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DC_Manual_de_Direito_Constitucional

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Publicado porNatalia Cassiano
Manual de Direito Constitucional
Apostila de janeiro de 2009
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UNIVERSIDADE PAULISTA - UNIP

CAMPUS DE ASSIS

MANUAL DE DIREITO CONSTITUCIONAL

2 PROFESSOR LUIZ ANTONIO RAMALHO ZANOTI SUMÁRIO 1. O ESTADO – p. 3 ‘1.1. A natureza do Estado – p. 3 1.2. Competência da União – p. 11 1.3. Competência dos Estados – p. 15 1.4. Competência dos Municípios – p. 15 1.5. Competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios – p. 15 1.6. A democracia e seus tipos. Partidos políticos. A participação política – p. 16 1.7. Tirania. Oligarquia. Demagogia. Ditadura. Caudilhismo – p. 21 1.8. Poderes do Estado – p. 23 1.9. Fatores que levam o homem a socializar-se – p. 32 1.10. Conceito de Estado – p. 39 1.11. O Estado se subordina inteiramente ao Direito – p. 40 2. ANTECEDENTES DA CONSTITUIÇÃO – p. 41 2.1. A ideia de constituição – p. 41 2.2. Antecedentes da constituição – p. 41 2.3. Pactos forais e cartas de franquia – p. 44 2.4. Doutrinas do pacto social – p. 45 3. CONCEITO DE CONSTITUIÇÃO – p. 46 3.1. Constituição em sentido sociológico – p. 46 3.2. Constituição em sentido material – p. 46 3.3. Constituição em sentido formal – p. 46 3.4. Elementos da constituição e suas classificações – p. 46 4. O PODER CONSTITUINTE – p. 47 4.1. Conceito de Poder Constituinte – p. 47 5. DIREITOS E GARANTIAS INDIVIDUAIS NA CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1.998: HISTÓRICO E EXTENSÃO – p. 48 5.1. Histórico dos Direitos Fundamentais – p. 48 5.2. Extensão dos Direitos Fundamentais – p. 49 6. HISTÓRIA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS – p. 53 6.1. Antecedentes da Declaração de Direitos – p. 53 6.2. Os direitos fundamentais de primeira geração – p. 54 6.3. Os direitos fundamentais de segundas geração – p. 55 6.4. Os direitos fundamentais de terceira geração – p. 56 6.5. Os direitos fundamentais de quarta geração – p. 57 6.6. A classificação conforme a Constituição Federal – p. 57 6.7. As declarações universais de direitos – p. 58 6.8. Conceito de Direitos e Garantias Individuais consagrados na Constituição Federal de 1.988 e suas extensões, princípios e fundamentos epistemológicos – p. 61 BIBLIOGRAFIA – p. 73

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1. O ESTADO 1.1. A natureza do Estado Segundo a definição constitucional, Estado é a pessoa jurídica territorial soberana. É uma comunidade organizada politicamente, ocupando um território definido, normalmente sob Constituição, e dirigida por um governo, possuindo soberania reconhecida internamente e por outros países. País é um território social, política, cultural e geograficamente delimitado. Nação é o conjunto dos indivíduos, geralmente da mesma raça, que habitam o mesmo território, falam a mesma língua, têm os mesmos costumes e obedecem à mesma lei (sentido restrito). É uma sociedade natural de homens, na qual a unidade de território, de origem, de costumes, de língua e a comunhão de vida criaram a consciência social. O conceito de nação foi criado artificialmente e desenvolvido, a partir do Século XVIII, para envolver o povo em conflitos de interesses alheios. Nação é conceito de reduzido significado jurídico, tendo mais importância no plano sociológico. O conceito de nação não equivale ao de povo. Embora no Século XVIII, durante a Revolução Francesa de 1.789, passasse a ser empregado com o sentido de povo como unidade homogênea, ou então a quaisquer conceitos referentes a povo, nação não é vocábulo apropriado para qualificar a mesma situação jurídica de povo. O conceito de nação também não equivale ao de Estado. Estado é a nação politicamente organizada. É possível haver um Estado com mais de uma nação, como no caso do Império austro-húngaro, em que havia pelo menos duas nações que em nada se identificavam, a começar pela língua. Para que exista Estado, é necessário que haja uma população, reunida sobre certo território, submetida às mesmas leis, e que essas leis sejam elaboradas pelo órgão representativo dessa população. Estado é conceito político e jurídico, enquanto nação é eminentemente sociológico. O conceito de nação é, muitas vezes, confundido com o de Estado porque o conceito de nação, em lugar de Estado, deve-se ao romantismo político do Século XIX, que elevou o termo nação ao de um elevado ideal, servindo de base ideológica para a unificação do Estado italiano (Cavour e Mazzini) e do Império Germânico (Bismarck). De forma simplificada, o Estado é uma criação humana, destinada a manter a coexistência pacífica dos indivíduos, a ordem social, de forma que os seres humanos consigam se desenvolver, e proporcionar o bem-estar a toda sociedade1.
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Sociedade é o conjunto relativamente complexo de indivíduos de ambos os sexos e de todas as idades, permanentemente associados e equipados de padrões culturais comuns, próprios para garantir a continuidade do todo e a realização de seus ideais. Ou seja, a sociedade abrange os diversos grupos parciais que se formam em seu interior, como a família, as igrejas, os clubes. Um conjunto numeroso de pessoas, mesmo que unido por determinados ideais, somente será considerado como sociedade se reunir determinados elementos, comuns a todas as sociedades. Se não forem encontrados esses elementos, o conjunto de pessoas reunidas será mero agrupamento, mas não sociedade. Os elementos necessários para que um grupo de pessoas possa ser reconhecido como sociedade são: a) ter uma finalidade social comum; b) manifestar-se ordenadamente, em conjunto; e c) existir um poder social.

4 É o Estado o responsável por dar força de imposição ao Direito, pois é ele que detém o papel exclusivo de aplicar as penalidades previstas pela Ordem Jurídica. Assim, o Estado pode ser definido como o exercício de um poder político, administrativo e jurídico, exercido dentro de um determinado território, e imposto para aqueles indivíduos que ali habitam. Os elementos que caracterizam o Estado são: • População > entende-se pela reunião de indivíduos num determinado local, submetidos a um poder central. O Estado vai controlar essas pessoas, visando, através do Direito, o bem comum. A população pode ser classificada como Nação, quando os indivíduos que habitam o mesmo território possuem, como elementos comuns, a cultura, a língua, a religião, e sentem que há, entre eles, uma identidade. Ou também como povo, quando há reunião de indivíduos num território, e que apesar de se submeterem ao poder de um Estado, possuem nacionalidades, cultura, etnias e religiões diferentes. Território > espaço geográfico onde reside determinada população. É o limite de atuação dos poderes do Estado. Vale dizer que não poderá haver dois Estados exercendo seu poder num único território, e os indivíduos que se encontram num determinado território estão obrigados a se submeterem a ele [Estado]. A noção de território nem sempre de grande importância para o poder central. Na polis, composta por um centro urbano e por uma área rural que a circundava, a clara delimitação do território não tinha grande importância, já que praticamente inexistiam disputas por fronteiras. Foi apenas na Idade Média, com o surgimento de diversas ordens de autoridades, que surgiu a preocupação de delimitar o território onde determinado poder deveria ser exercido. Soberania > é o exercício do poder do Estado, internamente e externamente. O Estado, dessa forma, deverá ter ampla liberdade para controlar seus recursos, decidir os rumos políticos, econômicos e sociais internamente, e não depender de nenhum outro Estado ou órgão internacional. A essa autodeterminação do Estado dá-se o nome de soberania.

Pode-se citar, como as principais correntes de pensamento: a) a positivista (ou universalista), de Augusto Comte, para a qual a sociedade humana é o objeto da Sociologia; b) a defendida por Spencer e Durkheim, que entende que, uma vez que houve e há diversas sociedades, no espaço e no tempo (sociedade romana, sociedade grega, sociedade americana), o conceito é por demais complexo para ser considerado como um todo, como um objeto sociológico; c) aquela que considera a sociedade como mera abstração, sendo que o que existe de concreto são as relações sociais; d) aquela que considera que o que existe de concreto são grupos sociais (grupos familiares, econômicos, religiosos). Comunidade, por sua vez, é um grupo social de existência mais ou menos permanente, formado por afinidades psicológicas ou espirituais entre seus membros. As principais diferenças entre sociedade e comunidade são: a) a sociedade é formada com a finalidade de perseguir um objetivo comum a seus membros; a comunidade preexiste à consciência de seus membros de que existe, e tem por finalidade a própria preservação; b) as relações entre os membros da sociedade são regidas por vínculos jurídicos; as relações entre os membros da comunidade não são regidas por normas jurídicas; c) na sociedade, as manifestações de seus membros ocorrem de modo juridicamente ordenado; na comunidade, os comportamentos do conjunto de seus membros guiam-se pelos sentimentos comuns entre eles; e d) na sociedade, existe um poder central de comando, estabelecido e reconhecido pela ordem jurídica; na comunidade, inexiste poder central de comando, havendo somente, em alguns casos, centros de influência sobre os demais membros. Uma comunidade pode transformar-se em uma sociedade quando seus membros decidem, soberana e voluntariamente, perseguir finalidades comuns.

5 A soberania do Estado consiste na característica de não se sujeitar a nenhum outro ordenamento jurídico que não seja o seu próprio. Significa que, por exemplo, uma ordem judicial prolatada em país estrangeiro não vincula qualquer outro Estado a seu cumprimento. Dizer que um Estado é soberano significa que este pode editar seu próprio direito, no mais alto grau, ou seja, editar sua Constituição. Significa, também, que nenhum outro Estado pode interferir em sua ordem jurídica. Soberania deriva do latim medieval superanus. Na Idade Média, os barões feudais eram soberanos em seus feudos, e o rei somente era soberano em terras de sua propriedade. Naquele período, soberania designava o que hoje se denomina soberania interna: cada barão, em sua baronia, era o poder supremo, o soberano. Quando a autoridade do rei se impôs a todos os barões, e estes passaram a lhe prestar vassalagem, o único soberano em suas terras passou a ser o rei. Assim, o conceito de soberania, que estava, inicialmente, ligado à posse da terra, transferiu-se para a pessoa do rei, designando, de modo específico, o poder real. Então, soberano passou a ser o monarca, e soberania, a autoridade da coroa. Rousseau, na obra ‘O Contrato Social’2, publicada em 1.762, transfere o centro de poder do Estado, representado pelo governante, para o povo, caracterizando a soberania como inalienável e indivisível. Rousseau cria a doutrina do contrato social. A espécie de soberania conceituada por Rousseau é a denominada soberania popular. O conceito de soberania popular serviu como base para a luta contra o poder dos monarcas. Antes, as lutas religiosas e dinásticas, que mantinham situações de guerras constantes, sem qualquer interesse para o povo, praticamente anulavam as tentativas de afirmação dos Estados como ordens soberanas em determinados territórios. Rousseau considerava a soberania como inalienável porque ela não pode ser transferida para ninguém em particular, nem representada por qualquer pessoa, já que resulta do exercício da vontade geral do povo. Rousseau considerava a soberania como indivisível, porque, sendo expressão da vontade geral do povo, somente pode manifestar-se se houver participação do conjunto dos cidadãos. Ele estabeleceu os limites da soberania afirmando que o pacto social confere poder político a determinado grupo, que o usa sobre todos os demais membros. No entanto, esse poder não deve extravasar os limites das convenções, não pode impor aos cidadãos medidas inúteis ou descabidas, nem pode exigir diferentemente de cada súdito. Para Rousseau, o poder somente se legitima quando tem origem na vontade de todos os governados. A inalienabilidade da soberania significa que ela não pode ser transferida a quem legitimamente não a detém. A soberania do Estado é inalienável.

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A doutrina do contrato social, que começou a ser formulada no Século XVI, desenvolvendo-se gradativamente nos dois séculos seguintes, explica que a sociedade delegava ao monarca o poder de governar, para que evitasse o conflito entre os membros da sociedade. Essa delegação de poder decorria de um contrato social, em que os membros da sociedade eram parte, e abdicavam de parcela de sua liberdade. O monarca era o beneficiário da delegação de poder, não sendo parte do contrato social.

6 A imprescritibilidade da soberania significa que não tem prazo de duração determinado, ou seja, o poder não se extingue, exceto se obrigado a desaparecer por força de outro poder a ele superior; a soberania do Estado é inalienável. Povo é denominação genérica do conjunto de todos os indivíduos submetidos ao Estado, e por ele reconhecido. Cidadão é denominação particular do indivíduo que participa da sociedade política; os que não participam ativamente, e se submetem ao Estado, são denominados sujeitos. Nacionalidade é o conjunto de vínculos políticos e jurídicos entre alguém e determinado Estado, em razão do local de nascimento, da ascendência (paterna ou materna) ou da manifestação de vontade do interessado, integrando o indivíduo no povo de um país, ou seja, é o status do indivíduo perante o Estado, sendo um de seus elementos constitutivos. Cidadania é o vínculo entre o indivíduo e determinado Estado. Assim, a nacionalidade é condição necessária da cidadania, mas não suficiente. A cidadania pode ser exercida de forma ativa (que consiste em poder votar, escolher os governantes), ou de forma passiva (que consiste em poder ser eleito). Somente pode exercer a cidadania passiva quem for, também, cidadão ativo. O brasileiro pode adquirir o status de ‘cidadão ativo’ aos 16 anos; aos maiores de 18 e menores de 70 anos, obriga, a lei, a inscrição como eleitor e o voto (Constituição Federal, art. 14, § 1°, I e II, b). O cidadão português poderá inscrever-se como eleitor, no Brasil, desde que tenha residência permanente aqui, e haja reciprocidade com relação ao brasileiro, isto é, que ao brasileiro residente em Portugal, seja, também, garantido o direito de inscrever-se como eleitor (Constituição Federal, art. 12, § 1°). A Constituição Federal, art. 14, II, a, b, e c, dispõe que podem tornar-se cidadãos ativos, facultativamente, os analfabetos, os maiores de 70 anos, e os maiores de 16 e menores de 18 anos. A União é formada pela reunião dos entes integrantes da Federação. É pessoa jurídica de direito público interno e, no âmbito internacional, representa com soberania o Estado Brasileiro. O poder político é uma energia capaz de coordenar e impor decisões, visando à realização de determinados fins. É superior a todos os outros poderes sociais, os quais reconhece, rege e domina, visando a ordenar as relações entre esses grupos de indivíduos entre si e reciprocamente, de maneira a manter um mínimo de ordem e estimular o máximo de progresso à vista do bem comum. Possui três características fundamentais: • unidade • indivisibilidade • indelegabilidade A administração é o instrumental do qual dispõe o Estado para pôr em prática as escolhas políticas do País. É o conjunto de órgãos instituídos para consecução dos objetivos do governo. Isto toma a definição de governo como conjunto de Poderes e órgãos constitucionais.

7 Governo é o conjunto de órgãos mediante os quais a vontade do Estado é formulada, expressada e realizada, ou, o conjunto de órgãos supremos a quem incumbe o exercício das funções do poder político. O governo e a administração, como criações abstratas da Constituição e das leis, atuam por intermédio de suas entidades (pessoas jurídicas), de seus órgãos (centros de decisão) e de seus agentes (pessoas físicas investidas em cargos e funções). • Entidades Estatais são as pessoas jurídicas de direito público que integram a estrutura constitucional do Estado, e têm poderes políticos e administrativos. São a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios. Destas, a única soberana é a União, e as demais têm apenas autonomia política, administrativa e financeira. • Entidades Autárquicas são pessoas jurídicas de Direito Público, de natureza meramente administrativa, criadas por lei específica, para a realização de atividades, obras ou serviços descentralizados da entidade estatal que os criou. Funcionam e operam na forma estabelecida na lei instituidora e nos termos de seu regulamento. Podem desempenhar atividades econômicas, educacionais, previdenciárias e quaisquer outras outorgadas pela entidade estatal-matriz, mas, sem a subordinação hierárquica, sujeitas apenas ao controle finalístico de sua administração e da conduta de seus dirigentes; autarquia é o próprio braço do Estado; tem personalidade jurídica, mas, pertence à administração indireta. Exemplo: INSS. • Entidades Fundacionais são pessoas jurídicas de Direito Público, de natureza meramente administrativa, criadas por lei específica, para a realização de atividades, obras ou serviços descentralizados da entidade estatal que a criou. Funcionam e operam na forma estabelecida na lei instituidora e nos termos de seu regulamento. As autarquias podem desempenhar atividades econômicas, educacionais, previdenciárias e quaisquer outras outorgadas pela entidade estatal-matriz, mas, sem subordinação hierárquica, sujeitas apenas ao controle finalístico de sua administração e da conduta de seus dirigentes. • Entidades Paraestatais são pessoas jurídicas de Direito Privado que, por lei, são autorizadas a prestar serviços ou realizar atividades de interesse coletivo ou público, mas, não exclusivos do Estado. Quando o Estado, por necessidade, resolveu ingressar em algum setor do mercado – por exemplo, para desenvolver a indústria petroquímica -ele criou a Petrobras atender às necessidades da população. As entidades paraestatais são autônomas, administrativa e financeiramente, têm patrimônio e operam em regime da iniciativa particular, na forma de seus estatutos, ficando sujeitas apenas à supervisão do órgão da entidade estatal a que se encontrem vinculadas, para o controle de desempenho estatuário. São os denominados ‘entes de cooperação’ com o Estado. Exemplos: Sesi, Senai, Sesc, • Entidades Empresariais são pessoas jurídicas de Direito Privado, instituídas sob a forma de sociedade de economia mista ou empresa pública, com a finalidade de prestar serviço público que possa ser explorado no modelo empresarial, ou de exercer atividade econômica de relevante interesse coletivo. Sua criação deve ser autorizada por lei específica, cabendo ao Poder Executivo as providências complementares para sua instituição. Exemplos de sociedade de economia mista: Eletrobrás, Banco do Brasil S/A, Petrobras. Exemplos de empresa pública: Correios, BNDES. É importante notar que todas as entidades têm personalidade jurídica. Segundo Aristóteles3, há três formas de governo:
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Aristóteles (em grego Αριστοτέλης) nasceu em Estagira, na Calcídica (384 a.C. - 322 a.C.). Filósofo grego, aluno de Platão e professor de Alexandre, o Grande, é considerado um dos maiores pensadores de todos os tempos e criador do pensamento lógico.

8 • • • realeza; aristocracia democracia (ou república).

Para Aristóteles, realeza é a forma de governo em que apenas um indivíduo tem o poder. Para ele, aristocracia é a forma de governo em que um grupo reduzido de indivíduos detém o poder. Acentua, ainda, que democracia é a forma de governo exercida por todo o povo, no interesse da sociedade. Para Aristóteles, a realeza se degenera em tirania; a aristocracia em oligarquia; e a democracia, em demagogia. Maquiavel4 propõe nova classificação de formas de governo, em 1.531, baseado na teoria que desenvolve na obra ‘Discursos sobre a Primeira Década’, de Tito Lívio, em que defende a existência de ciclos de governo. Essa teoria considera que o ponto de partida da sociedade é um estado anárquico, que evolui para uma organização chefiada por um indivíduo mais forte, depois por outro mais justo. Esse último passa o poder para seus descendentes, degenerando o sistema em tirania. A tirania é substituída por um governo aristocrático, que, por sua vez, degenera em uma oligarquia. Em etapa posterior, a oligarquia dá lugar a um governo do povo, que, no entanto, degenera e retorna ao sistema primitivo anárquico. Para Maquiavel, a única forma de quebrar esse ciclo seria pela reunião de monarquia, aristocracia e democracia em um único governo. Para Montesquieu5, existem três formas de governo:
Aristóteles figura entre os mais influentes filósofos gregos, ao lado de Sócrates e Platão, que transformaram a filosofia pré-socrática, construindo um dos principais fundamentos da filosofia ocidental. Aristóteles prestou contribuições fundantes em diversas áreas do conhecimento humano, destacando-se: ética, política, física, metafísica, lógica, psicologia, poesia, retórica, zoologia, biologia, história natural. É considerado, por muitos, o filósofo que mais influenciou o pensamento ocidental. Por ter estudado uma variada gama de assuntos, e por ter sido também um discípulo que em muito sentidos ultrapassou o mestre, Platão, ele é conhecido como ‘O Filósofo’. Aristóteles também foi chamado de o estagirita, pela terra natal, Estagira. 4 Nicolau Maquiavel, em italiano Niccolò Machiavelli, (Florença, 3 de maio de 1.469 — Florença, 21 de junho de 1.527) foi um historiador, poeta, diplomata e músico italiano do Renascimento. É reconhecido como fundador do pensamento e da ciência política moderna, pela simples manobra de escrever sobre o Estado e o governo como realmente são e não como deveriam ser. Os recentes estudos do autor e da sua obra admitem que seu pensamento foi mal interpretado historicamente. Desde as primeiras críticas, feitas postumamente por um cardeal inglês, as opiniões, muitas vezes contraditórias, acumularam-se, de forma que o adjectivo maquiavélico, criado a partir do seu nome, significa esperteza, astúcia. Viveu a juventude sob o esplendor político de Florença durante o governo de Lourenço de Médici e entrou para a política aos 29 anos de idade, no cargo de Secretário da Segunda Chancelaria. Nesse cargo, Maquiavel observou o comportamento de grandes nomes da época, e a partir dessa experiência retirou alguns postulados para sua obra. Depois de servir em Florença, durante catorze anos, foi afastado e escreveu suas principais obras. Conseguiu, também, algumas missões de pequena importância, mas jamais voltou ao seu antigo posto como desejava. Como renascentista, Maquiavel se utilizava de autores e conceitos da Antiguidade Clássica de maneira nova. Um dos principais autores foi Tito Lívio, além de outros lidos através de traduções latinas, e entre os conceitos apropriados por ele, encontram-se o de virtù e o de fortuna. 5 Charles-Louis de Secondat, ou simplesmente Charles de Montesquieu, senhor de La Brède ou barão de Montesquieu (castelo de La Brède, próximo a Bordéus, 18 de janeiro de 1.689 — Paris, 10 de fevereiro de 1.755), foi um político, filósofo e escritor francês. Ficou famoso pela sua Teoria da Separação dos Poderes, atualmente consagrada em muitas das modernas constituições internacionais. Aristocrata, filho de família nobre, cede recebeu formação iluminista com padres oratorianos. Revelou-se um crítico severo e irônico da monarquia absolutista decadente, bem como do clero católico. Adquiriu sólidos

9 • • • republicano monárquico despótico.

Montesquieu ensina que governo republicano é aquele em que o povo, ou parcela dele, possui o poder soberano. Para Montesquieu, governo monárquico é aquele em que apenas um indivíduo governa, de acordo com as leis existentes. Montesquieu explica que governo despótico é aquele em que apenas um indivíduo governa, realizando tudo segundo sua própria vontade, sem levar em conta as leis existentes. Para Montesquieu, a república existe em território relativamente reduzido, enquanto a monarquia exige território de maiores dimensões, e o despotismo, maior território ainda. Montesquieu assevera que a república pode ser de duas espécies: • aristocrática • democrática. Aristocracia (do grego aristos = o melhor, o mais nobre + kratia = domínio, comando) é a forma de governo dos mais capazes, dos melhores. As principais características do regime político democrático, embora não exista consenso definitivo sobre o conceito de "democracia", são: • livre participação dos governados nas decisões fundamentais dos governantes, que agem como verdadeiros mandatários • eleições livres e periódicas • garantias legais de efetiva proteção aos direitos dos cidadãos, tais como liberdade de associação, de informação e de deslocamento. No regime político autoritário, determinado grupo governante exerce o poder dentro de um regime de legalidade preexistente, por eles estabelecido e imposto à sociedade, com pouca ou nenhuma participação popular nas decisões. No regime político totalitário, existe uma corrente ideológica única, imposta por partido de massa, também único, de forma que o poder político é exercido de forma concentrada e centralizada, por um grupo dominante, que se perpetua no governo, somente podendo ser dele afastado por meio de processos de ruptura, frequentemente com emprego de violência, como revolução, golpe de estado, guerra civil, ou guerrilha. Forma de governo é expressão que indica se o poder é exercido de modo vitalício ou temporário. As principais formas de governo atualmente existentes são: • monarquia • república.
conhecimentos humanísticos e jurídicos, mas também frequentou, em Paris, os círculos da boêmia literária. Em 1.714, entrou para o tribunal provincial de Bordéus, que presidiu de 1.716 a 1.726. Fez longas viagens pela Europa e, de 1.729 a 1.731, esteve na Inglaterra. Proficiente escritor, concebeu livros importantes e influentes, como ‘Cartas persas’ (1.721), ‘Considerações sobre as causas da grandeza dos romanos e de sua decadência’ (1.734) e ‘O Espírito das leis’ (1.748), a sua mais famosa obra.

10 A monarquia, que tende a ser vitalícia, pode ser hereditária ou eletiva, conforme o poder seja exercido por um rei, respectivamente, segundo uma linha de sucessão genealógica, ou segundo um processo de escrutínio (votação). Pode, ainda, ser classificada em democrática (quando o Parlamento tem efetiva função legislativa e independente) e aristocrática (há uma burocracia estatal, constituída geralmente por membros da nobreza, que exercem grande influência sobre o rei). Modernamente, nos países desenvolvidos, onde ainda existe esse sistema de governo, fala-se em monarquia democrática constitucional, onde a função e a atuação do rei são legalmente limitadas. O vocábulo república, formado pela justaposição de res = coisa + pubblica = do povo, significa, literalmente, coisa pública. Refere-se ao próprio interesse público, isto é, aquilo que faz parte da sociedade. República é a forma de governo em que o poder é exercido por uma pessoa ou por um colegiado. O governante (ou os governantes) é eleito pelo povo, direta ou indiretamente, e inexistem direitos sucessórios dos detentores do poder. Os romanos entendiam a res pubblica como a nova forma de organização do poder após a exclusão dos monarcas. A res pubblica dos romanos corresponde ao conceito grego de politeia, em que o interesse comum e a conformidade a uma lei comum são os elementos pelos quais uma comunidade afirma a sua justiça. Na Idade Média6, usava-se os termos regnum e civitas, para designar as formas de poder então existentes. Civitas, communitas e populus designavam pequenas Repúblicas. A respublica christiana designava a ordem e a unidade da sociedade cristã na coordenação da Igreja e do Império, os dois poderes universais instituídos por Deus para manter, na terra, a paz e a justiça. Na Idade Moderna7, o vocábulo passa a designar, inicialmente, tanto a monarquia quanto a aristocracia, desde que possuam um direito ao governo, contrapondo-se a regimes baseados na anarquia e na violência. A seguir, com Kant, o termo "república" passa a constituir-se num ideal da razão prática, o iuris consensus, de Cícero, que se concretiza na Constituição.
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A Idade Média ou Idade Medieval foi um período intermediário numa divisão esquemática da História da Europa em quatro eras, a saber: a Idade Antiga, a Idade Média, a Idade Moderna e a Idade Contemporânea. O período da Idade Média foi tradicionalmente delimitado com ênfase em eventos políticos. Nesses termos, teriase iniciado com a desintegração do Império Romano do Ocidente, no Século V (em 476 d. C.), e terminado com o fim do Império Romano do Oriente, com a Queda de Constantinopla, no Século XV (em 1.453 d.C.). 7 A Idade Moderna é um período específico da História do Ocidente. Destaca-se das demais por ter sido um período de transição por excelência. Tradicionalmente aceita-se o início estabelecido pelos historiadores franceses, 1.453 quando ocorreu a Tomada de Constantinopla, pelos turcos otomanos, e o término com a Revolução Francesa, em 1.789. Entretanto, apesar de a queda de Constantinopla ser o evento mais aceito, não é o único. Tem sido propostas outras datas para o início deste período, como a Conquista de Ceuta, pelos portugueses, em 1.415, a viagem de Cristóvão Colombo ao continente americano, em 1.492 ou a viagem à Índia de Vasco da Gama, em 1.497. A dificuldade da delimitação cronológica do período se deve, principalmente, às divergências de interpretação quanto à origem e evolução do sistema capitalista. Contudo, o período histórico que vai do Século XV ao XVIII é, genericamente percebido com um "período de transição". A época moderna pode ser considerada, exatamente, como uma época de "revolução social", cuja base consiste na "substituição do modo de produção feudal pelo modo de produção capitalista".

