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REVISTA, Mestrado em Educacao PROFISSAO Revista Profissao Docente UNIUBE - Universidade de Uberaba DOCENTE Dine | S232 2c FONTES HISTORICAS EM SALA DE AULA: instrumentos para a pratica da icidade Juliana Miranda da Silva Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC, jumirandasilva@email,com Resumo: A reflexdo proposta no presente texto remete ao uso de fontes historias em sala de aula, como possibilidade de contribuigdo para o desenvolvimento da capacidade de observagio critica, necesséria a um futuro cidadio socialmente ativo. As cexperiéncias aqui apresentadas buscam demonstrar como 0 uso didatico de documentos histéricos permite ao professor instigar a curiosidade dos alunos e alunas, ultrapassando a rotina tedrica do ensino de historia, a0 deixar de lado a ideia de que o entendimento s6 € possivel diante de um conhecimento previamente estabelecido e pronto. Nesse sentido, o presente artigo relata a experiéncia do exercicio reflexivo proposto as turmas do ensino fundamental realizado nas aulas de histdria na Escola Sarapiqué, localizada na cidade de Florian6polis entre os anos de 2010 e 2011. Palavras-chave: Ensino de historia; fontes historias; criticidade. Abstract: The reflection proposed in this text refers to the use of historical sources in the classroom, as a potential contribution to the development of critical observation skills necessary for a future citizen socially active. The experiments presented here aim to demonstrate how the use of didactic historical documents allows teachers to instigate the curiosity of pupils, surpassing the theoretical routine of teaching history, to put aside the idea that understanding is possible only on a knowledge previously established and ready. Accordingly, this paper reports the experience of reflective exercise classes offered at the high school history classes conducted in Sarapiqua School, located in the Floriandpolis city between the years 2010 and 2011. Keywords: Teaching history, historical sources; criticality. Revista Profissao Docente Uberaba, v. 14, n.30, p. 34-41, Jan.-Jun, 2014. A Histéria como disciplina do ensino regular basico é uma rica drea de possibilidades de atuago docente, tendo em vista que —imimeras-—_estratégias, metodolégicas so capazes de estimular a atuagdo social consciente ¢ responsavel dos educandos. Por meio de priticas que instiguem um pensar mais critico e menos reprodutor, é possivel reelaborar conceitos e resignificar a realidade na qual alunas ¢ alunos estio inseridos. Os contetidos tudados devem ainda, segundo Zeli ¢ Almeida (2012) contemplar indagacdes situadas no tempo presente, estabelecendo relagdes com o passado, sem, contudo, incorrer em respostas prontas ¢ tinicas. A proposta levantada no presente estudo, remete a utilizagdo de fontes historicas em sala de aula, como forma de aproximar a pritica interpretativa intrinseca__ ao historiador - de analise de resquicios de experiéneias humanas ao longo do tempo = 4 compreensio por parte dos estudantes da necessidade de desenvolver um olhar analitico interpretativo do mundo que os cerca, Nesse sentido, a pritica de anilise de documentos histéricos pode servir como ferramenta para _o desenvolvimento da capacidade de observagio critica, que futuramente deve possuir um cidadio socialmente _ativo. Objetivando exemplificar tal pritica, sero relatadas experiéncias desenvolvidas com turmas do cola Saray na cidade de Florianépolis entre os anos de 2010 ¢ 2011 ‘A variedade de fontes, usadas como documentos, que servem aos propésitos especificos de cada historiador em sua pesquisa, remetem inevitavelmente a um recorte infencional, que _contemple revelagdes sobre os grupos humanos aos quais se desejatrabalhar, Fontes, Juliana Miranda da iva documentais escritas como _arquivos processuais e documentos oficiais usados pelos historiadores do século XIX, dividem na atualidade, o interesse interpretativo com as mais variadas fontes como a fotografia ¢ 0s periédicos, bem como as novas midias audiovisuais, sites, relatos orais e 0 estudos envolvendo patriménio cultural. Trazer para a sala de aula diferentes fontes para uso didatico permite a0 professor despertar a curiosidade dos alunos e ultrapassar a rotina teérica do ensino de Historia, pautada tradicionalmente no livro diditico ¢ na reprodugdo maciga de contetidos pouco flexiveis, tratados, em alguns casos, como verdades inquestionaveis. Quando nos propomos a inserir documentos em situagio