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Flecha

Tomo coragem. Aponto a flecha. Meu alvo não está mais onde deveria estar.
Raciocínio. Correndo solto nas veias que pulsam a adrenalina de não achar mais meu
lugar. Talvez a flecha mude de nome, talvez o alvo mude de dono, talvez o arco sem
flechas seja criado por meu abandono. É o atirar incerto de uma mira nômade. É o fazer
contentar-se em acertar o peito e não a maçã. É o desejo doce que embriaga meu
despertar todas as manhãs. Braços esticados, espaço vazio que continuo a apontar. Logo
o fio cede e arrebenta no arco, cortando enfim meu pensar.
Foram dias de estratégias, foram eficácias, dias distantes com a mão no arco, flecha e
parte elástica. Foram dias constantes em que pensei em acertar o ponto central. Foram
todos os segundos que estudei meu alvo, cada sinal.
Não sei se procuro o círculo que devo atravessar com a flecha escolhida depois de
momentos de lucidez. Não sei se continuo a esperar que volte. Pode ser que não volte
nunca, talvez.
Afrouxo os músculos e sinto cada nervo voltar para seu lugar.
Logo, continuo pensando: Onde estaria o alvo... onde o alvo poderia estar.

Thiago Reinas - @thpaper