Você está na página 1de 21
Djanira Maria Radamés de Sa | Duplo Grau | de Jurisdigado Contetido e Alcance Constitucional fi parry beet eee Pee bere (CB Saraiva Cariruto 4 © PRINCIPIO DO DUPLO GRAU DE JURISDICAO 1. INTRODUCAO Conforme se vem enfat \ ou poderia, sem prejuizo, ser feito por jutzes de igual hierarquis | funcional? poder © gue n Carnet: reexamie do processo ser feito por juizes de se convencionou chamat de dupio exame. — em todo o mundo, 0 prinefpio do duplo gran de jurisdi- io do qual é privilegiada a dualidade de instancias, rece- iso pronunciada pelo j |1gamento por cad quem, de hierarquia funcional superiorgg A regra, no entanto, nado é absoluta, reservando os diversos sis- turidicos a possibilidade de interposigfo de algumas formas rsais em face do proprio juizo prolator da decisio impugna perante Grgio colegiado do mesmo nivel hierarquico, tal como ‘contece nos Iuizados Especiais Civeis © Criminals. ae Definida a atividade recursal como tendente @ proporcionar certeza ¢ seguranga para garantia do justo, torna-se profundamente relevante a questo que envolve a necessidade de saber se deve o io do duplo gran de jurisdigo ter status constitutional. ise ora iniciada, alas criticas € dissensGes, tém as legislagdes adotado | eeu prinet Essa é, basicamente, a questio central da an concedido pelo sistema ju cingindo-se 0 tema zo teatamento 2 el ico brasileito, ‘Acanélise critica e reflexiva pretende aferir a adequagio da po: tura adotada pelo legistador constitucional quanto a0 principio do > ¢ seus reflexos na legislagao inftaconstitu: jo grau de jurisd |. posta come io, bom como a verificagio do tratamento dispensido ao print pelo Direito comparado, 4 abordagem geral da douttina permitira a final, a partic detec, no sistema jusidico brasileiro, da existén icabilidade & lo sex esta a forma rey Provocatio ad mi Nio se ident processial, que. co axioma appelatio est a existéncia, © do do Di tremamente rudimentar, baseado do pode dino ena alice de pena Pelos saverdotes e pelo soberano, A primeira noticia que se tem de previsio de Isso vem doa. sdb iio de Haury ts ‘Se um juiz dirige um procs : or escrito a sentenga, se mais errado e aquele jiz, no processo que diti causa do erro, ele devera estabelecida na de sua ca exere iz. Nem deversi ‘ n 0.20 jaz fexto que se convenciona rottlar como o mais pr pe a = erposto pela parle prejudicada, @e—m ii 0 Dizeito mosaico permitia si ai seo simpugnacdo da sentenga er Mi por qalgver pessoa que ndo 9 suse prevenio apenas le de o mesmo crime ser julgado até cinco vezes! Fork do on Penal, no entanio, nao hi indicagio da existéncia de recursos, 2 #8No Codigo de Manu, formulado dez séculos de Hamurabi, esté presente a idéia d nade vingange © que era usual, e nenhuma alus tratiada a devisio dos bri sujeitas os sti 0s 2 tigas cidades-Esta ¢ 0 Cédigo de G me oe desenvolvimento da ciéncia processual, prin- n a diviso do processo em duas fases — fixagio da iso dos fatos controvertidos — e com a criago das io era nele, e sim no conjunto de leis atenienses, que se Wa presente a previsdo de um sistema recursal Em seus primérdios, o mundo romano experimentou um Dire: lentar, nfo escrito e aplicado exclusivamente aos patricios, cexclufdes os principios da igualdade e da tutela da liberdade, vigo- rando a ordo judiciarwm privatorum, ox seja, um sistema de Justiga privada, até 6 ano 342 a. C. A aplicagio da Justiga, como era costumeiro & époc como ato de vinganga, sende desconhecida a funcao social do Direito durante os perfodos das legis acrionis (agties da lel) e per formulam (formulirio), nos quais vigoraram os prinefpios da Justiga privada. . fezia-se Em ambos os periodos o procedimento desenvolvia-se em duas elapas: a presenga das partes, ptecedida da citagiio do réu feita dire- tamente pelo autor, perante 0 pretor, ou magistrado, que caracteriza- va a fase in iure, € 0 encé tatio}, a0 arbitto, ou juiz, inicialmente escolhido px icarregado de examinar as provas e prolalar a senten- recorrivel. O sistema de justiga pablica romano, ou da cognitio extra ondinem, vigorou de 342 a. C. até a morte de Justiniano, em 568 . C. Notabilizou-se esse perfodo pela supressfo da instincia dupla de julgamento, com o aparecimento do ju tinico investido do poder estatal, pela adogao da revelia ¢ da sucumbéncia, citago por oficia de justiga, predomindincia da prova escrita, valorizagao do contradi torio e publicagao, em audiéncia, da sentenga cscrita, todos legados indiscutiveis & ciéncia processual No que imeress: (a, nessa époe anélise que se ini periodo da cognitio extra ordinem que marcou o aparecimento da apelagao revebid: efeito suspensivo, como forma de io das sentencas deli tivas,institufdo © preparo como condi a0 das leis pelo imperador, constitufa a instancia recursal, ga sobre toda a sociedade, emt fice da inegavel con eset A posteriori, 4 evol encarre- gou-se de atribuir a responsabilidade ps a 2utt9s julzes que nao os prolatores das s S caracteristicas do sistema rec seltar para o que interessa a andlise em duplo grau de jurisdigao restava garantido a p mento da justica publica em Roma, como também a pI instncias, o que permitia & parte apresentar mais de um: e, segunda, a existencia de limitagOes ao direito de recorrer etn t 220 do grau hierdrquico do prolatar da sentenga. processo romano, jé grandemente desenvolvido, colidit, no entanto, com as precéiias instituigdes das tribos barbaras que domi- naram @ Europa no século 1V, aniquilando a hegemonia do Império Roman; Postulando a idéia retrograda de Justica com utilizavam-se das orddlias ¢ jura 808.8 celanea no que tan, ces matizes, A supremacia do pensamento romano, contudo ivamente os dominadores, que assimilaram conhe (0, 08 grupos bérbaros produziram farta obra saber: a Lex Salica, a Lex Ripuaria, a Lex Francorum pelos francos; a Lex Alamanorum ea Lex Baivariorum, Lex Burgundiorum, 0 Edictum Theodorici, o Codex 8, a Lex Romana Visighotorum, ou Brevidrio de Alarico, 0 Revisus de Leovigildo, a Liber Judiciorum, ow C6 lctus Rothariea Liber Legis Longobardorum, pelos lombardos. Considerado 0 objetivo tragado, que é 0 de examinar a incidén- ia do principio do duplo gra de jurisdigao no Direito brasiteiro, rmia-se conveniente reduzit a andlise de suas fontes histérieas, no tocante ao periodo de dominagao barbara, ao Direito ido essa a tribo invasora da Penfnsula Ibe spira o sistema brasileiro, por forga da col que esteve submetido o Pais