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DICAS PORTUGUÊS PARA CONCURSOS

DICAS PORTUGUÊS PARA CONCURSOS

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Apostila dicas de português para concursos público,
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Dica nº 1 Estilística – Pronomes (pessoais, possessivos), artigos (definidos e indefinidos) e “que” – Use só o estritamente necessário. Assim, sua escrita ficará mais enxuta e elegante. Como fazer isso? Observe as substituições abaixo:· • Eu gosto de massas. ® Gosto de massas. •Tu sabes o que aconteceu? ® Sabes o que aconteceu? •O garoto chegou acompanhado de sua mãe, que o trouxe bem arrumadinho. ® O garoto chegou acompanhado da mãe, que o trouxe bem arrumadinho. •Tenho pelo menos uma idéia na minha cabeça. ® Tenho pelo menos uma idéia na cabeça. (“Uma” aí não é artigo indefinido, mas numeral.) •Quero ouvir uma opinião sua. ® Quero ouvir sua opinião. •Preparei um relatório circunstanciado sobre o assunto. ® Preparei relatório circunstanciado sobre o assunto. •Isto é para a sua apreciação. ® Isto é para sua apreciação. •O meu nariz ardeu ontem. ® Meu nariz ardeu ontem. •Ele disse que estava pronto para vir. ® Ele disse estar pronto para vir. (Substituise a conjunção integrante “que” e o verbo na forma modal pelo verbo na forma infinitiva.) •O secretário-adjunto, que foi nomeado secretário titular, ainda não foi empossado no novo cargo. ® O secretário-adjunto, nomeado secretário titular, ainda não foi empossado no novo cargo. Não há erro gramatical nas frases acima, mas elas ficam mais bem apresentadas depois de efetuadas as substituições. A frase “Tenho pelo menos uma idéia na minha cabeça” é pleonástica, isto é, redundante, pois alguém só pode ter idéias na própria cabeça, não é? Lembre-se de que as construções pleonásticas viciosas constituem defeito de estilo. No geral, essas recomendações não necessitam ser seguidas rigidamente, já que há situações nas quais quem escreve “sente” que com a colocação do artigo indefinido, por exemplo, o texto fica melhor. Há outras situações em que a interposição do artigo definido evita cacofonia (sonoridade desagradável), como neste exemplo: “Enriqueça seu texto”, onde surge o encontro cacofônico “sasseu”. Isto pode ser evitado desta forma: “Enriqueça o seu texto”.

Dica nº 2 Sintaxe - Crase – Em princípio, crase é a fusão de duas vogais iguais. Mas quando isso acontece? Nos textos que você lê ou escreve, a crase ocorre na fusão da preposição “a” com: • o artigo feminino “a” ® a + a: “Entreguei o documento à diretora”;

• o pronome “a” (equivalente a “aquela”) ® a + a: “Prefiro esta fita à que vimos ontem”. • a primeira vogal dos pronomes demonstrativos aquele, aqueles, aquela, aquelas, aquilo ® àquele (s), àquela (s), àquilo: “Somente entregarei a bola àquele garoto”. Essa fusão não fica aparente na pronúncia, mas, sim, na escrita, pois se assinala a crase com acento grave (`), como se vê nos exemplos acima. Portanto, a + a = à. Lembre-se: do fenômeno da crase participam, na maior parte do casos, uma preposição e um artigo ou pronome feminino. Isso traz algumas conseqüências, como: 1. Só ocorre crase diante de nomes femininos: “Dei o lápis à Joaninha” ou “Refiro-me à carta de ontem”. (Única exceção: a + aquele = àquele, porque neste caso não houve fusão da preposição com artigo, mas com a primeira vogal de pronome demonstrativo.) 2. Só ocorre crase diante de nomes de Estados se eles costumam ser usados com artigo: “Viajarei à Bahia” ou “Vamos à Paraíba nas férias” , porque dizemos : “A Bahia fica na região Nordeste” e “A Paraíba tem lindas praias”. Mas não dizemos: “Viajaremos Santa Catarina” nem “Vamos Rondônia nas férias”, porque esses nomes são usados sem artigo: “Santa Catarina é Estado sulista” e “Rondônia é bastante quente”. 3. Só ocorre crase diante de nomes de cidades se eles forem precedidos por qualificativos, como bela, vibrante, pitoresca, etc.: “Refiro-me à bela Londrina”, mas “Refiro-me a Londrina”; “Viajou à vibrante São Paulo”, mas “Viajou a São Paulo”. Observe que este “a” é preposição = para. Aí surge uma questão: por que houve crase em “Viajou à vibrante São Paulo”, se a crase é a fusão da preposição “a” com o artigo feminino “a” e São Paulo é nome masculino? Por quê, hem? Elementar, meu caro internauta: porque aí está subentendida a palavra cidade. É por isso que poderíamos, sem problema algum, dizer: “Vamos à bela São Paulo”, “Dirigimo-nos à linda Lençóis”, etc. 4. Não ocorre crase diante de pronomes pessoais (retos ou oblíquos): “Dê a ela este livro”, não “Dê ela este livro”; “Dê a mim o que me cabe”, mas não “Dê mim o que me cabe”, porque esses pronomes não são usados acompanhados de artigo. Você já viu que para haver crase tem de haver preposição mais artigo. Se a palavra não é usada acompanhada de artigo, nada de crase. 5. Não ocorre crase diante de numerais: “Ponte a 50 metros”, mas não “Ponte 50 metros”; “Daqui a 20 anos”, mas não “Daqui vinte anos”. Isto pela mesma razão do caso 4, ou seja, os numerais não são acompanhados de artigo, já que não se diz “o dois”, “os 50”. Se alguém disser, estará subentendendo alguma palavra, como “o dois (o número dois)” e “os 50 (os anos 50)”. Nesses casos, o artigo estará acompanhando aqueles nomes (número, anos) e não os numerais.

Dica nº 3

Semântica – Paronímia

– Paronímia é o fenômeno lingüístico pelo qual palavras de significados diferentes apresentam estrutura fonética – digamos, sonoridade – e grafia semelhantes. A rigor, os parônimos não deveriam ser estudados em Semântica, disciplina que se ocupa do estudo do significado de elementos da língua. Entretanto, isso acontece porque os significados dessas palavras são muitas vezes confundidos e toma-se equivocadamente um no lugar do outro. Exemplos de parônimos: instrumentar (dotar alguém de instrumento, de meio de fazer algo) e instrumentalizar (fazer de instrumento alguém, um grupo de pessoas, uma organização; manipular, manobrar). Assim, “vamos instrumentar os recém-formados para poderem sair logo em campo” e “o que ele pretende é instrumentalizar a associação em benefício próprio”. Instrumentar não está no dicionário com esse significado e instrumentalizar ainda não está dicionarizada. Como se vê, os dicionários estão sempre atrasados com relação à realidade viva da língua... Não é porque a palavra não está no dicionário que ela não existe. Veja outros exemplos: mandato (delegação que se concede a alguém para fazer algo em nosso nome) e mandado (ordem escrita expedida por autoridade judicial). Dessa maneira, os deputados recebem mandato do povo para representá-lo e agirem no interesse popular, pelo menos é o que se espera que façam. Já o mandado foi assinado pelo juiz para autorizar busca e apreensão de algo na casa de alguém. Mais um: felina (adjetivo feminino relativo a uma classe de animais, os felinos) e ferina (adjetivo feminino relativo a fera). Dizemos, pois, “pegada felina” e “crítica ferina”.

Dica nº 4

Por que, por quê, porque, porquê Esses quatro aí complicam muita gente, menos pela complexidade dos conceitos e mais por falta de “pegar-se o touro a unha” e aprender. A grafia desses vocábulos varia conforme o significado que apresentam e a posição na frase. Vamos a eles: 1. Por que Uso 1 – Grafa-se separadamente e sem acento quando a expressão puder ser substituída por pelo qual, pela qual e seus plurais. Assim, em “Aquele é o portão por que devo entrar”, posso substituir o “por que” por pelo qual. Em “Essas são as razões por que não permaneci no cargo”, posso substituir o “por que” por pelas quais. Classe de palavra – Preposição por + pronome relativo que. Uso 2 – Grafa-se da mesma maneira quando “por que” puder ser substituída por por qual motivo, por qual razão. Exemplos: “Por que você faltou?” e “Não sei por que a semente não germinou”. Classe de palavra – Preposição por + pronome interrogativo que. 2. Por quê

É o mesmo caso do “uso 2”, acima, mas aqui o pronome interrogativo termina a frase e depois dele, portanto, vem algum sinal de pontuação: “Afinal, a Marina não veio, por quê?” e “Não me pergunte por quê, já lhe disse.” Como vimos, grafa-se separadamente e com acento circunflexo no “e”.

3. Porque Uma só palavra, sem acento gráfico. Introduz noção de causa ou alguma explicação. -Classe de palavra Conjunção subordinativa causal: “O Brasil é país injusto porque sua elite é egoísta”. A causa de o Brasil ser país injusto é sua elite ser egoísta. (Equivale a uma vez que.) Conjunção coordenativa explicativa: “Precisei afastar-me porque alguém se aproximou”. A aproximação de alguém explica meu afastamento. (Equivale a pois.)

4. Porquê Uma só palavra, acentuada. Classe de palavra – Substantivo. É empregada antecedida de artigo, adjetivo, pronome, numeral, enfim, de vocábulos que normalmente acompanham um substantivo. Exemplos: “Gostaria de saber o porquê disso tudo”. “Quer saber por quê? Tenho pelo menos dois porquês.” Significa razão, motivo

Dica nº 5

Fonética/Fonologia - Se alguém lhe perguntar quais são as vogais portuguesas, você rapidamente vai responder: a, e, i, o, u, não é mesmo? Foi assim que todos aprendemos e é assim que milhares de professores continuam ensinando...errado. Não se espante, é isso mesmo. E por quê? Porque quando se ensina assim está-se confundindo fonema com letra e, antes de ser letra, a vogal (e a consoante também) é fonema. Vejamos como as coisas se passam. Sabemos que algumas letras representam graficamente mais de um fonema. É o caso do "x", que representa os fonemas /z/ (exame), / s / (experiência), / š / (faixa), / ks / (fixo). Isso também acontece com as vogais. Dessa maneira, temos as seguintes vogais orais: /a/ (par, cano) /e/ (mel, café) /e/ (vez, você) /i/ (giz, ali)

// (sol, avó) /o/ (pôs, coco) /u/ (luz, azul) Todas essas vogais são fonemas distintos, porque sua troca pode acarretar mudança de significado. Por exemplo, se em "selo"(estampilha), trocarmos /e/ por /e/, teremos "selo" (flexão do verbo selar, eu selo); se em "nós" (pronome reto ou plural de "nó") trocarmos o // por /o/, teremos "nos", pronome oblíquo da primeira pessoa do plural, e assim por diante. Então, na verdade, temos sete vogais orais, representadas por cinco letras, a saber:Fonema vogal /a/ /e/ /e/ /i/ // /o/ /u/ Letra correspondente a e e i o o u.

Você vai dizer agora que está tudo explicado e acabado, não é? Ainda não. Faltam as vogais nasais. São elas: /ã/ (maçã, ampola, antes) /ẽ/ (sempre, pente) / ĩ / (fim, cinto) /õ/ (compra, ponto) /ű/ (um, fundo). Temos a seguinte correspondência entre vogais nasais e letras: Fonema vogal Letras correspondentes /ã/ /ẽ/ /ĩ/ /õ/ /ű/ ã, am, an em, en im, in õ, om, on um, un

Em resumo, temos, em português, 12 vogais, das quais sete são orais e cinco, nasais, ou seja: /a/, /e/, /e/, /i/, //, /o/, /u/, /ã/, /ẽ/, / ĩ /, /õ/, /ű/.

Dica nº 6 Morfologia - Verbo Faz ou fazem vinte anos? Quando o verbo fazer é empregado no sentido de decorrer tempo, é impessoal, isto é, não tem sujeito e, conseqüentemente, permanece invariável na terceira pessoa do singular. Dessa forma, diz-se: "Faz um mês que Francisca chegou" e "Faz vinte anos que moro aqui". Se, nesse caso, "fazer" estiver acompanhado de verbo auxiliar, este também ficará invariável: "Vai fazer cinco meses que não chove na região" e "Deve fazer 95 anos que meus avós chegaram da Espanha". Entretanto, na expressão fazer anos, ou seja, aniversariar, o verbo "fazer" tem sujeito e, portanto, flexiona-se normalmente. Exemplos: "Gabriel faz cinco anos no dia 17", "As gêmeas fazem 15 anos em setembro" e "Fazem 30 anos aqueles fatos narrados". (Neste exemplo, "aqueles fatos narrados" é sujeito de "fazem 30 anos".)

Dica nº 7

Fui eu que fiz, fui eu quem fez ou fui eu quem fiz? Quer saber mesmo? Pois todas estão corretas. Vejamos: Fui eu que fiz - Justificativa - O verbo que tem como sujeito o pronome relativo que concorda em número e pessoa com o antecedente, a palavra que precede esse pronome. Exemplos: "Foi ele que te nomeou", "Sou eu que vou agora", "Fomos nós que escrevemos a carta" e "Serão os pais dele que receberão a herança". Fui eu quem fez - Justificativa - Se o sujeito é o pronome relativo quem, o verbo, geralmente, permanece na terceira pessoa do singular. Exemplos: "Foi ele quem te nomeou", "Sou eu quem vai agora", "Fomos nós quem escreveu a carta" e "Serão os pais dele quem receberá a herança". Fui eu quem fiz - Justificativa - Se o sujeito é o pronome relativo quem, o verbo pode ser influenciado pelo sujeito da oração anterior, com o qual acaba concordando. Exemplos: "Sou eu quem vou agora", "Fomos nós quem escrevemos a carta" e "Serão os pais dele quem receberão a herança".

Dica nº 8 Ao invés de ou em vez de? As duas formas estão corretas, cada uma com seu sentido.

"Ao invés de" significa "ao contrário de" e usa-se quando se colocam em oposição idéias contrárias. Exemplos: "Ao invés de economizar, Gilda gastou todo o dinheiro" e "Teria sido melhor se Mário, ao invés de falar, ficasse quieto". "Em vez de" quer dizer "no lugar de" e usa-se tanto no primeiro caso como quando as idéias não são contrárias, por exemplo: "Manifeste-se, em vez de se omitir", "Em vez de crase, estude regência nominal agora" e "Por que você não usa a blusa amarela, em vez dessa (de + essa) feiosa aí?". Assim, é incorreto dizer-se "Ao invés de ir à padaria, foi ao supermercado", pois padaria não encerra idéia contrária à de supermercado.

Dica nº 9 EUA ou E.U.A.? VASP ou Vasp? É dúvida comum essa, a de como grafar as siglas. Estas são formas abreviadas, geralmente compostas das letras iniciais dos nomes de organizações, empresas e até de pessoas. A propósito, políticos costumam ser conhecidos pelas iniciais de seus nomes, que formam siglas. Por exemplo, o ex-presidente Juscelino Kubitschek era e é conhecido por JK. Jânio Quadros também foi muito citado na imprensa como JQ. Outros personagens menos exemplares também são conhecidos por siglas, como PC e EJ. O nome "Estados Unidos da América" pode ser convertido na sigla EUA ou E.U.A. A Viação Aérea São Paulo S. A. corresponde a VASP ou Vasp. Mas, afinal, como se deve escrever as siglas? Sigla - Tipo especial de abreviação formada pelas letras iniciais de nomes de organizações (por ex., partidos políticos), empresas, órgãos públicos, etc. Exemplos: PPB - Partido Progressista Brasileiro PT - Partido dos Trabalhadores OAB - Ordem dos Advogados do Brasil ONU - Organização das Nações Unidas Banespa - Banco do Estado de São Paulo S. A. Varig - Viação Aérea Rio-Grandense S. A. FNDE - Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística SHIN - Setor Habitacional Individual Norte. As siglas, uma vez popularizadas, comportam-se como verdadeiros substantivos e, como tais, estão sujeitas aos fatos próprios dessa classe de palavras, como flexão de número e o acréscimo de prefixos e sufixos. Através deste recurso, a sigla é sentida como palavra primitiva, podendo produzir derivadas. Assim: pró-OAB, petismo, pepebista. Particularidades das siglas:

· Plural - As siglas podem admitir marca de plural, um "s" minúsculo, sem apóstrofo: CEPs, QSLs, PPAs. Mas também podem permanecer na forma singular e o plural é marcado pelo vocábulo que as acompanha: os QSO. · Pontos no interior da sigla - A norma oficial prevê o uso de pontos para marcar essa forma reduzida, mas o próprio Pequeno Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (PVOLP) apresenta exemplos com e sem pontos. A tendência generalizada é a da supressão dos pontos. Assim, E. U. A. ou EUA. · Maiúsculas ou minúsculas - O PVOLP admite a sigla escrita com todas as iniciais maiúsculas ou somente a primeira. Dessa forma, podemos grafar VASP ou Vasp.

Dica nº 10 Daqui a 50 km ou daqui há 50 km? Freqüentemente, confunde-se "a" com "há", mas não há razão para isso - embora sejam homônimas (têm a mesma pronúncia) -, pois são palavras com uso bem distinto. Neste contexto, "a" é preposição e indica distância a percorrer a contar de determinado ponto. Portanto, o cabível é "Daqui a 50 km", que equivale a "cinqüenta quilômetros a contar daqui". Outro exemplo: "Daqui a 10 km, você encontrará um posto de gasolina". Quando se quer expressar noção de tempo futuro, recorre-se novamente à preposição "a". Assim, "Daqui a cinco anos, Vanessa estará uma bela moça", "Como estará São Paulo daqui a 100 anos?" e "Estávamos a 15 minutos do começo da sessão quando o presidente anunciou seu cancelamento". (Neste caso, "a" indica tempo futuro a partir de certo momento ocorrido no passado.) "Há" é flexão do verbo haver e usa-se para expressar noção de tempo passado. Assim, dizemos: "Há dois anos que moro aqui" ou "Saíram de Goiânia há 23 anos". Nestes casos, "há" pode ser substituída por "faz": "Faz dois anos que moro aqui" e "Saíram de Goiânia faz 23 anos". "Há" também é usada para indicar distância percorrida: "A entrada para Caldas Novas ficou há 20 km". Em resumo · Há - Tempo passado e distância percorrida: "Há 30 anos = Faz 30 anos" e "Há 30 km". · A - Tempo futuro e distância a percorrer: "Daqui a 30 anos" e "Daqui a 30 km".

Dica nº 11 O mesmo "João foi promovido ontem. O mesmo será homenageado na próxima semana." É comum ler-se construções desse tipo, onde o vocábulo "mesmo" é empregado dessa forma inadequada. E por que se deve evitar esse tipo de uso? Porque demonstrativos como tal, mesmo, próprio servem para identificar alguma coisa, ou seja, para indicar que se trata de alguém ou algo de quem ou do que já se falou ou já se sabe distinguindo-o de outro alguém ou outra coisa: "Li XYZ. Não me agradou tal livro", "Essa é a mesma salada de ontem" e "Dá na mesma (coisa)". No primeiro caso, tal indica que o livro é aquele e não, outro. No segundo, mesma evidencia tratar-se de determinada salada em oposição a outras e, no terceiro, que se está falando de certa coisa e não, de outras. Portanto, é incorreto dizer-se: "João foi promovido ontem. O será homenageado na próxima semana", pois neste caso não se está distinguindo João de nenhum outro João. Essa construção pode ser refeita, de maneira mais acertada, assim: "João foi promovido ontem. Ele será homenageado..." ou "João foi promovido ontem e será homenageado..." ou ainda: "João, que foi promovido ontem, será homenageado...". Há muitos recursos para se fugir da incorreção ou da pobreza no uso da linguagem. Mesmo e mesma, próprio e própria e seus plurais são ainda empregados para reforço de expressão, no que mantêm o princípio que norteia o uso descrito acima. Assim, "eu mesma fiz o bolo" (eu e ninguém mais), "nós mesmos preferimos vir para receber o prêmio" (nós, não outros) e "o próprio chefe redigiu o memorando" (deveria ser outra pessoa, mas foi ele). Pronome - Palavra gramatical que substitui ou pode substituir um nome (substantivo) ou a ele se refere: eu, lhe, isto, meu, etc. Exemplos: "Eu sou a força!", "Dê-lhe o recado", "Isto é seu", "Esse crachá é o meu". O pronome pode classificar-se em: · apassivador - É a função que a partícula "se" exerce na formação da voz passiva sintética ou pronominal. Neste caso, o sujeito é inanimado - incapaz de praticar a ação verbal - ou apenas paciente da ação: "Plantaram-se várias árvores no canteiro central", "Alugam-se quartos" e "Quero que se me devolva o dinheiro". [Note neste último exemplo que aparece um objeto indireto (me).] A função apassivadora do "se" é constatada ao converter-se a voz passiva sintética na analítica: "Várias árvores foram plantadas no canteiro central", "Quartos são alugados" e "Quero que o dinheiro seja devolvido para mim". · demonstrativo - Refere-se à posição (no tempo ou no espaço) de alguma coisa situada em relação a uma das pessoas gramaticais (a que fala, com quem se fala e de quem se fala) ou à identidade de alguma coisa ou então indica a distância de algo que aparece no texto. Os demonstrativos são: este esta isto esse essa isso aquele aquela aquilo

..Este, esta e isto usam-se para indicar proximidade da primeira pessoa, a que fala: "Coloque a mesa neste (em + este) espaço", "Esta taça fica aqui", "Este ano promete muitas surpresas" (ano em que se está) e "Isto está atrapalhando a passagem". Esse, essa e isso são usados para indicar proximidade da segunda pessoa, a com quem se fala ("Esse carro é importado?", "Onde você comprou essa blusa?), ou da primeira e da segunda simultaneamente ("Está vendo esse menino aí? É filho da Márcia" e "Cuidado com a cabeça, que essa porta é baixa."). Com relação ao tempo, expressam proximidade passada ou futura: "Junho foi bem produtivo; nesse mês, trabalhei muito" e "Agosto vem aí. Esse mês promete ser bastante seco". Aquele, aquela e aquilo expressam distanciamento, no espaço ou no tempo, de alguma coisa em relação à primeira e à segunda pessoas simultaneamente: "Aquela menina é minha prima" e "Aquilo aconteceu há muito tempo". No texto, usam-se os demonstrativos para indicar o ser ou coisa de que se falou: "Paulo, Afonso e Wagner seguiram carreiras diferentes. Aquele tornou-se bancário e este, advogado" (Aquele = Paulo e este = Wagner). Assim, aquele se refere ao termo mais distante e este, ao último citado. Demonstrativos como tal, mesmo, próprio servem para identificar alguma coisa: "Li XYZ. Não me agradou tal livro" e "Dá na mesma (coisa)". Usa-se mesmo/mesma para indicar que se trata de alguém ou algo de que já se falou ou já se sabe, distinguindo-o de outro alguém ou outra coisa: "Essa é a mesma salada de ontem". É inadequado dizer-se: "João foi promovido. O mesmo vai ser homenageado", pois neste caso não se está distinguindo João de ninguém mais. topo · indefinido - Tem justamente essa função, a de "indefinir", ou porque não se sabe a identidade de algo ou por não se querer identificar. Designa a terceira pessoa gramatical de forma vaga, indeterminada. São pronomes indefinidos: alguém, algo, ninguém, qualquer, tudo, cada qual, quem quer que, etc. Exemplos: "Alguém está interessado em você", "Tenho algo para te mostrar", "Ninguém chegou na hora", "Qualquer pessoa faz isso facilmente", "Tudo ajudou", "Cada qual com seu igual" e "Quem quer que chegue atrasado não vai entrar". topo · interrogativo - É usado para se fazer questionamento, interrogação: quem (qual pessoa?), que (qual coisa? qual motivo?), qual (pessoa ou coisa dentre outras), onde (em que lugar?), quando (em que tempo?), quanto (que quantidade? de seres ou coisas). Exemplos: "Quem está aí?"; "Que há com você?", "Por que ela não veio?"; "Qual (ou quem) de nós vai primeiro?"; "Qual das janelas está quebrada?"; "Onde está o microfone?"; "Quando Luciana viaja?"; "Quanto custa?"; "Quantos já embarcaram?". topo · pessoal - Substitui um nome e ao mesmo tempo indica sua pessoa gramatical (a que fala, com quem se fala ou de quem se fala). Pode ser reto (eu, nós), oblíquo (me, nos) e de tratamento (você, a gente, vossa excelência, o senhor, fulano). Exemplos: "Nós é que somos os heróis", "Siga-me", "Você poderia passar-me o jornal?". - oblíquo: é o que exerce, na frase, a função de complemento do verbo: me, o, lhe, se, nos, etc., como em "Beije-me mais uma vez", "Comprei-o num antiquário", "Não lhe responda", "Os dois se abraçaram fraternalmente", "Francisco nunca nos visitou". Como o pronome oblíquo exerce função complementar, orações como

"Deixe para mim fazer" são incorretas de acordo com a norma culta, pois ele aí está desempenhando a função de sujeito. Neste caso, deve-se substituí-lo pelo pronome reto eu: "Deixe para eu fazer". topo · possessivo - Expressa noção de posse de uma das pessoas gramaticais (possuidor) em relação à coisa possuída: meu, teu, seu e os correspondentes plurais. Exemplos: "Meu filho chegou", "Teu cabelo está desalinhado" e "Seu ônibus já passou". Pelos exemplos, vê-se o grau de relatividade da "coisa possuída", pois nem sempre o possessivo exprime a noção de propriedade. Os pronomes oblíquos também podem desempenhar papel possessivo, como nestes exemplos: "Roubaram-lhe a carteira = roubaram a sua carteira" e "Conquistou-me a confiança = conquistou a minha confiança". topo · recíproco - É o que expressa reciprocidade da ação verbal. Isto significa que os agentes da ação praticam-na e ao mesmo tempo a recebem. Assim, em “Jonas e Alves abraçaram-se” e “Nós nos entendemos”, os verbos e os pronomes se e nos são recíprocos. Estes funcionam aqui como objetos diretos, mas, empregados com outros verbos, poderão classificar-se como objetos indiretos. Conforme a construção, tal pronome pode causar ambigüidade, razão por que, se queremos exprimir reciprocidade de ação, devemos utilizar as expressões um ao outro, uns aos outros, mutuamente e reciprocamente em benefício da clareza. Dessa forma, na oração “Oscar e Gouveia feriram-se”, não se sabe se ambos foram feridos por alguma causa externa, se cada um feriu-se individualmente ou se um feriu o outro. No primeiro caso, o “se” é pronome apassivador; no segundo, pronome reflexivo e no terceiro, pronome recíproco. Neste caso, para evitar a imprecisão, construímos: “Oscar e Gouveia feriram-se um ao outro” (ou “mutuamente” ou “reciprocamente”). É possível ainda empregarmos forma verbal na qual se integra o prefixo entre- para indicar claramente a reciprocidade, como em “Carlos e Daniela entreolharam-se”, isto é, ele olhou para ela e ela fez o mesmo em relação a ele.topo · reflexivo - Pronome pessoal oblíquo que, embora funcione como objeto direto ou indireto, refere-se ao sujeito da oração: me, te, se, si, nos, etc. O pronome reflexivo apresenta três formas próprias na terceira pessoa, do singular e plural: se, si e consigo. "Guilherme já se preparou", "Ela deu a si um presente" e "Antônio conversou consigo mesmo". Nas outras pessoas, os reflexivos assumem as mesmas formas dos demais oblíquos não-reflexivos: me, mim, te, ti, nos, vos: "Eu não me vanglorio disso", "Olhei para mim no espelho e não gostei do que vi", "Assim tu te prejudicas", "Conhece a ti mesmo", "Lavamo-nos no rio", "Vós vos beneficiastes com a Boa Nova". topo · relativo - É a palavra que, numa oração, refere-se a um termo de outra, o antecedente (que vem antes): que, o qual, quem, cujo. Exemplos: "Este é o disquete que eu trouxe" (que ® disquete); "Tal o caráter herdado dos pais, o qual era preciso manter" (o qual ® caráter; se fosse empregado "que", o sentido ficaria ambíguo, pois não se saberia o que era preciso manter); "Foi ele a quem me dirigi" (quem ® ele); "Estou falando da parede cuja pintura está manchada" (cuja ® da qual a). O pronome relativo que distingue-se de outros “ques” por poder ser substituído por o qual, a qual, os quais, as quais. É preciso cuidado no emprego do que quando houver mais de um antecedente, para garantia da clareza. Veja este período: “Joaquim é o pai do Renato, que nasceu em Alagoas”. Quem nasceu em

Alagoas? Igual cuidado merecem outros relativos. Assim, em “Visitamos Itaporã e Icatu, onde se localiza a Escola de Belas-Artes”, não se sabe em qual cidade se situa a escola. topo

· de tratamento - Palavra ou expressão que vale por pronome pessoal. São eles: a gente, beltrano, fulano, sicrano, sua majestade, sua senhoria (e outros similares), você, Vossa Alteza, Vossa Excelência (e outros similares). Os pronomes de tratamento, apesar de serem da segunda pessoa gramatical (referem-se à pessoa com quem se fala), são considerados de terceira pessoa. Assim, levam o verbo e outros pronomes (oblíquos e possessivos) para a terceira pessoa, como em “Vossa Excelência esqueceu-se do compromisso”, “Sua agenda permite a Vossa Reverendíssima encontrar-se com o prefeito e “Você foi lá?”.

Dica nº 12

Etc. Quantas vezes você já usou "etc.", não é mesmo? Vamos, porém, comentar algo sobre isso. Etc. é abreviatura da expressão latina et cetera e significa "e outras coisas", "e outros (da mesma espécie)", "e assim por diante". Originalmente, era empregada apenas com referência a coisas, mas atualmente também se vê (e pode-se usar) relacionada a animais e mesmo pessoas que poderiam ser mencionados, mas são subentendidos em um texto. Assim: "lâmpadas, soquetes, conectores, plugues, etc.", "cavalos, mulas, jumentos, etc.", "Zezé di Camargo e Luciano, Chitãozinho e Xororó, Leonardo, Daniel, etc.". Com o passar do tempo, ficou obscurecido, para o falante comum, o significado original dessa abreviatura, especialmente o fato de ela conter o elemento de ligação "e". Dessa forma, etc. passou a ser vista como mais um elemento em uma enumeração, razão por que, conforme se deduz, o Pequeno Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (PVOLP) apresenta-a precedida de pontuação. Esta, contudo, deve ser a mesma ao separar-se os elementos da seqüência, como nestes exemplos: · "Carros, peças, acessórios, etc." · "Estava tudo assim agrupado: cenoura, chuchu, beterraba; banana, laranja, melancia; feijão, soja e outros grãos; etc." · "Fiscalizar. Reivindicar. Protestar. Etc. Tudo isso faz parte da prática da democracia." Entretanto, alguns puristas da língua relutam em aceitar pontuação antes do etc., apesar de esse uso ser respaldado pelo PVOLP e ser ratificado por respeitados gramáticos brasileiros, como Celso Cunha e Celso Luft.

Agora, vamos acrescentar mais um ponto polêmico na nossa discussão. Se, na origem, ficava evidente a presença do elemento de ligação "e" (et cetera), que já não é mais percebido, e se, conseqüentemente, "etc." é vista apenas como mais um elemento em uma enumeração, por que nos repugnaria o uso do "e" antes de "etc."? Portanto: "galinhas, perus, patos e etc.". Vejamos o caso do pronome comigo, formado de "com + migo". Mas o que é esse "migo"? "Migo" é resultado da transformação fonética do latim "mecum" (que significava exatamente "comigo"), onde já estava embutida a preposição "com" (cum, em latim). O que acontece com o "etc." aconteceu também aqui: com o passar do tempo, os falantes não "sentiram" mais a presença do "com" em mecum e acrescentaram mais um "com" (cum + mecum > cummecum > comigo). Daí o vocábulo "comigo", em rigor, conter dois "com". Da mesma forma, "e etc." conteria dois "e". Coisas da evolução da língua. Contudo, é preciso ficar claro que essa é, por enquanto, apenas opinião pessoal do prof. Paulo Hernandes. O uso de "e" antes de etc. ainda não é admitido nas mais conhecidas gramáticas disponíveis no Brasil. Para finalizar: vocês se lembram de um famoso jogador de futebol, que, apesar de não muito bom entendedor do processo etimológico, disse em entrevista: "Comigo ou sem migo, o time ganha."?

Dica nº 13

Coloquei mais um link no meu site. O que acha dessa frase? Possivelmente, você dirá que está tudo certo com ela, tal é sua familiaridade com essa enxurrada de palavras estrangeiras que pipocam nos textos da nossa imprensa - especializada ou não -, não é mesmo? Pois é, mas vamos aos fatos. Em primeiro lugar, a grafia das palavras no Brasil é regulamentada por lei (Decreto-Lei n.º 2623, de 21.10.55), simplificada pela Lei n.º 5765, de 18.12.71. Dessa forma, o respeito à norma ortográfica oficial é respeito à lei. Em segundo lugar, essa mesma norma disciplina a escrita de nomes estrangeiros - os estrangeirismos ou barbarismos (em sentido estrito) - que, se não forem aportuguesados, ou seja, se não se adequarem à nossa ortografia, devem ser escritos entre aspas ou então sublinhados. Devem, enfim, ser postos em destaque de alguma forma (tipos itálicos, por exemplo). Excetuam-se os já consagrados, como box, watt, show, shopping, etc. (aqui em destaque apenas para melhor visualização). A propósito, box, com significado de "compartimento", permaneceu na grafia original, mas empregada no sentido de "luta com punhos" foi aportuguesada para "boxe" e tem ainda sinônimo vernáculo: pugilismo. Assim, o correto é escrever-se "link", software, upgrade. O ideal seria que os meios de comunicação - TV, rádio, revistas, jornais e agora a Internet - adotassem postura de defesa da nossa cultura, aí incluída a língua portuguesa. Para isso, procurariam traduzir para o português, quando possível, os nomes estrangeiros que através deles ingressassem em nosso meio. Caso não fosse possível, que pelo menos adaptassem à nossa ortografia essa torrente de palavras estrangeiras, especialmente inglesas.

Não se entende, a não ser em razão de mentalidade colonizada, que a maioria dos estrangeirismos não possa ser traduzida. Para ficar apenas no contexto da Internet: link não poderia ser "ligação" ou mesmo "porta"? Home page não poderia ser traduzida por "página principal" ou "página de abertura"? Browser, não poderia ser "navegador" ou "programa de navegação"? Em vez de download, bem que poderíamos utilizar "baixamento", "descarregamento" ou "descarga". Se alguém objetar que "baixamento" não está no dicionário, pois que se crie essa palavra e se a coloque nele! Banner não poderia ser "faixa" ou "faixinha"? E o que dizer de hit, no contexto da rede? Poderia perfeitamente ser traduzida por "visita" ou "acesso". Lembremo-nos de que file, desde o início da expansão da Informática no Brasil, foi apropriadamente traduzida por "arquivo". Em vez de mandar "e-mail" (abreviação de electronic mail = correio eletrônico), eu bem que poderia mandar uma mensagem ou até, abreviadamente, "msg.", já que é para encurtar... Este trecho, de três linhas, foi retirado de uma revista especializada em Internet: "Às vezes, troca-se links simplesmente, em vez de banners. Por exemplo: você tem um site...". Total desrespeito à norma ortográfica. Que pelo menos se aportuguesem tais palavras. Assim, vocábulos como link viram "linque"; site vira "saite"; browser, "bráuser" e assim por diante. Já não aportuguesamos diskette? E "leiaute", já não foi layout? Quem resiste a isso, deveria continuar a escrever football, goal, penalty, bouquet e carnet, por exemplo. Não se trata de xenofobia (aversão a tudo que é estrangeiro). Trata-se apenas de defender nossa cultura e conseqüentemente nossa língua dessa invasão desenfreada, que aqui despeja centenas de palavras sem a menor cerimônia, como se o Brasil fosse a "casa-da-mãe-joana". (Na opinião de quem assim procede e com isso concorda, é.) Vamos receber esses empréstimos lingüísticos quando necessário, quando vierem suprir lacunas do idioma e mesmo assim adaptando-os à nossa ortografia. Caso contrário, que fiquemos com as palavras da nossa língua, a qual muito mais autenticamente expressa a cultura brasileira. O Brasil proclamou sua independência política em 1822, mas, na mentalidade de muita gente, ainda somos colônia

Dica nº 14

Pirassununga ou Piraçununga? Cotegipe ou Cotejipe? Pela norma ortográfica brasileira, devem ser escritos com "ç" e "j" os nomes provenientes de outras línguas – das indígenas, inclusive – os quais contenham, respectivamente, os fonemas · /s/ (som de "s") no meio da palavra, como araçá, Açu, Araçoiaba da Serra, Guaçuí, Igaraçu, Moçoró, muçurana, Piraçununga, etc.; · /ž/ (som de "j") no início ou no meio do vocábulo, como em Cotejipe, jenipapo, Mojimirim, Potenji, Seriji. "Sergipe", pela regra, deveria ser Serjipe, mas...

Dica nº 15

Minha mulher é do signo de Leão e minha mãe, de Libra. Tenho um irmão de Áries e meus filhos são de Aquário. Tudo muito natural, não é? Pode até ser, mas que há certa "salada" lingüística aí, com certeza, há. E por quê? Porque se está misturando português com latim. Você pode dizer como quiser - não há erro nisso -, mas, por questão de coerência, deveria utilizar todos os nomes em português ou todos em latim. Aqui vão os nomes dos signos do Zodíaco, nas duas línguas:

Dica nº 16

Maiores informações É muito comum lermos na imprensa ou ouvirmos no rádio e TV, especialmente em anúncios ou avisos, essa expressão, que seria apenas esquisita se não fosse incorreta. Sim, porque maior é comparativo de superioridade de "grande". Assim, dizemos "Meu texto ficou maior que o seu" ou "Sua alegria é grande, mas a minha é maior (do que a sua)". Portanto, maior encerra duas idéias: de comparação e de superioridade na grandeza. Ora, se "vale o que está escrito", ao dizermos "maiores informações", estamos querendo dizer que tais informações são de tamanho maior que alguma outra, que já é grande. Repare que estamos comparando idéia de "tamanho". Na verdade, quem assim diz não está querendo se referir de forma alguma a tamanho, mas à "suficiência" ou ao "detalhismo" da informação. Por isso, se você quiser acertar, diga “mais informações” ou “informações mais detalhadas ou pormenorizadas". Note ainda que "grande", elevado ao grau mais alto, ou seja, ao superlativo, torna-se máximo ou o maior (ou máxima ou a maior): "Envie isso com a máxima urgência" e "Larissa é a maior! (dentre outros)".

Dica nº 17

Dígrafo

Vez por outra, deparamos com esse termo da Gramática, que expressa fenômeno lingüístico interessante em português. Mas afinal, o que é dígrafo? Dígrafo - do grego di, dois, e grafo, escrever - é dupla de letras que representa um só fonema, como "an" (em santo), que representa o fonema /ã/; "ss" (em passo), que representa /s/; "nh" (em pinho), que representa /ñ/; e outros. Portanto, nos dígrafos, as letras não formam encontro consonantal, já que não são pronunciadas as duas consoantes, pois se trata de um único fonema. Na verdade, a existência dos dígrafos revela deficiência do nosso alfabeto, pois o ideal seria que cada fonema fosse representado por uma única letra. Os dígrafos no português brasileiro são os seguintes: dígrafo fonema representado palavra-exemplo am /ã/ ambos an /ã/ antigo ch /š/ chuva em /ẽ/ sempre en /ẽ/ entrada gu /g/ guelra, guia (neste caso, usa-se "gu" somente antes de "e" e "i" e o "u" não é pronunciado.) ha /a/ há he /e/ hemisfério he, hé / e / hera, hélice hi /i/ hipismo ho /o/ hoje ho, hó // homem, hóspede hu /u/ humano im /ĩ/ impedir in /ĩ/ indicador lh /l / galho nh /ñ/ ninho om /õ/ ombro on /õ/ onde qu /k/ queijo, quilo (neste caso, usa-se "qu" somente antes de "e" e "i" e o "u" não é pronunciado.) rr // terra sc /s/ nascer sç /s/ cresço ss /s/ esse um /ű/ umbigo un /ű/ mundo xc /s/ exceção xs /s/ exsurgir

Observe ainda que:

1. Quando as duas letras são pronunciadas, não se trata de dígrafo: quase, freqüente, eqüidade, lingüiça, escada, exclamação, etc. O trema é colocado sobre o "u" exatamente para indicar que ele deve ser pronunciado. 2. No final de palavras como cantam, armazém e correm, "am" e "em" não são dígrafos, pois representam os ditongos nasais /ãw/ e /ẽy/, respectivamente, ou seja, dois fonemas. 3. Na divisão silábica, apenas seis desses dígrafos são separáveis na escrita: rr, ss, sc, sç, xc, xs. Assim, temos: car-ro, pas-so, des-ci-da, des-ça, ex-ce-to, ex-suda-çao.

Dica nº 18

150 g ou 150 g.? 100 ha ou 100 ha.? Em português, as abreviaturas são normatizadas, ou seja, são definidas por norma legal. Ao usá-las a nosso bel-prazer, podemos incorrer em erro. Dessa forma, por exemplo, os símbolos científicos são escritos sem ponto, como g (grama), ha (hectare), kg (quilograma ou quilo), m (metro ou minuto), m² (metro quadrado), min (minuto), etc. Repare que, em orações como "Depois da dieta, ela pesa agora 50 kg.", o ponto ao lado de kg nada tem a ver com a abreviatura, mas funciona apenas como ponto final do período. Símbolos técnicos desacompanhados de ponto abreviador (há símbolos técnicos pontuados, como ger. = gerúndio) não recebem "s" como marca de plural: 200 kg, 2h 10 m, 1.500 m, etc. Portanto, esta forma de notação tanto se refere ao singular como ao plural dos nomes representados. Observe, num dos exemplos acima, a forma correta de grafar horários: 3 h ou 3 h 00 m, 8h 30 m, 15 h 40 m, etc. Grafias como 05:30 h ou 17h:35 estão em desacordo com a norma ortográfica brasileira. Muitas outras abreviaturas são usadas com ponto, como alm. (almirante), cap. (capitão), gen. (general), adv. (advérbio), prof. (professor), etc. Não encontram amparo legal abreviaturas do tipo "gal." (general) ou "alte." (almirante). Abreviaturas acompanhadas de ponto podem receber "s" como marca de plural: págs. (páginas), Pes . (padres). Página também pode ser abreviada p. e páginas, pp.

Dica nº 19

Infinitivo flexionado Este tema não é dos mais simples entre os fatos gramaticais da língua portuguesa. O infinitivo é forma nominal do verbo e pode apresentar-se nas modalidades

flexionada e não-flexionada. (Veja o verbete "Infinitivo" no Glossário Gramatical.) Alguns autores adotam, para essas formas, a nomenclatura de infinitivo pessoal e impessoal. O prof. Hermínio de Campos Mello contesta esse uso alegando que tanto o infinitivo flexionado como o não-flexionado são pessoais, ou seja, referem-se a alguma pessoa gramatical. O mestre parece ter razão quando se empregam flexões como "Vou caminhar amanhã", "Ela vai caminhar amanhã" ou "Todos vão caminhar amanhã". Nestes exemplos, embora em sua forma não-flexionada, ou seja, "impessoal", o infinitivo relaciona-se sempre a uma das pessoas gramaticais. O infinitivo flexionado é idiomatismo da língua portuguesa, ou seja, é fenômeno característico, típico de nossa língua, embora não seja exclusivo dela. Tudo indica que se originou do imperfeito do subjuntivo latino (hipótese de José Maria Rodrigues) e já aparece no primeiro documento conhecido escrito em língua portuguesa, a "Cantiga da Ribeirinha" (veja a pág. Você sabia? n.º 13), como se pode ver abaixo: "e vos, filha de don Paay Moniz, e ben vus semelha d'aver eu por vos guarvaya". O infinitivo pode, pois, flexionar-se em todas as pessoas gramaticais: amar (eu), amares (tu), amar (ele), amarmos (nós), amardes (vós), amarem (eles). Morficamente, o infinitivo flexionado é idêntico ao futuro simples do subjuntivo nas conjugações verbais regulares. Distingue-se deste por encerrar significado declarativo (afirmativo ou negativo: "Quero que os alunos tenham mais aulas de Português para entenderem o infinitivo flexionado"), ao passo que o futuro do subjuntivo expressa hipótese condicional (se eles entenderem) ou temporal (quando eles entenderem). Outros exemplos de orações com o infinitivo flexionado: "Ao se aproximarem os professores, os alunos levantaram-se", "As andorinhas vinham chegando em revoada até pousarem todas sobre a figueira" e "Lembrou existirem emendas na ata da assembléia anterior". Dois autores estabeleceram regras para o infinitivo flexionado: Jerônimo Soares Barbosa e Frederico Diez (pronuncie Dits). Vejamos o que consta de cada uma:· Regra de Soares Barbosa - Em um período composto, se o sujeito do verbo no infinitivo for diferente do sujeito do verbo da outra oração, o infinitivo será flexionado. Ex.: "(Eu) Creio (nós) termos sido enganados". Por outro lado, se os sujeitos do verbo no infinitivo e do verbo da outra oração forem os mesmos, o infinitivo não se flexionará. Ex.: "(Nós) Viajamos juntos para (nós) discutir o assunto em profundidade". O autor lusitano apresenta ainda outros casos de flexão do infinitivo. · Regra de Frederico Diez - Somente se usa o infinitivo flexionado quando ele pode ser substituído por uma forma modal. Neste caso, é indiferente se ele tem ou não seu próprio sujeito. Ex.: "(Eu) Peço-lhes não recomeçarem (vocês) a discussão" ® sujeitos diferentes. Essa oração equivale a outra em que os dois verbos estão na forma modal: "(Eu) Peço-lhes que (vocês) não recomecem a discussão". Exemplo em que os sujeitos são os mesmos: "(Eles) Estão comemorando por (eles) terem passado no vestibular", que equivale a "(Eles) Estão comemorando porque (eles) passaram no vestibular". Esta regra de Diez é ótimo guia para se apurar o estilo e evitar-se "que e porque" na medida do possível. Quando cabível, suprimam-se esses elementos de ligação e converta-se o verbo da

forma modal na forma infinitiva. Dessa maneira, em vez de "Ele disse que é possível que entremos", use "Ele disse ser possível entrarmos". (Veja também a Dica n.º 1, Estilística.)

