das vias é asfaltada (ou será asfaltada,
seguem rigorosamente a legislação. Assim, à demanda de a curto ou médio prazos), cabe, inicialmente, considerar
grandes terraplenos capazes de comportar o reduzido leque que ocorre um desbalanceamento nítido entre o volume
de opções de tipologias de edifícios em uso, agregam-se necessário de investimentos públicos em pavimentação e
em geral projetos urbanísticos bastante convencionais, manutenção de leitos carroçáveis e seu efetivo uso para o
tendentes à grelha hipodâmica, quase sempre com ruas trânsito de veículos.
excessivamente largas e greides, no geral, abaixo de 12%. Em terrenos acidentados, como já foi visto
Na pesquisa Retroavaliação do Programa SH-3, já anteriormente, implantar estas mesmas vias significa ainda
mencionada anteriormente, pôde-se obter uma noção inicial proceder grandes terraplenos, agravando custos, gerando
da contradição constituída, por um lado, pelo peso dado desníveis inconvenientes e favorecendo instabilizações.
ao dimensionamento de vias em conjuntos habitacionais À largura generosa das vias agregam-se, a posteriori,
e, por outro, pela sua utilização efetiva. Na referida pesquisa, contraditoriamente, obstáculos (lombadas) para a redução
investigou-se preliminarmente o nível de utilização dos de velocidade, o que mais uma vez leva a crer que há
sistemas viários nos conjuntos para uma primeira necessidade clara de se rever o que se deseja, efetivamente,
aproximação. Para tanto, estabeleceram-se apenas dois nas vias de circulação de veículos em conjuntos
níveis gerais de hierarquia de vias – principais e secundárias habitacionais.
124
-, e consideraram-se três classificações de movimentação
Foi também constatada como bastante baixa a
– intensa, média e baixa.
quantidade de veículos estacionados em vias dos conjuntos
Os resultados obtidos nesta primeira aproximação da CDHU, tanto nas principais quanto nas secundárias.
denotaram um uso extremamente baixo dos viários Em nenhum caso se constatou uma quantidade alta de
implantados. veículos estacionados. Em quatro casos, em vias principais,
No que diz respeito ao trânsito de veículos, somente e em um caso, em via secundária, verificou-se uma
para Franca e Jardim São Luiz - Campo Limpo, em São quantidade média de veículos estacionados e, em todos os
Paulo - SP -, considerou-se intensa a movimentação, mas demais, baixa. Um dos fatores importantes no dimen-
só no tocante a vias principais. Em apenas cinco conjuntos, sionamento de vias, qual seja, o da possibilidade de se
a movimentação foi considerada média (também em vias estacionar veículos permitindo ainda a fluência do tráfego,

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


tem, portanto, condicionantes próprias nos conjuntos viários e seu efetivo uso. Tais descompassos abrangem tanto
habitacionais, merecendo um enfoque diferenciado. aspectos de proporção entre investimentos e utilidade
quanto aspectos de adequação funcional, como foi
A exemplo do que se verificou para veículos, a
comentado anteriormente.
movimentação de pedestres também foi constatada como
baixa. Em vias principais, em apenas um caso a Levando-se em conta a tendência generalizada de
movimentação de pedestres foi considerada intensa e, em asfaltamento das vias, de colocação de guias e sarjetas e,
18, média. Nas vias secundárias, foi considerada intensa por parte dos moradores, de pavimentação dos passeios,
em apenas um caso (Severínea), e média em 7. Em todos percebe-se ainda que elevados investimentos acabam se
os demais casos, seja em vias principais ou secundárias, a realizando em espaços de circulação, para um uso pouco
circulação de pedestres mostrou-se bastante discreta. intenso e para resultados duvidosos. Além disso, com a
proliferação de pavimentos, vai se minimizando a
A rua secundária típica dos conjuntos habitacionais
possibilidade de infiltração local de águas pluviais. Há, em
da CDHU constituídos por casas possui passeios
médio prazo, a tendência de impermeabilização quase que
relativamente estreitos (predominantemente entre 1,5 e 2m).
total do viário, o que favorece a concentração, cada vez
Após a colocação de postes e árvores, assim como maior, de águas pluviais em poucos pontos de lançamento,
de eventuais lixeiras, o espaço efetivo de circulação para o que se manifesta como importante mecanismo de
pedestres fica bastante reduzido ou impossível de se utilizar, degradação do entorno, e sobrecarrega, de forma
o que faz com que os pedestres circulem, predomi- desnecessária, as redes de drenagem.
nantemente, pelos leitos carroçáveis. Isto ocorre mesmo
Outros dados obtidos na pesquisa Retroavaliação do
quando os passeios estão completamente pavimentados.
Programa SH-3 indicam ainda que, em cerca de um terço dos
Observou-se que, muitas vezes, mesmo quando conjuntos estudados, os moradores não possuem veículos e
surge um carro em movimento, o pedestre, ainda que se que, nos conjuntos restantes, somente cerca de um terço
aproxime do passeio, raras vezes vai para a calçada. Os das famílias de moradores os possuem. Cabe comentar que
passeios perdem assim a função de circulação de pedestres áreas para estacionamentos são também altamente 125
e passam a constituir, na prática, uma faixa exclusivamente demandatárias de movimentos de terra em terrenos mais
destinada aos postes, à arborização e a eventuais lixeiras. acidentados. Usualmente, em conjuntos habitacionais, utiliza-
Nestas circunstâncias, cria-se para a circulação uma única se um número de vagas equivalente à metade do número de
“calha” que acumula as funções de circulação de pedestres unidades habitacionais. Percebe-se que este número, na
e de veículos, que se consubstancia no leito carroçável. maioria dos casos, poderia ser baixado para um terço, sem
Nas vias secundárias, os passeios, na prática, não se prejuízos mais notáveis na maioria dos casos.
associam à circulação.
Destaca-se, finalmente, que em nenhum dos
As constatações concernentes ao uso das vias dos conjuntos estudados na pesquisa Retroavaliação do Programa
conjuntos da CDHU permitem afirmar que há um SH-3 foram utilizadas unidades habitacionais (ou prédios)
descompasso efetivo entre a concepção hoje adotada nos com acesso exclusivo para pedestres. Os conjuntos

Os resultados desastrosos da ocupação de encostas no Brasil e seu enfrentamento


constituem-se assim em verdadeiros impérios de veículos do sistema viário e de recuos amplos entre edificações e
inexistentes. limites de lotes. À esquerda e abaixo da mesma foto, vê-se
também um trecho de talude já instabilizado.
4.1.1.3 - Conjuntos habitacionais, encostas e meio
ambiente
As minguadas tipologias de edifícios e os sistemas
viários amplos e convencionais, nos programas do Estado,
tornam necessárias impressionantes terraplenagens. Estas
tendem a estar subdivididas em duas etapas básicas. Numa
primeira etapa, transformam-se os terrenos íngremes em
terrenos com declividade mais suave, com grandes
movimentos de terra, que remetem os grandes desníveis,
na medida do possível, para a periferia do conjunto ou
para transições entre partes do mesmo conjunto (como,
por exemplo, divisas de fundos entre lotes); isto fornece as Foto 4.4. Vista de conjunto de sobrados da CDHU em Santo
André –(SP), em área de topografia acidentada.
condições para a implantação dos sistemas viários Fonte: CDHU(1993), s/p. Casa própria para o trabalhador.
convencionais, tendentes à grelha hipodâmica, nos greides
considerados toleráveis pela legislação. Numa segunda
etapa, criam-se os patamares destinados a conter as Durante o período de construção, e na fase inicial
edificações, sejam elas casas térreas ou sobrados isolados de uso, as superfícies de solos expostos a erosões tendem
ou geminados, sejam prédios. A Foto 4.4, a seguir, ilustra a ser de grande porte nos conjuntos, isto sem contar taludes
a afirmação, apresentando um conjunto constituído por não tratados, sujeitos a instabilizações, às vezes com
tipologia mais recentemente adotada pela CDHU, de conseqüências mais graves.
sobrados geminados. Exemplo tradicional de conjunto altamente
126 Nota-se, na Foto 4.4, em segundo plano, um grande problemático, neste sentido, é o de Santa Etelvina (zona
talude (resultante da terraplenagem extensa para “diminuir” leste do município de São Paulo, nas proximidades do
a declividade do terreno), que divide duas porções do município de Ferraz de Vasconcelos), implantado através
conjunto e este de um bairro vizinho previamente existente. da COHAB-SP (Companhia Metropolitana de Habitação
Em primeiro plano, destaca-se a construção de pequenos de São Paulo), no início da década de 80. A Foto 4.5
platôs, onde se assentam as casas (um “terreno plano” para apresenta uma visão geral de um dos quinhões mais
cada par de sobrados). problemáticos do conjunto.
Observa-se ainda, na foto, uma presença marcante Com relação a Santa Etelvina, afirma o IPT (1983)5:

5
IPT (1983). Relatório de Visita (Santa Etelvina e Itapevi).

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


Vale a pena apresentar, ainda segundo o IPT (1983)6,
pp. 05-06, os principais problemas então verificados no
conjunto de Santa Etelvina:
- leitos das ruas totalmente erodidos;
- ruas com maior declividade longitudinal transformadas
em verdadeiras boçorocas (algumas com mais de 20m
de profundidade);
- aterros totalmente destruídos;
- cortes erodidos e em processo de ruptura;
- adutoras destruídas;
- sistema de captação de águas pluviais totalmente
destruído;
- edificações comprometidas;
- “casas-embrião” em processo de ruptura;
- acessos às edificações totalmente destruídos;
Foto 4.5. Vista do conjunto habitacional Santa Etelvina, da
COHAB-SP em fase final de implantação, em 1983. Fonte: IPT (s/
- moradias intensamente assoreadas;
d). (s/p). – Folder de divulgação da Divisão de Engenharia Civil. - avenidas “soterradas” por material carreado dos cortes
e dos aterros;
- assoreamento maciço e destruição das drenagens
“A terraplenagem necessária à implantação do projeto ultrapassou,
naturais da área.
segundo informações obtidas no local, os 5.000.000m3.”
Por curiosidade, vale ainda a pena mencionar que o
Em 1983, parcialmente concluído, o mencionado
volume de terra movimentado para a construção do
conjunto sofreu intensas instabilizações de terreno, tendo 127
conjunto de Santa Etelvina equivale a, aproximadamente,
em vista a ação de chuvas sobre solos expostos. Nos monu-
21% do que foi necessário para a implantação da usina
mentais movimentos de terra executados, com a retirada
hidrelétrica de Itaipu, considerada a maior hidrelétrica do
do solo superficial, expuseram-se solos de alteração bastante
mundo. Segundo a Itaipu Binacional (1997)7, a implantação
frágeis com relação à erosão e, além disso, verificou-se até
da usina exigiu 23,4 milhões de m3 de escavação em terra.
mesmo a execução de aterros sobre vegetação de porte
arbóreo em determinados trechos da gleba, o que tende a Considerando que se previa, para o conjunto de Santa
ser comprometedor do ponto de vista geotécnico. Etelvina, a construção de 40.000 unidades habitacionais,

6
IPT (1983). Relatório de Visita (Santa Etelvina e Itapevi).
7
Itaipu Binacional (1997). Itaipu Binacional.

Os resultados desastrosos da ocupação de encostas no Brasil e seu enfrentamento


1992, porém sem uma desejável continuidade.

4.1.2 - Loteamentos, auto-construção e encostas


Como já se comentou no Capítulo 1, os loteamentos
populares surgem principalmente a partir da década de 40
nas grandes cidades brasileiras. Em período posterior,
espalham-se pelas periferias, de forma ainda pouco
adensada, o que ocorre na década de 60.
Foto 4.6. Santa Etelvina: Vista de “cruzamento de duas ruas”
após o processo erosivo que praticamente destruiu o conjunto. Na década de 70, os loteamentos populares passam a
Fonte: IPT (1983), Relatório de Visita (Santa Etelvina e Itapevi).
Anexo fotográfico, foto 10.
adensar-se e as áreas ainda remanescentes, muitas vezes
situadas em encostas, passam também a ser loteadas e
verifica-se ainda que, para cada unidade habitacional, comercializadas com preços convidativos, atraindo
movimentou-se o equivalente a 125m3 de terra. justamente parcelas de população de menor poder aquisitivo,
Nos conjuntos mais recentes, como os 50 estudados o que traduz incapacidade de contratar projetos ou assistência
pelo IPT, verificou-se que este índice não tem melhorado. de especialistas, ou de executar, sem grandes sacrifícios, obras
No que pese o fato de se dispor de poucas informações de contenção, ou ainda de proceder movimentos de terra
sobre movimentos de terra (apenas para 16 dos 50 em condições seguras, e assim por diante.
conjuntos estudados), nota-se que perduram, em vários A construção das casas, além disso, se dá em terrenos
casos, as extensas terraplenagens, constatando-se que pelo que já foram alterados, no mais das vezes, de forma
menos em sete dos 16 casos, o volume de terra inadequada, para a implantação do próprio loteamento.
movimentado, por unidade habitacional, era até superior Assim, nos loteamentos populares, a ocupação de encostas
ao verificado para Santa Etelvina, mesmo em terrenos com passa a se dar também de forma totalmente inadequada.
declividade original por volta dos 12%.
128 Como já se apontou anteriormente, para o enfoque
Como pôde ser visto até o momento, é patente a específico do presente trabalho, um loteamento irregular
inadequação do modelo de ocupação preconizado pelo ou clandestino pouco se diferencia de um loteamento regular:
Estado, em conjuntos habitacionais, quando se trata da ambos, de alguma forma, contam com alguma participação
ocupação de terrenos acidentados. de técnicos na sua concepção e implantação e acabam, no
No que pesem tentativas mais recentes de melhoria geral, compartilhando os mesmos tipos de inadequações.
dos padrões de implantação, os órgãos habitacionais Não serão também diferenciados, nesta parte do estudo.
continuam, de maneira geral, incorrendo nos mesmos vícios O escasso repertório de desenho urbano adotado
e erros consolidados pelo uso, desde a década de 70. São em loteamentos tende também, na medida do possível, a
efetivamente poucas as inovações e estas ocorreram, com reproduzir a grelha hipodâmica, só abandonada nos trechos
maior concentração, na administração paulistana 1989- de absoluta inviabilidade de implantação.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


No caso de loteamentos, vias principais, justamente
as mais largas, são mais freqüentemente dispostas, à meia
encosta, em direções próximas às das curvas de nível,
procurando manter baixos greides.
Isto resulta em movimentos de terra pronunciados
e determina, nas faixas lindeiras, lotes com grandes
desníveis em relação às vias, com testadas que são, na
realidade, taludes de corte ou de aterro, às vezes com vários
metros de altura, como ilustra a Foto 4.7.
É comum encontrar lotes nestas condições em
diversas cidades brasileiras, às vezes com desníveis até mesmo
superiores a 10m. Procurando atenuar os violentos desníveis Foto 4.7. Via de baixa declividade à meia encosta, gerando
lotes lindeiros que são, na realidade, simples taludes íngremes.
entre o viário e os lotes, utiliza-se ainda o denominado Loteamento Jardim Damasceno, São Paulo - SP. Fonte: arquivo
“desbaste de quadra” (já mencionado no Capítulo 2), através IPT (Foto de 1982).
de novos cortes e movimentos de terra, que acabam deixando
expostas camadas de solo menos resistentes, dando origem
a intensos processos erosivos e a outras instabilizações mais
perigosas de terreno, como mostra a Foto 4.8.
Às mutilações geradas para implantar o loteamento,
seguem-se as destinadas a implantar casas: predominan-
temente construídas por auto-construção, no mais das vezes
surgem sem projeto, pelo menos do ponto de vista formal.
É ilustrativa, neste sentido a seguinte afirmativa da
129
Prefeitura do Município de São Paulo (1991)8 , p. 8:
“Do total de imóveis da cidade, 67% estão em situação ilegal.
Todas as edificações em loteamentos irregulares são também ilegais.
Isto significa que mais de metade da população, particularmente
as camadas mais pobres, estão sujeitas a multas e penalizações.”
Na autoconstrução as casas tendem a reproduzir,
na medida do possível, tipologias destinadas a terrenos
Foto 4.8. Erosão em loteamento devido à execução de
planos. A própria Prefeitura do Município de São Paulo, “desbaste de quadra” para atenuação de desnível entre lotes e
vias. Desertificação urbana? Loteamento Portal D’Oeste, em São
por extenso período, forneceu à população de baixa renda
Paulo (SP). Fonte: arquivo IPT (foto de 1982).
plantas pré-aprovadas, destinadas claramente a terrenos

Os resultados desastrosos da ocupação de encostas no Brasil e seu enfrentamento


planos, bastante similares às casas térreas isoladas utilizadas damente implantadas, pela indisponibilidade do conhe-
nos programas habitacionais do Estado. Muitas destas casas cimento técnico necessário.
foram construídas em terrenos íngremes, o que só se O processo de ocupação e de consolidação de
possibilita através de grandes movimentos de terra. loteamentos populares se caracteriza, ainda, por uma certa
Em loteamentos mais antigos, em encostas, podem lentidão. Lotes já transformados drasticamente e ocupados
ainda hoje ser observadas casas assentadas sobre estruturas convivem com terrenos vagos e desprotegidos, dando
de concreto, que, intermediando o primeiro piso e o terreno, espaço a taludes, no geral desprotegidos, e a “redes” impre-
permitiam soluções menos demandatárias de movimentos vistas de drenagem, potencializando mais uma vez erosões
de terra. Construía-se um tabuleiro e, sobre este, apoiava-se e deslizamentos.
uma casa térrea ou um sobrado. A pauperização crescente A Foto 4.9 ilustra a situação mencionada, destacando
da população praticamente afastou a possibilidade do uso a ocupação parcial e a presença de taludes desprotegidos.
desta solução: hoje é inviável, para as faixas de população
de renda baixa, arcar com o custo do volume do concreto Percebe-se ainda, observando-se a Foto 4.9, que os
lados maiores dos lotes são dispostos perpendicularmente
necessário. Mas, para remodelar o terreno, o dispêndio do
às curvas de nível, o que obriga movimentos de terra pro-
auto-construtor pode se resumir ao seu próprio esforço
nunciados para a implantação das casas. Do ponto de vista
físico ou, se conseguiu juntar algum dinheiro (bem menos
essencialmente geométrico, caso se utilizassem lotes com
que o necessário para uma estrutura de concreto), pode
lado maior paralelo às curvas de nível, o que conduziria a
contratar um tratorista para fazer o serviço.
casas com lado maior na mesma direção, atenuar-se-iam
Passa-se assim a verificar, nos lotes, impressionantes significativamente os movimentos de terra, como mostra
cortes e aterros, seguidos, no mais das vezes, por cons- a Figura 4.5. Nunca se usa este expediente, em função de
truções fora de padrões técnicos adequados: fundações uma maior densidade de vias que passa a se fazer necessária,
sobre aterros não consolidados, aterros e cortes des- o que agravaria os custos para o loteador.
protegidos, estruturas pouco resistentes, destinação
130 Mesmo depois de consolidados, através da imperme-
impensada de águas pluviais e de águas servidas etc.
abilização propiciada pela ocupação plena, pela pavimentação
A freqüente ausência de redes de esgoto conduz das vias e pela implantação de redes de esgoto, os loteamentos
ainda à construção de fossas negras ou de fossas sépticas, tendem ainda a apresentar problemas provenientes das
ambas baseadas na infiltração dos efluentes líquidos, o que deficiências construtivas das habitações e de seus apêndices.
pode vir a favorecer instabilizações. As obras de contenção São comuns, por exemplo, as quedas de muros de divisas,
necessárias, no âmbito de cada lote, são muitas vezes prete- os recalques e os desmoronamentos de casas, além dos
ridas em função de seu elevado custo, ou são inadequa- deslizamentos de taludes ainda expostos.

8
PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO (1991). Habitação e urbanismo: a política que a Prefeitura de São Paulo está praticando.

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Figura 4.5. Cortes esquemáticos: lote e edificação com lados
maiores dispostos paralelamente às curvas de nível (parte superior
da figura) demandam menores movimentos de terra que os
colocados perpendicularmente a elas (parte inferior da figura) para a
implantação.

131
em função da legislação urbana, só há possibilidade de se
Foto 4.9. Loteamento em encosta, parcialmente ocupado,
apresentando inúmeros taludes desprotegidos e expostos a seguir a lei através de dramáticos movimentos de terra,
instabilizações. Fonte: IPT (1981) – Relatório Fotográfico – Área quase sempre dando espaço ao azar e à degradação ambiental.
próxima ao loteamento “Conjunto Residencial de Interesse
Social”- Delfim.
A forma tradicional de simples parcelamento do
solo, quando aplicada a encostas, representa só a garantia
Há um claro conflito entre as exigências das legis- de duas etapas de inadequações. A primeira é caracterizada
lações urbanas (e das próprias posturas técnicas usualmente pelas pesadas transformações para a implantação de vias e
aplicadas ao parcelamento do solo) e a possibilidade de se lotes, com desdobramentos negativos locais, periféricos e
ter formas de parcelamento do solo menos devastadoras na cidade como um todo; a outra, mais pulverizada no
em encostas. Em terrenos de declividade mais acentuada, tempo e no espaço, diz respeito à implantação das edifi-

Os resultados desastrosos da ocupação de encostas no Brasil e seu enfrentamento


cações, quando novas mutilações de terreno se verificam, loteamento.
dando espaço a novos efeitos negativos, incluindo riscos.
Outra alternativa que se sugere, seja para programas
O problemático espaço urbano gerado em encostas, do Estado, seja para empreendimentos privados, é a de eli-
através de loteamentos populares, representa assim, em minar os simples parcelamentos em encostas, substituindo-
última instância, mais uma manifestação da inadequação os, por exemplo, por empreendimentos caracterizados pelo
do “projeto de projeto” de cidade que a legislação impõe fornecimento, ao usuário, do que poderia, provisoriamente,
aos mais pobres. ser chamado de “chão firme”. O empreendedor, neste caso,
igualmente dotado de um projeto envolvendo parcelamento
Os espaços urbanos resultantes, que conhecemos
e edificações, forneceria ao usuário um terreno previamente
de sobejo, e são ilustrados em alguns pontos do presente
remodelado e seguro, apto a receber habitações segundo
trabalho, além de exporem os mais pobres a uma série de
tipologias pré-estabelecidas.
deseconomias e riscos, na auto-construção, têm se mostrado
de péssima qualidade. Nas duas modalidades alternativas sugeridas seria
aberta a possibilidade de análise de projetos no caso a caso,
O mesmo ocorre no âmbito das unidades habita-
com total tolerância a formas de agrupamento alternativas
cionais. No que pese o saber popular na atividade de edifi-
de unidades, assim como ao dimensionamento de vias
car, o resultado da auto-construção em encostas tende a
segundo critérios bem mais maleáveis que os atuais, tendo
ser de péssima qualidade. São freqüentes as casas úmidas
por balizamento o desempenho esperado frente às
em função de problemas de insolação ou de paredes em
condicionantes específicas de circulação de cada
contato com a terra, assim como se observam, com freqüên-
empreendimento. Acredita-se ser necessária a proibição de
cia, outras patologias típicas deste tipo de construção, tais
simples parcelamentos de solo em encostas no que diz
como fissuramentos, trincas e rachaduras, quase sempre
respeito a assentamentos destinados à população de baixa
provenientes de instabilizações de terreno.
renda.
Acredita-se ser possível e desejável que novas formas
132 de ocupação urbana – bem distintas do simples parcelamen-
to do solo - ganhem espaço nesta situação. Um procedimen- 4.1.3 - Favelas e encostas
to alternativo que se sugere, por exemplo, é o do parcela- A música popular dos anos 60, entre variados
mento atrelado ao projeto de edificações. Neste caso, o protestos, dava às favelas, às vezes, também um tom
loteador seria responsável, suplementarmente, em encostas, pitoresco, como mostra a letra do samba Favela, de
pela produção de um elenco básico de soluções de projeto Padeirinho e Jorginho, gravado em 19669 por Nara Leão,
para habitações, adequadas às condições específicas do lado 1, faixa 6:

9
Nara Leão (1966). LP Manhã de liberdade. Companhia Brasileira de Discos. Rio de Janeiro.

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Numa vasta região, onde não há plantação Barracos, barrancos e chuvas constituem hoje uma
Nem ninguém morando lá, combinação arriscada, suficiente para assegurar desastres
Cada um pobre que passa por ali por muito tempo, tendo em vista sua proliferação.
Só pensa em construir seu lar. Seja na Vila Baiana, no Guarujá (SP), na Vai Quem
E quando o primeiro começa, Quer, em Petrópolis (RJ), na Vila do Rato, no Novo
Os outros depressa procuram marcar Repartimento, na região de Tucuruí (PA), em Minaçu (GO),
Seu pedacinho de terra p’ra morar. seja ainda em morros de metrópoles e capitais (como
Florianópolis, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Belo
É assim que a região sofre modificação,
Horizonte), as favelas em encostas apresentam um pano-
Fica sendo chamada de “a nova aquarela”.
rama bastante uniforme.
É aí que o lugar então passa a se chamar favela.
Das ocupações em encostas, as favelas são as que
Já não se fazem nem mesmo favelas como antiga- mais tendem a apresentar graves situações de risco. Além
mente... disso, à miséria correspondeuma preocupação senão
Nos dias atuais, favelas em encostas significam quase secundária, pelo menos mais dissimulada com o perigo
sempre áreas de risco. Não que os riscos não estivessem dos escorregamentos. Outros riscos envolvendo
presentes na década de 60. Mas, a bem da verdade, eram sobrevivência, incluindo a própria fome, são capazes de
menores. A técnica construtiva então empregada nos atenuar para o favelado seu grave significado. O perigo
barracos – quase sempre de madeira – incluía, freqüen- dos escorregamentos é apenas mais um dado do risco do
temente, estruturas de transição (também de madeira) entre seu cotidiano.
o terreno e um tabuleiro (piso), o que pelo menos evitava
movimentos de terra mais pronunciados, como mostra a
Foto 4.10, favorecendo a segurança.
Hoje, é praticamente impossível, para os mais
133
pobres, conseguir o madeiramento (ou o concreto) neces-
sário para a construção de estruturas de transição ou de
tabuleiros.
Cortam-se e aterram-se então os terrenos íngremes
para a implantação dos barracos, que hoje tanto podem
ser construídos através da última reciclagem de caixotes,
placas, embalagens, lonas plásticas e outros restos da
Foto 4.10. Favela Humaitá, no Rio de Janeiro, ao final da
sociedade de consumo, ou com tijolos cerâmicos ou ainda década de 50. Notem-se estruturas de madeira intermediando
com blocos de concreto, constituindo então casas pouco o terreno e os barracos. Fonte: ABREU, M.A. (1987). A evolução
urbana do Rio de Janeiro. p.106.
mais convencionais.

