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GEORGE LAKOFF MARK JOHNSON tradugio GRUPO DE FSTUDOS DA INDETERMINAGAO E DA METAFORA (GEIM) sob coordenagio de Mara Sophia Zanotto € pela tradutora Vera Malt METAFORAS DA VIDA COTIDIANA AIRCIDO edue A LETRAS 1. EITOS DA VIDA COTIDIANA A metéfora & para a maioria das pessoas, um recurso da imaginagio poética € um ornamento retérico — é mais uma questio de linguagem extraordingria do que de linguagem ordinaria, Mais do que isso, a metifora éusualmente vista como uma caracteristica restrita linguagem, uma questio mais de palavras do que de pensamento ou agio, Por essa razio, a maioria das pessoas acha que pode viver perfeitamente bem sem a metifora, Nés descobrimos, a0 contritio, que a metifora est infiltrada na vida cotidiana, io somente na linguagem, mas também no pensamento ¢ na acio. Nosso sistema conceptual ordinario, em termos do qual nao s6 pensamos mas também agimos, é fundamentalmente metafSrico por natureza, Os conceitas que governam nosso pensamento nio sia metas ques- (Ges do intelecto, Bles governam também a nossa atividade cotidiana até nos detalhes mais triviais. Hles estruturam © que percebemos, a maneira como os comportamos no mundo ¢ 0 modo como nos relacionamos com outras 45 pessoas. Tal sistema conceptual desempenha, portanto, um papel central na definigio de nossa realidade cotidiana. Se estivermos certos, a0 sugerir que esse sistema conceptual éem grande parte metaférico, entio omodo como pensamos, © que experienciamos ec que fazemos todos os dias sio uma questio de metafora, Mas nosso sistema conceptval nao é algo do qual normalmente temos. consciéncia, Na maioria dos pequenos atos da nossa vida cotidiana, pensamos agimos mais ou menos automaticamente, seguindo certas inhas deconduta, que niio se deixam apreender facilmente. Um dos meios de descobri-las é considerar a linguagem. Jé que a comunicacio é baseada no mesmo sistema conceptual que usamos para pensar € agir, a linguagem é uma fonte de evidéncia importante de como esse sistema, Baseando-nos, principalmente, na evidéncia lingifstica, constatamos que sumaior parte de nosso sistema conceptual ordinatio é de natureza metaférica. F encontramos um modo de comegar a identificar em detalhes quais sio as ‘metiforas que estruturam nossa maneita de perceber, de pensar e de agi, Para dar uma idéia de como um conceito pode ser metafdrico ¢ estruturar uma ativi ile cotidiana, comecemos pelo conceito DISCUSSAO pela metifora conceptual DI CUSSAU 5 GUERRA. Essa metifora esti presente em nossa linguagem cotidiana numa grande vatiedade de expressdes: DISC |AO GUERRA Seus argumentos si indefensiveis. (Your claims are indefensible) le atacou todos os pontos fracos da minha argumentagao, (He attacked every weak point in my argument.) Suas 3s foram direto ao alvo. (His evtcisms were right on target) Destrut sua argumentago. (I demolished his argument) Jamais ganhei uma discussio com ele. ("ve never won an argument with him.) ‘Vocé no concordat? Ok, atire!/ Ok, atague! (You disagree? Okay, shoot!) Se voce usar ess esratéia cle vai esmgd. (Ifyou use that strategy, he'll wipe you ot) Ble derrubot todos 0s meus argumentos (He shot down all of my arguments.) E importante perceber que nio somente falanos sobre discussio em termos de guetra. Podemos tealmente ganhar ou perder uma discussio. Vemos as pessoas com quem discutimos como um adversitio. Atacamos suas posigdes ¢ defendemos as nossas. Ganhamos ¢ perdemos terreno. Plangjamos © usamos cstratégias. Se achamos uma posigio indefensivel, podemos abandoné-la e colocar-nos numa linha de ataque. Muitas das coisas que fagenos numa discussio sto parcialmente estruturadas pelo conceito de guerra, Embora no haja batalha fisica h4 uma batalha verbal, que se reflete a estrutura de uma discus nesse us > — ataque, defesa, contra-ataque ete. sentido que DISC © GUERRA é uma metifora que vivemos na nossa culeura; cla estrutura as ages que realizamos numa discussio. ‘Tentemos imaginar uma cultura em que as discusses niio sejam vistas em termos de guerra, em que nfo haja ganhadores nem perdedores, em que atacar ou defender, ganhar ou perder terreno nfio tenham nenhuma signi fio seja vista como uma danga, cago, Imagine uma cultura em que uma dise «em que 0s participantes sejam vistos como dlangarinos ¢ em que o objetivo seja realizar uma danga de um modo equilibrado e esteticamente agradivel Nessa cultura, as pessoas perceberiam as discusses de outta maneira, expetienciariam as discusses diferentemente, teriam desempenhos diversos ¢ falatiam delas de um modo diferente, Mas nés, provavelmente, no considerariamos essa atividade umediscussio: as pessoas estariam simples mente fazendo algo diferente. Pareceria até estranho chamar 0 que elas estariam fazendo de “discussio”, Talvez 0 modo mais acutro de deserever essa diferenga entre essa cultura ¢ a nossa fosse dizer que temos uma forma em termos de danga. de discurso estruturada em termos de batalha e el E conceito metafdrico, neste caso, DISCUSSAO GUERRA, estrutura (pelo se é um exemplo do que queremos dizer quando afitmamos que um menos parcialmente) 0 que fazemos quando discutimos, assim como a Ianeira pela qual compreendemos o que fazemos. A essénia la metfora é compreender e experieniar uma coisa em termos de outra, As