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Au BABA € 0S QUARENTA LADROES trtico cortow a seu esposo, 0 sultao das Indfas, uma nova histéria, que comecava assim: — Nos confins de vosso reino, poderoso sultao, viviam dois irmaos, um dos quais se chamava Cassim ¢ 0 outro, Ali Baba. Como o pai deles, ao morrer, deixou-lhes uns poucos bens que foram repartidos igualmente, parecia que a fortuna dos dois seria igual. Mas o acaso dispés diferente. Cassim desposou uma mulher que, pouco depois, tor: nou-se herdeira de lojas e terras e ficou rica, da noite para o dia. Ali Baba, ao contrario, casou-se com um mulher tao pobre quanto ele, de modo que para ganhar seu sustento da familia, tinha que ir cortar madeira no bosque e vendé-lana cidade. Os dois asnos que usava para carregar a madeira eram suas tinicas propriedades. Estava Ali Baba na floresta, cortando madeira, quando ouviu um tropel que se aproximava. Tomado de stibito medo, subiu numa arvore grande e alta que havia ali perto e ficou observando os cavaleiros que se aproximavam. Ele os contou: eram quarenta e, por seus trajes e pelas armas que portavam, néo teve diivida de que se tratava de ladrées, 0 que logo se confirmou. Todos desmontaram dos cavalos, carregando pe- sados sacos que Ali Baba imaginou estarem cheios de moedas de ouro ¢ prata. Um deles, que parecia o chefe, aproximou-se de uma rocha préximo a arvore em que trepara Ali Baba e disse estas palavras que ele ouviu claramente: — Abre-te, Sésamo! De imediato, uma porta se abriu na rocha e por ela en- traram os quarenta homens com seus sacos de dinheiro. A porta se fechou em seguida. O primeiro impulso de Ali Baba foi descer rapido da arvore e afastar-se dali com seus dois asnos. Mas teve medo e preferiu manter-se no alto da arvore observando. Depois de algum tempo, os ladrées sairam da caverna € 0 chefe parou diante da porta aberta na rocha e disse: “Fecha-te, Sésamo!” A porta se fechou. Os homens montaram em seus cavalos e partiram. Ali Baba nao desceu logo da arvore, temendo que os ladrées voltassem por ter esquecido alguma coisa. Quando os perdeu de vista e nao mais owviu o tropel de seus cava- los, desceu, afastou os ramos que cobria a rocha e repetiu as palavras que ouvira: “Abre-te Sésamo!”, e a rocha logo se abriu. Quando entrou, espantou-se: em vez de um lugar escuro, deparou-se com um ambiente ample, iluminado por uma abertura situada no alto da rocha. Ali havia grande quantidade de alimentos estocados, ricas mercadorias, pi- Ihas de tecidos caros como sedas e brocardos, tapetes de 12 alto preco e sobretudo moedas de ouro e prata que enchiam urnas € sacos de couro. Diante de tanta riqueza, Ali Baba nao se abalou. Tratou de levar consigo apenas moedas de ouro — especialmente as que estavam nos sacos de couro — na quantidade que pudesse transportar em seus dois asnos. Foi o que fez e, concluido o trabalho, parou em frente da entrada da rocha e disse: “Fecha-te, Sésamo”. A porta se fechou. Ao chegar em casa, Ali Baba fez entrar os animais com seu carregamento precioso, fechou a porta com cuidado e levou os sacos de ouro até o quarto onde sua mulher repou- sava. Esta, ao verificar as moedas que os sacos continham, sups que o marido as havia roubado e se alarmou. Mas Ali Babé a tranquilizou, contando-lhe como conseguira aquela fortuna. Ela nao s6 se acalmou como se entusiasmou ao se ver dona de tamanha fortuna, e quis conta-la, moeda a moeda. Mas Ali Babé a dissuadiu, alegando que, sem perda de tempo, deviam enterré-las. A mulher concordou, mas quis guardar consigo uma pequena quantidade delas. — Enquanto cavas 0 buraco, vou a casa de teu irmao buscar uma vasilha para medi-las. — Esté bem — disse Ali Baba, — desde que nao contes a ninguém o nosso segredo. A mulher dirigiu-se casa de Cassim, seu cunhado, e ali chegando, como ele estivesse ausente, pediu 4 cunhada uma vasilha emprestada para medir graos. Sabendo que na casa de Ali Baba nunca havia graos em quantidade, a cunhada tentou saber dela que graos eram aqueles, mas nada obteve. A mulher de Ali Baba, ao chegar em casa, encheu a medida com moedas de ouro, despejou-as num saco menor e em seguida devolveu a vasilha 4 cunhada. Mal a mulher de Ali Baba saira, a cunhada percebeu que no fundo da medida ficara presa uma moeda de ouro e foi tomada de surpresa e inveja. 