Leia agora algumas observações sobre o infinitivo baseadas em escritos do prof. Campos Mello (CURSO, s. d.). 1. O infinitivo será ou não flexionado quando a clareza assim o exigir. Ex.: "Infanta, no exílio amargo, só o existirdes me consola" (Tasso da Silveira). "D. Amélia sofria com aquela animosidade dentro de casa. Uma vez falou com o marido para sair, para procurar um lugar para morarem em casa que fosse deles" (José Lins do Rego). Se o infinitivo não se flexionasse, os sujeitos dos verbos assinalados seriam diferentes dos expressos nesses exemplos. 2. Certa ênfase de estilo pode justificar o emprego do infinitivo flexionado, como no exemplo: "As mulheres cochilando nos quartos, os homens a caçoar e a rir na sonolência, a se espreguiçarem do bom almoço pelas redes e cadeiras" (Dinah Silveira de Queiroz). 3. Cumpre não confundir o infinitivo flexionado com o futuro do subjuntivo. Assim, em "Se algum dia caírem estas linhas sob os olhos de alguém, rirão..." (Ciro dos Anjos), tem-se flexão do futuro do subjuntivo e não, do infinitivo.

A flexão do infinitivo, quando correta, propicia clareza, elegância e concisão à escrita. Para conhecimento mais amplo, consulte a bibliografia recomendada.

Dica nº 20

Onde e aonde "Onde" significa em que lugar. "Aonde" equivale a para qual lugar e emprega-se sempre com verbos que dão idéia de movimento, como ir e levar. Exemplos: "Aonde Viviane vai?". Com os verbos que não encerram idéia de movimento, usa-se "onde": "Onde você mora?" e "A casa onde nasci não existe mais". Onde e aonde são advérbios e, quanto à função, podem ser classificados como interrogativos e relativos. Serão interrogativos se integrarem oração interrogativa, tanto direta como indireta: "Onde está meu casaco?" e "Diga-me aonde Neusa foi". Serão relativos se se referirem a antecedente expresso ou implícito: "Esta é a piscina onde fui campeão" (onde = em que, na qual ® relativo) e "Vou aonde você vai". (Aonde = ao lugar para o qual ® o qual é relativo.) Esta oração equivale a "Vou ao lugar para o qual você vai". Observe ainda que: 1. Onde se refere a lugar e não, a tempo. É incorreto, pois, dizer-se "É esse o momento onde entro", pois se está falando de tempo. O correto é "É esse o momento quando (ou em que) entro".

2. O prof. Celso Cunha ressalta que a distinção de emprego entre onde e aonde é anulada por muitos escritores de renome e para isso cita alguns exemplos de obras de autores como Machado de Assis e Fagundes Varela. (Veja CUNHA, 2000, pp.342-343.)

Dica nº 21

Ambigüidade Ambigüidade é vício de linguagem pelo qual uma frase é construída, involuntariamente, com mais de uma interpretação. (Leia também o verbete Ambigüidade do Glossário Gramatical.) Dizemos involuntariamente porque, em um texto literário, o autor pode deliberadamente possibilitar mais de uma leitura a determinada frase, o que deixa de ser vício. Veja este trecho, duplamente ambíguo, inspirado em artigo de jornal: "Diretora da Branofol demite filho de Rubens Galicanto, amigo do senador Carlos Antônio, cuja ex-mulher o acusa de enriquecimento ilícito". Desconhecemos quem é amigo do senador: o filho ou Rubens. Ficamos também sem saber quem a tal senhora acusa: o filho, Rubens ou o senador. Por outro lado, a múltipla ambigüidade só não atinge a "diretora", pois supõe-se ela não ter "exmulher". Se fosse diretor, teríamos mais um elemento vicioso, em conexão com "cuja ex-mulher". Resolvemos o problema conforme o que queiramos dizer:

É preciso estarmos atentos à construção de orações para evitar ambigüidades. Há certas palavras perigosas, com as quais devemos tomar bastante cuidado para não incorrermos nesse vício, especialmente possessivos (seu, sua). Em "Celsinho, a Letícia veio com seu pai", não sabemos de qual dos dois é o pai. Resolvemos facilmente o problema dizendo "Celsinho, a Letícia veio com o pai dela" ou "Celsinho, seu pai veio com a Letícia", conforme o que pretendemos dizer. Também merecem cuidado os relativos (que, cujo), como em "Visitamos a igreja do Carmo, a mais bonita da cidade, que data de 1735". O pronome relativo que se refere sempre a um antecedente. Acontece que aqui temos dois antecedentes expressos: "igreja do Carmo" e "cidade". Por isso, devemos evitar colocar mais de um antecedente diante de um relativo (pronome ou advérbio). Desfazemos a ambigüidade da frase invertendo a ordem das orações e mesmo dispensando o pronome: "Visitamos a igreja do Carmo - datada de 1735 -, a mais bonita da cidade" ou "Na cidade - datada de 1735 -, visitamos a igreja do Carmo, a mais bonita". A homonímia e a polissemia também podem causar ambigüidade: em "Talvez eu não amasse Cláudia", não fica claro se a forma assinalada refere-se a

flexão do verbo amar ou amassar. Se a frase "As mudas chegaram" não estiver contextualizada, não sabermos se se trata de plantas ou de mulheres que não conseguem falar. (Ambos, casos de homonímia.) Em "Acadêmicos viram monólitos", caso de polissemia, há dúvida se a forma verbal é flexão do verbo ver ou virar. A substituição vocabular ou mudança na estrutura frasal resolverá o problema. O pronome possessivo seu - e suas variações - tem vários significados, ou seja, é polissêmico também. A ambigüidade, juntamente com a obscuridade, são inimigas da clareza, uma das virtudes da boa linguagem e necessidade no processo da comunicação.

Dica nº 22

Por ora ou por hora? As duas, cada uma com seu sentido. Por ora equivale a "por agora" ou "por enquanto". Por hora significa "em uma hora", "a cada sessenta minutos". Desse modo, digo "Por ora, não vou mexer com isso = Por enquanto, não vou mexer com isso" e "O carro chega a correr 300 km por hora = O carro chega a correr 300 km em uma hora". Ora, nesse contexto, é advérbio e significa "agora, atualmente" e hora é substantivo e quer dizer "fração do dia".

Dicas nº 23

Os gêneros em português - Em português, os nomes podem pertencer ao gênero feminino e ao masculino. Uma palavra do gênero feminino designa especificamente ser vivo do sexo feminino ou coisa que passa idéia feminina, por razões etimológicas ou psicológicas. Já o gênero masculino, além de designar seres do sexo masculino ou coisas que passam idéia masculina, abrange também palavras de significado mais geral - por exemplo, o homem, referindo-se ao gênero humano - ou vocábulos no plural que compreendem seres ou coisas considerados masculinos e femininos. Assim, se dizemos o menino chegou ou a menina chegou, sabemos que a referência é a um garoto ou a uma garota. Entretanto, se dizemos os meninos chegaram, não sabemos se são todos do sexo masculino ou se há garotos e garotas no grupo. É por isso que dizemos que o masculino é gênero geral, "não-marcado" e o feminino é "marcado", pois este designa especificamente seres femininos. Dessa maneira, o feminino é considerado variação morfológica do masculino, tomado como base. Outras línguas, como o grego e o latim, possuem o gênero neutro. As palavras a ele pertencentes não são nem femininas nem masculinas. O português, apesar de não possuir o neutro, guarda alguns vestígios dele - herança latina -, como os pronomes invariáveis isto (masc. este e fem. esta), isso (masc. esse e fem. essa), aquilo (masc. aquele e fem. aquela), algo, tudo, nada, etc.

A referência ao gênero é feita através de artigos (o/a, como em o boi / a vaca), pronomes (ele/ela, meu/minha, este/esta, como em ele veio, ela veio; meu dentista, minha dentista; este garfo, esta colher), pela distinção mediante morfemas de gênero (-o/-a, como em gato/gata; -ês/esa, como em freguês/freguesa; ão/ona, como em chorão/chorona). Modernamente, temos visto na imprensa o emprego da palavra "gênero" em contexto biológico, o que representa inovação, já que gênero é conceito eminentemente gramatical.

Dica nº 24

Este, esse, aquele Este, esse e aquele são pronomes demonstrativos e indicam a posição (no tempo ou no espaço) de alguma coisa situada em relação a uma das pessoas gramaticais (primeira-a que fala, segunda-com quem se fala e terceira-de quem se fala) ou localiza algo que aparece no texto. Este, esse e aquele variam em gênero e número, ao passo que as formas isto, isso e aquilo, vestígios do gênero neutro latino, são invariáveis. Veja: este esta isto esse essa isso aquele aquela aquilo Este, esta e isto indicam a proximidade de alguém ou de alguma coisa em relação à primeira pessoa, a que fala: "Coloque a mesa neste (em + este) espaço", "Esta taça fica aqui" e "Isto está atrapalhando a passagem". Também podem indicar o tempo presente: "Este ano promete muitas surpresas" (ano em que se está). Esse, essa e isso são usados para indicar a proximidade de alguma coisa da segunda pessoa, a com quem se fala ("Esse carro é importado?", "Onde você comprou essa blusa?") ou da primeira e da segunda simultaneamente ("Está vendo esse menino aí? É filho da Márcia" e "Tenhamos cuidado com a cabeça, que essa porta é baixa"). Com relação a tempo, expressam proximidade passada ou futura: "Junho foi bem produtivo; nesse mês, trabalhei muito" e "Agosto vem aí. Esse mês deverá ser bastante seco". Aquele, aquela e aquilo expressam distanciamento, no espaço e no tempo, de alguma coisa em relação à primeira e à segunda pessoas conjuntamente, portanto, indicam proximidade da terceira pessoa, a de quem se fala: "Aquela menina é minha prima", e "Aquilo aconteceu há muito tempo". No texto, usam-se os demonstrativos para indicar o ser ou coisa de quem ou de que já se falou: "Paulo, Afonso e Wagner seguiram carreiras diferentes. Aquele se tornou bancário e este, advogado" (Aquele = Paulo, este = Wagner). Assim, aquele se refere ao termo mais distante e este, ao último citado.

O pronome o (e suas variações) pode equivaler a isto, isso, aquilo e a aquele e suas variações: "Não compreendo o que você está dizendo" e "Os que estiverem de acordo venham comigo". É preciso distinguir o artigo definido do pronome demonstrativo, como neste exemplo: "Nem sempre as pessoas que chegam na frente são as primeiramente atendidas". O primeiro "as" é artigo definido e acompanha "pessoas", ao passo que o segundo é pronome demonstrativo e substitui "as pessoas" ou "aquelas". Alguns advérbios de lugar ajudam ou reforçam a localização espacial: aqui (proximidade da primeira pessoa), aí (segunda) e ali, lá ou acolá (terceira): "Está vendo este botão aqui?", "Pegue esse livro aí" e "Olhe aqueles garotos reunidos lá na esquina". Tais vocábulos, designativos da posição que seres ou coisas ocupam no espaço em relação às pessoas do discurso, denominam-se tecnicamente "dêiticos".

Dica nº 25

A nível (de), em nível (de) As expressões "a nível" ou "em nível", acompanhadas ou não da preposição "de", com equivalência a "de âmbito" ou "com status de" são muito criticadas pelos gramáticos, que as consideram sem sentido e, portanto, as condenam. Apesar de o povo ser o senhor da língua e ele dar o significado que quer a palavras e expressões já existentes ou até criar palavras novas, as formas citadas são mesmo insossas. Até que elas se consolidem e sejam reconhecidas, é preferível, para evitar críticas, usar formas cujo significado seja incontestável e que sejam pacificamente aceitas. Desse modo, em vez de "A campanha será feita a (ou em) nível mundial", prefira-se "A campanha será mundial", "A campanha terá abrangência mundial", "O âmbito da campanha será mundial" ou ainda "A abrangência da campanha será mundial", se se tratar de abrangência. Se a intenção for expressar status, no lugar de "As mudanças no Governo serão feitas em nível ministerial", use "As mudanças no Governo serão feitas no ministério", forma até mais objetiva. Na verdade, não há "princípio lingüístico" que justifique a repulsa a tais expressões, apenas sua inconsistência semântica. Finalmente, observe-se que é correto o emprego de "ao nível de" quando se quiser dizer que algo está na mesma altura em relação a outra coisa, quer em sentido próprio (denotado) ou figurado (conotado): "Ubatuba está ao nível do mar" (na mesma altura em que o mar está) e "Dizer que criminosos de colarinho branco estão ao nível de batedores de carteira é ofender estes últimos".

Dica nº 26

Quero falar consigo.

O uso dos pronomes reflexivos, especialmente o si e o consigo, pode suscitar dúvidas. Se digo "Joana gosta de falar de si", quero dizer que Joana ama falar a respeito dela mesma. Em "Ele falou consigo", estou querendo dizer que alguém falou com si próprio. Aliás, às vezes, encontramos essas frases acrescidas dos vocábulos próprio/própria e mesmo/mesma para reforçar ainda mais a reflexividade: "Joana gosta de falar de si própria" e "Ele falou consigo mesmo". Repare que esses pronomes se referem ao sujeito do verbo. Por isso, é incorreto usar-se si e consigo de forma não-reflexiva, de modo a não se referirem ao sujeito da oração, como em "Este bilhete é para si" ou "Queremos falar consigo". Já comigo, contigo, conosco, convosco são pronomes não-reflexivos, como nestes exemplos: "Venha comigo", "Quero dançar contigo", "Almoce conosco" e "O Senhor esteja convosco". Comigo e contigo podem ser completados ou reforçados com mesmo/mesma e próprio/própria, como em "Isso é comigo mesmo/mesma" e "É contigo mesmo/mesma que quero falar". Entretanto, por questão de eufonia, isto é, de sonoridade agradável, tal não ocorre com conosco e convosco. Nestes casos, usamos os pronomes retos, como em "É com nós mesmos que ele deve tratar" e "Tal assunto sempre esteve na alçada de vós próprios". O mesmo vale para construções como "Isso é com nós professores", em vez de "Isso é conosco professores". (Leia a respeito em ALMEIDA, 1979, § 319, Nota.)

Dica nº 27 Ao encontro, de encontro Ir ao encontro, que se une ao substantivo mediante a preposição de (Ir ao encontro de), significa, em sentido próprio ou denotado, sair em direção a ou ir encontrar-se com alguém, como em "Fomos ao encontro da comitiva que chegava". Em sentido figurado ou conotado, quer dizer corresponder, atender, satisfazer: "Minha proposta vai ao encontro dos seus interesses". Ir de encontro, que se une ao substantivo mediante a preposição a (Ir de encontro a), significa, em sentido próprio ou denotado, colidir, chocar-se com, ir em direção oposta a alguma coisa: "O caminhão foi de encontro ao muro". Em sentido figurado ou conotado, quer dizer estar em desacordo, contrariar: "A mudança de nome da Petrobrás vai de encontro aos interesses do Brasil". O verbo utilizado nos exemplos foi "ir", mas bem poderia ser "vir": "Seu pedido vem de encontro aos meus princípios".

Dica nº 28

Negação lexical A negação lexical faz-se em português através do "morfema de negação". Este se materializa na fala através dos alomorfes a-, des-, i-, in- e não-. Vejamos cada um deles:

aDe origem grega, "a-" entra na composição de vocábulos como acrítico (a + crítico), atípico (a + típico), atóxico (a + tóxico). Por questão de eufonia, diante de vogal, assume a forma "an-", como em anaeróbico (an + aeróbico) e anovulação (an + ovulação), embora tenhamos aético (a + ético). O prefixo de origem grega "a-" não deve ser confundido com outro, de origem latina, com significado de afastamento, separação, como em apartar. des- Trata-se de prefixo vernáculo, que integra muitos vocábulos portugueses, tais como desacerto (des + acerto), desonesto (des + honesto), desaconselhável (des + aconselhável). O prefixo "des-" pode também significar "ação contrária", como em desfazer e desconsiderar, que não é o caso de que tratamos aqui. iPrefixo de origem latina, alguns gramáticos consideram-no variante do "in-". Aparece em vocábulos como ilógico (i + lógico), iliquidez (i + liquidez), imerecido (i + merecido), imoral (i + moral). Diante de palavras iniciadas com / /, muda, na escrita, para "ir-" a fim de manter o caráter forte daquele fonema: irreal (ir + real), irrecorrível (ir + recorrível), irreconhecível (ir + reconhecível). inEste também é prefixo de origem latina, que entra na composição de muitas palavras, como inapto (in + apto), inviável (in + viável), insatisfeito (in + satisfeito). Diante de palavras iniciadas com /b/ e /p/,ocorre certa acomodação na escrita: in- transforma-se em im-, já que "b", "p" e "m" são letras que representam, todas, fonemas bilabiais, isto é, emitidos mediante a junção dos lábios. Assim, temos imbatível (im + batível), impatriótico (im + patriótico), improcedente (im + procedente). É preciso não confundir este prefixo com outro "in-", que significa "movimento para dentro", às vezes transformado em "em-" e "en-", como em embarcar e enterrar. não- Embora tenha caráter negativo, este prefixo não deve ser confundido com o advérbio de negação "não". Aqui ele entra na composição de palavras como nãoalinhado (não + alinhado), não-contradição (não + contradição), não-intervenção (não + intervenção). Grande número de exemplos que as gramáticas oferecem de prefixos é formado por palavras que vieram do latim ou do grego já com esses morfemas incorporados, o que não nos interessa em nosso estudo, o de composições ocorridas no português. Assim, átono e impróprio já chegaram ao português com os prefixos "a-" e "in-". A propósito, são oportunas estas palavras de Celso Luft: "Para que exista prefixo reconhecível, é preciso que o radical corresponda a um vocábulo autônomo ou forma livre: contradizer = contra + dizer; inverdade = in + verdade", o qual cita ainda mais dois outros requisitos. Continua ele: "Assim, não há prefixo, sob o ponto de vista descritivo, atual, em palavras como comer, esquecer, para as quais entretanto uma análise histórica depreende os prefixos com- (cum-) e es(ex-)". Vamos mais além e entendemos que não há prefixos, pelo menos em português, nos citados exemplos átono e impróprio e em todos os que a prefixação não ocorreu em nosso idioma.

Dica nº 29

O convite foi aceitado ou foi aceito? Antes da resposta a essa questão, é conveniente abordarmos o tema em que ela se insere, o dos verbos com duplo particípio, os chamados verbos abundantes. Esses verbos possuem duas formas no particípio: uma regular, com terminação em -ado na primeira conjugação e em -ido na segunda e terceira, e outra irregular, com terminação variável. A forma regular é normalmente mais longa e a irregular, mais curta. Assim, o verbo "fixar", no particípio, apresenta-se como fixado e fixo. O critério geral de emprego desses particípios é bastante simples: · Particípio regular (longo) - É usado na voz ativa, acompanhado dos verbos auxiliares "ter" e "haver", como em "Você tem secado as roupas na máquina?" e "Já havíamos limpado o piso pela manhã". · Particípio irregular (curto) - Usa-se na voz passiva, com os verbos auxiliares "ser", "estar", "ficar", "andar" e outros. Exemplos: "A roupa já está seca" e "O quarto foi limpo pela Cátia". Observações: 1. Usadas com auxiliares como "ser", "estar", "ficar" e outros, as formas do particípio variam em gênero e número. Assim, "O acordo foi firmado, os acordos foram firmados; a proposta foi apresentada, as propostas foram apresentadas". Já com "ter" e "haver", o particípio fica invariável: "Temos escrito muitos textos para o saite". Se disser "Temos escritos muitos textos para o saite", o significado da frase muda e passa a querer dizer que "temos prontos muitos textos para o saite". 2. Há particípios regulares que podem ser usados também na voz passiva. Assim, poderemos ler na imprensa: "O ministro foi fritado por longo tempo" e "A conta foi ocultada rapidamente da fiscalização". Lembre-se de que o particípio irregular desses verbos é frito e oculto. 3. Em alguns verbos que admitem ambos os particípios na voz passiva, uma forma é mais usual que outra conforme o auxiliar utilizado: "O reservatório está cheio", mas "O reservatório é enchido até a metade diariamente" e "A montanha está envolta em nuvens", mas "A montanha foi envolvida por forte neblina". Em outros contextos, o mesmo particípio acaba sendo empregado indiferentemente com um ou outro auxiliar: "O secretário presidencial esteve envolvido em escândalos" e "O secretário presidencial foi envolvido em escândalos". Nas orações reduzidas de particípio ou participiais, usa-se apenas a forma irregular: "Aceso o lampião, os rostos apareceram" (e não "acendido o lampião") e "Findo o recesso, os deputados continuaram em campanha eleitoral" (e não "findado o recesso").

Na linguagem atual, a forma regular de três verbos já caiu em desuso: ganhado (ganhar), gastado (gastar) e pagado (pagar). Curiosamente, todas relacionadas com dinheiro. Ah, faltou a resposta à questão-título! Pelo que você aprendeu acima, a forma a se empregar seria apenas "aceito" não é mesmo? Acontece que o verbo "aceitar" é uma das exceções à regra, de modo que o particípio aceitado também pode ser usado na voz passiva: "O convite foi aceito" ou "O convite foi aceitado".

Dica nº 30

É necessário paciência. Em expressões formadas pelo verbo "ser" + adjetivo (empregado substantivamente), este último não varia: É necessário calma, Ginástica é bom para a saúde, É feio falta de respeito e É proibido cigarros nesta empresa. Explicação para o fenômeno é subentender-se um verbo nessas construções: "É necessário (ter) calma", "(Fazer) Ginástica é bom para a saúde", "É feio (agir com) falta de respeito" e "É proibido (portar ou usar) cigarros nesta empresa". Quando se acrescenta ao substantivo palavra que o determina, como artigo ou pronome, a concordância torna-se obrigatória: "A calma é necessária", "Aquela ginástica é boa para a saúde". "É feia a falta de respeito" e "Os cigarros são proibidos nesta empresa". Em construções como "É necessário (fazer) muitos pontos para se ganhar o jogo", em que o substantivo está no plural, a concordância é facultativa: "São necessários muitos pontos para se ganhar o jogo". Sintaticamente, a invariabilidade do predicativo explica-se por ser o sujeito da oração expresso de forma genérica. Em "Vitamina é bom para prevenir doenças" (vitamina, conceito genérico) e "É necessário exercícios para você recuperar-se" (exercícios em geral), está-se referindo a "vitamina" e "exercícios" de modo geral, sem determiná-los. Caso haja essa determinação mediante artigo ou outro qualificativo, a concordância faz-se normalmente: "As vitaminas são boas para prevenir doenças" e "Aqueles exercícios indicados pelo fisioterapeuta são necessários para você recuperar-se".

Dica nº 31

A noção de isotopia Em Lingüística, "isotopia" (do grego isos, igual, semelhante, e topos, plano, lugar) significa plano de sentido, leitura que se faz de uma frase ou texto. Se, por exemplo, uma frase permite apenas uma leitura, é dita monoisotópica; diisotópica se permite duas; triisotópica, se três; etc. Dessa forma, em "Ganhei esta caneta do meu pai" e "Nas últimas férias, descansei bastante" temos duas frases monoisotópicas, isto é, cada uma com apenas um significado. Em "Há muito televisor que precisa melhorar a imagem" e "Ronan, a Márcia chegou com seu pai", cada frase admite duas leituras. No primeiro exemplo, imagem = representação televisionada de pessoas e coisas e também conceito. No segundo, seu = de Ronan ou de Márcia. Já em "Empresas negam oferecimento de propina", temos frase triisotópica, em que, negam oferecimento = recusam oferecer; desmentem ter oferecido e desmentem ter recebido oferecimento. O mesmo ocorre em "Acadêmicos viram monólitos", em que viram = flexão do verbo ver, de virar -1 (transformar-se) e de virar -2 (mudar de posição). A multiplicidade de planos de sentido é geralmente produzida por homonímia ou polissemia. É importante notar que o conceito de isotopia pertence à Lingüística particularmente à Semântica, um ramo seu -, ciência que descreve os fatos da língua sem impor normas nem se preocupar com certo e errado. Assim, para a Semântica, é indiferente se a pluralidade de significados de uma frase ou texto é produzida intencionalmente ou não. Entretanto, para a Gramática, normativa que é, a duplicidade de sentido será encarada como recurso de estilo se for produzida intencionalmente com objetivos estéticos ou expressivos. Em caso contrário, será considerada ambigüidade, vício sintático, que deve ser evitado. Um texto também pode permitir - parcial ou totalmente - mais de uma leitura, isto é, pode ser mono ou diisotópico, no todo ou em parte. O texto abaixo é bom exemplo disso: "Em determinado país, onde, em certa época, houve carência de mão-de-obra, o Governo baixou decreto mediante o qual os casais eram estimulados a ter filhos. Tal decreto também previa a hipótese de pessoas se casarem e não conseguirem proliferar. Neste caso, marido e mulher seriam "auxiliados" por agente destacado pelo diretor do Programa de Incentivo à Natalidade ao completarem cinco anos de vida conjugal sem filhos. Exatamente nessa situação encontrava-se o casal que travou o seguinte diálogo: Mulher - Querido, hoje completamos o quinto aniversário de casamento. Marido - É... e infelizmente ainda não tivemos um herdeiro. - Será que eles vão enviar o tal agente? - Não sei... - E se ele vier? - Bem, nada tenho a fazer. - Eu, menos ainda. - Já vou sair, pois estou atrasado para o trabalho.

Logo após a saída do marido, alguém bate à porta. A mulher atende e encontra um homem à sua frente. Era um fotógrafo que se enganara de endereço. Homem - Bom dia! Eu sou... Mulher - Ah, já sei. Pode entrar. - Seu marido está em casa? - Não, foi trabalhar. - Presumo que ele esteja a par... - Sim, está a par e também concorda. - Ótimo! Então vamos começar? - Mas...já? Assim tão rápido? - Preciso ser breve, pois ainda tenho dezesseis casais para visitar. - Puxa! O senhor agüenta? - Agüento sim, pois gosto do meu trabalho. Ele me dá muito prazer. - Então, como vamos fazer? - Permita-se sugerir uma no quarto, duas no tapete, duas no sofá, uma no corredor, duas na cozinha e a última no banheiro. - Nossa! Não é muito? - Nem sempre se acerta na primeira tentativa. - O senhor já visitou alguma casa neste bairro? - Não, mas tenho comigo algumas amostras dos meus últimos trabalhos. (Mostra fotos de crianças.) Não são belos? - Como são lindos esses bebês! O senhor os fez? - Sim. Este aqui (mostra uma das fotos) foi conseguido na porta do supermercado. - Nossa! Não lhe parece um tanto público? - Sim, mas a mãe era artista de cinema e queria publicidade. - Que horror! - Foi um dos trabalhos mais duros que fiz. - Imagino... - Esta foi feita num parque de diversões, em pleno inverno. - Credo! Como o senhor conseguiu? - Não foi fácil. Como se não bastasse a neve caindo, havia uma multidão em cima de nós. Quase não consigo acabar. - Ainda bem que sou discreta e não quero que ninguém nos veja. - Ótimo, eu também prefiro assim. Agora, se me der licença, vou armar o tripé. - Tripé???!!! Para quê???!!! - Bem, minha senhora, é necessário. Meu aparelho, além de pesado, depois de pronto para funcionar, mede um metro. A mulher desmaiou." Engraçado, não? Pois é... Mas voltemos ao assunto sério. Neste texto, a diisotopia manifesta-se para o leitor, mas para cada personagem as falas são monoisotópicas. E essa monoisotopia, principalmente para a mulher, é reforçada por afirmações do homem como "Ele (o trabalho) me dá muito prazer" e "Sim". (Ao responder à pergunta se tinha sido ele quem tinha feito os bebês.) Presumo que você tenha percebido onde a diisotopia começa: a partir da fala da mulher "Ah, já sei. Pode entrar". O estudo do significado das frases pertence à Semântica Frástica e o dos textos, à Semântica Transfrástica ou Textual.

Dica nº 32

60% da população não aprovam ou não aprova o Presidente? Vejamos a seguir casos de concordância relacionados a porcentagem. "Quando o número percentual é antecedido ou seguido de adjunto no plural, é melhor o plural: 'Esses 5% da boiada morreram' e '90% dos homens viajaram'". (ALMEIDA, 1979, § 769, 2, Nota, "a") Se esse número é seguido de substantivo ou pronome no plural (expressões partitivas) e a estes, por sua vez, seguem-se verbo de ligação e seu complemento (predicativo), o verbo e o predicativo influenciam-se pelo número e gênero do partitivo. Exemplos: "60% dos produtos importados são supérfluos", "10% das funcionárias estarão licenciadas nos próximos seis meses" e "3% dos alunos ficaram na sala para o reforço". O mesmo acontece se o predicado é constituído de locução verbal passiva: o verbo e o particípio também são influenciados, como em "25% das administrações estão sendo investigadas" e "Somente 30% dos recursos deverão ser utilizados na área social". No restante dos casos, prevalece o singular: "Apenas 5% da bancada compareceu à sessão", "50% da arrecadação mensal é destinada ao pagamento de juros" e, é claro, 60% da população não aprova o Presidente". Quando está implícita a idéia de quantidade, o verbo fica no singular: "Quanto é 45% de R$2.000,00?" e "2% de 200 é 4".

Dica nº 33

A maior parte dos eleitores é ingênua ou são ingênuos? Se o sujeito é constituído por expressão partitiva (parte de um todo) e substantivo ou pronome no plural, o verbo pode ficar no singular ou ir para o plural: "Metade das casas foi construída ou foram construídas em regime de mutirão", "A maior parte dos aviões foi destruída ou foram destruídos no solo" e "A maioria dos genes já foi identificada ou foram identificados". "A cada uma dessas possibilidades corresponde um novo matiz da expressão. Deixamos o verbo no singular quando queremos destacar o conjunto como uma unidade. Levamos o verbo ao plural para evidenciarmos os vários elementos que compõem o todo" (CUNHA, 2000: 488). Dessa forma, o verbo no singular ressalta a concordância gramatical - a "normal" -, enquanto que no plural obedece à concordância siléptica ou ideológica - "especial".

Se o substantivo ou o pronome estão no singular, o verbo permanece no singular: "A maior parte da população está desassistida" e "Somente um terço do dinheiro foi aplicado". O verbo ficará ainda no singular se a ação expressa por ele referir-se ao todo e não a cada indivíduo ou coisa separadamente: "Um pelotão de sapadores ficou aguardando ordens" e "Este lote de moedas será leiloado". Agora está fácil responder à pergunta inicial, não é? Em ambas as hipóteses, a resposta é afirmativa.

Dica nº 34

Norma culta - Padrão formal vs. coloquial Norma culta nada mais é do que a modalidade lingüística escolhida pela elite de uma sociedade como modelo de comunicação verbal. É a língua das pessoas escolarizadas. Ela comporta dois padrões: o formal e o coloquial: · Padrão formal - É o modelo culto utilizado na escrita, que segue rigidamente as regras gramaticais. Essa linguagem é mais elaborada, tanto porque o falante tem mais tempo para se pronunciar de forma refletida como porque a escrita é supervalorizada na nossa cultura. É a história do "vale o que está escrito". · Padrão coloquial - É a versão oral da língua culta e, por ser mais livre e espontânea, tem um pouco mais de liberdade e está menos presa à rigidez das regras gramaticais. Entretanto, a margem de afastamento dessas regras é estreita e, embora exista, a permissividade com relação às "transgressões" é pequena. Assim, na linguagem coloquial, admitem-se, sem grandes traumas, construções como "Ainda não vi ele", "Me passe o arroz" e "Não te falei que você iria conseguir?", inadmissíveis na língua escrita. O falante culto, de modo geral, tem consciência dessa distinção e ao mesmo tempo em que usa naturalmente as construções acima na comunicação oral, evita-as na escrita. Contudo, como se disse, não são muitos os desvios admitidos, e muitas formas peculiares da norma popular são condenadas mesmo na linguagem oral. Construções como "Nóis foi na fazenda" (o "na" ainda seria tolerado) e "Ele pagou dois milhão pelos boi" são impensáveis na boca de um falante culto em ambiente culto, pois passam a quem ouve a impressão de total falta de escolaridade de parte de seu autor. Já em ambiente inculto seriam apropriadas: é a história de "Em Roma, como (fazem) os romanos". (Veja também a pág. Você sabia? n.º 25.) Por outro lado, usos próprios do padrão formal empregados na língua oral costumam parecer forçados ou artificiais no falar despreocupado do dia-a-dia e configuram o que se chama de preciosismo. É o caso de, num bate-papo, ouvirem-se certos empregos do pronome oblíquo - "Ainda não o vimos por aqui" -, flexões do mais-que-perfeito do indicativo - "Eu ainda não entrara no Banco quando aquilo aconteceu - e, o que é pior, o uso da mesóclise, como em "Você ver-se-ia em maus lençóis se continuasse a insistir naquilo". Moral da história: assim como se usa traje apropriado para cada situação social, também se use o padrão lingüístico adequado para as diferentes situações de comunicação social.

Dica nº 35

Uniformidade de tratamento A comunicação oral ou escrita no âmbito da norma culta requer uniformidade de tratamento e concordância verbal em função da pessoa do discurso considerada. Assim, se a pessoa escolhida for a segunda do singular, os pronomes e o verbo devem estar igualmente nela. Exemplo: "Tu nunca te esqueces de visitar tua terra natal, não é?". Se a pessoa for a terceira, é preciso converter os termos para ela: "Você nunca se esquece de visitar sua terra natal, não é?". Observe que "você", embora se refira à pessoa com quem se fala (segunda), é pronome de tratamento e, como tal, pertence à terceira pessoa gramatical e para ela leva o verbo. No caso da primeira do plural, a mesma coisa: "Nós nunca nos esquecemos de visitar nossa terra natal, não é?". Nestes exemplos, o possessivo foi intercambiado apenas para servir de mais um elemento de concordância, pois a "terra natal" poderia ser a de quem quer que fosse. Entretanto, a primeira frase, por exemplo, não poderia ser construída como "Tu nunca te esqueces de visitar sua terra natal, não é?", se "terra natal" fosse a do interlocutor. Lembre-se de que pronomes de tratamento como Vossa Senhoria, Vossa Excelência e outros, apesar do "vossa", situam-se na terceira pessoa gramatical e, conseqüentemente, para ela levam o verbo: "V. Ex.ª é muito previdente". É preciso estar atento para a concordância para não se cometerem erros como "Não te falei que você iria conseguir?" e "Foi nesse momento que eu caí em si". A primeira frase ainda é tolerável na linguagem coloquial, mas a segunda é imperdoável se quem a pronuncia passou pela escola.

Dica nº 36

Capítulo dez ou capítulo décimo? Capítulo décimo. Sempre que o numeral vier depois do substantivo, emprega-se a forma ordinal até décimo. Daí em diante, usa-se a forma cardinal. Assim: · · · · · Pedro I (primeiro) Paulo VI (sexto) Capítulo X (décimo) Luís XIV (catorze) Tomo XXI (vinte e um)

Se o numeral anteceder o substantivo, usa-se a forma ordinal: · Oitava parte

· · · ·

Décimo capítulo Décimo quarto tomo Vigésimo primeiro século 35.º Distrito Policial (trigésimo quinto)

Dica nº 37

Figuras de pensamento - Antítese e paradoxo As figuras de pensamento são, antes de qualquer coisa, figuras de linguagem. Resultam do desacordo entre a verdadeira intenção de comunicar e o ato de fala. Dito em outras palavras, consistem em "desvios" que funcionam como véus a ocultar um estado de consciência. Há vários tipos de figuras de pensamento, como o eufemismo, a ironia, a litote, a prosopopéia, a antítese e o paradoxo. Vamos tratar destas duas últimas. A antítese consiste na exposição, no texto, de idéias contrárias. Essa oposição pode ocorrer entre palavras, frases ou orações. Assim, temos antítese em "Ele não odeia, ama; não chora, ri.". A página Com Jesus ,de Emmanuel, contém várias antíteses, como "Não te omitas. Ajuda./Não condenes. Ampara./Não te ofendas. Esquece./Não te queixes. Caminha./Não depredes. Constrói./Não critiques. Instrui./Não pares. Serve sempre./". A antítese foi recurso característico da literatura barroca. Este trecho de Vieira, extraído do Sermão da Sexagésima, dános idéia de sua utilização: "... mas esse espírito tinha impulsos para os levar, não tinha regresso para os trazer; porque sair para tornar melhor é não sair". Na antítese, o contraste confere às palavras opostas ênfase que não teriam se apresentadas isoladamente. O paradoxo é figura em que há contradição de idéias. Em outras palavras, o paradoxo apresenta opinião contrária ao senso comum, mas que pode conter verdade: "Dor - tu és um prazer! (Castro Alves). Neste magnífico soneto de Camões, sucedem-se os paradoxos: "Amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente; é um contentamento descontente; é dor que desatina sem doer. É é é é um querer mais que bem-querer; solitário andar por entre a gente; um não contentar-se de contente; cuidar que se ganha em se perder.

É um estar-se preso por vontade, é servir quem vence o vencedor, é ter com quem nos mata lealdade. Mas como causar pode o seu favor

nos mortais corações conformidade, sendo a si tão contrário o mesmo Amor?". Lindo, não? E cheio de paradoxos. Como podemos ver, na antítese, apresentam-se idéias contrárias em oposição. No paradoxo, as idéias aparentam ser contraditórias, mas podem ter explicação que transcende os limites da expressão verbal.

Dica nº 38

Lapizinho ou lapisinho? A segunda. Entre as dezenas de sufixos indicadores do grau diminutivo existentes em português, o falante tem a sua disposição -inho (e suas variações: -inhos, inha, -inhas, -zinho, -zinhos, -zinha, -zinhas). A grafia de palavras com o sufixo -inho depende da forma normal. Assim, o vocábulo no diminutivo será escrito com "s" ou com "z" de acordo com a grafia da forma normal, "s" ou "z": · lápis ® lápis + inho ® lapisinho · mesa ® mes(a) + inha ® mesinha · vaso ® vas(o) + inho ® vasinho · rapaz ® rapaz + inho ® rapazinho · raiz ® raiz + inha ® raizinha · reza ® rez(a) + inha ® rezinha Já o sufixo -zinho nada mais é do que -inho acrescido da consoante de ligação "z". Dito em outras palavras, -zinho é variante alomórfica de -inho. Sempre que o sufixo -zinho for juntado à forma normal, a grafia será evidentemente com "z", assim: · · · · Irmã ® irmã + zinha ® irmãzinha Amor ® amor + zinho ® amorzinho Romã ® romã + zinha ® romãzinha Papel ® papel + zinho ® papelzinho

Com os vocábulos oxítonos terminados em vogal - oral ou nasal - e a maior parte dos proparoxítonos também se usa -zinho: · · · · · · pé ® pé + zinho ® pezinho vovô ® vovô + zinho ® vovozinho mamão ® mamão + zinho ® mamãozinho cátedra ® cátedra + zinha ® catedrazinha árvore ® árvore + zinha ® arvorezinha óculos ® óculo(s) + zinhos ® oculozinhos

Na linguagem coloquial, algumas dessas formas simplificam-se, como arvorezinha > arvinha e oculozinhos > oclinhos. Entretanto, saiba que na linguagem culta

formal (escrita) essas criações não são aceitas e prevalecem as grafias apontadas acima.

Dica nº 39

Obedeceu-se ao regulamento x O regulamento foi obedecido. Ué, mas não se diz que não se pode apassivar construção de que faça parte verbo transitivo indireto? Acontece que temos aí duas situações distintas, já que o verbo obedecer pode ser usado na regência direta - obedecer alguém - ou indireta obedecer a alguém. (A propósito, veja LUFT, 1987-Verbete "Obedecer".) As duas situações são: 1. Regência direta (Obedecer alguém) - Neste caso, o verbo é transitivo direto e conseqüentemente o "se" é pronome apassivador: "Obedeceu-se o regulamento", "O regulamento foi obedecido" e "Obedeceram-se os regulamentos", "Os regulamentos foram obedecidos". Sujeito: o regulamento, no primeiro exemplo, e os regulamentos, no segundo. 2. Regência indireta (Obedecer a alguém) - Aqui não pode haver apassivação, já que o verbo é transitivo indireto. Logo, o "se" é índice ou partícula de indeterminação do sujeito: "Obedeceu-se ao regulamento", "Obedeceu-se aos regulamentos". Sujeito indeterminado. Há controvérsia entre os gramáticos se, com os verbos transitivos diretos, o "se" também poderia ser considerado partícula de indeterminação do sujeito. Nesta hipótese, poderiam ser aceitas construções como "Vende-se casas" e "Aluga-se canoas", em que o sujeito seria indeterminado. Essa posição, porém, ainda encontra resistência junto à maior parte dos especialistas.

Dica nº 40

Curso a distância ou curso à distância? Na verdade, o que está em discussão é: ocorre ou não crase nas locuções adverbiais? O tema é bastante controverso e não há acordo entre os autores. Assim, quem escreve deve apoiar-se nos argumentos de algum especialista renomado, quer opte por uma ou outra posição. Duas correntes posicionam-se: · a que admite crase nas locuções adverbiais somente se, de acordo com a regra geral da crase, houver emprego do artigo definido "a" ou se houver risco de ambigüidade. Assim, em "Mantenha-se à distância de 30 metros", "Ele passa às vezes por aqui" e "A irregularidade está à vista dos consumidores", percebemos o

emprego do artigo "a" e a crase é justificada. Em "Recebeu a bala" e "Já estudei a distância", a clareza está comprometida, pois ficamos sem saber, apenas por essas duas frases ambíguas, se a bala e a distância são objetos diretos ou adjuntos adverbiais, razão por que, neste último caso, deve haver acento grave no "a" dessas locuções - à bala e à distância - para precisar o significado. Entretanto, em "Temos curso a distância nesta escola", "Os policiais foram recebidos a bala" e "Faça a prova a tinta", as locuções assinaladas não recebem acento grave porque aí não há crase, pois o artigo definido feminino não está sendo utilizado. Tanto isso é verdade que se tentarmos substituir os substantivos femininos por outros masculinos não teremos a contração "ao", mas o "a" se manterá, prova de que é simples preposição. Teremos, por exemplo, "Os policiais foram recebidos a pau (e não, ao pau)" e "Faça a prova a lápis (e não, ao lápis)". Além do mais, naqueles dois exemplos, inexiste o risco de ambigüidade. · a que entende dever haver sistematicamente crase nas locuções adverbiais formadas de palavras femininas sob o argumento da tradição, ainda que tecnicamente não haja razão para tal. Assim, devemos construir "Quase não se escreve mais à máquina", "Você pode emitir o recibo à mão", "Paguei o lote à vista", "Rico ri à toa", etc.

Considero inconsistente o argumento da "tradição". Só isso não constitui justificativa suficiente. O entendimento da primeira corrente mencionada tem mais embasamento lógico e, conseqüentemente, é o adotado por mim. Finalmente, é preciso esclarecer não ser adverbial, mas adjetiva a locução presente no título desta página, pois ela modifica substantivo (curso). Entretanto, as considerações aqui tecidas valem também para ela.

Dica nº 41

Enviamo-lhes ou enviamos-lhes? Tanto faz. A ênclise em construções como "Envio-lhe", "Envio-lhes" ou "Enviamoslhe" não costuma suscitar muita dúvida. A questão surge quando se emprega o verbo e o pronome oblíquo no plural. "Gramaticalmente, não se pode dizer errada a forma queixamos-nos. Se outro, no entanto, é o uso geral, explica-o a facilidade, ou melhor o hábito da pronúncia, o qual regula a omissão ou não do s final nos diferentes casos." (ALMEIDA, 1979, § 825, 4, Notas, 2.ª) A supressão do "s" do verbo pode ocorrer com qualquer oblíquo, até mesmo com o verbo no plural e o pronome no singular: enviamo-lhe. Outros autores, como Celso Cunha (2000, p. 400, Observações, 1.ª), registram que em casos como esses "o -s final da desinência -mos é omitido (em virtude de uma antiga assimilação à nasal inicial do pronome seguinte)". Ele refere-se a construções como "lavemo-nos", em que o pronome oblíquo principia com a consoante nasal "n". Não comenta a respeito de outras formas verbais associadas a outros pronomes oblíquos, como em "lavamos-lhes as roupas". Assim, o fator que

regula tal uso é tão-somente a eufonia ou então a facilidade de pronúncia. Podemos, pois, construir como abaixo: · · · · · Lavamo-nos ou lavamos-nos todos os dias. Louvamo-vos ou louvamos-vos sempre, meu Deus. Enviamo-lhe ou enviamos-lhe anexo o memorando n.º 565. Avisamo-los ou avisamos-los de que a encomenda chegou ontem. Informamo-lhes ou informamos-lhes que o depósito já foi efetuado.

Dica nº 42

Desmistificar ou desmitificar? As duas, cada uma com seu sentido. Vejamos: · Desmistificar = Retirar ou desfazer a mistificação de alguma coisa, desmascarar. Mistificação é o ato de mistificar, que significa enganar, iludir, burlar, fazer algo passar pelo que não é: "Regina desmistificou a encenação de José Roberto". · Desmitificar = Desfazer mito, mostrar a coisa como ela realmente é em sua simplicidade e concretude: "Os professores modernos procuram desmitificar a Matemática e fazê-la deixar de ser o 'bicho-papão' que sempre foi". Os dois vocábulos são algo mais que parônimos, pois, além da sonoridade quase idêntica, seus significados são também muito próximos. Daí a freqüente confusão que causam.

Dica nº 43

Escolas-modelo ou escolas-modelos? Embora ambas possam ser consideradas corretas, a tendência gramatical moderna prefere a segunda. A regra de formação do plural dos substantivos compostos (os formados por mais de um elemento) é clara: variam os componentes se ambos são variáveis e estão separados por hífen. Desse modo, temos:

Alguns autores, como Celso Cunha e Domingos Cegalla, ensinam que se o segundo elemento funciona como determinante específico ou transmite idéia de finalidade

ele permanece invariável: pombo-correio/pombos-correio e mangaespada/mangas-espada. Entretanto, Napoleão Mendes de Almeida (ALMEIDA, 1979, § 227, Notas, 1.ª) garante que "é falso afirmar que não varia o segundo elemento quando este encerra idéia de finalidade". E mais adiante continua: "A extravagância vai mais longe quando recorrem para justificar o erro ao argumento da semelhança; porque o peixe nos lembra o boi iremos dizer peixes-boi? Vamos então dizer couves-flor?". Cegalla, apesar da opinião acima expressa, ressalva (CEGALLA, 2000, p. 144, item 3, Observações) que "a tendência moderna, porém, é a de pluralizar (...) os dois elementos: pombos-correios, peixes-bois, frutas-pães, homens-rãs...". Por isso, sigamos a "tendência moderna" e empreguemos fichas-resumos, naviosescolas, cidades-satélites, escolas-modelos, navios-tanques e assim por diante.

