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SCIENTIFIC AMERICAN menteo cerebro psicologia | psicandlise | neurociéncia ANSIEDADE LRRRRRED. O transtorno As novas teorias - psiquiatrico mais da CONSCIENCIA comum do mundo : aparece em forma ALUCINOGENOS de fobias, angustia, usados como remédio para doencas mentais falta de ar e até dores fisicas. A boa noticia Uma historia ilustrada é que ha tratamentos do CEREBRO além da medica¢ao Percalcos e prazeres da travessia je escrevo em verde e vermelho. if I { peutas ou experts em matizes e fio sei o que diriam os cromotera mitica, mas para mim, sio cores de alegria ruances de uma festa intima, que me pro y ponho parilhar, Nada contra outras coves ~ essas duas so as minhas preferidas. Poderia até pensar na bandeira dos pa'ses de onde vieram meus bisavés, Itélia e Portugal, mas ma variedade delas e até mesmo seu receio que lembrancas de enfeites de Natal, flores escarlates entre flhagens, um vestido fem tom cereja e talvez um mar de esmeral vero antigo me digam mais & Voltando a fes | da visto num E alma, Pura associacao livre ta, esta edicao marca os dez anos de Mente e Cérebro, ¢ 6 com grande satisfacao que nés, aqui da redacao, dividimos este momento com leitores e colaboradores que, ao longo de uma década, participam da proposta de divulgar informacoes cientificas sobre o uni verso “psi” de forma acessivel e ao mesmo tempo criteriosa. E trabalho duro, cla também tem algo de sonho e desejo que a cada més se concretiza em forma de solu- GBRS gréficas, imagens e palavras. Ecomo aquela frase de Guimaraes Rosa: MDigo: o real nao esté na saida nem na che- gada, ele se dispoe para a gente é no meio da travessia”. O percurso de Mente e Cére- Fo é bem assim. A cada edicao partimos Baa 2 bazazem do que ja fi experimentado a ela para no perder de vista o novo ‘qual invariavelmente se apresenta. Lemos, ( quisamos, aparamos arestas, encontram caminhos. E a cada edicao, quando a ta chega da grafica, descobrimos - sempre surpresos — que ela ndo est de fato pronta Periodicamente reaprendemos que é no en: contro com o leitor que ela ganha represen- tages e possibilidades, expande-se e esta belece didlogos miltiplos. Deixa de ser ape- nas papel e tinta, ganha representacbes. E nessa ansia de fazer-se, torna-se, de algum jeito, parte de outras mentes Este més, o tema da capa ¢ a ansiedade, considerado 0 transtorno psiquitrico mais frequente nos dias atuais. €, falando ainda em travessia, penso nesse quadro como uma espécie de percalco do caminho. O desconforto gémeo da angistia, frequente- expresso em sintomas fisicos nsia que causa dor, aflge 0 peito e torna © ar escasso, ~ tem como caracteristica © pensamento voltado para o futuro, sem a possibilidade de viver o “real” do presente. Ansiedade acorda em nés a sensacéo de que nos ronda algo muito ruim, inescrutavel como um mundo sem cores. E nos rouba o sortilégio de saber que nada esté pronto, a vida esta em movimento, construindo-se 0 tempo todo. Felizmente ha saldas. Feliz aniversario para todos nés. Boa leitura, GLAUCIA LEAL, editora glaucialeal@duettoeditorial.com.br & sumario | outubro 2014 © 18 Aminima diferenca por Maria Rita Keht Os icones de feminilidade tém se modificado e as diferencas entre os sexos, se diluido, mas permane impasses sobre sexualidade, amor e desejo 38 Medo e moderidade liquida por Zygmunt Bauman Durante a maior parte de nossa vida estamos submetidos a algum sofrimento e tememos a dor, liberda segurana sio—e sempre serio - inconeiliéveis 50 Sim, tempo ¢ dinheiro por Philip Zimbardo, Nick Clements e Umbelina Rego Leite Estudo realizado em seis palses, incluindo Br: mostra o que pessoas de diversas nacionalidades levam em conta na hora de comprare investir e quanto a nocao de temporalidade influencia essas decisdes 4 Ae capa 24 Ansiedade por Fernanda Teixeira Ribeiro (© quadro, bastante frequente, pode causar problemas fisicos e psiquicos, a ponto de comprometer a vida afetiva e profissional. Meditacao, acupuntura, psicoterapiae alteragdes no estilo de vida S40 fundamentais para combater o problema 32 Mais neur6nios, mais equilibrio por Mazen A. Kheirbek e René Hen (© aumento da producdo de células cerebrais pode ajudaracriare a far novas memérias, contibuindo para revere sintomas de pico, estresse pds traumdticoe outros transtomnos de ansiedade 56 Que coisa feia! por Susanne Rytina Numa sociedade em que as queixas em relacio & aparéncia e a busca pela perfeicdo do corpo e pele so tdo frequentes, algumas pessoas supervalorizam as prOprias “falhas” fisicas, -onsiderarem deformadas a ponto de 62 Uma historia ilustrada do cérebro por Isabelle Bareither Século apds século, cientistas avar as pesquisas tentando e7 complexidade neurolégica 70 As novas teorias da consciéncia por Christof Koch Neurocientistas trabalham com a hipétese de que essa capacidade fundamental surja no momento em que a macio ¢ transmitida pelo cérebro secdoes 3 CARTA DA EDITORA 6 8 ASSOCIACAO LIVRE Notas sobre atualidades, psicologia e psicandlise 11 NAREDE O que ha para por Glaucia Leal 44/76 NEUROCIRCUITO Novidades nas areas de Psicologia e neurociéncia 78 uvRO por Glaucia Leal 80 LANCAMEN” colunas 14 PSICANAUSE por Christian Ingo Lenz Dunker 16 CUIDE-sE! por Suzana Herculano-Houzel 82 UMIAR oF Sidarta Ribeiro DIGAO SAO DE RESPONSABILIDADE DOS AUTORES € NAO EXPRESSAM NECE nas bancas ENIGMAS DA CONSCIENCIA Pensar sobre a consciéncia nos aproxima de um dos ‘maiores mistérios da existencia, A exper ciente é ao mesmo tempo extremamente profundamente estranha. Na maior parte do tempo temos consciéncia denés mesmos, domundo ao redor mas é muito dificil concilia esse saber com todos os ‘nossos outros conhecimentos. “Essa questio ocupa hoje urn lugar privilegiado porque a biclogia em geral, ‘eaneurociéncia em particular, alcancaram notavel éxito ‘em decifrar segredos da vida”, escreve o neurocientista ‘Antonio Damasio, chefe do departamento deneurologia, dda Faculdade de Medicina da Universidade de lowa, em um dos artigos que fazem parte do Especial Mente e Cérebro Consciéncia, “Elucidar a base neurobioldgica da ‘mente consciente, versio do cléssico problema-alma, tomou-se quase que um desafio residual’, firma o autor de O erro de Descartes, Em busca de Espinosa e O mistério da consciéncia, publicados no Brasil pla Companhia das Letras. Além dele, nessa edica0 outros especialistas discutem o tema tio enigmatico quanto fascinante. no site A ORIGEM DO CARISMA Do grego khatisma, “dom da graca, a palavra carisma encerra varios significados: poder de fazer milagres, habilidade de profetizar e de ir fluenciar 0s outros. O psicélogo social Alexander Haslam, da Universidade de Exeter, na Inglat concentra-se nessa ultima definicao no artigo publicado no site de Mente e Cérebro, Escritos de milhares anos j carismae capacidade de lideranca. Sécrates chegou a dizer que ¢ uma q inata e que apenas “um irrisério numero de pes. soas” é capaz de cativar seguidores e comandat. Descobertas recentes, porém, questionam 0 cardter inato do carisma~0 mais provavel é que | resulte de uma cuidadosa elaboracao. “Todos podem aprender a cultivar © proprio carisma, = Basta entender como os grupos pensam', afirma Haslam. Leia em ww ‘0 brilho do carisma ualidade www.mentecerebro.com.br NOTICIAS Notas sobre fats relevant nas eas de psico AGENDA Programago de cursos, congressose eventos (MENTEA OPINIAO DOS EDITORES. 5 _& palavra do leitor O MOMENTO “AHA!” © artigo “S passos para ter uma grande ideia ins desconhecidas, a ciéncia ja ¢ capaz de compreen spiracao" de ori impressionada ao saber q mente de pessoas que pensam com originalidade e também de mapear as etapas de evolu: 1080 saber que esta a0 alcance das pessoas comuns reconhecer ‘do do insight, Foi marav @ aprimorar as boas ideias que surgem no dia a dia! SOBRE CRIANCAS Fico contente quando Mente e Cérebro publica textos sobre o funcionamento mental de criancas. Na edicio 260 goste especialmente das novidades apresentadas em “Do que as criancas se lembram”. Aproveito para sugerir que seja um especial sobre desenvolvimento infantil, pois te certeza de que a fei vista teria muito a contribuir para a nento tanto de profissionais quanto de leigos interessados no assunto. Alids, seria timo se ampliagio do conheci assem a maravilhosa série "A mente do bel Campinas, SP CARAS 6 | onentectratno Vet capa da Mente e Cérebro de setembro, me ajudou a enxergar a criatividade de outra forma, muito além do senso comum de que ela é uma rita a uns poucos privilegiados. Fiquei realmente der o que hd de “diferente” na Luiza Cardoso - Sao Paulo, SP COMPETICAO POR BOLSAS Pensei sobre o tema [coluna Que Christian Dunker, da edi 260, sobre a cultura universitéria avolia os avaliadores, de que prioriza quantidade & qualidade das produgbes académi cas] dias desses. Estou sendo obrigado a fazer o Exarme Nacio- nal de Desempenho de Estudantes (Enade). Entupiram-me de orientacées e esclarecimentos a respeito da importancia dessa avaliacdo. Mas fiquei me questio opinido sobre a minha propria formagao? Ninguém quer saber, apenas sivo para fazer provas. Eternamente testado. Carlos Barroso ~ via Facebook indo: € a minha CEREBRO EM MOVIMENTO Comprei os especials Cérebro em movimento 1 ¢ 2. Como terapeuta cocupacional, vejo na pritica as rela es entre corpo e mente, muito bem exploradas pelas edicdes. Otimos au es, linguagem clara e temas muito bem escolhidos. Parabéns! Goidnia, CO Geni Gongalves TENTATIVA E ERRO 1 Estou tentando aprender balé. As me sinto desajeitada, mas esse estudo [sobre o texto “Movimentos desajeitados fazem aprender mais ré pido”, Mente e Cérebro n° 260] me fez refletir sobre necessidade de dedicaca0 einsisténcia. Otimo texto! Dolores Ribeiro — via Facebook TENTATIVA Muito pode ser 0 primeiro pa aperfeicoamento. ERRO 2 jeressante! A falta de jeito para o Danielle Linhares ~ via Facebook ‘TEATRO E UTOPIA Realmente, a peca A histéria ‘munismo contada aos doentes me [divulgada na seco Associagto Livre da edicao 260] tem tudo a ver com 0 momento da humanidade: descrencae desconfianca das ideologias reinantes. Teresa Gonzaga Venancio ~ via Facebook ‘AMAMENTACAO E SAUDE Mais um motivo para fortalecer essa pré tia, que ndo é substtuvel por nenhurn avango tecnolégico!sobrea noticia "Ama 1 previne depressio pés-parto”, publicada no site da Mente e Cérebro) Ewerton Rocha ~via Facebook CONCURSO CULTURAL: ESCREVA E GANHE UM LIVRO! ey artigos desta edicdo para o e-mail Deere reece an ee eeu us aes Ae eet es ‘arias recebidas. A premiada deste rake a ra PARTICIPE DE NOSSAS REDES SOCIAIS EB /mentecerebro cS /mentecerebro FALE CONOSCO Duetio CENTRAL DE ATENDIMENTO AO ASSINANTE wovassinajacom/atendimento/ Segmento/Faleconosco/ S80 Paulo Rio de Janeiro 6 NOVAS ASSINATURAS \orwlojasegmento.com.br rela Central de Atendimento ao Assinant NUMEROS ATRASADOS 4 ‘encimertioisesitosegmontecon. oe rooiasegmentacom br PUBLICIDADE Imilene.ceditorasegmentacombr REDACAO redacaomec@editorasegmento.com.br MARKETING ‘carolina aecttorasegmento.com br NOSSAS PUBLICACOES caents Ver e sentir coisas que nao existem Awe: Jo das imagens das obras da 31° Bienal In {ernacional de Arte de Sao Paulo, a tradicional mostra contemporanea que ocupa um dos pavilhoes do Parque p crucificagaoe mo A relacio entre s mostra, Outro trabalhi 4. associacéo livre 420 longo de quase dez anos documentam a complexidade desse constante processo de transformacao corporal e esp: ritual anos depois de assumir a relgizo evangélica,o pastor tem uma *tecaida’ no candombl, decidindo, assim, assumir as duas identidades. O espectador é desafiado a configurar formas de ser eestar inexistentes em urna sociedade binarista, que exige que sejamos uma coisa ou outra ‘A maioria dos paises latino-americanos continua a tratar © aborto como uma questo moral ou religiosa,e nao como um problema de satide pilbica. Legislagdes defasadas for cam mihares de mulheres a buscar interrupges de gravidez clandestinas, que nao raro devaam profundas marcas fisicas © emocionais, & instalaczo Espaco para abortar, do coletivo ‘MINHA BOCA FECHADA, meu iter abet", testo no alto da Instalgdo Expago por aborar, do cletvo Mujeres Ceando (aca). ‘lade, pba iterage com a obra no pave do Ibrapuera, boliviano Mujeres Creando, é um dos destaques da bienal Numa espécie de representacao do corpo feminino exposto a agressbeseintervences da urna cultura machista, um véu com 8 inscriglo titero fica a disposigao dos vsitantes, que podem entrar e sair a vontade. “As coisas que nao existern” so as ferramentas necessétias para modificar formas de pensar que eis. Como preencher as reticéncias nesse parecem insupe ‘caso? “Lutar por” e “aprender com” sdo algumas reflexdes. 4. associacao livre ao longo de quase dez anos documentam a complexidade desse constante processo de transformacio corporal eespi ritual anos depois de assumir a relgiio evangélica,o pastor tem uma *tecaida’ no candombl, decidindo, assim, assumir as duas identidades. O espectador é desafiado a configurar formas de sere estarinexistentes em uma sociedade barista, que exige que sejamos uma coisa ou outra ‘A maioria dos pafseslatino-americanos continua a tratar © aborto como uma questo moral ou religiosa, ¢ nao como um problema de satide piiblica. Legislacées defasadas for am milhares de mulheres a buscar interrupgdes de gravidez clandestinas, que nao raro deixam profundas marcas fisicas. © emocionais. A instalagzo Espago para abortar, do coletivo 1 PraIeTaLr “MINHA BOCA FECHADA, meu iter aero texto no ato da instalacao Espego para abortar, do coltvo Mujeres Ceando (aia). ‘ola, pica interage com a obra no paviho d Ibapuera boliviano Mujeres Creando, & Numa espécie de representacao do corpo feminino exposto a agressdes intervengdes da uma cultura machista, um véu com a inscrgio titero fica & disposigao dos vsitantes, que podem entrar e sair a vontade. “As coisas que nao existern” so as m dos destaques da bienal ferramentas necessérias para modificar formas de pensar que parecer insuperéveis. Como preencher as retcéncias nesse caso? "Lutar por” e “aprender com” so algumas reflexdes. Come. (entrada te 214) associacao livre Dona Maria, “a Louca’, protagoniza mondlogo stamos fugindo”, disse a mae de mo Maria, a Louca (1734-1816). Retratada audiovisual tia poss realidade, é um dos aspectos A comunicacao silenciosa entre pai e filha ‘ubmetido a uma traqueostomia, o pai da atriz Janaina Leite, uma das cri Grupo XIX de iadoras do premiado tro, perdeu a fala. Comecou a se a filha, ent, apenas por bilhetes ‘Anos depois, ela descobre que doenga de generativa e esta perdendo a audicao. Uma caixa com (0s papeis papéis acumnulados sete anos, um total de cerca d 60horas de video com cenas dos do a0 mondlogo-perfomance Conversa temporada no Rio de Janeiro. ‘A reaproximacdo e quando ele ndo podia m: e meu pai eeu sd falar ‘mos as conversas que nunca tinham: Janaina sobre o pai, morto em 2011. “Passei a reco ther, ainda sem saber para que fim, esse: resduos das tardes que passavamos juntos, sentados numa mesa dear, ouvindo um disco na vitola. Havia 0 didlogos e havia os siléncios.” O cendrio ¢ propo sitaln te entulhado com papéis, méveis antigos e a, res{duos de outro tempo. i o que ha para ver e ler O artista que fotografa pesadelos icolas Bruno, de 21 anos, softe de paralisia do sono ferdmeno raro em que a pessoa percebe que acordou de um sonho, mas nao consegue se mexer ou falar. Chega a durar até dez minutos. A sensacdo de clausura pode vir acompanhada da invas3o de imagens oniricas, que se mes: clam aconsciéncia, Pessoas que experimentam o fendmeno, ocasionalmente ou com frequéncia, costumam relatara visio de objetos ou seres estranhos mesclados a paisagem real — do quarto de dormir. A situagdo é explcada pela medicina do Sono como uma interseccio entre viglia € sono REM (estdgio em que ocorrem os sonhos). “Figuras humanas sem rosto e com maos de sombra abracavam meu corpo, eu sentia que era real, mas a0 mesmo estava imobilizado”, diz Bruno, que encontrou na fotografia um meio de superar as aterrorizantes alucinagdes. Retratando-se trancado em bauis ‘ou usando mascaras de gas, lanteras e chapéu-coco, entre \VITIMA DE PARALISIA DO SONO, Nicolas Bruno recia em imagens sureaistas as alucinagbes que sofe quando eta acordado mas n80 consegue se mexer outros elementos, ele recria os cendrios surrealistas de suas visdes. O projeto completo, definido por Bruno como uma hhomenagem agridoce” aos seus pesadelos, esté disponivel em seu site