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Helena H. Nagamine Brandao InrropucAo A ANALISE DO DISCURSO a) FICHA GATALOGRAFIGA ELABORADA PELA Doeuotecs CenTRar oa Uinicamr Branddo, Helena Hathsue Nagamine. B?33i Introdugie & andlise do discurso / Helena H, Nagamine Brandao. ~ Jed. rev, — Campinas, SP: Edisora da Unicame, 2004, i. Amdlise do discurso. 2. Atos de fala (Lingitigcica). [. Titulo. cpp 415 [SBM 85-2G8-0670-% 4121 (ndices para catdlogo sistemdtico: 1. Analise do discurse 4l3 2, Atos de fala (Lingiaistical 412.1 Copyright © by Helens Hathsue Nagamine Brandio Copyright © 2004 by Editora da Unrcaner Tedigio, [999 3* seimpressio, 2007 SUMARIO INTRODUGAG Lingua/Linguagem: uma abordagem interacional Entre a lingua ea fala: 9 discurso CAPITULO | — ANALISE DO DISCURSO wu a Esbogo Autdérico —_. i nmin ES 1 Al perspectina tedrica francesa Ate om £8 O concetta ae idealogia agiicgibaeatecs ) Em Marx... Em Alchusser _... Em Ricoeur .—__.. O conceita ae aliscurso em Foucatlt Lingua, discurse ¢ ideologia —_. Condipdes de produgdo do discurso Formagéo ideoldgica e formagdo discursive _. CAPITULO 2 — SOBRE A NOGAG DE SUJEITO A subjenvidade em Benveniste... O sujeira dercentrada: 0 eu eo otra... A heterogeneidade discursiva Monologismo vers dialogisma.... © discurso e-seu avesso.__ A teoria polifanica de Ducroc...... Sensida e sujeito ma amdlive do Qiscursd een censnsenseee FO Uma teoria nao-subjetivista da enunciagao..... 78 A ilusdo discursiva do sujeiro _.. . 82 Conclusdoa 0... TRSIVIDADIE .cccnsecncnenncnins BE CAPITULG 3 — SOBRE A NOGAO DE A velapdo discurse—interdiseursa on susimsnnennnmnenerne BO (O aatira mo rere ea at aol A intertextualidade ___.... viii Al wba ded QL CWPTEUA sesusisseiemnniniivanin ahi einen DD Dominios de campa enunciative eee ee om 96 © dominio de memédria—.... — a on D8 © dominio de arualidade..... 100 O dominio de antecipagio ... ig | ee OD Ejfeitar de memares..... weadeigviinn Sait Spgs OD Conciusaéo at 103 GiossaRia = aera 105 BipllOGRAFLA BASICA COMENTADA... ciunmuenmeninneaneenmneneaee LL] BIBLIOGRABIA.... siptiouuciginic VEER INTRODUGAG Lingua/Linguagem: uma abordagem interacional Qualquer estudo da linguagem ¢ hoje, de alguma forma, triburdrio de Saussure, quer tomando-o como ponte de par- tida, assumindo suas postulacGes tedricas, quer rejeitando-as. No nosso caso, a referéncia a Saussure deve-se, sobretudo, a sua célebre concepgio dicorémica entre a lingua ¢ a fala. Embora reconhecendo o valor da revolugao lingiifstica provocada por Saussure, logo se descobriram os limites dessa dicotomia pelas conseqiténcias advindas da exclusdo da fala do campo das es- tudos lingiifsticos. Dentre os que sentiram ess4 camisa de forga que co- lecava como objeto da lingiifstica apenas a lingua, tendo-a como algo abstrato ¢ ideal a constituir um sistema sincrénico e homogéneo, esta Bakhtin (Voloshinoy, 1929) que, com seus estudos, antecipa de muito as orientagoes da lingiifstica moderna, 'Palmilhando a crilha aberta por Saussure, parte tam-_ bém do principio de que a lingua ¢ um fato social cuja exis- { réngia se funda nas necessidades de comunicagio. No en- tantorafasti-se do mestre genebrino ao ver a lingua como algo concreto, fturo da manifestacdo individual de cada falante, | valorizando dessa forma a fala, Visando & formulagio de uma teoria do enunciado, Bakhtin atribui um lugar privilegiada 4 enunciagio enquanto realidade da linguagem: “A materia lingiiistica € apenas uma parce do enunciado; existe também uma ourra parte, nao- ‘verbal, que corresponde ao contexto da enunciagao”. Dessa forma, ele diverge dos seus antecessores (Saussure ea escola do subjecivismo individualista representado por Vossler e seus discipulos), para quem o enunciado era um ato individual e, portanto, uma nog4o indo-pertinence lingiiisti- camente. Bakhtin, alids, ndo sé coloca o enunciado como objeto dos estudos da linguagem como dd 4 situago de enun- ciacio o papel de componente necessdrio para a compreensao e explicacao da estructura semantica de qualquer ato de comu- nicagao verbal. Como, através de cada ato de enunciacio, se realiza a incersubjetividade humana, o processo de interagdo verbal passa a constituir, no bojo de sua teoria, uma realidade fun- damental da lingua. O interlocutor nao ¢ um elemento passivo na constituicio do significado. Da concepgio de signo lingitis- tico como um “sinal” inerte que advém da andlise da lingua como sistema sincrénico abstrato, passa-se a uma outra com- preensio do fenémeno: a de signo dialético, vivo, dinamico. Essa viséo da linguagem como interagéo social, em que fo Outre desempenha papel fundamental na constituigSo do |significado, integra todo ato de enunciagao individual num | contexto mais amplo, revelando as relagées intrinsecas entre 0 | lingiiistico e o social. O percurso que o individuo faz da ela- | borage mental do contetido, a ser expresso & objetivagao ex- | | ‘cialmente, buscando adaptar-se ao contexto imediato do ato ida fala e, sobretudo, a interlocutores concretos. terna — a enunciacio — desse contetido, € orientado so- whi Nessa perspectiva, fica evidence que uma lingitistica imanente que se limice ao estudo interno da lingua nao po- der dar conta do seu objeto. E necessdrio que cla traga para o interior mesmo do seu sistema um enfoque que articule o lingiiistico eo social, buscando as relagdes que vinculam a lin- guagem a ideologia. Sistema de significagao da realidade, a linguagem € um distanciamento entre a coisa répresentada e o signo que a representa, E ¢ nessa distancia, no intersticio entre a coisa ¢ sua represencagio signica, que reside 0 ideoldgico, Para Bakhtin, a palavra ¢ 0 signo ideoldgico por exce- léncia, pois, produto da interagio social, ela se caracteriza pela plurivaléncia. Por isso ¢ o lugar privilegiado para amanifestagao da ideologia; retrata as diferentes formas de significar a rea- lidade, segundo vozes e pontos de vista daqueles que a empre- gam. Dialdgica por natureza, a palavra se transforma em arena de luca de vozes que, sicuadas em diferentes posi¢6es, querem ser ouvidas por outras vozes. Conseqtientemente, a linguagem nao pode ser encarada como uma entidade abstrata, mas como 0 lugar em que a ideo- logia se manifesta concretamente, em que 0 idealégico, para s¢ abjetivar, precisa de uma marerialidade, conforme nos mos- tra Bakhtin (Voloshinov, 1929, p. 19) quando afirma: ' Cada signo ideolégico ¢ nio apenas um reflexo, uma sobra da realidade, mas também um fragmenco material dessa realidade, Todo fendmeno que funciona como signo ideo- légico tem uma encarnagao material, seja como som, co- mo massa fisica, como cor, como movimento do corpo ou como outra coisa qualquer. Nesse sentido, a realidade do signo é totalmente objetiva ¢, portanto, passivel de um es- tudo metodologicamente unitdrio ¢ objetivo. Um signo é um fendmeno do mundo exterior. O proprio signo ¢ todas os seus efeicos (todas as agGes, reacdes e novos signos que ele gera no meio social circundante) aparecem na experiéncia exterior, Esce ¢ um ponto de suma imporcancia. No en- tanto, por mais elementar e evidente que ele passa parecer, o estudo das ideologias ainda nao tirou todas.as conseqilén- clas que dele decorrem. Mais tarde, ao definir a carefa da semiologia, Barthes sublinha também a importancia do cardrer ideoldgico do sig- no. Para ele, a ideologia deve ser buscada ndo apenas nos te- mas em que tem sido mais facilmente percebida, mas, so- brecudo, nas formas, isto é, no funcionamento significante da linguagem, que ¢ o lugar onde se da a sua materialidade: Uma das possibilidades da semiologia, enquanto disciplina ou discurso sobre o sentido, ¢ precisamente dar instrumentos de andlise que permicam circunscrever a ideologia nas formas, isto é, onde ela.em geral ¢ menos procurada. O alcance ideo- légico dos contetidos ¢ algo percebido desde ha muito tempo, mas o contetido ideoldgico das formas, sc quiserem, constitul, de certa modo, uma das grandes possibilidades de trabalho do século (apud Robin, 1973). Entre a lingua e a fala: 0 discurso O reconhecimento da dualidade constitutiva da lin- guagem, isto ¢, do seu cardter ao mesmo tempo formal ¢ atra- vessado por entradas subjetivas e sociais, provoca um deslo- camento nos estudos lingiiisticos até entio balizados pela 10 problematica colocada pela cposigio lingua/fala que impds uma lingiiistica da lingua. Estudiosos passam a buscar uma compreensio do fendmeno da linguagem nao mais centrado apenas na lingua, sistema ideologicamente neutro, mas num nivel situado fora desse pélo da dicotomia saussuriana. E essa instancia da linguagem éa do discurso. Ela possibilitard operar a ligagdo necessaria entre o nivel propriamente lingilistico e o extralingiiistico a partir do momento em que se sentiu que “o liame que liga as ‘significagdes’ de um texto ds condigbes s6cio-histéricas deste rexto ndo ¢ de forma alguma secunda- rio, mas constitutive das préprias significagdes” (Haroche er al., 1971, p. 98). O ponto de articulagao dos processos ideoldgicos 1 le dos fendmenos lingiifsticos é, portanto, o discurso. * ~~ A linguagem enquanto discurso nag constitui um uni- verso de signos que serve apenas como instrumento de comu- nicagZo ou suporte de pensamento; a linguagem enquanto dis- curso é interagdo, e um modo de produgio social; ela nao ¢ neutra, inecente ¢ nem natural, por isso o lugar privilegiado de manifestac&o da ideologia. Ela ¢ 0 “sistema-suporte das repre- ~sentagées ideoldgicas (...] ¢ 0 ‘medium’ social em que se ar- ticulam e defrontam agentes coletivos e se consubstanciam relac6es interindividuais” (Braga, 1980), Como elemento de mediacdo necessdria entre o homem ¢ sua realidade e como forma de engajd-lo na prépria realidade, a linguagem ¢ lugar de conflito, de confronto ideoldégico, ndo podendo ser estudada fora da sociedade, uma vez que os processos que a constituem sio histérico-sociais, Seu estudo nao pode estar desvinculado de suas condicdes de produgao. Esse serd o enfoque a ser assu- mido por uma nova tendéncia lingijistica que irrompe na década de 60: a andlise do discurso. ll CAPITULO 1 ANALISE DO DISCURSO Esbogo histdrico Pode-se afirmar com Maingueneau (1976) que foram os formaliseas russos que abriram espago para a entrada no cantpo dos estudos lingtifsticos daquiloe que se chamaria mais tarde discurse, Operando com o texto e nele buscando uma logica de encadcamentos “transfrdsticos”, superam a abor- dagem filolégica ou impressionista que até entao dominava os estudos da lingua. Essa abertura em dire¢ao ao discurso nao chega, entretanto, as ultimas conseqiiéncias, pois seus seguidores, os estruturalistas, propGem-se como objetivo es- tudar a estrutura do texto “nele mesmo e por cle mesmo” € 1 restringem-se a uma abordagem imanente do texto, excluindo qualquer reflexfo sobre sua exterioridade. Os anos 50 serio decisivos para a constituigio de uma andlise do discurso enquanto disciplina. De um lado, surge o trabalho de Harris (Discourse analysis, 1952), que mostra a possibilidade de ultrapassar as andlises confinadas mera- mente a frase, ao estender procedimentos da lingiifstica dis- tribucional americana aos enunciados (chamados discursos) e, de outro lado, os trabalhos de R. Jakobson ¢ E, Benveniste sobre a enunciacao. Esses traballios jd apontam para a diferenga de perspec- tiva que vai marcar uma postura tedrica de uma analise do discurso de linha mais americana, de outra mais europeia. Emboraa obra de Harris possa ser considerada o mar- co inicial da andlise do discurso, ela se coloca ainda como simples excensao da lingiifstica imanente na medida em que transfere e aplica procedimencos de andlise de unidades da lingua aos enunciados ¢ sirua-se fora de qualquer reflexao sobre a significagio ¢ as consideracbes sdcio-histéricas de producdo que vao distinguir ¢ marcar posteriormente a ana- lise do discurso. Numa diregio diferente, Benveniste, ao afirmar que “o locutor se apropria do aparelho formal da lingua ¢ enuncia sua posicao de locutor por indices especifices”, dd relevo ao papel do sujeico falante ne processo da enunciagao e procura mostrar como acontece a inscrigao desse sujeito nos enunciados que ele emite. Ao falar em “posigao” do locuror, ele levanta a questao da relaco que se estabelece entre o locutor, seu enunciado ¢ 0 mundo; relago que estard no centro das reflexdes da andlise do discurso em que o enfoque da posigao sécio-histdérica dos enun- ciadores ocupa um lugar primordial. - Segundo Orlandi (1986), essas duas diregdes vao mar- car duas maneiras diferentes de pensar a teoria do discurso: uma que a entende como uma extensao da lingiilstica (que corresponderia & perspectiva americana) € ourra que con- sidera o enveredar para a vertente do discurso o sintoma de uma crise interna da lingiiistica, principalmente na drea da semAntica (que corresponderia 4 perspectiva européia). Conforme essa visio, o conceito de teoria do discurso como extensao da lingiiistica, aplicado 4 perspectiva tedrica americana, justifica-se pelo fato de nela se considerarem 14 frase € texto como elementos isomdrficos, cujas analises se diferenciam apenas em graus de complexidade, Vé-se 0 tex- ro de uma forma redurora, nfo se preocupando com as for- 'mas de instituigao do sentido, mas com as formas de orga- nizagdo dos elementos que o constituem. : Embora a gramdrica se enrique¢a ¢ ganhe nova oricn- tagZo com quest6es colocadas pela pragmitica e pela socio- lingiifstica, n&o s¢ processa uma ruptura fundamental, pois a questao do sentido continua sendo trarada, essencialmente, no interior do lingiifstica: Acontribuigio da Sociolingiilstica, nesse sentido, é.a de que se deve observar o uso atual da linguagemj ¢ a da Pragmitica éade que a linguagem em uso deve ser estudada em termos dos atos de fala. Embora essas questGes indiquem uma cerca mudanga em relagio 4 dominincia dos estudas da gramdtica, nio produzem um rompimenro maior mas apenas o de se acrescentar um ourre componence & gramdtica. O discurso caracteriza-se como o que vem a mais, 0 que vem depois, 0 que se acrescenta. Em suma, 0 secundidrio, o contingente (Orlandi, 1986, p. 108). Numa perspectiva oposta 4 dessa concepgao da andlise do discurso como extens3o0 da lingiifstica, Orlandi aponta uma tendéncia curopéia que, partindo de “uma relagdo necessdria entre o dizer e as condigdes de produgao desse dizer”, colocaa exterioridade como marca fundamental. Esse pressuposto exige um deslocamento teérico, de cardter conflituoso, que vai re- correr-a conceitos exteriores ao dominio de uma lingiilstica imanente para dar conta da andlise de unidades mais complexas da linguagem. 15 A perspectiva tedrica francesa Para Maingueneau (1987), a chamada “escola francesa de andlise do discurso” (que abreviaremos AD) filia-se: * a uma certa tradigio intelectual européia (¢ sobrerudo da Franca} acostumada a unir reflexdo sobre texto e sobre his- téria, Nos anos 60, sob a égide do estrururalismo, a con- juntura intelectual francesa propiciou, em torno de uma reflexdo sobre a “escrirura’, uma articulagdo encre a lingiifs- tica, © marxismo € a psicandlise. AAD nasceu tendo como base a interdisciplinaridade, pois ela era preocupagao nao sé de lingilistas como de historiadores e de alguns psicdlogos; » ¢a uma certa prdtica escolar que ¢ a da “explicag&o de tex- to”, muito em voga na Franga, do colégio a universidade, nos idos anteriores a 1960, Para A. Culioli (apud Mainguencau, 1987, p. G), “a Franca ¢ um pais em que a literatura exerceu um grande papel e pode-se perguntar se a andlise do discurso nao é uma maneira de substicuir a explicagae de texto en- quanto exercicio escolar’, Inscrevendo-se em um quadro que articula o lingiiistico com o social, a AD vé seu campo estender-se para outras areas do conhecimento ¢ assiste-s¢ a uma verdadeira proliferagio dos usos da expressiio “andlise do discurso”. A polissemia de que se investe o termo “discurso” nos mais diferentes esforgos ana- liticos entao empreendidos faz com que a AD se mova num terreno mais ou menos fluido. Ela busca, dessa forma, definir o seu campo de atua¢do, procurando analisar inicialmente cor- pora tipologicamente mais marcados — sobretudo nos discur- sos politicos de esquerda — e textos impressos. Sente-se a n¢- 16 cessidade de critérios mais precisos para delimitar o campo da AD a fim de se chegar a sua especificidade. Definida inictal- mente como “o estudo lingiiistico das condigées de produgao de um enunciado”, a AD se apdia sobre conceitos e métodos da lingilistica ("A AD pressupoe a Lingilistica ¢ ¢ pressupondo a Lingilstica que ganha especificidade em relag¢do as meto- dologias de tracamento da linguagem nas ciéncias humanas”, Orlandi, 1986, p. 110). Se por um lado esse pressuposto teo- rico e metodoldgico da lingiiistica distingue a AD das outras dreas das ciéncias humanas com as quais confina (histéria, so- ciologia, psicologia erc.), por outro, entretanto, nao sera suh- ciente para, por si sé, marcar a sua especificidade no interior dos estudos da linguagem, sob o risco de permanecer numa lingiifstica imanente. Serd necessdrio considerar outras dimen- ses, como as que aponta Maingueneau (1987): o quadro das instituigdes em que o discurso € produzido, as quais delimitam fortemente a enunciagao; os embates histdéricos, sociais etc. que se cristalizam no dis- Curso; o espago préprio que cada discurso configura para si mesmo no interior de um interdiscurso. | Dessa forma, a linguagem passa a set um fendmeno que deve ser estudado nio sé em relacdo ao seu sistema interno, en- quanto formagao lingilistica a exigir de seus usudrios uma com- peténcia especifica, mas também enquanto formagao ideoldgica, que s¢ manifesta através de uma competéncia socioideoldgica: Uma pritica discursiva nio pode se explicar senao em fungio de uma dupla competéncia: 1. uma competéncia especifica, 17 : sistema interiorizada de regras especificamente lingilisticas € que asseguram a producdo ea compreensao de frases scmpre novas — o individuo ew unilizando essas regras de maneira especifica (nerformance); 2. uma competéncia ideoldgica ou geral que rorna impliciramence possivel a coralidade das agoes e das significagdes novas (Slakta, 1971, p. 110). Preconizando, assim, um quadro tedrico que alic o lin- glilscico ao sécio-histdérica, na AD, dois conceicos tornam-se nucleares: o de ideologia ¢ o de discurso, As duas grandes ver- tentes que vio influenciar a corrente francesa de AD saa, do lado da ideologia, os conceitos de Althusser e, do lado do dis- curso, as idéias de Foucault. E sob a influéncia dos trabalhos desses dois tedricos que Pécheux, um dos estudiosos mais pra- ficuos da AD, elabora os seus conceitos. De Althusser, a influéncia mais direta se faz a partir de seu trabalho sobre os aparelhos ideoldégicos de Estado na conceituagao do termo “for- magao ideclégica”. E serd da Arqueologia do saber que Pécheux extraird a expresséo “formagio discursiva’, da qual a AD se apropriard, submetendo-a a um trabalho especifico, O conceita de ideologia Matizado por nuangas significativas, o termo ideologia é ainda hoje uma nogo confusa e controversa. Antes de abor- dar 0 conceito de ideologia ¢m Althusser, serio expostas algu- mas colocagées sobre o fendmeno ideoldgico feiras por Marx, do qual o primeiro ¢ tribucdrio, e, em seguida, algumas con- sideragdes de Ricoeur (1977), que retoma uma visao inte- tessante de Jaques Ellul sobre o fendmeno idcoldgico. 