14 » ayegcranr ge do co co né FOR ZRP AAP cc — Como Ali Baba agora tem ouro para medir? — per- guntou a si mesma. — E onde esse miseravel conseguiu tanto ouro? Quando Cassim, o marido, chegou, a mulher contou que a cunhada lhe pedira uma medida emprestada para medir grdos e na verdade foi para medir ouro. E mostrou-lhe a mo- eda que viera presa ao fundo da medida. Cassim, em vez de ficar contente com a sorte do irmao, que escapara da miséria, tomou-se de inveja mortal. No dia seguinte, bem cedo foi a casa de Ali Baba e perguntou-lhe por que se fingia de pobre quando possuia ouro em quantidade. Ali Baba disse que nao sabia do que 0 irmdo estava falando, mas este Ihe mostrou a moeda de ouro que ficara presa no fundo da medida, e Ali Baba foi obri- gado a Ihe contar seu segredo. Como ndo lhe disse onde ficava a caverna, Cassim ameacou denuncié-lo a justica. — Sera melhor para ti me dar a metade dessa riqueza do que perderes tudo. Ali Baba ento lhe deu todas as indicagdes de como en- contrar a rocha e como nela entrar. Assim, no dia seguinte muito cedo, Cassim tomou o caminho da floresta levando consigo dez mulas, pois estava disposto a se apoderar, nao de uma parte do tesouro, mas de todo ele. Seguindo as indicagdes do irmdo, encontrou a rocha, pronunciou as palavras magicas e nela penetrou. A porta se fechou as suas costas e a riqueza que seus olhos viram ali superou de muito o que imaginara, o que Ihe agugou ainda mais a ambicao. Passou entao a arrastar para a saida da gruta muito mais sacos de moedas do que poderia transportar. Mas, na hora de sair, esqueceu a senha magica que fazia abrir a porta. Em vez de “Abre-te, Sésamo’, disse: “Abre-te, Canhamo”. Como a porta continuasse cerrada, passou a usar varios outros nomes sem nada conseguir. Assustado com a possibilidade de nunca mais sair dali, sua memoria mais se embrulhava e confundia. 145 Lag Ao meio-dia, chegaram os ladrdes. Ao verem as dez mulas préximas a entrada da rocha, desconfiaram de que alguém descobrira o seu secreto depésito. Alguns deles rodearam a gruta enquanto o chefe e os demais pronunciaram a senha magica fazendo abrir-se a porta. Cassim, ao ver que a porta se abria, tentou escapar, mas foi agarrado e morto pelos ladrées. Estes, depois de recolocarem em seu devido lugar os sacos de moedas que Cassim pretendera levar consigo, perguntaram-se como ele havia entrado ali? Como descobrira a senha magica? Isso era impossivel, uma vez que somente eles a conheciam. De qualquer modo, pelo sim pelo nao, decidiram cortar o cadaver de Cassim em quatro pedacos e deixa-los préximo @ entrada da rocha, do lado de dentro, como uma adverténcia a quem, como ele, tentasse a mesma proeza. A mulher de Cassim, que esperava ansiosa por ele, tomou-se de preocupagao ao ver que ja anoitecia e ele nao voltava. Foi entao 4 casa de Ali Baba e manifestou-lhe sua preocupacdo. Ali Baba, inicialmente surpreso com a iniciati- va do irmao, procurou tranquilizar a cunhada, dizendo que talvez Cassim tenha preferido voltar tarde da noite para que ninguém desconfiasse do tesouro que trazia. Mas a noite passou, o dia amanheceu e nada de Cassim retornar. Foi entao que Ali Baba dispds-se a ir até a caverna procuré-lo, levando consigo as trés mulas. Ali chegando, viu as marcas de sangue no chao e adivinhou o que teria acontecido. Pro- nunciou a senha magica, a porta se abriu e, ao entrar na gruta, deparou com o corpo esquartejado do irmao. Ficou chocado com o que viu. Em seguida, envolveu os pedacos do cadaver em panos e os pos sobre um dos animais; os outros dois, carregou-os com sacos de moedas de ouro. Fez tudo isso o mais depressa que pode, temendo a volta dos ladrées, e rumou para a cidade. Deixou duas das mulas em sua casa, e a outra, com 0 corpo do irmAo, levou para acasa dele. Bateu a porta e quem abriu foi Morgiana, uma 1%. 