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A INFLUÊNCIA DA MÍDIA NA FORMAÇÃO DA CRIANÇA HOJE1

Valéria Venturella
(com a colaboração de Clotilde P. Grazziotin e Maria Dalila Mallmann)2

INTRODUÇÃO
A cada dia nos deparamos – família e educadores – com desafios e frustrações cada
vez maiores na nossa tarefa de educar. E as dificuldades encontradas são semelhantes em
muitos lugares do mundo nesse novo milênio: crianças e jovens preconceituosos,
arrogantes, agressivos, insatisfeitos, e geralmente precoces sexualmente, enquanto
imaturos emocionalmente.
A pergunta que todos se fazem é: as crianças são vilões ou vítimas nesta história?
São vítimas, é a conclusão mais lógica. E se são vítimas, quem as está vitimando? Quem
lhes está doutrinando para serem tão difíceis? A resposta a essa segunda pergunta parece
também muito óbvia: é a TV, são os filmes, são os jogos eletrônicos. É a mídia.
Possivelmente seja mesmo a mídia a responsável pelo comportamento quase incontrolável
das crianças modernas. E a terceira pergunta que surge aqui é: o que podemos, então,
fazer?
Este trabalho tenta investigar o problema apresentado acima, em primeiro lugar
contextualizando a criança moderna, a mídia e os principais efeitos da mídia no
comportamento infantil e, em segundo lugar, oferecendo sugestões sobre o que pode ser
feito para reverter o quadro que todos bem conhecemos.

A CRIANÇA HOJE
A infância não é um conceito abstrato ou uma circunstância estanque, mas é obra do
tempo e do espaço em que está inserida, resultante das relações sociais em curso, e se
transforma à medida em que o ambiente sócio-cultural evolui (ROBBINS, 1997). Cada
sociedade, assim, tem crianças condizentes com as condições sociais vigentes, e a maneira
como as sociedades lidam com a infância – especialmente no que se refere ao espaço e às
vivências a ela reservadas – determina como as próximas gerações verão a realidade
(GOODENOUGH, 2000).
No mundo quase que totalmente programado e comercializado de hoje, há muito
pouco tempo e espaço para se ser verdadeiramente criança. As crianças de classes mais
favorecidas têm seu tempo totalmente regulado pelos adultos, e são obrigados a se dedicar
às mais diversas atividades: cursos de idiomas, esportes, computação, etc. Já as crianças
de classes desfavorecidas, embora não tenham as oportunidades a que têm acesso as
crianças ricas, também têm seu tempo tomado por pequenos serviços que garantem o
1
Artigo publicado na revista Hífen, v. 27, n. 51, PUCRS Uruguaiana, 2003, p. 37-44.
2
Alunas do nível VI do curso de Pedagogia – Educação Infantil da PUCRS Uruguaiana, 2002.
auxílio à família, ou, quando têm sorte, estão protegidas por projetos sociais em que não
podem administrar seu próprio tempo.
Antigamente, as crianças criavam os regulamentos de suas brincadeiras. Elas
inventavam regras para jogos como quebra-cabeças, bolinha de gude e memória. Hoje elas
já não têm esse poder. Os novos brinquedos praticamente brincam sozinhos, enquanto a
criança apenas assiste. ”Não há criatividade infantil que resista a tanta regulação”, afirma
Edmir Perrotti, pesquisador na área de ciência e informação da Universidade Federal de
São Paulo (COSTA, 2002).
A criança moderna é forçada a produzir o tempo inteiro, ou por já fazer parte do
mercado de trabalho, ou para entrar nele o mais rápido – e bem preparada – possível. O
triste resultado é que houve, ao longo dos últimos trinta anos, um encurtamento progressivo
da infância a ponto de crianças de sete ou oito anos não mais se comportarem como, ou se
considerarem, crianças.
Outro fator importante a ser considerado nesta equação é que as crianças do mundo
inteiro hoje – e as brasileiras não são exceção – estão privadas dos espaços que
costumavam ser seus: as ruas, as calçadas, as praças e o contato com a natureza (COSTA,
2002). Privadas desses espaços, elas se refugiam na frente do televisor, horas e horas de
seus dias. As crianças modernas têm tido suas personalidades moldadas pela cultura
popular, a ponto de nem a família nem a escola conseguirem contrapor a força exercida na
vida das crianças pela mídia e pela indústria.
Em seu cultuado livro Kinderculture: the corporate construction of childhood, Joe
Kincheloe e Shirley Steinberg sustentam que nesse mundo dominado pela mídia, em que o
conhecimento pode ser acessado a toda hora e em qualquer lugar, as crianças estão quase
que totalmente familiarizadas com assuntos adultos, enquanto os adultos – pais e
professores – insistem em tratar as crianças como se elas estivessem ainda protegidas do
mundo real (STEINBERG e KINCHLOE, 1997).
Apesar de esse encurtamento da infância ser evidente para famílias, educadores e
outros profissionais ligados às crianças, a maioria dos estudiosos ainda teoriza sobre um
modelo biológico, não-histórico de criança, negligenciando as influências culturais, históricas
e econômicas que acabaram por contradizer boa parte das concepções tradicionais da
infância (PROGLER, 1997). A chamada era da informação alterou radicalmente a infância,
ao ponto de tornar obsoletas as teorias mais básicas sobre educação e psicologia infantis.