Dica nº 44

Se não x senão Em se não, duas palavras, o "se" pode ser: · Conjunção subordinativa condicional e o "não", advérbio de negação. Exemplos: "Espero que ele venha, mas, se não vier, pouco poderei fazer" e "Se não gostar, pode devolver o produto". Há sempre a idéia de condição. Tal conjunção pode ser substituída por "caso": "Caso não venha, pouco poderei fazer" e "Caso não goste, pode devolver o produto". Há ainda uma terceira possibilidade de substituição, com emprego do gerúndio: "Espero que ele venha, mas, não vindo, pouco poderei fazer" e "Não gostando, pode devolver o produto". · Conjunção subordinativa integrante e o "não" continua advérbio de negação. Exemplos: "Perguntei-lhe se não gostaria de sair" (nesta oração, o "não" pode ser suprimido e o sentido geral da frase não se altera. Leia mais, a esse respeito, em Você sabia? n.º 26) e "Diga se não é verdade o que falei" (aqui, o "se" pode ser substituído por "que"). Senão pode ter vários sentidos, como abaixo: · De outro modo, do contrário, caso contrário - "Vá logo, senão me arrependo" e "Estude bastante, senão você não terá sucesso". (conjunção) · Mas, mas sim, porém - "Silvinha não é garota de ficar em diversões, senão de levar a sério os estudos" e "Eu não quis criticar, senão ajudá-lo". (conjunção) · A não ser, mais do que, além de - "Ele não o comprará, senão por bom preço" e "Não há senão 20 passageiros a bordo". (preposição)

· Mas também (em correlação com "não só" ou "não apenas") - "Alguns são não só cínicos, senão desonestos" e "Os aliados tentaram não apenas cooptar mais parlamentares, senão os chantagear". (conjunção) · Defeito, mancha - "Li todo o texto e só encontrei um senão" e "Não há nenhum senão em sua vida pública". Neste caso, é substantivo e vem precedido de artigo, pronome, numeral, etc.

Dica nº 45

Complemento nominal x adjunto adnominal Não é difícil compreender-se a distinção de emprego entre esses dois termos da oração. A diferença básica entre eles é a essencialidade de um (complemento nominal) e acidentalidade do outro (adjunto adnominal). Vejamos: · Complemento nominal - É imprescindível para o sentido da oração estar completo. Ex.: "João ficou à disposição". A pergunta inevitável é: de quem? A resposta (da empresa, da Justiça, da família, etc.) é um complemento nominal, porque completa o sentido de um nome (à disposição). Outros exemplos: "Faz tempo que não tenho notícia de Joaquim" e "Sou favorável à sua promoção". Os termos assinalados completam o sentido de nomes (notícia - substantivo - e favorável - adjetivo). O complemento nominal pode ser até uma oração, classificada como "subordinada substantiva completiva nominal", que completa o sentido de um substantivo, adjetivo ou advérbio da oração subordinante: "Tenho esperança de que ele venha". A oração subordinada completa o sentido do substantivo esperança. Repare que esse tipo de oração é sempre introduzido por uma preposição, clara ou subentendida (no exemplo, a preposição "de"). · Adjunto adnominal - É termo acessório e determina ou qualifica nome substantivo. Pode ser retirado sem prejuízo do sentido geral do texto: "O pai de João viajou". Se retirarmos os adjuntos, a oração reduzir-se-á a "Pai viajou", que, de certa forma, ainda mantém o sentido geral da frase. Outros exemplos: "A Divina Comédia é um livro notável", "Comprei dois copos" e "Abri o grande portão de madeira". Uma oração inteira também pode funcionar como adjunto adnominal: "O Ronan, que trabalha aqui, não se encontra no prédio" (oração subordinada adjetiva explicativa) e "O Ronan que trabalha aqui não se encontra no prédio" (oração subordinada adjetiva restritiva).

Dica nº 46

Ciúmes e saudades É de estranhar e mesmo tende-se a considerar incorreto o uso no plural de nomes como os acima, já que ambos expressam conceitos abstratos, sentimentos, que, como tais, são considerados "incontáveis". Como contar o ciúme e a saudade para pluralizá-los: dois ciúmes, três saudades? Lemos, nos comentários do mestre

Napoleão Mendes de Almeida, que "Os substantivos que exprimem noções abstratas, vícios e virtudes empregam-se no singular: a prudência, a preguiça, a caridade, a ociosidade, a fortaleza" (ALMEIDA, 1981: 286). Mais adiante, porém, ele acrescenta: "Tratando-se de virtudes, vícios, de certas disposições, sentimentos e paixões, muito é para notado que, em alguns casos, a mesma palavra, empregada no singular ou plural, não designa de todo o ponto a mesma noção, mas dois aspectos diferentes por ela indicados nos dois números, como tão ao claro no-lo dão a ver os modelos do bom falar: 'Deixando as armas e as armaduras, a liberdade e as liberdades da vida, se vestiu de um hábito religioso' (Vieira)". Daí verifica-se que certos nomes abstratos, quando empregados no plural, adquirem sentido algo diferente. Assim, tem-se liberdade, há pouco citado, como vocábulo designativo de conceito bem amplo e geral. No plural, designaria as várias liberdades, isto é, direitos a que tem o indivíduo: liberdade de ir e vir, de pensamento, de expressão, de credo religioso, etc., mas também intimidades sensuais, como em "Ei, não te dei essas liberdades!". Da mesma forma, tome-se a palavra amor, conceito geral e abstrato. Contudo, no plural - amores -, já se tem sentido diferente, pessoas a quem se dedica amor: "Zequinha e seus dois amores". O ato de lembrar é lembrança: "Tenho vaga lembrança desse fato". No plural, além de recordações, também pode significar cumprimentos, recomendações: "Dê lembranças minhas a sua família". Se o plural de substantivos desse tipo não acarretar mudança de sentido, é indiferente usá-los no singular ou no plural: o ciúme ou os ciúmes, muita saudade ou muitas saudades, apesar do que foi dito no primeiro parágrafo. E por que isso? Porque a tendência é para o plural mesmo. Recorremos novamente ao prof. Napoleão, que testemunha: "É disso confirmação o fato de outras palavras, designativas de disposições e sentimentos de espírito, quando nenhuma diferença de sentido implica sua flexão numérica, serem a pouco e pouco substituídas pelo plural. Tal se deu com parabém, com pêsame, com felicitação, nomes que, dantes empregados no singular ('Vossa senhoria me dá o pêsame dos achados com que vivo, e juntamente o parabém da enfermidade com que hei de morrer' - Vieira), são hoje usados no plural. Saudade vai sofrendo idêntica adaptação; já não dizemos que um dia só o plural se venha usar, mas por ora nada há que opor ao emprego da flexão numérica". (Idem, ibidem) E por que essa tendência ao plural de nomes abstratos, "não-contáveis", portanto? Possivelmente, porque na mente dos falantes o plural expresse as reiteradas situações em que o sentimento ou a emoção ocorrem: ciúmes e saudades - vários momentos de ciúme ou de saudade. Pode ser também que, com o plural, se reforcem aquelas idéias ou se lhes acentue a intensidade: muito ciúme ou saudade. Já outros nomes concretos, porém, como chope, clipe e videoclipe (a propósito, os três, estrangeirismos aportuguesados), são usados no singular ou no plural conforme designem, respectivamente, uma ou mais unidades: um chope, dois chopes; um clipe, dois clipes, um videoclipe, dois videoclipes.

Para concluir, podemos admitir a pluralização de nomes abstratos designativos de sentimentos e emoções, com o cuidado de verificar se não mudam de sentido nessa condição. Há autores que discordam desse ponto de vista, como Luiz Antonio Sacconi. Entretanto, preferimos acompanhar o posicionamento do prof. Napoleão e assim não remar contra a correnteza.

Dica nº 47

Terapias Terapia é palavra de origem grega (therapeía) e significa "método de tratar doenças e distúrbios da saúde, tratamento de saúde". Há diversos tipos de terapia, que utilizam variados procedimentos, substâncias e ambientes. A maior parte dos seus nomes são oriundos do grego e pertencem à área médica, mas muitos são popularizados através dos meios de comunicação, como jornais e revistas nãoespecializadas. Alguns vão listados abaixo com seus significados:· Actinoterapia (Do grego aktis, raio) - Terapia em que se empregam raios ultravioleta ou então irradiação actínica, que exerce ação química sobre algumas substâncias. · Aromaterapia (Do grego árōma, pelo latim aroma: odor, fragrância) Emprego de extratos de plantas aromáticas e de óleos essenciais em fricções e massagens. · Cinesioterapia (Do grego kinesis, movimento) - Modalidade fisioterápica na qual o paciente é orientado a produzir movimentos ativos ou passivos e que usa diversos recursos, como ginástica e massagens. O mesmo que cinesiatria. · Crioterapia (Do grego krýios, gelo) - Técnica terapêutica que utiliza baixas temperaturas no tratamento de doenças, especialmente da área ortopédica, mediante banhos, bolsas de gelo e outros meios. O mesmo que crimoterapia e psicroterapia. · Cromoterapia (Do grego chroma, cor, pigmento) - Tratamento de problemas da área psicológica que se vale das cores, especialmente de luzes coloridas. · Eletroterapia (Do grego elektron, âmbar amarelo) - Técnica também chamada "eletrochoque", utilizada no tratamento de distúrbios mentais, que consiste na aplicação no encéfalo do paciente de corrente elétrica de curta duração. · Ergoterapia (Do grego érgon, trabalho, esforço) - Terapia em que se emprega o trabalho físico na recuperação de pacientes. · Fisioterapia (Do grego phýsis, natureza) - Tratamento de doenças mediante massagens, exercícios físicos, aplicações de luz, calor, eletricidade e utilização de aparelhos mecânicos, elétricos e eletrônicos.

· Fitoterapia (Do grego phytón, planta) - Terapia que utiliza remédios produzidos com substâncias extraídas de vegetais. · Fototerapia (Do grego photós, da luz) - Técnica terapêutica que utiliza a luz.

· Hidroterapia (Do grego hydro, água) - Tratamento de doenças com utilização da água, interna e externamente. Internamente, ingere-se águas minerais do tipo ferruginosa, alcalina, sulfurosa, etc. Externamente, faz-se uso de duchas e banhos de imersão. A água pode também ser utilizada nos estados sólido ou de vapor. Esta terapia ajuda a eliminação de impurezas, é poderoso auxiliar no processo de desintoxicação e produz relaxamento estimulando a circulação sangüínea. · Hipnoterapia (Do grego hýpnos, sono) - Técnica psicoterápica que utiliza a hipnose na busca da causa de problemas da psique. · Laborterapia (Do latim labor, fadiga resultante da execução de trabalho) Tratamento de enfermidades nervosas e mentais em que se procura aproveitar o interesse do paciente por algum tipo de trabalho ou ocupação. O mesmo que terapia ocupacional e praxiterapia. · Musicoterapia (Do latim musica, arte das musas) - Musicoterapia é processo sistemático de intervenção em que o terapeuta ajuda o cliente e/ou paciente a promover a saúde utilizando experiências musicais e as relações que se desenvolvem através delas como força dinâmica de mudança. A musicoterapia implica ao paciente e ao terapeuta grande gama de experiências musicais. As principais são: improvisação, execução, composição, verbalização e a escuta musical. · Peloterapia (Do grego pelos, lodo, lama, argila) - Tratamento de doenças como da pele, por exemplo - em que se usa terra ou lama medicinais. · Psicoterapia (Do grego psychē, alma, sopro de vida) - Conjunto das técnicas empregadas na busca do equilíbrio psíquico do paciente através da pesquisa, na sua mente, de causas de comportamentos patológicos e da adoção de novos padrões comportamentais. · Quimioterapia (Do latim médico chimia, de alchimia) - Tratamento de doenças mediante a utilização de agentes químicos. · Radioterapia (Do latim radiu, raio) - Técnica terapêutica, utilizada no tratamento de vários tipos de doenças, que faz uso dos raios X ou de outras formas de energia radiante. · Sonoterapia (Do latim somnus, sono) - Técnica utilizada pela Psiquiatria no tratamento de distúrbios mentais que consiste em produzir e manter sono artificial controlado em um paciente mediante o uso de drogas. O mesmo que narcoterapia. · Soroterapia (Possivelmente do latim *sorum, de serum, soro do leite, líquido seroso) - Tratamento que utiliza soro sangüíneo obtido de animais imunizados, nos quais se inocularam bactérias e toxinas. O mesmo que orroterapia e seroterapia.

Dica nº 48

Adjetivos de relação Adjetivos de relação são nomes qualificadores oriundos de substantivos. Restringem a extensão do significado de unidades desta classe de palavras e normalmente não admitem flexão de grau. Por exemplo, ígneo = de fogo e férreo = de ferro. Seguem abaixo mais alguns exemplos:

Boa parte desses adjetivos apresenta forma bem diversa da do substantivo de origem em virtude de o étimo verdadeiro (vocábulo que constitui a origem de outro) ser palavra latina. Assim, alguns adjetivos relacionados a fogo, como ígneo e ignescente derivam do latim ignis, fogo. Da mesma forma, sulfídrico, sulfúreo, sulfuroso e sulfúrico provêm do latim sulfur, enxofre. Por essa mesma razão, o símbolo químico do enxofre é "S". __________ 1 Há vários outros adjetivos relacionados a água em que aparece o elemento de composição de origem grega hidro, como em hídrico e hidráulico. 2 Vários outros adjetivos referentes a olho contêm o elemento grego oftalmo: oftalmológico e oftálmico. 3 Existem adjetivos relacionados a osso constituídos pelo elemento grego ósteo: osteológico e osteométrico, por exemplo.

4 Há outros adjetivos referentes a ouvido em cuja composição entra o elemento grego oto, como otológico e otopático. 5 O elemento de origem grega lito entra na constituição de vários adjetivos relacionados a pedra, como litográfico e litolátrico. 6 Vários adjetivos que remetem a rim são compostos do elemento de origem grega nefro, como nefrolítico e nefrológico. 7 Há também adjetivos referentes ao planeta Terra em cuja composição entra o elemento de origem grega geo: geográfico e geopolítico, por exemplo.

Dica nº 49

Flexão gradual de substantivos "não-contáveis" ou "contínuos". Comentaremos agora aspecto particular da flexão de grau de certa classe de substantivos, os "não-contáveis" ou "contínuos", sobre o qual se omitem as mais conhecidas gramáticas disponíveis no Brasil. Segundo essas obras, o grau aumentativo e o diminutivo expressam tamanho - grande (chinelão, orelhona) e pequeno (chinelinho, orelhinha) em relação à forma normal: chinelo e orelha - ou então certa intenção pejorativa (bocarra, cabeçorra/jornaleco, velhote) ou valorativa/afetiva (carrão, mãezona/filhinho, vovozinho). Esses substantivos, porém, enquadram-se na categoria dos "contáveis" ou "descontínuos", isto é, expressam unidades que podem ser contadas. Dessa forma, podemos facilmente contar um chinelo, dois chinelos; uma orelha, duas orelhas; um velho, dois velhos; uma mãe, duas mães; etc. O caso muda de figura quando se trata de substantivos não-contáveis, como água, ar, fogo, terra, cachaça, chope, frio, calor e assim por diante. Admitiriam eles flexão de grau, já que não lhes podemos avaliar o tamanho? Como saber se o ar, o fogo, a terra, a cachaça, o chope, o frio e o calor são grandes ou pequenos? Isto porque - com relação à cachaça ou ao chope, por exemplo - uma coisa é o líquido e outra é o copo que o contém; este, sim, pode ser grande ou pequeno. Mesmo assim, por metonímia, formas como cafezinho são explicáveis, já que a bebida "café" é servida em pequenas xícaras. Mas o que dizer de agüinha e chopinho? Entretanto, vemos em nosso linguajar corriqueiro expressões como "Vou tomar uma agüinha", "Está bom o arzinho lá fora", "O Chico também é da terrinha", "Quero experimentar aquela sua cachacinha", "Vamos tomar um chopinho?", "Aqui está um friozinho gostoso". Observamos, pois, que o diminutivo de nomes contínuos, no geral, não expressa tamanho, mas desejo de exprimir intenção afetiva, carinhosa ou amistosa. Já o aumentativo parece ora exprimir afetividade (verdão e azulão, referindo-nos a times de futebol, e Castelão, Bezerrão, nomes de estádios) ora revelar grande quantidade mesmo, mas com auxílio da metonímia, como em: "Que calorão, hem?" e "Deparei com fogaréu assustador". Repare que o calor não pode ser grande, pois é sensação ou qualidade de quente. O que é grande, ou melhor, elevada é a temperatura, medida em graus. Não obstante, no lugar de temperatura elevada, dizemos calor grande ou calorão. Em outras palavras, por metonímia, em vez do fenômeno físico, mensurável

(temperatura), referimo-nos a seu efeito (a sensação: calor). Da mesma forma, recorremos a outra figura de linguagem para dizer fogaréu, aumentativo de fogo. Este não pode ser grande ou pequeno, mas sim, sua fonte. Assim, o fogo é parte da fogueira (monte de lenha em chamas), a qual pode, sim, ser grande ou pequena: fogueirona ou fogueirinha. Como utilizamos parte da fogueira (o fogo) no aumentativo - fogaréu -, valemo-nos agora da sinédoque para produzir flexão de grau em algo que não pode ter o tamanho medido. Neste caso, tomamos a parte (fogo) no lugar do todo (fogueira). Podemos ainda considerar grandes ou pequenas as chamas, mas não o fogo em si, o fenômeno da combustão. Agora, recorremos novamente à metonímia, pois tomamos o abstrato (fogo) no lugar do concreto (chama). Em resumo: podemos flexionar, quanto ao grau, substantivos nãocontáveis ou contínuos para exprimir afetividade, pejoratividade ou para expressar tamanho grande mesmo. Neste caso, valemo-nos de figuras de linguagem como a metonímia e a sinédoque.

Dica nº 50 Pronome oblíquo como sujeito de oração Todas as gramáticas afirmam categoricamente que, dos pronomes pessoais, somente os retos podem ser sujeito de verbo. É por isso que é incorreto construirse “Isto é para mim fazer”, pois o pronome oblíquo mim está sendo empregado como sujeito do verbo fazer. O que dizer, porém, de orações como “Deixe-os passar”? Temos aí dois verbos, portanto, duas orações. O sujeito de “deixe” é de terceira pessoa, por exemplo, você. E o sujeito de “passar”? Só pode ser os. Mas “os”, no contexto, é pronome oblíquo e como tal – ainda de acordo com as gramáticas – não pode ser sujeito de verbo. Será? Nas construções em que entram os verbos deixar, fazer, mandar, ouvir, sentir e ver cujos objetos são verbos no infinitivo (o complemento de “deixe” é o infinitivo passar), o pronome oblíquo funciona como sujeito. Neste caso, o verbo no infinitivo permanece na forma nãoflexionada ou impessoal – apesar das regras de Soares Barbosa (sujeitos diferentes dos dois verbos) e da de Frederico Diez (possibilidade de substituição do infinitivo por verbo na forma modal). No exemplo citado – Deixe-os passar –, como já vimos, o complemento de “deixe” é o infinitivo “passar”, cujo sujeito é o pronome oblíquo “os”. A oração subordinada “os passar” equivale a outra em que o verbo se apresenta na forma modal “que eles passem”, classificada como subordinada substantiva objetiva direta, introduzida pela conjunção integrante que. Constatamos, pois, que casos como esse revelam certas dificuldades lógicas da descrição gramatical que obrigam à prática de contorcionismos explicáveis pelas tradicionais “exceções”.

Dica nº 51

Ascendência e descendência

Se quisermos nos referir a nossos pais, avós e demais antepassados, o vocábulo correto será ascendência, que se relaciona com os ascendentes, os que vieram antes. Assim, digo que “Minha ascendência é espanhola”, pois meus avós, bisavós e os anteriores a eles eram espanhóis. Se eu quiser falar a respeito dos que vieram e virão depois de mim, isto é, meus descendentes, utilizarei descendência: “Minha descendência é brasileira”. Caso eu diga “Minha descendência é espanhola”, quererei dizer que meus filhos e netos são espanhóis. Por outro lado, posso corretamente dizer “Sou descendente de espanhóis”, o que significa eu provir de família originária desse povo.

Dica nº 52

Em epígrafe ou à epígrafe? A construção portuguesa é em epígrafe ou então na epígrafe, se se preferir usar o artigo feminino "a". Quando se utiliza "em epígrafe", não se está empregando artigo: "Refiro-me ao memorando em epígrafe para informar-lhe que...". Aí, a citada expressão significa "em destaque", "em evidência". Se se utilizar o artigo, a expressão ficará "na epígrafe", pois a preposição "em" combinar-se-á com o artigo "a" (em + a = na): "Refiro-me ao memorando indicado na epígrafe para informarlhe que...". Com efeito, a preposição “em” é a mais indicada para expressar localização: “Isso foi mencionado na página 35”, “A palavra em questão encontrase na linha 28” e “O pagamento foi citado em carta anterior”. Em LUFT, 1999, verifica-se que a preposição “a” é empregada, juntamente com particípios com função adjetiva, com sentido de “para”: “Algo mencionado a alguém = para alguém” e “Caso ou fato referido à autoridade policial = para a autoridade policial”. Em outras construções, ela igualmente tem esse sentido: “Dei parabéns ao chefe = para o chefe” e “Diga a Pedro (para Pedro) que já voltei”. O emprego da preposição “a” para indicar localização revela influência francesa e é por isso que o uso da ou expressão à epígrafe deve ser evitado, por ser considerado galicismo francesismo.

Dica nº 53

Verbo com função de sujeito? Aprendemos que sujeito é o ser sobre o qual se declara alguma coisa e que essa declaração é expressa pelo predicado, do qual o verbo é o elemento mais importante. Assim, nas orações “Bruno é estudioso” e “Tiago mora em Maceió”, os sujeitos respectivos são “Bruno” e “Tiago”. Sabemos também que o sujeito pode ser constituído por uma oração inteira, classificada como subordinada substantiva subjetiva, como nestas orações assinaladas: “Se ele fará o melhor possível ainda não sabemos” e “É conveniente que você estude bastante”. Tudo bem até aí, não é? Mas e quando o sujeito é expresso por um verbo? Esquisito? Pode ser, mas o fato é que é possível, através de formas nominais como o gerúndio e o infinitivo.

Exemplos: “Não comparecendo é a forma de ele protestar” e “Rir é o melhor remédio”. Não comparecendo é o sujeito de “é a forma de ele protestar” e Rir, o de “é o melhor remédio”. Comprovam-se facilmente essas afirmativas ao se fazer a pergunta ao verbo: “Qual é a forma de ele protestar?” e “Qual é o melhor remédio?”. Não deixam de ser curiosas essas construções, nas quais o verbo expressa ação ou estado relativos a um sujeito constituído por outro verbo, ainda que este esteja em sua forma nominal.

Dica nº 54

O vocativo e a pontuação Denomina-se vocativo o termo acessório da oração que expressa apelo, invocação, chamamento: "Mercedes, onde está a Luciana?" e "Candidatos com ficha de inscrição vermelha, dirijam-se à sala de provas". Esse termo, que não se subordina a nenhum outro, é usado sem artigo e pode vir acompanhado da interjeição "ó": "Ó minha Nossa Senhora, valei-me!". Modernamente, observa-se no português brasileiro, em sua modalidade oral, o emprego da interjeição "o" (ô fechado), que não se confunde com o artigo "o": "O João, que é isso?". Característica marcante do vocativo é a de vir sempre acompanhado de vírgula. Uma vez que se pode antepor ou pospor à frase ou estar intercalado nela, o vocativo pode vir seguido ou precedido de vírgula ou ainda estar entre vírgulas, assim: "Guardas, corram atrás dele!", "Corram atrás dele, guardas!" ou "Corram, guardas, atrás dele!". Lembre-se de que a vírgula é obrigatória no emprego do vocativo. Na correspondência comercial, esse termo aparece constantemente, como "Sr. Gerente,", "Prezado Senhor," e "Ex.mo Sr. Ministro,".

Dica nº 55

A sigla como recurso eufemístico Já tratamos neste saite da sigla e suas particularidades, no Glossário Gramatical, verbete Sigla”. Vamos abordar agora aspecto ali não contemplado: o do uso da sigla como recurso eufemístico. Sabemos que eufemismo é a figura de linguagem que consiste no emprego de palavras, expressões ou circunlóquios (rodeios de palavras) em lugar de formas lingüísticas cujo significado é considerado indecoroso, desagradável ou ameaçador. Assim, usa-se doente dos pulmões no lugar de “tuberculoso”; mal de Hansen, em vez de “lepra”; deficiente visual, em lugar de “cego”; etc. Para "câncer", há várias expressões, como moléstia pertinaz, mal cruel e prolongado, doença ruim, aquela doença e outras. Com o passar do tempo, os falantes perceberam que, em vez de empregar formas eufemísticas, poderiam utilizar, com menos esforço e o mesmo resultado, siglas formadas pelos fonemas iniciais das palavras ou expressões inconvenientes ou dos próprios eufemismos. Tal uso começou a generalizar-se modernamente, tanto na linguagem escrita como na falada. Assim, temos, entre outros exemplos:

Pelos exemplos acima, vemos que algumas siglas poderiam classificar-se como “eufemismos de segundo grau”, já que as palavras ou expressões que representam são, por seu turno, igualmente eufemismos. É preciso ressalvar, porém, que o exposto acima resulta de constatação empírica, que eventualmente poderá ser objeto de comprovação em bases científicas.

Dica nº 56

Plural de nomes e expressões estrangeiros De modo geral, os vocábulos e expressões estrangeiros devem, sempre que possível, ser aportuguesados. Isto feito, será fácil flexioná-los no plural de acordo com as regras portuguesas. Assim, temos abdome/abdomes, buquê/buquês, carnê/carnês, chique/chiques, chope/chopes, clipe/clipes, clube/clubes, disquete/disquetes, germe/germes, hambúrguer/hambúrgueres, jipe/jipes, mantô/mantôs, saite/saites, etc. Formas existem, entretanto, que permanecem na grafia original ou foram ligeiramente adaptadas. Nesse caso, ao passá-las para o plural, se não for possível aplicar as regras do português, devemos acrescentar-lhes um “s”, a não ser que terminem em “s” ou “z”. Exemplos: álbum/álbuns, ampère/ampères, déficit/déficits, fórum/fóruns, iceberg/icebergs, paella/paellas, post-scriptum/postscriptuns, superávit/superávits, te-déum/te-déuns, ultimatum/ultimatuns, volt/volts, watt/watts, etc. Mas o ex-libris/os ex-libris, o fizz/os fizz, o jazz/os jazz. Em mapa-múndi, só o primeiro elemento flexiona-se: mapas-múndi. Há vocábulos estrangeiros cuja grafia se mostra difícil de adaptar ao português e por isso devem ser pluralizados na língua de origem, isto se o falante conhecer tal idioma. Em caso contrário, é mais sensato procurar alguma forma portuguesa correspondente. Desse modo, temos: lady/ladies, bijou/bijoux, bambino/bambini, etc. Por fim, dois casos particulares: · Gol (do inglês goal), fica gols, no plural. Essa flexão, estranha ao português, deveria ser gois ou goles (ambos com o “o” pronunciado fechado), mas o plural estrangeiro prevaleceu no Brasil. · Álcool (do árabe al kohol) faz o plural alcoóis.

Dica nº 57

Adjetivo com função adverbial A função usual do adjetivo é modificar, acrescentar atributo ao substantivo, como em: “O bom ® homem sorriu-lhe ” e “ Trata-se de notícia ¬ importante”. Entretanto, quando modifica verbos, o adjetivo exerce função adverbial: “Vá direto para casa”, “Fale claro agora” e “Letícia mergulhou rápido na piscina”. Nestes exemplos, “direto” corresponde a diretamente; “claro”, a claramente e “rápido”, a rapidamente. Enquanto o adjetivo assume geralmente a forma feminina para compor advérbios de modo (claramente, puramente), para funcionar como advérbio – igualmente de modo –, o faz na forma masculina ou, para sermos mais preciso, na forma “neutra”. Esse uso não é novidade, pois escritores latinos já empregavam o adjetivo com função adverbial. Ao dizermos “O barco encostou garbosamente no cais de madeira”, vemos que no predicado verbal “encostou garbosamente no cais de madeira” o advérbio garbosamente, invariável, modifica de maneira clara o verbo “encostou”. Contudo, se empregamos o adjetivo garboso com função adverbial – “O barco encostou garboso no cais de madeira” –, constatamos ser verbo-nominal o predicado. Isto porque, ao mesmo tempo que “garboso” modifica “encostou”, também se refere ao sujeito (o barco), com o qual concorda. Assim, se substituíssemos “o barco” por “a lancha”, “os barcos” ou “as lanchas”, teríamos a flexão daquele adjetivo em garbosa (A lancha encostou garbosa), garbosos (Os barcos encostaram garbosos) e garbosas (As lanchas encostaram garbosas). Concluímos assim que o adjetivo empregado com função adverbial deve ser considerado estritamente advérbio quando integra predicado verbal e nesta condição permanece invariável na forma aparentemente masculina, na verdade, neutra. Caso integre predicado verbo-nominal, a par da função adverbial, exercerá também função adjetiva, pois que modificará um substantivo, com o qual concordará em gênero e número.

Dica nº 58

Dentre e entre Não confunda dentre com entre. O vocábulo “dentre”, constituído por de + entre, é empregado quando os dois elementos que o compõem são exigidos. Em caso contrário, prevalece "entre". Exemplos do emprego de "entre": "Carlos era extrovertido apenas entre seus amigos" (no meio dos seus amigos) e "Isso é entre mim e ele" (diz respeito a nós dois). Exemplos de "dentre": "O vencedor foi tirado dentre os dez melhores" (de + entre os dez melhores) e "Escolha a mais bonita

dentre elas" (de + entre elas, a mais bonita delas). Nestes dois últimos exemplos, aparece o uso da preposição "de".

Dica nº 59

Plural de modéstia Este é caso de concordância irregular ou ideológica, tecnicamente denominado silepse de número”, onde, em vez do pronome eu, emprega-se nós. Entretanto, não se está referindo a mais de uma pessoa, senão a uma só. O verbo flexiona-se na primeira pessoa do plural e assim concorda com o sujeito formalmente plural. Como, porém, a idéia é a de um só agente, o predicativo – particularmente o adjetivo e o particípio – permanece no singular e sua concordância processa-se não formalmente, mas ideologicamente, como se “eu” estivesse explícito. É utilizado geralmente por escritores e oradores – principalmente por políticos – para evitar tom muito personalista no discurso e fazer parecer que falam não de modo individualista, mas como expressão da fala coletiva. Exemplos: “Nós estamos satisfeito com o resultado”, “Sempre fomos exigente com o bom uso do dinheiro público” e “Prometemos nunca estar envolvido em nenhum escândalo”. Antigamente, reis e altos dignitários eclesiásticos também usavam esse recurso, conhecido por plural majestático. É importante ressaltar que, uma vez feita a escolha do plural de modéstia, não se pode usar o pronome “eu” e que os pronomes pessoais oblíquos e os possessivos devem ser os da primeira pessoa do plural: nos, conosco, nosso. Assim: “Estamos confiante em nossa capacidade de atender à expectativa da população, à qual nos dirigiremos permanentemente para auscultar-lhe a vontade, blá, blá, blá...”.

Dica nº 60

A partícula se: pronome apassivador e pronome reflexivo. Entre as várias funções do se, estão a de pronome apassivador e pronome reflexivo. No primeiro caso, ela aparece em “Dá-se terra = Terra é dada”, “Viu-se um avião sobrevoando a base = Um avião foi visto sobrevoando a base” e “Consertam-se telefones = Telefones são consertados”. Nestes exemplos, os sujeitos são terra, um avião e telefones, respectivamente, e temos caso de voz passiva sintética ou pronominal. Exemplos do “se” na condição de pronome reflexivo: “Brisa olha-se embevecida no espelho”, “Wagner questionou-se sobre sua atitude” e “Gabriel pintou-se para a festa na escola”. Aqui, devemos perguntar: quem Brisa olha embevecida no espelho? A resposta é: a si própria; quem Wagner questionou sobre sua atitude? Resposta: a si mesmo; quem Gabriel pintou para a festa na escola? A resposta: a si próprio. A ação praticada pelo sujeito reflete-se

sobre ele mesmo. Há casos, porém, em que não fica muito clara a função do “se”, pois tanto a ação verbal mostra-se reflexiva como a construção encontra equivalente na voz passiva. Vejamos: “Ademir feriu-se na perna”. Temos situação ambígua, pois não se sabe se Ademir feriu a si próprio ou se alguém o fez. Isso fica ainda mais evidente quando se converte a construção sintética na analítica: “Ademir foi ferido na perna”. Outro exemplo: “Felipe colocou-se no centro da sala”. Tal enunciado faz parecer que o “se” exerce função reflexiva, mas também pode ser entendido como construção passiva, especialmente se o verbo anteceder o sujeito: “Colocou-se Felipe no centro da sala”. Esta oração pode também equivaler a “Felipe foi colocado no centro da sala”, situação em que parece claro haver sido a ação praticada por terceiros. A ambigüidade, nesses casos, pode ser desfeita da mesma forma que em construções nas quais se deseja distinguir o pronome reflexivo do recíproco: acrescentando-se expressões como “a si mesmo” ou “a si próprio” e suas flexões, se a voz verbal for reflexiva. Dessa forma, temos: “Ademir feriu-se a si mesmo na perna” e “Felipe colocou-se a si próprio no centro da sala”. Se a voz for a passiva, deve-se, em benefício da clareza, empregar a forma analítica: “Ademir foi ferido na perna” e “Felipe foi colocado no centro da sala”.

Dica nº 61 Uso da vírgula – Orações explicativas e restritivas Um dos vários usos da vírgula é demarcar orações subordinadas adjetivas explicativas. Assim, a oposição presença vs. ausência da vírgula é crucial para determinar se a oração subordinada adjetiva é explicativa ou restritiva. Recordemos que as orações adjetivas funcionam como qualificativos da oração principal ou, tecnicamente, como adjuntos adnominais. Se apenas acrescentam algum esclarecimento ao sujeito, denominam-se explicativas. Entretanto, se o distinguem de outro do mesmo tipo ou espécie, aí recebem o nome de restritivas. E é aí que a vírgula exerce função das mais importantes. Vejamos alguns exemplos: (1) “O secretário-adjunto, que foi nomeado titular, ainda não foi empossado” e (2) “O Renato, que trabalha aqui, não se encontra no prédio”. O que nesses casos é pronome relativo. Observe que as vírgulas delimitam a oração adjetiva, determinam-lhe o caráter explicativo e correspondem às pausas que se verificam na expressão oral. Retornemos aos exemplos anteriores para ver que com as vírgulas fica explícito que em (1) há um só secretário-adjunto e ele foi nomeado titular; em (2), que só há um Renato e ele trabalha aqui. Retiremos as vírgulas das orações anteriores e veremos que a situação se altera totalmente: (3) “O secretário-adjunto que foi nomeado titular ainda não foi empossado” e (4) “O Renato que trabalha aqui não se encontra no prédio. Em (3) e (4), as orações adjetivas são restritivas, pois distinguem o "secretário-adjunto" de outros que não foram nomeados e o “Renato que trabalha aqui” de outro que não trabalha. Por isso, muita atenção às vírgulas quando estamos diante de orações subordinadas adjetivas, as introduzidas por pronome relativo ou advérbio relativo.

Dica nº 62

“Hoje é 28” ou “Hoje são 28”? As duas formas são corretas. No primeiro caso, está subentendida a expressão o dia, e o numeral cardinal substitui o ordinal, assim: “Hoje é (o dia) 28 de setembro”, oração que equivale a “Hoje é o 28.º dia do mês de setembro”. No segundo, a oração também corresponde a outra mais desenvolvida: "Hoje são (passados) 28 (dias do mês) de setembro". Se o vocábulo dia aparecer expresso no texto, o verbo obviamente concordará com ele e ficará no singular: “Hoje é dia 28”. A questão de fundo, na verdade, omitida por quase todos os autores que tratam do tema, é a concordância do verbo ser, que, como podemos observar nas gramáticas, está longe de ter regras precisas e rígidas. Assim, lemos em CUNHA, 2000: 494 que “em alguns casos o verbo ser concorda com o predicativo” e no quarto item aprendemos que tal ocorre nas orações impessoais. Exemplos ali fornecidos: “São duas horas da noite” e “Eram quase oito horas”. Se o verbo ser pode concordar com o predicativo, no caso da informação sobre dias tudo depende do número (singular ou plural) do predicativo. Dessa forma, se o numeral indicador do dia expressa quantidade acima de um, é considerado plural e para ele leva o verbo, além do argumento de subentendermos tantos dias passados do mês tal, como mencionado acima: “Hoje são 28”. Entretanto, podemos legitimamente admitir subentendida a palavra dia (por que não?), caso em que o predicativo estará no singular e o verbo, ao concordar com ele, ficará também no singular, mesmo que o dia referido for 2, 10 ou 28.

Dica nº 63

Haviam ou havia muitas crianças na creche? A segunda. Empregado no sentido de “existir”, o verbo haver é impessoal, isto é, não tem sujeito e permanece invariável na terceira pessoa do singular, como em “Não houve um único aluno ausente”, “Havia policiais disfarçados no salão” e “Haverá muitas pessoas que reclamarão”. Ao integrar conjugação composta – a formada por verbo principal e auxiliar –, o verbo haver, no caso de que se trata, torna impessoal também o auxiliar: “Devia haver irregularidades ali” e “Apesar dos prejuízos que possa ter havido, a loja continuou aberta”. Se “haver” for substituído por existir, a concordância processar-se-á normalmente: “Existem vários casos de falha mecânica”

Dica nº 64

Estadia ou estada?

Tradicionalmente, estadia significava apenas “tempo de permanência de um navio no porto sem acréscimo da taxa paga para tal” ou simplesmente “tempo de permanência de um navio no porto”: “Durante sua estadia no porto de Santos, o ‘Paratii’ foi inspecionado por Amyr Klink”.Estada significa “permanência”, “ato de estar em um lugar”: “Minha estada em Águas de Lindóia foi muito agradável” e “A estada do elefante em Brasília foi curta”. Entretanto, o uso acabou ampliando o significado de estadia, que atualmente também quer dizer “permanência de pessoas ou mesmo de animais” em algum lugar: “A estadia do Carlinhos em Porto Alegre foi paga pela empresa”. Os autores mais tradicionalistas resistem em aceitar a evolução do idioma e condenam este último emprego de “estadia”. Entretanto, os usuários é que são os senhores da língua, tanto é que dois ótimos dicionários aqui disponíveis (Aurélio e Brasileiro) já registram, além da acepção tradicional,o simples fato de estar-se em algum lugar igualmente como significado de “estadia”. Por isso, não se pode corrigir tal uso em nenhuma redação na qual apareça. Fiquem atentos, colegas!

Dica nº 65

América ou Estados Unidos? Os habitantes dos Estados Unidos utilizam o vocábulo America, entre outras denominações, para nomear seu país. Possivelmente, “America” seja, para eles, forma reduzida de “United States of America”. Deve ser por isso que se popularizou entre nós o adjetivo pátrio americano, em lugar de “estadunidense” ou “ianque”, já que, em rigor, americano é o habitante da América ou algo relativo a ela, continente onde se localiza o Brasil. “Norte-americano” é adjetivo referente à América do Norte, que compreende também outros países, e deve ser evitado como designativo de alguém ou algo dos EUA. Assim, em português, empregue-se a palavra América para designar nosso continente e não, um país, diferentemente do que se tem visto na imprensa e na televisão. Não é de admirar que essa atitude servil tenha também propiciado o ingresso desnecessário aqui de uma enxurrada de vocábulos estrangeiros sem, pelo menos, tradução ou aportuguesamento. É a velha mentalidade colonizada que campeia por aí. E não se acuse a posição aqui registrada de resistência à evolução da língua, pois o nome América designa a terra de todos os americanos – do Norte, do centro e do Sul – e não somente a dos residentes entre o Canadá e o México.

Dica nº 66

Rádio amador vs. radioamador Há muita confusão quanto ao sentido radioamadores. Assim, esclareça-se: dessas palavras, mesmo entre os

Rádio amador – Esta expressão, composta das palavras rádio e amador, denomina o esporte ou “hobby” em que se emitem e recebem ondas hertzianas com vistas à comunicação sem objetivos comerciais e equivale a “radioamadorismo”: “O rádio amador é atividade útil ao País”. Pode também designar, pela figura denominada metonímia, o equipamento utilizado nas transmissões, como em “Este não é um rádio amador (ou rádio de amador)”. “Rádio amador” opõe-se, pelo sentido, a “rádio comercial”, tipo de comunicação que utiliza ondas de rádio de que se valem muitas empresas. O rádio amador e o rádio comercial obedecem, cada um, a legislação própria e ocupam faixas diferentes no espectro eletromagnético. Radioamador – Significa “operador de estação de rádio amador”, isto é, a pessoa devidamente habilitada que transmite e recebe mensagens por intermédio de ondas de rádio a fim de se comunicar com outrem para seu próprio deleite ou em ações de auxílio, sem interesses pecuniários: “Um radioamador da Califórnia captou mensagens transmitidas em Nova Iorque”. A palavra radioamador opõe-se pelo sentido à expressão operador da faixa do cidadão, o popular “px”. Não se confunda “radioamador” com rádio ou equipamento. Radioamador é pessoa e não, aparelho. Nos dois casos, amador está em contraste com comercial ou profissional.

Dica nº 67

Verbos vicários Verbo vicário é o que fica no lugar de outro, que substitui um verbo para não se o repetir. Isto é possível porque, em determinado contexto, o verbo vicário é sinônimo daquele do qual faz as vezes. Os que mais se empregam com essa finalidade são fazer e ser: “Renato vinha muito aqui, mas há meses que não o faz” (o faz = vem aqui), “Ela não canta mais como fazia antigamente” (fazia = cantava), “O concerto realizou-se, mas não foi como se esperava” (foi = realizouse) e “Se você não vai é porque tem medo” (é = não vai). A repetição vocabular é defeito de estilo e revela falta de recursos ou descuido na produção do texto. Um dos meios de evitá-la é o emprego dos verbos vicários.

Dica nº 68

Sistema, norma e fala Lingüística Esses termos da interdependentes. Vejamos: representam realidades distintas, mas

Sistema – Conjunto formado pelas unidades da língua – em uso e ainda possíveis de serem usadas –, que se relacionam segundo regras determinadas. Essas regras são estabelecidas tacitamente pelos próprios usuários e não, pelos gramáticos, que simplesmente as descrevem. Só se verificam alterações no sistema quando há adesão coletiva. É por isso que algumas inovações ficam restritas a um único

falante, como o vocábulo “ceguez”, da obra de Guimarães Rosa. O sistema corresponde à língua ou código lingüístico e consiste no conjunto de possibilidades verbais, muitas das quais (ainda) inexploradas pelos falantes. Assim, em português, enquanto há inúmeras unidades lexicais, como “casa”, “um”, “pertinente” e “profligar” (todas com seus vários significados), há muitas seqüências de fonemas ainda não utilizadas, à espera de os falantes associarem a elas algum significado, como “*brina”, “*lagipa” e “*torrigo”. (Os asteriscos indicam formas hipotéticas.) A língua é entidade social, comum aos usuários de todo um grupo falante. Para poder se comunicar com usuário de outro sistema, o locutor (emissor) precisa utilizar código lingüístico de conhecimento pelo menos parcial do seu interlocutor (receptor). Em lugar dos termos “sistema”, “língua” ou “código lingüístico” alguns autores preferem esquema. Norma – Conceito introduzido pelo lingüista romeno E. Coseriu, que consiste nos padrões de uso, na maneira como os usuários utilizam o sistema ou código lingüístico. Assim, em razão da norma, os falantes valem-se de algumas possibilidades e descartam ou ainda não utilizam outras. É também em função da norma que existem lacunas na língua. Por exemplo, em português, não há nomes coletivos específicos para designar reunião de baleias ou de ostras. É também devido à norma que diferentes regiões de um território utilizam diferentes formas lingüísticas. Assim, os falantes nordestinos designam determinada raiz comestível por “macaxeira”, enquanto os do Centro-Sul a chamam de “mandioca” e “aipim”. (Veja também a pág. Você sabia? n.º 25.) As crianças muito pequenas e outras pessoas com pouca ou nenhuma escolaridade costumam brindar-nos com “pérolas” que achamos engraçadas e revelam como a norma determina quais formas o grupo deve usar. Por exemplo, assim como diz “corri” e “comi”, a criança acaba dizendo “fazi”. Nada impediria que fosse assim, mas a norma aceita pelo grupo prescreve “fiz”. Há também frases atribuídas a famosos jogadores de futebol, como esta: “Eu desconcordo com o que você disse”. Sintaticamente, a frase é gramatical e o vocábulo “desconcordo” está construído conforme as regras portuguesas. Entretanto, os falantes sempre preferiram discordo em seu lugar. Coisas da norma. Fala – É a concretização – tecnicamente, realização – do sistema. É o uso individual da língua por parte dos falantes e é pela fala que ela exerce seu papel de código, de instrumento de comunicação. Assim, quando você emite a seqüência /’agwa/, que se associa ao significado H2O para constituir o lexema ou palavra água, está produzindo fala. Esta se compõe de infinitos atos comunicativos praticados pelos usuários para poderem transmitir pensamentos, sentimentos e exteriorizar seus desejos e necessidades. Em resumo, a língua ou sistema é entidade abstrata, coletiva e geral, memorizada na mente de todos os falantes de um grupo lingüístico; a norma é padrão grupal de uso, é o modo como os usuários se valem da língua preferindo certas formas e preterindo outras; fala é a concretização individual do código lingüístico pelos participantes de um ato comunicativo.

Dica nº 69

À toa e à-toa

Essas expressões diferem na grafia, no significado e na classe de palavras. Vejamos: À toa – Grafada sem hífen, essa locução adverbial significa “a esmo, sem objetivo definido, sem proveito”: “Ficou andando à toa por aí”, “Está lá, escrevendo à toa” e “Cansei-me à toa”. À-toa – Com hífen, é locução adjetiva e significa “desprezível, sem importância, inútil”: “Aquele é sujeito à-toa mesmo”, “É besteirinha, coisa à-toa” e “Não adianta, é ajuda à-toa”. Apesar de funcionar como adjetivo, não varia: “São papéis à-toa”. As duas têm pronúncia idêntica e, por isso, são consideradas, tecnicamente, homônimas homófonas. Embora o Aurélio registre como étimo (palavra de origem) o inglês tow, lê-se em ALMEIDA, 1981: 5 (verbete “A toa”) que “toa” é vocábulo que se origina do árabe tuha, que, por sua vez, provém do verbo taha, “andar de forma errante, vagando, sem rumo”. Trata-se de termo da linguagem náutica que quer dizer “cabo utilizado para um navio rebocar outro que não tem propulsão própria”. Dessa forma, a “toa”, ao rebocar o barco, impede que ele flutue sem rumo. Da língua especializada, a expressão passou para a língua geral. O Aurélio registra essas locuções com “à”, embora autores renomados dispensem a crase, conforme se vê em ALMEIDA, 1999, §§ 534 e 535. Assim, ainda que “à toa/à-toa” e “a toa/a-toa” sejam formas corretas, recomenda-se aqui a observação do emprego da crase nessas locuções conforme o exposto na Dica n.º 40.