11 Modernamente, a república contrapõe-se à monarquia. Na república, existe, em geral, participação popular no processo político, o que aproxima o significado atual do vocábulo, ao de democracia. As principais características da república são: • eletividade do governante • temporariedade do governo • responsabilidade Na república, o governante não é imposto por uma minoria, nem chega ao poder em razão de direito hereditário. Deve haver eleições para os governantes, em que o povo possa livremente exercer seu direito de escolha. Na república, o Chefe do Governo recebe um mandato popular, a ele conferido por eleição livre. Esse mandato não é indefinido, devendo o governo ser exercido por período limitado e determinado por lei. Na república, o Chefe de Governo deve prestar contas de todos os seus atos políticos. Essa prestação de contas pode ser feita diretamente ao povo, ou a um órgão oficial de representação popular. A república primitiva surge na História no final do Século VI a.C., na região da Toscana (Itália), quando o rei etrusco, Tarquínio, foi deposto. Anteriormente, desde seu estabelecimento nesta região, no Século VIII a.C., os etruscos viviam em cidades, unidas por uma confederação, e governadas por reis (locumons). Com a queda da monarquia surge uma forma incipiente de república, governada por magistrados e por colegiados anualmente eleitos. Em Roma, o termo "república" designava o próprio Estado romano, e não sua forma de governo. Ou seja, quando se fala em República Romana, está referindo-se a Estado Romano, em especial no período que se inicia em 509 a.C. e finda em 31 a.C. Para Jean Bodin8, república designa tanto a monarquia quanto a aristocracia e a democracia, desde que dotadas de um direito de governar. Para Maquiavel, somente existem duas formas de governo: • república • principado (ou monarquia). Para ele, na república os magistrados são eleitos, enquanto no principado, são designados pelo governante. 1.2.
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Competência da União

Jean Bodin (Angers, 1.530 — Laon, 1.596) foi um jurista francês, membro do Parlamento de Paris e professor de Direito em Toulouse. Ele é considerado, por muitos, o pai da Ciência Política, devido a sua teoria sobre soberania. Baseou-se nesta mesma teoria para afirmar a legitimação do poder do homem sobre a mulher e da monarquia sobre a gereontocracia. Ele escreveu diversos livros, mas a Inquisição condenou a muitos deles porque o autor demonstrou simpatia pelas teorias calvinistas. Estes calvinistas, chamados Huguenotes, na França, eram processados pela Igreja Católica, assim como outras seitas protestantes ou reformadores cristãos o eram em outros países católicos. Seus livros dividiram opiniões: alguns escritores franceses os admiravam, enquanto Francis Hutchinson foi seu detrator, criticando sua metodologia. As obras escritas por Bodin faziam diversas alusões a julgamentos de bruxos e o procedimento que deveria ser seguido, dando-lhe a reputação de um homem sanguinário.

12 Compete à União, de acordo com o Art. 21, da Constituição Federal: Art. 21. Compete à União: I - manter relações com Estados estrangeiros e participar de organizações internacionais; II - declarar a guerra e celebrar a paz; III - assegurar a defesa nacional; IV - permitir, nos casos previstos em lei complementar, que forças estrangeiras transitem pelo território nacional ou nele permaneçam temporariamente; V - decretar o estado de sítio, o estado de defesa e a intervenção federal; VI - autorizar e fiscalizar a produção e o comércio de material bélico; VII - emitir moeda; VIII - administrar as reservas cambiais do País e fiscalizar as operações de natureza financeira, especialmente as de crédito, câmbio e capitalização, bem como as de seguros e de previdência privada; IX - elaborar e executar planos nacionais e regionais de ordenação do território e de desenvolvimento econômico e social; X - manter o serviço postal e o correio aéreo nacional; XI - explorar, diretamente ou mediante autorização, concessão ou permissão, os serviços de telecomunicações, nos termos da lei, que disporá sobre a organização dos serviços, a criação de um órgão regulador e outros aspectos institucionais; XII - explorar, diretamente ou mediante autorização, concessão ou permissão: a) os serviços de radiodifusão sonora, e de sons e imagens; b) os serviços e instalações de energia elétrica e o aproveitamento energético dos cursos de água, em articulação com os Estados onde se situam os potenciais hidroenergéticos; c) a navegação aérea, aeroespacial e a infra-estrutura aeroportuária; d) os serviços de transporte ferroviário e aquaviário entre portos brasileiros e fronteiras nacionais, ou que transponham os limites de Estado ou Território; e) os serviços de transporte rodoviário interestadual e internacional de passageiros; f) os portos marítimos, fluviais e lacustres; XIII - organizar e manter o Poder Judiciário, o Ministério Público e a Defensoria Pública do Distrito Federal e dos Territórios; XIV - organizar e manter a polícia civil, a polícia militar e o corpo de bombeiros militar do Distrito Federal, bem como prestar assistência financeira ao Distrito Federal para a execução de serviços públicos, por meio de fundo próprio;

13 XV - organizar e manter os serviços oficiais de estatística, geografia, geologia e cartografia de âmbito nacional; XVI - exercer a classificação, para efeito indicativo, de diversões públicas e de programas de rádio e televisão; XVII - conceder anistia; XVIII - planejar e promover a defesa permanente contra as calamidades públicas, especialmente as secas e as inundações; XIX - instituir sistema nacional de gerenciamento de recursos hídricos e definir critérios de outorga de direitos de seu uso; XX - instituir diretrizes para o desenvolvimento urbano, inclusive habitação, saneamento básico e transportes urbanos; XXI - estabelecer princípios e diretrizes para o sistema nacional de viação; XXII - executar os serviços de polícia marítima, aeroportuária e de fronteiras; XXIII - explorar os serviços e instalações nucleares de qualquer natureza e exercer monopólio estatal sobre a pesquisa, a lavra, o enriquecimento e reprocessamento, a industrialização e o comércio de minérios nucleares e seus derivados, atendidos os seguintes princípios e condições: a) toda atividade nuclear em território nacional somente será admitida para fins pacíficos e mediante aprovação do Congresso Nacional; b) sob regime de permissão, são autorizadas a comercialização e a utilização de radioisótopos para a pesquisa e usos médicos, agrícolas e industriais; c) sob regime de permissão, são autorizadas a produção, comercialização e utilização de radioisótopos de meia-vida igual ou inferior a duas horas; d) a responsabilidade civil por danos nucleares independe da existência de culpa; XXIV - organizar, manter e executar a inspeção do trabalho; XXV - estabelecer as áreas e as condições para o exercício da atividade de garimpagem, em forma associativa. Art. 22. Compete privativamente à União legislar sobre: I - direito civil, comercial, penal, processual, eleitoral, agrário, marítimo, aeronáutico, espacial e do trabalho; II - desapropriação; III - requisições civis e militares, em caso de iminente perigo e em tempo de guerra; IV - águas, energia, informática, telecomunicações e radiodifusão; V - serviço postal;

14 VI - sistema monetário e de medidas, títulos e garantias dos metais; VII - política de crédito, câmbio, seguros e transferência de valores; VIII - comércio exterior e interestadual; IX - diretrizes da política nacional de transportes; X - regime dos portos, navegação lacustre, fluvial, marítima, aérea e aeroespacial; XI - trânsito e transporte; XII - jazidas, minas, outros recursos minerais e metalurgia; XIII - nacionalidade, cidadania e naturalização; XIV - populações indígenas; XV - emigração e imigração, entrada, extradição e expulsão de estrangeiros; XVI - organização do sistema nacional de emprego e condições para o exercício de profissões; XVII - organização judiciária, do Ministério Público e da Defensoria Pública do Distrito Federal e dos Territórios, bem como organização administrativa destes; XVIII - sistema estatístico, sistema cartográfico e de geologia nacionais; XIX - sistemas de poupança, captação e garantia da poupança popular; XX - sistemas de consórcios e sorteios; XXI - normas gerais de organização, efetivos, material bélico, garantias, convocação e mobilização das polícias militares e corpos de bombeiros militares; XXII - competência da polícia federal e das polícias rodoviária e ferroviária federais; XXIII - seguridade social; XXIV - diretrizes e bases da educação nacional; XXV - registros públicos; XXVI - atividades nucleares de qualquer natureza; XXVII - normas gerais de licitação e contratação, em todas as modalidades, para as administrações públicas diretas, autárquicas e fundacionais da União, Estados, Distrito Federal e Municípios, obedecido o disposto no art. 37, XXI, e para as empresas públicas e sociedades de economia mista, nos termos do art. 173, § 1°, III; XXVIII - defesa territorial, defesa aeroespacial, defesa marítima, defesa civil e mobilização nacional; XXIX - propaganda comercial.

15 Parágrafo único. Lei complementar poderá autorizar os Estados a legislar sobre questões específicas das matérias relacionadas neste artigo. 1.3. Competência dos Estados Compete aos Estados, de acordo com o Art. 25, § 1º, da Constituição Federal: Art. 25. Os Estados organizam-se e regem-se pelas Constituições e leis que adotarem, observados os princípios desta Constituição. § 1º - São reservadas aos Estados as competências que não lhes sejam vedadas por esta Constituição. 1.4. Competência dos Municípios Compete aos Municípios, de acordo com o Art. 30, da Constituição Federal: Art. 30. Compete aos Municípios: I - legislar sobre assuntos de interesse local; II - suplementar a legislação federal e a estadual no que couber; III - instituir e arrecadar os tributos de sua competência, bem como aplicar suas rendas, sem prejuízo da obrigatoriedade de prestar contas e publicar balancetes nos prazos fixados em lei; IV - criar, organizar e suprimir distritos, observada a legislação estadual; V - organizar e prestar, diretamente ou sob regime de concessão ou permissão, os serviços públicos de interesse local, incluído o de transporte coletivo, que tem caráter essencial; VI - manter, com a cooperação técnica e financeira da União e do Estado, programas de educação infantil e de ensino fundamental; VII - prestar, com a cooperação técnica e financeira da União e do Estado, serviços de atendimento à saúde da população; VIII - promover, no que couber, adequado ordenamento territorial, mediante planejamento e controle do uso, do parcelamento e da ocupação do solo urbano; IX - promover a proteção do patrimônio histórico-cultural local, observada a legislação e a ação fiscalizadora federal e estadual.  Combina com essa reserva de campos específicos, nem sempre exclusivos, mas apenas privativos, possibilidade de delegação, áreas comuns em que se prevêem atuações paralelas da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios e setores concorrentes entre União e Estados em que a competência para estabelecer políticas gerais, diretrizes gerais ou normas gerais cabe à União, enquanto se defere aos Estados e até aos Municípios a competência suplementar. 1.5. Competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios Compete à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios, em comum, de acordo com o Art. 23, da Constituição Federal: Art. 23. É competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios:

16 I - zelar pela guarda da Constituição, das leis e das instituições democráticas e conservar o patrimônio público; II - cuidar da saúde e assistência pública, da proteção e garantia das pessoas portadoras de deficiência; III - proteger os documentos, as obras e outros bens de valor histórico, artístico e cultural, os monumentos, as paisagens naturais notáveis e os sítios arqueológicos; IV - impedir a evasão, a destruição e a descaracterização de obras de arte e de outros bens de valor histórico, artístico ou cultural; V - proporcionar os meios de acesso à cultura, à educação e à ciência; VI - proteger o meio ambiente e combater a poluição em qualquer de suas formas; VII - preservar as florestas, a fauna e a flora; VIII - fomentar a produção agropecuária e organizar o abastecimento alimentar; IX - promover programas de construção de moradias e a melhoria das condições habitacionais e de saneamento básico; X - combater as causas da pobreza e os fatores de marginalização, promovendo a integração social dos setores desfavorecidos; XI - registrar, acompanhar e fiscalizar as concessões de direitos de pesquisa e exploração de recursos hídricos e minerais em seus territórios; XII - estabelecer e implantar política de educação para a segurança do trânsito. Parágrafo único. Leis complementares fixarão normas para a cooperação entre a União e os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, tendo em vista o equilíbrio do desenvolvimento e do bem-estar em âmbito nacional. 1.6. A democracia e seus tipos. Partidos políticos. A participação política Democracia é o processo de convivência social em que ocorre a afirmação da cidadania de um povo, sendo-lhe garantidos os direitos fundamentais, mediante o exercício direto ou indireto do poder que dele emana, e que visa seu benefício. O conceito clássico de Lincoln traduz, de forma concisa, essa definição: "é o governo do povo, pelo povo e para o povo". Os valores básicos da democracia são: • a liberdade e • a igualdade. Os princípios básicos da democracia são os seguintes: • o da soberania popular, que consiste em ter o povo como fonte única de poder • o da participação do povo no poder, que pode ser de forma direta ou indireta (representação). O modelo consagrado pela Constituição Federal de 1988 é o de democracia representativa, em que este [representantes] são os partidos políticos, sendo também incorporados

17 mecanismos de participação direta do cidadão e princípios de justiça social. Nesse sentido, o modelo almejado é o de uma democracia social, participativa, pluralista, do tipo capitalista. Sociedade pluralista é aquela em que convivem, em liberdade, pessoas que têm interesses contrários, sendo seus conflitos resolvidos dentro de um ordenamento jurídico aceito pela maioria, que reflete a noção de justiça de um povo, e garante os direitos fundamentais do indivíduo e da coletividade. Poliarquia é a sociedade pluralista, em que o poder é exercido de forma repartida por inúmeros grupos, de forma que o sistema político somente funciona como resultado de contínua negociação política entre esses grupos. A concepção liberal da sociedade surgiu com a Revolução Francesa e a Independência Americana, sendo reflexo do Iluminismo, inspirando as Constituições da época, e as que se seguiram, e que privilegiavam a liberdade individual, reputando-a mais importante do que a igualdade, embora este valor também delas constasse. A doutrina costuma distinguir os diversos tipos de democracia em direta, indireta e semidireta. A democracia direta é uma forma ideal de exercício de poder, pela qual todos os cidadãos participam ativamente de todos os processos decisórios da sociedade. É prática quase inexistente, nos dias de hoje. Na Grécia, era praticada a democracia direta, a também chamada democracia clássica, na qual os membros de uma polis decidiam sem intermediários ou representantes. Pode-se dizer que, atualmente, existe apenas em alguns cantões da Suíça. Em todos os pequenos cantões suíços existe a Landsgemeinde, uma assembleia aberta a todos os cidadãos, que devem, obrigatoriamente, comparecer e votar quando de sua reunião ordinária, geralmente anual, e também durante as reuniões extraordinárias. A doutrina considera que a democracia direta, tal como praticada nos cantões, é anacrônica, apontando os seguintes pontos negativos em seu funcionamento: • só se mantém nos cantões de população mais reduzida; • um Conselho cantonal eletivo efetua um trabalho prévio à reunião dos Landsgemeinde, cujas reuniões servem exclusivamente para aprovar ou rejeitar o que o Conselho estabeleceu, sem maiores discussões • problemas de maior complexidade técnica escapam à competência dos Landsgemeinde. As dificuldades para a existência de uma democracia direta são basicamente as seguintes: • seria impossível que milhões de pessoas participassem, direta e pessoalmente, de inúmeras decisões, exigidas pela sociedade moderna, que é uma sociedade de massas • a crescente complexidade técnica dos assuntos discutidos dificulta a ampla compreensão dos temas discutidos por todos os membros da sociedade. A democracia indireta (ou representativa, no modelo clássico implantado pelas revoluções liberais, a partir do Século XVIII) é aquela em que o governo é exercido por representantes do povo, livre, periódica e legalmente eleitos pelos governados, por meio do sufrágio universal, devendo tomar decisões em nome de toda a sociedade

18 A principal justificativa oferecida era a de constituir uma reação aos excessos do absolutismo, ocorridos na França. A democracia representativa pode ser pura (ou tradicional) ou exercida pelos partidos (partidária). Na democracia tradicional, os governantes constituem uma classe aristocrática, eleita por intermédio do chamado sufrágio censitário, em que a maior parte dos cidadãos não tem direito a voto, podendo eleger e ser eleitos somente os do sexo masculino e, dentre eles, os mais ricos. Na democracia partidária, os candidatos a governantes devem filiar-se a partidos políticos, que elaboram programas de governo, com o qual se identificam e se propõem a executá-los, depois de eleitos. Partido político é uma associação de pessoas físicas, formada e organizada em torno de princípios ideológicos e de um programa de ação, neles inspirados, que busca a defesa de determinados interesses, mediante a conquista legal do poder, e que atua como canal de representação política dos eleitores. Até o Século XVIII não era nítida a distinção entre facção política e partido político. Facção política é um grupo de indivíduos de inclinações comuns, geralmente pouco organizado, conduzidos por um líder, e que marca a transição de um estado de desorganização para a reorganização da comunidade. As pessoas se filiam a partidos políticos para tomar o poder, ou parcela dele, por vias institucionais, e também para participar mais ativamente da vida política de um país. R.: A noção de partido político começou a ser concebida pelo orador e escritor britânico Edmund Burke (1.729 – 1.797), autor da obra ‘Reflexões sobre a Revolução Francesa’. Movimento político é um grupo de indivíduos que comungam de uma mesma ideologia política, intransigentes e contrários a qualquer outra corrente. Grupo de pressão é uma associação temporária de pessoas que visam a determinado objetivo, claro, preciso e pontual. Grupos de pressão têm existência transitória e não visam a tomada do poder, além de existirem sem a necessidade de reconhecimento legal. Partidos políticos são permanentes e visam ao controle do poder, devendo sua existência ser reconhecida ou admitida por lei. A natureza jurídica da representação política é explicada por três teorias: • do mandato representativo, que considera que entre o eleitor e o eleito existe um contrato, similar ao contrato de mandato, do Direito Privado • da investidura, que explica a representação política como a outorga de poder ao eleito para manifestar-se pela totalidade de seus eleitores, deles não recebendo comandos imperativos • do mandato partidário, que interpreta a relação entre eleitor e eleito como fenômeno inserido no modelo da democracia praticada com o concurso dos partidos políticos. De acordo com a Constituição Federal de 1988, art. 17, § 2°, os partidos políticos adquirem personalidade jurídica nos termos da lei civil, o que significa que sua natureza jurídica é de pessoa jurídica de direito privado.

19 Os partidos políticos sujeitam-se às seguintes espécies de controles: • externo, ou seja, uma regulamentação que fixa regras de conduta e respeito a leis penais e de polícia, bem como sobre a obtenção de recursos financeiros • ideológico-programático, que visa a impedir atividades revolucionárias ou subversivas • interno, que garante caráter democrático à organização interna do partido. Os partidos políticos deverão ter caráter nacional (isto é, não poderão ter caráter estadual ou municipal), são proibidos de receber recursos financeiros de entidade ou governo estrangeiros ou de ser a estes subordinados, devendo prestar contas à Justiça Eleitoral e desenvolver atuação parlamentar de acordo com a lei (art. 17, incisos I, II, III e IV) Ao adquirirem personalidade jurídica, na forma da lei civil, devem, obrigatoriamente, registrar seus estatutos no Tribunal Superior Eleitoral - TSE (art. 17, § 2°). São, também, proibidos de utilizar organizações paramilitares (art. 17, § 4°). A atual Constituição Federal permite a livre criação, fusão, incorporação e extinção dos partidos políticos, resguardada a soberania, o regime democrático, o pluripartidarismo e os direitos fundamentais da pessoa humana (art. 17, caput). Além disso, aos partidos políticos é assegurada autonomia para definir sua estrutura interna, organização e funcionamento, devendo seus estatutos estabelecer normas de fidelidade e disciplina partidárias (art. 17, § 1°). Eles têm direito a recursos do fundo partidário e acesso gratuito ao rádio e à televisão, na forma da lei (art. 17, § 2°), que é, atualmente, a Lei n° 4.740/65. Existem hoje os seguintes sistemas partidários: • unipartidário (ou monopartidário) em que um só partido domina o cenário político do país, sistema característico de governos ditatoriais • bipartidário, em que dois partidos disputam as eleições e elegem representantes. Podem existir outros partidos, mas de expressão muito inferior, que não chegam a influir no sistema partidário • pluripartidário (ou multipartidário), em que três ou mais partidos integram o sistema partidário. Em 1.946 havia o sistema era pluripartidário, com três partidos de grande expressão (UDN, PSD e PTB) e alguns de importância regional. Em 1.965, o sistema passou a ser bipartidário, por força do Ato Institucional n° 2, com a criação de dois partidos, a ARENA e o MDB. A partir de 1.979, o sistema voltou a ser pluripartidário, existindo quatro grandes partidos (PMDB, PFL, PT, PSDB), quatro partidos médios (PP, PDT, PSP e PTB), três partidos pequenos (PSB, PL e PC do B) e uma dezena de partidos menores. Embora hoje disseminada e aceita, a democracia partidária, como canal legítimo de exercício da vontade popular, são dirigidas, basicamente, as seguintes críticas a esse modelo, pelo risco que oferece à democracia: • a disputa por verbas, necessárias para custear campanhas eleitorais cada vez mais caras e sofisticadas, permite que grupos de pressão exerçam influência sobre os partidos, deles exigindo, em contrapartida, a defesa de interesses particulares • como corolário, costuma ocorrer manipulação dos meios de comunicação de massa, de modo a influenciar o eleitorado, criando uma opinião pública favorável a determinadas teses, além da personalização do poder

20 • • os partidos políticos, na busca por votos, tendem a desenvolver programas genéricos, que não conflitam com a opinião do eleitorado, num primeiro momento, mas cuja execução demanda decisões específicas os partidos costumam ter nítido caráter oligárquico, sendo dominados por reduzido grupo de pessoas.

A democracia semidireta (que costuma ser incluída, por alguns doutrinadores, no modelo de democracia indireta) consiste em um sistema basicamente representativo, sendo, porém, adotados mecanismos que permitem a participação popular imediata na tomada de determinadas decisões, tais como o referendo e a iniciativa legislativa popular. A democracia é denominada semidireta porque, paralelamente à natureza representativa de seu sistema político, são admitidas, também, formas de intervenção direta dos governados, em algumas das deliberações diretas dos governantes. A Constituição Federal de 1.988 previu, no art. 14, I, II e III, os seguintes mecanismos de democracia semidireta: • o plebiscito • o referendo • a iniciativa popular Plebiscito é a manifestação da vontade do povo, de caráter excepcional, sobre decisões referentes a modificações territoriais (agregações ou desagregações), alterações da forma de governo, instauração de nova forma de governo, e mudanças na estrutura do Estado. O plebiscito pode ser realizado antes ou depois do evento sobre o qual o povo deverá se pronunciar. Se realizado antes, constituirá condição suspensiva do evento. Se realizado depois, o resultado favorável terá caráter de confirmação ou consagração do evento, ao passo que o resultado desfavorável consistirá em condição resolutiva do ato. A Constituição Federal de 1.988 já havia preordenado a realização de plebiscito. Além da previsão do instituto, nos art. 14, I, e 18, § 3° e 4°, a ADCT – Atos das Disposições Constitucionais Transitórias, art. 2°, fixou data para a realização de plebiscito em 07.07.1993, antecipada para 21.04.1993, por força da Emenda Constitucional n° 2, de 25.08.1992, ocasião em que o povo foi chamado a se manifestar sobre a forma (república ou monarquia constitucional) e o sistema de governo (parlamentarismo ou presidencialismo) que deveriam vigorar no país a partir de 01.01.1995. O plebiscito já havia sido usado, anteriormente, no Brasil, em 1.963. Foi convocado um plebiscito para decidir pela continuidade ou pela revogação do sistema parlamentarista adotado em 02.09.1961, com fundamento na Emenda Constitucional n° 4. O resultado desse plebiscito foi o repúdio ao regime parlamentarista, com o consequente retorno ao anterior sistema presidencialista. Referendo (referendum) é uma manifestação da vontade do povo, destinada à aprovação ou desaprovação de um ato normativo, seja ele a própria Carta Constitucional, uma lei ordinária ou um ato jurídico. A origem do referendo situa-se nas antigas ‘Dietas das Confederações’ germânicas e helvéticas, em que o povo era consultado sobre todas as leis, aprovando-as ou rejeitando-as ad referendum, isto é, por meio de votação.

