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Educar pela Pesquisa

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EDUCAR PELA PESQUISA: A VISÃO DOS FUTUROS PROFESSORES DA EDUCAÇÃO BÁSICA UM ESTUDO DE CASO NA PUCRS1 Andrea Dorothee Stephan

Suzana Paiva Valéria Moura Venturella2 INTRODUÇÃO A educação encontra-se atualmente em um momento crítico e, ao mesmo tempo, desafiador. O mundo em que vivemos se torna cada vez mais complexo e agitado. As relações políticas, sociais e econômicas há muito tempo deixaram de ser locais, para se tornarem mundiais. Os sistemas de comunicação em escala planetária disponibilizam toda informação produzida instantaneamente ao mundo inteiro, rapidamente tornado todo o conhecimento existente obsoleto. Os avanços tecnológicos, embora tenham facilitado a vida das pessoas, não constituíram uma garantia do mundo como um lugar melhor para se viver. A humanidade enfrenta hoje muitos de seus mais antigos problemas – tais como violentas rivalidades étnicas e enormes desigualdades sociais e econômicas – acrescidos de novos problemas causados pela evolução humana – como exaustão dos recursos naturais e desequilíbrios ambientais graves, que chegam a comprometer a preservação da vida no planeta. Diante desse quadro, a educação tem hoje o desafio de preparar as gerações futuras para viver e atuar nessa realidade revolucionária, enfrentando seus problemas e encontrando maneiras de se viver com qualidade. Já nas duas últimas décadas do século XX, a educação tradicional começou a se provar ineficiente no preparo dos estudantes para as necessidades da vida. Baseado na reprodução do conhecimento, o ensino tradicional acaba por cercear a imaginação e a inventividade dos alunos. Ao estabelecer um ambiente transmissivo e imitativo, em que os alunos escutam o que o professor diz, para depois reproduzir tudo com o máximo de fidelidade na próxima prova (DEMO, 2001), a escola tradicional é a antítese do espaço estimulante e questionador que forma pessoas críticas, criativas e transformadoras, de que o mundo necessita hoje. Dessa maneira, a educação tradicional tem pequenas chances de corresponder ao desafio imposto pelo mundo moderno: um mundo em que as exigências do mercado de trabalho são cada vez maiores, problemas são criados na mesma medida em que outros são resolvidos, os recursos naturais se tornam cada vez mais escassos e as necessidades humanas, mais elevadas. Na época em que vivemos, em que a criatividade se faz cada vez

Artigo publicado na Revista Hífen, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – Uruguaiana, v.28, n.53, p. 61-68, 2004. 2 M e s t r a n d o s e m Ed u c a ç ã o pel a Po n ti f í c i a U n i v e r s i d a d e C a t ó li c a do Rio Gr a n d e do Sul.
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mais necessária – e, por isso mesmo, altamente valorizada – é papel da educação formar os cidadãos que tomarão a realidade nas mãos em um futuro muito próximo. Segundo o chamado Relatório Delors para a Educação do Século XXI, o século que agora se inicia submete a educação a uma dura tarefa: a de equipar os cidadãos com as ferramentas necessárias para que vivam e atuem no mundo atual e futuro de maneira competente. Segundo esse relatório, não basta que os estudantes acumulem no início de suas vidas uma carga de conhecimentos que irão acessar ao longo da vida. Essa fórmula não funciona mais, se é que algum dia funcionou. Almeja-se que a educação se dê ao longo de toda a vida do ser humano (DELORS, 2000). O que se busca hoje é mais do que maneiras novas de ensinar. Buscam-se maneiras de tornar os estudantes capazes de aprender constantemente, mesmo após o final de seus estudos formais. O que se procura, portanto, são formas de instrumentalizar os alunos para que eles se tornem aptos a detectar problemas, observar os recursos disponíveis, investigar possibilidades e encontrar, ou mesmo criar, soluções viáveis. Quer-se que os estudantes sejam alerta, autônomos e criativos. Procura-se torná-los aptos a “aprender a aprender”. A educação moderna, assim, deve preparar os alunos para que desenvolvam uma mentalidade de educação contínua, além de despertar neles um constante interesse pelo aprendizado e pela descoberta. Deve também prepará-los para que se tornem cidadãos participativos, flexíveis, criativos, para que saibam trabalhar em comunidade. Enfim, a educação deve formar pessoas que encontrem novas soluções para novos e antigos problemas. Como se pode ver, o desafio é grande, e os educadores não sabem ao certo como enfrentá-lo. Alguns estudiosos e pensadores da educação, como Pedro Demo, têm defendido a educação através da pesquisa em todos os níveis educacionais – da pré-escola à universidade – como a maneira ideal de estimular o senso crítico e o espírito investigador do aluno, para assim prepará-lo para os desafios que a realidade cada vez mais complexa lhes impõe. De fato, muitos autores acreditam que seja possível tornar a educação mais eficiente através do uso da pesquisa como metodologia e como objeto. Segundo esses autores, ao combater a atitude imitativa e reprodutiva, é possível criar condições para desenvolver no aluno atitudes de aprender pela elaboração própria (SOUSA, 2000). A pesquisa seria, nesse contexto, um meio de fazer com que os estudantes questionassem a realidade e suas próprias concepções sobre ela. Todo estudante que chega à escola já traz consigo conhecimentos prévios que o capacitam a se orientar no mundo. A prática investigativa o faria capaz de, na interação com a realidade, re-processar esses conhecimentos, ampliando-os, aprofundando-os ou modificando-os. A investigação capacitaria, assim, o aprendiz a se aproximar da cultura científica e do conhecimento que esta acumulou de maneira significativa e transformadora (LEAL, 2001).