Os resultados desastrosos da ocupação de encostas no Brasil e seu enfrentamento


Foto 4.11. À beira do abismo: favela Vai Quem Quer, em Foto 4.12. Cortes, aterros e desastres: escorregamento em
Petrópolis (RJ), em 1988, com diversas cicatrizes de favela em Itapevi (SP). Fonte: arquivo IPT.
escorregamentos e riscos generalizados. Fonte: arquivo IPT.

A precariedade das favelas em morros costuma reu- encontrar fossas em beiradas de barrancos, “chamando” as
nir alguns ou todos fatores predisponentes a instabilizações, instabilizações de terreno.
estudados no Capítulo 2. Para a implantação de barracos, Às deficiências de circulação, crescentes à medida que
sejam eles de alvenaria ou de madeira, procedem-se hoje, as favelas vão se adensando, agregam-se ainda dificuldades
muitas vezes, a impressionantes cortes e aterros nos também crescentes de transportar-se o lixo doméstico para
terrenos, mesmo em vertentes de altíssima inclinação, pontos de deposição adequados. Este passa então a ser
atingindo, não raro, até 100% de declividade. Os barracos simplesmente lançado nas vertentes, ao invés de destinado a
se apoiam amiúde em aterros não consolidados e não conti- caçambas, geralmente presentes em “bocas” de morros. Lixo
dos, e os taludes, no geral, apresentam-se com solo exposto. acumulado em encostas, além de atrair ratos e insetos e de
134 produzir mau cheiro é, como já foi visto anteriormente, no
Redes informais de água, bastante comuns nestes
assentamentos, muitas vezes constituídas por inúmeras Capítulo 2, um material capaz de deflagrar escorregamentos,
derivações de mangueiras de plástico, apresentam vazamen- envolvendo os próprios detritos e solos.
tos disseminados, ocasionando infiltrações de água no ter- As inadequações tendem a incluir também, em fave-
reno e aumentando os riscos. Quando são implantadas las, a alteração do regime de escoamento natural das águas.
redes formais de abastecimento de água, a contrapartida Na ocupação irregular, vão surgindo caminhos preferenciais
das vantagens é uma geração mais pronunciada de efluentes para fluxos mais concentrados de água, que conduzem a
sanitários, que, além de agravarem uma situação típica de processos erosivos e a escorregamentos. Não raro, linhas
contaminação do solo, vão gerando novas infiltrações e naturais de drenagem são também ocupadas por barracos
erosões. São também comuns fossas negras, que podem ou por depósitos de lixo e entulho, exponenciando-se a possi-
facilmente gerar escorregamentos graves. É freqüente bilidade da ocorrência de desastres.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


atualmente. De um modo geral, porém, as reações dizem
mais respeito a uma velada aceitação de um quadro estabe-
lecido como algo fatal, e a parte mais substancial das ações
técnicas mais sistematizadas concentra-se na tentativa de
minimizar os efeitos dos desastres e de corrigir, na medida
do possível, os problemas instaurados, com especial ênfase
no que diz respeito a favelas. Ainda que a recuperação de
conjuntos habitacionais como o de Santa Etelvina custe
verdadeiras fábulas aos cofres públicos e que, na problemá-
tica auto-construção em encostas, tornem-se necessários
investimentos privados (dos próprios proprietários) e
eventuais investimentos municipais para a eliminação de
riscos, as ações técnicas mais organizadas voltam-se, predo-
minantemente, a favelas.
Foto 4.13. Favela do Jaguaré, São Paulo (SP), na década de 80.
Além de perigosos cortes e aterros, vêem-se bananeiras e, ao No meio técnico, no Brasil, o agravamento de desas-
centro, um tubo de lançamento de esgotos. Fonte: Arquivo IPT.
tres envolvendo instabilizações em favelas em morros gerou
inicialmente, a partir de meados da década de 70, duas
A retirada generalizada de vegetação para a constru- posturas básicas, que ora convergiam, ora se distanciavam:
ção de barracos, expondo amplamente os solos, também o da construção de grandes obras de contenção, que tendi-
favorece instabilizações. am a ignorar a eventual precariedade dos eventuais assenta-
Aproveitando-se da fertilidade da terra, gerada em mentos a montante, e a do estabelecimento de melhorias
parte pelos esgotos que escorrem superficialmente, alguns nos assentamentos, cujas características de implantação,
plantam espécies vegetais que se prestam à alimentação. como já se afirmou, tendem a colaborar com a instabiliza-
Observam-se com freqüência, em favelas, por exemplo, a ção. Ainda que, tecnicamente, estas posturas não sejam 135
presença de mamoeiros e de bananeiras. Por infeliz tecnicamente excludentes, tendiam a dividir os especialistas,
coincidência, por características peculiares, estas duas permeadas por questões técnicas, ideológicas, e de interesses
espécies de plantas favorecem instabilizações em encostas. do capital.
Por um lado, a corrente mais ligada às grandes obras
4.2 - O enfrentamento técnico dos de contenção acabava sendo acusada de representar, volun-
instaurados tária ou involuntariamente, os interesses das grandes
empresas de geotecnia e de obras públicas, para as quais a
O panorama da ocupação problemática de encostas, intervenção é muito mais favorável nesta modalidade de
no Brasil, visto até o momento, tem gerado diversas reações atuação, em comparação com o extenso e pulverizado con-
no meio técnico, seja do ponto de vista histórico, seja junto de ações que caracterizam a urbanização de uma

Os resultados desastrosos da ocupação de encostas no Brasil e seu enfrentamento


favela, em condições precárias de segurança, saneamento tecnologias, no mais das vezes, menos sofisticadas, abrindo
e de acesso a equipamentos. em muito o leque de opções para a contratação de proje-
tistas e de empreiteiras, possibilitando ainda a contratação
A corrente contrária, por sua vez, privilegiando a
de mão de obra nas próprias comunidades afetadas pelos
intervenção pulverizada, argumentava que grandes conten-
desastres. Nesta opção, porém, a reversão dos investimentos
ções podiam ser evitadas, desde que o conjunto de obras
em votos não é uma certeza. Maniqueísmos à parte, é bem
que compõe a urbanização da favela fosse efetivamente
verdade que o alcance social da urbanização de favelas é
implantado, obtendo-se um resultado final que beneficiaria
maior (linha técnica que, do ponto de vista limitado do
um número maior de pessoas. Estes últimos chegavam a
rescaldo, com que o autor mais se identifica). A cisão política
colocar em cheque a própria validade técnica das grandes
e técnica nesta área, porém, se perdura até os dias atuais,
obras de contenção que, em sua opinião, tendiam a ser
dá-se de maneira mais discreta. Nas intervenções recentes,
construídas justo nos locais onde já haviam ocorrido os as duas correntes já são capazes de atuar de maneira até
desastres e, portanto, onde o terreno havia atingido uma mesmo cooperativa.
certa situação de equilíbrio.
No Rio de Janeiro, onde o impacto dos desastres
Nos desastres de grandes proporções referentes a em favelas em morros foi inicialmente mais difundido, a
escorregamentos em encostas, a solidariedade nacional e, urbanização das favelas deu-se, no princípio, com ênfase
às vezes, internacional, atiçada pela imprensa junto à opinião na melhoria das condições de circulação e de saneamento.
pública, faz com que se canalizem elevados recursos para As questões geotécnicas eram resolvidas no caso a caso,
o rescaldo. Nessas ocasiões, muitos políticos titubeavam (e dando origem a obras de contenção isoladas, de diferentes
titubeiam) na destinação das verbas frente às opções portes, e a obras de drenagem, sem um uma postura global.
técnicas oferecidas e aos possíveis dividendos políticos que A partir de 1984, porém, na urbanização da favela do Pavão-
estas podem propiciar. Pavãozinho, como afirma SOBREIRA (1989)10 , p. 24.
A construção de grandes obras de contenção, de- “...pela primeira vez um levantamento geológico-geotécnico serve
136 mandando recursos técnicos mais sofisticados e investi- de base para a orientação das obras de melhorias e de contenção.”
mentos elevados e concentrados, deixam espaço para um
Nesta nova modalidade de atuação, a visão dos
eventual financiamento de futuras campanhas eleitorais,
problemas passava a ser mais integrada e as intervenções
pois envolvem, efetivamente, as grandes projetistas e
passavam a equacionar de forma mais ponderada as diversas
empreiteiras, tradicionais financiadoras de políticos.
facetas dos problemas. A afirmação de Sobreira diz respeito
A atuação nas melhorias em favelas, por sua vez, ao Rio de Janeiro. No Estado de São Paulo, como foi visto
ainda que mobilize igualmente recursos elevados, tende a no Capítulo 2, a técnica de se basear intervenções em favelas
dispersar a distribuição de verbas, pois as obras requerem em levantamentos geológico-geotécnicos e de ponderar os

10
SOBREIRA, F.G. (1989).Estudo de encostas ocupadas desordenadamente na cidade do Rio de Janeiro – A favela do Vidigal.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


diversos fatores intervenientes já se utilizava ao final da populações ameaçadas antes da ocorrência de desastres.
década de 70, com a Carta Geotécnica dos Morros de Santos e No âmbito da linha de atuação referente a riscos
São Vicente, produzida pelo IPT. Esta técnica abriu mencionada no Capítulo 1, os trabalhos mais recentes se
perspectivas para um equacionamento mais responsável referem, com algumas contradições entre diferentes autores,
da questão da ocupação urbana de encostas, pelo menos a cinco principais formas de atuação técnica para atenuação
no que diz respeito às já ocupadas. dos efeitos de desastres naturais, denominadas por avaliar,
Em 1983, o IPT deu início a uma série de trabalhos prever, preparar, prevenir e mitigar.
similares no município de Cubatão (SP). Inicialmente, em Avaliar consiste em reconhecer a natureza e a
função das obras da Via Anchieta e do mercado de trabalho expressão dos riscos presentes, contemplando a pesquisa
constituído pelo porto de Santos e, posteriormente, com o do histórico dos efeitos dos desastres e a estimativa de sua
processo de implantação de indústrias e a construção da provável evolução, frente às mudanças verificadas nas
Rodovia dos Imigrantes, criaram-se em Cubatão inúmeros comunidades que afetam (tais como o crescimento
assentamentos precários na Serra do Mar, alguns dos quais populacional e o incremento do patrimônio). A avaliação
são conhecidos como Bairros-Cotas, cujos nomes (Cota 200, traduz-se em mapeamentos que constituem o que se chama
Cota 500 etc.) estão literalmente associados à sua altimetria. de zoneamento de risco , que aponta, para a região em
Os trabalhos desenvolvidos pelo IPT abrangeram, estudo, quais as áreas que podem ser afetadas, e com que
numa fase inicial, o cadastramento das áreas críticas quanto intensidade.
à estabilidade, assim como o das moradias em situação de Preparar significa, em síntese, desenvolver planos
risco, seguido por estudos complementares que contem- de Defesa Civil capazes de minimizar os efeitos dos aciden-
plaram a elaboração de cartas geotécnicas das regiões de tes, contemplando, principalmente, medidas de organização
morros com ocupação desordenada e o fornecimento de da comunidade envolvida e a organização de uma infra-
diretrizes técnicas para orientar a consolidação dos Bairros- estrutura específica para atender situações emergenciais.
Cota e para novas ocupações em relocações nos morros.
Prever é entendido como desenvolver tecnologia
No desenvolver dos trabalhos, novas frentes de atuação 137
que permita o conhecimento antecipado do momento e
foram surgindo, passando-se a abranger não só as encostas
dos locais prováveis de deflagração do fenômeno que gera
que sediavam favelas, mas também as que circundavam
os acidentes, assim como da intensidade provável em que
indústrias, algumas das quais classificadas como perigosas, este irá ocorrer.
onde aos riscos de deslizamentos somavam-se riscos de
vazamentos de produtos tóxicos. Desenvolveu-se ainda, Prevenir significa controlar novas ocupações em
no âmbito do conjunto de trabalhos dedicados a Cubatão, áreas expostas a riscos, assegurando-se que novas
um sistema de monitoramento de chuvas que, alimentando construções sejam resistentes aos fenômenos envolvidos.
computadores com informações de pluviosidade, permite Mitigar significa reformar as ocupações existentes,
antever a provável ocorrência de deslizamentos, criando ou reforçando as estruturas que resistem ao
possibilitando à Defesa Civil proceder à remoção das fenômeno.

Os resultados desastrosos da ocupação de encostas no Brasil e seu enfrentamento


No Brasil, onde instabilizações em encostas de defesa civil desta natureza, como é o caso já mencionado
constituem, juntamente com enchentes e inundações, como de Cubatão (SP), além de Santos e demais municípios
foi visto no Capítulo 2, os principais riscos naturais litorâneos paulistas entre este último e Ubatuba. Rio de
presentes, avaliar, preparar, prever e mitigar têm sido as Janeiro, Petrópolis (RJ), Belo Horizonte (MG) e Salvador
principais formas de atuação no meio técnico. Destaca-se, (BA) dispõem também de planos já montados para
em nosso país, principalmente, um maior investimento no instabilizações em encostas.
desenvolvimento de planos de defesa civil e na recuperação
Destaca-se que, do ponto de vista da deflagração de
de áreas expostas a riscos. instabilizações em encostas, cada localidade apresenta
No que diz respeito a instabilizações em encostas, especificidades importantes, combinando-se na sua definição
para a elaboração de planos de defesa civil, partindo-se da características locais de solo e relevo com as de chuvas. Isto
realidade da forma de ocupação existente, identificam-se aponta a necessidade de se proceder a estudos particularizados
os locais onde possam ocorrer deslizamentos, com base em cada região, principalmente para se refinar a definição do
em zoneamentos e análises de risco, cuja função é orientar momento em que se desencadeará o plano, dando início à
a retirada, em situações de alerta, da população exposta, remoção dos moradores em áreas de risco.
ocasião em que já deve existir, preparada, toda uma
A velocidade da remoção da população é de
estrutura de absorção transitória dos evacuados. fundamental importância, nesta forma de atuação, e fica
Para este tipo de atuação, deve também estar naturalmente prejudicada no período noturno. O
claramente identificado o comportamento dos fenômenos desempenho de planos de defesa civil fica então afetado
de instabilização frente aos fatores que o condicionam. pelo nível de treinamento da população envolvida e pelo
No caso de encostas, no Brasil, isto significa conhecer os próprio nível de acerto nas declarações de estado de alerta:
particulares solos envolvidos e seu comportamento frente alarmes freqüentes, em situações que não se concretizam
aos agentes deflagadores (predominantemente chuvas), em desastres, acabam por aumentar a inércia de retirada da
caracterizando-se em que condições de precipitações população, que passa a levar em menor conta o perigo.
138
pluviais tendem a deflagrar-se os processos. Na montagem dos planos, procura-se informar
Monitora-se então o comportamento das precipi- largamente a população dos procedimentos a adotar em
tações, permitindo, quando for o caso, declarar-se um estado emergências, assim como difundir informações técnicas
de alerta, determinando-se a retirada da população que se sobre fatores que contribuem na definição de riscos. Muitas
encontre em áreas ameaçadas. A caracterização mais precisa vezes são elaboradas e distribuídas cartilhas em assentamentos
dos fatores intervenientes nem sempre é possível, pois precários em encostas, que tendem a ser produzidas em
requer a disponibilidade de dados em séries históricas, tanto linguagem simplificada, com formas similares a revistas em
de precipitações quanto de escorregamentos na região, para quadrinhos, como ilustra a Figura 4.6.
que se estabeleçam correspondências satisfatórias.
Outra vertente de atuação técnica que vem se
Alguns municípios brasileiros já dispõem de planos disseminando no Brasil, como já foi dito, é a da eliminação

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Figura 4.6. Capa e página 3 da publicação ”Zé da Encosta e a Defesa Civil”, produzida e distribuída à população dos morros de Salvador pela 139
Coordenadoria de Defesa Civil da Prefeitura de Salvador, em 1993.

paulatina das situações de risco, através de intervenções pela realização de obras em algumas das unidades
nos assentamentos que as apresentem, incluindo ações habitacionais. Como procedimento importante, faz-se
emergenciais (relocações ou remoções imediatas de necessária a realização de análises de custo-benefício: em
unidades habitacionais em risco) e ações de médio e longo alguns casos, em vez de se recuperar um assentamento em
prazos, caracterizadas pela implantação de contenções, pelo situação de risco generalizado, pode ser vantajoso,
disciplinamento das circulações, das drenagens e da economicamente, proceder a uma remoção completa e
destinação de águas servidas, podendo ainda se estender definitiva para outra área da cidade.

Os resultados desastrosos da ocupação de encostas no Brasil e seu enfrentamento


Nesta forma de atuação, torna-se também imprescin- À medida que se aperfeiçoam, cada vez mais, técnicas de
dível a caracterização geológico-geotécnica das áreas sob avaliação de riscos e de previsão da ocorrência de acidentes,
intervenção, complementada por zoneamentos e análises e à medida que se aperfeiçoam planos de defesa civil e
de riscos, para permitir a efetiva interdição de áreas impró- urbanizam-se favelas, centenas de novas ocupações proble-
prias e o tratamento geral a ser dado para a estabilização. máticas em encostas vão surgindo, incluindo-se aí novas
Requer-se, em geral, a disponibilidade de alojamentos pro- favelas e loteamentos, e até mesmo conjuntos habitacionais
visórios para os moradores a serem relocados num mesmo produzidos pelo Estado.
assentamento, e de áreas externas para absorver eventuais
Acredita-se ser de fundamental importância um
remoções definitivas. Esta forma de enfrentamento do
investimento mais sério e com bases técnicas igualmente
problema é provavelmente a mais difundida, atualmente,
desenvolvidas na prevenção contra a ocupação inadequada.
no Brasil, envolvendo diversos graus de sofisticação tecno-
Isto, sem dúvida, transcende o meio técnico, pois depende
lógica. Sua aplicação se dá, porém, em escala bem menos
de uma efetiva vontade política. De acordo com o que foi
intensa que o necessário.
apresentado no Capítulo 3, percebe-se ainda que não é
Aplicam-se hoje, neste tipo de atuação, até mesmo através de proibições ou com base nas atuais legislações
procedimentos mais refinados, tais como a análise de decisão, ambientais e urbanas que vamos conseguir refrear
empregada por CARVALHO (1996)11, em trabalho voltado ocupações inadequadas em encostas. Há uma clara
ao gerenciamento de riscos em encostas urbanas, que necessidade de que o Estado se adiante à ocupação
apresenta estudos de caso para Belo Horizonte. inadequada, gerando ele próprio modelos de ocupações
mais pertinentes e viabilizando sua adoção.
No que pese um efetivo alcance social nas atuais
formas de atuação técnica na questão da ocupação de Encostas em solos tropicais são terrenos vulneráveis.
encostas, em nosso país, percebe-se que estas se encontram É provavelmente melhor ocupá-las com propriedade que
mais limitadas a avaliar, preparar, prever e mitigar os efeitos deixá-las ao azar.
140 dos desastres.
Prevenir desastres, no entendimento mais restrito
apresentado anteriormente – assegurando-se que novas
ocupações em encostas se desenvolvam com características
efetivamente adequadas quanto à resistência aos fenômenos
de instabilização potencialmente envolvidos - é algo que
não vem acontecendo, pelo menos de forma satisfatória.

11
CARVALHO, C.S. (1996). Gerenciamento de riscos geotécnicos em encostas urbanas: uma proposta baseada na análise de decisão.

Coleção
Coleção Habitare
Habitare -- Habitação
Habitação e
e Encostas
Encostas
Referências bibliográficas

ABREU, M.A. A evolução Urbana do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: IPLANRIO/Zahar, 1987.

CARVALHO, C.S. Gerenciamento de riscos geotécnicos em encostas urbanas: uma proposta baseada na análise de
decisão. Tese (Doutorado). Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, São Paulo, 1996.

CDHU – Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo. Casa própria para o
trabalhador. São Paulo: Governo..., 1993.

INSTITUTO DE PESQUISAS TECNOLÓGICAS DO ESTADO DE SÃO PAULO Relatório de Visita Santa Etelvina
e Itapevi. São Paulo: IPT, 1983.

INSTITUTO DE PESQUISAS TECNOLÓGICAS DO ESTADO DE SÃO PAULO Retroavaliação do programa


SH-3. São Paulo: IPT, 1997. Relatório IPT n. 35.110. v. II Infra-estrutura e urbanismo. Versão Preliminar.

ITAIPU BINACIONAL. Itaipu binacional. Disponível em:< http://www.itaipu.gov.br >

SÃO PAULO. Prefeitura Municipal. Habitação e urbanismo: a política que a Prefeitura de São Paulo está praticando -
SEHAB. São Paulo: Prefeitura... 1991.

SALVADOR. Prefeitura Municipal. Zé da Encosta e a Defesa Civil. CODESAL - Coordenadoria de Defesa Civil.
Salvador: Prefeitura... 1993.

141

Os resultados desastrosos da ocupação de encostas no Brasil e seu enfrentamento


142

5.
Coleção Habitare - Habitação e Encostas
5.
Método para o projeto habitacional
em encostas

A
aplicação do conhecimento das capacidades e restrições dos terrenos frente às demandas do

processo de urbanização não é algo novo no campo da engenharia, como pode ser observado,

por exemplo, através da prática da realização de investigações de subsolo, antecedendo a escolha

do tipo de fundação a empregar, de acordo com as características do edifício a implantar. Tal procedimento

já orienta a construção civil há várias décadas. Se o procedimento aponta para uma aplicação da ciência em

favor da segurança da edificação, denota também um certo princípio geral que, de certa forma, impregna até

hoje nossa cultura técnica: na maior parte dos casos, a concepção do edifício antecede o próprio estudo mais 143

detalhado do terreno.

No que diz respeito a terrenos de topografia mais acidentada, a ocupação demanda, ainda, a criação

de taludes de corte e de aterro. Neste caso, pelo menos no que diz respeito a obras conduzidas dentro de

padrões técnicos mais responsáveis, os taludes definidos em projeto são analisados no caso a caso e recebem

especificações de tratamento, envolvendo desde simples proteção superficial e drenagem até eventuais

estruturas de contenção.