18 Segundo Chaui (1981), o termo “ideologia”, criado pelo fildsofo Destutt de Tracy em 1810 na obra Elements de idgologie, nasceu como sindnime da atividade cientifica que procurava analisar a faculdade de pensar, tratando as tdéias “como fenomenos naturais que exprimem a relagio do corpo humano, enquancto organismo vivo, com 0 meio ambiente” (p. 23). Encendida como “ciéncia positiva do espirito”, ela se opunha 4 metafisica, 4 teologia ¢ 4 psicologia pela exatidao e rigor cientificos que se prapunham como método. Contrariando esse significado original, o termo passa a ter um sentido pejorative pela primeira vez com Napoledo, que qualifica os idedlogos franceses de “abstratos, nebulosos, idealistas ¢ perigosos (para o poder) por causa do seu desco- nhecimento dos problemas concretes” (Reboul, 1980, p. 17). A ideologia passa a ser vista entao como uma doutrina irrea- lista e sectdria, sem fundamento objetivo, e perigosa para a ordem estabelecida. Em Marx ues Em Marx ¢ Engels, vamos encontrar o termo ideo- logia” também impregnado de uma carga semantica ne- gativa. A semelhanca de Napoledo, que criticara os filésofos franceses, Marx e Engels condenam a “maneira de ver abs- trata ¢ ideoldgica” dos fildsofos alemaes que, perdidos na sua fraseologia, ndo buscam a “ligacdo entre a Filosofia alema € a realidade alemi, o lago entre sua critica ¢ seu proprio meio marerial” (1965, p. 14). Marx ¢ Engels identificam *“ideologia” com a separagao que se faz entre a produgao das idéias ¢ as condigGes sociais I \ 12 e histéricas em que s4o produzidas. Por isso ¢ que eles comam como base para suas formulacdes apenas dados possiveis de uma verificagio puramente empirica: os dados da realidade ique so “os individuos reais, sua agdo € suas condicdes ma- ceriais de existéncia, aquelas que jd encontram a sua espera ¢ aquelas que surgem com a sua propria agio” (p. 14). Dessa forma, cirando novamenre Marx e Engels, a “pro- ducio de idéias, de concepgGes ¢ da consciéncia liga-se, a prin- cipio, direcamence ¢ intimamente 4 atividade material ¢ ao comercio material dos homens, como uma linguagem da vida real”, Consegiientemente, “a observagdo empifrica tem de mos- trar empiricamente ¢ sem qualquer especulagao ou mistificagio a ligacao entre a estrucura social ¢ politica e a produgao”. No entanto, o que as ideologias fazem, segundo Marx ¢ Engels, é colocar os homens ¢ suas relacées de cabega para bai- XO, como ocorre com a refragio da imagem numa camara es- cura. Metaforicamente, essa inversio da imagem, isto é, o “des- cer do céu para a terra em vez de ir da terra para o céu” que cle denuncia nos fildsofos alemies, representa o desyio de percursa que consiste em partir das iddias para se chegar a realidade. Segundo Chaui (1980), € nesse momento que, para Marx, nasce a ideologia propriamentce dita, isto ¢, o sistema ordenado de idéias ou representagdes e das normas ¢ regras como algo separado ¢ independente das condigées materials, visto que seus produtores — os tedricos, as idedlogos, os intelectuaig — no estao diretamente vinculados & produ- ¢a0 material das condicdes de existéncia. E, sem perceber, exprimem essa desvinculagdo ou separagdo através de suas idéias (p. 65). 20 ' ' Essa separacao encre trabalho intelectual ¢ trabalho ma- terial di uma aparente auronomia ao primeiro, iste ¢, as idéias que, autonomizadas e prevalecendo sobre 0 segundo, passam a ser expressao das idéias da classe dominante: As idéias da classe dominante sao, em cada época, as ideias dominantes, isto é, a classe que é a forga material dominance da sociedade é, ao mesmo tempo, sua forga espiritual. A classe que tem 4 sua disposi¢ao os meios de produgao ma- terial dispde, ao mesmo tempo, dos meios de produgio es- piricual, [...] Na medida em que dominam como classe ¢ determinam todo o ambiro de uma época histérica, ¢ evi- dente que o fagam em toda a sua extensdo ¢, conseqiicn- temenre, entre outras coisas, dominem também como pen- sadores, como produtores de iddias; que regulem a produ- Ho ¢ distribuigao de iddias de seu tempo ¢ que suas iddias sejam, por isso mesmo, as idéias dominantes da época (Marx ce Engels, 1965, p. 14). E na seqiiéncia dessas colocagdes que Chaui (1980) chega entio A caracterizagao da ideologia segundo a concep- | cao marxista. Ela é um instrumento de dominagao de classe porque a classe dominante faz com que suas idéias passem a ser idéias de todos. Para isso eliminam-se as contradigdes en- tre forca de produgio, relagdes sociais € consciéncia, resul- lrantes da divisio social do trabalho material e intelectual. Necessdria a domimagio de classe, a ideologia é ilusao, isto ¢, abstracdo e inversio da realidade, ¢ por isso permanece sempre no plano imediato do aparecer social... o aparecer social € o modo de ser do social de ponta-cabega. 21 10 Aaparéncla social nao 4 algo falso ¢ errado, mas ¢ o modo como 0 processo social aparece para a consciéncia direta dos homens. [sto significa que uma ideologia sempre possul uma base real, sé que essa base estd de ponta-cabega, ¢ a aparéncia social (p. 105). Para criar na consciéncia dos homens essa visao iluséria da realidade como se fosse realidade, a ideologia organiza-se “como um sistema ldgico ¢ coerente de representagGes (idéias e valores) e de normas ou regras (de condura) que indicam e prescrevem aos membros da sociedade o que devem pensar e como devem pensar, o que devem valorizar, o que devem sentir, o que devem fazer e como devem fazer” (Chaui, 1980, p. 113). Ela se apresenra, ao mesmo tempo, como explicagao tedrica ¢ pratica. Enquanto explicagao, ela nao explicita e, alids, ndo pode explicitar tudo sob o risco de se perder, de se destruir ao expar, por exemplo, as diferencas, as contradigdes sociais. Essa manobra camufladora vai fazer com que o dis- curso, e de modo especial o marcadamente ideoldgica, se ca- racterize pela presenca de “lacunas”, “siléncios” que preservem a coeréncia do seu sistema. Dessa forma, se em Marx o termo “ideologia’ parece , brancos” escar reduzido a uma simples categoria filoséfica de ilusio ou mascaramento da realidade social, isso decorre do fato de se tomar, como ponto de partida para a elaboragdo de sua teoria, a critica-ao sistema capitalista ¢ o respectivo desnudamento da ideologia burguesa. A ideologia a que ele se refere ¢, por- tanto, especificamente a ideologia da classe dominante. 22 Em Althusser 1 1 Em Ideologia ¢ aparelhos ideoldgices do Estado (1970), Althusser afirma que, para manter sua dominagao, a classe do- minante gera mecanismos de perpetuagao ou de reprodugaio das condicées materiais, ideoldgicas e politicas de exploragao. E ai entao que entra o papel do Estado que, através de seus Aparelhos Repressores — ARE — (compreendendo o gover- no, a administragio, o Exército, a policia, os tribunais, as pri- sdes ecc.) e Aparelhos Ideolédgicos — AIE — {compreendenda instituigdes tais como: a religido, a escola, a familia, direica, a politica, o sindicato, a cultura, a informagio), intervém ou pela repressio ou pela ideologia, tentando forcar a classe do- minada a submeter-se 4s relagdes ¢ condigées de exploragio. Dentre as diferencas que Althusser estabelece entre os ARE ¢ os AIE escaria sua forma de funcionamento: enquanto que 05 primeiros “funcionam de uma-maneira massivamente pre- valente pela repressdo (inclusive fisica), embora funcione se- cundariamente pela ideologia’; inversamente 05 segundos “fun- cionam de um modo massivamentce prevalente pela ideologia, embora funcionando secundariamente pela repressdo, mesmo que no limite, mas apenas no limite, esta seja bastante ate- nuda, dissimulada ou até simbdlica” (p. 47). Althusser assinala que, como todo funcionamento da ideologia dominante esta concentrado nos AIE, a hegemo- nia ideolégica exercida através deles ¢ importante para se cria- rem as condicoes necessdrias para reprodugao das relacGes de producio. Na segunda parte de seu ensaio, Althusser retoma as in- dagagdes sobre o conceito de ideologia, mas nao mais sob o en- foque da problemdtica dos AIE e da reprodugao que gira em 23 del tos torno de um uso especifico do conceito, o de “ideologia do- minante”. Nessa parte do seu escudo, ele vai se aplicar a con- ceituagdo do que entende por ideologia em geral, que lhe é distinca das ideologias particulares, “que exprimem sempre, seja qual for a sua forma (religiosa, moral, juridica, politica), posigdes de classe” (p. 12). Sua “ideologia em geral” seria, no fundo, a “abstragdo dos elementos comuns de qualquer ideologia concreta, a fi- xagio tedrica do mecanismo geral de qualquer ideologia” e, para explicd-la, formula trés hipdteses: a) “a ideologia representa a relacio imagindria de individuos com suas reais condigées de existéncia’, (Com esta tese, Alchusser se opSe & concepgdo simplista de ideologia como representagdo mecinica (ou “mimética”) da realidade; para ele, o problema da ideologia se coloca de outra forma: a ideologia ¢ a maneira pela qual os homens vivem a sua relacdo com as condigdes reais de existéncia, ¢ essa relagdo é necessariamente imaginaria, Acentua o cardter ima- gindrio, 0 aspecto, por assim dizer, “produtivo” da ideologia, pois o homem produz, cria formas simbdlicas de represen- taco da sua relagao com a realidade concreta. O imaginario é6 modo como o homem atua, relaciona-se com as condi¢ées reais de vida, Sendo essas relagdes imagindrias, isto €, repre- sentadas simbolicamente, abstratamente, supdem um distan- ciamento da realidade. E esse distanciamento pode ser “a causa para a transposigao ¢ para a deformacio imagindria das condicées de existéncia reais do homem, numa palavra, para a alienacio no imagindrio da representagao das condigées de existéncia dos homens” (p. 80). 24 b) “a ideologia tem uma existéncia porque existe sempre num aparelho ¢ na sua prdtica ou suas praticas”. Para explicar sua tese, Althusser parte da colocagao feita por uma correnre idealista que reduz a ideologia a idéias dotadas por definigio de existéncia espiritual; em ou- tras palavras, 0 comportamento (material) de “um sujeito dotado de uma consciéncia em que forma livremente, ou reconhece livrementre, as iddias em que cré”, decorre natu- ralmente dessas idéias que constituem a sua crenga. Re- conhece-se, dessa forma, que as id¢ias de um sujeito existem ou devem existir nos seus atos, € se isso N4o acontece, ¢m- prestam-se-lhes outras idéias correspondentes aos aros que ele realiza. Para Alchusser, entretanto, essas iddias deixam de ter uma existéncia ideal, espiritual, e ganham materialidade na medida em que sua existéncia sé ¢ possivel no scio de “um aparelho ideolégico material que-prescreve prdticas ma- teriais governadas por um ritual material, praticas que exis- tem nas acées materiais de um sujeito” (McLennan et ales 1977, p. 125). Aexisténcia da ideologia ¢, portanto, material, porque as relagdes vividas, nela representadas, envolvem a parti- cipagao individual em dererminadas praticas ¢ rituais no in- terior de aparelhos ideolégicos concretos. Em outros ter- mos, a ideologia se materializa nos atos concretos, assu- mindo com essa objetivagao um cardter moldador das agGes. Isso leva Althusser a concluir que a prdtica sé existe numa ideologia ¢ através de uma ideologia, c) “a ideologia interpela individuos como sujeitos”. 25 12 Toda ideologia tem por fungao constituir individuos conereros em sujeiros. Nesse processo de consticuigao, a inter- pelagio eo (re)conhecimento exercem papel importante no funcionamento de toda ideologia. E através desses mecanis- mos que a ideolagia, funcionando nos rituais materiais da vida cotidiana, opera a transformagao dos individuos em su- jeitos. O reconhecimento se dé no momento em que o sujcito se insere, a si mesmo ¢ a suas agGes, em praticas reguladas pelos aparelhos ideolégicos. Como categoria consticutiva da ideologia, sera somente através do sujeito € no sujeito que a existéncia da ideologia serd possivel. Em Ricoeur © fenédmeno ideoldgico tem sido fortemente marcado pelo marxismo. Sem querer combater Marx ou ira seu favor, Paul Ricoeur alerta para uma tendéncia que se faz sentir sob 4 influéncia de se fazer uma interpretagio redurora do fend- meno ideoldgico partindo de uma andlise em termos de clas- ses sociais. Interpretagao redutora porque ela define ideologia apenas por sua fungao de justificagao dos interesses de uma classe, a dominante. Uma definicio de ideologia que a reduz as fung6es de dominagio ¢ de justificagdo ¢ que nos leva a aceitat, sem eri- tica, a identificagdo de ideologia com as nogées de erro, men- tira, ilusdo. Ele nao nega a existéncia de tals fungdes, mas, antes de chegar a ela, diz ser preciso entender uma furg¢3o an- terior e basica que concerne a ideologia em geral. Ele analisa o conceite de ideologia em trés instancias: a) Funcao geral da ideologia 26 Ricoeur (1977) atribui a ideologia a fungdo geral de mediadora na integragdo social, na coesio do grupo. Esse papel se caracteriza pela presenga de cinco tragos: 1) A ideologia perpetua um ato fundador inicial. Nesse sen- a ideologia ¢ fungao da distancia que separa a memoria so- cial de um acontecimento que, no entanto, trata-se de repetir. Seu papel nfo ¢ somente o de difundir a convicgfio para além do cfreulo dos pais fundadores, para converré-la num credo de ado o grupo, mas também o de perpetuar a energia ini- | cial para além do periodo de efervescéncia (p. 68). Essa perpetuagao de um ato fundador ested ligada a “ne- cessidade, para um grupo social, de conferir-se uma ima- gem de si mesmo, de representar-se, no sentido teacral do termo, de representar e encenar’. 2) A ideologia é dindmica e motivadora. Ela impulsiona a pra- xis social, motivando-a, ¢ “um motive ¢ ao mesmo tempo aquilo que justifica e que compromete”. Por isso, “a ideo- logia argumenta”, estimula uma praxis social que a con- cretiza. Nesse sentido, ela ¢ mais do que um simples reflexo de uma formagdo social, ela é também jestificapdo (porque sua praxis “é movida pelo desejo de demonstrar que o grupo que a professa tem razao de ser o que €") e projeto (porque modela, dita as regras de um modo de vida). 3) Toda ideologia ¢ simplificadora e esquematica. Inerente a sua funcao justificadora, a ideologia apresenta um carter codificado “para se dar uma visao de conjunto, nao so- mente do grupo, mas da histéria ¢, em tiltima instancia, do a7 13 mundo”, Por isso, visando 4 eficacia social de suas idéias, ela é tacionalizadora e sua forma de expressdo preferencial so as maximas, slogans e forrnas lapidares onde a retérica esta sempre presente. 4) Uma ideologia é operardria e nio-temdtica. Isto €, “ela opera atrds de nds, mais do que a possuimos como um tema dian- te de nossos olhos. E a partir dela que pensamos, mais do que podemos pensar sobre ela” (p. 70). E dewido a esse esta- ruto nio-reflexivo ¢ ndo-ceansparente da ideclogia que se vinculau a ela a nocdo de dissimulagao, de distorcao. 5) A ideologia é, poderfamos dizer, intolerante devido & inércia que parece caracterizd-la. Inércia em relagdo ao aspecto tem- poral, uma vez que “o novo s6 pode ser recebido a partir do tipico, também oriundo da sedimentagao da experiéncia social”, Nesse sentido, a ideologia ¢ conservacio e resis- tancia 2s modificag6es. O novo pde em perigo as bases es- tabelecidas pela ideologia. Ele representa um perigo ao grupo cujos membros devem se reconhecer ¢ se reencontrar na comunhio das mesmas idéias e priticas sociais. A ideo- logia opera, assim, um estreitamento das possibilidades de interpretagdo dos acontecimentos. Aferada pelo seu ca- rdter esquematizador, ela se sedimenta enquanto os fatos € as situac6es se transformam. Sedimentagao que pode levar a0 “enclausuramento ideoldgico e até mesmo 4 cegueira idealdgica’. b) Fungio de dominagao Nessa instincia, o conceito de ideologia esta ligado aos aspectos hierarquicos da organizagao social cujo sisterma de autoridade interpreta ¢ justifica. 