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Dica nº 1 Estilística – Pronomes (pessoais, possessivos), artigos (definidos e indefinidos) e “que” –

Dica nº 1

Estilística – Pronomes (pessoais, possessivos), artigos (definidos e indefinidos) e “que” – Use só o estritamente necessário. Assim, sua escrita ficará mais enxuta e elegante.

Como fazer isso? Observe as substituições abaixo:·

• Eu gosto de massas. ® Gosto de massas. •Tu sabes o que aconteceu? ® Sabes o que aconteceu? •O garoto chegou acompanhado de sua mãe, que o trouxe bem arrumadinho. ® O garoto chegou acompanhado da mãe, que o trouxe bem arrumadinho. •Tenho pelo menos uma idéia na minha cabeça. ® Tenho pelo menos uma idéia na cabeça. (“Uma” aí não é artigo indefinido, mas numeral.) •Quero ouvir uma opinião sua. ® Quero ouvir sua opinião. •Preparei um relatório circunstanciado sobre o assunto. ® Preparei relatório circunstanciado sobre o assunto. •Isto é para a sua apreciação. ® Isto é para sua apreciação. •O meu nariz ardeu ontem. ® Meu nariz ardeu ontem. •Ele disse que estava pronto para vir. ® Ele disse estar pronto para vir. (Substitui- se a conjunção integrante “que” e o verbo na forma modal pelo verbo na forma infinitiva.) •O secretário-adjunto, que foi nomeado secretário titular, ainda não foi empossado no novo cargo. ® O secretário-adjunto, nomeado secretário titular, ainda não foi empossado no novo cargo.

Não há erro gramatical nas frases acima, mas elas ficam mais bem apresentadas depois de efetuadas as substituições. A frase “Tenho pelo menos uma idéia na minha cabeça” é pleonástica, isto é, redundante, pois alguém só pode ter idéias na própria cabeça, não é? Lembre-se de que as construções pleonásticas viciosas constituem defeito de estilo. No geral, essas recomendações não necessitam ser seguidas rigidamente, já que há situações nas quais quem escreve “sente” que com a colocação do artigo indefinido, por exemplo, o texto fica melhor. Há outras situações em que a interposição do artigo definido evita cacofonia (sonoridade desagradável), como neste exemplo:

“Enriqueça seu texto”, onde surge o encontro cacofônico “sasseu”. Isto pode ser evitado desta forma: “Enriqueça o seu texto”.

Dica nº 2

Sintaxe - Crase

– Em princípio, crase é a fusão de duas vogais iguais. Mas quando isso acontece? Nos textos que você lê ou escreve, a crase ocorre na fusão da preposição “a” com:

• o artigo feminino “a” ® a + a: “Entreguei o documento à diretora”;

• o pronome “a” (equivalente a “aquela”) ® a + a: “Prefiro esta fita à

• o pronome “a” (equivalente a “aquela”) ® a + a: “Prefiro esta fita à que vimos

ontem”.

• a primeira vogal dos pronomes demonstrativos aquele, aqueles, aquela, aquelas,

aquilo ® àquele (s), àquela (s), àquilo: “Somente entregarei a bola àquele garoto”. Essa fusão não fica aparente na pronúncia, mas, sim, na escrita, pois se assinala a

crase com acento grave (`), como se vê nos exemplos acima. Portanto, a + a = à. Lembre-se: do fenômeno da crase participam, na maior parte do casos, uma preposição e um artigo ou pronome feminino. Isso traz algumas conseqüências, como:

1. Só ocorre crase diante de nomes femininos: “Dei o lápis à Joaninha” ou

“Refiro-me à carta de ontem”. (Única exceção: a + aquele = àquele, porque neste

caso não houve fusão da preposição com artigo, mas com a primeira vogal de pronome demonstrativo.)

2. Só ocorre crase diante de nomes de Estados se eles costumam ser usados

com artigo: “Viajarei à Bahia” ou “Vamos à Paraíba nas férias” , porque dizemos :

“A Bahia fica na região Nordeste” e “A Paraíba tem lindas praias”. Mas não dizemos: “Viajaremos Santa Catarina” nem “Vamos Rondônia nas férias”, porque esses nomes são usados sem artigo: “Santa Catarina é Estado sulista” e “Rondônia é bastante quente”.

3. Só ocorre crase diante de nomes de cidades se eles forem precedidos por

qualificativos, como bela, vibrante, pitoresca, etc.: “Refiro-me à bela Londrina”,

mas “Refiro-me a Londrina”; “Viajou à vibrante São Paulo”, mas “Viajou a São Paulo”. Observe que este “a” é preposição = para. Aí surge uma questão: por que

houve crase em “Viajou à vibrante São Paulo”, se a crase é a fusão da preposição “a” com o artigo feminino “a” e São Paulo é nome masculino? Por quê, hem? Elementar, meu caro internauta: porque aí está subentendida a palavra cidade. É por isso que poderíamos, sem problema algum, dizer: “Vamos à bela São Paulo”, “Dirigimo-nos à linda Lençóis”, etc.

4. Não ocorre crase diante de pronomes pessoais (retos ou oblíquos): “Dê a ela

este livro”, não “Dê ela este livro”; “Dê a mim o que me cabe”, mas não “Dê mim o que me cabe”, porque esses pronomes não são usados acompanhados de artigo. Você já viu que para haver crase tem de haver preposição mais artigo. Se a palavra

não é usada acompanhada de artigo, nada de crase.

5. Não ocorre crase diante de numerais: “Ponte a 50 metros”, mas não “Ponte

50 metros”; “Daqui a 20 anos”, mas não “Daqui vinte anos”. Isto pela mesma razão do caso 4, ou seja, os numerais não são acompanhados de artigo, já que não

se diz “o dois”, “os 50”. Se alguém disser, estará subentendendo alguma palavra, como “o dois (o número dois)” e “os 50 (os anos 50)”. Nesses casos, o artigo estará acompanhando aqueles nomes (número, anos) e não os numerais.

Dica nº 3

Semântica – Paronímia

– Paronímia é o fenômeno lingüístico pelo qual palavras de significados diferentes apresentam estrutura fonética

– Paronímia é o fenômeno lingüístico pelo qual palavras de significados diferentes apresentam estrutura fonética – digamos, sonoridade – e grafia semelhantes. A rigor, os parônimos não deveriam ser estudados em Semântica, disciplina que se ocupa do estudo do significado de elementos da língua. Entretanto, isso acontece porque os significados dessas palavras são muitas vezes confundidos e toma-se equivocadamente um no lugar do outro. Exemplos de parônimos: instrumentar (dotar alguém de instrumento, de meio de fazer algo) e instrumentalizar (fazer de instrumento alguém, um grupo de pessoas, uma organização; manipular, manobrar). Assim, “vamos instrumentar os recém-formados para poderem sair logo em campo” e “o que ele pretende é instrumentalizar a associação em benefício próprio”. Instrumentar não está no dicionário com esse significado e instrumentalizar ainda não está dicionarizada. Como se vê, os dicionários estão

sempre atrasados com relação à realidade viva da língua não está no dicionário que ela não existe.

Não é porque a palavra

Veja outros exemplos: mandato (delegação que se concede a alguém para fazer algo em nosso nome) e mandado (ordem escrita expedida por autoridade judicial). Dessa maneira, os deputados recebem mandato do povo para representá-lo e agirem no interesse popular, pelo menos é o que se espera que façam. Já o mandado foi assinado pelo juiz para autorizar busca e apreensão de algo na casa de alguém. Mais um: felina (adjetivo feminino relativo a uma classe de animais, os felinos) e ferina (adjetivo feminino relativo a fera). Dizemos, pois, “pegada felina” e “crítica ferina”.

Dica nº 4

Por que, por quê, porque, porquê

Esses quatro aí complicam muita gente, menos pela complexidade dos conceitos e mais por falta de “pegar-se o touro a unha” e aprender. A grafia desses vocábulos varia conforme o significado que apresentam e a posição na frase. Vamos a eles:

1. Por que

Uso 1 – Grafa-se separadamente e sem acento quando a expressão puder ser substituída por pelo qual, pela qual e seus plurais. Assim, em “Aquele é o portão por que devo entrar”, posso substituir o “por que” por pelo qual. Em “Essas são as razões por que não permaneci no cargo”, posso substituir o “por que” por pelas quais. Classe de palavra – Preposição por + pronome relativo que.

Uso 2 – Grafa-se da mesma maneira quando “por que” puder ser substituída por por qual motivo, por qual razão. Exemplos: “Por que você faltou?” e “Não sei por que a semente não germinou”. Classe de palavra – Preposição por + pronome interrogativo que.

É o mesmo caso do “uso 2”, acima, mas aqui o pronome interrogativo termina a

É o mesmo caso do “uso 2”, acima, mas aqui o pronome interrogativo termina a frase e depois dele, portanto, vem algum sinal de pontuação: “Afinal, a Marina não veio, por quê?” e “Não me pergunte por quê, já lhe disse.” Como vimos, grafa-se separadamente e com acento circunflexo no “e”.

3. Porque

Uma só palavra, sem acento gráfico. Introduz noção de causa ou alguma explicação. -Classe de palavra Conjunção subordinativa causal: “O Brasil é país injusto porque sua elite é egoísta”. A causa de o Brasil ser país injusto é sua elite ser egoísta. (Equivale a uma vez que.)

Conjunção coordenativa explicativa: “Precisei afastar-me porque alguém se aproximou”. A aproximação de alguém explica meu afastamento. (Equivale a pois.)

4. Porquê

Uma só palavra, acentuada. Classe de palavra – Substantivo. É empregada antecedida de artigo, adjetivo, pronome, numeral, enfim, de vocábulos que normalmente acompanham um substantivo.

Exemplos: “Gostaria de saber o porquê disso tudo”. “Quer saber por quê? Tenho pelo menos dois porquês.” Significa razão, motivo

Dica nº 5

Fonética/Fonologia - Se alguém lhe perguntar quais são as vogais portuguesas, você rapidamente vai responder: a, e, i, o, u, não é mesmo? Foi assim que todos aprendemos e é assim que milhares de professores continuam ensinando Não se espante, é isso mesmo. E por quê? Porque quando se ensina assim está-se confundindo fonema com letra e, antes de ser letra, a vogal (e a consoante também) é fonema. Vejamos como as coisas se passam.

Sabemos que algumas letras representam graficamente mais de um fonema. É o caso do "x", que representa os fonemas /z/ (exame), / s / (experiência), / š / (faixa), / ks / (fixo). Isso também acontece com as vogais. Dessa maneira, temos as seguintes vogais orais:

/a/ (par, cano) /e/ (mel, café) /e/ (vez, você) /i/ (giz, ali)

// (sol, avó) /o/ (pôs, coco) /u/ (luz, azul) Todas essas vogais são fonemas distintos,

// (sol, avó) /o/ (pôs, coco) /u/ (luz, azul)

Todas essas vogais são fonemas distintos, porque sua troca pode acarretar mudança de significado. Por exemplo, se em "selo"(estampilha), trocarmos /e/ por /e/, teremos "selo" (flexão do verbo selar, eu selo); se em "nós" (pronome reto ou plural de "nó") trocarmos o // por /o/, teremos "nos", pronome oblíquo da primeira pessoa do plural, e assim por diante.

Então, na verdade, temos sete vogais orais, representadas por cinco letras, a saber:Fonema vogal

/a/

/e/

/e/

/i/

//

/o/

/u/

Letra correspondente

a

e

e

i

o

o

u.

Você vai dizer agora que está tudo explicado e acabado, não é? Ainda não. Faltam as vogais nasais. São elas:

/ã/ (maçã, ampola, antes) /ẽ/ (sempre, pente) / ĩ / (fim, cinto) /õ/ (compra, ponto) /ű/ (um, fundo).

Temos a seguinte correspondência entre vogais nasais e letras: Fonema vogal Letras correspondentes

/ã/ /ẽ/ / ĩ / /õ/ /ű/

ã, am, an em, en im, in õ, om, on um, un

Em resumo, temos, em português, 12 vogais, das quais sete são orais e cinco, nasais, ou seja:

/a/, /e/, /e/, /i/, //, /o/, /u/, /ã/, /ẽ/, / ĩ /, /õ/, /ű/.

Dica nº 6 Morfologia - Verbo Faz ou fazem vinte anos? Quando o verbo fazer

Dica nº 6

Morfologia - Verbo

Faz ou fazem vinte anos?

Quando o verbo fazer é empregado no sentido de decorrer tempo, é impessoal, isto é, não tem sujeito e, conseqüentemente, permanece invariável na terceira pessoa do singular. Dessa forma, diz-se: "Faz um mês que Francisca chegou" e "Faz vinte anos que moro aqui". Se, nesse caso, "fazer" estiver acompanhado de verbo auxiliar, este também ficará invariável: "Vai fazer cinco meses que não chove na região" e "Deve fazer 95 anos que meus avós chegaram da Espanha". Entretanto, na expressão fazer anos, ou seja, aniversariar, o verbo "fazer" tem sujeito e, portanto, flexiona-se normalmente. Exemplos: "Gabriel faz cinco anos no dia 17", "As gêmeas fazem 15 anos em setembro" e "Fazem 30 anos aqueles fatos narrados". (Neste exemplo, "aqueles fatos narrados" é sujeito de "fazem 30 anos".)

Dica nº 7

Fui eu que fiz, fui eu quem fez ou fui eu quem fiz?

Quer saber mesmo? Pois todas estão corretas. Vejamos:

Fui eu que fiz - Justificativa - O verbo que tem como sujeito o pronome relativo que concorda em número e pessoa com o antecedente, a palavra que precede esse pronome. Exemplos: "Foi ele que te nomeou", "Sou eu que vou agora", "Fomos nós que escrevemos a carta" e "Serão os pais dele que receberão a herança".

Fui eu quem fez - Justificativa - Se o sujeito é o pronome relativo quem, o verbo, geralmente, permanece na terceira pessoa do singular. Exemplos: "Foi ele quem te nomeou", "Sou eu quem vai agora", "Fomos nós quem escreveu a carta" e "Serão os pais dele quem receberá a herança".

Fui eu quem fiz - Justificativa - Se o sujeito é o pronome relativo quem, o verbo pode ser influenciado pelo sujeito da oração anterior, com o qual acaba concordando. Exemplos: "Sou eu quem vou agora", "Fomos nós quem escrevemos a carta" e "Serão os pais dele quem receberão a herança".

Dica nº 8

Ao invés de ou em vez de?

As duas formas estão corretas, cada uma com seu sentido.

"Ao invés de" significa "ao contrário de" e usa-se quando se colocam em oposição idéias

"Ao invés de" significa "ao contrário de" e usa-se quando se colocam em oposição idéias contrárias. Exemplos: "Ao invés de economizar, Gilda gastou todo o dinheiro" e "Teria sido melhor se Mário, ao invés de falar, ficasse quieto".

"Em vez de" quer dizer "no lugar de" e usa-se tanto no primeiro caso como quando as idéias não são contrárias, por exemplo: "Manifeste-se, em vez de se omitir", "Em vez de crase, estude regência nominal agora" e "Por que você não usa a blusa amarela, em vez dessa (de + essa) feiosa aí?".

Assim, é incorreto dizer-se "Ao invés de ir à padaria, foi ao supermercado", pois padaria não encerra idéia contrária à de supermercado.

Dica nº 9

EUA ou E.U.A.? VASP ou Vasp?

É dúvida comum essa, a de como grafar as siglas. Estas são formas abreviadas, geralmente compostas das letras iniciais dos nomes de organizações, empresas e até de pessoas. A propósito, políticos costumam ser conhecidos pelas iniciais de seus nomes, que formam siglas. Por exemplo, o ex-presidente Juscelino Kubitschek era e é conhecido por JK. Jânio Quadros também foi muito citado na imprensa como JQ. Outros personagens menos exemplares também são conhecidos por siglas, como PC e EJ. O nome "Estados Unidos da América" pode ser convertido na sigla EUA ou E.U.A. A Viação Aérea São Paulo S. A. corresponde a VASP ou Vasp. Mas, afinal, como se deve escrever as siglas? Sigla - Tipo especial de abreviação formada pelas letras iniciais de nomes de organizações (por ex., partidos políticos), empresas, órgãos públicos, etc.

Exemplos:

PPB - Partido Progressista Brasileiro PT - Partido dos Trabalhadores OAB - Ordem dos Advogados do Brasil ONU - Organização das Nações Unidas Banespa - Banco do Estado de São Paulo S. A. Varig - Viação Aérea Rio-Grandense S. A. FNDE - Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística SHIN - Setor Habitacional Individual Norte.

As siglas, uma vez popularizadas, comportam-se como verdadeiros substantivos e, como tais, estão sujeitas aos fatos próprios dessa classe de palavras, como flexão de número e o acréscimo de prefixos e sufixos. Através deste recurso, a sigla é sentida como palavra primitiva, podendo produzir derivadas. Assim: pró-OAB, petismo, pepebista.

Particularidades das siglas:

· Plural - As siglas podem admitir marca de plural, um "s" minúsculo, sem apóstrofo:

· Plural - As siglas podem admitir marca de plural, um "s" minúsculo, sem apóstrofo: CEPs, QSLs, PPAs. Mas também podem permanecer na forma singular e o plural é marcado pelo vocábulo que as acompanha: os QSO.

· Pontos no interior da sigla - A norma oficial prevê o uso de pontos para marcar essa forma reduzida, mas o próprio Pequeno Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (PVOLP) apresenta exemplos com e sem pontos. A tendência generalizada é a da supressão dos pontos. Assim, E. U. A. ou EUA.

· Maiúsculas ou minúsculas - O PVOLP admite a sigla escrita com todas as iniciais maiúsculas ou somente a primeira. Dessa forma, podemos grafar VASP ou Vasp.

Dica nº 10

Daqui a 50 km ou daqui há 50 km?

Freqüentemente, confunde-se "a" com "há", mas não há razão para isso - embora sejam homônimas (têm a mesma pronúncia) -, pois são palavras com uso bem distinto.

Neste contexto, "a" é preposição e indica distância a percorrer a contar de determinado ponto. Portanto, o cabível é "Daqui a 50 km", que equivale a "cinqüenta quilômetros a contar daqui". Outro exemplo: "Daqui a 10 km, você encontrará um posto de gasolina".

Quando se quer expressar noção de tempo futuro, recorre-se novamente à preposição "a". Assim, "Daqui a cinco anos, Vanessa estará uma bela moça", "Como estará São Paulo daqui a 100 anos?" e "Estávamos a 15 minutos do começo da sessão quando o presidente anunciou seu cancelamento". (Neste caso, "a" indica tempo futuro a partir de certo momento ocorrido no passado.)

"Há" é flexão do verbo haver e usa-se para expressar noção de tempo passado. Assim, dizemos: "Há dois anos que moro aqui" ou "Saíram de Goiânia há 23 anos". Nestes casos, "há" pode ser substituída por "faz": "Faz dois anos que moro aqui" e "Saíram de Goiânia faz 23 anos".

"Há" também é usada para indicar distância percorrida: "A entrada para Caldas Novas ficou há 20 km".

Em resumo · Há - Tempo passado e distância percorrida: "Há 30 anos = Faz 30 anos" e "Há 30 km". · A - Tempo futuro e distância a percorrer: "Daqui a 30 anos" e "Daqui a 30 km".

Dica nº 11 O mesmo "João foi promovido ontem. O mesmo será homenageado na próxima

Dica nº 11

O mesmo

"João foi promovido ontem. O mesmo será homenageado na próxima semana."

É comum ler-se construções desse tipo, onde o vocábulo "mesmo" é empregado

dessa forma inadequada. E por que se deve evitar esse tipo de uso? Porque

demonstrativos como tal, mesmo, próprio servem para identificar alguma coisa, ou seja, para indicar que se trata de alguém ou algo de quem ou do que já se falou ou

já se sabe distinguindo-o de outro alguém ou outra coisa: "Li XYZ. Não me agradou

tal livro", "Essa é a mesma salada de ontem" e "Dá na mesma (coisa)". No primeiro caso, tal indica que o livro é aquele e não, outro. No segundo, mesma evidencia

tratar-se de determinada salada em oposição a outras e, no terceiro, que se está falando de certa coisa e não, de outras. Portanto, é incorreto dizer-se: "João foi promovido ontem. O será homenageado na próxima semana", pois neste caso não se está distinguindo João de nenhum outro João. Essa construção pode ser refeita, de maneira mais acertada, assim: "João foi promovido ontem. Ele será "

homenageado

Há muitos recursos para se

"João, que foi promovido ontem, será homenageado

fugir da incorreção ou da pobreza no uso da linguagem.

" ou "João foi promovido ontem e será homenageado

".

ou ainda:

Mesmo e mesma, próprio e própria e seus plurais são ainda empregados para reforço de expressão, no que mantêm o princípio que norteia o uso descrito acima. Assim, "eu mesma fiz o bolo" (eu e ninguém mais), "nós mesmos preferimos vir para receber o prêmio" (nós, não outros) e "o próprio chefe redigiu o memorando" (deveria ser outra pessoa, mas foi ele).

Pronome - Palavra gramatical que substitui ou pode substituir um nome (substantivo) ou a ele se refere: eu, lhe, isto, meu, etc. Exemplos: "Eu sou a força!", "Dê-lhe o recado", "Isto é seu", "Esse crachá é o meu". O pronome pode classificar-se em:

· apassivador - É a função que a partícula "se" exerce na formação da voz passiva

sintética ou pronominal. Neste caso, o sujeito é inanimado - incapaz de praticar a ação verbal - ou apenas paciente da ação: "Plantaram-se várias árvores no canteiro central", "Alugam-se quartos" e "Quero que se me devolva o dinheiro". [Note neste último exemplo que aparece um objeto indireto (me).] A função apassivadora do "se" é constatada ao converter-se a voz passiva sintética na analítica: "Várias árvores foram plantadas no canteiro central", "Quartos são alugados" e "Quero que o dinheiro seja devolvido para mim".

· demonstrativo - Refere-se à posição (no tempo ou no espaço) de alguma coisa

situada em relação a uma das pessoas gramaticais (a que fala, com quem se fala e de quem se fala) ou à identidade de alguma coisa ou então indica a distância de algo que aparece no texto. Os demonstrativos são: este esta isto esse essa isso aquele aquela aquilo

Este, esta e isto usam-se para indicar proximidade da primeira pessoa, a que fala: "Coloque

Este,

esta e isto usam-se para indicar proximidade da primeira pessoa, a que fala:

"Coloque a mesa neste (em + este) espaço", "Esta taça fica aqui", "Este ano promete muitas surpresas" (ano em que se está) e "Isto está atrapalhando a passagem". Esse, essa e isso são usados para indicar proximidade da segunda pessoa, a com quem se fala ("Esse carro é importado?", "Onde você comprou essa blusa?), ou da primeira e da segunda simultaneamente ("Está vendo esse menino aí? É filho da Márcia" e "Cuidado com a cabeça, que essa porta é baixa."). Com relação ao tempo, expressam proximidade passada ou futura: "Junho foi bem produtivo; nesse mês, trabalhei muito" e "Agosto vem aí. Esse mês promete ser bastante seco". Aquele, aquela e aquilo expressam distanciamento, no espaço ou no tempo, de alguma coisa em relação à primeira e à segunda pessoas simultaneamente: "Aquela menina é minha prima" e "Aquilo aconteceu há muito tempo". No texto, usam-se os demonstrativos para indicar o ser ou coisa de que se falou:

"Paulo, Afonso e Wagner seguiram carreiras diferentes. Aquele tornou-se bancário e este, advogado" (Aquele = Paulo e este = Wagner). Assim, aquele se refere ao termo mais distante e este, ao último citado. Demonstrativos como tal, mesmo, próprio servem para identificar alguma coisa: "Li XYZ. Não me agradou tal livro" e "Dá na mesma (coisa)". Usa-se mesmo/mesma para indicar que se trata de alguém ou algo de que já se falou ou já se sabe, distinguindo-o de outro alguém ou outra coisa: "Essa é a mesma salada de ontem". É inadequado dizer-se: "João foi promovido. O mesmo vai ser homenageado", pois neste caso não se está distinguindo João de ninguém mais. topo

· indefinido - Tem justamente essa função, a de "indefinir", ou porque não se sabe

a identidade de algo ou por não se querer identificar. Designa a terceira pessoa gramatical de forma vaga, indeterminada. São pronomes indefinidos: alguém, algo, ninguém, qualquer, tudo, cada qual, quem quer que, etc. Exemplos: "Alguém está interessado em você", "Tenho algo para te mostrar", "Ninguém chegou na hora", "Qualquer pessoa faz isso facilmente", "Tudo ajudou", "Cada qual com seu igual" e "Quem quer que chegue atrasado não vai entrar". topo

· interrogativo - É usado para se fazer questionamento, interrogação: quem (qual

pessoa?), que (qual coisa? qual motivo?), qual (pessoa ou coisa dentre outras), onde (em que lugar?), quando (em que tempo?), quanto (que quantidade? de seres ou coisas). Exemplos: "Quem está aí?"; "Que há com você?", "Por que ela não veio?"; "Qual (ou quem) de nós vai primeiro?"; "Qual das janelas está quebrada?"; "Onde está o microfone?"; "Quando Luciana viaja?"; "Quanto custa?"; "Quantos já embarcaram?". topo

· pessoal - Substitui um nome e ao mesmo tempo indica sua pessoa gramatical (a

que fala, com quem se fala ou de quem se fala). Pode ser reto (eu, nós), oblíquo (me, nos) e de tratamento (você, a gente, vossa excelência, o senhor, fulano). Exemplos: "Nós é que somos os heróis", "Siga-me", "Você poderia passar-me o jornal?".

- oblíquo: é o que exerce, na frase, a função de complemento do verbo: me, o, lhe, se, nos, etc., como em "Beije-me mais uma vez", "Comprei-o num antiquário", "Não lhe responda", "Os dois se abraçaram fraternalmente", "Francisco nunca nos visitou". Como o pronome oblíquo exerce função complementar, orações como

"Deixe para mim fazer" são incorretas de acordo com a norma culta, pois ele aí

"Deixe para mim fazer" são incorretas de acordo com a norma culta, pois ele aí está desempenhando a função de sujeito. Neste caso, deve-se substituí-lo pelo pronome reto eu: "Deixe para eu fazer". topo

· possessivo - Expressa noção de posse de uma das pessoas gramaticais (possuidor) em relação à coisa possuída: meu, teu, seu e os correspondentes plurais. Exemplos: "Meu filho chegou", "Teu cabelo está desalinhado" e "Seu ônibus já passou". Pelos exemplos, vê-se o grau de relatividade da "coisa possuída", pois nem sempre o possessivo exprime a noção de propriedade. Os pronomes oblíquos também podem desempenhar papel possessivo, como nestes exemplos:

"Roubaram-lhe a carteira = roubaram a sua carteira" e "Conquistou-me a confiança = conquistou a minha confiança". topo

· recíproco - É o que expressa reciprocidade da ação verbal. Isto significa que os

agentes da ação praticam-na e ao mesmo tempo a recebem. Assim, em “Jonas e Alves abraçaram-se” e “Nós nos entendemos”, os verbos e os pronomes se e nos são recíprocos. Estes funcionam aqui como objetos diretos, mas, empregados com outros verbos, poderão classificar-se como objetos indiretos. Conforme a construção, tal pronome pode causar ambigüidade, razão por que, se queremos exprimir reciprocidade de ação, devemos utilizar as expressões um ao outro, uns aos outros, mutuamente e reciprocamente em benefício da clareza. Dessa forma, na oração “Oscar e Gouveia feriram-se”, não se sabe se ambos foram feridos por alguma causa externa, se cada um feriu-se individualmente ou se um feriu o outro. No primeiro caso, o “se” é pronome apassivador; no segundo, pronome reflexivo e no terceiro, pronome recíproco. Neste caso, para evitar a imprecisão, construímos:

“Oscar e Gouveia feriram-se um ao outro” (ou “mutuamente” ou “reciprocamente”). É possível ainda empregarmos forma verbal na qual se integra o prefixo entre- para indicar claramente a reciprocidade, como em “Carlos e Daniela entreolharam-se”, isto é, ele olhou para ela e ela fez o mesmo em relação a ele.topo

· reflexivo - Pronome pessoal oblíquo que, embora funcione como objeto direto ou

indireto, refere-se ao sujeito da oração: me, te, se, si, nos, etc. O pronome reflexivo apresenta três formas próprias na terceira pessoa, do singular e plural: se, si e consigo. "Guilherme já se preparou", "Ela deu a si um presente" e "Antônio

conversou consigo mesmo". Nas outras pessoas, os reflexivos assumem as mesmas formas dos demais oblíquos não-reflexivos: me, mim, te, ti, nos, vos: "Eu não me vanglorio disso", "Olhei para mim no espelho e não gostei do que vi", "Assim tu te prejudicas", "Conhece a ti mesmo", "Lavamo-nos no rio", "Vós vos beneficiastes com a Boa Nova". topo

· relativo - É a palavra que, numa oração, refere-se a um termo de outra, o

antecedente (que vem antes): que, o qual, quem, cujo. Exemplos: "Este é o disquete que eu trouxe" (que ® disquete); "Tal o caráter herdado dos pais, o qual era preciso manter" (o qual ® caráter; se fosse empregado "que", o sentido ficaria ambíguo, pois não se saberia o que era preciso manter); "Foi ele a quem me dirigi" (quem ® ele); "Estou falando da parede cuja pintura está manchada" (cuja ® da qual a). O pronome relativo que distingue-se de outros “ques” por poder ser substituído por o qual, a qual, os quais, as quais. É preciso cuidado no emprego do que quando houver mais de um antecedente, para garantia da clareza. Veja este período: “Joaquim é o pai do Renato, que nasceu em Alagoas”. Quem nasceu em

Alagoas? Igual cuidado merecem outros relativos. Assim, em “Visitamos Itaporã e Icatu, onde se localiza

Alagoas? Igual cuidado merecem outros relativos. Assim, em “Visitamos Itaporã e Icatu, onde se localiza a Escola de Belas-Artes”, não se sabe em qual cidade se situa a escola. topo

· de tratamento - Palavra ou expressão que vale por pronome pessoal. São eles: a

gente, beltrano, fulano, sicrano, sua majestade, sua senhoria (e outros similares), você, Vossa Alteza, Vossa Excelência (e outros similares). Os pronomes de tratamento, apesar de serem da segunda pessoa gramatical (referem-se à pessoa com quem se fala), são considerados de terceira pessoa. Assim, levam o verbo e outros pronomes (oblíquos e possessivos) para a terceira pessoa, como em “Vossa Excelência esqueceu-se do compromisso”, “Sua agenda permite a Vossa Reverendíssima encontrar-se com o prefeito e “Você foi lá?”.