oficial: wwnunicolasbrunophotography.com Ill CONGRESSO BRASILEIRO DE TERAPIA COGNITIVA DA INFANCIA E ADOLESCENCIA www.concriad.com. br Internacionais Confirmados 6a 8 de Novembro de 2014 Curitiba / PR letege Tou) Wines e ac) fee Roa ccee]|6 2013 Netesceoss| 1 ee ae te ale) Neveonietcad eal cy ~ Principais transtomo: na infancia e adolescéncia Bee cero eve tae >= cinema \ioterre le Devos Sandrine Kbeain Uma mulher em busca de ar EMM DEVO RPRETA A ESCR SIMONE DE BEAUVOIR, CORAJOSAMENTE E joderia ser um filme sobre o ro: mance (apenas insinuado) entre duas mulheres. Ou a historia de uma escritora que, apesar de todos 08 percalcos e dificuldades, insiste no sonho de viver da literatura que produz. Ou ainda a biografia de uma mulher solitria que, com sua nar rativa contundente, corajosamente escancarou ~ de forma incomoda, a ponto de ser censurada em sua época ~ aspectos da sexualidade fe minina. E certamente Violette, filme de Martin Provost, tem todos esses aspectos. Mas no sé. O recorte da vida da francesa Violette Leduc, interpretada por Emmanuelle Devos, apresenta a histéria de uma mulher atormentada pela rejeigo e pelos maus-tratos sofridos na infancia, € por meio da escrita que, a0 longo dos anos, ela desenvolve a possibilidade de cuidar-se amorosamente. Esse trajeto em direcio a simesma é sustentado de variadas afetiva, intelectual e material ~ pela escritora fe Beauvoir, vivida pela atriz Sandrine Kiberlain, Simo Ao contrario do que algumas sinopses do filme possam sugerir, desde que as duas personagens se encontram, em Paris, no fim da Segunda Guerra, o que se configura nao é exatamente uma relagio de paixao ou desejo— pelo menos T2 mentee tt 201 O titulo de seu primeiro livro, L’asphyxie, de 1946, nao publicado no Brasil, é uma metafora da falta de nutricéo afetiva e investimento libidinal na infancia; de certa forma, Simone desempenha o papel da figura materna que a alimenta com olhar e incentivo por Glaucia Le no no sentido mais comum desse termos. E como se cada uma da escritoras se apaixonasse por at pectos proprios, pouco elaboradar mas que reconhecem mutuament Sao, porém, sentimentos truncadat atravessados por caréncias e um dose de desconforto. Surgem entr elas certa dependéncia e rivalidade permeadas pela atracao. E ur ei (as vezes negligente ou invasivo de cuidar uma da outra. Prevaleo algo de maternal e continuament frustrante. O vinculo ~ dificil de se niominado — se constitui no confl to: em alguns momentos as di mulheres parecem completament ma fa distantes eem outros prevalecemas projecdes qu sobre aoutra. A solusio, talvez osintoma, sea jus a relacio entre elas. amet De um lado, Violette se sente feia, desinteressante, fa cassada. Anseia ser vista, amada, desejada. Nascida emi de abril de 1907, filha de uma empregada doméstica e de tum homem casado que manteve por varios anos um rel cionamento com sua mie, sem nunca assumir a mening ela lamenta profundamente nao ter recebido mais cariahe dda mae na infancia. Sentindo-se tao desprotegida, a mer ideia de um dia vira ter um filho “que seria to infeliz quanto psicanalise inconsciente a céu aberto Na&o mais do que 30 horas JALMENTE TRAMITA NO CONGRESSO UM M CARGA HORARIA DO PSICOLOGO JADA MAIS NECESSARIO SR4 Lge, ae ont I Mites stuns: vias de comer sua pratica clinica, perguntam-se sobre os ossos deste oficio, Receber uma pessoa, acolher aquela forma de vida como unica, entrar em sua linguagem propria, seguir suas razdes de ser e de nio ser, acolher seu sofrimento. Dizer algo diante do impossivel, calar-se diante de tantos possiveis. Final: mente, colocar algo a mais e tirar algo que esté demais desta combinacao contingente entre comédia, drama tragédia, E depois de tudo ..outro paciente. Somos feitos de carne, mas temos que viver como se fossemos de fero, dizia Freud. A pergunta aqui & que até mesmo o ferro tem uma densidade, uma resiliéncia e uma elasticidade limitada, Depois disso ele quebra ‘Quando me perguntam como um psicanalista aguenta fazer isso cito ou dez horas por dia, eu costumno responder: jamais conseguiria em meus primeiros, digamos assim, dez anos de clinica. E nunca conseguiria se nao fizesse também alguma outra coisa da vida. Ligar, desligare religar, distancia, proximidade e corte. Tudo isso 20 mesmo tempo e separa do, Manter alguma reserva, queimar todas as reservas, até aquelas que vocé desconhecia possuir Pode ser que naquele dia nada acontega, mas na outra manha vem um desencon. tro, um suspiro fora de hora, uma lembranca inofensiva de um paciente, ¢ isso quebra em cheio uma destas quinas insuspeitas de nossa alma. E ai dé E quando parar de doer aposente-se. A diferenga entre um clinco experiente e um iniciante & que o primeiro recupera-se mais rapido. Como dizia Hege!: ‘0 esplrito & 0 asso 14 A mene oututre 2014 CHRISTIAN INGO: LENZ DUNKER >ROJETO DE LE! QUE Mal very it Atualmente tramita no congresso um projeto de le (PL-338;08) que limita o trabalho do psicélogo ao méxim de 30 horas, Nada mais justo, nada mais necessério. Ate aqui o sistema tem sido desleal com psicdlogos, e com ‘outros profissionais de satide que trabalham emprestandg} sua pessoa, suas palavras ou seu juizo mais intimo, ent atengao e cuidado aos outros. Sabernos que um dos tracos tipicos do sofrimento sob a forma de vida neo-liberal é@ exploracao do tempo e do empeno, fora de hora e fore de contrato, e ainda assim “livremente". Quem trabalha por projeto ou por ficha entregue, sempre tera a tentagéo de dar algo a mais de si, para fechar 0 més. Do outro lado, quem paga por servico, sempre estard inclinado a pagat um pouco menos por um pouco mais. A expresso “ossos do oficio” ver da antiga pratica de quebrar ossos, extrairthes o tutano, que possui proprie dades alvejantes, e com isso embranquecer 0 papel sobre 0 qual se pode escrever. € isso toma tempo. Tempo nio suprimivel e nem incurtavel do processo. Tempo de cura do préprio clinico e de prevencao dos efeitos iatrogénicos de sua pratica. Tempo de andlise, de supervisao e de ree nalise. Tempo no qual temios que escrever e pensar sobre rnossos préprios ossos quebrados pela clinica, para quea pagina em branco reapareca uma vez mais. ~ CHRISTIAN INGO LENZ DUNKER, psicanalista, professor ive docente do Instituto de Psicologia da Universidade de Sto Paulo (USP) Um clique para o mundo do conhecimento. Acesse o site da Loja Segmento e tenha em suas maos as melhores revistas sobre os mais variados assuntos, além de livros, DVDs, CD-ROMs e cursos. Tudo isso com informagao de qualidade para voce ficar sempre atualizado em um mundo que muda cada vez mais rapido. <> (BBlsegmento — wwmojasegmento.com.br ‘w cuide-se! Vocé e seu microbioma t SUZANA A MICROBIOTA INTESTINAL £ CAPAZ DE MODIFICAR O HERCULANO-HOUZEL FUNCIONAMENTO DO SEU CEREBRO, AINDA QUE ESTE FIQUE PROTEGIDO EM UM AMBIENTE PRIVILEGIADO, SEM BACTERIAS ostamos de pensar que somos individuos Jdefinidos por nosso genoma primata indivi dual, que da origem a um corpo personalizado pela histéria de vida de cada um. Este conceito, contudo, estd mudando, Para a biologia moderna, vocé é 0 produto do seu genoma, sim ~s6 que acrescido de mais tantos outros genomas de todas as bactérias e fungos que vivem em simbiose com vocé em seu corpo. E mais: quais bactérias vocé abriga em seu corpo podem inclusive influenciar ‘a maneira como seu cérebro funciona © conceito de micrébios simbicticos jd era nosso. conhecido: vacas e outros animais ruminantes, por exemplo, obtém energia suficiente comendo apenas folhas gracas a presenca de bactérias em seuestomago que digerem NOVOS REALCAM AS fstimue DIFERENGAS EM EXPERIENCIAS sensors Neurnios novos podem poise a separagao de Aereade padre ao cndfcarem novas informagaes melhor due as clus mais antgas, mas 0 autores preform uma visio diferente: aps o estima do mundo exterior ativar clas cerebais ovens © mmaduras as ovens induzem neurdnioeinibroe {a reprimi grande pare daatividade do giro dertzado(sombreamenta lve. Ese eft raga Neurons maduros (rd) @ Newsrios jovens 2) @ Newcvios initio reo) Ssida do gro dented Ja 0 dtahesdistinvos de ambos a uma experi Percepeto nov (vemelho) ea ua ecordaeo de experinla de extimulos Semelhante mare, que pode ser mas agi. novos | — Meméria de | Estimulos sum estima |! sensors semelhante | parao giro semen Nuri senciado ! SEM NEURONIOS NOVOS, » REINA A CONFUSAO Segundo a hipétese do autora auséncia de weepetodeuma __‘eunios novos elimina os efeitos inbitéios eoacociazat das clus no giro danteado. Assim, mals Semescincom, clas daparam em resposta a novos registros icnbrangss ‘as memrias que evocams. Em consequéncia, dopmsnde as repesentages neuas ds acontecimentos ™ ‘podem se sobrepor exageradarente, provocando assim ~ de modo inadequado —2 pecepeto de mitra dos dois acontecmetoe 34 mentee taba 204 nosso comportamento ~ por exemplo, nos per- colocado nesse recinto, ele mit irem direcao ao local onde lembramos ter _congela de medo. Depois, para testar a ca pacidade de os roedores se DATA DE NASCIMENTO. envolverem na separagao de Nés dois decidimos explorar o papel que os _padrdo, nés os colocamos rneurénios novos exercem em distinguirmemé- em uma caixa muito seme. Animais sem novas células cerebrais ficam mais ariscos t e ansiosos quando y ‘ estacionado o carro. colocados em locais que evocam experiéncias desagradaveis rias, em parte, porque se sabe que essas células _Ihante a primeira, mas ndo novatas surgem exatamente nessa fatia, Dentro exatamente a mesma. Se a dessa parte do hipocampo, as células-tronco _“caixado choque” era quadra- reurais ~células parentais que produzem novos neurénios ~ estao concentradas em uma fina camada de células chamada zona subgranular, Depois, neurdnios recém-nascidos migram desse bercério neural para outras partes do giro denteado onde se integram a circuitos jd existen: tes. Em camundongos, as novas células podem ser responsdveis por até 1096 dos neurénios no girodenteado, Um estudo recente usando uma forma de datacao por carbono para estimar ‘datas de nascimento” das células cerebrais mostrou que nés, humanos, continuamos a produzir neurdnios novos no hipocampo em ma proporco constante até a idade avancada, adicionando cerca de 1.400 todos os dias Para testar se neurénios novos participam da separacao de padrdo, comecamos a estudar a questo em camundongos em 2009. De ini Cio, eliminamos neur6nios jovens ¢ imaturos bloqueando a neurogénese ou reforcando sua quantidade pela sobrevivéncia celular. Entao, questionamos se essas manipulagdes afetaram a capacidade dos animais testados de diferen- ciar situagoes semelhantes, Como muitos pesquisadores do comporta mento, usamos um tipo de condicionamento desenvolvido pelo fisiologista russo Ivan Pavlov no inicio de 1900. Ele descobriu que, se tocasse uma campainha quando alimentava seus cies, (0 animais associavam 0 som at comida e co- vam a salivar ao ouvir 0 toque. Durante o Ultimo século, essa forma simples de aprendi: zado vem sendo amplamente explorada para testar a base neural da meméria Em nossas experiéncias, em vez de tocar um sino para anunciara oferta de alimentos, treina- mos camundongos a antecipar um choque leve no pé quando retirados da gaiola e colocados em uma caixa estranha, Apés algumas exposi es, um animal aprende a associar esse novo ambiente ao choque ~e, assim, cada vez que é dda com paredes prata,ilumi nagao azul echeiro de anis, a caiva sésia poderia tera mesma forma e cor, mas com aroma de banana ou limao, por exemplo. No inicio, os animais apresentavam medo. Mas, {quando nao ha choque iminente, logo aprendem a diferenciaras duas situages —ficavam imoveis, na caixa de choque, mas relaxados ao visitarem a versio ligeiramente diferente. Acreditamos que, se a produgao de novos neur6nios fosse fundamental para a separacao de padrio, eliminar a neurogénese no giro denteado de um animal dficutaria a distingao entre as duas situaces ~e foijustamente o que observamos. Animais sem neurBnios novos permaneciam excessivamente ariscos,reagindo assustados nos dois ambientes, mesmo apés repetidas viagens sem incidentes &caixa inofen siva. Sem a habilidade de realizar a separacaode padrio, os animais generalizavam 0 medo do local original ~ permitindo que a ansiedade os dominasse em qualquer lugar que lembrasse 0 local da experiéncia desagraddvel Em contraposicio, naexperiéncia, podemos aumentar a quantidade de neurdnios novos no giro denteado do camundongo eliminando um gene que, de outro modo, estimularia a morte de células jovens desnecessérias. Os roedores com 0 gito denteado fortalecido conseguem distinguir melhor caixa do choque de sua sosia, sentindo-se mais rapidamente confortaveis no local que se provou seguro. Essas observagdes confirmam que os neurénios recém-nascidos exercem papel na codificagao e na diferenciacio entre memarias relacionadas, mas distintas Outros laboratérios obtiveram resultados semelhantes, Cientistas liderados por Fred H. Gage, do Instituto Salk para Estudos Bioldgi 0s, ajudaram a instigara explosto de pesquisas sobre a neurogénese na década de 90, e por Timothy Bussey, da Universidade de Cambridge, 36 I mei: © HIPOCAMPO grava detahes do que vivemos para qu sea possivel Hentiiclos depois sgracas a esa capacidade, Podemae ditingur o local onde estaionamos carr hoje de manha ou por tocar aimager riz em umatela computadorizada. O laboratério de Bussey demonstrou ainda que o estimulo da rneurogénese melhora ode no teste de tou mpenhodos animais h-screen. lém disso, usando um protocolo de condicionamento semelhante 20 sgawa, do MIT, firmaram que camundongos sem neur6nios novos demonstram incapacidade que empregamos, Susumu Ton de distinguir entre seguranca e perigo. Estudos que examinam os efeitos da interrup do estimullo de geracao de céluas cerebrais no foram realizados em voluntarios humanos, mas, se a neurogenese fo: ¢ importante para a separacdo de padrao em pessoas, esperariamos descobrir que as interrupgdes no processo esta riam vinculadas aalguma perturbaczo detectével na atividade do giro denteado, onde neurénios novos nascem e per ligacao foi observ sondncia magnética funcional para monitorar a atividade r ianecem. Na verdade, essa fa em humanos. Usando res ural, Michael Yassa, da Universid Craig Stark, da Universidade da California em Irvine, demonstraram que pessoas Johns Hopkin {que apresentam diminuicgao da capacidade de di ferenciar entreitens semelhantes exibem atv elevada no giro dent hiperatividade, em vez d ircontrao bom senso, nav Se cada situagdo evocou estimulo gene 100 e nenhuma seria distinta, Ao ¢ eado a tet subconjunt 0 © 0 seguinte do selet se sobrepdem. Assit de hoje dispara atividade em, i ronios entre 100 no giro den ontem disparou junto Comecamos a especul podem promover a separagao de padrao fi a atividade geral de células recém-nascid interagir preferencialmente com neur bitérios. Qui estimuladas, elas amortecem a atividade ‘outros neurénios no giro denteado.E e do giro denteado 6 confirmada er c camundor is aneurog nada, Esses roedores sem neurénios neona demonstram atividade espontinea elevad ado, sugerindo que os neur sido responsaveis por manter de geral em operacao. Se 0 processo de nei fato envolvido na separ: humanos, a descoberta poderia contribuir esclarecer a causa dos de, como o TEPT. Psicélog peitavam que uma generalizacai contribulsse para os transt ‘marcados por uma resposta de mi da, por vezes, incapacitante, mes © ambiente imediata generalizacao inadequada p deria ser 0 resultado de uma diminuicao « capacidade de distinguir um trauma passadoc uma situago indcua que cor semelhangas com o evento traum exemplo, um piquenique interrompido p barulho inesperado. Peso normal de separacio de om a explosio repentina, m B> vida contemporanea Medo e modernidade liquida DURANTE A MA TEMPO TODO AMEACAS Bauman ' arece que medo.e modemidade sao irmaos gémec i até siameses, de um tipo que nenhum cirurgido, a i dda que habil e equipado com a tltima palavra e tecnologia, poderia separar sem colocar em ris a sobrevivéncia de ambos. Existem, e sempre existiram e todas as épocas,trés razBes para ter medo, Uma delas era { _continuard a ser) a ignordncia: nao saber 0 que vai aconted em seguida, 0 quanto somos vulneraveis a infortnios, qu tipo de inforttinios seréo esses e de onde provém. A segund era (e continuard a ser) a impoténeia: suspeita-se que ni hha nada ou quase nada a fazer para evitar um infortunio a Jf se desviar dele, quando vier. A terceira era (e continuard ser) a humilhacao, um derivado