discussdes nto so subespécies de guerra. Discussdes © guetras so coisas completamente diferentes — discurso verbal e conflito armado ~ ¢ as ages correspondentes sio igualmente diferentes. Mas DISCUSSAO é parcialmente estruturada, com- preendida, realizada ¢ tratada em termos de GUERRA. O conceit é metafo- ricamente estruturado, a atividade é metaforicamente estruturada ¢ em conseqiiéncia, a linguagem é metaforicamente estruturada, Além disso, falar sobre ela, Nossa maneira normal de falar sobre 0 fato de atacar uma posi de falar sobre discusses pressup3e uma metifora da qual raramente temos a maneira ondindria de vivenciar uma discussio e de io é usar as palaveas “atacar uma posicio”, Nossa maneira convencional cia. A metifora nio esti meramente nas palavras que 108 ~ est 0 préptio conceito de discussio,{A linguagem da discussio nao é poética, omamental ou retérica; é literal. Falamos sobre discussio dessa maneira Porque a concebemos assim — ¢ agimos de acorde com 0 modo como concebemos as coisas, A afirmagio mais importante que fizemos até aqui é que a metifora ‘io é somente uma questio de linguagem, isto é, de meras palavras. Argu- mentaremos que, pelo contritio, os provessos do penamento sio em grande parte metafdricos. Isso € 0 que queremos dizer quando afimamos que o sistema conceptual humano é metaforicamente estruturado e definido. As metiforas como expresses lingtisticas sto possiveis precisamente por existirem meti- foras no sistema conceptual de cada um de nés. Assim, quando, neste livro, falarmos sobre metéforas, tais como DISCUSSAO E GUERRA, deveri ser entendido yu metéjora significa concito metafirico. 2. A SISTEMATICIDADE DOS PAFORICOS CONCEITOS M1 s isto &, ha certas coisas que Discussdes normalmente seguem padres 1nés usualmente fazemos quando discutimos e outras que no fazemos. O fato de que, pelo menos em parte, conceptualizamos sistematicamente discusses em termos de batalha influencia tanto a forma que as discusses tomam, quanto a maneira como falamos sobre 0 que fazemos quando discutimos. Porque 0 conceito metafirico ¢ sistemitico,a linguagem usada para falarmos sobre aquele aspecto do conceito € sistemitica Vimos, por meio da metifora DISCUSSAO Ti GUERRA, que expres ses provenientes do vocabulirio de guerra, como, por exemplo, atacar ama posigin, indefensével, estratégia, nova fina de arague, vencer; ganbar terreno ec., formam uma maneita sistemyitica de expressar os aspectos bélicos do ato dle discutit. Nao é por acaso que tais expresses significam o que significam quando as usamos para falarmos sobre a discussio. Uma parcela da rede 9 conceptual de guerra caracteriza parcialmente o conceito de discussii iovea lingua segue essa caracterizacio. Uma vez que expressdes metaféricas em nossa lingua io ligadas a conceitos metaféricos de uma maneia sistem’ tica, podemos usar expresses metaféricas linglifsticas para estudat a natureza de conceitos metaféricos e, dessa forma, compreender a natureza metaforica de nossas atividades. Pata se ter uma idéia de como expresses metaféricas na linguagem cotidiana podem iluminar a natureza metaférica dos conceitos que estru- turam nossas atividades cotidianas, examinemos como 0 conceito TEMPO EDINHEIRO manifesta-s no inglés contemporiineo ‘TEMPO E DINHEIRO Voot esti despertigando meu tempo. Voeé esti me fazendo perder tempo. (You are wasting my time.) Esta coisa (engenhoss) vai te poupar horas (This gadget will save you hous.) Eu ni renho tempo para te ar, / Eu no tenho tempo para voc. (I don’t have the time togive you.) Coma voo’ gasta seu tempo hojeem dia, Como vacé usa o seu tempo hoje em dia? (How «do you spend your time these days?) ‘Aquele pneu araco me cusiow uma hora, / Aquele pneu furado me tomou us hora. (That ‘at tie cous me an hour.) ‘Tenho investido muito tempo nela (U've invested alot of time in her.) Eu no reno tempo para perder so, (don't have enough time to spare with tis) seu tempo esti se exgouando, (You're running out of time.) ‘oe’ deve calcular bem 0 seu tempo. Vo deve eaminstrar bem o seu tempo, (You need to budget your time.) ‘Reserve algum tempo para o pingue- pongue. (Put aside some time for ping por.) Isso vale o seu tempo?! Isso vale a pena? (Is that worth you while?) ‘oot tem muito tempo disponivel? (Do you have much time lf?) Ele esti vivendo com tempo empresiado. | Ele esti vivendo de gorjeta (He's living on borrowed time.) Veet mio usa seu tempo lucrativamente/ Voe8 nfo aproveita bem o seu tempo, (You ‘don’t use your time profitably.) Eu perdi muito tempo quando fiquei doente (I lst a Tot of time when I go sick.) ‘Obrigado pelo sea tempo.! Obrigado pelo tempo dispensado. (Thankyou for yous time.) ‘Tempo em nossa cultura é um bem valioso. E um recurso limitado, que usamos para aleangar nossos objetivos. Devido 4 forma pela qual 0 conceito de trabalho se desenvolveu na cultura ocidental moderna, em que © trabalho é normalmente associndo ao tempo que toma, ¢ ele & quantifi- cado com precisio, tornou-se habito pagar as pessoas pela hora, semana, més ou ano, Em nossa cultura, TEMPO E, DINHEIRO de muitas formas: uunidades de chamadas telefonicas, pagamento por hora, taxas diftias de hotel, orgamentos anuais, juros sobre empréstimos e pagamento de divida para com a sociedade através do “tempo de servigo”, Essas priticas