Dica nº 12

Etc.

Quantas vezes você já usou "etc.", não é mesmo? Vamos, porém, comentar algo sobre isso.

Etc. é abreviatura da expressão latina et cetera e significa "e outras coisas", "e outros (da mesma espécie)", "e assim por diante". Originalmente, era empregada apenas com referência a coisas, mas atualmente também se vê (e pode-se usar) relacionada a animais e mesmo pessoas que poderiam ser mencionados, mas são subentendidos em um texto. Assim: "lâmpadas, soquetes, conectores, plugues, etc.", "cavalos, mulas, jumentos, etc.", "Zezé di Camargo e Luciano, Chitãozinho e Xororó, Leonardo, Daniel, etc.".

Com o passar do tempo, ficou obscurecido, para o falante comum, o significado original dessa abreviatura, especialmente o fato de ela conter o elemento de ligação "e". Dessa forma, etc. passou a ser vista como mais um elemento em uma enumeração, razão por que, conforme se deduz, o Pequeno Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (PVOLP) apresenta-a precedida de pontuação. Esta, contudo, deve ser a mesma ao separar-se os elementos da seqüência, como nestes exemplos:

· "Carros, peças, acessórios, etc."

· "Estava tudo assim agrupado: cenoura, chuchu, beterraba; banana, laranja, melancia; feijão, soja e outros grãos; etc."

· "Fiscalizar. Reivindicar. Protestar. Etc. Tudo isso faz parte da prática da

democracia." Entretanto, alguns puristas da língua relutam em aceitar pontuação antes do etc., apesar de esse uso ser respaldado pelo PVOLP e ser ratificado por respeitados gramáticos brasileiros, como Celso Cunha e Celso Luft.

Agora, vamos acrescentar mais um ponto polêmico na nossa discussão. Se, na origem, ficava evidente

Agora, vamos acrescentar mais um ponto polêmico na nossa discussão. Se, na origem, ficava evidente a presença do elemento de ligação "e" (et cetera), que já não é mais percebido, e se, conseqüentemente, "etc." é vista apenas como mais um elemento em uma enumeração, por que nos repugnaria o uso do "e" antes de "etc."? Portanto: "galinhas, perus, patos e etc.". Vejamos o caso do pronome comigo, formado de "com + migo". Mas o que é esse "migo"? "Migo" é resultado da transformação fonética do latim "mecum" (que significava exatamente "comigo"), onde já estava embutida a preposição "com" (cum, em latim). O que acontece com o "etc." aconteceu também aqui: com o passar do tempo, os falantes não "sentiram" mais a presença do "com" em mecum e acrescentaram mais um "com" (cum + mecum > cummecum > comigo). Daí o vocábulo "comigo", em rigor, conter dois "com". Da mesma forma, "e etc." conteria dois "e". Coisas da evolução da língua. Contudo, é preciso ficar claro que essa é, por enquanto, apenas opinião pessoal do prof. Paulo Hernandes. O uso de "e" antes de etc. ainda não é admitido nas mais conhecidas gramáticas disponíveis no Brasil. Para finalizar: vocês se lembram de um famoso jogador de futebol, que, apesar de não muito bom entendedor do processo etimológico, disse em entrevista: "Comigo ou sem migo, o time ganha."?

Dica nº 13

Coloquei mais um link no meu site.

O que acha dessa frase? Possivelmente, você dirá que está tudo certo com ela, tal é

sua familiaridade com essa enxurrada de palavras estrangeiras que pipocam nos

textos da nossa imprensa - especializada ou não -, não é mesmo?

Pois é, mas vamos aos fatos. Em primeiro lugar, a grafia das palavras no Brasil é regulamentada por lei (Decreto-Lei n.º 2623, de 21.10.55), simplificada pela Lei n.º 5765, de 18.12.71. Dessa forma, o respeito à norma ortográfica oficial é respeito à lei. Em segundo lugar, essa mesma norma disciplina a escrita de nomes estrangeiros - os estrangeirismos ou barbarismos (em sentido estrito) - que, se não forem aportuguesados, ou seja, se não se adequarem à nossa ortografia, devem ser escritos entre aspas ou então sublinhados. Devem, enfim, ser postos em destaque de alguma forma (tipos itálicos, por exemplo). Excetuam-se os já consagrados, como box, watt, show, shopping, etc. (aqui em destaque apenas para melhor visualização). A propósito, box, com significado de "compartimento", permaneceu na grafia original, mas empregada no sentido de "luta com punhos" foi aportuguesada para "boxe" e tem ainda sinônimo vernáculo: pugilismo. Assim, o correto é escrever-se "link", software, upgrade.

O ideal seria que os meios de comunicação - TV, rádio, revistas, jornais e agora a

Internet - adotassem postura de defesa da nossa cultura, aí incluída a língua portuguesa. Para isso, procurariam traduzir para o português, quando possível, os nomes estrangeiros que através deles ingressassem em nosso meio. Caso não fosse possível, que pelo menos adaptassem à nossa ortografia essa torrente de palavras estrangeiras, especialmente inglesas.

Não se entende, a não ser em razão de mentalidade colonizada, que a maioria dos

Não se entende, a não ser em razão de mentalidade colonizada, que a maioria dos estrangeirismos não possa ser traduzida. Para ficar apenas no contexto da Internet:

link não poderia ser "ligação" ou mesmo "porta"? Home page não poderia ser traduzida por "página principal" ou "página de abertura"? Browser, não poderia ser "navegador" ou "programa de navegação"? Em vez de download, bem que poderíamos utilizar "baixamento", "descarregamento" ou "descarga". Se alguém objetar que "baixamento" não está no dicionário, pois que se crie essa palavra e se

a coloque nele! Banner não poderia ser "faixa" ou "faixinha"? E o que dizer de hit,

no contexto da rede? Poderia perfeitamente ser traduzida por "visita" ou "acesso". Lembremo-nos de que file, desde o início da expansão da Informática no Brasil, foi

apropriadamente traduzida por "arquivo". Em vez de mandar "e-mail" (abreviação de electronic mail = correio eletrônico), eu bem que poderia mandar uma

Este trecho,

mensagem ou até, abreviadamente, "msg.", já que é para encurtar

de três linhas, foi retirado de uma revista especializada em Internet: "Às vezes,

troca-se links simplesmente, em vez de banners. Por exemplo: você tem um

site

tais palavras. Assim, vocábulos como link viram "linque"; site vira "saite"; browser, "bráuser" e assim por diante. Já não aportuguesamos diskette? E "leiaute", já não foi layout? Quem resiste a isso, deveria continuar a escrever football, goal, penalty, bouquet e carnet, por exemplo.

".

Total desrespeito à norma ortográfica. Que pelo menos se aportuguesem

Não se trata de xenofobia (aversão a tudo que é estrangeiro). Trata-se apenas de defender nossa cultura e conseqüentemente nossa língua dessa invasão desenfreada, que aqui despeja centenas de palavras sem a menor cerimônia, como

se o Brasil fosse a "casa-da-mãe-joana". (Na opinião de quem assim procede e com isso concorda, é.) Vamos receber esses empréstimos lingüísticos quando necessário, quando vierem suprir lacunas do idioma e mesmo assim adaptando-os

à nossa ortografia. Caso contrário, que fiquemos com as palavras da nossa língua,

a qual muito mais autenticamente expressa a cultura brasileira. O Brasil proclamou sua independência política em 1822, mas, na mentalidade de muita gente, ainda somos colônia

Dica nº 14

Pirassununga ou Piraçununga? Cotegipe ou Cotejipe?

Pela norma ortográfica brasileira, devem ser escritos com "ç" e "j" os nomes

provenientes de outras línguas – das indígenas, inclusive – os quais contenham, respectivamente, os fonemas

· /s/ (som de "s") no meio da palavra, como araçá, Açu, Araçoiaba da Serra, Guaçuí, Igaraçu, Moçoró, muçurana, Piraçununga, etc.;

· /ž/ (som de "j") no início ou no meio do vocábulo, como em Cotejipe,

jenipapo, Mojimirim, Potenji, Seriji. "Sergipe", pela regra, deveria ser Serjipe,

mas

Dica nº 15 Minha mulher é do signo de Leão e minha mãe, de Libra.

Dica nº 15

Minha mulher é do signo de Leão e minha mãe, de Libra. Tenho um irmão de Áries

e meus filhos são de Aquário.

Tudo muito natural, não é? Pode até ser, mas que há certa "salada" lingüística aí, com certeza, há. E por quê? Porque se está misturando português com latim. Você pode dizer como quiser - não há erro nisso -, mas, por questão de coerência, deveria utilizar todos os nomes em português ou todos em latim. Aqui vão os nomes dos signos do Zodíaco, nas duas línguas:

vão os nomes dos signos do Zodíaco, nas duas línguas: Dica nº 16 Maiores informações É

Dica nº 16

Maiores informações

É muito comum lermos na imprensa ou ouvirmos no rádio e TV, especialmente em

anúncios ou avisos, essa expressão, que seria apenas esquisita se não fosse

incorreta. Sim, porque maior é comparativo de superioridade de "grande". Assim, dizemos "Meu texto ficou maior que o seu" ou "Sua alegria é grande, mas a minha

é maior (do que a sua)". Portanto, maior encerra duas idéias: de comparação e de

superioridade na grandeza. Ora, se "vale o que está escrito", ao dizermos "maiores

informações", estamos querendo dizer que tais informações são de tamanho maior que alguma outra, que já é grande. Repare que estamos comparando idéia de "tamanho". Na verdade, quem assim diz não está querendo se referir de forma alguma a tamanho, mas à "suficiência" ou ao "detalhismo" da informação. Por isso, se você quiser acertar, diga “mais informações” ou “informações mais detalhadas ou pormenorizadas". Note ainda que "grande", elevado ao grau mais alto, ou seja, ao superlativo, torna-se máximo ou o maior (ou máxima ou a maior): "Envie isso com a máxima urgência" e "Larissa é a maior! (dentre outros)".

Dica nº 17

Dígrafo

Vez por outra, deparamos com esse termo da Gramática, que expressa fenômeno lingüístico interessante em

Vez por outra, deparamos com esse termo da Gramática, que expressa fenômeno lingüístico interessante em português. Mas afinal, o que é dígrafo?

Dígrafo - do grego di, dois, e grafo, escrever - é dupla de letras que representa um só fonema, como "an" (em santo), que representa o fonema /ã/; "ss" (em passo), que representa /s/; "nh" (em pinho), que representa /ñ/; e outros. Portanto, nos dígrafos, as letras não formam encontro consonantal, já que não são pronunciadas as duas consoantes, pois se trata de um único fonema. Na verdade, a existência dos dígrafos revela deficiência do nosso alfabeto, pois o ideal seria que cada fonema fosse representado por uma única letra. Os dígrafos no português brasileiro são os seguintes:

dígrafo fonema representado palavra-exemplo

am

/ã/

ambos

an

/ã/

antigo

ch

/š/

chuva

em

/ẽ/

sempre

en

/ẽ/

entrada

gu

/g/

guelra, guia (neste caso, usa-se "gu" somente antes de "e" e "i" e o "u"

não é pronunciado.)

ha

/a/

he

/e/

hemisfério

he, hé

/ e /

hera, hélice

hi

/i/

hipismo

ho

/o/

hoje

ho, hó

//

homem, hóspede

hu

/u/

humano

im

/ĩ/

impedir

in

/ĩ/

indicador

lh

/l /

galho

nh

/ñ/

ninho

om

/õ/

ombro

on

/õ/

onde

qu

/k/

queijo, quilo (neste caso, usa-se "qu" somente antes de "e" e "i" e o "u"

não é pronunciado.)

rr

/ /

terra

sc

/s/

nascer

/s/

cresço

ss

/s/

esse

um

/ű/

umbigo

un

/ű/

mundo

xc

/s/

exceção

xs

/s/

exsurgir

Observe ainda que:

1. Quando as duas letras são pronunciadas, não se trata de dígrafo: quase, freqüente, eqüidade,

1. Quando as duas letras são pronunciadas, não se trata de dígrafo: quase,

freqüente, eqüidade, lingüiça, escada, exclamação, etc. O trema é colocado sobre o

"u" exatamente para indicar que ele deve ser pronunciado.

2. No final de palavras como cantam, armazém e correm, "am" e "em" não são

dígrafos, pois representam os ditongos nasais /ãw/ e /ẽy/, respectivamente, ou

seja, dois fonemas.

3. Na divisão silábica, apenas seis desses dígrafos são separáveis na escrita: rr,

ss, sc, sç, xc, xs. Assim, temos: car-ro, pas-so, des-ci-da, des-ça, ex-ce-to, ex-su-

da-çao.

Dica nº 18

150 g ou 150 g.? 100 ha ou 100 ha.?

Em português, as abreviaturas são normatizadas, ou seja, são definidas por norma legal. Ao usá-las a nosso bel-prazer, podemos incorrer em erro. Dessa forma, por exemplo, os símbolos científicos são escritos sem ponto, como g (grama), ha (hectare), kg (quilograma ou quilo), m (metro ou minuto), m² (metro quadrado), min (minuto), etc. Repare que, em orações como "Depois da dieta, ela pesa agora 50 kg.", o ponto ao lado de kg nada tem a ver com a abreviatura, mas funciona apenas como ponto final do período.

Símbolos técnicos desacompanhados de ponto abreviador (há símbolos técnicos pontuados, como ger. = gerúndio) não recebem "s" como marca de plural: 200 kg, 2h 10 m, 1.500 m, etc. Portanto, esta forma de notação tanto se refere ao singular como ao plural dos nomes representados. Observe, num dos exemplos acima, a forma correta de grafar horários: 3 h ou 3 h 00 m, 8h 30 m, 15 h 40 m, etc. Grafias como 05:30 h ou 17h:35 estão em desacordo com a norma ortográfica brasileira.

Muitas outras abreviaturas são usadas com ponto, como alm. (almirante), cap. (capitão), gen. (general), adv. (advérbio), prof. (professor), etc. Não encontram amparo legal abreviaturas do tipo "gal." (general) ou "alte." (almirante). Abreviaturas acompanhadas de ponto podem receber "s" como marca de plural:

págs. (páginas), Pes . (padres). Página também pode ser abreviada p. e páginas, pp.

Dica nº 19

Infinitivo flexionado

Este tema não é dos mais simples entre os fatos gramaticais da língua portuguesa. O infinitivo é forma nominal do verbo e pode apresentar-se nas modalidades

flexionada e não-flexionada. (Veja o verbete "Infinitivo" no Glossário Gramatical.) Alguns autores adotam, para

flexionada e não-flexionada. (Veja o verbete "Infinitivo" no Glossário Gramatical.) Alguns autores adotam, para essas formas, a nomenclatura de infinitivo pessoal e impessoal. O prof. Hermínio de Campos Mello contesta esse uso alegando que tanto o infinitivo flexionado como o não-flexionado são pessoais, ou seja, referem-se a alguma pessoa gramatical. O mestre parece ter razão quando se empregam flexões como "Vou caminhar amanhã", "Ela vai caminhar amanhã" ou "Todos vão caminhar amanhã". Nestes exemplos, embora em sua forma não-flexionada, ou seja, "impessoal", o infinitivo relaciona-se sempre a uma das pessoas gramaticais.

O infinitivo flexionado é idiomatismo da língua portuguesa, ou seja, é fenômeno

característico, típico de nossa língua, embora não seja exclusivo dela. Tudo indica

que se originou do imperfeito do subjuntivo latino (hipótese de José Maria Rodrigues) e já aparece no primeiro documento conhecido escrito em língua portuguesa, a "Cantiga da Ribeirinha" (veja a pág. Você sabia? n.º 13), como se pode ver abaixo:

"e vos, filha de don Paay

Moniz, e ben vus semelha d'aver eu por vos guarvaya".

O infinitivo pode, pois, flexionar-se em todas as pessoas gramaticais: amar (eu),

amares (tu), amar (ele), amarmos (nós), amardes (vós), amarem (eles). Morficamente, o infinitivo flexionado é idêntico ao futuro simples do subjuntivo nas conjugações verbais regulares. Distingue-se deste por encerrar significado declarativo (afirmativo ou negativo: "Quero que os alunos tenham mais aulas de Português para entenderem o infinitivo flexionado"), ao passo que o futuro do subjuntivo expressa hipótese condicional (se eles entenderem) ou temporal (quando eles entenderem). Outros exemplos de orações com o infinitivo flexionado:

"Ao se aproximarem os professores, os alunos levantaram-se", "As andorinhas vinham chegando em revoada até pousarem todas sobre a figueira" e "Lembrou existirem emendas na ata da assembléia anterior". Dois autores estabeleceram regras para o infinitivo flexionado: Jerônimo Soares Barbosa e Frederico Diez (pronuncie Dits). Vejamos o que consta de cada uma:· Regra de Soares Barbosa - Em um período composto, se o sujeito do verbo

no infinitivo for diferente do sujeito do verbo da outra oração, o infinitivo será flexionado. Ex.: "(Eu) Creio (nós) termos sido enganados". Por outro lado, se os sujeitos do verbo no infinitivo e do verbo da outra oração forem os mesmos, o infinitivo não se flexionará. Ex.: "(Nós) Viajamos juntos para (nós) discutir o assunto em profundidade". O autor lusitano apresenta ainda outros casos de flexão do infinitivo.

· Regra de Frederico Diez - Somente se usa o infinitivo flexionado quando ele

pode ser substituído por uma forma modal. Neste caso, é indiferente se ele tem ou não seu próprio sujeito. Ex.: "(Eu) Peço-lhes não recomeçarem (vocês) a discussão" ® sujeitos diferentes. Essa oração equivale a outra em que os dois verbos estão na forma modal: "(Eu) Peço-lhes que (vocês) não recomecem a discussão". Exemplo em que os sujeitos são os mesmos: "(Eles) Estão comemorando por (eles) terem passado no vestibular", que equivale a "(Eles) Estão comemorando porque (eles) passaram no vestibular". Esta regra de Diez é ótimo guia para se apurar o estilo e evitar-se "que e porque" na medida do possível. Quando cabível, suprimam-se esses elementos de ligação e converta-se o verbo da

forma modal na forma infinitiva. Dessa maneira, em vez de "Ele disse que é possível

forma modal na forma infinitiva. Dessa maneira, em vez de "Ele disse que é possível que entremos", use "Ele disse ser possível entrarmos". (Veja também a Dica n.º 1, Estilística.)

Leia agora algumas observações sobre o infinitivo baseadas em escritos do prof. Campos Mello (CURSO, s. d.).

1. O infinitivo será ou não flexionado quando a clareza assim o exigir. Ex.:

"Infanta, no exílio amargo, só o existirdes me consola" (Tasso da Silveira). "D. Amélia sofria com aquela animosidade dentro de casa. Uma vez falou com o marido para sair, para procurar um lugar para morarem em casa que fosse deles" (José Lins do Rego). Se o infinitivo não se flexionasse, os sujeitos dos verbos assinalados seriam diferentes dos expressos nesses exemplos.

2. Certa ênfase de estilo pode justificar o emprego do infinitivo flexionado, como

no exemplo: "As mulheres cochilando nos quartos, os homens a caçoar e a rir na

sonolência, a se espreguiçarem do bom almoço pelas redes e cadeiras" (Dinah Silveira de Queiroz).

3.

Assim, em "Se algum dia caírem estas linhas sob os olhos de alguém, rirão dos Anjos), tem-se flexão do futuro do subjuntivo e não, do infinitivo.

Cumpre não confundir o infinitivo flexionado com o futuro do subjuntivo. "

(Ciro

A flexão do infinitivo, quando correta, propicia clareza, elegância e concisão à escrita. Para conhecimento mais amplo, consulte a bibliografia recomendada.

Dica nº 20

Onde e aonde

"Onde" significa em que lugar. "Aonde" equivale a para qual lugar e emprega-se sempre com verbos que dão idéia de movimento, como ir e levar. Exemplos:

"Aonde Viviane vai?". Com os verbos que não encerram idéia de movimento, usa-se "onde": "Onde você mora?" e "A casa onde nasci não existe mais". Onde e aonde são advérbios e, quanto à função, podem ser classificados como interrogativos e relativos. Serão interrogativos se integrarem oração interrogativa, tanto direta como indireta: "Onde está meu casaco?" e "Diga-me aonde Neusa foi". Serão relativos se se referirem a antecedente expresso ou implícito: "Esta é a piscina

onde fui campeão" (onde = em que, na qual ® relativo) e "Vou aonde você vai". (Aonde = ao lugar para o qual ® o qual é relativo.) Esta oração equivale a "Vou ao lugar para o qual você vai". Observe ainda que:

1. Onde se refere a lugar e não, a tempo. É incorreto, pois, dizer-se "É esse o

momento onde entro", pois se está falando de tempo. O correto é "É esse o momento quando (ou em que) entro".

2. O prof. Celso Cunha ressalta que a distinção de emprego entre onde e aonde

2. O prof. Celso Cunha ressalta que a distinção de emprego entre onde e aonde

é anulada por muitos escritores de renome e para isso cita alguns exemplos de

obras de autores como Machado de Assis e Fagundes Varela. (Veja CUNHA, 2000,

pp.342-343.)

Dica nº 21

Ambigüidade

Ambigüidade é vício de linguagem pelo qual uma frase é construída, involuntariamente, com mais de uma interpretação. (Leia também o verbete

Ambigüidade do Glossário Gramatical.) Dizemos involuntariamente porque, em um texto literário, o autor pode deliberadamente possibilitar mais de uma leitura a determinada frase, o que deixa de ser vício. Veja este trecho, duplamente ambíguo, inspirado em artigo de jornal:

"Diretora da Branofol demite filho de Rubens Galicanto, amigo do senador Carlos Antônio, cuja ex-mulher o acusa de enriquecimento ilícito". Desconhecemos quem é amigo do senador: o filho ou Rubens. Ficamos também sem saber quem a tal senhora acusa: o filho, Rubens ou o senador. Por outro lado,

a múltipla ambigüidade só não atinge a "diretora", pois supõe-se ela não ter "ex- mulher". Se fosse diretor, teríamos mais um elemento vicioso, em conexão com "cuja ex-mulher". Resolvemos o problema conforme o que queiramos dizer:

Resolvemos o problema conforme o que queiramos dizer: É preciso estarmos atentos à construção de orações

É preciso estarmos atentos à construção de orações para evitar ambigüidades. Há

certas palavras perigosas, com as quais devemos tomar bastante cuidado para não incorrermos nesse vício, especialmente possessivos (seu, sua). Em "Celsinho, a

Letícia veio com seu pai", não sabemos de qual dos dois é o pai. Resolvemos facilmente o problema dizendo "Celsinho, a Letícia veio com o pai dela" ou "Celsinho, seu pai veio com a Letícia", conforme o que pretendemos dizer. Também merecem cuidado os relativos (que, cujo), como em "Visitamos a igreja do Carmo,

a mais bonita da cidade, que data de 1735". O pronome relativo que se refere

sempre a um antecedente. Acontece que aqui temos dois antecedentes expressos:

"igreja do Carmo" e "cidade". Por isso, devemos evitar colocar mais de um antecedente diante de um relativo (pronome ou advérbio). Desfazemos a ambigüidade da frase invertendo a ordem das orações e mesmo dispensando o pronome: "Visitamos a igreja do Carmo - datada de 1735 -, a mais bonita da cidade" ou "Na cidade - datada de 1735 -, visitamos a igreja do Carmo, a mais bonita". A homonímia e a polissemia também podem causar ambigüidade: em "Talvez eu não amasse Cláudia", não fica claro se a forma assinalada refere-se a

flexão do verbo amar ou amassar. Se a frase "As mudas chegaram" não estiver contextualizada,

flexão do verbo amar ou amassar. Se a frase "As mudas chegaram" não estiver contextualizada, não sabermos se se trata de plantas ou de mulheres que não conseguem falar. (Ambos, casos de homonímia.) Em "Acadêmicos viram monólitos", caso de polissemia, há dúvida se a forma verbal é flexão do verbo ver ou virar. A substituição vocabular ou mudança na estrutura frasal resolverá o problema. O pronome possessivo seu - e suas variações - tem vários significados, ou seja, é polissêmico também. A ambigüidade, juntamente com a obscuridade, são inimigas da clareza, uma das virtudes da boa linguagem e necessidade no processo da comunicação.

Dica nº 22

Por ora ou por hora?

As duas, cada uma com seu sentido. Por ora equivale a "por agora" ou "por enquanto". Por hora significa "em uma hora", "a cada sessenta minutos". Desse modo, digo "Por ora, não vou mexer com isso = Por enquanto, não vou mexer com isso" e "O carro chega a correr 300 km por hora = O carro chega a correr 300 km em uma hora". Ora, nesse contexto, é advérbio e significa "agora, atualmente" e hora é substantivo e quer dizer "fração do dia".

Dicas nº 23

Os gêneros em português - Em português, os nomes podem pertencer ao gênero feminino e ao masculino. Uma palavra do gênero feminino designa especificamente ser vivo do sexo feminino ou coisa que passa idéia feminina, por razões etimológicas ou psicológicas. Já o gênero masculino, além de designar seres do sexo masculino ou coisas que passam idéia masculina, abrange também palavras de significado mais geral - por exemplo, o homem, referindo-se ao gênero humano - ou vocábulos no plural que compreendem seres ou coisas considerados masculinos e femininos. Assim, se dizemos o menino chegou ou a menina chegou, sabemos que a referência é a um garoto ou a uma garota. Entretanto, se dizemos os meninos chegaram, não sabemos se são todos do sexo masculino ou se há garotos e garotas no grupo. É por isso que dizemos que o masculino é gênero geral, "não-marcado" e o feminino é "marcado", pois este designa especificamente seres femininos. Dessa maneira, o feminino é considerado variação morfológica do masculino, tomado como base. Outras línguas, como o grego e o latim, possuem o gênero neutro. As palavras a ele pertencentes não são nem femininas nem masculinas. O português, apesar de não possuir o neutro, guarda alguns vestígios dele - herança latina -, como os pronomes invariáveis isto (masc. este e fem. esta), isso (masc. esse e fem. essa), aquilo (masc. aquele e fem. aquela), algo, tudo, nada, etc.

A referência ao gênero é feita através de artigos (o/a, como em o boi /

A referência ao gênero é feita através de artigos (o/a, como em o boi / a vaca), pronomes (ele/ela, meu/minha, este/esta, como em ele veio, ela veio; meu dentista, minha dentista; este garfo, esta colher), pela distinção mediante morfemas de gênero (-o/-a, como em gato/gata; -ês/esa, como em freguês/freguesa; ão/ona, como em chorão/chorona).

Modernamente, temos visto na imprensa o emprego da palavra "gênero" em contexto biológico, o que representa inovação, já que gênero é conceito eminentemente gramatical.

Dica nº 24

Este, esse, aquele

Este, esse e aquele são pronomes demonstrativos e indicam a posição (no tempo ou no espaço) de alguma coisa situada em relação a uma das pessoas gramaticais (primeira-a que fala, segunda-com quem se fala e terceira-de quem se fala) ou localiza algo que aparece no texto. Este, esse e aquele variam em gênero e número, ao passo que as formas isto, isso e aquilo, vestígios do gênero neutro latino, são invariáveis. Veja:

este esta isto esse essa isso aquele aquela aquilo

Este, esta e isto indicam a proximidade de alguém ou de alguma coisa em relação à primeira pessoa, a que fala: "Coloque a mesa neste (em + este) espaço", "Esta taça fica aqui" e "Isto está atrapalhando a passagem". Também podem indicar o tempo presente: "Este ano promete muitas surpresas" (ano em que se está). Esse, essa e isso são usados para indicar a proximidade de alguma coisa da segunda pessoa, a com quem se fala ("Esse carro é importado?", "Onde você comprou essa blusa?") ou da primeira e da segunda simultaneamente ("Está vendo esse menino aí? É filho da Márcia" e "Tenhamos cuidado com a cabeça, que essa porta é baixa"). Com relação a tempo, expressam proximidade passada ou futura:

"Junho foi bem produtivo; nesse mês, trabalhei muito" e "Agosto vem aí. Esse mês deverá ser bastante seco". Aquele, aquela e aquilo expressam distanciamento, no espaço e no tempo, de alguma coisa em relação à primeira e à segunda pessoas conjuntamente, portanto, indicam proximidade da terceira pessoa, a de quem se fala: "Aquela menina é minha prima", e "Aquilo aconteceu há muito tempo".

No texto, usam-se os demonstrativos para indicar o ser ou coisa de quem ou de que já se falou: "Paulo, Afonso e Wagner seguiram carreiras diferentes. Aquele se tornou bancário e este, advogado" (Aquele = Paulo, este = Wagner). Assim, aquele se refere ao termo mais distante e este, ao último citado.

O pronome o (e suas variações) pode equivaler a isto, isso, aquilo e a aquele

O pronome o (e suas variações) pode equivaler a isto, isso, aquilo e a aquele e suas variações: "Não compreendo o que você está dizendo" e "Os que estiverem de acordo venham comigo". É preciso distinguir o artigo definido do pronome demonstrativo, como neste exemplo: "Nem sempre as pessoas que chegam na frente são as primeiramente atendidas". O primeiro "as" é artigo definido e acompanha "pessoas", ao passo que o segundo é pronome demonstrativo e substitui "as pessoas" ou "aquelas".

Alguns advérbios de lugar ajudam ou reforçam a localização espacial: aqui (proximidade da primeira pessoa), aí (segunda) e ali, lá ou acolá (terceira): "Está vendo este botão aqui?", "Pegue esse livro aí" e "Olhe aqueles garotos reunidos lá na esquina".

Tais vocábulos, designativos da posição que seres ou coisas ocupam no espaço em relação às pessoas do discurso, denominam-se tecnicamente "dêiticos".