28 ' "Toda autoridade procura, segundo seus sistemas poli- ticos, legitimar-se, ¢ para tal € necessirio que haja correlaci- vamente uma crenga por parte dos individuos nessa legitimi- dade. Como a legitimagiio da autoridade demanda mais cren¢a do que os individuos podem dar, surge a ideologia como sis- tema justificador da dominagao. Eéno momenco em que a ideologia-integragao se cru- za com a ideologia-dominagao que emerge o cardter de dis- torcdo ede dissimulacio da ideologia. Mas nem todos os tra- gos que foram atribufdos a seu papel mediador passam 4 fun- cio da dissimulacdo, como se costuma fazer. ¢) Fungio de deformagao ae . on Aqui o cermo “ideologia” adquire a nogio marxista pro- priamente dita. Tomando a religido (que opera a inversio entre o céu ea terra) como a ideologia por exceléncia, Marx, como jd vimos, conceitua o fendmeno ideoldgico como aquilo que nos faz, segundo palavras de Ricoeur, “tomar a imagem pelo real, o reflexo pelo original”. Para Ricoeur, essa fungdo de deformacao é uma instincia especifica do conceito de ideologia e supe as duas outras ana- lisadas anteriormente. Pois para ele ¢ bisico, no fenémeno idealégico, o papel mediador incorporado ao mais elementar vinculo social: “a ideologia é um fendmeno insuperdvel da exis- téncia social, na medida em que a realidade social sempre possuiu uma constituigao simbélica ¢ comporta uma inter- pretagdo, em imagens e representagoes, do prdprio vinculo social” (p. 75). Seguindo o percurso analitico de Ricoeur, podemos sentir que, na instancia inicial, quando o fenémeno ideold- 29 14 gico tem sua fungao originariamente ligada ao papel de me- diador na integragio social, a nogao de ideologia nao carrega propriamente sentido negativo. Esse sentido negative apa- recerd (e se fixara definitivamente com o marxismo) quando o fendmeno se cristalizar em face do problema da autoridade que, acionando 0 sistema justificativo da dominagao, detona 9 cardter de distorcao e de dissimulagao da ideologia. Um balango das colocagées vai-nos mostrar que ¢ssas diferentes formas de ver e conceituar a jdeologia oscilam entre dois pélos; ¢ isso certamente vai determinar maneiras dife- rentes de abordar a relagdo linguagem—ideologia, De um lado, temos uma concep¢io de ideologia geral- mence ligada & cradicdo marxista, que apresenta © fendmeno ideologia de mancira mais restrita e particular, entendendo-o como o mecanismo que leva ao escamoteamento da realidade social, apagando as contradigoes que lhe sao inerences. Con- seqilentemente, preconiza a existéncia de um discursa ideo- ldégico que; utilizando-se de varias manobras,-secve para le- gitimar o poder de uma classe ou grupo social. De outro lado, temos uma nogao mais ampla de ideo- logia que ¢ definida como uma visio, uma concepsio de mundo de uma dererminada comunidade social numa deter- minada circunstancia histérica. Isso val acarretar uma com- preensao dos fendmenos linguagem ¢ ideologia como nogGes estreitamente vineuladas ¢ mutuamente necessirias, uma vez que a primeira ¢ uma das instancias mais significativas em que a segunda sc materializa. Nesse sentido, nao ha wm discurso jdeoldgico, mas sodos os discursos 0 sic, Essa postura deixa de lado uma concepgio de idealogia como “falsa consciéncia’ ou dissimulagao, mascaramento, voltando-se para outra di- regio ao entender a ideologia como algo inerente ao signo em 30 geral. Dessa forma, pelo cardter arbitrario do signo, s¢ por um lado a linguagem leva a criagio, & produtividade de sentido, por BEES representa Unt risco na medida em que permite manipular a construcdo da referéncia. Essa liberdade de re- lagao entre signo e¢ sentido permite produzir, por exemplo, senddos novos, atenuar outros ¢ eliminar os indesejdveis. Parece que essas duas concepgdes nao se excluem se partirmos do pressuposte de que a ideologia, enquanto con- cepcio de mundo, apresenta-se como uma forma legitima, verdadeira de pensar esse mundo. Tal modo de pensar, de recortar 0 mundo — atravessado pela subjetividade — em- bora se apresente como legitimo, pode ser, no entanto, in- ae com a realidade, isto ¢, os modos de organizagio dos dados fornecidos pela ideologia podem ser autd 5 imagindrios, ficticios em relagio a a de sepictesias realidade. Essa incompatibilidade pode ser vivida de maneira inconsciente. E nesse sentido que Ricoeur diz ser a ideologia operatéria e nio-temdtica, porque, “operando atrds de nds” éa partir dela que pensamos ¢ agimos sem, muitas vezes, tematiza-la, trazé-la ao nivel da consciéncia. Ela, entretanto, pode ser produzida intencionalmente. E nesse ponto que as duas concepgées de ideclogia se cruzam. Isso pode ocorrer asnaal j j SP cificamente com determinados discursos como o po- litico, o religioso, o da propaganda, enfim, os marcadamente institucionalizados. Neles, faz-se um recorte da realidade, embora, por um mecanismo de manipulagio, o real nao se mostre na medida em que, intencionalmente, se omitem, atenuam ou falseiam dados, como as contradigées que sub- jazem as relagdes sociais. Selecionando, dessa maneira, 05 elementos da realidade e mudando as formas de articulagao do espaco da realidade, a ideologia escamoteia 0 modo de 31 15 sec do mundo. E esse modo de ser do mundo, veiculado por esses discursos, ¢ 0 recorte que uma dererminada instituigao ou classe social (dominante) num dado sistema (por exemplo, io capitalista) faz da realidade, retratando assim, ainda que de forma enviesada, uma visio de mundo. O conceito de discurso em Foucault Alguns dos conceitos colocados por Foucault foram fecundos para aqueles que s¢ langaram numa pesquisa lin- gilistica visando ao discurso. Foucault (1969) concebe os discursos como uma dis- persao, isto é, como sendo formados por elementos que nio esto ligades por nenhum principio de unidade. Cabe & and- lise do discurso descrever essa dispersio, buscando o estabe- lecimenco de regras capazes de reger a formagGo dos discursos. Tais regras, chamadas por Foucault de “regras de formagao", possibilitariam a determinagao dos elementos que compdem o discurso, a saber: os ebjefos que aparecem coexistem e se transformam num “espaco comum’” discursivo; os diferentes tipos de enunciagdo que podem permear a discurso; os con- ceites em suas formas de aparecimenco e transformagao em um campo discursivo, relacionados em um sistema comum; Os femas ¢ teorias, isto é, o sistema de relagdes encre diversas estratégias capazes de dar conta de uma formagao discursiva, permitindo ou excluindo certos temas ou teorias. Essas regras que determinam, portanto, uma “formagao discursiva” se apresentam sempre como um sistema de re- lacSes entre objetos, tipos enunciativos, conceitos ¢ estra- tégias. Séo elas que caracterizam a “formagao discursiva’ em 32 ' ' sua singularidade e possibilitam a passagem da dispersao para a regularidade. Regularidade que € atingida pela analise dos enunciados que consticuem a formagio discursiva. Definindo o discurso como um conjunco de enuncia- dos que se remetem a uma mesma formagao discursiva (“um discurso € um conjunto de enunciados que tem seus prin- cipios de regularidade em uma mesma formacao discursiva’, Foucault, 1969, p. 146), para Foucault, a andlise de uma for- macio discursiva consistird, entao, na descrigdo dos enun- ciados que a compéem. E a nogo de enunciado em Foucault é contraposta 4 nogio de proposigao ¢ de frase (unidades, res- pectivamente, constitutivas da ldgica e da lingiiistica da frase), concebendo-o como a unidade elementar, basica, que forma um discurso. O discurso seria concebido, dessa forma, como uma familia de enunciados pertencentes a uma mesma for- magao discursiva, Foucaule enumera quatro caracter{sticas constitutivas do eaunciado. A primeira diz respeito a relagio do enunciado com seu correlato que ele chama de “referencial”. O “refe- rencial”, aquilo que o enunciado enuncia, “é a condicdo de possibilidade do aparecimento, diferenciagao ¢ desapareci- mento dos objetos ¢ relagdes que so designados pela frase”. Assim, o enunciado, por sua fungao de existéncia, “relaciona as unidades de signos que podem ser proposigGes ou frases com um dominio ou campo de objetos” (Machado, 1981, p. 168), possibilitando-as de aparecerem com contetidos concretos no tempo € ho espago, A segunda caracteristica (em cuja exposigao nos alon- garemos devido & importincia da questo para a andlise do discyrso) diz respeito a relagao do enunciado com seu sujeito. Foucault situa-se na vertente oposta a uma concepgio idea- 33: 16 lista do sujeito que, interpretado come o fundadar do pen- samento ¢ do objeto pensado, vé a histéria como um processo scm ruptura em que os elementos sdo introduzidos conti- nuamente no tempo concebido como coralizagao. Critica, dessa forma, uma concepgao do sujeito enquanto instancia fundadora da inguagem: Poder-se-ia dizer que o tema do sujeito fundadar permite eli- dir a realidade do discurse. O sujeito fundador [...] esta en- carregado de animar diretamente “com seu mado de ver" as formas vazias da lingua: ¢ ele que, atravessando a espessura ou a inércia das coisas vazias, revoma, intuitivamente, o sen- tide que ai se encontra depositado; é ele igualmente que, para além do tempo, funda horizontes de significagdes que a his- tdria nao terd, em seguida, senao que explicicar ¢ onde as pro- posi¢des, a5 ciéncias, os conjuntos dedutivos encontrarao enfim seu fundamenro. Em sua relagdo cam o sentido, 9 su- jeito fundador dispde de signos, de marcas. de tragas, de le- tras. Mas no tem necessidade, para os manifestar, de passar pela instancia singular do discurso (1974, p. 49). Rompendo com essa ordem classica que via a historia como um discurso do continuo, do desenrolar previsivel do Mesmo, Foucault instaura uma nova visio da histéria como ruptura e descontinuidade, construindo-se uma série de mu- tages inaugurais na qual nao ha lugar para um projeto di- vino ou humano. Atribuindo & instincia singular do discurso um estatuto privilegiado, para ele, a matéria de uma andlise histérica descontinua é 0 evento na sua manifestagao dis- cursiva sem referéncia a uma teleologia ou a uma subjetivi- dade fundadora: “Descrever uma formulagao enquanto enun- 34 ciado nao consiste em analisar as relagSes entre o auror co que ele diz (ou quis dizer, ou disse sem querer); mas em deteemmi- nar qual é a posigdo que pode ¢ deve ocupar codo individuo para ser seu sujeito” (1969, pp. 119-20). Dessa forma, se 0 sujeito é uma fungdo vazia, um espago a ser preenchido por diferentes individuos que o ocuparao ao formularem o enun- ciado, deve-se rejeitar qualquer concepgae unificante do su- jeito. O discurso nao ¢ atravessado pela unidade do sujeito e sim pela sua dispersio; dispersao decorrente das varias posi- cdes possiveis de serem assumidas por ele no discurso: “as diversas modalidades de enunciag&o em lugar de remeter & sintese ou A funcSo unificante de um sujeito, manifestam sua dispersao” (1969, p. 69). Dispersdo que reflete a descontinui- dade dos planos de onde fala o sujeito que pode, no interior do discurso, assumnir diferentes estatutos. Esses planos “estio ligados por um sistema de relagdes, o qual nao € estabelecido pela atividade sintética de uma consciéncia idéntica a si, mu- da ou prévia a qualquer palavra, mas pela especificidade de uma pratica discursiva’ (1969, p. 70). A concepgao de discurso como um campo de regula- ridades, em que diversas posigoes de subjetividade podem ma- nifestar-se, redimensiona o papel do sujeito no processo de organizagao da linguagem, eliminando-o como fonte geradora de significagSes. Para Foucault, o sujeito do enunciado nao é causa, origem ou ponto de partida do fenémeno de articulagio Eserita ou oral de um enunciado e nem a fonte ordenadora, movel ¢ constante, das operagoes de significagao que os enun- ciados viriam manifestar na superficie do discurso. Oucra caracteristica ¢ a que diz respeito 4 existéncia de um dominio, ou seja, de um “campo adjacente” ou “espago colareral”, associado ao enunciado integrando-o a um conjunto 33 1? de enunciados, jd que, ao contrario de uma frase ou proposigao, nao existe um enunciado isoladamente: Todo enunciado se encontra assim especificado: nao existe enunciado em geral, enunciade livre, neutro ¢ independen- te; mas, sempre um enunciado fazendo parce de uma série ou de um conjunto, desempenhando um papel no meio dos ou- tros, apoiando-se neles € se distinguindo deles: ele se integra sempre em um joge enunciative (1969, p. 124). A quarta caracreristica constitutiva do enunciado é€ aquela que o faz emergir como objeto: refere-se a sua con- dicao maccrial. Para caracterizar essa materialidade, Foucault faz uma distingao entre enunciado e enunciagao. Esta se di toda vez que algudm emite um conjunto de signos; enquanta a enunciacao se marca pela singularidade, pois jamais se re- pete, o enunciado pode ser repetido. Hipoteticamente, enun- ciagSes diferentes podem encerrar o mesmo enunciado. No entanto, como a repetigao de um enunciado depende de sua materialidade, que ¢ de ordem institucional, isto ¢, depende de sua localizagio em um campo institucional, uma frase dita no cotidiano, inserida num romance ou inscrita num outro tipo qualquer de texto, jamais serd o mesmo enunciads, pois em cada um desses espagos, possui uma fun¢do enunciativa diferente. As idéias de Foucault sio fecundas na medida em que colocam diretrizes para uma andlise do discurso, mas ve- rificar como se concretizam essas diretrizes, no nivel lin- gilistico propriamente dito, é uma tarefa que deixa aos lin- pilistas, ¢ ele nao a realiza uma vez que no tinha como preo- cupacao central o enfoque do discurso enquanwo problema 36 lingtifstico (1979, p. 247). Com essa ressalva, destacaremos dentre as suas idéias, enquanto contribuicao para o estudo ' ' * er da linguagem, os seguintes itens: a) a concepgdo do discurso considerado como prdtica que provém da formacao dos saberes, ¢ a necessidade, sobre a qual insiste obsessivamente, de sua arriculagao com as ou- tras prdticas nao-discursivas; bjo conceito de “formagio discursiva’, cujos elementos cons- titutivos sao regidos por determinadas “regras de formagao’; c) dentre esses elementos constitutivos de uma formagio dis- cursiva, ressalra-se a distingao entre enunciagio (que em diferences formas de jogos enunciativos singulariza o dis- curso) eo enunciado (que passa a funcionar como a uni- dade lingiifstica bésica, abandonando-se, dessa forma, a nocao de sentenga ou frase gramatical com essa fungao); d) a concepgdo de discurso como jogo estratégico e polémico: o discurso nao pode mais ser analisado simplesmente sob seu aspecto lingilistico, mas como jogo estratégico de acdo e de reagdo, de pergunta e resposta, de dominagia ¢ de esquiva e também como luta (1974, p. 6); e) o discurso é 0 espago em que saber € poder se articulam, pois quem fala, fala de algum lugar, a partir de um direito reconhecido institucionalmente. Esse discurso, que passa por verdadciro, que veicula saber (o saber institucional), € gerador de poder; F) a produgao desse discurso gerador de poder ¢ controlada, | selecionada, organizada ¢ redistribuida por certos procedi- mentos que tém por fungio eliminar toda e qualquer ameaga a permanéncia desse poder. ae 18 gilfstica o ponto nodal das contradigoes que atravessam ¢ Lingua, discurso e tdeologia organizam esta disciplina sob a forma de cendéncia, di- Pécheux (1977) desenvolve uma critica marxista da ' recées de pesquisa, escolas lingiiisticas ete." concepgae foucaultiana do discurso, considerada do ponto de « éjustamente neste “ponto nodal” representado pela seman- | a : -_ . 4 : a . hs da categoria da contradi¢ia.e conclui sobre a necessidade tica que a lingiifstica confina com a filosofia ¢ especifica- e : ie pen ges do que o trabalho de Foucaule contém de mente, na sua perspectiva, com a ciéncia das formagGes so- -materialista”. E justamence visando a uma articulagao entre a ciais ou o materialisme histdrico. concepgao de discurso de Foucault ¢ uma teoria materialista do discurso que Pécheux e Fuchs (1975 i recon Basie on . se 7 .. aay ( ) = izam um quadro Fazendo uma caracterizacio da sicuagao arual da lin- stemoldgico geral da ue englobe trés regid e sg i . : ahha enonc neat ee : Bice & q gl regides do co gilistica, Pécheux identifica trés principais tendéncias: nhecimento: I wit il 1) A tendéncia formalista-logicista, representada pela escola 1) 0 materialismo histérico, como teoria das formagGes so- i i i es = chomskiana, enquanto desenvolvimento critico do estru- ciais ¢ suas transformagGes; j ee ; posted ce -) 2) alingiisti -” . turalismo lingiifstico através das teorias “gerativas . Ela se a lingiiistica, como teoria dos ismos sintatic S 4 ° nal mecanismos sintaticos € dos assenta filosoficamente nos trabalhos da escola de Port- rocessos de enunciacao; i 3) He dedi wee Royal (Chomsky, Fillmore, Lakof, McCawley). a teoria do discurso, como i inacao his- haeeot afk ge oe : : sérica d : es = rors da determinagao his 2) A rendéncia histdrica, conhecida desde o século XIX como r Os processos semanticos. Be agg Sp ae : P “lingiifstica histérica” (Brunot, Meillet), desembocanda A ind Z hoje nas teorias da variagao e da mudanga lingiifstica geo, crescente-se ainda que essas trés regides — cujos con- ve thes ei j ees = q Z ; § ENCE ecno, sociolingtifstica (M. Cohen, V. Weinreich, Labov e ceitos bdsicos sao os de formagao social, lingua e discurso — d , . B . 3 tae . : e um ponto de vista menos tedrico, B. Bernstein). de dificil articulagio, estao de uma cerca maneira atravessadas ; as eesti aes ferénci . ea 3) Uma terceira tendéncia que constituina uma lingilistica pela referéncia a uma teoria da subjetividade — de natureza * « ‘age da & » da 4 psicanalitica da fala” (ou da “enunciagao”, da “performance”, da “men- . n a, ” oo yt n sagem”, do “texto”, do “discurso” etc.) em que o acento no Pécheux (1975, p. 17) procura elaborar as bases de uma 6 Be Seg - oe 1 : . +): ; primado lingiistico da comunicacdo faz reativar certas teoria macerialista do discurso, partindo de um duplo ponto . fan aes de vista: preocupagées da retérica ¢ da poética. Essa tendéncia de- semboca numa lingiiistica do estilo como desvio, trans- many : ressdo etc. e numa lingiiistica do didlogo como jogo de * aseméntica nao ¢, como se tem considerado, uma “parte , 8 ee S? i F me afrontamento (R. Jakobson, Benveniste, Ducrot, Barthes, veg da lingiiistica” da mesma forma que a fonologia, a mor- fologia ¢ a sintaxe. Ela “constitui, na realidade, para a lin- i Greimas, Kristeva). 