21 O referendo pode ser obrigatório ou facultativo, conforme a Constituição disponha que o ato normativo seja submetido à manifestação do povo, ou se delegar à comunidade ou a um órgão o poder de realizá-lo ou não. Pode ser ante legem ou post legem, conforme se realize antes ou depois do ato normativo. Pode, finalmente, ser constituinte (quando se tratar de Emenda Constitucional) ou legislativo (quando se tratar de lei ordinária). Iniciativa popular é a manifestação direta de um número limitado de eleitores, destinada a apreciar revisão total ou parcial da Constituição, ou a propor novo texto, mediante a apresentação de projeto de lei ou de documento contendo a reivindicação. A iniciativa popular tem origem nos EUA, nos Estado de Dakota do Sul (1.898) e Oregon (1.904). A iniciativa popular pode ser: • formulada • não-formulada. A iniciativa popular formulada é aquela apresentada em forma de lei, contendo a assinatura de um número mínimo de eleitores, e pronta para ser apreciada pelo órgão legislativo competente. A iniciativa popular não-formulada é aquela apresentada de modo não articulado, consistindo em documento descrevendo o objeto da manifestação e a reivindicação dos proponentes, cabendo ao órgão legislativo a redação do texto, em forma de lei, para apreciação. O art. 14, III, da Constituição Federal, prevê a existência do mecanismo da iniciativa popular, dispondo, no art. 61, § 2°, que poderá ser apresentada à Câmara dos Deputados, desde que subscrita por, no mínimo, 1% do eleitorado nacional, distribuídos por pelo menos cinco Estados, com não menos de 0,3% de eleitores de cada um deles. 1.7. Tirania. Oligarquia. Demagogia. Ditadura. Caudilhismo Tirania é uma forma autocrática de exercício do poder político, que se impõe mediante violência e coação. Considera-se que a tirania tenha-se originado na Ásia, onde era uma forma de governo, de onde seguiu para a Grécia, no Século IV a.C. Tirania não tinha o significado atual, de governo antidemocrático, o qual chegou após longa evolução, que distorceu o conceito original. Se se aceitar que o vocábulo tenha origem na Lídia ou em Canaã (de serens), indicava o governo exercido por pessoas de origem nobre. Se for aceita a teoria que defende origem etrusca para a palavra (de turan), o significado original seria de poder. Portanto, em seu significado original, tirania não implica, necessariamente, em poder exercido de modo arbitrário e violento. Na Grécia, a decadência da antiga aristocracia, a partir do Século VI a.C., permite que se instaure uma espécie de governo que tem por objetivo o restabelecimento da ordem, abalada por lutas internas, e também um processo de expansão territorial. O governante, apoiado em sólido aparato militar, exercia o poder com base no prestígio pessoal e no apoio das classes menos privilegiadas, como os comerciantes e o povo em geral. Perdurou por cerca de um século, entrando, depois, em desuso. O conceito de tirania ressurge a partir do Século XVII, na Inglaterra, quando Oliver Cromwell (1.599 -1.658), durante a segunda guerra civil (1.648), declarada pelo Rei Carlos I, torna-se inimigo do rei e induz o Parlamento a condená-lo à morte, em 1.649. Executado o rei,

22 Cromwell, antes deputado da Corte, fez-se nomear Lorde Protetor da Inglaterra, Escócia e Irlanda. Promoveu a dissolução do parlamento por quatro vezes, reprimiu revoltas e deu início à forte expansão naval britânica, apoiada no Navigation Act, de 1.651. Oligarquia (do grego oligos = poucos + archia = governo) significa, literalmente, governo de poucos. Atualmente o termo tem conotação eticamente negativa, significando governo de ricos. O termo oligarquia tem um significado valorativo: quando se diz que um governo é oligárquico, a intenção é classificá-lo como nocivo, isto é, pretende-se condená-lo. O significado descritivo do termo não é inequívoco. Em outras palavras, o emprego do vocábulo visa a chamar a atenção para o fato de que o poder supremo está sendo exercido por um grupo restrito e fechado de pessoas, ligadas entre si por vínculos de sangue ou outros, e que gozam de privilégios particulares, servindo-se do poder para mantê-lo. Atualmente empregamos, para designar o governo nefasto, exercido por minorias: a plutocracia e nepotismo. Plutocracia (do grego ploutos = rico, riqueza + kratia = poder) significa governo baseado na riqueza, ou seja, governo corrupto. Nepotismo (do latim nepote = sobrinho) significa governo de parentes. Estende-se o conceito para governo de amigos. O termo começou a ser empregado na Itália, em relação à atitude de alguns papas, que concediam favores especiais a seus parentes, em particular a sobrinhos (nipote, em italiano). Demagogia (do grego demos = povo + agogia = pela palavra) significa, literalmente, condução do povo pela palavra. É um conjunto de processos políticos utilizados com habilidade por alguns líderes (demagogos), com a finalidade de dirigir as paixões populares para atingir objetivos menos lícitos. Na Grécia antiga, demagogo designava o governante que era hábil orador, e que sabia conduzir o povo. Somente com Aristóteles passou o termo a adquirir um significado negativo em teoria política. Oclocracia (do grego ochlós = multidão + kratia = poder) significa, literalmente, governo exercido pela plebe. Indica o poder ilegítimo, imposto pela parcela ignorante do povo, ao arrepio da lei, de modo a satisfazer seus caprichos, e não para o bem da sociedade. Ditadura (do latim dictatura = comando) é a forma de governo em que todos os poderes se concentram nas mãos de um indivíduo, de um grupo, de uma assembleia, de um partido, ou de uma classe. Caudilhismo é uma forma de comando baseada nas características pessoais do dominador, que exerce o poder de modo mais ou menos arbitrário, razão pela qual frequentemente degenera em tirania. Deriva-se da palavra espanhola caudillo, que significa chefe militar. O caudilhismo surgiu na América espanhola, no período que vai dos primeiros anos da consolidação da Independência dos países da região, por volta de 1.820, durando até cerca de 1.860, quando se concretizaram os anseios de unificação nacional. No caudilhismo, o poder era exercido mediante sua divisão entre chefes locais (os caudilhos), geralmente de origem militar, provenientes, em geral, dos exércitos desmobilizados após

23 1.810, ou de estratos sociais mais baixos, ou ainda, de grupos étnicos minoritários e discriminados. Caudilhismo é uma forma de comando baseada nas características pessoais do dominador, que exerce o poder de modo mais ou menos arbitrário, razão pela qual frequentemente degenera em tirania. Deriva-se da palavra espanhola caudillo, que significa chefe militar. O caudilhismo surgiu na América espanhola, no período que vai dos primeiros anos da consolidação da Independência dos países da região, por volta de 1.820, durando até cerca de 1.860, quando se concretizaram os anseios de unificação nacional. No caudilhismo, o poder era exercido mediante sua divisão entre chefes locais (os caudilhos), geralmente de origem militar, provenientes, em geral, dos exércitos desmobilizados após 1.810, ou de estratos sociais mais baixos, ou ainda, de grupos étnicos minoritários e discriminados. 1.8. Poderes do Estado Os Poderes do Estado, os quais são, na clássica tripartição de Montesquieu, até hoje adotada nos Estados de Direito: o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, independentes e harmônicos entre si (Constituição Federal, art. 2º) e com funções reciprocamente indelegáveis. Estes poderes são imanentes e estruturais do Estado, e a cada um deles corresponde uma função que lhe é constitucionalmente atribuída. • Executivo – É o poder do Estado que, nos moldes da constituição de um país, possui a atribuição de governar o povo e administrar os interesses públicos, cumprindo fielmente as ordenações legais. O executivo pode assumir diferentes faces, conforme o local em que esteja instalado. No presidencialismo, o líder do poder executivo, denominado Presidente, é escolhido pelo povo, para mandatos regulares, acumulando a função de chefe de estado e chefe de governo. O presidencialismo surgiu nos Estados Unidos da América, sendo criado pelo 2° Congresso Continental de Filadélfia (1.775), que conclamou os cidadãos americanos às armas, e nomeou George Washington (1.732 -1.799) comandante das tropas. Em 4 de julho de 1.776 foi formalmente declarada a independência, elaborada por um comitê de cinco membros, presidida por Thomas Jefferson (1.743 – 1.826). Em 1.787 foi proclamada a primeira Constituição dos Estados Unidos, inspirada nos ideais iluministas, que adotava a forma republicana de governo e a separação dos três poderes do Estado. George Washington foi eleito o primeiro Presidente, tomando posse em 1.789. No presidencialismo, indica, a doutrina, os seguintes pontos positivos: funciona melhor nos sistemas em que existem muitos partidos políticos, reduzindo a dependência da boa vontade do Legislativo; o sistema favorece uma tomada mais rápida de decisões e a unidade de comando político. No Presidencialismo, aponta, a doutrina, os seguintes pontos negativos: a) o sistema dá margem ao ênfase exagerado da pessoa do candidato (e não de programas de governo), que não raras vezes "vende" bem sua imagem, convencendo o eleitorado, e derrotando candidatos melhor preparados, mas incapazes de despertar a simpatia da opinião pública; b) a concentração de poderes nas mãos de um único órgão tende a facilitar a prática de atos autoritários e, não raro, de corrupção; e c) o sistema

24 presidencialista apresenta dificuldades para solucionar conflitos sociais ou políticos relevantes. Já no sistema parlamentarista, o executivo depende do apoio direto ou indireto do parlamento para ser constituído e para governar. Este apoio costuma ser expresso por meio de um voto de confiança. Não há, neste sistema de governo, uma separação nítida entre os poderes executivo e legislativo, ao contrário do que ocorre no presidencialismo. O parlamentarismo é o sistema de governo que se vem desenvolvendo e aprimorando desde o Século XVII, especialmente na Inglaterra, quando, da Revolução Gloriosa, de 1.688, resultou a delimitação dos poderes da monarquia, mediante a atribuição ao Parlamento, do poder de elaborar leis, inclusive tributárias. Já no Século XIII, no entanto, ocorreu a formação do Parlamento inglês. O parlamentarismo distingue os papéis de chefe de estado e chefe de governo, ao contrário do presidencialismo, onde os dois papéis são exercidos pela mesma pessoa. No parlamentarismo, o chefe de estado normalmente não detém poderes políticos de monta, desempenhando um papel precipuamente cerimonial, como símbolo da continuidade do Estado. Os principais pontos positivos do parlamentarismo, apontados pela doutrina, são: a) existe, em princípio, melhor entendimento entre o Governo e o Parlamento, porque os Ministros escolhidos representam a corrente preponderante, no órgão legislativo, no momento de sua escolha; b) o parlamentarismo é um sistema de tomada de decisões mais maleável, o que possibilita atuar com eficiência na solução política de crises; e c) o parlamentarismo é sistema mais sensível às exigências sociais e políticas da sociedade. Os principais pontos negativos do parlamentarismo, apontados pela doutrina, são: a) a velocidade de tomada de decisões pode ser reduzida pelo exaustivo processo de discussões e comprometimentos, devido às coligações partidárias; e b) no caso de pluripartidarismo, o sistema resulta em governo instável, fraco e ineficaz, sempre suscetível de alteração nas composições entre os partidos. Nas repúblicas parlamentaristas, o chefe de estado é eleito pelo voto popular ou nomeado pelo parlamento, por prazo determinado (geralmente com o título de Presidente da República). Nas monarquias parlamentaristas, o chefe de estado é o monarca, geralmente um cargo hereditário. Já o chefe de governo, com o título de primeiro-ministro (ou, em alguns casos, presidente do governo ou chanceler), efetivamente conduz os negócios do governo, em coordenação com os demais ministros membros do gabinete. Convém destacar que, além do nível nacional, encontramos o executivo distribuído no nível regional (Governadores de Estados) e no municipal (Prefeitos). • Legislativo – É o aquele que tem o poder de legislar, criar as leis. O Poder Executivo (Presidente da República) fica encarregado de sancionar ou vetar o projeto de lei. No sistema de três poderes proposto por Montesquieu, o poder legislativo é representado pelos legisladores, os quais elaboram as leis que regulam o Estado. O poder legislativo, na maioria das repúblicas e monarquias, é constituído por um congresso, parlamento, assembleias ou câmaras.

25 O objetivo do poder legislativo é elaborar normas de direito de abrangência geral ou individual, que são aplicadas a toda sociedade, objetivando a satisfação de todos. Em regimes ditatoriais, o poder legislativo é exercido pelo próprio ditador ou por câmara legislativa nomeada por ele. Entre as funções elementares do poder legislativo está a de fiscalizar o poder executivo, votar leis orçamentárias e, em situações específicas, julgar determinadas pessoas, como o Presidente da República ou os próprios membros da assembleia. • Judiciário – É exercido pelos juízes e possui a capacidade e a prerrogativa de julgar, de acordo com as regras constitucionais e leis criadas pelo Poder Legislativo em determinado país.

A independência dos poderes significa que a investidura e a permanência das pessoas num dos órgãos não depende da confiança, nem da vontade dos outros, que, no exercício das atribuições que lhe sejam próprias, não precisam, os titulares, consultarem uns aos outros, Na organização dos respectivos serviços, cada um é livre, observadas apenas as disposições constitucionais e legais. A harmonia entre os poderes verifica-se pelas normas de cortesia no trato recíproco e no respeito às prerrogativas e às faculdades a que mutuamente todos têm direito. Quanto à divisão de funções entre os órgãos do poder, pode-se afirmar que não há independência absoluta. Há, ao contrário, interferências que visam ao estabelecimento de um sistema de freios e contrapesos, à busca do equilíbrio necessário à realização do bem da coletividade. Esse sistema de freios e contrapesos (checks and balances) representa o modelo de divisão de poder no qual o poder político é exercido por vários órgãos independentes, de forma que a nenhum deles é permitido agir de forma isolada, sem ser submetido a controle por outro órgão de poder, e que se tem mostrado eficaz processo de prevenção do arbítrio. O Poder Legislativo Federal é exercido pelo Congresso Nacional, que se compõe da Câmara dos Deputados e do Senado Federal (sistema bicameral). Nosso sistema bicameral, a exemplo dos Estados Unidos da América do Norte, é do tipo federativo. Há uma casa legislativa composta por representantes do povo, eleitos em número relativamente proporcional à população de cada unidade da Federação (Câmara dos Deputados), bem como uma outra casa legislativa (Senado Federal) com representação igualitária de cada uma das unidades da Federação (Estados-membros e Distrito Federal com 3 senadores cada). O Poder Legislativo Estadual é exercido pela Assembleia Legislativa, que, no Distrito Federal é denominada Câmara Legislativa. O Poder Legislativo Municipal é exercido pela Câmara dos Vereadores. Cada legislatura tem a duração de 4 anos, o que corresponde a quatro sessões legislativas, divididas em 8 períodos, conforme consta do art. 44, combinado com o art. 57, ambos da Constituição Federal . O mandato dos deputados e dos vereadores é de 4 anos (uma legislatura). O dos senadores é de 8 anos, havendo renovação intercalada a cada 4 anos (1/3 e 2/3), pelo princípio majoritário (ganha o candidato mais votado, independentemente dos votos9 de seu partido).
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Sufrágio masculino é aquele em que não se concede direito de voto às mulheres, ou seja, é um sufrágio que

26 O número de deputados federais (hoje são 513) deve ser proporcional à população de cada Estado membro, nos termos da Lei Complementar n. 78/93. Nenhum Estado-membro pode ter menos de 8 deputados federais, e o Estado mais populoso (São Paulo) será representado por 70 deputados federais. Os Territórios Federais (atualmente inexistentes) elegiam 4 deputados federais e não elegiam senadores. Os senadores representam os Estados e o Distrito Federal, em número de 3 por unidade da Federação, com 2 suplentes, e mandato de 8 anos (26 Estados-membros mais o Distrito Federal = 81 senadores). Atualmente, o núcleo eleitoral é circunscricional (cada Estado, e também o Distrito Federal representa uma circunscrição), mas, com a reforma política, poderá ser distrital (cada distrito, uma vaga). Os deputados estaduais, em São Paulo, somam 94, observados os cálculos do art. 27, da Constituição Federal. De acordo com as suas respectivas populações, os Municípios terão entre 9 e 55 vereadores (art. 29, inc. IV, da Constituição Federal). A idade mínima para ser eleito senador é de 35 anos; para deputado estadual ou federal é de
ocorre restrição por motivo de sexo. O direito de voto das mulheres, no Ocidente, surgiu em 1.869, no Estado americano do Wyoming, mas sua adoção generalizada nos EUA somente ocorreu em 1.920. O direito de voto das mulheres surgiu, na Nova Zelândia, em 1.893; na Rússia, em 1.917; na Alemanha, em 1.918; na Inglaterra, em 1.928; no Brasil, em 1.932; na França, em 1.944; na Itália e no Japão, em 1.946; na Argentina, em 1.947; na Suíça, em 1.971. Sufrágio racial é aquele em que uma ou mais minorias populacionais são impedidas de votar, com base em sua raça ou religião, ou seja, é um sufrágio que ocorre restrição por motivo de raça ou de crença. O sufrágio racial foi adotado, no passado, nos EUA e na África do Sul. O sufrágio com restrição por motivo de idade existe porque considera-se que o indivíduo somente adquire maturidade para participar conscientemente da vida política após atingir determinada idade cronológica. O sufrágio com restrição por motivo de deficiência física existe porque, sendo o voto pessoal e secreto, devem ser excluídos aqueles que não apresentem condições físicas para votar observando essa exigência. O sufrágio com restrição por motivo de deficiência mental existe porque, para a prática de atos jurídicos, exige-se que a pessoa tenha plena consciência do significado de suas decisões. Considera-se que o sufrágio universal tenha sido instituído na França somente em 1848, embora as mulheres não tivessem, ainda, o direito de votar. Voto direto é aquele em que o eleitor escolhe os próprios representantes, sem intermediários. Voto indireto é aquele em que o eleitor, inicialmente, escolhe seus delegados ou representantes, que funcionam como intermediários, e que, somente em etapa posterior, escolhe os governantes. No Brasil, o voto é direto. Em alguns períodos, como os do primeiro governo Vargas, e os governos militares, o voto para Presidente da República era indireto, pois um restrito colégio eleitoral, muitas vezes sequer eleito pelo povo, indicava o Presidente da República. Existiu voto indireto, para Presidente da República, até a promulgação da Emenda Constitucional n° 25, promulgada em 15.05.1985. Voto distrital é aquele em que os eleitores escolhem os governantes dentre candidatos pertencentes aos seus próprios distritos eleitorais. Os argumentos favoráveis ao voto distrital são: a) aproxima a população de candidatos mais diretamente ligados à problemática regional; b) permite maior contato entre eleitor e candidatos durante o processo eletivo; c) assegura melhor controle do eleitor sobre o candidato eleito; d) atenua a influência do poder econômico e do poder dos meios de comunicação; e) torna os partidos políticos mais homogêneos, mediante a concorrência, em cada distrito, de candidatos de partidos diversos, e não do mesmo partido.

27 21 anos; e para vereador é de 18 anos. Somente brasileiros natos podem exercer os cargos de: • Presidente e Vice-Presidente da República • Presidente da Câmara dos Deputados • Presidente do Senado Federal • Ministro do STF – Supremo Tribunal Federal • Membros da carreira diplomática • Oficial das Forças Armadas (Constituição Federal, art. 12, § 3°, I a VI) Para que a sessão de votação seja instalada, é necessária a presença da maioria dos membros da casa (quorum de maioria absoluta para a instalação). Salvo disposição constitucional em sentido contrário, as deliberações de cada uma das casas (Câmara ou Senado) e de suas comissões são tomadas por maioria de votos (quorum de aprovação), presente a maioria absoluta de seus membros (art. 47, da CF). É a denominada maioria simples, ou maioria relativa. No caso da Câmara dos Deputados, faz-se o seguinte cálculo: 513 : 2 = 256. Portanto, 257 representam a maioria absoluta dos membros (quorum de instalação). Para a deliberação ser aprovada, deve contar com mais votos a favor do que contra. As abstenções dos presentes só validam o quorum de instalação. O quorum de maioria qualificada (especial) é aquele que exige o voto favorável de 2/3 ou de 3/5 de todos os membros da casa. As deliberações legislativas do Congresso Nacional são submetidas à sanção do Presidente da República; as das Assembleias Legislativa estaduais, ao Governador do Estado; as das Câmaras Municipais, aos Prefeitos Municipais. Algumas matérias, porém, não exigem a sanção do chefe do Poder Executivo, pois são de competência exclusiva de cada Casa Legislativa (art. 49, 51 e 52, da CF). Exemplos de matérias e não dependem da sanção do Presidente da República: Emenda Constitucional; autorização para a instauração de processo contra o próprio Presidente e seus Ministros (competência da Câmara); convocação de plebiscito ou referendo (competência do Congresso Nacional); suspensão da execução de lei declarada inconstitucional por decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal; julgamento do Presidente e dos Ministros do Supremo Tribunal Federal por crime de responsabilidade (competência do Senado Federal). Incluem-se aqui, também, aquelas que regulam as atividades internas de cada Poder. A sessão legislativa ordinária corresponde às reuniões do Congresso Nacional, que se realizam de 15 de fevereiro a 30 de junho e de 1.º de agosto a 15 de dezembro (dois períodos da sessão anual). Não se interrompe a sessão legislativa, sem a aprovação da lei de diretrizes orçamentárias. As mesas diretoras são escolhidas nas sessões preparatórias de 1.º de fevereiro, com mandato de 2 anos, vedada a recondução para o mesmo cargo na eleição imediatamente subsequente da mesma legislatura. O voto dos parlamentares pode ser ostensivo (nas espécies simbólico ou nominal) ou secreto, nos termos da Constituição Federal e dos Regimentos Internos. De acordo com o art. 67, da CF, matéria constante de projeto de lei rejeitado só pode ser objeto de nova proposta na mesma sessão legislativa, mediante documento assinado pela

28 maioria absoluta dos membros de qualquer das casas. O Congresso Nacional é presidido pelo presidente do Senado Federal e pode ser convocado extraordinariamente, em casos de urgência ou relevante interesse público, ocasião em que só deliberará sobre a matéria que deu causa à convocação. Exemplos: convocação ou comparecimento de ministros, perda de mandato de congressistas, propositura de ação direta de inconstitucionalidade, liberação de pronunciamento de parlamentar durante estado de sítio, etc.. O Presidente da República, os presidentes da Câmara e do Senado, ou a maioria dos membros de ambas as Casas podem convocar extraordinariamente o Congresso em caso de urgência ou de interesse público relevante. Pelo sistema proporcional -- adotado nas eleições para deputado federal, deputado estadual e vereador -- disciplinado pelos art. 105 e 113, do Código Eleitoral, nem sempre os candidatos mais votados são eleitos, pois mais vale a votação do partido que a do próprio candidato, circunstância que deu ao critério a denominação de ‘colorido partidário’. Nesse sistema proporcional, somam-se os votos válidos (votos dados particularmente para os partidos mais os votos dados aos seus candidatos) e divide-se o resultado pelo número de cadeiras a preencher, obtendo-se assim o quociente eleitoral. De acordo com o art. 5.º, da Lei n. 9.504/97 (que alterou a regra do art. 106, do Código Eleitoral), os votos brancos e os votos nulos não são considerados nos cálculos. Em seguida, dividem-se os votos de cada partido ou coligação pelo quociente eleitoral, obtendo-se o número de eleitos de cada agremiação (quociente partidário). O partido que não atingir o quociente eleitoral não elege nenhum deputado ou vereador (salvo se nenhum partido atingir esse quociente, quando, então, as vagas serão preenchidas pelos candidatos mais votados, independentemente dos partidos). As sobras também serão destinadas aos partidos que obtiverem as maiores médias. Essa técnica da maior média determina que os votos do partido ou coligação sejam divididos pelo número de cadeiras por ele conquistadas mais um, obtendo-se assim a média de cada um dos concorrentes e o número final de cadeiras a que cada partido ou coligação terá direito. Exemplo: Município no qual sejam apurados dez mil votos válidos (votos dados para as legendas e para os candidatos) e que tenha dez cadeiras de vereador a preencher. O quociente eleitoral é 1.000, ou seja, 10.000 votos divididos por dez cadeiras a preencher. O partido A e seus candidatos somam 5.500 votos. Dividindo-se esse número pelo quociente eleitoral (5.500 : 1.000 = 5,5), desde logo, o partido A terá 5 cadeiras. A coligação B/C e seus candidatos somam 3.800 votos, garantindo, desde logo, 3 cadeiras (3.800 : 1.000 = 3,8). O partido D e seus candidatos somam 700 votos e, assim, não atingem o quociente eleitoral (1.000). Com isso, o partido D não elege nenhum candidato. Por ora, foram preenchidas oito vagas e restam duas. As sobras (duas cadeiras) serão divididas da seguinte forma: divide-se o número de votos do partido A (5.500) pelo número de cadeiras por ele obtido (5) + 1, ou seja, 5.500 : 6, atingindo-se a média 916. Divide-se o número de votos da coligação B/C (3.800) pelo número de cadeiras por ela obtido (3) + 1, ou seja, 3.800 : 4, atingindo-se a média 950. A maior média foi obtida pela coligação B/C que, assim, ganha mais uma cadeira (a 4.ª). Resta, porém, a 10.ª cadeira. Os cálculos são repetidos, agora considerando a nova cadeira obtida pela coligação B/C, nos seguintes termos: divide-se o número de votos do partido A (5.500) pelo número de cadeiras por ele obtido (5) + 1, ou seja, 5.500: 6, atingindo-se a média 916. Divide-se o número de votos da coligação B/C (3.800) pelo número de cadeiras por ela

29 obtido (agora, 4) + 1, ou seja, 3.800 : 5, atingindo-se a média 760. A maior média foi obtida pelo partido A que, assim, ganha mais uma cadeira (a 6.ª). No final, o partido A preencherá 6 cadeiras e a coligação B/C preencherá 4, sendo esses os seus quocientes partidários. Nas eleições proporcionais, somente após a apuração dos números finais de cada partido ou coligação é que interessará a ordem interna de votação individual, ou seja, o número de votos que cada candidato obteve. Os lugares, que cada partido ou coligação obtiver, serão distribuídos aos seus candidatos mais votados (os 6 mais votados do partido A e os 4 mais votados da coligação B/C ganharão uma cadeira). Além dos plenários, o Legislativo (Congresso, Câmara dos Deputados, Senado Federal, Assembleias Legislativas e Câmaras de Vereadores) atua por meio de comissões, que são grupos menores de parlamentares que atuam, de forma transitória ou permanente, sobre determinados assuntos. Exemplos de comissões permanentes são a ‘Comissão de Constituição e Justiça’ e a ‘Comissão de Cidadania’. Exemplo de comissão temporária é a Comissão Parlamentar de Inquérito. A finalidade precípua das comissões é fornecer ao plenário uma opinião aprofundada sobre o tema a ser debatido (espécie de parecer). Os pareceres das Comissões de Constituição e Justiça costumam ser terminativos. Os próprios regimentos internos da Câmara e do Senado, porém, admitem que os projetos rejeitados pelas comissões sejam levados para votação, se o plenário der provimento a recurso nesse sentido que tenha sido apresentado por um décimo dos membros da casa respectiva. Na formação das comissões, deve ser observada a representação proporcional dos partidos. As comissões são técnicas (Comissão de Constituição e Justiça), de inquérito ou representativas do Congresso Nacional (funcionam durante os recessos e dentro dos limites previstos no Regimento Interno). As CPIs – Comissões Parlamentares de Inquérito podem ser criadas, em conjunto ou separadamente, pela Câmara e pelo Senado – mediante requerimento de 1/3 dos respectivos membros, aprovado por maioria simples em plenário – para, em prazo certo (que pode ser prorrogado dentro da mesma legislatura), apurar fato determinado e de interesse público. As CPIs têm poderes de investigação próprios das autoridades judiciais, além de outros previstos nos regimentos das respectivas casas. As deliberações das CPIs, quando relacionadas a poderes de investigação próprios das autoridades judiciárias, devem ser fundamentadas. Em decisão de 1999 (MS n. 23.452-RJ), o Supremo Tribunal Federal admitiu a quebra de sigilo bancário, fiscal e de registros telefônicos por determinação de Comissão Parlamentar de Inquérito, desde que devidamente motivada. Admite-se que a Comissão Parlamentar de Inquérito determine a condução coercitiva de testemunha (TJSP, Órgão Especial, Agravo Regimental n. 48.640-0/3-01, Rel. Des. Dirceu de Mello) e a prisão em flagrante por falso testemunho (STF, HC 75.287- 0). Respeitados o sigilo profissional, as prerrogativas funcionais e o direito ao silêncio dos acusados, a Comissão Parlamentar de Inquérito pode determinar que qualquer pessoa preste depoimento. A Comissão Parlamentar de Inquérito deve respeito ao princípio da autonomia dos Estados,