Ao se tornar prática educativa sistemática, a atitude investigativa necessária para a realização da pesquisa deixa de ser privilégio de pequenos grupos de pesquisadores localizados em centros altamente especializados. A pesquisa passa, desse modo, a se constituir num meio legítimo para a construção do conhecimento, acessível a qualquer estudante de qualquer nível de escolaridade, uma postura cotidiana crítica e questionadora, uma atitude de diálogo crítico com a realidade, para que nela se possa interferir de maneira mais competente. Segundo Pedro Demo, a pesquisa deve ser utilizada nas escolas como princípio didático, porque constrói conhecimento, e como princípio educativo, porque promove o questionamento crítico da realidade e sua inovação. Nesse sentido, o conhecimento e a inovação se tornam as principais manifestações da pesquisa (DEMO, 1997). Já se pode observar que iniciativas e modelos de educação através da pesquisa difundem-se, aos poucos, entre os professores e as instituições de ensino. Um bom exemplo é a denominada “Pedagogia de Projetos”, em que, mergulhando-se em um ambiente lúdico, fomenta-se na criança a atitude de pesquisa. A pedagogia de projetos está apoiada na estimulação de uma postura de curiosidade e de questionamento e na proposição de desafios para inventar soluções próprias através da observação, da experimentação e da descoberta (HERNANDEZ, 1998). Qualquer que seja a metodologia de ensino, segundo Pedro Demo, é fundamental que a prática do questionamento em sala de aula esteja sempre presente, para que se desperte a dúvida investigadora e se motive exercícios de re-elaboração individual, discussões em grupo, busca de informações em outras fontes e, sobretudo, a pesquisa fora da sala de aula. Educar através da pesquisa, segundo o autor, significa motivar o aluno a fazer a elaboração própria e colocar essa idéia como meta de formação (DEMO, 2001). Para que a atitude investigativa e a prática da pesquisa se realizem, efetivamente, na educação, é essencial impregnar a convivência com os alunos com estratégias de pesquisa. Pesquisar e produzir juntos é algo enriquecedor, mas isso somente ocorrerá se for criado um clima de interação em que as pessoas possam aprender umas com as outras, no convívio e no intercâmbio com seus pares (ARROYO, 2000). E isso só pode ser feito se os professores estiverem preparados para educarem pela pesquisa. E, para isso, é necessário que os professores sejam, eles mesmos, educados pela pesquisa. Os professores da educação básica aprenderam, em seus cursos de formação, a atuar como meros instrutores, uma vez que a pesquisa é, via de regra, inexistente na educação preparatória de professores (DEMO, 2001). É inútil esperar que professores que foram educados com base na cópia, na passividade e no sistema de avaliação em que a habilidade mais testada é a memória, possam repentinamente mudar de paradigma e passar a educar seus alunos de maneira construtiva e investigativa. Para que o professor passe de “ensinador” a mestre, é essencial que ele adote a postura de pesquisa, em