Somente a partir da vigéncia do Liber Judiciorum de Recesvindo, em 654, € que deixou de imperar o principio da perso. nalidade, aplicando-se 0 Cédigo Visigético a todos os habitantes do tettitério visigodo Quanto a possibilidade de Edictwm Theodorici € prevista da sentenga zodo, visto em cujo direito se nizagdo portuguesa a terposigdo de recurso, desde © elagio como forma de impugnagio Caracteristicas bésicas da apelagdo no periodo de dominagio da Peninsula Tbérica petos visigocios, antes da invas8o mouca, eram as limitagdes opostas as sentengas que tivessem por base juramento de parte ou algumas condenagdes por dividas, as punigdes sos juizes da a sentenga, a admissio de mais de possibilidade de serela interposta co na apelagdo e, por fim, wer sentenga que ‘Tomados aos visigodos pelos drabes 0s tert Ibérica, inicia-se uma reagdo, que resultou na criagto do Reino de Leiio, ao norte, de onde partiram as tentativas de reconquista pelos neo-goticos, sucessores dos visigodos, A medida que os tervitérios iam sendo reconguistados, eram criados: zados por laos de vassalagem ao Reino de Leao, estando af a génese do Condado Portucalense, que originou o Reino de Portugal, cuja independéncia foi proclamada pot D. Henrique. Enquanto Condado Portucalense, gués no Codigo Visigst sas, nos costumes & nos forais. Apds a independéncia, nas conedr dias (acordos emtre o rei € 6 clero), nos forais (documentos de regu- Jamentacio leudal) e nas leis gerais esparsas'” Essa miscigenagio de institutos de Di e costumeiro que vigorou dura le Média nao reconhecia 0 direito & revisao das semtengas. No século XI, a Escola de Bolonha fez ressurgir os estudos de Direito romano a partir do Corpus Juris Civilis, tansformando Italia num centro continental de estudos jurfdicos e propiciando surgimento de trés grandes escolas de pensamento jurfdico: a dos glosadores, a dos pés-glosadores ¢ a humanista, conforme comen- 5 fidelidade absoluta a0 Corpus solugdo para casos cone antigo com desprezo pelas interpretagdes dos integrantes das duas primeiras escolas, Para 0 Direito Processual, esse perfodo marca a era do judicialismo, da divisio da jurisdigio em temporal e espiritual, ces- sada a interferéncia do Direito candnico nas questbes de Esiadb. essa gpoca é a edigo do Fue7o Real, que, atvalizando 0 Fuero ixgo de 654, aplicivel desde [230 a todos os tertitérios reconquista- ago dos elemen- territério europeu As Siete Partidas, apoiadas no direito romano e no direito . vieram complementar 0 trabalho de unificagio e in- n fortemente a formnagdo do Direito portugués, por servi- w de Fonte subsidiaria A apelagio era prevista nas Siete Partidas, mas, mesmo vf ua recepga0, Portugal ja adotava a forma recursal para as senten| ss def ‘eve inicio, no século XV, o periodo das Ordenagdes do Reino — Afonsinas, Manuelinas e Filipinas De acordo com o registro de Marcello Caetano, as Ordenagées Afonsinas néio iaovaram em matéria recursal!, ¢, como as demais que se the seguiram repetiram-lhe as disposigdes nessa sede, tem-se que, por um largo periodo de tempo, 0 sistema recursal portugues anteve-se estitico, vas. De qualquer sorte, hé que se registrar a instituigo da reformatio in pejus e do ius nove as restrigdes postas ab recurso de apelacdo, principalmente quanto & questio de algada. Por essa época, na Europa, o germe latente do fastio pelo estudo das obras clissicas a invengao da imprensa, so- Jos & necessidade crescente de obras priticas que fornecessem solugdes pata problemas concretos, resultaram na al acionalismo, 0 !aram o surgimento da confusio entre Direito material ilo processtal, fazendo com que o pensamento processtial se quedasse em estado de semiletargia, Para o Direito portugués, no entanto, acontribuigao dos praxistas foi relevante, j4 que popularizaram o Direito, tornando-o acessi fs pessoas comuns, procuraram entender 0 proceso como desen- volvimento da relagio processual, desenvolyeram estudos aprofun- dados sobre apelacio ¢ instincia, seja comentando as Ordenay' inalisando as decisdes dos tribunais, seja ainda produzindo ia sobre matéria processual Os movimentos revolucionérios do final do século XVII. pregnados da ideologia de liberdade e igualdade, promoveram uma profunda reformulagao da disciplina juridica a partir dus Declara- Ges de Direitos, Embora o direito de apelar fosse antigo na hist6ria do Direito fran- és, quando da instalagio da Assembléia Nacional Constituimte, apos a Revolucdo Francesa, digladiavam-se, do ponto de vista ideoldgico, os gTUpos que se manifestavam a favor ou cor Enquanto seus defensores invocavam o critétio de justiga como norteador de sua posigao, seus opositores preferiam ver a questo prisma p idcrando © recuzso como forma de mo dos juizes dos tribunais superiores e perpetuago da inspi- racio original de afirmagdo do poder. Os cahiers de doléances dessa épaca te jo Decreto de Ide tal da organizagao juris pela Cox competéncia limitaca para o exame da vi mente ser admitide pela Constituigio de 1 Com ae napolednica, q separagdo das cio iio de 1790 como prinefpio fun- depois, ser suprimida Ova em matéria de organizagao judicidria, competéncia e procedi- mento e pelo tecnicismo em matéria probatéria Acessa era seguiu-se, a pattir da segunda metade do século XIX, © perfodo que determinou a compreensao da atividade processual como fenémeno cientifico e, com isso, sua autonomia cientifica, com a separagao definitiva do bojo do Direito Civil ¢ o estabelecimento de sua natureza de diteito puiblico © Brasil, descoberto em 1500 e submetido & colonizactio por- tuguesa, regeu-se, de inicio, pelas Ordenages lusitanas jé referidas Com a Independéncia., passow a reger-se pela Const de 1824, que, em seu art, 158, estabelecia: ig stincia haverd as pata ara julgar as cousas em segunda ¢ whtima nas provincias do Império as relagdes que forem nece commodidade dos Povos ‘Ao mesmo tempo que @ nova nagio, nascia também a garanti' do duplo grau de jurisdigio no Bras Ainda que até 1890, em evidente anacronismo, 0 processo brasileiro continuasse regulado pelas Ordenagdes Filipinas de 1603, 4 disciplina dos recursos interponfveis no ambito eivel coube, de- pois dessa data, a legislagto infraconstitucional, primeiramente 0 Reguiamento n, 737, de 1850, depois os Cédigos de Proceso Civil dos Estados da Federagio, 0 Cédigo de Processo Civil de 1939 e, finalmente, 0 Cédigo de Processo Civil de 1973, com as profundas teragdes introduzidas a partir de 1994. 