30 do Distrito Federal e dos Municípios, cujos Legislativos são exclusivamente responsáveis pela investigação parlamentar de assuntos de interesse público local. Suas conclusões (instrumentalizadas por projeto de resolução) e a resolução que as aprovar (depende de maioria simples) são encaminhadas ao Ministério Público ou às autoridades administrativas ou judiciais competentes, para que seja promovida a responsabilização administrativa, civil e criminal dos infratores. A autoridade que presidir processo ou procedimento, administrativo ou judicial, instaurado em razão das conclusões da Comissão Parlamentar de Inquérito, comunicará, semestralmente e até sua conclusão, a fase em que se encontra o processo. O processo ou procedimento instaurado em razão do relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito deverá tramitar com prioridade sobre os demais (exceto habeas corpus10, habeas data11 e mandado de segurança12). O descumprimento da Lei n. 10.001/00 sujeita a autoridade a sanções administrativas, civis e criminais, disposição que está sendo questionada sob o argumento de que viola a independência do Ministério e a separação dos Poderes. Os parlamentares federais (deputados federais e senadores), estaduais (deputados estaduais) e municipais (vereadores) são invioláveis, civil e penalmente, por quaisquer de suas opiniões, palavras e votos (redação pela Emenda Constitucional n. 35). Trata-se de imunidade material (real), que exime o parlamentar do enquadramento no tipo penal, impedindo a instauração de Inquérito Policial. A inviolabilidade (imunidade material), segundo prevalece no Supremo Tribunal Federal,
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Habeas corpus, etimologicamente significa em latim "Que tenhas o teu corpo". A expressão completa é habeas corpus ad subjiciendum. É uma garantia constitucional em favor de quem sofre violência ou ameaça de constrangimento ilegal na sua liberdade de locomoção (direito e ir e vir), por parte de autoridade legítima. Sua origem remonta à Magna Carta libertatum, de 1.215, imposta pelos nobres ao rei da Inglaterra com a exigência do controle legal da prisão de qualquer cidadão. Este controle era realizado sumariamente pelo juiz, que, ante os fatos apresentados, decidia de forma sumária acerca da legalidade da prisão. 11 Habeas Data é um remédio jurídico (facultativo), na forma de uma ação constitucional, que pode ser impetrado por pessoa física ou jurídica (sujeito ativo), para tomar conhecimento ou retificar as informações a seu respeito, constantes nos registros e bancos de dados de entidades governamentais ou de caráter público (Art. 5º, LXXII,"a", Constituição Federal do Brasil de 1988). Pode-se, também, propor ação de Habeas Data com o intuito de adicionar, retirar ou retificar informações em cadastro existente. É remédio personalíssimo, só podendo ser impetrado por aquele que é o titular dos dados questionados. Habeas Data é a ação mandamental, sumária e especial, destinada à tutela dos direitos do cidadão a frente dos bancos de dados, a fim de permitir o fornecimento das informações registradas, bem como sua retificação, em caso de não corresponder à verdade. O direito a informação e o seu rito processual é regulado pela Lei n. 9.507/97. Desta lei pode se extrair a recusa objetiva e a presumida, motivo pelo qual esta sempre ocorrerá quando solicitado a retificação da informação ao agente público coator não a disponibilizar ou justificar dentro do prazo de quinze dias, já informação ou anotação estabelece um prazo de dez dias. O Habeas data será concedido para proteger o direito líquido e certo do impetrante em ter conhecimento de informações e registro relativos a sua pessoa. 12 O Mandado de Segurança é um instituto jurídico que serve para resguardar direito líquido e certo, não amparado por Habeas Corpus ou Habeas Data, que seja negado, ou mesmo ameaçado, em face de ato de quaisquer dos órgãos do Estado Brasileiro, seja da administração direta, indireta, bem com dos entes despersonalizados e dos agentes particulares no exercício de atribuições do poder público. Trata-se de um remédio constitucional posto à disposição de toda pessoa Física ou jurídica, ou mesmo órgão da administração pública com capacidade processual. Segundo a Lei Federal nº 1.533, de 31 de dezembro de 1951, já no seu art. 1.º informa que "Conceder-se-á mandado de segurança para proteger direito líquido e certo, não amparado por habeas corpus ou habeas data, sempre que, ilegalmente ou com abuso de poder, alguém sofrer violação ou houver justo receio de sofrê-la por parte de autoridade, seja de que categoria for e sejam quais forem as funções que exerça".

31 significa que o parlamentar não pode ser responsabilizado civil ou penalmente, a qualquer tempo, por suas opiniões, palavras e votos manifestados no exercício do mandato. A imunidade real tem por pressuposto o exercício do mandato ou, ao menos, um nexo de causalidade entre o ato praticado e a qualidade de mandatário político do agente (DJU de 18.6.01, Informativo STF n. 232). O Tribunal de Contas da União é formado por 9 ministros, um terço deles escolhido pelo Presidente da República, com a aprovação do Senado Federal. Desse um terço, alternadamente, 2 devem ser escolhidos entre os membros do Ministério Público Federal e auditores que atuam junto ao Tribunal de Contas da União, conforme lista tríplice elaborada pelo próprio TCU. Os outros 6 ministros são escolhidos pelo Congresso Nacional. A escolha dos ministros do Tribunal de Contas da União está disciplinada pelo Dec.-lei n. 06/93. Os 9 membros serão escolhidos entre os brasileiros que preencham os seguintes requisitos:
• • •

mais de 35 e menos de 65 anos; idoneidade moral e reputação ilibada; notórios conhecimentos jurídicos, contábeis, econômicos e financeiros ou de administração pública; mais de 10 anos de função exercida ou de efetiva atividade profissional que exija os conhecimentos referidos anteriormente.

Os ministros do Tribunal de Contas da União têm as mesmas garantias, prerrogativas, impedimentos, vencimentos e vantagens dos ministros do Superior Tribunal de Justiça. Além de emitir pareceres (em 60 dias) das contas anuais do Presidente da República, exercer fiscalização e representar aos órgãos competentes sobre as irregularidades apuradas, o Tribunal de Contas da União julga contas dos administradores e de outros responsáveis por bens e valores públicos. No caso do Presidente da República, o julgamento das contas é ato privativo do Congresso Nacional (art. 49, inc. IX), competindo ao Tribunal de Contas da União tão somente a elaboração de parecer prévio. Constatando a irregularidade, de ato ou contrato, o Tribunal de Contas da União representa ao Congresso Nacional, solicitando as medidas cabíveis. Se em 90 dias nada for decidido pelo Congresso Nacional (que julga politicamente e pode decidir não determinar qualquer medida), o próprio Tribunal de Contas da União decidirá a respeito, podendo até mesmo sustar a execução do ato ou do contrato impugnado. Os Estados-membros possuem os chamados Tribunais de Contas dos Estados, que são compostos por 7 conselheiros. O controle externo dos recursos públicos do Estado é feito pelas Assembleias Legislativas, com o auxílio dos TCEs. Em São Paulo, o julgamento das contas do governador é feita pela maioria absoluta dos membros da Assembleia Legislativa (art. 10, § 1.º, da Constituição Estadual). É vedada a criação de tribunais, conselhos ou órgãos de contas municipais (art. 31, § 4.º, da CF). Os Tribunais de Contas Municipais existentes antes da Constituição Federal de 1988 , a exemplo de São Paulo e Rio de Janeiro, foram mantidos (art. 31, § 1.º, da CF) e auxiliam as respectivas Câmaras Municipais no controle externo das contas públicas. O Tribunal de Contas do Município de São Paulo é composto por 5 conselheiros, nos termos

32 do artigo 151, da Constituição Estadual. Nos Municípios, onde não há Tribunal de Contas do Município, o controle externo é feito pela Câmara de Vereadores, com o auxílio do Tribunal de Contas do Estado respectivo. O § 3.º, do art. 31, da Constituição Federal, estabelece que as contas dos Municípios ficarão durante 60 dias, anualmente, à disposição de qualquer contribuinte, para exame e apreciação, o qual poderá questionar-lhes a legitimidade nos termos da lei. O parecer emitido pelos Tribunais de Contas, em relação às contas dos prefeitos, só não prevalece se derrubado por voto de 2/3 (chamado de maioria qualificada) dos membros da respectiva Câmara Municipal (art. 31, § 2.º, da CF). Pela alínea “g”, do inc. I, do art. 1.º, da Lei Complementar n. 64/90 (Lei Federal das Inelegibilidades), aquele que tiver suas contas rejeitadas por irregularidade insanável e por decisão irrecorrível de órgão competente, fica inelegível pelos 5 anos seguintes à data da decisão, salvo se a questão houver sido ou estiver sendo submetida à apreciação do Poder Judiciário. 1.9. Fatores que levam o homem a socializar-se O sociólogo Gilberto Freyre toma o conceito de sociedade em dois sentidos: a) o genérico, pelo qual sociedade é o conjunto das relações sociais, abrangendo as sociedades animais, vegetais e humanas b) o específico, que entende que sociedade é qualquer grupo humano relativamente permanente, capaz de perpetuar a espécie ou conservar-se por meio de usos e técnicas. Há duas correntes de pensamento que explicam a vida do homem em sociedade: a) a naturalista, que sustenta a existência de uma sociedade natural, isto é, há uma exigência da própria natureza do homem, que o impele a viver de forma gregária, junto a seus semelhantes b) a contratualista, que defende a posição de que o homem vive em sociedade por vontade própria, isto é, mediante um ato consciente de vontade (um contrato). Os principais filósofos dessa corrente foram/são: a) o grego Aristóteles (Século IV a.C.), para quem "o homem é naturalmente um animal social, político" (zoon politikon), ou seja, deve viver de forma gregária b) o romano Cícero (Século I a.C.), para quem o homem tem um instinto inato de sociabilidade c) o lombardo Santo Tomás de Aquino (Século XIII), que, adotando as noções aristotélicas, acrescentou que o ser humano somente poderia viver isoladamente se fosse excepcionalmente virtuoso (excellentia naturae), se fosse portador de anormalidade mental (corruptio naturae), ou por acidente, como é o caso de um sobrevivente de um naufrágio (mala fortuna) d) o italiano Oreste Ranelletti, autor contemporâneo, para o qual o homem tem necessidade natural de associar-se a outros seres humanos. Os principais filósofos defensores da corrente contratualista foram/são: a) o grego Platão (Século IV a.C.), que se refere a uma sociedade racionalmente construída, isenta de impulsos naturais que a instituíram b) o inglês Thomas Moore (Século XVI), que descreve uma sociedade ideal, em que inexistem os males que considerava afetar todas as sociedades c) o italiano Tommaso Campanella, também no Século XVI, cuja obra ‘A Cidade do Sol’ descrevia uma sociedade utópica, à semelhança do que fizera Thomas Morus, na obra ‘Utopia’

33 d) o inglês Thomas Hobbes (Século XVII), cuja obra, ‘O Leviatã’13 é considerada a primeira sistematização da doutrina contratualista. Para Thomas Hobbes14, cuja obra fundamental é ‘O Leviatã’, publicada em 1.651, os homens vivem, inicialmente, sem poder e sem organização (isto é, nascem num estado da natureza), que somente vêm a surgir depois que estes estabelecem entre si um pacto, que estabelece as regras de convívio social e de subordinação política. O motivo pelo qual firmam este pacto encontra-se na convicção de que, não o fazendo, caminharão para a mútua destruição, em virtude da tensão que existe nas relações sociais. Essa tensão, se não for devidamente coibida (pelo Estado, cujo poder resulta desse pacto), impelirá os homens ao conflito aberto.

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Leviatã é o livro mais famoso do filósofo inglês. Thomas Hobbes, publicado em 1.651. O seu título se deve ao monstro bíblico Leviatã. O livro, cujo título por extenso é ‘Leviatã ou matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil’, trata da estrutura da sociedade organizada. Hobbes alega serem os humanos egoístas por natureza. Com essa natureza tenderiam a guerrear entre si, todos contra todos (Bellum omnia omnes). Assim, para não exterminarmo-nos uns aos outros será necessário um contrato social que estabeleça a paz, a qual levará os homens a abdicarem da guerra contra outros homens. Mas, egoístas que são, necessitam de um soberano (Leviatã), que puna aqueles que não obedecem ao contrato social. Vale notar que um soberano pode ser uma pessoa, tanto quanto um grupo, eleito ou não. Porém, na perspectiva de Hobbes, a melhor forma de governo era a monarquia, sem a presença concomitante de um Parlamento, pois este dividiria o poder e, portanto, seria um estorvo ao Leviatã e levaria a sociedade ao caos (como na guerra civil inglesa). 14 Thomas Hobbes (1.588 –1.679) fi um matemático, teórico político, e filósofo inglês, autor de ‘O Leviatã’ (1.651) e ‘Do cidadão’ (1.651). Na obra Leviatã, explanou os seus pontos de vista sobre a natureza humana e sobre a necessidade de governos e sociedades. No estado natural, enquanto que alguns homens possam ser mais fortes ou mais inteligentes do que outros, nenhum se ergue tão acima dos demais por forma a estar além do medo de que outro homem lhe possa fazer mal. Por isso, cada um de nós tem direito a tudo, e uma vez que todas as coisas são escassas, existe uma constante guerra de todos contra todos (Bellum omnia omnes). No entanto, os homens têm um desejo, que é também em interesse próprio, de acabar com a guerra, e por isso formam sociedades entrando num contrato social. De acordo com Hobbes, tal sociedade necessita de uma autoridade à qual todos os membros dela devem render o suficiente da sua liberdade natural, por forma a que a autoridade possa assegurar a paz interna e a defesa comum. Este soberano, quer seja um monarca ou uma assembleia (que pode até mesmo ser composta de todos, caso em que seria uma democracia), deveria ser o ‘Leviatã’, uma autoridade inquestionável. A teoria política do ‘Leviatã’ mantém, no essencial, as ideias de suas duas obras anteriores, ‘Os elementos da lei’ e ‘Do cidadão’ (em que tratou a questão das relações entre Igreja e Estado). Thomas Hobbes defendia a ideia segundo a qual os homens só podem viver em paz se concordarem em submeter-se a um poder absoluto e centralizado. Para ele, a Igreja cristã e o Estado cristão formavam um mesmo corpo, encabeçado pelo monarca, que teria o direito de interpretar as Escrituras, decidir questões religiosas e presidir o culto. Neste sentido, critica a livre-interpretação da Bíblia na Reforma Protestante por, de certa forma, enfraquecer o monarca. Sua filosofia política foi analisada pelo estudioso Richard Tuck, como uma resposta para os problemas que o método cartesiano introduziu para a filosofia moral. Hobbes argumenta, assim como os céticos e como René Descartes, que não podemos conhecer nada sobre o mundo exterior a partir das impressões sensoriais que temos dele. Esta filosofia é vista como uma tentativa para embasar uma teoria coerente de uma formação social puramente no fato das impressões por si, a partir da tese de que as impressões sensoriais são suficientes para o homem agir em sentido de preservar sua própria vida, e construir toda sua filosofia política a partir desse imperativo. Tuck dá peso considerável à segunda parte do ‘Leviatã’, que lida com espinhosas questões de religião, e especificamente da autoridade em assuntos da fé. Interpretando o livro de Hobbes no contexto da Guerra Civil Inglesa e perído subsequente, Tuck argumenta que o ‘Leviatã’ destinava-se a permitir ao monarca exercer autoridade sobre assuntos de fé e doutrina, e que isso marca o apoio de Hobbes à política religiosa da república inglesa do pós-guerra. Hobbes ainda escreveu muitos outros livros falando sobre filosofia política e outros assuntos, oferecendo uma descrição da natureza humana como cooperação em interesse próprio. Ele foi contemporâneo de Descartes, e escreveu uma das respostas para a obra Meditações sobre filosofia primeira, deste último.

34 Hobbes descreve o homem, em seu Estado Natural15, como egoísta, egocêntrico e inseguro. Ele não conhece leis e não tem conceito de justiça. Ele somente segue os ditames de suas paixões e desejos temperados com algumas sugestões de sua razão natural. Onde não existe governo ou lei, os homens naturalmente caem em discórdia. Para ele, desde que os recursos são limitados, ali haverá competição, que leva ao medo, à inveja e a disputa. Semeada a desconfiança, perde-se a segurança de confiar no próximo. Na busca pela glória, derruba-se os outros pelas costas, já que, para Hobbes, os homens são iguais nas capacidades e na expectativa de êxito e, assim, nenhuma pessoa ou nenhum grupo pode, com segurança, reter o poder. Assim sendo, o conflito é perpétuo, e "cada homem é inimigo de outro homem". Nesse estado de guerra, nada de bom pode surgir. Enquanto cada um se concentra na autodefesa e na conquista, o trabalho produtivo é impossível. Não existe tranquilidade para a busca do conhecimento. Não existe motivação para construir ou explorar. Não existe lugar para as artes e letras. Não existe espaço para a sociedade, mas, só "medo contínuo e perigo de morte violenta". Então a vida do homem, nesse estado, será "solitária, pobre, sórdida, brutal e curta". Em contrapartida ao estado de guerra aqui descrito, os próprios homens almejariam uma ordem ansiando pela garantia de paz e, assim, um Estado que garantisse essa paz, essa vida acordada. Para Hobbes, no entanto, o conflito não deriva, em princípio, dos bens que o homem possui, e sim, da honra, que é constituída pelo poder que detém, ou pelo respeito que a ele devotam os semelhantes. Em resumo, para Hobbes: a) o homem é artífice de seu destino, não Deus ou a natureza b) o homem pode conhecer sua condição atual, miserável, e também os meios para alcançar a paz e a prosperidade c) somente por meio do contrato pode o homem organizar-se em sociedade.
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Estado Natural, também chamado de Estado de Natureza, é o estado anterior à constituição da sociedade civil. Todos os autores contratualistas admitem, de certa forma, um "estado de natureza". Alguns dos autores contratualistas, apesar de descreverem um "estado de natureza", admitem que ele possa nunca ter vindo a existir, mas, que era preciso fazer essa construção para entender a formação da sociedade civil. É a ausência de sociedade. O que difere a sociedade humana das sociedades formadas por outras criaturas é a necessidade de regras para que haja organização dos interesses. A cultura faz com que o homem se emancipe dos outros animais. O ser humano, sendo dotado de razão torna-se livre. Para Thomas Hobbes, o "estado de natureza" é qualquer situação onde não há um governo que estabeleça a ordem. O fato de todos os seres humanos, serem iguais no seu egoísmo, faz com que a ação de um só seja limitada pela força do outro. "O homem é o lobo do homem". Para que todos não acabem se matando e tenham segurança, é necessário um Estado, uma instituição de poder comum. Aqui o "direito natural" é o direito de cada um usar o seu poder para se autopreservar e satisfazer os seus desejos. O "estado de natureza" é sempre um estado de guerra: Mesmo que não haja batalha, ela está latente, podendo ocorrer a qualquer momento e sem causa aparente. Preocupados em se defender ou atacar, todos seres humanos se tornam incapazes de gerar riquezas. De acordo com Hobbes, “a origem das sociedades amplas e duradouras não foi a boa vontade de uns para com os outros, mas o medo recíproco”. Para John Locke, o Estado Natural não é apenas uma construção teórica, pois ele existiu e continua existindo. Locke entendia que, no Estado de Natureza, as pessoas eram submetidas à Lei da Natureza, o que era possível porque elas eram dotadas de razão. Nesta Lei da Natureza, cada indivíduo poderia fazer o papel de juiz e aplicar a pena que considerasse justa ao infrator. Esta arbitrariedade indivídual é um dos principais motivos das pessoas buscarem entrar num Estado Civil. De acordo com o Direito Natural, o ser humano tem direito sobre sua vida, liberdade e bens. A propriedade privada era definida no momento em que o ser humano misturava seu trabalho com a natureza: "Quando começaram a lhe pertencer? Quando os digeriu? Quando os comeu? Quando os cozinhou? Quando os levou para casa? ou Quando os apanhou? E é evidente que se o primeiro ato de apanhar não os tornasse sua propriedade, nada mais poderia fazê-lo. Aquele trabalho estabeleceu uma distinção entre eles e o bem comum". Mas, por que o Estado de Natureza continua existindo? Para Locke, "não é toda convenção que põe fim ao estado de natureza entre os homens, mas apenas aquela pela qual todos se obrigam, juntos e mutuamente, a formar uma comunidade única e constituir um único corpo político. Quanto às outras promessas e convenções, os homens podem fazê-las entre eles, sem sair do estado de natureza.

35 As ideias absolutistas de Hobbes passaram a ser contestadas a partir do final do Século XVII, por John Locke16, considerado o fundador da doutrina denominada empirismo, segundo a qual todo o conhecimento deriva da experiência. Suas obras fundamentais são: ‘Cartas Sobre a Tolerância’, ‘Ensaio Sobre o Entendimento‘ e ‘Dois Tratados Sobra o Governo Civil’. Para Locke, no estado de natureza, já eram os homens dotados de razão, e desfrutavam da propriedade que, num significado primitivo e genérico, designava a vida, a liberdade e os bens como direitos naturais do ser humano. Num sentido estrito, Locke passa a empregar o conceito de propriedade como o domínio sobre bens móveis e imóveis. Para Hobbes, a propriedade inexistia no estado de natureza, sendo instituída pelo Estado-Leviatã, após a constituição da sociedade civil. Tendo criado a propriedade, poderia o Estado, também, suprimi-la, o que é inaceitável para Locke, que considera a propriedade pré-existente à sociedade (ou seja, é direito natural do homem), razão pela qual não pode ser tomada pelo Estado.
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John Locke (1.632 — 1.704), filósofo inglês e ideólogo do liberalismo, é considerado o principal representante do empirismo britânico e um dos principais teóricos do contrato social. Estudou medicina, ciências naturais e filosofia em Oxford, principalmente as obras de Bacon e Descartes. Em 1.683 John Locke fugiu para Holanda. Voltou à Inglaterra quando Guilherme de Orange subiu ao trono, em 1.688. Faleceu em 28 de outubro de 1.704. Locke nunca casou ou teve filhos. Locke é considerado o protagonista do empirismo, isto é, a teoria denominada de Tabula rasa (do latim, "folha em branco"). Esta teoria afirma que todas as pessoas nascem sem saber absolutamente nada e que aprendem pela experiência, pela tentativa e erro. Esta é considerada a fundação do "behaviorismo". A filosofia política de Locke fundamenta-se na noção de governo consentido dos governados diante da autoridade constituída e o respeito ao direito natural do ser humano, de vida, liberdade e propriedade. Influencia, portanto, as modernas revoluções liberais: Revolução Inglesa, Revolução Americana e na fase inicial da Revolução Francesa, oferecendo-lhes uma justificação da revolução e a forma de um novo governo. Para fins didáticos, Locke costuma ser classificado entre os "Empiristas Britânicos", ao lado de David Hume e George Berkeley, principalmente pela obra relativa à questões epistemológicas. Em ciência política, costuma ser classificado na escola do direito natural ou jusnaturalismo. Para Bernard Cottret, biógrafo de João Calvino, a braços com a história trágica da brutal repressão aos protestantes, na França, no Século XVI, e a própria intolerância e zelo religioso radical de João Calvino, em Genebra, o nome de John Locke está intimamente associado à tolerância. Uma tolerância que os franceses aprendem a valorizar apenas na década de 80, do Século XVII, quase às portas do Iluminismo. Dentre os escritos políticos, a obra mais influente foi o tratado em duas partes, ‘Dois Tratados sobre o Governo’ (1.689). A primeira descreve a condição corrente do governo civil; a segunda parte descreve a justificação para o governo e os ideais necessários à viabilização. Segundo Locke todos são iguais e que a cada deverá ser permitido agir livremente desde que não prejudique nenhum outro. Com este fundamento, ele deu continuidade à justificação clássica da propriedade privada, ao declarar que o mundo natural é a propriedade comum de todos, mas que qualquer indivíduo pode apropriar-se de uma parte dele ao misturar o trabalho com os recursos naturais. Este tratado também introduziu o "proviso de Locke", no qual afirmava que o direito de tomar bens da área pública é limitado pela consideração de que "ainda havia suficientes, e tão bons; e mais dos ainda não fornecidos podem servir". Por outras palavras, que o indivíduo não pode simplesmente tomar aquilo que pretende, pois também tem de levar em consideração o bem comum. Em ‘Ensaio acerca do Entendimento Humano’ (1.690), Locke propõe que a experiência é a fonte do conhecimento, que depois se desenvolve por esforço da razão. Outra obra filosófica notável é ‘Pensamentos sobre a Educação’, publicado em 1.693. As fontes principais do pensamento de Locke são: o nominalismo escolástico, cujo centro era a Oxford; o empirismo inglês da época; o racionalismo defendido por René Descartes e a filosofia de Malebranche. Locke é considerado "o último grande filósofo que procura justificar a escravidão absoluta e perpétua"[3]. Ao mesmo tempo que dizia que todos os homens são iguais, Locke defendia a escravidão (sem distinguir que fosse apenas a negra), pois, aparentemente, ele só considerava como humanos os homens livres. Locke sustenta a escravidão pelo contrato de servidão em proveito do vencido na guerra que poderia ser morto, mas assume o ônus de servir em troca de viver. Locke não defende a escravidão fundada em raça, mas, no contrato com o vencido na guerra, seja ele branco ou negro. Locke contribuiu para a formalização jurídica da escravidão na Província da Carolina, cuja norma constitucional dizia: "(...) todo homem livre da Carolina deve ter absoluto poder e autoridade sobre os escravos negros, seja qual for a opinião e religião." Ele também investiu no tráfico de escravos negros.