pedagogica, conforme orienta Circe Bittencourt (2008), estimulamos a autonomia intelectual do aluno, mobilizamos © associamos saberes prévios ao mesmo tempo em que devem ser situados os espagos ¢ periodos de produgdo daquele documento, Contudo, tal pratica exige planejamento. e escolhas que permitam a produgdo de um didlogo nfo apenas entre as intengdes do professor e os objetivos do projeto pedagdgico da instituigdo de ensino. Deve-se também levar em conta a familiaridade dos estudantes , caso. contrario, incorre-se em possibilidades de perda do interesse investigativo.. Desse modo, 0 professor além de optar por contetidos especificos a serem trabalhados, tendo em vista que a “historia nasce e renasce” (Ricoeur. apud LE GOFF, 1990, p. 26) - pois os conhecimentos histéricos sao parciais, provisérios e —sujeitos a determinadas conjunturas - também precisa estar atento 4 possibilidade de que tais contetidos, ao serem _problematizados podem tornar-se mecanismos de interagao entre conhecimento histérico e agdes com os temas abordados Revista Profissao Docente Uberaba, v. 14, n.30, p. 34-41, Jan.-Jun, 2014. modificadoras, que dardo condigdes para que alunos alunas se reconhegam como agentes transformadores de suas proprias historias ¢ da sociedade que os cerca. Atualmente, a tematica relativa ao estudo das “fontes histéricas” aparece na maioria dos livros didaticos como tépico a ser desenvolvido no 6° ano do Ensino Fundamental ¢ na 1* série do Ensino Médio, sendo abordado paralelamente as discusses acerca do significado da Historia como disciplina, suas ciéneias auxiliares exemplos de diferentes formas de organizar a contagem do tempo. Ou seja, é um assunto introdutério, -—que—_visa contextualizar © significar os estudos historicos presentes no curticulo escolar, tendo em vista que, na maioria das instituigdes, 0 contato com a cultura historica anterior a0 6° ano do ensino fundamental possivelmente foi realizado por uma profissional da pedagogia, A professora pedagoga é ainda, via de regra, a profissional que leciona _paralelamente diferentes disciplinas, tendo a dificil tarefa de instruir diferentes conhecimentos introdutériosreferentes as linguagens, literatura, conhecimentos _ matematicos, geogrificos, histéricos © cientificos. Tal acimulo de atribuigdes pode caréncia de metodologia de ensino inerente a cada area. E nesse momento de chegada a0 Ensino Fundamental I, que 0 professor consegue, nas palavras dos historiadores Jaime Pinsky e Carla Bassanezi Pinsky “estabelecer uma articulagio entre 0 patriménio cultural da humanidade © 0 universo cultural do aluno”(PINSKY & PINSKY, 2010) a fim de proporcionar por meio do estudo da Historia uma oportunidade de inclusio © nfo de mitificagdo de figuras e lugares distantes, Dessa forma, o professor pode “ganhar” 0 interesse dos alunos e alunas, que de acarretar FONTES HISTORICAS EM SALA DE AULA. instrumentos para aprtica da crtcidade maneira geral, chegam recheados de informagdes fragmentadas, das quais, “ouviram falar”, principalmente por meio da televisio, livros ou em filmes que abordavam algum periodo histérico, mas que precisam de um mediador que consiga introduzir novos conhecimentos e dar sentido as informagdes que jé possuem, Um iiltimo cuidado diz respeito as linguagens e 4 origem dos documentos, Mesmo inseridos em situagio pedagégica, esses nfo foram produzidos com essa finalidade. Assim, ao utiliz-los & preciso esclarecer, ao longo da execugao do projeto que os documentos “so produzidos sem intengdo didética e eriados por intermédio de diferentes linguagens, que expressam formas diversas. de —_comunicago” Bittencourt, 2008, p. 332). Da teoria & pritica: levando o tema para asala de aula A discussio referente & utilizagdo de fontes histéricas como __ferramentas, metodolégicas nas aulas nfo ¢ um tema recente. Contudo, nas iiltimas décadas, 0 que vem sendo questionado, segundo Flavia Eloisa Caimi, diz respeito ao “entendimento quanto as suas finalidades” pois © desafio é tomando os documentos como fontes, entendé-los._ como marcas do passado, portadores de indicios sobre situagdes vividas, que contém saberes ¢ significados que no sto dados, mas que precisam ser construidos com base em olhares, indagagdes e problematicas colocadas pelo trabalho ativo € construtivo dos alunos, mediados pelo trabalho do professor.(CAIMI, 2008, p.147) O professor que optar por ir além da pratica tradicional de expor os contetidos em aulas sequenciais, estabelecidas sob uma ordem cronolégica rigida poder vivenciar em sua pratica docente uma Revista Profissao Docente Uberaba, v. 14, n.30, p. 34-41, Jan.