3, CONTEUDO DO PRINCIPIO. A razio de ser do principio do duplo grau de jurisdigao encon- tra-se na persecugdo da seguranga como elemento insito da Justica, que se concretiza por meio do pronunciamento do étgao jurisdicion: pwiprio Direito, que se realiza através da atuagio jurisdicional, -se como exigéncia de Justiga e seguranga, na medida n que é expresso do respx nite 4 con igdo humana. Valor moral por excel: Ao Direito, tradutor da ordem social que interessa, portanto, €0 justo, que se perfaz com o certo, o seguro. Nesse passo, a grande questio daexisténcia do dire grau de seguranga e, port mento tinico, ipGe para a justificativa ma decisio é ade situar 0 jue se obtém com 0 provi- Para o estab xllo de Satta, que co prova absoluta de Justi iento dessas premissas, € importante a refle- Jera inexistente qualquer meio que oferega a Ga decisao, poder Certamente, a imposigdo do pri to jurisdicio uum exame acurado e exaustivo dos fatos e das provas que se contém no processe. Por outro lado, & imperioso admitir, como ja se afirm a tardia no conduz 208 fins coli de jurisdicional, porque o proce: pritico, que ¢ a pacificagdo social segundo os eritérios de ¢ justiga, com o minimo di n s6 tempo, a segu ranga, economia e celeridade & que se chega a0 c deat. Em outros termos, a efetividade do ordenamento juridico jus {0, que ao processo compete garantir, significa justiga répida e segu- ra, como sindnimo de decisdes justas. evil, Rio de Faneiro: for 10 de seus objetivos bisicos, assim como de buscar um 10 de equilfbrio entre a liberdade individual e a ordem social A questio, portanto, longe de ser politica, de mera escolha ‘como pensam alguns, ¢ essencialme porque niese da ati icional lores da Estado Democr: Visto, assim, o direito ao duplo grau de jurisdigao como gar inerente as instituigdes ps legis indelevelmente ligada ao escopo. ©, por conseqiiéncia, aos v Trata-se da possibilidade de reexame, de reapreciagdo da sen- tenga definitiva proferida em determinada causa, por outro érgfio de decisio, normalmente de hierarquia izagdo do termo grau, superior, vindo dessa circunstér nizago judi ria A rigidez hermenduti Vverdadeira Justiga, 0 que polagdo de seus limites literais. De Cu sgtau de jurisdigdo: “A fungio da onegécio a um segundo exame primeiro, ja que se serve da expe superior: porém este no é um cardi pode ser feita também perante u unciou a sentenga impugneda; o essencial € que se trata de um exame reiterado, isto é, de uma revisto de tado quanto se fez pela do do duplo ipelagdo esté em submeter a lide e olerega maiores garantias que o Dai se dessumem, claramente, os elementos configuradores do Instituto ¢ justificadores de sus existéncia; um segundo exame que permita a comegao de erros € o supris do direito em jogo. io de lacunas, com vistas & Aves EIEA, Nao importa que o reexame se) colegiado de hierarquia igual ou super impende seja realizado, Cuida-se mais, entio, de um duplo ex: de um duplo gra Pode-se ainda acrescer aos ji elencados 0! nna preocupagde dos ordenamentos em evitar, com sio de seu ditame, a possibilidade de haver abuso de po. do juz, Por qual plo grau de j rente 20s po angulo que se examine, entio, o princ sdigdio, evidencia-se ser ele de ordem publ lados do Estado de Direito. Nasce com o prejuizo ou seu interesse em provacar o reexame da deciséo dest envolve a manifestagio de sua vontade. E ativid tanto, pelo prinefpio dispositive. ‘Assim, cabe inteira rzio a Nelson Nery Junior quand idica de prolongamento, dentro do n procedimento, do exercicio do dizeito de ago, compreendido c em seu sentido mais amplo”™ Como 0 reexamie ocomre no mesma processo, cui 0, de exe ced posterior Sentenga e decisao interlocutéria sdo espé de jurisdigao como garantia, Por isso, duplo grau a noga0 de apelacio, Co juris nia, 0s acér 10s neles 4 ordem constitucional brasileira contempla, inclusive, & recurso ordindrio interposto a0 Superior Tribunal de Just w Supremo Tribunal Federal relativamente a certas causas julga ‘em tinica instncia pelos tribunais, o que importa em afinmar ter ‘© mesmo contorno que confere a apclagdo a caracteristica de rec so vetor da garantia do duplo grau. Tanto a sentenga definidora do direito das partes quanto aqui que no defina esse diteito, desde que extingam 0 processo princi m-se a0 duplo grat. . segundo Camelutt ia ou necessirial™, o qui legislago, obediente ans paramettas de justica e ig iio pr limitar acesso ao recurso, principalmente se o postulado do du tucionalmente positivado, Nao se confunda, porém, a imprap fundada em questies tidas, geralmente, como os pressupostos de admissibilidade recursal, Os pressupostos, & semelhanga das condigées da aio, jd que (0 de ago, precisam estar presentes para que o juizo ad que gamento do mérito do recurso, nip tradwzindo exigéncia a figura anémala da apela jo de relevancia, por se ligar 4 idéia de importincia, senio & matéria discutida ou & posigdo juridica das pessoas eavolvicas. Nao é por outra razo que os ordenamentos juridicos, em regra reservam competéncia funcional a érgdos de hierarquia superior para co exame de questoes que envolvam matérias de interesse piiblico ou social e para julgar agentes da alta administragao do Estado. Em matéria recursal, no entanto, é usual a utilizagao do canter Em sede de apelacdo, que € 0 meio pelo qual se efetiva a gara tia do duplo grau de jurisdigdo, qualquer isstvel, & entre elas ha que se considerar como oxliosa a que cistingue pela tp 227 a apre Nesse caso, longe da violagio a0 prin ol nas restrigdes 3 apelagio por razbes de yemplado & 6 amplo principio do acesso & Jus \sivel da era contemporanea De toda a sorte, ¢ felizmente, a legislagao proces: constitucional brasileira no oferece qualquer inguitl 0 proceso sem examniné-lo, em decorréncia de ci npeditivas dessa apreciacéo. portanto, recurso de cognigto ampla que permite a corregtio dos errores in judicando e dos errores in procedendo hem como o reexame da prova produzida' Sendo interposta contra sentenga definitiva, « apelagao dev ve ao conhecimento da érgao ad gem © métito da causa, emt todos os seus aspectos, constituinds a matéria impugnada a declaragio relativa a0 pedido formulado. Extinto 0 processo sem julgamento do mérito, é vedado a0 6r- Ao jurisdicional recorrido conhecer dos fatos ¢ das provas. porque niio pode fazé-1o sem que 0 jufzo inferior o tena feito. A questio & je pura l6gica, resultando a admissio da hipétese em violagdo de ma