38 ! 39 Essas trés tendéncias escao ligadas por relagoes contra- dirdrias quer se opando, quer se combinando, quer se subor- dinando uma 4 outra. Por exemplo, a tendéncia histérica liga- ' se estranhamente 4 formalista-logicista por diferentes formas intermediarias (o funcionalismo, o distribucionalismo etc.); a lingUifstica da enunciagéo mantém também uma relagio contraditdria com o formalismo-logicista, principalmente com a filosofia analitica da escola de Oxford (Austin, Searle, Strawson etc.), ao abordar os problemas da pressuposi¢io. Uma contradicao comum que opée a primeira ten- déncia 4s duas outras € aquela que liga a “langue” a0 mes- mo tempo 4 “histéria” (24 tendéncia) ¢ aos “sujeitos falantes” (34 cendéncia) ou, em outros termos, “uma contradic entre sistema lingilistico (a Jangwe) ¢ determinagées ndo-sistémicas qué, 4 margem do sistema se opdem a ele e intervém sobre ele” (p.19). Essa contradicao que constitui justamente o obje- to da “semantica” estaria no centro das pesquisas lingiifsticas atuais. Pecheux nio se prope, em seu trabalho, a resolver essa contradicio, mas a contribuir para o aprofundamento da and- lise dessa contradicao através de uma posi¢do firmada no ma- tefialismo histérico. Essa intervengao da filosofia materialista no dominio da lingiifstiea, em vez de trazer solugées, consistird ances de tudo em colocar uma série de questées sobre seus prdoprios “objetos” ¢ sobre a relagdo da prépria lingiifstica com um outro dominio cientifico, o da ciéncia das formagées sociais. Mecanismos lingiifsticos come, par exemplo, a opo- sicdo, mencidnada por Pécheux (1975, p. 35), entre expli- cagao/determinacao (propriedades morfoldgicas ¢ sintaxicas ligadas ao funcionamento das relativas}, que constituem ao mesmo tempo fendmenos lingiifsticos e lugares de questocs 40 1 filosdficas, fazgm parte de uma zona de articulagao da lin- giiistica com a teoria histdrica dos processos ideoldgicos e cientificos: o sistema da “gua é€ mesmo para o matetialista ¢ para o idealista, para o revoluciondrio € para o reaciondrio, para o que dispde de um conhecimento dado ¢ para o que no dispde. Isso nfo resulta que eles teréo o mesmo diseuerso: a lingua aparece como a base comum de processos discursivos diferenciados {p. 81), ' Pécheux coloca, dessa forma, duas nogdes fundamen- tals € opositivas: + a nocao de base lingiiistica que constitui precisamente o objeto da lingiiistica e compreende todo o sistema lingiis- tico enquanto conjunto de estruturas fonoldgicas, morfo- ldgicas e sintdxicas. Dotado de uma relativa autonomia, o sistema lingitfstico ¢ regido por leis internas; + a nocio de processo discursive-ideoldgico que se desenvolve sobre a base dessas leis internas; rejeita-se, assim, qualquer hipdtese de uma discu rsividade enquanto utilizagao “aci- dental” dos sistemas lingiiisticos ou enquanto “parole”, isto é, uma maneira “concreta” de habitar a “abstragao” da “lan- gue”. © conceito de processo discursivo ¢ elaborado a partir da noc&o foucaultiana de sistema de formagao compreen- dida como conjunto de regras discursivas que determinam a existéncia das objets, canceitos, modalidades enuncia- tivas, estrarégias. A preocupagao de Pécheux é inscrever o processo discursive em uma relacao ideoldgica de classes, pois reconhece, cirando Balibar, que, se a lingua € indi- 41 20 ferente a divisao de classes sociais ¢ 4 sua luta (dala relativa autonomia do sistema lingtistico), estas (as classes socials) nao o s40 em relacio 4 lingua a qual urilizam de acordo com o campo de seus antagonismas. Essa distingao fundamental leva a reconhecer que: + alingua consticui a condigao de possibilidade do “discurso”, pois € uma espécie de invariante pressuposta por todas as condigées de produgao possiveis em um momento histérica dererminado; + os processos discursivos constituem a fonte da producao dos efeiros de sentido no discurso ¢ a lingua ¢ o lugar ma- terial em que se realizam os efeitos de sentido. Segundo essa perspectiva, se processo discursivo € pro- dugio de sentido, discurso passa a ser o espago em que emer- gem as significagdes. E aqui, o lugar especifico da constituigdo dos sentidos é a formacao discursiva, nogao que, juntamente com a de condicao de producae ¢ formagao ideoldgica, vai constituir uma trfade bdsica nas formulagdes tedéricas da and- lise do discurso. Condigées de produgdo do discurso Para Courtine (1991), as origens da nogao de condicées de produgao (que abreviaremos CP) sao de trés ordens: a) origina-se em primeiro lugar da andlise do conteido tal como ¢ praticada sobretudo na psicologia social; 42 b) origina-se indiretamente da sociolingtistica na medida em que esta admite varidveis socioldgicas (“o estado social do emissor, 0 estado social do destinatdrio, as condigdes sociais da situagdo de comunicagio...”) como responsaveis pelas CPs do discurso; c) tem uma origem implicita no texto de Harris, Discourse analysis (1952): nele ndo figura o terme CP, mas o termo “siruacdo”, colocado em correlagdo com o de “discurso” ao referir-se ao faro de se dever considerar como fazendo parte do discurso apenas as frases “que foram pronunciadas ou escritas umas em seguida das outras por uma ou varias pes- soas em uma $6 situagio” ou de estabelecer uma correlacao entre as caracrerfsticas individuais de um enunciado e “as particularidades de personalidade que provém da expe- riéncia do individuo ev situagées interpessoais condicionadas socialmente" (apud Courtine, 1981, p. 20). Essa nogo de situagao se mostra insuficiente ¢ ainda bastante proxima da formulagao de CP elaborada pela andlise de contetido da psicologia social ou da sociolingiiistica. Na seqiiéncia dessas concepgGes de origem, dois con- juntos de definigdo da nogao de CP se sucederam: + um nomeado por Courtine (1981, p. 21) como “definigdes empiricas” em que “as CPs do discurso tendem a se con- fundir com a definicio empirica de uma situagdo de enun- clacio"; « outro que forma um conjunto de “definigoes tedricas” que aparecem na AD desde 1971 ao lado da nogao de “forma- co discursiva” (Haroche et al., 1971, p. 102). 43, 21 Fot Pécheux (1969) quem tentou fazer a primeira de- finigio empirica geral da nogao de CP Ele o fez inscrevendo a nogao no esquema “informacional” da comunicagao cla- borado por Jakobson (1963, p. 214); esquema que, apresen- tando a vantagem de colocar em cena os protagonistas do discurso e o seu “referente” permite compreender as condi- goes (hisréricas) da produgdo de um discurso. A contribuigao de Pécheux esta no fate de ver nos protagonistas do discurso nio a presenga fisica de “organismos humanos individuais”, mas a represencacao de “lugares determinados na estrutura de uma formagao social, lugares cujo feixe de cragos objetivos caracteristicos pode ser descrito pela sociologia”. Assim, no interior de uma instituigao escolar hd “o lugar” do director, do professor, do aluno, cada um marcado por propriedades di- ferenciais. No discurso, as relagdes entre esses lugares, obje- tivamente definiveis, acham-se representadas por uma séric de “formagées imagindrias” que designam o lugar que des- tinador e¢ destinardrio atribuem a si mesmo ¢ ao outro, a ima- gem que eles fazem de seu préprio lugar e do lugar do outro. Dessa forma, em todo processo discursivo, o emissor pode antecipar as representagées do receptor e, de acordo com essa antevisao do “imagindrio” do outro, fundar estratégias de discurso, Segundo Courtine (1981), essa tentativa de definicio da nogio de CP, esbocada por Pécheux, nao rompe, entre- tanto, com as origens psicossocioldégicas jd assinaladas na fase anterior. Para cle, “os termos ‘imagem’ ou ‘formagae ima- gindria poderiam perfeitamence ser substicufdos pela nogdo de ‘papel’ ral como é utilizada nas ‘teorias do papel’ herdadas da sociologia funcionalista de Parsons, ou ainda do interacio- nismo psicossocioldgico de Goffman” (p. 22). 44 I | E, por exemplo, essa postura que Courtine detecta no trabalho em que Courdesses (1971) analisa as diferengas enun- ciativas que caracterizam os discursos de Blum e Thorez. Nele, as CPs sao formuladas de modo que assegurem a “passagem continua da histéria (a conjuntura e o estado das relagdes so- ciais) ao discurso {enquanco tipologias que nele se manifes- tam) pela mediagao de uma caracteriza¢io psicossocioldégica (as relacées do individuo ao grupo) de uma situagdo de enun- ciagdo” (p. 22), Sob esse enfoque, a relagao entre lingua e discurso, mediatizada pelo psicossocioldgico, apaga as deter- minagdes propriamence histdéricas, fazendo com que a carac- terizagao do processo da enunciagdo em cada discurso nao seja relacionada ao efeico de uma conjuntura, mas as caracte- risticas Individuais de cada locucer ou ainda as relagSes in- terindividuais que se manifestam no seio de um grupo. Na nogao de CP assim definida, o plano psicossociolégico do- mina © plano histérico, ndo havendo uma hierarquizacao ted- rica dos planos de referéncia. 3 Courtine propde uma definigao de CP que nao seja atrafda por essa operagéo psicologizante das decerminacées histéricas do discurso, fazendo-as transformar-se em simples circunstancias. Circunstancias em que interagem os “sujeitos do discurso”, que passam a constituir a fonte de relagGes dis- cursivas das quais, na verdade, nfo sao senfo o portador ou o efeito. Postula uma redefinicdo da nogao de CP alinhada a qndlise histérica das contradigées ideolégicas presentes na materialidade dos discursos ¢ articulada teoricamente com 0 | conceite de formagio discursiva. 45 22 Formacdo ideolégica e formagado discursiva O discurso ¢ uma das instancias em que a marerialidade ideoldgica se concretiza, isto €, € um dos aspectos materiais da “existéncia material” das ideologias. Ao analisarmos a articu- lacdio da ideologia com o discurso, dois conceitos j4 tradicio- nais em AD devem ser colocados: o de formagio ideoldgica (que abreviaremos FI) ¢ o de formagao discursiva (FD). Para Pécheux (1975), a regiao do materialismo histérico que interessa a uma teoria do discurso é a da superestrutura ideoldgica ligada ao modo de produgao dominante na forma- cio social considerada. Dessa forma, é uma materialidade es- pecifica articulada sobre a materialidade econémica que deve caracterizar a ideologia: o Funcionamento da instancia ideolégica deve ser concebido como “determinado em ultima instancia” pela instancia eco- némica na medida em que cle aparece como uma das con- digdes (ndo-cconémicas) da reprodugio da base econdmica, mais especificamente das relagdes de produgio inerentes a esta base econdmica. Essa concepedo da instancia ideoldgica, que vai permitir a Pécheux chegar 4 representacao do “exterior da lingua’, ¢ caudatdria do trabalho de Althusser sobre as ideologias. Na reprodugao das relagées de produgao, uma das formas pela qual a instancia ideoldgica funciona ¢ a da “interpelacao ou assujeitamento do sujeito como sujeito ideolégico”. Essa interpe- lacdo ideoldgica consiste em fazer com que cada individuo (sem que ele come consciéncia disso, mas, ao contrario, tenha a im- pressdo de que é senhor de sua prépria vontade) seja levado a 46 E ocupar seu lugar em um dos grupos ou classes de uma deter- minada formagio social. As classes sociais, assim constituidas, mantém relagées que sdo reproduzidas continuamente ¢ ga- rantidas materialmence pelo que Althusser denominou ALE, Realidades complexas, os AIE “colocam em jogo préticas asso- ciadas a lugares ou a relagao de lugares que remetem a relagao de classe", Num determinado momento histérico e ne interior mesmo desses aparelhos, as relagdes de classe podem carac- terizar-s¢ pelo afrontamento de posig6es politicas e ideoldgicas que se organizam de forma a entreter entre si relag6es de alian- ga, de antagonismos ou de dominagao. Essa organizagao de po- sigées politicas ¢ ideoldgicas € que constitui as formagées ideo- Idgicas que Haroche et al. (1971, p, 102) assim definem: Falar-se-d de formacSo ideolégica para caracrerizar um cle- mento (determinado aspecto da luta nos aparelhos) suscep- rivel de intervir como uma forga confrontada com outras forcas na conjuntura ideoldégica caracterfstica de uma for- macio social em um momento dado; cada formagao ideo- ldgica constitui assim um conjunto complexo de aticudes ¢ de representagGes que nao sdo nem “individudis” nem “uni- versais" mas se relacionam mais ou menos diretamente a posi- ces de classe em conflito umas em relagao as outras. Constituindo o discurso um dos aspectos materiais de ideologia, pode-se afirmar que o discursivo € uma espécie pertencente ao género ideolégico, Em outros termos, a for- 'magao ideolégica tem necessariamente como um de seus componentes uma ou varias formacées discursivas inter- ligadas. Isso significa que os discursos sao governados por for- macées ideoldgicas. 47 23 Sao as formag6es discursivas que, em uma formagao ideoldgica especifica e levando em conta uma relagao de clas- se, determinam “o que pode e deve ser dito” a partir de uma ‘posigio dada em uma conjuntura dada. Concebida por Foucault (1969) ao incerrogar-se sobre as condigdes histéricas e discursivas mas quals se constituem os sistemas de saber ¢, depois, elaborada por Pécheux, a nogao de FD representa na AD um lugar central da arriculagao entre lingua e discurso, Formalmente, a nogio de FD envolve dois tipos de fun- clonamento: a) a pardfrase: uma FD € constituida por um sistema de pa- rdfrase, isto é, € um espago em que enunciados sao reto- mados ¢ reformulados num esforgo constante de fecha- mento de suas fronteiras em busca da preservagdo de sua identidade. A essa nogio, Orlandi (1984) contrapoe uma outra; a de polissemia, atribuindo a esses conceitos oposi- tives o papel de mecanismos basicos do funcionamento dis- cursivo, Enquancto a pardfrase é um mecanismo de “fecha- mento”, de “delimitagio” das fronteiras, de uma formagiio discursiva, a polissemia rompe essas fronteiras, “embara- lhando” os limites entre diferentes formagoes discursivas, instalando a pluralidade, a multiplicidade de senudos; b} o pré-construido: constitui, segundo Pécheux (1975), um dos pontos fundamentais da articulagdo da teoria dos dis- cursos com a lingiiistica. Introduzido por Henry (1975); o termo designa aquilo que remete a uma construgao an- terior e exterior, independente, por oposic4o ao que é “cons- truido” pelo enunciado. E o elemento que irrompe na su- perficie discursiva como se estivesse jd-al. 48 i rn O pré-construide remete assim as evidéncias através das quais o sujeico dé a conhecer os objetos de seu discurso: “o que cada ‘um sabe” ¢ simultaneamente “o que cada um pode ver” em uma situagdo dada. Isso equivale a dizer que se constitul, no scio de uma FD, um Sujeito Universal que garante “o que cada um conhece, pode ver ou compreender™ e que determina também “o que pode ser dito” (Courtine, 1981), Nesse sentido, o pré-construide corresponde ao “toujours déja-lé” da interpelagio ideoldgica que nao sé fornece mas impée A “realidade” (“o mundo das coisas”) o seu “sentido” sob a forma da universalidade. Assim, o pré- construido, entendide como “objeto ideoldgico, repre- sentacdo, realidade” é assimilado pelo enunciador no pro- cesso do seu assujeitamento ideoldgico quando se realiza a sua identificagio, enquanto sujeito enunciador, com o Su- jeito Universal da FD. O conceiro de FD regula, dessa forma, a referéncia A interpelagSo/assujeitamento do individuo em sujeito de seu discurso. Ea FD que permite dar conta do fato de que sujeitos falantes, situados numa determinada conjuntura histdrica, pos- sam concordar ow nao sobre o sentido a dar as palavras, “falar diferentemente falando a mesma lingua’. Isso leva a constatar que uma FD nao ¢ “uma tnica linguagem para todos” ou “para cada um sua linguagem”, mas que numa FD o que se teme “varias linguagens em uma Unica’. Sao essas constatagoes que levam Courtine ¢ Marandin (1981) a concluir que: Uma FD é¢, portanto, heterogénea a ela propria: 0 fecha- mento de‘uma FD ¢ fundamentalmente instdvel, ela nao 49 24 i a consisce em um limite tragado de forma definitiva, sepa- rando um exterior ¢ um interior, mas se Inscreve entre di- versas FDs como uma fronteira que se desloca em fungio dos embares da luca ideoldgica. E em conseqiiéncia dessa hererogeneidade prdpria a toda FD que Courtine (1982) ainda a caracteriza como uma unidade dividida que tem como principio constitutivo a con- tradi¢ao, tomando como apoio a afirmagio de Foucault (1969, p. 186): Tal contradigao, longe de ser aparéncia ou acidente do dis- curso, longe de ser aquilo de que € preciso liberci-lo para que ele libere enfim sua verdade aberta, constitui a propria lei de sua existéncia: ¢a partir dela que cle emerge, ¢ ao mesmo tempo para traduzi-la e para superd-la que cle se poe a falar (...], € porque ela estd sempre aquém dele e ele jamais pode concornd-la inteiramence, que ele muda, que ele se metamorfoseia, que ele escapa por si mesmo a sua propria continuidade. A contradicao funciona, entdo, no fio de dis- curso, como o principio de sua historicidade. Dessa forma, embora uma FD determine a seus falan- tes “o que deve e pode ser dito” buscando uma homogenei- dade discursiva, os efeiros das contradicées ideoldgicas de classe so recuperaveis no interior mesmo da “unidade” dos conjuntos de discurso. Cabe 8 AD trabalhar seu objeto (o discurso) inscreven- do-o na relagao da lingua com a histéria, buscando na mate- rialidade lingiifstica as marcas das contradi¢Ges ideoldgicas. Repetindo ainda Foucault (1986, p. 187), “analisar o discurso 50 é fazer desaparecer e reaparecer as contradigées: ¢ mostrar 0 jogo que jogam entre si; é manifestar como pode