36 Montesquieu17 -- cujo nome era Charles de Secondat --, tinha o título nobiliárquico de Barão de Ia Brède e de Montesquieu, sendo conhecido por este último nome. Sua obra fundamental é ‘O Espírito das Leis’18. Considerava que, embora o homem adentrasse ao mundo em um estado de natureza, ele não iria buscar o conflito, ou subjugar outro ser humano. Precisamente o contrário deveria ocorrer: o homem, nesse estado primitivo, sentir-se-ia tão inferiorizado e cheio de temores, que não teria a coragem para atacar outro ser humano. Postulou a existência de leis naturais, que impulsionam o homem em direção à vida em sociedade: a) o desejo de paz, derivado dos temores que tinha o homem, no estado de natureza
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Charles-Louis de Secondat, ou simplesmente Charles de Montesquieu, senhor de La Brède ou Barão de Montesquieu (castelo de La Brède, próximo a Bordéus, 18 de janeiro de 1.689 — Paris, 10 de fevereiro de 1.755), foi um político, filósofo e escritor francês. Ficou famoso pela sua ‘Teoria da Separação dos Poderes’, atualmente consagrada em muitas das modernas constituições internacionais. Aristocrata, filho de família nobre, cedo teve formação iluminista com padres oratorianos. Revelou-se um crítico severo e irônico da monarquia absolutista decadente, bem como do clero católico. Adquiriu sólidos conhecimentos humanísticos e jurídicos, mas, também frequentou, em Paris, os círculos da boêmia literária. Em 1.714, entrou para o tribunal provincial de Bordéus, que presidiu de 1.716 a 1.726. Fez longas viagens pela Europa e, de 1.729 a 1.731, esteve na Inglaterra. Proficiente escritor, concebeu livros importantes e influentes, como ‘Cartas Persas’ (1.721), ‘Considerações sobre as causas da grandeza dos romanos e de sua decadência’ (1.734) e ‘O Espírito das Leis’ (1.748), a sua mais famosa obra.. Filho de um oficial da guarda do rei da França, neto e sobrinho de um Presidente do Parlamento de Bordéus, ficou órfão de mãe aos 11 anos de idade. O seu ensino básico foi entregue aos Oratorianos do colégio de Juilly, localidade situada a nordeste de Paris, que frequentou em companhia de dois primos, e onde lhe foi ministrada uma educação clássica. Regressado a Bordéus, em 1.705, realizou os estudos jurídicos necessários à sua entrada no Parlamento de Bordéus, para poder herdar o título e as importantes funções do tio. A admissão como conselheiro deu-se em 1.708. Após a conclusão destas formalidades, regressou a Paris, onde concluiu os seus estudos jurídicos e lá frequentou assiduamente a Academia das Ciências e das Letras. Regressou a Bordéus, em 1.713, devido à morte do pai. Em 1.715, casou com uma calvinista francesa, o que lhe assegurou um valioso dote. No ano seguinte, o tio morreu, tornando-se Barão de Montesquieu e presidente no Parlamento de Bordéus. Em 1.721 publicou ‘Cartas Persas’, obra que lhe granjeou um enorme sucesso, e onde, aproveitando o gosto da época pelas coisas orientais, analisou, de uma maneira satírica, as instituições, usos e costumes da sociedade francesa e europeia, criticando veementemente a religião católica, naquela que foi a primeira grande crítica à igreja no Século XVIII. Muitas das afirmações de Montesquieu foram confirmadas por Edward Gibbon, quando este autor inglês publicou o ‘Decline and Fall of the Roman Empire’, em que defendeu que a queda do império se deveu ao predomínio da igreja cristã no Império romano, a partir de Constantino. Em 1.726 renunciou ao seu cargo no Parlamento de Bordéus e foi viver para Paris, preparando-se para entrar na Academia Francesa. Foi aceito em 1.728, viajou logo a seguir pela Europa, realizando, assim, o seu ‘grand tour’, a tradicional viagem educativa dos intelectuais europeus do Século XVIII. Regressou à França, mas foi para Inglaterra, onde permaneceu durante dezoito meses. Em 1.731, após uma ausência de três anos, regressou a Bordéus, para a sua família e os seus negócios, assim como para as vinhas e os campos agrícolas à volta do seu Palacete de Brède. Voltou, com frequência a Paris, onde teve contactos ocasionais com os célebres ‘salons’, mas sem se ligar muito com o grupo de intelectuais que os animava. O seu grande objetivo passou a ser completar aquela que será a sua grande obra, ‘O Espírito das Leis’. Preenchendo uma etapa intermediária, escreveu e publicou, em 1.734, ‘A Causa da Grandeza dos Romanos e da sua decadência’, que não é mais do que um capítulo de apresentação do ‘Espírito’. ‘O Espírito das Leis’ foi publicado em 1.748, em dois volumes, em Genebra, para evitar a censura, tornando-se um imenso sucesso. A sua preocupação foi ultrapassar as posições dos filósofos e utópicos, oa quais apresentavam as suas teorias em abstrato e sem nenhuma consideração pelas determinantes espaciais e temporais. Os tempos que se seguiram estiveram longe de serem sossegados, sendo as suas teorias atacadas tanto pelos jansenistas como pelos católicos ortodoxos, como os jesuítas, mas também pela Universidade de Paris, a célebre Sorbonne. Defendeu-se das críticas publicando em 1755, A Defesa do Espírito das Leis. Entretanto ia perdendo a visão. Morreu em 1.755, quase cego, tendo recebido os últimos sacramentos das mãos de um padre católico. Era contra o absolutismo (forma de governo que concentrava todo poder do país nas mãos do rei). Por isso, defendia a divisão do poder em três: Executivo (o rei e os secretários de estado punham as leis em prática), Legislativo (nas Cortes, pessoas escolhidas pelos partidos votavam as leis) e Judiciário(os juizes julgam os

37 b) a consciência de suas necessidades, que levava o homem a buscar comida e abrigo c) a tração natural entre sexos opostos, que somente poderia frutificar em ambiente harmonioso d) a intenção de viver no seio de um grupo multiplicador de forças, onde se sentiria seguro. Jean-Jacques Rousseau (1.712 – 1.778), autor da obra ‘O Contrato Social’ 19, de 1.762, retoma o pensamento de Hobbes, de que a sociedade é constituída a partir de um pacto social, e propõe o exercício da soberania pelo povo, como condição primeira para sua libertação.
criminosos). Fez várias críticas ao clero católico, principalmente, sobre seu poder e interferência política. Defendia aspectos democráticos de governo e o respeito as leis. Ele cunhou algumas frases célebres:- "Um governo precisa apenas saber vagamente o que a traição é, vai contribuir para o despotismo"; "A pessoa que fala sem pensar, assemelha-se ao caçador que dispara sem apontar."; "Leis inúteis enfraquecem as leis necessárias."; "Quanto menos os homens pensam, mais eles falam"; "Defenderei sempre o direito de discordarem de mim." Apesar de ser muito influenciado pelos clássicos (notadamente Aristóteles), o seu esquema de governos é diferente destes últimos. Montesquieu, ao considerar a democracia e a aristocracia um mesmo tipo (agrupados na república) e ao falar de despotismo como um tipo em si e não a corrupção de outro (neste caso, da monarquia), mostra-se mais preocupado com a forma com que será exercido o poder: se é exercido segundo leis ou não. Para Montesquieu, a forma republicana de governo só seria viável em regiões pequenas, como as cidades gregas, da Antiguidade, e as cidades italianas, da Idade Média. Para os grandes Estados, só seria possível o despotismo e as monarquias. Ele simpatizava com a monarquia constitucional (liberal) à moda inglesa, e foi a partir de uma viagem à Inglaterra que ele elaborou a sua teoria da separação dos poderes. Ao procurar descobrir as relações que as leis têm com a natureza e o princípio de cada governo, Montesquieu desenvolveu uma alentada teoria de governo que alimenta as ideias fecundas do constitucionalismo, pelo qual se busca distribuir a autoridade por meios legais, de modo a evitar a violência e o abuso de poder de alguns. Tais ideias se encaminham para uma melhor definição da separação dos poderes, ainda hoje uma das pedras angulares do exercicio do poder democrático. Montesquieu admirava a constituição inglesa, mesmo sem compreendê-la completamente, e descreveu cuidadosamente a separação dos poderes em ‘Executivo’, ‘Judiciário’ e ‘Legislativo’, trabalho que influenciou os elaboradores da Constituição dos Estados Unidos da América. O Executivo seria exercido por um rei, com direito de veto sobre as decisões do parlamento. O poder judiciário não era único, porque os nobres não poderiam ser julgados por tribunais populares, mas só por tribunais de nobres; Portanto, Montesquieu não defende a igualdade de todos perante a lei. O poder legislativo, convocado pelo executivo, deveria ser separado em duas casas: o corpo dos comuns, composto pelos representantes do povo, e o corpo dos nobres, formado por nobres, hereditário e com a faculdade de impedir (vetar) as decisões do corpo dos comuns. Essas duas casas teriam assembleias e deliberações separadas, assim como interesses e opiniões independentes. Refletindo sobre o abuso do poder real, Montesquieu conclui que "é preciso que o poder limite o poder", daí a necessidade de cada poder manter-se autônomo e constituído por pessoas e grupos diferentes. É bem verdade que a proposta da divisão dos poderes ainda não se encontra em Montesquieu com a força que costumou-se posteriormente a atribuir-lhe. Em outras passagens de sua obra, ele não defende uma separação tão rígida, pois o que ele pretendia, de fato, era realçar a relação de forças e a necessidade de equilíbrio e harmonia entre os três poderes. Montesquieu não era um revolucionário. Sua opção social ainda era por sua classe de origem, a nobreza. Ele sonhava apenas com a limitação do poder absoluto dos reis, pois era um conservador, que queria a restauração das monarquias medievais e o poder do Estado nas mãos da nobreza. As convicções de Montesquieu refletemse à sua classe e, portanto, o aproximam dos ideais de uma aristocracia liberal. Ou seja, ele criticava toda a forma de despotismo, mas, não apreciava a ideia de o povo assumir o poder. A sua crítica, no entanto, serviu para desencadear a Revolução Americana e instaurar a república burguesa. 18 Do Espírito Das Leis (L'Esprit des lois), publicado em 1.748, é o livro no qual Montesquieu elabora conceitos sobre formas de governo e exercícios da autoridade política que se tornaram pontos doutrinários básicos da ciência política. Suas teorias exerceram profunda influência no pensamento político moderno. Elas inspiram a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, elaborada em 1.789, durante a Revolução Francesa. Montesquieu é um dos grandes filósofos do Século XVIII. Pensador iluminista, deixou uma grande herança por meio de suas obras. “Para melhor compreensão, desta obra, é preciso que se observe que o que denomino virtude na república é o amor à pátria, isto é, o amor à igualdade. Não é, em absoluto, virtude moral, nem virtude cristã, e sim, virtude política; é a mola que faz mover o governo republicano, assim como a honra é a mola que

38 Para Rousseau, o fundamento da formação da sociedade humana deve ser encontrado na vontade, e não na natureza humana. E essa associação voluntária de indivíduos tem por objetivo a proteção dos bens de cada membro, e também a defesa da vontade geral do povo, que resulta da síntese das vontades individuais, e não de uma mera soma delas. O filósofo postula que um governo somente satisfaz a vontade geral quando edita legislação que tenha por objetivo assegurar a liberdade e a igualdade dos indivíduos. Por suas ideias, os revolucionários de 1.789 o elegeram como patrono da Revolução Francesa20. Atualmente, predomina uma corrente de pensamento mista, que reúne elementos do naturalismo e também do contratualismo. Ao mesmo tempo em que se entende existir uma necessidade natural do homem de associar-se, reconhece-se a importância de sua consciência e manifestação da vontade para moldar a forma de organização. O ser humano é considerado, portanto, como um homem social. Duas correntes de pensamento procuram explicar a finalidade social: a) a determinista
faz mover o governo a monarquia". 19 ‘O Contrato Social’ pode ser considerada a obra prima do suíço Jean-Jacques Rousseau: parte de uma obra mais extensa, as ‘Instituições Políticas’, que, por não ter sido completada, teve suas partes menos importantes destruídas pelo autor. Nesta obra, Rousseau expõe a sua noção de Contrato Social, que difere muito das de Hobbes e Locke: para Rousseau, o homem é naturalmente bom, sendo a sociabilização a culpada pela degeneração do mesmo. O Contrato Social, para Rousseau, é um acordo entre indivíduos para se criar uma sociedade, e só então um Estado. Isto é, o Contrato é um pacto de associação, não de submissão. No primeiro livro da obra, Jean-Jacques Rousseau passa em exame as principais questões da vida política. Sua principal preocupação já se expõe na primeira frase do primeiro capítulo deste livro: O homem nasce livre, e por toda a parte encontra-se acorrentado. Nesse sentido, Rousseau começa ‘O Contrato Ssocial’ questionando o motivo de os homens viverem sob os grilhões da vida em sociedade, do porquê de os homens abandonarem o estado de natureza, uma vez que todos nascem homens e livres. A ordem social seria, para Rousseau, um direito sagrado fundado em convenções, portanto, não-natural. O objeto de estudo deste livro é, em geral, quais seriam estas convenções. A primeira forma de sociedade, portanto o que mais se aproxima de uma sociedade natural, seria a família. Por ser o que mais se aproxima de uma forma natural de sociedade, a família serve como primeiro modelo de sociedade política: o pai representado pelo chefe, os filhos pelo povo. Mas o direito do pai sobre o filho cessa assim que este atinge a idade da razão e torna-se senhor de si. A distinção entre sociedade familiar/sociedade política se dá, principalmente, no fato de o pai se ligar ao filho por amor, e o chefe por prazer em mandar. À questão do direito do mais forte, Rousseau responde que: ceder à força constitui ato de necessidade, não de vontade; quando muito, ato de prudência. Em que sentido poderá representar um dever?, ou seja, a força difere do direito porque pode se impor, mas não obrigar. Assim, para Rousseau, ‘força’ é diferente de ‘direito’ (o último é um conceito moral, fundado na razão, enquanto a força é um fato). Por isso não há direito (nem Contrato) na submissão de um homem pela força. Nenhum homem aliena sua liberdade gratuitamente a um outro, tão pouco um povo a um indivíduo. A escravidão não tem sentido para Rousseau, porque para o autor, o homem depende da liberdade: a liberdade é condição necessária da condição humana. Por isso, ele afirma que renunciar à liberdade é renunciar à qualidade de homem, aos direitos da humanidade, e até aos próprios deveres. Não há recompensa possível para quem a tudo renuncia. Ao falar de como é sempre preciso remontar a uma convenção anterior,, Rousseau conclui que a submissão de um povo a um rei só pode vir depois da constituição do próprio povo, ou seja, antes de um contrato de submissão, é necessário um contrato de associação, visto que, em estado de natureza, os homens não estão associados. A constituição do Povo, ou a associação das vontades individuais depende do Pacto Social. 20 Revolução Francesa é o nome dado ao conjunto de acontecimentos que, entre 5 de maio de 1.789 e 9 de novembro de 1.799, alteraram o quadro político e social da França. Em causa estavam o Antigo Regime (Ancien Régime) e a autoridade do clero e da nobreza. Foi influenciada pelos ideais do Iluminismo e da Independência Americana (1.776). Está entre as maiores revoluções da história da humanidade. A Revolução é considerada como o acontecimento que deu início à Idade Contemporânea. Aboliu a servidão e os direitos feudais e proclamou os princípios universais de "Liberdade, Igualdade e Fraternidade" (Liberté, Egalité, Fraternité), frase de autoria de Jean-Jacques Rousseau. Para a França, abriu-se, em 1.789, o longo período de convulsões políticas do Século XIX, fazendo-a passar por várias repúblicas, uma ditadura, uma monarquia constitucional e dois impérios.

39 b) a voluntarista. A corrente determinista explica a finalidade social como sendo condicionada a leis naturais, inexoráveis, que condicionam a vida da sociedade, sem que os membros da sociedade possam lutar para alterar seus fatores condicionantes, que são de ordens diversas, como a econômica, a geográfica, a étnica e outras. Se aceita a corrente determinista, deverá a evolução da sociedade ser considerada como pré-determinada, isto é, seus membros deveriam submeter-se incondicionalmente às leis, sem jamais tentar efetuar quaisquer mudanças, aguardando passivamente que os fatos se sucedam, sem a possibilidade de sobre eles interferir. Logo, o homem seria impotente para empreender qualquer tentativa de avanço social. A corrente voluntarista é a que explica a finalidade social como consequência da livre escolha do homem, resultado da ação de sua consciência e racionalidade. A sociedade deverá buscar atingir um bem comum, isto é, valores materiais e espirituais compartilhados por todos, ou ao menos pela maioria, que sejam considerados como de grande importância, e em nome dos quais os membros estão dispostos a fazer concessões e sacrifícios. O papa João XXIII afirmou: "bem comum é o conjunto de todas as condições de vida social que consintam e favoreçam o desenvolvimento integral da pessoa humana". (Encíclica Pacem in Terris) Com efeito, a ação dos membros da sociedade deve ser conjunta e ordenada, de modo harmônico. 1.10. Conceito de Estado Estado (do latim status = estar firme, na acepção de situação permanente de convivência), em sentido amplo, pode ser usado para indicar a ‘sociedade’, como tal, ou alguma forma especial de sociedade. Também é usado para indicar (com ‘e’ minúsculo) a condição pessoal do indivíduo perante os direitos civis e políticos (status civitatis, status familiae). Em sentido mais restrito, pode indicar um órgão particular da sociedade, como, por exemplo, o governo ou os sujeitos do governo, uma ‘nação’, ou o território que eles habitam. Quando o Estado é discutido a partir de um ponto puramente jurídico, passa a ser visto como uma corporação qualificada, isto é, um organismo constituído e que funciona de acordo com ordem normativa própria. Daí, diz Kelsen, "o Estado é a comunidade criada por uma ordem jurídica nacional" (em contraposição a uma ordem jurídica internacional). Finalmente, Estado designa uma forma complexa e organizada de sociedade civil, a sociedade política. Há mais de 25 séculos discutem os teóricos da Ciência Política e da Teoria Geral do Direito sobre o conceito de Estado. As dificuldades para defini-lo são inúmeras, podendo ser citadas as seguintes: a) existe uma variedade muito grande de correntes doutrinárias, daí não ser possível encontrar uma definição que seja aceita por todas; b) é sempre possível analisar o Estado sob muitos ângulos, porém qualquer definição reflete obrigatoriamente o ponto de partida do observador; c) existe considerável grau de subjetividade no estudo do Estado, dificultando o estabelecimento de uma definição objetiva;

40 d) ao longo dos séculos, o vocábulo tem sido empregado em grande variedade de acepções. Os doutrinadores se dividem, basicamente, em dois grandes grupos, cada qual construindo a conceituação do Estado com base: a) em uma noção de força; b) em uma noção de ordem jurídica. Os doutrinadores que apresentam o conceito de Estado com base em uma noção de força, podem ser classificados como políticos, embora de modo algum neguem o enquadramento do Estado em uma ordem jurídica. Esses pensadores, como Léon Duguit e Georges Burdeau, entendem o Estado como entidade institucionalizadora do poder, dotada de força irresistível, embora delimitada pelo Direito. 1.11. O Estado se subordina inteiramente ao Direito Não existe nenhum Direito absoluto, ou seja, existem sistemas de normas jurídicas -- o Direito alemão, o Direito norte-americano, o Direito brasileiro -- cujas esferas de validade são limitadas de modos característicos. Além disso, existe, também, um complexo de normas que compreendem o Direito Internacional. O problema do Estado, como fenômeno jurídico, tem por tarefa delimitar as manifestações empíricas do Direito positivo e como se inter-relacionam. Então, considera-se que o Direito francês se baseia na existência de um Estado francês como uma entidade social, não-jurídica. Assim, pode-se dizer que a relação entre o Direito e o Estado é análoga à que existe entre o Direito e o indivíduo. Pressupõe-se que o Direito -- apesar de criado pelo Estado --, regula a conduta do próprio Estado, concebido como uma espécie de homem (ou super-homem), da mesma forma como o Direito regula a conduta dos homens. As principais teorias acerca da relação entre Estado e Direito são: a) a teoria monística b) a teoria dualística A teoria monística considera que Estado e Direito são uma única unidade, coincidindo plenamente os conceitos. A teoria dualística considera que Estado e Direito são duas realidades completamente distintas, sem relação um com o outro. Segundo Hans Kelsen, que se inclina pela teoria monística, o Estado, enquanto realidade social, está incluído na categoria de sociedade; ele é uma comunidade. O Direito está incluído na categoria de normas, uma ordem normativa: é um sistema de normas, ou seja, uma ordem normativa. O Estado e o Direito, segundo essa visão, são dois objetos diferentes. Alguns autores consideram que a dualidade entre Estado e Direito é um dos fundamentos da ciência política e da jurisprudência modernas, que regulam as relações jurídicas no interior da sociedade. Para Kelsen, no entanto, essa dualidade é indefensável, na medida em que o Estado, como comunidade jurídica, não pode ser separado de sua ordem jurídica, da mesma forma que uma corporação não é distinta de sua ordem constitutiva. E, como inexiste razão para se supor, que existam duas ordens normativas diferentes: a ordem do Estado e a sua ordem jurídica. Por isso, devemos admitir que a comunidade a que chamamos de ‘Estado’ é a sua ordem jurídica.

41 2. ANTECEDENTES DA CONSTITUIÇÃO 2.1. A ideia de constituição Ordem jurídica é o conjunto de normas jurídicas, escritas e não escritas, coativamente impostas pelo Estado, de modo a assegurar a vida em sociedade, de acordo com a vontade da maioria. As normas jurídicas criadas pelo Estado formam um todo denominado ius positum, ou direito positivo, isto é, o direito posto, ou imposto. O conjunto de todas as normas jurídicas criadas pelo Estado e em vigor, constitui o direito objetivo, que é organizado segundo uma hierarquia de leis, no topo da qual está situada a Constituição. Constituição é vocábulo que pode ser entendido em sentido político, sociológico ou puramente jurídico. Em sentido político, Constituição é o documento formal e solene, o conjunto de normas jurídicas, que dispõe sobre a organização fundamental do Estado e orienta seu funcionamento, além de estabelecer garantias aos direitos individuais e coletivos. Em sentido puramente jurídico, Constituição é uma norma fundamental hipotética, que serve de fundamento lógico de validade da norma positiva suprema, dentro de um ordenamento jurídico, que regula a criação de outras normas. 2.2. Antecedentes da constituição A origem histórica das constituições costuma ser apontada como a Magna Carta, de 1.215, um documento escrito, outorgado pelo Rei João Sem Terra a seus nobres, celebrado na Inglaterra, garantindo-lhes determinados direitos e benefícios. Era um pacto visando ao respeito aos direitos dos senhores feudais, exclusivamente, por parte da Coroa, não incluindo garantias às pessoas do povo. Outros diplomas legislativos são apontados como formadores do moderno conceito de Constituição: • A Petition of Rights, de 1.628, imposta pelo Parlamento inglês ao Rei Carlos I, da Inglaterra, para que a Coroa respeitasse os direitos de todos os cidadãos ingleses • Os contratos de colonização, celebrados na América do Norte pelos peregrinos ingleses (como o Compact, de 1.620, firmado a bordo do navio Mayflower e as Fundamental Orders of Connecticut, de 1.639). Esses diplomas legais do Século XVII diferem de diplomas legais anteriores, tais como a Magna Carta. Embora a Magna Carta constitua inegável avanço no campo jurídico constitucional, elas sempre foram outorgadas pelo monarca. Os diplomas legais do Século XVII diferenciam-se destas porque refletem o estabelecimento e a organização do governo pelos próprios cidadãos, que a eles se submetem, consistindo em uma espécie de pacto (ou contrato) social, ideia desenvolvida pelos filósofos Locke, Hobbes e Rousseau. No Século XVIII surge o Iluminismo21, doutrina que individualiza os direitos do homem, separando-os dos da sociedade. Essa visão ideológica é fonte do liberalismo econômico, que
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Iluminismo, Esclarecimento ou Ilustração (em alemão Aufklärung, em inglês Enlightenment, em italiano Illuminismo, em francês Siècle des Lumières, em espanhol Ilustración) designam uma época da história intelectual ocidental. Ainda que importantes autores contemporâneos venham ressaltando as origens do Iluminismo no Século XVII , não há consenso abrangente quanto à datação do início da era do Iluminismo. Boa parte dos acadêmicos simplesmente utilizam o início do Século XVIII como marco de referência, aproveitando a já consolidada denominação Século das Luzes . O término do período é, por sua vez, habitualmente assinalado em coincidência com o início das Guerras Napoleônicas (1.804-1.815).

42 privilegia a livre-concorrência em face do dirigismo estatal, sendo representada pela expressão laissez-faire22. A ênfase nos direitos naturais do homem impõe limites à atuação do Estado, prevendo remédios à violação de direitos dos cidadãos. Do ponto de vista organizacional, surge a doutrina da separação dos poderes, elaborada por John Locke no livro ‘Segundo Tratado do Governo Civil’ e por Montesquieu, em seu livro ‘O Espírito das Leis’. A separação de poderes (ou divisão funcional do poder) originou-se na revolução constitucional da Inglaterra (a chamada "Revolução Gloriosa", entre 1.688 e 1.689, um dos vários conflitos do Século XVII, entre as estruturas feudais e o capitalismo em expansão, e que marcou o fim do absolutismo no país, substituindo-o pelo Estado liberal-capitalista), com a edição da "Bill of Rights", de 1.689, que limitou os poderes do rei (Guilherme de Orange, que havia derrotado Jaime II) e os equiparou aos do Parlamento, além de reconhecer a independência do Judiciário. Em 1.789, eclode a Revolução Francesa23, ocasião em que foi promulgada a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (26.08.1789), que a consagra no art. 16. O Brasil, independente de Portugal desde 1.822, teve oito Constituições:
Iluminismo é um conceito que sintetiza diversas tradições filosóficas, correntes intelectuais e atitudes religiosas. Pode-se falar mesmo em diversos micro-iluminismos, diferenciando especificidades temporais, regionais e de matiz religioso, como nos casos de Iluminismo tardio, Iluminismo escocês e Iluminismo católico. O uso do termo Iluminismo, na forma singular, justifica-se, contudo, dadas certas tendências gerais comuns a todos os iluminismos, nomeadamente, a ênfase nas ideias de progresso e perfectibilidade humana, assim como a defesa do conhecimento racional como meio para a superação de preconceitos e ideologias tradicionais. O Iluminismo é, para sintetizar, uma atitude geral de pensamento e de ação. Os iluministas admitiam que os seres humanos estão em condição de tornar este mundo um mundo melhor, mediante introspecção, livre exercício das capacidades humanas e do engajamento político-social. Immanuel Kant, um dos mais conhecidos expoentes do pensamento iluminista, num texto escrito precisamente como resposta à questão O que é o Iluminismo?, descreveu de maneira lapidar a mencionada atitude: "O Iluminismo representa a saída dos seres humanos de uma tutelagem que estes mesmos se impuseram a si. Tutelados são aqueles que se encontram incapazes de fazer uso da própria razão independentemente da direção de outrem. É-se culpado da própria tutelagem quando esta resulta não de uma deficiência do entendimento mas da falta de resolução e coragem para se fazer uso do entendimento independentemente da direção de outrem. Sapere aude! Tem coragem para fazer uso da tua própria razão! - esse é o lema do Iluminismo". 22 Laissez-faire é parte da expressão em língua francesa "laissez faire, laissez aller, laissez passer", que significa literalmente "deixai fazer, deixai ir, deixai passar". Esta frase é legendariamente atribuída ao comerciante Legendre, que a teria pronunciado numa reunião com Colbert, no final do Século XVII (Que faut-il faire pour vous aider? perguntou Colbert. Nous laisser faire, teria respondido Legendre). Mas, não resta dúvida que o primeiro autor a usar a frase laissez-faire, numa associação clara com sua doutrina, foi o Marquês de Argenson, por volta de 1.751. Laissez-faire é parte da expressão em língua francesa "laissez faire, laissez aller, laissez passer", que significa literalmente "deixai fazer, deixai ir, deixai passar". Esta frase é legendariamente atribuída ao comerciante Legendre, que a teria pronunciado numa reunião com Colbert, no final do século XVII (Que faut-il faire pour vous aider? perguntou Colbert. Nous laisser faire, teria respondido Legendre). Mas não resta dúvida que o primeiro autor a usar a frase laissez-faire, numa associação clara com sua doutrina, foi o Marquês de Argenson, por volta de 1751. 23 Revolução Francesa é o nome dado ao conjunto de acontecimentos que, entre 5 de maio de 1.789 e 9 de novembro de 1.799, alteraram o quadro político e social da França. Em causa estavam o Antigo Regime (Ancien Régime) e a autoridade do clero e da nobreza. Foi influenciada pelos ideais do Iluminismo e da Independência Americana (1.776). Está entre as maiores revoluções da história da humanidade. A Revolução é considerada como o acontecimento que deu início à Idade Contemporânea. Aboliu a servidão e os direitos feudais e proclamou os princípios universais de "Liberdade, Igualdade e Fraternidade" (Liberté, Egalité, Fraternité), frase de autoria de Jean-Jacques Rousseau. Para a França, abriu-se, em 1.789, o longo período de convulsões políticas do Século XIX, fazendo-a passar por várias repúblicas, uma ditadura, uma monarquia constitucional e dois impérios.