Método para o projeto habitacional em encostas


Se, do ponto de vista da segurança, o procedimento facilmente atingir ocupações a jusante. Assim, a rigor, a
de “tratar os resultados do projeto” sobre o terreno através, ocupação de terrenos planos que se localizem nas
por exemplo, da definição criteriosa de sistemas de imediações de encostas requereria um estudo das condições
fundações ou de obras de estabilização de taludes é positivo, de equilíbrio destas últimas. No segundo caso, mostra-se
paira no mínimo uma dúvida: não seria mais adequado e necessário um melhor conhecimento das características
científico anteceder o projeto com uma investigação do específicas do terreno, de suas capacidades e restrições
terreno, que encaminhasse informações para a própria frente às alterações normalmente impostas pela ocupação
concepção mais balizada do projeto? Isto permitiria a busca que, se inadequadas, podem gerar desastres ou, no mínimo,
de partidos de arquitetura e de urbanismo seguramente deseconomias.
mais adequados ao terreno, mais econômicos (pelo menos
Dependendo do tipo de obra geotécnica requerida,
do ponto de vista estritamente associado às obras
podem ocorrer agravamentos de custos capazes, até mesmo,
geotécnicas) e com menores impactos ambientais.
de inviabilizar o empreendimento, principalmente quando
Acreditando-se que, em encostas, o conhecimento se pensa no restrito orçamento que se associa, via de regra,
mais preciso e antecipado do terreno é fundamental para à construção de habitações de interesse social. Não se
encaminhar projetos de arquitetura e de urbanismo mais tenciona aqui atribuir à obra geotécnica um caráter sempre
adequados, busca-se, nesta parte do trabalho, sistematizar oneroso. Existe, isto sim, uma ampla gama de obras desta
procedimentos de investigação e análise de tais terrenos e natureza, cujos custos são variados e, às vezes, pouco
delinear mecanismos para sua efetiva incorporação à significativos no cômputo geral da obra. Tendem a ser
elaboração do projeto, desde sua fase inicial, apontando-se onerosas, porém, grandes estruturas de contenção, que
os traços gerais de uma metodologia para a elaboração de podem se tornar facilmente necessárias, conforme as
projetos habitacionais para encostas, efetivamente com base características dos solos e processos de meio físico presentes
nas condicionantes dos terrenos. e do partido que se adote no projeto.
144
Ao se apregoar que a elaboração de um projeto Quando se projeta para um terreno plano, ideal, a
habitacional para encosta deve se basear nas características otimização da relação entre edifício e terreno (este último
específicas do terreno a ocupar, apregoa-se também que o aqui entendido apenas em suas características geológicas e
próprio exercício do projeto deve se dar num âmbito um geotécnicas) pode muitas vezes se restringir à otimização
pouco mais amplo que o da prancheta (ou o computador) do binômio estrutura/fundações. Ocorre, nestes casos, uma
do arquiteto. certa dissociação do projeto arquitetônico da interface com
Tanto na ocupação de áreas situadas em sopés de o terreno, respeitada, é claro, a necessidade do
encostas quanto em encostas propriamente ditas, tornam- estabelecimento de prumadas estruturais. No caso de
se necessários levantamentos mais cuidadosos de meio encostas, para se otimizar a relação entre edifícios e terreno
físico. No primeiro caso, instabilizações nos morros podem (novamente aqui entendido apenas em suas características

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geológicas e geotécnicas), as implicações podem facilmente geotécnicas mais econômicas e seguras. Fatores ligados às
transcender o binômio estrutura/fundações, passando a condicionantes geológico-geotécnicas devem confundir-se,
abranger, de uma forma bem mais marcada, a própria na verdade, no caso de encostas, com fatores a incorporar
organização planimétrica e altimétrica dos espaços internos ao próprio programa do projeto.
e externos aos edifícios, não só no âmbito restrito da
Alguns levantamentos podem exigir sondagens e até
adaptação à topografia, mas também, e principalmente, num
mesmo ensaios em laboratório, mas as informações que se
desejável ajuste mais fino às qualidades dos solos presentes,
obtêm tornam mais racional e científica a elaboração de
o que não é um procedimento usual.
projetos, tornando-os adaptados, de fato, às características
Para ilustrar o que foi dito, suponhamos que, num do terreno, transcendendo, como já foi dito, a simples
determinado terreno, as características do solo e dos questão de suas feições topográficas. A adaptação do
processos presentes permitam que se façam cortes projeto ao terreno, jargão bastante utilizado na arquitetura,
subverticais em taludes com altura de até seis metros, sem no caso de encostas, só se tornará mais completa através
a necessidade de obras complementares de contenção. Esta do conhecimento e consideração mais aprofundados dos
informação fornece ao arquiteto um leque de possibilidades solos presentes no terreno e de suas tendências de
de projeto que seria bastante distinto, por exemplo, num comportamento frente à ocupação.
terreno de mesmas feições topográficas, mas com solo que
exigisse, em cortes similares, estruturas de contenção de
custo elevado. O mesmo se aplica ao projeto de urbanismo. 5.1 - Caracterização geral de método para
projetos habitacionais de pequeno porte em
A escolha dos tipos de vias a adotar, de seu traçado
encostas
e dimensionamento, assim como a definição geral de
padrões de ocupação, podem ter implicações profundas Em primeiro lugar, cabe delimitar claramente os
na demanda por obras geotécnicas de custo mais elevado objetivos do método aqui proposto. Trata-se de método
destinado a balizar a implantação de pequenos conjuntos 145
e, portanto, nos custos da implantação. Torna-se necessário,
novamente, um conhecimento prévio das características habitacionais (de até 100 unidades habitacionais) em
do terreno, de suas capacidades e restrições, para orientação encostas, com ênfase na segurança geotécnica. São seus
ao projeto. objetivos gerais:
No desenvolvimento do projeto, podem tornar-se - auxiliar no processo de decisão para a utilização (ou
ainda necessárias novas investigações de caráter geológico- não) de determinada área em encosta para a implantação
geotécnico. Os levantamentos e ou análises não devem se de empreendimento habitacional de interesse social, com
esgotar na fase pré-projeto, mas, isto sim, estabelecer - as características anteriormente descritas, sob ótica
durante todo o processo, da concepção à implantação - fundamentalmente centralizada em características de
um diálogo periódico, capaz de encaminhar soluções meio físico;

Método para o projeto habitacional em encostas


- conduzir à identificação sistematizada das capacidades do meio físico e elaboração de diretrizes para o projeto;
e restrições do meio físico da encosta ou trecho de d1) análise interdisciplinar do estudo preliminar,
encosta (caso ela seja, na primeira instância, considerada identificação de novas questões, elaboração de novas
apta para a ocupação) frente ao uso habitacional; diretrizes e resolução de problemas localizados;
- traduzir as capacidades e restrições do meio físico em e1) análise interdisciplinar do anteprojeto, identificação
diretrizes para o projeto; de novas questões, elaboração de novas diretrizes e
- aferir a resposta do projeto às condicionantes e resolução de problemas localizados;
possibilitar seu aperfeiçoamento, seja através da revisão f1) análise interdisciplinar do projeto executivo,
de decisões de projeto, seja de novas diretrizes identificação de novas questões, elaboração de novas
geotécnicas demandadas por particularidades do projeto. diretrizes e resolução de problemas localizados; e
Fica claro que se trata de um método que remete a g1) acompanhamento interdisciplinar da implantação
um relacionamento mais prolongado e estreito entre (fase de obras), identificação de novas questões,
profissionais de diferentes formações, mormente da elaboração de novas diretrizes e resolução de problemas
arquitetura e do urbanismo, da geologia e da geotecnia. localizados;
Ao mesmo tempo, caracteriza-se por fases diferenciadas Por outro lado, nas áreas de arquitetura e urbanismo,
de atividades, onde circunstancialmente predominam destacam-se as seguintes atividades:
atuações mais isoladas, ainda que engendradas com as
a2) verificação da situação fundiária da área,
demais especialidades. Dos elementos constituintes do
confirmando a possibilidade ou impossibilidade de se
método, no que pese o pressuposto da interação, destacam-
promover a implantação desejada;
se duas vertentes disciplinares mais nítidas, envolvendo
atividades de acordo com especialidades. b2) identificação, caso a área seja considerada apta, de
146 condicionantes urbanas locais e definição de
Por um lado, nas áreas de geologia e de geotecnia,
levantamentos complementares que se façam
destacam-se as seguintes atividades:
necessários (tais como levantamentos topográficos);
a1) aplicação de um crivo inicial de análise para decisão estabelecimento do programa do projeto;
se determinada área em encosta é passível (ou não) de
c2) elaboração de estudo preliminar de arquitetura e de
ocupação com habitações de interesse social;
implantação com base nas diretrizes desenvolvidas;
b1) execução, caso a área seja considerada apta, de d2) análise interdisciplinar do estudo preliminar,
levantamentos geológicos e geotécnicos segundo roteiro discussão e equacionamento de eventuais novas
de levantamentos mais adiante explicitado; questões de natureza geotécnica identificadas,
c1) desenvolvimento de análises sobre as condicionantes solicitação de novas diretrizes e resolução de problemas

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localizados de geotecnia; 5.2 - Método para levantamentos expeditos
e2) elaboração do anteprojeto de arquitetura e de de condicionantes do meio físico
implantação, com base nas diretrizes geológico- Para o procedimento dos levantamentos, prevêem-
geotécnicas revistas; se duas etapas de observações. Na primeira, procura-se
f2) análise interdisciplinar do anteprojeto, identificação identificar se ocorrem impedimentos técnicos ou legais que
de novas questões de natureza geotécnica, solicitação contra-indiquem com relevância a ocupação da área.
de novas diretrizes e resolução de problemas localizados Identificam-se três principais questões capazes de contra-
de geotecnia; indicar, a priori, a utilização de uma área em encosta para
g2) elaboração do projeto executivo de arquitetura e de fins habitacionais, caracterizando-se o que passa a ser
implantação com base nas diretrizes geológico- considerado por “crivo”:
geotécnicas revistas;
- situação fundiária legal impeditiva e incontornável;
h2) análise interdisciplinar do projeto executivo,
- presença de processos de meio físico em curso, de
identificação de novas questões de natureza geotécnica,
magnitude incompatível com o programa; e
solicitação de novas diretrizes e resolução de problemas
localizados de geotecnia; e - declividade excessiva.
i2) acompanhamento da implantação (fase de obras), a) Situação fundiária legal impeditiva e incontornável
identificação de novas questões e resolução de
São freqüentes invasões em encostas situadas, por
problemas localizados;
exemplo, em áreas sob proteção ambiental ou em áreas
No método proposto estabelecem-se, na realidade, verdes de loteamentos. Nestas, dificilmente pode se obter
ciclos encadeados de produção e aperfeiçoamento do projeto, o aval do Poder Público para o balizamento de uma
com ênfase no trato das questões geotécnicas combinadas ocupação regular, pelo menos imediata. No caso de
com as demandas de resolução do programa habitacional. invasões embrionárias, e na dependência do efetivo 147
Do ponto de vista de instrumentalização, o método interesse, por exemplo, frente à localização da área, podem
requer ainda “sub-métodos”, de acordo com o que segue: ser tentadas ações junto aos órgãos públicos municipais,
estaduais e federais envolvidos, estudando-se eventuais
- método para levantamentos de condicionantes do meio possibilidades de permutas com áreas vizinhas ou a
físico; circunscrição e definição de um patamar de congelamento
- método para análise das condicionantes e para sua da ocupação, sob orientação. É melhor ter-se uma ocupação
transformação em diretrizes para projeto; e formal circunscrita e orientada que se assistir a uma
- método para o projeto propriamente dito. ocupação informal crescente, generalizada e precária. Na
Passa-se, doravante, a detalhar os sub-métodos ocupação formal circunscrita, os próprios moradores
envolvidos. podem se tornar “fiscais permanentes” de todo o restante

Método para o projeto habitacional em encostas


da área, notificando eventuais novas invasões. No geral, porém, a presença em magnitude mais
Se, porém, os impedimentos legais se mostrarem destacada de processos de meio físico indesejáveis devem
incontornáveis, inviabilizando do ponto de vista jurídico a conduzir ao descarte da área e a busca de alternativas.
ocupação formal da área, esta deve ser desocupada e Devem também ser considerados como motivo de descarte
descartada enquanto local de implantação formal de casas, eventuais ações e processos antrópicos no perímetro da
procurando-se solução alternativa de localização, se área que venham a constituir riscos para a ocupação
possível, nas imediações. pretendida, envolvendo custos de estabilização de
construções ou terrenos vizinhos elevados e a absorver
b) Processos de meio físico em curso, de recuperação exclusivamente no âmbito do programa.
de magnitude incompatível com o programa
habitacional c) Declividade

Como pode ser visto no Capítulo 2, encostas Se, no que diz respeito à tecnologia, a bagagem de
apresentam processos típicos de meio físico, tais como conhecimento hoje acumulada permite afirmar que quase
erosões, escorregamentos, rastejos, quedas de blocos, qualquer terreno pode ser ocupado, em contrapartida, do
rolamentos de matacões e corridas de massa. A estes, ponto de vista da economia - mormente quando de trata
agregam-se outros processos, tais como inundações, de habitações de interesse social - a realidade é outra. Se é
alagamentos, recalques, sismos, processos cársticos viável, do ponto de vista construtivo, ocupar terrenos com
(afundamentos ou subsidências de trechos de terreno), além declividades até mesmo superiores a 100%, o que
de processos antrópicos, não necessariamente típicos de geralmente ocorre é que este tipo de ocupação tenderia a
encostas, mas que também podem estar presentes nesta demandar recursos de tão elevada monta que a ocupação,
situação. por motivos econômicos, tornar-se-ia inviável.

Caso a utilização efetiva da área dependa da execução Ainda que não exista um limite de declividade
148
de obras preliminares mais vultosas de estabilização do consensualmente estabelecido, no meio técnico, para a
terreno para eliminação de fontes de riscos, e ocupação de encostas com habitações, é freqüente, como
exclusivamente através do emprego de verbas destinadas ilustração, a menção de 50% como um limite desejável.
ao programa habitacional propriamente dito, deve-se Em vários trabalhos associados à ocupação de encostas, o
preferencialmente procurar localização alternativa. Note- IPT já chegou a considerar, de acordo com condicionantes
se, porém, que o projeto pode ainda se viabilizar, dentro específicas de meio físico, declividades de até 60%. A rigor,
de alguns contextos mais específicos, quando obras de em literatura, ou mesmo na legislação, pelo menos enquanto
estabilização tenham que ser obrigatoriamente implantadas, diretriz de caráter geotécnico, não se observa a fixação de
independentemente de qualquer programa habitacional um limite superior de declividade para o tipo de implantação
associado. aqui estudado. Como limitante razoável, sugere-se consi-

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derar admissível o estudo de áreas com declividades de até considerando itens de infra-estrutura (acessos, redes de
60%, desde que os estudos geológicos e geotécnicos água, de esgotos e de eletricidade, etc.) e até mesmo itens
confirmem a segurança da ocupação. mais relacionados ao futuro andamento da fase de obras,
como é o caso da identificação e caracterização de áreas de
Para a introdução das observações a levar a cabo
empréstimo e de bota-fora na região, para absorver
para a aplicação do “crivo”, concebeu-se formulário
eventuais importações ou exportações de terra que se façam
simples, apresentado a seguir e intitulado “Roteiro de
necessárias, em função das características do projeto. Isto
levantamentos expeditos de dados de meio físico para apoio ao projeto
reforça como desejável a participação de arquiteto desde a
de habitações de interesse social agrupadas em encostas - Crivo”,
fase inicial de levantamento da área.
adiante apresentado.
Como requisitos gerais para os levantamentos, vale
Na segunda etapa de levantamentos, a realizar caso
alertar que, do ponto de vista geológico-geotécnico, a
a área tenha sido considerada apta na aplicação “crivo”,
intenção, num âmbito mais geral, é a de se compreender
faz-se a caracterização completa do meio físico da área, de
os processos de meio físico presentes ou potenciais na área
acordo, por exemplo, com o roteiro apresentado na planilha
e, em seguida, aprofundar o conhecimento sobre as
“Roteiro de levantamentos expeditos de dados de meio
características mais específicas da área.
físico para apoio ao projeto de habitações de interesse social
agrupadas em encostas – formulário completo”, mais Para o aprofundamento da caracterização, lança-se
adiante apresentado. mão de análise de material colhido por sondagens. Como
se pretende um levantamento de caráter mais expedito,
Ainda que os levantamentos das características físicas
sempre que possível poderão ser empregadas simples
do terreno digam mais respeito às especialidades da geologia
sondagens a trado. Em se tratando de encostas, deve-se
e da geotecnia, nota-se que a interação disciplinar deve
examinar principalmente a manutenção das características
preferencialmente ocorrer desde os levantamentos iniciais
gerais das camadas de solos e de suas espessuras, ao longo 149
da área, possibilitando que o desejável processo de interação
da vertente a ocupar. Isto aponta para um critério, na
tenha início imediato, desde a própria seleção da área, quando,
localização de furos de sondagem, que deve privilegiar
com base na troca de idéias, em campo, entre os profissionais
perfis típicos.
envolvidos na geração de diretrizes para o projeto e na sua
elaboração, passam a ser discutidas possibilidades de projeto Vale ainda lembrar, é claro, que se a área não dispuser
e as condicionantes locais de meio físico. de levantamento topográfico adequado, este também deverá
ser providenciado, recomendando-se que apresente curvas
Além disso, como pode ser visto, o formulário
de nível, pelo menos, a cada metro.
completo produzido prevê, simultaneamente, tanto a
caracterização de fatores geológicos e geotécnicos quanto Além dos processos já mencionados, típicos de
de fatores mais associados à inserção urbana da área, encostas, considerou-se pertinente a inclusão de outros

Método para o projeto habitacional em encostas


150

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


processos e fenômenos na observação dos terrenos, não tipicamente encontrado em terrenos situados em bacias
necessariamente típicos de encostas. Assim, previu-se a sedimentares, que pode se associar a processos de
observação de eventuais sintomas de inundações ou instabilização. O empastilhamento decorre da alternância
alagamentos, fosse em colos de encostas, fosse em de ciclos de umedecimento e de secagem da superfície
terrenos lindeiros, permitindo agregar cuidados específicos exposta de camadas mais argilosas, que podem se destacar,
nos projetos com relação à drenagem. Julgou-se também descalçando as camadas de solo situadas mais acima e
ser prudente prever a verificação de históricos locais de dando origem a desabamentos.
ocorrência de processos menos freqüentes, no Brasil, tais
Após a identificação dos processos de meio físico
como sismos (tremores de terra) e processos cársticos
presentes ou potenciais, passar-se-ia à observação das demais
(afundamentos de terreno ocasionados por desestruturação
características geológicas e geotécnicas destacando-se:
de camadas subterrâneas de solos ou rochas), que pudessem
conduzir também a cuidados específicos nos projetos ou à - a observação dos litotipos presentes, das estruturas
contra-indicação da ocupação. Além dos já mencionados, dos solos, das espessuras dos solos, dos tipos de
percebeu-se ainda a necessidade de incluir a observação alterações de rochas presentes, assim como a presença
de eventuais processos desencadeados por ações antrópicas de blocos e matacões;
(processos antrópicos) que estivessem ocasionando ou - a granulometria e a permeabilidade dos solos presentes;
potencializando instabilizações nos terrenos, permitindo e
prever a necessidade de sua correção. Tal preocupação se - as características geométricas da encosta ou da porção
reforça tendo em vista que as áreas a focalizar no trabalho, de encosta selecionada, assim como sua declividade
de características urbanas, quase sempre já foram média.
modificadas por ações antrópicas.
Para complementar as recomendações para o projeto,
Na intersecção de ações antrópicas com as faz-se ainda necessário compreender as características
carcterísticas inerentes aos terrenos, tomou-se ainda como hidrológicas das áreas, de maneira a elaborar 151
necessária a observação da ocorrência de eventuais recomendações destinadas a balizar a concepção de
patologias em elementos construídos, tais como inclinação sistemas de drenagem e de proteção de taludes.
em postes, cercas e árvores (denotando a possibilidade de
Incluíram-se então, no roteiro preliminar de
processos de rastejo) e recalques em construções existentes,
levantamentos, questões destinadas a caracterizar as bacias
o que poderia remeter à necessidade de investigações mais
de contribuição de águas pluviais com interferência nas
aprofundadas de subsolo para a ocupação.
áreas, assim como dados fisiográficos de destaque para o
Finalmente, incorporou-se à listagem de processos projeto, como a identificação da presença de eventuais
a observar a ocorrência de desagregação superficial drenagens naturais perenes ou intermitentes e observando-
(empastilhamento) em taludes de corte, fenômeno mais se, ainda, as características das condições de recepção de

Método para o projeto habitacional em encostas


águas pluviais nas áreas lindeiras. implantações, a disponibilidade de locais para extração ou
É também necessário incluir questões relativas ao deposição de terra. Caso estas estejam presentes, e caso
comportamento das águas subterrâneas, tanto no que diz haja certeza da implantação do projeto, devem ser realizados
respeito ao subsídio à caracterização de tipologias de estudos para sua utilização, abordando-se os aspectos
construções habitacionais a adotar quanto na caracterização mencionados (volume, estabilidade e aspectos legais),
do projeto de implantação. Eventuais cortes que buscando-se um equacionamento formal.
interceptem o lençol freático (ou lençóis suspensos) podem Caso não haja disponibilidade de áreas próximas
acarretar tanto problemas de estabilidade do terreno quanto adequadas, remete-se ao equacionamento envolvendo as
patologias mais pronunciadas de umidade nas construções, áreas de empréstimo e de bota-fora oficiais do município,
em eventuais paredes em contato com o solo, obrigando à mesmo que distantes, antevendo-se algum agravamento
busca de detalhes específicos de projeto, capazes de de custos em função da necessidade do transporte de terra.
neutralizar os efeitos indesejáveis. Além disso, as
informações sobre as águas subterrâneas poderiam remeter Para complementar o roteiro preliminar de
à necessidade de cuidados especiais no tratamento levantamentos, previu-se ainda a caracterização de diversos
superficial de taludes de corte que viessem a se tornar outros itens necessários à orientação do projeto, incluindo-
necessários, em função de características de projeto. se características de inserção da área no tecido urbano,
através de dados de localização, possibilitando-se
Ainda que, como princípio geral de projeto, deva
cotejamentos dos levantamentos com eventuais
ser buscado um equilíbrio entre volumes de corte e aterro,
mapeamentos geológicos ou geotécnicos ou informações
evitando-se “importação” ou “exportação” exagerada de
bibliográficas disponíveis.
solos, muitas vezes torna-se necessário trabalhar-se com
predominância de cortes ou de aterros, gerando necessidade Tendo em vista permitir o balizamento da concepção
de áreas de empréstimo ou de bota-fora, capazes de preliminar de redes de escoamento de efluentes sanitários
152 e de captação e condução de águas pluviais, previu-se
absorver as demandas do projeto. Em tais áreas, deve ser
considerado o tipo de material disponível para o também identificar, nas áreas a levantar, as características
empréstimo (ou as condições geotécnicas para o das eventuais redes públicas implantadas. Para balizar a
recebimento de aterro), além das capacidades (volumes) concepção de acessos e também de estacionamentos,
disponíveis, das condições de estabilidade e dos aspectos mostrou-se conveniente prever ainda a caracterização do
legais envolvidos. viário local e de eventuais vias presentes ou “insinuadas”
nas áreas a estudar.
Visando a otimização do transporte de terra entre
terrenos para as implantações pretendidas e áreas para Em se tratando de áreas urbanas, tornava-se necessário
extração ou deposição de terra, julgou-se então conveniente também proceder ao levantamento de ações antrópicas
observar, nas imediações das áreas selecionadas para as presentes ou potenciais no perímetro e no entorno imediato

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


das áreas a estudar, como já foi dito, através da observação
de áreas lindeiras, identificando-se eventuais trechos cuja
alteração pudesse trazer riscos à área em estudo.
Seriam assim observados eventuais lotes vagos no
perímetro da área, cujo futuro processo de ocupação
pudesse incluir ações antrópicas capazes de afetar as
condições de equilíbrio do assentamento a projetar,
encaminhando-se recomendações de distâncias prudentes
entre as edificações a projetar e o perímetro da área de
implantação. Seriam também observados eventuais
movimentos de terra no perímetro das áreas em estudo, de
maneira a encaminhar a previsão de obras de regularização
e de eliminação de eventuais situações de risco.
Observar-se-iam, ainda, eventuais interferências de
vias lindeiras às áreas nas condições de segurança da área
destinada ao projeto, assim como de elementos com
interferência nas possibilidades de ocupação, tais como
linhas de transmissão.
Previu-se ainda, através do roteiro elaborado, a
pesquisa de eventual material bibliográfico disponível sobre
terrenos similares aos em estudo.
153
Previu-se, finalmente, a observação da vegetação
presente no terreno, tendo em vista a identificação, para
eventual preservação, de formações vegetais de interesse,
seja enquanto elementos paisagísticos, seja ainda como
mecanismos naturais de estabilização do terreno.
Nas páginas seguintes apresenta-se um roteiro
síntese dos levantamentos desejáveis, denominado “Roteiro
de levantamentos expeditos de dados de meio físico para
apoio ao projeto de habitações de interesse social agrupadas
em encostas – formulário completo”.