Dica nº 25

A nível (de), em nível (de)

As expressões "a nível" ou "em nível", acompanhadas ou não da preposição "de", com equivalência a "de âmbito" ou "com status de" são muito criticadas pelos gramáticos, que as consideram sem sentido e, portanto, as condenam. Apesar de o povo ser o senhor da língua e ele dar o significado que quer a palavras e expressões já existentes ou até criar palavras novas, as formas citadas são mesmo insossas. Até que elas se consolidem e sejam reconhecidas, é preferível, para evitar críticas, usar formas cujo significado seja incontestável e que sejam pacificamente aceitas. Desse modo, em vez de "A campanha será feita a (ou em) nível mundial", prefira-se "A campanha será mundial", "A campanha terá abrangência mundial", "O âmbito da campanha será mundial" ou ainda "A abrangência da campanha será mundial", se se tratar de abrangência. Se a intenção for expressar status, no lugar de "As mudanças no Governo serão feitas em nível ministerial", use "As mudanças no Governo serão feitas no ministério", forma até mais objetiva. Na verdade, não há "princípio lingüístico" que justifique a repulsa a tais expressões, apenas sua inconsistência semântica. Finalmente, observe-se que é correto o emprego de "ao nível de" quando se quiser dizer que algo está na mesma altura em relação a outra coisa, quer em sentido próprio (denotado) ou figurado (conotado): "Ubatuba está ao nível do mar" (na mesma altura em que o mar está) e "Dizer que criminosos de colarinho branco estão ao nível de batedores de carteira é ofender estes últimos".

Dica nº 26

Quero falar consigo.

O uso dos pronomes reflexivos, especialmente o si e o consigo, pode suscitar dúvidas. Se

O uso dos pronomes reflexivos, especialmente o si e o consigo, pode suscitar

dúvidas. Se digo "Joana gosta de falar de si", quero dizer que Joana ama falar a respeito dela mesma. Em "Ele falou consigo", estou querendo dizer que alguém falou com si próprio. Aliás, às vezes, encontramos essas frases acrescidas dos vocábulos próprio/própria e mesmo/mesma para reforçar ainda mais a reflexividade: "Joana gosta de falar de si própria" e "Ele falou consigo mesmo".

Repare que esses pronomes se referem ao sujeito do verbo. Por isso, é incorreto usar-se si e consigo de forma não-reflexiva, de modo a não se referirem ao sujeito

da

oração, como em "Este bilhete é para si" ou "Queremos falar consigo".

comigo, contigo, conosco, convosco são pronomes não-reflexivos, como nestes

exemplos: "Venha comigo", "Quero dançar contigo", "Almoce conosco" e "O Senhor esteja convosco". Comigo e contigo podem ser completados ou reforçados com mesmo/mesma e próprio/própria, como em "Isso é comigo mesmo/mesma" e "É contigo mesmo/mesma que quero falar". Entretanto, por questão de eufonia, isto é, de sonoridade agradável, tal não ocorre com conosco e convosco. Nestes casos, usamos os pronomes retos, como em "É com nós mesmos que ele deve tratar" e "Tal assunto sempre esteve na alçada de vós próprios". O mesmo vale para construções como "Isso é com nós professores", em vez de "Isso é conosco professores". (Leia a respeito em ALMEIDA, 1979, § 319, Nota.)

Dica nº 27

Ao

encontro, de encontro

Ir

ao encontro, que se une ao substantivo mediante a preposição de (Ir ao encontro

de), significa, em sentido próprio ou denotado, sair em direção a ou ir encontrar-se com alguém, como em "Fomos ao encontro da comitiva que chegava". Em sentido figurado ou conotado, quer dizer corresponder, atender, satisfazer: "Minha proposta vai ao encontro dos seus interesses".

Ir de encontro, que se une ao substantivo mediante a preposição a (Ir de encontro

a), significa, em sentido próprio ou denotado, colidir, chocar-se com, ir em direção

oposta a alguma coisa: "O caminhão foi de encontro ao muro". Em sentido figurado ou conotado, quer dizer estar em desacordo, contrariar: "A mudança de nome da Petrobrás vai de encontro aos interesses do Brasil".

O verbo utilizado nos exemplos foi "ir", mas bem poderia ser "vir": "Seu pedido

vem de encontro aos meus princípios".

Dica nº 28

Negação lexical

A negação lexical faz-se em português através do "morfema de negação". Este se

materializa na fala através dos alomorfes a-, des-, i-, in- e não-. Vejamos cada um

deles:

a- De origem grega, "a-" entra na composição de vocábulos como acrítico (a + crítico),

a- De origem grega, "a-" entra na composição de vocábulos como acrítico (a +

crítico), atípico (a + típico), atóxico (a + tóxico). Por questão de eufonia, diante de vogal, assume a forma "an-", como em anaeróbico (an + aeróbico) e anovulação

(an + ovulação), embora tenhamos aético (a + ético). O prefixo de origem grega "a-" não deve ser confundido com outro, de origem latina, com significado de afastamento, separação, como em apartar.

des- Trata-se de prefixo vernáculo, que integra muitos vocábulos portugueses, tais

como desacerto (des + acerto), desonesto (des + honesto), desaconselhável (des + aconselhável). O prefixo "des-" pode também significar "ação contrária", como

em desfazer e desconsiderar, que não é o caso de que tratamos aqui.

i- Prefixo de origem latina, alguns gramáticos consideram-no variante do "in-".

Aparece em vocábulos como ilógico (i + lógico), iliquidez (i + liquidez), imerecido (i + merecido), imoral (i + moral). Diante de palavras iniciadas com / /, muda, na escrita, para "ir-" a fim de manter o caráter forte daquele fonema: irreal (ir + real), irrecorrível (ir + recorrível), irreconhecível (ir + reconhecível).

in- Este também é prefixo de origem latina, que entra na composição de muitas

palavras, como inapto (in + apto), inviável (in + viável), insatisfeito (in + satisfeito). Diante de palavras iniciadas com /b/ e /p/,ocorre certa acomodação na

escrita: in- transforma-se em im-, já que "b", "p" e "m" são letras que representam, todas, fonemas bilabiais, isto é, emitidos mediante a junção dos lábios. Assim, temos imbatível (im + batível), impatriótico (im + patriótico), improcedente (im + procedente). É preciso não confundir este prefixo com outro "in-", que significa "movimento para dentro", às vezes transformado em "em-" e "en-", como em embarcar e enterrar.

não- Embora tenha caráter negativo, este prefixo não deve ser confundido com o advérbio de negação "não". Aqui ele entra na composição de palavras como não- alinhado (não + alinhado), não-contradição (não + contradição), não-intervenção (não + intervenção).

Grande número de exemplos que as gramáticas oferecem de prefixos é formado por palavras que vieram do latim ou do grego já com esses morfemas incorporados, o que não nos interessa em nosso estudo, o de composições ocorridas no português. Assim, átono e impróprio já chegaram ao português com os prefixos "a-" e "in-". A propósito, são oportunas estas palavras de Celso Luft: "Para que exista prefixo reconhecível, é preciso que o radical corresponda a um vocábulo autônomo ou forma livre: contradizer = contra + dizer; inverdade = in + verdade", o qual cita ainda mais dois outros requisitos. Continua ele: "Assim, não há prefixo, sob o ponto de vista descritivo, atual, em palavras como comer, esquecer, para as quais entretanto uma análise histórica depreende os prefixos com- (cum-) e es- (ex-)". Vamos mais além e entendemos que não há prefixos, pelo menos em português, nos citados exemplos átono e impróprio e em todos os que a prefixação não ocorreu em nosso idioma.

O convite foi aceitado ou foi aceito? Antes da resposta a essa questão, é conveniente

O convite foi aceitado ou foi aceito?

Antes da resposta a essa questão, é conveniente abordarmos o tema em que ela se insere, o dos verbos com duplo particípio, os chamados verbos abundantes. Esses verbos possuem duas formas no particípio: uma regular, com terminação em -ado na primeira conjugação e em -ido na segunda e terceira, e outra irregular, com terminação variável. A forma regular é normalmente mais longa e a irregular, mais curta. Assim, o verbo "fixar", no particípio, apresenta-se como fixado e fixo.

O critério geral de emprego desses particípios é bastante simples:

· Particípio regular (longo) - É usado na voz ativa, acompanhado dos verbos

auxiliares "ter" e "haver", como em "Você tem secado as roupas na máquina?" e

"Já havíamos limpado o piso pela manhã".

· Particípio irregular (curto) - Usa-se na voz passiva, com os verbos auxiliares

"ser", "estar", "ficar", "andar" e outros. Exemplos: "A roupa já está seca" e "O

quarto foi limpo pela Cátia".

Observações:

1. Usadas com auxiliares como "ser", "estar", "ficar" e outros, as formas do

particípio variam em gênero e número. Assim, "O acordo foi firmado, os acordos foram firmados; a proposta foi apresentada, as propostas foram apresentadas". Já com "ter" e "haver", o particípio fica invariável: "Temos escrito muitos textos para o saite". Se disser "Temos escritos muitos textos para o saite", o significado da frase muda e passa a querer dizer que "temos prontos muitos textos para o saite".

2. Há particípios regulares que podem ser usados também na voz passiva.

Assim, poderemos ler na imprensa: "O ministro foi fritado por longo tempo" e "A

conta foi ocultada rapidamente da fiscalização". Lembre-se de que o particípio irregular desses verbos é frito e oculto.

3. Em alguns verbos que admitem ambos os particípios na voz passiva, uma

forma é mais usual que outra conforme o auxiliar utilizado: "O reservatório está cheio", mas "O reservatório é enchido até a metade diariamente" e "A montanha

está envolta em nuvens", mas "A montanha foi envolvida por forte neblina". Em outros contextos, o mesmo particípio acaba sendo empregado indiferentemente com um ou outro auxiliar: "O secretário presidencial esteve envolvido em escândalos" e "O secretário presidencial foi envolvido em escândalos".

Nas orações reduzidas de particípio ou participiais, usa-se apenas a forma irregular:

"Aceso o lampião, os rostos apareceram" (e não "acendido o lampião") e "Findo o recesso, os deputados continuaram em campanha eleitoral" (e não "findado o recesso").

Na linguagem atual, a forma regular de três verbos já caiu em desuso: ganhado (ganhar),

Na linguagem atual, a forma regular de três verbos já caiu em desuso: ganhado (ganhar), gastado (gastar) e pagado (pagar). Curiosamente, todas relacionadas com dinheiro. Ah, faltou a resposta à questão-título! Pelo que você aprendeu acima, a forma a se empregar seria apenas "aceito" não é mesmo? Acontece que o verbo "aceitar" é uma das exceções à regra, de modo que o particípio aceitado também pode ser usado na voz passiva: "O convite foi aceito" ou "O convite foi aceitado".

Dica nº 30

É necessário paciência.

Em expressões formadas pelo verbo "ser" + adjetivo (empregado substantivamente), este último não varia: É necessário calma, Ginástica é bom para a saúde, É feio falta de respeito e É proibido cigarros nesta empresa. Explicação para o fenômeno é subentender-se um verbo nessas construções: "É necessário (ter) calma", "(Fazer) Ginástica é bom para a saúde", "É feio (agir com) falta de respeito" e "É proibido (portar ou usar) cigarros nesta empresa". Quando se acrescenta ao substantivo palavra que o determina, como artigo ou pronome, a concordância torna-se obrigatória: "A calma é necessária", "Aquela ginástica é boa para a saúde". "É feia a falta de respeito" e "Os cigarros são proibidos nesta empresa". Em construções como "É necessário (fazer) muitos pontos para se ganhar o jogo", em que o substantivo está no plural, a concordância é facultativa:

"São necessários muitos pontos para se ganhar o jogo".

Sintaticamente, a invariabilidade do predicativo explica-se por ser o sujeito da oração expresso de forma genérica. Em "Vitamina é bom para prevenir doenças" (vitamina, conceito genérico) e "É necessário exercícios para você recuperar-se" (exercícios em geral), está-se referindo a "vitamina" e "exercícios" de modo geral, sem determiná-los. Caso haja essa determinação mediante artigo ou outro qualificativo, a concordância faz-se normalmente: "As vitaminas são boas para prevenir doenças" e "Aqueles exercícios indicados pelo fisioterapeuta são necessários para você recuperar-se".

A noção de isotopia Em Lingüística, "isotopia" (do grego isos, igual, semelhante, e topos, plano,

A noção de isotopia

Em Lingüística, "isotopia" (do grego isos, igual, semelhante, e topos, plano, lugar) significa plano de sentido, leitura que se faz de uma frase ou texto. Se, por exemplo, uma frase permite apenas uma leitura, é dita monoisotópica; diisotópica se permite duas; triisotópica, se três; etc. Dessa forma, em "Ganhei esta caneta do meu pai" e "Nas últimas férias, descansei bastante" temos duas frases monoisotópicas, isto é, cada uma com apenas um significado. Em "Há muito televisor que precisa melhorar a imagem" e "Ronan, a Márcia chegou com seu pai", cada frase admite duas leituras. No primeiro exemplo, imagem = representação televisionada de pessoas e coisas e também conceito. No segundo, seu = de Ronan ou de Márcia. Já em "Empresas negam oferecimento de propina", temos frase triisotópica, em que, negam oferecimento = recusam oferecer; desmentem ter oferecido e desmentem ter recebido oferecimento. O mesmo ocorre em "Acadêmicos viram monólitos", em que viram = flexão do verbo ver, de virar -1 (transformar-se) e de virar -2 (mudar de posição). A multiplicidade de planos de sentido é geralmente produzida por homonímia ou polissemia.

É importante notar que o conceito de isotopia pertence à Lingüística - particularmente à Semântica, um ramo seu -, ciência que descreve os fatos da língua sem impor normas nem se preocupar com certo e errado. Assim, para a Semântica, é indiferente se a pluralidade de significados de uma frase ou texto é produzida intencionalmente ou não. Entretanto, para a Gramática, normativa que é, a duplicidade de sentido será encarada como recurso de estilo se for produzida intencionalmente com objetivos estéticos ou expressivos. Em caso contrário, será considerada ambigüidade, vício sintático, que deve ser evitado.

Um texto também pode permitir - parcial ou totalmente - mais de uma leitura, isto é, pode ser mono ou diisotópico, no todo ou em parte. O texto abaixo é bom exemplo disso:

"Em determinado país, onde, em certa época, houve carência de mão-de-obra, o Governo baixou decreto mediante o qual os casais eram estimulados a ter filhos. Tal decreto também previa a hipótese de pessoas se casarem e não conseguirem proliferar. Neste caso, marido e mulher seriam "auxiliados" por agente destacado pelo diretor do Programa de Incentivo à Natalidade ao completarem cinco anos de vida conjugal sem filhos. Exatamente nessa situação encontrava-se o casal que travou o seguinte diálogo:

Mulher - Querido, hoje completamos o quinto aniversário de casamento.

Marido - É

e infelizmente ainda não tivemos um herdeiro.

- Será que eles vão enviar o tal agente?

- Não sei

- E se ele vier?

- Bem, nada tenho a fazer.

- Eu, menos ainda.

- Já vou sair, pois estou atrasado para o trabalho.

Logo após a saída do marido, alguém bate à porta. A mulher atende e encontra

Logo após a saída do marido, alguém bate à porta. A mulher atende e encontra um homem à sua frente. Era um fotógrafo que se enganara de endereço.

Homem - Bom dia! Eu sou

Mulher - Ah, já sei. Pode entrar.

- Seu marido está em casa?

- Não, foi trabalhar.

- Presumo que ele esteja a par

- Sim, está a par e também concorda.

- Ótimo! Então vamos começar?

-

- Preciso ser breve, pois ainda tenho dezesseis casais para visitar.

- Puxa! O senhor agüenta?

- Agüento sim, pois gosto do meu trabalho. Ele me dá muito prazer.

- Então, como vamos fazer?

- Permita-se sugerir uma no quarto, duas no tapete, duas no sofá, uma no corredor, duas na cozinha e a última no banheiro.

- Nossa! Não é muito?

- Nem sempre se acerta na primeira tentativa.

- O senhor já visitou alguma casa neste bairro?

- Não, mas tenho comigo algumas amostras dos meus últimos trabalhos. (Mostra fotos de crianças.) Não são belos?

- Como são lindos esses bebês! O senhor os fez?

- Sim. Este aqui (mostra uma das fotos) foi conseguido na porta do supermercado.

- Nossa! Não lhe parece um tanto público?

- Sim, mas a mãe era artista de cinema e queria publicidade.

- Que horror!

- Foi um dos trabalhos mais duros que fiz.

- Imagino

- Esta foi feita num parque de diversões, em pleno inverno.

- Credo! Como o senhor conseguiu?

- Não foi fácil. Como se não bastasse a neve caindo, havia uma multidão em cima de nós. Quase não consigo acabar.

- Ainda bem que sou discreta e não quero que ninguém nos veja.

- Ótimo, eu também prefiro assim. Agora, se me der licença, vou armar o tripé.

- Tripé???!!! Para quê???!!!

- Bem, minha senhora, é necessário. Meu aparelho, além de pesado, depois de pronto para funcionar, mede um metro.

Mas

já?

Assim tão rápido?

A mulher desmaiou."

Engraçado, não? Pois é

manifesta-se para o leitor, mas para cada personagem as falas são monoisotópicas.

E essa monoisotopia, principalmente para a mulher, é reforçada por afirmações do homem como "Ele (o trabalho) me dá muito prazer" e "Sim". (Ao responder à

pergunta se tinha sido ele quem tinha feito os bebês.) Presumo que você tenha percebido onde a diisotopia começa: a partir da fala da mulher "Ah, já sei. Pode entrar".

O estudo do significado das frases pertence à Semântica Frástica e o dos textos, à

Semântica Transfrástica ou Textual.

Mas voltemos ao assunto sério. Neste texto, a diisotopia

Dica nº 32 60% da população não aprovam ou não aprova o Presidente? Vejamos a

Dica nº 32

60% da população não aprovam ou não aprova o Presidente?

Vejamos a seguir casos de concordância relacionados a porcentagem. "Quando o número percentual é antecedido ou seguido de adjunto no plural, é melhor o plural:

'Esses 5% da boiada morreram' e '90% dos homens viajaram'". (ALMEIDA, 1979, § 769, 2, Nota, "a") Se esse número é seguido de substantivo ou pronome no plural (expressões partitivas) e a estes, por sua vez, seguem-se verbo de ligação e seu complemento (predicativo), o verbo e o predicativo influenciam-se pelo número e gênero do partitivo.

Exemplos:

"60% dos produtos importados são supérfluos", "10% das funcionárias estarão licenciadas nos próximos seis meses" e "3% dos alunos ficaram na sala para o reforço". O mesmo acontece se o predicado é constituído de locução verbal passiva:

o verbo e o particípio também são influenciados, como em "25% das

administrações estão sendo investigadas" e "Somente 30% dos recursos deverão

ser utilizados na área social".

No restante dos casos, prevalece o singular: "Apenas 5% da bancada compareceu à

sessão", "50% da arrecadação mensal é destinada ao pagamento de juros" e, é claro, 60% da população não aprova o Presidente".

Quando está implícita a idéia de quantidade, o verbo fica no singular: "Quanto é 45% de R$2.000,00?" e "2% de 200 é 4".

Dica nº 33

A maior parte dos eleitores é ingênua ou são ingênuos?

Se

o sujeito é constituído por expressão partitiva (parte de um todo) e substantivo

ou

pronome no plural, o verbo pode ficar no singular ou ir para o plural: "Metade

das casas foi construída ou foram construídas em regime de mutirão", "A maior

parte dos aviões foi destruída ou foram destruídos no solo" e "A maioria dos genes

já foi identificada ou foram identificados". "A cada uma dessas possibilidades

corresponde um novo matiz da expressão. Deixamos o verbo no singular quando queremos destacar o conjunto como uma unidade. Levamos o verbo ao plural para evidenciarmos os vários elementos que compõem o todo" (CUNHA, 2000: 488). Dessa forma, o verbo no singular ressalta a concordância gramatical - a "normal" -, enquanto que no plural obedece à concordância siléptica ou ideológica - "especial".

Se o substantivo ou o pronome estão no singular, o verbo permanece no singular: "A

Se o substantivo ou o pronome estão no singular, o verbo permanece no singular:

"A maior parte da população está desassistida" e "Somente um terço do dinheiro foi aplicado". O verbo ficará ainda no singular se a ação expressa por ele referir-se ao todo e não a cada indivíduo ou coisa separadamente: "Um pelotão de sapadores ficou aguardando ordens" e "Este lote de moedas será leiloado".

Agora está fácil responder à pergunta inicial, não é? Em ambas as hipóteses, a resposta é afirmativa.

Dica nº 34

Norma culta - Padrão formal vs. coloquial

Norma culta nada mais é do que a modalidade lingüística escolhida pela elite de uma sociedade como modelo de comunicação verbal. É a língua das pessoas escolarizadas. Ela comporta dois padrões: o formal e o coloquial:

· Padrão formal - É o modelo culto utilizado na escrita, que segue rigidamente

as regras gramaticais. Essa linguagem é mais elaborada, tanto porque o falante tem mais tempo para se pronunciar de forma refletida como porque a escrita é

supervalorizada na nossa cultura. É a história do "vale o que está escrito".

· Padrão coloquial - É a versão oral da língua culta e, por ser mais livre e

espontânea, tem um pouco mais de liberdade e está menos presa à rigidez das regras gramaticais. Entretanto, a margem de afastamento dessas regras é estreita e, embora exista, a permissividade com relação às "transgressões" é pequena.

Assim, na linguagem coloquial, admitem-se, sem grandes traumas, construções como "Ainda não vi ele", "Me passe o arroz" e "Não te falei que você iria conseguir?", inadmissíveis na língua escrita. O falante culto, de modo geral, tem consciência dessa distinção e ao mesmo tempo em que usa naturalmente as construções acima na comunicação oral, evita-as na escrita. Contudo, como se disse, não são muitos os desvios admitidos, e muitas formas peculiares da norma popular são condenadas mesmo na linguagem oral. Construções como "Nóis foi na fazenda" (o "na" ainda seria tolerado) e "Ele pagou dois milhão pelos boi" são impensáveis na boca de um falante culto em ambiente culto, pois passam a quem ouve a impressão de total falta de escolaridade de parte de seu autor. Já em ambiente inculto seriam apropriadas: é a história de "Em Roma, como (fazem) os romanos". (Veja também a pág. Você sabia? n.º 25.) Por outro lado, usos próprios do padrão formal empregados na língua oral costumam parecer forçados ou artificiais no falar despreocupado do dia-a-dia e configuram o que se chama de preciosismo. É o caso de, num bate-papo, ouvirem-se certos empregos do pronome oblíquo - "Ainda não o vimos por aqui" -, flexões do mais-que-perfeito do indicativo - "Eu ainda não entrara no Banco quando aquilo aconteceu - e, o que é pior, o uso da mesóclise, como em "Você ver-se-ia em maus lençóis se continuasse a insistir naquilo". Moral da história: assim como se usa traje apropriado para cada situação social, também se use o padrão lingüístico adequado para as diferentes situações de comunicação social.

Dica nº 35 Uniformidade de tratamento A comunicação oral ou escrita no âmbito da norma

Dica nº 35

Uniformidade de tratamento

A comunicação oral ou escrita no âmbito da norma culta requer uniformidade de tratamento e concordância verbal em função da pessoa do discurso considerada. Assim, se a pessoa escolhida for a segunda do singular, os pronomes e o verbo devem estar igualmente nela.

Exemplo:

"Tu nunca te esqueces de visitar tua terra natal, não é?". Se a pessoa for a terceira, é preciso converter os termos para ela: "Você nunca se esquece de visitar sua terra natal, não é?". Observe que "você", embora se refira à pessoa com quem se fala (segunda), é pronome de tratamento e, como tal, pertence à terceira pessoa gramatical e para ela leva o verbo. No caso da primeira do plural, a mesma coisa: "Nós nunca nos esquecemos de visitar nossa terra natal, não é?". Nestes exemplos, o possessivo foi intercambiado apenas para servir de mais um elemento de concordância, pois a "terra natal" poderia ser a de quem quer que fosse. Entretanto, a primeira frase, por exemplo, não poderia ser construída como "Tu nunca te esqueces de visitar sua terra natal, não é?", se "terra natal" fosse a do interlocutor. Lembre-se de que pronomes de tratamento como Vossa Senhoria, Vossa Excelência e outros, apesar do "vossa", situam-se na terceira pessoa gramatical e, conseqüentemente, para ela levam o verbo: "V. Ex.ª é muito previdente". É preciso estar atento para a concordância para não se cometerem erros como "Não te falei que você iria conseguir?" e "Foi nesse momento que eu caí em si". A primeira frase ainda é tolerável na linguagem coloquial, mas a segunda é imperdoável se quem a pronuncia passou pela escola.

Dica nº 36

Capítulo dez ou capítulo décimo?

Capítulo décimo. Sempre que o numeral vier depois do substantivo, emprega-se a forma ordinal até décimo. Daí em diante, usa-se a forma cardinal. Assim:

· Pedro I (primeiro)

· Paulo VI (sexto)

· Capítulo X (décimo)

· Luís XIV (catorze)

· Tomo XXI (vinte e um)

Se o numeral anteceder o substantivo, usa-se a forma ordinal:

· Oitava parte

· Décimo capítulo · Décimo quarto tomo · Vigésimo primeiro século · 35.º Distrito Policial

· Décimo capítulo

· Décimo quarto tomo

· Vigésimo primeiro século

· 35.º Distrito Policial (trigésimo quinto)

Dica nº 37

Figuras de pensamento - Antítese e paradoxo

As figuras de pensamento são, antes de qualquer coisa, figuras de linguagem. Resultam do desacordo entre a verdadeira intenção de comunicar e o ato de fala.

Dito em outras palavras, consistem em "desvios" que funcionam como véus a ocultar um estado de consciência. Há vários tipos de figuras de pensamento, como

o eufemismo, a ironia, a litote, a prosopopéia, a antítese e o paradoxo. Vamos

tratar destas duas últimas.

A antítese consiste na exposição, no texto, de idéias contrárias. Essa oposição pode

ocorrer entre palavras, frases ou orações. Assim, temos antítese em "Ele não odeia, ama; não chora, ri.". A página Com Jesus ,de Emmanuel, contém várias antíteses,

como "Não te omitas. Ajuda./Não condenes. Ampara./Não te ofendas. Esquece./Não te queixes. Caminha./Não depredes. Constrói./Não critiques.

Instrui./Não pares. Serve sempre./". A antítese foi recurso característico da literatura barroca. Este trecho de Vieira, extraído do Sermão da Sexagésima, dá-

nos idéia de sua utilização: "

tinha regresso para os trazer; porque sair para tornar melhor é não sair". Na antítese, o contraste confere às palavras opostas ênfase que não teriam se

apresentadas isoladamente.

mas esse espírito tinha impulsos para os levar, não

O paradoxo é figura em que há contradição de idéias. Em outras palavras, o paradoxo apresenta opinião contrária ao senso comum, mas que pode conter verdade: "Dor - tu és um prazer! (Castro Alves). Neste magnífico soneto de Camões, sucedem-se os paradoxos:

"Amor é fogo que arde sem se ver,

é ferida que dói e não se sente;

é um contentamento descontente;

é dor que desatina sem doer.

É um querer mais que bem-querer;

é solitário andar por entre a gente;

é um não contentar-se de contente;

é cuidar que se ganha em se perder.

É um estar-se preso por vontade,

é servir quem vence o vencedor,

é ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode o seu favor

nos mortais corações conformidade, sendo a si tão contrário o mesmo Amor?". Lindo, não? E

nos mortais corações conformidade, sendo a si tão contrário o mesmo Amor?".

Lindo, não? E cheio de paradoxos. Como podemos ver, na antítese, apresentam-se idéias contrárias em oposição. No paradoxo, as idéias aparentam ser contraditórias, mas podem ter explicação que transcende os limites da expressão verbal.

Dica nº 38

Lapizinho ou lapisinho?

A segunda. Entre as dezenas de sufixos indicadores do grau diminutivo existentes em português, o falante tem a sua disposição -inho (e suas variações: -inhos, - inha, -inhas, -zinho, -zinhos, -zinha, -zinhas).

A grafia de palavras com o sufixo -inho depende da forma normal. Assim, o

vocábulo no diminutivo será escrito com "s" ou com "z" de acordo com a grafia da forma normal, "s" ou "z":

· lápis ® lápis + inho ® lapisinho

· mesa ® mes(a) + inha ® mesinha

· vaso ® vas(o) + inho ® vasinho

· rapaz ® rapaz + inho ® rapazinho

· raiz ® raiz + inha ® raizinha

· reza ® rez(a) + inha ® rezinha

Já o sufixo -zinho nada mais é do que -inho acrescido da consoante de ligação "z".

Dito em outras palavras, -zinho é variante alomórfica de -inho. Sempre que o sufixo -zinho for juntado à forma normal, a grafia será evidentemente com "z", assim:

· Irmã ® irmã + zinha ® irmãzinha

· Amor ® amor + zinho ® amorzinho

· Romã ® romã + zinha ® romãzinha

· Papel ® papel + zinho ® papelzinho

Com os vocábulos oxítonos terminados em vogal - oral ou nasal - e a maior parte dos proparoxítonos também se usa -zinho:

· pé ® pé + zinho ® pezinho

· vovô ® vovô + zinho ® vovozinho

· mamão ® mamão + zinho ® mamãozinho

· cátedra ® cátedra + zinha ® catedrazinha

· árvore ® árvore + zinha ® arvorezinha

· óculos ® óculo(s) + zinhos ® oculozinhos

Na linguagem coloquial, algumas dessas formas simplificam-se, como arvorezinha

> arvinha e oculozinhos > oclinhos. Entretanto, saiba que na linguagem culta

formal (escrita) essas criações não são aceitas e prevalecem as grafias apontadas acima. Dica nº

formal (escrita) essas criações não são aceitas e prevalecem as grafias apontadas acima.

Dica nº 39

Obedeceu-se ao regulamento x O regulamento foi obedecido.

Ué, mas não se diz que não se pode apassivar construção de que faça parte verbo transitivo indireto? Acontece que temos aí duas situações distintas, já que o verbo obedecer pode ser usado na regência direta - obedecer alguém - ou indireta - obedecer a alguém. (A propósito, veja LUFT, 1987-Verbete "Obedecer".) As duas situações são:

1. Regência direta (Obedecer alguém) - Neste caso, o verbo é transitivo direto e

conseqüentemente o "se" é pronome apassivador: "Obedeceu-se o regulamento", "O regulamento foi obedecido" e "Obedeceram-se os regulamentos", "Os regulamentos foram obedecidos". Sujeito: o regulamento, no primeiro exemplo, e os regulamentos, no segundo.