Dica nº 70

Plural dos nomes terminados em -ão Por razões etimológicas, os nomes terminados em -ão passam para o plural de três maneiras em português: com final em -ãos, -ães e -ões. Os substantivos e adjetivos com a terminação "-ão" no singular podem apresentar, no plural, uma daquelas formas, duas ou ainda as três. Vejamos alguns exemplos dessas ocorrências:·

É oportuno ressaltar que a tendência dos falantes é a preferência pelo plural em "ões". Essas considerações valem para os nomes em que a terminação "-ão" situase na sílaba tônica, caso de todos os exemplos acima. Contudo, o plural dos nomes em que ela se localiza na sílaba átona efetua-se de acordo com a regra geral da flexão de número dos substantivos e adjetivos: com acréscimo do morfema -s.

Assim: acórdão/acórdãos, sótão/sótãos, bênção/bênçãos. Enfim, não existe regra completa para orientar o usuário comum da língua no emprego do plural correto. Além das formas consagradas e de fácil memorização, o esclarecimento acerca das que suscitam dúvida deve ser buscado nas obras especializadas: gramáticas e dicionários.

Dica nº 71 Perda ou perca? As duas, cada uma com seu sentido. Elas são palavras parônimas e costumam ser indevidamente empregadas uma pela outra. Entretanto, se estivermos atentos para seus significados, não há razão para as confundirmos. Vejamos: · Perda - Substantivo que significa "privação de alguém ou de alguma coisa que se possuía", como em "Houve perda de receita no último ano" e "Júlio entristeceuse com a perda do amigo". · Perca - Flexão do verbo "perder" na primeira e terceira pessoas do singular do presente do subjuntivo e primeira e terceira pessoas do singular do imperativo: "Você quer que eu perca a partida, não é?" e "Não perca a esperança". Obs.: Há autores que, na descrição das conjugações, omitem a primeira pessoa do singular do imperativo. São, pois, incorretas frases como "Não desejo que ele perda a fortuna" ® (correto: perca) e "Isso é perca de tempo" ® (correto: perda).

Dica nº 72

Mal e mau Essas duas são palavras parônimas, as vezes homônimas – dependendo da pronúncia –, e por isso têm sido confundidas e tomadas uma pela outra. Entretanto, é muito fácil distingui-las se conhecemos suas funções, como veremos a seguir:· Mal (escrito com “l”) – Classifica-se como advérbio de modo e como conjunção subordinativa temporal. Como advérbio, opõe-se a bem e modifica adjetivos (Parece-me pessoa mal-intencionada) e verbos (Mais uma vez, Odilon trabalhou mal). Como conjunção, liga orações e equivale a “tão logo, nem bem”: “Mal tomou posse, começaram as cobranças”. Quando antecedido de artigo ou pronome, expresso ou subentendido, “mal” converte-se em substantivo. Nessa condição, também se opõe a bem e ainda pode flexionar-se: “Devemos combater o mal” (as coisas más) e “Nossos males (nossos problemas) advêm basicamente da falta da noção de cidadania”.

· Mau (escrito com “u”) – É adjetivo masculino e assim pode flexionar-se em gênero (má) e número (maus, más). Acompanha substantivos: “Evite dar mau exemplo”, “Estevão e Fernando são sujeitos maus”, “Não é má idéia” e “Fuja das más companhias, porque o resultado a gente já conhece”. “Mau” também pode substantivar-se e, nessa condição, flexionar-se normalmente: “O mau precisa ser mantido sob controle” (neste exemplo, tanto cabem mal como mau, depende do contexto), “Os bons serão recompensados e os maus, punidos”, “No final da história, a boa foi feliz para sempre e a má morreu” e “As frutas boas foram separadas das más”. “Mau” opõe-se a bom. Em resumo: · Mal – Classifica-se como advérbio e conjunção. Antecedido de artigo ou pronome, torna-se substantivo. Como advérbio e substantivo, opõe-se a bem. · Mau – Classifica-se como adjetivo e, antecedido de artigo ou pronome, substantiva-se. Opõe-se a bom.

Na dúvida, substitua “mal” por “bem” e “mau” por “bom”. Se fizer sentido, é porque o emprego foi acertado.

Dica nº 73

Estamos alerta ou estamos alertas? A segunda. Quando funciona como adjetivo, "alerta" significa atento, vigilante. Nessa condição, relaciona-se com substantivos e pronomes, com os quais concorda em número: "O vigia está alerta na guarita" e "Nós estamos sempre alertas". Repare que nos exemplos o verbo é de ligação. Quando modifica verbo, é advérbio (significa atentamente) e nesse caso não varia: "Estavam olhando alerta os arredores" e "Continuem caminhando alerta".

Dica nº 74 Somente Paulo venceu a corrida. Ué, mas “somente” não é advérbio e as gramáticas não ensinam que o advérbio é palavra que modifica apenas adjetivos, verbos e os próprios advérbios? Sim, é isso mesmo. Então, como, na frase-título, o advérbio “somente” está se relacionando com o substantivo Paulo? Na realidade, os gramáticos têm dificuldade em classificar certas palavras e a própria Nomenclatura Gramatical Brasileira, ao reconhecer isso, criou a classe extraordinária das “palavras que denotam” ou “denotativas”. E denotam o quê? Denotam, isto é, expressam noções de inclusão, exclusão, designação, realce, retificação, situação, explanação, etc. Essas palavras – e também locuções (grupos de palavras) – são muitas vezes consideradas advérbios,

o que não é apropriado, já que não se referem a adjetivos, verbos ou a outros advérbios. Na verdade, em certos contextos, não se enquadram em nenhuma das dez classes de palavras admitidas e são forçosamente incluídas na classe extraordinária acima referida. Na análise morfológica, devem ser consideradas, portanto, “palavras que denotam inclusão, exclusão ou designação, etc.”. Vejamos essas categorias, uma a uma:

Em outros contextos, a maior parte dessas palavras e expressões pode ser encaixada em uma das classes de palavras previstas na nomenclatura gramatical. Assim, até é nitidamente preposição em “Fomos até a praça.”. Cá é claramente advérbio em “Venha cá.”. Mesmo ou mesma é sem dúvida pronome adjetivo demonstrativo em “Esta é a mesma salada de ontem.”. Uma palavra sobre o emprego do advérbio na condição de modificador de substantivo: isto ocorre quando o substantivo assume praticamente função adjetiva, em casos em que integra predicativo, como "Ele já é quase rapaz". Repare que neste exemplo “rapaz”, embora substantivo, está empregado em função adjetiva, pois se relaciona diretamente com o pronome “ele”. Nessa condição, ou seja, como adjetivo, pode ter vínculo com o advérbio. Por fim, ressalve-se que essas considerações todas têm relação com a taxionomia, isto é, com a classificação das palavras, área que interessa mais de perto aos especialistas: lingüistas, gramáticos e professores de Língua Portuguesa.

Dica nº 75

Plural dos verbos na locução verbal Locução verbal é a reunião de vocábulos em que aparece mais de um verbo (flexionado + forma nominal) para constituir um todo morfológico. Nas locuções verbais, há um verbo que concentra em si o sentido mais relevante da ação praticada ou recebida pelo sujeito, denominado principal, e outro que o acompanha, chamado auxiliar, que encerra idéia acessória. Embora haja outros verbos que podem comportar-se como tal, os auxiliares são quatro: ter, haver, ser e estar. Em “Eu tinha feito a mesma proposta”, o núcleo do predicado verbal não é “tinha” nem “feito”, mas tinha feito. A conjugação aí é composta – tinha feito –, cujo sujeito é “eu”. Outros exemplos: “Já havíamos saído quando você chegou”, “Vou liberar as páginas hoje mesmo”, “Você deveria ter sido promovido no ano

passado”, “Carlos está estudando agora”, “Elisete vem a ser minha prima em segundo grau”. Agora, atenção: • Nos tempos compostos integrados pelos auxiliares “ter” e “haver”, o verbo principal no particípio permanece no masculino singular: “Paulo e Norma têm viajado muito” e “As irmãs haviam feito o possível para ajudá-lo”. Repare na diferença entre “Tenho escrito cartas” e “Tenho cartas escritas”. · Com os auxiliares “ser” e “estar”, o particípio, que assume função adjetiva, concorda em gênero e número com o vocábulo a que se refere: “Os deputados são pagos para trabalhar” e “Minhas filhas estão matriculadas em bom colégio”. · Se o verbo principal é forma infinitiva, permanece invariável: “Alberto e João Carlos continuam a faltar às aulas” e “Devíamos estar bêbados para fazer aquela algazarra”. É, pois, incorreta e descabida a flexão do infinitivo em construções como “continuam a faltarem” ou “devíamos estarmos”. Isto porque aí o infinitivo agrega-se ao verbo de que depende, em outras palavras, tem-se, na prática, um só verbo. Por isso, apenas o auxiliar se flexiona. · Quando o verbo principal é impessoal, o auxiliar também se impessoaliza e permanece invariável na terceira pessoa do singular: “Poderia haver mais pessoas lá dentro” e “Apesar dos prejuízos que possa ter havido, a loja continuou aberta”.

Dica nº 76

Pontuação em números A representação gráfica dos números pode, conforme o caso, requerer ou não sinais de pontuação, como o ponto e a vírgula, para separação das casas decimais. Vejamos em que situações isso ocorre: Ponto – Na representação de · quantidades – 2.450 caixas, 5.500 m3, 1.500 anos de história. datas abreviadas – 14.04.63, 16.06.96, 04.01.2002. Vírgula – Na grafia de · números fracionários – 2,333333; 2,5 kg; 0,50 m. quantias – R$0,70; R$15,00; R$9,50.

Ponto + vírgula – Na escrita de · números fracionários – 1.450,5 kg; 3.550,50 m; 4.770,8 l. quantias – R$5.450,50; R$10.777,30; R$1.999,99.

Não se usa ponto:

· Em números de ordem: “Você é o candidato n.º 5500”, “Sua inscrição é a de número 2468”, “O número da minha senha é 1453”. · Em datas ou anos do calendário: “12 de agosto de 1945”, “25 de julho de 1967”. “Viajei para a Europa em 1982 e 1983”, “Em janeiro de 1978, choveu muito em Brasília”. · Na notação de números fracionários ou centavos de real: R$5,50 e não, R$5.50. 4,6 m e não, 4.6 m.

Dica nº 77 Darmos e dar-mos Percebe-se em redações, com freqüência, equívoco que se deduz decorrente do desconhecimento do modo de construção das palavras: o uso incorreto de -mos. Essa partícula, mais apropriadamente morfema, embora pouco usada, resulta da combinação do pronome oblíquo me (= para mim) com o artigo masculino plural os: me + os = mos. Assim, se alguém me diz: “Aqui estão os livros.”, posso responder: “Você poderia dar-mos?”, que equivale a “Você poderia dar-me os livros?”. Evidentemente, na língua oral, seria pouco provável depararmos com esse uso, mas ele é legítimo. O equívoco referido decorre da confusão entre a combinação que se acabou de descrever e o morfema verbal -mos, que aparece na flexão dos verbos na primeira pessoa do plural do infinitivo pessoal ou flexionado. Ao conjugar o verbo “dar” nessa forma nominal e nessa pessoa, tem-se “darmos”, como em “É preciso darmos atenção aos questionamentos dos alunos”. Neste caso, seria descabida a separação “dar-mos”, pois a partícula “-mos” faz parte do vocábulo, é parte integrante dele. O inverso acontece com outros pronomes oblíquos, como -nos (= para nós). Como não integram a forma verbal, devem ser escritos com o hífen separador: “Torçamos para o instituto dar-nos (dar a nós) a oportunidade que almejamos”. Em resumo, em dar-mos, temos duas palavras: o verbo “dar” acompanhado da combinação “-mos” (o pronome oblíquo me + o artigo masculino plural os). Em darmos, temos uma só palavra, o verbo “dar”, flexionado na primeira pessoa do plural do infinitivo pessoal. O estudo dos pronomes oblíquos e de sua combinação com artigos contribuirá em muito para o esclarecimento desta questão.

Dica nº 78

Sujeito a multa ou sujeito à multa?

Depende. A expressão é sujeito a, onde aparece claramente a preposição "a". Se a palavra que se seguir for empregada em sentido genérico, isto é, não for determinada por artigo nem pelos demonstrativos “aquele”, “aquela” ou “aquilo” e seus plurais, não haverá como ocorrer crase. É o caso de “sujeito a multa” – onde não se faz referência à multa de que se trata –, de “sujeito a tudo de ruim” (expressão genérica), de “sujeito a qualquer ataque especulativo” (expressão também genérica). A crase somente ocorrerá se a palavra que se seguir for: 1. Substantivo feminino antecedido do artigo definido, no singular (a) ou no plural (as). Ex.: "Seu carro está sujeito à multa prevista em Lei" (sujeito a + a multa = sujeito à multa) ou "O infrator estará sujeito às penalidades constantes do artigo X do Código Penal" (sujeito a + as penalidades = sujeito às penalidades). 2. Substantivo feminino antecedido de artigo definido e adjetivo (ambos no singular ou no plural). Ex.: "Pela quebra do sigilo, ele ficou sujeito à natural execração dos seus pares" (sujeito a + a natural execração = sujeito à natural execração) e "Agindo assim, ele estará sujeito às duras sanções legais que o comportamento enseja" (sujeito a + as duras sanções legais = sujeito às duras sanções legais). 3. Pronome demonstrativo do tipo "aquele/aqueles", "aquela/aquelas" e "aquilo". Ex.: "João ficou sujeito àquele risco (ou àqueles riscos) de que falamos antes" (sujeito a + aquele/aqueles = sujeito àquele/àqueles); "A atitude da diretoria fez com que a empresa ficasse sujeita àquela multa (ou àquelas multas) da qual (das quais) fomos avisados" (sujeita a + aquela/aquelas = sujeita àquela/àquelas); "Você estará sujeito àquilo sempre que for lá" (sujeito a + aquilo = sujeito àquilo). Repare que a palavra que segue o demonstrativo sempre é qualificada por uma expressão ou mesmo frase. Se o vocábulo que segue o demonstrativo não é acompanhado de qualificativo ou se aquilo não for seguido de palavra alguma que o determine, trata-se de algo de que já se sabe, de que já se falou antes: “Sua intransigência fez com que ficasse sujeito àquela represália” (represália da qual já se falou antes ou da qual se sabe) e “Os alunos ficaram sujeitos àquilo durante todo o ano”. (Aquilo = aquela coisa de que já se sabe previamente.) O mesmo vale para outros casos, como direito a, onde também se destaca a preposição “a”. Em direito a pensão, o substantivo que se segue está empregado em sentido genérico, pois não se determina de que pensão se trata nem de quanto ela é. Entretanto, se a palavra seguinte for determinada nas condições acima, aí ocorre crase: “Direito à pensão estipulada pelo juiz” (direito a + a pensão estipulada pelo juiz), “Direito à elevada pensão prevista no estatuto” (direito a + a elevada pensão...) e “Direito àquela pensão que ela reivindicava” (direito a + aquela pensão...).

Dica nº 79

Particularidades de regência

A regência, quer verbal, quer nominal, pode apresentar casos particulares, como o que abordaremos agora. Trata-se da possibilidade de se omitir complemento nominal ou verbal para evitar repetição. Tudo depende da regência dos nomes ou verbos que participam da construção oracional. Por exemplo, na expressão "amor e obediência aos pais", a omissão do complemento aos pais após "amor" foi operada para evitar-se a construção repetitiva "amor aos pais e obediência aos pais". Ela foi possível porque os substantivos amor e obediência têm a mesma regência, isto é, seus complementos nominais têm de vir antecedidos de preposição e da mesma preposição: "a". Em outras palavras, tais vocábulos apresentam-se como amor a e obediência a. Se o complemento for do gênero feminino, haverá crase: "respeito e obediência às leis". (Veja, a respeito, a Dica n.º 2.) Outros exemplos: "Apego e carinho pelos livros" e "Atenção e deferência para com os visitantes". O mesmo vale para complementos verbais. Em "Comprei e encapei o livro", omitese uma vez "o livro" para evitar-se a repetição: "Comprei o livro e encapei o livro". (A alternativa é usar-se o pronome oblíquo: "Comprei o livro e encapei-o".) A omissão do complemento foi possível por possuírem os verbos "comprar" e "encapar" a mesma regência - direta -, ou seja, seus complementos ou objetos ligam-se a eles sem o auxílio de preposição. Mais exemplos: "Maria descascou e chupou as laranjas" e "Gosto muito e por isso não me desfaço destas fitas". Na hipótese de os nomes ou verbos terem regências diferentes, não é possível a omissão pura e simples do complemento; por isso, um pronome terá de ser utilizado se se quiser evitar a repetição do objeto. Assim, em "interessado e desejoso de aprender", a construção está incorreta, pois o adjetivo "interessado", antes de verbo no infinitivo, é acompanhado da preposição em (interessado em aprender), ao passo que "desejoso" se usa com a preposição de (desejoso de aprender). Como resolver o problema? Simples: no caso, o sentido do primeiro adjetivo é completado pelo complemento nominal com auxílio da devida preposição e o do segundo adjetivo, por sua preposição mais um pronome. A construção correta fica assim: "interessado em aprender e desejoso disso (de + isso)". Com verbos é a mesma coisa: a construção "Desviei-me e depois removi a pedra" está incorreta, já que o verbo "desviar-se", no contexto, é transitivo indireto (é acompanhado de preposição, no caso, "de": desviar-se de algo) e "remover" é transitivo direto (é desacompanhado de qualquer preposição: remover algo). Por isso, para evitar a repetição "Desviei-me da pedra e depois removi a pedra", recorremos a um pronome: "Desviei-me da pedra e depois a removi". Assim procedendo, ficamos absolutamente em paz com as regras gramaticais da norma culta. Veja ainda os casos abaixo: "Gostei do livro e deliciei-me com ele" e não "Gostei e deliciei-me com o livro". "Encontrei-me com Alberto, mas afastei-me logo dele" e não "Encontrei-me mas afastei-me logo de Alberto".

Dica nº 80

Gaviões da Fiel comemora o titulo ou Gaviões da Fiel comemoram o titulo? Ambas corretas. Aparentemente, há erro de concordância na primeira frase, já que o sujeito de "Gaviões da Fiel comemora o titulo" é plural (Gaviões). Entretanto, a concordância do verbo aí não é formal, ou seja, não se processa com a forma plural do sujeito. Ela faz-se com a idéia que a expressão "Gaviões da Fiel" encerra, isto é, a de escola de samba, substantivo singular. É construção mais elegante, modo original de reescrever a mesma frase em sua forma "normal": "A escola de samba Gaviões da Fiel comemora o titulo". Tal concordância foi possível por ter sido empregada a figura de linguagem - mais precisamente, figura de sintaxe denominada silepse. É o mesmo caso de "Barreiras localiza-se no oeste baiano". A forma singular do verbo justifica-se por se tratar não de "barreiras", substantivo comum plural, mas de nome próprio singular, que se refere a uma cidade. A concordância realiza-se, portanto, com a idéia de cidade e não com a de "mais de uma barreira". A segunda frase também está correta em razão de o verbo concordar com a forma plural "Gaviões da Fiel", referência aos participantes da citada escola de samba. Eles são também integrantes, em geral, da torcida homônima do clube de futebol S. C. Corinthians Paulista, aliás, a mais famosa delas. E por que "Fiel"? Porque a torcida corintiana é considerada, muito justamente, a "Fiel Torcida".

Dica nº 81

Uso do dicionário É dever do professor de língua materna orientar o estudante, especialmente o das séries iniciais, a respeito do uso do dicionário. Há vários "macetes" nesse particular, que, se não forem observados, dificultarão a localização do que se quer encontrar. Comentemos inicialmente a respeito da oposição masculino vs. feminino. Com exceção de alguns nomes mais usuais, como menina, professora, gata, vaca e muitos outros, os demais são consignados no dicionário geralmente pela forma masculina, especialmente os adjetivos. Se procurarmos os verbetes senadora, bombeira, carteira (feminino de carteiro), completa, perfeita, portuguesa, não os vamos encontrar, apenas "senador", "bombeiro", "carteiro", "completo", "perfeito", "português". Há, porém, exceções: o Aurélio registra alemã como feminino de alemão. Já francesa, inglesa e mexicana são apresentados com outros significados que não o simples feminino dos correspondentes masculinos. Geralmente, quando, no verbete da forma masculina, há indicação da feminina, trata-se do interesse em precisar sua pronúncia. Os substantivos que possuem, na língua portuguesa, formas do masculino e do feminino bem distintas (como homem/mulher, bode/cabra) são comumente encontrados assim nos dicionários. Contudo, dos nomes cuja distinção de gênero é operada mediante o uso de desinências (garoto/garota, dicionarizados) nem

sempre se encontra a flexão feminina, como é o caso de búfalo. O Aurélio somente registra o masculino, sem mencionar seu feminino, mas o dicionário de língua portuguesa da Encyclopaedia Britannica (3 vols.) consigna "búfalo" e, no verbete, informa que o feminino é "búfala". A ausência de certas informações lexicográficas dá a medida da completude de um dicionário. Outro aspecto do que falamos aqui se refere à oposição singular vs. plural. A forma geral registrada é a singular, o que mostra considerarem os lexicógrafos (dicionaristas) ser a palavra no plural apenas variação da forma singular e não, outra palavra. Entretanto, as formas do singular e do plural dos vocábulos portugueses de origem latina (a maioria) tiveram evolução paralela e autônoma. Mesmo assim, a busca de verbetes deve, pois, ser feita pela forma singular. Nomes compostos muitas vezes não são consignados e deve-se procurar por um de seus elementos constituintes. Por exemplo, não se encontra ponto de vista. Entretanto, no verbete ponto, ao final de suas acepções, há menção a "ponto de vista" e a outros subverbetes em que aparece o elemento "ponto". O mesmo ocorre com relação a livro de ouro, encontrado no verbete "livro" e a Semana Santa, que aparece no verbete semana. Quanto aos advérbios, de modo geral, é inútil procurar os terminados em -mente, salvo algumas exceções, como friamente, que o Aurélio registra. Esses advérbios de modo são derivados de adjetivos na forma feminina, como claramente (de clara); prontamente (de pronta); seguramente (de segura). Assim, se quisermos saber o sentido de peremptoriamente, será preciso buscar o adjetivo que lhe dá origem, ou seja, peremptória, que também não aparece. O que está lá é o masculino peremptório. Por fim, enfocamos as formas verbais, que devem ser procuradas no dicionário pelo infinitivo. De nada adianta tentar localizar cantava, comia, saía e punha, que não serão encontradas. O apropriado é buscar cantar, comer, sair e pôr. Contudo, o particípio sempre aparece, pois é levada em consideração sua função adjetiva. Ainda assim, a forma feminina nem sempre é contemplada e mesmo quando ela é substantivada às vezes não figura. Assim, o Aurélio consigna estimado, mas não, estimada; cansado, mas não, cansada; registra amado, mas não, amada, embora esta possa também significar a mulher que alguém ama; querido, mas não, querida, que, como substantivo, é algo ou alguém que se quer muito.

Dica nº 82

Ofício O ofício é tipo de correspondência externa muito usado, especialmente quando o destinatário é órgão público. Ele serve para "informar, encaminhar documentos importantes, solicitar providências ou informações, propor convênios, ajustes, acordos, etc., convidar alguém com distinção para a participação em certos eventos, enfim, tratar o destinatário com especial fineza e consideração" (CAMPOS MELLO, 1978: 122). Modelo moderno de estruturação de ofício é:

1. Timbre (se houver) 2. Três espaços duplos 3. (À esquerda) Número do ofício. (Na mesma linha, na posição centro-direita) Local e data 4. Um espaço duplo 5. Epígrafe 6. Dois espaços duplos 7. Vocativo (Prezados Senhores, Excelentíssimo Senhor Ministro,) 8. Três espaços duplos 9. Corpo do texto 10. Dois espaços duplos 11. Fecho 12. Três espaços duplos 13. Assinatura acima do nome, abaixo do qual aparece o cargo ou função 14. (Mais abaixo, à esquerda) Endereçamento: nome e cargo ou apenas o cargo do destinatário, endereço postal completo 15. Iniciais de quem redigiu e as de quem datilografou/digitou, separadas por barra (/). Observações: 1. O timbre existe quando o papel utilizado pertence a repartição oficial ou a empresa. Em se tratando de pessoa física, geralmente, não aparece. 2. Da mesma forma, o ofício é numerado quando o remetente é pessoa jurídica. Normalmente, pessoas físicas não costumam numerar correspondência. O número é de ordem e geralmente recomeça do 1 a cada ano civil. 3. O vocativo é sempre seguido de vírgula. Veja, a propósito, a Dica n.º 54. 4. A epígrafe é palavra ou expressão que resume o assunto de que o texto trata. Sua existência não é obrigatória, mas conveniente, pois constando agiliza a tramitação do documento no ambiente de destino: o recebedor, ao ver a epígrafe, poderá encaminhar de imediato o ofício ao setor competente. Ela costuma ser colocada à esquerda, entre a data e o vocativo. 5. Os parágrafos do corpo do texto podem ser numerados. Neste caso, o primeiro parágrafo e o fecho não recebem número. 6. Modernamente, o fecho é menos formal e mais conciso. Fechos como "Enviamoslhe protestos de alta estima e distinta consideração" são hoje considerados muito formais e tendem ao desuso. 7. As iniciais dos elaboradores do ofício são diferenciadas: normalmente, as do redator são grafadas em primeiro lugar e em maiúsculas e as do datilógrafo/digitador aparecem depois da barra, em letras minúsculas. 8. Se houver anexos, será indicado seu número (Anexo: 1, Anexos: 3) entre a assinatura e o endereçamento. Às vezes, o anexo é volume composto de diversas

folhas, o que é indicado pelo número de volumes e o total de folhas de que se compõem: Anexos: 1/10, 2/15. 9. Se for utilizada mais de uma folha na redação do ofício, o endereço será indicado na primeira.

Exemplo de ofício:

Dica nº 83

Adjetivos não-flexionáveis quanto ao número Simples ou compostos, há adjetivos que, independentemente do número do substantivo que modificam, permanecem no singular. É o caso dos substantivos em função adjetiva que se referem a cores. Assim, temos vestidos rosa, blusas marfim, saias cinza, ternos grafite, carros prata, raios ultravioleta. Você pode estar-se perguntando: ué, mas por que "raios ultravioleta", se dizemos "raios infravermelhos"? Acontece que em "ultravioleta" está presente o substantivo violeta, ao passo que em "infravermelho" aparece o adjetivo vermelho. Este flexiona-se, pois, normalmente. Os adjetivos compostos dos quais um dos elementos é substantivo também ficam numericamente invariáveis: toalhas azulturquesa, sombrinhas azul-piscina, maiôs rosa-choque, capas verde-garrafa, biquínis verde-abacate, calças cinza-chumbo, tecidos amarelo-ouro. O mesmo vale caso apareçam as locuções "de cor", "cor de", "da cor do" ou "da cor de": fitas de cor vermelha, meias de cor azul-escuro, vestidos cor-de-rosa, roupas cor-de-burroquando-foge, olhos cor de turmalina, toalhas da cor do mar, lençóis da cor de morango.

Dica nº 84 Acentuação gráfica de vocábulos terminados em ditongo crescente Esta matéria pode suscitar dúvida, já que a norma ortográfica é nebulosa. Ela prevê acentuação gráfica sempre que um vocábulo for proparoxítono, como em âmago, básico, lâmpada e médico. Até aí, tudo claro. Acontece que há palavras paroxítonas terminadas em ditongo crescente, como água (á-gua), ânsia (ân-sia), contínuo (con-tí-nuo), glória (gló-ria), lírio (lí-rio), série (sé-rie), tênue (tê-nue) e outras, que são acentuadas graficamente, pois também podem ser pronunciadas como proparoxítonas. Neste caso, o encontro vocálico em ditongo converte-se em hiato e agora a sílaba que era una divide-se em duas, de forma que as palavras se tornam proparoxítonas: "á-gu-a", "ân-si-a", "con-tí-nu-o", "gló-ri-a", "lí-ri-o", "sé-ri-e", "tênu-e". Você deve estar-se perguntando: ué, mas não há nada de novo, pois temos

proparoxítonos em ambas as situações. Entretanto, a regra silencia se o vocábulo for pronunciado como paroxítono: gló-ria. Nesta situação, ele não deveria ser acentuado graficamente, já que na regra de acentuação dos paroxítonos não estão incluídas as palavras terminadas em ditongo crescente. Mesmo assim, elas são acentuadas. O que ocorre é que a regra prevê tais formas poderem vir a ser pronunciadas como proparoxítonos - são os proparoxítonos eventuais - e, pelo sim, pelo não, inclui-as também no rol das palavras que apresentam o acento tônico na antepenúltima sílaba. Eis o que dizem as "Instruções da Academia Brasileira de Letras", de 12.08.1943, no capítulo XII - Acentuação gráfica, item 43, alínea 2.ª, observação : "Incluem-se neste preceito [acentuação obrigatória dos proparoxítonos] os vocábulos terminados em encontros vocálicos que podem ser pronunciados como ditongos crescentes: área, espontâneo, ignorância, imundície, lírio, mágoa, régua, tênue, vácuo, etc.". Ora, se o encontro vocálico final é ditongo, isso significa que a palavra não é proparoxítona e sim, paroxítona. Contudo, repetimos, não há previsão normativa, no que toca aos paroxítonos, de acentuação dos vocábulos terminados em ditongo crescente. A norma é, pois incompleta, já que deveria prever expressamente a acentuação desses vocábulos tanto na condição de proparoxítonos como na de paroxítonos, uma vez que ambas as pronúncias ocorrem nos domínios da língua. Essa é, porém, discussão acadêmica. O que interessa para seu uso é que vocábulos paroxítonos terminados em ditongo crescente recebem acento gráfico na vogal tônica, já que esse ditongo pode converter-se em hiato, o que faz com que tais palavras sejam pronunciadas como proparoxítonas: cá-rie ® cá-ri-e, gló-ria ® glóri-a, ré-gua ® ré-gu-a, etc.

Dica nº 85

Palavras e expressões latinas de uso corrente em português Além dos milhares de vocábulos portugueses de origem latina, são muitas vezes empregadas palavras e expressões na forma original. Encontramo-las às centenas tanto na linguagem técnica como na que utilizamos no dia-a-dia. Vejamos algumas, seu significado e exemplo de emprego: Ad hoc (para isso, para determinado fim) – Diz-se de pessoa (ou grupo de pessoas) que, em certa situação, é designada para exercer função que habitualmente não é a sua: “Na assembléia, José foi escolhido secretário ad hoc”. Ad infinitum (até o infinito) – Indefinidamente: “Na dízima periódica, um ou mais algarismos repetem-se ad infinitum”. Ad referendum (para ser trazido de volta) – Para exame e aprovação posterior de outrem. Uma decisão “ad referendum” é tomada por alguém e depois submetida à aprovação de outras pessoas a quem esse alguém deve satisfações: “O presidente nomeou o embaixador ad referendum do Congresso”. Alter ego (outro eu) – Pessoa em quem se pode confiar como em si mesmo; aquele que substitui perfeitamente o outro (Aurélio): “Por suas ações, Valmir era o alter ego do subgerente”.

Caput (cabeça, extremidade) – Parte superior de um artigo ou parágrafo: “A convocação da assembléia está amparada pelo estatuto social em seu artigo 12, caput”. Corpus Christi (corpo de Cristo) – Tradicional festa móvel católica em honra do corpo de Deus: “As ruas de Matão enfeitam-se para a procissão de Corpus Christi”. Curriculum vitæ (carreira da vida) – Documento que contém dados pessoais e outras informações relacionadas à formação escolar e profissional e às atividades já realizadas por alguém com vistas a candidatura a algum cargo ou emprego: “Os candidatos à vaga devem apresentar o curriculum vitæ no departamento de Recursos Humanos da empresa”. De cujus (aquele de cuja) – Palavras existentes na expressão jurídica de cujus successione agitur = aquele de cuja sucessão se trata. Emprega-se com referência a alguém falecido que deixou bens de herança. e. g. (abreviatura de exempli gratia) – Significa “por exemplo”: “O padre aparece ali só em festas religiosas e.g. no domingo de Páscoa”. Errata (plural de erratum = erro) – Erros, coisas erradas: “Errata – Na pág. 5, onde se lê ‘viraram’, leia-se ‘viraram-se’. Na pág. 17, onde se lê ‘mandato’, leia-se ‘mandado’”. E assim por diante. Et alii (e outros) – Expressão usada em notações bibliográficas para indicar a existência de mais de um autor: “HERNANDES, Paulo et alii.”. Ex voto [de (um) voto] – Empregada já na forma aportuguesada (ex-voto). Objeto – fotografia, quadro ou reprodução em cera ou madeira de parte do corpo humano – deixado em igreja para pagamento de voto ou promessa em retribuição de graça recebida: “Na sacristia, vêem-se centenas de ex-votos”. Ex officio (de ofício, de obrigação) – Em função do cargo ou em virtude de obrigação do cargo: “O procurador representou ex officio ao presidente do tribunal”. Habeas corpus (tenhas teu corpo) – Garantia outorgada pela Constituição a alguém que está sofrendo ou pode sofrer restrições na locomoção por parte de autoridade: “O defensor do acusado já requereu habeas corpus preventivo”. Habeas data (tenhas os dados) – Dispositivo introduzido na constituição brasileira de 1988 pelo qual um cidadão pode requerer do poder público informações sobre os dados que sobre ele existam em arquivos de órgãos governamentais e eventualmente as retificar. Honoris causa (para a honra) – Título conferido por universidades a pessoas, a título de homenagem, sem que o agraciado tenha passado por qualquer exame: “O autor recebeu da Universidade de Brasília o título de doutor honoris causa”. Ibidem (no mesmo lugar) – Vocábulo que também aparece na forma abreviada ibid. Em Bibliografia, termo que equivale a “no mesmo lugar, mesmo capítulo ou mesma página”. Veja exemplo no verbete "Loc. cit.", adiante. Idem (o mesmo) – A mesma coisa ou, em Bibliografia, o mesmo autor: “Ata da reunião de 10.09.98. Idem, de 12.08.99”. In loco (no lugar) – No lugar, no próprio local: “O delegado verificou in loco a situação do prédio atingido”. In fine (no fim) – É usada para indicar a localização de algo no final de um texto ou de parte dele: “Veja o parágrafo 11, alínea ‘a’, in fine”. In natura (na Natureza) – Em estado natural, tal qual: “Em vez de comercializar o leite in natura, as empresas preferem transformá-lo em laticínios”. In totum (no todo) – Totalmente, integralmente: “Para a computação, os dados da pesquisa foram considerados in totum, em vez das totalizações parciais”.

Ipsis litteris (com as mesmas letras) – Literalmente, textualmente, nos mesmos termos: “Transcrevi ipsis litteris o que ele escreveu”. Ipso facto (mesmo fato) – Por esse mesmo fato, por isso mesmo: “O diretor da Receita é, ipso facto, a pessoa mais abalizada para opinar a respeito de arrecadação”. Lato sensu (em sentido amplo) – Em sentido amplo, geral; de forma geral: “O curso é de pós-graduação lato sensu em Língua Portuguesa”. Os cursos “lato sensu” são geralmente os de especialização, feitos depois da graduação universitária. Loc. cit (abreviatura de loco citato, lugar citado) – Expressão usada em Bibliografia com sentido de “no mesmo lugar, no mesmo livro”. Entretanto, é mais empregada como equivalente a “na mesma página”, para não se repetir o número da tal página: “LUFT, 1979, p. 35. Idem, ibidem, loc. cit.”. Aí, “idem” refere-se ao autor, “ibidem” à obra – identificada pelo ano da edição, certamente constante da bibliografia – e “loc. cit.” indica que a página é a mesma já mencionada há pouco. Mea culpa (minha culpa) – Reconhecimento do próprio erro ou falha: “Depois do que ocorreu, todos esperavam que ele fizesse o mea culpa ali mesmo”. Modus operandi (modo de operar) – Maneira de agir: “A polícia já tem as informações sobre o modus operandi da quadrilha que agiu nas privatizações”. Mutatis mutandis (mudado o que deve ser mudado) – Fazendo-se as alterações ou adaptações necessárias: “Empregados têm deveres com os patrões; mutatis mutandis, têm os patrões deveres com os empregados”. Nihil (nada) – Emprega-se para indicar ausência de dados ou informações: “Consultas realizadas – Janeiro: 10; fevereiro; 8; março: nihil; abril: 2”. Pro forma (pela forma, pela aparência) – Por mera formalidade: “Não há necessidade da assembléia, mas ela será realizada apenas pro forma”. Pro labore (pelo trabalho) – Expressão já aportuguesada como “pró-labore”. Remuneração paga pelo exercício de certo cargo ou função ou pela execução de determinada tarefa: “Além do pró-labore, os diretores têm outras regalias”. Pro rata (de pro rata parte = para a parte fixada, calculada) – Em proporção, de forma proporcional (segundo a parte contada a cada um): “A taxa foi calculada pro rata de acordo com a despesa mensal”. Sine die (sem dia) – Sem data marcada: “O simpósio foi adiado sine die”. Sine qua non (de conditio sine qua non = condição sem a qual não) – Indispensável: “A conclusão de curso superior é condição sine qua non para a inscrição no concurso”. Stricto sensu (em sentido estrito) – Em sentido restrito: “Estão abertas as matrículas dos cursos de pós-graduação stricto sensu”. Tais cursos são geralmente os de mestrado e doutorado. Status quo (de in statu quo = no estado que) – Situação em que algo se encontrava ou se encontra: “Nosso movimento político contraria o status quo vigente”. Sub judice (sob julgamento) – Sob apreciação judicial: “Não vou me manifestar, já que a questão ainda está sub judice”. Sui generis (de seu próprio gênero) – Peculiar, original, diferente: “Trata-se de linha de investigação sui generis”. v. g. (abreviatura de verbi gratia) – Significa “por exemplo”: “A Semiótica estuda todos os sistemas de signos, v. g., a linguagem gestual”. vs. (abreviação de versus = contra) – “No dia 3 de junho, teremos o jogo Brasil vs. Turquia”.

Dica nº 86

A princípio ou em princípio? Ambas são locuções (ou sintagmas) adverbiais que se parecem na forma e por isso são freqüentemente confundidas, mas têm empregos diferentes. A princípio equivale a "no começo", "inicialmente": "A princípio, o time estava meio preso, mas depois se soltou e surgiram os gols", "A princípio, a seleção turca respeitou o Brasil, mas depois começou a gostar do jogo" e "A princípio, Edmilson estava meio nervoso, mas acabou firmando-se na partida". Em princípio significa "em tese", "preliminarmente", "de modo geral", como em "Em princípio, concordo com o esquema tático da seleção brasileira", "Em princípio, a Seleção era favorita no jogo de estréia" e "Em princípio, quase todas as equipes têm chance".

Dica nº 87

Pontuação Todos sabemos da importância da pontuação para a correta e precisa expressão do pensamento, principalmente na língua escrita. O seguinte texto revela isso de modo eloqüente: "Um homem rico estava muito mal de saúde. Pediu caneta e papel e escreveu assim: 'Deixo meus bens à minha irmã não a meu sobrinho jamais será paga a conta do alfaiate nada aos pobres'. Morreu antes de fazer a pontuação. Afinal, a quem ele deixou a fortuna? Eram quatro concorrentes: a irmã, o sobrinho, o alfaiate e os pobres. O escrito chegou às mãos deles e cada um fez a pontuação que lhe conveio, como veremos a seguir: O sobrinho fez a seguinte pontuação: 'Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho. Jamais será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres'. A irmã chegou em seguida. Pontuou assim: 'Deixo meus bens à minha irmã. Não a meu sobrinho. Jamais será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres'. O alfaiate pediu cópia do original. Puxou a brasa para a sua sardinha: 'Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres'.

Aí, chegaram os descamisados da cidade. Um deles, sabido, fez esta leitura: 'Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do alfaiate? Nada! Aos pobres'. Assim é a vida. Nós é que colocamos os pontos. E isso faz a diferença." Os vestibulandos e candidatos a vagas em concursos, principalmente, sabem disso. Veja agora este outro texto: “O valor da vírgula Leia o texto abaixo e ponha nele apenas uma vírgula. Quase sempre, os homens colocam-na em um lugar e as mulheres, em outro. Tente descobrir onde isso ocorre. ‘Se o homem soubesse o valor que tem a mulher andaria ansiosamente à sua procura.’ Se você é mulher, certamente pôs a vírgula depois de ‘mulher’. Entretanto, se é homem, com certeza a colocou depois de ‘tem’”. Viu como a vírgula é importante? Dica nº 88

Letras maiúsculas em vocábulos em que há hífen Nas palavras compostas cujos elementos são separados por hífen, é o seguinte o emprego das letras maiúsculas: 1. Se o nome é próprio, é escrito com inicial maiúscula por força de outras disposições da regra ortográfica ou faz parte de título em que os componentes estão grafados com esse tipo de letra, ambos os elementos do composto recebem iniciais maiúsculas: "O prof. Jean-Claude Boulanger viajou da Grã-Bretanha para o Brasil a fim de proferir palestra na Escola Pós-Graduada de Ciências Sociais", "Simpósio sobre Ações de Contra-Informação". 2. Nos demais casos, só se utiliza a maiúscula como inicial do primeiro elemento e mesmo assim quando o composto iniciar frase ou título: "Homens-rãs iniciam treinamento" e "Fichas-resumos - Arquivo geral". Tal ocorre porque "os elementos hifenizados têm autonomia fonética, mórfica e gráfica. Mantêm portanto as maiúsculas respectivas" (LUFT, 1979: 76).

Dica nº 89

Cerca de, acerca de, há cerca de Essas três formas costumam produzir confusão pela semelhança, mas têm emprego preciso, como veremos a seguir: · Cerca de - Sintagma ou locução adverbial que significa "aproximadamente", "mais ou menos": "O atirador está a cerca de 30 metros do alvo", "Discursei para cerca de 200 pessoas" e "A estrada tem cerca de 15 km de extensão". · Acerca de - Locução prepositiva com significado de "a respeito de", "sobre", "relativo a": "Falamos acerca de negócios", "Carlos é capaz de discutir acerca de qualquer assunto" e "Trata-se de tópicos acerca de Contabilidade Bancária". · Há cerca de - Expressão formada pelo verbo "haver" e a locução "cerca de". Conforme o contexto, pode ter dois sentidos: 1. Tempo aproximado decorrido - "Chegamos a Brasília há cerca de 25 anos" e "Renato partiu há cerca de 15 minutos". 2. Quantidade aproximada existente - "Há cerca de 100 cabeças no pasto" e "Segundo Mariana, há cerca de 30 alunos na sala".

Dica nº 90

Feminino de ídolo Às vezes, as pessoas têm dúvida ao empregar a palavra ídolo com referência a nome feminino. Dizer "Chico Xavier é meu ídolo" é fácil, já que "ídolo" é do gênero masculino. O problema surge quando tal vocábulo se relaciona com nome feminino, como "Chiquinha Gonzaga". Como ficaria a construção? "Chiquinha Gonzaga" é minha ídola"? Não é nada disso. Na verdade, o substantivo "ídolo" pertence a um só gênero, o masculino. Assim, como não tem forma feminina, você dirá: "Milton Nascimento é meu ídolo" ou "Sandy é meu ídolo". Esse fato não é de surpreender, pois vários substantivos existem que, como "ídolo", só são empregados em um gênero e podem relacionar-se indistintamente a nomes masculinos e femininos. A Nomenclatura Gramatical Brasileira chama-os "sobrecomuns", dos quais são exemplos os masculinos alvo, animal, cônjuge, indivíduo e os femininos criança, pessoa, testemunha, vítima e vários outros, como nos exemplos abaixo: · · · · · · O conferencista e sua esposa foram alvo de todas as atenções. Esta leoa é o único animal do zoológico que ainda não foi vacinado. Meu cônjuge chama-se Norma. As mulheres são os mais sensíveis indivíduos da espécie humana. Celsinho é criança muito esperta. João é pessoa imensamente estimada.

· Euclides, a testemunha, já chegou para depor. · O nome da vítima é Raimundo. Em conseqüência da evolução do grupo social, substantivos sobrecomuns podem vir a apresentar o outro gênero. Assim, em razão do incremento da presença feminina em cargos de chefia, o vocábulo chefe, que tradicionalmente possuía apenas uma forma (comum de dois gêneros: o chefe, a chefe), passou a admitir também a feminina morfologicamente explicitada – chefa. O mesmo ocorreu com presidente, parente e sujeito, cujas formas do feminino já estão dicionarizadas. Em breve, isso poderá suceder com gerente, é esperar para ver...

Dica nº 91

Leitura de números fracionários Eventualmente, a leitura de números fracionários pode suscitar dúvidas, principalmente se o numerador (número colocado acima do traço divisório) é 1 ou se o denominador (número colocado abaixo do traço) expressa grandes quantidades. Vejamos como isso se processa: o numerador é sempre lido como numeral cardinal: um, cinco, nove, etc. O denominador lê-se meio quando for dois e terço quando três. Exemplos: meio (1/2), um terço (1/3), dois terços (2/3), etc. De quatro até dez, lê-se o denominador como número ordinal: quarto, quinto, sexto, sétimo, oitavo, nono, décimo. Exemplos: um quarto (1/4), três oitavos (3/8), sete décimos (7/10). A partir daí, o denominador é lido como cardinal, acrescido da palavra avos, no plural, mesmo quando o numerador da fração é 1. Assim, um onze avos (1/11), cinco trinta avos (5/30), doze quatrocentos avos (12/400), sete dois mil avos (7/2000), vinte cinco mil e nove avos (20/5009), etc. As exceções ocorrem quando o denominador é múltiplo de 10. Nestes casos, em vez de "avos", usam-se centésimo, milésimo, milionésimo e seus compostos: um centésimo (1/100), dois milésimos (2/1000), dez milionésimos (10/1000000), cinco décimos milésimos (5/10000), trinta centésimos milésimos (30/100000), etc. A palavra que representa o número fracionário chama-se numeral fracionário. Acredita-se que o vocábulo avo, usado normalmente no plural, origina-se da terminação de oitavo. Resumo - Leitura do: · Numerador - Na forma de numeral cardinal: um, cinco, vinte. · Denominador - Meio (2), terço (3); de 4 até 10, na forma ordinal; de 11 em diante, na forma cardinal, acrescido de avos, com exceção dos múltiplos de 10. Estes são lidos na forma ordinal.