Método para o projeto habitacional em encostas


154

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


155

Método para o projeto habitacional em encostas


156

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


5.3 - Método para análise de condicionantes - densidade real dos grãos
do meio físico e geração de recomendações - granulometria por sedimentação
para o projeto
- triaxiais
Como pôde se inferir no Roteiro Completo, a “lei- - de adensamento
tura” das condicionantes de meio físico, em seus aspectos - de cisalhamento
geológicos e geotécnicos, está baseada em três principais
- dinâmicos (menos utilizados)
blocos de informações:
Neste estágio, já com um número suficiente de
- a observação da área através de investigação geológico-
informações a respeito da gleba em estudo, são feitas
geotécnica de superfície, enfatizando a identificação e
considerações e análises com o objetivo de complementar
compreensão dos processos de meio físico presentes; e
os dados necessários para a formulação das recomendações
- a análise de amostras de solo colhidas através de
geotécnicas. Com base nos parâmetros extraídos das
sondagens e a definição de suas características
análises e eventuais ensaios dos solos coletados, é possível
geotécnicas.
estimar suas características físico-mecânicas.
Para a análise das amostras, tendo novamente em
Como intenção geral, na caracterização de taludes
vista a busca de procedimentos expeditos, recomenda-se,
sempre que possível, a utilização da inspeção táctil-visual toleráveis, parte-se do pressuposto de buscar condições-
como forma de trabalho. Em certa medida, a análise táctil- limites, ou seja, busca-se qual a altura máxima e a inclinação
visual depende, porém, da experiência profissional de quem máxima a adotar, com tranqüilidade, nos taludes de corte
as analisa. Caso não se sinta segurança nas interpretações, e de aterro, e sem necessidade de previsão de estruturas de
deve-se lançar mão de ensaios qualitativos e quantitativos contenção, o que, em linhas gerais, possibilita melhor
das amostras de solos provenientes das sondagens a trado. aproveitamento do terreno, sem agravamentos notáveis de
Com a experiência, é quase sempre possível qualificar cor, custos. Ainda que a afirmativa não seja totalmente rigorosa,
vale lembrar que taludes mais abatidos (menos inclinados) 157
dimensão aproximada dos grãos (areias, siltes e argilas etc.)
e transições entre os diversos horizontes presentes. Quando comprometem trechos maiores de terreno, e tais trechos,
perdurarem dúvidas quanto ao comportamento de algum na prática, são inaproveitáveis.
dos solos analisados (por exemplo, suspeita de que A estimativa das condições de segurança deve ser
determinada camada de solo seja vulnerável a fenômenos calcada na aplicação de métodos de cálculo de estabilidade
como o da colapsividade), lança-se mão dos ensaios físicos,
de taludes consagrados (tais como Fellenius, Spencer e
químicos e físico-químicos que se fizerem necessários. A
Bishop, entre outros), que normalmente se baseiam nas
título de ilustração, listam-se a seguir os ensaios mais usuais:
características inerentes aos solos encontrados, tais como
- limite de liquidez ângulo de atrito e coesão. A verificação da estabilidade
- limite de plasticidade propriamente dita deve ser feita por processo iterativo,

Método para o projeto habitacional em encostas


inferindo-se inclinações para os taludes e verificando-se se Para se ter maior clareza das recomendações de
não ocorre comprometimento de sua estrutura interna, com natureza geológico-geotécnica necessárias ao balizamento
conseqüente perda de estabilidade. Na análise de do desenvolvimento do projeto, apresenta-se a seguir uma
estabilidade de taludes, é também importante observar a listagem dos itens esperados.
configuração dos prováveis círculos de ruptura para
A - Definição da capacidade de suporte dos solos para
posterior aplicação no subsídio à caracterização das
fundações de edificações, que deverão ter seus esforços edifícios que se utilizem de fundações diretas
fora dos referidos círculos para assegurar a estabilidade. Objetivo:
- Definir portes de edifícios adequados à área, com a
No IPT aplica-se usualmente ao cálculo de
utilização de fundações diretas.
estabilidade um programa de computador baseado no
método Bishop Simplificado, denominado IPT- ESTAB1 Procedimentos:
- análise de estabilidade de taludes em solos, desenvolvido - Verificar a disposição do lençol freático e, no caso de
pela Seção de Informática aplicada - SIAp - da Divisão de lençóis mais próximos à superfície, alertar quanto à
Engenharia Civil do IPT. necessidade de limitações aos movimentos de terra, à
necessidade de obras de proteção superficial e/ou de
Por sua vez, a estimativa da capacidade de suporte
contenção e quanto à provável necessidade de
se fez com base nas características físico-mecânicas
procedimentos mais complexos para execução de
verificadas nas amostras e em sua comparação com as
fundações1 .
características de suporte de solos semelhantes, cujo
comportamento era de conhecimento prévio e disponível - Definir as características geológicas e geotécnicas dos
através de bibliografia. É evidente que, caso o projeto solos presentes, a partir das amostras obtidas nas
pretendido seja, já a princípio, de maior porte (quatro ou sondagens, sugerindo-se como alternativas:
mais pavimentos), deverão ser acrescentados outros tipos - Analisar as amostras de solo colhidas em sondagens
158 de sondagens e análises. Porém, no âmbito dos propósitos através de inspeção táctil-visual; verificar, em
do presente trabalho, o princípio adotado é o inverso, ou bibliografia, as propriedades de solos idênticos ou
seja, privilegiou-se a prévia identificação da capacidade de similares, de características geológicas e geotécnicas
suporte dos terrenos, dando-se preferência para fundações conhecidas, inferindo-se as características geotécnicas
diretas, apontando-se o número de pavimentos dos solos em estudo; estimar a capacidade de suporte
recomendável, o que passaria a ser incorporado como e avaliar o porte de edifício correspondente à carga
condicionante de projeto. aceitável, ou

1
A presença de lençol freático muito próximo à superfície, que conduza à necessidade de obras mais complexas para assegurar a estabilidade do terreno, pode até
mesmo tornar economicamente contra-indicada a ocupação pretendida. Cabe, uma vez identificada tal situação, proceder a uma avaliação preliminar geral das
obras necessárias, de maneira a subsidiar a decisão de se continuar ou não com o projeto.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


- Analisar as amostras de solo colhidas em sondagens - definir, nos casos aplicáveis, tratamentos especiais em
através dos ensaios laboratoriais usuais, definindo-se taludes de corte, tais como drenagens e proteção
suas características geológicas e geotécnicas, superficial rígida, em terrenos com múltiplos lençóis
inferindo-se a capacidade de suporte e estimando-se d’água suspensos;
o porte de edifício correspondente à carga aceitável, - considerar o perfil e a declividade da encosta e sua
para fundações diretas, ou eventual interferência na concepção de novos taludes,
- No caso de utilização de equipamento de sondagem em trechos localizados; e
computadorizado, registrar as características - definir tratamentos superficiais de taludes a empregar,
geotécnicas fornecidas diretamente pelo equipamento, de acordo com inclinações máximas, ou seja, por faixas
inferindo-se a capacidade de suporte e estimando-se de inclinação do talude, definir qual o tratamento
o porte de edifício correspondente à carga aceitável, superficial a adotar.
para fundações diretas.
B2 - Condições limites para taludes de aterro
B - Caracterização de condições limites para taludes Objetivo:
de corte ou aterro e de tratamentos a dispensar aos - definir a altura e inclinação máxima a adotar em taludes
taludes de aterro no terreno em estudo, sem a necessidade de
B-1 - Condições limites para taludes de corte utilização de estruturas de contenção, combinando a
definição com a dos tipos de proteção superficial
Objetivo:
recomendáveis e de detalhes e condições a adotar no
- definir a altura e inclinação máxima a adotar em taludes
projeto e na construção.
de corte no terreno em estudo, sem a necessidade de
utilização de estruturas de contenção, combinando a Procedimentos:
definição com a dos tipos de proteção superficial - definir as características geotécnicas dos solos
recomendáveis. presentes;
159
Procedimentos: - definir a altura máxima e a inclinação máxima a adotar
- definir as características geotécnicas dos solos nos taludes de aterro, através de métodos consagrados
presentes (de acordo com o exposto para a definição de cálculo de estabilidade de taludes (tais como
do porte de edifício recomendável, no item anterior); Fellenius, Spencer e Bishop, entre outros), utilizando-
se ou não programas de computador como o IPT-
- definir a altura máxima e a inclinação máxima a adotar
ESTAB1, Slope-W etc;
nos taludes de corte, através de métodos consagrados
de cálculo de estabilidade de taludes (tais como - definir tratamentos superficiais de taludes a empregar,
Fellenius, Spencer e Bishop, entre outros), utilizando- de acordo com inclinações máximas; e
se ou não programas de computador como o IPT- - definir condições de projeto e execução para os taludes,
ESTAB1, o Slope-W, etc.; incluindo:

Método para o projeto habitacional em encostas


- características desejáveis dos solos a empregar no D - Definição de obras preliminares e de limitações
aterro; ao projeto, no interior da área
- tratamento da base (remoção de solo superficial, Objetivo:
execução de endentamentos etc.); Alertar sobre a necessidade de obras preliminares ou
- drenagem interna, se for o caso; e de cuidados, no projeto, em trechos de terreno com
- grau de compactação a adotar no aterro, com previsão especial susceptibilidade a processos de meio físico, que
de sua verificação em obra, através de métodos como o possam conduzir a riscos (rolamentos de matacões em
do frasco de areia, Hilf ou similar. superfície, instabilização de taludes de corte e aterro
previamente existentes, progressão de erosões etc.).
C - Diretrizes para o projeto de sistema de drenagem
a adotar no projeto Procedimentos:

Objetivo: Com base na inspeção geológico-geotécnica de


superfície, apontar eventuais pontos anômalos do terreno,
Considerar as características originais de drenagem da
com relação à susceptibilidade a processos de meio físico,
área e estabelecer diretrizes gerais para o projeto do
e recomendar, para estes, a execução de obras preliminares
sistema de drenagem do conjunto a implantar
e/ou limitações à ocupação nas proximidades.
Procedimentos:
- para taludes de corte ou aterro previamente existentes,
- utilizar os resultados dos levantamentos no que diz
definir eventuais obras de retaludamento e/ou
respeito à caracterização da drenagem de águas pluviais
na área e em seu entorno, identificando-se pontos estabelecer distâncias mínimas a observar entre edifícios
preferenciais de lançamento de águas pluviais a coletar a implantar e a crista ou o pé dos taludes originais ou já
na área; retaludados; indicação, se for o caso, de obras de
contenção para estabilização de taludes previamente
- indicar a eventual necessidade de manutenção de linhas
160 existentes;
originais de drenagem da área;
- para matacões em superfície, definir remoções
- alertar sob a eventual necessidade de busca de
necessárias e/ou obras de estabilização;
alternativas para coleta e destinação de águas pluviais
de origem exterior à área, seja através de dispositivos - para erosões internas à área, definir eventuais obras
na própria área, seja através da melhoria de redes de recuperação e, num âmbito mais geral, prescrever
públicas. tratamentos superficiais para trechos de terreno que
- Verificar a eventual presença de várzeas lindeiras à forem permanecer sem ocupação; e
área e indicar procedimentos aplicáveis para evitar - para eventuais corpos de tálus em “colos” de encostas,
inundações através das pluviais águas coletadas na área definir as limitações locais à movimentação de terra
e suas adjacências. (cortes e/ou aterros) e alertar quanto à necessidade de

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


eventuais obras que assegurem a estabilidade. e o destinado a encostas deve residir num caráter de
interação mais sistemático, aplicado a todas as fases, entre
E - Definição de limitações ao projeto em sua relação
profissionais das áreas de arquitetura e urbanismo, da
com áreas e construções vizinhas
geologia e da geotecnia. Isto se justifica pelo fato de que,
Objetivo: em encostas, decisões inadequadas de projeto podem
Considerar as características originais do entorno facilmente redundar em instabilizações de terreno com
imediato da área e estabelecer limites de ocupação junto conseqüentes riscos ou deseconomias.
a seu perímetro.
Como já se mencionou anteriormente, nas áreas de
Procedimentos: arquitetura e urbanismo destacam-se, no que diz
- utilizar os resultados dos levantamentos no que diz essencialmente respeito às atividades de projeto, as
respeito à caracterização do entorno imediato da área seguintes:
(taludes periféricos, terrenos vizinhos, construções
- elaboração de estudo preliminar de arquitetura e de
vizinhas, ruas etc.) e, considerando as características
implantação com base nas diretrizes geotécnicas
geotécnicas dos solos presentes, estabelecer limites de
desenvolvidas;
ocupação, isto é, definir, prudentemente, distâncias
mínimas a observar entre edifícios ou demais obras - análise interdisciplinar do estudo preliminar, discussão
intervenientes (por exemplo, vias) a implantar e as e equacionamento de eventuais novas questões de
divisas da área nos trechos com possibilidade de natureza geotécnica identificadas, solicitação de novas
interferência sobre a estabilidade de construções ou diretrizes e resolução de problemas localizados de
terrenos lindeiros. geotecnia;
- elaboração do anteprojeto de arquitetura e de
implantação com base nas diretrizes geológico-
5.4 - Método para a elaboração do projeto geotécnicas revistas; 161
propriamente dito
- análise interdisciplinar do anteprojeto, identificação
5.4.1 - A interdisciplinaridade como método de novas questões de natureza geotécnica, solicitação
Considerando-se o projeto como um processo de novas diretrizes e resolução de problemas localizados
conduzido em etapas, com crescente nível de detalhamento, de geotecnia;
dos estudos preliminares ao projeto executivo e, - elaboração do projeto executivo de arquitetura e de
posteriormente, pelo menos em moldes desejáveis, com implantação com base nas diretrizes geológico-
atividades complementares de revisões e adaptações no geotécnicas revistas;
período de obras, reforça-se, inicialmente, que a diferença - análise interdisciplinar do projeto executivo,
fundamental entre o projeto destinado a terrenos comuns identificação de novas questões de natureza geotécnica,

Método para o projeto habitacional em encostas


solicitação de novas diretrizes e resolução de problemas A primeira intenção que deve estar presente na
localizados de geotecnia e concepção do projeto é a busca de soluções de arquitetura
- acompanhamento da implantação (fase de obras), e de urbanismo que, transcendendo o jargão da adaptação
identificação de novas questões e resolução de do projeto à topografia, envereda por um campo pouco
problemas localizados. mais complexo, que é o da adaptação do projeto a um
conjunto de condicionantes de meio físico mais
Tendo em vista que, às vezes, aspectos funcionais
desenvolvido, que inclui (além da topografia, é claro), entre
do projeto podem tornar convenientes soluções que
outras, mas com maior centralidade:
escapem das diretrizes geotécnicas iniciais, o sentido da
interação prolongada entre os profissionais das diversas - as capacidades e restrições do meio físico local frente
áreas envolvidas é exatamente o de possibilitar um projeto às ações antrópicas, considerando os processos de meio
que, num processo de aperfeiçoamento contínuo, atenda físico presentes ou potenciais, as qualidades dos solos
satisfatoriamente tanto os aspectos funcionais quanto presentes e suas capacidades e susceptibilidades; e
economia e segurança na solução das questões geo- - as condições de insolação dos edifícios, com ênfase
técnicas. nas aberturas de insolação de dormitórios, requisito
Por demandas mais específicas do projeto podem especialmente importante em encostas, onde as
se tornar necessárias, por exemplo, alturas de taludes condições de insolação podem ser facilmente
superiores às recomendadas inicialmente. Discutir-se-ão, prejudicadas, seja por obstáculos externos ao terreno,
então, alternativas para, dentro de padrões técnicos seguros, seja ainda em função da própria posição relativa
possibilitar a nova altura, por exemplo, com a definição de assumida entre os edifícios a implantar.
nova inclinação, mais abatida. Tratamentos superficiais mais Assim, de uma maneira sintética e inicialmente
complexos de superfícies de taludes, exigidos nas diretrizes simplificada, busca-se no projeto, no método aqui
162 iniciais, podem também vir a ser eventualmente delineado, a obtenção de duas principais qualidades:
dispensados, por exemplo, com maior abatimento dos
- a satisfação das diretrizes geotécnicas estabelecidas; e
taludes, combinado com tratamento superficial menos
- a obtenção de boas condições de insolação nas
complexo e assim por diante. O projeto habitacional para
unidades habitacionais concebidas, com ênfase na
encostas deve, enfim, caracterizar-se pelo diálogo
insolação de aberturas de iluminação de dormitórios.
prolongado entre as especialidades envolvidas,
estabelecendo-se algo como um processo de “negociação”, Além dessas duas qualidades, o projeto para
onde tanto a concepção das edificações quanto da encostas, com maior intensidade que os projetos para
implantação pode ir passando por ajustes e adaptações, terrenos menos complexos, deve ainda se pautar por uma
assim como vão sendo procedidas revisões das diretrizes preocupação mais precoce com as obras geotécnicas que
geotécnicas para as novas situações estabelecidas. se farão necessárias, uma vez que estas interferem no

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


aproveitamento do terreno. atividade de projeto em partes, o que se faz em ordem
Para o arquiteto, projetar um assentamento crescente de complexidade, da unidade habitacional ao
habitacional é uma atividade que dificilmente pode ser conjunto, em consciente contradição com o caráter de
fragmentada em partes estanques. Mesmo em projetos simultaneidade da concepção há pouco referido. Mas se,
habitacionais mais padronizados, como os usualmente para delinear o método, discorre-se isoladamente sobre
utilizados nos programas conduzidos pelo Poder Público, é partes do processo de concepção, reforça-se que o processo
notória, por exemplo, a interferência entre tipologias de do projeto, na realidade, trabalha simultaneamente todos
unidades habitacionais e padrões de implantação adequados. os âmbitos, uma vez que decisões de projeto relativas à
unidade interferem sobre as formas de agrupamento das
A atividade de projeto é, na realidade, um processo
unidades, que por sua vez interferem na definição de
que trabalha simultaneamente diversas condicionantes, que
circulações e acessos e assim por diante. Isto posto, passa-
envolvem, entre outras, o programa a atender nas unidades
se a arrolar componentes do método aplicado.
habitacionais, a definição do sistema construtivo a adotar,
a solução espacial, com agenciamento dos ambientes, a
busca de conforto ambiental adequado, etc., envolvendo 5.4.2 - A concepção de unidades habitacionais
ainda formas de agrupar as unidades e interagindo tais Tendo em vista o atendimento às diretrizes geo-
formas com traçados de vias de circulação para o conjunto. técnicas para o projeto, busca-se, na concepção da tipologia
Trabalha-se efetivamente com um grande número de da unidade habitacional, isolada ou agrupada, um partido
variáveis e, além disso, com a consciência de que não que possibilite:
existem fórmulas mágicas que conduzam a respostas únicas - adaptação ao terreno, contemplando:
ou capazes de atender, de forma precisa e plenamente
. implantação que gere, preferencialmente, quer na
satisfatória, todos os requisitos aplicáveis. Trabalha-se,
área de projeção da unidade isolada ou agrupada, quer
ainda, num processo de aproximações sucessivas, onde os
no seu entorno imediato, apenas a necessidade de 163
objetos do projeto passam por diversas transformações e
cortes e/ou aterros que se situem nas faixas de altura
aperfeiçoamentos.
e inclinação recomendadas nas diretrizes geotécnicas,
Colocada esta preleção, fica claro que qualquer de forma a dispensar estruturas de contenção;
método de projeto de assentamentos habitacionais para
. adoção de porte de edificação de acordo com o reco-
encostas que venha a ser sugerido não tem a pretensão de
mendado nas diretrizes geotécnicas para o projeto; e
estabelecer uma “receita mágica” mas, apenas e tão
. geração de cortes e aterros balanceados, evitando-se, na
somente, um rol de informações auxiliares para a busca de
medida do possível, importação ou exportação de terra.
soluções de projeto mais adequadas e seguras. Além disso,
para se verbalizar o método aplicado, torna-se também Além dessas, ainda nos passos iniciais do estudo
necessário, pelo menos circunstancialmente, fragmentar a preliminar, deve estar presente a preocupação de um

Método para o projeto habitacional em encostas


agenciamento de ambientes que possibilite dormitórios com
aberturas voltadas para orientações com melhor possibi-
lidade de insolação, de acordo com o recomendável para a
região, considerando tanto a orientação da declividade
quanto os obstáculos de entorno e o sombreamento entre
os edifícios que estão sendo concebidos.

Adaptação ao terreno
A adaptação ao terreno, aqui compreendendo suas
características geotécnicas e topográficas, é usualmente
conseguida de duas principais formas. A primeira delas
requer a construção de estruturas de embasamento com a
função específica de intermediar a casa e o terreno. Nesta Figura 5.1. Habitações convencionais apoiadas sobre estrutura de
concepção, o volume de terra a ser movimentado pode ser embasamento de aço, em desenvolvimento pelo IPT, em projeto para
a SCTDET.
resumido a valores muito discretos, podendo-se
eventualmente, até mesmo, dispensar quaisquer cortes e simplificar e padronizar a estrutura de embasamento de
aterros, pelo menos para a implantação das unidades tal forma que se consiga sua produção em grande escala,
habitacionais propriamente ditas. Pequenos ajustes de terreno reduzindo-se assim os custos.
podem se tornar necessários apenas para a implantação de
circulações do conjunto e dos acessos às unidades. A título Pode-se ainda tratar o projeto de construções
“destacadas” do terreno, em encostas, em moldes pouco
de ilustração, apresenta-se, a seguir, na Figura 5.1, a
mais convencionais, sem estrutura isolada de embasamento,
perspectiva de uma implantação de casas apoiadas sobre
criando-se paredes de apoio que definem vazios entre a
embasamento feito com estrutura metálica. Trata-se de
164 construção e o solo, como ilustra a Figura 15. Neste caso,
projeto em desenvolvimento, no IPT, para a SCTDET
as paredes longitudinais constituem a principal forma de
(Secretaria de Ciência, Tecnologia, Desenvolvimento
apoio da construção sobre o terreno, exigindo-se
Econômico e Turismo do Estado de São Paulo), que se utiliza
movimentos de terra também bastante discretos. Porém,
de embasamento estrutural de aço, sobre o qual se apoia
neste tipo de solução, ainda que se vede lateralmente a
unidade habitacional em sistema construtivo convencional.
construção (como se vê na fachada lateral, na Figura 5.2, a
Porém, a utilização de estruturas de transição entre seguir), há o risco de o morador querer aproveitar os vazios
o terreno e a unidade habitacional, sejam elas de aço, como inferiores para novos cômodos, procedendo escavações sob
as ilustradas na Figura 5.1, sejam de concreto, acaba a casa, potencializando-se sérios perigos. Além disso, os
elevando sensivelmente os custos. No caso do projeto em pisos mais próximos ao terreno são necessariamente lajes,
desenvolvimento no IPT para a SCTDE, a tentativa é a de encarecendo-se a construção.

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Figura 5.2. Fachada lateral e corte transversal de unidades projetadas para encostas. Fonte: ANDRADE, M.R. et SOUZA, M.A.A. (1981)2. Manual
de projeto de habitação popular. Parâmetros para elaboração e avaliação. (s/pág.).

Uma segunda forma de se conseguir boa adaptação quanto o terreno, com critérios e com balizamento técnico
entre unidades habitacionais e terreno é trabalhar mais refinado. Hoje, com o crescente aperfeiçoamento de
simultaneamente com a tipologia da habitação e com cortes tratores, e, em particular, de mini-tratores, é possível e segu-
e aterros criteriosos, remodelando-se discretamente o terreno ro proceder a movimentos de terra mais precisos, mesmo
dentro dos padrões recomendados nas diretrizes geotécnicas. em terrenos muito declivosos, permitindo-se lançar mão
Ainda que, do ponto de vista ambiental, esta forma de projetos cujas características envolvam cortes e aterros
seja pouco mais agressiva, do ponto de vista econômico é mais refinados. Nesta situação, a construção pode ficar
bastante vantajosa, uma vez que movimentos de terra ainda assentada diretamente sobre o terreno ponderadamente
são mais baratos que estruturas como as mencionadas remodelado, dispensando-se laje no primeiro piso e
anteriormente, ilustradas nas Figuras 5.1 e 5.2. estruturas de transição, que tendem a encarecer a obra. A 165

Longe de apregoar-se aqui a realização dos extensos Figura 5.3, a seguir, apresenta tipologia concebida com
e indiscriminados movimentos de terra (que têm carac- estas características. Trata-se de tipologia composta, em
terizado a adaptação do limitado rol de tipologias com que corte, por três unidades habitacionais sobrepostas, com
os programas habitacionais convencionais ocupam ambientes em desnível. Refere-se a projeto desenvolvido
encostas), aponta-se, isto sim, para uma forma intermediária pelo IPT no âmbito da pesquisa patrocinada pela FINEP
de ocupação, onde se trabalha tanto a tipologia do edifício e pela CEF que, parcialmente, originou esta publicação.

2
ANDRADE, M.R. et SOUZA, M.A.A. (1981). Manual do projeto de habitação popular. Parâmetros para sua elaboração e avaliação. Recife. PERNAMBUCO
(Governo...). SECRETARIA DE HABITAÇÃO.

Método para o projeto habitacional em encostas


166
Figura 5.3. Corte transversal de tipologia com três unidades sobrepostas, com acesso por via intermediária para pedestres (passeio). A
adaptação lança mão tanto de movimentos de terra discretos quanto de desníveis entre os ambientes das unidades habitacionais. A edificação
resultante se apóia diretamente sobre o terreno discretamente remodelado, dispensando estruturas de transição e laje para o primeiro piso.