sio relativamente novas na histétia da humanidade € no existem em todas as culeuras. Elas surgiram nas modernas sociedades industrializadas ¢ estrn- cr \s atividades cotidianas basicas. Pelo fato de que un profundamente nos’ ‘agimos como se 0 tempo Fosse um bem valioso — um recurso limitado, como © dinheito — nés © concebenms dessa forma, Logo, compreendemos ¢ experienciamos 0 tempo como algo que pode ser gasto, desperdicado, orgado, bem ou mal investido, poupado ou liquidado. ‘TEMPO E DINHEIRO, TEMPO E. UM RECURSO LIMITADO e TEMPO E, UM BEM VALIOSO sio todos conceitos metaféricos. Eles so metaforicos uma vez que estamos usando nossas experiéncias cotidianas com dinheiro, com recursos limitados e bens valiosos para conceptualizar 0 tempo. Essa maneita de conceber o tempo nio se impde de forma alguma como uma 51 necessidade a todos os seres humanos; ela esta ligada 4 nossa cultura. Ha culturas em que o tempo niio é pensado desse modo. Os conceitos metaféricos TEMPO E. DINHEIRO, TEMPO Ff UM RE- CURSO € TEMPO I UM BEM VALIOSO formam um iinico sistema baseado em subcategorizagio, uma vez, que, na nossa sociedade, o dinheiro é um recurso limitado, e recursos limitados sio bens valiosos, Essas relagdes de subcategotizagio caracterizam relagdes de implicagio entre as metiforas. ‘TEMPO E: DINHEIRO implica TEMPO E UM RECURSO LIMITADO, que, pot sua vez, implica TEMPO E UM BEM VALIOSO. Estamos adotando a pritica de usar 0 conceito metaférico mais especifico, neste caso, TEMPO E DINHEIRO, para caractetizar o sistema como um todo. Entre as expresses listadas acima, referentes i metifora ‘TEMPO E:,DINHEIRO, algumas se referem especificamente a dinheiro (gastar, investi, oar, cra, eustar), outras a recursos limitados (usar, esgata; ter suficiente de, usar tudo), © outtas ainda a bens valiosos (ser, dar, perder, agradecer (o bem recebide). Esse é um exemplo de como as implicagdes metaféricas podem caracterizar um sistema coerente de conceitos metafSticos e um sistema cocrente de expresses metaféricas correspondente a esses conceitos. 3, A SISTEMATICIDADE METAFORICA REALCANDO E ENCOBRINDO [A propria sistematicidade que nos permite compreender um aspecto de um conceito em termos de outro (por exemplo, compreender um aspecto de “discutir” em termos de “combate”) necessariamente encobriri ‘outros aspectos desse conceito, Ao nos permitir focalizar um aspect determinado de um conceito (por exemplo, os aspectos bélicos de uma discussio), um conceito metaférico pode nos impedix de focalizar outros aspectos desse mesmo conceito que sejam inconsistentes com essa meti- fora. Por exemplo, no meio de uma discussio calorosa, na qual estamos engajados no propésito de atacar a posigio de nosso oponente € de lefender a nossa, podemos perder de vista os aspectos cooperativos da discussio, Alguém que esteja discutindo com vocé pode ser visto como aqucle que esteja Ihe oferecendo o seu tempo, um bem valioso, em um esforco para conseguir compreensiio mitua, Mas, quando estamos preo~ i cupados com os aspectos “bélicos” de uma discussio, freqiientemente perdemos de vista os seus aspectos cooperativos. Um caso bem mais sutil de como um conceito metafético pode esconder um aspecto de nossa experiéncia pode ser observado no que Michael Reddy chamou de “metifora da canal” (conduit metaphor). Reddy observa que a nossa linguagem sobre a linguagem é, grosso modo, estru- turada pela seguinte metifora complexa: IDEIAS (OU SIGNIFICADOS) SAO OBIETOS EXPRESSOES LINGUISTICAS SAO RECIPIENTES COMUNICAGAO E ENVIAR © fiilante coloca idéias (objetos) dentro de palavras (ecipientes) eas envia (através de um canal) para um ouvinte que retica as idéias-objetos das palavras-recipientes, Reddy documenta essa metéfora com mais de cem tipos de expresses em Inglés, as quais representariam, segundo 0 autor, 70% das expresses que usamos para falar sobre a linguagem. Eis alguns ‘exemplos da metifora do CANAL: E dificil passaraqueta iia para ee. (t's had to get that idea aeross to him.) Eu the dei aquetaidéia, (1 gave you that idea.) ‘Suas razdes chegaram até n6s, (Your reasons came through 10 us.) E lfc por minhas ideas em palavras. (t's difficult vo pur my ideas into words.) ‘Quando voe® river uma bos idea, tente captur-laimediatamente em palavras. Quando ‘yoo tiver uma boa ida, temte colocd-laimediatamente em palavras. (When you have a ood idea try to caprure i immediately jn words.) ‘entecolocar mais idéias em menos plavras. (Try to pack moce thoughts ino fewer words) ‘Voeé simplesmente nto pode reciear uma frase com idéias de qualquer manera. (You ‘can't simply snuff ideas into a sentence any ol way.) (© significado esta bem ali nas palavras. (The meaning is tight therein the words.) [Nao force (coloque) suns idias em palavraserradss.