primeiro lugar reconhecendo que “o professor que não constrói conhecimento, como atitude cotidiana, nunca foi” (DEMO, 1997, p. 34). A pesquisa deve constituir, para os professores, um instrumento de reflexão sobre a própria prática, e também um meio de realizar a transformação dessa prática. Os educadores devem utilizar a atitude questionadora e investigativa como uma ferramenta em sua emancipação do hábito e da tradição (GALIAZZI, 2000). Essa emancipação dos educadores se faz necessária tanto no eixo metodológico de seu trabalho quanto no eixo teórico. Ao invés de atuar como um reprodutor de teorias desenvolvidas por outros, que é o que ele faz ao seguir à risca o manual didático, o professor deve passar a elaborar suas próprias aulas (DEMO, 2001), com base em suas investigações e re-elaborações, estabelecendo uma relação dialógica com o livro didático, que deve ficar clara, à guisa de exemplo, para seus alunos. CONTEXTUALIZAÇÃO Considerando que a pesquisa deve ser uma prática constante desejável na vida das pessoas em geral, então ela deve assumir relevância especial na vida dos professores de todos os níveis, especialmente os da educação básica. Os professores dos educandos mais jovens têm nas mãos a responsabilidade de moldar os hábitos de aprendizagem e de estudo das futuras gerações, além de influenciarem sobremaneira o modo como esses futuros cidadãos se colocarão frente ao mundo em que vivem. Ao adotar a pesquisa como expediente cotidiano em suas vidas profissionais, os professores estarão se apropriando de maneira pessoal e significativa do conhecimento teórico e metodológico que lhes é essencial, e também oferecendo exemplos vivos para seus alunos de como se posicionar frente ao mundo. Mais do que isso, ao adotar a atitude questionadora e investigativa, os professores estarão eles mesmos, e também seus alunos, contribuindo com a produção de novos conhecimentos e de novas maneiras de se ver a realidade e nela atuar. Acreditamos que o curso de formação é o espaço ideal para que o professor construa a consciência e o ideal do educar pela pesquisa. Assim, consideramos relevante investigar como os futuros professores da educação básica, hoje em formação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, se posicionam com relação à pesquisa: seu conceito de pesquisa, suas idéias sobre quem deve pesquisar e com que objetivos, e a importância que atribuem à pesquisa para seu desenvolvimento. Esperamos que os resultados de nosso trabalho possam trazer importantes insights sobre o entendimento que os futuros professores têm sobre a pesquisa, e sua relevância na educação.

O PROBLEMA DA PESQUISA Qual é o entendimento dos alunos de último ano do curso de Pedagogia - Séries Iniciais da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, sobre: • • • pesquisa, a importância da pesquisa para seu desenvolvimento; e quem deve pesquisar e com que finalidade.

OBJETIVOS DA PESQUISA • • • • • Conhecer a percepção dos alunos do último ano do curso de Pedagogia - Séries Iniciais Verificar a importância que esses alunos atribuem à pesquisa para seu desenvolvimento Aferir se esses futuros professores consideram a pesquisa como meio para a Aferir se esses futuros professores consideram a pesquisa como meio para a produção Realizar recomendações no sentido da formulação de uma política de conscientização sobre o que seja pesquisa, quem deva realizá-la e para quê. profissional. apropriação do conhecimento construído pela humanidade. de novos conhecimentos, tanto por parte dos alunos como dos professores. dos alunos formandos no curso sobre a importância da realização da pesquisa tanto para o desenvolvimento profissional do professor quanto para a construção do conhecimento em todos os níveis educacionais. QUESTÕES NORTEADORAS 1. Qual o conceito de pesquisa dos alunos de último ano do curso de Pedagogia - Séries Iniciais da PUCRS? 2. Que importância esses alunos atribuem à pesquisa para seu desenvolvimento profissional? 3. Qual a percepção que esses alunos têm sobre quem deva realizar a pesquisa, e com que objetivo ela deve ser realizada? ABORDAGEM E PROCEDIMENTOS DE PESQUISA Esta investigação, um estudo de caso, tem cunho construtivista (LINCOLN e GUBA, 1985), também chamado de qualitativo. Segundo Engers, o paradigma construtivista de pesquisa aceita o conhecimento “tácito” dos participantes, suas visões de mundo e seu conhecimento construído ao longo da vida. Esse paradigma de pesquisa “não visa à generalização, contempla a pesquisa em seu ambiente natural, utiliza a análise indutiva dos dados na busca da compreensão e assume a subjetividade do pesquisador” (ENGERS, 2000, p. 138).

