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“De onde vem os bebés?” Um impossivel a saber Leticia Nobre* Certamente, a questao sobre as origens e sobre a existéncia impde-se aos mais diversos campos do conhecimento humano, ainda que tratada de modo bastante especifico em cada um deles. Estabelece-se, assim, tal como Freud a define em seu texto “El Esclarecimiento Sexual del Nifio” como “a pergunta mais antiga e mais ardente da humanidade infantil". Sintetizada por Freud na fdrmula “De onde vém os bebés?”, tal questéo constituise, em termos psicanaliticos, ndo sé como o “primeiro, grandioso problema da vida"* de todo sujeito, no particular de sua confrontacao com os enigmas do sexo e da morte, como inscreve também, no impossivel de respostas que lhe sejam definitivas, a prépria especificidade do saber inconsciente em sua estrutura de nao-tode. Mas, se os esforcgos da ciéncia ou as garantias da religido irdo se sustentar na promessa de respostas que venham, de algum modo, a satisfazer os enigmas da existéncia humana, seré af mesmo — na ruptura com as ilusdrias certezas do conhecimento e da razao — que a psicandlise ira singularizar seu saber. Saber inconsciente por exceléncia, que intervém sobre 0 sujeito, fazendo-o trabalhar na construgao de teorias que “respondam” — e que também recubram — © que este ndo sabe que (ja) sabe da verdade de suas questées. A escrita desse trabalho produziu-se, entéo, na diregao de melhor investigar, através das “Teorias Sexuales Infantiles’, 0 estatuto do saber inconsciente em sua particular conjugagao 4 verdade — conjugagao essa que encontra na psicandlise sua originalidade disjuntiva— bem como os efeitos que dai decorrem sobre a constituicao do sujeito. Observaremos ainda, a incidéncia discursiva dos operadores saber e verdade na direcao do tratamento, onde, como aprendemos com Lacan, @ susten- tagao do saber em posicdo de verdade— tarefa que, operada pelo desejo do analista, corresponde a inscrigdo de um (im)possivel pelo sujeito — é fungdo necessdria do discurso analitico. Privilegiada, assim, na dimensdo de abertura ao saber inconsciente que lhe é peculiar, a quest&o inaugural — “De onde vém os bebés?”, ponto de despertar de todo sujeito em sua topada real com a verdade do sexo e da morte — permanecera nesse trabalho como 0 eixo central em torno do qual tragaremos algumas pontuagdes sobre 0 saber e a verdade em psicanilise. * Psicanalista, Escola Letra Frevdlana, 29 30 A CRIANGA E O SABER Para tanto, acampanharemos, de inicio, as importantes consideragdes de Freud referentes a tal questac, encontradas em dois de seus textos: “El Esclarecimiento Sexual del Nifio” e ” Sobre las Teorias Sexuales Infantiles”. No primeiro desses textos, tomando como exemplio a carta de uma menina, de aproximadamente onze anos, a sua tia — ocasido em que a menina, desejosa de “saber a verdade”, “roga” a tia por esclarecimentos sobre a origem dos bebés ~ Freud assinala os efeitos de verdade que se produzem sobre o sujeito cada vez que algo de seu saber fracassa. Assim, se, a principio, a menina parecia até se satisfazer com a idéia de que a cegonha era a responsavel pela chegada dos bebés, tal idéia torna-se, no avangar de suas investigacées, insuficiente para esclarecer os enigmas que agora ndo cessam de Ihe perturbar. Na insuficigncia de um saber, o desvelamento de uma verdade se impde, empurrando o sujeito a buscar no Outro, pelas vias da suposicao de um saber todo, @ resposta que lhe falta (em alguns casos, "uma resposta detalhada” como solicita a menina de Freud) para suas “torturantes” questées. Em seu semindrio O Avesso da Psicandlise, ao discutir o poder dos impossiveis, Lacan reafirma: “O gfeito de verdade é apenas uma queda de saber. E essa queda que faz produgao.”” Saber que no Outro também escapa, a questao sobre as origens insiste, acrescida, desde entdo, da “desconfianga” da crianca na relagdo ao Outro, j4 que, revelando-se ai em sua castracao, este também nao tem como satisfazé-la com suas evasivas respostas. No segundo de seus textos —- “Sobre las Teorias Sexuales Infantiles” — ainda dedicado ao estudo da indagag4o “De onde vém os bebés?” e seus efeitos sobre a constituicdo do sujeito-—— Freud assinala: Se a crianca j4 nao est4 amedrontada demais, mais cedo ou mais tarde empreender4é o caminho mais préximo e demandar4é uma resposta a seus pais ou a pessoas carregadas de sua criagao, que para ela significam a fonte do saber. Mas esse caminho fracassa. (tradugdo nossa) Fracasso de saber que opera, dividindo o sujeito e pressionando-o a deduzir dessa vacilagéo no Outro, nas respostas que este lhe oferece, nao o impossivel de um todo saber, mas “o_vislumbre de algo proibido que os ‘grandes’ desejarn manter-thes em reserva”. “De onde vém os bebés?” desdobra-se, entéo, numa interrogagao do sujeito sobre o lugar que ele teria ocupado no desejo do Outro— “O que ele quer de mim?”, indaga-se — tendo sido daf extrafdo. Ainda no seminario sobre O Avesso da Psicandlise, Lacan afirma: O que hd de pavoroso na verdade é 0 que ela pde em seu lugar. “DE ONDE VEM OS BEBES?” UM IMPOSSIVEL A SABER 31 © lugar do Outro, como sempre disse, é feito para que nele se inscreva a verdade, quer dizer, tudo o que 6 dessa ordem, o falso, inclusive a mentira —que nao existe, a nao ser sobre o fundamento daverdade.