(Don'tforce your meanings ito the wrong words.) Suas palaveas razem pouco significado, (His words carry litle meaning.) A introdugdo contén muitas ids. he introduction has& great deal of thought content.) Suas palavras parecem vazias. (Your words seem hollow.) A frase est sem sentido, (The sentence is without meaning.) A idéia est enterrade em parigrafos tetivelmente densos, (The idea is buried in eribly ddense paragraphs.) Em exemplos como esses, € bem mais dificil ver que ha algo encoberto pela metéfora, ou até mesmo perceber a propria existéncia da metifora, Essa é a maneira tio convencionalizada de se pensar sobre a linguagem que fica dificil imaginar que esse modo de pensar possa nio corresponder A realidade. Mas, se olharmos implicagées da metifora do canal, poderemos compreender algumas das formas por meio das quais ela mascara aspectos do proceso comunicativo. Em primeiro lugar, uma das partes da metifora do canal, isto é, f ; LINGUISTICAS SAO RECIPIE EXPRI TES DE SIGNIPICADOS , implica que palavras € sentencas tenham significado em si mesmas, independentemente de qualquer contexto ou falante, Um outro aspec- to dessa metafora, ou seja, SIG IFICADOS SAO OBJETOS, implica que significados tenham uma existéncia independente de pessoas € con- OES LINGUISTICAS SAO REC PRESS textos. A parte da metéfora F PIENTES DESIGNIFICADOS implica que palavras (¢ sentengas) tenham Significados também independentes de contextos ¢ falantes. metiforas sio adequadas em muitas situagdes — aquelas, por exemplo, em que as diferencas contextuais so irrelevantes ¢ em que os parti- cipantes compreendem as sentengas da mesma maneira. Essas duas impli- ages podem ser ilustradas por sentengas como Pr ( significado esté bem ali nas palaras, (The meaning is right there inthe words.) as quais, de acordo com a metifora do canal, podem ser corretamente ditas em relagio a qualquer sentenga. Mas hi muitos casos em que 0 contexto é realmente importante, como o exemplo clissico gravado por Pamela Dowaning, setirado de uma conversa real: Por favor, sente-se no lugar do suco de maei. (tease sit inthe apple juice seat.) Isoladamente, essa frase nfio tem qualquer sentido, ja quea expresso “lugar do suco de maga” nfo é uma forma convencional de se referir a qualquer tipo de objeto. Mas a frase faz claramente sentido no contexto no qual ela foi enunciada: um héspede veio tomar o café da manhi, Havia quatro lugares arrumados na mesa : t#és com suco de laranja e um com suco de maga. Era dbvio qual era a “‘cadeira do suco de magi”. E até mesmo na manhii seguinte, quando nao havia mais nenhum suco de magi, ainda era bastante claro qual cadeira era a “cadeira do suco de magi”. Alem dessas frases que no tém sentido fora do contexto, ha casos em que uma mesma frase ter significados diferentes para pessoas diferen- tes, Considere 0 exemplo: Procisamos de novas Fontes alterativas de energia, (We need new altemative sources of energy.) Essa frase tem uma sigaificacio muito diferente para o presidente da Mobil Oil c para o presidente da Friends of The Earth. O significado nfo esta “bem aliina sentenga” ~ ele depende muito de quem fala ou ouve a frase, como também de suas posigdes politicas e sociais. A metifora do canal nio 56 se aplica a casos nos quais 0 contexto € necessirio para determinar se a frase tem ou no significado e, se tiver, que significado ela tem. ses exemplos mostram que 0s conceitos metaféricos aqui discutidos nos fornecem uma compreensio parcial do que sto comunicagio, discus: € tempo e, a0 fazer isso, cles encobrem outros aspectos desses conceitos. Fi importante notar que a estruturacio metaforica aqui envolvida € apenas parcial e nfo total. Se fosse total, um conceito seria, de fato, 0 outro € nao simplesmente entendido em termos do outro. Por exemplo, o tempo real- mente nio é dinheiro. Se wa! gasta o sen tempo tentando fazer algo conseguiclo, vocé no pode ter o seu tempo de volta. Nao ha bancos de tempo. Eu posso Ihe dar muito do men temps, mas vocé nio pode me dar de volta o mesmo tempo, embora wort possa me devvler mesma quantidade de ‘ompo. B assim por diante. Logo, parte do conceito metaférico nfo se aplica. Por outro lado, conceitos metaféricos podem ser estendidos para além do dominio das formas literais ordinarias de se pensar e de se falar, passando-se para o dominio do que se chama de per samento ¢ linguagem figurados, poéticos, coloridos ou fantasiosos. Assim, se idéias si objetos, podemos restive com roupus sfistioadas, manuscé-has, ondeni-las bem dircitinho ete. Dessa forma, quando dizemos que um conceito é estruturado por uma metafora, queremos dizer que ele é parcialmente estruturado e que ele pode ser expandido de algumas maneiras € no de outras. 7 12, QUAL EA BASE FORMADORA DO NOSSO SISTEMA CONCEPTUAL? Argumentamos que a maior parte do nosso sistema conceptual & metaforicamente estraturado, isto é, que os conceitos, na sua maioria, sio patcialmente compreendidos em termos de outros conccitos. Isso levanta uma questo importante sobre os fundamentos do nosso sistema concep- tual, Afinal, ha algam conceito que possamos compreender diretamente sem recorrermos a0 processo metaférico? Se nfio hé, como podemos compreender as coisas em geral? Os primeitos candidatos a conceitos que sio compreendidos direta- mente sio os conceitos espaciais simples, tal como, PARA CIMA, que emerge de nossa experiéncia espacial. Temos corpos e ficamos em pé. Quase todo movimento que fazemos envolve um programa motor que muda nossa orientagio para cima-para baixo, preservando-a, pressupondo-a, ou, de alguma forma, levando-a em conta. Nossa constante atividade fisica no mundo, até mesmo enquanto dormimos, torna a orientagio para cima-para A) baixo no apenas relevante a atividade fisica, mas centralmente relevante, A centralidade da orientagio para cima-para baixo nos nossos