Optou-se pelo paradigma qualitativo, porque ele proporciona uma visão holística do problema estudado. Essa visão holística é o que Alves-Mazzotti e Gewandsznajder (2001) definem como a compreensão do significado de um comportamento ou evento, que somente é possível através da compreensão das inter-relações que emergem no contexto estudado. O que motivou os pesquisadores foi o objetivo de se ter uma visão êmica com relação ao curso de Pedagogia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, uma visão de dentro do grupo pesquisado, resultando na emergência de uma teoria que seguisse os dados, chamada de grounded theory (aquela que emerge a partir dos dados) e que pudesse confluir para a elaboração de um relatório com a proposta de recomendações para a formulação de futuras políticas da Universidade com relação ao tema pesquisado. Sendo assim, a abordagem escolhida foi o estudo de caso, que representa, segundo Lincoln e Guba, 1985, “uma fotografia instantânea da realidade”. Seleção dos participantes Participaram da pesquisa seis alunos do último ano (sétimo e oitavos semestres) do curso de Pedagogia - Séries iniciais da PUCRS, com idades entre 22 a 44 anos, selecionados aleatoriamente. A percepção que os alunos formandos em Pedagogia – Séries Iniciais têm sobre pesquisa é de enorme importância. Sua visão sobre quem deve pesquisar e com que objetivo determina, em grande parte, sua visão sobre construção de conhecimento e sobre aprendizado. Uma vez que essas são as pessoas que estarão, num futuro próximo, atuando como educadores nas séries iniciais do ensino fundamental, sua percepção determinará a maneira como atuarão em sala de aula, e como promoverão o aprendizado de seus alunos. Procedimentos e técnicas de coleta de dados A coleta de dados foi realizada por meio da aplicação de um questionário pré-estruturado que os participantes deveriam responder por escrito, consistindo de três perguntas (modelo em anexo). Decidimos que as perguntas não deveriam mencionar a expressão “educar pela pesquisa” para não direcionar as respostas dos participantes. Procedimentos e técnicas de análise de dados Os dados coletados foram analisados e interpretados com base na análise de conteúdo de Bardin com adaptações de Engers (ENGERS, 1987). A sistemática utilizada para a análise passou numa primeira etapa pela leitura e releitura dos questionários respondidos, para a impregnação dos conteúdos, caracterizando-se essa atividade por um ir e vir entre a leitura das entrevistas e a dos aspectos teóricos analisados, para poder compreender os conteúdos latentes das entrevistas, dos significados e dos significantes dos discursos e, assim, poder compreender as percepções dos entrevistados. É o que Bardin

chama de “análise flutuante”. Como um segundo passo, seguiu-se uma análise vertical, consistindo em analisar as respostas de cada participante da pesquisa, marcando-se as expressões mais relevantes. O terceiro passo da análise de conteúdo foi a análise de cada item para todos os participantes (análise horizontal). Após essas etapas realizou-se uma síntese, destacando-se os pontos de vistas diferenciados dos participantes, culminando na emergência de categorias (ENGERS, 2003). Procurou-se, na análise de conteúdo realizada, observar o conteúdo manifesto, assim como o conteúdo latente (MORAES apud ENGERS, 1994), objetivando realizar uma interpretação dos dados encontrados, no sentido de compreendermos as subjetividades e os significados implícitos. RESULTADOS A questão sobre o que vem a ser a pesquisa resultou nas seguintes categorias que emergiram a partir da análise dos dados: PESQUISA
COMO UMA UMA BUSCA ATIVA:

Os alunos percebem a pesquisa como um meio para a

busca ativa de conhecimentos já produzidos e acumulados pela humanidade, de respostas para seus questionamentos. Consideram-na também um meio de novas descobertas. PESQUISA
COMO INSTRUMENTO PARA A COMPREENSÃO DA REALIDADE:

A pesquisa foi definida como um

instrumento para a atribuição de sentido à realidade, assim como uma forma de aprofundamento do conhecimento. Com relação à importância da pesquisa para seu desenvolvimento, podemos relacionar a seguinte categoria encontradas: PESQUISA PARA FINS
DE ATUALIZAÇÃO:

No que tange o desenvolvimento profissional, os alunos, de

maneira geral, acreditam que a pesquisa é uma maneira de se manterem atualizados, de se aprofundarem nos assuntos que lhe são importantes. Também consideram-na importante para seu desenvolvimento como um todo: intelectual, pessoal e profissional. A categoria percebida na questão sobre quem deve pesquisar foi: PESQUISA
COMO TAREFA PARA PESSOAS DE TODAS AS IDADES, DESDE CRIANÇA:

Os estudantes foram

unânimes em afirmar que a pesquisa deve ser realizada por todas as pessoas, de todas as idades e de todas as áreas profissionais. Um participante afirma que a pesquisa deve ser desenvolvida desde as séries iniciais, para desenvolver nas crianças o espírito crítico e investigativo. A finalidade do ato de pesquisar, a partir das respostas dos participantes, fez surgir a seguinte categoria:

PESQUISA

PARA FINS DE PREPARO FRENTE À REALIDADE:

Os alunos mostraram estar conscientes da

importância do papel da pesquisa na educação como instrumento de apropriação da realidade, uma vez que consideram que a pesquisa lhes oferece subsídios para que melhor se posicionem frente à realidade, para que sobre ela reflitam e tirem suas conclusões. Apesar do questionário ter sido previamente estruturado, ressaltamos que surgiu a colocação de que o processo de pesquisar deva ser prazeroso e de que pode abrir a possibilidade de uma formação diferente daquela originalmente pretendida. Os participantes afirmaram ainda que a pesquisa pode surgir a partir do interesse ou da necessidade da pessoa que se dispõe a pesquisar. É importante ainda ressaltar que algumas idéias que consideramos essenciais sobre a importância da pesquisa estiveram ausentes nas respostas dos questionários preenchidos pelos alunos. São elas: PESQUISA COMO
PRODUÇÃO DE NOVOS CONHECIMENTOS:

Os alunos deixaram de mencionar o papel da

pesquisa na produção de novos conhecimentos, tanto por parte dos alunos como dos professores. Não mencionaram a sala de aula como um espaço de investigação coletiva, em que grupos de alunos, auxiliados por seu professor, se engajam em descobrir soluções novas para problemas. Os alunos também não mencionaram o papel do professor como produtor de teorias e metodologias de ensino, em vez de mero reprodutor do que já é produzido por outros. PESQUISA
COMO INSTRUMENTO PARA A TRANSFORMAÇÃO DA REALIDADE:

É possível também notar a

ausência, no discurso dos alunos, o papel da pesquisa como um instrumento de transformação da realidade. PESQUISA
COMO BASE PARA UMA METODOLOGIA DE ENSINO E DE APRENDIZAGEM:

Os alunos pesquisados

não demonstram intimidade com o conceito de aprender e ensinar através da pesquisa, ou seja, de utilizar a pesquisa como metodologia de ensino e de aprendizagem. Um dos participantes chega a mencionar que deveria haver “disciplinas de pesquisa” em todos os semestres do curso, ou seja, a pesquisa, para esse participante, é uma disciplina em si, e não uma maneira de aprender e de ensinar. PROPOSIÇÕES Com base nos resultados emergentes da interpretação dos dados coletados nos questionários aplicados, sugerimos que algumas ações sejam colocadas em prática. Essas ações são mencionadas a seguir. • Realização de estudos mais aprofundados com o objetivo de se conhecer melhor a percepção não só os alunos, mas também os professores, dos cursos de Pedagogia da PUCRS sobre a relevância da pesquisa.