É também possível sobrepor parcialmente unidades, condominiais (como o trecho sombreado sob a unidade 1,
criando-se construções escalonadas, como as apresentadas contíguo à unidade 2, no corte. Note-se também, na figura,
nas Figura 5.4 a seguir, onde a tipologia representada é que o conjunto, em sua parte inferior, utiliza-se ainda de
destinada a terreno de elevada declividade, caracterizando- uma área de uso comum para as duas unidades, cujo papel
se pela sobreposição parcial de unidades, como pode ser também abrange o de arremate. A implantação
visto no corte, onde a unidade 1 apoia-se parcialmente na exemplificada possibilita ainda um número de unidades
unidade 2, compreendendo ainda a definição de circulações bem maior, mantendo-se o mesmo princípio de articulação

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apresentado, em fileiras mais longas, dispostas ortogo-nalmente às curvas de nível. Este tipo de implantação consegue boa
adaptação em terrenos bastantes íngremes. O exemplo apresentado na Figura 5.4 refere-se também a projeto desenvolvido
pelo IPT no âmbito da pesquisa patrocinada pela FINEP e pela CEF que, parcialmente, originou esta publicação, e
destina-se a terreno com declividade por volta de 50%.

167

Figura 5.4. Fachada lateral e corte transversal de tipologia que se


utiliza de sobreposição parcial de unidades. A edificação resultante
se apóia diretamente sobre o terreno remodelado, também
dispensando estruturas mais complexas de transição e laje para os
pisos mais próximos ao terreno.

Método para o projeto habitacional em encostas


Para adaptação ao relevo é ainda possível combinar possível o número de níveis, mantendo-os, de preferência,
os partidos de concepção de unidades até agora apresentados, até o máximo de dois. Em segundo lugar, grupos de
utilizando-se edificações parcialmente apoiadas sobre o ambientes mais afins devem se situar num mesmo nível.
terreno e parcialmente apoiadas em estruturas de transição. Assim, é desejável que a sala, a cozinha e a área de serviço
ocupem conjuntamente um mesmo nível. Pelo mesmo
Acredita-se que, atualmente, a adoção de novas
critério, deve-se buscar manter dormitórios e banheiro num
tipologias, a apoiar diretamente sobre o solo, mas com boa
mesmo nível.
capacidade de adaptação ao relevo e às condições de insolação,
envolvendo alterações ponderadas e geotecnicamente balizadas Note-se que o escalonamento pode gerar ainda,
de terreno, constituam a melhor saída para novas ocupações eventualmente, maiores dificuldades para se conseguir, no
em encostas, conduzindo a soluções seguras e mais projeto da unidade habitacional, o que se denomina por
econômicas, sem a necessidade de construção de estruturas “bloco hidráulico” (concentração dos aparelhos ou peças
de transição entre o terreno e a edificação. de utilização hidráulica numa mesma região da unidade
habitacional, de preferência com as tubulações de água nu-
Na busca de soluções, a adaptação do projeto às
ma única parede). Se, a rigor, deva permanecer como reco-
condicionantes geológico-geotécnicas e topográficas sugere
mendação geral a de se buscar soluções que possibilitem a
geralmente a adoção de ambientes escalonados numa
obtenção de “bloco hidráulico”, deve haver maior tolerância
mesma unidade, o que facilita, na interface com o terreno,
à sua eventual fragmentação, desde que decorrente de me-
manter cortes e aterros dentro dos limites estabelecidos
lhor possibilidade de adaptação da tipologia ao terreno.
nas diretrizes, cuja observância deve ser mantida também
na área de projeção das unidades habitacionais. Quanto à questão de paredes em contato com terra,
vale destacar que a utilização de artifícios de projeto e de
Tipologias com estas características tendem a
detalhes construtivos adequados possibilita minimizar os
envolver, porém, como já se inferiu, a adoção de desníveis
efeitos indesejáveis da umidade que tende a estar presente
entre ambientes de uma mesma unidade ou sobreposição nesta situação.
parcial ou total de ambientes ou unidades. Nestas soluções,
168 algumas particularidades de projeto devem ser observadas, Sempre que possível, deve-se procurar que paredes
destacando-se, principalmente: em contato com terra pertençam a ambientes onde eventual
umidade não prejudique sobremaneira o uso. É o caso típico
- a utilização de critérios para a separação de ambientes de banheiros e de circulações privativas ou comuns, sejam
de uma mesma unidade em níveis diferentes; e elas escadas ou corredores. Outro recurso é a utilização de
- a utilização de cuidados especiais em paredes de caixões perdidos entre paredes de cômodos onde a umidade
ambientes que apresentem contato com terra. é indesejável (dormitórios, por exemplo) e a terra, asse-
O escalonamento de ambientes, numa mesma gurando-se melhor proteção contra a umidade.
habitação, separando através de desníveis os cômodos O uso de paredes de dormitórios em contato direto
destinados a diferentes funções, pressupõe algum critério com terra só deve ser tolerado, por sua vez, em dormitórios
na separação. Em primeiro lugar, deve-se reduzir ao mínimo que recebam boa insolação.

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Porém, qualquer que seja a parede em contato com em dois níveis interligados por escada, por exemplo, é
terra, deve ser prescrito, no projeto, tratamento eficiente possível conceber planta que permita diversas
(impermeabilização e drenagem) da face em contato com configurações de escada, com diferentes números de
terra. degraus, o que possibilita a adoção de diferentes desníveis
entre os ambientes agrupados em cotas distintas,
Caso sejam adotadas unidades ampliáveis, cabe frisar
conferindo-se ao projeto maior capacidade de adaptação
que eventuais ampliações de unidades em encostas devem
às variações do relevo.
se basear, preferencialmente, em soluções que evitem a
necessidade de novos movimentos de terra, dirigindo-se as Em blocos de unidades geminadas ortogonalmente
ampliações como sobreposições a áreas já construídas (como, às curvas de nível, é também possível adotar diferentes
por exemplo, lajes superiores de unidades contíguas, ou de desníveis entre unidades contíguas, mais uma vez
ambientes contíguos, mais baixos, de uma mesma unidade). favorecendo a adaptação ao relevo. De acordo com as
características do terreno, porém, quando, por exemplo,
Outro recurso que pode ser adotado é a utilização
haja diversos trechos com diferentes declividades e
de pés-direitos duplos, de forma a permitir a futura
diferentes orientações, pode tornar-se necessária a adoção
subdivisão vertical com inclusão de nova laje. Tais projetos,
de mais de uma tipologia de projeto.
porém, são bastante complexos, exigindo detalhes
construtivos refinados, que possibilitem a construção da É importante lembrar que, para maior racionalidade
ampliação sem prejuízos mais notáveis à utilização normal construtiva, os desníveis entre ambientes de uma mesma
da unidade ou unidades envolvidas. Além disso, deve-se unidade habitacional ou entre pisos de diferentes unidades
manter em vista a capacidade de suporte do terreno, que geminadas deve considerar a modulação vertical do
não deve ser extrapolada com as ampliações que impliquem componente de alvenaria a empregar nas paredes. Assim,
em número de pavimentos superior ao definido pelas por exemplo, desníveis referentes a unidades a construir com
diretrizes geotécnicas. Como princípio geral, porém, deve- blocos de concreto usuais devem ser múltiplos de 20cm.
se entender preferencialmente a unidade habitacional em Os recursos de projeto incluem ainda a geminação
encosta como não ampliável, evitando-se principalmente e/ou a sobreposição de unidades, sejam elas planas ou 169
os riscos que se associam à realização de movimentos de escalonadas, respeitando-se, porém, a capacidade de
terra pelos usuários, sem assistência técnica. suporte, traduzida em um número de pavimentos adequado
ao terreno, nas diretrizes geotécnicas, para que se possibilite
Destaca-se ainda que a desejável padronização das
o emprego de fundações menos onerosas.
unidades habitacionais isoladas ou agrupadas, para
conjuntos específicos, quando em terrenos que apresentem Destaca-se, finalmente, que o projeto de tipologias
declividades variáveis em seus diversos trechos, pode ser habitacionais para encostas, seja para unidades isoladas ou
mantida, em certa medida, utilizando-se projetos básicos agrupadas, pressupõe um cuidadoso tratamento da captação
que permitam flexibilidade na definição de desníveis entre e condução de águas pluviais inerentes à edificação. Os
ambientes de uma mesma unidade ou entre unidades. No projetos devem incluir a solução da captação das águas
caso de unidades habitacionais com ambientes distribuídos provenientes de coberturas e de trechos privativos de

Método para o projeto habitacional em encostas


terreno e sua destinação para o sistema geral de drenagem mais radicais.
do conjunto. Lembra-se também que é necessária a previsão No projeto de implantação propriamente dito, restam
de proteção superficial do perímetro da unidade ou das efetivamente quatro principais fatores a observar com maior
unidades agrupadas, de forma a dificultar a infiltração de destaque no caso dos projetos para encostas, no método
água junto às fundações, o que poderia propiciar recalques, apregoado no presente trabalho:
altamente indesejáveis em construções em encostas.
- o “ajuste fino” do posicionamento das unidades ou
dos grupos de unidades concebidas, com a adaptação
5.4.3 - A concepção da implantação (projeto às características localizadas de terreno, seja nas áreas
urbanístico) de projeção dos edifícios, seja em seu entorno;
Como já foi dito anteriormente, sendo os projetos - a concepção final do traçado e dimensionamento das
de arquitetura e de implantação (urbanismo), na realidade, vias de circulação, assim como de estacionamentos;
conduzidos paralelamente, uma vez que, ao mesmo tempo - a previsão e localização de áreas comunitárias para
em que se concebem tipologias de habitações isoladas ou lazer ou para outros fins que se façam necessários; e
agrupadas, concebe-se também, pelo menos prelimi-
- a concepção simultânea e progressiva das obras
narmente, princípios gerais de implantação, aí incluindo
geotécnicas que se associam ao projeto de implantação,
acessos e circulações. Desta maneira, ao se passar para o
necessárias para assegurar a estabilidade do terreno e
projeto de implantação propriamente dito, já se
boas condições de drenagem.
caracterizam, a grosso modo, as linhas gerais a adotar. Sabe-
se de antemão, por exemplo, qual a orientação a adotar Os três primeiros itens, mais da esfera da arquitetura
para as unidades ou blocos (cuja concepção deve atender e do urbanismo, devem primordialmente proporcionar o
simultaneamente às orientações com relação à direção atendimento às diretrizes geotécnicas estabelecidas, mais
norte-sul e com relação à orientação da declividade do uma vez com especial destaque no que diz respeito à altura
terreno. De passagem, lembre-se que as tipologias das e inclinação máximas a imprimir a taludes de corte e aterro.
170 edificações desenvolvidas, a princípio, já devem estar Assim, os movimentos de terra eventualmente necessários
adaptadas às condições gerais de orientação e de declividade para a implantação de edifícios, vias e demais itens
da área e que, quando necessário, os projetos já devem componentes do projeto, devem obedecer às prescrições
prever mecanismos de adaptação a eventuais variações de estabelecidas.
declividades presentes no terreno, possibilitando ajustes
O “ajuste fino” das edificações ao terreno
nos desníveis entre partes da unidade habitacional ou entre
No especificamente tocante ao “ajuste fino” dos
unidades, com a possibilidade de até se utilizar uma mesma
edifícios às condicionantes localizadas de terreno, destaca-
planta básica, como foi visto anteriormente.
se, inicialmente, que o principal artifício de projeto a utilizar
Em terrenos com características muito variadas, tende a ser a combinação de movimentos de terra para a
como já foi dito, devem ter sido desenvolvidas mais implantação dos edifícios com movimentos de terra para a
tipologias, capazes, em seu conjunto, de resolver variações construção de acessos e circulações. Retomando-se a

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ilustração apresentada na Figura 5.3, pode-se notar que o mesmo larguras maiores, sem agravamento de terra-
ajuste da edificação ao terreno é, na realidade, tratado plenagens), que dêem acesso a vias estreitas, transversais,
simultaneamente com o ajuste da via de circulação para pedestres, “paralelas às curvas de nível”, e lindeiras a
(“passeio”, na figura). Ainda na interface do projeto de blocos extensos de habitações. Os maiores entraves à
arquitetura dos edifícios com o projeto de implantação, as adoção desta concepção residem, em parte, em aspectos
preocupações com o sistema de drenagem também devem legais (tratados no Capítulo 3) e, em parte, em aspectos
se refletir, levando à adoção de soluções que assegurem culturais, tanto associados ao meio técnico quanto à
traçados e condições de escoamento e destinação mais população. O meio técnico, no Brasil, resiste à utilização
favoráveis. Muitas vezes, pequenas revisões de cotas de de unidades habitacionais ou edifícios multifamiliares com
implantação de edifícios, grupos de edifícios ou de vias de acesso apenas através de vias exclusivas para pedestres.
circulação podem possibilitar traçados bem mais favoráveis Nos programas conduzidos pelo Poder Público, raríssimos
de sistemas de drenagem. são os exemplos de conjuntos com estas características.
Concepção final de vias de circulação e Destaca-se que, em países desenvolvidos, como o Japão,
estacionamentos são freqüentes implantações, mesmo recentes, com esta
concepção de circulação (unidades com acesso apenas para
O exercício do projeto mostra que os maiores garga- pedestres), como será visto no Capítulo 6. A segunda
los associados a projetos para encostas são as vias de circula- observação de natureza cultural, mais difícil de trabalhar,
ção e os estacionamentos. Normalmente demandatários é uma presumida aspiração da população de que seja
de volumosos movimentos de terra para sua implantação, possível cada cidadão chegar com um automóvel até a porta
estes componentes do projeto para encostas requerem parti- de sua casa. Ainda que não se disponha de pesquisas ava-
cular parcimônia no seu dimensionamento, de maneira a liando a exatidão desta afirmação, cabe salientar que ocupa-
minimizar as demandas por cortes e aterros. ções de encostas onde o automóvel chegue a todas unida-
Nesta situação, considerando-se que vias para pedes- des, isoladas ou agrupadas, tendem a definir uma magnitude
tres, por possibilitarem a adoção de larguras mais discretas, impressionante de movimentos de terra, onde só podem
pelo menos quando comparadas com vias usuais para veí- se tornar mais freqüentes as situações de risco e os desastres, 171
culos, devem constituir os elementos de destaque para a frutos de uma alteração ambiental exagerada.
concepção da circulação no conjunto. Ainda assim, confor-
Evidentemente, o dimensionamento de vias para
me a disposição da via no relevo, a largura a adotar deve veículos e de estacionamentos deve se pautar também pela
ser a mínima possível, visando-se, naturalmente, menor parcimônia, utilizando-se, nas vias, a menor largura possível
demanda por cortes e aterros. (quando estas forem mais “paralelas às curvas de nível”) e
Do ponto de vista essencialmente geométrico, a cara- utilizando-se greides elevados, se necessário, no limite aceito
cterização de um sistema viário ideal para encostas aponta pela legislação. A adoção de passeios laterais em vias para
para a adoção de vias bastante inclinadas ou escadarias veículos deve ponderar as características do efetivo uso
“ortogonais às curvas de nível” (ambas dispensam maiores que terá o logradouro. Se as condições de implantação
movimentos de terra para sua implantação, permitindo até apontarem que a circulação de pedestres pode se dar, em

Método para o projeto habitacional em encostas


condições satisfatórias, apenas em um dos lados da via, do previstos observem igualmente as prescrições geotécnicas,
ponto de vista técnico não se justifica a adoção de passeios lançando-se mão de projetos adaptados ao relevo, com porte
dos dois lados. e demanda de movimentos de terra que possibilitem seguir
Em terrenos onde já haja vias ou acessos para as diretrizes geotécnicas.
veículos implantados, formais ou informais, vale a pena a Transcendendo um pouco a questão do projeto,
tentativa de aproveitá-los no projeto de implantação, com destaca-se a séria necessidade de que trechos de terreno
as adaptações que se fizerem necessárias. Tais vias tendem remanescentes devem ter sua destinação e tratamento
a constituir soluções espontâneas e naturais, e sua previstos, visando-se tanto eliminar a possibilidade de
consideração permite, muitas vezes, evitar movimentos de sediarem, a posteriori, alguma ocupação indevida (como
terra em outras porções do terreno. novas construções, irregulares), dando espaço à criação de
Cabe destacar que, paradoxalmente, o uso das situações de risco, ou à deterioração, por falta de manutenção.
porções mais planas dos terrenos em encostas acaba sendo Áreas indicadas no projeto como áreas verdes devem
destinado a vias para veículos e a estacionamentos. Se receber efetivamente vegetação adequada, além de prever-
tipologias de edificações criteriosamente concebidas conse- se, por algum instrumento administrativo, sua manutenção
guem se adaptar com boa adequação às condicionantes periódica.
topográficas, o mesmo não se aplica ao viário para veículos
Quando nas diretrizes geotécnicas forem
e a estacionamentos.
recomendadas proteções superficiais em taludes, com
Previsão de áreas comunitárias gramíneas, por exemplo, deve-se ter em mente que tal
De uma maneira geral, os projetos habitacionais de tratamento não tem intenção estética (apesar do seu efeito
interesse social prevêem a implantação de uma certa gama positivo neste sentido), mas a introdução de um recurso
de equipamentos comunitários, incluindo-se sistemas ou áreas para proteger o solo da superfície do talude contra a
de lazer, equipamentos educacionais, de saúde, centros incidência direta de chuva e contra a erosão e que,
comunitários, áreas para comércio etc. No presente trabalho, paralelamente, confere à superfície do talude, através das
172 porém, a implantação típica tratada (a do pequeno raízes, uma estruturação auxiliar.
assentamento em encosta, onde o número de unidades
Concepção simultânea e progressiva das obras
habitacionais previsto se situa aquém de 100 unidades, a
geotécnicas necessárias
demanda por equipamentos limita-se bastante, abrangendo
principalmente áreas ou sistemas de lazer e, eventualmente, Na elaboração do projeto de implantação verificam-
pequenas áreas para comércio e para centro comunitário. se interferências importantes das obras geotécnicas,
Ainda que alguns equipamentos, como o centro comunitário, principalmente notáveis nas interfaces entre circulações e
possam ser utilizados mesmo em pequenos conjuntos, o porte sistemas de drenagem e através dos próprios espaços
das implantações aqui tratado não demanda necessariamente demandados por taludes de corte e aterro. Torna-se assim
sua implantação. Recomenda-se, de qualquer forma, que os desejável que a concepção de sistemas de escoamento de
eventuais equipamentos comunitários que venham a ser águas pluviais e das demais prováveis obras geotécnicas

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


que serão envolvidas, seja no interior da área, seja em seus - definição de componentes básicos de constituição e
limites ou em seu entorno, sejam equacionados, na medida complementação do sistema de drenagem (canaletas de
do possível, simultaneamente. drenagem, transposições de circulações, caixas de
Tradicionalmente, o projeto de drenagem constitui passagem ou inspeção, bocas de lobo, dissipadores de
trabalho complementar, na maioria das vezes postergado energia, escadarias drenantes etc.); e
para a fase de projeto executivo, não se caracterizando como - características básicas de eventuais estruturas de
atribuição do arquiteto. No projeto para encostas, porém, contenção adotadas.
o arquiteto também deverá estar imbuído de preocupações Na interface do terreno com paredes, deve-se ter
específicas quanto ao sistema de drenagem, pois a presente a necessidade de previsão de eventuais drenagens
implantação (envolvendo habitações, vias de circulação etc.) internas, assim como já se ter indicado tratamento de
é, por excelência, fator de definição das condições de impermeabilização para a face em contato com solo.
drenagem, originando concentrações de fluxos, cuja
captação e destinação devem ser auxiliadas pelas próprias
características adotadas, tanto na arquitetura das unidades 5.5 - Projetos para encostas e insolação
isoladas ou agrupadas quanto no projeto de implantação.
Como já foi dito, os projetos para encostas
Além disso, a eventual necessidade de emprego de demandam maior preocupação na locação das aberturas
estruturas de contenção, participando de forma importante de iluminação e insolação dos ambientes, com ênfase no
na composição dos custos de implantação, merece um que diz respeito a dormitórios. Nas condições de insolação
estudo preliminar das obras envolvidas, com a participação correspondentes às de São Paulo, por exemplo, numa
de engenheiro da área de geotecnia, quando poderão ser vertente com declive apontando para o sul, é muito fácil
buscadas soluções alternativas, seja através do estudo de um prédio a jusante estar, no inverno, situado
contenções mais econômicas, seja pela própria revisão do permanentemente na área de projeção de sombra de prédios
projeto de implantação, de maneira a eliminar o uso de tais ou outros obstáculos a montante e/ou nas laterais. Numa
estruturas ou de reduzi-las, na medida do possível, a situação limite, as superfícies de vertentes com declividades 173
dimensões mais palatáveis. superiores a 43o (93,3 %), voltadas para o sul, não recebem,
Recomenda-se, ainda na fase de anteprojeto, que em São Paulo, nenhuma insolação direta no Solstício de
toda a previsão de tratamentos superficiais a implementar Inverno. Como construções em encostas podem incluir,
em taludes e, quando for o caso, de canaletas de crista e de ainda, paredes em contato com o solo (o que pode trazer
base, de acordo com o recomendado nas diretrizes problemas com umidade) e, caso haja uma insolação
geotécnicas, já esteja razoavelmente caracterizada, deficiente, tendem a surgir compartimentos efetivamente
juntamente com as demais obras geotécnicas a utilizar, insalubres nas edificações.
incluindo: Através do estudo da trajetória aparente do sol, de
- traçado e dimensionamento básico do sistema de forma integrada com a declividade dos terrenos, podem-
drenagem; se inferir, em encostas, algumas orientações preferenciais

Método para o projeto habitacional em encostas


de aberturas para insolação capazes de balizar o projeto da torna-se necessário um grande número de construções
tipologia. Assim, considerando-se a declividade e a geométricas, envolvendo tanto a representação das edifi-
orientação do terreno, procura-se inicialmente inferir uma cações em estudo quanto da própria geometria de insolação.
orientação mais favorável para os dormitórios, ambientes
Caso opte-se por estudos em modelos (maquetes), além
cuja insolação deve ser privilegiada. Naturalmente, a fixação
da necessidade da confecção dos modelos, é preciso ter
da orientação preferencial para dormitórios é função das
acesso a aparatos de iluminação capazes de simular a trajetória
características de clima de cada região. Mas pode-se colocar
do Sol (os denominados heliodons), como o que se apresenta,
um princípio geral de que a orientação a adotar deve
a título de ilustração, na Figura 5.5, construído no IPT, e
assegurar o ingresso do sol no dormitório por, pelo menos,
que se constitui numa estrutura com dimensões, na altura,
uma hora por dia, de forma a aproveitar os efeitos
largura e comprimento, por volta de dois metros e um espelho
higienizantes dos raios solares, além de sua participação
parabólico com diâmetro por volta de 0,70m, em cujo foco
na diminuição de uma eventual umidade do ambiente.
localiza-se uma lâmpada halógena. O aparato, que possibilita
Dependendo das características de clima de cada ajustes, através de diversas peças móveis, simula a trajetória
região, pode-se dar preferência a faixas de horários aparente do Sol para as diversas possibilidades de combinação
preferenciais para a insolação dos dormitórios. Assim, em de latitudes, épocas do ano e horários ao longo do dia,
climas quentes, dar-se-ia preferência ao período da manhã, propiciando a verificação da incidência de Sol e a geração
evitando-se o sol da tarde. Em climas temperados e frios, de sombras no modelo (maquete) posicionado na mesa
numa primeira aproximação, em qualquer hora do dia. A central. Heliodons pouco mais simples, apesar de menos
insolação deve ser principalmente assegurada para o período
do inverno.
Fixando-se a orientação preferencial a atribuir às
aberturas dos dormitórios, o projeto se desenvolve
mantendo em vista a manutenção da insolação nos períodos
174 desejáveis, assegurando-se que estejam fora da projeção
permanente de sombras, o que requer cuidados específicos
na caracterização do restante da unidade, de sua
combinação com as demais unidades e no posicionamento
relativo entre blocos de habitações. À medida que o projeto
evolui, de forma combinada com a concepção da
implantação, devem ser realizadas verificações periódicas
das condições de insolação dos dormitórios.
Estudos de insolação mais acurados sempre apre- Figura 5.5. Heliodon construído, no IPT. Fonte: FARAH, F. (1985).
Instrumentos auxiliares para estudos de insolação de edifícios. In
sentaram algumas dificuldades por envolverem operações Revista A construção - São Paulo, no 1951, de 01/07/85 Editora Pini
trabalhosas. Caso opte-se pelo estudo gráfico, “no papel“, Ltda. São Paulo. pp. 29-32.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


precisos, podem também ser utilizados. Porém, as caracte- equinócios), utilizando-se o Autocad (ver Figura 5.6);
rísticas razoavelmente complexas dos aparatos envolvidos e - associação, às posições notáveis do sol, de posições
a necessidade da construção de maquetes limitam, em muito, de luzes para iluminação do modelo, ainda no Autocad;
a possibilidade deste tipo de verificação. - sobreposição do arcabouço tridimensional à represen-
Como decorrência das dificuldades de estudos mais tação tridimensional do objeto, respeitando-se a orienta-
acurados de insolação, muitos dos projetos de conjuntos ção, no terreno, assumida para o(s) objeto(s) arquitetô-
habitacionais realizados nas décadas de 70 e 80 atenderam nicos cuja insolação se quer estudar3; e
apenas a condicionantes gerais de implantação no que diz - transposição do desenho tridimensional resultante para
respeito à insolação, o que abriu espaço à ocorrência, não o editor de imagens 3D Studio, para o estudo da insola-
rara, de unidades habitacionais com deficiências ção do objeto.
importantes de salubridade. Mais adiante, as figuras de 5.7A a 5.7D ilustram
Hoje, estudos mais acurados de insolação podem ser uma aplicação do método para latitude correspondente à
realizados, com relativa facilidade, através da utilização de do município de São Paulo (23o 32’ de latitude sul). Na
recursos computacionais gráficos. Utilizando-se programas Figura 5.7A, representa-se um elemento de encosta, com
convencionais de computação gráfica aplicáveis à arquitetura, declividade de 30%, orientada para o Sul. Neste elemento
isoladamente ou em conjunto com programas de editoração de encosta dispõem-se seis edifícios cuja insolação quer-
gráfica em “três” dimensões, torna-se possível um estudo se estudar (todos estes elementos foram gerados em “três
razoavelmente preciso das condições de insolação de um dimensões”, através do Autocad).
edifício ou de um conjunto de edifícios. Utilizando-se da Na Figura 5.7B, logo adiante, apresenta-se o
plataforma da Autodesk, por exemplo, o IPT tem adotado “arcabouço tridimensional” com posições “espaciais”
um procedimento que possibilita estudar a insolação de notáveis do Sol aplicado sobre o modelo “tridimensional”
objetos de arquitetura (edifício, grupos de edifícios e a estudar (para as condições de São Paulo). Note-se que o
implantações), que se constitui nos seguintes passos: objeto do estudo está posicionado no centro do arcabouço
- construção de representação “tridimensional” do e representado em escala bem menor que aquele. 175
objeto a estudar, utilizando-se o Autocad, em nível de Nas Figuras 5.7C e 7.7D, com os desenhos já
detalhamento compatível com o que se quer estudar; transpostos para o editor gráfico 3D Studio, simula-se a
- construção, à parte, de “arcabouço tridimensional” insolação, representando-a, para exemplificação, para as
com posições espaciais notáveis do Sol (posições 10 horas do Solstício de Inverno (Figura 5.7C) e para o
assumidas a cada hora inteira do dia, nos solstícios e meio dia do Solstício de Inverno (Figura 5.7D).