programas motores ¢ em nosso funcionamento difrio faz pensar que nao ha outra alternativa para esse conceito orientacional. Objetivamente falando, no entanto, h muitos outros quadros possiveis para a otientacio espacial, Jncluindo coordenadas cartesianas que em si nfo tém orientagio pata cima-para baixo, Entretanto, conceitos espaciais humanos incluem PARA CIMA-PARA BAIXO, FRENTE-ATRAS, DENTRO-FORA, PERTO-LONG Bete, Bsses conccitos sio relevantes para 0 nosso continuo e freqiiente funcio- namento corporal, , para nés, isso Ihes confere priotidade em relacio a outra possivel estruturacio do espago. Em outras palavras, a estrutura dos ‘nossos conceitos espacinis emerge da nossa constante experiéncia espacial isto é da nossa interagio com o ambiente fisico. Conceitos que emergem dessa mancira so conceitos que vivemos da maneira mais fundamental, Assim, 0 conceito PARA CIMA no é puramente compreendido em seus proprios termos, mas emerge do conjunto de fungdes motoras cons- tantemente realizadas, resultantes da posigio ereta em telagio a0 campo sravitacional em que vivemos. Imaginemos um ser esfético vivendo fora de qualquer campo gravitacional, sem nenhum conhecimento ou imagina- s#0 de qualquer outro tipo de experiéncia. © que poderia PARA CIMA Significar para tal er? A resposta para essa pergunta dependeria no apenas da fisiologia desse ser esférico, mas também de sua cultura, { Em outras palavras, o que chamamos de “experiéncia fisica diceta” Ao ¢ jamais uma questo de possuir um corpo de um determinado tipo; € | tima questio de tada experiéncia acontecer dentro de uma vasta bagagem } de pressuposigdes culturais. Dai, pode ser equivocado falarmos em expe- | rigncia fisica direta como se houvesse um conjunto central de experiéncias 128 imediatas que nés cntio “interpretarfamos” cm termos de nosso sistema / conceptual. Suposigdes, valores ¢ atitudes culturais nao sio conceitos que acrescentamos & experiéncia. Seria mais correto dizer que toda a nossa | experiéncia é totalmente cultural e que experienciamos 0 “mundo” de tal maneira que nossa cultura jé esta presente na experiéncia em si. No entanto, mesmo se pregarmos que toda experiéncia envolve pressuposigdes culturais, podemos ainda estabelecer importante distingio entre experiéncias que sfio “mais” fisicas, tis como, ficar em pé, e aquelas que sio “mais” culturais, tais como, participar de uma ceriménia de casamento. Neste capitulo, quando tratarmos de experiéncia “fisica” versus experiéncia “cultural”, é nesse sentido que estaremos usando os termos. Alguns dos conceitos centrais em termos dos quais nossos corpos 1 funcionam — PARA CIMA-PARA BAIXO, DENTRO-FORA, FRENTE-ATRAS, LUMINOSO-SOMBRIO, QUENTE-FRIO, MACHO-FEMEA ete sio definidos | ! de maneira mais clara que outros. Mesmo que nossa experiéncia emocional seja tio fundamental quanto a nossa experiéncia espacial e perceptiva, nossas experiéncias emocionais so muito menos claramente deseritas em termos do que fazemos com nossos corpos. Embora uma estrutura con- ceptual claramente delinenda para espago venha do. nosso funcionamento motor-perceptivo, nenhuma estrutura conceptual claramente delineada para as emogGes vem exclusivamente do nosso funcionamento emocional. ‘Uma vez que ha correlagdes sisteméticas entre nossas emogdes (tais como felicidade) e nossas experiéncias sensoriais e motoras (tais como postura ereta), elas formam a base dos conceitos metaféricos orientacionais (tais ‘como FELIZ PARA CIMA). Essas metéforas permitem-nos conceptualizar nossas emogdes em termos mais exatos, mais claros ¢ também relacioné-las com outros conceitos que dizem respeito a bem estar geral (por exemplo: 129 ¢ T : \ SAUDE, VIDA, CONTROL * etc,). Nesse sentido, podemos falar em metiforas ‘emergentes © ern conceites emergenie. A im, OS conceitos OBJETO, SUBSTANCIA ¢ RECIPIENTE sio dire- esi: Smergentes. Experienciamos a nés mesmos como entidades sepa- | tadas do resto do mundo — cama recipientes com um lado de dentro ¢ um | Indo de fora, Experienciamos também coisas externas ands como entidades ~ freqiientemente também como teeipientes com lados de dentro ede fora, Expetienciamos 1 nds mesmos como sendo feitos de substincias —isto & ame € 0880 ~ ¢ objetos externos como sendo feitos de vitios tipos de Substincias— madeira, pedra, metal etc. Expetienciamos muitas coisas, por meio da visio edo tato, como tendo fronteiras definidase, quando as eoiyas fio tém fronteiras definidas, freqtientemente projetamos fronteiras nelas 1 Por exemplo, florestas, clateiras, nuvens etc.) Como no caso de metiforas orientacionais, metiforas ontolégicas bisicas fundamentam-se em correlagdes sistemiticas no campo de nos as ©Periéncias. Como vimos, por exemplo, a metéfora CAMPO VISUAL UM RECIPIENT fandamenta-se na correlagio entre o que veios e um espaco fisico definido por fronteiras. A metifora TEMPO ff UM OB)ETO EM MOVIMENTO fundamenta-se na correlagio entre um objeto movendo-se em direcao a nés e 0 tempo que leva para nos ale ‘car. A mesma cottelacio Serve de base para a metifora TEMPO UM RECIPIENTE (como em “Ele realizoua tare en dez minutos"), em que o esparo, definido por ronteitas Eattavessado pelo objeto, écorrelacionado ao tempo quc objeto leva para atravessi-lo, Eventos ¢ agGes sio correlacionados com petiodos de tempo Alelimitados