Realizar um trabalho no sentido de familiarizar professores e alunos dos cursos de

Pedagogia com a concepção de pesquisa como instrumento de produção de novos conhecimentos, tanto teóricos quanto práticos, na carreira docente. • Propor projetos que utilizem a pesquisa como metodologia de trabalho na universidade, com o objetivo de familiarizar os futuros professores com a abordagem didática e educativa realizada através da pesquisa. CONSIDERAÇÕES FINAIS O presente estudo, realizado com alunos formandos em Pedagogia - Séries Iniciais da PUCRS, lança um questionamento com o objetivo de levantar dados preliminares sobre o conhecimento desses alunos sobre a proposta da pesquisa como princípio didático e educativo, como é proposto por Demo (DEMO, 1997). Esse trabalho também pode servir como um estudo inicial para a formulação futura de políticas educacionais e curriculares que consolidem e incentivem a idéia da pesquisa como um jeito de ser profissional para os futuros professores da educação básica. Esta pequena pesquisa pode ser aprofundada com a realização de outras práticas investigativas, como, por exemplo, entrevistas com professores e alunos que atuam no referido curso de graduação, para se ter uma visão bilateral e ainda mais acurada desse assunto. Propomos, portanto, que se continue essa investigação no sentido de se aperfeiçoar continuamente a formação dos futuros professores, para prepará-los e instrumentalizá-los cada vez melhor para a grande missão que é educar os cidadãos das próximas gerações. Segundo o Relatório Delors para a Educação do Século XXI, um dos papéis primordiais reservados à educação neste século consiste em dotar a humanidade da capacidade de gerenciar seu próprio desenvolvimento, fazendo com que cada pessoa assuma a responsabilidade por seu próprio destino e, dessa maneira, contribua para o progresso da sociedade em que vive (DELORS, 2000). Para que cada ser humano atinja este ambicioso objetivo, é necessário que lhes sejam dadas as condições para que se torne progressivamente mais autônomo, ou seja, que ele possua liberdade e responsabilidade em todos os aspectos de sua vida, do pessoal ao intelectual. Não se constrói autonomia reproduzindo o que já foi feito. As pessoas tornam-se autônomas refletindo, reelaborando, adaptando, criando, inventando. A melhor proposta para o enfrentamento e a superação dos desafios que se impõe neste século é compreendê-los, e, a partir dessa compreensão, buscar soluções para nossos problemas. Acreditamos também que é papel da educação levar cada pessoa à consciência de sua responsabilidade nesse processo, e equipar cada estudante com as ferramentas de que ele necessita para desenvolver suas habilidades e capacidades para atuar nessa realidade.

Acreditamos que a pesquisa pode se constituir numa via eficiente para a educação necessária ao novo século. Pesquisa, neste contexto, define-se como, em primeiro lugar, uma atitude alerta, a capacidade de não aceitar tudo pronto, sem questionamento. Em segundo lugar, pesquisar significa buscar informações ativamente, para sobre elas refletir e se posicionar, numa constante apropriação e reformulação do conhecimento que já existe. Em terceiro lugar, pesquisar significa re-elaborar, reformular, adaptar, recriar. Significa criar novas maneiras de estar no mundo e compreendê-lo. Significa reinventar-se e transformar a realidade. Essa proposta de pesquisa deve ser tornada real na escola, em todos os seus níveis. Os alunos devem se envolver – individual e coletivamente – em investigar, descobrir e criar, em vez de simplesmente sentar e ouvir. A escola deve se tornar uma comunidade de aprendizagem, “espaço coletivo de trabalho, em que todos, professor e alunos, são considerados parceiros de pesquisa” (GALIAZZI, 2000, p. 90). Para viabilizar essa proposta, o professor deve ser, antes de tudo, um problematizador, um lançador de desafios, um causador de inquietude nos jovens corações e mentes. Fazer pesquisa em sala de aula exige que o professor saiba estimular nos alunos a atitude crítica e investigativa necessária para que eles queiram buscar ativamente as informações de que necessitam para compreender a realidade. É papel dos cursos de formação preparar esse professor, não através de aulas expositivas e leituras, mas através da própria pesquisa. É papel da universidade levar os futuros professores a vivenciar a experiência gratificante de ser co-autor de suas teorias e de sua prática, de se apropriar ativamente do conhecimento, e de re-elaborar o que já se sabe sobre a vida e o mundo, numa jornada de descoberta e criação que ele poderá, mais tarde, revelar para seus alunos. Acreditamos que é desse modo que poderíamos tornar real o ideal proposto pelos membros da comissão da Unesco para a educação dos novos tempos: “uma nova concepção alargada de educação deveria fazer com que todos pudessem descobrir, reanimar e fortalecer o seu potencial criativo – revelar o tesouro escondido em cada um de nós” (DELORS, 2000, p. 78).

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