3
Na sobreposição, o “arcabouço tridimensional de posições do Sol” deve ser colocado em tamanho bastante superior ao do objeto arquitetônico a estudar, buscando-se,
dentro das limitações presentes, reproduzir uma simulação mais realística da insolação. Nesta condição, as “luzes” que serão utilizadas no 3d Studio corresponderão a fontes
puntiformes distantes, ficando o modelo situado num cone de iluminação de abertura muito pequena, o que reproduz satisfatoriamente as condições reais de insolação.

Método para o projeto habitacional em encostas


Note-se, por curiosidade que, apesar de apresentar-
se, na figura, uma implantação de “face norte”, os prédios
a jusante apresentam insolação deficiente, o que reforça o
que já foi dito anteriormente - que, em encostas, obstáculos
a montante podem facilmente comprometer a insolação
dos edifícios situados a jusante.
Ainda que a rotina desenvolvida no IPT seja eficiente
e adequada aos propósitos do presente trabalho, cabe destacar
que a rápida evolução de programas aplicáveis à arquitetura
já permitiu disponibilizar softwares com a capacidade de
simular a insolação, através da projeção de luz e sombras, Figura 5.6. O “arcabouço tridimensional” com posições espaciais
para latitudes, orientações e horários introduzidos pelo notáveis do Sol (posições assumidas a cada hora inteira do dia, nos
solstícios e equinócios), para o caso do município de São Paulo.
operador, desde que se disponha da “maquete eletrônica”.

Figura 5.7A. Modelo construído em “três dimensões” para ilustrar o Figura 5.7B. O “arcabouço tridimensional” aplicado ao modelo (ao
método de estudo da insolação: elemento de encosta de declividade centro) apresentado na Figura 5.7A.
30% com seis prédios implantados.
176

Figura 5.7C. Simulação, no 3D Studio, da insolação dos prédios às Figura 5.7D. Simulação, no 3D Studio, da insolação dos prédios ao
10 horas do solstício de inverno. meio-dia do solstício de inverno.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


O interesse específico da rotina anteriormente descrita terrenos deveriam, a rigor, ser contra-indicados para uso
reside exatamente no fato de se utilizar uma plataforma bem habitacional de interesse social ou exigir-se-ia, alternativa-
mais disponível, contemplando versões menos atualizadas mente, para qualquer habitação que neles fosse construída,
do Autocad e do 3D Studio. Além disso, o método descrito a previsão, em projeto, de equipamentos capazes de
permite uma visualização, nos procedimentos de estudo, bem minimizar os efeitos negativos da ausência do sol (tais como
mais familiar ao arquiteto, uma vez que os princípios geo- condicionadores de ar, desumidificadores, esterilizadores de
métricos utilizados correspondem aos dos tradicionais diagra- ar, etc.). Isto inviabilizaria, na prática, o uso deste tipo de
mas de insolação baseados em projeções ortográficas da terreno para habitações na faixa de interesse social, mas
trajetória aparente do Sol, que são as mais divulgadas no evitaria a geração de habitações com situações de maior
processo de formação profissional. insalubridade, muito freqüentes em encostas.
Paulatinamente, os procedimentos utilizados na roti- Conhecendo-se, porém, a realidade em que vivemos,
na básica descrita foram sendo aperfeiçoados e, em sua pelo menos em nossas grandes cidades, onde cada palmo de
configuração atual, permitem visualizar a insolação para chão disponível para se construir casas é disputado, tende-
as três situações notáveis do ano (solstício de verão, equinó- se a acreditar que, mesmo nesta situação, os terrenos poderão
cios e solstício de inverno) a cada 15 minutos dos dias ser ocupados por habitações populares. Caberia então, ao
correspondentes, e com o recurso adicional de animação, profissional de projeto, na concepção, tirar o máximo partido
que possibilita a visão seqüencial de quadros referentes à de outros recursos capazes de atenuar, na medida do possível,
alteração da posição do sol e das sombras projetadas, tam- os efeitos da ausência da insolação. Nestes casos, deve-se
bém a cada 15 minutos. evitar obrigatoriamente, por exemplo, ambientes de
Como se mencionou no Capítulo 3, acredita-se que, permanência prolongada que incluam paredes em contato
no tocante à insolação, não se aplicam com propriedade os com terra, como dormitórios. Além disso, deve-se tirar o
enfoques usuais, que se baseiam em recuos, pelo menos máximo proveito possível da ventilação, utilizando-se
no que diz respeito a encostas. Nesta situação, não são disposições de aberturas que possibilitem ventilação cruzada.
recuos (de frente, laterais ou de fundos) da edificação com
Tem-se consciência, porém, que os recursos são limi-
relação às divisas do lote os mecanismos capazes de 177
tados e que a propensão à insalubridade é mais acentuada,
assegurar a boa insolação de edificações. Em terrenos
e que esta deve ser explicitada aos moradores que, com o
íngremes, nem mesmo basta voltar aberturas para faixas
tempo, podem adotar recursos de condicionamento artifi-
privilegiadas de insolação. Para cada situação de orientação
cial. Mas, se a postura técnica aqui adotada pode parecer
e de entorno há que se estudar as formas mais favoráveis
muito permissiva, ela é efetivamente menos permissiva que
de disposição dos edifícios e de suas aberturas (janelas).
a das próprias legislações vigentes em muitos dos muni-
Em alguns casos, terrenos localizados em encostas, cípios. Para muitas delas, se as aberturas de interesse estive-
mais freqüentemente que em terrenos planos, podem se rem voltadas para as orientações aceitáveis e os recuos
inserir numa situação de entorno tal que se compromete estiverem dentro das exigências, os ambientes são conside-
total ou parcialmente a insolação, antes mesmo da ocupação. rados satisfatórios, do ponto de vista da insolação, quer
Do ponto de vista exclusivamente técnico, tais recebam sol ou não.

Método para o projeto habitacional em encostas


178

6.
Coleção Habitare - Habitação e Encostas
6.
Alternativas de projeto para a ocupação
de encostas: proposições estrangeiras e nacionais

N
o presente capítulo expõem-se e analisam-se projetos específicos para ocupações urbanas em

encostas, produzidos por profissionais estrangeiros e brasileiros. Indica-se assim, inicialmente,

a necessidade de adotar, em encostas, conceitos diferenciados de urbanismo e de edificações

que, como se verá a seguir, tendem a se mostrar bastante distintos do tipo de ocupação que vem se dando no

caso brasileiro, visto no capítulo anterior, caracterizado por profundas inadequações, do mais formal ao mais

informal dos processos de produção do espaço urbano nos morros.


179
Um primeiro recorte faz-se necessário e diz respeito a princípios mais gerais de urbanismo e,

inevitavelmente, do uso da terra como mercadoria. Há no Brasil uma tendência marcada de utilização exaustiva

e predatória do espaço urbano. Quaisquer espaços das cidades, seja a curto, médio ou longo prazo, tendem

a passar por algum processo de ocupação. As cidades brasileiras tendem a tornar-se malhas contínuas,

transpondo ou arrasando morros, aterrando várzeas, enfim, eliminando eventuais obstáculos naturais, como já

se comentou no Capítulo 1. Periodicamente, a natureza cobra tributos da ocupação predatória, com enchentes,

inundações e com escorregamentos.

Alternativas de projeto para a ocupação de encostas: proposições estrangeiras e nacionais


O “urbanismo” da malha urbana contínua parece urbanismo com origem no CIAM da Carta de Atenas e em
ser uma das posturas mais arraigadas na produção dos Le Corbusier, onde a tendência da continuidade não é nada
espaços urbanos brasileiros. Na continuidade do tecido marcante, a não ser nos grandes eixos de circulação.
urbano, cada porção é também ligação. Mesmo que, Quando se trata da ocupação de encostas, admitir,
legalmente, não haja limitações explícitas ao uso de de saída, assentamentos que constituam “bolsões”, torna-
“bolsões” no tecido urbano (trechos urbanos destacados e se um mecanismo indutor de soluções mais adequadas,
fechados, atendidos, por exemplo, por uma via de acesso, permitindo ocupar as partes mais baixas dos morros e
mas sem constituir interligação entre os demais trechos da preservando suas partes superiores, que normalmente
malha urbana), parece que se formou um consenso, constituem elementos importantes da paisagem e
injustificadamente, de que há uma necessidade de tornar constituem-se em referenciais naturais, cada vez mais
cada espaço da cidade como parte imersa na ocupação ou escassos nas cidades brasileiras. Se, pelo contrário,
na circulação global. Será que esta é uma postura adequada buscarmos a mera adaptação da grelha hipodâmica aos
à ocupação de encostas? morros, permitindo a continuidade, estaremos quase que
automaticamente lançando mão de profundas alterações
Devem existir, com certeza, posturas alternativas
de terreno, necessárias para obter-se greides aceitáveis nas
mais adequadas, quer do ponto de vista urbanístico, quer
vias de transposição e terrenos aproveitáveis às suas
do técnico-construtivo, quer do econômico, quer do
margens.
sociológico, quer do ambiental. Excluindo-se os
condomínios fechados de classe média a alta, são Como foi visto no Capítulo 3, a questão da malha
relativamente raras, no Brasil, as soluções urbanas que criem urbana contínua tem se mostrado como requisito tão
“bolsões”, ou seja, espaços urbanos fechados, atendidos marcante na cultura técnica brasileira, que até mesmo
em alguma parte de seu perímetro por uma via pública, conjuntos habitacionais, cuidadosamente projetados com
mas sem constituir, necessariamente, espaço de interligação ruas sem saída ou e em alça, sofrem alterações, dando lugar
180
entre outras partes da malha urbana. a vias contínuas.
A continuidade do sistema viário, herança do ideal Esta tendência traduz, em última instância, a
da malha hipodâmica, reforçada pelo urbanismo voltado à voracidade da especulação imobiliária e do capital. Cada
facilidade de deslocamento de tropas (presente, segundo palmo de terra situado em solo urbano é mercadoria valiosa,
BENEVOLO1 nas preocupações de Haussmann, no Plano não importando que conseqüências ambientais a malha
de Paris) conseguiu até mesmo permear, no Brasil, o contínua traga aos cidadãos.

1
BENEVOLO, L. (1974). Historia de la Arquitectura Moderna.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


Do ponto de vista restrito do capital, a ocupação encostas, buscou-se inicialmente identificar âmbitos de
desordenada parece ser até mesmo compensadora. A abrangência dos projetos, podendo-se classificá-los, num
comercialização direta ou indireta de lotes em terrenos primeiro recorte, em dois grupos:
absurdamente inadequados, seja do ponto de vista - projetos de cunho urbanístico
ambiental, seja do ponto de vista dos padrões atuais de
- projetos de cunho localizado
ocupação, ou até mesmo o simples fechar de olhos para a
ocupação informal desordenada, a médio e longo prazo, No primeiro grupo, situam-se projetos cujo âmbito
conduzem, no mais das vezes, à necessidade de grandes de abordagem diz respeito a grandes extensões de terrenos
intervenções para atenuar os efeitos danosos instaurados. envolvendo encostas, permeados por princípios mais gerais
A área de risco de hoje é a frente de obras de amanhã, de um urbanismo para encostas, que foram encontrados, de
altamente interessante para o capital. forma mais marcante, em apenas três casos, a seguir
estudados.
No segundo grupo, destacam-se projetos para
6.1 - Proposições de profissionais de projeto
encostas isoladas que, mesmo contemplando aspectos
estrangeiros
urbanísticos diferenciados, o fazem de forma mais
Inicialmente, cumpre salientar que são efetivamente localizada, não constituindo regras gerais para regiões
poucas as proposições específicas da arquitetura e o montanhosas. Dentre estes, destacam-se ainda tipologias
urbanismo para encostas, o que se atribui, em grande parte, de projetos de habitações para encostas não voltadas para
ao forte caráter de “mundo plano” que se associou ao um terreno específico, mas contemplando apenas princípios
urbanismo desde meados do século XIX. gerais para implantações.
A fé nas máquinas e no fantástico poder de
transformação da natureza que o homem efetivamente 6.1.1 - Projetos de cunho urbanístico
professou, nos dois séculos anteriores e no atual, gerou DOXIADIS (1965), em Guanabara - a plan for urban 181
princípios urbanísticos mais destinados a um imenso development 2 , (p.73 do Apêndice V) delineia projetos do
tabuleiro que ao relevo real. Esta fé só está sendo revista que chama de quatro classes de comunidades, destinadas a
agora, quando se percebem os grandes prejuízos ambientais absorver a crescente população favelada do Rio de Janeiro.
que se acumulam em função das profundas transformações Na concepção de Doxiadis, o que ele denomina por
que temos imposto à natureza. Comunidade Classe I agruparia de 10 a 50 casas, que
Para agrupar as proposições de arquitetos para constituiriam a unidade primária de um sistema integrado

2
GUANABARA (Estado) et DOXIADIS ASSOCIATES (1965). Guanabara - a plan for urban development.

Alternativas de projeto para a ocupação de encostas: proposições estrangeiras e nacionais


e interligado de comunidades. Um grupo de três a quatro exclusivo para pedestres. Trata-se de uma Comunidade
comunidades de Classe I (cerca de 100 ou 150 casas), Classe III, na classificação de Doxiadis, que no croqui 2
organizadas em torno de um playground, constituiriam uma apresenta, para as mesmas condições, uma alternativa com
Comunidade de Classe II. O agrupamento de três ou quatro via para veículos, mas sem saída.
comunidades de Classe II (cerca de 500 casas), agregados
Doxiadis, em sua proposta, incluía ainda um
em torno de uma escola primária, de poucas lojas e de um
equacionamento preliminar de processos de construção de
playground, constituiria o que Doxiadis chamou de uma
habitações nas encostas. Pretendia utilizar casas segundo
Comunidade de Classe III. Finalmente, uma Comunidade de Classe
IV agregaria três ou quatro comunidades de Classe III (cerca
de 2.000 casas), adicionando-se estabelecimentos de
comércio de produtos de consumo diário e equipamentos
educacionais e recreacionais necessários. Todas estas
unidades habitacionais e equipamentos urbanos seriam
implantados de maneira a permitir circulação a pé, sem cruzar
vias expressas (highways, no original). A comunidade Classe
IV seria a maior aglomeração recomendada e teria
características parciais de auto-suficiência no tocante aos
requisitos associados ao uso habitacional.
No que diz respeito a condicionantes topográficas,
Doxiadis classifica os terrenos para implantação destas
comunidades em três categorias, de acordo com suas
declividades, chamando-os de planos (declividades de até
5%), encostas suaves (declividades de 5% a 20%) ou
182
encostas íngremes (declividades de 20% a 50%). A Figura
6.1 apresenta croquis de Comunidades de Classe III e IV
em encostas íngremes extraídos da obra já citada.
Note-se, na Figura 6.1, que os croquis de 2 a 4
mostram claramente bolsões dispostos longitudinalmente
à margem de uma via principal, isolada, da qual partem
Figura 6.1. Doxiadis: Comunidades III e IV em encostas íngremes.
vias para veículos exclusivamente destinadas à circulação Fonte: GUANABARA (Estado) et DOXIADIS ASSOCIATES (1965).
pelo assentamentos (e não à transposição do morro). No Guanabara - a plan for urban development. - Comissão Executiva
para o Desenvolvimento Urbano (CEDUG) et Doxiadis Associates,
croqui 1, verifica-se que nem mesmo se prevê a entrada de Consultants on Development and Ekistiks (1965). Guanabara - a plan
veículos para o interior do assentamento. O acesso é for urban development. Rio de Janeiro. Apêndice V. pp. 75.

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padrões (igualmente sugeridos no trabalho) para terrenos Na esteira dos projetos de megaestruturas urbanas,
planos, mas apoiados sobre um sistema de embasamento no final da década de 60, Zalewsky, Kirby e Goethert, três
racionalizado, constituído por paredes de apoio de concreto arquitetos da Escola de Arquitetura e Planejamento do MIT
com eixos ortogonais às curvas de nível. Tais paredes, moldadas (Massachusetts Institute of Technology) apresentam em “Building
in loco e adaptadas à topografia, sustentariam lajes, on slopes: an approach”, outra rara e interessante proposição
constituindo tabuleiros. Sobre os tabuleiros, erguer-se-iam de urbanismo para encostas. Trata-se de megaestrutura
as habitações utilizando-se alvenarias ou, alternativamente, urbana que, construída ao longo de encostas, contém
como mostra a Figura 6.2, painéis de concreto leve ou comum trechos inteiros de cidades, ao mesmo tempo que define
pré-moldados. Note-se ainda, na figura 6.2, que se previa o uma gigantesca estrutura de contenção.
transporte mecanizado (por esteiras rolantes), morro acima,
O fulcro do trabalho elaborado pelos mencionados
dos materiais e componentes construtivos a utilizar.
arquitetos constitui uma proposição de nova forma de
desenvolvimento urbano, exemplificada para Pittsburgh
(Pennsylvania, EUA), com base na ocupação das encostas.
Mostra-se, em perspectiva geral, na Figura 6.3, a
megaestrutura projetada para Pittsburgh. Nesta figura nota-
se, na porção central esquerda, uma única via estrutural, a
qual provém do corpo principal de Pittsburgh e atravessa
a megaestrutura, dando acesso a outras áreas de expansão
urbana. Da via estrutural parte uma via local de acesso
específico à megaestrutura, representada na figura 6.4, em
seguida, que apresenta uma vista superior da implantação
proposta.
Na megaestrutura, as diversas funções urbanas 183
distribuem-se em setores, como mostra a Figura 6.5,
destacando-se que, à exceção do centro comercial,
efetivamente incorporado à estrutura principal, os
equipamentos urbanos, incluindo estacionamentos para os
moradores, distribuem-se externamente em porções mais
planas de terreno. A megaestrutura sedia assim,
Figura 6.2. Doxiadis: o processo de construção das unidades essencialmente, o uso habitacional, onde as circulações
habitacionais, nas encostas. Fonte: GUANABARA (Estado) - Comissão
Executiva para o Desenvolvimento Urbano (CEDUG) et Doxiadis verticais localizam-se nos contrafortes principais e as
Associates, Consultants on Development and Ekistiks (1965). horizontais são vias-corredores para pedestres, em diversos
Guanabara - a plan for urban development. Rio de Janeiro. Apêndice
V. pp. 90. níveis, ao longo da implantação, como mostra a Figura

Alternativas de projeto para a ocupação de encostas: proposições estrangeiras e nacionais


Figura 6.3. Zalewsky, Kirby & Goethert: megaestrutura urbana para encostas proposta para Pittsburgh – perspectiva geral. Fonte:
ZALEWSKI,W.P., KIRBY, M.R. et GOETHERT, R.K. (1970). Building on slopes: an approach. (s/pág.).

184

Figura 6.4. Zalewsky, Kirby & Goethert: megaestrutura urbana para encostas proposta para Pittsburgh - vista superior. Fonte: ZALEWSKI,W.P.,
KIRBY, M.R. et GOETHERT, R.K. (1970). Building on slopes: an approach. (s/pág.).

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6.6, mais adiante. Permeia esta opção o conceito de que é mais adequado vencer os desníveis maiores com habitações –
pequenos módulos com maior flexibilidade de agrupamento - que com os equipamentos urbanos, cuja implantação fica
mais facilitada em terrenos planos.

Figura 6.5. Zalewsky, Kirby & Goethert: megaestrutura urbana para encostas proposta para Pittsburgh - setores urbanos com diferentes
funções. Fonte: ZALEWSKI,W.P., KIRBY, M.R. et GOETHERT, R.K. (1970). Building on slopes: an approach. (s/pág.).

185

Figura 6.6. Zalewsky, Kirby & Goethert: megaestrutura urbana para encostas proposta para Pittsburgh - esquema básico de circulação. Fonte:
ZALEWSKI,W.P., KIRBY, M.R. et GOETHERT, R.K. (1970). Building on slopes: an approach. (s/pág.).

Alternativas de projeto para a ocupação de encostas: proposições estrangeiras e nacionais


O conceito de ocupar as encostas com habitações, Os autores do projeto pesquisaram ainda inúmeras
deixando-se áreas mais planas para o desenvolvimento das possibilidades técnicas de construção da megaestrutura,
demais funções da cidade, fica explicitado pelos próprios sempre baseados em sistemas de pré-fabricação em concreto.
autores, ao representarem, como mostra a Figura 6.7, duas
Na figura 6.8, a seguir, representam-se os seis estágios
principais formas de implantação da megaestrutura que de implantação previstos para uma das soluções construtivas
desenvolveram em projeto. Na figura 6.7, a parte superior
propostas para as torres de circulação vertical que constituem
refere-se a uma implantação convencional de cidade também setores habitacionais.
circundada por encostas. Ao meio, uma das alternativas que
propõem para a implantação de megaestruturas, jogando-se Na figura 6.9, mostra-se um dos sistemas construtivos
os setores habitacionais para as encostas, enquanto as demais pesquisados pelos autores para a construção destas torres,
funções da cidade desenvolvem-se no vale. Na parte inferior com peças estruturais lineares e painéis-lajes pré-fabricados
da figura, apresenta-se uma solução híbrida. com concreto armado.
Na Figura 6.10, apresenta-se um corte perspec-
tivado de uma região de transição entre contrafortes
principais e secundários, e pode se observar, ao centro, no
contraforte secundário, uma circulação principal e, à direita,
nos vários níveis, circulações locais. Note-se que, do ponto
de vista geotécnico, como já foi dito, a megaestrutura urbana
proposta pelo três arquitetos do MIT constitui uma grande
estrutura de contenção, um muro de arrimo, onde os
contrafortes principais (torres de circulação vertical)
equiparam-se a pilares e os contrafortes secundários ao
muro propriamente dito.
186

Figura 6.7. Zalewsky, Kirby & Goethert: a megaestrutura e formas urbanas


alternativas para sua implantação. Fonte: ZALEWSKI,W.P., KIRBY, M.R. et
GOETHERT, R.K. (1970). Building on slopes: an approach. (s/pág.).

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


Figura 6.8. Zalewsky, Kirby & Goethert: megaestrutura urbana para encostas proposta para Pittsburgh - aspectos construtivos básicos para a
implantação das torres de circulação vertical. Fonte: ZALEWSKI,W.P., KIRBY, M.R. et GOETHERT, R.K. (1970). Building on Fslopes: an approach. (s/p).

187

Figura 6.9. Zalewsky, Kirby & Goethert: megaestrutura urbana para Figura 6.10. Zalewsky, Kirby & Goethert: megaestrutura urbana
encostas proposta para Pittsburgh - sistema construtivo em pré para encostas proposta para Pittsburgh – Corte perspectivado da
moldados de concreto Fonte: ZALEWSKI,W.P., KIRBY, M.R. et região de transição entre contrafortes principais e secundários.
GOETHERT, R.K. (1970). Building on slopes: an approach. Fonte: ZALEWSKI,W.P., KIRBY, M.R. et GOETHERT, R.K. (1970).
Massachusetts Institute of Technology. Cambridge.(s/pág.). Building on slopes: an approach. (s/pág.).