20 aman one escrava correta, inteligente e muito imaginosa na solucao dos mais dificeis problemas. Ali Baba, que sabia de suas qualidades, Ihe disse: — Morgiana, vou te pedir para guardares um segredo inviolavel: aqui esté nestes embrulhos 0 corpo de teu se- nhor. Ele deve ser enterrado como tendo falecido de morte natural. Agora me leva A presenga de tua senhora, pois devo falar com ela. Ao ouvir de Ali Baba a noticia tragica do que ocorrera com o marido, a cunhada de Ali Baba comegou a chorar desesperada. Ele entdo pediu que se acalmasse e guardasse segredo de tudo, para sua seguranga e tranquilidade. —E para maior consolo teu — disse ele, — proponho que te cases comigo. Minha esposa no se opora a isso e a minha fortuna se juntara a tua, tornando-te ainda mais rica. A cunhada pensou, enxugou os olhos e aceitou a pro- posta de Ali. Morgiana, por sua vez, tomou as providéncias para o enterro de Cassim. Foi a um boticario que havia ali perto e the pediu um remédio para seu senhor, dizendo que ele estava passando muito mal. Na manha seguinte, vol- tou € disse ao boticario que o estado de seu dono piorara e que necessitava de um remédio capaz de trazer a vida um moribundo. Naquele mesmo dia, Ali Baba e sua cunhada anunciaram aos amigos e conhecidos que Cassim havia morrido, marcando o enterro para o dia seguinte. Enquanto isso, Morgiana procurou um sapateiro, muito velho, que era © primeiro a abrir sua loja cada manha. Ofereceu-Ihe um moeda de ouro para fazer um trabalho especial, mas ele deveria ir até o local com os olhos vendados. Mustafa hesi- tou, mas Morgiana garantiu que nao era nada que compro- metesse sua dignidade ou sua honra e lhe prometeu outra moeda de ouro; ele concordou em segui-la. Morgiana so lhe tirou a venda quando chegaram ao quarto onde estavam as quatro partes do cadaver de Cassim, que o velho sapateiro 147 remendao costurou de modo a deixa-lo inteiro. Terminado © trabalho, ela o levou até o ponto onde o vendara, tirou- -lhe a venda e Ihe entregou mais uma moeda de ouro para que guardasse segredo do que fizera. Logo depois, 0 corpo de Cassim foi enterrado. Sua sorte funesta tornou-se um. segredo partilhado por Ali Baba e sua mulher, a vitwva, Morgiana e o sapateiro Mustafa. Enquanto isso, os quarenta ladrées voltavam a gruta nao encontravam o corpo esquartejado de Cassim. Ficou claro para eles que alguém mais sabia como entrar ali. E levara também alguns sacos de moedas de ouro. Era preciso urgentemente descobrir quem era esse ladrao. O chefe da quadrilha mostrou a seus comparsas a gravidade da situa- cdo e propés que um deles se apresentasse como voluntario para ir & cidade investigar. Mas se lhe trouxesse informagées falsas ou erradas pagaria com a vida. Apesar do risco, um deles se apresentou para realizar a tarefa e, no amanhecer do dia seguinte, chegava a cidade. A primeira loja que encon- trou aberta foi a do sapateiro Mustafa que, no lusco-fusco da aurora, j4 costurava o solado de um sapato. O ladrao admirou-se de ver um anciao com vista ainda tao boa. — O senhor ainda nao viu nada — vangloriou-se Mus- tafé. — Outro dia, com menos luz do que ha agora, costurei um defunto. — Um defunto? — interessou-se 0 ladrao. — Talvez 0 senhor queira dizer que costurou a mortalha do defunto. — Pensa que eu estou caduco? Costurei um defunto que estava partido em quatro pedagos. O ladrao néo teve dtivida. Era o homem que procurava. POs entéo uma moeda de ouro na mao de Mustafa e Ihe pe- diu que o levasse ao lugar onde costurara o morto. Mustafa