de competéncia. Solugdo diversa merece, no entanto, o processo extinto com |gamento do mérito por ocorréncia de presctigao ou decadéncia, se 0 tribunal negar uma ou outra, poderd apreciar os restantes pectos da lide sobre os quais 0 juiz nao chegau a se pronuncis 132. Ada Pel de Proce wadas as caracteristicas do principio, volta-se A questo idade e necessidade de sua previsto, tornando-se impresein- vel retomar 0 curso do raciocinio conciliatério relativamente A fente anteposigiio dos conceitos de justiga ¢ celeridade., Trata-se de discernir se & menor rapidez. deva preterir-se a provivel maior justiga da decisfo, ou vice-versa. Para resolver & questo, parece razoivel ¢ racional admitir que dois graus de exame sio suficientes para assegurar 0 maximo d probabitidade de justica e seguranga da decisio, firmando-se, com isso, posicionamento no sentido de que a previsio da possibilidade Ge utilizagio ilimitada (no sentido de contetido) do recurso de ape ‘cdo contra as sentengas extintivas do processe constitui a caracteris- tica do principio do duplo grau de jurisdigto. 4, A POLEMICA DOUTRINARIA ACERCA DA NECES- SIDADE DA MANUTENCAO DO PRINCIPIO Embora a ordem juridica mundial contemple o direito & ape io, em sede constitucional on inftaconstitucional, debate-se a muito sobre a conveniéncia de sua aboligao ou da sensfv gio de sua incidéncia. mia § principalmente na Wl discussdes a respeito do tema, provor mente iconociasta de Cappelletti. que, levando a extremos a defe- sa de sua bem-sucedida teoria relativa ao acesso & Justiga, transfor- ‘mou-se no mais ardoroso defensor recurso de apelo da legislugio it que se concentra o maior foco de Seus argumentos baseiam-se, todos, na hipstese de a garantia 20 duplo grau de jurisdi¢do, conformada ao diteito de apelar, afron- tar o prineipio do acesso & justiga e 0s seus coralétios, Por essa razZo, aponta a inconstitucionalidade da previsio Jo recurso de apelo, pugnando por sua supressio sumatia weno, por sua Himitacao ao exame dos eros de direito em © juiz de primeiro grau excesso de Grgios colegiados a ser titucional do acesso a Justiga inclui a exigencia de uma di excessiva do procedimento, o que nao acontece na presenga jjutzos repetitivos sobre 0 mérito, por forgs da excessiva dur pelo, responsével por um processo mais longo. Aduz com esses argumentos que a aboligio do apeto favorece oy princfpios fundamentais da imediatidade, oralidade & Go, j4 que o primeira grau outra coisa ni é 5 10 juizo, pelo menos para a pa ceder 0 beneficio, Ainda que mais moderados, Pizzorusso e Ricci também se liam, A corrente que se volta contra o duplo grau, sob 1 apelagio reflete historicamente uma concessio ritgria da jurisdigo e do Estado, ndo atuando o pri argumento de que luta e plena coeréncia, em fungio de nio favorecer a economia pro- cessual, posto que oneroso e fonte de complicages. Nao postulando embora sua plena derrogagao, Ricci deixa cla- ro seu apoio a uma pretensa tendéncia evolutiva dos ordenamentos modemos de restringir a incidéncia do duplo gi Outras vozes son nos para tentar de visdo da garantia recu a0 valor da certeza seja proferida de uma vez, posto que a reforma da sentenga a diividas quanto 2 aplicag2o do direito, produzindo tando divergéncias de interpretacio, desprestigiando o Judicisrio. Diversamente, se a decisio do segundo grau confirma a do pri- meiro, ¢ fl Alémn di favorecem 0 ju dos fatos por sii seja que também os juizos de hierarquia superior cometer erros € injustigas, @ que ndo acresce- seguranga, vem, por fim, que se podem restringir as hipéteses de jade reeusal sem ofensa as garantias constitucionis do eitos de ago e defesa [A todas essas teses contrapdem-se, vigorosamente, as que defen- dem nio sé manutengo do prinefpio do duplo graui de jurisdigéo. como a sua Para manter a coeréncia da anélise, & preferivel expor, primei- ramente, linha de argumentago desenvolvida por Allorio para neu~ tralizar as posigGes de Cappelletti, Pizzorusso ¢ Ricci, quando da realizagio do XII Convegno dell Associazione fra gli Studiosi del Processo Civile, em Veneza em outubro de 1977" Para Allorio, nenhum dos eriticas do apelo civil pensou no verda- Aero e central problema relativo ao duplo grau, que é 0 de a sua presen- a favorecer,¢ até que ponto, a consecugito de uma sentenga justa Lop ? Essa é a primeira .dagagdo que se faz, ¢ a ela responde com o argumento de que © critério que preside a um instituto como a apelaco é mais de Iégica do pensamento que de Kégica do processo. ouitiia Para estabelecer a verdade em torno de uma situacio dibia e controvertida, primeiro enfrenta-se o problema aprofundando a in- .cia-se um juizo pelo confronto dos elementos com o metodo ciemtifico experimental, que permite a comprovagao das hip6teses nas demais ciéncias, equivale o primeiro juizo, ou a sentenga de primeiro grau, a uma primeira sStie de experimentos ciemti tse registrados em re i Enrico Ti fos de amas as fac ip grado del processo ch sf tre, 1979.03 ‘que, no partindo mais dos fatos objeto da avaliam € ctiticam © primeito re: italiano, 0 trabalho a que proce 8 sentenga de primeiro rentativa de sobs ira investigagao, res, enti é mais provavel que se consiga chegar ao grau de verdade que “al povero womo é dato di conseguire su questa terra”, Dessa forma, a jurisdigo de segundo grau beneficia-se de todo batho de pesquisas e discussiics feito em primeira instane sorte que o debate fica mais eselarecido, o que faz pensar que a decisdo do segundo juiz seré methor que o julgamento do primeiro. Servindo-se de sua militancia pritica, aponta como recorrentes ‘no cotidiano do primeiro grau a superficialidade da andlise, a pressa ¢ & precipitagao do aprofundamento quanto aos elementos da Tide, ensejadores de erros que podem e devem ser reparados COutra questo que merece ataque veemente por parte do opositr das posigdes de Coppell, Pizzorussoe Rice diz respeito a alegada ofensa ao principio do acesso & Justiga. ‘Acesto a Justiga! QueJustiga? Ho quese per fabrica uma certeza veloz, sem resguardo da cfc cia entre o direito substancial lesado e o contexido da disciplina ju cial que deve refleti- Entre a rapidez e a possibilidacle de geragio ser preferfvel um processo mai vavelmente, estard menos exposto ao ert. Em suas ponderagées vel de erros, mas a que a situagio con no tribunal & passt- pelante & demonstrar io & a reclamagio de pasar a um ou- 95 usa, 0 que afasta @ possibilidade de o tribunal