2. Regência indireta (Obedecer a alguém) - Aqui não pode haver apassivação, já

que o verbo é transitivo indireto. Logo, o "se" é índice ou partícula de indeterminação do sujeito: "Obedeceu-se ao regulamento", "Obedeceu-se aos regulamentos". Sujeito indeterminado.

Há controvérsia entre os gramáticos se, com os verbos transitivos diretos, o "se" também poderia ser considerado partícula de indeterminação do sujeito. Nesta hipótese, poderiam ser aceitas construções como "Vende-se casas" e "Aluga-se canoas", em que o sujeito seria indeterminado. Essa posição, porém, ainda encontra resistência junto à maior parte dos especialistas.

Dica nº 40

Curso a distância ou curso à distância?

adverbiais? O tema é bastante controverso e não há acordo entre os autores.

Assim, quem escreve deve apoiar-se nos argumentos de algum especialista renomado, quer opte por uma ou outra posição.

Na verdade, o

que

está em discussão

é:

ocorre ou

não

crase

Duas correntes posicionam-se:

· a que admite crase nas locuções adverbiais somente se, de acordo com a

regra geral da crase, houver emprego do artigo definido "a" ou se houver risco de ambigüidade. Assim, em "Mantenha-se à distância de 30 metros", "Ele passa às vezes por aqui" e "A irregularidade está à vista dos consumidores", percebemos o

emprego do artigo "a" e a crase é justificada. Em "Recebeu a bala" e "Já

emprego do artigo "a" e a crase é justificada. Em "Recebeu a bala" e "Já estudei a distância", a clareza está comprometida, pois ficamos sem saber, apenas por essas duas frases ambíguas, se a bala e a distância são objetos diretos ou adjuntos adverbiais, razão por que, neste último caso, deve haver acento grave no "a" dessas locuções - à bala e à distância - para precisar o significado. Entretanto, em "Temos curso a distância nesta escola", "Os policiais foram recebidos a bala" e "Faça a prova a tinta", as locuções assinaladas não recebem acento grave porque aí não há crase, pois o artigo definido feminino não está sendo utilizado. Tanto isso é verdade que se tentarmos substituir os substantivos femininos por outros masculinos não teremos a contração "ao", mas o "a" se manterá, prova de que é simples preposição. Teremos, por exemplo, "Os policiais foram recebidos a pau (e não, ao pau)" e "Faça a prova a lápis (e não, ao lápis)". Além do mais, naqueles dois exemplos, inexiste o risco de ambigüidade.

· a que entende dever haver sistematicamente crase nas locuções adverbiais

formadas de palavras femininas sob o argumento da tradição, ainda que tecnicamente não haja razão para tal. Assim, devemos construir "Quase não se escreve mais à máquina", "Você pode emitir o recibo à mão", "Paguei o lote à vista", "Rico ri à toa", etc.

Considero inconsistente o argumento da "tradição". Só isso não constitui justificativa suficiente. O entendimento da primeira corrente mencionada tem mais embasamento lógico e, conseqüentemente, é o adotado por mim. Finalmente, é preciso esclarecer não ser adverbial, mas adjetiva a locução presente no título desta página, pois ela modifica substantivo (curso). Entretanto, as considerações aqui tecidas valem também para ela.

Dica nº 41

Enviamo-lhes ou enviamos-lhes?

Tanto faz. A ênclise em construções como "Envio-lhe", "Envio-lhes" ou "Enviamos- lhe" não costuma suscitar muita dúvida. A questão surge quando se emprega o verbo e o pronome oblíquo no plural. "Gramaticalmente, não se pode dizer errada a forma queixamos-nos. Se outro, no entanto, é o uso geral, explica-o a facilidade, ou melhor o hábito da pronúncia, o qual regula a omissão ou não do s final nos diferentes casos." (ALMEIDA, 1979, § 825, 4, Notas, 2.ª) A supressão do "s" do verbo pode ocorrer com qualquer oblíquo, até mesmo com o verbo no plural e o pronome no singular: enviamo-lhe.

Outros autores, como Celso Cunha (2000, p. 400, Observações, 1.ª), registram que em casos como esses "o -s final da desinência -mos é omitido (em virtude de uma antiga assimilação à nasal inicial do pronome seguinte)". Ele refere-se a construções como "lavemo-nos", em que o pronome oblíquo principia com a consoante nasal "n". Não comenta a respeito de outras formas verbais associadas a outros pronomes oblíquos, como em "lavamos-lhes as roupas". Assim, o fator que

regula tal Podemos, pois, construir como abaixo: uso é tão-somente a eufonia ou então a

regula tal

Podemos, pois, construir como abaixo:

uso é tão-somente a eufonia ou então a facilidade de pronúncia.

· Lavamo-nos ou lavamos-nos todos os dias.

· Louvamo-vos ou louvamos-vos sempre, meu Deus.

· Enviamo-lhe ou enviamos-lhe anexo o memorando n.º 565.

· Avisamo-los ou avisamos-los de que a encomenda chegou ontem.

· Informamo-lhes ou informamos-lhes que o depósito já foi efetuado.

Dica nº 42

Desmistificar ou desmitificar?

As duas, cada uma com seu sentido. Vejamos:

· Desmistificar = Retirar ou desfazer a mistificação de alguma coisa,

desmascarar. Mistificação é o ato de mistificar, que significa enganar, iludir, burlar, fazer algo passar pelo que não é: "Regina desmistificou a encenação de José

Roberto".

· Desmitificar = Desfazer mito, mostrar a coisa como ela realmente é em sua

simplicidade e concretude: "Os professores modernos procuram desmitificar a

Matemática e fazê-la deixar de ser o 'bicho-papão' que sempre foi".

Os dois vocábulos são algo mais que parônimos, pois, além da sonoridade quase idêntica, seus significados são também muito próximos. Daí a freqüente confusão que causam.

Dica nº 43

Escolas-modelo ou escolas-modelos?

Embora ambas possam ser consideradas corretas, a tendência gramatical moderna prefere a segunda. A regra de formação do plural dos substantivos compostos (os formados por mais de um elemento) é clara: variam os componentes se ambos são variáveis e estão separados por hífen. Desse modo, temos:

variáveis e estão separados por hífen. Desse modo, temos: Alguns autores, como Celso Cunha e Domingos

Alguns autores, como Celso Cunha e Domingos Cegalla, ensinam que se o segundo elemento funciona como determinante específico ou transmite idéia de finalidade

ele permanece invariável: pombo-correio/pombos-correio e manga- espada/mangas-espada. Entretanto, Napoleão Mendes de

ele permanece invariável: pombo-correio/pombos-correio e manga- espada/mangas-espada. Entretanto, Napoleão Mendes de Almeida (ALMEIDA, 1979,

§ 227, Notas, 1.ª) garante que "é falso afirmar que não varia o segundo elemento

quando este encerra idéia de finalidade". E mais adiante continua: "A extravagância

vai mais longe quando recorrem para justificar o erro ao argumento da semelhança; porque o peixe nos lembra o boi iremos dizer peixes-boi? Vamos

então dizer couves-flor?". Cegalla, apesar da opinião acima expressa, ressalva (CEGALLA, 2000, p. 144, item 3, Observações) que "a tendência moderna, porém,

os dois elementos: pombos-correios, peixes-bois, frutas-pães,

é a de pluralizar ( homens-rãs

)

Por isso, sigamos a "tendência moderna" e empreguemos fichas-resumos, navios- escolas, cidades-satélites, escolas-modelos, navios-tanques e assim por diante.

Dica nº 44

Se não x senão

Em se não, duas palavras, o "se" pode ser:

· Conjunção subordinativa condicional e o "não", advérbio de negação.

Exemplos: "Espero que ele venha, mas, se não vier, pouco poderei fazer" e "Se não gostar, pode devolver o produto". Há sempre a idéia de condição. Tal conjunção pode ser substituída por "caso": "Caso não venha, pouco poderei fazer" e "Caso não goste, pode devolver o produto". Há ainda uma terceira possibilidade de substituição, com emprego do gerúndio: "Espero que ele venha, mas, não vindo, pouco poderei fazer" e "Não gostando, pode devolver o produto".

· Conjunção subordinativa integrante e o "não" continua advérbio de negação.

Exemplos: "Perguntei-lhe se não gostaria de sair" (nesta oração, o "não" pode ser suprimido e o sentido geral da frase não se altera. Leia mais, a esse respeito, em

Você sabia? n.º 26) e "Diga se não é verdade o que falei" (aqui, o "se" pode ser substituído por "que").

Senão pode ter vários sentidos, como abaixo:

·

De outro modo, do contrário, caso contrário - "Vá logo, senão me arrependo"

e

"Estude bastante, senão você não terá sucesso". (conjunção)

·

Mas, mas sim, porém - "Silvinha não é garota de ficar em diversões, senão de

levar a sério os estudos" e "Eu não quis criticar, senão ajudá-lo". (conjunção)

· A não ser, mais do que, além de - "Ele não o comprará, senão por bom preço" e "Não há senão 20 passageiros a bordo". (preposição)

· Mas também (em correlação com "não só" ou "não apenas") - "Alguns são não

· Mas também (em correlação com "não só" ou "não apenas") - "Alguns são

não só cínicos, senão desonestos" e "Os aliados tentaram não apenas cooptar mais

parlamentares, senão os chantagear". (conjunção)

· Defeito, mancha - "Li todo o texto e só encontrei um senão" e "Não há

nenhum senão em sua vida pública". Neste caso, é substantivo e vem precedido de

artigo, pronome, numeral, etc.

Dica nº 45

Complemento nominal x adjunto adnominal

Não é difícil compreender-se a distinção de emprego entre esses dois termos da oração. A diferença básica entre eles é a essencialidade de um (complemento nominal) e acidentalidade do outro (adjunto adnominal). Vejamos:

· Complemento nominal - É imprescindível para o sentido da oração estar

completo. Ex.: "João ficou à disposição". A pergunta inevitável é: de quem? A resposta (da empresa, da Justiça, da família, etc.) é um complemento nominal, porque completa o sentido de um nome (à disposição). Outros exemplos: "Faz tempo que não tenho notícia de Joaquim" e "Sou favorável à sua promoção". Os termos assinalados completam o sentido de nomes (notícia - substantivo - e favorável - adjetivo). O complemento nominal pode ser até uma oração, classificada como "subordinada substantiva completiva nominal", que completa o sentido de um substantivo, adjetivo ou advérbio da oração subordinante: "Tenho esperança de que ele venha". A oração subordinada completa o sentido do

substantivo esperança. Repare que esse tipo de oração é sempre introduzido por uma preposição, clara ou subentendida (no exemplo, a preposição "de").

· Adjunto adnominal - É termo acessório e determina ou qualifica nome

substantivo. Pode ser retirado sem prejuízo do sentido geral do texto: "O pai de João viajou". Se retirarmos os adjuntos, a oração reduzir-se-á a "Pai viajou", que, de certa forma, ainda mantém o sentido geral da frase. Outros exemplos: "A Divina

Comédia é um livro notável", "Comprei dois copos" e "Abri o grande portão de madeira". Uma oração inteira também pode funcionar como adjunto adnominal: "O Ronan, que trabalha aqui, não se encontra no prédio" (oração subordinada adjetiva explicativa) e "O Ronan que trabalha aqui não se encontra no prédio" (oração subordinada adjetiva restritiva).

Dica nº 46

Ciúmes e saudades

É de estranhar e mesmo tende-se a considerar incorreto o uso no plural de nomes como os acima, já que ambos expressam conceitos abstratos, sentimentos, que, como tais, são considerados "incontáveis". Como contar o ciúme e a saudade para pluralizá-los: dois ciúmes, três saudades? Lemos, nos comentários do mestre

Napoleão Mendes de Almeida, que "Os substantivos que exprimem noções abstratas, vícios e virtudes empregam-se

Napoleão Mendes de Almeida, que "Os substantivos que exprimem noções abstratas, vícios e virtudes empregam-se no singular: a prudência, a preguiça, a caridade, a ociosidade, a fortaleza" (ALMEIDA, 1981: 286). Mais adiante, porém, ele acrescenta:

"Tratando-se de virtudes, vícios, de certas disposições, sentimentos e paixões, muito é para notado que, em alguns casos, a mesma palavra, empregada no singular ou plural, não designa de todo o ponto a mesma noção, mas dois aspectos diferentes por ela indicados nos dois números, como tão ao claro no-lo dão a ver os modelos do bom falar: 'Deixando as armas e as armaduras, a liberdade e as liberdades da vida, se vestiu de um hábito religioso' (Vieira)".

Daí verifica-se que certos nomes abstratos, quando empregados no plural,

adquirem sentido algo diferente. Assim, tem-se liberdade, há pouco citado, como vocábulo designativo de conceito bem amplo e geral. No plural, designaria as várias liberdades, isto é, direitos a que tem o indivíduo: liberdade de ir e vir, de pensamento, de expressão, de credo religioso, etc., mas também intimidades sensuais, como em "Ei, não te dei essas liberdades!". Da mesma forma, tome-se a palavra amor, conceito geral e abstrato. Contudo, no plural - amores -, já se tem sentido diferente, pessoas a quem se dedica amor: "Zequinha e seus dois amores".

O ato de lembrar é lembrança: "Tenho vaga lembrança desse fato". No plural, além

de recordações, também pode significar cumprimentos, recomendações: "Dê lembranças minhas a sua família".

Se o plural de substantivos desse tipo não acarretar mudança de sentido, é indiferente usá-los no singular ou no plural: o ciúme ou os ciúmes, muita saudade ou muitas saudades, apesar do que foi dito no primeiro parágrafo. E por que isso? Porque a tendência é para o plural mesmo. Recorremos novamente ao prof. Napoleão, que testemunha:

"É disso confirmação o fato de outras palavras, designativas de disposições e sentimentos de espírito, quando nenhuma diferença de sentido implica sua flexão numérica, serem a pouco e pouco substituídas pelo plural. Tal se deu com parabém, com pêsame, com felicitação, nomes que, dantes empregados no singular ('Vossa senhoria me dá o pêsame dos achados com que vivo, e juntamente o parabém da enfermidade com que hei de morrer' - Vieira), são hoje usados no plural. Saudade vai sofrendo idêntica adaptação; já não dizemos que um dia só o plural se venha usar, mas por ora nada há que opor ao emprego da flexão numérica". (Idem, ibidem)

E por que essa tendência ao plural de nomes abstratos, "não-contáveis", portanto?

Possivelmente, porque na mente dos falantes o plural expresse as reiteradas situações em que o sentimento ou a emoção ocorrem: ciúmes e saudades - vários momentos de ciúme ou de saudade. Pode ser também que, com o plural, se reforcem aquelas idéias ou se lhes acentue a intensidade: muito ciúme ou saudade.

Já outros nomes concretos, porém, como chope, clipe e videoclipe (a propósito, os três, estrangeirismos aportuguesados), são usados no singular ou no plural conforme designem, respectivamente, uma ou mais unidades: um chope, dois chopes; um clipe, dois clipes, um videoclipe, dois videoclipes.

Para concluir, podemos admitir a pluralização de nomes abstratos designativos de sentimentos e emoções, com

Para concluir, podemos admitir a pluralização de nomes abstratos designativos de sentimentos e emoções, com o cuidado de verificar se não mudam de sentido nessa condição. Há autores que discordam desse ponto de vista, como Luiz Antonio Sacconi. Entretanto, preferimos acompanhar o posicionamento do prof. Napoleão e assim não remar contra a correnteza.

Dica nº 47

Terapias

Terapia é palavra de origem grega (therapeía) e significa "método de tratar doenças e distúrbios da saúde, tratamento de saúde". Há diversos tipos de terapia, que utilizam variados procedimentos, substâncias e ambientes. A maior parte dos seus nomes são oriundos do grego e pertencem à área médica, mas muitos são popularizados através dos meios de comunicação, como jornais e revistas não- especializadas. Alguns vão listados abaixo com seus significados:· Actinoterapia (Do grego aktis, raio) - Terapia em que se empregam raios ultravioleta ou então irradiação actínica, que exerce ação química sobre algumas substâncias.

· Aromaterapia (Do grego árōma, pelo latim aroma: odor, fragrância) -

Emprego de extratos de plantas aromáticas e de óleos essenciais em fricções e massagens.

· Cinesioterapia (Do grego kinesis, movimento) - Modalidade fisioterápica na

qual o paciente é orientado a produzir movimentos ativos ou passivos e que usa

diversos recursos, como ginástica e massagens. O mesmo que cinesiatria.

· Crioterapia (Do grego krýios, gelo) - Técnica terapêutica que utiliza baixas temperaturas no tratamento de doenças, especialmente da área ortopédica, mediante banhos, bolsas de gelo e outros meios. O mesmo que crimoterapia e psicroterapia.

· Cromoterapia (Do grego chroma, cor, pigmento) - Tratamento de problemas

da área psicológica que se vale das cores, especialmente de luzes coloridas.

· Eletroterapia (Do grego elektron, âmbar amarelo) - Técnica também chamada

"eletrochoque", utilizada no tratamento de distúrbios mentais, que consiste na

aplicação no encéfalo do paciente de corrente elétrica de curta duração.

· Ergoterapia (Do grego érgon, trabalho, esforço) - Terapia em que se emprega o trabalho físico na recuperação de pacientes.

· Fisioterapia (Do grego phýsis, natureza) - Tratamento de doenças mediante

massagens, exercícios físicos, aplicações de luz, calor, eletricidade e utilização de

aparelhos mecânicos, elétricos e eletrônicos.

(Do grego phytón, planta) - Terapia que
(Do
grego
phytón,
planta)
-
Terapia
que

· Fitoterapia

produzidos com substâncias extraídas de vegetais.

utiliza

remédios

· Fototerapia (Do grego photós, da luz) - Técnica terapêutica que utiliza a luz.

· Hidroterapia (Do grego hydro, água) - Tratamento de doenças com utilização

da água, interna e externamente. Internamente, ingere-se águas minerais do tipo ferruginosa, alcalina, sulfurosa, etc. Externamente, faz-se uso de duchas e banhos de imersão. A água pode também ser utilizada nos estados sólido ou de vapor. Esta terapia ajuda a eliminação de impurezas, é poderoso auxiliar no processo de desintoxicação e produz relaxamento estimulando a circulação sangüínea.

· Hipnoterapia (Do grego hýpnos, sono) - Técnica psicoterápica que utiliza a hipnose na busca da causa de problemas da psique.

· Laborterapia (Do latim labor, fadiga resultante da execução de trabalho) -

Tratamento de enfermidades nervosas e mentais em que se procura aproveitar o

interesse do paciente por algum tipo de trabalho ou ocupação. O mesmo que terapia ocupacional e praxiterapia.

· Musicoterapia (Do latim musica, arte das musas) - Musicoterapia é processo

sistemático de intervenção em que o terapeuta ajuda o cliente e/ou paciente a promover a saúde utilizando experiências musicais e as relações que se desenvolvem através delas como força dinâmica de mudança. A musicoterapia implica ao paciente e ao terapeuta grande gama de experiências musicais. As principais são: improvisação, execução, composição, verbalização e a escuta musical.

· Peloterapia (Do grego pelos, lodo, lama, argila) - Tratamento de doenças - como da pele, por exemplo - em que se usa terra ou lama medicinais.

· Psicoterapia (Do grego psychē, alma, sopro de vida) - Conjunto das técnicas

empregadas na busca do equilíbrio psíquico do paciente através da pesquisa, na sua mente, de causas de comportamentos patológicos e da adoção de novos

padrões comportamentais.

· Quimioterapia (Do latim médico chimia, de alchimia) - Tratamento de doenças mediante a utilização de agentes químicos.

· Radioterapia (Do latim radiu, raio) - Técnica terapêutica, utilizada no

tratamento de vários tipos de doenças, que faz uso dos raios X ou de outras formas de energia radiante.

· Sonoterapia (Do latim somnus, sono) - Técnica utilizada pela Psiquiatria no

tratamento de distúrbios mentais que consiste em produzir e manter sono artificial

controlado em um paciente mediante o uso de drogas. O mesmo que narcoterapia.

· Soroterapia (Possivelmente do latim *sorum, de serum, soro do leite, líquido

seroso) - Tratamento que utiliza soro sangüíneo obtido de animais imunizados, nos

quais se inocularam bactérias e toxinas. O mesmo que orroterapia e seroterapia.

Dica nº 48 Adjetivos de relação Adjetivos de relação são nomes qualificadores oriundos de substantivos.

Dica nº 48

Adjetivos de relação

Adjetivos de relação são nomes qualificadores oriundos de substantivos. Restringem a extensão do significado de unidades desta classe de palavras e normalmente não admitem flexão de grau. Por exemplo, ígneo = de fogo e férreo = de ferro. Seguem abaixo mais alguns exemplos:

Boa parte desses adjetivos apresenta forma bem diversa da do substantivo de origem em virtude

Boa parte desses adjetivos apresenta forma bem diversa da do substantivo de origem em virtude de o étimo verdadeiro (vocábulo que constitui a origem de outro) ser palavra latina. Assim, alguns adjetivos relacionados a fogo, como ígneo e ignescente derivam do latim ignis, fogo. Da mesma forma, sulfídrico, sulfúreo, sulfuroso e sulfúrico provêm do latim sulfur, enxofre. Por essa mesma razão, o símbolo químico do enxofre é "S".

1 Há vários outros adjetivos relacionados a água em que aparece o elemento de

composição de origem grega hidro, como em

hídrico e hidráulico.

2 Vários outros adjetivos referentes a olho contêm o elemento grego oftalmo:

oftalmológico e oftálmico.

3 Existem adjetivos relacionados a osso constituídos pelo elemento grego ósteo:

osteológico e osteométrico, por exemplo.

4 Há outros adjetivos referentes a ouvido em cuja composição entra o elemento grego oto,

4 Há outros adjetivos referentes a ouvido em cuja composição entra o elemento

grego oto, como otológico e otopático.

5 O elemento de origem grega lito entra na constituição de vários adjetivos relacionados a pedra, como litográfico e litolátrico.

6 Vários adjetivos que remetem a rim são compostos do elemento de origem grega nefro, como nefrolítico e nefrológico.

7 Há também adjetivos referentes ao planeta Terra em cuja composição entra o

elemento de origem grega geo: geográfico e

geopolítico, por exemplo.

Dica nº 49

Flexão gradual de substantivos "não-contáveis" ou "contínuos".

Comentaremos agora aspecto particular da flexão de grau de certa classe de substantivos, os "não-contáveis" ou "contínuos", sobre o qual se omitem as mais conhecidas gramáticas disponíveis no Brasil. Segundo essas obras, o grau aumentativo e o diminutivo expressam tamanho - grande (chinelão, orelhona) e pequeno (chinelinho, orelhinha) em relação à forma normal: chinelo e orelha - ou então certa intenção pejorativa (bocarra, cabeçorra/jornaleco, velhote) ou valorativa/afetiva (carrão, mãezona/filhinho, vovozinho). Esses substantivos, porém, enquadram-se na categoria dos "contáveis" ou "descontínuos", isto é, expressam unidades que podem ser contadas. Dessa forma, podemos facilmente contar um chinelo, dois chinelos; uma orelha, duas orelhas; um velho, dois velhos; uma mãe, duas mães; etc. O caso muda de figura quando se trata de substantivos não-contáveis, como água, ar, fogo, terra, cachaça, chope, frio, calor e assim por diante. Admitiriam eles flexão de grau, já que não lhes podemos avaliar o tamanho? Como saber se o ar, o fogo, a terra, a cachaça, o chope, o frio e o calor são grandes ou pequenos? Isto porque - com relação à cachaça ou ao chope, por exemplo - uma coisa é o líquido e outra é o copo que o contém; este, sim, pode ser grande ou pequeno. Mesmo assim, por metonímia, formas como cafezinho são explicáveis, já que a bebida "café" é servida em pequenas xícaras. Mas o que dizer de agüinha e chopinho? Entretanto, vemos em nosso linguajar corriqueiro expressões como "Vou tomar uma agüinha", "Está bom o arzinho lá fora", "O Chico também é da terrinha", "Quero experimentar aquela sua cachacinha", "Vamos tomar um chopinho?", "Aqui está um friozinho gostoso". Observamos, pois, que o diminutivo de nomes contínuos, no geral, não expressa tamanho, mas desejo de exprimir intenção afetiva, carinhosa ou amistosa. Já o aumentativo parece ora exprimir afetividade (verdão e azulão, referindo-nos a times de futebol, e Castelão, Bezerrão, nomes de estádios) ora revelar grande quantidade mesmo, mas com auxílio da metonímia, como em: "Que calorão, hem?" e "Deparei com fogaréu assustador". Repare que o calor não pode ser grande, pois é sensação ou qualidade de quente. O que é grande, ou melhor, elevada é a temperatura, medida em graus. Não obstante, no lugar de temperatura elevada, dizemos calor grande ou calorão. Em outras palavras, por metonímia, em vez do fenômeno físico, mensurável

(temperatura), referimo-nos a seu efeito (a sensação: calor). Da mesma forma, recorremos a outra figura

(temperatura), referimo-nos a seu efeito (a sensação: calor). Da mesma forma, recorremos a outra figura de linguagem para dizer fogaréu, aumentativo de fogo. Este não pode ser grande ou pequeno, mas sim, sua fonte. Assim, o fogo é parte da fogueira (monte de lenha em chamas), a qual pode, sim, ser grande ou pequena: fogueirona ou fogueirinha. Como utilizamos parte da fogueira (o fogo) no aumentativo - fogaréu -, valemo-nos agora da sinédoque para produzir flexão de grau em algo que não pode ter o tamanho medido. Neste caso, tomamos a parte (fogo) no lugar do todo (fogueira). Podemos ainda considerar grandes ou pequenas as chamas, mas não o fogo em si, o fenômeno da combustão. Agora, recorremos novamente à metonímia, pois tomamos o abstrato (fogo) no lugar do concreto (chama). Em resumo: podemos flexionar, quanto ao grau, substantivos não- contáveis ou contínuos para exprimir afetividade, pejoratividade ou para expressar tamanho grande mesmo. Neste caso, valemo-nos de figuras de linguagem como a metonímia e a sinédoque.

Dica nº 50

Pronome oblíquo como sujeito de oração

Todas as gramáticas afirmam categoricamente que, dos pronomes pessoais, somente os retos podem ser sujeito de verbo. É por isso que é incorreto construir- se “Isto é para mim fazer”, pois o pronome oblíquo mim está sendo empregado como sujeito do verbo fazer. O que dizer, porém, de orações como “Deixe-os passar”? Temos aí dois verbos, portanto, duas orações. O sujeito de “deixe” é de terceira pessoa, por exemplo, você. E o sujeito de “passar”? Só pode ser os. Mas “os”, no contexto, é pronome oblíquo e como tal – ainda de acordo com as gramáticas – não pode ser sujeito de verbo. Será? Nas construções em que entram os verbos deixar, fazer, mandar, ouvir, sentir e ver cujos objetos são verbos no infinitivo (o complemento de “deixe” é o infinitivo passar), o pronome oblíquo funciona como sujeito. Neste caso, o verbo no infinitivo permanece na forma não- flexionada ou impessoal – apesar das regras de Soares Barbosa (sujeitos diferentes dos dois verbos) e da de Frederico Diez (possibilidade de substituição do infinitivo por verbo na forma modal).

No exemplo citado – Deixe-os passar –, como já vimos, o complemento de “deixe” é o infinitivo “passar”, cujo sujeito é o pronome oblíquo “os”. A oração subordinada “os passar” equivale a outra em que o verbo se apresenta na forma modal “que eles passem”, classificada como subordinada substantiva objetiva direta, introduzida pela conjunção integrante que. Constatamos, pois, que casos como esse revelam certas dificuldades lógicas da descrição gramatical que obrigam à prática de contorcionismos explicáveis pelas tradicionais “exceções”.

Dica nº 51

Ascendência e descendência

Se quisermos nos referir a nossos pais, avós e demais antepassados, o vocábulo correto será

Se quisermos nos referir a nossos pais, avós e demais antepassados, o vocábulo correto será ascendência, que se relaciona com os ascendentes, os que vieram antes. Assim, digo que “Minha ascendência é espanhola”, pois meus avós, bisavós e os anteriores a eles eram espanhóis. Se eu quiser falar a respeito dos que vieram e virão depois de mim, isto é, meus descendentes, utilizarei descendência: “Minha descendência é brasileira”. Caso eu diga “Minha descendência é espanhola”, quererei dizer que meus filhos e netos são espanhóis. Por outro lado, posso corretamente dizer “Sou descendente de espanhóis”, o que significa eu provir de família originária desse povo.

Dica nº 52

Em epígrafe ou à epígrafe?

A construção portuguesa é em epígrafe ou então na epígrafe, se se preferir usar o artigo feminino "a". Quando se utiliza "em epígrafe", não se está empregando

artigo: "Refiro-me ao memorando em epígrafe para informar-lhe que

citada expressão significa "em destaque", "em evidência". Se se utilizar o artigo, a expressão ficará "na epígrafe", pois a preposição "em" combinar-se-á com o artigo

"a" (em + a = na): "Refiro-me ao memorando indicado na epígrafe para informar-

Com efeito, a preposição “em” é a mais indicada para expressar

localização: “Isso foi mencionado na página 35”, “A palavra em questão encontra- se na linha 28” e “O pagamento foi citado em carta anterior”. Em LUFT, 1999, verifica-se que a preposição “a” é empregada, juntamente com particípios com função adjetiva, com sentido de “para”: “Algo mencionado a alguém = para alguém” e “Caso ou fato referido à autoridade policial = para a autoridade policial”. Em outras construções, ela igualmente tem esse sentido: “Dei parabéns ao chefe = para o chefe” e “Diga a Pedro (para Pedro) que já voltei”. O emprego da preposição “a” para indicar localização revela influência francesa e é por isso que o uso da expressão à epígrafe deve ser evitado, por ser considerado galicismo ou francesismo.

".

Aí,

a

lhe que

".

Dica nº 53

Verbo com função de sujeito?