disse que nao podia fazer isso uma vez que fora levado até 14 com os olhos vendados. Mas o ladrao nao desistiu: pro- pos que fossem até o lugar onde o vendaram e, partindo de 148 one's 14, Mustafa talvez calculasse 0 ponto em que ficava a casa aonde o levaram. Mustafa nao se mostrou entusiasmado, mas 0 ladrao ofereceu-Ihe mais uma moeda de ouro, e ele concordou. De olhos vendados, Mustafa caminhou até de- terminado local e parou: — Acasa deve ficar aqui em frente — garantiu. E acertou, pois estava parado diante da casa de Cas- sim, onde agora morava Ali Baba. O ladrao entao marcou a casa com uma cruz branca na porta e voltou 4 floresta para comunicar a seus companheiros 0 bom resultado de sua investigacao. Mas logo depois que o ladrao e Mustafa se afastaram, Morgiana saiu da casa e, notando a cruz branca pintada na porta, achou que seus senhores corriam perigo. Como as portas das trés casas vizinhas eram do mesmo feitio que a da sua, conseguiu tinta branca e pintou uma cruz semelhante em cada uma delas. Mas nada contou a Ali Baba nem as suas esposas. ladro logo ao penetrar na floresta encontrou seus companheiros e Ihes deu a boa nova: descobrira a casa do homem que procuravam. Todos ficaram muito contentes € 0 chefe logo ditou as providéncias a tomar: nao tinham tempo a perder, rumariam imediatamente para a cidade e ali entrariam de modo a nao despertar suspeitas. Disse como deveriam agir e partiram ao encalco de Ali Baba. Mas, quando chegaram em frente a casa assinalada antes, o ladrao que a marcara mostrou-se confuso, uma vez que agora, em vez de uma porta com a cruz branca, havia quatro. O chefe da quadrilha ficou furioso e mandou que todos voltassem para a floresta, uma vez que a viagem que fizeram até ali tinha sido inutil. O ladrao responsavel pela informagao equivocada foi considerado culpado e morto Apés um apelo do chefe, alertando para o fato de que tudo 0 que roubaram durante anos a fio corria perigo, outro voluntario se apresentou e, de imediato, partiu para a cida- 144 palavras e atos da vez anterior. De novo parou em frente & casa do falecido Cassim, dizendo ter sido ali que costurara o morto. Para evitar que ocorresse desta vez 0 que ocorrera antes, o ladrao preferiu fazer uma marca vermelha bem discreta na porta da casa. Feito isso, foi ao encontro da quadrilha. Sucede que, de novo, Morgiana notou o sinal e de novo repetiu nas casas vizinhas o que fizera antes. Desse modo, quando os ladrées chegaram ali em frente, outra vez se sen- tiram confundidos, e o responsavel pela confusdo também foi executado. Em face dos dois fracassos, 0 chefe da quadrilha de- cidiu ele mesmo assumir a responsabilidade de descobrir acasa do homem que lhes roubara tanto ouro. Chegando com Mustafa em frente a casa, em lugar de pintar-lhe na porta algum sinal, preferiu prestar bem atencdo nela para nao confundi-la com as outras trés. Depois disso, ramou ao encontro da quadrilha que o esperava na gruta secreta. Chegando la, expés aos comparsas 0 plano que bolara: de- veriam comprar nos povoados vizinhos dezenove mulas e trinta e oito vasilhas grandes de couro das que se usavam para transportar leo. Com essas vasilhas poriam em pra- tica seu plano. Foi assim que, compradas as vasilhas, mandou encher metade delas de 6leo e, nas outras, escondeu seus homens com suas armas. Postas as vasilhas no dorso das mulas, serviu ele de condutor para leva-las até a casa de Ali Baba. Ali chegando, chamou pelo dono da casa e pediu-lIhe que deixasse passar a noite no patio de sua casa com sua tro- pa de mulas, carregadas de sacos cheios de Gleo, que ele deveria vender ao mercado no dia seguinte. Embora 0 tivesse visto do alto da arvore, na floresta, quando o ouviu pronunciar a senha magica que fez abrir- 150 -Se a rocha, Ali Baba nao o reconheceu em seu disfarce de mercador de éleo. Por isso o acolheu em sua casa. — Sejas bem-vindo — disse ao chefe dos ladroes, — podes entrar. E enquanto o homem descarregava os sacos que trazia no dorso de suas mulas, foi até a cozinha e disse a Morgiana que preparasse um jantar e arrumasse o quarto para um héspede que acabara de chegar. Morgiana fez tudo o que seu senhor mandou. Depois de jantar, o chefe dos ladrées veio para o quarto alegando can- saco e deitou-se vestido como estava, 4 espera do momento certo para pér seu plano em pratica. Morgiana, quando foi preparar um banho quente para Ali Baba, percebeu que a lampada da cozinha esmorecia por falta de azeite. Dirigiu-se entdo ao patio para tirar um pouco de azeite das vasilhas trazidas pelo héspede. Ao aproximar-se da primeira delas, ouviu uma voz perguntar-lhe: — Ja esta na hora? Outra pessoa menos esperta que ela teria posto tudo a perder, mas Morgiana, sem se descontrolar, respondeu: — Ainda ndo. Mais tarde. Em seguida, foi de vaso em vaso, ouvindo a’ mesma pergunta e dando a mesma resposta até que, no ultimo, encontrou apenas azeite. Voltou entéo 4 cozinha, apa- nhou uma panela grande, trouxe-a até 0 patio e a encheu de azeite. Depois, levou-a de volta 4 cozinha e a pés no fogo para esquentar. Quando o azeite estava fervendo, carregou-a até 0 patio e foi despejando azeite fervendo em cada vaso, matando assim os trinta e oito ladroes que ali se escondiam. Feito isso, voltou para dentro da casa e ficou espiando pela fresta de uma janela, até que apare- ceu o chefe dos ladrées. De acordo com o que combinara, comegou a lancar pedrinhas nos vasos, mas seus compar- sas ndo se moviam. Sem entender 0 que se passava, foi 151 sentiu um cheiro forte de fritura: o homem estava morto. Assustado, foi aos outros vasos e verificou a mesma coisa. Entao, tomado de panico afastou-se dali, trepou no muro do patio e fugiu. Ali Baba, quando acordou e encontrou ainda no patio os vasos de dleo do héspede, nao entendeu nada e foi per- guntar a Morgiana se ela sabia do mercador. — Ele é tao mercador quanto eu — respondeu ela. E contou-lhe o que tinha se passado durante a noite e como o tal mercador havia fugido pulando o muro do patio. ‘Ali Baba ficou muito agradecido a Morgiana e prome- teu-lhe recompensé-la por sua lealdade e eficiéncia. Mas, naquele momento, era preciso desfazer-se daqueles corpos a fim de que ninguém soubesse o que se passara ali aque- la noite. E assim, com a ajuda de Abdala, seu escravo de confianga, cavou uma cova funda e extensa no jardim da casa e nela depositou os corpos dos trinta e oito ladrées. Em seguida, ocultou cuidadosamente os potes de dleo ¢ as armas dos defuntos. Quanto as trinta e oito mulas, as mandou que fossem vendidas, aos poucos, por seu escravo Abdala. Enquanto Ali Baba tomava essas providéncias para evitar que 0 povo soubesse de que modo se tornara rico, 0 chefe dos ladrées voltara a sua gruta na fioresta a fim de ali curar-se da derrota sofrida e descobrir um modo de vingar- -se de Ali Baba. Passou a noite imaginando e, ao acordar de manh, tratou de pér em pratica seu novo plano. Foi até a cidade e alugou uma tenda, para onde levou aos poucos uma grande quantidade de tapetes e de finos tecidos que pos ali a venda. Adotou o nome de Cogia Hussen e tratou de relacionar-se com os demais comerciantes da vizinhanga, entre os quais estava o filho de Ali Baba, que agora traba- 182. Ihava na loja que fora de Cassim. O interesse do chefe dos ladrées por se tornar amigo do jovem mercador cresceu quando o viu junto com Ali Baba, que fora loja visita-lo. Tratou de conquistar-Ihe a amizade, dando-lhe presentes e convidando-o para comer. Ojovem, encantado com as gentilezas de Hussen, disse a Ali Baba que gostaria de Ihe apresentar seu novo amigo. O pai entao sugeriu que 0 convidasse para passear e ao final do passeio o trouxesse para cear em sua casa. Foi 0 que ele fez; mas, ao chegar a porta, Hussen hesitou em en- trar, s6 0 fazendo porque ja