43 • • a primeira promulgada no Império, em 1.824 a segunda, e as seguintes, foram promulgadas durante o período republicano, nos anos de: 1.891, 1.934, 1.937 (denominada "polaca", pois se inspirou na Constituição polonesa), 1.946, 1.967 (regime militar), 1.969 (verdadeira Constituição, embora formalmente outorgada pela Emenda Constitucional n° 1) e, finalmente, a de 1.988.

Merecem ser recordados alguns episódios que marcaram a elaboração da oitava Constituição do Brasil, e sétima da República, de 1.988: • O Governo Militar, após a enfermidade de Costa e Silva (que culminou com seu falecimento, em dezembro de 1.969), substituído por uma Junta Militar, passou para as mãos do Gen. Emílio Garrastazu Médici, precisamente na data da entrada em vigor da Emenda Constitucional 1/69, de17.10.1969. Foram reabertas as Assembleias Legislativas dos Estados e prometida gradativa abertura do regime. Sucedeu-o, em 1.974, o Gen. Ernesto Geisel, que também passou a promover um programa de abertura política, "lenta, gradual e segura", segundo o critério alardeado pelo governo, na época; Sucedeu-o, por sua vez, por meio de nova eleição indireta, o Gen. João Baptista Figueiredo, em cujo mandato ocorreram amplas manifestações populares, que visavam à redemocratização do País e a realização de eleições diretas (Movimento "Diretas Já!"). Ainda uma vez, foram realizadas eleições indiretas, ganhando o candidato Tancredo Neves, que deveria tomar posse em 15.03.1985; Acometido de grave moléstia, assumiu a Presidência o seu vice, José Sarney, (a rigor, deveria assumir, como argumentam alguns juristas, o Presidente da Câmara dos Deputados, pois o Vice somente sucede o Presidente, quando este é afastado; como não chegou a tomar posse, Tancredo não era, ainda, Presidente), dando início à era chamada de "Nova República". Convocada para se reunir unicameralmente a Assembleia Nacional Constituinte, em 01.02.1987, culminaram os trabalhos com a promulgação da nova Constituição, no dia 05.10.1988, com 245 artigos e mais 70 outros constantes do ‘Ato das Disposições Constitucionais Transitórias – ADCT’, cuja mais significativa característica é seu cunho democrático, que firma o Brasil como Estado de Direito; Algumas inovações merecem destaque: a) mandado de segurança coletivo; b) mandado de injunção; c) habeas data; d) proteção a direitos difusos e coletivos; e e) consagração do STF como Corte predominantemente constitucional, criação do Superior Tribunal de Justiça - STJ e extinção do Tribunal Federal de Recursos - TFR.

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A atual Constituição brasileira pode ser classificada como formal, escrita, dogmática, popular e rígida. O art. 1° consagra o princípio da democracia direta, isto é, o poder político pode ser exercido não apenas por meio dos representantes do povo (democracia indireta), mas, também, por qualquer cidadão que, por meio de mecanismos previstos, poderá submeter projeto de lei ao Congresso. Os fundamentos democráticos do poder, estabelecidos no art. 1º, da CF, são: • a soberania; • a cidadania; • a dignidade da pessoa humana; • os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa • o pluralismo político.

44 Os objetivos fundamentais estabelecidos pelo art. 3°, da CF, são: • construir uma sociedade livre, justa e solidária; • garantir o desenvolvimento nacional; • erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; • promover o bem de todos, sem preconceito de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Os elementos integrantes da Constituição do Estado de direito liberal são: • o único referencial da Constituição é o Estado • observação dos princípios fundamentais da concepção de Estado liberal: autonomia privada, economia de mercado, garantias à propriedade privada, ingerência mínima do Estado, apenas de forma subsidiária e secundária • racionalização e limitação do poder do Estado e consagração de garantias do indivíduo contra sua atuação • dualismo Estado-sociedade, expresso na força normativa da Constituição, que regula juridicamente a organização dos órgãos do Estado, separadamente da sociedade; • a interpretação da vontade constitucional é feita com base no texto escrito, expresso, e no contexto jurídico amplo, oculto. Os elementos integrantes da Constituição do Estado social são: • os referenciais da Constituição são o Estado e a sociedade • observação dos princípios fundamentais da concepção de Estado social: intervenção do Estado nos planos social, econômico e político, de forma a assegurar as formas de existência social, a igualdade econômica e restringir a liberdade do indivíduo em face do interesse social • imposição de fins e tarefas ao Poder Público, de modo que os direitos das pessoas sejam atingidos mediante participação direta do Estado • a interpretação da vontade constitucional é feita por meio da análise do texto e do contexto, descodificados, isto é, a mensagem social, econômica e cultural é inequivocamente enunciada. 2.3. Pactos forais e cartas de franquia Embora a Magna Carta constitua inegável avanço no campo jurídico constitucional, tanto ela quanto os forais e as cartas de franquia eram destinadas a determinados grupos de pessoas, sendo sempre outorgadas pelo monarca. Os diplomas legais do Século XVII diferenciam-se destas porque refletem o estabelecimento e a organização do governo pelos próprios cidadãos, que a eles se submetem, consistindo em uma espécie de pacto (ou contrato) social, ideia desenvolvida pelos filósofos Locke, Hobbes e Rousseau.

2.4. Doutrinas do pacto social

45 Jean-Jacques Rousseau (1.712 – 1.778), autor da obra ‘O Contrato Social’ 24, de 1.762, retoma o pensamento de Hobbes, de que a sociedade é constituída a partir de um pacto social, e propõe o exercício da soberania pelo povo, como condição primeira para sua libertação. Para Rousseau, o fundamento da formação da sociedade humana deve ser encontrado na vontade, e não na natureza humana. E essa associação voluntária de indivíduos tem por objetivo a proteção dos bens de cada membro, e também a defesa da vontade geral do povo, que resulta da síntese das vontades individuais, e não de uma mera soma delas. O filósofo postula que um governo somente satisfaz a vontade geral quando edita legislação que tenha por objetivo assegurar a liberdade e a igualdade dos indivíduos. Por suas ideias, os revolucionários de 1.789 o elegeram como patrono da Revolução Francesa25.

3. CONCEITO DE CONSTITUIÇÃO 3.1. Constituição em sentido sociológico
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‘O Contrato Social’ pode ser considerada a obra prima do suíço Jean-Jacques Rousseau: parte de um obra mais extensa, as ‘Instituições Políticas’, que, por não ter sido completada, teve suas partes menos importantes destruídas pelo autor. Nesta obra, Rousseau expõe a sua noção de Contrato Social, que difere muito das de Hobbes e Locke: para Rousseau, o homem é naturalmente bom, sendo a sociabilização a culpada pela degeneração do mesmo. O Contrato Social, para Rousseau, é um acordo entre indivíduos para se criar uma sociedade, e só então um Estado. Isto é, o Contrato é um pacto de associação, não de submissão. No primeiro livro da obra, Jean-Jacques Rousseau passa em exame as principais questões da vida política. Sua principal preocupação já se expõe na primeira frase do primeiro capítulo deste livro: O homem nasce livre, e por toda a parte encontra-se acorrentado. Nesse sentido, Rousseau começa ‘O Contrato Ssocial’ questionando o motivo de os homens viverem sob os grilhões da vida em sociedade, do porquê de os homens abandonarem o estado de natureza, uma vez que todos nascem homens e livres. A ordem social seria, para Rousseau, um direito sagrado fundado em convenções, portanto, não-natural. O objeto de estudo deste livro é, em geral, quais seriam estas convenções. A primeira forma de sociedade, portanto o que mais se aproxima de uma sociedade natural, seria a família. Por ser o que mais se aproxima de uma forma natural de sociedade, a família serve como primeiro modelo de sociedade política: o pai representado pelo chefe, os filhos pelo povo. Mas o direito do pai sobre o filho cessa assim que este atinge a idade da razão e torna-se senhor de si. A distinção entre sociedade familiar/sociedade política se dá, principalmente, no fato de o pai se ligar ao filho por amor, e o chefe por prazer em mandar. À questão do direito do mais forte, Rousseau responde que: ceder à força constitui ato de necessidade, não de vontade; quando muito, ato de prudência. Em que sentido poderá representar um dever?, ou seja, a força difere do direito porque pode se impor, mas não obrigar. Assim, para Rousseau, ‘força’ é diferente de ‘direito’ (o último é um conceito moral, fundado na razão, enquanto a força é um fato). Por isso não há direito (nem Contrato) na submissão de um homem pela força. Nenhum homem aliena sua liberdade gratuitamente a um outro, tão pouco um povo a um indivíduo. A escravidão não tem sentido para Rousseau, porque para o autor, o homem depende da liberdade: a liberdade é condição necessária da condição humana. Por isso, ele afirma que renunciar à liberdade é renunciar à qualidade de homem, aos direitos da humanidade, e até aos próprios deveres. Não há recompensa possível para quem a tudo renuncia. Ao falar de como é sempre preciso remontar a uma convenção anterior,, Rousseau conclui que a submissão de um povo a um rei só pode vir depois da constituição do próprio povo, ou seja, antes de um contrato de submissão, é necessário um contrato de associação, visto que, em estado de natureza, os homens não estão associados. A constituição do Povo, ou a associação das vontades individuais depende do Pacto Social. 25 Revolução Francesa é o nome dado ao conjunto de acontecimentos que, entre 5 de maio de 1.789 e 9 de novembro de 1.799, alteraram o quadro político e social da França. Em causa estavam o Antigo Regime (Ancien Régime) e a autoridade do clero e da nobreza. Foi influenciada pelos ideais do Iluminismo e da Independência Americana (1.776). Está entre as maiores revoluções da história da humanidade. A Revolução é considerada como o acontecimento que deu início à Idade Contemporânea. Aboliu a servidão e os direitos feudais e proclamou os princípios universais de "Liberdade, Igualdade e Fraternidade" (Liberté, Egalité, Fraternité), frase de autoria de Jean-Jacques Rousseau. Para a França, abriu-se, em 1.789, o longo período de convulsões políticas do Século XIX, fazendo-a passar por várias repúblicas, uma ditadura, uma monarquia constitucional e dois impérios.

46 Em sentido sociológico, Constituição é a soma dos fatores reais de poder que existem em determinado país, consistindo a lei escrita meramente em uma formalização desses poderes. 3.2. Constituição em sentido matéria A Constituição material pode ser: • material em sentido amplo (enquanto refletir e se identificar plenamente com o regime político ao qual o Estado está submetido) • material em sentido estrito (quando o conteúdo consiste em normas que tratam exclusivamente de matérias constitucionais). 3.3. Constituição em sentido formal Constituição formal é aquela solenemente promulgada, diploma orgânico que reflete a estrutura e o funcionamento do Estado, somente passível de modificações mediante processos e formalidades especiais, nela previstos. 3.4. Elementos da constituição e suas classificações A Constituição pode ser classificada quanto à forma das regras constitucionais, em escrita (consiste em normas legislativas positivadas) e não-escrita (também denominada consuetudinária ou inorgânica – consiste na observação dos usos e dos costumes). A Constituição escrita pode ser codificada (quando todas as normas constam de um único diploma legal, a Constituição) ou não-codificada (quando as normas constam de diversos diplomas legais). A Constituição pode ser classificada, quanto ao conteúdo das regras constitucionais, em material e formal. A Constituição material pode ser material em sentido amplo (enquanto refletir e se identificar plenamente com o regime político ao qual o Estado está submetido), e material em sentido estrito (quando o conteúdo consiste em normas que tratam exclusivamente de matérias constitucionais). A Constituição pode ser classificada, quanto à origem, em dogmática e histórica. Constituição dogmática é a que resulta da aplicação de princípios (ou dogmas), de modo consciente, que fixam a organização fundamental do Estado. Constituição histórica é aquela que provém de lenta evolução dos valores do povo, em determinada sociedade, resultando em regras escritas (leis) e não escritas (usos e costumes). A Constituição pode ser classificada, quanto à estabilidade das regras constitucionais, em rígida, semi-rígida e flexível. Constituição rígida é aquela em que as regras constitucionais somente podem ser alteradas mediante processo especial e qualificado, de não frequente aplicação. Constituição semi-rígida é aquela em que as regras constitucionais podem ser alteradas, parte pelo processo legislativo comum e parte por processo especial. Constituição flexível é aquela em que as regras constitucionais são passíveis de modificações pelo processo legislativo comum. Constituição-garantia é a denominação que se dá àquela do tipo clássico, que assegura liberdades individuais e coletivas e limita o poder do Estado.

47 Constituição-balanço é a denominação que se dá à Constituição que meramente descreve e sistematiza a organização política do Estado, refletindo um estágio nas relações de poder, sendo revisada a cada salto significativo na evolução. Foi o tipo utilizado nos países socialistas, antes da queda do Muro de Berlim, em 1989. Constituição-dirigente é a denominação que se dá à Constituição cujas normas estabelecem diretrizes para o exercício do poder, de forma a atingir objetivos políticos, sociais e econômicos, e que contém, para tal, normas constitucionais programáticas. A Constituição pode ser classificada, quanto ao modo de elaboração: • em dogmática (sempre escrita, elaborada por órgão constituinte, que consagra os dogmas políticos e jurídicos dominantes na época da elaboração) • histórica (sempre não escrita, ou costumeira, quando resulta de longo processo de sedimentação política, social e jurídica, não se conseguindo determinar ao certo sua fonte). A Constituição pode ser classificada, quanto à origem, em: • popular (ou democrática), quando elaborada por uma Assembleia Constituinte, composta por representantes eleitos pelo povo • outorgada (ou imposta), quando o governante ou interposta pessoa elabora o texto constitucional, sem participação do povo. 4. O PODER CONSTITUINTE 4.1. Conceito de Poder Constituinte A Constituição Federal é o conjunto de normas supremas do ordenamento jurídico de um país. A Constituição limita o poder, organiza o Estado e define direitos e garantias fundamentais. Se for flexível suas normas desempenham a mesma função, mas encontramse no nível hierárquico das normas legislativas. A teoria constitucional moderna tem a sua origem nas Revoluções Estadunidense e Francesa, e coincide com a positivação dos direitos fundamentais. A Constituição rígida situa-se no topo da pirâmide normativa, recebe nomes como Lei Fundamental, Lei Suprema, Lei das Leis, Lei Maior, Carta Magna. A Constituição é elaborada pelo denominado poder constituinte originário ou primário (cujo poder é, segundo a teoria clássica hoje questionada, soberano e ilimitado), e nos países democráticos é exercido por uma Assembléia Constituinte. A reforma (revisão ou emenda) da Constituição é feita pelo denominado poder constituinte derivado reformador. O poder reformador é derivado, condicionado e subordinado à própria Constituição; enfim é limitado pela vontade soberana do Poder Constituinte Originário. Se for uma Constituição escrita e rígida exigirá procedimentos mais difíceis e solenes para elaboração de emendas constitucionais do que exige para a criação de leis ordinárias. Muitas Constituições proíbem a abolição do conteúdo de algumas normas consideradas fundamentais(núcleo intangível). No Brasil (cuja constituição atual foi promulgada em 1.988), essas normas são conhecidas como cláusulas pétreas, e são previstas pelo art. 60 (implicitamente irreformável), que também prevê além das cláusulas pétreas (limitações materiais), limitações circustânciais e formais.

48 Nos Estados Federativos, além da Constituição Federal, temos Constituições de cada Estado Federado, subordinadas às previsões da Constituição Federal. É o poder constituinte derivado decorrente. A principal garantia dessa superioridade (supremacia, primazia) das Constituições rígidas são os mecanismos de controlo de constitucionalidade, que permitem afastar, num caso concreto, a aplicação de uma norma incompatível com texto constitucional (controle difuso) ou anulá-las quando uma norma, em tese, violar a Constituição (controle concentrado). As demais normas jurídicas (ditas infraconstitucionais) devem estar em concordância com a Constituição, não podendo contrariar as exigências formais impostas por ela [Constituição Federal] para a edição de uma norma infra-constitucional (constitucionalidade formal), nem o conteúdo da Constituição (constitucionalidade material). 5. DIREITOS E GARANTIAS INDIVIDUAIS NA CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1.998: HISTÓRICO E EXTENSÃO 5.1. Histórico dos Direitos Fundamentais A partir do Século XIX, o desenvolvimento industrial e o surgimento de uma classe proletária organizada, permanentemente em confronto com a burguesia capitalista, produziu novas ideias sobre a sociedade e sobre a tutela jurídica de seus interesses, que se refletiram, principalmente, nos seguintes documentos e correntes: • Manifesto Comunista (e doutrinas subsequentes, de inspiração marxista), apregoando liberdade e igualdade materiais, a serem realizadas em regime socialista de governo • Doutrina social da Igreja Católica, expressa em diversas Encíclicas e Concílios • Doutrina do intervencionismo do Estado na ordem econômica e social. As massas populares passaram a exercer pressão, no sentido de buscar auxílio e proteção do Estado em questões relativas à saúde, às condições de trabalho, à aposentadoria e educação, enquanto as classes dominantes buscavam, ao contrário, fugir do controle do Estado. A dinâmica sócio-econômica do Século XIX levou, no plano político, ao sufrágio universal, na França, o que forçou a mudança da atuação do Estado, passando o Parlamento a promulgar Constituição e leis garantindo direitos econômicos e sociais. Inicialmente, no Século XVIII, os direitos fundamentais eram proclamados em documentos solenes (ex.: Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão). A seguir, no Século XIX, passaram a integrar os preâmbulos das Constituições e dos tratados internacionais (nestes últimos, ainda aparecem dessa forma). A partir do Século XX, ganharam lugar no próprio corpo das Constituições, positivando-se como normas jurídicas constitucionais. As primeiras declarações de direitos, na Idade Média, continham enumerações de direitos do homem, em abstrato, a eles destinados como cidadãos (os forais), ou a determinados grupos de indivíduos pertencentes a corporações ou a cidades (caso das cartas de franquia). As declarações, a partir do Século XVIII, expressam os direitos do homem como uma delimitação ao poder do Estado. O Estado-previdência, além das delimitações constitucionalmente previstas, passou a ser titular de novas atribuições constitucionais, para criar serviços públicos destinados a cumprir suas obrigações de cunho social, econômico e previdenciário. O Estado passou, também, a garantir ao indivíduo o direito de reunião e de associação. Os direitos fundamentais do homem ganharam amplitude e importância tanto no ordenamento jurídico interno dos países, pois adquiriram o peso de normas constitucionais positivas, quanto no plano internacional, por constituírem objeto de inúmeros tratados e convenções.

49 Quais as principais características dos direitos fundamentais do homem são: • a inalienabilidade • a imprescritibilidade • irrenunciabilidade A inalienabilidade consiste na impossibilidade jurídica de transferir esses direitos (à vida, à liberdade), a qualquer título, por não terem conteúdo patrimonial. A imprescritibilidade consiste na possibilidade jurídica de pleitear sua tutela sem qualquer limite de tempo, ainda que jamais exercidos, ou exercidos por algum tempo, pois consistem em direitos de cunho personalíssimo, não sendo jamais atingidos pela prescrição. A irrenunciabilidade consiste na impossibilidade jurídica de o indivíduo abrir mão desses direitos, expressa ou tacitamente, não deixando de gozar de sua tutela jurídica, pelo seu não-exercício, ou por deixar de exercê-los. Os direitos fundamentais do homem passaram a constar da Constituição mexicana, de 1.917, com pequena repercussão, e das Constituições republicanas de Weimar (1.919) e da Espanha (1.931). Na Declaração russa (1.918) e nas Constituições soviéticas, não havia delimitação ao poder do Estado frente ao indivíduo, sendo os direitos fundamentais do homem reconhecidos dentro de uma visão coletivizada e uniforme da sociedade. Garantias constitucionais são normas que delimitam a atuação do Estado, no sentido de vedar a prática de atos que configurariam violação a direito reconhecido. 5.2. Extensão dos Direitos Fundamentais Enquanto a Constituição do Império, de 1824, e a primeira da República, de 1891, refletiam o entendimento individualista dos direitos fundamentais, a de 1934 foi nossa primeira Constituição a incorporar a concepção social dos direitos fundamentais do homem. A CF de 1988 consagra inúmeros direitos fundamentais do homem, que podem ser classificados, segundo a ordem do atual texto constitucional, em direitos: • individuais (art. 5°) • coletivos (art. 5°) • sociais (art. 6° e 193 a 232) • à nacionalidade (art. 12) • políticos (art. 14, 15, 16 e 17) • econômicos (art. 170 a 192). A atual CF desmembrou os direitos sociais da estrutura anterior (Ordem Econômica e Social), conferindo-lhes maior importância. Além de ser mais abrangente e extensa do que as Constituições anteriores, incluiu, ao lado das garantias constitucionais clássicas, o direito à informação, a proteção a direitos difusos (ao consumidor, ao meio ambiente) e coletivos (ampliação da atuação dos sindicatos). A inviolabilidade do direito à vida, assegurado pela CF, art. 5°, caput, consiste na proteção ao ser humano tanto no plano material (constituído por elementos biofísico-psíquicos), quanto no plano imaterial (formado por elementos espirituais). São vedadas quaisquer práticas que coloquem em risco a vida, desde a formação do feto. Assim, são vedados: • o aborto (exceto nos casos de perigo à vida da gestante, do feto ou de concepção resultante de estupro)

50 • • • • a eutanásia (não há vedação constitucional expressa) a pena de morte (art. 5°, XLVII, exceto nos casos de guerra declarada) as ofensas à integridade física (que constam do Código Penal, e são, na CF, especialmente garantidos esses direitos aos presos - art. 5°, XLIX) e à integridade moral (como tortura ou tratamento desumano e degradante - art. 5°, III). como corolário, admite-se que alguém tire a vida de outrem nos casos de estado de necessidade, de legítima defesa, de estrito cumprimento do dever legal e de exercício regular de direito (art. 23, do CP).

Direito à privacidade é espécie de direito individual, conexo ao direito à vida, que consiste em resguardar informações sobre o indivíduo, que sobre elas mantém controle, e não deseja revelá-las a ninguém, ou somente a pessoas de sua escolha, incluindo sua vida familiar, profissional e social. Os direitos constitucionalmente assegurados, cujo objeto imediato é a liberdade, são: • o de locomoção • o de pensamento • o de reunião • o de associação • o de profissão • o de ação • o de liberdade sindical • o de greve O direito à liberdade de locomoção, isto é, o direito de, em tempo de paz, ir, vir, e ficar, consta do art. 5°, XV, da CF, e consiste em assegurar ao indivíduo a movimentação e a permanência em qualquer ponto do país, nele podendo entrar, permanecer ou dele sair com seus bens, resguardados os direitos de terceiros e da sociedade em geral. O direito à liberdade de pensamento, isto é, o direito às próprias convicções e à sua ampla expressão, consta dos art. 5.°, incisos IV, V, VI, VIII, IX e XII, e 220, caput e § 1°, 2°, e 6°, da CF, consiste em assegurar ao indivíduo a possibilidade de manifestar o pensamento, exprimir a atividade intelectual, artística, científica e a de comunicação, praticar qualquer religião, filiar-se a partido ou associação de qualquer tendência política ou filosófica, sem sofrer censura, sem necessitar de licença prévia, e sem restrições a outros direitos, em virtude do exercício desses. Quanto à liberdade de manifestação do pensamento, deverá o autor identificar-se (art. 5°, IV), pois, ao permanecer no anonimato, poderia atacar alguém, sem lhe dar oportunidade de defesa. Quanto à crença religiosa e a convicções filosóficas e políticas, é vedado invocá-las para fugir ao cumprimento de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei (art. 5°, VIII), como, por exemplo, o serviço militar obrigatório. De modo geral, o exercício de quaisquer direitos está subordinado ao respeito à ordem pública e aos bons costumes; quando esses pensamentos são dirigidos a terceiros, por qualquer forma sigilosa (correspondência fechada), esse sigilo há de ser respeitado, exceto o das comunicações telefônicas que, por ordem judicial, podem ser violadas. A regulamentação das diversões e espetáculos públicos, classificando-os segundo a idade dos espectadores e determinando horários e locais adequados para apresentações, para que não violem os valores éticos e sociais da pessoa e da família, é objeto de lei federal ordinária (art. 220, § 3°), serve de proteção à sociedade e não se confunde com a censura arbitrária.