recor igir de outra forma Sendo no uso de sua atribuigdo de derrogagéo. No que diz respeito a alegada tendéncia evolutiva no sentido da sa¢0 do duplo grau, embora nao haja resposta direta de Allorio, tha de seu pensamento ¢ a afirmagao de que “o povo nfo consi dera uma justiga nem bem organizada, nem tranguila se nao con- templar a possibilidade de apelar” permite deduzir que sua ideolo- gia converge para a concepeio de um ordenamenta jurfdico que re~ flita os anscios da sociedade cujas relagdes deve regula, e que. siderando essa sociedade a seguranga ca justiga come valores a se~ rom respeitados pela via recursal, é impensavel sua supressio, Aos argumentos elencados, justificadores niio s6 da existéncia como da imprescindibilidade do duplo grau de jorisdigo, muitos ‘outros podem somar-se, énfase dada ao mais recorrente, qual seja, © da presenca da falibilidade como fator inerente & condligfio humana, Aadmitida sua condigdo de ser falivel, nao & dado ao juiz o pri- vilégio de supor-se imune ao cometimento de ertos, prineipalmente considerando a importancia dos atos decisGrios que, como qu: quer outros, estio sujeitos a questionamentos ¢ censuras. Sendo obra humana, também a justige falivel, e a sentenga de primeiro graw pode ser injusta ou errada, daf decorrendo a necessidade de permi- tise sua reforma em grau de recurso. Além disso, & de todo conveniente dar-se a0 vencido um: oportunidade para o reexame da sentenga com a qual nao se confor mou, visto que, sendo também inata ao ser humano a reago imedia. 1a ao sentimento de perda, no sentido da recuperagio de um bem &: vida que the foi subtrafdo, nfo se pode negar-lhe a pretensiio a um novo julgamento sobre a mesma questo quando a sentenga Ihe € desfavordvel. Oferecer a todos os litigamtes a possibilidade de sub: meter sia causa ao conhecimento de duas jurisdigdes sucessivas aten: de, destarte, ao critério da razoubilidade, segundo Persot™ Outro argumento gue favorece, em muito, a permanéncia do du- plo grau de jurisdigo nos ordenamentos juridicos. cia dos integrantes dos érgios colegiados, 0 4 mente. oferece maior seguranga 3 coneretiza¢o do ideal de jus E essa experi ertos, que, embora possivel, é menos provavel. A tese & conttdo, sta hipétese de duplo exame nfo ser sob o prisma da segurat tipo de controle sobre seus atos, poderia ser tentado a cometer a trariedades, Ademais, quando sabe que sua decisio poderé ser revis- ta pelos tribunais hierarquicamente superiores, 0 magistraco torna- cuidadoso na apuraglo dos fatos, na subsungia destes is normas ¢ na fandamentagio de seu decis6rio, cicunstincia psicolé- ica essa que ja se encontra devidamente demonstrada, Ademais, 0 magistério sempre preciso de Calmon de Passos adverte para a existéncis de duas espécies de parcialidade: a presu- enseja o dever do magistrado de eset 0 da parte de exclut-lo da relagdo proces: que se evidencia apenas com o julgamento, com 0 co do juz em fave do caso conereto, Esse desvio na imparcial ibalizado doutrinadar, “pode ir de val grave: vigo do dissimulado arbitrio” *, afastando da d dives postuiados da justiga e da seguranga, O cardter dialético do processo determina que sua marcha seja sreada por contradigdes que s6 serao superadas pelo ato decis6rio. sc. entao, a evolugio do exame, a fim de que no jul Jo gran o litfgio aparega com toda a sua amplitude, ma visto mais clara e completa da causa. caracteristiea presente no sistema processual € a Jade, que, por ébvio, informa também a atividade recursal «jue se espera do processo € que da produeao de seus atos resulte ‘mo proveito no sentido da busca da verdade e da concretizacio figa, € racional que da senten {iba apelagio, porque é (o do sistema proporcion ‘Acoeréncia da afirmagio de que a natureza juridica do recurso € 0 protongamento do direito de ago leva forgosamente a edmitir {que uma sentenga desfavoravel cria uma leso nova que ndo pode cer subtrafda & apreciagéo do Poder Judiciéirio, sob pena de infrin géncia das garantias constitucionais do processo De ordem publica é 0 tltimo argumento a favor do duplo grau de jurisdigio. Estado Democrético de Direito, 8 garan- f ordem juridica justa, salvaguarda dos direitos Funda- se a uy processo igualmente justo. efetivador desses direitos. Segundo Satta, 0 juiz monocrético é um magistrado 20 qual so ados, sondo 0 drgio colegiado, ao contea- , aguele que 60 dda maioris aplicado a justiga “imo o principio da maioria é base do pracesso democritico, 0 juiz0 colegiado 6a seu sentir, aquele que vercadeiramente satisfaz as ext neias democtiticas no plano concreto entre sujeito € autoridade’* "Além disso, uma justiga muito rapida tende fatalmente a ser suméria e a ficar, por isso, & margem da Constituigao ¢ da democre: cia nela assegurada™. ‘De tudo quanto se analisou a respeito do alcance e da utilidade do prinefpio do duplo grau de jurisdigio resta a conclusio de quanto mais se examina uma sentenga, mais per da justiga, 0 que equivale a dizer que o p garantia fundamental de boa justiga, como se rev ganizecio judiciéria “Talvez por todas essas razSes sejn acothido pela dos sistemas processuais, pelo menos em sede infrac 5, DISCIPLINA LEGAL 5.1. O prinefpio do duplo grau de juri constitucional ico como garantia Uma vez demonstradas a importincia ¢ do principio do duplo grau de jurisdigdo para uma correta e eficar distribuigdo da justiga, resta enfrentar 0 problema da necessicade on agi. grav de Ge que se trata de mers regta de organi genie @ nao dependente da dod nao é elemento essen quese promotor do bemt co dos ambos & consagragao dos valores i Residindo nas garantias processuais cons! ges que permitem ao proceso ostentar sua feigdo d habil para a coneretizagao dos ideais s6cio-politico- 80, pela via da realizagao da seguranga na fustiga,€ fodas essas garantias fundamentais legitimantes do exerefcio da ju- risdi¢ao na clfusula do devido processo legal, é forgoso relembrar seus contornos, para se proceder a unra anilise concludente acerca do alcance cons 0 do duplo grau de juris Conforme ja se : tia constitucional fundamental ¢ caracter(stica do Estado de ais as condi ‘rumento dicos da na- da elaboragio legislativa e o da regularidade & claboragao judicial essa condigio de garantia das garantias constitucionais, repita-se, que 0 devido processo legal protege a vida, a liberdade ¢ os bens na sua mais ampla acepgio. Ac conceito de vida corresponde, hoje, todo o complexo relati- vo a sua qualidade: saide, educaySo, seguranga, familia, trabalho, alimentagio, moradia, cultura, meio ambient sumo, bem-estar; assim aspecto mais abrangente, a dignidade hu ‘Quando se alude a bem quer-se compreender na locugio todo & quer bem da vida, compéreo ot incorpareo, nesta Ultima categoria apreendida nao s6 a nogio patrimonial economicamet five, mas também aquela que constitui o patriménio emoci e social do ser humano, os direitos que as pessoas tém sobre zs coi sobre os produtos de s 38 pessoas. Nato é absurdo, destart, incluir nessa categoria a decisio judi- cial favorivel como contendores. Assim considerada, a aspi vel é bem incorpéreo protegido sua prdipri Se sob esse aspecto nao € di digdo como garanti base no i tivo de pacificagao soci rocesso legal, fazé-lo.com conseeugo do obje- nga De fato e de direito, consubstancia-se 0 devido processo legal ‘na garantia de um processo regular, adequado e justo, que permita atingir 0 desiderato da efetivagio dos direitos através da prestagdo jurisdicional. Compreendida est de atos, tem-se xios eles, em relagio de estreita confor: midade com maior, ser regulares, audequados ¢ j arantia nfo se esgota, assim, na simples re fos processu com ela persegue id para o conj 100 Atingir pelo processo o ideal de realizagdo da justiga com guranga em cada caso conereto significa extrapolar os lindes a wados dos interesses particulares, para se transmutar em interesse Publico, porque a pacificacdo social & elemento constitutivo do Es- tado de Direito, e realizi-la a contento € seu objetivo inafastavel Ocorre, como ji se examinon, que 08 critérios de justica e segarang Direito quanto aos seus fins. Um reexamie da decistio toma-se, entdo, imper les, de assegurar ao vencido uma tinica revisdo da s the foi desfavoravel, que se considera 0 duplo grau de j como garantia de ordem constitucional diretamente derivada sula do devido processo legal e, conseqtlentemente, indispenssv consecugao dos fins dltimos do Estado pelo afastamento da possibi lidade de manifestagao do arbitri. Nesse sentido, a Tigo concldente de Caimon de Passos: qualquer tipo de controle da deci trem controles para os atos ores de poder, colocando-se os da A 6 crivo da fiscalizagio do Legi © opi sistema de repre nbém submetido a control isdicionais esta o Poder Legislativo, o Judiciério, entret ic0s que resultem do process: we sobre ele slo el mo, de controles internos 20 proprio Judiciério se mostra como ndectin: le no dmbito penal, tendo © Conselho Europeu dos Direitos do Homem, em deciséo de 1989, determinado que o duplo grau no fique sem protegdo constitucional, evidenciand atendéncia de sua universalizagio, ao contr de sua suipressio. Contudo, esteja a cléusula expressamente prevista ou corre ela direta ¢ imediatamente do devido processo legal, sendo, inegavelmente, garantia constitucional que permite o acesso a dec sto justa e, consequentemente, & ordem juridica justa. Em azo disso, ne se pode concorar com a tese de que sua inclustio no texto constitucional depende de uma escolha legislativas ‘oimperativo é, isso sim, de ordem juridico-constitucional, imantado ‘aos escopos do Estado e da jurisdicao. ahipsrese de limitagao icional, ainda que ”. Em qualquer cir- ce do dupio com base nas p o proceso ori Da mesma forma, no se pode admit do recurso de apelacdo pela legislacao infracon: a garantia nao esteja express na Constituie: cunstncia, esta assegurado a0 jurisdicionado ‘grat, consistente na possibilidade de uma rev vas € no Direito, do acerto da sentenga extint nariamente proferida, Esse reexame, como ja se afirmou, pode gio jurisdicional colegiado de hierarquia igual 8 do prolator da dec: so ou superior, porque o que se busca preservar é a seguranga con- tida auma segunda ¢ mais abrangente visio dos fatos, das provas e do Direito, a elaboragio de um raciocinio mais completo e, pot to, mais justo, io se admite € que 0 relator da apelago, por despacko monocrético, negue seguimento ao recurso sem que haja exame da matéria argitida pelo colegiado!" 5.2, O tratamento constitucional do prine comparado no Direito ‘A questio da constitucionalidade do principio do duplo grat de risdiga0 no Direito brasileiro perpassa, para o prudente estabeleci- rento de seu aleance, por aquela outra de sua universalizagao, ou sei, do tatamento que recebe dos demais ordenamentos constiticionais Com 0 intuito de fixar 0 Importancia sécio-politico-jurfdica & que se examina sua incidéncia ros mts diversos sistemas constitucionais mondisis, tomadas por ardimetros suas diferenciagdes em termos de concepgées idea as, econdmicas, religiosas e juridi Das mais de quarenta Constituigdes analisadas péde-se depreen- der que a garantia do devido processo legal é recepeionada quase que unanimemente pelas ordens juridicas de nagdes dos mais diver. sos matizes. Estd presente, por exemplo, nas Cartas Politicas da Alemanka, Angola, Uruguai, Argentina, Panamé, Irique, Macrocos, Cong, do Sul, Japio, Omi, Espana ¢, naturalmente, E J a expressa previsio do duplo grau de jurisdigdo como garan- tia constitucional merece atengo especial Ausente das C ie maioria dos paises de tra- digdo democrat ssenvolvidos, é maci- IS nagGes reeém-criadas Principalmente, viveram longo tempo sob regime de opressio, Assim, 0 duplo grau de jurisdigdo encontra-se enunciado como ‘nia, Maced sia, _ Das nagdes que niio se incluem nesse bloco, somente Chile, 118, Austria, Nova Zeléndia, Finlandia e Dinamarca contemplam 4 ¢garantia em suas Consttuigaes, China © Cuba, por razbes ébvias, nfo prevéem sequer a exis- tEncia do devido processo legal, daf de: inexiste qualg Também a rain examinad » 0 faz a Carta Magna brasileira, remetendo & h organizagto de sta Justiga. Nessa categoria encomt Marocos, Madagascar, India, Coréia do Sul, Africa do Sul, Espanha e Portugal Ouiros nem mesmo mencionam os tribunais, estabelecendo que jacio se faz mediante leis otdindrias. Tal é o caso da Arzei nd, de Cuba, Kuwait, Taiwan e Japio. Casos excepcionais so representados pelas Constituigdes aus- traliana ¢ irlandesa. Enquanto primeira estabelece competéneia especifica da High Court para apelacio de todas as sentencas, ase. gunda prevé a figura do duplo exame no mesmo grat de jurisdigao, Da andlise se dessume que pelo menos quarenta por cento das Constituigdes exaninadas contemplam. expressamente, 0 direito 20 reexame das sentencas. Considerando o fato de que outros cingtienta por cento delas ado- ‘am a cldusula do due process of law. ainda que algumas o fagatn com certa mitigagao, € de se ver, pela amostragem, que o duplo grau de |jurisdigao € garantido pela maioria das nagdes, se ndio expressa, pelo ‘menos implicitamente, por decotréncia do devido processo legal. 