Dica nº 92

Evolução de regências verbais

Todos sabemos que a língua é sistema em contínua evolução, isto é, transforma-se constantemente. Cabe aos gramáticos estarem atentos às mudanças sob pena de se distanciarem cada vez mais da língua viva. Esse preâmbulo serve para introduzir o assunto que se segue: a evolução de algumas regências verbais no português brasileiro. Vejamo-las:

Aspirar Tradicionalmente, este verbo tem duas regências. Como transitivo direto, significa inspirar, inalar, entre outros sentidos: "Ficando aqui, você vai aspirar muito pó" e "Aspire o perfume por alguns segundos". Como transitivo indireto, tem o significado de desejar, ambicionar: "De há muito, João Carlos aspirava ao cargo" e "Ao entrar no templo, o neófito aspirava pela luz". Novidade - Atualmente, gramáticos e autores respeitados também admitem a regência direta com o sentido de "desejar": "O que aspiro é muito mais do que isso" e "Setores oligárquicos da política aspiram continuar no poder". Autores renomados em que se encontra esta prática: José Lins do Rego, Darcy Ribeiro, Gilberto Amado, Viana Moog e Plínio Salgado. · Assistir - A regência direta e a indireta implicam diferença de sentido. A direta atribui ao verbo o sentido de prestar assistência, assessorar: "Jorge ficou encarregado de assistir os estagiários" e "Augusto assistiu o presidente na viagem, não sem algum interesse". A regência indireta tem o sentido de ver, presenciar: "Assisti a um Vasco x Botafogo no Maracanã" e "É preciso pagar para assistir ao filme". Novidade - Gramáticos e autores conhecidos já admitem a regência direta com o sentido de "ver": "A última partida do Corinthians que assisti em estádio foi contra o Brasiliense" e "Não quero assistir espetáculo de violência". Celso Cunha reconhece a evolução sintática, e a construção passiva comprova a transitividade direta: "O jogo foi assistido por cem mil torcedores" e "O filme foi assistido por milhões de espectadores em todo o mundo". · Visar Como os anteriores, este verbo tem também duas regências: a direta e a indireta. Ao empregar-se com regência direta, tem, entre outros significados, o de pôr visto, autenticar: "Preciso que você vise este cheque" e "Pedi para visarem o documento". Como transitivo indireto, significa ter como objetivo, pretender: "Com isso, eles visavam à desestabilização do Governo" e "Tais medidas não visam a melhorar o funcionamento do modelo". Novidade - Modernamente, gramáticos e autores de renome admitem a regência direta também com o sentido de "objetivar", "pretender", como em "A assembléia visa alterar o estatuto" e "As providências visam o fim do conflito". Autores que abonam essa prática: Antenor Nascentes, Rocha Lima, Celso Cunha, Paschoal Cegalla, Evanildo Bechara e outros. Nota: para evitar problemas com especialistas conservadores, especialmente em provas e concursos, é prudente empregarem-se as regências tradicionais.

Dica nº 93 Haja vista ou haja visto? A primeira. "Haja vista" é expressão verbal perifrástica, isto é, desenvolvida, que equivale à forma sintética veja. O elemento "haja" é flexão do verbo haver na terceira pessoa do imperativo afirmativo e "vista" não pode ser substituído por "visto", pois se refere a vista mesmo, com o sentido de "olho". Tal expressão deve, portanto, ser empregada de forma invariável e tem como objeto direto as palavras que a seguem. Assim, temos "O povo brasileiro cansou-se do atual modelo econômico, haja vista o resultado das eleições de 2002" e "A inflação não está sob total controle, haja vista as contínuas elevações dos preços dos alimentos". Em alguns autores, encontra-se a flexão do verbo: "hajam vista", como em "Hajam vista os acontecimentos em Foz do Iguaçu". Para outros, a expressão é seguida de preposição, "haja vista a", como em: "Haja vista às tão importantes decisões". Entretanto, estas práticas não encontram o respaldo da maioria dos autores renomados e por isso devem ser desconsideradas.

Dica nº 94 Qual seja É correto o emprego dessa expressão? Sim, pois se trata de pronome relativo tanto quanto "que" e exerce a função de sujeito da oração que introduz. A frase "O autor tem grave dever, qual seja o da lealdade processual" equivale a "O autor tem grave dever, o qual é o da lealdade processual". Se o antecedente está no plural, empregamos então "quais sejam": "Antônio possui algumas propriedades, quais sejam uma casa, um apartamento e uma chácara".

Dica nº 95 Concordância verbal – Sujeito composto posposto Nos casos em que o sujeito composto antecede o verbo, este vai naturalmente para o plural por serem mais de um os praticantes da ação. Por exemplo, “Carlos e Marina são pessoas íntegras” e “Vanessa e Gabriel viajaram para Alagoas”. Entretanto, quando o sujeito composto está posposto, isto é, quando está posto depois do verbo, este pode permanecer no singular, como faz Manuel Bandeira em “Rua da União, onde todas as tardes passava a preta das bananas com o xale vistoso de pano da Costa e o vendedor de roletes de cana” (CUNHA, 2000: 498). Assim também “Chegou o novo televisor de 30 polegadas e o revolucionário DVD” e “Apareceu a ilha Redonda e a Siriba”. Observe o que diz Napoleão Mendes de Almeida: “Preste atenção o aluno aos dizeres da regra: ‘...poderá o verbo...’ – Não há obrigação de ficar no singular o verbo; preferem muitos pô-lo no plural, talvez por temor de críticas de ignorantes em assuntos gramaticais. Segundo Cândido de Figueiredo, o verbo anteposto aos

sujeitos deve ficar sempre no singular, mesmo nos casos em que os últimos elementos do sujeito estejam no plural (“Morreu Pedro e todos os que lá estavam”), porque assim exige a índole da língua e a prática dos melhores mestres” (ALMEIDA, 1999: 449, § 727, Notas, 1.ª). Ficará também o verbo no singular se for antecedido de expressões como é necessário ou é preciso: “É necessário paciência e perseverança para se atingir a meta” e “É preciso atenção e perspicácia para descobrir onde está Wally”. Se o sujeito composto formar-se de nomes próprios, será melhor a concordância no plural, como em “Foram aprovados Adilan, Ronan e Luiz Eduardo” e “Discursarão Lula e José Alencar”. Se o verbo for “ser” seguido de substantivo flexionado no plural, deverá ir para o plural: “Foram prefeitos de Barretos Benedito Realindo Corrêa e João Batista da Rocha” e “São meus primos o Adirlei e a Avani”. Irá também o verbo para o plural se encerrar idéia de reciprocidade, como em “Após a cerimônia, beijaram-se Gustavo e Simone” e “Consta que lutaram a noite inteira Jacó e o anjo”.

Dica nº 96

A vírgula e a conjunção “e” De modo geral, não cabe o emprego da vírgula juntamente com a conjunção aditiva “e”, pois nesse caso ambos os elementos estarão funcionando como conetivos no mesmo lugar. Contudo, há casos em que é possível a presença da vírgula juntamente com o “e” e em outros ela não só é possível como necessária. Vejamos alguns deles: • A vírgula indica que a palavra ou expressão que a segue, depois do "e", é sujeito de outra oração, distinto do da oração anterior – Exemplo: “Geralmente, já foram fixados os preços, e as tabelas não podem ser alteradas”. Repare que “os preços” e “as tabelas” são sujeitos de predicados diferentes (foram fixados e não podem ser alteradas). Sem a vírgula, na leitura rápida, pode parecer que se trata de sujeito composto (já foram fixados os preços e as tabelas). Outro exemplo: “Os executivos usam carros da empresa, e microônibus levam os demais empregados ao trabalho”. Neste caso, a ausência da vírgula propiciaria leitura tal que faria com que “microônibus”, sujeito de “levam”, fosse entendido como complemento de “usam”, juntamente com “carros da empresa”. Vírgula obrigatória. • Há intenção de se enfatizarem componentes de série coordenada – Exemplo: “Houve muitos episódios notáveis na Guerra do Paraguai, como Humaitá, e Itororó, e Avaí, e Itá-Ibaté, e Angostura, e outros tão ou mais importantes”. Assim encadeada a série, ressalta-se cada elemento em particular. Vírgula facultativa, na dependência de se querer ou não produzir a ênfase mencionada. • Destaque de oração ou expressão intercalada – Exemplos: “Esse eixo semântico, e trata-se exatamente disso, possui grande generalidade”, “O padre

repreendeu, e era perfeitamente o caso, o comportamento impróprio de alguns paroquianos” e “O aluno foi chamado e, aparentando tranqüilidade, apresentou-se ao diretor”. Pode-se retirar a oração ou a expressão encaixadas sem prejuízo do sentido da oração principal. Observe que, como se trata de intercalação, há duas vírgulas, uma antes e outra depois do elemento intercalado. Vírgula facultativa. • Separação de aposto do “e” – Este caso é semelhante ao anterior, mas a particularidade é que se trata de aposto, que nem sempre precisa estar entre vírgulas, como em “Nosso primeiro imperador foi D. Pedro I, o “Defensor Perpétuo do Brasil”. Na hipótese de o aposto ser “interno”, ou seja, não ser seguido por ponto, deve ser ladeado por vírgulas, mesmo que à segunda se siga a conjunção “e”. Exemplos: “Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente eleito, e sua equipe reúnemse hoje” e “Karl Marx, autor de O Capital, e Friedrich Engels são ideólogos do marxismo”. Vírgula obrigatória. • Vírgula antes do “e” quando a coordenação que o antecede é muito longa – Essa vírgula indica pausa respiratória. Exemplos: “Eliane, Afonso e Wagner fizeram longa viagem até Brasília, e decidiram descansar lá por uns dias” e “Vila Bela da Santíssima Trindade é município localizado no oeste de Mato Grosso, e é ponto de partida para muitas expedições de pesca”. Vírgula facultativa.

Como informação de caráter prático, saiba que se coloca vírgula depois do “e” somente se há intercalação depois dele. Evidentemente, se se trata de intercalação, temos aí duas vírgulas: uma antes e outra depois do elemento ou oração intercalada. Exemplo: “Norma chegou e, exultante, logo foi contando as novidades”. Se também houver intercalação antes do “e”, este ficará entre vírgulas, como em “Renato pediu informações, muito aflito, e, em seguida, dirigiu-se à Prefeitura”.

Dica nº 97 Eis Afinal de contas, o que significa essa palavra? “Eis” origina-se do latim ecce e como outras que há não se enquadra em nenhuma classe de palavras de acordo com a Nomenclatura Gramatical Brasileira. Por isso, esta a inclui na categoria dos vocábulos “que denotam alguma idéia”, no caso, a de “designação”. “Eis” tem força de verbo e é por esse motivo que pode ser empregada com pronome oblíquo, à guisa de complemento: “Ei-lo”, “Eis-nos”. Tal complemento é objeto direto: “Eis o aluno”. Equivale a “aqui está”: “Eis o homem = Aqui está o homem”. Repare que depois de “eis” o pronome oblíquo “o” (e “a”, “os”, “as”) transforma-se em “lo” (e em “la”, “los”, “las”) porque se pospõe a forma terminada em “s”.

Dica nº 98

Virtudes da linguagem verbal

Nos dias atuais, a comunicação humana precisa ser eficiente e rápida, especialmente a linguagem verbal. Não tenha dúvidas: além da aparência pessoal, muitas vezes o sucesso de suas pretensões depende da maneira como você se comunica. Assim, esteja atento para as virtudes de estilo ou qualidades da boa linguagem. Veja a seguir os fatores que influem positivamente no processo da comunicação verbal: • Correção – É a conformidade com a norma dita culta, padrão lingüístico definido pela elite como seu. Quem quiser ascender socialmente, deve dominá-lo, caso contrário, estará “excluído”, ressalvadas as exceções que só confirmam a regra. O emprego da norma culta é requerido na escola, nas repartições e empresas públicas, na imprensa e nas manifestações lingüísticas escritas em geral. A correção ortográfica e gramatical atua na formação de imagem favorável junto aos receptores das mensagens. Por exemplo: na redação do seu currículo, procure caprichar o mais possível, pois do outro lado poderá estar alguém muito exigente quanto a este item. A correção gramatical obtém-se com muita leitura dos chamados “bons autores”, não necessariamente clássicos, e com muito treino sob assistência de professor. Repare que a norma culta comporta dois padrões: o formal (escrito) e o coloquial (oral), que apresentam diferenças. A respeito, leia a Dica n.º 034. • Concisão – É a objetividade na expressão de forma a transmitir-se o máximo de idéias com o mínimo de palavras. Evite a “enrolação” e seja direto. Muitas vezes, o leitor do seu texto tem pouco tempo e quase nenhuma paciência disponível. A linguagem direta, sem rebuscamentos e excesso de adjetivações, comunica melhor. O contrário da concisão é a prolixidade. O jornalista Elio Gaspari, que escreve nas edições de domingo do jornal Folha de S. Paulo, ironiza a prolixidade na seção “Curso Madame Natasha de Piano e Português”, como neste trecho: “Natasha concedeu mais uma de suas bolsas de estudo a Sérgio Fausto, assessor da Secretaria Executiva do Ministério da Fazenda. Ele informou que muitos brasileiros ‘sofrem de carência alimentar’. Madame acha que ele podia ter dito ‘fome’”. • Clareza – Trata-se de virtude essencial da comunicação e seu oposto é a ambigüidade – também chamada anfibologia – e a obscuridade. A clareza permite a perfeita transmissão do pensamento e a indubitável expressão da vontade e dos desejos. É obtida com auxílio da concisão e da simplicidade, o que equivale a dizer: predomínio do uso de vocábulos de alta freqüência (palavras mais acessíveis ao receptor comum), períodos curtos e ordem direta. Há certas categorias profissionais que se esmeram na linguagem rebuscada, quase incompreensível, na vã ilusão de que com isso impressionam. Ledo engano. Não perca de vista a adequação do nível de linguagem ao público a quem se dirige: conforme os destinatários, você precisará empregar a norma popular em vez da culta, pois esta poderá não ser compreendida. O ideal é o falante ser “poliglota na sua própria língua”. A respeito, leia BECHARA, 1989. • Precisão – Na construção do texto (oral ou escrito), procure colocar a palavra certa no lugar certo. A expressão precisa é importante para você atingir o objetivo de comunicar exatamente o que pretende e evitar mal-entendidos. A prática constante da leitura e da escrita e exercícios com sinônimos ajudam a desenvolver

a precisão. O contrário é a imprecisão ou mesmo a obscuridade, muitas vezes causadas pela inadequação vocabular. • Naturalidade – É a fluência da comunicação verbal sem preocupação exagerada com a correção. Para alcançar-se a naturalidade, deve-se evitar a linguagem rebuscada – o chamado preciosismo, o emprego, por exemplo, de excesso de vocábulos de baixa freqüência (palavras de significado desconhecido da maioria das pessoas) –, o abuso da ordem inversa e, na expressão oral, o linguajar próprio do padrão formal (língua escrita). Imagine, por exemplo, em bate-papo num barzinho, alguém dizer “você ver-se-á em maus lençóis se continuar a insistir naquilo". A respeito, leia a Dica n.º 034. • Originalidade – Procure ser original ou, como se costuma dizer, “ser você mesmo”. É claro que o que é bom pode ser utilizado, mas de forma moderada, sem cair na imitação servil. A originalidade na expressão revela o estilo de cada um e, como já dizia Buffon, “o estilo é o próprio homem”. Com o tempo, seu estilo vai-se definir mediante certas preferências vocabulares e de construção frasal e isso vai evidenciar sua marca e mostrar visão própria do mundo. • Nobreza – É atributo da linguagem, especialmente escrita, livre de palavras e expressões vulgares e mesmo obscenas. O texto nobre é aquele que qualquer pessoa pode ler “sem censura”. A gíria, salvo situações particulares e justificadas, deve ser evitada na linguagem escrita. Observe que neste tópico aplica-se perfeitamente a distinção entre padrão formal e coloquial. Assim como não cabe o primeiro na comunicação oral, o segundo não se compatibiliza com o texto escrito. • Harmonia – A prosa harmônica prima pela adequada escolha e disposição dos vocábulos, pelos períodos não muito longos e pela ausência de cacofonias, especialmente o eco. É o texto cuja leitura dá prazer. • Colorido e elegância – Atributos que valorizam sobremaneira a expressão verbal pela adequada seleção vocabular e, entre outros fatores, pelo emprego comedido e adequado das figuras de linguagem. A contínua leitura e a prática constante da escrita possibilitam adquirirem-se estas virtudes. Portanto, você já sabe: muita leitura e muito treino.

Para aperfeiçoar seu texto, evite as cacofonias, a repetição vocabular (por isso, a importância dos exercícios com sinônimos e do uso do dicionário) e faça economia do “que”, dos pronomes possessivos e dos artigos indefinidos. Leia mais sobre isso na Dica n.º 01. Texto com palavras repetidas muito proximamente demonstra desleixo na escrita ou pobreza de recursos vocabulares.

Dica nº 99 Tópico frasal Expressão utilizada por Othon M. Garcia (GARCIA, 1988: 206) como tradução do inglês topic sentence, “tópico frasal” designa um ou dois períodos curtos iniciais que

contêm a idéia-núcleo do parágrafo em texto dissertativo, descritivo ou narrativo. O tópico frasal é eficiente e prática maneira de estruturar o parágrafo, pois já de início expõe a idéia que se quer passar, a qual é comprovada e reforçada pelos períodos subseqüentes. O autor diz que, embora haja outras formas de se construir parágrafo, a maioria (mais de 60%) é assim estruturada, de acordo com suas pesquisas. Acha Othon Garcia que a montagem do parágrafo dessa forma provavelmente tenha origem no raciocínio categórico-dedutivo, herança greco-latina, pois o tópico frasal constitui generalização, especificado pelos períodos seguintes. Expondo-se de saída a idéia-núcleo, a coerência e a unidade do parágrafo ficam asseguradas e dessa forma se evitam considerações desnecessárias. Em suma, fica mais fácil garantir a coesão textual do parágrafo, o que implica produzir coerência semântica e lógica nos períodos que o constituem, característica importante em texto dissertativo. Tome-se o seguinte parágrafo: “Em 1986, os veículos a álcool chegaram a representar 98% da linha de produção. Os veículos a gasolina só eram disponíveis por encomenda. Devido a medidas na área financeira, a produção de carros a álcool hoje mal chega a 1% da frota nova. Os que restam a álcool estarão em uso por curto tempo. O programa foi exterminado”. (BAUTISTA VIDAL, J. W. Brasil, civilização suicida. Brasília, Nação do Sol, 2000, p. 16.) Observa-se que a idéia central do parágrafo é apresentada logo no princípio mediante o tópico frasal (assinalado em negrito). Este é seguido de outro período que demonstra a validade daquela idéia . Os períodos seguintes estabelecem contraste com a idéia-núcleo e corroboram afirmativa constante de parágrafo anterior. Ainda segundo Othon Garcia, aprendemos que o tópico frasal pode-se apresentar sob diferentes formas, quais sejam: Declaração inicial – Afirma-se ou nega-se algo de início para em seguida justificarse e comprovar-se a assertiva com exemplos, comparações, testemunhos de autores, etc. Assim: “Essa variedade de flores não finalizava a decoração do jardim. No centro das rosas, uma única, uma única dama da noite, responsável por completar o toque de classe de toda aquela beleza. Essa árvore transformava as noites com seu aroma profundamente sensual e invadia as casas e toda a praça, o que fazia com que os amantes ficassem mais apaixonados”. (HERNANDES, Christina. O amigo que não perdi. Campos do Jordão, Vertente, 1997, p. 12.) Note que no exemplo acima a declaração inicial aparece sob forma negativa, justificada pelo período seguinte. A seguir, acrescentam-se mais informações a essa fundamentação: “Essa árvore...”.

Definição – Muitas vezes, o tópico frasal apresenta-se sob a forma de definição, o que lhe confere característica didática: “Agê-Chálugá, Ajá e Ochanbin são deuses da medicina e muito estimados pelos nagôs. Creio que a Ochanbin se devem referir as informações que colhi sobre os orixás contrários a Xaponã. Os negros falam muito em Iabahim, mãe da bexiga ou varíola, e eu supus uma divinização recente da vacina. Todavia, esta interpretação tem contra si a repugnância e relutância dos negros a se fazerem vacinar”. (NINA RODRIGUES, Raimundo. Os africanos no Brasil. 5. ed. São Paulo, Nacional, 1977, p. 230.) À definição constante do tópico frasal acrescenta-se informação presente no período seguinte. Os períodos posteriores mantêm-se circunscritos ao tema do tópico.

Divisão – A divisão é método eminentemente didático, pelo qual o tópico frasal apresenta-se na forma de seqüência de elementos ou de itens, que serão desenvolvidos no mesmo parágrafo ou em parágrafos distintos. Muitas vezes, a divisão é antecedida de uma definição. Exemplo:

(D’ADAMO, Peter J. e WHITNEY, Catherine. A dieta do tipo sangüíneo; saúde, vida longa e peso ideal de acordo com seu tipo de sangue. 8. ed. Rio de Janeiro, Campus, 1998, p. 127.) Existem outros modos de iniciar parágrafo na dependência de vários fatores, como a ordem das idéias, a ênfase que o escritor quer dar a determinado aspecto de sua exposição, a intenção do autor de prender a atenção do leitor, questionamentos que aquele pretende lançar, etc. Essas outras técnicas são igualmente válidas, mas sua apresentação aqui foge ao propósito desta página.

Dica nº 100 Infinitivo e pronome oblíquo Podemos ser tentados a colocar o pronome oblíquo em orações em que aparece o infinitivo não-flexionado, como em “Esta receita é muito fácil de se fazer”. Isto porque o “se” poderia aí ser classificado como pronome apassivador, já que a

oração equivale à construção passiva analítica “Esta receita é muito fácil de ser feita”. Realmente, essa equivalência existe, mas na verdade o emprego do pronome, além de desnecessário, é de fato incorreto. Tal se passa porque alguns verbos ativos adquirem força passiva quando, no infinitivo, são antecedidos das preposições a, de, para e por, principalmente quando funcionam como complemento de certos adjetivos. Como exemplos, temos “Há diversas contas a pagar (a serem pagas)”, “Esta parede foi acabada de pintar (de ser pintada)”, “Ele é duro de agüentar (de ser agüentado)”, “João é osso duro de roer (de ser roído)”, “O xarope é difícil de engolir (de ser engolido)”, “A regra é fácil de aprender (de ser aprendida)”, “É exemplo para imitar (para ser imitado)”, “Estas bolsas são para vender (para serem vendidas)”, “Todos estes textos estão por revisar” (por serem revisados)”, “O trabalho ainda está por terminar (por ser terminado)”, etc. Observe que em “duro de agüentar”, “difícil de engolir” e “fácil de aprender”, por exemplo, de agüentar, de engolir e de aprender funcionam como complementos nominais dos adjetivos “duro”, “difícil” e “fácil”. Entretanto, há quem discorde da passividade da construção alegando que o infinitivo, ao complementar o sentido de certos adjetivos, tem emprego “geral” e não, passivo, caso em que a voz ativa ou passiva neutralizam-se, conforme se pode ler em CUNHA, 2000 (veja abaixo). De uma forma ou de outra, o uso do pronome oblíquo nessas construções não é autorizado por nenhum autor.

Dica nº101

Anexo ou em anexo? Na correspondência, usa-se anexo para indicar que algo está junto do texto em que se escreve. Nesse contexto, “anexo” é adjetivo, que concorda com o substantivo que acompanha. Assim, “Segue cópia anexa”, “Envio documento anexo”, “As faturas vão anexas”. É comum, porém, ver-se o uso de em anexo. Ao empregar essa expressão, na verdade, o que se está dizendo é que algo está em um anexo, ou seja, com ou dentro de algum anexo (por exemplo, um envelope) que se encontre agregado à carta. Se esse é o caso, como tal anexo é conhecido e determinado, deve-se usar o artigo definido “o”. Portanto, a expressão adequada é no anexo. Se digo que “Os bilhetes seguem no anexo”, posso, pois, estar querendo dizer que eles seguem dentro de um envelope que está anexo à carta ou memorando. Por tudo isso, se algo vai simplesmente junto com a carta, ele vai anexo e não, “em anexo”.

Dica nº 102

Meio Tratamos aqui de “meio” enquanto advérbio ou numeral. Como advérbio, não varia e modifica adjetivos. Assim, temos “Leonardo estava meio preocupado” e “Lourdes bebeu e ficou meio tonta”. Nestes exemplos, meio significa “um pouco”, “mais ou menos”. Meio pode também funcionar como numeral – significa “metade de um” – e nesse caso concorda com o substantivo que acompanha. Exemplos: “Rosário tomou meio litro de chope” e “Joabel comprou 12 meias garrafas de cerveja”. Fiquemos atentos para esses empregos em expressões do tipo “meio acabada/meia acabada”, “meio terminada/meia terminada” e “meio aberta/meia aberta”. Se digo que o pedreiro entregou a parede meio terminada (meio = advérbio), quero dizer que a entregou ainda por terminar. Se, porém, digo que ele entregou a parede meia terminada (meio = numeral), isso significa que ela está construída pela metade. O mesmo vale para “porta meio aberta”, ou seja, porta entreaberta. Se digo porta meia aberta, quero dizer que está aberta pela metade. Caso curioso é o de “meio” ao acompanhar meio-dia. Por princípio lógico, devemos dizer “meio-dia e meia”, pois estamos querendo dizer que se trata de metade do dia mais meia hora, substantivo aí subentendido. Entretanto, por influência do gênero masculino de “meio-dia”, é comum ouvirmos “meio-dia e meio”. Contudo, isso significará, literalmente, “meio-dia mais metade de um dia”. Essa contaminação de gênero também é freqüente em exemplos como “Depois da cerveja, Leo ficou meia alegrinha”, quando na verdade não se quer dizer que ela ficou “alegre” pela metade, mas um pouco, mais ou menos. Estes últimos exemplos indicam evolução lingüística e são admitidos na linguagem coloquial, mas se quisermos ficar em paz com a prescrição da Gramática, especialmente na língua escrita, devemos atentar para o real sentido que os vocábulos tradicionalmente têm.

Dica nº 103 O mais possível O uso dessa expressão costuma confundir as pessoas, principalmente quando acompanhada de nomes no plural. Vamos esclarecer, pois. Seja a oração “Tais títulos são os mais rentáveis possíveis”. Se nela está inserida aquela expressão – o mais possível = o mais que é possível – algo está errado, não é? E está mesmo porque se trata da locução adverbial “o mais possível”, que, por sua natureza, é invariável. Assim, devemos reescrever a oração como “Tais títulos são o mais rentáveis possível” ou então “Tais títulos são rentáveis o mais (que é) possível”. Repare que a nossa locução modifica o adjetivo “rentáveis” e não, o substantivo “títulos”. Por ser adverbial, o “o” e o “possível” não se flexionam e é por isso que não se pode construir, como acima, “Tais títulos são os mais rentáveis possíveis”. Nada disso. Em qualquer construção em que essa locução entre, ela fica invariável: o mais possível. Outros exemplos: • “Apresentaram desculpas o mais esfarrapadas possível” ou “Apresentaram desculpas esfarrapadas o mais possível”;

• “As reações ao medicamento foram o mais variadas possível” ou “As reações ao medicamento foram variadas o mais possível”; • “Ofereceram objeções o mais estapafúrdias possível” ou “Ofereceram objeções estapafúrdias o mais possível”. Há alternativas a essas construções, como “Apresentaram desculpas o mais possível esfarrapadas” ou “Apresentaram desculpas quanto possível esfarrapadas” ou ainda “Apresentaram desculpas esfarrapadas quanto possível”. Essa é a posição defendida por Napoleão Mendes de Almeida. Há autores, porém, que dela divergem, como Luiz A. Sacconi e José De Nicola & Ernani Terra, os quais é conveniente também consultar. (Veja abaixo.) Conhecendo diferentes concepções, o estudante definirá sua preferência, que, qualquer que seja, estará respaldada por autor de renome.

Dica nº 104

Está na hora do Brasil fazer reformas. Que lhe parece? Os gramáticos tradicionais torcem o nariz para essa construção e a condenam. Por quê? Porque com a combinação da preposição de com o artigo o o sujeito do infinitivo (Brasil) acaba dependendo do substantivo “hora”, que o antecede, o que dá origem ao sintagma hora do Brasil. O sujeito ficaria indevidamente regido de preposição. E não se tem isso aí. Na verdade, o que há é a expressão “está na hora”, completada por infinitivo, no caso, “fazer”. Assim, o que queremos dizer é que “está na hora de fazer reformas”. Quem? O Brasil. Reconstruindo a frase, podemos dizer “Está na hora de fazer reformas o Brasil” ou, em outra ordem, “Está na hora de o Brasil fazer reformas”. Lembremo-nos pois que, em casos como esse, a expressão “está na hora” deve ser seguida da preposição de e de um verbo no infinitivo: “está na hora de sair”, “está na hora de almoçar”, “está na hora de voltar”, etc. O sujeito desse infinitivo pode posicionar-se antes ou depois do verbo: “Está na hora de levar a sério o estudo o aluno” ou “Está na hora de o aluno levar o estudo a sério”. Entretanto... Ah, existe um entretanto aí. Gramáticos de renome admitem a combinação. Evanildo Bechara, em sua Moderna gramática portuguesa (BECHARA, 1977: 311-312), ensina que a combinação aí ocorre como fato natural da língua, pelo contato da preposição com o artigo. “Na realidade não se trata de regência preposicional do sujeito, mas do contato de dois vocábulos que, por hábito e por eufonia, costumaram vir incorporados na pronúncia.” (Idem) Bechara cita vários autores consagrados que adotaram tal prática em seus escritos, como Alexandre Herculano, Rui Barbosa, Epifânio Dias e outros e dá como exemplo a famosa frase “Está na hora da onça beber água”. E aí, como ficamos? Bem, qualquer que seja a opção escolhida, você estará respaldado. Contudo, a prudência recomenda, especialmente em provas escolares ou concursos, o emprego da construção tradicional, isto é, sem a combinação:

“Está na hora de a onça beber água”. Se você insistir na combinação e seu texto for corrigido, haverá possibilidade de recurso e sua posição deverá prevalecer, pois conta com respaldo de gramático respeitado. É preciso, porém, nessa atitude, pesar a relação custo/benefício.

Dica nº 105 Verbos causativos Categoria curiosa é a dos verbos chamados “causativos”. E o que vem a ser verbo causativo? Também chamado “factitivo”, é o verbo transitivo direto (o que se liga ao complemento sem auxílio de preposição) cujo objeto se constitui de um ser que age por força do sujeito. Em outras palavras, o sujeito faz com que o objeto faça ou torne-se alguma coisa. Exemplos: "João afugentou os cães" (pela ação de João, os cães fugiram), "Roma civilizou a Pensínsula Ibérica" (pela ação de Roma, a Península tornou-se civilizada), "Os portugueses cristianizaram a Terra de Santa Cruz" (pela ação dos portugueses, a Terra de Santa Cruz tornou-se cristã), "Notifiquei-o do atraso" (pela minha ação, ele tomou conhecimento do atraso).

Repare que os auxiliares causativos não formam locução verbal com o infinitivo. Assim, cada verbo tem seu sujeito, e o verbo no infinitivo pode ser substituído por forma modal: “Fiz com que Leo estudasse”, “Mandei que os alunos ficassem” e “Deixei que o copo caísse”. (Leia também, a respeito do infinitivo, a Dica n.º 19.)

Dica nº 106 Orações interrogativas As orações interrogativas traduzem o desejo do falante de obter informação ou de formular questionamento, como em "Quem está aí?", "Isso é trabalho que se apresente?" e "Quero saber quem sujou o chão.". A interrogação em português classifica-se em direta e indireta: · Direta – Na expressão oral, a interrogação direta caracteriza-se pela entoação ascendente no final da frase – "Os convites já foram respondidos?" – ou no início, se começada por pronome ou advérbio interrogativo – "Como você soube disso?". Na escrita, a interrogação direta é assinalada pelo ponto de interrogação: "Tânia e Celsinho viajaram?" e "Quanto custa?". · Indireta – A interrogação indireta realiza-se mediante período composto, onde a questão está contida na oração subordinada e o verbo da principal expressa

desconhecimento ou desejo de informação: "Diga-me com quem você conversou." e "Gostaria de saber a que horas o secretário chegará.". Esse tipo de oração termina quase sempre em ponto final.

Às vezes, nos diálogos, acrescentamos informação após interrogação direta. Neste caso, a frase informativa principia com letra minúscula, como em "– Como se atreve a sujar minha água? indagou o lobo ao cordeiro.". É preciso ficarmos atentos para não deixarmos de colocar o indispensável ponto de interrogação no final das interrogações diretas, caso contrário, elas permanecerão como afirmações. Vejamos esta oração interrogativa: "Você pode executar o trabalho?". Se, em vez do sinal apropriado, colocarmos ponto final, a frase tornarse-á afirmativa: "Você pode executar o trabalho.". Em certos casos, essa troca inadvertida e indevida pode causar ruído na comunicação e, eventualmente, problemas.

Dica nº 107 Algumas dicas de redação Para redigir com acerto e qualidade, é preciso muita leitura e constante treino. É útil fazer curso específico, quer para reforçar os conhecimentos adquiridos na escola regular, quer para suprir deficiências desse aprendizado. Aqui vão algumas recomendações e comentários, que poderão ajudar na tarefa: 1. Observe com atenção o tema proposto, que deve ser religiosamente seguido. De modo geral, nos concursos, a fuga ao tema é pecado capital, pago com a retirada da redação do certame sem sequer ser totalmente corrigida. Há redações ótimas reprovadas porque o autor escreveu sobre tudo, menos acerca do que foi pedido. 2. Mesmo que você respeite o tema, evite fazer circunlóquios e circunvoluções em torno dele. Isso, na área de correção de provas, tem nome: “encheção de lingüiça”, pecado também penalizado. Em outras palavras, seja objetivo sem jamais perder o tema de vista. 3. Se você não tem noção clara do que vai escrever, anote em rascunho, na forma de tópicos, as idéias a medida que forem surgindo, o chamado brain storm (tempestade cerebral). Esses itens poderão constituir os tópicos frasais da redação, que serão desenvolvidos, um a um, para constituir o texto. Veja, a propósito, a Dica n.º 99. 4. Depois, releia os tópicos e examine a conveniência de manter todos. É hora de ordená-los para concatenar as idéias. Dito de outro modo: trata-se de encadear os conteúdos de forma lógica. Se, ao final da redação, você escrever “Portanto, etc, etc, etc.”, o que vier a seguir tem de ter tudo a ver com o que foi dito antes. É o princípio da coerência. 5. Nas provas e concursos, costuma-se determinar o número total ou mínimo de linhas a serem escritas. É conveniente respeitar esses parâmetros. Não recorra ao

estratagema infantil – ao mesmo tempo inútil – de aumentar o tamanho da letra para conseguir volume de texto. O prof. Paulo Hernandes é do ramo e sabe que esse expediente geralmente não funciona. 6. Se a redação for do tipo dissertativo e a prova permitir consulta ou você lembrar-se, reforce seus argumentos com as idéias de algum autor, inclusive mediante citação textual. Neste caso, o trecho citado deve estar entre aspas e o nome do autor, consignado. Se você puder mencionar a obra de onde a citação foi extraída, melhor ainda. 7. Para dar qualidade ao texto, procure relê-lo, oportunidade em que poderá eliminar os equívocos, as repetições vocabulares e demais defeitos. Evite os vícios e dê atenção especial às qualidades da boa linguagem. Veja a este respeito a Dica n.º 98.

Dica nº 108 A vírgula e o adjunto adverbial A ordem direta das sentenças em português prescreve a seqüência sujeito – predicado – complemento. O verbo é o constituinte central do predicado, e seu sentido pode ser modificado por advérbios ou locuções adverbiais, entre outros. Sintaticamente, essas palavras exercem a função de adjuntos adverbiais. Assim, temos “Célio e Jonas chegaram mais tarde” e “Concordo em princípio com o adiamento da reunião”. As vezes, desejamos dar ênfase a esses modificadores. Um dos recursos de que nos valemos para isso é a antecipação de tais adjuntos colocando-os no início da frase, como em “Mais tarde, Célio e Jonas chegaram” e “Em princípio, concordo com o adiamento da reunião”. Aliás, o próprio período há pouco escrito “As vezes, desejamos dar ênfase a esses modificadores” é mais um exemplo dessa construção. Repare que em todos esses exemplos o adjunto foi seguido de vírgula. Ela é necessária para assinalar a antecipação do adjunto adverbial, além de indicar pausa. Contudo, se o adjunto é constituído de advérbio de curta extensão, a vírgula é facultativa. Colocamo-la se queremos realmente enfatizar a idéia expressa por ele: "Aqui não vemos essas coisas" e "Ontem saímos mais cedo". Há casos, porém, em que esse adjunto, embora antecipado, não se situa exatamente no início do período e sua colocação pode ensejar leitura incorreta. Dessa forma, em “Isso feito, com certeza, sua habilidade de expressão escrita terá galgado alguns degraus”, a colocação da vírgula logo após o adjunto com certeza faz com que o associemos a “Isso feito”, quando na verdade nossa intenção é fazer com que funcione como modificador de terá galgado. Veja como o período fica na ordem direta: “Isso feito, sua habilidade de expressão escrita terá galgado com certeza alguns degraus”. Para evitar a leitura incorreta, preconizamos a não-colocação da vírgula após o adjunto adverbial nas situações em que, antecipado, não inicia sentença. Repitamos o exemplo dado e acrescentemos alguns outros:

• “Isso feito, com certeza sua habilidade de expressão escrita terá galgado alguns degraus”. • “Realizado o trabalho, sem dúvida alguma o relatório será entregue no prazo previsto”. • “Terminado o jogo, rapidamente o trio de arbitragem deixou o campo”. • “Findo o dia, de forma discreta os pássaros vão-se recolhendo aos ninhos”. • “Anunciado o lanche, com muita alegria os estudantes saíram das salas”. Pelos exemplos, reparamos que tal acontece especialmente quando orações reduzidas de particípio iniciam o período. Se o período está construído na ordem direta, não há necessidade da vírgula após o adjunto, como em “Os contratos estão sendo honrados de modo geral”, embora ela possa ser colocada se quisermos enfatizar a circunstância por ele expressa. Em outros casos, ela é conveniente em benefício da clareza: “Limpamos o piso, e o aspirador de pó é passado nos tapetes, semanalmente”. Vemos que o adjunto se posiciona em seu lugar natural na ordem direta. Normalmente, não seria necessária a colocação dessa vírgula com os termos na ordem direta. Entretanto, como são descritas duas ações (limpar o piso e passar o aspirador), é conveniente a presença da vírgula, mesmo com o adjunto no final do período, para, com a pausa que ela propicia, ficar caracterizado que ambas as ações são semanais. Se ela não for colocada, poderemos ser levados a entender que apenas o aspirador de pó é passado semanalmente.

Dica nº 109 Onomatopéias Muito pouco espaço as gramáticas dedicam a esse tipo de palavra. As onomatopéias são vocábulos imitativos, isto é, imitam ou tentam reproduzir sons ou ruídos que se ouvem à nossa volta, na Natureza. Sua sonoridade já expressa o sentido. Geralmente, as onomatopéias classificam-se como substantivos, verbos ou interjeições. Veja alguns exemplos abaixo: • Substantivos – Muitos substantivos que são onomatopéias provêm de verbos imitativos de vozes de animais: miado, piado, silvo, zumbido, de “miar”, “piar”, “silvar”, “zumbir”. Outros são obtidos pela substantivação de verbos desse tipo: o coaxar, o rosnar, um cricrilar. Outros ainda são simples aproximação de sons: bemte-vi, reco-reco, tique-taque, xique-xique. • Verbos – Muitos verbos que reproduzem vozes de animais têm origem onomatopaica: chiar (insetos), cricrilar (grilos), coaxar (sapos), miar (gatos), piar (pássaros), silvar (cobras), trissar (pássaros, morcegos), uivar (cães, lobos), zumbir e zunir (insetos). • Interjeições – Buf!, bum!, craque!, pá!, paf!, tchibum!, toque-toque, tsss!, zás-trás.

Apesar de as onomatopéias não poderem ser consideradas a fonte original e corriqueira das palavras, é inegável que há, nas línguas, preferência onomatopaica na criação lexical para designar ou descrever muitos seres, objetos e fenômenos naturais. Fato lingüístico comum é a chamada “reduplicação”, possivelmente originária da linguagem infantil (confira au-au, mamãe, papai, titio, vovô), que consiste na repetição de sílabas ou apenas de consoantes para indicar atos repetitivos ou contínuos: assim, para ficar só no português, temos cacarejar, chuchurrear, ciciar, cochichar, murmurar, pipiar, titilar, etc., além dos já citados reco-reco, tique-taque e xique-xique. Percebemos assim que a reduplicação de base onomatopaica reproduz aproximadamente sons do ambiente natural e tem função morfológica. A especificação (reduplicação de base onomatopaica) faz-se necessária porque há reduplicações que não têm essa base, embora também exerçam função morfológica, como as existentes em certas línguas indígenas brasileiras – para indicar número plural –, africanas e outras

Dica nº 110 Objeto direto preposicionado Sabemos que objeto direto é o complemento que se liga ao verbo diretamente, isto é, sem auxílio de preposição. Assim, em “Devemos amar nossos semelhantes”, nossos semelhantes é objeto direto do verbo amar porque se liga a ele sem a presença de preposição. Entretanto, às vezes, o objeto direto pode aparecer precedido de preposição – geralmente, “a” – sem que isso o transforme em objeto indireto (complemento ligado ao verbo mediante preposição). Neste caso, temos o objeto direto preposicionado, como em “Devemos amar a Deus sobre todas as coisas”. “Amar”, no contexto, é transitivo direto (amar quem? resposta: Deus), mas mesmo assim apareceu a preposição “a” (amar a Deus). Há contextos em que podemos exercer a faculdade de empregar preposição com verbos transitivos diretos, e outros em que tal uso é obrigatório. Vejamos como isso se passa: Uso facultativo • Com verbos que exprimem sentimentos: “O homem amava aos que o rodeavam” e “Detesto a Sujismundo e à sua gentalha”. • Nas antecipações do objeto, comuns em provérbios: "A quinta roda ao carro não faz senão embaraçar" e “Ao boi, (pega-se) pelo corno e ao homem, (pega-se) pela palavra". • Com certos pronomes: “Ele beneficiava a todos a sua volta” e "Gato a quem mordeu a cobra tem medo à corda".

• Nos casos de objeto direto constituído de pronome oblíquo seguido de aposto: “Os maus ofendem-nos, aos bons, porque estes os incomodam” e “Seguiu-o, ao prático, sem o perder de vista”. • Como reforço à clareza: “Cumprimentei-o e aos que com ele estavam” e “Expulsou-o e aos asseclas”. Sem a preposição, podemos imaginar ser o segundo elemento do objeto direto sujeito de algum verbo, que na realidade não existe. Uso obrigatório • Para evitar ambigüidade, mais precisamente, para não haver confusão entre o sujeito e o objeto: “A Felipe Marina contratou” e “A onça ao caçador surpreendeu”. Sem a preposição, teríamos as construções ambíguas “Felipe Marina contratou” e “A onça o caçador surpreendeu”. Nelas, não se sabe quem contratou quem nem quem surpreendeu quem. É claro que a ordem direta resolve muito bem a dificuldade – “Marina contratou Felipe” e “A onça surpreendeu o caçador” –, mas se o escritor quiser manter a ordem inversa a preposição é indispensável para a clareza da frase. • Quando o objeto direto é constituído de formas pronominais: “Viu-me e a si própria refletidos nas águas da lagoa” e “Escolheu a eles seus conselheiros”. Note que a preposição possibilita o pronome reto figurar como objeto direto, situação normalmente vetada pela norma culta escrita. Sem a preposição, impõe-se o pronome oblíquo: “Escolheu-os seus conselheiros”. Veja ainda que as formas a mim, a si, a nós, etc. podem, pleonasticamente, reforçar os objetos representados pelos pronomes me, te, se, nos e vos, como em “Concluí que me feri a mim mesmo” e “Prejudicou-se a si próprio com o ato”. Como se vê, é também possível reforço adicional mediante o auxílio dos demonstrativos mesmo e próprio com propósito enfático. Há casos que provocam divergência entre autores sobre a ocorrência de objeto indireto ou direto preposicionado em construções como “Sacaram das espadas” e “Puxou do revólver”. Uma vez que nesses empregos os verbos sacar e puxar costumam ser transitivos diretos, alguns pensam, em virtude do uso da preposição, termos exemplo de objeto direto preposicionado. Contudo, autores renomados como Celso Luft e Napoleão Mendes de Almeida entendem tratar-se de objeto indireto mesmo. Outra particularidade é a que se refere a verbos como comer e beber. Em “Maria Luísa comeu o bolo” e “Helena bebeu o vinho”, esses verbos são claramente transitivos diretos e consideramos que os sujeitos consumaram a ação, ou seja, comeram e beberam tudo. O que dizer, porém, de “Beatriz comeu do bolo” e “Salete bebeu do vinho”? O uso do partitivo altera o sentido do complemento, de sorte que entendemos haverem os sujeitos praticado a ação de comer e de beber não o todo alvo da ação, mas parte dele. Gramáticos de renome, como Celso Luft, consideram transitivos diretos os verbos dos primeiros exemplos e indiretos, os dos últimos, em que há a presença de preposição. Finalmente, verbos como provar também protagonizam situações particulares. Em contextos como “Provei do pavê” e “Prove da feijoada”, o verbo em questão é transitivo indireto. Ainda segundo Celso Luft (LUFT, 1987), trata-se de objeto direto

cujo núcleo foi omitido e assim “a preposição introduz o complemento partitivo de um quantificador zero ou indeterminado – provar (um pouco) de algo –, que é o núcleo do objeto direto”. Situação semelhante à de “Comer ou beber (um pouco) de alguma coisa”. Tanto assim é que em “Provei um pouco do suflê” o verbo é transitivo direto. Repare que dissemos ser a situação semelhante, mas não igual: não há alteração de sentido em “Provar o vinho” e “Provar do vinho”, ao passo que o sentido muda de “Beber o vinho” para “Beber do vinho”.