A MÍDIA
Embora se saiba que as camadas sociais menos favorecidas dediquem mais tempo
à televisão por não ter outras opções de lazer, é fato comprovado em nossa sociedade que
crianças e adolescentes de todos os estratos sociais têm no televisor sua companhia mais
constante. Os meios de comunicação, especialmente a TV, são modelos com os quais
crianças e jovens se identificam e, quanto maior é o isolamento da criança e do jovem,
maior é o poder de influência que a mídia exerce sobre ele (CAMPOS, 1985).
A família tem pouco ou nenhum poder de decisão quanto ao tipo de programa que as
crianças assistem na televisão. Por um lado, por estarem geralmente afastados de casa, os
pais nem sequer ficam sabendo o que os filhos assistem. Quando estão em casa,
normalmente não querem iniciar uma discussão sobre que programas serão vistos. Via de
regra, os pais vêem a TV apenas como um calmante para os filhos, estando pouco
conscientes da verdadeira revolução que este elemento tem provocado na personalidade de
suas crianças. A TV é a grande divulgadora da mais poderosa forma de influência sobre as
crianças de hoje – a kindercultura.
A chamada kindercultura – a cultura popular a qual as crianças estão submetidas
exatamente por passarem a maior parte de seu tempo livre entre quatro paredes –
representa, segundo Kincheloe e Steinberg, uma pedagogia cultural, um currículo
educacional, desenvolvido prioritariamente, mas não somente, dentro de casa. A educação
das crianças pela kindercultura ocorre na TV, nos filmes, em jornais e revistas, nos
brinquedos, nos comerciais, nos vídeo-games e nos livros, entre outros (STEINBERG e
KINCHELOE, 1997). Este currículo acaba substituindo o currículo escolar tradicional por ser
mais vivo, interessante, fácil e – principalmente – mais real.
Assim, as grandes empresas que produzem toda essa parafernália que tanto atrai as
crianças e também os adolescentes tomaram em suas mãos, sem resistência adulta, a
tarefa de educar os jovens. Protegidas pela falsa sensação de o que elas produzem e fazem
é inocente e trivial, estas corporações tiveram o poder de transformar já várias gerações de
crianças em adultos agressivos (ou submissos), insatisfeitos, compulsivos, consumistas,
incapazes de lidar bem com sua sexualidade e com suas emoções.