exprimi-las, dar-lhes corpo, ou emprestar-lhes uma fugidia aparéncia”. E nesse sentido, ainda, que ele vé uma FD como um “espago de dissengdes multiplas” em que atuam oposigées (a contradicao entre a umidade ¢ a diversidade, entre a coeréncia e a hete- rogeneidade) cujos niveis e papéis devem ser deseritos no com © abjetivo de niveld-las ou pacificd-las em formas gerais de pen- samento, mas de demarcar “o ponto em que elas se constituem, de definir a forma que assumem, as relagdes que tém entre si eo dominio que elas comandam” (p. 192). Analisar o discurso é descrever os “sistemas de dispersio” dos enunciados que © compéem através das suas “regras de formacao”. Se eles apre- sentam um sistema de dispersio semelhante, podendo definir uma regularidade nas suas “formas de reparti¢ao", pode-se dizer que eles pertencem a uma mesma FD, Aproximando as duas abordagens de FD feitas por Fou- cault e Pécheux, Courtine vé 0 conceito de FD ligar contradi- toriamente dois modos de existéncia do discurso como objeto de andlise: * onfvel do enunciado: diz respeiro ao sistema de formagio dog enunciados que englobaria “um feixe complexo de re- lacées” funcionando como regra. Enquanto regra, esse sis- tema determinaria “o que pode ¢ deve ser dito” por um su- jeito falante situado num dado lugar, numa dada conjun- tura, no interior de uma FD, sob a dependéncia do interdiscurso desta Ultima. Esse nfvel ¢ 0 lugar da cons- ritui¢io da “matriz do sentido” de uma FD determinada no plano dos processus histéricos de formagao, reprodu- cio e transformagao dos enunciados. Esse nivel se situa no a1 25 plano das “regularidades pré-terminais’, aquém da coe- réncia visivel ¢ horizontal dos elementos formados; « onivel de formulagao: refere-se ao “estado terminal do dis- curso” onde os enunciados manifestam certa “coeréncia vi- sivel horizontal”. Trata-se do intradiscurso em que a seqilén- cia discursiva existe como discurso concreto no incerior do “feixe complexo de relagdes” de um sistema de formagao (Courtine, 1981, p, 40), Dessa forma, toda seqiiéneia discursiva deve ser ana- lisada em um processo discursive de reprodugdo/transfor- macio dos enunciados no interior de uma FD dada: dai por- que o estude do intradiscurso de toda seqiiéncia manifesta deve estar associado ao do interdiscurso da FD. Volremos & nagio de condicgGes de produgao cuja re- definigdo tedrica era preconizada por Pécheux. Para romper com a concep¢aio psicossocial das CPs de um discurso, en- cendida enquanto circunstancias de um ato de comunicagae ¢ enquanto relagdes de lugar, ambiguamente, confundidas com o jogo em espelho de papdis interiores a uma insti- tuicio (como sugeria seu texto de 1969), coloca como ura necessidade reordenar o conceito, submetendo-o 4 depen- déncia da relagio que uma FD entretém com a “pluralidade contraditéria” de seu incerdiscurso. Para isso devera buscar uma teoria nao-subjetiva da constituicdo do sujeito em sua situacdo concreta de enunciador. Desenvolveremos a seguir duas nogoes fundamentais para a andlise do discurso: a de sujeico ¢ a de interdiscur- sividade. 52 CAPITULO 2 SOBRE A NOGAO DE SUJEITO ' A reflexio sobre a lingua tem seguido duas rendén- cias, Segundo a epistemologia classica, a lingua tinha como fungdo representar o real. Para ela, um enunciado era ver- dadeiro se correspondesse a um estado de coisas existentes. Ela mobilizava, dessa forma, o conceito de verdade, privi- legiando o lexicalismo na teorizagio da lingua ¢ da signi- ficagao. Isto ¢, de acordo com essa tendéncia representati- va — dominio do “dire”, do nomear (Parret, 1983) — os nomes representariam 0 protétipo das caregorias grama- ticais, atribuindo-se ao nome prdprio o ideal da represen- tacdo pura. E, nesse quadro, nao se colocava a quest&o da subjetividade. Esse poder de representagao da I{ngua continua na episteme moderna, mas para uma vertente de lingitistas, filésofos da linguagem, essa fungao deixa de ser fundamen- tal. Opondo-se ao tradicional paradigma classico, neopla- ténico, emerge, assim, urna nova maneira de ver a I{ngua, apreendendo-a enquanto fungio demonstrativa — domi- nio do “mostrar”, da mostragd4o. Deslocando-se o lugar da funcdo representativa do real, a lingua adquire espessura pro- pria, pois, liberta das amarras que a prendiam a uma con- 33 26 cepgdo que a considerava apenas enquanto capacidade de ex- primir representagGes, passa a ser desvendada na sua estrutura. Segundo essa tendéncia, uma das categorias que passa a ‘ser exemplar ¢ a dos demonstrativos, funcionando mais como uma operacao (predicacdo, afirmagao ¢ outros tipos de atos de linguagem) do que como categoria gramatical. E sicuando-se nesse ponto de vista que Biihler considera a lingua como um “campo monstratorio”. Nessa perspectiva se inscreve também Benveniste que, através do estuda dos pronomes, coloca a questio da subjetividade na linguagem. Nesse quadro tedrico, sujeito passa a ocupar uma posicao privilegiada, ¢ a linguagem passa a ser considerada o lugar da constituigao da subjetividade. E porque constitui o sujeito, pode representar 0 mundo. Analisando o percurso da concepgao do sujeito nas teorias lingiifsticas modernas, Orlandi (1983) distingue as seguintes etapas: + primeira fase: em que as relagées inrerlocutivas estéo cen- tradas na idéia da interagdo, harmonia conversacional, troca entre o ew eo fu. Nessa concepgao idealista enquadram-se, por exemplo, a nogo de sujeito de Benveniste e aquela re- gida pelas leis conversacionais decorrentes do princ{pio de cooperacao priceano; « segunda fase: em que se passa para a iddia do conflico, Cen- tradas no outro, segundo éssa concepgaa, as relacdes inter- subjetivas so governadas por uma tensio basica em que 0 fi determina o que o ew diz, ocorrendo uma espécie de tirania do primeiro sobre o segundo. E 4 concepgae fortemente influen- ciada pela retdérica, presente nos momentos inicias da AD cujas andlises focalizaram sobretudo os discursos polfticos; 54 » lerceira fase: em que, reconhecendo, no binarisme da con- cepcao anterior, uma polarizacao que impedia apreender o su- jeiro na sua dispersao, diversidade, a AD procuta romper com a circularidade dessa estructura dual, ao reconhecer no sujeito um carater contraditério que, marcado pela incomplecude, anscia pela completude, pela vontade de “querer ser inteiro”. Assim, numa relacdo dinamica entre identidade ¢ alteridade, a slujeito ¢ gle mais a complementagao de outro. O centro da relagdo ndo esté, como nas concepgées anteriores, nem no ev nem no fd, mas no espaco discursivo criado entre ambos. O sujeito sé se completa na intera¢ao com o OUCro. A subjerividade em Benveniste Refazendo mais detalhadamente alguns momentos desse percurso, voltemos a Benveniste que (re}incorporou aos es- tudos lingiiisticos a nogao de subjetividade. Essa nogao tem ocupado, modernamente, um amplo espaco nas discussées lin- giiisticas. Tendo por preocupagao maior analisar “o prdéprio ato de produzir um enunciado e nao o texto de um enunciado”, isto ¢, o processo e nao o produto, Benveniste procura “esbogar, no interior da lingua, as caracteristicas-formais da enunciagio a partir da manifestagdo individual que ela atualiza”. Ao definir a enunciagao como um processo de apro- priacio da lingua para dizer algo, levanta dois aspectos: a) para ele, a lingua ¢ apenas uma possibilidade que ganha con- cretude somente no ato da enunciagao, isto ¢, enquanto em- prego e expressdo de uma certa relagao com 0 mundo. Dessa forma, a referéncia passa a ser parte integrante da enun- ciacdo; 53 27 b) coloca nao séa questdo da significagdo na instanciagdo dis- cursiva como faz também passar a nocio de sentido pela do sujeito, Isco é, introduz “aquele que fala na sua fala”, colo- cando necessariamente a figura do locutor e a questao da subjetividade: “E na instancia de discurso na qual ew designa o locutor que este se enuncia como sujeite” (1966, p, 288). Segundo Benveniste, a subjetividade ¢ a capacidade de o locutor se propor como sujeito do seu discurso e ela se funda no exercicio da lingua. Esse locutor enuncia sua posi¢io no discurso através de determinados indices formais dos quais os pronomes pessoais constituem o primeiro ponto de apoio na revelacao da subjetividade na linguagem. No processo da enun- ciaco, ao instituir-se um ew, institui-se necessarlamente wm fy: “Imediatamente, desde que ele se declara locutor ¢ assume a lingua, ele implanta o outro face a ele, qualquer que seja 0 grau de presenga que ele atribui a este outro. Toda enunciagao é, explicita ou implicitamence, uma alocugio — ela postula um alocutario” (1974, p. 82). Eu e tu si0 os protagonistas da enunciacdo e, referindo um individuo especifico, apresenta a marca da pessoa. Distinguem-se, entretanto, pela marca da subjetividade: ew ¢ pessoa subjetiva e tw pessoa ndo-subjetiva. Nessa correlagdo de subjetividade, Benveniste reconhece uma transcendéncia do primeiro sobre o segundo (“ego tem sempre uma posicao de transcendéncia em relagio ao fu, apesar disso nenhum dos dots termos se concebe sem 0 ou- tro; sio complementares € a0 mesmo tempo reversiveis” (1966, p. 286]). O ew se caracteriza ainda por ser unico na instancia discursiva e valido somente na sua unicidade. Em oposigio ao ew ¢ a0 ru que rém a marca da pessoa, tem-se 0 ele, a no-pessoa (0 “ausente” dos gramaticos drabes), 56 que, ndo tendo a marca da pessoa, nao refere um individue especifico; relata, dessa forma, um processo que se desenvolve fora da relacio da subjetividade. Essas colocagées podem ser sintetizadas no seguinte quadro: eewe See w ee eee eee eed i Pronomes pessoas i { nemmp theese, | i 1 i I 4 | Co ce 1 carrelagio — ‘ / : ' rrelagao oa pessoa | pdo-pessoa y__ SONEIy* pessoalidade 1 5; | i : i subjecividade , subjetiva ndo-subjeriva y po oSeec ces ee ; e Embora acentue, na relacSo discursiva, a figura do par- ceiro — “real ou imagindrio, individual ou coletivo” — (“vo- cé se constitui como ew na medida em que alguém € cons- tirufdo como tm"), Benveniste vé no £60 o centro da enun- ciacio ¢ o identifica ainda & nogao de sujeito, ao afirmar que a constituigdo da subjetividade vai se fazendo & medida que se tem capacidade de dizer ew. ° Neste ponto, ¢ que parece localizar a fissura através da qual se tem criticado atualmente a posigdo de Benveniste, pois a subjetividade ¢ inerente a toda linguagem ¢ sua constituigao se di mesmo quando nfo se enuncia o ew. Os discursos que utilizam de formas indeterminadas, impessoais como o dis- curso cientifico, por exemplo, ou o discurso do esquizofrénico em que o locutor utiliza o efe para se referir a si mesmo — mostram uma enunciacdo que mascara sempre um sujeito. Isto é, nesses tipos de enunciacao, o sujeito enuncia de outro lugar, postando-se numa outra perspectiva, seja a da impessoalidade a7 28 em busca de uma objetivagao dos faros ou de'um apagamento da responsabilidade pela enunciacio, seja a da incapacidade patoldgica de assungao de um ew. Essa estratégia de masca- tamento ¢ também uma forma outra de constituigio da sub- jetividade. $6 que nela 0 sujeito perde seu eixo entéo cen- tralizado num ew todo-poderoso, monolitico, descentrando- se e dispersando-se ou para outras formas do paradigma da pessoa Ou para outros papéis que assume no discurso. Assim, a teoria benvenistiana da representagao do su- jeito no discurso torna-se, As vezes, restrita diante de uma complexidade maior que o discurso na realidade (re)vela, E segundo essa perspectiva que notamos em Benveniste certa contradicao quando coloca a disting4o entre os dois modos de enunciacao: a discursiva e a histérica. Para ele, a enun- ciagdo discursiva tem as marcas da subjetividade enquanto que a enunciagao histérica nio. Nesta, abole-se tudo que € estranho a narrativa dos aconcecimentos que sdo apresentados como se narrassem a si mesmos. Nao hd um locutor aqui, caracterizando-se o discurso pela auséncia da subjetividade. Essa colocagao contradiz o que foi expasto, pois, como vimos, se toda enunciacio ¢ um ato de apropriagao da lingua, imp6e- $e, necessariamente, a figura de um sujeito, de alguém que pratica o ato de apropriagao. Resumindo, o sujeito de Benveniste € um ew que sé ca- racteriza pela homogeneidade e unicidade e se constirui na medida em que interage com um tv — alocutdrio — opon- do-se ambos a nao-pessoa, ele (eu-ru versus ele). Apesar de esse te ser complementar e indispensdvel, na relacao € 0 ew que tem ascendéncia sobre o tw. Denominado sintomaticamente esse ew de ego, sente-se, nas colocagdes de Benveniste, uma marcacio bastante acen- 36 tuada de uma subjetividade “ego-céntrica” a reger o meca- nismo da enunciagao. O-sujeito descentrado: 0 eu e 0 outro Veremos agora algumas abordagens que, siruando-se numa outra perspectiva, concebem diferentemente a nogio de sujeito. Para essas abordagens, a nogdo de hisedria € funda- mental, pois, porque marcado espacial e remporalmente, 0 sujeito € essencialmente histérico. E porque sua fala é pro- duzida a partir de um determinado lugar ¢ de um determinado tempo, & concepgao de um sujeico historico articula-se outra nocdo fundamental: a de um sujeito ideolégico. Sua fala é um recorte das representagSes de um tempo histérico e de um es- paco social. Dessa forma, como ser projetado num espago ¢ num cempo orientado socialmente, o sujeito situa o seu dis- curso em relagdo aos discursos do outro. Outro que envolve nado sé o seu destinatdrio para quem planeja, ajusta a sua fala (nivel intradiscursivo), mas que também envolve outros dis- cursos historicamente ja constituidos e que emergem na sua fala (nivel interdiscursivo). Nesse sentido, questiona-se aquela concep¢ao do sujeito enquanco ser unico, central, origem ¢ fonte do sentido, formulado inicialmente por Benveniste, por- (que na sua fala outras vozes também falam. Segundo essa tendéncia, a no¢io de subjetividade nio esti mais centrada na transcendéncia do e¢0, mas relativizada no par £U-TU, incorporando o outro como constitutive do sujeito. Disso decorre uma concepgao de linguagem também ndo mais assentada na no¢do de homogeneidade. A linguagem nao ¢ mais evidéncia, transparéncia de sentido produzida por 59 29 um sujeito uno, homogéneo, todo-poderoso. E um sujeito que divide o espago discursive com 9 outro. Podemos ver, de maneira evidence, a manifestagio dessa heterogeneidade na prépria superficie discursiva através da materialidade lingtiistica do texto, de formas marcadas que vao das mais explicitas 4s mais implicitas, das mais simples &s mais complexas. A heterogeneidade discursiva Authier-Revuz (1982) indica algumas dessas formas de heterogeneidade que acusam a presenga do outro: a) o discurso relatado: * no discurso indireto, o locucor, colocando-se enquanto tra- dutor, usa de suas prdprias palavras para remeter a uma outra fonte do “sentido”; + no discurso direto, o locutor, colocando-se como “porta- voz", recorta as palavras do outro ¢ cita-as; b) as formas marcadas de conotagado autonimica: o locutor inscreve no seu discurso, sem que haja interrupcao do fio discursive, as palavras do outro, mostrando-as, assina- lando-as quer através das aspas, do itdlico, de uma ento- nacido espectfica, quer através de um comentario, uma glosa, um ajustamento, ou de uma remissao a um outro discurso, funcionando como “marcas de uma atividade de controle/ Pee regulagem do processo de comunicagao ; 60 c) formas mais complexas em queé,a'presenga do outro nao ¢ explicitada por marcas univocas na frase. E o caso do dis- curso indireto livre, da ironia, da ancifrase, da alusio, da imitagao, da reminiscéncia em que se joga com o outro discurso (4s vezes, tornando-o mais vivo) njo mais no nivel da transparéncia, do explicitamente mostrado ou diro, mas no espago do implicito, do semidesvelado, do sugerido, Aqui nao hd uma fronceira lingiiistica nftida encre a fala do locutor ¢ a do outro, as vozes se imiscuem nos limices de uma Unica construgao lingiiistica. Essas outras formas marcadas, lingilisticamente des- critiveis, que assinalam um lugar ao outro ¢ revelam, mostram a heterogeneidade na superficie discursiva, estao ancoradas num principio que fundamenta a prdpria narureza da lin- guagem: a sua hererogeneidade constitutiva. Um dos suportes a que Authier-Revuz recorre para ex- plicar a articulagae da realidade das formas de hererogeneida- de mostrada #e discurso com a realidade da heterogeneidade constitutiva dy discurso é 0 dialogismmo concebido pelo circulo de Bakhtin. Monologismo versus dialogismo I . : a . Bakhtin (Voloshinov- 1929) parte de uma critica ao obje- tivismo abstrato de Saussure que trata a lingua como um sistema monoldégico, colocando que “a verdadeira substancia da lingua j...] nao € constiruida por um sistema abstrato de formas lin- gitisticas [...] mas pelo fenémeno social da inseragde verbal, realizada através da enunciagdo e das enunciagées” (p. 109). 