Dica nº 111 Expressões de cortesia Aprendemos – em casa ou então, de forma dolorosa, com a vida, nas relações interpessoais – que as pessoas gostam de ser tratadas com amabilidade. Tudo fica mais fácil se somos afáveis com os outros, especialmente quando precisamos deles. Entretanto, a urbanidade deve ser nossa norma de conduta, quer quando necessitamos de alguém, quer quando somos solicitados. Desde cedo, percebemos que as palavras mágicas obrigado e por favor abrem as portas com mais rapidez. Assim, frases como “Muito obrigado por avisar-me”, “Fico-lhe grato pela indicação”, “Ficaremos agradecidos por sua presença”, “Por favor, preencha este formulário”, “Entre, por obséquio”, “Tenha a bondade de me acompanhar”, “Faça-me a gentileza de recebê-lo” e “É possível o senhor me ensinar o caminho?” tornam suave e agradável o trato com as pessoas e as predispõem a cooperarem conosco. Na escrita, as expressões por favor, por gentileza, por obséquio são seguidas ou precedidas de vírgula e, se queremos enfatizar a expressão polida, ficam entre vírgulas: “Por favor, venha aqui”, “Entre, por gentileza” e “Peço-lhe, por obséquio, não comentar nada disso”. Formas verbais também podem ser usadas para denotar delicadeza. As mais comuns são o futuro do pretérito e o presente do subjuntivo. O futuro do pretérito pode ser empregado para expressar desejo de forma educada: “Gostaríamos de vê-la novamente amanhã” e “O delegado preferiria ouvilo na próxima semana”. Esse tempo verbal também pode suavizar pedido, que, de outro modo, poderia parecer ordem ou imposição. Assim, em vez de “Diga-me seu nome” e “Venha aqui”, temos a opção – mais simpática – de valer-nos de “Poderia dizer-me seu nome?” e “Pediria para você vir aqui”. O presente do subjuntivo do verbo querer também converte ordem em pedido. A flexão queira seguida de infinitivo reflete amabilidade e tem o sentido de “tenha a bondade”, “faça o favor de”, como em “Queira sentar-se” e “Queiram aceitar nossas desculpas”. Se você não tem o hábito de utilizar tais expressões, experimente fazê-lo e verá a diferença.

Dica nº 112

Pós-graduação lato sensu ou stricto sensu? As duas formas são usuais, cada uma com seu sentido. Pós-graduação é todo o estudo realizado depois da graduação, isto é, depois de curso concluído em alguma faculdade. Esses cursos podem ser: • lato sensu – Expressão latina que significa “em sentido lato, amplo, extenso”. Exemplo: “A política, lato sensu, é a arte de governar”. A denominação lato sensu é também aplicada a cursos de pós-graduação, geralmente aos de especialização, os mais elementares na escala daqueles cursos. Exemplo disso é o curso de especialização em Língua Portuguesa, destinado aos alunos que concluíram o curso de Letras. • stricto sensu – Expressão igualmente latina que quer dizer “em sentido restrito, palavra que se refere a algo no sentido mais restrito”, como em “Nos dias de hoje, ‘tráfico’ stricto sensu acabou-se referindo ao comércio de drogas ilícitas”. Relativamente aos cursos de pós-graduação, a expressão stricto sensu aplica-se aos de mestrado, doutorado e pós-doutorado. São cursos de maior profundidade que os de especialização e geralmente mais longos. Exemplo é o mestrado em Lingüística.

Dicas nº 113

Implantar ou implementar? Os dois, cada um com seus vários sentidos. Entre as acepções possíveis, selecionamos algumas, as mais correntes em distintos contextos, extraídas de três dos mais prestigiados dicionários brasileiros de língua portuguesa:

Note-se que na área da Informática implementar tem sentido específico, próprio.

Dica nº 114

Ter que ou ter de? Os gramáticos tradicionais resistem, com base na função sintática dos termos da oração, a aceitar as duas construções como equivalentes, ainda que esse uso seja mais do que generalizado, pelo menos no Brasil. Vejamos o que diz a Gramática tradicional: Ter que – O verbo ter pode integrar a locução verbal ter (flexionado ou não) que + infinitivo quando, além da idéia de obrigatoriedade que o conjunto encerra, o que assume a função de pronome relativo. Neste caso, há a óbvia necessidade da existência de antecedente do tal pronome. Assim, temos: “Meu advogado tem caso importante que estudar”, “Tenho muito que fazer no sábado” e “Amanhã, Joana vai ter coisa mais urgente que tratar”. Nas três orações, que é pronome relativo e seus antecedentes são “caso importante”. “muito” e “coisa mais urgente”, respectivamente. Repare que ele é objeto direto de “estudar”, “fazer” e “tratar”. Ter de – A construção ter (flexionado ou não) de + infinitivo também passa a idéia de obrigatoriedade e a preposição rege a forma nominal que a segue. Portanto, de nada tem a ver com antecedentes. Por isso, se o que não tem antecedente com o qual se relacionar, é indevido e deve ser substituído pela preposição de. Dessa forma, temos: “Os funcionários tiveram de sair mais cedo”, “Tenho de efetuar vários pagamentos hoje” e “Meu pai vai ter de estar em Marília no dia 30”. Na maior parte das construções em que aparece a dupla ter + infinitivo, cabe, segundo os gramáticos, a preposição de em vez de que. Este, como vimos, só deve ser empregado se se referir a algum antecedente. A relutância dos especialistas deve-se à dificuldade de atribuir função sintática ao que sem antecedente em contextos daquele tipo. Então, a opinião dominante entre eles é a de condenar o uso, mesmo que amplamente disseminado, por impossibilidade meramente taxionômica, ou seja, de classificação. Não vemos problema em aceitar tal uso, pois a própria Gramática admite a existência de palavras “inclassificáveis”, chamadas então de palavras “que denotam algo”, como, por exemplo, somente, em “Somente João poderia ter feito isso” (denotação de exclusão), e aliás, em “Não escrevi nada, aliás, só uma página” (denotação de retificação). É verdade que estamos falando de coisas diferentes: sintaxe, no assunto desta página, e morfologia, nestes últimos casos apresentados. Entretanto, se em um tópico admitimos haver formas que não se enquadram em nenhuma categoria, por que não admitir também o emprego do que sem função definida? De qualquer modo, recomendamos – especialmente em provas escolares, vestibulares e concursos – o seguimento da prescrição tradicional. Agindo assim, o aluno ou candidato não terá problemas com quem estiver corrigindo sua prova, notadamente se este seguir fielmente as determinações tradicionais.

Dica nº 115 Redundâncias locativas

Com alguma freqüência, deparamos com certas expressões que visam, de forma desnecessariamente redundante, explicitar localização, mormente em textos institucionais e comerciais. Por exemplo: “A fazenda mencionada é a São Jorge, localizada neste município de Barretos”. Outras vezes, nas organizações, quer-se referir a determinada diretoria, departamento, divisão ou setor e pratica-se também a redundância citada: “Referimo-nos a sua carta de 04.05.04, endereçada a este SECOM (Setor de Comunicações), a qual trata da manutenção de aparelhos telefônicos”. De que se constitui a redundância indevida? Como podemos notar, do uso de pronomes demonstrativos que, se empregados adequadamente, teriam caráter distintivo, ou seja, serviriam para distinguir uma coisa de outra. Assim, se o redator situa-se em Barretos e não há notícia de haver cidade homônima, não há por que utilizar simultaneamente o demonstrativo neste e a expressão município de Barretos. Então, ou se diz “A fazenda mencionada é a São Jorge, localizada neste município” – no caso de o redator situar-se nessa cidade – ou “A fazenda mencionada é a São Jorge, localizada no município de Barretos”. Do mesmo modo, “Referimo-nos a sua carta de 04.05.04, endereçada ao SECOM, a qual trata da manutenção de aparelhos telefônicos” ou “Referimo-nos a sua carta de 04.05.04, endereçada a este setor, a qual trata da manutenção de aparelhos telefônicos”. Caso houvesse setores ou cidades homônimos, aí caberia a distinção: “O suspeito foi detido nesta Itabaiana”, já que existem a Itabaiana paraibana e a sergipana. De maneira análoga, “O memorando foi expedido por este SECOM”, desde que existam dois (ou mais), como o pertencente à diretoria de Telecomunicações e o da diretoria de Relações Corporativas, por exemplo.

Dica nº 116 Verbos abundantes Na dica n.º 29, tratamos dos verbos com duplo particípio, enquadrados na categoria dos verbos abundantes. Estes compreendem também verbos que apresentam mais de uma forma em alguma pessoa de alguns modos e tempos. É preciso atenção para não considerarmos incorretas flexões legítimas. Os guias de conjugação de verbos esclarecem eventuais dúvidas. Vejamos as flexões verbais – excetuados, pois, os particípios – que apresentam mais de uma forma:

As formas admitidas relacionadas podem ser empregadas normalmente. Algumas, como i e is (verbo ir) são raras, mas válidas. O verbo aprazer é mais usado nas terceiras pessoas, embora como pronominal seja corrente em todas elas. A seguir, exemplificamos alguns desses usos:

É natural querermos empregar as formas mais usuais. O importante é não incorrermos na lamentável prática da hipercorreção (correção do que está correto).

Dica nº 117 “Cuidado com veículos vindo da esquerda." ou "Cuidado com veículos vindos da esquerda."? As duas estão corretas, pois o verbo "vir" e seus compostos (advir, convir, provir, revir, sobrevir, etc.) são os únicos, na língua portuguesa, que têm a mesma forma para o gerúndio e o particípio: vindo, advindo, convindo, provindo, revindo, sobrevindo. Assim, se considerarmos que o verbo está no gerúndio, empregaremos "vindo" de forma invariável, no singular, quer se refira a veículo ou veículos, a automóvel ou a motocicleta. Neste caso, na oração "Cuidado com veículos vindo da esquerda", está subentendido o segmento que estão: "Cuidado com veículos que estão vindo da esquerda". Por outro lado, se considerarmos o verbo no particípio, ele estará em forma nominal e aí exercerá função adjetiva: "Cuidado com veículos vindos da esquerda". É como se disséssemos: "Cuidado com veículos que vieram da esquerda" ou "Cuidado com veículos surgidos da esquerda". Neste caso, o particípio concorda em gênero e número com o substantivo que modifica e integra a locução adjetiva vindos da esquerda. Sintaticamente, essa expressão classifica-se como adjunto adnominal. Poderemos assim ter as seguintes opções:

1. 2. 3. 4.

"Cuidado "Cuidado "Cuidado "Cuidado

com com com com

veículo vindo da esquerda". veículos vindos da esquerda". moto vinda da esquerda". motos vindas da esquerda".

Notemos que os sentidos das duas formas são algo diferentes. Pelo primeiro (gerúndio) – veículos vindo –, entendemos que os veículos estão vindo, a ação está acontecendo. Pelo segundo (particípio) – veículos vindos –, depreendemos que eles já vieram, surgiram da esquerda; a ação de vir já aconteceu.

Dica nº 118

À medida que e na medida em que As duas expressões são locuções conjuntivas, com empregos distintos. À medida que pertence ao grupo das conjunções subordinativas proporcionais, que passam idéia de proporcionalidade. Elas conferem à oração subordinada que introduzem idéia de eqüidade, aumento ou diminuição, comparativamente à oração principal. Essa locução (ou sintagma) equivale a à proporção que, como em "Ele progredia à medida que intensificava as leituras", “À medida que a secura aumentar, eleve o nível de ingestão de líquidos” e “João foi ficando mais tranqüilo à medida que a situação financeira foi melhorando”. Na medida em que se encaixa no grupamento das conjunções subordinativas causais. Estas introduzem orações subordinadas que expressam idéia de causa, ao passo que a oração principal encerra noção de efeito ou de conseqüência. Essa locução equivale a “uma vez que”, “já que” e "tendo em vista que". Exemplos: "Sheila seria nomeada de qualquer maneira na medida em que foi indicada pelo diretor", “O relatório precisa ser revisado na medida em que passará pelo crivo do Conselho Fiscal” e “Os candidatos precisam preparar-se na medida em que serão questionados pelos jornalistas credenciados”.

Dica nº 119 Das 9 h 30 m às 11 h 30 m ou de 9 h 30 m a 11 h 30 m? Quando nos referimos a algum horário, é usual empregarmos o artigo definido, como em “Estarei lá às 20 h (a + as)”, “A consulta está marcada para as 10 h 30 m”, “Espere-me na porta da agência ao meio-dia (a + o)”, “Aguardarei os alunos das 9 h 30 m às 11 h 30 m” (de + as, a + as). Repare que sempre aparece uma preposição: a, de ou para, tanto é que a pergunta correspondente também inclui preposição: “A que horas você estará lá?”, “Para que horas está marcada a consulta?”, “A que horas devo esperá-lo?” e “De que horas a que horas você aguardará os alunos?”.

Já se a referência é à quantidade de horas que algo dura, o uso é sem artigo, como em “A viagem de carro dura de sete a oito horas”, “A caixa d’água gasta de duas a três horas para ficar cheia”, “O farmacêutico precisa de quatro a cinco horas para preparar todos os remédios” e “O cozimento pode durar de 30 m a 1 h 30 m”. Neste caso, foram utilizadas as preposições de e a sem combinação com artigo. Contudo, se nos referirmos a horários determinados – hora de início e término de alguma coisa –, aí o caso se enquadrará no parágrafo anterior, ou seja, com emprego do artigo: “O reservatório costuma encher das 15 h às 16 h (de + as, a + as)” e “O trem viaja das sete às oito horas (de + as, a + as)”. Observe também a forma como foram grafadas as horas, rigorosamente de acordo com a norma ortográfica. (Dica nº18).

Dica nº 120 Emprego alternativo de modos e tempos verbais Uma das demonstrações da versatilidade que os falantes vêem na língua portuguesa é a possibilidade de empregar estilisticamente um modo ou tempo verbal em lugar de outro com o mesmo sentido ou sentido aproximado. Vejamos as substituições que são normalmente efetuadas:

Dica nº 121 Ratificar ou retificar? Essas duas são palavras parônimas e por isso mesmo confundem muita gente. Vamos, pois, precisar o sentido de cada uma: • Ratificar – Significa confirmar, comprovar, corroborar, reafirmar, validar, como em: “O tratado foi ratificado pelos dois presidentes”, “Ratifico tudo o que afirmei antes” e “Os fatos ratificaram o que já prevíamos”. • Retificar – Tem variados sentidos, conforme o contexto. O mais comum, que faz esse vocábulo opor-se a “ratificar”, é corrigir, emendar, como em “Vou retificar o endereço”, “O contrato foi retificado para serem expurgadas as incorreções” e “É preciso ser retificada a segunda linha do documento”.

Mandado ou mandato? Estas outras também são exemplo de paronímia e costumam confundir os incautos. Vejamos o sentido de cada uma delas: • Mandado – Entre outros sentidos, tem o de “ordem escrita expedida por autoridade judicial”, como em “O juiz já expediu o mandado”, “O acusado requereu mandado de segurança” e “Já temos o mandado de busca e apreensão”. • Mandato – Procuração, delegação, incumbência. Segundo o Aurélio, é a “autorização que alguém confere a outrem para praticar em seu nome certos atos”. Assim, temos: “Estou pronto para praticar todos os atos que este mandato me permite”, “O prefeito garantiu cumprir o mandato até o fim” e “O Presidente já está no meio do mandato”.

Dca nº 122 Omissão do particípio em construções passivas É freqüente vermos construções passivas analíticas em que o particípio é subentendido e o verbo ser acaba concentrando o sentido do conjunto. Tal fenômeno ocorre em casos como “O segundo turno paulistano será entre a atual prefeita e o candidato tucano”, “A reunião foi na sede do clube” e “O baile de formatura vai ser na AABB”. Devemos notar a falta do particípio nessas estruturas, simplificadas pela lei do menor esforço. As orações completas são: “O segundo turno paulistano será decidido entre a atual prefeita e o candidato tucano”, “A reunião foi feita na sede do clube” e “O baile de formatura vai ser realizado na AABB”. Repare que a forma passiva sintética dessas orações é: “O segundo turno paulistano decidir-se-á entre a atual prefeita e o candidato tucano”, “A reunião fezse na sede do clube” e “O baile de formatura vai-se realizar na AABB”. Na comunicação coloquial, tais formas reduzidas são corriqueiras e até aceitáveis. Entretanto, devemos empregar as estruturas plenas na língua escrita, modalidade

mais elaborada, em que caprichamos e expressamos nosso conhecimento da norma gramatical culta. Aquelas construções não devem ser confundidas com outras em que o verbo “ser” é empregado eruditamente com o sentido de existir: “Aqui foi (existiu) Vila Bela do Espírito Santo”, “Nesta mina, o ouro era (existia) em grande quantidade” e “Essa cachaça é (existe) para tomarmos”. Nestes exemplos, podemos introduzir explicitamente particípios (foi erguida, era encontrado ou extraído, é produzida), mas se o verbo “ser” for utilizado sozinho aquelas formas nominais não estarão subentendidas, como no caso anterior, e tal verbo equivalerá a existir.

Dica nº 123 Estarei providenciando isso amanhã. O que acha dessa construção, que muitas vezes ouvimos nos dias que correm? Ela na verdade é mais um exemplo de gerundismo, o uso abusivo e inadequado do gerúndio, certamente inspirada em modelo alienígena. Se o que pretendemos é expressar a realização de ação futura, a língua portuguesa possui dois instrumentos eficientes: o futuro simples do indicativo e a locução verbal constituída do verbo “ir” no presente do indicativo + verbo principal no infinitivo não-flexionado ou impessoal. Assim, podemos dizer “Providenciarei isso amanhã”, se queremos afirmar categoricamente, ou “Vou providenciar isso amanhã”, se desejamos apenas manifestar intenção. No caso de querermos enunciar ação futura a ser realizada antes de algum fato também futuro, temos a disposição o futuro do presente composto: “Eu já terei providenciado isso (ação futura ocorrida antes) quando você passar no escritório”. É preciso esclarecer que o gerúndio tem empregos específicos, um dos quais – e o mais freqüente – é expressar ação em processo que acontece no momento presente ou que já aconteceu, como em “Estou-te ouvindo bem” (algo que acontece neste momento), “Estamos trabalhando nesse projeto desde janeiro” (ação continuada e que permanece ocorrendo), “Só sei que Torres estava pescando hoje de manhã” e “Essas irregularidades já se vinham verificando havia meses” (ação em processo ocorrida no passado). Mais raramente, encontramos a locução com o verbo auxiliar no pretérito perfeito do indicativo: “Andei buscando esse dia” (Cecília Meireles). Reparamos então que a impropriedade do emprego do gerúndio na forma verbal contida no título verifica-se por nos referirmos a ação futura. Não se trata aqui de pretender frear a marcha evolutiva da língua, de resto tentativa inútil quando a maioria dos falantes quer criar ou mudar alguma coisa na comunicação. Devemos, porém, atentar para a adequação da nossa expressão verbal e escolher entre as formas vernáculas consagradas pelo uso. A língua portuguesa oferece ao usuário variadas possibilidades para a expressão do pensamento. Se, mesmo assim, queremos “inventar”, podemos fazê-lo, mas por nossa conta e risco e dependeremos da adesão de todo o grupo falante.

PARA VOCÊ ESTAR PASSANDO ADIANTE Ricardo Freire* Este artigo foi feito especialmente para que você possa estar recortando e possa estar deixando discretamente sobre a mesa de alguém que não consiga estar falando sem estar espalhando essa praga terrível da comunicação moderna, o gerundismo. Você pode também estar passando por fax, estar mandando pelo correio ou estar enviando pela Internet. O importante é estar garantindo que a pessoa em questão vá estar recebendo esta mensagem, de modo que ela possa estar lendo e, quem sabe, consiga até mesmo estar-se dando conta da maneira como tudo o que ela costuma estar falando deve estar soando nos ouvidos de quem precisa estar escutando. Sinta-se livre para estar fazendo tantas cópias quantas você vá estar achando necessárias, de modo a estar atingindo o maior número de pessoas infectadas por esta epidemia de transmissão oral. Mais do que estar repreendendo ou estar caçoando, o objetivo deste movimento é estar fazendo com que esteja caindo a ficha nas pessoas que costumam estar falando desse jeito sem estar percebendo. Nós temos que estar nos unindo para estar mostrando a nossos interlocutores que, sim!, pode estar existindo uma maneira de estar aprendendo a estar parando de estar falando desse jeito. Até porque, caso contrário, todos nós vamos estar sendo obrigados a estar emigrando para algum lugar onde não vão estar nos obrigando a estar ouvindo frases assim o dia inteirinho. Sinceramente: nossa paciência está estando a ponto de estar estourando. O próximo "Eu vou estar transferindo a sua ligação" que eu vá estar ouvindo pode estar provocando alguma reação violenta da minha parte. Eu não vou estar me responsabilizando pelos meus atos. As pessoas precisam estar entendendo a maneira como esse vício maldito conseguiu estar entrando na linguagem do dia-a-dia. Tudo começou a estar acontecendo quando alguém precisou estar traduzindo manuais de atendimento para telemarketing. Daí a estar pensando que "We'll be sending it tomorrow" possa estar tendo o mesmo significado que "Nós vamos estar mandando isso amanhã" acabou por estar sendo só um passo. Pouco a pouco a coisa deixou de estar acontecendo apenas no âmbito dos atendentes de telemarketing para estar ganhando os escritórios. Todo mundo passou a estar marcando reuniões, a estar considerando pedidos e a estar retornando ligações. A gravidade da situação só começou a estar se evidenciando quando o diálogo mais coloquial demonstrou estar sendo invadido inapelavelmente pelo gerundismo. A primeira pessoa que inventou de estar falando "Eu vou tá pensando no seu caso" sem querer acabou por estar escancarando uma porta para essa infelicidade lingüística estar se instalando nas ruas e estar entrando em nossas vidas.

Você certamente já deve ter estado estando a estar ouvindo coisas como "O que cê vai tá fazendo domingo?", ou "Quando que cê vai tá viajando pra praia?", ou "Me espera, que eu vou tá te ligando assim que eu chegar em casa". Deus! O que a gente pode tá fazendo pra que as pessoas tejam entendendo o que esse negócio pode tá provocando no cérebro das novas gerações? A única solução vai estar sendo submeter o gerundismo à mesma campanha de desmoralização à qual precisaram estar sendo expostos seus coleguinhas contagiosos, como o "a nível de", o "enquanto", o "no sentido de" o "pra se ter uma idéia" e outros menos votados. A nível de linguagem, enquanto pessoa, no sentido de falar corretamente, o que você acha de tá insistindo em tá falando desse jeito? _______________________ Ricardo Freire é publicitário e colunista do Jornal da Tarde e prometeu solenemente que não vai mais estar escrevendo textos desse tipo.

Dica nº 124 No sentido de “Lula entrou nas articulações no sentido de garantir a eleição do candidato petista à presidência da Câmara”. Que lhe parece a redação do texto? Aparentemente, está tudo normal, não é? Seria assim se não tivesse sido empregada a expressão no sentido de, que aí não tem sentido nenhum. Trata-se na verdade de mais um modismo insosso e impreciso, ao qual a língua portuguesa oferece várias alternativas mais consistentes, como para, com vistas a, com a finalidade de, com o objetivo de, com o escopo de, com o intuito de, etc. Em outros contextos, porém, tal expressão é legítima quando se refere mesmo a sentido, ou seja, a inserção de significado na cadeia da fala. Assim, podemos tranqüilamente dizer “Empreguei o vocábulo crescente no sentido de (ou “com o sentido de") ‘algo que cresce’” ou “No texto, a palavra extremo foi utilizada no sentido de ‘último, derradeiro’”. Repare que, neste uso, a citada expressão não é seguida de verbo no infinitivo, como no caso anterior. Nada contra os neologismos, que são bem-vindos desde que signifiquem realmente alguma coisa.

Dica nº 125 Respostas a agradecimentos Quando recebemos algum agradecimento, do tipo “obrigado” ou “obrigada” – que significa “fico obrigado/obrigada (devendo obrigação) a você –, duas situações podem ocorrer:

1. Achamos devida tal manifestação, mas, por modéstia, respondemos de forma a fazer o interlocutor sentir-se desobrigado. 2. Reconhecemos ser nossa – e não do outro – a dívida de gratidão. Esses dois casos acarretam respostas diferentes ao agradecimento – as chamadas “respostas obrigadas” –, no geral, formas reduzidas da expressão completa. Vejamos quais são elas: Situação 1 – As respostas geralmente são de nada, por nada, não há de quê. O que elas significam? Respectivamente, “Você não fica obrigado de nada”; “Você não fica obrigado por nada”; “Não há nada de que você fique obrigado”. Situação 2 – Normalmente, dizemos obrigado eu, eu que agradeço e obrigado a você, formas reduzidas, respectivamente, de “Obrigado digo eu”, “Eu é que agradeço a você” e “Eu é que fico obrigado em relação a você”. Existem ainda expressões “neutras”, como disponha (dos meus préstimos) e (estou) às (suas) ordens. Relembremos que as frases que dão margem às respostas obrigadas flexionam-se em gênero (masculino/feminino) e número (singular/plural) conforme quem as pronuncia: homem (obrigado, muito obrigado), mulher (obrigada, muito obrigada), homens ou homens e mulheres (obrigados, muito obrigados) e somente mulheres (obrigadas, muito obrigadas).

Dica nº 126 Emprego de artigo junto a topônimos É freqüente haver dúvida a respeito do emprego do artigo definido (o, a) junto de topônimos. Não existe regra que discipline esse uso, cujo critério não se conhece. Os nomes de cidades são, na maioria, femininos e utilizados sem artigo: Barretos, Brasília, Campinas, Lençóis, Santa Cruz do Sul, etc. Assim, “Carlos nasceu em Barretos”, “Marina veio ao mundo em Campinas”, “Moro em Brasília”, “Visitamos Lençóis”, “Marlene reside em Santa Cruz do Sul”. Quando adjetivados, usa-se o artigo: “Estive na bela Pirenópolis”, “Joaquim mora na atraente Maceió” e “Wagner mudou-se para a dinâmica São José dos Campos”. É por isso que, em estruturas como estas, haverá crase se o verbo requerer a preposição “a”: “Dirigiu-se à progressista Ribeirão Preto” (dirigiu-se a + a progressista). Entretanto, os próprios moradores costumam fazer os nomes de algumas comunidades serem masculinos e acompanhados de artigo, como “o Recife”, “o Amparo”, “o Rio de Janeiro” (cidade do Rio), o Porto (Portugal), etc. Esse uso é localizado e em alguns casos, como Recife e Amparo, é indiferente a utilização ou não do artigo. Podemos então dizer “estou em Recife” ou “estou no Recife”. No caso

da capital fluminense, já se arraigou e disseminou de tal forma o emprego do artigo que todo o mundo diz “Moro no Rio” e “Vou passar o Carnaval no Rio”. Com relação aos nomes de estados brasileiros, também prevalece o uso. A maior parte deles acompanha-se de artigo; outros, não. Vejamos:

Às vezes, deparamos com “as Alagoas”, referência nostálgica à forma antiga do nome do estado de Alagoas, com uso do artigo definido. Situação parecida é a de Minas Gerais. Quanto a Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, não é raro encontrarmos textos em que esses nomes estão empregados com o artigo, embora na maioria das vezes o uso seja sem ele. Os nomes de países seguem a mesma linha: o Brasil, os Estados Unidos, a França, a Itália, a Espanha, mas Portugal, Moçambique, Uganda, Israel, Bangladesh. Os nomes dos continentes são modernamente utilizados com artigo: a África, a América, a Ásia, a Europa, a Oceania, a Antártica. (“Antártida” denota influência hispânica e não se sustenta diante de análise etimológica.)

Dica nº 127 Xeque ou cheque? As cinco, cada uma com seu sentido. As cinco???!!! Calma, veremos já.

É oportuno observar que “xeque-1” e “xeque-2” configuram caso de polissemia, pois houve derivação de sentido. Já “xeque-3” com relação às outras duas é exemplo de homonímia, uma vez que houve coincidência de formas importadas ao entrarem no léxico português. “Cheque-1” e “cheque-2” são também caso de homonímia, porque se originam de formas estrangeiras distintas que coincidiram ao se aportuguesarem. Por fim, "cheque" e "xeque" são, uma em relação à outra, homônimas homófonas por provirem de formas importadas que se tornaram idênticas, fonicamente, no português. Cada “xeque” (1, 2 e 3) ou “cheque” (1 e 2), como visto acima, constitui palavra distinta, pois tem seu próprio sentido conforme o contexto.

Dica nº 128 Evitar a silabada Silabada é vício fonético – mais precisamente, vício prosódico –, pelo qual deslocamos indevidamente o acento tônico de algum vocábulo. De modo geral, esse acento provém da língua de origem da palavra e deve ser respeitado, não porque os gramáticos assim querem, mas por dever ser seguido o uso geral. Caso contrário, nós é que estaremos com o “passo errado”. Além do mais, em certos casos, se mudamos o acento tônico, corremos o risco de estar emitindo outra palavra diferente da que pretendíamos. Como exemplo, atentemos para estes pares: contínuo/continúo, dúvida/duvída, édito/edíto, jáca/jacá, sentái/senta aí, végeto/vegéto e outros (*). Estas diferenças ocorrem porque em português o acento tônico é traço distintivo, ou seja, é elemento diferenciador do significado vocabular. Entretanto, há vocábulos com mais de uma pronúncia – em razão da vontade popular – sem alteração do sentido. Por isso, mesmo na língua culta, há casos de flutuação, como Antióquia e Antioquía, aríete e ariête, autópsia e autopsía, clítoris e clitóris, necrópsia e necropsía, projétil e projetíl, Tessalônica e Tessaloníca, uréter e uretér, etc. (*) Essa oscilação prosódica tende a desfazer-se com o tempo pela fixação de uma das formas e abandono da outra. Há muitas palavras de procedência grega que tiveram a pronúncia modificada no latim, de onde tiramos o acento em português. É o caso de:

Em Oceania, a pronúncia corrente no Brasil, paroxítona, resulta de influência espanhola, já que deveria ser “Oceânia”. Abaixo, segue lista da pronúncia adequada e da inadequada, segundo a norma culta, de alguns vocábulos:

______________ (*) Vários acentos gráficos, inexistentes na escrita normal, foram colocados apenas para localização do acento tônico.

Dica nº 129 Junto, junto a, junto de O emprego dessas formas às vezes causa dúvida. Vejamos como devem ser utilizadas conforme a norma culta: Junto – É particípio irregular do verbo “juntar”, ao lado de juntado. (O critério para usar um e não o outro você encontra na dica n.º 29.) Assim, “Tenho juntado centenas de selos nos últimos cinco anos”, mas “Vocês permanecerão juntos”. Repare que na condição de particípio tal vocábulo pode exercer função adjetiva. Neste caso, flexiona-se e concorda com o sujeito: “Envio a planilha junta = anexa”, “Os cavalos estão juntos”. Podemos também inverter os termos: “Brincamos juntos na avenida 7” ou “Juntos brincamos na avenida 7”, “Elas permanecerão juntas” ou “Juntas elas permanecerão”. Observe que em construções como “As duas empresas cresceram juntas, com a cidade”, “junto” continua a ser adjetivo. Deve, pois, flexionar-se, já que não forma locução prepositiva com a preposição “com”. Prova disso é a possibilidade de mudança da ordem dos termos: “Juntas, as duas empresas cresceram com a cidade”. Em resumo: na condição de adjetivo, junto vincula-se ao sujeito e com ele deve concordar em gênero (masculino/feminino) e número (singular/plural).

Em outros contextos, junto pode ser classificado como advérbio, quando significa “juntamente”, “ao mesmo tempo”. Neste caso, vincula-se ao verbo e mantém-se invariável, como em: “Mando junto (= juntamente) os recibos solicitados”, “Junto (= juntamente) seguem os relatórios das perícias” e “Junto (= juntamente) com o relatório, remeto os comprovantes das despesas". Nestes exemplos, junto modifica as formas verbais “mando”, “seguem” e “remeto”. Função adverbial, portanto. Tanto é assim que se perguntamos ao verbo: de que forma mando os recibos, de que forma seguem os relatórios, de que forma remeto os comprovantes? A resposta é uma só: junto ou juntamente. Junto pode também integrar locução prepositiva com “a” e “de” e assim se manter igualmente invariável, pois tal sintagma também se vincula ao verbo: “O expresidente foi nomeado embaixador junto ao (= adido ao) governo italiano”, “Jorge comprou chácara junto à minha (junto a + a = do lado da)”, “Construíram duas casas junto ao lago”, “Esperei o socorro junto do carro” e “Quero trabalhar junto dela”. Sabemos que tal locução liga-se ao verbo porque podemos perguntar a este: “Para trabalhar onde o embaixador foi nomeado, onde Jorge comprou a chácara, onde construíram as casas, onde esperei o socorro e onde quero trabalhar”? As respostas são adjuntos adverbiais, ou seja, elementos que modificam o verbo. Deve-se evitar empregar a locução junto a como equivalente de “com”, “de”, “em” e “para”, a exemplo de “Os deputados trataram das reivindicações de suas comunidades junto ao diretor” (melhor, “trataram com o diretor”); “Conseguimos autorização junto à Agência Nacional de Telecomunicações” (melhor, “conseguimos autorização da Agência”); “Pleiteamos empréstimo junto ao Banco do Brasil” (melhor, “pleiteamos empréstimo no Banco do Brasil); “O vereador levará a notícia junto à associação de bairro” (melhor, “levará a notícia para a associação”).

Dica nº 130 Duas particularidades ortográficas Há dois casos de ortografia que costumam produzir muita dúvida nos que pretendem escrever com acerto. Trata-se do emprego de letras maiúsculas ou minúsculas nas seguintes situações: 1. Depois de ponto de interrogação ou de exclamação – Usa-se letra minúscula depois de ponto de interrogação ou de exclamação, no mesmo período, na primeira palavra que aparecer depois daqueles sinais, como em “Por que você demorou? perguntou a mãe aflita.” e “Que paisagem mais linda! exclamou Paulo.”. Repare que os períodos só terminam em “aflita” e “Paulo”, respectivamente. Vemos, pois, que o ponto de interrogação e o de exclamação não equivalem a ponto final quando não indicam fim de período. Situação diferente é a de “Por que você demorou?” e “Que paisagem mais linda!”. Nestes casos, os sinais de pontuação marcam fim de período. A primeira palavra de outro que vier depois terá, obviamente, a inicial maiúscula: “Onde está o porteiro? Pensei que estivesse aqui.”. 2. Maiúsculas e minúsculas dentro de parênteses

Se o trecho entre parênteses constitui frase ou oração inserida no interior do período, ele principia geralmente com inicial minúscula. Nesta hipótese, não há ponto final dentro, mas pode ser utilizado ponto de interrogação ou de exclamação, conforme o caso. Exemplos: “A diretoria só examinará o pedido em setembro (ela reúne-se mensalmente), mas é possível aguardar a decisão”; “O parlamentar (quem diria?) arvorou-se em defensor da moralidade”; “As irregularidades foram tantas (que horror!) que a comissão pediu mais um mês de prazo para concluir o relatório final”. Se o trecho entre parênteses constitui frase ou oração a parte, colocada depois do fim do período, inicia-se com inicial maiúscula e o sinal de pontuação (ponto final, ponto de interrogação ou de exclamação) é colocado dentro dos parênteses e não, fora. Exemplos: “A data da reunião foi marcada propositalmente para o dia 30. (O prédio está vazio nos sábados.)”; “Sob o comando de Luxemburgo, a equipe mineira fez campanha fantástica. (Alguém se surpreende?)”; “A previsão do tempo para este fim de semana é de céu claro, sem chuva. (Que beleza!)”.

Dica nº 131 Anacoluto irritante Entre os modismos lingüísticos de mau gosto que assolam o Brasil de nossos dias encontra-se desnecessário e irritante anacoluto, que consiste na colocação redundante de pronome pessoal reto como segundo sujeito de verbo. É o caso de “Nossa empresa, ela encontra-se em franca expansão”, “O povo brasileiro, ele precisa escolher melhor seus representantes” e “Meu cachorrinho, ele não pára de morder meu pé”. A crítica a esse uso decorre da inutilidade do emprego pleonástico do pronome reto, uma vez que, como acabamos de ver nos exemplos acima, os verbos já têm o respectivo sujeito: “nossa empresa”, sujeito de encontra-se; “o povo brasileiro”, sujeito de precisa escolher; “meu cachorrinho”, sujeito de não pára. Em razão de tal anomalia, a estrutura sintática é quebrada de forma não-intencional, despida, portanto, de qualquer propósito estético. É verdade que truncamentos sintáticos ocorrem com freqüência na linguagem oral e, de forma elegante, na escrita. Mas neste caso falamos de quem sabe o que faz e dá “show” nisso. O que agora abordamos, porém, está-se transformando em praga sem proveito. Poderíamos chamá-la de “anacoluto vicioso”. Fiquemos, pois, atentos para a boa e correta expressão verbal. Para resumir: o anacoluto de que tratamos neste texto é, no máximo, tolerável na linguagem oral, mas não deve ser utilizado na escrita.

Dica nº 132

Semana retrasada É comum ouvirmos essa expressão com sentido de “semana anterior à passada”. Trata-se de equívoco resultante do desconhecimento do real sentido das palavras. A semana que acabou de terminar é a passada. A anterior a ela é a atrasada. A anterior à atrasada, essa, sim, é a semana retrasada. Assim, temos: • última semana antes da atual – passada; • semana anterior à passada – atrasada; • semana anterior à atrasada – retrasada. Outra controvérsia existente a propósito de semanas é a que gira em torno do dia em que elas principiam. Uns alegam que é a segunda-feira, outros garantem ser o domingo. Os que defendem esta posição argumentam que a segunda-feira, por ser “segunda”, é o segundo dia da semana. Logo, ela começaria no domingo. Isso decorre de confusão com a etimologia dos nomes dos dias da semana, que têm relação com feiras que ocorriam em festejos religiosos do passado. Na verdade, a semana começa mesmo é na segunda. Prova disso é a expressão fim de semana. Que você entende por “fim de semana”? Se entender que é a reunião do sábado e do domingo, considerará que estes dias finalizam a semana. Se o domingo é o último dia semanal, ela começa de fato na segunda-feira.

Dica nº 133 Sendo que Essa expressão, indevidamente utilizada, torna-se insossa e incorreta quando costuma aparecer em frases como “O agricultor fez empréstimo no valor de R$100.000,00, sendo que R$30.000,00 destinou para benfeitorias na propriedade”. E por que é insossa e incorreta? Insossa porque não tem sentido, uma vez que não encerra idéia circunstancial de causa nem de concessão. Na verdade, idéia nenhuma. No exemplo dado, o numeral que representa aquela soma não está “sendo” nada. Incorreta porque: 1. Está empregada com valor de relativo, como se seu antecedente fosse “R$100.000,00”. 2. Configura gerundismo: “sendo” é gerúndio do verbo “ser”, mas na construção acima não ocorre nenhuma condição para o emprego dessa forma nominal. Leia mais sobre esse vício clicando aqui e aqui.

Como então reescrever aquela frase de forma correta e lógica? Há várias soluções, entre as quais: 1. Colocar em lugar do indevido “sendo que” o elemento apropriado (dos quais, de que), como em “O agricultor fez empréstimo no valor de R$100.000,00, dos quais R$30.000,00 destinou para benfeitorias na propriedade”. 2. Simplesmente eliminar o tal de “sendo que”, truncar o período em “R$100.000,00” e iniciar nova frase a partir daí, como em “O agricultor fez empréstimo no valor de R$100.000,00. Destinou R$30.000,00 para benfeitorias na propriedade”. Fiquemos atentos e expressemos adequadamente o pensamento evitando formas incorretas, sem lógica e sem sentido. Dissemos lá no início que sendo que é insossa e incorreta quando indevidamente utilizada. Isto significa que pode ser devidamente empregada. Quando isso ocorre? De acordo com os gramáticos, quando tem o valor de conjunção causal, isto é, quando expressa causa. Nesse caso, equivale a “uma vez que”, “desde que”, “visto que”, “porquanto”. Tal conjunção – na verdade, locução conjuntiva – aparece em períodos compostos por subordinação em que a oração subordinada encerra idéia de causa e a principal, de conseqüência. Exemplos: “Sendo que ele não me pagou, não posso também o pagar” e “Sendo que o palestrante ainda não chegou, o início da sessão sofrerá atraso“. Apesar do respaldo dado por gramáticos do porte do prof. Napoleão Mendes de Almeida a este último uso, achamo-lo também insosso. Recomendamos, portanto, sendo que ser evitado em qualquer circunstância.

Dica nº 134 Entre mim e ele Freqüentemente, pessoas têm dúvida com relação ao emprego dos pronomes pessoais em construções em que aparece a preposição entre. É preciso, de início, lembrarmo-nos de que, em princípio, os pronomes pessoais retos só podem ser sujeitos de oração e não, complementos. Assim, em frases como “Isso fica entre mim e ele”, não caberia eu no lugar de “mim”, pois esse pronome figuraria no predicativo “entre eu e ele”. Em outras palavras, um pronome reto (eu) estaria exercendo a função de complemento. Nesta altura, você pode justamente questionar: “Ué, mas ele também não é pronome pessoal reto? Como pode figurar como complemento e eu não pode?”. É verdade, mas isso depende do uso que os falantes cultos fazem e eles querem assim. Dessa forma, os pronomes pessoais eu e tu quando aparecem regidos pela preposição "entre" devem figurar na forma oblíqua – como em "Não há dificuldade

. Os entre mim e ti" – e não, na reta, como em "Não há dificuldade entre demais pronomes são empregados na forma reta, apesar de figurarem como complementos: "Isto fica entre mim e ele" e "Está tudo bem entre nós e eles". Por questão de eufonia, é preferível o mim ser utilizado em primeiro lugar. O mesmo vale quando temos pronomes de tratamento: "Esse assunto fica entre mim e o senhor", “Diga que aquilo se passou entre mim e você” e “Isso fica entre nós e Vossa Excelência”.

Dica nº 135

Erros e defeitos em textos Para comunicar de forma perfeita e com bom estilo, um texto deve estar livre de incorreções e defeitos. Saiba que isso é possível, embora exija muita leitura e prática da escrita. Como, porém, distinguir erros de defeitos? Vamos lá: • Erros – São os chamados “barbarismos em sentido lato ou amplo”, ou seja, infrações à norma ortográfica (as cacografias) e gramatical. Estas são atentados contra a construção de palavras, contra a Sintaxe (ou “solecismos”) e contra a Semântica (as inadequações vocabulares).

Assim, erra quem escreve pondo acento gráfico onde não há, como em “côco”, e não pondo onde deveria, como em “chama-lo”. Quem escreve (e diz) “bicabornato” em vez de bicarbonato), pois essa palavra é formada de “bi + carbonato”. Quem escreve “Consta do relatório três denúncias” (em vez de “constam”); "Desviei-me e depois removi a pedra", em lugar da construção correta "Desviei-me da pedra e depois a removi" (leia mais clicando aqui); “Se diz que haverá aumento”, em vez de “Diz-se que haverá aumento”. Quem escreve “mandato de segurança” em lugar de “mandado de segurança”. Esses desvios são erros mesmo e devem a todo custo ser evitados, não só por prejudicarem a expressão verbal como por afetarem a imagem de quem os produz. Além disso, em certas situações, como em provas de exames vestibulares e concursos, costumam ser fatais. Como não incorrer nesses erros? Já dissemos antes: muita leitura de bons autores, prática constante da escrita sob supervisão de professor e estudo nas gramáticas. Agora, você também conta com a internet, a exemplo deste saite mesmo. • Defeitos – Não chegam a constituir infrações à norma ortográfica e gramatical, mas enfeiam o texto e prejudicam-lhe a qualidade. São as cacofonias, a repetição próxima de palavras – que passa idéia de pobreza de recursos vocabulares ou desleixo na produção escrita (por isso, a importância dos exercícios com sinônimos e do uso do dicionário) –, o excesso de “que”, dos pronomes possessivos e dos artigos, especialmente indefinidos.

Texto defeituoso não costuma ter conseqüências trágicas nos exames referidos, mas produz má impressão em quem conhece as regras da escrita culta. Se você tem de redigir algo e está concorrendo com outras pessoas – vaga em emprego, por exemplo –, saiba que quem escreve corretamente sem ou com poucos defeitos tem mais chance de conseguir o que deseja do que quem escreve com correção, mas com muitos defeitos. Fique de olho!

Dica nº 136 Ponto de exclamação juntamente com ponto de interrogação Pessoas costumam ter dúvida quanto à possibilidade do uso do ponto de exclamação juntamente com o ponto de interrogação ou a respeito da ordem em que devem ser utilizados em conjunto. Quando a frase é interrogativa e ao mesmo tempo expressa admiração, usa-se na escrita o ponto de interrogação seguido do de exclamação e não, o inverso. Assim, temos "Ué, você por aqui?!". Isto porque a primeira noção que se passa é a de interrogação e em seguida a de admiração ou espanto. Nesse mesmo caso, na expressão oral, a entonação é característica, mais acentuada. No exemplo acima, na fala, a sílaba qui, de “aqui”, é emitida de maneira prolongada, mais longa do que se fosse em simples pergunta. Outros exemplos: “Quê?!”, “Já chegou?!” e “Ela quer que eu vá embora?!”.