® Mas faz-se interessante notar que 6 mesmo “a partir deste primeiro engano e dessa recusa” sofridos pela crianca, ern seu “esforco de saber”, que Freud localiza “a primeira ocasido de um conflito psiquico”. Conflito que a empurra e faz trabalhar — queda de saber que faz produg4o, como encontravamos em Lacan— a crianca passa agora a construir, entre enganos e meia-verdades, suas “falsas teorias sexuais”, assim nomeadas por Freud. Sem determo-nos aqui no percurso de formalizagao de cada uma dessas teorias em particular, j4 que, como dissemos anteriormente, nosso interesse maior com esse trabalho consiste em tragar algumas pontuagGes sobre o saber e a verdade em psicanilise, ressaltarnos a seguir, o “curiosissimo cardter” que as trés teorias (tal como definidas por Freud em seu texto de 1908: atribuicao falica a todos os seres humanos, teoria cloacal e concepgo sadica do coito) possuern em comum, quer seja: é da estrutura das teorias sexuais infantis, o desvelamento de um fragmento da verdade, © qual permanece, no entanto, recoberto e falseado pelo sujeito. Freud nos diz: Ainda que grotescamente falsas, cada uma delas contém um fragmento da verdade, e sio andlogas neste aspecto as solucdes rotuladas de “geniais” que os adultos empregam para explicar os problemas do universo cuja dificuldade supera o intelecto humano.’ ttradugao nossa) Assim, entre seu apetite de saber toda a verdade e os efeitos inibitérios de sua ignorancia, 0 sujeito se constitu, trabaihando na construgéo de teorias que velem e desvelem a “particula de verdade” produzida a partir de seu confronto real com os enigmas da existéncia. Vale ressaltar que a particula de verdade af desvelada, particula esta que se apresenta como resto irredutivel ao falseamento do real provocado pelas teorias, parece-nos exatamente vir a sustentar o impossivel de respostas definitivas aos enigmas do sujeito, metaforizado, como ja assinalado, pela indagacdo “De onde vém os bebés?", Desse modo, inscrevendo algo de um impossivel a saber, tal indagacdo opera em sua verdade, produzindo os efeitos anteriormente descritos sobre a constituigéo do sujeito. Na aproximagao do impossivel 4 verdade, Lacan afirma em Televisdo (1973): Digo sempre a verdade: nao toda, porque dizé-la toda nao se consegue. Dizé-la toda é impossfvel, materialmente: faltam as palayras. E justamente por esse imposstvel que a verdade toca 0 real.’ Enfim, também em termos do trabalho analitico, a indagagao “De onde vém os bebés?“ surgiré de modo fundamental, metaforizando os enigmas da existéncia do Sujeite e apontando ao impossivel como diregdo. Da rotagao do discurso histérico— operada por um fracasso de saber, 0 qual parecia suficiente até entdo, para responder, pelas vias da compreens&o e do conhecimento, sobre tais enigmas —o 32 A CRIANGA E © SABER sujeito 6 langado agora a buscar no Outro, a resposta que preencha as lacunas de seu saber. De um “nao quero saber nada disso” a uma abertura ao saber inconsciente — “O que ele quer de mim?” — uma indagacao desvelada na verdade de sua angdstia, entdo, se impde ao Sujeito, sujeite suposto ao saber. Saber em posicao de verdade, o real, tomado como enigma pelo sujeito, funcionaré assim, na sustenta¢ado do discurso analitico, enquanto causa de trabalho, inscrevendo algo da verdade na condigao de um (im)possivel a saber. Portanto, “o que se gode saber é solicitado, no discurso do analista, a funcionar no registro da verdade.” Assim como encontramos no seminario O Avasso da Psicandlise: A verdade s6 poderia ser enunciada por um semi-dizer, e seu modelo, mostrei-o a vocés no enigma (...).O enigma éalgo que nos forga responder, na qualidade de perigo mortal.’ Enigma da verdade que toca o real, como nos dizia Lacan, empurra 0 sujeito a indagar “De onde vém os bebés?”, construindo dai, no particular de suas teorias, um (im)possivel a saber sobre o impossivel. NOTAS E REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS 1, FREUD,S, “El Esclarecimiento Sexual del Nifio” (1907) in: Obras Compietas, Buenos Aires, Amorrortu Editores, 1992, v.IX, p.119. 2. “Sobre las Teorfas Sexuales infantiles” (1908) in: Obras Completas, op.cit., v.IX, p.190. 3. LACAN,|. O Seminario, Livro XVil: O Avesso da Psicandlise (1969-1970), jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1992, p.178. 4. FREUD,S. “Sobre las Teorlas Sexuales Infantiles” (1908), op.cit., p.190. 5. Ibid., p.191. 6. LACAN, J. O Semindrio, Livro XV: O Avesso da Psicandlise (1969-1970), op.cit., p.178, 7. FREUD,S. “Sobre las Teorfas Sexuales Infantiles” (1908), op.cit., p.192. 8. LACAN, J. Televisdo (1973), Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1983, p.11. 9. O Semindrio,Livro XVII: O Avesso da Psicandlise, op.cit., p.101. 10. Ibid., p.96. BIBLIOGRAFIA FREUD, S, “Tres Ensayos de Teorfa Sexual” (1905) in: Obras Completas, Buenos Aires, Amorrortu Editores, 1992, v.VIl. LACAN, J. “La Ciencia y la Verdad” (1906} in: Escritos, Siglo Veintiuno Editores, Madrid, Tomo ti, 1993.