das outras duas: a ame: ZYGMUNT BAUMAN ésacsog,pofserensrto _“PAVOFAnKe a nossa autoestima e autoconfanca quando 4 ‘ns unvriades de Vrini cLeads. Crider do __revela que no fizernos tudo que podera ser feito, que no sctotnopliedcreecrmar iam mt Prépriadesatengo aos sinais, nossaindevida procastinad Scere ner pe | egictfilal devant eee parte responsi ‘mcm, Cepieinmral~A prdedeseaiidade pela devastaco causada pelo infortunio, fear ee ge a Como ¢ totalmente improvavel que se venha a atingie "eprodaido com autorarto ds edtor edo autor. _conhecimento pleno do que esté por vie comoasferrame IFS fame oes, disponiveis para preveniressa chegada dificilmente podem ser consideradas seguras, certo grau de ignorancia e impoténcia tende a acompanhar os seres humanos em todos os seus ‘empreendimentos. Falando claramente, o medo veio para iar Os seres humanos sabem disso desde os tempos imemoriais. {visio do medo como perturbacao temporéria—a ser afastada ¥ do caminho e eliminada de uma vez por todas pelas tropas ‘avancadas da razlo —foi apenas um episddio singular, mais ou {menos curto, no segmento modemno da histria humana. Esse § episédio, como voc# observou, agora esta quase encerrado, Sigmund Freud escreveu em 1929, e ninguém o contra = disse seriamente desde entdo: “Somos feitos de modo a 56 podermos derivar prazer intenso do contraste, e muito F pouco de determinado estado de coisas”. Em O mal-estar 5 na civlizagao, ele citou a adverténcia de Goethe, de que sucessio de dias, ada é mais dificil de suportar que lindos”, em apoio a sua prépria opiniao, apenas com aligeira = ressalva de que isso talvez fosse "um exagero. Enquanto o ® sofrimento pode ser uma condicao duradouraeininterrupta, © a felicidade, esse “prazer intenso”, sé pode ser uma expert éncia momentanea, transit6ria — vivida num flash, quando o sofrimento é interrompido. “A infelicidade”, sugere Freud, ‘é muito menos dificil de experimentar.” ‘A maior parte do tempo, entdo, nds softemos, e 0 tempo todo tememos o soffimento que pode advir das ameagas per rmanentes pairando sobre nosso bem-estar. Ha trés direcoes das quais temiemos que o sofrimento advenha: do poder supe rior da natureza, da fagilidade de nossos corpos e dos outros seres humanos. Dado que acreditamos mais na possibilidade de reformare aperfeigoar as relacoes humanas que em subjugar a natureza e por fim afraqueza do corpo human, teros medo dainadequacao das regras que ajustam as relagBes mituas dos seres humanos na familia, no Estado e na sociedade. Sendo © sofrimento, ou o horror que ele provoca, um acessério per ‘manente da vida, no admira que o “processo da civilizacao” (essa longa e talvez intermindvel marcha em direcdo a um modo de ser e estar num mundo mais hospitaleiro e menos perigoso) se concentre em localizare bloquear essastrésfontes da infelcidade humana ‘A guerra declarada ao desconforto humano em todas as 39 EEE > vida contemporanea suas variedades é travada em trés frentes. En: {quanto muitas batalhas vitoriosas tém se dado nas duas primeiras frentes, e ur numero cres: Cente de forcas inimigas esteja sendo desarmado € posto fora de aco, na terceira linha de batalha © destino da guerra continua indefinido, e nao parece que as hostlidades irao chegar ao fim. Para libertar os seres humanos de seus medos, «a sociedade deve impor restrigdes a seus mem bros, enquanto, para continuar em sua busca da felicidade, homens e mulheres precisam rebelar-se contra essas restrigdes. A terceira das trés fontes do softimento humano no pode ser ‘liminada por decreto. A interface entre a busca da felicidade individual e as inelutaveis condi ‘gdes da vida em comum ser sempre umn local de conflito. Os impulsos instintivos dos seres humanos tendem a se chocar com asdemandas de uma civilizagao inclinada a enfrentar e vencer as causas do softimento human. Por esse motivo, a civilizacao, insiste Freud, 6 uma permuta: para ganhar alguma coisa dela ¢ seres humanos devem dar algo em troca Tanto o que se ganha quanto o que se dé muito valorizado e desejado; cada férmula de troca, portanto, nao passa de um acordo temporirio, produto de um compromisso jamais satisfatorio. para nenhum dos dois lados dese antagonismo sempre latente. A hostilidade terminaria se de sejos individuais e demandas sociais pudessem ser atendidos simultaneamente. as ndo é assim. A liberdade de agir de acordo com suas compulsoes, inclinagées, impulsos e desejos, bem como as restrigBes impostas a ela por motivos de seguranca, sio altamente necessérias para uma vida satisfatoria— na verdade, suportavel e sustentavel; seguranca sem liberdade equivale a escravidao, enquanto liberdade sem seguranca signficara caos, desorientacao, eterna incerteza ¢,em iltima instancia, incapacidade de agir ten. cdo.em vista um propésito. Liberdade e seguranca so e sempre serao mutuamente inconcilidveis. Tendo insinuado isso, Freud chegou a con: lusdo de que os desconfortos e aflcdes psico- logicos surgem sobretudo quando se cede muito da liberdade em troca de urna melhoria (parcial) da seguranca. A liberdade truncada e restrita € a principal baixa do “processo civilizador’, a maior e mais generalizada insatisfagao, endémi- 40 Nena Vou 204 ca em uma vida civilizada, Foi esse o veredicto pronunciado por Freud em 1929. Imagino se ele ‘emergiria intacto caso Freud 0 elaborasse hoj mais de oitenta anos depois. Duvido. Embora suas premissas se mantivessem (as demandas da vida civiljzada e também 0 equipamento instintivo humano, transmitido pela evolucao da espécie, tém permanecido fixos por muito tempo, e presume-se que sejam imunes aos ‘caprichos da hist6ria), 0 veredicto provavelmente seria invertido. Sim, Freud repetiria que a cvilizagao ¢ uma questo de permuta: vocé ganha alguma coisa, porém cede outra. Mas ele poderia ter situado as ralzes dos desconfortos psicologicos e dos descontentamentos que ele engendra no lado posto do espectro de valor. Poderia ter con. luido que, no periodo atual, a insatisfaczo dos seres humanos com a situagao geral provém sobretudo de ceder muita seguranca em troca de uma expansao sem precedentes dos dominios da liberdade. Freud escrevia em alemio. Para traduzir 0 significado do conceito que ele usou, Sicherheit, sido necessérias ts palavras: certeza, seguran cae protecao. A Sicherheit que em grande parte cedemos contém: a certeza sobre o que o futuro vai trazer e 08 efeitos (se é que havera algum) que nossas agdes irdo produzir; a seguranca em nossa posicio socialmente atribuida e em nossas tarefas existenciais; ea protecao contra 608 ataques a nossos corpos e suas extensoes, nossas posses. Abdicar da Sicherheit resulta nna Unsicherheit, condi¢ao que ndo se submete to facilmente a dissecacdo e a investigaca0 anatémica. As trés partes constituintes contr: buem para sofrimentos, ansiedades e medos, € € dificil apontar as verdadeiras causas do desconforto vivenciado, A ansiedade pode ser imputada 8 causa errada, circunstancia a que os politicos atuais em busca de apoio eleitoral podem recorrer, com frequéncia o fazem, em beneficio pré- prio ~ mesmo que nao necessariamente em proveito dos eleitores. Claro, eles preferem atribuir o sofrimento de seus eleitores a causas que podem combater, e ser vistos combatendo (como quando propaem endurecer a politica de imigracao ¢ de asilo ou a deportagao de estrangeiros indesejaveis), a admitir a verda deira origem da incerteza, que nunca tiveram a capacidade ou a disposigao de enfrentar nem uma esperanca realista de vencer: a instabilidade no emprego; @ flexibilidade dos mercados de trabalho; a ameaca de redundancia; a expectativa de reducao do orcamento familiar, um nivel incontrolavel de divida; uma renovada preocupagao com as garantias para a velhice; ou a fragilidade geral dos vinculos e parcerias humanos, Viver ne romanr ie NIN i { i em condigées de incerteza prolongada eem aparéncia incurdvel provoca duas sensagoes humilhantes: ignorancia (no saber 0 que o futuro trata) e impoténcia (ser incapaz de influenciarem seu curso). Elas sfo humilhan tes de verdade. Em nossa sociedade altamente individualizada, em que se presume que cada individuo seja responsavel por seu proprio destino na vida, essas condicoes implicam a inadequacae do softedor para tarefas que outras pessoas, mais exitosas, parecem desempenhar gragas & maior capacidade e a0 maior esforco. Inadequaco sugere inferioridade, e ser inferior, ser visto como tal, € um golpe doloroso contra a autoestima, a dignidade pessoal e a coragem da autoafirmacio. A depressao é agora adoenca psicolégica mais comum. Ela atormenta um numero crescente de pessoas que receberam a designacao coletiva de “precariado”, expresso cunhada a partir do conceito de “precariedade”, denotando a incerteza existential ma centena de anos atrés, a histéria humana era representada como um relato do progresso da liberdade. Isso implicava, como outros relatos populares, que a histéria fosse guiada na mesma e inalterada direcdo. As recentes reviravoltas na disposicao do publico sugerem outra coisa. O “progresso histérico” parece lembrar mais um péndulo que uma linha reta. No tempo em que Freud escrevia a queixa comum era um déficit de liberdade. ‘Seus contemporaneos estavam preparados para abrir mo de grande parte de sua seguranca em troca da retirada das restrigbes impostas a sua liberdade. E acabaram conseguindo isso. ‘Agora, porém, multiplica-se os sinais de que cada vez mais pessoas ndo se preocupariam tem abrir mao de uma parte de sua liberdade em troca de se emancipar do espectro assustador da inseguranga existencial. Estaremos teste~ ‘munhando outro giro do péndulo? Se isso esta acontecendo, que consequéncias pode produzir? (© medo ¢ parte da condicdo humana. Po- demos até eliminar, uma a uma, as ameacas causadoras do medo (Sigmund Freud definiu a ivilizagao como um arranjo das questoes hu- manas inclinado a fazer exatamente isso: limitar e por vezes eliminar as ameacas de danos cau- sadas pela aleatoriedade da natureza, pelas fra quezas do corpo e pela inimizade do proximo) Mas até agora nossa capacidade néo esta nem perto de eliminar a “mae de todos os medos”, 0 imedo dos medos”, aquele medo-mestre exala- do pela consciéncia de nossa mortalidade e da impossibilidade de escapar da morte. Podemos viver hoje numa “cultura do medo”, mas nosso conhecimento da inevitabilidade da morte €& a razao bisica de termos uma cultura, €a fonte e ‘o motor principal da cultura ~de toda e qualquer cultura. Esta pode ser definida como um esforco permanente, sempre incompleto e em princi pio intermindvel para tornar suportavel a vida mortal. Ou podemos tentar avancar mais um asso e concluir que é nosso conhecimento da rmortalidade e, portanto, nosso eterno medo da morte, que torna humano nosso modo de ser € estar no mundo, que faz de nds seres humans. ‘Acultura é0 sedimento da tentativa de tomar suportdvel a vida cor a consciéncia da mortalidade. Se por alum motivo nos tomassemos imortas, como algumas vezes (tolamente) sonhamos, 2 cultura interromperia seu curso, como descobriu Joseph Cartaphilus, de Esmirna, personagem de Jorge Luis Borges, que procurava infatigavelmen: tea Cidade dos Imortais, ou Daniel25, clonadoe destinado a ser eternamente reclonado, o herdi de A possibilidade de uma ilha, de Michel Houel: lebecq, Como Cartaphilus testemunhou: tendo a > vida contemporanea percebido sua prépria imortalidade, e sabendo ue, “num espaco de tempo infnitamente longo, todas as coisas acontecem a todos os homens" pelo mesmo motivo, seria “impossivel que a Odiseia nao fosse composta ao menos uma ve2", eentao Homero deveriareverter ao estdgio. de troglodita. E, como Daniel25 descobriu, uma vez eliminada a expectativa do fim dos tempos e assegurada a infinitude do ser, “o simples fato de existirjd era um infortinio”, ea tentacdo de abrir ‘mao voluntariamente do direito de continuar a ser reclonado e partir para “o nada absoluto, a simples auséncia de contetido” se tornava algo impossivel de resisti. te, da brevidade inegocivel do tempo, da possibilidade de as visbes permanecerem inrealizadas, de os projetos nao serem concluidos €¢as coisas nfo feitas que instigaram os seres hu: ‘manos a acdo efizeram sua imaginacio voar. Foi esse conhecimento que tornou a criacao cultural uma necessidade e transformou os seres huma- nos em criaturas da cultura. Desde os primérdios da cultura, e através de sua longa histéria, seu ‘motor tem sido a necessidade de preencher 0 abismo que separa transitoriedade e eterno, finitude einfinito, vida mortal e imortalidade, ou © impeto de construir uma ponte que permita a passagem de ura extremidade a outra, ou 0 impulso de capacitar 0s mortais paraimprimirna etermidade sua presenca continua, nela dexando a marca de nossa visita, ainda que breve. Nada disso significa, evidentemente, que as. fontes do medo, olugar que ee ocupa na férmula da Vida e 05 focos das respostas que ele evoca sejam imutavels. Pelo contririo, cada tipo de sociedade e cada era histérica t8m seus préprios medos ~ especificos em relagao a época e & so- ciedade, Embora seja bastante desaconselhavel imaginara possibilidade de uma alternativa “livre do medo”, é fundamental expor as caracteristicas distintivas do medo especfico de nossa época e sociedade em favor da clareza de nosso propésito «do realismo de nossas propostas. Quando tinham sede, nossos ancestrais tomavam sua dose didria de 4gua em riachos, Fios e fontes ~ e as vezes em pogas ~ préximos. Nés compramnos uma garrafa de pstico cheia de gua numa lojavizinha ea levamos conosco. dia inteiro, a todos 0s lugares, bebendo um gole de F: ‘©conhecimento de que tinham da mor 42 meric tb 214 vez.em quando, Ora, essa é uma “diferenca que faz diferenca”. Disparidade semelhante aparta 0s medos contempordneos daqueles de nossos ancestrais. Em ambos 0s casos, 0 que faz a dife renga sua comercializagao. O medo, tal comoa ‘gua, fi transformado em mercadoria de consu: ‘moe subrrietido a légica eas regras do mercado ‘Além disso, 0 medo tem sido uma mercadoria politica, uma moeda usada na conduco do jogo do poder. O volume e a intensidade do medo has sociedades humanas nao refletem mais a gravidade objetiva ou a iminéncia de ameaca; io, emvez disso, subprodutos da totalidade das ofertas de mercado e da magnitude da promocao (ou propaganda) comercial Vejamos em primeiro lugar os usos comer- ciais do medo. Sabe-se muito bem que a légica de marketing de uma economia “desenvolvida” (compulsiva, obsessiva ¢ viciosamente em desenvolvimento) no ¢ governada pelo com- promisso de satisfazer necessidades existentes, mas de expandir as necessidades até o nivel da oferta e suplement-as com desejos s6 de longe relacionados a necessidades, embora correla Cionados as técnicas de tentacao e seducao do ‘marketing. Este dedica-se a descoberta ou a in vvenao de perguntas cujas respostas os produtos recém-apresentados parecem oferecer, eentoa induzir o maior nimero possivel de potenciais clientes a fazer essa pergunta com frequéncia cada vez maior. ‘omo todas as outras, a necessidade ( de protecio contra ameacas tende a ser amplificada e adquire um impeto autopropelente e autoacelerante. Uma vez no jogo da protecao contra o perigo, nenhuma das defesas ja adquiridas parece suficiente, e esta assegurado 0 potencial de seducao e tentacao das “novas e aperfeicoadas” engenhocas ¢ geringoncas. Por outro lado, quanto mais pro- fundo o engajamento em defesas que sempre se reforcam e se enrijecem, mais profundo e agudo ¢ 0 medo da ameaca: a imagem desta Ultima cresce em horripilancia e capacidade de aterrorizar proporcionalmente a intensificaczo das preocupacdes com seguranca ea visibilida dee intrusividade das medidas para garanti-la. De fato, se estabelece um circulo vicioso, ou lum raro caso de moto-perpétuo “autossusten. tavel”, que ndo precisa mais receber energia de el fora, extraindo-a de seu préprio impulso {As obsessdes com seguranca s6 inexau- riveiseinsaciéveis, uma vez deixadas a solta no ha como paréslas. Sao autopropelentes €€ autoexacerbantes; quando ganham novo impulso, nao precisam mais do reforco de fatores extemos — produzem, numa escala sempre crescente, suas proprias razbes, explicagdes e justificativas. A febre acesa e aquecida pela introducao, ofortalecimento, a utilizado eo enrijecimento das “medidas de seguranca’ tomna-se otinico reforgo necessé rio para que medos, ansiedades e tensdes de inseguranca eincerteza se autorreproduzam, crescam e proliferem. Radicais que sejam, os estratagemas e dispositivos