-Jun, 2014. experiéneia caética, caso nao estabelega significado de suas escolhas metodologicas para o grupo no qual | momento de selego das fontes a serem trabalhadas com sua turma é crucial no desenvolvimento da dindmica, E assim como 0 uso das fontes para uma determinada pesquisa, sua escolha como educacional deve remeter a objetivos especificose planejados pelo professor. Como compete ao professor a introdugdo do tema turma, uma possibilidade de inicio dos trabalhos pode ser a de levar para a sala de aula diferentes artefatos. Antigos aparelhos_telefonicos, eletrénicos “fora de linha”, fotografias ¢ certiddes sio exemplos de objetos que podem ser apresentados 4 classe como fontes que, ao se tomarem objetos de estudo, auxiliam nos processos. de Durante a objetos, ¢ — possivel didlogo referente as diferentes interpretagdes ¢ informagdes que tais pegas fornecem sobre o periodo no qual foram produzidas e utilizadas, para, a partir dessa pritica, conceituar 0 que serd entendido como documento histérico. Essa abordagem inicial tem como principal objetivo desmitificar a ideia de que apenas grandes monumentos, que na maioria dos casos sio conhecidos apenas por meio de fotografias presentes em livros diditicos ou filmes épicos, distantes da _realidade habitual dos estudantes é que podem vir a ser objetos de estudo do passado. Compete ainda, nesse momento introdutério, destacar a existéncia de resquicios que nos auxiliam a interpretar diferentes _experigneias humanas, que vio além da linguagem escrita dos documentos __oficiais. Considerando a idade dos alunos ¢ alunas ¢ © propésito das aulas de histéria do ensino recurso determinados interpretago do _passado. exposigio dos estabelecer um Juliana Miranda da Silva fundamental é possivel abordar a utilizagio de fotografias, audiovisuais, _diarios pessoais, jomais e outras fontes que vem cada vez mais ganhando espago no estudo do passado, Cabe ressaltar que nfo esta entre os objetivos do projeto formar “mini- historiadores” ou peritos em anélises de documentos histéricos. A proposta de trabalhar com diferentes objetos, que ao olhar de um pesquisador podem se tomar documentos, conceme em evidenciar que nfo so apenas grandes personagens politicos, amplamente conhecidos que “fazem a historia”. E ainda, problematizar que pessoas como nés, inseridas em uma determinada sociedade © participantes de uma determinada cultura também somos sujeitos histéricos, capazes de modificar nossas realidades, atuando como agentes transformadores e pensantes. Outro ponto de partida para inicio do projeto com a turma pode remeter a apresentaglio de objetos pertencentes 4 propria histéria da escola onde o trabalho est sendo desenvolvido, como antigos uniformes, troféus de _campeonatos esportivos, documentos escolares anteriores a informatizagio, fotografias etc., para a partir de objetos que remetam meméria da instituigdo, conceituar 4 turma o documento historico como “qualquer fonte sobre o passado, conservado por acidente ou deliberadamente, analisado a partir do presente” (KARNAL & TATCH, 2009: 24). A obtengio e escolha de tais fontes dependerdo do tempo de funcionamento da escola ¢ da facilidade em se ter acesso a tais, objetos. E interessante observar como uma caixa de objetos antigos pode instigar a participag3o © interesse da turma pelo tema, Proposta de trabalho: etapas do estudo Revista Profissao Docente Uberaba, v. 14, n.30, p. 34-41, Jan.-Jun, 2014. Como forma de _—_organizagio metodologia do trabalho a ser desenvolvido em sala de aula se faz necessaria a divisio do estudo analitico das fontes em etapas distintas. As etapas aqui apresentadas esto fundamentadas na pratica desenvolvida na escola Sarapiqua'', instituigo de ensino particular situada na cidade de Florianépolis, capital catarinense, entre os anos de 2010 a 2011 com as turmas do 6° ano do Ensino Fundamental, A escola foi fundada em 1982 e possui em sua proposta pedagégica 0 entendimento de que a educagao deve estar atenta a constante construgio do individuo e do mundo, Além disso, compreende que ensinar a pensar, a obter informagGes e aprender estratégias de busca e¢ resolugéo de problemas, perpassadas por atitudes de respeito, cuidado © atengio ao meio ambiente, & satide a0 corpo sio parte do que a instituig&io entende por estudar. Em sintese, 0 projeto contou com quatro momentos: a apresentagio do tema & turma, a anilise ¢ o desenvolvimento