por fronteiras ¢ isso os torna OBJETOS RECIPIENTES, A experiéncia com objetos fisicos fornece a base para a metonimia, O8 conceitos metonimicos emergem de corsclages em nossa experiéncia 1% ~~ entre duas entidades fisicas (isto 6, PARTE PELO TODO, O8JETO PELO VARIO), ou entre uma entidade fisiea e algo metaforicamente concep- tualizado como uma entidade fisica (isto é, LUGAR PELO EVENTO, INSTI- SPONSAVEL). SOA ‘TUICAO PELA Pr ‘Yalvez 0 mais importante a enfatizar sobre a fundamentacio de conceitos incio entre uma experiéncia © a mancira como a Et lo qu iéncia fisica seja, de conceptualizamos, Nao estamos afirmando que a experién i cja a di algum modo, mais bisica que outros tipos de experiéncia, quer emocional, ‘mental, cultural ou de outra natureza. Todas essas experiéncias podem ser tio basicas quanto as experiéncias fisicas. O que estamos afirmando sobre fund: fu de é que nds habitualmente conceprualizamos a fundamentagiv de conceitos & s ncias niio fisicas em termos de experiéncias fisicas — ou sefa, experi claramente delineado em termos de algo conceptualizamos algo que nio que é mais claramente delineado. Considere os seguintes exemplos: ary esta cozinha (Harty isthe kitchen.) Hany esté mo Elks (clube). (Harry is in the Elks.) any estéem estado de amor, Harry esti amando. (Harry isin love.) Os exemplos referem-se respectivamente a trés dominios da exp tiéncia: espacial, social e emocional. Nenhum tem prioridade sobre 0 outro o todos experiéncias igualmente basicas. em termos de experiéncia; Mas, no que se refere 4 estruturacio conceptual, hé uma diferenca. © couceity DENTRO DE do primeiro exemplo emerge diretamente da experiéncia espacial de maneia clara. Nao é uma instincia de um conceito metafrico. Os outros dois exemplos, no entanto, so instincias de con- ccitos metafoticos. O segundo é uma instincia da metifora GRUPOS SOCIAIS SAO RECIPIENTES, em termos da qual o conceito de grupo social @ estruturado. Tal metéfora permite-nos perceber 0 conceito de grupo Social com base na nogio de espago. A palavra “na/no” € o conceito. DENTRO DE sio os mesmos nos trés exemplos; nfo temos trés conceitos diferentes de DENTRO DE ou trés palavras homéfonas para expressé-lo, ‘Temos um conceito emergente DENTRO DE, uma palavra para ele, e dois conceitos uietafSricos que parcialmente definem grupos sociais e estados emocionais. O que esses casos mostram & que possivel haver tipos igualmente bisicos de experiéncias, mesmo existindo para eles conceptua- lizag6es nao igualmente bisicas. i — 13. O FUNDAMENTO DAS METAFORAS FSTRUTURAIS ‘As metéforas baseadas em conceitos fisicos simples — para cima — para baixo, dentro-fora, objeto, substincia etc. — sio fandamentais no nosso sistema conceptual ¢, sem elas, nao poderiamos viver no mundo que nos cerca: niio poderiamos raciocinar nem nos comunicar, Mas elas nfo sfio muito ricas em si mesmas. Dizer que alguma coisa é percebida como OBJETO RECIPIENTE com uma orientagio DENTRO-FORA nfo diz muito sobre tal coisa. Mas, como foi observado com a metifora MENTE I: UMA MAQUINA e com as varias metiforas de personificacio, podemos elaborar metiforas espaciais em termos muito mais especificos. Isso nos permite nao s6 elaborar um conceito (como a mente) com grande detalhamento, como também encontrar meios apropriados de salientar alguns aspectos desse conceito € obscurecer outros. Metiforas estruturais (tais como / DISCUSSAO RACIONAL I GUERRA) fornecem a mais rica fonte de tal § chboragio. As metiforas estruturais permitem-nos fazer mais do que | 133 simplesmente orientar conceitos, referitmo-nos a eles, quantificé-los etc., como fazemos com simples metiforas ontol6gicas ¢ orientacionais; soma- do a tudo isso, elas nos permitem usar um conceito detalhadamente cestruturado e delineado de maneira clara para estruturar um outro conceito. Assim como as metiforas ontoldgicas ¢ as orientacionais, as metifo- ras estruturais fundamentam-se em cortelagdes sistemsticas encontradas | em nossa experiéncia, Para compreendermos 0 que isso significa em | detalhe, examinemos a fundamentagiio da metifora DISCUSSAO RACIONAL E GUERRA. Essa metifora permite-nos conceptualizar uma discussio racional em termos de algo que compreendemos mais prontamente,a saber, um conflito fisico. A luta é encontrada em toda parte no reino animal e, de ‘maneira mais freqiiente, entre animais humanos. Os animais lutam pata obter 0 que desejam ~ alimento, sexo, territério, controle ete. ~ porque ha outros animais que desejam a mesma coisa ou que querem impedir os primeiros de obté-las. Isso vale para os humanos também; a diferenga é que nés desenvolvemos técnicas mais sofisticadas para obter o que dese- jamos, Sendo “animais racionais”, institucionalizamos nossa luta de vitias ‘maneiras, uma das quais é a guerra, Embora tenhamos, através dos tempos, institucionalizado o conflito fisico ¢ empregado nossas mentes para desen- volver meios mais efica de realizé-lo, sua estrutura basica permanece, em esséncia, a mesma, Em lutas entre dois animais brutos, cientistas tém observado priticas de intimidagio, de estabelecimento ¢ de defesa de territério, de ataque, de defesa, de contra-ataque, de recuo ¢ de rendigio, A luta humana envolve as mesmas praticas. Portanto, uma das vantagens que ha em ser um animal racional é que se pode obter