A MÍDIA E OS VALORES DAS CRIANÇAS


Ideologia pode ser definida como um conjunto de crenças ou como uma maneira de
se entender o mundo social em um determinado tempo e local. Muitas vezes, essas crenças
e esse entendimento não estão escritos em um lugar específico, mas estão presentes
permeando a linguagem, transmitidos abertamente pelos meios de comunicação: a
televisão, o rádio, os jornais e as revistas, os filmes, a mídia em geral.
Que tipo de ideologia a mídia de nosso tempo divulga, embora não explicite? Que
valores nossas crianças – maiores consumidores da mídia na atualidade – estão recebendo
sem que sequer saibam que estão sendo educados? Observando-se e analisando os filmes,
programas, revistas, livros e jogos infantis, deve-se perguntar: que papéis e identidades
ficam evidenciados? Que idéias e ideais estão sendo transmitidos como “naturais”? Em que
medida a ideologia vigente está sendo incutida na cabeça das crianças?
De acordo com Richard H. Robbins, profesor de antropologia da Universidade
Estadual de Nova York, na kindercultura, o ser humano ideal é branco (ou claro) e de classe
média para cima, as mulheres são reduzidas a consumidoras boazinhas, os homens são
fortes e agressivos, a família é desvalorizada, e os adultos geralmente aparecem como os
malvados (ROBBINS, 1997). Os vilões são geralmente não-brancos, feios e sujos, muito
diferentes do que se pode encontrar na vida real.
Consideremos apenas os filmes mais populares entre a garotada. Henry Giroux,
professor de educação na Pennsylvania State University, nos Estados Unidos, concluiu
recentemente um estudo em que analisou profundamente o conteúdo dos filmes infantis
recentemente produzidos pela Disney: A Pequena Sereia, Aladim, A Bela e a Fera e O Rei
Leão. Aparentemente inofensivos, esses filmes reproduzem, segundo Giroux, as crenças
mais racistas e sexistas presentes nas sociedades ocidentais (PROGLER, 1998).
De acordo com a análise de Giroux, nas histórias direcionadas ao público infantil, as
mulheres e meninas estão geralmente subordinadas aos interesses dos homens. Elas
abrem mão de seus objetivos para agradar os amigos, a família e o amado. Seu único poder
real parece ser o de consumir. As heroínas tendem a sofrer muito e ser infelizes, e
geralmente é no sofrimento e na abnegação que residem suas maiores virtudes.
Os meninos e homens das histórias, por outro lado, são os que alcançam os
objetivos que traçaram para si mesmos. Os personagens masculinos são independentes,
assertivos, atléticos, importantes, atraentes, técnicos e – o mais importante de tudo –
responsáveis pelas personagens femininas. Eles mostram genialidade, raiva, liderança,
bravura. Eles agridem, ameaçam, e se vangloriam, combinando com o estereótipo
masculino de 20 ou 30 anos atrás, que está totalmente em desacordo com o que se exige
do homem de hoje em dia.
Giroux ressalta que é surpreendente o número de histórias, filmes e lendas em que
os pais e a família são total ou parcialmente ausentes. Intencionalmente ou não, isso acaba
criando nas crianças a sensação de que elas estão sozinhas no mundo, são responsáveis
por si mesmas, e devem agir sozinhas. Construindo inconscientemente esses sentimentos,
as crianças se isolam da autoridade adulta – pais e educadores – e desenvolvem uma
atitude arrogante frente a tudo o que seja adulto: conselhos, pedidos e recomendações.
Que pai ou mãe já não se perguntou por que seus filhos se tornaram tão rebeldes,
incapazes de ouvir ou de se sensibilizar por qualquer palavra adulta? Steinberg afirma, não
sem razão, que as crianças se sentem completamente competentes e independentes dos
adultos, uma vez que esta é a imagem que lhes é transmitida pela kindercultura
(STEINBERG, 1997). A autoridade adulta entrou, assim, em colapso e a família se tornou
um campo de batalha, em que crianças precoces lutam com seus pais por privilégios e
poder.
Outro aspecto importantíssimo a ser considerado quando se debate os valores
transmitidos pela cultura popular, segundo Steinberg, tem a ver com o intenso prazer que
ela traz às crianças. As experiências emocionais vivenciadas diante da TV, dos filmes e dos
jogos eletrônicos não têm paralelo em nenhuma outra instância (STEINBERG, 1997). Este
prazer intenso provoca desejos e também ansiedade e insatisfação: querer e não poder;
nunca ter o suficiente. São esses exatamente os sentimentos que aniquilam a inocência e
encurtam a infância.

