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A Educação Segundo Humberto Maturana

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Uma breve introdução à concepção de educação de Humberto Maturana
Uma breve introdução à concepção de educação de Humberto Maturana

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Published by: Valéria Moura Venturella on Feb 19, 2010
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A EDUCAÇÃO SEGUNDO HUMBERTO MATURANA1 Valéria Moura Venturella2 MATURANA Humberto Maturana, médico, biólogo e pesquisador chileno, em colaboração

com seu colega e compatriota Francisco Varela, é o autor da chamada Teoria da Cognição de Santiago. Essa teoria identifica o processo de conhecer com o processo de viver. TEORIA DA COGNIÇÃO Em seu livro A Árvore do Conhecimento, escrito em colaboração com Francisco Varela, Maturana define a vida como um processo permanente de conhecimento, identificando o viver com o conhecer. Sua teoria da cognição, conhecida como Biologia da Cognição ou como a Teoria de Santiago, coloca os seres vivos como co-construtores do mundo, seres em constante processo cognitivo, condição essencial para a conservação da vida. Segundo a Teoria de Santiago, os seres vivos constroem o mundo, de maneira incessante e interativa. Influenciamos e modificamos nosso meio à mesma medida em que somos influenciados e modificados por ele, e nesse processo, construímos também nosso conhecimento da realidade. Assim, o mundo não é anterior à nossa experiência ou independente dela, e nosso conhecimento sobre ele não é uma representação mental da realidade. O mundo é produzido pelo viver em conjunto dos seres vivos, que o conhecem à medida que vivem, aprendem e interagem. Maturana não acredita que exista uma racionalidade subjacente aos eventos da realidade, ou uma finalidade para eles. “O mundo segue à deriva” afirmou o biólogo em uma entrevista para a revista Tierramerica, em 2000. AUTOPOIESE Assim como Descartes e outros pensadores clássicos, Humberto Maturana define os seres vivos como máquinas. A peculiaridade de sua teoria está na constatação de que, diferentemente dos aparelhos mecânicos comuns, os seres vivos têm a capacidade de se “autoproduzirem”, ou seja, os seres animados contam com a autopoiese. Para o autor, os
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Texto produzido como pré-requisito para a aprovação na disciplina Desenvolvimento Humano e Educação, ministrada pela Profa. Dra. Bettina Steren dos Santos no Mestrado do Programa de PósGraduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – Porto Alegre – de março a julho de 2004. 2 Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul; professora dos cursos de Pedagogia e Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – Campus Uruguaiana.

seres vivos não se definem apenas por sua organização complexa – que pode ser encontrada em máquinas não vivas – mas principalmente por seus processos de autoconservação, processos esses garantidos pela cognição. Para Maturana, a atividade de organização de todos os sistemas vivos, assim como sua interação com seu meio, é cognitiva. É por meio da percepção do meio, e de mecanismos de regulação interna que os seres vivos se adaptam ao meio, e também adaptam o meio a si com o objetivo de se conservarem vivos. Ao modificar suas estruturas para responder às influências ambientais, o organismo vivo modifica seu presente e também seu devir, ou seja, aprende. Na Biologia do Conhecimento, viver é aprender. EMOÇÃO Ao longo de sua obra, o autor chileno incita seus leitores à constante reflexão ao questionar e problematizar muitos conceitos e afirmações geralmente aceitos sem muita consideração. Uma dessas idéias é a de que os seres humanos são essencialmente racionais, sendo essa característica nosso traço mais distintivo enquanto espécie. Maturana é categórico ao colocar que não é a racionalidade, mas sim as emoções que regem nossas ações e mesmo nosso pensamento mais formal. Maturana define emoção como uma configuração corpórea, ou seja, física, que determina a reatividade de qualquer ser vivo, inclusive os seres humanos. Assim, de acordo com o autor, nós agimos e pensamos segundo nossas emoções. E ele vai mais longe ao afirmar que mesmo nossos sistemas racionais, isto é, nossas teorias e concepções mais lógicas e coerentes sobre o mundo e nós mesmos, são determinados por nossas disposições emocionais. Isso ocorre porque:
todo sistema racional se baseia em premissas fundamentais aceitas a priori, aceitas porque sim, aceitas porque as pessoas gostam delas, aceitas porque as pessoas as aceitam simplesmente a partir de suas preferências (2002b, p. 18).

Assim, os próprios fundamentos de nossas ciências são alicerçados na emoção, o que as torna bastante arbitrárias. O autor, porém, ressalta que esse entrelaçamento entre nossa razão e nossa emoção não deve ser considerado uma limitação a nossa racionalidade, mas sua própria condição de possibilidade. Diferentemente dos outros seres vivos, nós seres humanos temos a capacidade de refletir sobre nossas emoções, discuti-las, colocá-las em questão e até mesmo mudá-las através do uso de nossa razão. Somos os únicos seres capazes de uma meta-emoção. AMOR

Outra concepção questionada em seus trabalhos é a respeito da competição como a principal mola propulsora da evolução dos seres vivos. Maturana não hesita em colocar o amor como o princípio fundante de toda inter-relação viva. O autor define a competição como um fenômeno cultural humano de negação, derrota e destruição do outro. Nessa perspectiva, a competição é um evento inexistente no mundo natural, uma vez que a sobrevivência de um indivíduo ou de uma espécie não depende da destruição do outro. Segundo ele,
os seres vivos não humanos não competem, fluem entre si e com outros em congruência recíproca, ao conservar sua autopoiese e sua correspondência com um meio que inclui a presença de outros, ao invés de negá-los (2002b, p. 21).