o que se deseja sem tet que correr o risco de um conilito fisico real, Como resultado, nés, humanos, desenvolvemos a instituicio social da discussio verbal. Para obtermos o que desejamos, discutimos sem cessar, ¢, aS vezes, essas discusses “degeneram” em violéncia fisica. Tais batathas verbal sio compreendidas em termos muito semelhantes aos das batalhas fisic: ‘Tomemos uma discussio doméstica, por exemplo. Marido € mulher tentam obter o que cada um deseja, como, por exemplo, fazer 0 outro aceitar um determinado ponto de vista sobre um assunto, ou pelo ‘menos agit de acordo com o tal ponto de vista. Cada um compreende que tem algo a ganhar e algo a perder, um territ6rio para estabelecer e um tettitétio para defender. Numa discussio sem confronto fisico, voc’ ataca, defende, contra-ataca etc., usando os meios verbais de que voce dispoe — intimidando, ameagando, apelando a autoridade, insultando, subestiman- do, desafiando a autoridade, evitando assuntos, negociando, elogiando ¢ até tentando oferecer “raz es racionais”. Mas todas essas taticas podem set, € fregiientemente slo, apresentadas como razdes; por exemplo: Porque eu sou maior do que voes (inimidanto) porque se voce nto... eu You. (ameacando} porque eu sou 0 patro (apelanlo a aatoridade) porque voe® é tol insultando) Porque voe® geralmente fa isso errado (deprecian) ‘= Porque eu tenho tanto dieito quanto voo8 (desafianda a autoridade) porgue eu te amo (evitando wm determinado asso) porque se voc$ quiser.. eu fare... (negociando) Porque voce & muito melhor nisso (elogiando) Discusses que fazem uso de titicas como essas so as mais comuns em nos a cultura e, por serem tio freqiientes em nosso cotidiano, as vezes, iio sio percebidas. No entanto, em segmentos importantes e influentes de nossa cultura, tais titicas sio, pelo menos, em principio, objeto de desaprovagio, porque sio consideradas “ieracionais e “desleais”. Os mun- dos académico, legal, diplomético, eclesidstico © jornalistico pretendem apresentar uma forma ideal, ou “mais elevada” de DISCUSSAO RACIONAL, nna qual todas essas titicas so proibidas. As tinicas titicas permitidas nessa DISCUSSAO RACIONAL sio, em principio, o estabelecimento de premissas, a citagdo de evidéncia que sustente as premissas ¢ a geracio de conclusdes logicas. Mas, até mesmo nos casos mais ideais, em que todas essas condi- Ges sio asseguradas, DISCUSSAO RACIONAL ainda é compreendida € desenvolvida em termos de GUERRA. Ainda hé uma posicio para ser estabelecida ou defendida; vocé pode vencer ou perder; vocé tem um oponente cuja posigio vocé ataca ¢ tenta destruir ¢ cujo argumento voce tenta detrotar. Se vocé é bem sucedido, vocé o elimina, © problema é, pois, que no apenas nossa concepeio de discussio, mas também a nossa mancita de desenvolvé-la fundamentam-se em nosso lento © em nossa experiéncia de combate fisico, Mesmo que voce vida experienciado uma luta fisica, muito menos provavelmente uma guerra, vocé ainda concebe discussdes e discute de acordo com a metifora DISCUS ‘AO B GUERRA, porque tal metifora faz parte do sistema conceptual da cultura na qual vocé vive. Todas as discusses consideradas “racionais”, aquelas que se enquadram no ideal de DISCUSSAO RACIONAL, no sio apenas conccbidas em termos de guerra, ‘mas quase todas contém, de maneien subjacente, as titicas “irracionais” € “desleais” que as discussdes racionais, em sua forma ideal, nio deveriam apresentar. A seguir, alguns exemplos tipicos: 6 plausvel assumir qu itimidap to) Ctarameate, Obviamente, Seino senitiondebar de. (emeaga) ide Dizer isso seria cometer a fa Como Descartes mostrou (apelo 8 autordade) Hume observou que. Rodapé 1.374: ef, Verschlugenhelmer, 1954 Falta a0 trabalho © necessro rigor par... (insult) ‘Vamos denominar tal teoria Raconalismo “Estreito" Numa exibigdo de “objetvidade académics”.. 0 trabalho nfo leva a uma teoria formal. (depreciagio) Os seus resultados no podem ser quantificados, PPoucas pessoas hoje apoiai essa vsdo com seridade ‘Tememos sucumbir ao erro das sbordagens positivist... (desafo & autoridade) © Behaviorism levou a, Ele nko apresenta neahuma teria altemativa, (fuga do assuto) Mas isso & uma questo de autor realmente apresenta fats desafiacores, mas Sua posiglo é coreta até certo pono... (negoeiag do) Assumindo-se um ponto de vista realist, pode-seaesitar a hipstese de que [No seu instigante trabalho... (elogio) ‘Seu trabalho levanta algumas questSes interessante. Exemplos como esses ajudam-nos a percorrer o caminho de volta as origens de nossa discussio racional, passando pela discussio “irracional” 17 © fisico. As tticas de intimidasio, de ameaca, de apelo a autoridade ete,, embora liscussao cotidiana), até encontrarmos sua origem primeira no combate embutidas, talvez, em fases mais refinadas, estio tio presentes na discussio racional quanto na discussio cotidiana e:na guerra. Quer estejamos em cenirios 0 tipo de coisa feita para fora QUIMICA diz que os problemas nio s; desaparecer para sempre. E, inutil trati-los como coisas que podem ser “solucionadas” de uma vez por todas. Viver em fungio da metifora QUIMICA seria aceitar o fato de que nenhum problema desapareceri para sempre. Ao invés de direcionar suas energias no sentido de solucionar seus problemas de uma vez por todas, vocé direcionaria suas energias em