A MÍDIA E A EROTIZAÇÃO DAS CRIANÇAS


Se as crianças de antigamente cresciam em um mundo cheio de segredos e tabus,
principalmente em relação ao sexo, e sua educação sexual consistia em combater os tabus
e mitos decorrentes da ignorância, as crianças de hoje vivem em meio à total explicitação –
principalmente através da televisão – de tudo o que é sexual, de modo que a antiga
educação sexual perdeu totalmente sua razão de ser.
Em muitos lugares do mundo, mas especialmente no Brasil, o que se percebe é uma
exacerbação da erotização infantil na televisão, visto que os programas televisivos, na
busca de maior audiência, lançam programas que exploram cada vez mais o corpo, para
vender produtos e também ter sua audiência garantida, transformando a criança em uma
consumidora passiva, que acaba por reproduzir, em suas atitudes e brincadeiras, ações que
reproduzem a erotização, estimulada pelos programas que mostram imagens estereotipadas
e vulgarizadas.
Essa erotização precoce desencadeia uma série de problemas que podem ter
conseqüências bastante sérias para as crianças, pois elas são bombardeadas com
informações que não conseguem processar, o que resulta em comportamentos não
adequados à faixa etária em que se encontram. Meninas de cinco a oito anos agem como
adolescentes, usando batom, salto alto e roupas que reforçam a sensualidade, característica
dos adultos. Da mesma forma, meninos sentem vontade de beijar, de abraçar e falam em
“ficar” com muita naturalidade. Na verdade meninos e meninas falam sobre sexo com muita
desenvoltura, como se fossem adultos, a não ser pelo fato de que pelos seus corpos fluem
pequenas doses de hormônios sexuais.
A TV, e voltamos a dizer, principalmente aqui no Brasil, faz um apelo muito grande
ao público infantil, patrocinado por interesses empresariais. Publicitários são unânimes
quando dizem que o sexo vende qualquer produto e traz um retorno financeiro muito grande.
Conseqüentemente, faz-se uso indiscriminado de corpos despidos, idealizados, buscando
estimular a pulsão sexual do seu público alvo. Pouco ou nada se faz para controlar os
malefícios que essa prática causa nas crianças e jovens, pois os que desejam atingir esses
telespectadores não se importam com as conseqüências de suas campanhas, despojando-
se de qualquer pudor ou dignidade, interessados apenas nos lucros advindos de tais
programações.
Segundo a psicóloga Sônia Thorstensen, as emissoras brasileiras desenvolveram
uma modalidade de sexo “sadopervertido”. Isso quer dizer que a telinha expõe uma visão de
sexo em que é normal usar o corpo do outro da maneira que se desejar, independente de
sentimentos. E o que é pior, as pessoas divertem-se com isso (ABRUCIO, 1999).
“A sexualidade – assim como o intelecto, que só muito lentamente assimila a
diferença entre realidade e fantasia – se organiza de um modo progressivo, e isto deveria
ser respeitado e conduzido pela família, pelos educadores e também pela sociedade como
um todo”, explica Thorstensen, o que obviamente inclui os meios de comunicação.
Não existem experiências científicas que comprovem que a mídia, principalmente
através da televisão, conduza a uma erotização precoce, e seria muito difícil precisar o que
é efeito da mídia e o que é efeito do contexto em que a criança se situa. Uma das
dificuldades para a produção de uma pesquisa científica é a ausência de parâmetros
internacionais. Em países desenvolvidos, onde não existe essa estimulação pervertida,
sistemática e manipuladora tal como a que a TV brasileira possui em relação ao sexo, as
pesquisas atuam no sentido de resolver os problemas que são detectados naquelas
sociedades, como é o caso da violência infantil.
Porém, mesmo não havendo estudos científicos, pode-se comprovar esses efeitos
negativos através da observação do comportamento das crianças – brincadeiras, danças,
imitações e perguntas que elas fazem – que denotam todo esse bombardeio que elas
recebem. Isso constitui uma questão para ser avaliada exaustivamente pelas escolas e
famílias, que devem procurar resolver o problema de uma forma equilibrada e que reverta
em resultados positivos para a criança.
A doutora em ciências da comunicação Maria Isabel Ourofina Schaffer, afirma que,
embora a televisão seja a companheira para as brincadeiras de muitas crianças e
entretenimento de muitos jovens, as relações entre indivíduos e TV está longe de ser uma
brincadeira e precisa ser investigada com muita seriedade (ABRUCIO, 1999).
O que as crianças e jovens necessitam hoje é que lhes auxiliem a administrar a
quantidade de informações que recebem, e a entender o que sentem. A televisão mostra
apenas casais em relações superficiais, descuidadas e geralmente irresponsáveis quanto à
prevenção de gravidez e doenças sexualmente transmissíveis. A tarefa da família e dos
educadores é alertar as crianças e jovens para os prazeres e perigos inerentes à prática
casual do sexo, e para a satisfação que pode existir em uma relação que envolve
sentimentos e consideração pelo outro.