61 30 4 3 3 Postula uma concepgio do ser humano em que o outro de- sempenha um papel fundamental; para ele, o ser humano € inconcebfvel fora das relagdes que o ligam ao outro: “nao tomo consciéncia de mim mesmo seno através dos outros, é deles que eu recebo as palavras, as formas, a tonalidade que formam a primeira imagem de mim mesmo. S6 me torno cons- ciente de mim mesmo, revelando-me para o outro, através do outro e com a ajuda do outre” (apud Todorow, 1981, p. 148). Por isso, pata ele a palavra n3o € monoldgica, mas plurivalente, eo dialogismo passa a ser, no quadro de suas formulacdes, uma condicao constitutiva do sentido. Baseado nesses pressupostos, Bakhtin elabora a sua teeria da palifonia. Aco analisar uma série de textos, Bakhrin assinala um contraponto a determinar seus mecanismos de enunciagao. Distingue uma categoria de textos, sobretudo de textos li- terdrios (como os de Dostoievski) ¢ da lireratura popular, por ele denominada também de carnavalesca, em que o autor se investe de uma série de “mdscaras” diferentes. Qualifica tais textos de polifénicos, uma vez que essas “mdscaras” repre- sentam varias vozes a falarem simultaneamente sem que uma dentre elas seja preponderante e julgue as outras. Por outro lado, hd uma outra categoria de textos (os da lireratura clds- sica, como os de Gogol, ou da dogmatica) em que, numa fala monoldgica, uma 86 voz sé faz ouvir; em que as varias cons- ciéncias presentes na obra sao objetos do narrador, Dessa forma, no pélo oposto ao do dialogismo, Bakhtin coloca o monologismo que nepaa existéncia fora de si de uma outra consciéncia, tendo os mesmos direitos ¢ podendo responder em pé de igual- dade um outro ew igual (tu). Na abordagem monoldgica 62 (sob sua forma extrema ou pura), o Outro permanece inteira ¢ unicamente objeto da consciéncia e nao pode formar uma consciéncia outra. Nao se espera dela uma resposta tal que possa tudo modificar no mundo da minha consciéncia. O mondlogo ¢ completo e surdo 4 resposta do outro, nfo 0 espera ¢ nag reconhece nele forga decisiva [...] OQ mondlogo pretende sek a détima palavra (apud Todorov, 1981, p. 165). Bakhtin coloca também questées criticas ao conceito de Ingua da lingiifstica estrutural pelo fato de ele nao ser arri- culdvel nem com a histéria, nem com o sujeito, nem com uma pratica social concreta. Sempre de uma perspectiva dia- Idgica, concebe que praticas linguajares socialmence diver- sificadas e contraditérias se inscrevem historicamence no in- jterior de uma mesma I{ngua. Nos estudos de cireulo de Bakhtin, segundo Authier- Revuz (1982, p. 102), um paradigma percorre coerentemente os diversos dominios abordados: - o dialdgico versus o monoldgico; o multiplo, o plural verses o Unico; Q9 outro no uM verses OUumM eo outro; o heterogéneo versus 0 hamogéneo; o conflicual versus o imdével; o relative versus o absoluto, o centro; o inacabado versus 0 acabado, o deogmitico. E sabre os elementos desse paradigma que se constrdi, ancorada historicamence, uma teoria da produ¢ao do discurso edo sentido. Rampendo-se com o monologismo, instaurando ' 63 31 uma perspectiva dialdgica, Bakhtin opGe a uma concep¢ado ptolemaica da linguagem “diretamente intencional, cacegdrica, unica ¢ singular”, uma “consciéncia galileana, relativizada da linguagem”. Para Bakhtin, a dialogizagao do discurso tem uma dupla orientacdo: uma voltada para os “outros discursos” como pro- cessos constiturivos do discurso, outra voltada para o outro da interlocugio — o destinatarto: Eum duplo dialogismo — nie por adi¢So, mas em interde- pendéncia — que ¢ colocado na fala: a orientagao dialdgica de rode discurso entre os “outros discursos” ¢ cla propria dialogicamente ori entada, determinada por “este outro dis- curso” especifico do receptor, tal como ele imaginado pelo locuter, como condigao de compreensio do primeiro (Au- thier-Revuz, p. 118). + te Segundo a primeira orientacaa, toda palavra é pluria- centuada’; acentos contraditérios cruzam-se no seu interior eo sentido se constitui nesse e por esse entrecruzamento: Um enunciadao vivo, significativamente surgido em um mo- mento histérico © em um meio social determinados, nfo pode deixar de tocar em milhares de fios dialdgicos vivos, tecidos pela consciéncia socioideolégica em torno do abjeto de tal enunciado e de participar ativamente do didlogo so- cial, De resto, é dele que o enunciado saiu: ele € como sua continuacdo, sua réplica... (Bakhtin, 1978, p. 100). Esses “fios dialdgicos vivos” so os “outros discursos” ou o discurso do outro que, intertexcualmente, colocados como 64 constitucivos do recide de todo discurso, tém lugar nao ao lado mas no interior do discurso. O discurso se tece polifonica- mente, num jogo de varias vozes cruzadas, complementares, concorrentes, concraditérias. A orientagdo voltada para o destinatdrio tem na inter- locuedo um fatar espectfico para a dialogizagao do discurso, pois “toda enunciagao depende ‘bivocalmente’ do locutor € do alocutério”. Ao enunciar, o locutor instaura um didlogo com o discurso do receptor na medida em que o concebe no como um mero decodificador, mas como um elemento ativo, atribuindo-lhe, emprestando-lhe a imagem de um contra- discurso: “constituindo-se na atmosfera do ‘jd-dito’, o dis- curso é determinado ao mesmo tempo pela réplica ainda nao- dita, mas solicitada e ja prevista” (Bakhtin, 1978, p. 103). A leitura que Authier-Revuz faz de Bakhtin, articulando o con- ceitd de dialogismo como o seu (dela) de heterogeneidade cons- ticutiva da linguagem, nos leva a ver que, segundo essa pers- pectiva, 0 conceito de subjetividade nae pode estar centrado num ego enquanto entidade unica ¢ fonte toda-poderosa de sua palavra, mas num sujeito que se cinde porque € dtomo, pat- ticula de um corpo histérico-social, no qual interage com ou- tros discursos de que se apossa ou diante dos quais se posiciona (ou ¢ posicionado) para construir sua fala. O discurso ¢ seu avesso Situando-se numa perspectiva também exterior a lin- giiistica, Authier-Revuz mostra ainda como a psicandlise ques- tiona a unicidade significante da concepgao homogeneizadora ida discursividade. 65 32 Entendendo o sujeito como um efeito de linguagem, a psicandlise busca suas formas de constitui¢ao nao no interior de uma “fala homogénea”, mas na diversidade de uma “fala " heterogénea que ¢ conseqiléncia de um sujeito dividido”. Su- jeito dividido entre o consciente € o inconsciente. “© incons- ciente ¢ este cap{tulo da minha histéria que € marcado por um branco ou ecupado por uma mentira: € capitulo censurado", como define Lacan (apud Authier-Revuz). Ele pode ser recu- perado, reconstruido a partir de tragos deixados por esses apa- gamentos, esquecimentos, cabendo ao analista a tarefa da re- construcao. Reconstrugio que se faz por um trabalho de re- gressda ao passado nae pela palavra, buscando-se “a restauragao do sentido pleno [...] das express6es empalidecidas” (Freud), a “regeneragao do significante” (Lacan). O trabalho analitico se funda na transgresséo das leis normais da conversacdo que rege a comunicagao na sociedade baseada na troca de palavras, visando 4 troca de bens materiais ou bens efetivos (lei do “tudo dizer” por “associag&es livres”). Nessa transgressfio articula-se o discurso com o scu aves- 50, 0 seu reverso na medida em que “se renta fazer aparecer a0 sujeito, em sua fala, o que se diz, A sua revelia, a revelia de seu desejo”. O discurso nfo se reduz, portanto, a um dizer expli- cito, pois ele é permanentemente atravessado pelo seu avesso: “9 avesso ¢ a pontuagae do inconsciente; nao é um outro dis- curso, mas o discurso do outro: isto é, 0 mesmo mas tomado ao ayesso, em seu avesso” (Clément, 1973, p. 159). Para a psi- candlise, o inconsciente € uma cadeia de significantes que se repete e insiste em interferir nas fissuras que lhe oferece o dis- curso efetivo. A escuta analitica se situa no funcionamento latente, ay subjacente do significante, junto ao material lingtiistico. No 66 ee trabalho de escuta, o analista deve estar arento aos “diversos discursos que se dizem” no desenrolar de uma Unica cadeia verbal, Isto ¢, coloca-se como comum a toda fala o fato de que: “sob nossas palavras ‘outras palavras’ se dizem, que atras da linearidade conforme ‘emissio por uma sé voz' se faz ouvir uma ‘polifonia’ e que ‘todo discurso quer se alinhar sobre os varios alcandes de umd parti¢ao’, que o discurso €,constitutivamente atravessado pelo ‘discurso do Outro” (Auchier-Revuz, 1982, pp- 140-41). E nesse panto que a concepgao de um discurso heterogéneo atravessado pelo inconsciente sé articula com uma “teoria do descentramento” do sujeito falante: “o sujcito nado é uma entidade homogénea, exterior & lingua, que lhe serviria para ‘traduzir’ em palavras um sentido do qual seria a fonte consciente” (Authier-Revuz, p. 136). Segundo essa teoria, o sujeito apresenta as seguintes caracteristicas: a) O sujeito ¢ dividido, clivade, cindido. O sujeito nao ¢ um ponto, uma entidade homogénea, mas 9 resultado de uma estrutura complexa que nao se reduz & dualidade especular do sujeito com seu outro, mas se constitui também pela in- teracio com um terceiro elemento: o inconsciente freudiano. Inconsciente que, concebido como a linguagem do desejo (censurado), ¢ 0 elemento de subversao que provoca a cisdo do eu. Essa divisao do sujeito nao significa, entretanto, com- partimentagio nem dualidade: A consciéncia nao é a face aparence de um subconsciente escondido, nem o inconsciente, a estrucura profunda, nao revelada de um consciente manifesto. A relagdo nao se esta- belece nesses termos, mas toma o movimento geografico de a7 a3 um percurso sem direlco nem avesso, de onde o sujeito se enuncia sem saber o que diz em uma fala que diz muico sobre este saber (Roudineseo, apud Authier-Revuz, pp. 137-38). b) O sujeito é descentrado. A descoberta do inconsciente por Freud teria provocado conseqiiéncias semelhantes as das “feridas narcfsicas” infligidas ao homem por duas outras grandes descoberras anteriores: a de Copérnico que, ae declarar que a terra ndo ¢ o centro do universo, provoca um forte deslocamento na concepgio de mundo que o homem passa a tere a de Darwin que, ao afirmar a ascen- déncia animal do homem, apaga o mito da sua origem divina. Com a descoberta freudiana o ew perde a sua cen- tralidade, nfo sendo mais “senhor de sua morada’, A pratica do descentramento na teoria freudiana mostra que a centro dum “golpe montado” pelo sujeiro, do qual as cién- cias do homem fazem seu objeto ignorando que ele ¢ ima- gindrio [...]. Descentrar ¢ praticar o dapsws ¢ 0 trocadilho, re- conhecer o lugar do golpe manrado, sem, no encanto, pre- tender aboli-lo (Roudinesco, apud Authier-Revuz, p. 136). Nao hd, portanto, centro para 0 sujeito, fora da ilusao e do fantasma. Esta ilusdo, designada por Freud como a “fungao do desconhecimento do eu” ¢ uma tendéncia necessdria e normal para o sujeito. Em outros termos, ¢ proprio da cons- tituig¢ao do sujeito a Fungo que o ew assume de mancer a ilu- sao de um centro. © que importa é procurar conhecer a realidade desta ilusao: “ndo tomar os engatnos construidos pelo sujeito pela realidade que mascaram; como também nda ig- norar estes enganos como tlusérios desconhecenda seu cardter reaf” (Authier-Revuz, p. 139). Gs c) O sujeito é efeita de linguagem.'Se para Lacan “a linguagem é a condicio do inconsciente” ¢ “o inconsciente € 0 dis- curso do outro”, 0 sujeito ¢ compreendido como um efeito de linguagem, visto com uma representa¢ao que depende “das formas da linguagem que ele enuncia ¢ que na realidade o dnunciam”; “o sujeito nao ¢ senao da ordem da linguagem i fa qual eld rem sido aculturado”, Para Clément: “o Outro é o lugar estranho de onde emana todo discurso: lugar da familia, da lei, do pai, na teoria freudiana, liame da histdria e das posicées sociais, lugar para onde é remetida toda subje- tividade” (apud Authier-Revuz, p. 137). A partir da andlise das marcas explicitas da heteroge- neidade mostrada, articulada com a heterogencidade cons- ricutiva da linguagem, tomando como apoio tedrico as colo- cagdes do circulo de Bakhtin ¢ da psicanilise, Aurhier-Revuz vé uma espécie de negociacio entre as duas formas de hetero- geneidade. Impossibilitado de fugir da heterogeneidade cons- titutiva de rodo discurso, o falante, ao explicitar a presenga do outro através das marcas da heterogeneidade mostrada, ex- pressa no fundo seu desejo de dominancia. Isto ¢, movido pela ilusio do centro, por um processo de denegagao em que lo- caliza o outro e delimica o seu lugar, o falante pontua o seu discurso, numa tentativa de “circunscrever € afirmaro um. A teoria polifénica de Ducrot Embora se situe numa perspectiva diferente & da andli- se do discurso, nao se pode deixar de expor aqui a contribuigao de Ducrot sobre a questao da polifonia. } 69 , Ducroc (1984), reromando o conceito de Bakhtin e operando-o num nivel lingiilstico, vai mostrar, segundo a perspectiva da semdntica da enunciacdo, como mesmo num enunciado isolado ¢ possivel detectar mais de uma voz, No seu “Esbogo de uma Teoria Polifanica da Enuncia- 540", o objetivo fundamental de Ducror ¢ conrestar a tese da unicidade do sujeito falante. Segundo essa tese, arribuem-se ao sujeito trés propriedades que Ducror assim especifica: a) ele € 0 encarregado de toda atividade psicofisiolégica ne- cessdria 4 produgdo do enunciado; b) ele € 0 autor, a origem dos atos ilocurérios executados na produgao do enunciado (ares do tipo da ordem, da per- gunta, da assergio...); c) além da produgio fisica do enunciado ¢ da execucdo dos atos ilocutérios, ¢ habitual atribuir ao sujeito falante uma terceira propriedade, a de ser designado em um enunciado pelas marcas da primeira pessoa quando elas designam um ser extralingiifstica: ele é, neste caso, suporte dos processos expressos por um verbo cujo sujeito € ew, o proprietdrio dos objetos qualificados de meus, é ele Que se encontra no lugar chamado aqui... E toma-se conseqiientemente que este ser designado por ew é ao mesmo tempo o que produz o enun- ciado, e é também aquele cujo enunciado exprime as pro- miessas, ordens, assergoes etc. (p. 189). Contra essa ese da unicidade do sujeito, Ducrot esboca sua teoria polifénica, partindo do pressuposto de que o sen- tide do enunciado é uma descrigao de sua enunciagao e para essa descricao o enunciado fornece indicagées. Dentre as in- dicag6es fundamentals que o enunciado traz inscritas em seu 70 sentido, est@o aquelas sobre o(s) aucor(es) eventual(is) da enun- ciagdo. Sua tese comporta duas idéias: » aatribuigio 4 enunciagao de um ou varios sujeitos, que se- ._t | riam sua origem; ° anecessidade de se distinguir entre estes sujcitos pelo menos dois tipos de personagens, os locurores e os enunciadores. Embora considere os pares opositivos: Jocutor/alocu- tirio; enunciador/enunciardrio; falante/ouvinte, Ducror de- senvolve sua teoria em torno apenas do primeiro elemento desses pares (locuror, enunciador, falance). Para compreender a distincZo locuror/enunciador, ele se serve da teoria da nar- rativa apresentada por Genette (Figures [7/, 1972). Baseado nessa teoria, Ducrot faz duas distingdes: Primetra distingdo: locutor/sujeito falante empirico. A teoria de Genette faz aparecer na narrativa duas ins- tancias semelhantes As por ele detectadas na linguagem or- dindria. Podemos esquematizar assim as suas colocagGes: pS = ' F 1 = 1 : Genette Ducrat ; 1 j 1 | 1 i mies ; n 1 i [* inseancia: . narrador = loeutor i 1 +s ' x x t 1 2 Seca ' nos 1 i 2? instamcia: I aulor = suyelto falance i 1 F ' 1 ! , i k= ee Se KE = -! www er er er ew eer ere —_— eee ee oe 71 3 5 A figura do locutor corresponde & figura do narrador da teotia de Genette. © locutor ¢ apresentado como respon- sdvel pelo dizer, mas nao é um ser no mundo, pois trata-se de uma ficcdo discursiva. E aquele que fala, que conta, que € tido como fonte do discurso. Ea ele que referem o pronome ewe as outras marcas da primeira pessoa. Assim como o narrador se distingue do autor, o locucor se distingue do sujeito falante empirico — o produror cletivo do enunciado e exterior ao seu sentido. Segundo Genette, © autor de uma narrariva (romancista ou novelista) mobiliza um narrador, responsdvel pela narragdo ¢ que tem caracteris- ticas diferentes das de um autor. Dentre essas caracteristicas, citami-se trés: + aprimeira, desenvolvida por Genette, diz respeito a atitude do narrador em relacao aos acontecimentos relatados; en- quanto que o autor imagina ou inventd estes acontecimentos, o narradot os relata; + a segunda relaciona-se com o tempo: 6 tempo gramatical utilizado num relato pode muito bem nao tomar como pon- to de referéncia o momento em que o autor escreve, mas aquele em que o narrador conta. Por exemplo, um autor, yivendo em 1991, pode imaginar um narrador, vivendo no ano 2100, que conta o que se passou no ano 2000; » Aterceira diz respeito a existéncia empirica que € predicado necessdrio ao autor, mas pode ser recusado ao narrador. Assim, da mesma forma que o narrador é um ser ficticio, interior, o locutor é um ser de discurso que, pertencendo ao sentido do enunciado, esta insctito na descrigao que o enunciado dd de sua enunciagao. 72 Segunda distin¢do: locutor/enunciador. Esquematicamente, 0 paralelo que Ducrot estabelece ¢ O seguinte: pew eee este esters errs (“sujeito de consciéncia’) i el i Genetic Ducrot ' ! | i | i ; ! \ | _ | j harrader (o que fala) = ocular ' x x i ' d Wa B & iad ' i centro de perspectiva = nunclador ii 1 . Il f] (o que vé) i ' 1 be O enunciador se distingue tanto do locutor quanto do sujeico falance. E a figura da enuncia¢do que representa a pessoa de cujo ponto de vista os acontecimentos sa0 apre- sentados. Corresponde ao “centro de perspectiva’ de Generte ou ao “sujeito de consciéncia” dos autores americanos. Se 0 locutor ¢ aquele que fala, que conta, o enunciador é aquele que vé, é 0 lugar de onde se olha sem que lhe sejam atribuidas palavras precisas: Chamo cnunciadores estes seres que se exprimem através da enunciacfo, sem que, no entanto, lhes sejam atribuidas pa- lavras precisas; se eles falam € somente no sentido de que a enuncia¢do é vista como exprimindo seu ponto de vista, sua posicaa, sua aticude, mas nfo, no sen tido material do termo, suas falas (p. 204). Assim, aquele “que fala” ¢ aquele “que vé” constituem papéis nao-atribufveis a um unico ser. As aritudes expressas a 36 no discurso por um locutor podem ser acribuidas a enuncia- dores dos quais ele se distancia, “como os pontos de vista ma- nifestos numa narragio podem ser os de sujeito de consciéncia estranhos ao narrador”. A polifonia pode ocorrer tanto no nivel do locutor quan- to no do enunciador, Examinemos coma se da esse fendmeno nos diferentes casos de discurso relatado. No nivel do locutor a polifonia se manifesta nos casos em que hd desdobramentos da figura do locutor. No discurso direto, um caso de dupla enunciacao, temos dois locutores: Lie L2. Pedro me disse: cu preciso sair 1 L2 4 Li Temos, no enunciado acima, duas figuras de locutor: um L1, responsavel pela totalidade do enunciado, e um L2, res- ponsdvel por parte da enunciagao de L1. As formas de primeira pessoa (expressas pelos pronomes me ¢ ew) referem, portanto, locurores diferentes cujas vozes esto lingilisticamente demar- cadas, Considera-se a polifonia no nivel do locutor um caso de “polifonia fraca”. No discurso indireto, a polifonia ocorre também de forma marcada, mas com uma fronteira menos delimitada porque o locutor incorpora lingitisticamente, na sua fala, a de L2. O uso de determinadas palavras, expressées, pode mo- dalizar 0 enunciado demarcando as perspectivas de quem fala: a) Pedro disse que felizmente vira amanha. b) Felizmente Pedro disse que vird amanha. 