planejados, obtidos € postos a funcionar para fins de seguranca dif cilmente se mostrardo radicais o bastante para acalmar 0s medos ~ no por muito tempo, de qualquer modo. Qualquer um deles pode ser ul: trapassado, abandonado e tornado obsoleto em fungao de conspiradores traicoeiros que apren- dem a contorné-los ou ignoré-los, superando assim cada obstéculo erguido em seu caminho. Moazzam Begg, islamita britanico preso tem janeiro de 2002 e solto sem acusacbes apés trés anos nas prisdes de Bagram e da bala de Guanténamo, assinala corretamente em seu livro Enemy combatant (2006) que o efeito geral de uma vida levada sob alertas de seguranca inces- santes — beligerancia, justiicativas para tortura, prisdo arbitrériae terror 6 “ter tornadoo mundo muito pior’. E, acrescentaria eu, nem um pouco ‘mais seguro. Sem duvida alguma, 0 mundo se sente bem menos seguro hoje que uma ou duas décadas atrds. E como se o principal efeito das profusas e custosas medidas extraordinarias de seguranca tomadas no siltimo decénio fosse um aprofundamento da sensagao de perigo, da densi: dade dos rscos e da inseguranga. Disseminar as ssementes do medo resulta em grandes colheitas. em matéria de politica e comércio. O fascinio de uma safra opulenta inspira os que esto em busca de ganhos politicos e comerciais a forgar continuamente a abertura de novas terras para plantar o medo, Em suma, talvez 0 efeito mais pernicioso, seminal e prolongado da obsessao com segu- ranca (0 “dano colateral” que ela produz) seja solapar a confianca matua, plantar e cultivar a suspeita reciproca. Com a falta de confianca, Com 0 aprofundamento ea consolida¢ao das diferencas humanas em quase todos os ambientes, um didlogo respeitoso e simpatico entre as diasporas se torna condicao cada vez mais importante, na verdade crucial, para a sobrevivéncia planetaria comum tracam-se fronteiras; com a suspeita, elas sto fortificadas, ocasionando prejuizos mutuos, e transformadas em linhas de frente. Um déficit de confianca leva a uma quebra da comunica- 40; com a retracdo da comunicagao e a falta de interesse em sua renovacdo, o “estranha- mento” dos estrangeiros tende a se aprofundar adquirir tons cada vez mais sombrios e sinis- tros, © que por sua vez os desqualifica ainda ‘mais como potenciais parceiros de um dislogo ena negociagao de um modo de coexisténcia mutuamente seguro e agradavel. tratamento dos estrangeiros como Orr “problema de seguranca” & subjacente @ uma das causas do ver dadeiro “moto-perpétuo” nos padres de inte- racdo humana. A desconfianca em relacdo aos estrangeiros e a tendéncia a estereotipar todos eles, ou algumas categorias selecionadas, como bombas-relogios prontas a explodir crescem ‘em intensidade a partir de uma logica e de um {mpeto préprios, sem necessidade de apresentar rnovas provas de sua adequacdo nem estimulos adicionais provenientes de atos de hostilidade por parte do pretenso adversario (ou seja, eles ‘mesmos produzem provas ¢estimulos em pro- fusdo). Em geral, o principal efeito da obsessio com a seguranca € 0 répido crescimento (e nao. reducao) da sensacao de inseguranca, com todos ‘os acessérios de panico, ansiedade, hostilidade, agressio, mais o esvaziamento ou supressao dos impulsos morais. Tudo isso nao significa que a seguranca e a iia sejam inconciliéveise devam permanecer as- sim. Apenas assinala as armadilhas que a obses- a > vida contemporanea sido com seguranca tende a espalhar pela estrada que leva aura coexisténcia pacfica, mutuamente lucrativa e segura (na verdade, uma cooperacio) deetnias, credos eculturas em nosso globalizado mundo de didsporas. Com o aprofundamentoe a consolidacao das diferencas humanas em quase todos os ambientes e vizinhancas, um didlogo respeitoso e simpatico entre as diésporas setorna condicdo cada vez mais importante, na verdade crucial, para a sobrevivéncia planetéria comum. No entanto, por infortinio, pelos motivos que tentei relacionar, ele esté cada vez mais dificil de atingire de defender das contingéncias presentes ¢ futuras. Ser dificil, contudo, significa apenas uma coisa: a necessidade de muita boa vontade, dedicacao, disposi¢ao para o acordo, respeito ‘miituo eaversao a todas as formas de humilhacdo humana;e, evidentemente, a firme determinacao de restaurar o equillbrio perdido entre o valor da seguranca e 0 da adequacio ética. Cumpridas. todas essas condigies, e s6 dessa maneira, 0 didlogo e 0 acordo (a “fusto de horizontes” de Hans Gadamer) podem (apenas podem), por sua vez, setransformar no novo “moto-perpétuo” pre- dominante nos padrdes de coexisténcia humana. Essa mudanca nao fara vitimas, sé beneficidros. Isso me leva a trazer a nossa consideracdo mais um estimulo que alimenta, exacerba e inten: sifica as obsessées com seguranca, ao mesmo tempo que toma as nuvens do medo ainda mais densas e sombrias: a necessidade de legitimacdo do Estado na era da globalizacao. A incerteza e a vulnerabilidade humanas sao os alicerces de todo poder politico: é desses acessérios gémeos da condiczo humana, amplamente aborninados, ‘embora constantes, assim como do medo e da ansiedade que eles tendem a gerar, que o Estado moderno prometeu proteger seus stiditos; e & sobretudo a partir dessa promessa que ele extrai sua razao de ser, assim como a obediéncia e 0 apoio eleitoral de seus cidadaos. uma sociedade moderna “normal”, a Niesicce om e tencial, assim como a necessidade de viver e agir em condigées de incerteza profunda ¢ desesperadora, sdo garantidas pela exposicao. das ocupagées da vida as forcas do mercado, sa- da tarefa de criar e proteger as condigées legais 44 Nantes Wont 2014 ha necessidade de que o poder politico contribua para a produco de incerteza eo consequent es tado de inseguranca existencial. Os caprichos do mercado sao suficientes para erodir os alicerces da seguranca existencial e manter pairando sobre amaioria dos membros da sociedade o espectro dda degradacao, humilhacio e exclusao socias. Ao exigir de seus suiditos obediéncia e ob servancia a lei, 0 Estado pode basear sua legit mmidade na promessa de reduzir a amplitude da vwulnerabilidade e da fragilidade que caracterizam a atual condigio de seus cidadaos: limitar os danos e prejuizos produzidos pelo livre jogo das forcas do mercado, blindar os vulnerdveis em relacdo aos infortinios dolorosos e garan tir os inseguros contra os riscos que a livre competicao produz. Esse tipo de legitimaczo encontrou sua expressto méxima na autodefi nigo da moderna forma de governanca como um “Etat-providence”, uma comunidade que toma para si mesma, para sua administracao e seu gerenciamento, a obrigacao e a promessa que costumavam ser atribuidas & divina Pro videncia ~ proteger os figis das inclementes vicissitudes do destino, ajudé-los na ocorréncia de infortinios pessoais e prestarhes socorro em suas aflicdes. Essa formula de poder politico (sua missao, tarefa e funcio) esté recuando para o passado. Insttuigdes do “Estado previdencidtio”, voltadas para encarnar e substituiras praticas correspon. dentes da divina Providéncia, um pouco menos abrangentes, além de frustrantes e confusamen te irregulares, agora sao esfaceladas, desmon. tadas ou eliminadas, enquanto se remiovern as restrigdes antes impostas as atividades comer. Ciais e ao livre jogo da competicao do mercado suas consequencias.As funcoes protetoras do Estado esta limitadas e “enaugadas”, reduzidas a cobertura de uma pequena minoria dos nzo empregiveis e dos invdlidos, embora mesmo essa minoria tenda a ser reclassificada, passo a asso, de preocupacio em termos de protecdo social para uma questao de lei e ordem. A incapacidade de o individuo se engajar no jogo do mercado segundo suas regras estatut rias, usando seus préprios recursos e por sta Prépria conta e risco, tende a ser cada vez mais criminalizada, reclassificada como sintoma de intengdo criminosa ou pelo menos de potencial para o crime. © Estado lava as maos quanto ESS) 5 2 ess H ge 3 : cue z BS Sos = = = = vulnerabilidade e& incerteza provenientes da legica (da falta de logica) do livre mercado, A deletéra fagilidade da condico social agora 6 redefinida como assunto privado ~ uma ‘questo com que os individuos devem lidar e se confrontar usando seus préprios recursos. Como disse Ulrich Beck, agora se espera que 0 individuos procurem solucées biogrdficas para contradigbes sistémicas. sas novas tendéncias tm um efeito colateral: solapam os alicerces sobre os quais © poder de Estado se sustentou durante a maior parte da era moderna, quando afirmava desempenhar papel crucial na luta con. tra avulnerabilidade e a incerteza que assolavam seus siditos. O crescimento da apatia politica, a perda do interesse e do compromisso politicos (nao ha mais salvacdo pela sociedade”, como Peter Drucker proclamou, numa expresso farno- sa), € uma ampla retirada da populaco no que serefere aparticipar da politica insttucionalizada sii testernunhos do esfacelamento dos alicerces remanescentes do poder de Estado. Suspendendo a antiga interferéncia progra mmética sobre a incerteza e inseguranca existen- ciais produzidas pelo mercado, e proclamando, pelo contrario, que eliminar uma a uma as restr 66e residuais aatividades lucrativas éa principal tarefa de todo poder politico que cuide do bem- estar de seus stiditos, 0 Estado contempordneo precisa procurar outras variedades, nd condi as, de vulnerabilidade e incerteza para sustentar sua legitimidade. Essa alternativa parece se situar (em primeiro lugar e de modo mais espetacular, embora absolutamente no exclusiva, no caso do governo dos Estados Unidos) na questo da seguranca pessoal: os medos atuais ou previstos, abertos ou ocultos, reais ou supostos, de ameacas {05 copes, propriedades e hdbitats humanos, quer venham de dietas ouestilos de vida pandémicos enocivos a sadide, quer de atividades criminosas, decondutas antissociais da “subclasse” ou, mais recentemente, do terorismo global. ‘Ao contrério da inseguranca existencial proveniente do mercado, evidente demais para ser questionada e negada a sério, além de abundante e dbvia demais para permitir uma acomodagao, essa inseguranca alternativa destinada a restaurar o monopélio perdido do Estado sobre as oportunidades de redencao, deve ser artficialmente alimentada; ou pelo ‘menos altamentte dramatizada, a fim de inspirar um volume suficiente de medo e a0 mesmo tempo superar, ofuscar e relegar a posicao se- cundéria ainseguranga economicamente gerada, sobre a qual a administracao do Estado quase nada pode fazer, sendo seu maior desejo no fazer nada. Em oposicao ao caso das ameacas a subsisténcia e ao bem-estar geradas pelo mercado, a gravidade ea extenso dos perigos a seguranca pessoal devem ser apresentadas com as cores mais sombrias, de tal modo que a nao materializacao das ameacas divulgadas dos infortiinios e sofrimentos previstos (com efeito, qualquer coisa que represente menos que os desastres prenunciados) possa ser aplaudida como uma grande vitéria da razto governamental sobre 0 destino hostil, como resultado da vigilancia, do cuidado e da boa vontade louvaveis dos érgios do Estado. Ha uma condigao de alerta permanente: Perigos que se diz estar & espreita bem ali na esquina, fluindo e vazando de acampamentos terroristas disfarcados em escolas e congrega Ge religiosasislamicas; de subuibios habitados Por imigrantes; de ruas perigosas infestadas de membros da subclasse; de “distros turbulen- tos", incuravelmente contaminados pela vio- lencia; de dreas de acesso proibido em grandes cidades. Perigos representados por pedéfilos e ‘outros delinquentes sexuais a solta, mendigos agressivos, gangues juvenis sedentas de sangue, vagabundos e stalkers (0s caminhantes furtivos). AAs razbes para ter medo sdo muitas. Jé que & impossivel calcular seu verdadeiro ntimero e intensidade a partir da limitada perspectiva da ‘experiéncia pessoal, acrescenta-se outra razio, possivelmente mais poderosa, para ter medo: ‘do ha como saber onde e quando as palavras de adverténcia irdo se fazer carne me 45 Seminario mente cerebro Psicologia | psicanalise | neurociéncia ESTRESSE E ANSIEDADE Participe e entenda melhor a ansiedade e 0 estresse e seus impactos sobre a mente e o corpo. r i tml) 22 de novembro de 2014 © Sona Ce neat Sabado, das 9h as 18h “2 Ay. Paulista, 200 - Bela Vista Confira os temas e os palestrantes: © © que sao transtornos de ansiedade e os tratamentos disponiveis - Marcio @ Ansiedade social, transtorno de pénico e agorafobia - | © 0s 4pilares do estresse - MV Macie \guiar © Meditaeao para lidar com o estresse - Ruber d © Acupuntura para tratar ansiedade e Prevenir doencas associadas Inscrigées e informagées adicionais: } segmento > PSIQUIATRIA com receita médica DROGAS PSICODELICAS PODEM SER GRANDES ALIADAS DA ASSISTENCIA EM SAUDE MENTAL Quase imediatamente apés Albert Hofmann descobrir_servadorismo crescente dos Estados Unidos — onde as } Alteracdo de consciéncia s s s as propriedades alucinogenas do dcido lisérgico, o LSD, _pesquisas so mais avancadas ~enfraqueceu os estudos na década de 40, a pesquisa sobre drogas psicodélicas _nessa érea, Ultimamente, porém, elas tém novamente decolou. Essas substancias que alteram a consciéncia_chamado a atencao de cientistas de vérios centros de ‘se mostram, sob determinadas condices, promissoras pesquisa, sendo reconhecidas como potenciais agentes no tratamento de ansiedade, depressio, transtorno de _terapeuticos. H4 alguns meses, pesquisadores suicos estresse pés-traumitico (TEPT),transtorno obsessivo- _publicaram os resultados do primeiro teste com drogas | compulsivo (TOC) e dependéncia quimica, mas ocon- _envolvendo 0 LSD dos ultimos 40 anos. Veja o quadro: _ TRATAMENTO DROGA USO RECREATIVO PERIMENTAL (ecstasy) | ' | Ketamina [| Anestésico analgésico que também pode deixar em estado de (special k) J vmstat sos. Doses mis ataindizem cages | — - a ~ Apsilocibina | Deflagra sentimentos de transcendéncia e espiituaidade, assim | TOC, TEP, (cogumelos mégicos) ‘como alucinagbes visuals e distorgBes na percepcio do tempo ansiedade ———— at ee | J cuss intneas ucnages visu (que podem incr zs, ones SD sepium) aaa 8h além de percepgdes incomuns Alcoolismo, de tempo, J ansiedade \ MECANISMO DE ACAO le virios neurotransmissores no cérebro, que csitocina, 0 que pode diminuir o medo.e (a. Os efeitos podem ajudar pessoas com viar sintomas de depressio durante injecio, reforcando conexdes entre o cértex pré mpo, dreas do cérebro importantes para a ores de serotonina no cértex, 1 que diminui a atvidade cerebral nessa iga a alguns a vez pode amenizar a ansiedade e alguns 012 de estudos de 1960 ¢ 1970 aponta que (os efeitos permaneceram por neuroimagens mostram que o LSD se liga a otonina,ativando principalmente o obo o anterior e insular, eas do cérebro ESTIMATIVA CLINICA Pesquisadores estuciam seus efits sobre veteranos de guer. ra, bomberos e policiaisrsistentes a tratamento para TEPT. Um experimento anterior sugere que a droga é mais eficaz do {que a psicoterapia em aproximadamente 80% dos casos Ensaiosclinicos de 2013 e 2014 mostram que a droga ali viou sintomas de depressio persistente em 30 de 45 pacien: tes. A ketamina é um agente de classe Il (menos restrito), por isso, pode entrar na praca clinica mais rapidamente ‘No maior estude psicodélco ‘em mais de 40 anos, cientistas da Escola de Medicina da Universidade de Nova York analisam se a droga pode ajudar a reduzir ansiedade e depressio em pacientes com cincer (© primeiro estado de tropa assistida com LSD em 40 anes aponta que pacientes com cAncer que tomaram a droga apre sentaram melhora de aproximadamente 20% em rela & ansiedade, enquanto que aqueles que tomaram placebo ora ram. O experimento destaca a necessidade de mais pesqusas _— B psicologia | Sim, tempo é dinheiro © AUTORES PHILIP ZIMBARDO é professor emarito de psicologia da Universidade de Stanford, ministrouaulas nas universidades Yale, Nova Yorke Columbia, Foi presidente da Associagto “Americana de Psicologia. NICK CLEMENTS ¢ economist, cofundador da MagniyMoney.com UMBELINA REGO LEITE ¢ mestre em psicobiciogia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, especaistaem psicometriaeavaliagso pscolgica;&profestora da faculdade de psiclog ‘de Universidade de Rio Verde (Fesur fo} coordenadora da pesquisa de Zimbardo no Brasil 50 tmenecib Hutt 20 SABER DAR COM ASPECTOS FINAN | NACION LEVAM EM CONTA por Philip Zimbardo, Nick Clements e Umbelina Rego Leite | | maioria das pessoas gostaria de lidar mela com os préprios recursos materiais. Nao