um escravo a abrira e ele nao encontrou desculpa para recusar 0 convite. Como estivesse com 0 rosto coberto, Ali Baba ndo 0 reconheceu quando o filho os apresentou. Ali Baba mostrou-lhe sua residéncia e finalmente convidou-o para cear. Hussen agradeceu a gentileza, mas lhe disse que nao podia aceitar o convite, 183 BAe uma vez que néo comia nem carne nem peixe nem legumes temperados com sal. —Nao seré por isso que me privareis do prazer de comer em vossa companhia — respondeu Ali Baba. — Ordenarei que se faca a comida sem nenhum sal. Em seguida, foi até a cozinha e disse a Morgiana como devia preparar a comida. — Que homem dificil é esse, que no come nada com sal? —E um homem muito simpatico e amigo de meu filho, a quem devemos tratar com toda a cortesia — respondeu Ali Baba. Morgiana obedeceu, ainda que a contragosto. Mas foi até a sala de jantar espia-lo e logo reconheceu nele 0 falso mercador de éleo, observando também que trazia um punhal escondido sob as vestes. “Nao me admira — pensou ela — que esse celerado nao queira comer sal em companhia de meu senhor. Ele é seu mais feroz inimigo e veio aqui para assassina-lo. Mas, isso, nao vou deixar que ele faca.” Sem nada dizer, Morgiana preparou o jantar, que foi servido por Abdala. O falso Hussen, na verdade o chefe dos quarenta ladrées, enquanto comia tramava o modo como iria dar cabo de Ali Baba. Imaginava que, findo 0 jantar, Ali Baba e o filho estariam sonolentos do vinho que bebiam e os seus servicais teriam ido dormir. Esse seria o momento propicio para apunhala-lo e fugir. Mas, para sua surpresa, antes que o jantar termi- nasse, Morgiana surgiu na sala vestida de odalisca, en- quanto Abdala comegou a tocar o pandeiro para que ela dangasse. Ali Baba alegrou-se com a iniciativa da escrava e chamou a atencdo do visitante para a beleza da moca e suas virtudes de dancarina. Hussen viu que seu plano ia por Agua abaixo mas consolou-se dizendo a si mesmo 154 qu OF gc ac q < nam eo 8 oe wo que, tendo ganho a confianga de Ali Baba, nao lhe faltaria oportunidade para mata-lo. Mal sabia que essa oportunidade jamais chegaria, pois Morgiana sacou um punhal que trazia consigo e, com um golpe certeiro no coragao, deu-lhe cabo da vida. Ali Baba e © filo ficaram horrorizados. — Desgracada — gritou ele para Morgiana, — queres acabar com minha familia? — Nao — respondeu ela, — quero salva-la. E, abrindo as vestes do falso Hussen, mostrou o punhal que ele trazia escondido nelas — Olhai bem para as feigdes dele — disse ela a Ali Baba. — Trata-se do chefe dos ladrées que se disfargou de mercador para vos matar, meu amado senhor! — E verdade! — exclamou Ali Baba. — Mais uma vez salvaste-me a vida, Para demonstrar minha gratidao, fago- -te minha nora, dando-te como esposo meu filho. E estou certo que ele se alegrara com isto. O filho, longe de mostrar-se descontente, declarou-se feliz de ter Morgiana como esposa. No dia seguinte, no maior segredo, o corpo do chefe dos ladrées foi sepultado na mesma cova em que jaziam seus comparsas. Ena semana seguinte celebrava-se 0 casamento do filho de Ali Baba com Morgiana, comemorado com uma vasto banquete, dancas, festas e jogos. Ali Baba ndo voltou logo a gruta dos ladrées, uma vez que eles eram quarenta e ele sé sepultara trinta e oito; imaginava que os outros dois ainda estavam vivos. Mas, passado um ano, como nada ocorreu que o preocupasse, decidiu voltar la. Postou-se em frente 4 rocha e disse a senha magica: “Abre-te, Sésamo!” A porta se abriu, ele entrou ¢ la estava intacta toda a riqueza que os ladrées acumularam por décadas e décadas. Encheu uma maleta de moedas de ouro e voltou com ela para casa. 45S 2 Depois de Ali Baba, seu filho, a quem ele ensinara 0 segredo de como entrar na rocha, e os filhos de seu filho, todos viveram, sem ostentacdo para nao dar na vista, da riqueza acumulada pelos quarenta ladrées. 156 oonouss mit SA we +