Dica nº 137 Emprego de pronomes de tratamento Freqüentemente, o uso de pronomes de tratamento é motivo de dúvidas e incorreções. Vamos a alguns esclarecimentos: As fórmulas de tratamento tornam-se pronomes quando antecedidas de sua ou vossa. Assim, as fórmulas excelência e reverendíssima convertem-se em pronomes de tratamento uma vez precedidas daqueles possessivos, como em “sua excelência” e “Vossa Reverendíssima”. Note que quando nos estamos referindo a pessoa empregamos a expressão formada por sua. Quando nos dirigimos a ela, utilizamos vossa. Exemplos: “Já levei a reivindicação a sua excelência” (falamos dele) e “Vossa Excelência precisa ler os jornais de hoje” (falamos com ele). Às vezes, para demonstrar a máxima consideração e respeito, utilizamos forma indireta de tratamento e empregamos pronomes acompanhados de sua em vez do apropriado vossa, com em “Sua excelência poderia receber o embaixador?” e “Sua excelência, o senhor ministro, concorda com a divulgação?”, no lugar de “Vossa Excelência poderia...” e “Vossa excelência concorda...”. Esta situação é

parecida com certas falas do tipo “O papai quer que você vá dormir agora”, em lugar de “Eu quero que você vá dormir agora”. Não se esqueça de que os pronomes de tratamento, apesar de serem da segunda pessoa gramatical (referem-se à pessoa com quem se fala), são considerados de terceira pessoa. Por isso, levam o verbo e outros pronomes (oblíquos e possessivos) para a terceira pessoa, como em “Vossa Excelência esqueceu-se do compromisso”, “Sua agenda permite a Vossa Reverendíssima encontrar-se com o prefeito” e “Você foi lá?”. O professor Napoleão Mendes de Almeida escreve os pronomes de tratamento em que usamos sua com iniciais minúsculas (exceto, é claro, se “sua” iniciar frase, caso em que terá inicial maiúscula) e os em que aparece vossa, com as duas maiúsculas, como se pode ver nos exemplos acima. Já Celso Cunha grafa tanto uma como a outra forma com as duas maiúsculas. Quase todos os pronomes de tratamento possuem abreviaturas, isto é, formas reduzidas previstas na norma ortográfica. Exemplos são V. S.ª (Vossa Senhoria), V. Ex.ª (Vossa Excelência), V. Rev. (Vossa Reverendíssima), etc. Repare nos elementos sobrescritos. Por fim, lembramos que na correspondência a invocação a pessoas que recebem esse tipo de tratamento é quase sempre iniciada por adjetivos no superlativo, como “excelentíssimo”, “ilustríssimo” ou “reverendíssimo”, a exemplo de “Excelentíssimo Senhor (Ex. Sr. ) Prefeito”, “Ilustríssimo Senhor (Il. Sr.) Sr.) Cônego”. Coronel” e “Reverendíssimo Senhor (Rev.

Dica nº 138 Esta e está Atualmente, esse par vem suscitando muitas dúvidas entre as pessoas, estudantes, inclusive. Vamos esclarecer o sentido de um e de outro: Esta é pronome demonstrativo feminino (pronome substantivo ou adjetivo, conforme o contexto) e serve para designar algo no espaço ou no texto. Assim, temos: “Esta cadeira está quebrada”, “Esta última não existe no Brasil” (num texto, depois de enumeração de vários nomes de frutas, por exemplo) e “Sua mesa é esta”. Repare que não há qualquer acento gráfico em “esta”. Ela é paroxítona, isto é, o acento tônico recai na penúltima sílaba e o “e” é aberto; (és-ta). Está é flexão do verbo “estar” na terceira pessoa do singular do presente do indicativo e na segunda pessoa do imperativo afirmativo. Como esta possibilidade é de ocorrência rara, vamo-nos ater à flexão do indicativo, como em “Paulo está melhor de saúde agora”, “Quem está aí?” e “Carlos está viajando pela Europa”. Portanto, está é forma verbal, que indica estado. Note que nessa palavra há o acento gráfico no “á”, o que mostra ser ela oxítona, ou seja, a maior força da emissão de voz recai na última sílaba (es-tá).

Então, não nos esqueçamos: esta se refere a alguma coisa: pessoa, objeto, idéia, trecho de texto: “esta menina”, “esta panela”, “esta proposta”. Está é forma verbal e pode ter sujeito (Norma está bordando) ou não (Está frio lá fora).

Dica nº 139 Caso particular de uso das letras maiúsculas De acordo com a norma ortográfica brasileira, os nomes das ciências e das disciplinas escolares ou acadêmicas devem ser escritos com iniciais maiúsculas. Assim, Filosofia, Fonética, Geografia, História, Linguagem, Lingüística, Matemática, Psicologia, Semântica. Evidentemente, quando apresentam sentido genérico, sem referência a área do conhecimento, tais nomes são escritos com inicial minúscula, como em “Qual é a filosofia do grupo?”, “Nunca ouvi essa história”, “O livro é escrito em linguagem rebuscada”, “É preciso ter psicologia para lidar com a situação”. Quando funcionam como adjetivos, as iniciais também são minúsculas: “análise fonética”, “teoria lingüística”, “fórmula matemática”, “questão semântica”, etc. Língua Portuguesa e Português são escritos com iniciais maiúsculas quando se referem a disciplinas, como em “Lázaro é professor de Língua Portuguesa” e “Vanessa precisa melhorar as notas de Português”. Quando designam idioma, são grafados com iniciais minúsculas. Desse modo, “Rosilma é estudiosa da língua portuguesa” e “Ken já entende bem o português”. Português pode ainda se classificar como adjetivo, situação em que igualmente se escreve com inicial minúscula, exceto se iniciar frase: “O vinho português que tomamos é de ótima qualidade” e “Português é o azeite que uso”.

Dica nº 140 Mas e mais • Mas é primariamente conjunção adversativa. Isto significa que essa palavra gramatical liga orações de forma a estabelecer contraste ou idéia de oposição: "João correu muito, mas não conseguiu chegar a tempo ao local de prova" e "Pedro não se mata de estudar, mas sempre consegue aprovação no final". Em outros contextos, pode funcionar como palavra expletiva, como em “Naquela noite, Norma voltou para casa feliz, mas muito feliz”, ou como substantivo, a exemplo de “Esse ‘mas’ é que te complica”. Mais é advérbio de quantidade e como tal se vincula a adjetivos, verbos ou outros advérbios, como em "Paulo é mais alto do que José", "Cláudio trabalhou mais do que eu hoje" e "A mensagem pode ser enviada mais rapidamente". “Mais” pode-se também classificar como pronome adjetivo

indefinido quando modifica substantivos, como em “Comprei mais comida” e “Estou aqui há mais tempo”. A dúvida que muitas pessoas têm com relação ao emprego dessas duas palavras decorre da tendência de os falantes, na língua oral, ditongarem, ou seja, produzirem ditongo em vocábulos terminados em /as/ (rapais = rapaz), /es/ (meis = mês), /os/ (pois = pôs) e /us/ (luis = luz). Assim, tanto “mas” como “mais” acabam tendo a mesma sonoridade (mais). Na escrita, porém, devemos evitar tal uso em benefício da correção e da clareza.

Dica nº 141

E/ou Às vezes, deparamos com essa combinação de conjunções ligadas por barra, que indica a simultaneidade dos elementos que a antecedem e sucedem ou sua alternância. O caso mais comum é o dos nomes de correntistas bancários em contas correntes conjuntas de titulares solidários, ou seja, as contas em que um dos titulares aceita e valida a movimentação que o outro faz, como em “José dos Anzóis Pereira e/ou Maria Farinha Pereira”. Neste exemplo, o “e” indica que os titulares da conta são, conjuntamente, José e Maria e o “ou” expressa a possibilidade de operação da conta por um ou outro isoladamente. Outros exemplos: 1. “Há situações em que o chefe de culto, através do jogo de búzios e/ou tarô conclui que o mal que aflige a pessoa é puramente orgânico” – Considerase que pode ser praticado o jogo de búzios juntamente com o de tarô ou um deles somente. 2. “Sobremesa: fruta ácida e/ou suco de fruta ácida” – Entende-se que podem ser servidos, como sobremesa, a fruta e o suco ou um deles apenas. 3. “Os jornais pertencem a correligionários e/ou estimados amigos da família” – Há três situações possíveis: existem jornais pertencentes a correligionários que também são amigos ou então a correligionários apenas ou a amigos não-correligionários. 4. “A superstição pode consistir em apego exagerado e/ou infundado a qualquer coisa” – Entende-se que o apego pode ser simultaneamente exagerado e infundado ou somente exagerado ou apenas infundado. 5. “Poderá ser indicado produto complementar e/ou desenvolvimento das características do sistema” – Há três soluções possíveis: aquisição de produto e desenvolvimento de características ou então, isoladamente, aquisição de produto ou desenvolvimento de características.

O que não cabe é usar-se a fórmula e/ou em contextos em que bastaria a alternância ou nos quais a referência é feita a ambos os elementos conjuntamente. Assim, são inadequadas frases como (6) “São sócios honorários os que se tenham distinguido pela doação de bens patrimoniais e/ou financeiros de relevância” e (7) “A multa decorre de atraso nos tempos previstos de vôos nacionais e/ou internacionais”. Em (6), basta a pessoa haver doado isoladamente bens patrimoniais ou financeiros para ser considerada sócia honorária. Desse modo, ela não necessita doar os dois tipos de bem para conseguir a honraria. O emprego de “ou”, portanto, é suficiente. Em (7), se a multa se aplica a ambas as situações, utilizese apenas “e”. Se a penalidade se aplicasse somente a um dos casos, o outro não deveria sequer ser mencionado: “A multa decorre de atraso nos tempos previstos de vôos nacionais” ou “A multa decorre de atraso nos tempos previstos de vôos internacionais”. O emprego da fórmula e/ou requer alguma cautela para garantir-se coerência. Tem a ver em alguma medida com o raciocínio lógico.

Dica nº 142 Até e Até a Quando liga dois termos oracionais, "até" classifica-se como preposição, em (1) “Correu até o poste”. Nessa condição, pode ser usada sozinha, nesse exemplo, ou acompanhada da preposição "a". Assim, (2) "Vou boteco/Vou até ao boteco" e (3) "Caminharei até a praça/Caminharei praça". como como até o até à

Na hipótese de usar-se a locução “até a”, cuide-se para verificar se o nome que a segue é feminino e se está sendo usado com o artigo “a”. Neste caso, haverá crase, como acabamos de ver em (3). As coisas ocorrem assim: “Vou até a + a praça ® Vou até à praça”. Da mesma forma, (4) “Chegamos até à vila de São João” e (5) “Caminhamos até às ruínas de Tiahuanaco”. “Até” pode-se classificar também como advérbio e dessa maneira equivale a “ainda”, “mesmo”: (6) “Podemos até vender a chácara”. Note que esse emprego é expletivo: se retiramos a palavra assinalada, o sentido básico da oração não se altera, mas ela perde algo de sua força expressiva: (7): “Podemos vender a chácara”.

Dica nº 143

Níveis hierárquicos da linguagem verbal

No estudo de uma língua natural – por exemplo, o português –, convém ter em mente a existência de níveis hierárquicos, que lhe possibilitam a descrição de forma científica. Isso é especialmente importante para o professor, mais do que para o aluno. Vamos explorar esse tema, tratado com bastante propriedade pelo saudoso semanticista A. J. Greimas, que tanto contribuiu para a Lingüística, especialmente para a Semântica. Partamos da língua que será objeto de nosso estudo, doravante chamada “língua-objeto”. Como é o português que aqui nos interessa, nossos exemplos nele se situarão. A oração “Laurinha pegou o copo” encontra-se no nível da dita língua-objeto. Isso porque as unidades lexicais, isto é, os vocábulos que a constituem descrevem a realidade em que estamos inseridos, o universo extralingüístico, o que nos rodeia. Dessa forma, “Laurinha” refere-se a uma pessoa do sexo feminino, “pegou” expressa ação que ela praticou em determinado momento e “o copo” traduz aquilo que Laurinha pegou, o objeto dessa ação. Essas unidades localizam-se no nível primário, o nível lingüístico. Vimos que no parágrafo anterior emitimos mensagens para explicar o sentido que os vocábulos constantes da oração exemplificada nela apresentam: o que é “Laurinha”, “pegou” e “o copo”. Dissemos que a palavra “Laurinha” representa uma pessoa do sexo feminino e que a palavra “pegou” expressa ação que ela praticou. Trata-se, dessa forma, de linguagem falando de linguagem ou, para sermos mais precisos, de metalinguagem. Mas essa metalinguagem é natural, emprega palavras da própria língua-objeto, como “ação” e “praticou”. Na descrição científica de uma língua natural, os especialistas – os gramáticos – utilizam outra linguagem, construída e o mais possível distante do vocabulário comum da língua-objeto. Estamos falando da metalinguagem científica. A metalinguagem situa-se em nível hierárquico superior, nível secundário, o nível metalingüístico. No nível metalingüístico, as mensagens não se referem ao universo que nos rodeia (descrito pela língua-objeto), mas à própria língua-objeto. É, como já dissemos, a linguagem falando da linguagem. R. Jakobson percebeu isso muito bem ao elaborar seu modelo de comunicação e estabelecer as funções da linguagem, uma das quais é a função metalingüística. Ela centra-se na própria língua. (Leia também no Glossário Gramatical o verbete “Função da linguagem”.) É por isso que os gramáticos utilizam termos – é exatamente disso de que se trata, de terminologia – estranhos, como interjeição, fonema e adjunto adnominal. Eles constituem linguagem técnica, específica e o ideal é que sejam unívocos, quer dizer, tenham somente um significado. Infelizmente, as coisas não se passam exatamente assim muitas vezes, a exemplo de sujeito e predicado, que em outros contextos têm sentidos distintos do gramatical. Na terminologia lingüística, morfema tem diferentes significados, conforme a escola de pensamento que o utiliza: “unidade do nível morfológico” (neste caso, equivale, grosso modo, a “palavra”), “segmento da palavra que se refere à realidade extralingüística ou intralingüística” (neste sentido, pode-se classificar como morfema lexical – menin- – ou gramatical – -o, -a) ou ainda “segmento da

palavra que possui função estritamente gramatical (-o, -a, psico-, -inho)”. O termo morfema não apresenta, portanto, a univocidade que seria desejável. Muito bem. Então, termos como interjeição, fonema e adjunto adnominal pertencem à linguagem utilizada na descrição da nossa língua-objeto (nível metalingüístico) e precisam de definição. Assim, podemos, em princípio, dizer que interjeição é “palavra que exprime emoções, estados d’alma, manifestações do nosso íntimo”; fonema é “som da língua” e adjunto adnominal é “termo acessório da oração que caracteriza ou determina o substantivo”. Estamos agora usando outra linguagem para falar, para explicar, traduzir a metalinguagem. Esta nova linguagem situa-se em nível hierárquico mais acima. Trata-se da meta-metalinguagem, que explica a metalinguagem. Voltemos à oração “Laurinha pegou o copo”. A Gramática ensina que nela “Laurinha” é seu sujeito. Mas o que significa “sujeito”? Napoleão Mendes de Almeida afirma ser sujeito “a pessoa ou coisa sobre a qual se faz alguma declaração” (ALMEIDA, 1999, § 650). Celso Cunha diz que “o sujeito é o ser sobre o qual se faz uma declaração” (CUNHA, 2000, p. 119). Já Domingos P. Cegalla informa que “sujeito é o ser do qual se diz alguma coisa” (CEGALLA, 2000, p. 297). Essas definições, que traduzem o sentido de termo metalingüístico, situam-se, portanto, no nível terciário, no nível metametalínguístico. Mas o especialista não considera qualquer afirmação como “científica” se ela não for comprovadamente verificável e coerente. É preciso checar a validade das definições. Isso só pode ser feito em outra instância, isto é, em nível hierárquico superior, no nível epistemológico. Acabamos de ver que tanto Celso Cunha como Cegalla declaram que o sujeito é um “ser”. É mesmo? No período “Saudade é sentimento gostoso e ao mesmo tempo faz doer”, consideremos a oração “Saudade é sentimento gostoso”. Sem dúvida, seu sujeito é “saudade”. Saudade é “ser”? O Aurélio consigna que “ser” é “o que existe ou supomos existir”, “aquilo que é real” ou “o que se põe como existente”. O Houaiss diz que “ser” é “aquilo que realmente existe” ou “aquilo que possui realidade”. Se a saudade é algo real ou que tem existência, ela pode ser considerada “ser”. Neste caso, aqueles gramáticos estão dizendo algo coerente, que pode ser considerado válido. Entretanto, teríamos ainda, para realizar procedimento completo, de verificar também a consistência das definições da palavra “ser” conforme registrada pelos lexicógrafos (dicionaristas) mencionados. Lá atrás, afirmou-se que “fonema é som da língua”. Será? A teoria lingüística declara que o som é realidade física, extralingüística, algo concreto, que pode ser medido e registrado. O fonema é função, conceito abstrato. Portanto, quem define fonema como “som” não pode ser questionado? Vimos assim que a discussão onde se questiona a validade das definições situase em nível quaternário, no nível epistemológico. Evidentemente, o aprendiz da norma culta da língua não necessita enveredar por esses meandros da Filosofia – filosofia da comunicação e da linguagem –, mas é bom o professor ter clareza

sobre essas distinções para executar seu trabalho com segurança e proficiência, com “pé no chão”. Por fim, é oportuno esclarecer que as proposições teóricas em que este texto se baseou, de autoria do eminente semanticista A. J. Greimas, focaram especificamente a formulação de descrição semântica verdadeiramente científica. Contudo, consideramos perfeitamente possível extrapolar seu arcabouço para outros níveis gramaticais.

Dica nº 144 Mais alguns parônimos Os parônimos são traiçoeiros para as pessoas desavisadas. Conhecendo-lhes os sentidos, não erraremos. Vejamos: Contatar e constatar – “Contatar” (ou “contactar”) significa estabelecer contato, como em “Vou contatar o vendedor” (vou fazer contato com o vendedor) e “Contatamos a agência ainda ontem” (estabelecemos contato com a agência ainda ontem). “Constatar” quer dizer verificar, chegar a conclusão, como por exemplo “Você irá constatar que tudo está em ordem” (você irá verificar que tudo está em ordem) e “A comissão constatou haver irregularidades” (a comissão chegou à conclusão de haver irregularidades). Tapar e tampar – “Tapar” significa fechar, vedar, como em “Quero que vocês tapem este buraco” (quero que vocês fechem este buraco) e “Tape os ouvidos” (feche os ouvidos). “Tampar” quer dizer pôr tampa, como por exemplo “Vou tampar a panela” (vou pôr tampa na panela) e “Já tampei o latão” (já coloquei tampa no latão). O Aurélio, o Houaiss e o Dicionário Barsa endossam a confusão que muitas pessoas fazem entre “tapar” e “tampar” e consignam no verbete “tapar”, como primeira acepção, cobrir com tampa. Se quisermos ser exatos, demos a cada palavra o sentido que lhe cabe. Vultoso e vultuoso – “Vultoso” significa de vulto, volumoso, considerável, como em “Serão destinados vultosos recursos para a educação” (serão destinados recursos consideráveis para a educação) e “A instituição recebeu vultosa soma em dinheiro” (a instituição recebeu volumosa soma em dinheiro). “Vultuoso” quer dizer inchado e vermelho, com relação ao rosto e lábios, a exemplo de “O rosto do Joaquim está vultuoso” (o rosto do Joaquim está inchado e vermelho) e “As faces daquelas pessoas estavam vultuosas” (as faces daquelas pessoas estavam inchadas e vermelhas). O Houaiss rende-se à confusão e registra no verbete “vultuoso” também os sentidos que “vultoso” tem. Mesmo assim, prefiramos não confundir as coisas, a exemplo do Aurélio e do Dicionário Barsa.

Ainda que os dicionários mencionados registrem os sentidos estendidos de “tapar” e “vultuoso”, recomendamos, com relação aos parônimos acima, o uso tradicional em benefício da clareza.

Dica nº 145 “Boa tarde” e “boa-tarde” O vocábulo “boa-tarde" só é escrito com hífen quando é substantivo composto. Nesse caso, ele pode ser acompanhado de artigo (definido ou indefinido) ou de pronome (possessivo ou demonstrativo), como em "O boa-tarde que lhe dei foi cordial”, "Esse boa-tarde está muito fraco" e "Meu boa-tarde foi caloroso". Repare que há silepse aí: embora sejam nomes femininos, “boa” e “tarde” estão acompanhados de palavras masculinas. Isso ocorre porque a concordância é irregular, pois se faz com a idéia (de cumprimento) e não, com a forma, feminina. A expressão reduzida “boa tarde” é oração dita “semiótica” ou simplificada, em que se subentendem outros termos. A construção desenvolvida é: “Desejo-lhe que a tarde seja boa”. Aqui não há o hífen, como também não existe em "Boa tarde, disse-me o homem" e "Boa tarde, posso falar com o senhor?". Isso tudo, obviamente, vale também para outros cumprimentos, como “bom dia” e “boa noite”: “Bom dia, amor” e “Gostou do meu bom-dia?”. “Boa noite, como vai?” e “Já lhe dei meu boa-noite”. “Bom dia, para quem é de bom-dia, e boa noite, para quem é de boa-noite”.

Dica nº 146 Acentuação objetiva Você acredita que as regras de acentuação gráfica que conhecemos podem-se resumir a uma só? O professor Francisco Dequi (IPUC, Canoas - RS) garante que sim. Vamos conhecer sua proposta? A “acentuação objetiva” considera apenas a vogal tônica e não, a sílaba tônica. Tal sistema leva em conta também as vogais realmente pronunciadas e numera-as da direita para a esquerda, como abaixo:

Recordamos que em todas as palavras estruturadas com mais de uma vogal há uma pronunciada com mais força, a tônica. Observe-se ainda que a semivogal é, de fato, vogal. Primeira parte – Tonicidade regular ou natural. Roteiros da tonicidade das palavras sem acento gráfico

A tonicidade regular das palavras sem acento gráfico flui da direita para a esquerda e 100% de sua localização segue os seguintes roteiros:

1. Se a terminação for das fracas ou átonas (a, e, o, am, em, ens), a tonicidade estará na vogal 2. Exemplos: datilografo, datilografas, datilografam, datilografe, datilografem, item, itens, publico, publicas, coco, cocos, celebre, domino, irmão, corações, porem, amaras, camelo. 2. Se a terminação for do rol das demais (as não incluídas nos casos acima), ela será forte e a tonicidade fixar-se-á na vogal 1. Exemplos: abacaxi, urubu, urubus, barril, lençol, jasmim, jasmins, motor, audaz, feliz, revolver, algum, alguns, animal, semitom, semitons, sutil, sutis, repetir, anu, maçã, irmãos, veloz, talvez. 3. Apesar dos dois roteiros anteriores, “i” e “u” quando antecedidos de vogal “encostada” (em ditongos ou hiatos) e não tendo apoio seu no lado direito (nasalização ou consoante sua) cedem a tonicidade para a vogal anterior – 2 ou 3 – encostada. Exemplos: flauta, leite, eu, ai, douto, doidos, ainda, sairdes, constituinte, transeunte, ruim, ruir, ruis, Raul, maus, saindo, Romeu, possui, possuis, maio, caiam. Nota: no processo de acentuação, o “s” final não influi. Observação nossa: sublinhamos, por nossa conta, as vogais e consoantes que constituem dígrafos representantes de vogais nasais. Assim, por exemplo, “om” é grafia da vogal nasal /õ/.

Segunda parte – Tonicidade irregular ou deslocada O acento gráfico, em 99,6% dos casos, anula a tonicidade natural verificada nos itens acima e tonifica outra vogal. Dito de outro modo: torna tônica a vogal que, sem o sinal, seria átona. Exemplos: sabia ® sabiá, sábia; camelo ® camelô; maio ® maiô; dai ® daí; fluido ® fluído; magoa ® mágoa; duvida ® dúvida; exercito ® exército; vicio ® vício; seria ® séria; doido ® doído; caiamos ® caíamos; cara ® cará; copia ® cópia. Observação nossa: na verdade, o acento gráfico não “tonifica” a vogal, mas representa graficamente tonicidade que já existe. Ele não produz tonicidade, mas apenas indica algo que está lá. Mas vamos em frente.

Terceira parte – Sinais diferenciadores (0,4%) ou sinais não-deslocadores de tonicidade 1. “É” e “ó” abertos em palavras monovocálicas e nos encontros (ditongos) abertos “éi”, “éu” e “ói” são sempre acentuados. Exemplos: pé, pó, nó, fé, ré, é, dó, nós, vós, só; seu/céu, apoio/apóio, reis/réis. Função desses sinais: apenas marcar timbre aberto. Não deslocam a tonicidade, pois ela já estava na vogal assinalada.

2. Diferenciadores sintáticos, marcadores de plural: ele tem/eles têm, ele vem/eles vêm. O mesmo ocorre com verbos derivados: ele detém/eles detêm, ele provém/eles provêm. 3. Diferenciadores morfológicos necessários: pode/pôde, por/pôr, de/dê, se/sê. Quarta parte – Sinais inúteis Em nossa ortografia oficial, há sinais inúteis, pois não têm qualquer objetivo na tonificação. Fora do contexto, sem acento, as palavras que os recebem teriam exatamente a mesma pronúncia. Exemplos: os vocábulos monovocálicos lá, vá, cá, má, lê, vê; flexões e substantivos derivados de verbos terminados em “oar”: magôo, vôo, enjôo, abotôo. E as quatro formas verbais crêem, dêem, lêem, vêem e seus compostos (descrêem, relêem, prevêem, etc.). E aí? O que achou da acentuação objetiva? Experimente testá-la aplicando os roteiros descritos a outras palavras para ver se as afirmativas confirmam-se.

Dica nº 147 Resenha Resenha é o relato pormenorizado de textos, como livros, artigos em periódicos, letras de músicas, etc. O aluno pode, em diferentes níveis de seus estudos, ser solicitado a preparar alguma resenha desse tipo. Como fazer isso? Auxiliar na execução dessa tarefa é justamente o propósito desta página. Consideramos haver dois tipos de resenha: a que chamamos “resumida” e a “completa”. A resumida consiste na enumeração dos dados bibliográficos da obra e de comentários a seu respeito. É a que vemos freqüentemente na seção “Livros” de jornais e revistas. A completa tem utilização notadamente escolar ou acadêmica e fornece detalhadamente informações sobre o texto. Além dos dados bibliográficos, contém extrato do escrito resenhado, análise crítica, indicação do público ao qual a obra deve interessar, etc. Oferecemos-lhe os dois modelos de resenha: Modelo resumido • Título da obra • Autoria • Cidade onde foi publicada, editora, ano de publicação, número de páginas, preço (se possível) • Credenciais da autoria (quem é o autor) • Comentários sobre a obra. Indicação do tipo de leitor a quem o resenhista recomenda a leitura.

Normalmente, esses tópicos não aparecem explicitados, mas apenas os dados a que eles se referem.

Modelo completo I – OBRA1. 2. Resenhista (Nome de quem elabora a resenha):

Autoria (Autor do texto resenhado):

3. Título (Nome da obra. Se se trata de parte dela, mencionar o nome da parte – título de artigo, capítulo de livro – e da obra completa): 4. Edição (Qual edição está sendo resenhada. Os livros geralmente não mencionam o número da edição se se trata da primeira.): 5. Cidade de publicação: 8. Número de páginas: 9.Formato

6. Editora: 7. Ano de edição: (Medidas: 30 x 20 cm, por exemplo): 10. Preço (Se possível):

II – CREDENCIAIS DA AUTORIA11. publicadas, informações biográficas.)

(Quem é o autor, títulos, outras obras

III – CONCLUSÕES DA AUTORIA12. (Aqui, o resenhista expõe, em linguagem direta, as conclusões a que o autor chega no trabalho analisado. Não se trata de dizer “O autor acha que...”, mas descrever suas conclusões como se ele estivesse falando.)

IV – DIGESTO13. [É o resumo “resumido” da obra, que consiste na seleção dos trechos mais relevantes, que melhor representam o texto. Nesta parte, vale também a observação registrada no item anterior: não use suas palavras (O autor diz que...), mas as do próprio autor tais como aparecem na obra.]

V – METODOLOGIA DA AUTORIA14. (Se você conseguir identificar a metodologia utilizada pelo autor, ótimo. Registre essa informação aqui: método categórico-dedutivo, empírico-indutivo, metafísico-especulativo, etc.)

VI – QUADRO DE REFERÊNCIA DA AUTORIA15. (O resenhista menciona a escola de pensamento a que está filiado o autor ou se ele é iniciador de nova escola.)

VII – CRÍTICA DO RESENHISTA16. (Agora, o resenhista usa suas próprias palavras e alude à obra. Comenta o texto e avalia-lhe os pontos positivos e negativos no que se refere à forma, ao conteúdo e mesmo ao aspecto físico da obra, se for o caso.)

VIII – INDICAÇÕES DO RESENHISTA17. (A quem o resenhista considera seja útil a leitura da obra resenhada. Informações para uso da clientela potencial e dos bibliotecários.)

IX – APRESENTAÇÃO DA RESENHA (Se a resenha for apresentada em ambiente escolar ou acadêmico, os dados a seguir serão pertinentes.) 18. Data e hora: 19. Disciplina: 20. Centro de interesse (Nome do tema de pesquisa, no caso de pós-graduação): Neste modelo, os tópicos são explicitados. Ele foi confeccionado pelo saudoso professor Antonio Rubbo Müller (São Paulo-SP) e simplificado e adaptado pelo professor Paulo Hernandes.

Dica nº 148 Grafia de nomes próprios como parte de substantivos comuns Às vezes, surgem dúvidas com relação à grafia de nomes próprios como parte de substantivos comuns. Sabemos que os nomes próprios devem ser escritos sempre com inicial maiúscula, como Carlos, Marina, Barretos, Brasília, Paraná, etc. Entretanto, não raro acontece de palavras como essas comporem nomes comuns. Neste caso, de acordo com a norma ortográfica brasileira, são escritos com as iniciais minúsculas, exceto, é claro, se iniciarem período. Assim, temos “Brasil”, mas “pau-brasil”; “João”, mas “joão-bobo”, “joão-de-barro”, “joão-ninguém”; “Maria”, mas “maria-chiquinha”, “maria-fumaça”, “maria-vai-comas-outras”; “Deus”, mas “louva-a-deus”, “deus-dará”, “deus-nos-acuda”, “pão-pordeus”.

Se iniciam período, a inicial do primeiro elemento é maiúscula: “’João-de-barro’ é nome de pássaro brasileiro” e “Maria-fumaça, que saudade dos tempos de infância!”.

Dica nº 149 Quem é doutor? No Brasil, onde muitas vezes deparamos com mentes estreitas, de um lado, e atitudes subservientes, de outro, todo mundo é doutor: profissionais liberais, de modo geral, e pessoas que ocupam cargos de alguma importância no setor público ou privado. Até homens simplesmente por trajarem paletó e gravata são assim chamados. Para colocar as coisas em seus devidos lugares, vamos esclarecer o assunto sob a ótica do bom senso. Quem é de fato doutor? Em rigor, doutor é alguém que concluiu com aproveitamento curso de pósgraduação em nível de doutorado e defendeu tese, aprovada por banca examinadora. Esse é o verdadeiro doutor. Por tradição, originário do inglês “doctor”, é também cabível o título de “doutor” aplicado a médicos. Então o médico também é doutor. E só. O restante é invenção, que não deve ser levada a sério.

Dica nº 150 Substantivação Substantivação é recurso de que se valem os falantes da língua para formar novas palavras pelo processo denominado pelos gramáticos de “derivação imprópria”. Por ele, unidades lexicais mudam de sentido – isto é, de emprego no texto – quando, diferentemente do usual, passam a ser determinadas por artigo, numeral, possessivo, etc. Trata-se de nova palavra porque a forma fônica (seqüência de fonemas), apesar de mantida, associa-se a outro significado. Há também mudança de classe de palavras: o que era adjetivo ou verbo, por exemplo, torna-se substantivo. Nesta condição, o vocábulo substantivado pode, de modo geral, flexionar-se normalmente. Em princípio, palavra de qualquer classe pode assumir a função substantiva, ou seja, pode-se substantivar e a maneira mais comum de isso ocorrer é a junção a ela do artigo definido “o”. Vejamos alguns exemplos de substantivação de: • Adjetivo – “Belo”, “estudioso” e “rico” são adjetivos em “belo espetáculo”, “aluno estudioso” e “homem rico”. Acompanhados de artigo, porém,

transformam-se em substantivos, como em “A estética estuda o belo”, “Os estudiosos não tiveram do que reclamar” e “Os ricos moram ali”. Note que no grau superlativo relativo também aparece o artigo definido, mas isso não configura substantivação. É simplesmente o modo de construção dessa estrutura comparativa: “Carlos foi o melhor do grupo”. • Pronome – Ao juntarem-se artigos e numerais a pronomes, como “eu” e “nosso”, estes se convertem em substantivos ou exercem função substantiva: “A Psicologia interessa-se pelo estudo do eu” e “Esse barco é o nosso”. Verbo – É muito comum a substantivação de verbos. Veja que em “Quero andar mais depressa”, “Vamos falar francamente” e “Não se trata de ser bom ou ter qualidades” “andar”, “falar”, “ser” e “ter” são nitidamente verbos. Entretanto, tais palavras mudam de sentido ao tornarem-se substantivos em “O andar dele é característico”, “São vários os falares regionais brasileiros” e “Segue o ensinamento cristão quem se preocupa mais com o ser do que com o ter”. Numeral – “Dois”, “sete”, “duplo”, etc. podem-se substantivar mediante o acréscimo de artigo, possessivo e mesmo de numeral: “O sete é número mágico”, “Já lhe dei meu dois de copas” e “A ginasta executou dois duplos arriscados”. Advérbio – Da mesma forma, é corriqueira a substantivação de advérbios, como “bem”, “mal”, “não”, etc.: “Devemos sempre fazer o bem”, “Dos males, o menor” e “Péricles recebeu um não como resposta”. Preposição – Vêem-se também preposições substantivadas, tais como “de” e “contra”: “Retoque o (vocábulo) de, que ficou apagado” e “É preciso pesar os prós e os contras”.

Conjunção – “O ou não ficou bem colocado aí” e “Só quero saber o porquê”. Como se sabe, “porque”, na função substantiva, é graficamente acentuado. Leia mais sobre isso clicando aqui. Interjeição – Até as interjeições podem-se transformar em substantivos ao serem acompanhadas de artigos, numerais ou pronomes, a exemplo de “Depois dos vivas, ele apareceu”, “Dois psius ouviram-se durante a prova” e “Ninguém escutava meus ais”.

É necessário levar em conta as seguintes observações em se tratando do processo de substantivação: 1. Palavras normalmente invariáveis passam a flexionar-se uma vez substantivadas, como “Quantos noves você tem?” e “Alberto levou vários foras”. Observe, porém, que os numerais “dois”, “três”, “seis” e “dez”, mesmo em função substantiva, não se flexionam: “Retire todos os dez do baralho” e “Esses três ficam aqui”.

2. Uma vez substantivados, muitos vocábulos átonos tornam-se tônicos, isto é, ganham autonomia fonética ao não se necessitarem apoiar em palavras sonoramente mais fortes: “Ela tem um quê de mistério” e “Se não fosse o se...”. 3. Não se confunda palavra substantivada com substantivos que normalmente são acompanhados de artigo. Desse modo, em “O tigre é felino poderoso”, o artigo não está substantivando nada, já que “tigre” é naturalmente substantivo e assim atua no contexto. 4. A palavra substantivada pode assumir qualquer função sintática reservada ao substantivo, como sujeito e complemento. Exemplos: “Seu olhar (sujeito) é magnético” e “Quero ouvir um sim (objeto direto)”.

Dica nº 151 Frase nominal Tradicionalmente, aprendemos que o termo “frase” significa grupo de vocábulos que expressa uma idéia, sem nada afirmar ou negar: "Tudo em paz?", "Os Sertões" e “Antes tarde que nunca” seriam frases. Desse modo, uma vez que a frase passe a afirmar, negar ou questionar algo, converte-se em oração e isso acontece com a presença do verbo. Assim, podemos ser tentados a considerar como frases nominais as em que o verbo não está explícito, mas ele de fato existe. Está apenas subentendido ou, como diz o prof. Francisco Dequi, “mentalizado”. É por isso que aquela declaração inicial deve, na verdade, ser acompanhada do advérbio “aparentemente”: “a frase expressa idéia sem aparentemente nada afirmar ou negar”. Há inúmeras frases com verbo mentalizado ou elíptico e nem por isso deixam de ser autênticas orações, como podemos ver a seguir nos seguintes provérbios: • • • • • “Cada macaco, no seu galho.” = “(Que) cada macaco (fique) no seu galho.”. “Por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento.” = "Por fora, (nós vemos) bela viola; (o que existe) por dentro (é na verdade) pão bolorento.". “Vox populi, vox Dei.” = “Voz do povo, voz de Deus.” = “(A) voz do povo (é a) voz de Deus.”. “Lágrimas de herdeiros, risos secretos.” = “Lágrimas de herdeiros (escondem) risos secretos.”. “Filho criado, trabalho dobrado.” = “Filho criado (representa) trabalho dobrado.”.

Observe que não por acaso aparece a vírgula em todas essas frases. Ela marca justamente a elipse do verbo. Outros exemplos: • “Que coisa!” = “Que coisa (chata você está fazendo)!”.

• • • •

“Você por aqui?!” = “(Olhe,) Você (está) por aqui?!”. “Tudo bem contigo?” = “Tudo (está) bem contigo?”. “Que raiva!” = “Que raiva (eu sinto)!”. “Que beleza!” = (Olhe) Que beleza (é isso)!”.

Nas orações ditas “semióticas”, parece que temos frase nominal, mas sem dúvida o verbo está subentendido e este variará conforme a situação: • • • • • “Socorro!” = “(Eu peço) Socorro!”. “Fogo!” = “(Façam) Fogo!” ou “(Vejam o) Fogo!”. “Cuidado!” = “(Tome) Cuidado!”. “Silêncio!” = “(Façam) Silêncio!”. “Ladrão!” = “(Peguem o) Ladrão!”. No campo de futebol: “Ladrão!” = “(Esse juiz é) Ladrão!”.

Os títulos de obras quase sempre apresentam o verbo mentalizado: • • • “Literatura luso-brasileira” = “(Este livro contém) ‘Literatura luso-brasileira’.”. “Dom Casmurro” = “(Este livro apresenta o romance) Dom Casmurro.”. “Semântica lexical” = “(Esta obra trata de) Semântica lexical.”.

Placas e letreiros com as denominações de empresas, organizações, edifícios encerram verbo subentendido: • • • • • “Banco do Brasil” = “(Aqui funciona o) Banco do Brasil.”. “ANVISA” = “(Aqui funciona a) ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).”. “Marina Tower” = “(Este é o edifício) Marina Tower.”. “D” = “(Este é o bloco) D (denominação de um dos milhares de prédios de apartamentos existentes no Distrito Federal).”. “Universidade de Brasília” = “(Este é o campus da) Universidade de Brasília.”.

As respostas a perguntas são, com muita freqüência, frases aparentemente nominais: • • • • • “Você já votou? Ainda não.” = “(Eu) Ainda não (votei).”. “Vocês já leram ‘Sintagramática’? Já.” = “(Nós) Já (lemos ‘Sintagramática’).”. “Por onde eles foram? Por ali.” = “(Eles foram) Por ali.”. “Que houve depois da palestra? Nada.” = (Não houve) Nada (depois da palestra).”. “Laurinha, quem fez isso? A Cátia.” = “(Quem fez isso foi) A Cátia.”.

Em muitos períodos, aparecem frases em que o verbo fica claramente subentendido por já haver sido expresso anteriormente. O verbo existe, mas é omitido em virtude da figura de sintaxe chamada “zeugma”, que também pode abranger outros termos: • “Carlos gosta de jazz e Paulo, de rock.” = “Carlos gosta de jazz e Paulo (gosta) de rock.”.

• • • •

“Sou tão inteligente quanto você.” = “(Eu) Sou tão inteligente quanto você (é inteligente).”. “Ele chama-se Celso e ela, Tânia.” = “Ele chama-se Celso e ela (chama-se) Tânia.”. “O inimigo foi vencido e os prisioneiros, soltos.” = “O inimigo foi vencido e os prisioneiros (foram) soltos.”. “Sou o que sou e não, o que dizem.” = “(Eu) Sou o que (eu) sou e (eu) não (sou) o que (eles) dizem.”.

Vimos então, por todos esses exemplos, que não existe frase propriamente “nominal”, mas verdadeira oração em que o verbo está subentendido, oculto ou mentalizado. Essa omissão dá-se geralmente devido à lei do menor esforço: se o termo é claramente entendido, embora não explícito, deixa de ser enunciado e o sentido não se prejudica. A proposta teórica focalizada nesta página, de autoria do professor Francisco Dequi, consiste em uma das teses apresentadas na obra mencionada logo abaixo, da qual foram retirados alguns dos exemplos de frases aqui registrados. Contatos com o mestre podem ser estabelecidos através do saite http://www.ipuc.com.br/portugues/ .

Dica nº 152 Vemos com freqüência essa expressão inadequada ser empregada por pessoas desatentas, inclusive por locutores e apresentadores de televisão. E por que é indevida? Vejamos: segundo o Aurélio, um dos sentidos de “caro” é: que custa preço alto ou elevado. Portanto, “caro” já significa preço alto, ou seja, seu significado já contém a idéia de preço. Se, na expressão “preço caro”, substituirmos “caro” por seu equivalente (“preço alto”), teremos a redundância “preço preço alto”. Não faz sentido, não é? O mesmo vale para “barato”. Em conseqüência, utilizemos frases, expressões e palavras coerentes, que tenham sentido. No caso, “preço alto, elevado”, “preço baixo, reduzido” ou simplesmente digamos que tal ou qual produto, serviço ou atitude são ou estão caros ou baratos: “O ingresso tem preço alto”, “Esse casaco está barato”, “Ela vai pagar caro (preço alto) pelo erro”, “As verduras na banca do Cícero não são baratas”, etc. Repare ainda o seguinte: 1. “Caro” ou “barato” são adjetivos quando se vinculam a substantivos, com os quais concordam em gênero e número: “Este livro é caro”, “A alface está barata, “Nossos produtos são baratos”, “As casas da imobiliária Xis são caras”. 2. Quando modificam verbos, “caro” e “barato” são adjetivos em função adverbial e não se flexionam, ou seja, ficam invariáveis, na forma masculina. Nesta hipótese, equivalem a “caramente” e “baratamente”: “Gisele vai pagar caro (caramente, de modo caro) pela atitude desleal”, “Muitas vezes, o barato sai caro (de modo caro)”, “Não vou deixar barato (baratamente, de modo

barato) essa injustiça” e “Vendemos barato (baratamente, de modo barato) o carro”.

Dica nº 153 Sobre o "não" A palavra “não” classifica-se normalmente como advérbio (de negação) e dessa forma, na estrutura da frase, é considerada adjunto adverbial – pois se vincula ao verbo –, como em “Não ® pise no tapete”, “Pensei que Leo não ® viesse hoje” e “Os paulistas não ® gostamos de coentro”. Pode acontecer também de esse vocábulo negativo compor substantivos. Nesta hipótese, funciona como elemento de composição, mais precisamente como morfema de negação, e é escrito sempre com hífen. Exemplos: “Gandhi pregava a não-violência”, “O Brasil apóia a política da não-intervenção em outros países” e “Esse conceito obedece o princípio da não-contradição”. Repare ainda que às vezes o “não” pode aparecer em contextos similares aos do parágrafo precedente e você pode ser tentado a colocar o hífen depois dele. Fique atento a isso, pois, na verdade, trata-se de outro caso, o de verbo subentendido, como em “Tânia é pessoa não submissa” e “Não satisfeito, ele ainda rompeu relações com o vizinho”. Explicitado o verbo, as construções oracionais ficam: “Tânia é pessoa que não é submissa” e “Não tendo ficado satisfeito, ele ainda rompeu relações com o vizinho”. Naquelas condições, não cabe, pois, o hífen. Lembramos ainda que o “não” pode ser classificado como substantivo (e nesse caso pode-se flexionar) se antecedido de artigo – definido ou indefinido –, adjetivo ou numeral, como em “O (artigo definido) não que você proferiu foi vigoroso, hem?”, “Recebi um (artigo indefinido) não como resposta”, “Rodrigues distribuiu vários (adjetivo) nãos aos subordinados” e “Eu não disse dois, foi apenas um (numeral) não”. Finalmente, observamos haver contextos em que o “não” funciona apenas como partícula expletiva, como nestes exemplos: “Imagine o que ele não faria se fosse rico” = “Imagine o que ele faria se fosse rico”; “Veja a que nível de baixaria essas pessoas não chegaram” = “Veja a que nível de baixaria essas pessoas chegaram” e “Ah, que sucesso eu não faria se tivesse a cara do Brad Pitt!” = “Ah, que sucesso eu faria se tivesse a cara do Brad Pitt!”. Nestes contextos, o emprego do “não” é estilístico. Isso implica ele poder ser retirado sem alteração do sentido geral do texto, mas se isso ocorrer a frase perderá um pouco de sua força expressiva.

Dica nº 154 Grafia de topônimos estrangeiros A grafia dos topônimos (nomes de lugares) estrangeiros compreende três tipos:

1. Nomes que possuem tradução em português – Se o topônimo estrangeiro tem nome equivalente em nossa língua, este deve ser utilizado. Assim, Londres em vez de London; Estocolmo em lugar de Stockholm; Copenhague em vez de København; Viena e não, Wien; Moscou e não, MOCKBA. 2. Nomes que não possuem tradução em português, mas podem ser aportuguesados – Deve-se sempre aportuguesar a forma original do topônimo estrangeiro não traduzido, se isso for possível: Tóquio e não, Tokyo; Xangai e não, Shangai; Nova Iorque em vez de Nova York, Banguecoque em lugar de Bangkok; Helsinque e não, Helsinki. 3. Nomes que não possuem tradução em português nem são usualmente aportuguesados – Estes se escrevem na forma original, se a língua é escrita em caracteres latinos, ou de forma transliterada, caso o idioma utilize outro tipo de caracteres. É o caso de Los Angeles (EUA), Karachi (Paquistão), Kampala (Uganda), Tashkent (Usbequistão). Outros topônimos, como Osaka (Japão) e Curuzu (Paraguai), deveriam ter sido aportuguesados há muito tempo como Oçaca e Curuçu, o que teria evitado a pronúncia incorreta de “Ozaca” e “Curuzu” (com “z”), pois, na prática, a sonoridade original desses nomes é na realidade “s” e não, “z”.

Dica nº 155 Esperto vs. experto Esse par de homônimos pode eventualmente levar-nos a pensar haver erro onde não há. Ambos podem ser adjetivos e substantivos. Vejamos os sentidos dessas palavras na condição de substantivos em diferentes contextos: • Esperto – Indivíduo astuto e malicioso. Espertalhão. Exemplos: “O mundo é dos espertos” e “Não quero esperto como sócio”. Experto – Pessoa dotada de grande habilidade ou conhecimento. Especialista. Nesta última acepção, equivale a “perito”. Exemplos: “Procure ouvir a opinião de algum experto” e “O experto sabe distinguir os diferentes tipos de ouro”.

Muitas vezes, deparamos com o emprego, em textos em português ou mesmo na conversação, da forma inglesa “expert”. Evidentemente, trata-se de desconhecimento ou, o que é pior, de comportamento colonizado, já que possuímos a forma vernácula a disposição. O curioso é que aquela palavra, tal qual a portuguesa, provém da mesma fonte: o latim “expertu”.