Aprendemos que sujeito é o ser sobre o qual se declara alguma coisa e que essa declaração é expressa pelo predicado, do qual o verbo é o elemento mais importante. Assim, nas orações “Bruno é estudioso” e “Tiago mora em Maceió”, os sujeitos respectivos são “Bruno” e “Tiago”. Sabemos também que o sujeito pode ser constituído por uma oração inteira, classificada como subordinada substantiva subjetiva, como nestas orações assinaladas: “Se ele fará o melhor possível ainda não sabemos” e “É conveniente que você estude bastante”. Tudo bem até aí, não é? Mas e quando o sujeito é expresso por um verbo? Esquisito? Pode ser, mas o fato é que é possível, através de formas nominais como o gerúndio e o infinitivo.

Exemplos: “Não comparecendo é a forma de ele protestar” e “Rir é o melhor remédio”.

Exemplos: “Não comparecendo é a forma de ele protestar” e “Rir é o melhor remédio”. Não comparecendo é o sujeito de “é a forma de ele protestar” e Rir, o de “é o melhor remédio”. Comprovam-se facilmente essas afirmativas ao se fazer a pergunta ao verbo: “Qual é a forma de ele protestar?” e “Qual é o melhor remédio?”. Não deixam de ser curiosas essas construções, nas quais o verbo expressa ação ou estado relativos a um sujeito constituído por outro verbo, ainda que este esteja em sua forma nominal.

Dica nº 54

O vocativo e a pontuação

Denomina-se vocativo o termo acessório da oração que expressa apelo, invocação, chamamento: "Mercedes, onde está a Luciana?" e "Candidatos com ficha de inscrição vermelha, dirijam-se à sala de provas". Esse termo, que não se subordina

a nenhum outro, é usado sem artigo e pode vir acompanhado da interjeição "ó": "Ó

minha Nossa Senhora, valei-me!". Modernamente, observa-se no português brasileiro, em sua modalidade oral, o emprego da interjeição "o" (ô fechado), que não se confunde com o artigo "o": "O João, que é isso?". Característica marcante do vocativo é a de vir sempre acompanhado de vírgula. Uma vez que se pode antepor ou pospor à frase ou estar intercalado nela, o vocativo pode vir seguido ou precedido de vírgula ou ainda estar entre vírgulas, assim: "Guardas, corram atrás dele!", "Corram atrás dele, guardas!" ou "Corram, guardas, atrás dele!". Lembre-se de que a vírgula é obrigatória no emprego do vocativo. Na correspondência comercial, esse termo aparece constantemente, como "Sr. Gerente,", "Prezado Senhor," e "Ex.mo Sr. Ministro,".

Dica nº 55

A sigla como recurso eufemístico

Já tratamos neste saite da sigla e suas particularidades, no Glossário Gramatical, verbete Sigla”. Vamos abordar agora aspecto ali não contemplado: o do uso da sigla como recurso eufemístico. Sabemos que eufemismo é a figura de linguagem que consiste no emprego de palavras, expressões ou circunlóquios (rodeios de

palavras) em lugar de formas lingüísticas cujo significado é considerado indecoroso, desagradável ou ameaçador. Assim, usa-se doente dos pulmões no lugar de “tuberculoso”; mal de Hansen, em vez de “lepra”; deficiente visual, em lugar de “cego”; etc. Para "câncer", há várias expressões, como moléstia pertinaz, mal cruel

e prolongado, doença ruim, aquela doença e outras. Com o passar do tempo, os

falantes perceberam que, em vez de empregar formas eufemísticas, poderiam utilizar, com menos esforço e o mesmo resultado, siglas formadas pelos fonemas iniciais das palavras ou expressões inconvenientes ou dos próprios eufemismos. Tal uso começou a generalizar-se modernamente, tanto na linguagem escrita como na falada. Assim, temos, entre outros exemplos:

Pelos exemplos acima, vemos que algumas siglas poderiam classificar-se como “eufemismos de segundo grau”, já
Pelos exemplos acima, vemos que algumas siglas poderiam classificar-se como “eufemismos de segundo grau”, já

Pelos exemplos acima, vemos que algumas siglas poderiam classificar-se como “eufemismos de segundo grau”, já que as palavras ou expressões que representam são, por seu turno, igualmente eufemismos. É preciso ressalvar, porém, que o exposto acima resulta de constatação empírica, que eventualmente poderá ser objeto de comprovação em bases científicas.

Dica nº 56

Plural de nomes e expressões estrangeiros

De modo geral, os vocábulos e expressões estrangeiros devem, sempre que possível, ser aportuguesados. Isto feito, será fácil flexioná-los no plural de acordo com as regras portuguesas. Assim, temos abdome/abdomes, buquê/buquês, carnê/carnês, chique/chiques, chope/chopes, clipe/clipes, clube/clubes, disquete/disquetes, germe/germes, hambúrguer/hambúrgueres, jipe/jipes, mantô/mantôs, saite/saites, etc.

Formas existem, entretanto, que permanecem na grafia original ou foram ligeiramente adaptadas. Nesse caso, ao passá-las para o plural, se não for possível aplicar as regras do português, devemos acrescentar-lhes um “s”, a não ser que terminem em “s” ou “z”. Exemplos: álbum/álbuns, ampère/ampères, déficit/déficits, fórum/fóruns, iceberg/icebergs, paella/paellas, post-scriptum/post- scriptuns, superávit/superávits, te-déum/te-déuns, ultimatum/ultimatuns, volt/volts, watt/watts, etc. Mas o ex-libris/os ex-libris, o fizz/os fizz, o jazz/os jazz. Em mapa-múndi, só o primeiro elemento flexiona-se: mapas-múndi.

Há vocábulos estrangeiros cuja grafia se mostra difícil de adaptar ao português e por isso devem ser pluralizados na língua de origem, isto se o falante conhecer tal idioma. Em caso contrário, é mais sensato procurar alguma forma portuguesa correspondente. Desse modo, temos: lady/ladies, bijou/bijoux, bambino/bambini, etc.

Por fim, dois casos particulares:

· Gol (do inglês goal), fica gols, no plural. Essa flexão, estranha ao português, deveria ser gois ou goles (ambos com o “o” pronunciado fechado), mas o plural estrangeiro prevaleceu no Brasil.

· Álcool (do árabe al kohol) faz o plural alcoóis.

Dica nº 57 Adjetivo com função adverbial A função usual do adjetivo é modificar, acrescentar

Dica nº 57

Adjetivo com função adverbial

A função usual do adjetivo é modificar, acrescentar atributo ao substantivo, como em:

“O bom ® homem sorriu-lhe ” e “ Trata-se de notícia ¬ importante”. Entretanto, quando modifica verbos, o adjetivo exerce função adverbial: “Vá direto para casa”, “Fale claro agora” e “Letícia mergulhou rápido na piscina”. Nestes exemplos, “direto” corresponde a diretamente; “claro”, a claramente e “rápido”, a rapidamente. Enquanto o adjetivo assume geralmente a forma feminina para compor advérbios de modo (claramente, puramente), para funcionar como advérbio – igualmente de modo –, o faz na forma masculina ou, para sermos mais preciso, na forma “neutra”. Esse uso não é novidade, pois escritores latinos já empregavam o adjetivo com função adverbial. Ao dizermos “O barco encostou garbosamente no cais de madeira”, vemos que no predicado verbal “encostou garbosamente no cais de madeira” o advérbio garbosamente, invariável, modifica de maneira clara o verbo “encostou”. Contudo, se empregamos o adjetivo garboso com função adverbial – “O barco encostou garboso no cais de madeira” –, constatamos ser verbo-nominal o predicado. Isto porque, ao mesmo tempo que “garboso” modifica “encostou”, também se refere ao sujeito (o barco), com o qual concorda. Assim, se substituíssemos “o barco” por “a lancha”, “os barcos” ou “as lanchas”, teríamos a flexão daquele adjetivo em garbosa (A lancha encostou garbosa), garbosos (Os barcos encostaram garbosos) e garbosas (As lanchas encostaram garbosas). Concluímos assim que o adjetivo empregado com função adverbial deve ser considerado estritamente advérbio quando integra predicado verbal e nesta condição permanece invariável na forma aparentemente masculina, na verdade, neutra. Caso integre predicado verbo-nominal, a par da função adverbial, exercerá também função adjetiva, pois que modificará um substantivo, com o qual concordará em gênero e número.

Dica nº 58

Dentre e entre

Não confunda dentre com entre. O vocábulo “dentre”, constituído por de + entre, é empregado quando os dois elementos que o compõem são exigidos. Em caso contrário, prevalece "entre". Exemplos do emprego de "entre": "Carlos era extrovertido apenas entre seus amigos" (no meio dos seus amigos) e "Isso é entre mim e ele" (diz respeito a nós dois). Exemplos de "dentre": "O vencedor foi tirado dentre os dez melhores" (de + entre os dez melhores) e "Escolha a mais bonita

dentre elas" (de + entre elas, a mais bonita delas). Nestes dois últimos exemplos, aparece

dentre elas" (de + entre elas, a mais bonita delas). Nestes dois últimos exemplos, aparece o uso da preposição "de".

Dica nº 59

Plural de modéstia

Este é caso de concordância irregular ou ideológica, tecnicamente denominado silepse de número”, onde, em vez do pronome eu, emprega-se nós. Entretanto, não se está referindo a mais de uma pessoa, senão a uma só. O verbo flexiona-se na primeira pessoa do plural e assim concorda com o sujeito formalmente plural. Como, porém, a idéia é a de um só agente, o predicativo – particularmente o adjetivo e o particípio – permanece no singular e sua concordância processa-se não formalmente, mas ideologicamente, como se “eu” estivesse explícito. É utilizado geralmente por escritores e oradores – principalmente por políticos – para evitar tom muito personalista no discurso e fazer parecer que falam não de modo individualista, mas como expressão da fala coletiva. Exemplos: “Nós estamos satisfeito com o resultado”, “Sempre fomos exigente com o bom uso do dinheiro público” e “Prometemos nunca estar envolvido em nenhum escândalo”. Antigamente, reis e altos dignitários eclesiásticos também usavam esse recurso, conhecido por plural majestático. É importante ressaltar que, uma vez feita a escolha do plural de modéstia, não se pode usar o pronome “eu” e que os pronomes pessoais oblíquos e os possessivos devem ser os da primeira pessoa do plural: nos, conosco, nosso. Assim: “Estamos confiante em nossa capacidade de atender à expectativa da população, à qual nos dirigiremos permanentemente para auscultar-lhe a vontade, blá, blá, blá

Dica nº 60

A partícula se: pronome apassivador e pronome reflexivo.

Entre as várias funções do se, estão a de pronome apassivador e pronome reflexivo. No primeiro caso, ela aparece em “Dá-se terra = Terra é dada”, “Viu-se um avião sobrevoando a base = Um avião foi visto sobrevoando a base” e “Consertam-se telefones = Telefones são consertados”. Nestes exemplos, os sujeitos são terra, um avião e telefones, respectivamente, e temos caso de voz passiva sintética ou pronominal. Exemplos do “se” na condição de pronome reflexivo: “Brisa olha-se embevecida no espelho”, “Wagner questionou-se sobre sua atitude” e “Gabriel pintou-se para a festa na escola”. Aqui, devemos perguntar:

quem Brisa olha embevecida no espelho? A resposta é: a si própria; quem Wagner questionou sobre sua atitude? Resposta: a si mesmo; quem Gabriel pintou para a festa na escola? A resposta: a si próprio. A ação praticada pelo sujeito reflete-se

sobre ele mesmo. Há casos, porém, em que não fica muito clara a função do

sobre ele mesmo. Há casos, porém, em que não fica muito clara a função do “se”, pois tanto a ação verbal mostra-se reflexiva como a construção encontra equivalente na voz passiva. Vejamos: “Ademir feriu-se na perna”. Temos situação ambígua, pois não se sabe se Ademir feriu a si próprio ou se alguém o fez. Isso fica ainda mais evidente quando se converte a construção sintética na analítica:

“Ademir foi ferido na perna”. Outro exemplo: “Felipe colocou-se no centro da sala”. Tal enunciado faz parecer que o “se” exerce função reflexiva, mas também pode ser entendido como construção passiva, especialmente se o verbo anteceder o sujeito: “Colocou-se Felipe no centro da sala”. Esta oração pode também equivaler a “Felipe foi colocado no centro da sala”, situação em que parece claro haver sido a ação praticada por terceiros. A ambigüidade, nesses casos, pode ser desfeita da mesma forma que em construções nas quais se deseja distinguir o pronome reflexivo do recíproco: acrescentando-se expressões como “a si mesmo” ou “a si próprio” e suas flexões, se a voz verbal for reflexiva. Dessa forma, temos: “Ademir feriu-se a si mesmo na perna” e “Felipe colocou-se a si próprio no centro da sala”. Se a voz for a passiva, deve-se, em benefício da clareza, empregar a forma analítica: “Ademir foi ferido na perna” e “Felipe foi colocado no centro da sala”.

Dica nº 61

Uso da vírgula – Orações explicativas e restritivas

Um dos vários usos da vírgula é demarcar orações subordinadas adjetivas explicativas. Assim, a oposição presença vs. ausência da vírgula é crucial para determinar se a oração subordinada adjetiva é explicativa ou restritiva. Recordemos que as orações adjetivas funcionam como qualificativos da oração principal ou, tecnicamente, como adjuntos adnominais. Se apenas acrescentam algum esclarecimento ao sujeito, denominam-se explicativas. Entretanto, se o distinguem de outro do mesmo tipo ou espécie, aí recebem o nome de restritivas. E é aí que a vírgula exerce função das mais importantes. Vejamos alguns exemplos:

(1) “O secretário-adjunto, que foi nomeado titular, ainda não foi empossado” e (2) “O Renato, que trabalha aqui, não se encontra no prédio”. O que nesses casos é pronome relativo. Observe que as vírgulas delimitam a oração adjetiva, determinam-lhe o caráter explicativo e correspondem às pausas que se verificam na expressão oral. Retornemos aos exemplos anteriores para ver que com as vírgulas fica explícito que em (1) há um só secretário-adjunto e ele foi nomeado titular; em (2), que só há um Renato e ele trabalha aqui. Retiremos as vírgulas das orações anteriores e veremos que a situação se altera totalmente: (3) “O secretário-adjunto que foi nomeado titular ainda não foi empossado” e (4) “O Renato que trabalha aqui não se encontra no prédio. Em (3) e (4), as orações adjetivas são restritivas, pois distinguem o "secretário-adjunto" de outros que não foram nomeados e o “Renato que trabalha aqui” de outro que não trabalha. Por isso, muita atenção às vírgulas quando estamos diante de orações subordinadas adjetivas, as introduzidas por pronome relativo ou advérbio relativo.

“Hoje é 28” ou “Hoje são 28”? As duas formas são corretas. No primeiro caso,

“Hoje é 28” ou “Hoje são 28”?

As duas formas são corretas. No primeiro caso, está subentendida a expressão o dia, e o numeral cardinal substitui o ordinal, assim: “Hoje é (o dia) 28 de setembro”, oração que equivale a “Hoje é o 28.º dia do mês de setembro”. No segundo, a oração também corresponde a outra mais desenvolvida: "Hoje são (passados) 28 (dias do mês) de setembro". Se o vocábulo dia aparecer expresso no texto, o verbo obviamente concordará com ele e ficará no singular: “Hoje é dia 28”. A questão de fundo, na verdade, omitida por quase todos os autores que tratam do tema, é a concordância do verbo ser, que, como podemos observar nas gramáticas, está longe de ter regras precisas e rígidas. Assim, lemos em CUNHA, 2000: 494 que “em alguns casos o verbo ser concorda com o predicativo” e no quarto item aprendemos que tal ocorre nas orações impessoais. Exemplos ali fornecidos: “São duas horas da noite” e “Eram quase oito horas”. Se o verbo ser pode concordar com o predicativo, no caso da informação sobre dias tudo depende do número (singular ou plural) do predicativo. Dessa forma, se o numeral indicador do dia expressa quantidade acima de um, é considerado plural e para ele leva o verbo, além do argumento de subentendermos tantos dias passados do mês tal, como mencionado acima: “Hoje são 28”. Entretanto, podemos legitimamente admitir subentendida a palavra dia (por que não?), caso em que o predicativo estará no singular e o verbo, ao concordar com ele, ficará também no singular, mesmo que o dia referido for 2, 10 ou 28.

Dica nº 63

Haviam ou havia muitas crianças na creche?

A segunda. Empregado no sentido de “existir”, o verbo haver é impessoal, isto é, não tem sujeito e permanece invariável na terceira pessoa do singular, como em “Não houve um único aluno ausente”, “Havia policiais disfarçados no salão” e “Haverá muitas pessoas que reclamarão”. Ao integrar conjugação composta – a formada por verbo principal e auxiliar –, o verbo haver, no caso de que se trata, torna impessoal também o auxiliar: “Devia haver irregularidades ali” e “Apesar dos prejuízos que possa ter havido, a loja continuou aberta”. Se “haver” for substituído por existir, a concordância processar-se-á normalmente: “Existem vários casos de falha mecânica”

Dica nº 64

Estadia ou estada?

Tradicionalmente, estadia significava apenas “tempo de permanência de um navio no porto sem acréscimo da

Tradicionalmente, estadia significava apenas “tempo de permanência de um navio no porto sem acréscimo da taxa paga para tal” ou simplesmente “tempo de permanência de um navio no porto”: “Durante sua estadia no porto de Santos, o ‘Paratii’ foi inspecionado por Amyr Klink”.Estada significa “permanência”, “ato de estar em um lugar”: “Minha estada em Águas de Lindóia foi muito agradável” e “A estada do elefante em Brasília foi curta”. Entretanto, o uso acabou ampliando o significado de estadia, que atualmente também quer dizer “permanência de pessoas ou mesmo de animais” em algum lugar: “A estadia do Carlinhos em Porto Alegre foi paga pela empresa”. Os autores mais tradicionalistas resistem em aceitar a evolução do idioma e condenam este último emprego de “estadia”. Entretanto, os usuários é que são os senhores da língua, tanto é que dois ótimos dicionários aqui disponíveis (Aurélio e Brasileiro) já registram, além da acepção tradicional,o simples fato de estar-se em algum lugar igualmente como significado de “estadia”. Por isso, não se pode corrigir tal uso em nenhuma redação na qual apareça. Fiquem atentos, colegas!

Dica nº 65

América ou Estados Unidos?

Os habitantes dos Estados Unidos utilizam o vocábulo America, entre outras denominações, para nomear seu país. Possivelmente, “America” seja, para eles, forma reduzida de “United States of America”. Deve ser por isso que se popularizou entre nós o adjetivo pátrio americano, em lugar de “estadunidense” ou “ianque”, já que, em rigor, americano é o habitante da América ou algo relativo a ela, continente onde se localiza o Brasil. “Norte-americano” é adjetivo referente à América do Norte, que compreende também outros países, e deve ser evitado como designativo de alguém ou algo dos EUA. Assim, em português, empregue-se a palavra América para designar nosso continente e não, um país, diferentemente do que se tem visto na imprensa e na televisão. Não é de admirar que essa atitude servil tenha também propiciado o ingresso desnecessário aqui de uma enxurrada de vocábulos estrangeiros sem, pelo menos, tradução ou aportuguesamento. É a velha mentalidade colonizada que campeia por aí. E não se acuse a posição aqui registrada de resistência à evolução da língua, pois o nome América designa a terra de todos os americanos – do Norte, do centro e do Sul – e não somente a dos residentes entre o Canadá e o México.

Dica nº 66

Rádio amador vs. radioamador

Há muita confusão quanto ao sentido dessas palavras, mesmo entre os radioamadores. Assim, esclareça-se:

Rádio amador – Esta expressão, composta das palavras rádio e amador, denomina o esporte ou

Rádio amador – Esta expressão, composta das palavras rádio e amador, denomina o esporte ou “hobby” em que se emitem e recebem ondas hertzianas com vistas à comunicação sem objetivos comerciais e equivale a “radioamadorismo”: “O rádio amador é atividade útil ao País”. Pode também designar, pela figura denominada metonímia, o equipamento utilizado nas transmissões, como em “Este não é um rádio amador (ou rádio de amador)”. “Rádio amador” opõe-se, pelo sentido, a “rádio comercial”, tipo de comunicação que utiliza ondas de rádio de que se valem muitas empresas. O rádio amador e o rádio comercial obedecem, cada um, a legislação própria e ocupam faixas diferentes no espectro eletromagnético.

Radioamador – Significa “operador de estação de rádio amador”, isto é, a pessoa devidamente habilitada que transmite e recebe mensagens por intermédio de ondas de rádio a fim de se comunicar com outrem para seu próprio deleite ou em ações de auxílio, sem interesses pecuniários: “Um radioamador da Califórnia captou mensagens transmitidas em Nova Iorque”. A palavra radioamador opõe-se pelo sentido à expressão operador da faixa do cidadão, o popular “px”. Não se confunda “radioamador” com rádio ou equipamento. Radioamador é pessoa e não, aparelho.

Nos dois casos, amador está em contraste com comercial ou profissional.

Dica nº 67

Verbos vicários

Verbo vicário é o que fica no lugar de outro, que substitui um verbo para não se o repetir. Isto é possível porque, em determinado contexto, o verbo vicário é sinônimo daquele do qual faz as vezes. Os que mais se empregam com essa finalidade são fazer e ser: “Renato vinha muito aqui, mas há meses que não o faz” (o faz = vem aqui), “Ela não canta mais como fazia antigamente” (fazia = cantava), “O concerto realizou-se, mas não foi como se esperava” (foi = realizou- se) e “Se você não vai é porque tem medo” (é = não vai). A repetição vocabular é defeito de estilo e revela falta de recursos ou descuido na produção do texto. Um dos meios de evitá-la é o emprego dos verbos vicários.

Dica nº 68

Sistema, norma e fala

Esses

termos

da

interdependentes. Vejamos:

representam

realidades

distintas,

mas

Sistema – Conjunto formado pelas unidades da língua – em uso e ainda possíveis de serem usadas –, que se relacionam segundo regras determinadas. Essas regras são estabelecidas tacitamente pelos próprios usuários e não, pelos gramáticos, que simplesmente as descrevem. Só se verificam alterações no sistema quando há adesão coletiva. É por isso que algumas inovações ficam restritas a um único

falante, como o vocábulo “ceguez”, da obra de Guimarães Rosa. O sistema corresponde à língua

falante, como o vocábulo “ceguez”, da obra de Guimarães Rosa. O sistema corresponde à língua ou código lingüístico e consiste no conjunto de possibilidades verbais, muitas das quais (ainda) inexploradas pelos falantes. Assim, em português, enquanto há inúmeras unidades lexicais, como “casa”, “um”, “pertinente” e “profligar” (todas com seus vários significados), há muitas seqüências de fonemas ainda não utilizadas, à espera de os falantes associarem a elas algum significado, como “*brina”, “*lagipa” e “*torrigo”. (Os asteriscos indicam formas hipotéticas.) A língua é entidade social, comum aos usuários de todo um grupo falante. Para poder se comunicar com usuário de outro sistema, o locutor (emissor) precisa utilizar código lingüístico de conhecimento pelo menos parcial do seu interlocutor (receptor). Em lugar dos termos “sistema”, “língua” ou “código lingüístico” alguns autores preferem esquema.

Norma – Conceito introduzido pelo lingüista romeno E. Coseriu, que consiste nos padrões de uso, na maneira como os usuários utilizam o sistema ou código lingüístico. Assim, em razão da norma, os falantes valem-se de algumas possibilidades e descartam ou ainda não utilizam outras. É também em função da norma que existem lacunas na língua. Por exemplo, em português, não há nomes coletivos específicos para designar reunião de baleias ou de ostras. É também devido à norma que diferentes regiões de um território utilizam diferentes formas lingüísticas. Assim, os falantes nordestinos designam determinada raiz comestível por “macaxeira”, enquanto os do Centro-Sul a chamam de “mandioca” e “aipim”. (Veja também a pág. Você sabia? n.º 25.) As crianças muito pequenas e outras pessoas com pouca ou nenhuma escolaridade costumam brindar-nos com “pérolas” que achamos engraçadas e revelam como a norma determina quais formas o grupo deve usar. Por exemplo, assim como diz “corri” e “comi”, a criança acaba dizendo “fazi”. Nada impediria que fosse assim, mas a norma aceita pelo grupo prescreve “fiz”. Há também frases atribuídas a famosos jogadores de futebol, como esta: “Eu desconcordo com o que você disse”. Sintaticamente, a frase é gramatical e o vocábulo “desconcordo” está construído conforme as regras portuguesas. Entretanto, os falantes sempre preferiram discordo em seu lugar. Coisas da norma.

Fala – É a concretização – tecnicamente, realização – do sistema. É o uso individual da língua por parte dos falantes e é pela fala que ela exerce seu papel de código, de instrumento de comunicação. Assim, quando você emite a seqüência /’agwa/, que se associa ao significado H2O para constituir o lexema ou palavra água, está produzindo fala. Esta se compõe de infinitos atos comunicativos praticados pelos usuários para poderem transmitir pensamentos, sentimentos e exteriorizar seus desejos e necessidades. Em resumo, a língua ou sistema é entidade abstrata, coletiva e geral, memorizada na mente de todos os falantes de um grupo lingüístico; a norma é padrão grupal de uso, é o modo como os usuários se valem da língua preferindo certas formas e preterindo outras; fala é a concretização individual do código lingüístico pelos participantes de um ato comunicativo.

Dica nº 69

À toa

e

à-toa

Essas expressões diferem na grafia, no significado e na classe de palavras. Vejamos: À toa

Essas expressões diferem na grafia, no significado e na classe de palavras.

Vejamos:

À toa – Grafada sem hífen, essa locução adverbial significa “a esmo, sem objetivo

definido, sem proveito”: “Ficou andando à toa por aí”, “Está lá, escrevendo à toa” e “Cansei-me à toa”. À-toa – Com hífen, é locução adjetiva e significa “desprezível, sem importância, inútil”: “Aquele é sujeito à-toa mesmo”, “É besteirinha, coisa à-toa” e “Não adianta,

é ajuda à-toa”. Apesar de funcionar como adjetivo, não varia: “São papéis à-toa”.

As duas têm pronúncia idêntica e, por isso, são consideradas, tecnicamente,

homônimas homófonas. Embora o Aurélio registre como étimo (palavra de origem)

o inglês tow, lê-se em ALMEIDA, 1981: 5 (verbete “A toa”) que “toa” é vocábulo

que se origina do árabe tuha, que, por sua vez, provém do verbo taha, “andar de forma errante, vagando, sem rumo”. Trata-se de termo da linguagem náutica que quer dizer “cabo utilizado para um navio rebocar outro que não tem propulsão própria”. Dessa forma, a “toa”, ao rebocar o barco, impede que ele flutue sem rumo. Da língua especializada, a expressão passou para a língua geral.

O Aurélio registra essas locuções com “à”, embora autores renomados dispensem a

crase, conforme se vê em ALMEIDA, 1999, §§ 534 e 535. Assim, ainda que “à toa/à-toa” e “a toa/a-toa” sejam formas corretas, recomenda-se aqui a observação

do emprego da crase nessas locuções conforme o exposto na Dica n.º 40.

Dica nº 70

Plural dos nomes terminados em -ão

Por razões etimológicas, os nomes terminados em -ão passam para o plural de três maneiras em português: com final em -ãos, -ães e -ões. Os substantivos e adjetivos com a terminação "-ão" no singular podem apresentar, no plural, uma daquelas formas, duas ou ainda as três. Vejamos alguns exemplos dessas

ocorrências:·

as três. Vejamos alguns exemplos dessas ocorrências:· É oportuno ressaltar que a tendência dos falantes é

É oportuno ressaltar que a tendência dos falantes é a preferência pelo plural em "- ões". Essas considerações valem para os nomes em que a terminação "-ão" situa- se na sílaba tônica, caso de todos os exemplos acima. Contudo, o plural dos nomes em que ela se localiza na sílaba átona efetua-se de acordo com a regra geral da flexão de número dos substantivos e adjetivos: com acréscimo do morfema -s.

Assim: acórdão/acórdãos, sótão/sótãos, bênção/bênçãos. Enfim, não existe regra completa para orientar o

Assim: acórdão/acórdãos, sótão/sótãos, bênção/bênçãos. Enfim, não existe regra completa para orientar o usuário comum da língua no emprego do plural correto. Além das formas consagradas e de fácil memorização, o esclarecimento acerca das que suscitam dúvida deve ser buscado nas obras especializadas: gramáticas e dicionários.

Dica nº 71

Perda ou perca?

As duas, cada uma com seu sentido. Elas são palavras parônimas e costumam ser indevidamente empregadas uma pela outra. Entretanto, se estivermos atentos para seus significados, não há razão para as confundirmos. Vejamos: ·

Perda - Substantivo que significa "privação de alguém ou de alguma coisa que

se possuía", como em "Houve perda de receita no último ano" e "Júlio entristeceu- se com a perda do amigo".

· Perca - Flexão do verbo "perder" na primeira e terceira pessoas do singular

do presente do subjuntivo e primeira e terceira pessoas do singular do imperativo:

"Você quer que eu perca a partida, não é?" e "Não perca a esperança". Obs.: Há autores que, na descrição das conjugações, omitem a primeira pessoa do singular do imperativo.

São, pois, incorretas frases como "Não desejo que ele perda a fortuna" ® (correto:

perca) e "Isso é perca de tempo" ® (correto: perda).

Dica nº 72

Mal e mau

Essas duas são palavras parônimas, as vezes homônimas – dependendo da pronúncia –, e por isso têm sido confundidas e tomadas uma pela outra. Entretanto, é muito fácil distingui-las se conhecemos suas funções, como veremos a seguir:·

Mal (escrito com “l”) – Classifica-se como advérbio de modo e como conjunção subordinativa temporal. Como advérbio, opõe-se a bem e modifica adjetivos (Parece-me pessoa mal-intencionada) e verbos (Mais uma vez, Odilon trabalhou mal). Como conjunção, liga orações e equivale a “tão logo, nem bem”:

“Mal tomou posse, começaram as cobranças”. Quando antecedido de artigo ou pronome, expresso ou subentendido, “mal” converte-se em substantivo. Nessa condição, também se opõe a bem e ainda pode flexionar-se: “Devemos combater o mal” (as coisas más) e “Nossos males (nossos problemas) advêm basicamente da falta da noção de cidadania”.