74 aon Em “a”, felizmente refere-se & perspectiva de Pedro ¢ nao a do locutor responsavel pela totalidade do enunciado, como no caso “b". No discurso indireto livre a locutor fala de perspecti- vas enunciativas diferentes, mas sem demarcd-las lingilistica- mente: r “Fabiana meteu of olhos pela grade da cua L: EI | Chi! que pretume! O lampiio da esquina se apagara” Tips e | = El | (G. Ramos, Vides sees) Ez El {=L) Esquematicamente, temos: L em que L representa a figura do locutor que fala de duas po- sigdes diferentes, instalando-se uma ambigitidade contextual com essa duplicidade de perspectiva. O enunciado “Chi! que pretume!” expressa a fala do locutor de sua propria perspectiva (E1), mas, ambiguamente, reflete também a perspectiva de Fa- biane (E2). * Para provar a pertinéncia da figura do enunciador, Ducrot (1984, pp. 210 e segs.) estuda outros casos de dupla enunciagao come a ironig € a negagao. Segundo Guimaraes, nessa recomada do conceito de po- lifonia, Ducrot exclui a nogao de histéria que, para Bakhtin, ¢ urna nocdo fundamental. A nogio de historicidade em Ducrot se resume ao presente, ao momento concreto da enunciagao: “A realizacdo de um enunciado ¢ um acontecimento histérico: é dada existéncia a algo que nao existia antes que se falasse e que nao existird depois. E esta aparigao moment4nea que chamo 75 37 ‘enunciacio’™” (p. 179). Os conceitos de locutor e de enun- ciador, elaborados por Ducror, constituem, entretanro, ins- trumentos de andlise de inegdvel valor operacional. A proposta dos analistas do discurso, que a eles tém recorrido, € a de re- cuperar a nogao de historicidade presente originalmencte no conceico de polifonia de Bakhtin. Sentido ¢ sujeito na andlise do discurso Para a andlise do discurso, ¢ essa concepgao de sujeito — que vai perdendo a polaridade centrada ora no ew ora no fu e se enriquecendo com uma relag&o dinamica entre identidade ¢ alteridade — que vai ocupar o centro de suas preocupagées atuais. Para ela, o centro da relagio nao estd nem no ew nem no ft, mas no espago discursivo criado entre ambos. O sujeito sd constréi sua identidade na interagdo com o outro. E o ¢s- paco dessa interacio ¢ o texto: “[...] o dominio de cada um dos interlocutores, em si, € parcial e sé tem a unidade na (e do) cexto, Conseqiientemente, a significagao se da no espago dis- cursivo (intervalo) criado (constituido) pelos/nos dois inter- locutores” (Orlandi, 1988), Essa citacdo nos acena para, pelo menos, duas idéias bdsicas 4 andlise do discurso: 1) A idéia de que o sentido assim como 0 Sujeito nao sio dados a priori, isto ¢, na expressao de Pécheux (1975, p. 119), nfo sao “toujours déja-donné”, mas sao consti- tuidos no discurso, descartando-se uma concepgio idea- lista da nogdo de subjetividade que aparece “como fonte, origem, ponto de partida ou ponto de aplicagao”. Pécheux contrapée, a toda uma filosofia idealista da linguagem 76 atravessada pela “evidéncia da existéncia espontinea do sujeito (como origem ou causa em si)” ¢ pela “evidéncia do sentido”, a questéo de uma constituicio do sentido e do sujeito ase processar simultaneamente através da figura da incerpelagio ideoldgica. Segundo Pécheux, ' o sentido de uma palavra, expresso, proposi¢ao nao existe em si mesmo (isto ¢, em sua relacZo transparente com a lite- ralidade do significante), mas ¢ determinado pelas posigdes | ideolégigas colocadas em jogo no processo sécio-histérico em que palavras, expresses, proposigées so produzidas (isto é, reproduzidas) (1975, p. 144). Parafraseando a si mesmo, Pécheux explicira essa ideia afirmando ainda que “as palavras, expressdes, proposigdes mu- dam de sentido segundo posigGes sustentadas por aqueles que as empregam, o que significa que elas tomam o seu sentido em referéncia a estas posigdes, isto ¢, cm referéncia as formardes idealdgicas [...] nas quais essas posices se trscrevert”. E, dessa forma, que introduz, no bojo da sua teoria onde ocupam um papel fundamental, os conceitos de formagio ideoldgica ide formacao discursiva. O conceito de formagio discursiva norteia a referéncia 4 interpelagao/assujeitamento do individuo em sujcito do seu discurso, como veremos adiante, Definido como “o que pode e deve ser dito por um sujeito”, esse conceito possibilita o fato de que sujeitos falantes, tcomados em uma conjuntura his- térica determinada, possam concordar ou se afrontar sobre o sentido a dar as palavras. ae 3 8 2) A idéia do descentramenco do sujeito, de um sujeito que, embora fundamental, porque nao existe discurso sem su- jeito, perde sua centralidade ao passar a integrar o funcio- namento dos enunciados. Atravessado por uma teoria da subjetividade de natureza psicanalifcica, o quadro episte- moldgico da AD “nao centra mais a problemdtica no su- jeito, ¢ sim nos sistemas de representagao". A AD € critica em relacdo a uma ceoria da subjetividade que reflica a ilu- so do sujeico em sua oniporéncia; nela “a ideologia (relacao com © poder) ¢ 9 inconscienté (relacdo com o deseja) estio materialmente ligados, funcionando de forma andloga na constituigao do sujeito e do sentido. O sujeito falante ¢ determinado pelo inconsciente ¢ pela ideologia” (Orlandi, 1986, p. 119). E nesse sentido que Pécheux propée uma teoria ndo-subjetivista da enunciagdo que permita fundar uma teoria (materialista) dos processos discursives. Uma teoria nao-subjetivista da enunciagao “Para a formulacdo dessa teoria tomam-se como basi- cas as colocagées de Althusser que, segundo Pécheux (1975, p- 122), na sua obra /deologia ¢ aparelbos ideoldgicas de Es- tado, “verdadeiramente colocau os fundamentos reais de uma teoria nao-subjetivista do sujeito, como teoria das candicées ideoldgicas da reprodugao/transformagao das relagdes de pro- ducao, estabelecendo a relagdo entre inconsciente (no sentido freudiano) ¢ ideologia (no sentido marxista)”. Pécheux parte da tese de Althusser, segundo a qual “a ideologia interpela os individuos em sujeitos’. Isto €, 0 espe- cifico da ideologia é constituir individuos concretos em su- 78 jeitos. Sujeitos que implicam uma dimensdo social mesmo quando no mais intimo de suas consciéncias realizam opgoes morais e escolhem valores que orientam sua agao individual. A constituicdo do sujeito deve ser buscada, portanto, no bojo da ideologia: o “ndo-sujeito” ¢ interpelado, constitul- do pela ideologia. Segundo Althusser, “nao hd ideologia sendo pelo sujeito e para sujeitos”. Trazendo essas colocagSes para o terreno da linguagem, no ponto éspecifico da materialidade do discurso e do sentido, Pécheux (1975, p. 145) diz que “os individuos sio ‘interpelados’ em sujeitos-falantes (em sujeito de seu discurso) pelas formagées discursivas que re- presentam ‘na linguagem’ as formagies ideoldgicas que lhes correspondem ! . Assim, € a interpelacio ideoldgica que permite a iden- tifidacZo do sujeito, ¢ ela tem um efeito por assim dizer re- troativo na medida em que faz com que todo sujeito seja “sempre jd-sujeito”. Isto 4, “o sujeito ¢ desde sempre um in- dividuo interpelado em sujeito”. E isso que permite a resposta absurda € natural “sou eu” 4 pergunta “quem esta ai?", mos- trando que ew sou o tinico que pode dizer ew falando de mim mesmo. Essa interpelagio de individuos em sujeitos se faz em nome de um Sujeito (com § maiusculo) tinico ¢ absolut: “O individuo ¢ interpelado em sujeito (livre) para que se submera livremente as ordens do Sujeito, logo para que ele aceite (li- yremente) seu assujeitamento’. Essa colocacao de Althusser apresenta desdobramentos que refletem: a} a estrucura especular de toda ideologia que assegura ao mesmo tempo: 7 39 1) a interpelagao dos individuos em sujeitos; 2) a sujeigio dos individuos a um sujeito absoluto que ocu- pa o lugar do cenrro; 3) o reconhecimento mutuo entre os sujeitos € 0 Sujeito ¢ dos sujeitos entre si, ¢ finalmente o reconhecimento do sujeito por si mesmo; 4)a garantia absoluta de que cudo ¢ exaramente assim ¢ de que tudo correrd bem sob a condi¢ao de que os sujeitos reconhecam © que sao € se comportem de forma con- sequcnte. Inseridos nesse sistema de interpelagio, os sujeitos, na maioria das vezes “caminham sozinhos”, isto €, com a ideo- logia cujas formas concretas séo realizadas nos aparelhos ideol6- gicos de Estado. A estes, os “bons sujeitos”, opSem-se os “maus sujeitos” que, nao caminhando com a ideologia, provocam a ac¢io do Estado através dos seus aparelhos repressivos (Alchusser, 1970, p. 111). b) aambigiiidade constitutiva da nogao de sujeito que se situa paradoxalmente entre: 1) uma subjetividade livre enquanto centro de iniciativas, senhora de sua vontade, responsavel por seus atos, que lhe permite “caminhar sozinho”; 2)e uma subjetividade assujeitada a uma ordem superior (submetida As coergdes das condigdes de produgao), por- tanto, desprovida de liberdade, exceto a de aceitar livre- mente sua sujcigao. 80 Ha, portanto, uma contradi¢ao no interior desse su- jeito: nao sendo nem totalmente livre nem totalmente sub- metido, o espaco de sua constituigao € tensa (Orlandi ec al., 1988), pois, ao mesmo tempo em que ¢ interpelado pela ideo- logia, ele ocupa, na formasdo discursiva que o determina, com sua histéria particular, um lugar que é essencialmente seu: “Cada sujeito ¢ assujeitado no universal como singular ‘insubstituivel™” (Pécheux, 1975, p. 156). A identificagio do sujeito do discurse com a formagio discursiva que o domina constitui o que Pécheux chama a “forma-sujeito”. A forma- sujeito é, portanto, o sujeito que passa pela interpelagao ideo- légica ou, em outros termos, o sujeito afetado pela ideologia. Dessa maneira, reiteramos a afirmagdo anterior de que nada ¢ dado a priori: nao apenas o sujeito (alids, segundo Courtine, 1981, nado hd sujeito do discurso, mas diferentes posigdes do sujeito), mas também o sentido, uma vez que as palavras 36 adquirem sentido dentro de uma formagao dis- cursiva. Concebe-se, assim, o sentido como algo que ¢ pro- duzido historicamente pelo uso ¢ o discurso como o efeito de sentido entre locutores posicionados em diferentes perspec- tivas. Pécheux (1975, p. 145) coloca isso da seguinte forma: Se uma palavra, expresso, proposigao podem receber sen- tidos diferentes [...] conforme refiram a tal ou tal formagao discursiva, é porque [...] elas nao cém um sentido que lhes seria “proprio” enquanto ligado a sua literalidade, mas seu sentido se constitul em cada formagao discursiva, mas re- lagdes que entretém com oucras palavras, expressdes, pro- posigdes da mesma formagie discursiva. &1 40 gre renege on ue eee ee A ilusdo discursiva do suycito Afetado, enrrerancto, por dois tipos'de esquecimento (Pécheux ¢ Fuchs, 1975, Pp. 20-21), o sujeito cria uma rea- lidade discursiva ilusdéria: » pelo eiquecimenta nm’ 1, em que se coloca como a origem do que diz, a fonte exclusiva do sentido do seu discurso. De natureza inconsciente e ideoldgica — dai ser o ponto de articulagao da linguagem com a teoria da ideologia —, ¢ uma zona inacess{vel ao sujeito, aparecendo precisamente, por essa razio, como o lugar constitutivo da subjetividade. Por esse esquecimento o sujeito rejeita, apaga, inconscicn- temence, qualquer elemenco que remeta ao exterior da sua formagio discursiva; por ele ¢ que o sujeito “recusa” essa ¢ no outra seqiiéncia para que obtenha esse € nio outro sen- tido. Nesse processo de apagamente, o sujeito tem a ilusao de que ele é o criador absoluco de seu discurso; + pelo esquecimento n* 2, que se caracteriza por um funcio- namento de tipo pré-consciente ou consciente na medida em que 0 sujeito retoma o seu discurso para explicar a si mesmo o que diz, para formuld-lo mais adequadamente, para aprofundar o que pensa: na medida em que, para an- tecipar o efeito do que diz, utiliza-se de “estrarégias dis- cursivas” tais como a “interrogagao retérica, a reformulagao tendenciosa ¢ o uso manipularério da ambigilidade”. E a operacao de selegao lingiiistica que todo falante faz entre o que € dito € o que deixa de ser dito; em que, no interior da formacio discursiva que o domina, elege algumas formas ¢ seqliéncias que se encontram em relagio de pardfrase € “esquece’, oculta as outras, Essa operagao da ao sujeito a 82 ilusio de que o discurso reflete o conhecimento objetivo que tem da realidade, Constitui o ponto de articulagao da lingiifstica com a teoria do discurso. A concepsao de um sujeito marcado pela idéia de uni- dade! do centro, fonte ou origem do sentido constitui para a AD uma “ilusio necessdria’, construtora do sujeito. Ela, no entanto, nao sé.se posiciona criticamente em relagdo a essa ilusdo, recusando-se a reproduzi-la como retoma a nogao de dispersio do sujeito (Foucault, 1969), ao reconhecer o desdao- bramento de papéis segundo as varias posigGes que © sujeito ocupa dentro de um mesmo texto. E isso que leva Orlandi c Guimaraes (1986) a conceberem o discurso como uma dis- persao de rextos ¢ 0 texto como uma dispersao do sujeito. Por texto enquanto dispersio do sujeico, entenda-se a perda da centralidade de um sujeito uno que passa a ocupar varias po- sigdes enunciativas; por discurso enquanco dispersdo de textos entenda-se a possibilidade de um discurso estar atravessado por varias formagées discursivas. Segundo Pécheux, em um mesmo texto podem-se encontrar varias formagées discur- sivas, estabelecendo-se uma relagao de dominincia de uma formagao discursiva sobre a(s) ourra(s). Assim, hd uma heterogeneidade que ¢ constitutiva do préprio discurso e que ¢ produzida pela disperséo do sujeico. Essa heterogeneidade, entrecanto, ¢ trabalhada pelo locuter de tal forma que, impulsionado por uma “vocago toralizan- te” faz com que o texto adquira, na forma de um concerto polifénico, uma unidade, uma coeréncia, quer harmonizando as diferentes vozes, quer “apagando” as vozes discordantes. Essa unidade textual, constivufda enquanto dominan- cia, € um efeito discursivo que deriva, segundo Foucault 83 ‘ 41 (1971, p. 28), do principio do autor que funcionaria como uma das ordens reguladoras do discurso. Nesse caso, o autor nao seria aquele “entendido como o individuo que fala, que pronunciou ou escreveu, mas o autor comd principio de agru- pamenco do discurso como unidade e origem de suas signi- ficacées, como foyer de sua coeréncia”, Neutralizando uma concepsio de subjetividade marcada pela dispersao, pelos di- ferentes esratutos que um sujeito pode assumir no seu dis- curso, o principio do auror €.0 elemento que centraliza, que ordena, que dd unidade ao discurso, excluindo os possiveis elementos desviantes pelo “jogo de uma identidade que tem a forma da individualidade ¢ do eu”. O prinefpio do aucor limitaria o acaso do discurso, sua proliferagao com tude que pode “conter de violento, de descontinuo, de baralhador, de desordenado e de perigoso. Tudo se passa como se interditos, barragens, limites fossem dispostos de maneira dirigida, que sua desordem fosse organizada, controlada”. Estendendo a nogio de autoria de Foucaule, Orlandi ¢ Guimaries (1986) acribuem-lhe um alcance maior ao espe- cificd-la como necessdria para qualquer discurso ¢ coloci-la na origem da cextualidade. Para esses autores, ainda, a uni- dade construida a partir da hererogeneidade discursiva através do principio de auroria se faz por uma Funcao enunciativa. Nesse sentido, distinguem as seguintes fungSes do sujeito falante: + locutor: é aquele que se representa como cu no discurso; + enunciador: é a perspectiva que esse eu constrdi; + autor: da fungao social que esse cu assume enquanto pro- ductor da linguagem. O aucor é, dentre as dimensdes enun- ciativas do sujeito, a que estd mais determinada pela exterio- B4 ridade (contexto sdcio-histérico) ¢ mais afetada pelas exi- géncias de coeréncia, nao-contradi¢io, responsabilidade. Essa nocio do sujeito que se desdobra e assume varios papéis no discurso nos remete ao conceito de polifonia, ela- borado inicialmente por Bakhtin, que opGe (como ja virnos) um discurso polifénico, tecido pelo discurso do outro, a um discurso que qualifica como monolégico. Para nds, nao ha dis- cursos consticutivamente monoldégicos, mas discursos que se “fingem” monolégicos na medida em que reconhecemos que toda palavra € dialdgica, que todo discurso rem dentro dele outro discurso, que tudo que ¢ dito é um “jd-dito”. E nesse sen- tido que Orlandi ¢ Guimaraes (1986) falam em uma mono- fonizagao da polifonia enunciativa, como processo de apa- gamento de vozes que naturalmente intervém no discurso pelo seu cardter social ¢ histérico. Um balanco dessas reflexdes sobre a constituigao da sub- jetividade revela as contradig6es que marcam © sujeito na AD: nem totalmente livre, nem totalmente assujeicado, movendo- se entre o espaco discursive do Um e do Outro; entre a “incom- pletude” ¢ o “desejo de ser completo"; entre a “dispersio do sujeito” ea “vocagao toralizante” do locutor em busca da uni- dade ¢ coeréncia textuais; entre o cardter polifénico da lin- guagem e a estratégia monofonizante de um locutor marcado pela ilusio do sujeito como fonte, origem do sentido, Conclusde Ao fazérmos o percurso tedrico em que caminhamos da reoria subjetivista da teoria da enunciagao para a teorla nao- ' i a5 subjetivista da andlise do discurso, 0 que nos preecupou foi verificar como a questio do histérico e, conseqiientemente, do ideoldgico se inscrem na questao do lingiistico e como ‘isso acarreta perspectivas discursivas diferentes. A observacdo nos mostrou que enquanto a questio do histdrico e do ideolégico nao ¢ uma preocupagao que s¢ co- loca, o sujeico (tal como proposto por Benveniste, por exem- plo) estd centrado na dominancia de um EU marcado pela unicidade, pela idéia de fonte absoluta de sentido. A medida que passa a se incorporar a relagdo locuror-ouvinte, numa perspectiva dialdgica, como elemento fundamental no pro- cesso de significagao, entra para o Ambito dos estudes lin- giiisticos a preocupagao com o social, com as condigdes de producio. Essa preocupagao com o Outro introduz necessa- riamente o conceiro de histdéria ¢ o de ideologia que vém des- locar o conceito de sujeito. Este perde o seu centro © passa a se caracterizar pela dispersdo, por um discurso hetcrogeneo que incorpora ¢ assume diferentes vozes socials. 