busca deum catalisador que pudesse dissolver seus problemas mais urgentes, pelo maior tempo possivel, sem precipitar outros piores. O reaparecimento de ‘um problema é visto como uma ocorréneia natural e no como uma falha de sua parte em encontrar “a maneira certa de solucioni-lo”. Viver em funcio da metifora QUIMICA significaria que seus proble- mas tém um tipo de realidade diferente para vocé. A solugio temporaria seria um feito ¢ no um fracasso. Os problemas fariam parte da ordem natural das coisas, odo desordens a serem “sanadas”. A forma de voce entender sua vida cotidiana ¢ seu modo de agir seria diferente se voce vivesse em fungio da metifora QUIMICA. ‘Vemos isso como um caso claro do poder da metifora de criar uma realidade ¢ no simplesmente de nos fornecer uma forma de conceptualizat uma realidade pré-existente. Isso no deveria ser surpreendente. Como vimos no caso da metifora DISCUSSAO E GUERRA, ha formas naturais de a atvidade (por exemplo, discutis) que, por natureza, so metaféricas. A metifora QUIMICA revela que nossa manciraatual de lidar com problemas € uma outra es, fe de atividade metafética, Hoje, a maioria de nés lida Som problemas segundo 0 que poderiamos chamar de metifora do QUE. BRA-CABEGA, segundo a qual os problemas sio QUEBRA-CABE o a uals; normalmente hi uma soluyio corseta~ e, uma vez solucionados, ©stlo solucionados para sempre. A metifora OS PROBLEMASSAO, QUEBRA. CABEGAS caracteriza nossa realidade presente, Uma mudanga para a meti- fora QUIMICA caracterizaria uma realidade nova, metifora QUIMICA, ouera, muito difeseute e mais dict, viver em fangio dela. Cada um de nés, consciente ou inconscientemente, jé identificou entenas de problemas eestamos em constante trabalho para solucionar muitos deles via'a metiforn QUEBRA.CABECA, Nossa vida cotidiana & inconsciente- ‘Bente estrusurada em termos da metifora do QUEBRACABEICA e nio seria _ ‘muda ripida e facimente para a metéfora QUIMICA com base em uma deci io consciente, Muitas de nossas atividades (liscuti, solucionar problemas, adminis- ‘rar tempo etc) sio de natureza metafdrica. Os conceitos metafSricos que Sieicterizam essas atividades estrururam nossa realidade presente. As metiforas novas tém poder de criar uma realidade nova, Isso pode Somesara acontecer quando comesamos a entender nossa experiéncia em fermos de uma metiforaeela se torma uma realade mais profanda quando Somesamos a agit em fangio dels. Se a metifora nova entra no sistema Sonceprual em que baseamos nossas ages, ela alterari esse sistema con. Ceptual e as percepgdes © agdes a que esse sistema dew origem, Muito das mudangas culturais surge da introdugo de novos conceitos metaféricos ¢ da perda de antigos. Por exemplo, a ocidentalizagio de culturas em todo 0 mundo ocorre em parte pela introdugio da metifora TEMPO E DINHEIRO nessas diversas culturas. A idéia de que metifors consegucm eriar sealidades desafia as posiges mais tradicionais sobte metiforas. Isso se explica pelo fato de a ‘metifora ter sido vista tradicionalmente como simples fato da lingua e nao como um meio de estruturar nosso sistema conceptual eos tipos deatividades diitias que desenvolvemos, FE, muito razoavel presumir que simples palavras ‘no muclem a tealidade. Mas as mudangas em nosso sistema conceptual realmente alteram o que é real para nds ¢ afetam nossa percepcio do mundo, assim como as ages que realizamos em fungio dessa percepgio. A idéia de que a metifora é um simples fato da lingua, capaz de, no maximo, descrever a realidade, € coerente com a idéia de que 0 que é real €absolutamente externo ¢ independente da forma como os seres humanos coneeptualizam 0 mundo — como se o estudo da realidade fosse apenas 0 estudo do mundo fisico, Essa visio da realidade — chamada realidade objetiva—nao considera os aspectos humanos da realidade, particularmente as percepgdes reais, as conceptualizacdes, as motivacdes ¢ as agdes que constituem a maior parte do que experienciamos. Porém os aspectos humanos da realidade sio os que mais nos importam ¢ eles vatiam de cultura para cultura, uma vez que diferentes culturas tém sistemas concep- ‘uais diferentes, Culturas também existem em ambientes fisicos diferentes, alguns radicalmente diferentes ~ selvas, desertos, ilhas, tundras, montanhas, cidades etc. im cada caso, hi um ambiente fisico com o qual interagimos, com maior ou menor sucesso. Os sistemas conceptuais das vias culturas dependem, em parte, dos ambientes fisicos no qual se desenvolveram. a3 Cada cultura deve propiciar uma forma mais ou menos bem sucedida de lidar com o seu ambiente, tanto adaptando-se a ele como o transfor- ‘mando. E mais, cada cultura deve definir uma realidade social na qual as Pessoas tenham papéis que facam sentido para elas e em termos dos quais Possam agir socialmente. Nao seria surpreendente que a realidade social definida por uma cultura afetasse sua concepgio de realidade fsica. O que €real para um individuo como membro de uma cultura é produto tanto de sua realidade social, como da mancira como ela molda.a sua experiéncia do mundo fisico. Jé que a maior parte de nossa realidade social é entendida em termos metaforicos e jé que nossa concepeio de mundo fisico é, em parte, metaforica, a metifora desempenha um papel muito significativo na deter- minagio do que € real para nés,