51 As consequências jurídicas da garantia constitucional de inviolabilidade da correspondência, além de sujeitar o infrator às penas da lei criminal, quaisquer provas obtidas por meio de violação não autorizada serão consideradas ilícitas e não poderão ser aceitas em juízo (art. 5°, LVI). O direito à liberdade de reunião, que consta do art. 5°, XVI, consiste na autorização constitucional para que as pessoas possam se encontrar, de forma ocasional ou periódica, mas descontínua, pacífica e em locais abertos ao público, independentemente de autorização da autoridade competente, com a finalidade de discutir ideias ou assumir posições em conjunto. A reunião deverá ser pacífica, e as pessoas reunidas, desarmadas, devendo avisar previamente a autoridade competente. Tão pouco poderão frustrar reunião anteriormente convocada para o mesmo local público e horário. O direito à liberdade de associação, que consta do art. 5°, incisos XVII a XXI, consiste na autorização constitucional para que associações de pessoas possam ser constituídas, e funcionem, de forma organizada, contínua e lícita, somente podendo ser dissolvidas em virtude de decisão judicial transitada em julgado. A criação de associações e de cooperativas, na forma da lei, independe de autorização do poder público. A associação não pode ter fins ilícitos, isto é, proibidos pela lei penal. Além disso, não são permitidas associações de caráter paramilitar. Vale ressaltar que ninguém pode ser obrigado a associar-se, ou permanecer associado. O direito à liberdade de profissão, que consta da CF, art. 5°, XIII, consiste na autorização constitucional a que as pessoas possam desenvolver quaisquer trabalhos, ofícios ou profissões. A liberdade para o exercício de grande parte das atividades profissionais é condicionada às qualificações técnicas da pessoa, estabelecidas em lei. O direito à liberdade de ação, que consta da CF, art. 5°, II, consiste na autorização constitucional para que as pessoas somente possam ser obrigadas a fazer algo, ou deixar de fazê-lo, em virtude de lei (princípio da legalidade). O direito à liberdade de associação sindical, que consta da CF, art. 8°, consiste na autorização constitucional a que profissionais ou trabalhadores possam filiar-se a um sindicato, se o desejarem, não sendo exigida autorização do Estado para sua fundação, exceto o registro no órgão competente. Veda-se a dispensa de empregado sindicalizado a partir do registro da candidatura a cargo de direção ou representação sindical e, se eleito, ainda que suplente, até um ano após o final do mandato, salvo se cometer falta grave. Nenhum profissional ou trabalhador poderá ser obrigado a filiar-se ou manter-se filiado a sindicato (art. 8°, V). É vedada a criação de mais de uma organização sindical, em qualquer grau, representativa de categoria profissional ou econômica, na mesma base territorial, que não poderá ser inferior à área de um Município (art. 8°, II). O direito de greve, assegurado pela CF, art. 9°, caput, permite aos trabalhadores paralisarem suas atividades, como forma de pressão sobre os empregadores, sem sofrer descontos relativos ao período de inação. A Lei n° 7.783, de 28.06.1989, que regulamenta a greve e define os serviços essenciais, dispõe sobre as necessidades inadiáveis da comunidade, a serem atendidas durante o período de paralisação. Os abusos cometidos pelos grevistas sujeitam-nos às penas da lei.

52 Os direitos constitucionalmente assegurados, e cujo objeto imediato é a segurança do indivíduo, relativamente a seus direitos subjetivos em geral, além do direito à legalidade (art. 5°, II), consistem na vedação constitucional a que a lei não prejudique (art. 5°, XXXVI): • o direito adquirido • o ato jurídico perfeito • a coisa julgada A lei não poderá retroagir no tempo, exceto para beneficiar os titulares de algum direito. Lei nova poderá, no entanto, restringir ou suprimir direitos, no futuro. Ato jurídico perfeito, segundo a Lei de Introdução ao Código Civil – LICC (art. 6°, § 1°), é o já consumado segundo a lei vigente ao tempo em que se efetuou. Coisa julgada é a decisão judicial contra a qual já não mais cabe recurso. A importância dessa vedação constitucional reside na garantia de estabilidade das relações jurídicas, fator determinante na organização da sociedade e na manutenção da paz social. Os direitos constitucionalmente assegurados, e cujo objeto imediato é a segurança pessoal do indivíduo, consistem: • na inviolabilidade da intimidade, da vida privada da honra e da imagem das pessoas (art. 5°, X) • da inviolabilidade do domicílio (art. 5°, XI) • na vedação (art. 5°, LXI) a que qualquer pessoa seja presa senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada de autoridade judiciária competente. Proíbe-se, com esse dispositivo, a prisão arbitrária. Violada a intimidade, a vida privada, a honra ou a imagem, terá o ofendido o direito subjetivo público de pleitear reparação dos danos materiais e/ou morais. A proteção à intimidade e à vida privada consiste em assegurar às pessoas que as informações de que dispõem com exclusividade, somente poderão ser reveladas a quem desejar, incluindo as relativas à vida familiar, social e profissional do indivíduo, a entrada ilegal em seu domicílio, a violação de correspondência e o segredo profissional. Por privacidade, termo equivalente ao inglês privacy, entende-se um amplo espectro da vida, envolvendo locais, informações privilegiadas, modo de vida, relações familiares e afetivas, hábitos sociais e de consumo, bem como segredos e planos. Por intimidade, entende-se o conjunto de informações sobre a própria pessoa, envolvendo seu universo interior, e que ela não deseja compartilhar, ou só se dispõe a fazê-lo com pessoas determinadas, de sua própria escolha. Inviolabilidade à honra é a vedação a que sejam reveladas quaisquer informações, falsas ou verdadeiras, ou características, sobre a pessoa, subjetivamente percebidas, e cuja divulgação está ligada à própria percepção de sua dignidade como pessoa humana. A inviolabilidade à imagem é a vedação a que sejam reveladas quaisquer informações, falsas ou verdadeiras, ou características, sobre a pessoa, objetivamente percebidas, e cuja divulgação está ligada à percepção do que as demais pessoas dele têm. O domicílio somente poderá ser adentrado com consentimento do morador, excepcionando-se as seguintes situações: • flagrante delito

53 • • • desastre prestação de socorro determinação judicial, durante o dia

A Constituição específica, no próprio art. 5°, LXI, os casos em que esse direito não é assegurado: • a transgressão militar • o crime propriamente militar, ambos definidos em lei O direito de propriedade consiste na faculdade de o indivíduo poder dispor de seu patrimônio, não podendo ser dele despojado, a não ser pelo Estado, mediante desapropriação. Na concepção civilística, o proprietário pode usar, gozar e dispor de coisa, mas, é insuficiente para a proteção adequada à propriedade, que não se restringe a objetos materiais; a propriedade refere-se a quaisquer bens, materiais ou imateriais, desde que tenham conteúdo patrimonial, isto é, seu valor possa ser expresso em termos monetários. O direito de propriedade é garantido pela CF (art. 5°, XXII), mas, ela deverá atender a sua função social (inciso XXIII), podendo ser desapropriada por necessidade ou utilidade pública ou por interesse social (XXIV), ou utilizada pela autoridade competente em caso de iminente perigo (XXV). 6. HISTÓRIA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS 6.1. Antecedentes da Declaração de Direitos Os direitos fundamentais têm caráter histórico. Se formos rebuscar seus antecedentes, encontraremos uma cadeia evolutiva, no pico da qual eles se situam. Deve-se lembrar que por muito tempo o regime feudal e a opressão, inerentes ao absolutismos esmagavam a personalidade humana, e a desigualdade entre as pessoas era um traço marcante e comum nas antigas sociedades. Contudo, com o decorrer dos séculos, surgiram vários movimentos contrários a essa realidade e que buscavam a valorização da dignidade da pessoa humana. A doutrina cristã foi o marco inicial, visto que elevava o homem à situação de semelhança a Deus, indicando a igualdade como um dos pressupostos fundamentais. Assim, o ser humano foi alçado a um novo patamar de dignidade. Essa doutrina, fonte primeira e expressiva, mas não exclusiva, dos direitos individuais, passou pelo crivo de formulações filosóficas, do iluminismo, mediante o qual se simbolizou, na razão. A obra dos racionalistas, do Século XVII, mantinha estrutura semelhante de valorização do homem como a da doutrina cristã, modificando, contudo, a fonte que até então era a vontade de Deus, passando-se a utilizar a razão. Além disso, a revolução individualista era imprescindível para a consolidação e aceleramento do progresso econômico, visto que uma nova classe surgia: a ‘burguesia’. Esses três movimentos culminaram com a Revolução Francesa, de 1.789, que provocou a derrocada do antigo regime absolutista e a instauração da ordem burguesa na França.

54 A Revolução Francesa trouxe, ainda, um marco na história dos direitos fundamentais, pois produziu a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Contudo, há quem reconheça que o marco inicial dos direitos fundamentais foi a Magna Carta Inglesa de 1.215, que levou a inserção dos direitos fundamentais nos textos constitucionais dos Estados modernos ocidentais, consolidando o rumo trilhado pelas vertentes do direito. É importante trazer à luz a lição de Carl Schmitt , acerca da Magna Charta de 1.215: La Magna Carta inglesa de 15 de Julio de 1215 suele designar-se como modelo y origen de las modernas Constituciones liberales. El desarrollo del Derecho político de Inglaterra tomó um curso peculiar, porque los senõres feudales y estamentos de la Edad Media (alta nobleza, caballeros y burguesia inglesa) y su representación (la Cámara de los lores y la Cámara de los Comunes) pasaron en un proceso lento e insensible a las condiciones propias del Estado moderno... Todavia, Carl Schmitt admite que a verdadeira Constituição liberal, onde realmente foram positivados os direitos fundamentais, surgiu com a declaração dos Estados americanos. Segundo J. J. Gomes Canotillo, “deslocaram-se em direção ao campo da positivação ou constitucionalização, a partir do Virginia Bill of Rights (1.776) e a Déclaration dês Droits de l’Homme et du Citoyen (1.789). A história dos direitos fundamentais teve seu nascedouro, segundo Carl Schimitt, com as declarações formuladas pelos Estados americanos, no Século XVIII, iniciadas pela declaração do Estado de Virgínia, de 12 de junho de 1.776: La historia de los derechos fundamentales comienza propiamente con las declaraciones formuladas por los Estados americanos en el siglo XVIII, al fundar su independencia respecto de Inglaterra. Aquí, en verdad, se indica el comienzo – según una frase de Ranke – de la Era democrática – más exacto: liberal – y del moderno Estado de Derecho liberal-burgués, si bien aquellas declaraciones americanas estaban, como ‘Bill if Rights’, en la línea de la tradición inglesa. La primera declaración (modelo, según G. Jellinek, ‘La declaración de derechos del hombre y del ciudadano’, ed. Alemana, pág. 18) fue emitida por el Estado de Virginia e 12 de junio de 1.776 [...]. A positivação dos direitos fundamentais passou a ser mais concreta a partir da Revolução Francesa, de 1.789, quando se consignou, de forma precisa, a proclamação da liberdade, da igualdade, da propriedade e das garantias individuais liberais. Com efeito, a Revolução Francesa ganhou caráter universal, e conforme salienta Dalmo de Abreu Dallari, não restam dúvidas de que a influência dela [Revolução], na vida constitucional (tanto no ocidente, como no oriente), representou um considerável progresso na história da asseveração dos valores fundamentais da pessoa humana. No entanto, pondera Dallari, sendo ela um produto do Século XVIII, por evidente que seja, seu cunho é nitidamente individualista, subordinando a vida social ao indivíduo e arrogando ao Estado a finalidade de preservação dos direitos individuais. 6.2 Os direitos fundamentais de primeira geração Foi o primeiro patamar de alforria do ser humano reconhecido por uma Constituição. São direitos que surgiram com a ideia de Estado de Direito, submisso a uma Constituição. Longe

55 da hegemonia de um soberano, cuja vontade era a lei, concebeu-se um Estado em que as funções do poder fossem atribuídas a órgãos distintos, impedindo a concentração de poderes e o arbítrio de uma ou de um grupo de pessoas. Os direitos fundamentais de primeira geração, também denominados direitos civis ou individuais e políticos, são direitos de defesa do indivíduo perante o Estado. Sua preocupação é a de definir uma área de domínio do Poder Público, simultaneamente a outra de domínio individual, na qual estaria forjado um território absolutamente inóspito a qualquer inserção estatal. O Estado deveria ser apenas o guardião das liberdades, permanecendo longe de qualquer interferência no relacionamento social. São as chamadas ‘liberdades públicas negativas’ ou ‘direitos negativos’, pois exigem do Estado um comportamento de abstenção. Eles realçam o direito à vida, à intimidade, à inviolabilidade do domicílio, à liberdade, à propriedade e à igualdade formal e algumas garantias processuais, como o devido processo legal, o habeas corpus e o direito de petição. A primeira geração de direitos dominou o Século XIX, e é composta dos direitos de liberdade, que correspondem aos direitos civis e políticos. Tendo como titular o indivíduo, os direitos de primeira geração são oponíveis ao Estado, sendo traduzidos como faculdades ou atributos da pessoa humana, ostentando uma subjetividade que é seu traço marcante. São, portanto, os direitos de resistência face ao Estado. 6.3 Os direitos fundamentais de segunda geração Surgiram em decorrência do impacto da industrialização e os graves problemas sociais e econômicos que a acompanharam, as doutrinas socialistas e a constatação de que a consagração formal de liberdade e igualdade não gerava a garantia do seu efetivo gozo. Traduzem uma etapa de evolução na proteção da dignidade humana, pois sua essência é a preocupação com as necessidades do ser humano. Os direitos fundamentais de segunda geração trazem as exigências do homem mais evoluído e liberto do jugo do poder Público, reclamando, agora, por uma nova forma de proteção de sua dignidade: A satisfação das necessidades mínimas para que se tenha dignidade e sentido na vida humana. Eles passam a dotar o ser humano de condições materiais minimamente necessárias ao exercício de uma vida digna, obrigando o Estado a fazer-se presente mediante prestações que venham a imunizar o ser humano de injunções dessas necessidades mínimas que pudessem tolher a dignidade de sua vida. Constituem os direitos fundamentais de segunda geração os direitos sociais, os econômicos e os culturais, quer em sua perspectiva individual, quer em sua perspectiva coletiva. Não se confundem, contudo, com os direitos coletivos e/ou difusos da terceira geração. Eles outorgam, ao indivíduo, direitos a prestações sociais estatais, como assistência social, saúde, educação, trabalho, etc. Além disso, trouxeram as liberdades sociais, como a de sindicalização, do direito de greve, direitos fundamentais dos trabalhadores (férias, repouso semanal remunerado, salário mínimo, limitação da jornada de trabalho). Acentuam o princípio da igualdade material. A segunda geração de direitos, da mesma forma que a primeira, foi inicialmente objeto de formulação especulativa em campos políticos e filosóficos que possuíam grande cunho ideológico. Dominaram o Século XX, assim como os de primeira geração dominaram o século

56 XIX. Tiveram seu nascedouro nas reflexões ideológicas e no pensamento antiliberal desse Século. Proclamados nas Declarações solenes das Constituições marxistas e também na Constituição de Weimar, os direitos de segunda geração exerceram um papel preponderante nas formulações constitucionais após a segunda guerra. Cingidos ao princípio da igualdade – sendo esse a razão de ser daqueles –, os direitos de segunda geração são considerados como sendo os direitos sociais, culturais, coletivos e econômicos, tendo sido inseridos nas constituições das diversas formas de Estados sociais. Quando da declaração desses direitos, exigiram do Estado determinadas prestações impossíveis de serem concretizadas naquele dado momento e, dessa forma, com a juridicidade questionada, os direitos de segunda geração foram lançados como diretrizes, ou programas a serem cumpridos, ou seja, esses direitos foram remetidos à esfera programática. Quanto a esses direitos de segunda geração, salienta Bonavides: [...] atravessaram, a seguir uma crise de observância e execução, cujo fim parece estar perto, desde que recentes constituições, inclusive a do Brasil, formularam o preceito da aplicabilidade imediata dos direitos fundamentais. De tal sorte, os direitos da segunda geração tendem a tornar-se tão justificáveis quanto os da primeira; pelo menos esta é a regra que já não poderá ser descumprida ou ter sua eficácia recusada com aquela facilidade de argumentação arrimada no caráter programático da norma. 6.4 Os direitos fundamentais de terceira geração O mundo atual se encontra dividido em blocos muito distintos. Diríamos três blocos, especificamente. Enfatizando, um primeiro bloco representa os países desenvolvidos; num segundo bloco colocaríamos os países em busca de desenvolvimento e, por fim, representando o que seria um terceiro bloco, os países subdesenvolvidos. Dividindo desse modo, torna-se mais fácil a percepção da desigualdade existente entre as nações. Guerras acontecem nesse dado momento que nem sabemos existir. Milhares de pessoas morrem todos os dias, vitimadas por guerras, doenças, pobreza, fome etc., sem que levemos isso em consideração, sem que ao menos nos tornem fato conhecido. Os países desenvolvidos, com suas tecnologias de ponta, ameaçam até a existência da própria humanidade. É diante desse quadro que tem lugar, que surgem os direitos de terceira geração (fraternidade ou solidariedade). São identificados como sendo o direito ao desenvolvimento, o direito à paz, o direito ao meio ambiente, o direito de propriedade sobre o patrimônio comum da humanidade e o direito de comunicação. Sobre a terceira geração de direitos, Norberto Bobbio comenta que Celso Lafer fala dos direitos de terceira geração como se tratando, sobretudo, de direitos cujos sujeitos não são os indivíduos, mas sim, os grupos de indivíduos, grupos humanos, como a família, o povo, a nação e a própria humanidade.

57 Reconhecidos esses direitos de terceira geração, tendo seu gênero como sendo a solidariedade (ou fraternidade), seu desenvolvimento conforme ensina Etiene-R. Mbaya, se exprime de três maneiras: • • O dever de todo Estado particular de levar em conta, nos seus atos, os interesses de outros Estados (ou de seus súditos) Ajuda recíproca (bilateral ou multilateral), de caráter financeiro ou de outra natureza, para a superação das dificuldades econômicas (inclusive com auxílio técnico aos países subdesenvolvidos e estabelecimento de preferências de comércio em favor desses países, a fim de liquidar déficits) Uma coordenação sistemática de política econômica.

6.5. Os direitos fundamentais de quarta geração Lançadas as bases por Paulo Bonavides, tem-se que a "globalização política na esfera da normatividade jurídica introduz os direitos de quarta geração, que, aliás, correspondem à derradeira fase de institucionalização do Estado social". Segundo ele, os direitos da quarta geração consistem no direito à democracia, à informação e ao pluralismo. Deles depende a materialização da sociedade aberta do futuro, em sua dimensão de máxima universalidade, para a qual parece o mundo quedar-se no plano de todas as afinidades e relações de coexistência. Enquanto direito de quarta geração, a democracia positivada há de ser, necessariamente, direta, que se torna a cada dia mais possível, graças aos avanços tecnológicos dos meios de comunicação, e sustentada legitimamente pela informação correta e aberturas pluralistas do sistema. É de se lembrar, também, que deve ser uma democracia isenta, livre das contaminações, vícios e perversões da mídia manipuladora. Assim, pode-se partir para a assertiva de que os direitos da segunda, terceira e quarta geração não se interpretam, mas sim, concretizam-se. E é no seio dessa materialização, dessa solidificação, que se encontra o futuro da globalização política, o início de sua legitimidade e a força que funde os seus valores de libertação. Enfim, conforme enfatiza Paulo Bonavides, "os direitos da quarta geração compendiam o futuro da cidadania e o porvir da liberdade de todos os povos. Tão-somente com eles será legítima e possível a globalização política". 6.6. A classificação conforme a Constituição Federal Não obstante as formas que expostas, existem doutrinadores, tal como José Afonso da Silva, que estudam e classificam os direitos fundamentais da mesma forma consagrada pela Constituição Federal, onde se tem ordenados os direitos e deveres individuais e coletivos, os direitos sociais, os direitos de nacionalidade, de cidadania (direitos políticos) e, por fim, as garantias constitucionais. Percebe-se, assim, que não há a preocupação de classificá-los como sendo dimensões ou gerações de direitos. Preocuparam-se, sim, em estudá-los e classificá-los individualmente, abordando um a um, de acordo com as disposições de nossa Lei Maior.

58 6.7. As declarações Universais de Direitos Os direitos humanos são os direitos e liberdades básicos de todos os seres humanos. Normalmente o conceito de direitos humanos tem a ideia também de liberdade de pensamento e de expressão, e a igualdade perante a lei. A Declaração Universal dos Direitos do Homem da Organização das Nações Unidas afirma: Art. 1º. Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade. A ideia de direitos humanos tem origem no conceito filosófico de direitos naturais, que seriam atribuídos por Deus. Alguns sustentam que não haveria nenhuma diferença entre os direitos humanos os direitos naturais, e veem, na distinta nomenclatura, etiquetas para uma mesma ideia. Existe um importante debate sobre a origem cultural dos direitos humanos. Geralmente se considera que tenham sua raiz na cultura ocidental moderna. Contudo, alguns afirmam que todas as culturas possuem visões de dignidade que são uma forma de direitos humanos, e fazem referência a proclamações como a Carta de Mandén, de 1.222, declaração fundacional do Império de Malí. As teorias que defendem o universalismo dos direitos humanos se contrapõem ao relativismo cultural, que afirma a validez de todos os sistemas culturais e a impossibilidade de qualquer valorização absoluta desde um marco externo, que neste caso seriam os direitos humanos universais. Entre estas duas posturas extremas se situa uma gama de posições intermediárias. Muitas declarações de direitos humanos emitidas por organizações internacionais regionais põem um acento maior ou menor no aspecto cultural, e dão mais importância a determinados direitos de acordo com sua trajetória histórica. A Organização da Unidade Africana, proclamou em 1.981 a Carta Africana de Direitos Humanos e de Povos, que reconhecia princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1.948, e adicionava outros que tradicionalmente se tinham negado na África, como o direito de livre determinação ou o dever dos Estados de eliminar todas as formas de exploração econômica estrangeira. Mais tarde, os Estados africanos que acordaram a Declaração de Túnez, em 6 de novembro de 1.992, afirmaram que não se pode prescrever um modelo determinado em nível universal, já que não podem se desvincular as realidades históricas e culturais de cada nação, e as tradições, normas e valores de cada povo. Em uma linha similar, se pronunciam a Declaração de Bangkok, emitida por países asiáticos em 23 de abril de 1.993, e do Cairo, firmada pela Organização da Conferência Islâmica, em 5 de agosto de 1.990. Os direitos humanos são o resultado de uma longa história, e foram debatidos ao longo dos séculos por filósofos e juristas. O início desta caminhada remete-nos para a religião, quando o Cristianismo, durante a Idade Média, foi a afirmação da defesa da igualdade de todos os homens. Foi também durante essa época que os filósofos cristãos recolheram e desenvolveram a teoria do direito natural, em que o indivíduo está no centro de uma ordem social e jurídica justa, mas a lei divina tem prevalência sobre o direito laico, tal como é definido pelo imperador, o rei ou o príncipe.

59 Mais tarde, a Escola do direito natural, defendeu a existência de direitos que pertencem essencialmente ao homem, que são inerentes à natureza, que ele goza pelo simples fato de ser homem. Com a idade moderna, os racionalistas dos Séculos XVII e XVIII, reformulam as teorias do direito natural, deixando de estar submetido a uma ordem divina. Para os racionalistas, todos os homens são livres por natureza, e têm certos direitos inatos de que não podem ser despojados quando entram em sociedade. Foi esta corrente de pensamento que inspirou o atual sistema internacional de proteção dos direitos do homem. A evolução destas correntes deu frutos, pela primeira vez, na Inglaterra, e depois, nos Estados Unidos. A Magna Carta (1.215) deu garantias contra a arbitrariedade da Coroa, e influenciou diversos documentos, como por exemplo, o Acto Habeas Corpus (1.679), que foi a primeira tentativa para impedir as detenções ilegais. A Declaração Americana da Independência surgiu em 4 de julho de 1.776, onde constavam os direitos naturais do ser humano que o poder político deve respeitar. Esta declaração teve como base a Declaração de Virgínia, proclamada em 12 de junho de 1.776, onde estava expressa a noção de direitos individuais. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, proclamada na Franca, em 1.789, e as reivindicações ao longo dos Séculos XIV e XV, em prol das liberdades, alargou o campo dos direitos humanos, e definiu os direitos econômicos e sociais. Mas, o momento mais importante, na história dos Direitos do Homem, ocorreu no período de 1.945-1.948. Em 1.945, os Estados tomaram consciência das tragédias e das atrocidades vividas durante a 2º Guerra Mundial, o que os levou a criar a Organização das Nações Unidas em prol de estabelecer e manter a paz no mundo. Foi através da Carta das Nações Unidas, assinada no dia 20 de junho de 1.945, que os povos exprimiram a sua determinação “em preservar as gerações futuras do flagelo da guerra; proclamar a fé nos direitos fundamentais do Homem, na dignidade e valor da pessoa humana, na igualdade de direitos entre homens e mulheres, assim como das nações, grandes e pequenas; em promover o progresso social e instaurar melhores condições de vida numa maior liberdade.”. A criação das Nações Unidas simbolizou a necessidade de um mundo de tolerância, de paz, de solidariedade entre as nações, com avanço do progresso social e econômico de todos os povos. Os principais objetivos das Nações Unidas passam por manter a paz, a segurança internacional, desenvolver relações amigáveis entre as nações, realizar a cooperação internacional resolvendo problemas internacionais de natureza econômico, social, intelectual e humanitário, desenvolver e encorajar o respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais, sem qualquer tipo de distinção. Assim, no dia 10 de dezembro de 1.948, a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Ela é de fundamental importância na nossa sociedade, pois quase todos os documentos relativos aos direitos humanos têm como referência esta Declaração, e alguns Estados fazem alusão a ela nas suas constituições nacionais. A Declaração Universal dos Direitos do Homem, ganhou uma importância extraordinária, contudo, não obriga juridicamente que os Estados a respeitem. Devido a isso, a partir do momento em que foi promulgada, foi necessária a preparação de inúmeros documentos que especificassem os direitos presentes na Declaração, como forma de pressionar os Estados a