g acaso, a educacdo financeira tem sido amg mente divulgada e discutida nos iltimos temp Formuladores de politica lamentam 0 pouco acesso aed conhecimento, e grandes corporacées financiam program ara aprimoré-lo, Nos Estados Unidos existe até um m abril, dedicado a divulgacao de informag&es nessa érea. fato aprender a calcular taxas de juros e seu impacto so oupancae sobre os empréstimos, compreender as es idades dos diferentes investimentas e criar planilhas controle do préprio or: mento pode até ser ctl. Mass lidar com dinheiro pode nio ser suficiente para melho as financas. Afinal, a relagdo com bens materiais cost abarcar bem mais que aspectos objetivos pm psicologia | Um de nds, Nick Clements, cofundador da \ MagnifyMoney.com (uma ferramenta de com: paracdo financeira que educa e auxilia consumi: | ores a encontrar ofertas de acordo com seus recursos), passou quase 15 anos se dedicando 4 criagdo e& promogao de produtos financeiros para pessoas de todo o mundo, mas sempre duvidou que Algebra e educagio econémica pudessem, por si s6s, favorecer 0 orgamento l pessoal. Embora esses produtos estejam es- treitamente relacionados ao dinheiro, as taticas as para vendé-los, ndo raro, abordam a as de ju: ros de cartoes de crédito ou de empréstimos as quase imperceptiveis nos questao por outros caminhos. As t | | | secenen comerciais publicitarios. O que enxergamos | Sharamente so imagens de pessoas sorridentes e felizes. A mensags tentam passar é de } {que podemos emprestar dinheiro de forma répida ou até mesmo instantaneamente. | ( fato é que nossa sauide financeira depen de de inimeras decisBes que se acumulam | durante a vida. E essas escolhas raramente sifo feitas com base em planilhas ¢ listas de comparagao de produtos enquanto estamos sentados & mesa da cozinha, Pelo contrario, ‘azemos isso no calor do momento é a emo- Para entender por que tomamos decisbes econdmicas inadequadas, precisamos com: 52 tmentesiob Hour 2014 zemos escolhas. O que nos preender como influencia na hora da compra? Varias evidén cias tém demonstrado que, quando se trata de dinheiro, nem sempre optamos racionalmente, mesmo que tenhamos as ferramentas e 05 co inhecimentos necessérios para isso. Entéo, se matematica nao interfere tanto nessas situacoes, 1 que poderia nos ajudar na hora de decidir? Clements e eu (Zimbardo), procuramos \¢io melhor do motivo encontrar uma explic de fazermos escolhas financeiras que poder nos prejudicar PARADOXO DO TEMPO Um de nés (Zimbardo) estuda a perspectiva temporal ha miais de 40 anos. A hipétese da pesquisa é que esse elemento seja a chave para Compreender como tomamos decisves finance ras e como podemos agir de maneiras que nos permitam fazer melhores escolhas. No liveo O paradoxo do tempo (Objetiva 2009), Zimbardo e o psicélogo clinico John Boyd revelam como nossas atitudes em re lacdo ao tempo influenciam as decisoes que tomamos. Para tanto, os autores focam naquilo que jé viveros, no que experimentamos no ual e naquilo que esté por vir momento (© PASSADO: nossas atitudes em relagao a0 importam mais do que os ira como nos lembra ‘que ficou para tr mos do que ocorreu pode afetarsignificativa mente nossas decisdes no presente. Os mals gatar da otimistas, em geral, procurar ‘meméria momentos agradaveis com afar, realizagbes pessoais e aquilo que dé prazer Esses sentimentos calorosos favorecem a star e seguranca. raro, encaram percepcio de bem (Os mais pes © que passou com sofrimento, arrependi mento e sensagio de fracasso. Ter uma visdo excessivamente negativa que foi vivido pode nos deixar ressentidos ‘om menor autoestima, além de contribuir para o surgimento de uma depressao. Por lado, olhar 0 passado com excesso de otimismo também nao ¢ saudavel: pode fazer com que fiquemos pré acomodemos, 0 que interfere na disposicao imi riscos e ampliar possibilida para asi des de COPRESENTE: para alguns s6 interessao aquie agora. Podemos desfrutar do imediato (atitu ir presos ale (fatalista hedonista) ounos sen A primeira opcio parece interessante, pe ior, Pessoas com e: perfil cos: igos. os extremos podem apresenta tumam ser alegres, festeiras Mas em comportamentos d .dos, de risco, € diferente nte de pessoas que focam o futur 4 0s fatalistas sentem como se sua fosse ditada por influéncias fora de controle; € o caso daqueles quena maior parte do te se sentem sem op¢ao, p tado pela falta de r signacao, o pen ista eo cinismo sobrepujam OFUTURO:0mantrade uma para oamanhaé orient dia, portanto v bes antes de fazer qualquer coisa que me er” A expectativa de urna rei smpre poste je. Ser da abastece as decisoes € exageros, a gratificacao lem troca de maior recompensa futura pode ser uma aposta vantajosa: & como tro« manha. Um passaro na mao por um ban Ou seja: de maneira equilibrada, comporta futuro pode ajudar a planejar melhor a alimentagao, fazer exercicios regularmente, cuidar da sadde e investir na ha pode ocupar o espaco do aqui e agora. troca dos objetivos, muitos sacrificam a famflia, os amigos ea vida sexual. Nao ¢ dif identifcar esse tipo de pessoa: na maior parte das vezes esté cansada e mantém uma longa Dois de nds, Clements e Zimbardo, procura: mos criar uma definigao aprimorada e mais uti de educagio financeira e estudar como e por que tomamos decisdes econdmicas inadequadas. A pesquisa foi feita em seis paises: Brasil, Estados Unidos, China (Hong Kong), Italia (Sicilia), Reino Unido e Alernanha. Selecionamos académicos de vérias partes do mundo para nos ajudar a concluir 0 experi mento. No Brasil, 0 estudo foi conduzido pela Leite (que tam: psicéloga social Umbel bém assina este artigo). No total, mais de 3 mi pessoas participaram da pesquisa. Fizemos as seguintes perguntas: 1. Vocé se considera alfabetizado financeira- mente? Qual a sua percepcdo sobre o tema? Pedimos que avaliassem o grau da propria educagdo econémica em uma escala de 1a 7. 2, Voce sabe fazer calculos de orcamento? Distribuirios um questionario sobre matema: ticafinanceira. Solicitamos que calculassem 0 impacto dos juros compostos sobre a divida do cartao de crédito e comparassem produtos de diferentes custos e duracbes. Basicamente a ideia era testar a capacidade de avaliar 0 melhor negécio. 3. Qual o seu grau de satide financeira? Pessoas estabilizadas economicamente geralmente co- hhecem as taxas de sua hipoteca, entendem os juros sobre suas contas e sao capazes de res ponder pergu icas sobre finangas que traduzem um co plicam decisdes flito que como abrir mao de uma cois outra. € improvavel q acumulem parcelas em atraso, tenham aberto falta de paga- ra privilegiar esses individuos faléncia ou 0 imével retomado po mento. 4 aqueles com dificuldades financeiras, no raro, adiam a quitacao da hipoteca, pagam multas por atraso e acumulam juros no cheque especial ou cartio de crédito. Muitas vezes, acordam pela manha com grande arrependi ‘mento da noite anterior. Esses, provavelme vao “quebrar” e recorrer a0 crédito bancério ou a empresas de emp Na sequéncia, aplicamos o Inventério de Perspectiva Temporal Z (ZTP!), uma ferramenta mundialmente validada para c preendermos a perspectiva temporal. Os dados do estudo confirmaram em grande parte nossa hipétese: aqueles com alta pontuagao nos teste tradicionais relacionados a célculos de orgamento mais propensos a prosperidade econémi: tre cca. Emoutras palavras, hd pouca correlacic uma coisa e outra. Identificamos, porém, uma forte associagao entre a per va temporal satide financeira, Veja a seguir 3 surpreender, mas mui no passado (ou pelo menos acreditam nisso) Talvez tenha sido enganados. O lado b: perda pode ajudar a manter distancia -adas, Equillbrio econémico é si tania das consequéncias negativas que elas trazem Pessoas com esse perfil podem nao ser as mais divertidas em uma festa, mas tendem a pre ita bancaria PASSADO POSITIVO: assim como uma visao sivamente negativado passado, um olhar ‘muito otimista em relacZo ao que jd foi pode ros estagi isso pode nos ajudara gas grandes apostas financeiras. Como resulta wvavel que sejamos mais saudéveis inceiramente. Esse tipo de pessoa acredita que "é melhor prevenir do que remedia itenda conceitos financeiros complicados ou dinheiro, tende a ndo gastar mais do que tem izando para os dias dificels. io consiga acumular muito PRESENTE E HEDONISMO: ern nosso.estudo, observamos uma correlacio inversa entre foco momentaneo e prosperidade econé- im outras palavras, é bem provvel que pessoas com esse perfil tenham dificuldades relacionadas afl dedinheiro. € um dos tipos que mais enfrenta problemas dessa order. Os fesultados apontaram que muitos na feservas financeiras. Gastar excessi Alcool, drogas e sexo, por exemplo, ot ‘mesmo roupas, passeios e objetos supérfiuos pode custar bem caro. Alguns até con: seguem manter esse estilo de vida por algum tempo, mas, em dado momento, a festa acaba e isso costuma ser emocionalmente bastante desestruturante, vivido como um luto, do qual muitas vezes ¢ bastante dif se recuperat PRESENTE E FATALISMO: encontratmos forte cortelagao entre foco pessimista no aqui € agora e dificuldades financeiras. Individuos 54 tment | ube tenham va A INCOGNITA DO FUTURO: pessoas que se preocupam amanha e consequer iramente. Ni peridade econé ida pessoal, 0 es. Etambér tras € tir maior ganho e sucesso profissional to absortos em seutrabalho que s Costumam no apresentar d bolso a tempk 9s impostos em dia e, uma hora, ac atrapalhando com as financas. nm © Brasil teve o pior resultado (satide finan. ceira menor) comparado com os outros cinco da amostra (v¢ja quadro abaixo) Reino Unido Alemanha Estados Unidos Italia Hong Kong Brasil (s dados podem ser explicados em razao do ‘maior foco no prazer momentaneo e no baixo percentual de visao otimista sobre o que ficou para tras (passado positivo). O Brasil pontuou alto no quesito presente e hedonismo (22,4%). | No Reino Unido, 0 pals mais saudavel financei ramente da amostra, marcou apenas 13,9%. Aproximadamente 72% dos britanicos acreditam que ontem foi melhor do que hoje (passado positivo), em comparagio com 41,2% dos bra sileiros. Sem esse suporte, ofoco no prazer aqui agora pode ficar ainda mais evidente. (© Brasil teve uma historia turbulenta re- cente, com o regime militar antes de chegar & | democracia, Durante a década de 2000, 0 pais experimentou um enorme boom de crédito consumo (v¢ja quadro abaixo) | ‘Emprestar para gastar | Crédito do Brasil conforme = 40 | 30 i 4 20 10 0 2002 04 06 +08 10 126 Hmaio E facil para os bancos se aproveitarem de quem quer celebrar o presente, oferecendo cré- dito a juras altissimos. Com isso, 0s brasileiros tf ORO foram as compras. Os precos dos iméveis do- braram em apenas cinco anos. Financiamentos prontamente disponiveis incentivara sigdo de iméveis, e 2011 foi um ano recorde de vendas para a industria a Os brasileiros estavam comemorando 0 presente, com a crenga de que o amanha seria ainda melhor. Embora nao haja limites para a cexpansio de crédito, infelizmente, a alegria nao dura para sempre. 4 comecamos a observar isso rno Brasil. Com uma crise na oferta de crédito, as dificuldades aumentam, Os préximos dez anos, porém, podem criar uma geragio que, por ter enfrentado dificuldades no passado, se tornou mais preocupada com as financas (passado rnegativo). Assim, essas pessoas sero menos propensas a comprar uma geladeira com a taxa de juros de 70%, como se ve atualmente, ENTENDER, SENTIR, ESCOLHER Nos ultimos 15 anos, o setor de crédito ao consumidor teve enorme expansdo. Produ: tos complexos se espalharam pelo mundo. Podemos comprar um Big Mac em Moscou com cartio de crédito ~ algo que antes seria impensavel. No entanto, como resultado des se crescimento sem precedentes, milhoes de pessoas se tornaram alvo do marketing das organizagdes financeiras. Respondemos a ess demanda usando produtos financeiros para comprar bens de consumo. Mas sera que estamos preparados isso? Realmente entendemos o poder (ou a tirania) dos juros compostos? A resposta esmagadora da elite de decisdo politica global tem sido aprimorar as competéncias econémicas. Aideia de entende é garantir que sejamos capa (05 produtos financeiros e seus custos. Assim, poderiamos determinar se vale a pena ou nao assumir uma hipoteca, por exemplo, Acreditamos que a educagao econdmica é importante, De fato, é essencial. Para compra uma casa ou um apartamento, precisamos entender a diferenca entre as propostas de financiamento. No entanto, 0s resultados desse estudo mostram que isso nao ¢ suficiente, Nao basta ter habilidades tomar decisdes que resultam da experiencia de vida, do que acreditamos, sentimos e quere: matematicas, € mos. E, em grande parte, da forma como mpactados pela perspectiva temporal. mex ) percepcao distorcida Que coisa feia! por Susanne Rytina 08 17 anos, sem motiv aparente, ojovem S. p 's cabelos cachead sou a se incomodar ct considerando-os um sério problema. Dec: alisd-los, Dural um ano, passou por proce mento micos ser is, que sé interrompeu dep de danificar seriamente os fios, deixando-os alaranjad Anos mais tarde, a0 ver seu r percebeu que disso, s6 conseguia horas diante do espelho. lexo na vitrine de uma Ic ande e torte. Dep ar nesse “terrivel defeito” e pass: rapaz optou ent ‘mana apés a operacio estava de volta ao espelho-e perce cada vez mais falhas. Para piorar, ar pela cirurgia plastica. Mas uma Isso nao o impediu de procurar novamente o médico pi remogao da cartilagem das or Deprimido, ja nao t Meses depois, ele recon! is em um livro sobre transtorno di (TDC), tambén 1ado de dismorfia, um quadro no qu balhava nem estu AAUTOI SUSANNE RYTINA ¢jornaitaespeciaizads em temas relacionados 8 psicolog sintom 2 pessoa se torna patologicamente preocupada com uma caracteristica fica imaginada ou pouco perceptivel em sua aparéncia. A preocupacao excessiva em relacio a prépria aparéncia costuma ser associada ao transtorno obsessivo compulsivo (TOC), a ansiedade e a depressio e, nos casos mais graves, ao risco de suicidio. O distirbio ¢ surpreendentemente comum (veja quadro ‘na pdg. 58). De maneira geral, os pacientes com o transtor sm por caracteristicas faciais, como acne, cicatrizes, excesso de pelos ou forma de seu nariz e de seus lébios, Também podem rejeitar partes especificas do proprio corpo, como seios e quadris, ou se sentirem insatisfeitos em relacdo. altura e aos genitais. Muitos acreditam ser epulsivos, ainda {que sejam considerados atraentes ou até mesmo com beleza acima da mé Essa conviccao perturbadora pode trazer diversos preju izos. Em geral, aqueles que sofrem do TDC gastam diversas horas diariamente na frente do espelho enquanto examinam 9s ou adot po do traba: pturados pelo a aparéncia, conferem a pele com o: outros comportamentos cor Iho, da familia ou de atividades préprio reflexo, muitos perdem a noco de temp demitidos por atrasos constantes. Pesquisadores estimam que pelo menos dura dos pacientes com TDC niio conseguem sair de casa; 30% fe uma semana aproximadamente 305 apresentam algum transtorno alimentar e 2596, em média tentam o suicidio. O abuso de dlcool e drogas il 6 bastante presente nessa populagio, E inegavel que fatores psicolégicos como fragilidades eg ambém as, dificuldade de apropriacdo da propria identidade autoestima e absorcio ide: construidos sobre beleza e perfeicao estao na base do disturbio, Recentemente, porém, pesquisadores descobrira que pacien: tes com TDC também apresentam percepeao visual distorcida, 10 que sugere que no futuro essas pessoas poderio ser bene ficiadas por tratamentos que desenvolvam o sistema visual 37 p> percepcao distorcida emshi a SIGMUND FREUD e i] seu paciente Sergei } C.Pankeje, que tomer dos bos" ele | desenolescbsesso i Supoctaenta dosha Originalmente, o transtorno dismérfico corporal era conhecido como dismorfofobia medo da feiura), um termo cunhado pelo psiquiatra italiano Enrico Morselliem 1891. Ele havia tratado 80 pacientes preocupados com deformidades imaginadas que interferiam excessivamente na vida cotidiana. Em 1980, a dismorfofobia apareceu na terceira edicao do Manual diagnéstico e estatistico de trans tommos mentais (DSM). O termo dismérfico corporal” substituiu 0 antigo na | | | | | | transtorno | versio de 1987, apés a constatagao de que o 58 tment 1 extutr 2014 estado estava mais relacionad irracionais do que a fobias. Apesar de ser considerado oficialment a convicsoe como um transtorno psiquiatrico, 0 TDC também conhecido como complexo di Térsites, por causa do guerreiro descrito n Wiada, de Homero, como 0 “homem ma feio do exército grego desconhecido, mesmo entre psicélogos é relativ médicos. Nao raro, pacientes com a doens: do diagnosticados com depressio, ansieda de, transtornos alimentares ou até mesm com 0s trés tipos de disturbio de uma vez frequentemente os profissionais nao per cebem que o TDC pode ser a causa de todo: esses sintomas, Por outro lado, écomurm individuos com TDX falarem pouco sobre o problema porque nao « um distirbio mental, poi acreditam que sao simplesmente feios. Muito: também tém vergonha de citar seus comporta mentos estranhos numa consulta médica. Come reconhecem como resultado, ndo raro esperam de trés a 13 ano: pelo diagndstico correto. Nesse tempo, muito: procuram a ajuda de cirurgides plésticos. Mas assim como no caso do jovem S., esse tipo de sca da imagem perfeita ‘OUTRO jeITO DE VER: estudo mostra que pacientes com TOC parecem processar visualment figuras comuns fsquerda) ce borradas (centro) de rstos da mesma manera que a maioria das pessoas pereebe imagens altamentedetalhadas (diet), como se estivessem a procura de nuances que nto exstem intervenco nao resolve porque néo consegue alcangar a raiz do problema. 