Alternativas de projeto para a ocupação de encostas: proposições estrangeiras e nacionais


Dois outros projetos, estes desenvolvidos pelo texturada corresponde a um espaço livre, externo a cada
arquiteto israelense Moshe Safdie, também baseados em habitação.
sistemas pesados de pré-fabricação em concreto, constituem Na Figura 6.12 mostram-se as características de uma
ainda, no limite, proposições de cunho urbanístico global, habitação composta por dois módulos duplos e um simples,
porém já situadas no limiar de proposições para encostas através de plantas e, na Figura 6.13, representam-se algumas
localizadas. Em Israel-Hábitat (1969) e Hábitat – Puerto Rico possibilidades de acoplamento de módulos, definindo
(1972), Safdie concebe módulos tridimensionais pré- habitações.
fabricados que, constituindo partes de habitações, permitem,
através de diferentes formas de acoplamentos verticais e
horizontais, absorver variações de topografia.
Do ponto de vista da forma externa, no projeto
Hábitat – Puerto Rico, prevêm-se dois tipos de módulos
tridimensionais – um simples e um duplo, como mostra a
Figura 6.11, onde se vê um módulo simples (o mais acima)
e dois duplos, estes últimos dispostos lado a lado e defasados,
na parte inferior da ilustração. Previam-se diferentes tipos
de módulos duplos, contendo ambientes diversos, e cada
habitação poderia ser composta por diferentes combinações
de módulos simples e duplos. Na Figura 6.11, a parte

188

Figura 6.12. Moshe Safdie. Hábitat – Puerto Rico (1972). Plantas de


Figura 6.11. Módulos tridimensionais utilizados por Moshe Safdie unidade habitacional composta por dois módulos duplos e um
no projeto Hábitat – Puerto Rico. (1972). Fonte: DEILLMANN, H., simples. Fonte: DEILLMANN, H., KIRSCHENMANN, J.C. et PFEIFFER, H.
KIRSCHENMANN, J.C. et PFEIFFER, H. (1980). El Hábitat. p. 156. (1980). El Hábitat. p. 156.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


Figura 6.13. Moshe Safdie. Hábitat – Puerto Rico (1972). Alternativas de
acoplamento de módulos, definindo habitações. Fonte: DEILLMANN, H.,
KIRSCHENMANN, J.C. et PFEIFFER, H. (1980). El Hábitat. p. 156.

Em Israel-Hábitat, as diferenças mais marcantes com


relação ao projeto Hábitat-Puerto Rico, dizem respeito às
formas adotadas nos módulos, que incluem também
superfícies esféricas.
Do ponto de vista urbanístico, nos dois casos, os
projetos propostos por Safdie incluíam vias para veículos
que, serpenteando o morro, passavam por baixo de trechos
ocupados por habitações, formando “pontes” com
módulos. Apesar da pouca nitidez do desenho (corte
apresentado na Figura 6.15, à esquerda) encontrado em El 189
hábitat, percebe-se que as vias passam por vãos entre o
terreno remodelado e a estrutura formada pelos módulos.
No que pese o arrojo e a originalidade da produção
de Safdie, fica clara sua inadequação, do ponto de vista de
custos, para o caso brasileiro, e sua menção, no presente
trabalho, é feita mais por conta do inusitado e, bastante,
pela inequívoca relação com a ocupação de encostas, mais
uma vez tratada com especificidade e apontando conceitos
Figura 6.14. Moshe Safdie. Israel-Hábitat (1969). Fonte:
bastante diferenciados do urbanismo de tabuleiro de xadrez DEILLMANN, H., KIRSCHENMANN, J.C. et PFEIFFER, H. (1980). El
e da edificação isolada num lote. Hábitat. pp. 121 e 122.

Alternativas de projeto para a ocupação de encostas: proposições estrangeiras e nacionais


Figura 6.15. Moshe Safdie. Hábitat – Puerto Rico (1972). À esquerda, corte de implantação em encosta. À direita, vista parcial de maquete de
implantação. Fonte: DEILLMANN, H., KIRSCHENMANN, J.C. et PFEIFFER, H. (1980). El Hábitat. pp. 156 e 157.

Como principais características de implantação, os disso, na proposição de Doxiadis, um senso apurado de escala
dois projetos de Moshe Safdie compreendem, na realidade, e de comunidade, que normalmente se perde nos grandes
megaestruturas rígidas resultantes do acoplamento de conjuntos habitacionais. Sua preocupação na definição de
módulos tridimensionais, que se apóiam nas encostas e são células comunitárias básicas, caracterizadas em torno de
permeadas por uma via principal de circulação de veículos a equipamentos urbanos, mesmo quando pressupõe
partir da qual há acessos às habitações, por escadarias. A agrupamentos maiores de células, tende a fazer com que os
Foto 6.1 mostra maquete de implantação do projeto Israel - resultados obtidos diferenciem-se bastante do desmesurado
190 Hábitat. poder de dispersão comunitária dos grandes conjuntos.
Os projetos até o momento mostrados representam Na proposição de Zalewsky, Kirby & Goethert, no
raros exemplares de proposições urbanísticas mais gerais que pese a monumentalidade bastante característica de uma
para encostas e, como pôde ser visto, contêm características época já superada, pode-se notar a busca de um conceito
que se distanciam bastante do urbanismo da malha contínua. de ocupação de encostas que, antes de mais nada, remete
No caso do projeto de Doxiadis, transparecem, para os terrenos mais acidentados o uso habitacional,
principalmente, características de um urbanismo linear, onde liberando os terrenos planos para os outros usos de solo
os setores urbanos, nas encostas, “penduram-se” num único necessários às cidades. A forte (e, por que não, discutível)
eixo viário estruturador, não pressupondo ligações outras presença da megaestrutura proposta na paisagem deixa,
entre setores que não a do próprio eixo. Transparece, além pelo menos, parte da paisagem original preservada por trás

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


Foto 6.1. Moshe Safdie (1969). Maquete do projeto Israel-Hábitat.
Fonte: DEILLMANN, H., KIRSCHENMANN, J.C. et PFEIFFER, H.
(1980). El Hábitat. pág. 156.

191

da grande construção, enquanto que, na malha contínua, a investimento nos módulos habitacionais, cuja concepção
referência paisagística dos morros tende a desaparecer original escraviza, em certa medida, as possibilidades reais
totalmente. Destaca-se fortemente ainda, no projeto para de adaptação ao relevo. Ainda que os módulos projetados
Pittsburgh, como já foi dito, a característica de obra de contemplem possibilidades de acoplamento capazes de
contenção impressa à megaestrutura e a eliminação do absorver desníveis, perdura um certo caráter de adaptação
tráfego de veículos nos setores habitacionais. do terreno à megaestrutura projetada, exigindo, às vezes,
movimentos de terra mais pronunciados para sua
Nos projetos de Safdie, observa-se que há um forte implantação.

Alternativas de projeto para a ocupação de encostas: proposições estrangeiras e nacionais


6.1.2 - Projetos de cunho localizado mático do tipo de implantação proposto baseado em cons-
Projetos destinados a implantações mais trução escalonada com terraços e, à direita, uma perspectiva
circunscritas sem cunho urbanístico mais geral, mas apenas do conjunto composto por quatro fileiras de casas, de três
localizado, são também pouco freqüentes na literatura. tipos, com pequenas variações (internas) de planta. Não
Foram principalmente identificados em obras que há acesso para veículos para o interior do conjunto e podem
sistematizam soluções habitacionais propostas por diversos ser notadas uma via superior e uma inferior, às quais seguem
profissionais de projeto, envolvendo habitações agrupadas estacionamentos, limitados pela construção escalonada. A
e concernentes, em geral, a países desenvolvidos. Apesar circulação de pedestres dá-se por escadarias situadas entre
de tratarem de habitações agrupadas, tais projetos não se fileiras de casas de tipos diferentes, como pode ser visto
referem, necessariamente, a soluções voltadas à população ao centro da parte em destaque, no desenho. Cada unidade
de baixa renda, pelo menos em moldes comparáveis às dispõe de um terraço, que constitui parte da cobertura da
condições sócio-econômicas brasileiras. São frutos de unidade imediatamente abaixo.
condições de concepção bem mais favoráveis, onde os
custos oferecem maior flexibilidade, no geral ausente nas
condições do nosso país. Apresentam, porém, muitas vezes,
características que, transcendendo a visão mais restrita da
economicidade, constituem eventuais princípios gerais de
implantação mais transponíveis para o caso brasileiro.
Em El hábitat 3 , por exemplo, Deilmann,
Kirschenmann e Pfeifer reúnem dezenas de projetos de
habitações agrupadas, para os quais desenvolvem um méto-
do de catalogação, abrangendo a forma de agrupamento
horizontal e vertical das unidades, as características de
192 circulação nos conjuntos, etc. Dos projetos reunidos, apenas
sete dizem respeito a terrenos de topografia mais acidentada
e, destes, apenas um será estudado. Trata-se de projeto de
unidades habitacionais escalonadas, de autoria da empresa Figura 6.16. Conjunto residencial escalonado com terraços, em
suíça Metron. Auenstein, Suíça. Perspectiva. Projeto: Metron (1969). Fonte:
DEILLMANN, H., KIRSCHENMANN, J.C. et PFEIFFER, H. (1980). El
Na Figura 6.16, vê-se, à esquerda, um corte esque- Hábitat. p. 168.

3
DEILLMANN, H., KIRSCHENMANN, J.C. et PFEIFFER, H. (1980). El Hábitat.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


A Figura 6.17 apresenta as plantas típicas das
unidades. Cada uma tem área de uso exclusivo por volta
de 160m2, sem contar o terraço.

Figura 6.17. Conjunto residencial escalonado com terraços, em


Auenstein, Suíça. Plantas típicas. Projeto: Metron (1969). Fonte:
DEILLMANN, H., KIRSCHENMANN, J.C. et PFEIFFER, H. (1980). El
Hábitat. p. 168.

As Fotos 6.2 apresentam, à esquerda, uma vista lateral (1977)4 reúnem também outras dezenas de projetos de
de implantação em Auenstein, Suiça, do projeto da Metron conjuntos residenciais onde apenas um, de autoria do
e, à direita, o detalhe de um terraço. arquiteto japonês K.Kikutake, elaborado em 1971, é mais
claramente destinado a terrenos de maior declividade. Trata-
As demais tipologias para encostas encontradas em
se de projeto também baseado em escalonamento de
El hábitat são, na realidade, variações de projetos escalo-
habitações, onde se destaca, inicialmente, que a grande
nados que não apresentam, no geral, aspectos de particular 193
estrutura resultante compreende vãos perdidos, entre o
interesse para o presente trabalho, pois constituem, bem
terreno e as unidades habitacionais, evitando-se contato
mais, alternativas de tratamento arquitetônico que,
direto entre paredes de espaços habitáveis e o solo, como
propriamente, princípios gerais de implantação.
mostra a Figura 6.18, que apresenta um corte típico,
Em Conjuntos residenciales – en zonas centrales, suburbanas perspectivado, da implantação.
y periféricas, DEILMANN, BICKENBACH e PFEIFFER

4
DEILMANN, H., BICKENBACH, G. et PFEIFFER, H. (1977). Conjuntos residenciales – en zonas centrales, suburbanas y periféricas.

Alternativas de projeto para a ocupação de encostas: proposições estrangeiras e nacionais


Fotos 6.2. Conjunto residencial escalonado com terraços, em
Auenstein, Suíça. Projeto: Metron (1969). Fonte: DEILLMANN, H.,
KIRSCHENMANN, J.C. et PFEIFFER, H. (1980). El Hábitat. p. 169.

Figura 6.18. Kikutake, K. (1971) – “Pasadena Heights” (Japão). Corte


típico perspectivado. Fonte: DEILMANN, H., BICKENBACH, G. et
PFEIFFER, H. (1977). Conjuntos residenciales – en zonas centrales,
suburbanas y periféricas.p.42.

Denominado “Pasadena Heights”, o conjunto Vê-se ainda, na Figura 6.19, que Pasadena Heights é
projetado por Kikutake lança ainda mão de poços de uma construção isolada com via de acesso apenas local.
194 iluminação como recurso para possibilitar uma massa Impressiona, neste projeto, a grande massa construída
construída contínua de unidades idênticas parcialmente e, mesmo que não se faça menção a aspectos geotécnicos, na
sobrepostas e dispostas em “fiadas” deslocadas . obra de DEILMANN, H., BICKENBACH, G. et PFEIFFER,
A circulação geral no conjunto faz-se através de percebem-se características claras de uma grande estrutura de
escadarias que dão acesso a passarelas suspensas que formam contenção no projeto, como pode ser visto na Foto 6.3.
as circulações horizontais (e podem também ser observadas Chama ainda a atenção, no projeto de Kikutake, o
na Figura 6.18). Para melhor adaptação à topografia, o conjunto fato de que o acesso a automóveis esgota-se na parte baixa
acompanha, em linhas gerais, a sinuosidade das curvas de da implantação e que os desníveis entre os vários patamares
nível, resultando na forma de implantação que pode ser notada são vencidos apenas por escadarias, como pode ser visto
na Figura 6.19, vista superior do empreendimento. na Foto 6.4.

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Figura 6.19. Kikutake, K. (1971) – “Pasadena Heights” (Japão). Vista
superior da implantação. Fonte: DEILMANN, H., BICKENBACH, G. et
PFEIFFER, H. (1977). Conjuntos residenciales – en zonas centrales,
suburbanas y periféricas.p.42.

195

Foto 6.3. Kikutake, K. (1971) – “Pasadena Heights” (Japão). Vista aérea


do conjunto, onde podem ser observados, com destaque, as passarelas
de circulação horizontal e os poços de iluminação Fonte: DEILMANN, H.,
BICKENBACH, G. et PFEIFFER, H. (1977). Conjuntos residenciales – en
zonas centrales, suburbanas y periféricas. p.43.

Alternativas de projeto para a ocupação de encostas: proposições estrangeiras e nacionais


Em obra japonesa da área específica da geotecnia, ativamente de sua contenção. Na obra já mencionada, este
foram também encontradas algumas tipologias de tipo de construção é denominado “set back type”, do qual
condomínios habitacionais para encostas, mencionadas por se apresenta outro exemplar na foto 6.7.
YAMAZAKI (1986)5 , p. 475-496, onde se destaca, com
centralidade, a caracterização estrutural dos edifícios em
sua interface com a estabilidade geotécnica. Por lei, no
Japão, a concepção a ser adotada em habitações agrupadas
em encostas e nas obras correlatas deve resultar, neces-
sariamente, numa estrutura resistente a eventuais processos
de instabilização potencialmente presentes na área da
implantação. Definem-se assim, até mesmo, características
desejáveis nos projetos de arquitetura e de estruturas de
acordo com diferentes processos de meio físico, tais como
escorregamentos, rastejos, etc. Comentam-se, a seguir6,
algumas características das tipologias habitacionais nele
contidas.
Na Foto 6.5, pode se ver um condomínio de médio
porte concebido, claramente, como muro de contenção.
Apesar de não se fornecer, no livro, características da
arquitetura adotada, percebe-se tratar-se de pequenas
unidades habitacionais dispostas em seis níveis, com terraços,
às quais se chega a partir de escadas nas extremidades das
196 “fiadas” de unidades habitacionais e de corredores situados
na parte posterior da edificação, junto ao talude. Em seguida, Foto 6.4. Kikutake, K. (1971) – “Pasadena Heights” (Japão).
Vista do conjunto, com destaque para as escadarias de
a Foto 6.6 mostra uma opção de proteção de encosta contra acesso. DEILMANN, H., BICKENBACH, G. et PFEIFFER, H.
(1977). Conjuntos residenciales – en zonas centrales,
escorregamentos, através de ocupação densa, que, além de suburbanas y periféricas. p.43.
propiciar a proteção superficial do talude, participa

5
YAMAZAKI, K. (1986). Tipologias de conjuntos habitacionais e segurança nas implantações. In TAKAHASHI, T. (Coordenador). (1986). Instabilizações em
encostas: investigação e prevenção de acidentes. Capítulo IX.
6
Graças ao auxílio do geólogo Agostinho Tadashi Ogura, do IPT, que gentilmente traduziu os trechos de interesse do referido livro.

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Foto 6.5. Edifício-muro de contenção para talude íngreme. À
direita, destaca-se o esquema estrutural básico. Fonte: YAMAZAKI,
K. (1986). Tipologias de conjuntos habitacionais e segurança nas
implantações. In TAKAHASHI, T. (1986).Instabilizações em encostas:
investigação e prevenção de acidentes. Capítulo IX. p. 482.

Foto 6.6. Implantação densa em talude de inclinação média,


protegendo-o de escorregamentos. À direita, a caracterização
estrutural da construção. Fonte: YAMAZAKI, K. (1986). Tipologias
de conjuntos habitacionais e segurança nas implantações. In
TAKAHASHI, T. (1986).Instabilizações em encostas: investigação e
prevenção de acidentes. Capítulo IX. p. 484

197

Foto 6.7. Outra implantação “set back type”, destacando o acesso,


exclusivo para pedestres, por escadarias. Fonte: YAMAZAKI, K.
(1986). Tipologias de conjuntos habitacionais e segurança nas
implantações. In TAKAHASHI, T. (1986). Instabilizações em
encostas: investigação e prevenção de acidentes. Capítulo IX. p.
484

Alternativas de projeto para a ocupação de encostas: proposições estrangeiras e nacionais


6.2 - Proposições de profissionais de projeto plenos, ainda que a maior parte dos conjuntos surgisse em
brasileiros terrenos originalmente mais planos, pois ainda havia um
estoque de glebas menos acidentadas.
Para se falar da produção da arquitetura brasileira
associada a habitações de interesse social em encostas, é Duas importantes exceções, constituídas por dois
necessária a consciência de se estar falando em raríssimas projetos similares do arquiteto carioca Affonso Reidy
exceções, em conjuntos construídos ou apenas projetados, (*1909 – +1964), no princípio da década de 50, passariam
perdidos no tempo e no espaço. No Brasil, a “cara” da a ter reconhecimento capaz de transcender as fronteiras
produção de habitações pelo Estado, nas últimas três décadas, nacionais e seriam mencionadas, em literatura estrangeira,
resume-se basicamente no que já foi visto no Capítulo 4, como modelos. Trata-se dos conjuntos da Gávea e de Pedre-
que destaca que um rol restrito de tipologias, basicamente gulho, construídos no Rio de Janeiro, onde as características
concebidas para terrenos planos, espalha-se de norte a sul de projeto adotadas por Reidy, com relação aos sítios de
do Brasil, nas mais variadas condições de clima, geologia, implantação, mostram claramente a busca da harmonização
relevo e de características culturais. Ao nivelar os projetos com as condicionantes naturais.
de uma maneira tão indiscriminada, nivelar os terrenos,
tornando-os adequados aos edifícios é, assim, apenas parte Fortemente inspiradas nas “Unités d’Habitation” de
de um grande conjunto de inadequações. Le Corbusier e implantadas em terrenos de topografia
bastante acidentada, estas duas obras de Reidy valem-se,
Em nosso país, quando o Estado entrou em cena cada uma, de um grande edifício habitacional principal,
na construção de habitações de interesse social, princi- complementado por equipamentos comunitários (estes
palmente a partir do final da década de 1940, os empreen- últimos em partes mais planas do terreno), constituindo
dimentos eram mais diversificados. A arquitetura moderna, conjuntos com grande autonomia e forte identidade.
que passa também, a partir da mesma época, no Brasil, a
198
ser mais adotada e difundida, instiga os arquitetos a Do ponto de vista da implantação, o conjunto de
buscarem soluções inovadoras em seus projetos habita- Pedregulho é constituído por um grande edifício habitacional
cionais, no que são, em parte, alimentados por experiências principal, sinuoso, que acompanha a sinuosidade das curvas
já em curso, na Europa, desde o final da década de 1920. de nível, como mostra a Figura 6.20. Vê-se ainda, na Figura
Estas mesmas experiências, porém, traziam consigo um 6.21, num corte esquemático, o princípio geral de adaptação
certo viés de urbanismo de mundo plano, já comentado no do referido edifício ao terreno, através de pilotis, e a utilização
Capítulo 1. Assim, no que pese uma diversidade maior de de acesso através de pavimento intermediário. Do projeto
formas de agrupamento de unidades habitacionais constavam ainda mais três blocos habitacionais, estes
envolvendo torres, lâminas, geminações de unidades do constituídos por lâminas e situados em trechos menos
tipo sobrado, etc., prevaleciam, nas implantações, os terra- acidentados do terreno.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


Figura 6.20. Perspectiva esquemática do edifício habitacional Figura 6.21. Corte esquemático do edifício habitacional principal do
principal do conjunto de Pedregulho (Rio de Janeiro – RJ), projetado conjunto de Pedregulho (Rio de Janeiro – RJ), projetado por Affonso
por Affonso Reidy. Fonte: ZALEWSKI,W.P., KIRBY, M.R. et GOETHERT, Reidy. Fonte: ZALEWSKI,W.P., KIRBY, M.R. et GOETHERT, R.K. (1970).
R.K. (1970). Building on slopes: an approach. (s/pág.). Building on slopes: an approach (s/pág.).

199

Foto 6.8. Vista do conjunto de Pedregulho, de Reidy. Em primeiro


plano, escola primária. Ao fundo, o edifício habitacional principal.
Fonte: BENEVOLO (1974). Historia de la Arquitectura Moderna. p.
826.

Alternativas de projeto para a ocupação de encostas: proposições estrangeiras e nacionais


No que pese o caráter inovador do Estado na do Governo do Estado de Pernambuco. Em “Manual do
construção habitacional de interesse social, no princípio projeto de habitação popular”, de ANDRADE et SOUZA
de sua atuação, em pouco tempo ele se restringiria ao (1981)7 , trabalho que apresenta metodologia para elaborar
pequeno elenco de soluções atualmente em voga, pensada e/ou avaliar projetos de conjuntos habitacionais, propõem-
para terrenos planos, de conjuntos construídos apenas com se também diversas tipologias de unidades habitacionais e
unidades térreas isoladas (ou geminadas duas a duas), além de implantações.
de prédios de até cinco pavimentos, normalmente Dentre as proposições, destacam-se três destinadas
compostos por duas lâminas, intermediadas por caixa de a terrenos inclinados. A primeira delas, denominada
escadas, como se mostrou anteriormente no Capítulo 4. CA82JG 2P 3Q pelas autoras (arquitetas Mônica Raposo
A partir do final da década de 60, estas poucas Andrade e Maria Ângela de Almeida Souza), é destinada a
tipologias dominariam praticamente toda a produção de faixas de declividades de 0 a 30%. Adotam-se unidades
conjuntos habitacionais, tornando-se muito raras e isoladas acopladas, de dois pavimentos, implantadas com dois
as implantações diferenciadas ou inovadoras. No que diz dormitórios, com possibilidade de inclusão de um terceiro
a posteriori. A adaptação da implantação às diversas faixas
respeito a encostas, praticamente desaparecem soluções
de declividade entre 0 e 30% é feita através da variação do
específicas, ao mesmo tempo em que os terrenos dispo-
desnível entre os fundos das unidades habitacionais.
níveis vão apresentando características topográficas cada
Apresenta-se, na Figura 6.22, perspectiva das unidades
vez menos favoráveis: com o crescimento formidável que
propostas. Na Figura 6.23 mostram-se as plantas das unida-
as cidades experimentam, mormente a partir da década de
des típicas. Note-se que, na Figura 6.23, a metade inferior
1970, os terrenos disponíveis são justamente aqueles mais
da figura se refere ao pavimento inferior das unidades e a
problemáticos, deixados para trás pela especulação imobili-
metade superior ao pavimento superior.
ária. E o trator se mostra bem mais forte que a prancheta.
Na figura 6.24, apresentam-se uma fachada lateral e
Neste contexto, eventuais proposições de tipologias
200 a fachada principal da implantação proposta.
de habitações populares para encostas tornam-se raridades,
assumindo caráter exótico e poucas vezes levadas a sério. Ainda que as autoras do projeto mostrem efetiva
preocupação com a adaptação das unidades à topografia,
O que se torna usual é construir terrenos para as
o arranjo urbano recomendado para as unidades, mais
tipologias habitacionais empregadas pelo Estado.
adiante apresentado, em planta, na Figura 6.25, denota um
A seguir, apresentam-se algumas destas raridades urbanismo local mais convencional em quadras retangulares
desenvolvidas na década de 1980 pela Secretaria de Habitação circundadas por vias para veículos em malha ortogonal.

7
ANDRADE, et SOUZA (1981). Manual de projeto de habitação popular. Parâmetros para elaboração e avaliação.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


Figura 6.22. Perspectiva de implantação de unidades acopladas do
tipo CA82JG 2P 3Q. Fonte: ANDRADE, M.R. et SOUZA, M.A.A. (1981).
Manual de projeto de habitação popular. Parâmetros para
elaboração e avaliação. (s/pág.).

201

Figura 6.23. Plantas de unidades acopladas do tipo CA82JG 2P 3Q.


Metade inferior –pavimento inferior; metade superior – pavimento
superior. Fonte: ANDRADE, M.R. et SOUZA, M.A.A. (1981). Manual
de projeto de habitação popular. Parâmetros para elaboração e
avaliação. (s/pág.).