60 cumpri-la. Foi nesse contexto que, no período entre 1.945-1.966, nasceram vários documentos. Assim, a junção da Declaração Universal dos Direitos Humanos, os dois pactos efetuados em 1.966 -- O Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais --, bem como os dois protocolos facultativos do Pacto dos Direitos Civis e Políticos (que em 1.989 aboliu a pena de morte), constituem A Carta Internacional dos Direitos do Homem. Um dos documentos mais antigos que vinculou os direitos humanos é o Cilindro de Ciro, que contém uma declaração do rei persa (hoje Irã) Ciro II, depois da conquista da Babilônia, em 539 a.C. Foi descoberto em 1.879, e a ONU o traduziu em 1.971, em todos seus idiomas oficiais. Pode ser resultado de uma tradição mesopotâmica centrada na figura do rei justo, cujo primeiro exemplo conhecido é o rei Urukagina, de Lagash, que reinou durante o Século XXIV a.C., e de onde cabe destacar também Hamurabi,da Babilônia,e seu famoso Código de Hamurabi, que data do Século XVIII a.C. O Cilindro de Ciro apresentava características inovadoras, especialmente em relação à religião. Nele consta declarada a liberdade de religião e abolição da escravatura. Documentos posteriores, como a Carta Magna da Inglaterra, de 1.215, e a Carta de Mandén, de 1.222, são, também, associados direitos humanos. Na Roma antiga havia o conceito de direito na cidadania romana a todos romanos. A conquista da América, no Século XVI, pelos espanhóis, resultou em um debate pelos direitos humanos, na Espanha. Isto marcou a primeira vez que se discutiu o assunto na Europa. Durante a Revolução Inglesa, a burguesia conseguiu satisfazer suas exigências de ter alguma classe de seguridade contra os abusos da coroa, e limitou o poder dos reis sobre seus súditos, proclamando a Lei de Habeas Corpus, em 1.679. Em 1.689, o Parlamento impôs a Guilhermo III, da Inglaterra, na Carta de Direitos (ou Declaração de Direitos), uma série de princípios sobre os quais os monarcas não podiam legislar ou decidir. No Século XVII e XVIII, filósofos europeus -- destacando-se John Locke -- desenvolveram o conceito do direito natural. Os direitos naturais, para Locke, não dependiam da cidadania, nem das leis de um Estado, nem estavam necessariamente limitadas a um grupo étnico, cultural ou religioso em particular. A teoria do contrato social, de acordo com seus três principais formuladores -- o já citado Locke, Thomas Hobbes e Jean-Jacques Rousseau -- se baseia na tese de que os direitos do indivíduo são naturais e que, no estado de natureza, todos os homens são titulares de todos os direitos. A primeira declaração dos direitos humanos da época moderna é a Declaração dos Direitos da Virgínia, de 12 de junho de 1.776, escrita por George Mason e proclamada pela Convenção da Virgínia. Esta grande medida influenciou Thomas Jefferson na declaração dos direitos humanos, que se existe na Declaração da Independência dos Estados Unidos da América, datada de 4 de julho de 1.776, assim como também influenciou a Assembleia Nacional francesa, na concepção da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1.789 (esta última definia o direito individual e coletivo das pessoas). A noção de direitos humanos não experimentou grandes mudanças até o século seguinte. Com o início das lutas operárias, surgiram novos direitos que pretendiam dar solução a

61 determinados problemas sociais através da intervenção do Estado. Neste processo são importantes a Revolução Russa e a Revolução Mexicana. Desde o nascimento da Organização das Nações Unidas, em 1.945, o conceito de direitos humanos tem se universalizado, alcançando uma grande importância na cultura jurídica internacional. No dia 10 de dezembro de 1.948,a Declaração Universal dos Direitos Humanos foi proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, como resposta aos horrores da Segunda Guerra Mundial e como intento de sentar as bases da nova ordem internacional que surgia atrás do armistício. Coincidência ou não, foi proclamada no mesmo ano da proclamação do Estado de Israel. Posteriormente foram aprovados numerosos tratados internacionais sobre a matéria, entre os quais se destacam os Pactos Internacionais Direitos Humanos, de 1.966, e foram criados numerosos dispositivos para sua promoção e garantia. 6.8. Conceito de Direitos e Garantias Individuais consagrados na Constituição Federal de 1.988 e suas extensões, princípios e fundamentos epistemológicos26 Os direitos e garantias individuais estão arrolados no Art. 5o., da CF. Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade
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Epistemologia ou teoria do conhecimento (do grego ἐπιστήμη [episteme], ciência, conhecimento; λόγος logos], discurso) é um ramo da Filosofia que trata dos problemas filosóficos relacionados à crença e ao conhecimento. A epistemologia estuda a origem, a estrutura, os métodos e a validade do conhecimento (daí também se designar por filosofia do conhecimento). Ela se relaciona ainda com a metafísica, a lógica e o empirismo, uma vez que avalia a consistência lógica da teoria e sua coesão fatual, sendo assim a principal dentre as vertentes da filosofia (é considerada a "corregedoria" da ciência). Sua problematização compreende a questão da possibilidade do conhecimento: Será que o ser humano conseguirá algum dia atingir realmente o conhecimento total e genuíno, fazendo-nos oscilar entre uma resposta dogmática ou empirista? Outra questão abrange os limites do conhecimento: Haverá realmente a distinção entre o mundo cognoscível e o mundo incognoscível? E finalmente, a questão sobre a origem do conhecimento: Por quais faculdades atingimos o conhecimento? Haverá conhecimento certo e seguro em alguma concepção a priori? Pode-se dizer que a epistemologia se origina em Platão. Ele opõe a crença ou opinião ("δόξα", em grego) ao conhecimento. A crença é um determinado ponto de vista subjetivo. O conhecimento é crença verdadeira e justificada. A teoria de Platão abrange o conhecimento teórico, o saber que. Tal tipo de conhecimento é o conjunto de todas aquelas informações que descrevem e explicam o mundo natural e social que nos rodeia. Este conhecimento consiste em descrever, explicar e predizer uma realidade, isto é, analisar o que ocorre, determinar por que ocorre dessa forma e utilizar estes conhecimentos para antecipar uma realidade futura. Há outro tipo de conhecimento, não abrangido pela teoria de Platão. Trata-se do conhecimento prático, o saber como. A epistemologia também estuda a evidência (entendida não como mero sentimento que temos da verdade do pensamento, mas sim no sentido forense de prova), isto é, os critérios de reconhecimento da verdade. Ante a questão da possibilidade do conhecimento, o sujeito pode tomar diferentes atitudes: • Dogmatismo: atitude filosófica pela qual podemos adquirir conhecimentos seguros e universais, e ter absoluta certeza disso. • Cepticismo: atitude filosófica oposta ao dogmatismo, a qual duvida de que seja possível um conhecimento firme e seguro, sempre questionando e pondo à prova as ditas verdades. Esta postura foi defendida por Pirro de Elis. • Relativismo: atitude filosófica defendida pelos sofistas que nega a existência de uma verdade absoluta e defende a ideia de que cada indivíduo possui sua própria verdade, que é em função do contexto histórico do indivíduo em questão. • Perspectivismo: atitude filosófica que defende a existência de uma verdade absoluta, mas pensa que nenhum de nós pode chegar a ela senão a apenas uma pequena parte. Cada ser humano tem uma visão da verdade. Esta teoria foi defendida por Nietzsche e nota-se ecos de platonismo.

62 do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: Os destinatários dos direitos e garantias individuais são: • brasileiros e estrangeiros27 residentes no País. • Válidos para pessoas físicas e para as jurídicas, onde couber. • As empresas estrangeiras não se beneficiam deles, exceto quanto a marcas, nomes e signos, proteção de direito internacional. • Há quem repute que esses direitos são extensivos a todas pessoas quem estejam no País, ainda que aqui não residam, por serem seres humanos como quaisquer outros. Eles de classificam em: • Direito à vida; • Direito à intimidade; • Direito de igualdade; • Direito de liberdade; • Direito de propriedade. Os incisos do Art. 5o. não preveem os direitos coletivos, mas eles estão embutidos nos direitos individuais. Quanto aos deveres individuais e coletivos há que se frisar que: • Não há um elenco de deveres. Nem precisaria ter, porque eles decorrem dos direitos na medida em que cada titular de direitos individuais tem o dever de reconhecer e respeitar igual direito do outro, bem como o dever de se comportar, nas relações interhumanas, com postura democrática, compreendendo que a dignidade da pessoa humana do próximo deve ser exaltada como a sua própria. • Na verdade, os deveres que decorrem dos incisos do Art. 5o. têm como destinatários mais o Poder Público e seus agentes em qualquer nível, do que os indivíduos em particular. Quanto ao direito à vida e do direito à privacidade: • A vida é a fonte primária de todos os outros bens jurídicos. • No conteúdo do seu conceito se envolvem o direito à dignidade da pessoa humana, o direito à privacidade, o direito à integridade físico-corporal, o direito à existência. Quanto ao direito à existência: • Consiste no direito de estar vivo, de lutar pelo viver, de defender a própria vida, de permanecer vivo. • É o direito de não ter interrompido o processo vital, senão pela morte espontânea. • É por isso que se considera legítima a defesa contra qualquer agressão à vida, bem como se reputa legítimo até mesmo tirar a vida a outrem em estado de necessidade da salvação da própria. • Não foi acolhido, na CF, o direito à existência digna (eutanásia, por exemplo). Quanto ao direito à integridade física • Agredir o corpo humano é um modo de agredir a vida. • A integridade físico-corporal constitui um bem vital e revela um direito fundamental do indivíduo. Daí porque as lesões corporais são punidas pela legislação penal. • A CF foi expressa em assegurar o respeito à integridade física dos presos.
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Aos estrangeiros, também os direitos sociais, especialmente os trabalhistas

63 XLIX - é assegurado aos presos o respeito à integridade física e moral; III - ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante; Quanto ao direito à integridade moral: • A Constituição Federal empresta muita importância à moral como valor ético-social da pessoa e da família, que se impõe ao respeito dos meios de comunicação social. Art. 221. A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios: IV - respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família. Ela, mais que as outras, realçou o valor da moral individual, tornando-a mesmo um bem indenizável. Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: V - é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem; X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação; A moral individual sintetiza a honra da pessoa, o bom nome, a boa fama, a reputação que integram a vida humana como dimensão imaterial. Por isso que o Direito Penal tutela a honra contra a calúnia, a difamação e a injúria. Quanto à pena de morte: • Ao direito à vida contrapõe-se à pena de morte. É admitida somente XLVII - não haverá penas: a) de morte, salvo em caso de guerra declarada, nos termos do art. 84, XIX; Quanto ao direito à privacidade: • A Constituição Federal declara invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas. X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação; Quanto ao direito à intimidade: • É quase sempre considerado como sinônimo de direito à privacidade.

64 • Abrange a inviolabilidade do domicílio, o sigilo de correspondência, o segredo profissional.

Quanto à honra e imagem das pessoas: • A honra é um conjunto de qualidades que caracterizam a dignidade da pessoa, o respeito dos concidadãos, o bom nome, a reputação. Quanto ao direito de igualdade: • Aristóteles vinculou a ideia de igualdade à ideia de justiça. (dar a cada um o que é seu) Quanto ao sentido da expressão “igualdade perante a lei”: • O princípio tem como destinatário o legislador, porque os aplicadores da lei estão necessariamente obrigados a cumpri-la. • Isso não significa que a lei deva tratar todos abstratamente iguais, pois o tratamento igual não se dirige às pessoas integralmente iguais entre si, mas àquelas que são iguais sob os aspectos tomados em consideração pela norma, o que implica que os “iguais” podem diferir totalmente sob outros aspectos ignorados ou considerados como irrelevantes pelo legislador. Quanto à igualdade entre homem e mulher: Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: I - homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição; Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado. § 5º - Os direitos e deveres referentes à sociedade conjugal são exercidos igualmente pelo homem e pela mulher. Só valem as discriminações feitas pela própria Constituição Federal, e sempre em favor da mulher: Art. 40. Aos servidores titulares de cargos efetivos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, incluídas suas autarquias e fundações, é assegurado regime de previdência de caráter contributivo e solidário, mediante contribuição do respectivo ente público, dos servidores ativos e inativos e dos pensionistas, observados critérios que preservem o equilíbrio financeiro e atuarial e o disposto neste artigo. III - voluntariamente, desde que cumprido tempo mínimo de dez anos de efetivo exercício no serviço público e cinco anos no cargo efetivo em que se dará a aposentadoria, observadas as seguintes condições:

65 a) sessenta anos de idade e trinta e cinco de contribuição, se homem, e cinquenta e cinco anos de idade e trinta de contribuição, se mulher; b) sessenta e cinco anos de idade, se homem, e sessenta anos de idade, se mulher, com proventos proporcionais ao tempo de contribuição. Quanto ao princípio da igualdade jurisdicional: • Formalmente, a igualdade perante a Justiça está assegurada pela CF, desde a garantia de acessibilidade a ela. Mas, realmente essa igualdade não existe. Os pobres têm acesso muito precário à justiça, Carecem de recursos para contratar bons advogados. O patrocínio gratuito se revelou de alarmante deficiência. Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: XXXV - a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito; LXXIV - o Estado prestará assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos; Quanto à igualdade perante a tributação: • Relaciona-se com a justiça distributiva em matéria fiscal. • Diz respeito à repartição do ônus fiscal do modo mais justo possível. • Princípio da capacidade contributiva > a carga tributária deve ser distribuída na medida da capacidade econômica dos contribuintes. Art. 145. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios poderão instituir os seguintes tributos: § 1º - Sempre que possível, os impostos terão caráter pessoal e serão graduados segundo a capacidade econômica do contribuinte, facultado à administração tributária, especialmente para conferir efetividade a esses objetivos, identificar, respeitados os direitos individuais e nos termos da lei, o patrimônio, os rendimentos e as atividades econômicas do contribuinte. Quanto à igualdade perante a lei penal: • Não significa a aplicação da mesma pena para o mesmo delito. • As condições reais de desigualdade condicionam o tratamento desigual perante a lei penal, apesar do princípio da isonomia assegurado a todos pela Constituição Federal. Igualdade “sem distinção de qualquer natureza”: • Além da base geral em que se assenta o princípio da igualdade perante a lei, consistente no tratamento igual a situações iguais e tratamento desigual a situações desiguais, a CF veda distinções de qualquer natureza. Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

66 VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias; VIII - ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei; XLI - a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais; XLII - a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei; Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social: XXX - proibição de diferença de salários, de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil; XXXI - proibição de qualquer discriminação no tocante a salário e critérios de admissão do trabalhador portador de deficiência; Art. 12. São brasileiros: § 2º - A lei não poderá estabelecer distinção entre brasileiros natos e naturalizados, salvo nos casos previstos nesta Constituição. Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Art. 4º A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios: VIII - repúdio ao terrorismo e ao racismo; Art. 14. A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante: Quanto ao direito de liberdade tem-se a seguinte conceituação: • Sentido negativo > Resistência à opressão ou à coação da autoridade ou do poder (porque se opõe a algo, porque nega a autoridade). • Sentido positivo > é livre quem participa da autoridade ou do poder. • Autoridade legítima > provém do exercício da liberdade, mediante o consentimento popular > liberdade e autoridade se complementam. • Autoridade é tão indispensável à ordem social -- condição mesma da liberdade -como esta é necessária à expansão individual. • Um mínimo de coação há sempre que existir. Portanto, não é correto afirmar que liberdade é a ausência de coação, mas sim, a ausência de toda coação anormal, ilegítima e imoral. • Montesquieu > “a liberdade política não consiste em fazer o que se quer”.

67 • O conceito de liberdade humana deve ser expresso no sentido de um poder de atuação do homem em busca de sua realização pessoal, de sua felicidade.

Quanto à liberdade e democracia: • O regime democrático é uma garantia geral da realização dos diretos humanos fundamentais. É na democracia que a liberdade encontra campo de expansão. • É nela que o homem dispõe da mais ampla possibilidade de coordenar os meios necessários à realização de sua felicidade pessoal. Quanto à liberdade da pessoa física: • É impropriamente chamada de ‘liberdade individual’. Constitui a primeira forma de liberdade que o homem teve que conquistar. Ela se opõe ao estado de escravidão e de prisão. • É a possibilidade jurídica que se reconhece a todas as pessoas de serem senhoras de sua própria vontade e de locomoverem-se desembaraçadamente dentro do território nacional. • Essa liberdade de locomoção em tempo de paz contém o ‘direito de ir e vir’, e de ‘ficar e de permanecer’, sem necessidade de autorização, cumprindo, entretanto, respeitar as medidas impostas pela lei, no interesse comum, e abster-se de atos lesivos dos direitos de outrem. Quanto à liberdade de pensamento: • É o direito de exprimir, por qualquer forma, o que se pense em ciência, religião, arte, ou o que for. • Trata-se de liberdade de conteúdo intelectual e supõe o contato do individuo com seus semelhantes, pela qual “o homem tenda, por exemplo, a participar a outros suas crenças, seus conhecimentos, sua concepção do mundo, suas opiniões políticas ou religiosas, seus trabalhos científicos”. Quanto à liberdade de opinião: • Resume a própria liberdade de pensamento em suas várias formas de expressão. É chamada de liberdade ‘primária’ e ponto de partida de outras. • A CF a reconhece como pensamento íntimo, prevê a ‘liberdade de consciência e de crença’ que declara inviolável, como a crença religiosa e de convicção filosófica ou política. Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias; VIII - ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei; Quanto à liberdade de comunicação: • Consiste num conjunto de direito, formas, processos e veículo, que possibilitam a coordenação desembaraçada da criação, expressão e difusão do pensamento e da informação.

68 Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato; V - é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem; IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença; XII - é inviolável o sigilo da correspondência e das comunicações telegráficas, de dados e das comunicações telefônicas, salvo, no último caso, por ordem judicial, nas hipóteses e na forma que a lei estabelecer para fins de investigação criminal ou instrução processual penal; XIV - é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional; Art. 220. A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição. § 1º - Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social, observado o disposto no art. 5º, IV, V, X, XIII e XIV. § 2º - É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística. § 3º - Compete à lei federal: I - regular as diversões e espetáculos públicos, cabendo ao Poder Público informar sobre a natureza deles, as faixas etárias a que não se recomendem, locais e horários em que sua apresentação se mostre inadequada; II - estabelecer os meios legais que garantam à pessoa e à família a possibilidade de se defenderem de programas ou programações de rádio e televisão que contrariem o disposto no art. 221, bem como da propaganda de produtos, práticas e serviços que possam ser nocivos à saúde e ao meio ambiente. § 4º - A propaganda comercial de tabaco, bebidas alcoólicas, agrotóxicos, medicamentos e terapias estará sujeita a restrições legais, nos termos do inciso II do parágrafo anterior, e conterá, sempre que necessário, advertência sobre os malefícios decorrentes de seu uso. § 5º - Os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio. § 6º - A publicação de veículo impresso de comunicação independe de licença de autoridade.

69 Art. 221. A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios: I - preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas; II - promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação; III - regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei; IV - respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família. Art. 222. A propriedade de empresa jornalística e de radiodifusão sonora e de sons e imagens é privativa de brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos, ou de pessoas jurídicas constituídas sob as leis brasileiras e que tenham sede no País. § 1º Em qualquer caso, pelo menos setenta por cento do capital total e do capital votante das empresas jornalísticas e de radiodifusão sonora e de sons e imagens deverá pertencer, direta ou indiretamente, a brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos, que exercerão obrigatoriamente a gestão das atividades e estabelecerão o conteúdo da programação. § 2º A responsabilidade editorial e as atividades de seleção e direção da programação veiculada são privativas de brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos, em qualquer meio de comunicação social. § 3º Os meios de comunicação social eletrônica, independentemente da tecnologia utilizada para a prestação do serviço, deverão observar os princípios enunciados no art. 221, na forma de lei específica, que também garantirá a prioridade de profissionais brasileiros na execução de produções nacionais. § 4º Lei disciplinará a participação de capital estrangeiro nas empresas de que trata o § 1º. § 5º As alterações de controle societário das empresas de que trata o § 1º serão comunicadas ao Congresso Nacional. Art. 223. Compete ao Poder Executivo outorgar e renovar concessão, permissão e autorização para o serviço de radiodifusão sonora e de sons e imagens, observado o princípio da complementaridade dos sistemas privado, público e estatal. § 1º - O Congresso Nacional apreciará o ato no prazo do art. 64, § 2º e § 4º, a contar do recebimento da mensagem. § 2º - A não renovação da concessão ou permissão dependerá de aprovação de, no mínimo, dois quintos do Congresso Nacional, em votação nominal. § 3º - O ato de outorga ou renovação somente produzirá efeitos legais após deliberação do Congresso Nacional, na forma dos parágrafos anteriores. § 4º - O cancelamento da concessão ou permissão, antes de vencido o prazo, depende de decisão judicial.

70 § 5º - O prazo da concessão ou permissão será de dez anos para as emissoras de rádio e de quinze para as de televisão. Art. 224. Para os efeitos do disposto neste capítulo, o Congresso Nacional instituirá, como seu órgão auxiliar, o Conselho de Comunicação Social, na forma da lei. Quanto à liberdade de informação jornalística: • Nela se concentra a liberdade de informar e é nela ou através dela que se realiza o direito coletivo de informação, isto é, a liberdade de ser informado. • Não é simplesmente a liberdade do dono da empresa jornalística ou do jornalista. A liberdade deste é reflexa no sentido de que ela só existe e se justifica na medida do direito dos indivíduos a informação correta e imparcial. Quanto na liberdade religiosa: • Ela se inclui entre as liberdades espirituais. Sua exteriorização é forma de manifestação do pensamento. Ela compreende: liberdade de crença; liberdade de culto; liberdade de organização religiosa. Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias; Quanto à liberdade de expressão intelectual, artística e científica e direitos anexos: Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença; • • Todos podem produzir obras intelectuais, científicas ou filosóficas, e divulgá-las, sem censura e sem licença de quem quer que seja. Certas manifestações artísticas ficam sujeitas a uma regulamentação especial: Art. 220. A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição. § 3º - Compete à lei federal: I - regular as diversões e espetáculos públicos, cabendo ao Poder Público informar sobre a natureza deles, as faixas etárias a que não se recomendem, locais e horários em que sua apresentação se mostre inadequada;

71 II - estabelecer os meios legais que garantam à pessoa e à família a possibilidade de se defenderem de programas ou programações de rádio e televisão que contrariem o disposto no art. 221, bem como da propaganda de produtos, práticas e serviços que possam ser nocivos à saúde e ao meio ambiente. Quanto à produção e a programação das emissoras de rádio e televisão deverão: Art. 221. A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios: I - preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas; II - promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação; III - regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei; IV - respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família. Quanto à liberdade de expressão cultural: Art. 215. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais. § 1º - O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional. § 2º - A lei disporá sobre a fixação de datas comemorativas de alta significação para os diferentes segmentos étnicos nacionais. § 3º A lei estabelecerá o Plano Nacional de Cultura, de duração plurianual, visando ao desenvolvimento cultural do País e à integração das ações do poder público que conduzem à: I defesa e valorização do patrimônio cultural brasileiro; II produção, promoção e difusão de bens culturais; III formação de pessoal qualificado para a gestão da cultura em suas múltiplas dimensões; IV democratização do acesso aos bens de cultura; V valorização da diversidade étnica e regional. Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem: I - as formas de expressão;

72 II - os modos de criar, fazer e viver; III - as criações científicas, artísticas e tecnológicas; IV - as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; V - os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico. § 1º - O Poder Público, com a colaboração da comunidade, promoverá e protegerá o patrimônio cultural brasileiro, por meio de inventários, registros, vigilância, tombamento e desapropriação, e de outras formas de acautelamento e preservação. § 2º - Cabem à administração pública, na forma da lei, a gestão da documentação governamental e as providências para franquear sua consulta a quantos dela necessitem. § 3º - A lei estabelecerá incentivos para a produção e o conhecimento de bens e valores culturais. § 4º - Os danos e ameaças ao patrimônio cultural serão punidos, na forma da lei. § 5º - Ficam tombados todos os documentos e os sítios detentores de reminiscências históricas dos antigos quilombos. § 6 º É facultado aos Estados e ao Distrito Federal vincular a fundo estadual de fomento à cultura até cinco décimos por cento de sua receita tributária líquida, para o financiamento de programas e projetos culturais, vedada a aplicação desses recursos no pagamento de: I - despesas com pessoal e encargos sociais; II - serviço da dívida; III - qualquer outra despesa corrente não vinculada diretamente aos investimentos ou ações apoiados. Quanto à liberdade de transmissão e recepção do conhecimento: Art. 206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; II - liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber; Quanto à liberdade de ação profissional: Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

73 XIII - é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer; Quanto à acessibilidade à função pública: • Cabe só a brasileiros natos Art. 12. São brasileiros: 3º - São privativos de brasileiro nato os cargos: I - de Presidente e Vice-Presidente da República; II - de Presidente da Câmara dos Deputados; III - de Presidente do Senado Federal; IV - de Ministro do Supremo Tribunal Federal; V - da carreira diplomática; VI - de oficial das Forças Armadas. VII - de Ministro de Estado da Defesa • Cabe a qualquer brasileiro Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte: I - os cargos, empregos e funções públicas são acessíveis aos brasileiros que preencham os requisitos estabelecidos em lei, assim como aos estrangeiros, na forma da lei; II - a investidura em cargo ou emprego público depende de aprovação prévia em concurso público de provas ou de provas e títulos, de acordo com a natureza e a complexidade do cargo ou emprego, na forma prevista em lei, ressalvadas as nomeações para cargo em comissão declarado em lei de livre nomeação e exoneração; BIBLIOGRAFIA BÁSICA ARAÚJO, Luiz Alberto David e NUNES JÚNIOR, Vidal Serrano. 7. ed. Revista e atualizada. Curso de Direito Constitucional. São Paulo: Saraiva, 2003. BARROSO, Luís Roberto. Interpretação e aplicação da Constituição. São Paulo: Saraiva, 1996. CASTRO, Mônica Neves Aguiar da Silva. Honra, Imagem, Vida Privada e Intimidade, em colisão com outros direitos. Rio de Janeiro: Renovar, 2002.

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COMPLEMENTAR BREGA FILHO, Vladimir. Direitos fundamentais na Constituição de 1988: conteúdo jurídico das expressões. São Paulo: Juarez de Oliveira, 2002. BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Rio de Janeiro: Campus, 1992. BONAVIDES, Paulo. Curso de direito constitucional. São Paulo: Malheiros, 1999. CANOTILHO, J. J. Gomes. Direito constitucional e teoria da constituição. Coimbra: Almedina, 1999. ________. Direito constitucional. 6. ed. Coimbra: Almedina, 1993. CUÉLLAR, Leila. As agências reguladoras e seu poder normativo. São Paulo: Dialética, 2001. DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de teoria geral do estado. São Paulo: Saraiva, 1998. FIORIN, José Luiz. As astúcias da enunciação. As categorias de pessoa, espaço e tempo. 2. ed. São Paulo: Ática, 2001. MEIRELLES, Hely Lopes. Mandado de Segurança, Ação Popular, Ação Civil Pública, Mandado de Injunção, Hábeas Data, Ação Direta de Inconstitucionalidade, Ação Declaratória de Constitucionalidade e Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental. 25. ed. São Paulo: Malheiros, 2003. MOREIRA NETO, Diogo de Figueiredo. A revisão constitucional brasileira. Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 1993. REALE, Miguel. Lições preliminares de direito. 21. ed. São Paulo Saraiva, 1994. ________. Filosofia do direito. 17. ed. São Paulo: Saraiva, 1996. POLETTI, Ronaldo. Introdução ao direito. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 1996. SCHMITT, Carl. Teoria de la constitución. Madri: Alianza Universidad Textos, 1996. SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. São Paulo: Malheiros, 1998. ELETRÔNICAS http://pt.wikipedia.org http://www.unoescxxe.edu.br/unoesc/extensao/arquivos/constitucional2007/03%20ENCONTR O%20CURSO%20(Direitos%20e%20Garantias%20Fundamentais).doc http://74.125.113.132/search? q=cache:GLPHmiceSogJ:www.emerj.rj.gov.br/biblioteca/resenhas/2001/silvana.htm+ %22declara%C3%A7%C3%B5es+universais+de+direitos%22&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=8&gl=br

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