5.3. A disciplina legislativa do principio no Brasil Tendo ja se afirmado a natureza gs 1 Sua posigo no qu brasileiro, dro do ordenamento juridico-con: Embora nfo o preveja expressamente, é a propria Carta Magna de 1988 que se encarrega de demonstrar, & evidéncia, que duplo rau erige-se em garantia constitucional Primeiramente, porque a Constituiggo adota néo s6 a dualidade de graus de jurisdigo, como sua pluralidade, indicando a existéncia de competéncia recursal dos cribunais como caracterfstica da exis 08, TI 1 —julgar, em grau de recurso, as causas decidida federais ¢ pelos juizes estaduais no exereicio da compet. ral da drea de sua jurisdigo” ‘Trota-se af, evidentemente, de recurso des am: Constituigao Federal atribuir competén sentenga de primeiro grau a alguns ‘outros companentes do si recursal para sevisi los jurisdiciona:s mna judivirio importaria em ae: ide substancial €, NO caso, 05 Titfgios 56 se diversificam subjet © que implica afirmar que, estando previsto 0 duplo grau de Jurisdigio para a Justiga Federal 1 ¢ obrigatoriamente est contemplado também para a Justia Estadual Pensar de outro modo significaria avalizar comportamento legislative discriminatério em termos de garantias processuais, 0 gue ¢ inadmissivel. Todos aquetes que ingressam em juizo deve ter, em igualdade de condigdes, a possibilidade de pleitear a revi sio da sentenga, Além de ter sido expressa quanto & existéncia do duplo gra na esfera da Justia Federal e de sto compet curs do Superior Tribunal de Justiga e do Supremo Tribunal Feder para a rev sas decididas em nica instancia por outros co a Carta Magna enuacion, no art. 125, que “Os Estados organizario sua Justica, observados os principios estabelecidos nesta Constituigao" inefpios so os informativos da organizagio do sistema udicidrio e da atividade processual, os quais, para atender aos pro- Pésitos nobilitantes do exerefcio jurisdicional, devem estar em per feita hearmoni Pretender que sej 6rgio jurisdicional e nio a do sisten ro signi © comprometer suas final n de Passos (dh mando-se a questo por outro prisma, vé-se que a regra do 125 remete a organizacao da Justiga Estadual a garantia do devi- »eesso legal, principio escultor, como visto. de toda a regulari- ude do processo a ser desenvolvido perante os érgios detentores do poder jurisdicional. Demonstrado que o principio do duplo grau de isdiga0, ainda que n&o expresso, € manifestamente consectério do devido processo legal, tem-se coma imamente & fungo de julgar ade fazé-1o em grau de recurso, pelo menos para garantir um reexame da sentenga de primeizo grou Em outros de seus dispositivos, acentua ai Federal a existéncia aut6noma, embora impi jurisdiga0 como garani la a Constituigao a, do duplo grau de Assim € que estabelace 0 § 28 do art, St “Os direitos © garantias expressos nesta Constituigaio no ex- luem outros decortentes do regime e dos prinefpios porela adotados, ou dos tratados internacionais em que a Repiblica Federativ Brasil seja parte” Maior clareza, impossivel. Outros prin coerentes com o sistema de garantias processuais constitucionais & que se revelem indispensdveis & realizagio ‘dico-cons- isso 0 fato de que o Brasil é signatsrio da Convengao de San Tosé da io do ao Costa Riea, na qual esté expressamente contemplado o princ’ duplo grau, e tomar-se-d evidente a certeza de que seu sta sistema brasileiro é de garantia constitucional O principio do duplo grau de jurisdigio é, sob todos os aspec- analisados, indispensével & boa administrag0 da Justiga, ob- jetivo do Estado, e, como tal, decorrente legitimo da garantia maior do devido processo legal. E também, portanto, garantia constitucio. nal no preciso teor do art. 5°, § 28, da Constituigio Federal. Nesses termos € to ligio. de Manoel Gongalves Ferreira Fitho, 106 reconhecidos, admite existirem outros, decorrentes dos sey dos principios que ela adota, os quais implicitamente reconhiece™"" E ainda no art. 5* da Carta Politica bra mentos podem ser encontrados para refoi grau de jurisdigéo como garantia cons Examine-se, agora, o prinespio da inafastabilidade, ou do di reito de ago, expresso no ineiso XXXV do um vei qualquer ato legislative que impe Seualcance, como. além de inst leira que outros ar mais amplo do que parece, pois, imento de ativagiv do processo, constitu direito 20 exercicio da funydo jurisdicional, e, sendo a natureza do recurso a de procedimento em continuidade, & claro que a fungi ju io se esgota com o primeiro provimento iso LV do art. $# permite a favor da concretude do duph quando estabelece: jgantes, em proceso jd ‘acusados em geral so asseguradas o comtrad com os meios e recursos a ela inerentes’ Nessa sede podler-se-is até privilegiar a argume: tea em detr sto que stficiente e Gemonstrar a intengio do legislador a0 ligar, com a a fermos metos e recursos. Quisesse igualé-los como sin: sislador constituinte teria utilizado a alternativa au, 0 que implica ue quis diferencig-los pela necessidade de ser preciso, - méto- desig- 9 micio, o expediente, a protegao, 0 auxilio, rac 107 Ic designar todos os exp 's processuais, a palavra rec A anise juridica do inciso, no entanto, nfo se torna despicienda, © permite adentrar-se no alargado sentido da ampla defesa como determinante mais da satisfagdo das exigéncias de justiga, conside- que da satisfagao dos interesses dos tes, S6 quando uma verdade alcanga iguais possibil vencimento & que estd plenamente assegurada a ampla defesa isso, obviamemte, pode nfo ocorrer antes de um segundo exame da c 1ando do prolongamento do processo pela via recur ‘Sem davida alguma garantia processual con: cita ao sistema constitucional brasileiro, decorrente da devido processo legal, o duplo grau de jurisdigo, no que t esfera processual civil, & expressamente previsto pela le infraconstitucional através da diego cogente do art. 513 do Cédi- go de Processo Civil, que assim estabelece: “Da s apelagao ‘a caberd Af se encontra, sem limitagde: tanto, em toda a sua pureza, a g ciada na Constituigao Federal, corre que, mesmo sem previsio expressa pela Carta Magna, a caracterfstica de garantia imanemte do duplo grau de jurisdigao veda ao legislador do ambito de incidéncia do recurso de