· Mau (escrito com “u”) – É adjetivo masculino e assim pode flexionar-se em gênero

· Mau (escrito com “u”) – É adjetivo masculino e assim pode flexionar-se em

gênero (má) e número (maus, más). Acompanha substantivos: “Evite dar mau exemplo”, “Estevão e Fernando são sujeitos maus”, “Não é má idéia” e “Fuja das más companhias, porque o resultado a gente já conhece”. “Mau” também pode substantivar-se e, nessa condição, flexionar-se normalmente: “O mau precisa ser mantido sob controle” (neste exemplo, tanto cabem mal como mau, depende do

contexto), “Os bons serão recompensados e os maus, punidos”, “No final da história, a boa foi feliz para sempre e a má morreu” e “As frutas boas foram separadas das más”. “Mau” opõe-se a bom.

Em resumo:

· Mal – Classifica-se como advérbio e conjunção. Antecedido de artigo ou

pronome, torna-se substantivo. Como advérbio e substantivo, opõe-se a bem.

· Mau – Classifica-se como adjetivo e, antecedido de artigo ou pronome, substantiva-se. Opõe-se a bom.

Na dúvida, substitua “mal” por “bem” e “mau” por “bom”. Se fizer sentido, é porque o emprego foi acertado.

Dica nº 73

Estamos alerta ou estamos alertas?

A segunda. Quando funciona como adjetivo, "alerta" significa atento, vigilante. Nessa condição, relaciona-se com substantivos e pronomes, com os quais concorda em número: "O vigia está alerta na guarita" e "Nós estamos sempre alertas". Repare que nos exemplos o verbo é de ligação. Quando modifica verbo, é advérbio (significa atentamente) e nesse caso não varia: "Estavam olhando alerta os arredores" e "Continuem caminhando alerta".

Dica nº 74

Somente Paulo venceu a corrida.

Ué, mas “somente” não é advérbio e as gramáticas não ensinam que o advérbio é palavra que modifica apenas adjetivos, verbos e os próprios advérbios? Sim, é isso mesmo. Então, como, na frase-título, o advérbio “somente” está se relacionando com o substantivo Paulo? Na realidade, os gramáticos têm dificuldade em classificar certas palavras e a própria Nomenclatura Gramatical Brasileira, ao reconhecer isso, criou a classe extraordinária das “palavras que denotam” ou “denotativas”. E denotam o quê? Denotam, isto é, expressam noções de inclusão, exclusão, designação, realce, retificação, situação, explanação, etc. Essas palavras – e também locuções (grupos de palavras) – são muitas vezes consideradas advérbios,

o que não é apropriado, já que não se referem a adjetivos, verbos ou a

o que não é apropriado, já que não se referem a adjetivos, verbos ou a outros advérbios. Na verdade, em certos contextos, não se enquadram em nenhuma das dez classes de palavras admitidas e são forçosamente incluídas na classe extraordinária acima referida. Na análise morfológica, devem ser consideradas, portanto, “palavras que denotam inclusão, exclusão ou designação, etc.”. Vejamos essas categorias, uma a uma:

designação, etc.”. Vejamos essas categorias, uma a uma: Em outros contextos, a maior parte dessas palavras

Em outros contextos, a maior parte dessas palavras e expressões pode ser encaixada em uma das classes de palavras previstas na nomenclatura gramatical. Assim, até é nitidamente preposição em “Fomos até a praça.”. Cá é claramente advérbio em “Venha cá.”. Mesmo ou mesma é sem dúvida pronome adjetivo demonstrativo em “Esta é a mesma salada de ontem.”.

Uma palavra sobre o emprego do advérbio na condição de modificador de substantivo: isto ocorre quando o substantivo assume praticamente função adjetiva, em casos em que integra predicativo, como "Ele já é quase rapaz". Repare que neste exemplo “rapaz”, embora substantivo, está empregado em função adjetiva, pois se relaciona diretamente com o pronome “ele”. Nessa condição, ou seja, como adjetivo, pode ter vínculo com o advérbio. Por fim, ressalve-se que essas considerações todas têm relação com a taxionomia, isto é, com a classificação das palavras, área que interessa mais de perto aos especialistas:

lingüistas, gramáticos e professores de Língua Portuguesa.

Dica nº 75

Plural dos verbos na locução verbal

Locução verbal é a reunião de vocábulos em que aparece mais de um verbo (flexionado + forma nominal) para constituir um todo morfológico. Nas locuções verbais, há um verbo que concentra em si o sentido mais relevante da ação praticada ou recebida pelo sujeito, denominado principal, e outro que o acompanha, chamado auxiliar, que encerra idéia acessória. Embora haja outros verbos que podem comportar-se como tal, os auxiliares são quatro: ter, haver, ser e estar. Em “Eu tinha feito a mesma proposta”, o núcleo do predicado verbal não é “tinha” nem “feito”, mas tinha feito. A conjugação aí é composta – tinha feito –, cujo sujeito é “eu”. Outros exemplos: “Já havíamos saído quando você chegou”, “Vou liberar as páginas hoje mesmo”, “Você deveria ter sido promovido no ano

passado”, “Carlos está estudando agora”, “Elisete vem a ser minha prima em segundo grau”. Agora,

passado”, “Carlos está estudando agora”, “Elisete vem a ser minha prima em segundo grau”. Agora, atenção:

• Nos tempos compostos integrados pelos auxiliares “ter” e “haver”, o verbo

principal no particípio permanece no masculino singular: “Paulo e Norma têm viajado muito” e “As irmãs haviam feito o possível para ajudá-lo”. Repare na

diferença entre “Tenho escrito cartas” e “Tenho cartas escritas”.

· Com os auxiliares “ser” e “estar”, o particípio, que assume função adjetiva,

concorda em gênero e número com o vocábulo a que se refere: “Os deputados são

pagos para trabalhar” e “Minhas filhas estão matriculadas em bom colégio”.

· Se o verbo principal é forma infinitiva, permanece invariável: “Alberto e João

Carlos continuam a faltar às aulas” e “Devíamos estar bêbados para fazer aquela algazarra”. É, pois, incorreta e descabida a flexão do infinitivo em construções como “continuam a faltarem” ou “devíamos estarmos”. Isto porque aí o infinitivo agrega-se ao verbo de que depende, em outras palavras, tem-se, na prática, um só verbo. Por isso, apenas o auxiliar se flexiona.

· Quando o verbo principal é impessoal, o auxiliar também se impessoaliza e

permanece invariável na terceira pessoa do singular: “Poderia haver mais pessoas

lá dentro” e “Apesar dos prejuízos que possa ter havido, a loja continuou aberta”.

Dica nº 76

Pontuação em números

A representação gráfica dos números pode, conforme o caso, requerer ou não

sinais de pontuação, como o ponto e a vírgula, para separação das casas decimais. Vejamos em que situações isso ocorre:

Ponto – Na representação de

· quantidades – 2.450 caixas, 5.500 m3, 1.500 anos de história. datas abreviadas – 14.04.63, 16.06.96, 04.01.2002.

Vírgula – Na grafia de

· números fracionários – 2,333333; 2,5 kg; 0,50 m. quantias – R$0,70; R$15,00; R$9,50.

Ponto + vírgula – Na escrita de

· números fracionários – 1.450,5 kg; 3.550,50 m; 4.770,8 l. quantias – R$5.450,50; R$10.777,30; R$1.999,99.

Não se usa ponto:

· Em números de ordem: “Você é o candidato n.º número 5500”, “Sua inscrição é

· Em números de ordem: “Você é o candidato n.º

número

5500”, “Sua inscrição é a de

2468”, “O número da minha senha é 1453”.

· Em datas ou anos do calendário: “12 de agosto de 1945”, “25 de julho de 1967”. “Viajei para a Europa em 1982 e 1983”, “Em janeiro de 1978, choveu muito em Brasília”.

· Na notação de números fracionários ou centavos de real: R$5,50 e não, R$5.50. 4,6 m e não, 4.6 m.

Dica nº 77

Darmos e dar-mos

Percebe-se em redações, com freqüência, equívoco que se deduz decorrente do desconhecimento do modo de construção das palavras: o uso incorreto de -mos. Essa partícula, mais apropriadamente morfema, embora pouco usada, resulta da combinação do pronome oblíquo me (= para mim) com o artigo masculino plural os: me + os = mos.

Assim, se alguém me diz: “Aqui estão os livros.”, posso responder: “Você poderia dar-mos?”, que equivale a “Você poderia dar-me os livros?”. Evidentemente, na língua oral, seria pouco provável depararmos com esse uso, mas ele é legítimo. O equívoco referido decorre da confusão entre a combinação que se acabou de descrever e o morfema verbal -mos, que aparece na flexão dos verbos na primeira pessoa do plural do infinitivo pessoal ou flexionado. Ao conjugar o verbo “dar” nessa forma nominal e nessa pessoa, tem-se “darmos”, como em “É preciso darmos atenção aos questionamentos dos alunos”. Neste caso, seria descabida a separação “dar-mos”, pois a partícula “-mos” faz parte do vocábulo, é parte integrante dele. O inverso acontece com outros pronomes oblíquos, como -nos (= para nós). Como não integram a forma verbal, devem ser escritos com o hífen separador: “Torçamos para o instituto dar-nos (dar a nós) a oportunidade que almejamos”.

Em resumo, em dar-mos, temos duas palavras: o verbo “dar” acompanhado da combinação “-mos” (o pronome oblíquo me + o artigo masculino plural os). Em darmos, temos uma só palavra, o verbo “dar”, flexionado na primeira pessoa do plural do infinitivo pessoal. O estudo dos pronomes oblíquos e de sua combinação com artigos contribuirá em muito para o esclarecimento desta questão.

Dica nº 78

Sujeito a multa ou sujeito à multa?

Depende. A expressão é sujeito a, onde aparece claramente a preposição "a". Se a palavra

Depende. A expressão é sujeito a, onde aparece claramente a preposição "a". Se a palavra que se seguir for empregada em sentido genérico, isto é, não for determinada por artigo nem pelos demonstrativos “aquele”, “aquela” ou “aquilo” e seus plurais, não haverá como ocorrer crase. É o caso de “sujeito a multa” – onde não se faz referência à multa de que se trata –, de “sujeito a tudo de ruim” (expressão genérica), de “sujeito a qualquer ataque especulativo” (expressão também genérica). A crase somente ocorrerá se a palavra que se seguir for:

1. Substantivo feminino antecedido do artigo definido, no singular (a) ou no

plural (as). Ex.: "Seu carro está sujeito à multa prevista em Lei" (sujeito a + a multa = sujeito à multa) ou "O infrator estará sujeito às penalidades constantes do

artigo X do Código Penal" (sujeito a + as penalidades = sujeito às penalidades).

2. Substantivo feminino antecedido de artigo definido e adjetivo (ambos no

singular ou no plural). Ex.: "Pela quebra do sigilo, ele ficou sujeito à natural

execração dos seus pares" (sujeito a + a natural execração = sujeito à natural execração) e "Agindo assim, ele estará sujeito às duras sanções legais que o comportamento enseja" (sujeito a + as duras sanções legais = sujeito às duras sanções legais).

3. Pronome demonstrativo do tipo "aquele/aqueles", "aquela/aquelas" e

"aquilo". Ex.: "João ficou sujeito àquele risco (ou àqueles riscos) de que falamos antes" (sujeito a + aquele/aqueles = sujeito àquele/àqueles); "A atitude da diretoria fez com que a empresa ficasse sujeita àquela multa (ou àquelas multas) da qual (das quais) fomos avisados" (sujeita a + aquela/aquelas = sujeita àquela/àquelas); "Você estará sujeito àquilo sempre que for lá" (sujeito a + aquilo = sujeito àquilo). Repare que a palavra que segue o demonstrativo sempre é qualificada por uma expressão ou mesmo frase. Se o vocábulo que segue o demonstrativo não é acompanhado de qualificativo ou se aquilo não for seguido de palavra alguma que o determine, trata-se de algo de que já se sabe, de que já se falou antes: “Sua intransigência fez com que ficasse sujeito àquela represália” (represália da qual já se falou antes ou da qual se sabe) e “Os alunos ficaram sujeitos àquilo durante todo o ano”. (Aquilo = aquela coisa de que já se sabe previamente.)

O mesmo vale para outros casos, como direito a, onde também se destaca a preposição “a”. Em direito a pensão, o substantivo que se segue está empregado em sentido genérico, pois não se determina de que pensão se trata nem de quanto ela é. Entretanto, se a palavra seguinte for determinada nas condições acima, aí ocorre crase: “Direito à pensão estipulada pelo juiz” (direito a + a pensão

estipulada pelo juiz), “Direito à elevada pensão prevista no estatuto” (direito a + a

elevada pensão aquela pensão

)

e “Direito àquela pensão que ela reivindicava” (direito a +

Dica nº 79

Particularidades de regência

A regência , quer verbal, quer nominal, pode apresentar casos particulares, como o que abordaremos

A regência, quer verbal, quer nominal, pode apresentar casos particulares, como o

que abordaremos agora. Trata-se da possibilidade de se omitir complemento nominal ou verbal para evitar repetição. Tudo depende da regência dos nomes ou verbos que participam da construção oracional. Por exemplo, na expressão "amor e obediência aos pais", a omissão do complemento aos pais após "amor" foi operada para evitar-se a construção repetitiva "amor aos pais e obediência aos pais". Ela foi possível porque os substantivos amor e obediência têm a mesma regência, isto é, seus complementos nominais têm de vir antecedidos de preposição e da mesma preposição: "a". Em outras palavras, tais vocábulos apresentam-se como amor a e obediência a. Se o complemento for do gênero feminino, haverá crase: "respeito e

obediência às leis". (Veja, a respeito, a Dica n.º 2.) Outros exemplos: "Apego e carinho pelos livros" e "Atenção e deferência para com os visitantes".

O mesmo vale para complementos verbais. Em "Comprei e encapei o livro", omite-

se uma vez "o livro" para evitar-se a repetição: "Comprei o livro e encapei o livro". (A alternativa é usar-se o pronome oblíquo: "Comprei o livro e encapei-o".) A

omissão do complemento foi possível por possuírem os verbos "comprar" e "encapar" a mesma regência - direta -, ou seja, seus complementos ou objetos ligam-se a eles sem o auxílio de preposição. Mais exemplos: "Maria descascou e chupou as laranjas" e "Gosto muito e por isso não me desfaço destas fitas".

Na hipótese de os nomes ou verbos terem regências diferentes, não é possível a omissão pura e simples do complemento; por isso, um pronome terá de ser utilizado se se quiser evitar a repetição do objeto. Assim, em "interessado e

desejoso de aprender", a construção está incorreta, pois o adjetivo "interessado", antes de verbo no infinitivo, é acompanhado da preposição em (interessado em aprender), ao passo que "desejoso" se usa com a preposição de (desejoso de aprender). Como resolver o problema? Simples: no caso, o sentido do primeiro adjetivo é completado pelo complemento nominal com auxílio da devida preposição

e o do segundo adjetivo, por sua preposição mais um pronome. A construção

correta fica assim: "interessado em aprender e desejoso disso (de + isso)".

Com verbos é a mesma coisa: a construção "Desviei-me e depois removi a pedra" está incorreta, já que o verbo "desviar-se", no contexto, é transitivo indireto (é acompanhado de preposição, no caso, "de": desviar-se de algo) e "remover" é transitivo direto (é desacompanhado de qualquer preposição: remover algo). Por isso, para evitar a repetição "Desviei-me da pedra e depois removi a pedra", recorremos a um pronome: "Desviei-me da pedra e depois a removi". Assim procedendo, ficamos absolutamente em paz com as regras gramaticais da norma culta.

Veja ainda os casos abaixo:

"Gostei do livro e deliciei-me com ele" e não "Gostei e deliciei-me com o livro".

"Encontrei-me com Alberto, mas afastei-me logo dele" e não "Encontrei-me mas afastei-me logo de Alberto".

Dica nº 80 Gaviões da Fiel comemora o titulo ou Gaviões da Fiel comemoram o

Dica nº 80

Gaviões da Fiel comemora o titulo ou Gaviões da Fiel comemoram o titulo?

Ambas corretas. Aparentemente, há erro de concordância na primeira frase, já que

o sujeito de "Gaviões da Fiel comemora o titulo" é plural (Gaviões). Entretanto, a

concordância do verbo aí não é formal, ou seja, não se processa com a forma plural

do sujeito. Ela faz-se com a idéia que a expressão "Gaviões da Fiel" encerra, isto é,

a de escola de samba, substantivo singular. É construção mais elegante, modo

original de reescrever a mesma frase em sua forma "normal": "A escola de samba Gaviões da Fiel comemora o titulo". Tal concordância foi possível por ter sido empregada a figura de linguagem - mais precisamente, figura de sintaxe - denominada silepse. É o mesmo caso de "Barreiras localiza-se no oeste baiano". A forma singular do verbo justifica-se por se tratar não de "barreiras", substantivo comum plural, mas de nome próprio singular, que se refere a uma cidade. A concordância realiza-se, portanto, com a idéia de cidade e não com a de "mais de uma barreira".

A segunda frase também está correta em razão de o verbo concordar com a forma

plural "Gaviões da Fiel", referência aos participantes da citada escola de samba. Eles são também integrantes, em geral, da torcida homônima do clube de futebol S. C. Corinthians Paulista, aliás, a mais famosa delas. E por que "Fiel"? Porque a torcida corintiana é considerada, muito justamente, a "Fiel Torcida".

Dica nº 81

Uso do dicionário

É dever do professor de língua materna orientar o estudante, especialmente o das

séries iniciais, a respeito do uso do dicionário. Há vários "macetes" nesse particular, que, se não forem observados, dificultarão a localização do que se quer encontrar.

Comentemos inicialmente a respeito da oposição masculino vs. feminino. Com exceção de alguns nomes mais usuais, como menina, professora, gata, vaca e muitos outros, os demais são consignados no dicionário geralmente pela forma masculina, especialmente os adjetivos. Se procurarmos os verbetes senadora, bombeira, carteira (feminino de carteiro), completa, perfeita, portuguesa, não os vamos encontrar, apenas "senador", "bombeiro", "carteiro", "completo", "perfeito", "português". Há, porém, exceções: o Aurélio registra alemã como feminino de alemão. Já francesa, inglesa e mexicana são apresentados com outros significados que não o simples feminino dos correspondentes masculinos. Geralmente, quando, no verbete da forma masculina, há indicação da feminina, trata-se do interesse em precisar sua pronúncia.

Os substantivos que possuem, na língua portuguesa, formas do masculino e do feminino bem distintas (como homem/mulher, bode/cabra) são comumente encontrados assim nos dicionários. Contudo, dos nomes cuja distinção de gênero é operada mediante o uso de desinências (garoto/garota, dicionarizados) nem

sempre se encontra a flexão feminina, como é o caso de búfalo. O Aurélio somente

sempre se encontra a flexão feminina, como é o caso de búfalo. O Aurélio somente registra o masculino, sem mencionar seu feminino, mas o dicionário de língua portuguesa da Encyclopaedia Britannica (3 vols.) consigna "búfalo" e, no verbete, informa que o feminino é "búfala". A ausência de certas informações lexicográficas dá a medida da completude de um dicionário.

Outro aspecto do que falamos aqui se refere à oposição singular vs. plural. A forma geral registrada é a singular, o que mostra considerarem os lexicógrafos (dicionaristas) ser a palavra no plural apenas variação da forma singular e não, outra palavra. Entretanto, as formas do singular e do plural dos vocábulos portugueses de origem latina (a maioria) tiveram evolução paralela e autônoma. Mesmo assim, a busca de verbetes deve, pois, ser feita pela forma singular.

Nomes compostos muitas vezes não são consignados e deve-se procurar por um de seus elementos constituintes. Por exemplo, não se encontra ponto de vista. Entretanto, no verbete ponto, ao final de suas acepções, há menção a "ponto de vista" e a outros subverbetes em que aparece o elemento "ponto". O mesmo ocorre com relação a livro de ouro, encontrado no verbete "livro" e a Semana Santa, que aparece no verbete semana.

Quanto aos advérbios, de modo geral, é inútil procurar os terminados em -mente, salvo algumas exceções, como friamente, que o Aurélio registra. Esses advérbios de modo são derivados de adjetivos na forma feminina, como claramente (de clara); prontamente (de pronta); seguramente (de segura). Assim, se quisermos saber o sentido de peremptoriamente, será preciso buscar o adjetivo que lhe dá origem, ou seja, peremptória, que também não aparece. O que está lá é o masculino peremptório.

Por fim, enfocamos as formas verbais, que devem ser procuradas no dicionário pelo infinitivo. De nada adianta tentar localizar cantava, comia, saía e punha, que não serão encontradas. O apropriado é buscar cantar, comer, sair e pôr. Contudo, o particípio sempre aparece, pois é levada em consideração sua função adjetiva. Ainda assim, a forma feminina nem sempre é contemplada e mesmo quando ela é substantivada às vezes não figura. Assim, o Aurélio consigna estimado, mas não, estimada; cansado, mas não, cansada; registra amado, mas não, amada, embora esta possa também significar a mulher que alguém ama; querido, mas não, querida, que, como substantivo, é algo ou alguém que se quer muito.

Dica nº 82

Ofício

O ofício é tipo de correspondência externa muito usado, especialmente quando o destinatário é órgão público. Ele serve para "informar, encaminhar documentos importantes, solicitar providências ou informações, propor convênios, ajustes, acordos, etc., convidar alguém com distinção para a participação em certos eventos, enfim, tratar o destinatário com especial fineza e consideração" (CAMPOS MELLO, 1978: 122). Modelo moderno de estruturação de ofício é:

1. Timbre (se houver) 2. Três espaços duplos 3. (À esquerda) Número do ofício. (Na

1. Timbre (se houver)

2. Três espaços duplos

3. (À esquerda) Número do ofício. (Na mesma linha, na posição centro-direita)

Local e data

4. Um espaço duplo

5. Epígrafe

6. Dois espaços duplos

7. Vocativo (Prezados Senhores, Excelentíssimo Senhor Ministro,)

8. Três espaços duplos

9. Corpo do texto

10. Dois espaços duplos

11. Fecho

12. Três espaços duplos

13. Assinatura acima do nome, abaixo do qual aparece o cargo ou função

14. (Mais abaixo, à esquerda) Endereçamento: nome e cargo ou apenas o cargo do

destinatário, endereço postal completo

15.

Iniciais de quem redigiu e as de quem datilografou/digitou, separadas por barra

(/).

Observações:

1. O timbre existe quando o papel utilizado pertence a repartição oficial ou a

empresa. Em se tratando de pessoa física, geralmente, não aparece.

2. Da mesma forma, o ofício é numerado quando o remetente é pessoa jurídica.

Normalmente, pessoas físicas não costumam numerar correspondência. O número é de ordem e geralmente recomeça do 1 a cada ano civil.

3. O vocativo é sempre seguido de vírgula. Veja, a propósito, a Dica n.º 54.

4. A epígrafe é palavra ou expressão que resume o assunto de que o texto trata.

Sua existência não é obrigatória, mas conveniente, pois constando agiliza a tramitação do documento no ambiente de destino: o recebedor, ao ver a epígrafe,

poderá encaminhar de imediato o ofício ao setor competente. Ela costuma ser colocada à esquerda, entre a data e o vocativo.

5. Os parágrafos do corpo do texto podem ser numerados. Neste caso, o primeiro

parágrafo e o fecho não recebem número.

6. Modernamente, o fecho é menos formal e mais conciso. Fechos como "Enviamos-

lhe protestos de alta estima e distinta consideração" são hoje considerados muito formais e tendem ao desuso.

7. As iniciais dos elaboradores do ofício são diferenciadas: normalmente, as do

redator são grafadas em primeiro lugar e em maiúsculas e as do datilógrafo/digitador aparecem depois da barra, em letras minúsculas.

8. Se houver anexos, será indicado seu número (Anexo: 1, Anexos: 3) entre a

assinatura e o endereçamento. Às vezes, o anexo é volume composto de diversas

folhas, o que é indicado pelo número de volumes e o total de folhas de

folhas, o que é indicado pelo número de volumes e o total de folhas de que se compõem: Anexos: 1/10, 2/15.

9. Se for utilizada mais de uma folha na redação do ofício, o endereço será indicado na primeira.

Exemplo de ofício:

9. Se for utilizada mais de uma folha na redação do ofício, o endereço será indicado
Dica nº 83 Adjetivos não-flexionáveis quanto ao número Simples ou compostos, há adjetivos que, independentemente

Dica nº 83

Adjetivos não-flexionáveis quanto ao número

Simples ou compostos, há adjetivos que, independentemente do número do substantivo que modificam, permanecem no singular. É o caso dos substantivos em função adjetiva que se referem a cores. Assim, temos vestidos rosa, blusas marfim, saias cinza, ternos grafite, carros prata, raios ultravioleta. Você pode estar-se perguntando: ué, mas por que "raios ultravioleta", se dizemos "raios infravermelhos"? Acontece que em "ultravioleta" está presente o substantivo violeta, ao passo que em "infravermelho" aparece o adjetivo vermelho. Este flexiona-se, pois, normalmente. Os adjetivos compostos dos quais um dos elementos é substantivo também ficam numericamente invariáveis: toalhas azul- turquesa, sombrinhas azul-piscina, maiôs rosa-choque, capas verde-garrafa, biquínis verde-abacate, calças cinza-chumbo, tecidos amarelo-ouro. O mesmo vale caso apareçam as locuções "de cor", "cor de", "da cor do" ou "da cor de": fitas de cor vermelha, meias de cor azul-escuro, vestidos cor-de-rosa, roupas cor-de-burro- quando-foge, olhos cor de turmalina, toalhas da cor do mar, lençóis da cor de morango.

Dica nº 84

Acentuação gráfica de vocábulos terminados em ditongo crescente

Esta matéria pode suscitar dúvida, já que a norma ortográfica é nebulosa. Ela prevê acentuação gráfica sempre que um vocábulo for proparoxítono, como em âmago, básico, lâmpada e médico. Até aí, tudo claro. Acontece que há palavras paroxítonas terminadas em ditongo crescente, como água (á-gua), ânsia (ân-sia), contínuo (con-tí-nuo), glória (gló-ria), lírio (lí-rio), série (sé-rie), tênue (tê-nue) e outras, que são acentuadas graficamente, pois também podem ser pronunciadas como proparoxítonas. Neste caso, o encontro vocálico em ditongo converte-se em hiato e agora a sílaba que era una divide-se em duas, de forma que as palavras se tornam proparoxítonas: "á-gu-a", "ân-si-a", "con-tí-nu-o", "gló-ri-a", "lí-ri-o", "sé-ri-e", "tê- nu-e". Você deve estar-se perguntando: ué, mas não há nada de novo, pois temos

proparoxítonos em ambas as situações. Entretanto, a regra silencia se o vocábulo for pronunciado como

proparoxítonos em ambas as situações. Entretanto, a regra silencia se o vocábulo for pronunciado como paroxítono: gló-ria. Nesta situação, ele não deveria ser acentuado graficamente, já que na regra de acentuação dos paroxítonos não estão incluídas as palavras terminadas em ditongo crescente. Mesmo assim, elas são acentuadas. O que ocorre é que a regra prevê tais formas poderem vir a ser pronunciadas como proparoxítonos - são os proparoxítonos eventuais - e, pelo sim, pelo não, inclui-as também no rol das palavras que apresentam o acento tônico na antepenúltima sílaba. Eis o que dizem as "Instruções da Academia Brasileira de Letras", de 12.08.1943, no capítulo XII - Acentuação gráfica, item 43, alínea 2.ª, observação : "Incluem-se neste preceito [acentuação obrigatória dos proparoxítonos] os vocábulos terminados em encontros vocálicos que podem ser pronunciados como ditongos crescentes: área, espontâneo, ignorância, imundície, lírio, mágoa, régua, tênue, vácuo, etc.". Ora, se o encontro vocálico final é ditongo, isso significa que a palavra não é proparoxítona e sim, paroxítona. Contudo, repetimos, não há previsão normativa, no que toca aos paroxítonos, de acentuação dos vocábulos terminados em ditongo crescente. A norma é, pois incompleta, já que deveria prever expressamente a acentuação desses vocábulos tanto na condição de proparoxítonos como na de paroxítonos, uma vez que ambas as pronúncias ocorrem nos domínios da língua.

Essa é, porém, discussão acadêmica. O que interessa para seu uso é que vocábulos paroxítonos terminados em ditongo crescente recebem acento gráfico na vogal tônica, já que esse ditongo pode converter-se em hiato, o que faz com que tais palavras sejam pronunciadas como proparoxítonas: cá-rie ® cá-ri-e, gló-ria ® gló- ri-a, ré-gua ® ré-gu-a, etc.

Dica nº 85

Palavras e expressões latinas de uso corrente em português

Além dos milhares de vocábulos portugueses de origem latina, são muitas vezes empregadas palavras e expressões na forma original. Encontramo-las às centenas tanto na linguagem técnica como na que utilizamos no dia-a-dia. Vejamos algumas, seu significado e exemplo de emprego:

Ad hoc (para isso, para determinado fim) – Diz-se de pessoa (ou grupo de pessoas) que, em certa situação, é designada para exercer função que habitualmente não é a sua: “Na assembléia, José foi escolhido secretário ad hoc”. Ad infinitum (até o infinito) – Indefinidamente: “Na dízima periódica, um ou mais algarismos repetem-se ad infinitum”. Ad referendum (para ser trazido de volta) – Para exame e aprovação posterior de outrem. Uma decisão “ad referendum” é tomada por alguém e depois submetida à aprovação de outras pessoas a quem esse alguém deve satisfações: “O presidente nomeou o embaixador ad referendum do Congresso”. Alter ego (outro eu) – Pessoa em quem se pode confiar como em si mesmo; aquele que substitui perfeitamente o outro (Aurélio): “Por suas ações, Valmir era o alter ego do subgerente”.