4 num processo psicoterdpico ou analitico esses temas invaria velmente terminam vindo a tona, por isso é to importante buscar atendimento psicol6gico. E comum que 0 TDC surja na puberdade, quando mudangas radicais no corpo podem contribuir com sentimentos de inadequacao relacionados & autoimagem. A maioria dos pacientes afirma ter sentido os primeiros sinais da doenca nesse periodo, Fatores como crescer num lar que coloca énfase excessiva na beleza fisica ou ter vivido situagdes traumaticas como bullying e re- petidas criticas sobre caracteristicas fisicas, como peso e manchas faciais, também podem contribuir para 0 aparecimento dos sintomas dismérficos. Em um estudo de 2007, o psicé: logo clinico Ulrike Buhlmann e seus colegas da Escola Médica da Universidade Harvard e do Hospital Geral de Massachusetts cons- tataram que voluntarios com TDC disseram sofrer provocagdes sobre a aparéncia mais frequentemente do que participantes do grupo de controle que nao tinham o disturbio. E provavel, porém, que fatores biol6gicos, como genes e quimica cerebral, predisponham uma pessoa a essas insegurancas ~ embora dificilmente, por si s6s, determinem o apare. cimento do quadro. Seguindo a abordagem neurolégica, alguns pesquisadores acreditam que o distuirbio esteja relacionado a alteracoes nos niveis do neurotransmissor serotonina no cérebro, um problema semelhante ao que acontece na depressao, que atinge aproxima- damente 70% dos pacientes com TDC. Ha alguns anos, a psiquiatra Katharine A. Phillips € seus colegas da Escola de Medicina Alpert da Universidade Brown relataram em dois, estudos separados que a maioria dos pa: cientes com TDC apresenta melhora apés 0 tratamento com antidepressivos que inibem a recaptagao de serotonina por células cerebrais. Porém, sem acompanhamento psicolégico, que permita ao paciente ressignificar a propria imagem e lidar com os efeitos que a distorcao da propria imagem Ihe causou ao longo dos anos, os efeitos da medicacao nao se sustenta. QUEM PROCURA ACHA Nos iltimos anos, alguns pesquisadores co- mecaram a questionar se a combinacao entre uma personalidade vulneravel e um ambiente desfavoravel poderia explicar 0 distarbio. Embora na maioria dos casos a resposta seja sim, surgiu recentemente a hipétese de que © transtorno esteja relacionado, pelo menos em parte, a um problema perceptivo. Em um estudo coordenado pelo psiquiatra José A Yaryura-Tobias, do Instituto Biocomportamen. tal em Great Neck, de Nova York, foi pedido a trés grupos de dez voluntarios cada — um com pacientes com TDC, outro com pessoas com TOC e um terceiro com participantes emocionalmente saudaveis ~ que fizessem alteragdes, se julgassem necessério, em uma figura computadorizada mais precisa de seu préprio rosto para corresponder ao que acre. ditavam representé-los. Metade dos pacientes com TDC e TOC modificou as figuras, ao pas- 0 que ninguém do grupo de controle propos mudanga significativa. Os dados sugerem 59 > percepcao distorcida Os processos terapéuticos mais eficientes sao os que favorecem a reelaboracdo das vivéncias profundas tor e ajudam o paciente ase dar conta de que nao é preciso ser perfeito para merecer afeto GALA DE BRINQUEDO: 0 american justin Jia, de anos, investa mire do cérebro, regiao res dificagao de caracteristicas do hemisfério dire! ponsével pela visuais de maior escala; 0 lado esquerdo foi ando viram as imagens ativado somente detalhadas. J4 aqueles com TDC usaram 0 hemisfério esquerdo para interpretar todas as fotografias. “Eles processam todas as fi guras como se fossem altamente detalhadas E como se o cérebro tentasse extrair nuances que nao existe”, observa Feusner. Os resultados sugerem que o TDC pode estar relacionado, em parte, a alteragdes no processamento da informacao visual. Afinal,é possivel pensar que a capacidade de apreciara beleza tem valor evolutivo, Um corpo atraertel pode, em alguns casos, estar associado a9 £ estado de sade. Ou seja, a “feiura” indicat menor aptidao. € possivel que a habilidade dl escolher a pessoa “mais bonita” como parce ra tenha aumentado as chances de transmitir bons genes para a prole. Nesse sentido, oTOC representa uma versao extrema desse talento. “Mas ainda nao sabemos se pessoas com TOC nascem com dificuldades no processamento visual ou se o disturbio deflagra 0 problema”, admite Feusner. © ROSTO DOS OUTROS Considerando que alteragdes no processamen: to visual contribuem com 0 TDC, no futuro terapias poderdo ser desenvolvidas para aj dar pacientes a enxergar as coisas de forma mais global usando 0 lado direito do cérebro. Feusner acredita que a exposicdo repetida a imagens borradas, vistas a distancia ou visua: lizadas por apenas uma fragao de segundo, por exemplo, poderiaforcar 0 cérebro a adotar essa estratégia © psiquiatra afirma que medicamentos também podem alterar olado do cérebro usado para processar informacdes visuais. Estudos preliminares sugerem que benzodiazepinicos favorecem a transferéncia da atividade neural para a direita durante uma tarefa do proces: samento visual, mas os efeitos colaterais so inegaveis. A saida seria o uso de drogas alter- nnativas que podem agir de maneira similar, causando menos danos. Contudo, especialistas concordam que 0 problema nao é totalmente visual. Levando em conta que nove entre dez pacientes com TDC afirmam também examinar a aparéncia alheia, principalmente as caracter'sticas que mais detestam em si mesmos, uma pesquisa desenvolvida por Buhlmann e seus colegas mostrou que pessoas com 0 disturbio nao enxergam as mesmas distorgdes que vem fem si no rosto dos outros. Individuos que sofriam de dismorfia classificaram fotografias, de outras pessoas (consideradas “atraentes” pelos pesquisadores) como significativamente mais bonitas do que fizeram outros grupos sem o distirbio. Isso sugere que a percepga0 detalhada sobre os outros nao evoca a mesma resposta emocional negativa relacionada a propria aparéncia De fato, alguns profissionais tratam 0 TDC abordando aspectos emocionais, como © perfeccionismo e 0 medo de rejeicao, fo: Espelho, espelho meu. Em sua clinica em Sao Paulo, a médica Noem ig, membr ciedade Europeia de Dermatologia e P are m frequéncia passoas ansiosas por fazer t 0s € ticos que as tornem mais jovens e belas. Recenternente, porém, ela se surpreendeu quando uma paciente de s 1 a chorat spiosamente em sua frente, profundamente a statacao de que e: que a mulher apresente um sub ava envelhecendo. A derma po de di jo ao personagem de Osca intuito Wilde que faz um ventude enquanto um retrato seu, cuidadosamente esc deforma com o passar do tempo. ‘A médica reconhece, porém, que sua propria angustia diante 0 pedido s de se s ‘muitos paci jeter com nte a procedimentos estéticos nao é muito comum entre profissionai titude cr que trabalham com procedimentos cosmético a, por vezes, provoca estranhamento entre seus pares. “Vive em uma sociedade que nos cobra sermos assépticos, sem che sm dentes brancos, sem pelos ou poros abertos, co menta. “Muitos pacientes cultivam a fantasia de que tornard perfeitos, mas sofrem com a insatisfago nun E ainda que o jeigdo por si mesmo. (GL) continua, continua, orpo se trans cando as perceps6es distorcidas e sugerindo agdes para ajudar os pacientes a abandonar yn ssn habitos destrutivos. Em alguns casos, so PajvA sAaERM instruidos a pedir um retorno sobre a propria _ Visual information proces: P Propris fing of faces In body dy aparéncia para outras pessoas, como amigos, 508.01 is {1 bay Os familiares ou até mesmo estranhos. Psicé- _Feusnes jennie Townsend logos cognitivo-comportamentais apostam — fixsderSystisin «Susan que comentarios alheios positivos, ou pelo of General Psychiatry. vo menos neutros, podem ajudar o paciente a." 12 pies, 417 1426, desenvolver uma autoimagem melhor e mais realista. No entanto, essa técnica mais uma vez coloca o referencial de autoaceitagao fora da pessoa. Nesse sentido, psicoterapias com: portamentais podem ser iteis num primeiro momento, mas 0s processos terapéuticos CO ntolerivel peso da eure, joana de Vihena Novaes PUC Rio, 2005. Broken mirror: unders tanding and treating body dysmorphic disorder. Philips. Oxford Univers Press, 2005 Body dysmorphic disorder a review of conceptual. tations, assessment, and treatment strategie, Mt Hi cleaves et chology Review, 70, mais eficientes ainda parecer ser aqueles que permitem a reelaboracdo das vivencias mais, profundas. Lidar com as proprias faltas abre possibilidade efetiva de aceitar que aquilo que se considera imperfeito no préprio corpo nao impede a pessoa de ser atraente, merecedora de afeto e de relacionamentos saudaveis. wex > neurociéncia > Uma historia 4 ilustrada do cérebro Pee atene nO Aen nea NOLL COMPLEXA ARQUITETURA NEURONAL. NOS ULTIMOS ANOS, IMAGENS O8TIDAS POR MEIO RA Cee een STE CnC DG ee aU. Peers AAUTORA ete eee oe taal ponrmetieein teen Pe NTIS TLS ESL As descrigées de Willis baseavam-se, por um lado, em estudos anatémicos detalhados de antecessores como © italiano Leonardo da Vinci (1452-1519) ou o flamengo Andreas Vesalius (1514-1564). Por outro, o médico inglés aceitou a hipétese de um “sistema nervoso mecanico’ formulada pelo fildsofo René Descartes (1596-1650). Se- gundo essa ideia, a vida mental do ser humano poderia ser explicada como 0 resultado de processos que-embora necessitassem da “inspiracao divina” ~ estavam baseados em leis fixas. A crenga no progresso dos tempos modernos identificou 0 6rgao do pensamento como um aparelho de funcionamento determinista, (Omédico e anatomista Franz joseph Gall (1758-1828) foi lum pioneiro nessa drea. Ele estava convencido de que o tama nnho e a configuragao do cranio permitiam conclusées sobre talentos e personalidade das pessoas —e paraisso comparava moldes de cabeca de politicos, intelectuais, doentes mentais €criminosos. Gall, porém, ignorava propositalmente tudo © que refutava sua teoria —e € provavel que isso o tenha eee impedido de fazer mais descobertas. Apesar disso e bservar de forma direta a estrutura do cérebro ‘ou a maneira como ele funciona nao € posst vel. Poressa razao dbvia, as descobertas nessa area sao lentas e as técnicas que permitem qualidade imagens de conexdes e de processos. rneuronais costurmam ser dispendiosas. Jé na Antiguidade, estudiosos como Galeno de Pérgamo (129-199, aproxima: damente) supunham que estava reservado ao cérebro um Papel importante. Mas foi o médico inglés Thomas Willis (1621-1675) que relacionou em sua obra Cerebri anatome, de 1664, éreas neurolégicas com fungdes mentais. Ele acreditava que o cértex (a “casca” externa do cérebro, fortemente sulcada) controlasse a meméria e a forca de vontade; reagées mais simples e automaticas seriam de responsabilidade do cerebelo. dos equivocos, a teoria de localizagao de Gall, deno- minada frenologia, se tornou uma base importante nesse campo de estudo. Gracas aos progressos da microscopia e da histologia, que possibilitaram a subdivisdo cerebral em muitas unidades menores, Toje sabemos que de fato certs fungoes mentais estio localizadas em reas especificas do cerebro. DA ESTRUTURA A FUNCAO ‘Além de se preocupar com a localizacao de cada funcao em determinada regido neurol6gica, atualmente 05 neurocien tistas investem sua atencZo principalmente nas complicadas redes que englobam o cérebro como um todo. O mapa da totalidade de ligacdes neuronais, 0 conectoma, coloca os pesquisadores diante de grandes desafios. Afinal, como ilustrar de maneira clara a enorme quantidade de conexdes? E isso fica ainda mais dificil quando se trata de representar modificacoes dinamicas dessas redes Até 0 momento, 0s cientistas concentraram-se em ima: gens estaticas, Mas a comunicagao entre as células nervosas se mantém num fluxo de alterac3o permanente. Os trajetos das conexdes também mudam constantemente. Essa dimen sto temporal esté sendo incorporada de maneira progressiva 405 processos de reproducio por imagem. Além disso, as novas formas de apresentacao precisam levar em conta, simultaneamente, a conect E 05 métodos atuais mi idade anatémica e a funcional. tas vezes se limitam a observar somente a superficie de tudo isso: mas é abaixo dela que esto os mensageiros quimicos e os processos moleculares. — assim como, possivelmente, outras dimensdes que ainda se mantém ocultas a técnica do momento. neurociéncia ic Umainterlocugao interessante do século 21 para ‘os desenhos de Ramén y Cajal €0 método Brain bow, desenvolvido por Jeff Lichtman e Joshua pesquisadores da Universidade Harvard. surénios se | Sob uma luz fosforescente, os net 1m ratos, moscas ou minhocas ge parecem | Feticamente mocificados, em todas as cores do arco, Com atécrica 0s cientistas conseguem svar a0 vivo, € até filmar, as modificacdes | hos neurénios e suas sinapses. O mais impor tante, porém, é que podem ressaltar detalhes celulares em neurdnios, € 0 que -m como confete colorido nao aparece na imag | 6 um produto da natureza, mas o resultado de um demorado processo de elaboracao. 