Dica nº 156 Dia a dia/dia-a-dia A escolha dessas duas causa freqüentes dúvidas. Vamos esclarecer:

A locução adverbial “dia a dia” (sem hífen) significa todos os dias, cada dia e exerce a função sintática de adjunto adverbial, como em "Ela trabalhou dia a dia (dia após dia) com muita dificuldade" e “Antigamente, o custo de vida subia dia a dia”. Observe que esse sintagma não vem determinado por artigo ou pronome. Já a forma com hífen é substantivo composto e quer dizer diário, cotidiano e pode exercer várias funções sintáticas. Em "Esta roupa é destinada ao uso no dia-a-dia", "dia-a-dia" é adjunto adnominal; em "O dia-a-dia do trabalhador das minas é muito árduo", o composto integra o sujeito "O dia-a-dia do trabalhador das minas"; em “Considero que o dia-a-dia daqueles estudantes é equilibrado”, a função é a de objeto direto; em “Não é raro isso ocorrer no dia-a-dia das pessoas”, adjunto adverbial; e assim por diante. Então, para fixar: • Dia a dia (sem hífen) – Locução adverbial. Funciona como adjunto adverbial e assim vincula-se geralmente a verbos. Não é precedida por artigo ou pronome e significa todos os dias, cada dia. Dia-a-dia (com hífen) – Substantivo composto. Funciona como sujeito, complemento, adjunto adnominal ou adverbial. Geralmente, é antecedido por artigo ou pronome e quer dizer diário, cotidiano.

Dica nº 157 Através de O emprego dessa locução prepositiva costuma suscitar dúvidas e controvérsias, além de muitas vezes ela ser utilizada de forma incorreta. Vejamos como a norma culta prescreve seu uso. Em primeiro lugar, não nos esqueçamos de esse grupo vocabular ser escrito com “s” final. Em segundo lugar, deve ficar claro que, para atender-se ao que recomenda a Gramática, não é possível a utilização de “através” sem a necessária preposição “de”: “através de”. Por isso, são incorretas frases como “Ouvi a notícia através o rádio”. Depois, desfaçamos aqui equívoco em que incorre muita gente desavisada, que não se aprofunda no estudo e “chuta” opiniões sem base: dão vazão ao mito segundo o qual a locução “através de” só pode ser empregada com o sentido de de um lado para o outro, ou seja, com idéia física de movimento de lado a lado. Essas pessoas ignoram que a língua evolui e que o sentido das palavras e expressões altera-se conforme a vontade do grupo falante. Além do mais, “através de”, com a equivalência de “por meio de”, “mediante” é abonada por escritores consagrados. E ainda: entre os gramáticos eméritos brasileiros, um dos mais conservadores e intransigentes foi o mestre Napoleão Mendes de Almeida. Pois bem, em seu “Dicionário de questões vernáculas”, ele escreve sobre o assunto:

“Se constitui erro empregar através de para indicar o agente da passiva (O gol foi feito através do jogador Tal), não se deve por outro lado cair no exagero oposto de julgar que a locução só é possível quando significa ‘de um lado para o outro’, ‘de lado a lado’ (Passou através da multidão – Passou a espada através do corpo). Não vemos erro em: ‘A palavra veio-nos do latim através do francês’”. Portanto, podemos escrever com acerto: “Conheci Denise através de apresentação do Cláudio”, “Os vocábulos oriundos do latim vulgar sofreram muitas alterações através das mudanças fonéticas” e “As instruções vieram-nos através dos canais hierárquicos”. Finalmente, os puristas condenam o emprego dessa locução no agente da passiva. Segundo eles, devemos evitar construções do tipo “Esses nomes foram popularizados através dos meios de comunicação” e “A orientação foi transmitida através do gabinete pessoal”, em que “meios de comunicação” e “gabinete pessoal” são agentes da passiva. Na estruturas sucedâneas, pode ser utilizada a preposição “por”: “Esses nomes foram popularizados pelos meios de comunicação” e “A orientação foi transmitida pelo gabinete pessoal”.

Dica nº 158 Grafia e flexão de adjetivos pátrios de origem estrangeira Há quem queira sobrepor-se às regras ortográficas e gramaticais e criar escritas peculiares e normas próprias de flexão – ou não-flexão – dos adjetivos pátrios de origem estrangeira, mormente indígenas e africanos. Incorrem em equívoco os que assim procedem, como se ramos acadêmicos, em especial os influenciados por outras línguas, tivessem autoridade para divergir da norma ortográfica – decorrente de lei aprovada pelo Congresso Nacional – e criar padrões de funcionamento da língua. Em primeiro lugar, lembremo-nos da regra ortográfica pela qual o fone [s] em posição medial e o [ž] (som de “j”) em posição inicial e medial grafam-se “ç” e “j”, respectivamente. (Para ler mais, clique aqui.) É o caso de “açaí”, “jibóia” e “Seriji”. Lembremo-nos também de que o alfabeto brasileiro não contém as letras “k”, “w” e “y”, salvo se a próxima e prometida reforma ortográfica as restaurar. Por isso, não cabe grafar “kadiweu” ou “yanomami”. Nem o argumento de assim ter de se escrever porque assim se escreve nos idiomas originais procede, uma vez que as línguas faladas por essas etnias são ágrafas, isto é, tradicionalmente não têm escrita. Outro argumento, que não se sustenta, é o de que as grafias com aquelas letras vão facilitar a leitura em outros países. Tenham a paciência! Os autores de livros, revistas e jornais dessas plagas que assim façam, mas não nos submetamos servilmente a usos alienígenas. O fato de lingüistas estrangeiros terem elaborado gramáticas de línguas indígenas brasileiras não nos obriga a acatar as grafias de seus idiomas de origem, particularmente o inglês. Estamos no Brasil (alguém se esqueceu?), cuja língua oficial é o português, que tem norma ortográfica própria, a ser respeitada. Ela

prescreve que, sempre que possível, devem-se adaptar ao padrão ortográfico brasileiro as palavras estrangeiras, inclusive as indígenas, que, embora faladas por indivíduos nativos, residentes no território brasileiro, são consideradas estrangeiras em relação ao português. Por isso, não tem a menor importância o fato de parte de alguns povos indígenas fixar-se em território nacional, parte em terras de países vizinhos nem de ora estarem aqui, ora lá. Então, escrevamos “cadiuéu”, “caiouá”, “macuxi” e “ianomâmi”, como escrevemos, de há muito, “asteca” (e não, “azteca”), “maia” (e não, “maya”), “carajá”, “maué” e “iorubá” (e não, “yoruba”). Há ainda a questão da letra – maiúscula ou minúscula – com que se escrevam esses nomes. Pessoas há que querem, seguindo a moda inglesa, que eles sejam iniciados com letra maiúscula. O argumento, equivocado, é o de que o nome com inicial maiúscula designaria o conjunto da coletividade. Isso não procede. Se um povo indígena habitasse território autônomo (como devem querer interesses estrangeiros), este receberia nome que seus habitantes ou quem quer que fosse daria, como por exemplo “Taurepânguia” (terra dos taurepangues). A verdade é que o uso da inicial maiúscula nos nomes designativos desses povos obedece o modelo inglês. Outro ponto de discórdia refere-se à flexão de número dessas palavras. Seguindo costumes alienígenas, muitos querem que esses nomes não se flexionem e que se diga “os xavante”, “os bororo”. Não há alegação racional que sustente essa prática. A assim proceder, deveríamos, por coerência, dizer “os francês”, “os russo” e “os mexicano”, aliás, como fazem os falantes incultos aqui em nossa terra. Os adjetivos pátrios – inclusive os substantivados – flexionam-se segundo as regras a que se submetem os demais adjetivos. O mestre Napoleão Mendes de Almeida afirma com propriedade que “as palavras estrangeiras, usadas em nossa língua, devem adaptar-se, o quanto possível e o permitir o uso, à forma gráfica portuguesa; uma vez consolidado o aportuguesamento gráfico do estrangeirismo, fácil será flexionar-se numericamente” (ALMEIDA, 1999, 234, 3-5). Nomes ameríndios, brasileiros ou não, africanos ou de outras procedências devem, portanto, flexionar-se no plural sempre que possível. Se pluralizamos “asteca” (pirâmides astecas, os astecas), “maia” (cidades maias, os maias), “inca” (caminhos incas, os incas, ainda que se questione o uso dessa palavra para denominar aquele povo), “iorubá” (deuses iorubás, os iorubás), “hindu” (templos hindus, os hindus), por que não fazer o mesmo com “guarani”, ”xavante”, “carajá”, “bororo”, “ianomâmi”, “macuxi”? Se por acaso o nome de alguma etnia indígena terminar com “s”, não há problema. Fica assim mesmo também no plural, como acontece com nomes portugueses, como “lápis”, por exemplo. O fato é que, em última análise, os argumentos assestados para justificar usos injustificáveis acabam disfarçando aquilo que quem é do ramo facilmente percebe: a sujeição – que repudiamos – a práticas ortográficas e gramaticais estrangeiras (leia-se inglesas) em detrimento do vernáculo. Os venerandos acadêmicos da Academia Brasileira de Letras deveriam, além do deleite do chá das cinco, ficar mais atentos ao que se passa com nossa língua e tomar as providências que não tomam.

Dica nº 159 Distinção entre “um” numeral e “um” artigo Na prática, descobre-se que "um" é numeral cardinal quando admite o acréscimo de "só", "apenas", "único", como em "Um só homem é suficiente para erguer isso" ou "Apenas um homem é suficiente...". Veja também que o “um” numeral pode ser substituído por “dois”, “três”, “quatro”, etc. Assim, “Tomei um banho terapêutico ontem e mais um hoje. Portanto, tomei dois banhos”. Quando se trata de artigo indefinido, “um” tem por plural “uns” e sua contraparte é o adjetivo “outro”: “Fiquei conhecendo um advogado de que há muito ouvia falar” e “Fiquei conhecendo uns advogados de que há muito ouvia falar”. E mais: “Vou tomar um banho hoje/Vou tomar uns (alguns) banhos hoje”. E ainda: "Um quer vinho; outro, cerveja". Neste último exemplo, “um” significa alguém, uma pessoa. No geral, o artigo indefinido pode ser suprimido sem prejuízo para a clareza, como em “Estamos preparando um relatório para o diretor” e “Tenho uma coisa para contar-lhe”. Sem o artigo, as orações ficam: “Estamos preparando relatório para o diretor” e “Tenho coisa para contar-lhe”. Com a supressão do indefinido, não só o sentido do texto mantém-se preservado como se verifica melhora na qualidade da escrita. (Leia também sobre isso clicando aqui.) Quando alguém me diz que vai tomar "um banho", pergunto brincando: "Um ou dois?". Aí ocorre trocadilho com "um", artigo e numeral. Devemos reconhecer que às vezes não se torna fácil a distinção de que tratamos. Assim, em “Vi um homem na estrada”, o “um” tanto pode ser considerado numeral (vi apenas um homem) como indefinido (vi um homem = vi certo homem). O mesmo se passa com “Peguei um CD na estante, está bem?”. O contexto ampliado ajudará a precisão do sentido textual. Dica nº 160 Divisão dos textos de leis, estatutos e regulamentos Às vezes, as pessoas têm dúvidas sobre a ordem que deve nortear a divisão dos textos de leis, estatutos e regulamentos. Vamos esclarecer então. Depois das macrodivisões, como partes, títulos, capítulos e seções, o usual é encontrarmos as seguintes microdivisões, no texto oficial, nesta ordem: 1. Artigos – São discriminados por números arábicos. Até nove, empregam-se ordinais e de dez em diante, cardinais, assim: artigo 5.º, artigo 9.º, artigo 10, artigo 25, etc. Observe a abreviação dos números ordinais, cuja grafia exige o ponto abreviador, conforme a norma ortográfica brasileira. Lembre-se de que se você escrever “5º”, em vez de “5.º”, deverá ler “cinco graus”. Vale o que está escrito. Outra coisa: o cabeçalho do artigo é chamado pela palavra latina “caput”, que neste contexto significa parte superior.

2. Parágrafos – São detalhamentos e esclarecimentos dos artigos e representam-se pelo sinal “§”. A este segue-se o número ordinal respectivo abreviado até nove. De dez em diante, os números são cardinais. Dessa forma, § 2.º, § 4.º, § 10, etc. Se só há um parágrafo, escreve-se “parágrafo único”. 3. Alíneas – São divisões dos artigos ou dos parágrafos. Geralmente, indicam-se por letras minúsculas seguidas de parêntese fechando: a), b), c), etc. Quando, fora do texto oficial, referimo-nos às alíneas, grafamo-las entre aspas, assim: “De acordo com o que consta na alínea ‘b’, acima, ...”. Aqui, a letra da alínea foi escrita entre aspas simples porque a frase já estava entre aspas. 4. Incisos – São divisões das alíneas e indicam-se, geralmente, por algarismos romanos: I, II, III, etc. Exemplifiquemos: “Art. 4.º – Os procedimentos para se efetivarem as promoções são os previstos no Regulamento Geral, observado que: a) as três últimas avaliações de desempenho não devem conter qualquer restrição ao funcionário; b) exarado o parecer da Comissão de Promoções, será ele levado para a diretoria de Pessoal para análise; c) a diretoria de Pessoal confirmará os nomes dos promovidos levando em conta um dos seguintes critérios: I. A capacidade do servidor, atestada pela avaliação; II. O tempo líquido de serviço do funcionário.”. Agora, exemplo em que figuram parágrafos: “Art. 11 – A Associação será administrada por uma diretoria composta de DiretorPresidente, Diretor-Secretário, Diretor-Tesoureiro, Diretor de Relações Públicas e Sociais e Diretor de Patrimônio. § 1.º – A Associação poderá contar com o auxílio de assessores em número ilimitado, que ficarão vinculados a quaisquer diretorias. § 2.º – Cada assessor será indicado por um diretor e deverá ter seu nome aprovado em reunião da diretoria. § 3.º – Os assessores exercerão atividades de consultoria e participarão das reuniões da administração social quando convidados, nas quais não terão direito a voto, conforme a seguir: a) as participações dos assessores não terão custos para a Associação; b) os pareceres dos assessores deverão ser apresentados por escrito e entregues ao diretor respectivo, conforme o ‘caput’ deste artigo, e serão: I. Redigidos através de computador e impressos em papel A4. II. Entregues em duas vias. III. Protocolados pela Secretaria.”.

Quando precisamos nos referir a essas divisões, podemos ordená-las do geral para o particular ou do particular para o geral, como nos seguintes exemplos: • Nossa posição está embasada no artigo 4.º, § 3.º, alínea “c”, inciso IV. • Refiro-me ao inciso IV da alínea “c” do § 3.º do artigo 4.º.

Dica nº 161 Concordância e ordem direta A sintaxe portuguesa estabelece a seguinte ordem, considerada “natural”, dos termos essenciais da oração: sujeito, predicado e complemento. É a ordem direta. O estudo em boa gramática esclarecerá o sentido desses termos técnicos. Tal estudo revelará também quais os tipos de ajuste – a concordância – que deve haver entre aqueles termos. Assim, a concordância é verbal quando o verbo se harmoniza com o sujeito e nominal, quando o adjetivo se ajusta ao substantivo; o predicativo, ao sujeito e o pronome, ao nome a que se refere. O que nos interessa agora é saber como a ordem direta ajuda a precisar a concordância, tanto a verbal como a nominal. Comecemos pela verbal. Muitas vezes, ficamos em dúvida ou mesmo incorremos em erro de concordância por estarem aqueles termos na ordem inversa. É o caso de “Consta algumas informações importantes no texto”. Localizamos o sujeito perguntando ao verbo quem ou o que praticou tal ou qual ação ou quem está em determinado estado. Sobre a oração acima, interrogamos: o que consta? A resposta é: algumas informações importantes. Portanto, o sujeito dessa oração é “algumas informações importantes”, que está posicionado depois do predicado – na ordem inversa, pois –, este constituído da forma verbal “consta” e do adjunto adverbial “no texto”. Na ordem direta, a construção fica: “Algumas informações importantes consta no texto”. Vemos então que alguma coisa está errada: se o sujeito está no plural, o verbo – que deve concordar com ele – precisa também ficar no plural. Em conseqüência, mantida a ordem inversa, temos: “Constam algumas informações importantes no texto”. Vejamos a oração “Há de concorrer para isso, certamente, além da fé, outros fatores que proporcionam estabilidade emocional às pessoas”. A antecipação do predicado e seu distanciamento do sujeito facilitam a falta de concordância. Vamos pôr os termos da oração principal em seus devidos lugares, ou seja, na ordem direta: “Outros fatores há de concorrer certamente para isso além da fé”. Não há concordância, vê-se claramente. O sujeito plural, “outros fatores”, requer o verbo também no plural. Por isso, temos de construir “Outros fatores hão de concorrer certamente para isso além da fé”. Outro exemplo: “Que entre os bons, pois os melhores estão saindo". Parte da estrutura está na ordem inversa. É só pormos os termos na ordem direta e a concordância torna-se clara: “Que os bons entrem, pois os melhores estão saindo".

Como o sujeito é plural, "os bons", o verbo deve necessariamente concordar com ele e também ir para o plural: "entrem". Agora, dois exemplos de concordância nominal: Tomemos a oração “Foi dado ciência ao delegado de plantão". Coloquemo-la na ordem direta: “Ciência foi dado ao delegado de plantão”. Não está certo, não é? O correto, pois, é "Ciência foi dada ao delegado de plantão" ou, na ordem anterior, "Foi dada ciência ao delegado de plantão". É o mesmo caso de "Foi dada voz de prisão". Nos dois exemplos, o particípio (dada), que integra o predicativo, tem função adjetiva e por isso concorda com o substantivo ao qual se liga (ciência, voz de prisão). Concluímos que na ordem direta isso fica mais evidente. Mais esta: "Vem sendo apresentada inúmeras denúncias de mau comportamento". Na ordem direta, a oração fica: "Inúmeras denúncias de mau comportamento vem sendo apresentada". Constatamos claramente que o predicativo (apresentada) não concordou com o sujeito (inúmeras denúncias de mau comportamento), como deveria. Notamos também que não houve concordância verbal, pois a forma “vêm” é que precisaria ser empregada para concordar com o citado sujeito. A construção correta, portanto, é "Vêm sendo apresentadas inúmeras denúncias de mau comportamento". Então, você já sabe: quando tiver dúvida sobre concordância, verifique se os termos da oração encontram-se na ordem direta. Se não estiverem, ponha-os – sujeito, predicado (verbo) e complemento – e as coisas ficarão mais claras.

Dica nº 162 O artigo definido e a determinação do substantivo Fator importante para a compreensão dos textos é a leitura atenta da presença ou ausência do artigo definido: “o”, “a”, “os”, “as”. Na elaboração textual, a colocação ou não de exemplares dessa classe de palavras vai, em alguns casos, ser fundamental para a ocorrência da crase. Comecemos por constatar que o artigo definido determina o substantivo, ou seja, indica que se trata de algo ou alguém determinado, que se conhece, como em ‘Vejo o pai da Vanessa" e “Trata-se da Sílvia, a ruiva mais linda da capital federal”. Se só há uma secretaria, podemos dizer que “Jair perguntou onde ficava a Secretaria da escola”. Do mesmo modo, o artigo acompanha nome de que se sabe ou de que já se falou antes. Assim, construímos “Emerson estava com um copo de vinho na mão quando Tânia se aproximou. Continuou a segurar o copo e olhou-a nos olhos” e “Afonso estava no zoológico com o garoto Adilan, diante da jaula do leão. O pai explicou calmamente ao filho alguns hábitos do felino”. Se pergunto “Onde está o dinheiro?”, depreende-se que se trata de dinheiro do qual já se sabe. E mais: “É o presidente mais popular da história do País”. Por já se saber de qual país se trata, usa-se o artigo e coloca-se “P” em “País”. “Conheço Hamilton desde os tempos do

colégio” e “Acho que Daisy estava com problema na cabeça”. Sabemos de qual colégio estamos falando. Quanto a Daisy, a referência é obviamente à cabeça dela, pois não poderia estar com problema na cabeça dos outros. Tratando-se de pessoas, quando não se tem conhecimento ou intimidade suficiente ou se quer manter alguma distância formal, não se usa o artigo, como em “A dissertação de Carlos Mamede (em vez de “do Carlos”) teve aprovação unânime” e “Foi eloqüente a fala de dom João Braz de Aviz” (e não, “do dom João”). Usa-se também o artigo definido quando queremos passar a idéia de totalidade e não, de parte dela, como neste exemplo que vimos há pouco: “O pai explicou calmamente ao filho os hábitos do felino”. Se a estrutura fosse “O pai explicou calmamente ao filho hábitos do felino”, sem o “os”, entenderíamos que teriam sido explicados parte dos hábitos e não, todos. É o mesmo caso de “Vi os empregados saírem”. Caso escrevêssemos “Vi empregados saírem”, a referência seria apenas a parte dos empregados e não, a todos.

Veja agora mais dois casos de uso ou não do artigo definido. Repare na diferença entre “Felipe vai voltar para casa” e “Felipe vai voltar para a casa”. Na primeira frase, queremos dizer que Felipe vai voltar para o lar, para o lugar em que mora, independentemente do tipo de construção de que se trate. Já na segunda, a volta é para o tipo de edificação denominado “casa”, de um ou dois pavimentos, da mesma forma que diríamos “Felipe esteve na casa”. Contudo, se acrescentarmos algum qualificativo, tal oração poderá readquirir o primeiro sentido, como em “Felipe vai voltar para a casa dos pais”, em que não se sabe se se trata de casa térrea ou apartamento. Concluímos, pois, que no sentido de lar, lugar onde se mora, “casa” geralmente não é acompanhada de artigo: “Ficaremos em casa”, “Saímos de casa”. Examinemos agora outro aspecto: quando o emprego ou não do artigo feminino acarreta a colocação ou ausência do acento grave indicador de crase. Em “Dirigiuse a alunas da classe” (parte das alunas), o “a” é preposição, que faz parte da regência do verbo “dirigir-se“ (dirigir-se a algum lugar). Se, porém, dizemos “Dirigiu-se a + as alunas da classe”, quero dizer que alguém dirigiu-se a todas as alunas da classe. Neste caso, o “a” preposição vai-se fundir com o “as”, artigo, por crase: “Dirigiu-se às alunas da classe”. Outro exemplo é “O fiscal referiu-se a maçãs da banca do Cícero”. Não foi utilizado o artigo definido feminino antes de “maçãs” e assim entendemos que o fiscal se referiu a algumas maçãs apenas. Entretanto, se empregamos o artigo, o entendimento é o de que o fiscal referiu-se a todas elas. Aí haverá crase também: “O fiscal referiu-se a + as maçãs da banca do Cícero = O fiscal referiu-se às maçãs da banca do Cícero”. Às vezes, usamos o artigo definido em caráter expressivo, para realçar algo ou alguém, como em “Ele não é apenas bom, ele é o bom” e “João Guimarães é o cara”. Vieira possui trecho muito elucidativo do que ora falamos: “Os outros também eram seus filhos, não o negara Jacó; mas o seu filho era José. Vai muito de ser filho a ser o seu filho” (ALMEIDA, 1999, § 243, Obss., 1.ª). Celso Cunha chama este uso de “artigo de notoriedade”.

É bom ficar claro que não se explorou nesta página toda a teoria do artigo, mesmo do definido. O foco foi dado apenas na função determinativa dessa classe de palavras. Para conhecimento completo do assunto, é necessário seu estudo em boa gramática, como as abaixo indicadas.

Dica nº 163 Invariabilidade do advérbio Todos nós estudamos e os professores ensinamos que o advérbio é classe de palavras invariável. Assim, ele não se flexiona em gênero (masculino/feminino) nem em número (singular/plural). Consta também que o advérbio, por ser invariável, não está sujeito a variações de grau (diminutivo, aumentativo, superlativo). Entretanto, não é isso que se vê no dia-a-dia da língua. Há uma série de variações de grau que atingem o advérbio, palavra que se pode situar no grau comparativo e no superlativo. Assim, podemos, com uso de advérbio, expressar idéias de comparação de igualdade (com auxílio de “tão” e “como” ou “quanto”), superioridade (valendo-nos de “mais” e “que” ou “do que”) e inferioridade (com emprego de “menos” e “que” ou “do que”): “Norma chegou tão cedo como (ou “quanto”) Mercedes”, “Norma chegou mais cedo que (ou “do que”) Mercedes” e “Mercedes chegou menos cedo que (ou “do que”) Norma”. O advérbio pode ainda variar no grau superlativo: “Nas férias, Gabriel estudou pouco e Vanessa, pouquíssimo”, “O Corinthians vai muitíssimo bem” e “O foguete subiu rapidissimamente”. O advérbio assume amiúde a forma diminutiva mediante o emprego dos sufixos “inho” ou “-zinho”. Veja se não lhe parecem familiares frases como “Daniela saiu agorinha mesmo”, “Luzia finalmente conseguiu ficar juntinho de Joaquim”, “O navio partiu cedinho”, “A biblioteca fica pertinho da reitoria”, “O sítio do Nelson é bem longinho daqui”, etc. Nesses casos, os falantes, ao arrepio da vontade dos gramáticos, aplicam, com função enfática, o diminutivo nesses advérbios. Em outras palavras, põem ênfase neles. Em conseqüência, as idéias que essas formas adverbiais transmitem adquirem mais intensidade: “agorinha = exatamente agora, há poucos minutos”, “juntinho = muito junto, bem próximo”, “cedinho = muito cedo”, “pertinho = muito perto”, “longinho = um bocado longe”. Os doutores da língua consideram serem essas formas próprias da linguagem familiar ou coloquial e, conseqüentemente, recomendam sejam evitadas no padrão formal. Contudo, elas já se começam a insinuar nos textos de escritores conhecidos. A “Nova gramática do português contemporâneo” oferece vários exemplos delas: “Vem cedinho, vem logo que amanheça!” (E. de Castro, “Últimos versos”).

“Era mais de meia-noite quando ele entrou lento, devagarinho” (Coelho Netto, “Obra seleta”). “Só faltaram os mapas de Marte, diz baixinho” (M. J. de Carvalho, “Tempo de mercês”). Neste exemplo, “baixo” é adjetivo em função adverbial, já que modifica a flexão verbal “diz”. Leia mais sobre isso clicando aqui.

Por tudo o que há pouco vimos, melhor seria os especialistas reverem o conceito de invariabilidade do advérbio. Poderiam inclusive admitir como correta, ainda que de forma limitada, mas também na escrita, a flexão da citada classe de palavras.

Dica nº 164 Ditongos crescentes e decrescentes Os ditongos podem-se classificar de acordo com três diferentes critérios. Um deles baseia-se na posição da vogal tônica do ditongo e da semivogal na estrutura da sílaba. Vale lembrar que no ditongo existem sua vogal tônica – que não é necessariamente a tônica da palavra – e a semivogal. Assim, em “ca-ra-gua-tá”, o “a” assinalado é a vogal tônica do ditongo /wa/ e não é a tônica da palavra, que é o último “a”, em “tá”. Dizemos “vogal tônica do ditongo” porque, na verdade, a semivogal é também vogal. Então, no ditongo, há a vogal tônica e a semivogal, átona. Muito bem: pelo critério acima mencionado, os ditongos classificam-se em crescentes e decrescentes. O que vem a ser isso? Veremos já. Na estrutura da sílaba, existem três posições: o ápice ou centro da sílaba – sempre ocupado por vogal – e as encostas ou laterais: o aclive, a encosta em que se situa o fonema ou fonemas que antecedem a vogal, e o declive, encosta em que se localiza o fonema ou fonemas que a seguem. Vejamos como isso se passa em alguns exemplos de estrutura da sílaba::

Saiba que nem todas as sílabas possuem fonemas nessas três posições: há sílabas que têm fonema no aclive e ápice (“pa”, em “ca-pa”); outras, no ápice e declive (“ar”, em “ar-co”) e outras só no ápice (“a”, em “a-mor”). Agora, você vai ver alguns exemplos de fonemas na estrutura de sílabas que apresentam elementos nas três posições. Tomemos, nas palavras “bo-lor”, “fil-tro” e “de-mais”, as sílabas “lor”, “fil” e “mais”. No alfabeto fonético (que representa

tecnicamente os fonemas), elas são escritas /lor/, /fil/ e /mays/. Vejamos agora como essas sílabas dispõem-se nos diagramas que as representam:

Repare que as vogais sempre ocupam o ápice ou centro da sílaba. Nesta altura, você deve-se estar perguntando: ué, onde estão os ditongos crescentes e decrescentes? Calma, estamos quase chegando lá. A explicação que acabou de ser dada é necessária para o entendimento do que vem a seguir. Acreditamos você haver notado que o último exemplo de sílaba – /mays/ – contém ditongo. Se pensou isso, acertou. Realmente, na sílaba /mays/, existe o ditongo /ay/. Observe que, no diagrama, a vogal, /a/, do ditongo ocupou o ápice e a semivogal, /y/, o declive. É assim mesmo que as coisas se passam: a vogal tônica do ditongo está sempre no ápice ou centro da sílaba e as semivogais (/y/ = “i” ou /w/ = “u”), no aclive ou declive. Bem, agora chegamos ao ponto que interessa: a posição, na estrutura da sílaba, dos fonemas que compõem os ditongos. Sejam as palavras “de-pois”, “co-meu”, “i-gual” e “gló-rias”. No alfabeto fonético, as sílabas assinaladas são escritas assim: /poys/ - /mew/ - /gwal/ - /ryas/. Sua estrutura é a mostrada pelos seguintes diagramas:

Você, com sua esperteza, já percebeu que todas essas sílabas contêm ditongos. Pois é isso mesmo. Na sílaba 1, o ditongo é /oy/ = oi; na 2, é /ew/ = eu; na 3, /wa/ = ua e na 4, /ya/ = ia. Pela observação dos diagramas, constatamos que nas sílabas 1 e 2 a semivogal está no declive. Portanto, depois da vogal, que está no ápice. Então, da posição em que estão as vogais /o/ e /e/ até o declive, onde se encontram as semivogais /y/ e /w/, há decréscimo, ou seja, descemos. Já nas sílabas 3 e 4 vemos que as semivogais estão no aclive; portanto, antes da vogal, que está no ápice. Da posição em que se localizam as semivogais /w/ e /y/ até o ápice, onde está a vogal /a/, há subida, isto é, crescimento. Agora, ficou fácil entender por que se diz que os ditongos podem ser “crescentes” e “decrescentes”, não ficou? Assim, o ditongo é crescente quando a semivogal está no aclive, antes da vogal e, portanto, cresce-se da encosta (aclive) para o topo

(ápice) da sílaba. Ele é decrescente quando a semivogal situa-se no declive, depois da vogal e desse modo decresce-se do ápice para a encosta (declive) da sílaba. Você pode ainda perguntar: cresce e decresce o quê? A intensidade da emissão sonora: da semivogal (fraca) para a vogal (forte) há crescimento da intensidade do som vocal. Da vogal (forte) para a semivogal (fraca), há decréscimo. Exemplos de mais palavras que contêm ditongos crescentes: “á-gua”, “ân-sia”, “lírio”, “qua-se”, “sa-güi”, etc. Palavras em que há ditongos decrescentes: “boi”, “con-tei”, “fu-giu”, “rou-pa”, “sau-da-de”, etc. A compreensão de tudo isso certamente ajuda a entender uma das regras de acentuação gráfica, a que diz que as palavras paroxítonas terminadas em ditongo crescente são sempre acentuadas, caso dos exemplos já vistos “água”, “ânsia”, “lírio”, etc. Para ler mais sobre esse tema, clique aqui.

Dica nº 165 Emprego do sufixo “-dade” (“-idade”) O sufixo “-dade” é acrescido a adjetivos para formar substantivos que expressam a idéia de estado, situação ou quantidade. Vamo-nos concentrar nos dois primeiros conceitos e desse modo temos “igual + dade = igualdade”, “leal + dade = lealdade”, “mal + dade = maldade”, etc. Ao receber tal sufixo, os adjetivos terminados em “-az”, “-iz”, “-oz” e “-vel” reassumem a forma latina, uma das quais é “-bil”. Assim, o adjetivo “amável” forma o substantivo que a ele se refere retomando a forma que tinha no latim: “amabile”, sem o “e” final: “amabil-“. Soma-se a ele o sufixo “-dade”, desta forma: “amabil + idade = amabilidade”. Você vai estranhar: ué, mas o sufixo não é “-dade”?! Como temos aí “amabil-idade”? É que – e as principais gramáticas brasileiras não falam nisso – nesse caso é acrescida vogal de ligação por motivo de eufonia e facilidade de pronúncia. Então, ora podemos ter o sufixo “-dade”, como em “bondade”, ora “-idade”, como em “volatilidade”. São muitos os substantivos formados a partir da forma latina do adjetivo correspondente, que em grande parte dos casos indicam, como já dissemos, estado ou situação. Retomemos o substantivo “amabilidade”, que significa condição de amável, e vejamos alguns outros construídos semelhantemente, empregados de forma adequada: • “O presidente foi tratado com muita amabilidade pelo anfitrião” – “Amabilidade”: condição de amável. • “No debate, discutiu-se a invariabilidade do advérbio” – “Invariabilidade”: condição ou estado de invariável.

• •

“Deficientes enfrentam problemas, como falta de acessibilidade e desrespeito” – “Acessibilidade”: condição de acessível. “As medidas contribuirão para dar sustentabilidade à extração da castanha” – “Sustentabilidade”: condição de sustentável.

Ocorre que nos dias atuais há freqüentemente inadequação do emprego dos substantivos assim formados. O problema aumenta na razão direta da proliferação de nomes que contêm o sufixo “-idade” por confusão com nomes correlatos. Desse modo, vemos: • • • “Composições receberam melhorias de confortabilidade e condições de acesso” – O correto é “conforto”. “Isso foi feito para evitar certa irritabilidade na população” – O correto é “irritação”. “Vamos verificar a condição de habitabilidade do imóvel” – O correto é “habitação”.

Nesses três contextos, no significado do vocábulo adequado – “conforto”, “irritação” e “habitação” –, não existe o traço condição ou estado. Por isso, não cabe o substantivo terminado em “-idade”. É preciso estarmos atentos para não incorrer em equívocos. Faz-se necessário, portanto, antes de nos dispor a empregar substantivos com o sufixo considerado, vermos se o sentido tem a ver com “condição” ou “estado”.

Dica nº 166 Adéqua ou adequa? Nem uma nem outra. Os verbos “adequar/adequar-se”, “brotar”, “doer”, “falir”, “latir”, “precaver-se”, “reaver” e outros não se conjugam – na norma culta da língua e em sentido denotado – em todos os modos, tempos e pessoas. Por isso, são chamados “defectivos”. E por que isso ocorre? As causas são várias: para evitar confusão com flexões de outros verbos de emprego mais freqüente ou por questão de eufonia ou mesmo por desuso. Dessa maneira, a primeira pessoa do presente do indicativo do verbo “falir” não é utilizada por já haver a forma “eu falo”, do verbo “falar”; à pronúncia desagradável e/ou difícil é atribuída a falta da primeira pessoa do presente do indicativo e as do presente do subjuntivo do verbo “abolir”; pelo desuso, justificase a defectividade de “fremir”, “fulgir”, “haurir”, “jungir”, “ungir” e outros. O verbo “adequar/adequar-se” só se conjuga, no indicativo, na primeira e segunda pessoa do plural (“adequamos” e “adequais”) e faltam-lhe todas as flexões do presente do subjuntivo e do imperativo negativo. No imperativo afirmativo, só é flexionado na segunda pessoa do plural (“adequai”). Na prática, esse verbo aparece mais freqüentemente no infinitivo impessoal ou não-flexionado (“adequar”) e no particípio (“adequado”). Veja a conjugação completa desse verbo em RYAN, 1989, p. 82.

Que fazer então? Simples: quando, ao falar ou redigir, pretendemos empregar tal verbo (ou outros defectivos) em uma das flexões faltantes, é só substituí-lo por sinônimo que caiba no contexto considerado. Assim, construímos “Sua proposta não se compatibiliza com os interesses da empresa” e “Ajustei o texto à nova legislação”. O quadro descrito, porém, não é estático e eterno: se e quando a maioria dos usuários da língua resolver mudar tal situação, essa e outras conjugações da espécie certamente serão alteradas.

Dica nº 167 Ortoepia/Ortoépia O termo “Ortoepia” significa pronúncia correta dos sons isolados (vogais e consoantes). Podemos, porém, falar em “correção” para a pronúncia das palavras? É verdade que tudo no idioma resulta de convenção, isto é, de acordo entre os falantes. Isso vale até mesmo para outros setores da língua, como a sintaxe, onde há regras mais rígidas. Contudo, parece que, no que se refere à área fonética, talvez seja mais apropriado falar em uso do que em correção. Assim, o uso que a grande maioria dos falantes faz é o fator determinante da pronúncia aceitável das palavras. Quem se põe a falar diferente, chama a atenção dos demais, quando não é corrigido. Comecemos pela própria palavra “Ortoepia”: a derivação do original grego impõe a pronúncia paroxítona: “Ortoepia”, com “ê”. Entretanto, a forma mais usual é proparoxítona: “Ortoépia”, com “é”. Se a maioria quer assim, assim é. A alteração da pronúncia dos fones geralmente se dá com relação ao timbre e ao acento tônico. Não vamos aqui tratar das mudanças que afetam esse último, mas apenas das relacionadas com as vogais (timbre e altura) e a substituição de algumas consoantes. Seguem algumas palavras em que há vacilação quanto à pronúncia culta de fones. Os acentos estão colocados apenas para assinalar o timbre (aberto ou fechado) ou o fone em que houve alteração:

Às vezes, as pessoas que aderem a certo tipo de pronúncia concentram-se em certa região e sua quantidade é grande o suficiente para caracterizar regionalismo, ou seja, norma de uso por certo grupo falante. Vão aqui alguns exemplos de regionalismos:

Quando a pronúncia desviada não altera o significado da palavra, produz, no máximo, estranhamento. Entretanto, às vezes, a emissão inadequada dos fones muda o significado. Isso tem estreita relação com o fenômeno da paronímia e a palavra que tencionávamos emitir acaba sendo substituída indevidamente por outra de pronúncia muito próxima. É aí que mora o perigo: dizemos uma coisa em lugar de outra. Vejamos alguns exemplos de mudança na emissão de vogais ou consoantes com alteração do significado: Comprimento (extensão) – Cumprimento (saudação) Deferimento (concessão) – Diferimento (adiamento) Despercebido (desatento) – Desapercebido (desprevenido) Descriminar (não considerar crime) – Discriminar (distinguir) Despensa (lugar para guardar alimentos) – Dispensa (desobrigação) Emergir (vir à tona) – Imergir (afundar, mergulhar) Emigrar (sair de mudança de um país) – Imigrar (vir de mudança para um país) Flagrante (evidente) – Fragrante (aromático) Mandado (ordem judicial) – Mandato (procuração, delegação popular) Secessão (separação) – Sucessão (seqüência, transmissão) Tráfego (trânsito) – Tráfico (comércio ilegal) Treplicar (refutar com tréplica) – Triplicar (tornar três vezes maior) Vultoso (de grande vulto) – Vultuoso (acometido de vultuosidade, inchado) Portanto, se quisermos estar com o “passo certo”, isto é, afinados com a maioria dos membros do grupo falante, devemos atentar para a pronúncia usual.

Dica nº 168 Prosódia Prosódia é a parte da Fonética que descreve a pronúncia (das palavras) usualmente aceita pela maioria dos falantes cultos, especialmente quanto ao acento tônico. Por isso, não se deve falar propriamente em “correção”, mas em padrão de uso quando falamos de pronúncia. A quase totalidade das nossas palavras provém do latim e em conseqüência a prosódia portuguesa segue a latina na maior parte dos casos.

Repetimos aqui então que, no que se refere à prosódia, é importante conhecer onde se encontra o acento tônico da palavra, ou seja, qual é a sílaba tônica. Além desta, há também, em palavras de maior extensão, a “subtônica”, isto é, a pronunciada mais intensamente que as demais átonas. Antigamente, a subtônica recebia acento gráfico (grave), como “cafèzinho” e “ràpidamente”, prática abolida em 1971. O desvio do padrão majoritariamente aceito constitui o vício fonético denominado “silabada”, a ser evitado. Segue abaixo lista incompleta de palavras cuja sílaba tônica está assinalada de acordo com a pronúncia culta: Oxítonas Gibraltar Nobel (é) recém- (ê) refém (ê) sutil (Existe “sútil”, adjetivo e substantivo, com outros sentidos.) ureter (ê-é)/ureteres (ê-é-ê) (Já houve a pronúncia paroxítona.) Paroxítonas acórdão (A imprensa às vezes publica “acordão”, aumentativo de “acordo”, com outro sentido.) avaro (Há também “ávaro”, com outro sentido.) aziago batavo bênção (Na norma popular, encontra-se “benção”, oxítona.) Bolívar bórax cânon cartomancia ciclope (ó) (Há tendência para a transformação em proparoxítona, com “ô”.) cível (A forma oxítona “civil” é outra palavra.) decano (â) díspar druida (drui-da) edito (Há também o substantivo na forma proparoxítona, com “é”.) filantropo (ô) gratuito (Há tendência para a divisão silábica em “gra-tu-í-to”.) ibero (é) indene (ê) libido maquinaria Martinez (Não existe “Martinez”, oxítona; o que há é a pronúncia original espanhola, paroxítona, ou a correspondente portuguesa “Martins”.) misantropo (ô) Normandia pegada perito

projétil (é) [A forma oxítona – projetil (ê) também é admitida.] pudico quiromancia réptil (Vale o mesmo dito sobre “projetil”.) rubrica (Em “Formato mínimo”, canção gravada pela banda Skank, encontra-se a pronúncia proparoxítona. Condescendentemente, entendamos que o Samuel Rosa e o Rodrigo Leão valeram-se do recurso denominado “licença poética”, já que há vários vocábulos proparoxítonos na letra da música.) têxtil Proparoxítonas arquétipo ávaro (O substantivo e o adjetivo relacionam-se com os ávaros, povo bárbaro oriundo da Ásia Central, que assolou a Europa entre o século VI e o VIII e acabouse tornando europeu.) bávaro brâmane cânone cômputo (Substantivo; a forma paroxítona é flexão do verbo “computar”.) édito (Como já vimos, há também a forma paroxítona, com “ê”.) ínterim Lúcifer (ê) (A pronúncia popular é oxítona, com “é”.) monólito (A pronúncia paroxítona, com três “ôôô” é muito comum.) Niágara ômega protótipo végeto [Há também “vegeto” (ê-é), flexão do verbo “vegetar”.) zênite “Estratégia” pode ser proparoxítona ou paroxítona conforme a divisão silábica: “estra-té-gi-a” ou “es-tra-té-gia”. Há palavras que, mesmo na língua culta, admitem dupla prosódia, como “acróbata (ó)/acrobata (ô)”, “ambrósia (ó)/ambrosia (ô)”, “anídrido/anidrido”, “boêmia/boemia”, “crisântemo/crisantemo (ê)”, “hieróglifo (ó-ô)/hieroglifo (ô-ô)”, “homília/homilia”, “Ortoepia ê)/Ortoépia (é)” (veja a propósito a dica n.º 167), “projétil (é)/projetil (ê)”, “réptil (é)/reptil (ê)”, “xérox (é)/xerox (ê)”, “zangão/zangão”. Por vezes, há diferença entre a prosódia brasileira e a lusitana. Assim, enquanto no Brasil a pronúncia culta é “pudico” e “rubrica”, em Portugal são correntes as formas proparoxítonas. Com o passar do tempo, o acento tônico pode-se deslocar, fenômeno relativamente comum. Assim, “pântano” já foi “pantano”. Em nossos dias, testemunhamos a transformação de proparoxítonos em paroxítonos em razão da tendência que os falantes da língua portuguesa têm de evitar aqueles. Exemplo disso são “ânodo” > “anodo”, “aríete” > “ariete (ê-ê)”, “cátodo” > “catodo (ô)”, “clítoris (ô)” > “clitóris (ó)”, “elétrodo (ê-é)” > “eletrodo (ê-ê)”. Por influência espanhola, o original

“Oceânia” tornou-se paroxítono – “Oceania” –, com a divisão silábica “O-ce-a-ni-a”. Ainda assim, admitem-se também as formas “O-ce-â-ni-a”/”O-ce-â-nia”. Para estarmos com o “passo certo”, ou seja, de acordo com a maioria, é conveniente emitirmos as palavras com o acento tônico normalmente aceito e assim evitamos a silabada.

Dica nº 169 O prefixo “re-“ O prefixo “re-“, de origem latina, pode ter três sentidos: 1. Repetição, como em “recapear” (tornar a capear), “recapitalizar” (tornar a capitalizar), “recarregar” (carregar de novo), “repisar” (pisar de novo, repetir), “reler” (voltar a ler), “repaginar” (paginar novamente), “renumerar” (numerar de novo alterando a sequência ou a ordem dos números), “rever” (ver de novo), “repensar” (pensar novamente reconsiderando), etc. Observamos que em certas palavras esse prefixo não tem apenas o significado de repetição: algum outro traço semântico é adicionado ao significado do verbo ou do substantivo derivado. 2. Reforço, a exemplo de “rebuscar” (buscar minuciosamente), “rejubilar” (causar muito júbilo, alegria), “revidar” (de “re + envidar”: responder ofensa com outra maior), “revigorar” (aumentar o vigor), “revirar” (virar muitas vezes), etc. 3. Retrocesso, recuo, como em “reflorestar” (recompor a floresta), “reiniciar” (voltar ao início), “retornar” (voltar para o ponto de partida), etc. Algumas palavras, como “reformar” e “reluzir”, aparentam conter o prefixo “re-“ e isso pode mesmo ser verdadeiro, mas devemos ter em mente que elas se formaram no latim e não, no português. Portanto, não devemos considerar tal prefixo em sua constituição, pois esses verbos já ingressaram no português desse modo. Levamos em conta aqui, pois, a existência de “re-“ nas palavras formadas no português. Muitos outros vocábulos iniciados pela sílaba “re” não contêm o prefixo referido e o aluno ou o “concurseiro” devem estar atentos para não ser vítimas de armadilhas. É o caso de “rebentar” (explodir ou quebrar com violência), “recordar” (lembrar-se), “registrar” (escrever ou assinalar), “relatar” (fazer relato), “reparar” (consertar ou notar), “reter” (guardar ou segurar com firmeza), “retificar” (tornar reto, corrigir ou purificar), “revelar” (descobrir ou divulgar), “revoltar” (indignar, sublevar), etc.

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