A MÍDIA E A AGRESSIVIDADE DAS CRIANÇAS


Muitos pais preocupados com a formação de seus filhos percebem que a mídia e a
cultura popular – a televisão, o cinema, os vídeo games – acaba impondo valores não
compatíveis com os quais estão tentando educar seus filhos. Encontramos, porém, muitas
famílias em que os filhos são incentivados a assistir a tudo o que aparece na TV. Os
próprios pais em geral não têm valores sólidos de vida e são extremamente suscetíveis aos
apelos da cultura popular. Na ilusão de que tudo o que aparece na televisão deve ser
correto e válido, não percebem nenhum inconveniente em confiar seus filhos à “maravilhosa
babá eletrônica”. E tudo isso para manterem os filhos quietos.
Os patrocinadores dos programas infantis na televisão são levados por pressões
competitivas a apresentar produtos violentos, já que estes resultam em maiores lucros. Os
pais permitem que seus filhos assistam tais programas inclusive para acalmar as crianças.
Na cultura popular, a violência é a maneira mais eficaz de resolver os conflitos, e ela
progride cada vez mais nos vídeo-games, grande atração para os pequenos. Para ganhar
estes jogos, a pessoa deve lutar pela sobrevivência, aprendendo a matar e a agredir.
Por outro lado, um estudo sociológico realizado em 1978, por Merton e Lazarsfeld,
autores de Comunicação de massa, apontou que a televisão tem um “efeito narcotizante”
sobre os assistentes de todas as idades, particularmente as crianças (CAMPOS, 1985):
informados sobre todo tipo de acontecimento e presenciando todo tipo de violência, os
telespectadores acabam ficando anestesiados e passivos em relação aos fatos em geral,
especialmente os que envolvem a violência. Assim, à mesma medida em que se tornam
cada vez mais agressivas, as crianças desenvolvem uma espécie de imunidade à violência,
que lhes faz aceitar atos violentos como se fossem normais e naturais.
Uma pesquisa do Ibope do início do ano 2000 demonstrou que os 10 programas
mais assistidos pelas crianças de 2 a 9 anos de são feitos para adultos, como por exemplo
um programa policial chamado Linha Direta, que apresentava reportagens em meio a
reconstituições de cenas de crimes. Pesquisas mostram que uma criança normal assiste
mais de 2000 cenas de violência antes de atingirem os 18 anos (MAUÉS, 2000).
Estabelece-se assim um quadro mental de agressividade, pois a criança vai
introjetando cenas dramáticas de violência e acaba por transferir esta agressividade para
suas relações humanas, nos grupos que freqüenta. Mesmo que compreendam bem a
fantasia dos jogos e vídeos, terminam por imitar as ações dos personagens, reproduzindo a
violência da mídia em suas vidas.
Mesmo assim, especialistas não indicam como caminho a ser seguido o afastamento
total das crianças da TV, mas sugerem usá-la com moderação. Educadores e psicólogos
propõem que pais e professores assistam a TV junto com as crianças e a utilizem como
ferramenta no processo educativo, aproveitando os conteúdos dos programas que são
dirigidos aos adultos para ajudar os pequenos a pensar a realidade de forma crítica.
Conforme a psicóloga e socióloga Maria Luíza Dias, referindo-se à decisão a ser
tomada pelos pais em selecionar programas que consideram adequados aos seus filhos,
salienta que “educar implica, em certos momentos, decidir pela criança, o que inclui
selecionar atividades” (MAUÉS, 2000).
Portanto, a proibição não é a melhor solução, pois se a criança for proibida de
assistir certos programas em sua casa, eles ouvirão comentários dos colegas de escola e
amigos, e não estarão preparados para julgá-los se vierem a assisti-los. Porém se os pais
optarem por proibir determinados programas, devem então justificar a proibição.
A família devem funcionar como uma espécie de filtro, devendo os pais ficarem
atentos às manifestações dos filhos para perceberem o impacto das mensagens da TV
sobre eles. Mesmo que a criança não capte ainda completamente o conteúdo de muito do
que ela vê, é necessário que os pais estejam atentos para que o que é visto não seja
assimilado de maneira distorcida. Segundo a psicóloga Neide Saize, “os pais devem
conversar com as crianças sobre os assuntos que eles vêem e explicar-lhes o que é correto
ou não. Se transformarem esses conteúdos em discussões e questionamentos, farão uso
dos programas de uma forma educativa” (MAUÉS, 2000).
A grande aliada da família nesse processo é a escola. Pais e professores necessitam
perceber se a criança realmente está querendo obter tal informação, pois, ainda segundo
Neide Saize “o grau de interesse sobre cada assunto varia de uma criança para outra e
deve-se saber no que o filho está interessado para não precipitar”.