64 tment 1a moderna esté associada a evolucio dos recursos tecnols Luisadores ver melhor 0 cérebro e compre: | do século 21, 0 uso de microscépios Geseortinou um névo universo, © que permitiu que pesquisadores coma oe anatomistas Camillo Golgi (1844-1926) e Santiago Ramon y Cajal (1852: 1834) conseguissem enxergar as profundezas do cérebro, O italiano Golgi descobri a “reagao negra” (teazione nera}, uma técnica para a coloragdo de células por meio do ritrato de prata, eo espanhol Ramén y Cajal party dese ponto para ampliar seus estudos. Ele desenhou diversos cortes do. cerebro células neurais (2 esquerda, um corte do hipocampo). Mas diver gencias sobre a interpretacio dos resultados das pesquisasafastarar™ os soe centistas, até mesmo na ceriménia de entrega do Prémio Nobel de Fisiologia ou Medicina a ambos, em 1906. Golgi estava convencido de ios do cérebro formavam uma dinica massa interligads. Jé ides autnomas, separadas, que se (termo criado em 1897 pelo inglés Aneurociéneci ¢gicos que permitiram aos pesat ender seu funcionamento. No final que os neu para Ramén y Cajal eles eram unida comunicavam entre si por sinapses ‘Charles Scott Sherrington). Sua neurodoutrina fundou a modema pesquisa tomnou-se o primeiroa reconhecer o sentido das las nervosas a partir dos dendrites, lular e seguindo neurolégica, eo espanhol transmissbes de sinais dentro das célul as ramificagdes dos neurénios, passando pelo corpo cel ‘enio. Ramén y Cajal usou setas para registrar isso em seus ais tarde, criou o protétipo para futuros conectomnas: pelo longo ax esbocos emi Um método relativamente recente da pesquisa neurologica que traz avangos principalmente na medicao dos conectomas € 0 que permite Pe ee an eee ce imaging). A movimentacao de moléculas de gua ao longo das fibras eee En an ee ce ete ee ee ean eee eed eee ee ene Breen Ee cane cece acd Cee ett ee ese od rneuronais que, na verdade, mostram apenas uma parte da verdadeira anatomia”, observa 0 neurocientista Marco Catani, do King’s College, em Londres. Tais imagens do cérebro sao o resultado de uma andlise ee eet tet ene ee ceca entre estética e contetido informativo. Portanto, o resultado espelha as decisées individuais do pesquisador. Segundo Daniel Margulies, que dirige o grupo de pesquisa sobre rneuroanatomia e conectividade no Instituto Max Planck para Cognicdo Humana e Ciéncias do Cérebro, em Leipzig, as imagens oferecem pee eee tect a Cee eee eee red da elaboracao das imagens e da incerteza da deducio dos dados”, poate a on erence) ser estético e, 20 mesmo tempo, oferecer alto grau de informacao. Cee ence Cac Ree RC eee ce eed Pe eer eee ea de maneira tridimensional, hd muito se faz uso de corpos geométti Peet emu EM OMe rnc ee ec Ce ee eee Re visualizacio reiine alternancias sincrénicas de atividades no voxel medido: as cores correspondem as direcdes espaciais tomadas por cada neurdnio destacado (vermelho significa que estd perpendicular & conexao que acontece ali; verde longitudinal: azul transversal). Dessa eRe a ee ee ee nd Coe eee ae p> neurociéncia Peale GLU © projeto do artista e new rocientista francés Etienne Saint-Amant mostra as pos sibildades de representacao do cérebro usando processos de imagem. Seu quadro Autorretrato Il & uma adap: tacio livre de uma imagem DTI de seu proprio cére bro, Em geral, tis imagens mostram fibras nervosas coloridas sobre fundo preto We é (via pag 64). Aqui o arista brinca com a coloragao, mas mantém 0 rigor cientiico dos detalhes do registro. O autortetrato de Saint Amant recebeu o primeiro prémiona categoria representacio do conectoma humano na Brain Art Competition 2013 (veja ‘SEU CEREBRO E ASSIM MESMO? RrESAG SoPNTE hes sath cu elas realttnts yy Ty mostram a “mente trabalhando"? Em breve Vv v rd possivel observar os pensamentos de uma pessoa num cé e video? Nao ¢ 0 caso: repre parece mais realista do que é de v as imagens apresentadas aqui cee rece ean on Re” een sens cen vc 7 onhecimento, Para isso, atraente \ DK dear ksoalacchh oan Atualmente, além de buscar compreender mais detalhes sobre a rede anatémica do cérebro, pesquisadores se empenham em desvendar a participagdo das conexdes neurais enquanto voluntarios realizam determinadas tarefas. A base da imagem mostrada abaixo ¢ a imagem por ressondncia magnética funcional (FMRI) Ela registra modificagdes do nivel de oxigénio rno sangue permitindo conclusdes sobre. ativi- dade neuronal. Mede-se a atividade de muitos milhares de neurdnios a cada determinado ponto ou voxel. A forca de conectividade entre 0 pontos pode ser calculada a partir da seme- thanca com seu padrao de atividade: aqueles que sao sinalizados simultaneamente de ma- neira mais forte ou mais fraca provavelmente esto conectados entre si Para representar 0 conjunto de todas as conexdes funcionais passivels de serem me- didas, os pesquisadores do grupo de Joachim Bottger, pesquisador do Instituto Max Planck em Leipzig, lancaram mao de um método que ja 6 usado para a visualizacdo do trafego aéreo ce das ondas migratorias no edge bundling (que pode ser traduzido como “agrupamento de arestas"): as conexSes com caracteristicas Visuais semelhantes, como angulos ou relacao de comprimento, sdo reunidas. Assim, cores diferentes indicam conexdes diversas — no caso, co vermelho est associado a funcdo sensério- motora, € 0 laranja ao sistema visual Entretanto, os caminhos na imagem abaixo nao reproduzem conexdes anatmicas reais, mas foram deduzidas por meio de estatisticas grande desafio dos neurocientistas continua sendo apresentar imagens do cérebro atraentes € 20 mesmo tempo informativas, que nao falseiemn nada daquilo que realmente acontece. mex PARA SABER M Visualizing the human connectome. DS Margulies et ol, em Neuroimage 80, pags. 445-46) 2013, Portas ofthe mind visualizing the brain From antiquity to the Tis century. C. Scho ‘onover Abas 2010 > neurociéncia ! AS novas / teorias da | consciéncia jente descartada. Durante a: para expl lizados er balho, u model inte, nem toda teor' fisticados laboratér nformacao inte; ‘ocientista Giulio Tono expresso matematica para e ¢ fazer p 150 de trabalho gl posta. Estudos c 5 ul Imente convincentes nos dois casos é da vacdes tanto no de experimentos volvida pelo ual tra evisOes sobre quais para produzi-las. J4 0 ouput! motor biente controlado so o ponto de partida para que urem identificar as areas di esses fendmenos, Oneurocientista cog College de France, em Paris, que sua carreira ao estudo da psicologia d: o material de suas investig Bes sobre co de publicar s6l © modelo a ho global ma re Op: capacidade de retermos em ossa mente o que percebemos (de forma consciente) por um breve periodo, seja um rosto familiar em uma multida seja a voz de um estranho. A percepcdo pode permanece rmazenamento da meméria de curto praz¢ pé n | percepres sensors © aeee a | ‘espaco de trabalho global | Esse armazenamento dé i eed \ ‘para estimular processos ona | TAA merece Vostro 2016 neurociéncia cie de rascunho mental, mesmo apés 0 rosto desaparecer ou avoz ficar distante. O cientista cognitive Bernard Baars, do Instituto de Neu rociéncias em La Jolla, na California, que de- senvolveu a teoria-modelo espago de trabalho global, se inspirou nas primeiras descobertas sobre inteligéncia artificial, em que programas especializados acessam um repositério coleti vo de informacdes, o quadro-negro. Segundo Baars, 60 ato de transmitir dados dessa drea para um sistema computacional, cibernético ou biolégico, que o torna consciente. A cons. ci€ncia seria, portanto, apenas a ago cerebral de compartilharinformacoes armazenadas na reserva da meméria Esse espaco neural nao s6 processa dados sensoriais recentes, mas também pode evocar memérias antigas e trazé-las para essa drea Assim que uma informacao ¢ acessada, diver. sos sistemas cognitivos podem utilizé-la. Os dados sao enviados para uma regido especifica do cérebro que processa a linguagem (uma espécie de médulo), onde sao preparados para serem compartilhados com outras pessoas por meio da fala: “Adivinha quem acabei de ver”, por exemplo. Também podem ser trans: mitidos para uma “unidade de planejamento’ passar pela razao e serem armazenados na memeéria de longo prazo. O ato de enviar essas informagoes da reserva de recordacoes para 0 diversos médulos funcionais do cérebro dé origem a consciéncia © problema é que esse espaco de traba tho tem capacidade extremamente limitada Estamos conscientes de apenas alguns itens ou eventos e os mudamos rapidamente de lugar, para dentro e para fora da consciéncia. Novas informagoes concorrem com antigas podem, em iiltima instancia, substitu-las Provavelmente, essa restrigao € uma carac- ter/stica inevitavel de qualquer projeto de sistema de processamento de informaca0 sobrecarregado pelo fluxo de dados e precisa concentrar seus recursos mais precisos em como lidar com muitas situagdes criticas 0 mais r4pido possivel. O cérebro compensa a falta de espaco neu: ral por meio de processos inconscientes:igno- ra totalmente o bloco de rascunho central ou interage com ele abaixo do nivel da conscién: cia, O grande fluxo subliminar de informacoes transforma sons em palavras significativas e Stons em objetos e pessoas identificaveis Esses processos avaliam e pesam evidén julgam e sincronizam os movimentos inicia dos pelo sisterna musculoesquelético para que um organismo sobreviva em um mundo em Por exemplo, a imagem de O grande fluxo subliminar de informagées transforma sons em palavras significativas e fotons em objetos e pessoas identificaveis um rosto ou uma palavra aparece rapidamente ern un monitor entre imagens de linhas desenhadas aleatoria mente ou um agrupamento da letra X. Essas “méscaras’ evitam que orostoou palavra exibida se tornem conscien constante e rapida transformacao. Mas, em: bora sofisticados e répidos, no compartitham informaces entre sinem as transferem para o espaco de trabalho em comum. Assim como acontece com uma agéncia de inteligencia, 08 dados sao divididos apenas com base na necessidade de saber. MASCARAMENTO No entanto, esses milhares de agentes incons- ientes moldam nossa rotina didria. Embora se ‘manifestem ocasionalmente, a falta de acesso a esses eventos subliminares nos faz subestimar sua importancia, Como oescritorjaponés Haruki Murakami bem expressou: “Temos varios luga- res dentro de nés. Nao visitamos a maioria, S40 espagos esquecidos. De tempos em tempos, po: demos encontrar uma passagem. Encontramos coisas estranhas... antigos fondgrafos, imagens e livros queros pertencem, embora seja aprimeira vez que os encontramos Dehaene investiga esses lugares inconscien- tes usando uma técnica chamadamascaramento, Explorando o enigma da existéncia Cir fusiforme ‘Mudanga de sina (percentagem) on (© Palavasvsiveis © Palavras mas tes (participantes relatam perceber apenas as figuras distrativas). Dehaene e seus colegas usaram versbes combinadas da técnica com o registro de eletrodos implantados profundamente no cérebro de pacientes com convulsoes epiléticas. © objetivo era demonstrar que o inconsciente pode processar o significado de combinacoes de palavras, o que implica notar aincongruéncia centre termos com significado emocional positive ce negativo (0 cérebro responde de maneira die rente a “guerra feliz” e “amor feliz’, por exemplo). ‘Com Dehaene, o bidlogo molecular Jean Pierre Changeux foi além desse modelo abstra toe investigou areas espectficas do cérebro eo Te ey en ‘Tempo (segundos) neurociéncia NAS PALAVRAS DO ESCRITOR JAPONES Haruki Murakam: Temas vis lugares dentro de nés. Nao vistamos a maora. S80 espagos esquecios. De tempos em tempos podemos encontrar uma passagem. Encontramos Cosas estranhas, antigos Fondgrafos, imagens e livros que nox pertencem, fembora sea pinera vez aque os encontramos grupo de neurénios que corresponde ao espaco de trabalho global. Um estudo em andamento, com ressonancia magnética funcional ¢ ele trodos de eletroencefalograma posicionados no cranio dos voluntarios, revela assinaturas s que parecem re mento mental jeurais distintas nas regi presentar a teoria de armazer Emm experimento classico, Dehaene e seus colaboradores submeteram alguns voluntirios a um escainer de ressonaincia magnética enquanto observavam um fluxo de palavras em uma tela de computador, cada uma exibida por 29 milésimos de segundo, Alguns termos estavam mascarados eprovocavam apenas uma pequena resposta do cérebro, Mas, quando estavam legiveis, desenca- deavam intensa atividade neural {As regides ativadas formam uma espécie de apete denso que bloqueia as células cerebrais (especificamente neurdnios piramidais) que unem o cértex pré-frontal, olobo parietal inferior, is médio e anterior e outras re gides do cérebro. Os axénios, extensdes do corpo ‘elulardos neurdnios, se espalham pela superficie fa do cérebro, o cértex cerebral, para unir 0s lobos temp ‘a imensidao da topografia neural. E nessa rede ista comecou a procurar pelo bloco de rascunhos mentais e explicacoes di sinais que fluem através dessa teia de conexdes do cérebro. estimulo 6 percebido sao comunicados a0 Sempre que ui conscientemente, sua assinatura neuronal (uma atividade cerebral espectfica) aparece em ebral. Por exe diversas regides do cértex ce plo, a intensa atividade elétrica desencadeada por uma imagem que passa pelo cértex visual primério, localizado na parte de tris da cabeca, Segue para muitas areas corticais. Ao atingir regides anteriores do cértex, a amplitude dos ou Dehaene a cunhar sinais aumenta, o que | 0 termo “avalanche neural’ Essa intensa atividade pode ser capturada no ato com a ajuda de eletrodos de eletroen. cefalograma (EEG), por meio da medigao da 300, uma onda cerebral que, em experimentos em laboratério, se inicia aproximadamente 300 lissegundos apds a projecao de uma figura ma tela. Como demonstram os estudos de Dehaene, tornar-se consciente de um som ou de uma imagem (transmitidos ue os cientstas acreitar ra dreas cerebrais, mporem 0 espaco de trabalho global) muitas vezes esté relacionado com a presenca da onda P300 no cértex pré-fron tal, uma regio do cérebro associada a processos mentais superiores. Por outro lado, sem essa ica se dissipa e a imagem onda, a atividade eb resentada néo ¢ percebida conscientemente. A io deixa de entrar no espaco de trabalho manece sublimina global e por isso pe BEEP BEEP BOOP Esse marcador eletrofisiolégico da percepgao consciente foi usado por Dehaene e seus colegas na tentativa 0 mapear o mome m que a conscié ge pela primeira vez iangas de 5 a 15 meses e para elabora’ um teste de consci severas lesdes cerebrais com os iéncia para pacientes com possivel estabelecer comunicagao fidedigna por meio da fala, dos olhos ou dos gestos. Os im a capacidade consciente de captar um novo es que o telefone toca enquanto vocé Ié um livt. Esse evento inesperado pode desencadear uma ‘onda P300 em massa, facilmente perceptivel No entanto, se vocé ndo atende o telefone que car, © potencial elétrico se torna lo. Por exemplo, imagine continua a t mais fraco até ndo poder mais ser encontrado, nlaboratério, voluntarios sao submetidos: a uma sequéncia de cinco tons simples: beep beep beep beep boop. O ultimo som, 0 tnico ranhamento, gerando uma diferente, causa Luzes para compreender o cérebro. Pee ene ee y UJ Acombinag a ee pene a m sofistcada permite 0 aprofundamento do que vento neural e, consequentemente, sobre a consciéncia. Tecnologias que Pr. Peers See Creeks snquanto pensa, faz associ Pee ae eee rc Sean eee ae eee Pe rny as descobertas fundamentais feitas pelos bi rear Ma ee er te tem diretamente (em vez de indiretamente ere gee Sony ca para pesqui Ren eee ey ey rocientista Christof Koch, diretor ci eee pee cee a cia? Que mensagem ¢ enviada? que horménios transmitides pelo 0 indicador de consciéncia desap jeural tar po e pelo cérebro. No entanto, aind Em seguida, os pesquisadores disparam Assim pelo 4 sequéncia beep beep beep beep beep. - nao conhecemos bem esse proce {que um voluntario atento percebe conscie mente a falta de um som diferente, 0 cérel ma onda P300 no ultimo beep 5 Dados transmitidos pela internet ou informa oso de uma responde cor porque fo rar um boop briga representam atividade con > modelo de espago de trab: tes espinhosas. nostram re intrigantes. Pacientes en cada de 80, 0 mol ine as evidencias comportamentais indicam cular e neurocientista Francis Crick e eu come sel minimo decconsciéncia mostram opadrao _camos a trabalhar para tentar compreender de atividade P300 no EEG, enquanto aqueles _atividade ceret nada a visdo.e outros ‘oma, queacreditamos naoteremnenhuma processos men asso trabalho expe censacao, nao. Experimentos em andamento imental era dedicado a estudos emp! exploram o me vadigena “estranho no sobre as caracteristicas da consciéncia. Efato Consciousness and the rninho" com macacos e camundongo. que o trabalho di como Dehaene e brit deciphering how the q Brain codes our thoughts. mos Changeux tem ajudado a mudar radicalmente Stanislas Deha sao, amplian 3 op Experimental and theoreti capacidade do cérebro de distribuir informa redes de células cerebrais, ¢ a ee {gBes do espaco de trabalho global para sua 5 tao misterioso. mex process as Deh outras dreas suscita varios questionamentos EMPATIA A terapia da justi¢a e do perdao ENCONTRO ENTRE VITIMA E AGRESSOR PODE TRAZER ALIVIO PARA AMBOS Em muitos casos, 0 sistema legal ndo consegue ajudar quem sofreu uma ofensa nem quem a praticou. Anos depois de um crime, a pessoa que sofreu a agressdo ain da pode sofrer de estresse pos-traumiatico, ¢ 0s ex-con: denados muitas vezes apresentam dificuldades depois de sair da prisao. Nao é novidade que uma reabilitagao ineficaz costuma significar 0 retorno a pratica de delitos 76 merce ous 20 Na opiniao de alguns especialistas, no entanto, o método da justica restaurativa (em que réus e agredidos ficam face a face) pode ajudar nessas situacbes e mudar a trajetéria dos envolvidos, em geral traumatic ‘Amaioria das vitimas que se dispde a participar desse processo frequentando grupos de discussao e tem acesso a0 depoimento dos criminosos depois de algum tempo sen: tem que podem perdos-los. Os infratores, por sua vez, ale gam sentir responsabilidade por suas acBes. Dois estudos recentes randomizados controlados reforcam o crescente corpo de pesquisa sobre a eficicia desse tipo de abordagern ‘A criminologista Caroline M. Angel e seus colegas, da Universidade da Pensilvania, analisaram os efeitos da jus tica restaurativa para as vtimas e 0s agressores em casos de roubos e furtos em Londres. Pessoas que passaram por situacao de violéncia foram encaminhadas aleatoria- ‘mente tanto para reuniges de justica restaurativa apenas {quanto para esse servico e também ao sistema judicial Paralelamente, facilitadores treinados propuseram a infra totes que discutissem sobre os efeitos do crime na vida das vitimas e de seus