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Cantigas praianas

Ouves acaso quando entardece Vago murmúrio que vem do mar, Vago murmúrio que mais parece Voz de uma prece Morrendo no ar?

Beijando a areia, batendo as fráguas, Choram as ondas; choram em vão:

O inútil choro das tristes águas Enche de mágoas A solidão

Duvidas que haja clamor no mundo Mais vão, mais triste que esse clamor? Ouve que vozes de moribundo Sobem do fundo Do meu amor.

1ª etapa: escansão e levantamento do ritmo Estrofe I

1. Ou/ ves/ a/ ca/ so/ quan/ do en/ tar/ de/ (ce) – 9

[4,9]

2. Va/ go/ mur/ mú/ rio/ que/ vem/ do/ mar, - 9 [4,9]

3. Va/ go/ mur/ mú/ rio/ que/ mais/ pa/ re/ (ce) – 9

[4,9]

4. Voz/ de u/ ma/ pre/ (ce) – 4 [4] Complementares

5. Mor/ ren/ do/ no ar? – 4 [4]

(Ou “voz/ de u/ma/ pre/ce/ mor/ren/do/ no ar”) [4,9]

Estrofe II:

6. Bei/ jan/ do a a/ rei/ a,/ ba/ ten/ do as/ frá/ (guas), - 9 [4,9]

7. Cho/ ram/ as/ on/ das/; cho/ ram/ em/ vão: - 9 [4,9]

8.O i/ nú/ til/ cho/ ro/ das/ tris/ tes/ á/ (guas) – 9 [4,9]

9. En/ che/ de/ má/ (goas) – 4 [4]

Complementares

10. A/ so/ li/ dão

– 4 [4]

(ou “en/che/ de/ má/goas/ a /so/li/dão”) [4,9]

11. Du/ vi/ das/ que ha/ ja/ cla/ mor/ no/ mu/ (ndo) – 9 [4,9]

12. Mais/ vão/, mais/ tris/te/ que e/ sse/ cla/ mor? – 9 [4,9]

13.Ou/ ve/ que/ vo/ zes/ de/ mo/ ri/ bun / (do) – 9 [4,9]

14. So/ bem/ do/ fun/ (do) – 4 [4]

15. Do/ meu/ a/ mor. – 4 [4]

Complementares

(ou: “so/bem/ do/ fun/do/ do/ meu/ a/mor”) [4,9]

Análise do poema “CANTIGAS PRAIANAS”, de Vicente de Carvalho.

O poema “Cantigas Praianas”, de Vicente de Carvalho, está organizado formalmente em três estrofes, contabilizando 15 versos. As estrofes apresentam certa regularidade, pois são constituídas, basicamente, por três versos de 9 sílabas e dois versos de 4 sílabas métricas, em função disso, sendo chamadas de estrofes compostas. É interessante notarmos que os dois últimos versos de cada estrofe podem ser lidos como um verso único (uma vez que são complementares semanticamente), cuja métrica corresponde a nove sílabas, fato que aumenta a regularidade do poema. No que diz respeito à análise das rimas, percebe-se que seguem o esquema ABAAB, sendo predominantemente pobres e consoantes. As rimas, por sua constituição e repetição completa de sons, sugerem uma constância pertinente à memorização de uma cantiga, como o título já indica “CANTIGAS PRAIANAS”. Essa constância se liga ao próprio tema do texto: o murmúrio/ o queixume do mar, reclamação essa que lembra uma prece, um lamento, como verificamos nos sons das rimas; exemplos: entardece/ parece/ prece (estrofe I) (preces); fráguas/ águas/ mágoas (Estrofe II) (choro); mundo/ moribundo/ fundo (Estrofe III) (lamentos).

Ao observarmos os processos intensificadores qu compõem o poema, notamos uma constante repetição d determinados fonemas. Constatamos a presença d aliterações, ou seja, a reiteração de determinados sons a fi de reproduzir o barulho do mar, vejamos: “Vago murmúri que vem do mar/ Vago murmúrio que mais parece” (v.2 e v 4) – repetição do “m”, indicando o próprio som d murmúrio, a repetição do som do “v” que indica o barulh do vento, reiteração do “r” que sugere o barulho d espuma, do barulho do mar, e posteriormente, no verso 6 encontramos ainda a repetição do “b”, que aponta para batida das ondas: “Beijando a areia, batendo as fráguas” Dessa forma, percebemos que a estrutura fônica do text tem por finalidade concretizar sonoramente o própri conteúdo do poema.

No primeiro verso do texto de Vicente Carvalho, verificamos a presença de um verbo na

No primeiro verso do texto de Vicente Carvalho, verificamos a presença de um verbo na 2ª p.s “Ouves” (v.1); tal utilização aponta para a invocação de um

interlocutor e ao mesmo tempo para a presença de um eu. Fazendo uso desse mecanismo, o sujeito lírico aproxima-se do leitor, propondo que ele se integre ao ato de escutar o mar, interpretado por ele como uma súplica “vago murmúrio que mais parece/voz de uma

prece” (v.3. e v.4). Vemos, então, que ao longo de todo

o texto são atribuídas ações e sentimentos humanos ao

mar (“Falar”, “beijar”, “chorar”, “clamar”, “tristeza”); atitudes e emoções que transmitem o estado emocional do observador, pois ele vê no mar algo que

é subjetivo. A rigor, o mar não é solitário ou triste, este é, sim, o olhar do sujeito.

Portanto, pelos atributos referidos ao mar, o sujeito acaba se autocaracterizando indiretamente e sugerindo o seu estado melancólico. O som do mar é “prece”, “clamor” (2x), “choro”(3x), substantivos adjetivados como “triste” (2x), “vão” (2x), “inútil”. A percepção dessa recorrência nos faz relacionar o “amor” do sujeito lírico (v. 15) também a um estado de solidão, tristeza e lamúria, constante e sem solução, assim como o som do mar às vozes de “moribundo” do sujeito – carente, suplicante, magoado, choroso

Pelos aspectos apontados na análise, pode-se concluir que, apesar de Vicente de Carvalho ser considerado um poeta parnasiano, a análise da forma permite-nos perceber uma maior liberdade na organização do poema, se comparado a outros poetas parnasianos como Olavo Bilac. Essa maior liberdade é usada a favor da exploração da musicalidade e da expressão do conteúdo. O embalo rítmico e a atmosfera semântica evocada acabam favorecendo o envolvimento do leitor com o clima lírico. Assim, o sentimento do sujeito poético, ainda que não confessado direta e explicitamente como faziam os românticos, é percebido como acentuado e intenso. Enfim, a exploração da sonoridade das palavras e o apelo aos sentidos do leitor são os recursos que mais qualificam esse poema, antecipando, ademais, valores que serão privilegiados na estética simbolista.

BIBLIOGRAFIA:

COELHO, Nelly Novaes. Literatura & Linguagem. São Paulo: Quíron, 1986. GOLDSTEIN, Norma. Versos, sons, ritmos. São Paulo: Ática, s.d. PROENÇA FILHO, Domício. Estilos de Época na Literatura: através de textos comentados. São Paulo: Ática, 1985.

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