Alternativas de projeto para a ocupação de encostas: proposições estrangeiras e nacionais


Cada quadra disporia de algumas fileiras de casas e
as fileiras internas seriam atendidas exclusivamente por vias
para pedestres. Não se aprofunda, no projeto, a questão da
declividade resultante no viário.
Caso o terreno de implantação apresentasse decli-
vidade de 30%, as vias situadas abaixo e acima, na figura,
apresentariam esta mesma declividade, o que constituiria
um certo exagero.
Em outros projetos das mesmas autoras, denomi-
nados CA8 2SG 4P 3Q e CA8 2SG 4P 2Q, na verdade,
variantes de três e dois dormitórios de um mesmo projeto
básico, utilizam-se quatro níveis habitáveis em agrupamentos
de oito unidades habitacionais, duplamente superpostas e
geminadas, destinadas à ocupação de terrenos com
declividades superiores a 30%. As autoras não indicam uma
faixa máxima de declividade à qual se aplicariam os projetos.

202

Figura 6.24. Fachadas de unidades acopladas do tipo CA82JG 2P Figura 6.25. Arranjo urbano sugerido para unidades acopladas do
3Q. Fonte: ANDRADE, M.R. et SOUZA, M.A.A. (1981). Manual de tipo CA82JG 2P 3Q. Fonte: ANDRADE, M.R. et SOUZA, M.A.A. (1981).
projeto de habitação popular. Parâmetros para elaboração e Manual de projeto de habitação popular. Parâmetros para
avaliação. (s/pág.). elaboração e avaliação. (s/pág.).

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A Figura 6.26 apresenta uma perspectiva da implantação proposta para a tipologia com três dormitórios.
A Figura 6.27, a seguir, apresenta as plantas das unidades agrupadas. Note-se que, na Figura 6.26, a parte inferior
direita do desenho refere-se ao primeiro piso, a inferior esquerda ao segundo, a superior direita ao terceiro e a superior
esquerda ao quarto.

Figura 6.26. Perspectiva de implantação de unidades acopladas do


tipo CA8 2SG 4P 3Q. Fonte: ANDRADE, M.R. et SOUZA, M.A.A. (1981).
Manual de projeto de habitação popular. Parâmetros para elaboração e
avaliação. (s/pág.).

203

Figura 6.27. Plantas das unidades acopladas do tipo CA8 2SG 4P 3Q.
Fonte: ANDRADE, M.R. et SOUZA, M.A.A. (1981). Manual de projeto de
habitação popular. Parâmetros para elaboração e avaliação. (s/pág.).

Alternativas de projeto para a ocupação de encostas: proposições estrangeiras e nacionais


A Figura 6.28 apresenta uma fachada lateral do pelas autoras) para a tipologia em estudo é mostrado na
mesmo projeto, assim como o corte indicado nas plantas Figura 6.29, onde se nota um sistema viário composto por
(ver figura anterior) e a fachada principal da implantação rampa principal (à esquerda do desenho), da qual partem
de dois agrupamentos de oito unidades intermediados por vias sem saída (como na extremidade esquerda do desenho)
escadaria. ou vias circundantes, periodicamente interligadas por
Nota-se, no corte, que o tipo de implantação pro- escadarias, como se vê na porção do desenho à direita da
posto evita paredes em contato com terra. A declividade rampa principal.
do terreno, tomando-se por base a fachada lateral, pode Note-se que cada quadrado, na figura, representa
ser bastante acentuada (por volta de 40%). um agrupamento de oito casas, nos moldes anteriormente
Do ponto de vista urbanístico, o princípio de implan- mostrados, enquanto cada retângulo, um agrupamento de
tação sugerido pelas autoras (denominado micro-urbanismo 16 unidades.

204

Figura 6.28. Corte e fachadas de unidades acopladas do tipo CA8 2SG 4P 3Q. Fonte: ANDRADE, M.R. et SOUZA, M.A.A. (1981). Manual de
projeto de habitação popular. Parâmetros para elaboração e avaliação. (s/pág.).

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Figura 6.29. Micro urbanismo para unidades acopladas do tipo CA8 2SG 4P 3Q. Fonte: ANDRADE, M.R. et SOUZA, M.A.A. (1981). Manual de
projeto de habitação popular. Parâmetros para elaboração e avaliação. (s/pág.).

205

Destaca-se com especial ênfase, no trabalho de Nos projetos específicos para encostas, as autoras
ANDRADE et SOUZA, um princípio geral de concepção reiteram este tipo de preocupação, sendo marcante o
de unidades e agrupamentos de unidades habitacionais que adensamento que buscam imprimir aos agrupamentos de
privilegia o acoplamento das habitações, tendo em vista unidades, incluindo geminações e sobreposições múltiplas.
otimizar os investimentos em infra-estrutura. Este é Detalhes construtivos necessários a uma implantação
efetivamente o alvo de suas investigações, para o que lançam mais segura, cujo custo seria praticamente impossível
mão de todo um aparato de geometria, de estatística e de absorver em unidades individuais isoladas, passam assim
cálculo, criando instrumentos para avaliar os resultados obtidos a viabilizar-se através do rateio dos custos entre várias
em seus projetos, assim como para avaliar novas proposições. unidades, espacialmente concentradas.

Alternativas de projeto para a ocupação de encostas: proposições estrangeiras e nacionais


6.3 - Diversificação de tipologias O princípio da rígida e acrítica padronização era assim
habitacionais e a administração paulistana quebrado no âmbito da produção habitacional promovida
1989/1992 pelo Estado, dando espaço à particularização mais marcada
das soluções de projeto, o que, no que diz respeito a aspectos
No período 1989/1992, no município de São Paulo,
ambientais, reflete-se de forma altamente positiva. Isto se
então governado por políticos com bases nitidamente
conseguiu, aparentemente, sem agravamento de custos de
populares, assistiu-se, no campo da habitação de interesse
produção, indicando-se, pelo contrário, sua redução.
social, a uma série de esforços para inovações, destacando-
se uma particular dedicação à diversificação de tipologias No que pese o emprego de um grande rol de
habitacionais, incluindo-se aí o desenvolvimento de algumas posturas alternativas à tradicional forma de atuação de
tipologias específicas para encostas. Mesmo as tipologias Estado na questão habitacional, tais como o uso mais
mais convencionais, neste período, foram revistas e intensivo de projetos baseados em mutirões, a realização
passaram a ser empregadas com maiores cuidados no que de concursos de Arquitetura para novos projetos de
diz respeito à adaptação a condicionantes topográficas. conjuntos habitacionais, a ocupação de vazios urbanos com
Assim, tipologias efetivamente destinadas a terrenos planos, habitações para a população de baixa renda etc., cabe aqui
através de adaptações de estruturas de embasamento ou destacar, com centralidade, a questão do investimento no
de variações na forma de agrupamento passavam, nas desenvolvimento de novas tipologias.
implantações em terrenos acidentados, a demandar menores
movimentos de terra. A Figura 6.30 ilustra esta afirmação, Na Secretaria de Habitação do Município, formou-
através de corte de prédio de apartamentos destinado ao se o denominado Grupo Técnico de Diretrizes Urbanísticas e
conjunto Eiras Garcia (zona oeste de São Paulo). Tipologias Habitacionais, que produziu, em versão preliminar,
um Caderno de Tipologias Habitacionais, do qual constam 22
novas tipologias.
206

Figura 6.30. Conjunto Eiras Garcia – prédio tipicamente destinado a


terreno plano adaptado à topografia, com estrutura de transição.
Projeto: CAAP. Fonte: ANDRADE, C.R.M.,BONDUKI, N. et ROSSETTO,
R. (organizadores).(1993). Arquitetura e habitação social em São
Paulo – 1989-1992. (s/p).

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


O referido caderno apresenta também matriz que básico. Nota-se ainda que a declividade original do terreno
relaciona os projetos produzidos com variáveis físicas de é bastante elevada e foi corretamente mantida sem
terrenos (orientação, declividade e sentido de implantação), movimentações mais drásticas de terra, prevendo-se que a
com variáveis de necessidades (programa, tipo de maioria das unidades só terá acesso para pedestres, por
agrupamento e quotas líquidas de terrenos), com o tipo de escadarias. Na mesma situação, as soluções corriqueira-
acessibilidade (para veículos ou pedestres) e com o tipo de mente adotadas pelo Estado redundariam em enormes
produção (evolutiva ou não evolutiva). terraplenos para a adequação do terreno aos greides e larguras
de vias - para veículos - consideradas toleráveis e para a
Infelizmente, a qualidade gráfica dos desenhos, na
obtenção de lotes planos mais extensos, para suas parcas
versão disponível, é inadequada à reprodução. Porém, vale tipologias de habitações.
a pena comentar que das 22 tipologias produzidas, a maior
parte apresenta possibilidades de adaptação a topografias
mais movimentadas, principalmente através da
flexibilização na implantação. Por exemplo, ao invés de
“produzir-se” um terreno plano para a implantação de
renque plano de sobrados, usavam-se desníveis entre os
sobrados, variáveis de acordo com as necessidades,
acompanhando a topografia. Se este expediente representa
algo pouco original, sua utilização, em conjuntos produ-
zidos através do Estado, sempre esteve ausente. O Caderno
contempla também várias tipologias que absorvem
desníveis na própria unidade habitacional com utilização
de escalonamento de ambientes.
207
Utilizar, num mesmo conjunto, variantes de um
mesmo projeto básico, para melhor adaptação à topografia,
o que poderia até ser considerado como heresia pelas
companhias habitacionais municipais ou estaduais, foi outro
recurso utilizado largamente e com palpáveis vantagens,
como no caso do mutirão Santa Marta (projeto de urbanis-
mo de Washing Takish), constituído por 72 casas, mostrado Foto 6.9. Mutirão Santa Marta (região noroeste do
parcialmente na Foto 6.9. município de São Paulo). Fonte: PREFEITURA DO MUNICÍPIO
DE SÃO PAULO (1991). Da utopia à construção - A
Na Foto 6.9 pode ser observada, nas casas, a participação popular na política habitacional em São Paulo.
Suplemento Especial da Revista Projeto, pp SP21.
presença de diferentes variantes de um mesmo projeto

Alternativas de projeto para a ocupação de encostas: proposições estrangeiras e nacionais


As soluções habitacionais utilizadas no período mais densas, capazes de absorver melhor os custos de infra-
1989-1992 pela Prefeitura paulistana revêem também o estrutura.
urbanismo local das implantações, procurando alternativas
No Caderno de Tipologias Habitacionais prevalecem
mais ricas que o tradicional xadrez. A Foto 6.10 ilustra esta
afirmação, mostrando trecho da implantação do conjunto unidades de pequena largura e os agrupamentos lançam
Portal São Marcos, projeto de urbanismo da empresa System. mão de geminações, renques, sobreposições e justaposições
O desenho urbano adotado quebra a repetitividade através de unidades. Destaca-se finalmente, que, nas implantações,
de vias curvas e lança mão de unidades geminadas com a utilização de unidades dotadas de acesso exclusivamente
pequenos desníveis e com boa adequação à topografia. O voltado a pedestres, em encostas, foi um partido poucas
Portal São Marcos foi construído através de mutirão e vezes adotado, mas mostrou-se altamente pertinente nas
contém um total de 104 unidades habitacionais, de acordo situações empregadas.
com a FASE-SP (1995)8 . Infelizmente, a ausência de continuidade nas
A exemplo do que já foi comentado para os projetos posturas técnicas frente à questão habitacional, com a
da Secretaria de Habitação de Pernambuco, os desenvol- mudança na administração, trouxe de volta velhas tipologias
vidos pela Secretaria de Habitação de São Paulo denotam de edifícios pensados para terrenos planos que os prédios
também uma forte preocupação em obter implantações do projeto Cingapura efetivamente representam.

208

Foto 6.10. Mutirão Portal São Marcos – quebrando as repetitivas


implantações convencionais. Projeto urbanístico: System. Fonte:
ANDRADE, C.R.M.,BONDUKI, N. et ROSSETTO, R.
(organizadores).(1993). Arquitetura e habitação Social em São Paulo
– 1989-1992. (p.33).

8
FASE (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional). (1995). Mutirões autogestionários – Levantamento das obras 1989 a 1995.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


6.4 - Considerações sobre os projetos urbanísticas e de edifícios efetivamente pensadas para
estudados terrenos íngremes. Hoje, o expediente-padrão que se obser-
va é o da tentativa de “construção” de terrenos planos nas
Cabe aqui destacar alguns aspectos de particular
encostas capazes de absorver a exígua diversidade de
interesse nos projetos estudados no que diz respeito ao
tipologias de habitações em uso.
urbanismo e às edificações.
Destaca-se ainda que, nos projetos estudados, ocorre
Verifica-se inicialmente que, em países desen-
um atrelamento entre características de projetos
volvidos, mostra-se freqüente a adoção de concepções de
urbanísticos e de edificações. Mesmo nos casos onde os
implantação que não pressupõem o acesso de veículos a
padrões urbanísticos são mais convencionais, percebem-se
cada uma das unidades habitacionais. Isto se dá, até mesmo,
esforços claros no sentido de, através de unidades
em projetos destinados a classes sociais outras que não a
habitacionais convenientemente concebidas, possibilitar boa
de baixa renda, como é o caso da construção escalonada
adaptação ao relevo. Isto conduz, novamente, a uma reflexão
de Auenstein, Suiça. Em se tratando de países desen-
sobre as formas de produção de espaços habitacionais a
volvidos, onde a normalização e a legislação tendem a ser
partir do simples parcelamento do solo, deixando sérias
igualmente desenvolvidas e as exigências dos usuários mais
dúvidas sobre sua pertinência e conveniência em encostas.
severas, verifica-se uma tolerância bem mais marcada a
este tipo de implantação. No caso brasileiro, este expediente, Como foi destacado no Capítulo 4, loteamentos em
se não é proibido, é claramente evitado e, como já se comen- morros acabam, isto sim, caracterizando-se por duas
tou anteriormente no Capítulo 3, a implantação de vias principais etapas de inadequações – uma na abertura do
para veículos em encostas é fonte importante de movi- loteamento, de acordo com a legislação vigente, e outra na
mentos de terra que, se puder ser evitada, conduz a projetos ocupação dos lotes, que, efetivamente, deixa muito espaço
mais adequados. É incompreensível que continuemos a ao azar. Em encostas, torna-se necessário adotar outras
utilizar acriticamente, em qualquer situação, lotes ou formas de abertura de setores habitacionais, que não mais
dissociem, de forma tão simplista, o espaço urbano em 209
unidades habitacionais que possibilitem obrigatoriamente
o acesso a veículos. vias, lotes e edificações. Este modelo é inadequado. A
concepção deve ser una.
Ainda que, em quase todos os projetos para encostas
aqui estudados, possa se inferir a utilização de ajustes de Outro aspecto que salta à vista, na maioria dos proje-
terreno para a implantação, estes, claramente, dão-se em tos estudados, é o nível de adensamento das implantações.
escala bem mais modesta que, por exemplo, o mencionado, Se este aspecto, nos projetos japoneses, pode denotar reflexos
no Capítulo 4, para o caso de Santa Etelvina. Em terrenos da escassez de terrenos no Japão, isto não se aplica aos demais
inclinados, os movimentos de terra são quase sempre casos, onde a densidade elevada é também marcante.
inevitáveis. Porém, fica claro que vale muito mais a pena Ocupações mais densas em encostas assumem, isto
realizá-los tendo em vista a implantação de tipologias sim, características de melhor adequação aos requisitos

Alternativas de projeto para a ocupação de encostas: proposições estrangeiras e nacionais


geotécnicos aplicáveis, pois fornecem melhores condições destinados a constar no rol da sub-habitação.
de proteção superficial aos terrenos e acabam constituindo Na pesquisa Retroavaliação do Programa SH-3,
verdadeiras estruturas de contenção, como fica cristalino, realizada pelo IPT em 50 conjuntos da CDHU, efetuou-se
novamente, nos projetos japoneses. É absurdo que um breve exercício para se aferir os efeitos da adoção de
continuemos insistindo em utilizar, em terrenos íngremes, terrenos grandes nos projetos habitacionais do Estado,
tipologias habitacionais como as TI 13 A, mostradas no como pode ser visto no relatório do IPT(1997)9, pp.84-85.
Capítulo 4, com frente de lote mínima de 9,40m e lote Verificou-se que, em 41 dos conjuntos, constituídos apenas
plano de 172m2! Este absurdo não se esgota em implanta- por unidades do tipo casa, cada unidade habitacional se
ções em encostas. Mesmo em regiões planas, lotes com implantava num terreno (lote) com área média de 196,2m2
estas características demandam investimentos descabidos e frente média de 9,8m. O número total de unidades era
em infra-estrutura urbana, indesejáveis num país com as de 11.380. Dispondo-se todas estas unidades em ambos
nossas condições. os lados de uma rua fictícia contínua, obteríamos uma via
Os mais resistentes à adoção de soluções mais com comprimento equivalente ao de 5.690 casas o que,
adensadas, em programas públicos de habitação, costumam em lotes com 9,8m de frente, representariam 55,7km.
se referir à extensão territorial de nosso país, que justificaria Se a tipologia de habitação adotada fosse, por
terrenos grandes para todos. Isto é uma meia verdade, pois, se exemplo, a de sobrados geminados em renques, com frentes
terrenos sem infra-estrutura são efetivamente abundantes, o individuais de 6,2m, em blocos de 8 unidades, espaçados
mesmo não ocorre com terrenos dotados de toda a gama de lateralmente por 3m (o que já permite excelentes soluções
requisitos necessários para a implantação de moradias. Se a de projeto) e, mantendo-se o mesmo número de unidades,
classe média brasileira vem habitando apartamentos (cada teríamos uma rua equivalente com comprimento de
vez menores), onde o terreno se resume a uma parcela ideal, 37,3km, ou seja, cerca de 18km a menos de redes de água,
não física, de um condomínio, talvez não seja adequado exigir, de esgotos, de energia elétrica, de drenagem, de iluminação
210 em programas populares, terrenos individuais e grandes. pública, de telefonia e de asfalto, só em 41 dos 50 conjuntos
Afinal, o que o Estado busca é assegurar condições dignas estudados.
de moradia àqueles que, fora dos seus programas, estariam

9
IPT (1997). Retroavaliação do programa SH-3. Infra-estrutura e Urbanismo.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


Referências bibliográficas

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INSTITUTO DE PESQUISAS TECNOLÓGICAS DO ESTADO DE SÃO PAULO Retroavaliação do programa SH-


3. São Paulo: IPT, 1997. Relatório IPT n. 35.110. v. II - Infra-estrutura e urbanismo. Versão Preliminar.
211
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São Paulo. In: Suplemento Especial da Revista Projeto. São Paulo, 1991.

TAKAHASHI, T. (Coord.) Instabilizações em encostas: investigação e prevenção de acidentes. Tóquio: Hakua-Shobou,


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Institute of Technology, 1970.

Alternativas de projeto para a ocupação de encostas: proposições estrangeiras e nacionais


212

7.
Coleção Habitare - Habitação e Encostas
7.
Tipologias de habitações
para encostas desenvolvidas pelo IPT

N
o presente capítulo mostram-se estudos e projetos de tipologias habitacionais de interesse

social desenvolvidos no IPT para a ocupação de terrenos íngremes. Tais projetos foram gerados

no âmbito de diversos trabalhos realizados pelo Instituto, normalmente integrados a proposições

mais amplas, quer no que diz respeito a sistemas construtivos, quer no que diz respeito ao subsídio, com

base em condicionantes de meio físico, à ocupação habitacional em áreas ou regiões com encostas.

São também apresentadas três tipologias, desenvolvidas durante a elaboração da tese de doutoramento
213
do autor, com o intuito de colaborar num processo que, espera-se, venha a tornar-se diuturno no meio profissional

da Arquitetura, de produção profícua de tipologias habitacionais para encostas. Note-se que estas constituem

arranjos espaciais adequados a encostas, como propostas genéricas, não referidas a situações concretas de

terreno e, portanto, sem a consideração de condicionantes geológico-geotécnicas. Seu emprego requereria

obrigatoriamente procedimentos de verificação das capacidades e restrições do terreno de implantação, como

os apontados no Capítulo 5. O sentido de sua colocação no presente trabalho é o de contribuir com a criação

de um banco de soluções de Arquitetura habitacional para encostas, que se acredita ser necessário.

Tipologias de habitações para encostas desenvolvidas pelo IPT


Além das já mencionadas, apresentam-se ainda mais Os estudos preliminares desenvolvidos tomavam por
quatro tipologias, desenvolvidas no âmbito da pesquisa base as capacidades e restrições dos solos presentes, que
“Desenvolvimento de tipologias para habitações de sugeriam 60% como declividade máxima a ocupar, e o
interesse social em encostas, sistematização de limite de altura de 1,5 m em cortes e aterros, utilizando-se
procedimentos para sua concepção e subsídio à revisão de sempre muros de contenção. A concepção das habitações
critérios urbanísticos aplicáveis”. Estas últimas destinam- e de seu agrupamento foi feita de acordo com faixas de
se a áreas reais em encostas situadas em Jacareí (SP), e sua declividades. Consideraram-se áreas hipotéticas segundo
concepção resulta da aplicação do método apresentado no quatro faixas, denominadas como mostra a Tabela 7.1:
Capítulo 5.

7.1 - Tipologias associadas à Carta


Geotécnica dos Morros de Santos e São
Vicente
O primeiro grupo de projetos desenvolvidos pelo
IPT para encostas integra o trabalho “Carta Geotécnica
dos morros de Santos e São Vicente”. Como já se destacou
no Capítulo 2, tal Carta tem cunho pioneiro no Brasil, no Tabela 7.1. Áreas (faixas de declividades) consideradas para as
tipologias da Carta Geotécnica dos morros de Santos e São Vicente.
que diz respeito à reunião de informações de meio físico
para orientação à ocupação urbana. A Carta não se esgotou,
porém, na caracterização do meio físico. A equipe
Desenvolveram-se então estudos preliminares para
responsável por seu desenvolvimento, envolvendo
214 as áreas dos tipos II, III e IV. Como princípio geral de
profissionais de várias áreas de formação, incluía três
concepção, admitia-se que as casas fornecidas seriam
arquitetos (Adhemar Bolanho, Wanda Whitaker Souza e
embriões, construídos em sistema misto de alvenaria e
Silva e o autor do presente trabalho). Reconhecia-se que
madeira. Foram concebidos quatro tipos de habitações
os padrões de ocupação então vigentes nos morros de
evolutivas (tipos A e B para áreas II, tipo C para áreas III
Santos e São Vicente passavam a assumir feições
e tipo D para áreas IV).
preocupantes, o que conduziu à elaboração de estudos
preliminares de tipos de habitações e de implantações mais Como seqüência de obras, previa-se o remodela-
seguras, tendo em vista orientar novas ocupações e, mento inicial do terreno com a implantação simultânea de
principalmente, as relocações de moradores de áreas obras de contenção e de drenagem. Em seguida, construir-
expostas a riscos. se-iam os embriões.

Coleção Habitare - Habitação e Encostas


Apresentam-se a seguir as características principais 40,25m2 e Estágio 3, completando52,5 m2). Na figura, apenas
das habitações de tipo D. Nesta tipologia, destinada a faixas no Estágio 1 representa-se a viela para circulação de pedestres
de declividades elevadas (entre 46,6% e 57,7%), usa-se parte (parte superior da figura). Ainda no Estágio 1, a parte
da casa (a construída em alvenaria) apoiada sobre o terreno hachurada representa o lote típico de cada unidade
remodelado, e parte apoiada em pilotis (a construída em habitacional, com lado maior disposto paralelamente às
madeira, em trechos de terreno mantidos com o perfil curvas de nível, com comprimento de 18m. A largura
natural). Com este expediente, conseguiram-se alturas de recomendada para os lotes era de 5,25m, o que redundava
corte e aterro bastante discretas (cerca de 1,5m), como em lotes típicos com área de 94,5 m2.
esquematizam as figuras 7.1 e 7.2. Do ponto de vista do Na Figura 7.4 mostra-se a fachada de fundos de
urbanismo local, não se previa o acesso de automóveis até uma unidade no Estágio 3.
as unidades habitacionais; as circulações eram exclusivamente
Ainda que se utilizassem nas tipologias A, B e C
destinadas a pedestres, envolvendo escadarias e vielas.
desníveis fracionários de um pé direito entre ambientes,
Na Figura 7.3, a seguir, apresenta-se a planta da como mostram as figuras 7.5 e 7.6, mais adiante, para as
unidade-embrião (Estágio 1), cuja área seria de 28m2, e das unidades de tipos B e C prevalece nos estudos preliminares
duas ampliações previstas (Estágio 2, atingindo área de produzidos uma grande simplicidade de concepção .

215

Figura 7.1. (Corte sem escala). Remodelamento de terreno e Figura 7.2. (Corte sem escala). Implantação de unidades do tipo D
implantação de contenções e drenagens para implantação de unidades no terreno remodelado. Medidas em centímetros. Fonte IPT(1978).
tipo D. Medidas em centímetros.