apelagio. Nenhuma restrigio, portanto, pode ser oposta & possibitidade de o sucumbente recorrer, brat petior hierar. dbs 1973 suprien 5 nterpo qu ias fundamentais, como também ser supr: © previstos, sdo le jurisdigao, nem 0 caracteriza, 0 rex » previsto pelo art. 475 do Cédigo de Proceso C: gam procedente a exe- ia Fazenda Publica infringe violer Obices & efetivagao da garantia do duplo grau de Jurisdigao No Brasil dos nero de recursos interpostos ju eficiéncia que assola o Poder Jud Por isso propugna-se, desde 1992, por uma ampla ref horizontalizagio da Ju: 09 Atribuir atividade recursal a culpa pela pletora de feitos judi- ciais e a conseqitente morosidade judicial é tentar deturpar a reali- dade do Poder Sudicifrio nacional. historicamente jungida a proble- mas de ordem estrutural, verdadeiros responsdveis pela crise em que se debate hi anos, com evidentes reflexos sobre a credibilidade da populagdo na Justiga, Recente levantamento elaborado conjuntamente pelo Supremo ‘Tribunal Federal e pela Associagao dos Magistrados Bras ° deu conta da situagio de pentiria em que se encontra merg estrutura do Judiciario brasileiro, refletida na absurda pr sto que a média mundial n juiz para cada seis mil habitantes, a pesquisa revela um perfil desanimador do Judiciatio. Vinte e cinco por cento dos cargos de juiz estio vagos, e para isso concorrem dois fatores igualmente graves: os jovens profissionais possuem formagio aca- démica deficiente e néo logram aprovagio nos concursos pablicos para a magistratura, o que inviabiliza o preenchimento das vagas, € 6s baixos salérios da carreira, aliados & intensa carga de trabalho, H os mais experientes. Com isso, intimeras pequenas arcas esto sem juiz ¢ incontaveis Varas des Capitais e de gran- des cidades contam com trabalho espordidico de jutzes subs Alie-se a is em atividade vestir na formagao pes: wonstragdo, pela pesquisa, de que os . inexperientes ¢ nfo se preocupam em in- al, € tem-se instalada a situagao de caos. B, nessas circunstncias, 0 que costuina acontecer no Pais € a proposta de solugdes que, em vez de af desencadeadoras da problemética detectad: tuosos que, via de regra, levam a infringéncia de algum postulado nento dos direitos dos cidadaos. constitucional, em det Nio residem no acesso dos jurisdicionados os px Justica brasi tio fundamental da dis Resolvé-los € s6 uma questo de vontade politica, tal qual a de rever o percentual de um por cento do orgamento-geral da Unilio destinado ao Poder Judicifrio, de criar tantas Varas quantas sejam necessérias para atender de maneira racional e eficiente ao objetivo de prestagio da Justiga, de multiplicar 0 ntimero dos Juizados Espe- is Civeis e Criminais, de tornar atraente a carreira sionais mais experientes, de descentralizar a atividade de segundo de transformar Supremo Tribunal Pedes J, entre outras do mesmo jaez. aca S20 1 impedir 0 acesso da popula- toda especial e implementagéo expedita Dezenas de agGes legislativas e administrativas nesse sentido poderiam serelencadas; contudo, como o tema do pres cinge-se aos problema {ar 0s entraves postos & erta para a incorreta s tentativas de solugio da tes ado prepa- o exercicio de sua fungdo ¢ a da sumulagao vinculante. © preparo prévio é considerado como requisito extrinseco de admissibitidade recursal ‘© pagamento de quantia determi- a Estado da Federacio, a titulo de custas, para processamento do recurso, Estando ausente 0 preparo, 0 recurso € considerado deserto € nao € conhecido. Como © recorrente tem to da interposigiio, © pagamento do preparo, por meio da guia autentica regra do preparo imediato com efeito de preclusio iro, excegao feita a ca Federal, para a qual vigora tegra especial consistente no pre aro efetuado até cinco dias a contar da interposigao do recurso. Colocada & parte a g) deveria fornecer gratuita e dei ntengiio de recorrer. O Estado de Minas Gi ke dezembro de 1997, a Lei n, 12.729, que autorizava aume Imsordingrio do valor das taxas judicidrias, tomada como base de Cons medida Jiminar suspensiva dos ef de inftingéncia ao art. $* da Constituigio, Nesse perio boa parte da populagdo mineira vi seja para postular, seja para tecorrer. Situacdo semelhante ocorren, & mesma época, no Estado da Paraiba, com igual desfecho. No campo da administragio da Justiga pel ndo € diferente. Embora a especialidade da Just do ambito da presente andlise, ¢ tentador nio deixar passar ao largo a constatagdo de que nela © recorrente deve depositar, a titulo de eparo, 0 valor uma cifta 0 ordinério, Quanto as razdes que levam o Estado, promotor da paz social pelo exercicio da jurisdigao, a atribuir as custas judiciais valores irdos, no condizentes 1m a realidade socioecondmica da populago, nem com os djet 86 se pode conjecturar que ou a intengdo € cercear o acesso Ra ecursal ou 0 objetivo é travestir a atividade judicial em arre: Qualquer das hipéteses que seja a real leva A violago de garan- s constitucionais, visto que tolhem 0 acesso & Justica e impedem desenvolvimento do proceso, Segundo ébice a ser analisado, 0 despreparo dos juizes de pr 0 grau para 0 exercicio de sua wr em duas conseqiignci so e a instalagio do Ambos os probl ira. Decisbes mal do processo ¢ no tratamento das partes e dos adv tagdo de subyersio da autoridade. A evidéncia que se tentava ocultar vem agora & tona, « que € pior, ndo demon imtengio de adequar-se as necessidades r to, alids, revelou o dado alarmante de primeiro grau entende deva ser dispensavel a at lade para a real fungao do proceso. fa a combinagio do desprepara com 0 el contra o postulado do devido processo legal jo abrangente, que atribufa po: der reduziu-se, apds intenso debate ara dos Deputa- discussdes, 108 que sufoe: realidade que tem po Sprio Estado, responsdve! por setenta por cento dos recursos dado que a simi me fi a com poder vine vo das deci Je prescrigZ0 non das garantias fundamentais do direito de acao, do direito de im- pugnagio, do acesso a Justiga, do principio da motivacao e do duplo ‘grau de jurisdigao; contribuem para que 0 Judicisrio se amesquinhe ¢ involua pel izago do pensameato ¢ pelo impedimento do processo juridico. Apontados os prineipais obstéculos hoje detectados em desfavor da efetivago da garantia do duplo grau de jurisdigdo, € deprimente ‘constatar que todos eles t8m sua génese no propric Estado, que, pot missio, vocagio e dever, ha de proporcionar & populagto Just melhor qualidade, como forma de garantir seus mais al