Caput (cabeça, extremidade) – Parte superior de um artigo ou parágrafo: “A convocação da assembléia

Caput (cabeça, extremidade) – Parte superior de um artigo ou parágrafo: “A convocação da assembléia está amparada pelo estatuto social em seu artigo 12, caput”. Corpus Christi (corpo de Cristo) – Tradicional festa móvel católica em honra do corpo de Deus: “As ruas de Matão enfeitam-se para a procissão de Corpus Christi”. Curriculum vitæ (carreira da vida) – Documento que contém dados pessoais e outras informações relacionadas à formação escolar e profissional e às atividades já realizadas por alguém com vistas a candidatura a algum cargo ou emprego: “Os candidatos à vaga devem apresentar o curriculum vitæ no departamento de Recursos Humanos da empresa”. De cujus (aquele de cuja) – Palavras existentes na expressão jurídica de cujus successione agitur = aquele de cuja sucessão se trata. Emprega-se com referência a alguém falecido que deixou bens de herança. e. g. (abreviatura de exempli gratia) – Significa “por exemplo”: “O padre aparece ali só em festas religiosas e.g. no domingo de Páscoa”. Errata (plural de erratum = erro) – Erros, coisas erradas: “Errata – Na pág. 5, onde se lê ‘viraram’, leia-se ‘viraram-se’. Na pág. 17, onde se lê ‘mandato’, leia-se ‘mandado’”. E assim por diante. Et alii (e outros) – Expressão usada em notações bibliográficas para indicar a existência de mais de um autor: “HERNANDES, Paulo et alii.”. Ex voto [de (um) voto] – Empregada já na forma aportuguesada (ex-voto). Objeto – fotografia, quadro ou reprodução em cera ou madeira de parte do corpo humano – deixado em igreja para pagamento de voto ou promessa em retribuição de graça recebida: “Na sacristia, vêem-se centenas de ex-votos”. Ex officio (de ofício, de obrigação) – Em função do cargo ou em virtude de obrigação do cargo: “O procurador representou ex officio ao presidente do tribunal”. Habeas corpus (tenhas teu corpo) – Garantia outorgada pela Constituição a alguém que está sofrendo ou pode sofrer restrições na locomoção por parte de autoridade: “O defensor do acusado já requereu habeas corpus preventivo”. Habeas data (tenhas os dados) – Dispositivo introduzido na constituição brasileira de 1988 pelo qual um cidadão pode requerer do poder público informações sobre os dados que sobre ele existam em arquivos de órgãos governamentais e eventualmente as retificar. Honoris causa (para a honra) – Título conferido por universidades a pessoas, a título de homenagem, sem que o agraciado tenha passado por qualquer exame: “O autor recebeu da Universidade de Brasília o título de doutor honoris causa”. Ibidem (no mesmo lugar) – Vocábulo que também aparece na forma abreviada ibid. Em Bibliografia, termo que equivale a “no mesmo lugar, mesmo capítulo ou mesma página”. Veja exemplo no verbete "Loc. cit.", adiante. Idem (o mesmo) – A mesma coisa ou, em Bibliografia, o mesmo autor: “Ata da reunião de 10.09.98. Idem, de 12.08.99”. In loco (no lugar) – No lugar, no próprio local: “O delegado verificou in loco a situação do prédio atingido”. In fine (no fim) – É usada para indicar a localização de algo no final de um texto ou de parte dele: “Veja o parágrafo 11, alínea ‘a’, in fine”. In natura (na Natureza) – Em estado natural, tal qual: “Em vez de comercializar o leite in natura, as empresas preferem transformá-lo em laticínios”. In totum (no todo) – Totalmente, integralmente: “Para a computação, os dados da pesquisa foram considerados in totum, em vez das totalizações parciais”.

Ipsis litteris (com as mesmas letras) – Literalmente, textualmente, nos mesmos termos: “Transcrevi ipsis litteris

Ipsis litteris (com as mesmas letras) – Literalmente, textualmente, nos mesmos termos: “Transcrevi ipsis litteris o que ele escreveu”. Ipso facto (mesmo fato) – Por esse mesmo fato, por isso mesmo: “O diretor da Receita é, ipso facto, a pessoa mais abalizada para opinar a respeito de arrecadação”. Lato sensu (em sentido amplo) – Em sentido amplo, geral; de forma geral: “O curso é de pós-graduação lato sensu em Língua Portuguesa”. Os cursos “lato sensu” são geralmente os de especialização, feitos depois da graduação universitária. Loc. cit (abreviatura de loco citato, lugar citado) – Expressão usada em Bibliografia com sentido de “no mesmo lugar, no mesmo livro”. Entretanto, é mais empregada como equivalente a “na mesma página”, para não se repetir o número da tal página: “LUFT, 1979, p. 35. Idem, ibidem, loc. cit.”. Aí, “idem” refere-se ao autor, “ibidem” à obra – identificada pelo ano da edição, certamente constante da bibliografia – e “loc. cit.” indica que a página é a mesma já mencionada há pouco. Mea culpa (minha culpa) – Reconhecimento do próprio erro ou falha: “Depois do que ocorreu, todos esperavam que ele fizesse o mea culpa ali mesmo”. Modus operandi (modo de operar) – Maneira de agir: “A polícia já tem as informações sobre o modus operandi da quadrilha que agiu nas privatizações”. Mutatis mutandis (mudado o que deve ser mudado) – Fazendo-se as alterações ou adaptações necessárias: “Empregados têm deveres com os patrões; mutatis mutandis, têm os patrões deveres com os empregados”. Nihil (nada) – Emprega-se para indicar ausência de dados ou informações:

“Consultas realizadas – Janeiro: 10; fevereiro; 8; março: nihil; abril: 2”. Pro forma (pela forma, pela aparência) – Por mera formalidade: “Não há necessidade da assembléia, mas ela será realizada apenas pro forma”. Pro labore (pelo trabalho) – Expressão já aportuguesada como “pró-labore”. Remuneração paga pelo exercício de certo cargo ou função ou pela execução de determinada tarefa: “Além do pró-labore, os diretores têm outras regalias”. Pro rata (de pro rata parte = para a parte fixada, calculada) – Em proporção, de forma proporcional (segundo a parte contada a cada um): “A taxa foi calculada pro rata de acordo com a despesa mensal”. Sine die (sem dia) – Sem data marcada: “O simpósio foi adiado sine die”. Sine qua non (de conditio sine qua non = condição sem a qual não) – Indispensável: “A conclusão de curso superior é condição sine qua non para a inscrição no concurso”. Stricto sensu (em sentido estrito) – Em sentido restrito: “Estão abertas as matrículas dos cursos de pós-graduação stricto sensu”. Tais cursos são geralmente os de mestrado e doutorado. Status quo (de in statu quo = no estado que) – Situação em que algo se encontrava ou se encontra: “Nosso movimento político contraria o status quo vigente”. Sub judice (sob julgamento) – Sob apreciação judicial: “Não vou me manifestar, já que a questão ainda está sub judice”. Sui generis (de seu próprio gênero) – Peculiar, original, diferente: “Trata-se de linha de investigação sui generis”. v. g. (abreviatura de verbi gratia) – Significa “por exemplo”: “A Semiótica estuda todos os sistemas de signos, v. g., a linguagem gestual”. vs. (abreviação de versus = contra) – “No dia 3 de junho, teremos o jogo Brasil vs. Turquia”.

Dica nº 86 A princípio ou em princípio? Ambas são locuções (ou sintagmas ) adverbiais

Dica nº 86

A princípio ou em princípio?

Ambas são locuções (ou sintagmas) adverbiais que se parecem na forma e por isso são freqüentemente confundidas, mas têm empregos diferentes. A princípio equivale a "no começo", "inicialmente": "A princípio, o time estava meio preso, mas depois se soltou e surgiram os gols", "A princípio, a seleção turca respeitou o Brasil, mas depois começou a gostar do jogo" e "A princípio, Edmilson estava meio nervoso, mas acabou firmando-se na partida".

Em princípio significa "em tese", "preliminarmente", "de modo geral", como em "Em princípio, concordo com o esquema tático da seleção brasileira", "Em princípio, a Seleção era favorita no jogo de estréia" e "Em princípio, quase todas as equipes têm chance".

Dica nº 87

Pontuação

Todos sabemos da importância da pontuação para a correta e precisa expressão do pensamento, principalmente na língua escrita. O seguinte texto revela isso de modo

eloqüente:

"Um homem rico estava muito mal de saúde. Pediu caneta e papel e escreveu

assim:

'Deixo meus bens à minha irmã não a meu sobrinho jamais será paga a conta do alfaiate nada aos pobres'.

Morreu antes de fazer a pontuação. Afinal, a quem ele deixou a fortuna? Eram quatro concorrentes: a irmã, o sobrinho, o alfaiate e os pobres. O escrito chegou às mãos deles e cada um fez a pontuação que lhe conveio, como veremos a seguir:

O sobrinho fez a seguinte pontuação: 'Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu

sobrinho. Jamais será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres'.

A irmã chegou em seguida. Pontuou assim: 'Deixo meus bens à minha irmã. Não a

meu sobrinho. Jamais será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres'.

O alfaiate pediu cópia do original. Puxou a brasa para a sua sardinha: 'Deixo meus

bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres'.

Aí, chegaram os descamisados da cidade. Um deles, sabido, fez esta leitura: 'Deixo meus bens

Aí, chegaram os descamisados da cidade. Um deles, sabido, fez esta leitura: 'Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do alfaiate? Nada! Aos pobres'.

Assim é a vida. Nós é que colocamos os pontos. E isso faz a diferença."

Os vestibulandos e candidatos a vagas em concursos, principalmente, sabem disso.

Veja agora este outro texto:

“O valor da vírgula

Leia o texto abaixo e ponha nele apenas uma vírgula. Quase sempre, os homens colocam-na em um lugar e as mulheres, em outro. Tente descobrir onde isso ocorre.

‘Se o homem soubesse o valor que tem a mulher andaria ansiosamente à sua procura.’

Se você é mulher, certamente pôs a vírgula depois de ‘mulher’. Entretanto, se é homem, com certeza a colocou depois de ‘tem’”.

Viu como a vírgula é importante?

Dica nº 88

Letras maiúsculas em vocábulos em que há hífen

Nas palavras compostas cujos elementos são separados por hífen, é o seguinte o emprego das letras maiúsculas:

1. Se o nome é próprio, é escrito com inicial maiúscula por força de outras disposições da regra ortográfica ou faz parte de título em que os componentes estão grafados com esse tipo de letra, ambos os elementos do composto recebem iniciais maiúsculas: "O prof. Jean-Claude Boulanger viajou da Grã-Bretanha para o Brasil a fim de proferir palestra na Escola Pós-Graduada de Ciências Sociais", "Simpósio sobre Ações de Contra-Informação".

2. Nos demais casos, só se utiliza a maiúscula como inicial do primeiro elemento e mesmo assim quando o composto iniciar frase ou título: "Homens-rãs iniciam treinamento" e "Fichas-resumos - Arquivo geral".

Tal ocorre porque "os elementos hifenizados têm autonomia fonética, mórfica e gráfica. Mantêm portanto as maiúsculas respectivas" (LUFT, 1979: 76).

Cerca de, acerca de, há cerca de Essas três formas costumam produzir confusão pela semelhança,

Cerca de, acerca de, há cerca de

Essas três formas costumam produzir confusão pela semelhança, mas têm emprego preciso, como veremos a seguir:

· Cerca de - Sintagma ou locução adverbial que significa "aproximadamente", "mais

ou menos": "O atirador está a cerca de 30 metros do alvo", "Discursei para cerca de 200 pessoas" e "A estrada tem cerca de 15 km de extensão".

· Acerca de - Locução prepositiva com significado de "a respeito de", "sobre", "relativo a": "Falamos acerca de negócios", "Carlos é capaz de discutir acerca de qualquer assunto" e "Trata-se de tópicos acerca de Contabilidade Bancária".

· Há cerca de - Expressão formada pelo verbo "haver" e a locução "cerca de". Conforme o contexto, pode ter dois sentidos:

1. Tempo aproximado decorrido - "Chegamos a Brasília há cerca de 25 anos" e "Renato partiu há cerca de 15 minutos".

2. Quantidade aproximada existente - "Há cerca de 100 cabeças no pasto" e "Segundo Mariana, há cerca de 30 alunos na sala".

Dica nº 90

Feminino de ídolo

Às vezes, as pessoas têm dúvida ao empregar a palavra ídolo com referência a nome feminino. Dizer "Chico Xavier é meu ídolo" é fácil, já que "ídolo" é do gênero masculino. O problema surge quando tal vocábulo se relaciona com nome feminino, como "Chiquinha Gonzaga". Como ficaria a construção? "Chiquinha Gonzaga" é minha ídola"? Não é nada disso. Na verdade, o substantivo "ídolo" pertence a um só gênero, o masculino. Assim, como não tem forma feminina, você dirá: "Milton Nascimento é meu ídolo" ou "Sandy é meu ídolo". Esse fato não é de surpreender, pois vários substantivos existem que, como "ídolo", só são empregados em um gênero e podem relacionar-se indistintamente a nomes masculinos e femininos. A Nomenclatura Gramatical Brasileira chama-os "sobrecomuns", dos quais são exemplos os masculinos alvo, animal, cônjuge, indivíduo e os femininos criança, pessoa, testemunha, vítima e vários outros, como nos exemplos abaixo:

· O conferencista e sua esposa foram alvo de todas as atenções.

· Esta leoa é o único animal do zoológico que ainda não foi vacinado.

· Meu cônjuge chama-se Norma.

· As mulheres são os mais sensíveis indivíduos da espécie humana.

· Celsinho é criança muito esperta.

· João é pessoa imensamente estimada.

· Euclides, a testemunha, já chegou para depor. · O nome da vítima é Raimundo.

· Euclides, a testemunha, já chegou para depor. · O nome da vítima é Raimundo.

Em conseqüência da evolução do grupo social, substantivos sobrecomuns podem vir a apresentar o outro gênero. Assim, em razão do incremento da presença feminina em cargos de chefia, o vocábulo chefe, que tradicionalmente possuía apenas uma forma (comum de dois gêneros: o chefe, a chefe), passou a admitir também a feminina morfologicamente explicitada – chefa. O mesmo ocorreu com presidente, parente e sujeito, cujas formas do feminino já estão dicionarizadas. Em breve, isso poderá suceder com gerente, é esperar para ver

Dica nº 91

Leitura de números fracionários

Eventualmente, a leitura de números fracionários pode suscitar dúvidas, principalmente se o numerador (número colocado acima do traço divisório) é 1 ou se o denominador (número colocado abaixo do traço) expressa grandes quantidades. Vejamos como isso se processa: o numerador é sempre lido como numeral cardinal: um, cinco, nove, etc. O denominador lê-se meio quando for dois e terço quando três. Exemplos: meio (1/2), um terço (1/3), dois terços (2/3), etc. De quatro até dez, lê-se o denominador como número ordinal: quarto, quinto, sexto, sétimo, oitavo, nono, décimo. Exemplos: um quarto (1/4), três oitavos (3/8), sete décimos (7/10). A partir daí, o denominador é lido como cardinal, acrescido da palavra avos, no plural, mesmo quando o numerador da fração é 1. Assim, um onze avos (1/11), cinco trinta avos (5/30), doze quatrocentos avos (12/400), sete dois mil avos (7/2000), vinte cinco mil e nove avos (20/5009), etc. As exceções ocorrem quando o denominador é múltiplo de 10. Nestes casos, em vez de "avos", usam-se centésimo, milésimo, milionésimo e seus compostos: um centésimo (1/100), dois milésimos (2/1000), dez milionésimos (10/1000000), cinco décimos milésimos (5/10000), trinta centésimos milésimos (30/100000), etc.

A palavra que representa o número fracionário chama-se numeral fracionário. Acredita-se que o vocábulo avo, usado normalmente no plural, origina-se da terminação de oitavo. Resumo - Leitura do:

· Numerador - Na forma de numeral cardinal: um, cinco, vinte.

· Denominador - Meio (2), terço (3); de 4 até 10, na forma ordinal; de 11 em

diante, na forma cardinal, acrescido de avos, com exceção dos múltiplos de 10. Estes são lidos na forma ordinal.

Dica nº 92

Evolução de regências verbais

Todos sabemos que a língua é sistema em contínua evolução, isto é, transforma-se constantemente. Cabe

Todos sabemos que a língua é sistema em contínua evolução, isto é, transforma-se constantemente. Cabe aos gramáticos estarem atentos às mudanças sob pena de

se distanciarem cada vez mais da língua viva.

Esse preâmbulo serve para introduzir o assunto que se segue: a evolução de algumas regências verbais no português brasileiro. Vejamo-las:

Aspirar - Tradicionalmente, este verbo tem duas regências. Como transitivo direto, significa inspirar, inalar, entre outros sentidos: "Ficando aqui, você vai aspirar muito pó" e "Aspire o perfume por alguns segundos". Como transitivo indireto, tem o significado de desejar, ambicionar: "De há muito, João Carlos aspirava ao cargo" e "Ao entrar no templo, o neófito aspirava pela luz". Novidade - Atualmente, gramáticos e autores respeitados também admitem a regência direta com o sentido de "desejar": "O que aspiro é muito mais do que isso" e "Setores oligárquicos da política aspiram continuar no poder". Autores renomados em que se encontra esta prática: José Lins do Rego, Darcy Ribeiro, Gilberto Amado, Viana Moog e Plínio Salgado.

· Assistir - A regência direta e a indireta implicam diferença de sentido. A

direta atribui ao verbo o sentido de prestar assistência, assessorar: "Jorge ficou encarregado de assistir os estagiários" e "Augusto assistiu o presidente na viagem, não sem algum interesse". A regência indireta tem o sentido de ver, presenciar:

"Assisti a um Vasco x Botafogo no Maracanã" e "É preciso pagar para assistir ao

filme". Novidade - Gramáticos e autores conhecidos já admitem a regência direta com o sentido de "ver": "A última partida do Corinthians que assisti em estádio foi contra

o Brasiliense" e "Não quero assistir espetáculo de violência". Celso Cunha

reconhece a evolução sintática, e a construção passiva comprova a transitividade direta: "O jogo foi assistido por cem mil torcedores" e "O filme foi assistido por milhões de espectadores em todo o mundo".

· Visar - Como os anteriores, este verbo tem também duas regências: a

direta e a indireta. Ao empregar-se com regência direta, tem, entre outros significados, o de pôr visto, autenticar: "Preciso que você vise este cheque" e "Pedi para visarem o documento". Como transitivo indireto, significa ter como objetivo, pretender: "Com isso, eles visavam à desestabilização do Governo" e "Tais medidas não visam a melhorar o funcionamento do modelo". Novidade - Modernamente, gramáticos e autores de renome admitem a regência direta também com o sentido de "objetivar", "pretender", como em "A assembléia visa alterar o estatuto" e "As providências visam o fim do conflito". Autores que abonam essa prática: Antenor Nascentes, Rocha Lima, Celso Cunha, Paschoal Cegalla, Evanildo Bechara e outros.

Nota: para evitar problemas com especialistas conservadores, especialmente em provas e concursos, é prudente empregarem-se as regências tradicionais.

Dica nº 93 Haja vista ou haja visto? A primeira. "Haja vista" é expressão verbal

Dica nº 93

Haja vista ou haja visto?

A primeira. "Haja vista" é expressão verbal perifrástica, isto é, desenvolvida, que

equivale à forma sintética veja. O elemento "haja" é flexão do verbo haver na terceira pessoa do imperativo afirmativo e "vista" não pode ser substituído por "visto", pois se refere a vista mesmo, com o sentido de "olho". Tal expressão deve, portanto, ser empregada de forma invariável e tem como objeto direto as palavras que a seguem. Assim, temos "O povo brasileiro cansou-se do atual modelo econômico, haja vista o resultado das eleições de 2002" e "A inflação não está sob total controle, haja vista as contínuas elevações dos preços dos alimentos". Em alguns autores, encontra-se a flexão do verbo: "hajam vista", como em "Hajam vista os acontecimentos em Foz do Iguaçu". Para outros, a expressão é seguida de preposição, "haja vista a", como em: "Haja vista às tão importantes decisões". Entretanto, estas práticas não encontram o respaldo da maioria dos autores renomados e por isso devem ser desconsideradas.

Dica nº 94

Qual seja

É correto o emprego dessa expressão? Sim, pois se trata de pronome relativo tanto quanto "que" e exerce a função de sujeito da oração que introduz. A frase "O autor tem grave dever, qual seja o da lealdade processual" equivale a "O autor tem grave dever, o qual é o da lealdade processual". Se o antecedente está no plural, empregamos então "quais sejam": "Antônio possui algumas propriedades, quais sejam uma casa, um apartamento e uma chácara".

Dica nº 95

Concordância verbal – Sujeito composto posposto

Nos casos em que o sujeito composto antecede o verbo, este vai naturalmente para

o plural por serem mais de um os praticantes da ação. Por exemplo, “Carlos e Marina são pessoas íntegras” e “Vanessa e Gabriel viajaram para Alagoas”.

Entretanto, quando o sujeito composto está posposto, isto é, quando está posto depois do verbo, este pode permanecer no singular, como faz Manuel Bandeira em “Rua da União, onde todas as tardes passava a preta das bananas com o xale vistoso de pano da Costa e o vendedor de roletes de cana” (CUNHA, 2000: 498). Assim também “Chegou o novo televisor de 30 polegadas e o revolucionário DVD” e “Apareceu a ilha Redonda e a Siriba”.

Observe o que diz Napoleão Mendes de Almeida: “Preste atenção o aluno aos ’

dizeres da regra: ‘

– Não há obrigação de ficar no singular o

verbo; preferem muitos pô-lo no plural, talvez por temor de críticas de ignorantes

em assuntos gramaticais. Segundo Cândido de Figueiredo, o verbo anteposto aos

poderá

o verbo

sujeitos deve ficar sempre no singular, mesmo nos casos em que os últimos elementos do

sujeitos deve ficar sempre no singular, mesmo nos casos em que os últimos elementos do sujeito estejam no plural (“Morreu Pedro e todos os que lá estavam”), porque assim exige a índole da língua e a prática dos melhores mestres” (ALMEIDA, 1999: 449, § 727, Notas, 1.ª).

Ficará também o verbo no singular se for antecedido de expressões como é necessário ou é preciso: “É necessário paciência e perseverança para se atingir a meta” e “É preciso atenção e perspicácia para descobrir onde está Wally”.

Se o sujeito composto formar-se de nomes próprios, será melhor a concordância no plural, como em “Foram aprovados Adilan, Ronan e Luiz Eduardo” e “Discursarão Lula e José Alencar”. Se o verbo for “ser” seguido de substantivo flexionado no plural, deverá ir para o plural: “Foram prefeitos de Barretos Benedito Realindo Corrêa e João Batista da Rocha” e “São meus primos o Adirlei e a Avani”.

Irá também o verbo para o plural se encerrar idéia de reciprocidade, como em “Após a cerimônia, beijaram-se Gustavo e Simone” e “Consta que lutaram a noite inteira Jacó e o anjo”.

Dica nº 96

A vírgula e a conjunção “e”

De modo geral, não cabe o emprego da vírgula juntamente com a conjunção aditiva “e”, pois nesse caso ambos os elementos estarão funcionando como conetivos no mesmo lugar. Contudo, há casos em que é possível a presença da vírgula juntamente com o “e” e em outros ela não só é possível como necessária. Vejamos alguns deles:

• A vírgula indica que a palavra ou expressão que a segue, depois do "e", é

sujeito de outra oração, distinto do da oração anterior – Exemplo: “Geralmente, já foram fixados os preços, e as tabelas não podem ser alteradas”. Repare que “os preços” e “as tabelas” são sujeitos de predicados diferentes (foram fixados e não podem ser alteradas). Sem a vírgula, na leitura rápida, pode parecer que se trata de sujeito composto (já foram fixados os preços e as tabelas). Outro exemplo: “Os executivos usam carros da empresa, e microônibus levam os demais empregados ao trabalho”. Neste caso, a ausência da vírgula propiciaria leitura tal que faria com que “microônibus”, sujeito de “levam”, fosse entendido como complemento de “usam”, juntamente com “carros da empresa”. Vírgula obrigatória.

• Há intenção de se enfatizarem componentes de série coordenada – Exemplo:

“Houve muitos episódios notáveis na Guerra do Paraguai, como Humaitá, e Itororó, e Avaí, e Itá-Ibaté, e Angostura, e outros tão ou mais importantes”. Assim encadeada a série, ressalta-se cada elemento em particular. Vírgula facultativa, na dependência de se querer ou não produzir a ênfase mencionada.

• Destaque de oração ou expressão intercalada – Exemplos: “Esse eixo

semântico, e trata-se exatamente disso, possui grande generalidade”, “O padre

repreendeu, e era perfeitamente o caso, o comportamento impróprio de alguns paroquianos” e “O aluno

repreendeu, e era perfeitamente o caso, o comportamento impróprio de alguns paroquianos” e “O aluno foi chamado e, aparentando tranqüilidade, apresentou-se ao diretor”. Pode-se retirar a oração ou a expressão encaixadas sem prejuízo do sentido da oração principal. Observe que, como se trata de intercalação, há duas vírgulas, uma antes e outra depois do elemento intercalado. Vírgula facultativa.

• Separação de aposto do “e” – Este caso é semelhante ao anterior, mas a

particularidade é que se trata de aposto, que nem sempre precisa estar entre vírgulas, como em “Nosso primeiro imperador foi D. Pedro I, o “Defensor Perpétuo do Brasil”. Na hipótese de o aposto ser “interno”, ou seja, não ser seguido por ponto, deve ser ladeado por vírgulas, mesmo que à segunda se siga a conjunção “e”. Exemplos: “Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente eleito, e sua equipe reúnem- se hoje” e “Karl Marx, autor de O Capital, e Friedrich Engels são ideólogos do marxismo”. Vírgula obrigatória.

• Vírgula antes do “e” quando a coordenação que o antecede é muito longa –

Essa vírgula indica pausa respiratória. Exemplos: “Eliane, Afonso e Wagner fizeram

longa viagem até Brasília, e decidiram descansar lá por uns dias” e “Vila Bela da Santíssima Trindade é município localizado no oeste de Mato Grosso, e é ponto de partida para muitas expedições de pesca”. Vírgula facultativa.

Como informação de caráter prático, saiba que se coloca vírgula depois do “e” somente se há intercalação depois dele. Evidentemente, se se trata de intercalação, temos aí duas vírgulas: uma antes e outra depois do elemento ou oração intercalada. Exemplo: “Norma chegou e, exultante, logo foi contando as novidades”. Se também houver intercalação antes do “e”, este ficará entre vírgulas, como em “Renato pediu informações, muito aflito, e, em seguida, dirigiu-se à Prefeitura”.

Dica nº 97

Eis

Afinal de contas, o que significa essa palavra? “Eis” origina-se do latim ecce e como outras que há não se enquadra em nenhuma classe de palavras de acordo com a Nomenclatura Gramatical Brasileira. Por isso, esta a inclui na categoria dos vocábulos “que denotam alguma idéia”, no caso, a de “designação”. “Eis” tem força de verbo e é por esse motivo que pode ser empregada com pronome oblíquo, à guisa de complemento: “Ei-lo”, “Eis-nos”. Tal complemento é objeto direto: “Eis o aluno”. Equivale a “aqui está”: “Eis o homem = Aqui está o homem”. Repare que depois de “eis” o pronome oblíquo “o” (e “a”, “os”, “as”) transforma-se em “lo” (e em “la”, “los”, “las”) porque se pospõe a forma terminada em “s”.

Dica nº 98

Virtudes da linguagem verbal

Nos dias atuais, a comunicação humana precisa ser eficiente e rápida, especialmente a linguagem verbal.

Nos dias atuais, a comunicação humana precisa ser eficiente e rápida, especialmente a linguagem verbal. Não tenha dúvidas: além da aparência pessoal, muitas vezes o sucesso de suas pretensões depende da maneira como você se comunica. Assim, esteja atento para as virtudes de estilo ou qualidades da boa linguagem. Veja a seguir os fatores que influem positivamente no processo da comunicação verbal:

• Correção – É a conformidade com a norma dita culta, padrão lingüístico

definido pela elite como seu. Quem quiser ascender socialmente, deve dominá-lo, caso contrário, estará “excluído”, ressalvadas as exceções que só confirmam a regra. O emprego da norma culta é requerido na escola, nas repartições e empresas públicas, na imprensa e nas manifestações lingüísticas escritas em geral. A correção ortográfica e gramatical atua na formação de imagem favorável junto aos receptores das mensagens. Por exemplo: na redação do seu currículo, procure caprichar o mais possível, pois do outro lado poderá estar alguém muito exigente quanto a este item. A correção gramatical obtém-se com muita leitura dos chamados “bons autores”, não necessariamente clássicos, e com muito treino sob assistência de professor. Repare que a norma culta comporta dois padrões: o formal (escrito) e o coloquial (oral), que apresentam diferenças. A respeito, leia a Dica n.º 034.

• Concisão – É a objetividade na expressão de forma a transmitir-se o máximo

de idéias com o mínimo de palavras. Evite a “enrolação” e seja direto. Muitas vezes, o leitor do seu texto tem pouco tempo e quase nenhuma paciência

disponível. A linguagem direta, sem rebuscamentos e excesso de adjetivações, comunica melhor. O contrário da concisão é a prolixidade. O jornalista Elio Gaspari, que escreve nas edições de domingo do jornal Folha de S. Paulo, ironiza a prolixidade na seção “Curso Madame Natasha de Piano e Português”, como neste trecho: “Natasha concedeu mais uma de suas bolsas de estudo a Sérgio Fausto, assessor da Secretaria Executiva do Ministério da Fazenda. Ele informou que muitos brasileiros ‘sofrem de carência alimentar’. Madame acha que ele podia ter dito ‘fome’”.

• Clareza – Trata-se de virtude essencial da comunicação e seu oposto é a

ambigüidade – também chamada anfibologia – e a obscuridade. A clareza permite a perfeita transmissão do pensamento e a indubitável expressão da vontade e dos desejos. É obtida com auxílio da concisão e da simplicidade, o que equivale a dizer:

predomínio do uso de vocábulos de alta freqüência (palavras mais acessíveis ao receptor comum), períodos curtos e ordem direta. Há certas categorias profissionais que se esmeram na linguagem rebuscada, quase incompreensível, na vã ilusão de que com isso impressionam. Ledo engano. Não perca de vista a adequação do nível de linguagem ao público a quem se dirige: conforme os destinatários, você precisará empregar a norma popular em vez da culta, pois esta poderá não ser compreendida. O ideal é o falante ser “poliglota na sua própria língua”. A respeito, leia BECHARA, 1989.

• Precisão – Na construção do texto (oral ou escrito), procure colocar a palavra

certa no lugar certo. A expressão precisa é importante para você atingir o objetivo de comunicar exatamente o que pretende e evitar mal-entendidos. A prática constante da leitura e da escrita e exercícios com sinônimos ajudam a desenvolver

a precisão. O contrário é a imprecisão ou mesmo a obscuridade, muitas vezes causadas pela

a precisão. O contrário é a imprecisão ou mesmo a obscuridade, muitas vezes causadas pela inadequação vocabular.