A MÍDIA E O CONSUMISMO INFANTIL


Num passado não muito distante, as crianças se reuniam com a família ao redor do
fogo, ouviam histórias e cantavam as canções tradicionais de seu grupo. Hoje, o fogo foi
substituído pela televisão, as histórias pelas novelas, filmes e seriados, e as canções
tradicionais, pelos jingles dos comerciais (SWIMME, 1996).
Enquanto os adultos mal prestam atenção nos comerciais, pois aproveitam os
intervalos para conversar ou para executar uma tarefa rápida, as crianças tendem a prestar
mais atenção neles que nos programas propriamente ditos (CAMPOS, 1985), uma vez que
são rápidos, dinâmicos e transmitem mensagens curtas e fortes, que permanecem na
memória por muito tempo, anos até. Estudos mostram que antes mesmo de ingressar na
pré-escola, cada criança terá visto cerca de 30.000 comerciais (SWIMME, 1996). Ou seja, a
educação para a cultura popular já está sedimentada nas crianças anos antes da educação
formal se iniciar.
As crianças tornaram-se o alvo principal das empresas, e elas estão obcecadas com
o consumo. Crianças de dois anos de idade preocupam-se com a marca da roupa que
vestem, e aos seis anos, já são consumidores tarimbados: roupas, calçados, brinquedos,
jogos, livros, comida, bebida... A lista é interminável. E não é só feita de produtos infantis. As
crianças consomem hoje uma gama de produtos e serviços que foram inicialmente
produzidos para adultos. Segundo Perrotti, na ausência da influência de mediadores
tradicionais como pais, avós e professores, quem define as escolhas das crianças é
basicamente o mercado (COSTA, 2002). E sabemos que o mercado não tem como objetivo
principal a educação dos consumidores para a crítica e a consciência.
O papel dos comerciais é, na verdade, tornar as pessoas infelizes com o que têm, e
o maior problema em relação ao consumismo infantil é que as crianças se tornam
consumidores hedonistas, eternamente insatisfeitos, privados de sua inocência e
inconscientemente levados a se revoltar contra a família, ou qualquer outra instituição que
lhes impeça de atingir seus objetivos de consumo.
É claro que os publicitários não podem ser considerados os vilões da história. Eles
são profissionais que têm um trabalho a fazer, que é o de colocar o produto de seu cliente
no mercado. Devemos ter bem claro, porém, que sua maior preocupação não é o bem-estar
de nossas crianças. Essa preocupação deve ser da família e dos educadores. E aí está a
chave da questão: onde estavam a família e os educadores enquanto toda essa cultura se
construiu? Estavam cuidando de suas próprias vidas, e deixando a educação das crianças
ao encargo um do outro, e, principalmente, da TV.
É muito difícil admitir que vivemos em uma cultura em que os verdadeiros valores
espirituais foram substituídos pelo materialismo mais crasso. O ser humano existe hoje para
trabalhar, ganhar dinheiro e consumir. Assumir essa verdade, no entanto, é o primeiro passo
no sentido de se retomar o controle do que interiorizamos e deixamos que nossas crianças
interiorizem à frente da TV.
Nosso papel como pais e educadores é auxiliar a criança a desembaçar as imagens
apresentadas pela kindercultura, e ensiná-las a separar o essencial do supérfluo, o
importante do trivial, e o certo do errado. E para isso, devemos estar conscientes de nossa
própria necessidade de re-educação para a mídia.