Por outro lado, a palavra amor tem para o autor um sentido bastante específico. O amor não é um sentimento, mas uma emoção, ou seja, é uma disposição física dinâmica que define certos domínios de ações. Assim, o amor é um domínio de ações em que cada um reconhece o outro como um ser legítimo na convivência. EDUCAÇÃO No primeiro capítulo de seu livro Emoções e Linguagem na Educação e na Política, Maturana apresenta uma proposta para a educação de seu país. O autor explicita que seu projeto é específico para o Chile, mas mesmo assim, ele poderia ser considerada universal, uma vez que se baseia em princípios fraternos e éticos de convivência entre seres humanos e entre os seres humanos e o mundo que lhes rodeia. O autor inicia por definir a educação como um processo em que o educando, inserido em seu meio, convive com os outros e, nessa convivência, se transforma espontaneamente e também influencia na transformação de seu meio e dos outros. Segundo o autor, um dos objetivos da educação é a busca de congruência entre o ser que se educa e seu meio. A educação é, desse modo, um desenvolvimento permanente e recíproco. A seguir, Maturana apresenta o princípio a partir dos quais a educação de seu país deve se desenvolver: a aceitação e o respeito de si mesmo e dos outros no espaço em que convivem. A partir desse princípio, vários desdobramentos são possíveis de ser idealizados, entre eles o currículo, o tratamento dos erros, a avaliação e a relação entre professores e alunos. Segundo essa proposta, a educação para a auto-aceitarem e o respeito por si mesmo – que levará à aceitação e ao respeito pelos outros e pela comunidade de convivência – só pode ocorrer se as pessoas tiverem a oportunidade de se envolverem em saberes e fazeres que lhes sejam significativos, isto é, que tenham a ver com suas vidas, com seu lugar, com seu cotidiano. Segundo o autor, um currículo baseado em atividades

significativas leva cada pessoa a refletir sobre suas atividades e sobre sua comunidade, e é essa reflexão que nos conduzirá ao conhecimento de nosso mundo e à participação efetiva em sua constante criação e re-criação. Nessa perspectiva, os erros, em vez de ser evitados e punidos, devem ser tratados como parte do processo de aprendizagem, como legítimas oportunidades para reflexão e mudança tanto por parte dos alunos como por parte dos professores. Por sua vez, a avaliação deve ter como base a seriedade e a responsabilidade com que cada um realiza suas tarefas. Desse modo, cada aluno deve ser avaliado a partir do valor intrínseco de seu próprio trabalho. No que tange a relação entre professores e alunos, e à relação dos alunos entre si, Maturana sustenta que uma educação baseada em respeito e aceitação é incompatível com a competição, uma vez que essa, como já foi mencionado acima, nega o outro em sua legitimidade. Ao contrário, a proposta educacional do autor chileno recomenda que aprendamos a interagir harmônica e igualitariamente, sem termos de recorrer a castigos ou à negação do outro em qualquer medida. Como objetivo da educação, Maturana coloca a transformação harmônica do mundo, em uma convivência que, por não estar baseada na competição, não gera abuso ou pobreza, nem das pessoas, nem do meio. Ele julga essencial que recuperemos
a harmonia fundamental que não destrói, que não explora, que não abusa, que não pretende dominar o mundo natural, mas que deseja conhecê-lo na aceitação e no respeito para que o bem-estar humano se dê no bem-estar da natureza em que se vive (2002a, p. 34).

Uma vez que somos co-criadores de nosso mundo, o autor acredita que, ao nos tornarmos reflexivos, aprendemos que não somos autônomos em nosso viver, pois dependemos de nossa interação com os outros e com nosso meio. Ao mesmo tempo, a reflexão nos dá a oportunidade de perceber que o mundo em que vivemos depende de nossos desejos, e passamos a ser livres e responsáveis por nossos atos e pelas conseqüências deles. A proposta educacional de Maturana pode ser avaliada como transformadora, sem deixar de ser muito otimista. O autor acredita que é possível que se construa, a partir de uma educação significativa e reflexiva, um mundo mais justo e mais harmônico.

REFERÊNCIAS ____________; VARELA, Francisco. A árvore do conhecimento: as bases biológicas da compreensão humana. 2. ed. São Paulo: Palas Athena, 2002a.

MATURANA, Humberto. Emoções e linguagem na educação e na política. 3. ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002b. Revista Tierramerica. 19 de novembro de 2000. «http://www.tierramerica.net/2000/1119/ppreguntas.html». [On line] Disponível em

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