• Naturalidade – É a fluência da comunicação verbal sem preocupação

exagerada com a correção. Para alcançar-se a naturalidade, deve-se evitar a linguagem rebuscada – o chamado preciosismo, o emprego, por exemplo, de excesso de vocábulos de baixa freqüência (palavras de significado desconhecido da maioria das pessoas) –, o abuso da ordem inversa e, na expressão oral, o linguajar próprio do padrão formal (língua escrita). Imagine, por exemplo, em bate-papo num barzinho, alguém dizer “você ver-se-á em maus lençóis se continuar a insistir naquilo". A respeito, leia a Dica n.º 034.

• Originalidade – Procure ser original ou, como se costuma dizer, “ser você

mesmo”. É claro que o que é bom pode ser utilizado, mas de forma moderada, sem cair na imitação servil. A originalidade na expressão revela o estilo de cada um e, como já dizia Buffon, “o estilo é o próprio homem”. Com o tempo, seu estilo vai-se definir mediante certas preferências vocabulares e de construção frasal e isso vai evidenciar sua marca e mostrar visão própria do mundo.

• Nobreza – É atributo da linguagem, especialmente escrita, livre de palavras e

expressões vulgares e mesmo obscenas. O texto nobre é aquele que qualquer pessoa pode ler “sem censura”. A gíria, salvo situações particulares e justificadas, deve ser evitada na linguagem escrita. Observe que neste tópico aplica-se perfeitamente a distinção entre padrão formal e coloquial. Assim como não cabe o primeiro na comunicação oral, o segundo não se compatibiliza com o texto escrito.

• Harmonia – A prosa harmônica prima pela adequada escolha e disposição dos

vocábulos, pelos períodos não muito longos e pela ausência de cacofonias,

especialmente o eco. É o texto cuja leitura dá prazer.

• Colorido e elegância – Atributos que valorizam sobremaneira a expressão

verbal pela adequada seleção vocabular e, entre outros fatores, pelo emprego comedido e adequado das figuras de linguagem. A contínua leitura e a prática constante da escrita possibilitam adquirirem-se estas virtudes. Portanto, você já

sabe: muita leitura e muito treino.

Para aperfeiçoar seu texto, evite as cacofonias, a repetição vocabular (por isso, a importância dos exercícios com sinônimos e do uso do dicionário) e faça economia do “que”, dos pronomes possessivos e dos artigos indefinidos. Leia mais sobre isso na Dica n.º 01. Texto com palavras repetidas muito proximamente demonstra desleixo na escrita ou pobreza de recursos vocabulares.

Dica nº 99

Tópico frasal

Expressão utilizada por Othon M. Garcia (GARCIA, 1988: 206) como tradução do inglês topic sentence, “tópico frasal” designa um ou dois períodos curtos iniciais que

contêm a idéia-núcleo do parágrafo em texto dissertativo, descritivo ou narrativo. O tópico frasal é

contêm a idéia-núcleo do parágrafo em texto dissertativo, descritivo ou narrativo. O tópico frasal é eficiente e prática maneira de estruturar o parágrafo, pois já de início expõe a idéia que se quer passar, a qual é comprovada e reforçada pelos períodos subseqüentes. O autor diz que, embora haja outras formas de se construir parágrafo, a maioria (mais de 60%) é assim estruturada, de acordo com suas pesquisas.

Acha Othon Garcia que a montagem do parágrafo dessa forma provavelmente tenha origem no raciocínio categórico-dedutivo, herança greco-latina, pois o tópico frasal constitui generalização, especificado pelos períodos seguintes. Expondo-se de saída a idéia-núcleo, a coerência e a unidade do parágrafo ficam asseguradas e dessa forma se evitam considerações desnecessárias. Em suma, fica mais fácil garantir a coesão textual do parágrafo, o que implica produzir coerência semântica e lógica nos períodos que o constituem, característica importante em texto dissertativo. Tome-se o seguinte parágrafo:

“Em 1986, os veículos a álcool chegaram a representar 98% da linha de produção. Os veículos a gasolina só eram disponíveis por encomenda. Devido a medidas na área financeira, a produção de carros a álcool hoje mal chega a 1% da frota nova. Os que restam a álcool estarão em uso por curto tempo. O programa foi exterminado”. (BAUTISTA VIDAL, J. W. Brasil, civilização suicida. Brasília, Nação do Sol, 2000, p.

16.)

Observa-se que a idéia central do parágrafo é apresentada logo no princípio mediante o tópico frasal (assinalado em negrito). Este é seguido de outro período que demonstra a validade daquela idéia . Os períodos seguintes estabelecem contraste com a idéia-núcleo e corroboram afirmativa constante de parágrafo anterior.

Ainda segundo Othon Garcia, aprendemos que o tópico frasal pode-se apresentar sob diferentes formas, quais sejam:

Declaração inicial – Afirma-se ou nega-se algo de início para em seguida justificar- se e comprovar-se a assertiva com exemplos, comparações, testemunhos de autores, etc. Assim:

“Essa variedade de flores não finalizava a decoração do jardim. No centro das rosas, uma única, uma única dama da noite, responsável por completar o toque de classe de toda aquela beleza. Essa árvore transformava as noites com seu aroma profundamente sensual e invadia as casas e toda a praça, o que fazia com que os amantes ficassem mais apaixonados”. (HERNANDES, Christina. O amigo que não perdi. Campos do Jordão, Vertente, 1997, p. 12.)

Note que no exemplo acima a declaração inicial aparece sob forma negativa, justificada pelo período seguinte. A seguir, acrescentam-se mais informações a

essa fundamentação: “Essa árvore

”.

Definição – Muitas vezes, o tópico frasal apresenta-se sob a forma de definição, o que

Definição – Muitas vezes, o tópico frasal apresenta-se sob a forma de definição, o que lhe confere característica didática:

“Agê-Chálugá, Ajá e Ochanbin são deuses da medicina e muito estimados pelos nagôs. Creio que a Ochanbin se devem referir as informações que colhi sobre os orixás contrários a Xaponã. Os negros falam muito em Iabahim, mãe da bexiga ou varíola, e eu supus uma divinização recente da vacina. Todavia, esta interpretação tem contra si a repugnância e relutância dos negros a se fazerem vacinar”. (NINA RODRIGUES, Raimundo. Os africanos no Brasil. 5. ed. São Paulo, Nacional, 1977, p. 230.)

À definição constante do tópico frasal acrescenta-se informação presente no período seguinte. Os períodos posteriores mantêm-se circunscritos ao tema do tópico.

Divisão – A divisão é método eminentemente didático, pelo qual o tópico frasal apresenta-se na forma de seqüência de elementos ou de itens, que serão desenvolvidos no mesmo parágrafo ou em parágrafos distintos. Muitas vezes, a divisão é antecedida de uma definição. Exemplo:

vezes, a divisão é antecedida de uma definição. Exemplo: (D’ADAMO, Peter J. e WHITNEY, Catherine. A

(D’ADAMO, Peter J. e WHITNEY, Catherine. A dieta do tipo sangüíneo; saúde, vida longa e peso ideal de acordo com seu tipo de sangue. 8. ed. Rio de Janeiro, Campus, 1998, p. 127.)

Existem outros modos de iniciar parágrafo na dependência de vários fatores, como a ordem das idéias, a ênfase que o escritor quer dar a determinado aspecto de sua exposição, a intenção do autor de prender a atenção do leitor, questionamentos que aquele pretende lançar, etc. Essas outras técnicas são igualmente válidas, mas sua apresentação aqui foge ao propósito desta página.

Dica nº 100

Infinitivo e pronome oblíquo

Podemos ser tentados a colocar o pronome oblíquo em orações em que aparece o infinitivo não-flexionado, como em “Esta receita é muito fácil de se fazer”. Isto porque o “se” poderia aí ser classificado como pronome apassivador, já que a

oração equivale à construção passiva analítica “Esta receita é muito fácil de ser feita”. Realmente,

oração equivale à construção passiva analítica “Esta receita é muito fácil de ser feita”. Realmente, essa equivalência existe, mas na verdade o emprego do pronome, além de desnecessário, é de fato incorreto. Tal se passa porque alguns verbos ativos adquirem força passiva quando, no infinitivo, são antecedidos das preposições a, de, para e por, principalmente quando funcionam como complemento de certos adjetivos. Como exemplos, temos “Há diversas contas a pagar (a serem pagas)”, “Esta parede foi acabada de pintar (de ser pintada)”, “Ele é duro de agüentar (de ser agüentado)”, “João é osso duro de roer (de ser roído)”, “O xarope é difícil de engolir (de ser engolido)”, “A regra é fácil de aprender (de ser aprendida)”, “É exemplo para imitar (para ser imitado)”, “Estas bolsas são para vender (para serem vendidas)”, “Todos estes textos estão por revisar” (por serem revisados)”, “O trabalho ainda está por terminar (por ser terminado)”, etc. Observe que em “duro de agüentar”, “difícil de engolir” e “fácil de aprender”, por exemplo, de agüentar, de engolir e de aprender funcionam como complementos nominais dos adjetivos “duro”, “difícil” e “fácil”.

Entretanto, há quem discorde da passividade da construção alegando que o infinitivo, ao complementar o sentido de certos adjetivos, tem emprego “geral” e não, passivo, caso em que a voz ativa ou passiva neutralizam-se, conforme se pode ler em CUNHA, 2000 (veja abaixo).

De uma forma ou de outra, o uso do pronome oblíquo nessas construções não é autorizado por nenhum autor.

Dica nº101

Anexo ou em anexo?

Na correspondência, usa-se anexo para indicar que algo está junto do texto em que se escreve. Nesse contexto, “anexo” é adjetivo, que concorda com o substantivo que acompanha. Assim, “Segue cópia anexa”, “Envio documento anexo”, “As faturas vão anexas”.

É comum, porém, ver-se o uso de em anexo. Ao empregar essa expressão, na verdade, o que se está dizendo é que algo está em um anexo, ou seja, com ou dentro de algum anexo (por exemplo, um envelope) que se encontre agregado à carta. Se esse é o caso, como tal anexo é conhecido e determinado, deve-se usar o artigo definido “o”. Portanto, a expressão adequada é no anexo. Se digo que “Os bilhetes seguem no anexo”, posso, pois, estar querendo dizer que eles seguem dentro de um envelope que está anexo à carta ou memorando.

Por tudo isso, se algo vai simplesmente junto com a carta, ele vai anexo e não, “em anexo”.

Meio Tratamos aqui de “meio” enquanto advérbio ou numeral. Como advérbio, não varia e modifica

Meio

Tratamos aqui de “meio” enquanto advérbio ou numeral. Como advérbio, não varia

e modifica adjetivos. Assim, temos “Leonardo estava meio preocupado” e “Lourdes

bebeu e ficou meio tonta”. Nestes exemplos, meio significa “um pouco”, “mais ou

menos”. Meio pode também funcionar como numeral – significa “metade de um” –

e nesse caso concorda com o substantivo que acompanha. Exemplos: “Rosário

tomou meio litro de chope” e “Joabel comprou 12 meias garrafas de cerveja”. Fiquemos atentos para esses empregos em expressões do tipo “meio acabada/meia acabada”, “meio terminada/meia terminada” e “meio aberta/meia aberta”. Se digo que o pedreiro entregou a parede meio terminada (meio = advérbio), quero dizer que a entregou ainda por terminar. Se, porém, digo que ele entregou a parede meia terminada (meio = numeral), isso significa que ela está construída pela metade. O mesmo vale para “porta meio aberta”, ou seja, porta entreaberta. Se

digo porta meia aberta, quero dizer que está aberta pela metade. Caso curioso é o

de “meio” ao acompanhar meio-dia. Por princípio lógico, devemos dizer “meio-dia e

meia”, pois estamos querendo dizer que se trata de metade do dia mais meia hora, substantivo aí subentendido. Entretanto, por influência do gênero masculino de “meio-dia”, é comum ouvirmos “meio-dia e meio”. Contudo, isso significará, literalmente, “meio-dia mais metade de um dia”. Essa contaminação de gênero também é freqüente em exemplos como “Depois da cerveja, Leo ficou meia alegrinha”, quando na verdade não se quer dizer que ela ficou “alegre” pela metade, mas um pouco, mais ou menos. Estes últimos exemplos indicam evolução lingüística e são admitidos na linguagem coloquial, mas se quisermos ficar em paz com a prescrição da Gramática, especialmente na língua escrita, devemos atentar para o real sentido que os vocábulos tradicionalmente têm.

Dica nº 103

O

mais possível

O

uso dessa expressão costuma confundir as pessoas, principalmente quando

acompanhada de nomes no plural. Vamos esclarecer, pois. Seja a oração “Tais títulos são os mais rentáveis possíveis”. Se nela está inserida aquela expressão – o mais possível = o mais que é possível – algo está errado, não é? E está mesmo porque se trata da locução adverbial “o mais possível”, que, por sua natureza, é invariável. Assim, devemos reescrever a oração como “Tais títulos são o mais rentáveis possível” ou então “Tais títulos são rentáveis o mais (que é) possível”. Repare que a nossa locução modifica o adjetivo “rentáveis” e não, o substantivo “títulos”. Por ser adverbial, o “o” e o “possível” não se flexionam e é por isso que não se pode construir, como acima, “Tais títulos são os mais rentáveis possíveis”. Nada disso. Em qualquer construção em que essa locução entre, ela fica invariável:

o mais possível. Outros exemplos:

• “Apresentaram desculpas o mais esfarrapadas possível” ou “Apresentaram desculpas esfarrapadas o mais possível”;

• “As reações ao medicamento foram o mais variadas possível” ou “As reações ao medicamento

• “As reações ao medicamento foram o mais variadas possível” ou “As reações ao medicamento foram variadas o mais possível”;

• “Ofereceram objeções o mais estapafúrdias possível” ou “Ofereceram objeções estapafúrdias o mais possível”.

Há alternativas a essas construções, como “Apresentaram desculpas o mais possível esfarrapadas” ou “Apresentaram desculpas quanto possível esfarrapadas” ou ainda “Apresentaram desculpas esfarrapadas quanto possível”.

Essa é a posição defendida por Napoleão Mendes de Almeida. Há autores, porém, que dela divergem, como Luiz A. Sacconi e José De Nicola & Ernani Terra, os quais é conveniente também consultar. (Veja abaixo.) Conhecendo diferentes concepções, o estudante definirá sua preferência, que, qualquer que seja, estará respaldada por autor de renome.

Dica nº 104

Está na hora do Brasil fazer reformas.

Que lhe parece? Os gramáticos tradicionais torcem o nariz para essa construção e a condenam. Por quê? Porque com a combinação da preposição de com o artigo o o sujeito do infinitivo (Brasil) acaba dependendo do substantivo “hora”, que o antecede, o que dá origem ao sintagma hora do Brasil. O sujeito ficaria indevidamente regido de preposição. E não se tem isso aí. Na verdade, o que há é a expressão “está na hora”, completada por infinitivo, no caso, “fazer”. Assim, o que queremos dizer é que “está na hora de fazer reformas”. Quem? O Brasil. Reconstruindo a frase, podemos dizer “Está na hora de fazer reformas o Brasil” ou, em outra ordem, “Está na hora de o Brasil fazer reformas”. Lembremo-nos pois que, em casos como esse, a expressão “está na hora” deve ser seguida da preposição de e de um verbo no infinitivo: “está na hora de sair”, “está na hora de almoçar”, “está na hora de voltar”, etc. O sujeito desse infinitivo pode posicionar-se antes ou depois do verbo: “Está na hora de levar a sério o estudo o aluno” ou “Está na hora de o aluno levar o estudo a sério”.

Entretanto

combinação. Evanildo Bechara, em sua Moderna gramática portuguesa (BECHARA, 1977: 311-312), ensina que a combinação aí ocorre como fato natural da língua, pelo contato da preposição com o artigo. “Na realidade não se trata de regência preposicional do sujeito, mas do contato de dois vocábulos que, por hábito e por eufonia, costumaram vir incorporados na pronúncia.” (Idem) Bechara cita vários

autores consagrados que adotaram tal prática em seus escritos, como Alexandre Herculano, Rui Barbosa, Epifânio Dias e outros e dá como exemplo a famosa frase “Está na hora da onça beber água”.

Ah, existe um entretanto aí. Gramáticos de renome admitem a

E aí, como ficamos? Bem, qualquer que seja a opção escolhida, você estará respaldado. Contudo, a prudência recomenda, especialmente em provas escolares ou concursos, o emprego da construção tradicional, isto é, sem a combinação:

“Está na hora de a onça beber água”. Se você insistir na combinação e seu

“Está na hora de a onça beber água”. Se você insistir na combinação e seu texto for corrigido, haverá possibilidade de recurso e sua posição deverá prevalecer, pois conta com respaldo de gramático respeitado. É preciso, porém, nessa atitude, pesar a relação custo/benefício.

Dica nº 105

Verbos causativos

Categoria curiosa é a dos verbos chamados “causativos”. E o que vem a ser verbo causativo? Também chamado “factitivo”, é o verbo transitivo direto (o que se liga ao complemento sem auxílio de preposição) cujo objeto se constitui de um ser que age por força do sujeito. Em outras palavras, o sujeito faz com que o objeto faça ou torne-se alguma coisa. Exemplos: "João afugentou os cães" (pela ação de João, os cães fugiram), "Roma civilizou a Pensínsula Ibérica" (pela ação de Roma, a Península tornou-se civilizada), "Os portugueses cristianizaram a Terra de Santa Cruz" (pela ação dos portugueses, a Terra de Santa Cruz tornou-se cristã), "Notifiquei-o do atraso" (pela minha ação, ele tomou conhecimento do atraso).

(pela minha ação, ele tomou conhecimento do atraso). Repare que os auxiliares causativos não formam locução

Repare que os auxiliares causativos não formam locução verbal com o infinitivo. Assim, cada verbo tem seu sujeito, e o verbo no infinitivo pode ser substituído por forma modal: “Fiz com que Leo estudasse”, “Mandei que os alunos ficassem” e “Deixei que o copo caísse”. (Leia também, a respeito do infinitivo, a Dica n.º 19.)

Dica nº 106

Orações interrogativas

As orações interrogativas traduzem o desejo do falante de obter informação ou de formular questionamento, como em "Quem está aí?", "Isso é trabalho que se apresente?" e "Quero saber quem sujou o chão.". A interrogação em português classifica-se em direta e indireta:

· Direta – Na expressão oral, a interrogação direta caracteriza-se pela entoação

ascendente no final da frase – "Os convites já foram respondidos?" – ou no início, se começada por pronome ou advérbio interrogativo – "Como você soube disso?". Na escrita, a interrogação direta é assinalada pelo ponto de interrogação: "Tânia e Celsinho viajaram?" e "Quanto custa?".

·

Indireta – A interrogação indireta realiza-se mediante período composto, onde a

questão está contida na oração subordinada e o verbo da principal expressa

desconhecimento ou desejo de informação: "Diga-me com quem você conversou." e "Gostaria de saber a

desconhecimento ou desejo de informação: "Diga-me com quem você conversou." e "Gostaria de saber a que horas o secretário chegará.". Esse tipo de oração termina quase sempre em ponto final.

Às vezes, nos diálogos, acrescentamos informação após interrogação direta. Neste caso, a frase informativa principia com letra minúscula, como em "– Como se atreve a sujar minha água? indagou o lobo ao cordeiro.".

É preciso ficarmos atentos para não deixarmos de colocar o indispensável ponto de interrogação no final das interrogações diretas, caso contrário, elas permanecerão como afirmações. Vejamos esta oração interrogativa: "Você pode executar o trabalho?". Se, em vez do sinal apropriado, colocarmos ponto final, a frase tornar- se-á afirmativa: "Você pode executar o trabalho.". Em certos casos, essa troca inadvertida e indevida pode causar ruído na comunicação e, eventualmente, problemas.

Dica nº 107

Algumas dicas de redação

Para redigir com acerto e qualidade, é preciso muita leitura e constante treino. É útil fazer curso específico, quer para reforçar os conhecimentos adquiridos na escola regular, quer para suprir deficiências desse aprendizado. Aqui vão algumas recomendações e comentários, que poderão ajudar na tarefa:

1. Observe com atenção o tema proposto, que deve ser religiosamente seguido.

De modo geral, nos concursos, a fuga ao tema é pecado capital, pago com a retirada da redação do certame sem sequer ser totalmente corrigida. Há redações ótimas reprovadas porque o autor escreveu sobre tudo, menos acerca do que foi pedido.

2.

Mesmo que você respeite o tema, evite fazer circunlóquios e circunvoluções em torno dele. Isso, na área de correção de provas, tem nome: “encheção de lingüiça”, pecado também penalizado. Em outras palavras, seja objetivo sem jamais perder o tema de vista.

3. Se você não tem noção clara do que vai escrever, anote em rascunho, na

forma de tópicos, as idéias a medida que forem surgindo, o chamado brain storm

(tempestade cerebral). Esses itens poderão constituir os tópicos frasais da redação, que serão desenvolvidos, um a um, para constituir o texto. Veja, a propósito, a Dica n.º 99.

4. Depois, releia os tópicos e examine a conveniência de manter todos. É hora

de ordená-los para concatenar as idéias. Dito de outro modo: trata-se de encadear

os conteúdos de forma lógica. Se, ao final da redação, você escrever “Portanto, etc, etc, etc.”, o que vier a seguir tem de ter tudo a ver com o que foi dito antes. É o princípio da coerência.

5. Nas provas e concursos, costuma-se determinar o número total ou mínimo de

linhas a serem escritas. É conveniente respeitar esses parâmetros. Não recorra ao

estratagema infantil – ao mesmo tempo inútil – de aumentar o tamanho da letra para

estratagema infantil – ao mesmo tempo inútil – de aumentar o tamanho da letra para conseguir volume de texto. O prof. Paulo Hernandes é do ramo e sabe que esse expediente geralmente não funciona.

6. Se a redação for do tipo dissertativo e a prova permitir consulta ou você

lembrar-se, reforce seus argumentos com as idéias de algum autor, inclusive mediante citação textual. Neste caso, o trecho citado deve estar entre aspas e o

nome do autor, consignado. Se você puder mencionar a obra de onde a citação foi extraída, melhor ainda.

7. Para dar qualidade ao texto, procure relê-lo, oportunidade em que poderá

eliminar os equívocos, as repetições vocabulares e demais defeitos. Evite os vícios

e dê atenção especial às qualidades da boa linguagem. Veja a este respeito a Dica n.º 98.

Dica nº 108

A vírgula e o adjunto adverbial

A ordem direta das sentenças em português prescreve a seqüência sujeito – predicado – complemento. O verbo é o constituinte central do predicado, e seu sentido pode ser modificado por advérbios ou locuções adverbiais, entre outros. Sintaticamente, essas palavras exercem a função de adjuntos adverbiais. Assim, temos “Célio e Jonas chegaram mais tarde” e “Concordo em princípio com o adiamento da reunião”. As vezes, desejamos dar ênfase a esses modificadores. Um dos recursos de que nos valemos para isso é a antecipação de tais adjuntos colocando-os no início da frase, como em “Mais tarde, Célio e Jonas chegaram” e “Em princípio, concordo com o adiamento da reunião”. Aliás, o próprio período há pouco escrito “As vezes, desejamos dar ênfase a esses modificadores” é mais um exemplo dessa construção. Repare que em todos esses exemplos o adjunto foi seguido de vírgula. Ela é necessária para assinalar a antecipação do adjunto adverbial, além de indicar pausa. Contudo, se o adjunto é constituído de advérbio de curta extensão, a vírgula é facultativa. Colocamo-la se queremos realmente enfatizar a idéia expressa por ele: "Aqui não vemos essas coisas" e "Ontem saímos mais cedo".

Há casos, porém, em que esse adjunto, embora antecipado, não se situa exatamente no início do período e sua colocação pode ensejar leitura incorreta. Dessa forma, em “Isso feito, com certeza, sua habilidade de expressão escrita terá galgado alguns degraus”, a colocação da vírgula logo após o adjunto com certeza faz com que o associemos a “Isso feito”, quando na verdade nossa intenção é fazer com que funcione como modificador de terá galgado. Veja como o período fica na ordem direta: “Isso feito, sua habilidade de expressão escrita terá galgado com certeza alguns degraus”.

Para evitar a leitura incorreta, preconizamos a não-colocação da vírgula após o adjunto adverbial nas situações em que, antecipado, não inicia sentença. Repitamos o exemplo dado e acrescentemos alguns outros:

• “Isso feito, com certeza sua habilidade de expressão escrita terá galgado alguns degraus”. •

• “Isso feito, com certeza sua habilidade de expressão escrita terá galgado alguns degraus”.

• “Realizado o trabalho, sem dúvida alguma o relatório será entregue no prazo previsto”.

• “Terminado o jogo, rapidamente o trio de arbitragem deixou o campo”.

• “Findo o dia, de forma discreta os pássaros vão-se recolhendo aos ninhos”.

• “Anunciado o lanche, com muita alegria os estudantes saíram das salas”.

Pelos exemplos, reparamos que tal acontece especialmente quando orações reduzidas de particípio iniciam o período.

Se o período está construído na ordem direta, não há necessidade da vírgula após o adjunto, como em “Os contratos estão sendo honrados de modo geral”, embora ela possa ser colocada se quisermos enfatizar a circunstância por ele expressa. Em outros casos, ela é conveniente em benefício da clareza: “Limpamos o piso, e o aspirador de pó é passado nos tapetes, semanalmente”. Vemos que o adjunto se posiciona em seu lugar natural na ordem direta. Normalmente, não seria necessária a colocação dessa vírgula com os termos na ordem direta. Entretanto, como são descritas duas ações (limpar o piso e passar o aspirador), é conveniente a presença da vírgula, mesmo com o adjunto no final do período, para, com a pausa que ela propicia, ficar caracterizado que ambas as ações são semanais. Se ela não for colocada, poderemos ser levados a entender que apenas o aspirador de pó é passado semanalmente.

Dica nº 109

Onomatopéias

Muito pouco espaço as gramáticas dedicam a esse tipo de palavra. As onomatopéias são vocábulos imitativos, isto é, imitam ou tentam reproduzir sons ou ruídos que se ouvem à nossa volta, na Natureza. Sua sonoridade já expressa o sentido. Geralmente, as onomatopéias classificam-se como substantivos, verbos ou interjeições. Veja alguns exemplos abaixo:

• Substantivos – Muitos substantivos que são onomatopéias provêm de verbos

imitativos de vozes de animais: miado, piado, silvo, zumbido, de “miar”, “piar”, “silvar”, “zumbir”. Outros são obtidos pela substantivação de verbos desse tipo: o

coaxar, o rosnar, um cricrilar. Outros ainda são simples aproximação de sons: bem- te-vi, reco-reco, tique-taque, xique-xique.

• Verbos – Muitos verbos que reproduzem vozes de animais têm origem

onomatopaica: chiar (insetos), cricrilar (grilos), coaxar (sapos), miar (gatos), piar

(pássaros), silvar (cobras), trissar (pássaros, morcegos), uivar (cães, lobos), zumbir e zunir (insetos).

• Interjeições – Buf!, bum!, craque!, pá!, paf!, tchibum!, toque-toque, tsss!, zás-trás.

Apesar de as onomatopéias não poderem ser consideradas a fonte original e corriqueira das p

Apesar de as onomatopéias não poderem ser consideradas a fonte original e corriqueira das palavras, é inegável que há, nas línguas, preferência onomatopaica na criação lexical para designar ou descrever muitos seres, objetos e fenômenos naturais. Fato lingüístico comum é a chamada “reduplicação”, possivelmente originária da linguagem infantil (confira au-au, mamãe, papai, titio, vovô), que consiste na repetição de sílabas ou apenas de consoantes para indicar atos repetitivos ou contínuos: assim, para ficar só no português, temos cacarejar, chuchurrear, ciciar, cochichar, murmurar, pipiar, titilar, etc., além dos já citados reco-reco, tique-taque e xique-xique. Percebemos assim que a reduplicação de base onomatopaica reproduz aproximadamente sons do ambiente natural e tem função morfológica. A especificação (reduplicação de base onomatopaica) faz-se necessária porque há reduplicações que não têm essa base, embora também exerçam função morfológica, como as existentes em certas línguas indígenas brasileiras – para indicar número plural –, africanas e outras

– para indicar número plural –, africanas e outras Dica nº 110 Objeto direto preposicionado Sabemos

Dica nº 110

Objeto direto preposicionado

Sabemos que objeto direto é o complemento que se liga ao verbo diretamente, isto é, sem auxílio de preposição. Assim, em “Devemos amar nossos semelhantes”, nossos semelhantes é objeto direto do verbo amar porque se liga a ele sem a presença de preposição.

Entretanto, às vezes, o objeto direto pode aparecer precedido de preposição – geralmente, “a” – sem que isso o transforme em objeto indireto (complemento ligado ao verbo mediante preposição). Neste caso, temos o objeto direto preposicionado, como em “Devemos amar a Deus sobre todas as coisas”. “Amar”, no contexto, é transitivo direto (amar quem? resposta: Deus), mas mesmo assim apareceu a preposição “a” (amar a Deus). Há contextos em que podemos exercer a faculdade de empregar preposição com verbos transitivos diretos, e outros em que tal uso é obrigatório. Vejamos como isso se passa:

Uso facultativo

• Com verbos que exprimem sentimentos: “O homem amava aos que o rodeavam” e “Detesto a Sujismundo e à sua gentalha”.

• Nas antecipações do objeto, comuns em provérbios: "A quinta roda ao carro

não faz senão embaraçar" e “Ao boi, (pega-se) pelo corno e ao homem, (pega-se) pela palavra".

• Com certos pronomes: “Ele beneficiava a todos a sua volta” e "Gato a quem mordeu a cobra tem medo à corda".

• Nos casos de objeto direto constituído de pronome oblíquo seguido de aposto : “Os

• Nos casos de objeto direto constituído de pronome oblíquo seguido de aposto:

“Os maus ofendem-nos, aos bons, porque estes os incomodam” e “Seguiu-o, ao prático, sem o perder de vista”.

• Como reforço à clareza: “Cumprimentei-o e aos que com ele estavam” e

“Expulsou-o e aos asseclas”. Sem a preposição, podemos imaginar ser o segundo elemento do objeto direto sujeito de algum verbo, que na realidade não existe.