86 CAPITULO 4 SOBRE A NOCAO DE INTERDISCURSIVIDADE Fundada no principio do dialogismo, uma reflexdo sobre a identidade do discurso nfo pode deixar de priorizar uma ca- ractetistica que lhe ¢ fundamental e que ja foi apontada an- teriormente: a sua heterogeneidade. Hetcrogeneidade que liga de maneira constitutiva o Mesmo do discurso com o seu Outro ou, em OUrros termos, que permite a inscri¢ao no discurso da- quilo que se costuma chamar seu “exterior”. O discurso mostra essa heterogeneidade através de marcas explicitas, como a nega- cio eo discurso relatado em que se delimita de forma clara a alteridade discursiva; mas nem sempre o cardter heterogéneo da interag4o enunciativa tem marcas visiveis que uma aborda- gem lingiilstica stricto sensu possibilite apreender. Courtine e Marandin (1981) fazem uma avaliagao cri- tica do campo da AD, questionando trabalhos que acabam por escamotear este cardter heterogéneo do discurso. Sao trabalhos que buscam a “apreensio do idéntico” na rentativa de eliminar sistermaticamente toda forma de heterogeneidade. Através de procedimentos de homogeneizacao “procuram apagar as as- perezas discursivas, eliminar as reentrancias cm que os sentidos podem se esconder” fazendo do discurso “um corpo cheio e uma superficie plana”. Dentre esses procedimentos, apontam: 87 *: 3 * a constituicio de um corpus discursivo fechado em que a retomada de seqiiéncias discursivas seja garantida; » as operagées de extracdo ¢ segmentagio, nesse carpus, de seqiléncias organizadas em torno de unidades lexicais con- sideradas “chaves” ou “pivds"; esse procedimento torna 0 corpus mais homogéneo ao tratd-lo como diciondrio em que a freqiiéncia da repeticao dos vocabulos fornece as entradas; + um conjunto de manipulagées lingiiisticas homogenetza- doras que reduzer o contraditério ou diferente ao mesmo ou ao idéntico fazendo com que estruturas sintdxicas di- ferentes sejam levadas a esquemas elementares. E isso que permitird, por exemplo, que um torneio enfatico seja trans- formado em uma estrutura “neutra’ ou que uma frase ativa seja equivalente a uma frase passiva. Em vez de um trabalho de homogeneizagiio, a AD, se- gundo Courtine ¢ Marandin, deve propor-se a um trabalho que faga justamence aflorar as contradigGes, o diferente que subjaz a todo discurso, que nao exclua a nogao de “heteroge- neidade como elemento constitutive de praticas discursivas que se dominam, se aliam ou se aftontam em um certo estado de luta ideolégica e politica, no seio de uma formagao social em uma conjuntura histérica determinada”. Essa forma de abordar o discurso vai afetar um conceito nuclear da AD: o de formacao discursiva — em que se deve reconhecer a coexisténcia de “varias linguagens em uma tinica’ e ndo ao contrério, como pensavam inadequadamente alguns, a existéncia de “uma uinica linguagem para todos”. Assim, uma ED nao deve ser entendida como um bloco compacto e coeso que se opde a ourras FDs. Pois “uma FD ¢ hererogénea a ela prépria” ¢ o seu fechamenco é bastante instdvel, nao h4 um Ba “ee limite rigoroso que separa o seu “interior” do seu “exterior”, uma vez que ela confina com varias outras FDs e as fronteiras entre elas se deslocam conforme os embates da luta ideo- Idgica. E assim que se pode afirmar que uma FD é atravessada por varias FDs e, conseqitentemente, que toda FD ¢ definida a partir de seu interdiscurso. A relagao discurso—interdiscurso 1 Sobre a relacao interdiscursiva, Maingueneau (1984) adota uma posigao mais radical ainda ao proclamar o pri- mado do interdiscurso sobre o discurso. E isso o leva a afirmar que “a unidade de andlise pertinente nao €0 discurso, mas um espaco de trocas entre varios discursos convenientemente ¢s- colhidos” (p. 11). Afirmagao que pode ser interpretada de duas manciras: i 1) 0 estudo da especificidade de um discurso se faz colocan- do-o em relacio com outros discursos; 2) o interdiscurso passa a ser o espaco de regularidade perti- nente, do qual os diversos discursos nao seriam senao com- ponentes.) Esses discursos teriam a sua identidade estrutu- rada a partir da relagao interdiscursiva € nao independen- temence uns dos outros para depois serem colocados em relagao. Para explicar 0 que vem a ser interdiscurso, Maingue- neau (1984, p. 27) distingue: + Universo discursive: é constituido pelo “conjunto de forma- cées discursivas de todos os tipos que interagem numa dada 89 44 conjuntura”. Representa um conjunto acabado ¢, por ser bastante amplo, no pode ser apreendido em sua globa- lidade; por isso apresenta pouco interesse aa analista, ser- vindo apenas para definir o horizonce a partir do qual serao constru{dos dominios suscetiveis de serem escudados, 95 campos discursivos. Campo discursive: € constituide por “um conjunto de for- magoes discursivas que sé encontrar em concorréncia, se delimitam reciprocamente em uma regiio determinada do universo discursivo” (p. 28). Pode-se cratar, por exemplo, do campo politico, filosdfico, dramattirgico, gramatical etc. Pertencentes a uma sincronia dada, as formagées discursivas que constituem um campo discursivo possuem a mesma formacio social, mas divergem na manceira de preenché-la, o que faz com que se encontrem ou em relagao polémica, ou de alianga, ou de neutralidade. E cada uma define sua identidade pela mediagio desse sistema de diferencas. Ge- ralmente, como ndo é possivel estudar um campo discur- sivo em sua integralidade, recortam-se subcampos consi- derados analiticamente produtivos, constituindo os ¢s- pagos discursivas. Espagos discursivos: sao recottes discursivos que 0 analista isola no interior de um campo discursive tendo em vista props- sitos especificos de andlise. Para fazer esses recorces € necessa- tio um conhecimento e um saber histérico que permitirao levanrar hipéreses que sero confirmadas ou nao ao longo da pesquisa. Maingueneau (1983, 1984), por exemplo, constrdi um espaco discursivo em que associa dois discursos; o dis- curso humanista devoto e o discurso jansenista a partir da idéia defendida por certos especialistas de que o jansenismo se explicaria como uma reagio ao humanismo devoto. a0 mrs No nivel da superficie discursiva, as formagGes discur- sivas pertinentes a um espago discursivo podem apresentar poucos elementos indiciadores da relagao que as constitul. Por isso, Maingueneau propée levar em conta os funda- mentos semanticos dos discursos. E como os discursos se fundam na relacao inrerdiscursiva, o que se deve é “construir um sistema no qual a definigao da rede semantica que cit- cunscreve a especificidade de um discurso coincide com a definicdo das relagdes deste discurso com seu Outre” (1984, p. 30), Neste sentido, um discurso nunea seria auténomo; como ele se remete sempre a outros discurso, suas condi¢bes de possibilidades semanticas se concretizariam num espa- go de trocas,!mas jamais enquanto identidade Fechada. A nogio de FD implica, portanto, sua relagio com 0 interdis- curso, a partir do qual ela se define: O interdiscurso consiste em um processo de reconfiguragao incessante no qual uma formagao discurstva € conduzida [...] a incorporar elementos preconstruidos produzidos no exterior dela propria; a produzir sua redefinicao e seu retor- no, a suscitar igualmente a lembranga de seus prdprios ele- mentos, a Orgunizar a sua repetigao, mas também a provocar eventualmente seu apagamenta, o esquecimento ou mesmo a denegagao (Courtine ¢ Marandin, 1981). () outro no mesmo Efeiro de interdiscutsividade, a FD se apresenta, dessa forma, como um dominio aberto e inconsistente € nao co- [ae mo um dominio estd4vel, a expressao cristalizada da “visao 91 4 5 de mundo” de um grupo social. Segundo essa concepgao, a FD exige uma abordagem diferente daquela dada, por exem- plo, nos anos 60, Fazendo um balango critico desse perfodo, Maingueneau (1984, p. 30) afirma que, para revelar a iden- tidade de uma FD, os procedimencos utilizados entio con- sistiam na construcio de nicleos de invariancia em torno de alguns pontos privilegiados do discurso. Restringia-se o cam- po de estudo da FD, ao nao se preocupar com uma cone- xidade mais intima que ela pudesse manter com outras FDs. Alids, essa relacdo com outras FDs era pensada apenas como uma forma de justaposigio de unidades exteriores umas 4s outras. Dentro desse quadro, o interdiscurso s6 podia ser compreendido como um conjunto de relagGes entre diversas “intradiscursos’ compactos. Para reverter esse quadro, seria necessdrio repensar a equivaléncia entre “exterior” do discurso ¢ interdiscurso, ins- crevendo 0 interdiscurso “no coragao mesmo do intradis- curso” ou, em outros termos, inscrevendo o Outro no Mes- mo. A impossibilidade de separar a interagao dos discursos do funcionamento intradiscursivo “decorre do cardter diald- gico de todo enunciado do discurso”. Essa orientagao dia- [égica nao esta limitada aos cnunciados que trazem a mar- ca da citacao, da alusao etc., nem a um Outro redutivel a uma figura de interlocutor: No espago discursive, o Ourro nao € nem um fragmenco localizivel, nem uma citacdo, nem uma entidade exterior, nao € necessdrio que ele seja atestdvel por alguma ruptura visivel da compacidade do discurso. Ele se encontra na raiz de um Mesmo sempre jd descentrado em relagao a ele pro- prio, que nao € em nenhum momento focalizdvel sob a f- 92 gura de uma plenitude auténoma. Ele ¢ 0 que sistemati- camente falta num discurso ¢ lhe permite fechar-se em um rodo. Ele ¢ esta parte do sentido que foi preciso que o dis- curso sacrificasse para constituir sua idencidade (Maingue- neau, 1984, p. 31). A relacdo com o Outro deve ser percebida, portanto, independentemente de qualquer forma de alteridade mar- cada. Leva-se a questo mais adiance ainda na medida em que se concebe esse Qutro nfo como uma presenga que se ma- nifesta, quer explicita ou implicitamente, mas como uma auséncia, comp uma falta, como o interdito do discurso, Isto é, coda FD, no universo do gramaticalmente dizivel, circuns- creve a zona do dizivel legitima, definindo o conjunto de enun- ciados possiveis de serem atualizados em uma dada enunciagao a partir de um lugar determinado. Ao fazer isso, ela circuns- creve também uma zona do nfo-dizivel, definindo o conjunto dos enunciados que devem ficar ausentes do seu espago dis- cursive; delimita, dessa forma, o territério do Qurro gue lhe é incompativel, excluindo-o do seu dizer. Os enunciados apresentam, dessa forma, uma dupla face: um “direito” ¢ um “avesso” que sio indissocidveis; a0 analista cabe decifrd-los ndo sé no seu “direito”, relacionan- do-os a sua prépria formagao discursiva, mas também no seu “avesso”, perscrutando aquela face oculta em que se mascara a rejci¢ao do discurso e de seu Outro. O que equivale a dizer que ao analista cabe apreender nao s6 uma formagao dis- cursiva mas também a interacdo entre formagées discursivas, uma vez que a identidade discursiva se constrdi na relacao com um Outro presente lingilisticamente ou nao no intra- discurso. Ciente, portanto, de que em um dado momento a asso- ciacio de determinados trajctos interdiscursivos constitui parte integrante da especificidade de uma FD, a andlise do discurso, interessada nos funcionamentos discursivos, nao deve buscar a unidade de todas as formagées discursivas de uma conjuntura, definindo uma invariante universal, nem a multiplicagao ao infinico ¢ sem hierarquia das relagdes entre os campos. A intertextualidade Na relacao do discurso com seu Outro, devem-se dis- tinguir duas nogdes basicas (Maingueneau, 1984): + a nogéo de intertexto de um discurso compreendide como © conjunto dos fragmentos que ele cita efetivamente; + a nocio de intertextualidade que abrangeria os tipos de re- lagGes intertextuais definidas como legitimas que uma FD mantém com outras. Em relacdo 3 intertextualidade, reconhecem-se ainda dois niveis: + uma intertextualidade interna em que um discurso se define por sua relagao com discurso{s) do mesmo campo podendo di- vergir ou apresentar enunciados semanticamente vizinhos 20s que autoriza sua formagao discurstva. E o caso, por exemplo, dos discursos analisados por Maingueneau (1983): 0 do hu- manismo devoto ¢ o do jansenismo que, ao citarem fontes, divergem quanto 4 construgio de seus passados textuais; 94 » uma intertextualidade externa em que um discurso define uma cerra relagdo com outros campos conforme os enuncia- dos destes sejam citdveis ou nao. Por exemplo: a relagao que liga o discurso do humanismo devoto com o dos naturalistas cm que este constitui uma fonte de inspiragao para aquele a quem a natureza é a ordem “teofinica’ por exceléncia. Essas distincdes mostram que nao ha campo discursivo insular, que o universo discursive € dotado de uma incensa circulagdo de uma regido do saber para outra, Essa circulagao se caracteriza pela sua instabilidade, ocorrendo trocas bastante divergificadas conforme os discursos ¢ as circunstincias con- cernidas. Essa intercambialidade de campos toca também na ques- tao da eficdcia discursiva: ao fazer a remisso0 a outro(s) dis- curso(s), o sujeito recorre a elementos elaborados alhures, os quais, intervindo sub-repticiamente, criam um efeito de evi- déncia que suscita a adesdo de seu audirdrio. E 0 que acon- tece, por exemplo, com o discurso publicitdrio que recorre freqiientemente a vocabularios técnico-cientificos, a saberes de outros campos para melhor persuadir. A meméria discursiva No nivel da intertextualidade interna, interior ao campo, de maneira geral, a toda formago discursiva se ve associar uma meméria discursiva. E a meméria discursiva que torna possivel a toda formagio discursiva fazer circular formulagées ante- riores, jd enunciadas. B ela que permire, na rede de formu- lacdes que constitui o intradiscurso de uma FD, o apareci- 95 47 mento, a rejei¢do ou a transformagao de enunciades perten- centes a formacdes discursivas Listoricamente contiguas. Nio se trata, portanto, de uma meméria psicoldgica, mas de uma meméria que supde o enunciado inscrito na histéria. Maingueneau (1983, 1984) liga a questdo da interdis- cursividade com a da génese discursiva para mostrar que nao existe discurso autofundado, de origem absoluta. Enunciar ¢ se situar sempre em relacgio a um jd-dito que se constitui no Outro do discurso. Em outros termos, na medida em que, cronologicamente, ¢ 0 discutso segundo que se constitul atra- vés do primeiro, parece, com efeito, légico pensar que este discurso primeiro ¢ 0 Outro do discurso segundo, nao sendo possivel o inverse. O discurso primeiro nao permite a constituicao do dis- curso segundo sem estar ele proprio ameacado em seus funda- mentos. Assim, por exemplo, na medida em que retiramos de um discurso fragmentos que inserimos em outro discurso, fa- zemos com essa transposigao mudar suas condicoes de pro- dugao. Mudadas as condigées de producio, a significagao des- ses fragmentos ganha nova configura¢ao semantica, Dominios do campo enunciativo A configuracao de um campo enuncialive comporta, portanto, formas de cocxisténcia de diferentes formag6es dis- cursivas. Segundo Foucault (1969, pp. 72-73), essas formas de coexisténcia delineiam: + um campo de presenca que compreende todos os enunciadas j4 formulados alhures € que sao retomados em um discurso 96 a titulo de verdade admirida, de desericdo exata, de cacioci- nio fundado ou de pressuposto necessdrio, compreende tdmbém tahto os enunciados que sdo discutidos e julgados como os que sao rejeitados ou excluidos. Nesse campo de presenca, “as relacdes instauradas podem ser da ordem da verificacio experimental, da validagio ldgica, da repetigao pura e simples, da aceiragdo justificada pela tradigao ¢ pela autoridade, do comentario, da busca das significagdes ocul- tas, da andlise do erro”; essas relagdes podem ser explicitas ou implicitas; : + um campo de concomitdncia que compreende enunciados que dizem respeico a ! dominios de objetos intciramente diferentes ¢ que pertencem a tipos de discursos totalmente diversos, mas que aruam entre os enunciadas estudados seja porque servem de confirmagao analdégica, seja porque servem de princfpio geral ¢ de pre- missas aceitas tendo em vista um raciocinio, seja porque ser- vem de modelos que podem transferir a outros conteidos, seja porque Funcionam como instancia superior com a qual é preciso canfrontar ¢ submeter certas proposigées que sao afirmadas; + um dominio de meméria que compreende “enunciados que nao sao mais nem admitidos nem discutidos, que nao de- finem mais, em conseqiiéncia, nem um corpo de verdade nem um dominio de validade, mas em relagio aos quais se estabelecem Lagos de filiagio, de génese, de transformagao, de continuidade e¢ de descontinuidade histérica’. Siruando-se numa perspectiva tedrica semelhante 4 de Foucault, de quem é caudatdrio, mas restringindo-se a catego- o7 48