OS EFEITOS POSITIVOS DA MÍDIA


Como todo o resto do que existe no mundo, a mídia em si não é apenas ruim, como
também não poderia ser boa somente. Há pontos negativos – e muitos – na cultura popular
difundida pelos meios de comunicação, mas também há pontos positivos.
A televisão é bastante positiva, por exemplo, para desenvolver o nível intelectual de
crianças limítrofes ou com Q.I. abaixo do normal. Ela auxilia essas crianças na construção
da linguagem e no estabelecimento de relações entre o concreto e o simbólico. Deve-se
lembrar, porém, que a TV não contribui para elevar o Q.I. de crianças consideradas normais
(CAMPOS, 1985).
Um segundo argumento a favor da mídia é que ela tem um efeito positivo enquanto
facilitadora da comunicação entre os diferentes povos, uma vez que difunde idéias, valores
e padrões de outras culturas, auxiliando-nos a ampliar nossa visão sobre o que é diferente
de nós.
Avalia-se, assim, que a mídia nos coloca a par do que acontece no mundo, quase
que em tempo real. Nos transmite informações úteis e interessantes que aumentam nossos
conhecimentos sobre as diferentes culturas existentes no planeta.
É necessário que se tenha claro que a cultura se forma em todo tipo de lugar, nos
meios de comunicação inclusive. E a cultura desenvolvida pela mídia é uma importante
manifestação humana, que não pode ser desprezada, ou subestimada.
O problema reside nos extremos. Assim como não se pode abolir os meios de
comunicação de nossas vidas, também não podemos nos deixar dominar totalmente por
eles, passivamente, sem qualquer questionamento. Devemos incorporá-los em nossas vidas
com cuidado e consciência crítica, para extrairmos deles as coisas boas que eles podem
oferecer.

O QUE PODEMOS FAZER?


Em seu livro Kinderculture, os autores Steinberg e Kincheloe recomendam o que eles
chamam de “alfabetização para a mídia” para professores e pais. Essa alfabetização para a
mídia é uma postura investigativa e crítica diante de tudo o que os meios de comunicação
tentam nos impor, uma atitude de não aceitação passiva, que deve levar à consciência do
que realmente somos e buscamos (STEINBERG e KINCHELOE, 1997). Essa é a primeira
medida que devemos tomar para começar a reverter a situação de subjugação em que
estamos totalmente mergulhados.
Famílias e educadores devem deixar claro para os pequenos que postura passaram
a assumir diante da mídia, sem cinismo ou superioridade. Deve-se investir tempo assistindo
TV e filmes, jogando e lendo com as crianças. Depois de cada experiência, deve-se passar
a um questionamento do que foi visto e ouvido, comparando esse conteúdo com os valores
que se quer que sejam construídos pelas crianças. É essencial que as crianças aprendam
que é possível, sim, discordar do que é mostrado nos meios de comunicação. É possível
que tenhamos nossa própria opinião, postura e preferência, apesar do bombardeio de
apelos para que sejamos assim, queiramos isso, gostemos daquilo.
Em segundo lugar, é necessário e urgente que famílias e educadores se apressem
para compreender o mundo em que as crianças vivem hoje, para que se possa identificar
suas necessidades e operar as mudanças necessárias na prática pedagógica, tanto familiar
quanto escolar.
Como já se afirmou anteriormente, as crianças de hoje conhecem o mundo tanto
quanto os adultos, e esse conhecimento tornou nossas concepções sobre escola e sobre
educação incompatíveis com a realidade. As crianças sabem que os adultos não sabem
tudo. E mais: sabem que, em muitas áreas, sabem menos do que elas próprias. Assim, a
concepção tradicional de escola, em que o professor é a fonte de todo o saber caiu por terra
já há um bom tempo.
Os educadores devem eles mesmos se conscientizar dessa nova realidade, e se
abrir para a perspectiva de aprender continuamente, em plena colaboração com seus jovens
alunos, que têm, ao final das contas, muito a lhes ensinar. Fernando Savater, em seu
inspirador O Valor de Educar, afirma que essa nova perspectiva da educação pode abrir
possibilidades antes inexistentes para a formação moral e social dos futuros cidadãos, que
poderão se tornar mais tolerantes e universalistas, uma vez que têm acesso quase irrestrito
ao que ocorre em todas as partes do mundo (SAVATER, 1998). Como não aproveitar a
oportunidade de crescer junto com essa nova geração?
Levando tudo isso em consideração, a concepção construtivista de educação é a
melhor alternativa, por enfatizar a criação de uma atmosfera de aprendizado ativo,
pensamento crítico e de descoberta colaborativa, em que professores e alunos trabalham
juntos para extrair sentido do mundo (NATIONS, 2001). E a “alfabetização para a mídia”
deve ter posição de destaque no currículo escolar, por ser a análise crítica da mídia uma
ferramenta essencial na re-construção de nossa identidade e de nossos valores.
O que as crianças mais querem é descobrir o mundo e descobrir a si mesmas.
Nessa perspectiva, o ensino construtivista vem atender os mais profundos anseios infantis:
explorar, trabalhar junto com os colegas, examinar, questionar, interpretar, e utilizar o que se
descobriu. Enfim, ser sujeito e não mero coadjuvante em seu processo de descoberta.
Nosso papel como pais e educadores é, segundo John Fiske em seu livro Power
plays, power works, oferecer aos pequenos o que ele chama de “momentos afetivos de
escape do poder” . Mostrando-lhes que o universo é muito mais do que Disney, Barbie e
Ken, devemos oferecer a eles um mundo a ser descoberto em que as melhores coisas estão
lá de graça: terra, ar, árvores, animais, pedras e outras crianças (FISKE, 1993). As crianças
só poderão ter de volta sua inocência e sua meninice em espaços onde a re-construção
imaginativa da infância possa ocorrer: seus lares e sua escola. E é nosso papel acompanhá-
las nesse resgate.