familiares ¢ amigos. Aproximada mente 25% das pessoas atendidas somente pelo sistema de justica criminal apresentaram sintomas clinicos de estresse pés-traumitico, mas apenas 12% das pessoas do ‘outro grupo manifestaram esses sinais. “Um dos pontos mais interessantes da justica restaurativa € que permite as vitimas ressignificar a propria vida e curar algumas feridas a0 longo desse processo”, diz a pesquisador ( segundo estudo, coordenado pelos c Lawrence Sherman e Heather Strang, da Universidade cde Cambridge, se propunha a avaliar se esses métodos podem reduzir a reincidéncia. A pesquisa, publicada em ‘marco na Journal of Quantitative Criminology, analisou dez estudos que utilizaram controles randomizados para investigar o efeito das reunides de justica restaurativa nos infratores. Os cientistas constataram que 0s criminosos {que participaram dessas discusses cometeram menos crimes subsequentes. Apesar do excelente custo-beneficio, o uso dessa pré tica ainda 6 bastante restrito. Defensores da técnica acre ditam que a cultura de punicao severa e a necessidade de jminologistas politicos de serem vistos como rigorosos em relacdo a0 crime interferem na aceitagao do método. neurocircuito 2 > MATEMATICA Equac¢ées, arte e musica evocam atividade similar no cérebro Ha muito tempo aqueles que dominam a matemdtica comparam os encantos dessa area de conhecimento a obras de arte e @ musica. Agora, pesquisadores da Inglaterra e Escécia apontam que, apesar da natureza imaterial do raciocinio l6gico e abstrato, seus atrativos estdo ligados @ atividade da mesma regido do cérebro responsével pelo pro: cessamento de estimulos sensoriais que nos permitem reconhecer a beleza. (© neurocientista Semir Zeki, da Universidade College London, autor do estudo, € seus colaboradores solicitaram a 15 matemticos que visualizassem uma série com 60 equagées e, em seguida, as avaliassem de acordo com uma escala de-5 (mais feia) @ 5 (mais bonita). Em seguida, mapearam o cérebro dos voluntatios utilizando a resso- rnancia magnética funcional enquanto eles observavam novamente os exercicios. Os resultados revelaram que compreender matemitica foi necessdrio, mas ndo suficiente, para que os participantes emxergassem beleza nas equagdes — algumas foram bem as similadas, mas no consideradas graciosas por eles. Isso permitiu distinguir a atividade cerebral associada & compreensao e chegar a drea responsdvel pelo processamento da beleza: 0 cértex érbito-frontal medial, uma drea relacionada a integracdo entre experi éncia sensorial, emagGes e tomada de decisao. Estudos anteriores demonstram que a regio ¢ altamente ativada quando apreciamos arte ou ouvimos miisica, por exemplo as percebemos belas. Esse € um conceito complicado para a ciéncia devido a sua natureza subjetiva e pes- soal, Semir Zeki sugere que enxergar formosura na matemtica pode revelar uma profun da ligacao entre o cérebro eo mundo natural. “Ao longo da evolucao, a possibilidade de reconhecer a beleza e valorizé-la pode ter sido um recurso importante para a sobrevivén cia neste planeta, jé que tendemos a identificar o belo como indicador de verdade e até de sate”, diz. “E nao por acaso tantos matemiticos afimam se esforcar para alcangar @ perfeicio da mesma forma que um pintor ou compositor.” Para Zeki, essa aproximacao entre razao e emosao pode favorecer importantes descobertas: “Nao faz mais sentido relegar a beleza ao estudo da arte, deixando-a fora da ciéncia”, acredita A. livro | resenha Com a palavra, o cerebro ‘overmelhoeo | oO" surocientista indiano Vilaya- S€io atribuidas ao autor podesercriada quand ur S.Ramachandren gosta de descobertas de varios _eide st visto: de form's ]] seer reton raees efeitos eilusées, COMO cas wnnemporioacia Mas nao énenhumtipo aque pode ser criada — deespelho, um equipamento s mples, construido com papelao, que permite ienganar” 0 cérebro de pessoas que e@ o verde sao VistOS —perderam um dos me deenigma que fascinaessepesquisa» quando o vermelho Marco Polo da i| neurociéncia” por Richard Dawkins mbros e, assim, l\| ede "o mederno Paul Broca” por Ge forma igualmente — eliminar a dor fantasma Eric Kandel: ele s a pelos brilhante Durante um quarto de sé Ramachandran tem trabalhado pacientes com condigdes mentais raras e deficiéncias causa 1s deles tao estranhos que parecem saidos | de um filme de ficcao, Diretor do Centro do Cérebroe da das porles6es, acidente vascular cerebral ou configurasces \| Copnicio da Universidade da California em San Diego _genéticas que, em muitos casos, produzem sintomas pouce sor emerite do Departamento de Psicologia na _comuns. Entre os voluntarios de suas pesquisas estdo, po s incttuicdo, ele tem se dedicado a investigar os exemplo, pessoas que “veer” amiisica enquanto a escutar der ose sentem o gosto das texturas que tocam com os dedos. H | rece tem pura cantar, nado pla Zaha o autor pertenceedesjam que omerbrosaudve sia Sao abordadas ainda sindromes menos conhecidas como a de Cotard (na qual a pessoa acredita que na regoli (na qual todas as pessoas que onhecido) universo que reside na cabeca de | (eainda des letém, por exemplo, na forma como o que existe) ea de | O interes sobre a percepcio visual. Nao por acaso sao atribuidas ‘captam muitas vezes “engana” o cérebro, paciente encontra se parecem com uma inic esultado de suas primeiras pesquisas que nhece). O que pode parecer curioso ou um espécie de dom, na opinigo de alguns, para Ramachan +o haidesvobertas de varios efeitos e ilus®es, como aque dran & material de estudo. O neurocientista trata aind 7B 1 mene Vout 20 lock Holmes, o mais plicar 0 método “pessoal que embasa sua a m multidisciplinar, Ele se diz € por uma pergunta incessai impelido pel mor com a ciéncia remonta a infancia vivida em Chennai, na india. “Encantava-me a ideia de que todo o universo se baseia en ples entre e ta. Em relacdo a0 estudo do cérebro, reconhece que sua preferéncia por métodos de baixa tecnologia, amplamente conhecida no meio cientifico, se deve, pelo menos em p: ser “preguigoso”. “Quando digo que prefiro cotor espelhos a aparelhos de imagiologia cerebral, nao quero dar a impressao de que evito a tecnologia por completo Defendo a ideia de que a ciéncia deveria ser impelida por questées, nao Apesar de recer or metodologia rente Ramachandran t Unidos por faze a explicacdes ampla: s Estad neurocié sm profusao de term certeza, afasta a ideia de que assunto livros | langamentos Balint e a regressdo Interessado em psicandlise, o médico hyngaro Michael Balint procurou Sandor Ferenczi para fazer anlise. Ao longo do processo, os dois se tornararn amigos € Balint iniciou com ele sua formacdo em psicanalise. Consultor de uma clinica psi aquidtrica, desenvolveu uma prétiea conhecida como Balint groups, nos quais reunia colegas da medicina para discutir suas experiéncias clnicas, com foco na relacao médico -paciente, incentivando of colegas a examinar as proprias emocoes a res peito dos pacientes. Na psicandlise, concentrou seus estudos nas relacoes objetais {com 0 outro, tudo 0 que esté fora). Sua mais importante obra é A flha basa, que ganha sua segunda edicao no Brasil. No texto, Balint propbe concertos sobre a estruturaclo psiquica nos primeiros anos de vida e trata da relacdo e analisando. O autor argumenta a favor do analista acolhedor,interessado em con: duzira andlise de forma areparar as falhas do objeto primi. ESTRESSE POS-TRAUMATICO ‘Superacdo do trauma A vivencia de evento exces sivamente doloroso pode se ‘expressar por um conjunto de sintomas fisicos psiquicos, indicando transtorno de es tresse pos-traumatico, distar bio marcado pela lembranca do trauma e acompanhado de sensagdes fisicas de extrema ansiedade. Tratamento cogni tivo-comportamental do estresse ppéstraumatico mostra como funciona a terapia cognitivo comportamental direcionada para 0 TEPT, como o questio hnamento de crencas associa das as memérias negativas. Tratamento cognitive comportamental do estresse pos-traumatico, Mara Emilia M. de Camargo e Marisa Fores Zagodon, 2014 80 pags. RS 31.00, 80 1 meres eutubo20'4 A falha basica: sepectosteraptutens da regressio, Michae Balin Zagodom, 20%4 192 pigs a Criador do psicodrama Musica e Comida e Primeiro aestudaros efeitosda @Prendizagem cultura pia em grupo, Jacob Levy Estudos associam 0 contato Psi Moreno escreveu sobre suas com a misica a melhoras nas memérias em textos dispersos. habilidades de memoria de logia social da comida ex plora as relacbes entre cultu: iimentacdo. A psicéloga Seu fiho, Jonathan Moreno, percepsio. Em Musica, mente Denise Amon analisa como compilouas no lio Autobio- —¢ educagdo, o educador musical 08 alimentos cotidianos e as ‘grofa, que ganha sua segunda Keith Swanwick busca escla- priticas relacionadas — tais edicao no Brasil. Aobraremon- recer a importincia das artes como busca de ingredientes, ccursou medicina na Austria, Baseado no trabalho de Jean cdo, quand: ‘suas ideias, Os escritos eviden-psicologia do desenvolvimento, habitos e psicologia do des 0, ciam a resistencia da comuni- 6 autor explora dimensées dade cientfica em aceitar sua 10 periodo em que Moreno no desenvolvimento mental. formas de preparo, decora fecimento, consumo comegou a formular Piaget, importante reeréncia dae descarte ~ refletem valores, tilos de vida. Con: siderando 0 comer como um ccolbgicas © sociolégicas da ex fendmeno multidimensional teorias nos Estados Unidos, perigncia musical, investigando a autora mostra como grupos. em contraste com um curioso suas elagBes com mecanismos socials constroem regras que sucesso na Europa, que atinge da aprendizagem escolar. O 05 define como comunida 0 pice com a fundacao da As- autor enfatiza, principalmente, des através da alimentacio. sociagao Internacional da Psi- a necessidade de repensar os coterapia em Grupo. atuais métodos de ensino, Psicologia socal ‘Autobiograia ‘Musica, mente educario. dacomida, Jacob Levy Moreno, Keith Swanwick Denise Amon. 34 gs. RS 53,10. 282 pig. RS 3600 : — — ; ros Relagées modernas “Um texto que se pretende ético deve ser como uma porta que se abre fe nio como uma resposta pronta’, escreve a fldsofa Marcia Tiburi na introdugao de Filosofia prota, obra que convida o letor a reflti sobre o que é ética e como el relagdes virtuats, no qual, po FILOSOFIA coy tuns com os outros”, a autora emerge em um mundo marcado pelas ‘somos 30 mesmo tempo anénimos e estamos em evidéncia. A pr ‘meira parte, “Como me torno quem sou?” problematizara vida em vez de passivamenteevitardilernas insepa veis da condigio humana. Na segunda parte, “O qu flete sobre a difculdade de viver em sociedade e sobre a complexidade das relagdes. Por fim, em “Como 0?", trata do cotidiano e da dificuldade de convivéncia discute a impor Filosofia pratica, Marca Tibor Re 320 pigs. RS35,0 amos fazendo _ Amenina eo urso uem diga que amigos costumam nos ver um pouqui rho melhor do que somos de fato, Concordo. Por outro lado, {quando gostamos de alguém, tendemos air um tanto além de nossas forcas para estar a0 lado de quem nos pede atensao, as vezes sem sequer perceber os limites que ultrapassamos. ‘Algumas concessées sdo até boas de fazer, d que nos trazem 6 prazer imenso de ver a sensacio de reconforto ou o sorriso estampados nos olhos daqueles que amamos. As vezes, po- rém, ultrapassamos limites perigosos que estio ali para nos proteger de algum excesso com o qual pode ser doloroso lidar. E nao fazemos isso apenas porque somos criaturas adoréveis, «e queremos 0 bem do outta (isso também, em muitos casos, mas nao sé). Cedemos principalmente porque hd gozo de es Cafxa udica tar nesse lu lteis e queridos aquece a alma, independentemente de quanto fio faca do lado de fora, Além disso, costuma ser dificil dize no (ainda que pedido seja implicito), especialmente para Aaqueles que ocupam lugar especial em nossas vidas. Por isso, rmuitas vezes, é bemvindo quando quem esti ao nosso lado percebe que chegau a hora de nos afastarmos, pelo menos um ppouco, para cuidar de nés mesmos. Foi o que aconteceu com Lia e seu melhor amigo em O urso ¢.a.dnvore, escrito e ilustrado por Stephen Michael King, recen temente lancado pela Brinque-Book. Na historia, a menina se entristece quando sua drvore preferida perde as folhas. Quan. do a vé chorando, 0 urso ~ que ja se preparava para sua longa, soneca de inverno — deixa de lado a tarefa de reunirfolhas para forrar sua cama, se esquece do sono e, embora soubesse que precisava descansar, prefere sentarse a0 lado de Lia e dividir seu guarda-chuva com ela. E, em vez de dizer adeus, aninha a garotinha em suas costas macias. Aquecida, Lia se esque ce das lagrimas. Os dois entio brincam, desenham, dangam 1a troca & gratificante e nos sentirmos aceitos, fe enfeitam a drvore nua ~ motivo de tanta amargura a folhas coloridas que o urso guardara. As horas se passam, ‘Anoitece, amanhece. Exausto, o animal boceja, mal consegue rmanter os olhos abertos. Lia no chora e sabe que seu urso querido precisa fechar os olhos, voltar-se para si, aconchegar ‘se, dormir talvea:teencontré-la em sonhos. (Glducia Leal) (© uso ea rvore. Stephen Mi hae King. rnque Book, 2014 36 pags R30, limiar neurociéncias Vv Enquanto a casa cai SIDARTA RIBEIRO ar vastissima fauna e flora ¢ ut ainda administravel se comparada a da stra arelagao m aula magna na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, um dia :pés 0 primeiro debate presidencial China, pais quemelhor onardo Boff crise ecolégica. Mas preocupante: nenhum dos car didatos havia dito com cla virarmos a China latina. ‘oisa mais importante de todas, Desmatamos mananciais, n30, que ¢ 0 fato de vivermos uma social reciclamos liso, vertemos esgoto emergéncia ecolégica ¢ ©) m0 tios e adoramos embalagens. jf, Quremoscrecenisema re scupagies ecoldgicas sio tidas como sem precedentes, a exigir nossa ediata. O aumento da temperatura média da Terra, as grandes variagdes climaticas asso frescura num pats com excesso de car Giadas a esse aumento, a desorgani ros e péssima mobilidade publica. Pais em que as grandes construtoras financiam zacio da agricultura e a possibilidade de as campanhas dos principais candidatos e ci {a até para beber deveriam tira ado em construir o tiram. Enquanto o desastre 1, fingimos ser possivel exter ‘mentam tudo que podem. Paise nia, cuja energia alimentard as novas forno das obras, se dissipard em linhas ise forentard mais hidrelétricas na Amas dades de farceste en Je transmissao de dimens®es continent matérias-primas para o banquete stala completame os prejulzos sem pagar preco algum por isso. equilibrada apenas pela velocidade, sem har sacdo, bicicleta desgovernada em direcdo_indistrias de exportacdo de ia de ebola, _ do mundo. Somos o Impéri pesquisa de painéis fotovoltaicos, mas atrela a educagio e < Jeo altarente poluente. Na Africa, o descontrole da epidem ao murc io do Sol que investe migalhas ainda sem remédios por desinteresse das farmacu Nos EUA, a dificuldade de conter a disseminagao hospitalar ‘térias selecionadas pelo uso excessivo de ant: este sempre mudaram as paginas pido, eoholocausto dos mais apitalista, certo sade de seu povo ao p ‘A preocupagao com a grande emergencia ambienta mma ser tachada de apocaliptica ou descaso com pobres. Afinal, todos tém direito ao livre consurn > Errado. Se acelerar a independencia dk bidticos. Guerra, fomee da histéria. Povos desaparecem raj 1€.0fim. E depois deles os demais? ‘om banalidades. _petréleo é essencial, reduz altura do campeonato, Terra vai sair bem caro, Nossos habitos vao ter qu co seré ainda pior. 0 indios serd luta de mot Enquanto a casa cai, nos distraimos c disputam quem tem mais rabos edadosem coma mudat, mas postergar essa adaptac nos. Oresto é distracdo. my consumo initilé vital. A est edefinir nossa relacao predatéri presos, Imersos em jog isputas tibais, siderados pela discussdo do comportamento alheio, passivamente verios Gaia adoecer de nossa propria de poder e dinheiro,e mudamos ou nos acaba téncia. Em nosso pals hd pouca percepgdo do tamanho yj qniniin ain AE eoplema ede responsabilidade que nos cabe. AS Prt ipAjTTA RIBEIRO, reurobsloge, cttor do Instituto do Cereb eo rragbes deterraquens precisam desesperadamente day Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) ¢ ideranca tal do Brasil. Temos um imenso territdrio, professor titular da UFRN 82 A mentecinto I outub WERE Rta ec oe SWEAR CER ESATA ACAI y Seen Compre ja a sua nas PETC | Ae ses Eel 1 § , CASADA EDUCACAO com.br

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