CONCLUSÃO
Na época em que vivemos, há muito tempo a educação não ocorre apenas na família
e na escola. Os meios de comunicação têm ampla e fortíssima atuação na educação das
crianças, e já que não é possível isolar seus efeitos, é necessário fazer com que que essas
instâncias educativas – família, escola e mídia – passem a cooperar.
Não adianta apenas criticar a influência da mídia na educação das crianças. A
cultura popular é, acima de tudo, uma cultura do prazer, e não se pode simplesmente
ignorá-la ou eliminá-la de nossas vidas. É necessário que se conheça suas potencialidades
e a maneira como atua, de modo a minimizar seus efeitos negativos e otimizar os positivos.
Para que isso seja possível, os pais devem procurar conhecer os programas que os
filhos assistem, para analisar os valores e as idéias que são veiculados, e tentar formar o
espírito crítico e diminuir a passividade diante dos meios de comunicação. Em suma, a
família necessita assumir-se como principal responsável pela educação de seus filhos, e
devem tomar para si a tarefa de orientá-los para a vida e transmitir-lhes os valores
fundamentais. Nenhuma família pode se entregar ao desânimo diante dessa tarefa.
A escola, por sua vez, deve abrir mão de sua auto-imagem de retentora única do
conhecimento para se transformar em um espaço de interação e trocas, de ensino e
aprendizagem em duas vias (professor-aluno e aluno-professor). A escola deve ser um local
onde se discute, debate e critica, onde se constróem significados e posturas ativas diante do
bombardeamento de informações e de ideologia a que todos estamos submetidos.
Cooperativamente, família e escola devem se empenhar em promover valores,
atitudes e comportamentos humanistas e espiritualistas, que sirvam como uma alternativa
viável ao superficialismo que a cultura popular faz reinar entre nós, e que nós temos
comodamente aceito. Segundo Shirley R. Steinberg, co-autora de Kinderculture, obra já
citada, “devemos utilizar nossa força pessoal e coletiva para transformar a variedade de
formas pelas quais o poder das grandes corporações, obtido através de seu acesso à mídia,
nos oprime e nos domina” (STEINBERG, 1997).

REFERÊNCIAS

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