de possiveis interpretagdes das fontes, a relagdo com a histéria local unida a visita ‘20 museu histérico Palacio Cruz e Sousa ea produgdo de um portfolio com o registro de todas as etapas do projeto, Anteriormente, foram apresentadas, das possibilidades de _—_interago introdutéria ao tema ¢ conceituagio de documento histérico. Apés a apresentagio das intengdes do projeto, a turma recebeu a tarefa de trazer para a proxima aula uma fonte histérica material que remetes historia familiar. Em sala, foram apresentadas as “historias” do. artefato trazido © apos exposi¢do das informagdes asua Aautora do texto atuou como professora de Histéria do ensino fundamental na escola Sarapiqua centre 0s anos de 2008 ¢ 2011, tendo se destigado da instituigdo para cursar 0 mestrado, iniciado em 2012. FONTES HISTORICAS EM SALA DE AULA. instrumentos para aprtica da crtcidade levantadas durante a pesquisa, os colegas poderiam sugerir interpretagSes ou fazer perguntas. Os objetos apresentados foram 0s mais variados: fotografias dos pais, avés ce bisavés, filmadoras © — méquinas fotogrificas, porcelanas passadas de geragdo, roupas e acessorios como colares ¢ brincos, jomais que noticiavam questdes ligadas a respectiva familia, cartas e certiddes, postais de viagens etc. Tal variedade de objetos__possibilitou questionamentos ¢ miltiplas andlises, que inclusive fizeram os alunos admitirem que teriam que pesquisar um pouco mais com os pais ou avés para entio, sanarem as davidas dos colegas. Tal curiosidade & perfeitamente compreensivel se levarmos em conta que, para a turma envolvida no projeto, a historia presente nos livros ¢ aparentemente tio distante de seu cotidiano fizera naquele dia, uma “visita” sala de aula, levando-os, por exemplo, pelos caminhos dos tropeiros que cortavam a cidade de ; Lages, ou a0 tempo em que as maquinas fologrificas filmadoras f : Figura 1 -Compactihando possuiam hiss | manivelas no —-—________| lugar dos comandos digitais dos aparelhos portiteis utilizadosatualmente. As transformagées —_teenoldgicas foram levantadas particularmente quando foram apresentados documentos redigidos & caneta ou por meio de maquina de datilogratia. Uma caixinha de misica pertencente & avo de uma das alunas também _propés discussdes acerca dos reprodutores de miusicas atuais em contraste ao dificil acesso a misica de décadas aris Revista Profissao Docente Uberaba, v. 14, n.30, p. 34-41, Jan.-Jun, 2014. Assim como os textos, as imagens podem — ser terpretadas como indicios histéricos (BURKE,200 4, p. We fotogratias dos antigos uniformes usados em colégios que separavam Figara2- Fotografias e seus meninos — ¢ meninas, ‘a das_mudangas sociais ocorridas no ambiente escolar. Outras imagens que despertaram discussdes ¢ interpretagdes foram fotografias da cidade de Florianépolis antes da ocupagao de areas atualmente urbanizadas. Partindo de colocagies dos préprios alunos ¢ alunas, a relagdo com o crescimento populacional da cidade, seus desafios devido 4 falta de planejamento urbano que causou a ocupagdo desordenada de diversas dreas em Florianépolis e os consequentes problemas ambientais dessas agdes foram abordados em uma aula que deixou de ser expositiva, teérica e conceitual para propor a interagao com a realidade da turma ¢ 0 momento presente da cidade. © momento seguinte do projeto consistia em realizar uma visita ao Museu Histérico Cruz e Sousa, no centro historico de Florianépolis, com o principal objetivo de fazer a turma entrar em contato com um local propicio a0 exposigio de fontes histéricas, Construido no século XVII passando por diversas modificagdes estruturais ao longo do tempo, a propria estrutura arquiteténica do museu é uma consideravel fonte sobre a historia politica catarinense, Visité-lo apés levantaram debates armazenamento ¢ Juliana Miranda da Silva entrar em contato com os significados das fontes para o estudo da historia possibilita a ampliagio de um olhar apenas. contemplatério, para um olhar ctitico © interpretativo. Nesse momento do projeto, foi possivel dialogar sobre 0s a Figura 3 - Visita ao museu Cruze Tugares ‘Sousa de meméria”? ¢ levar a turma a pensar nao apenas nos objetos que estio guardados naquele espago especialmente reservado, podendo ser vistos em determinados horarios e sob a supervisio de responsiveis. Mas pensar, por que aqueles € no outros objetos foram selecionados como dignos de preservacdo to cuidadosa? Quem é ou quais so os responsaveis por selecionar o que ira ser guardado sob uma redoma e consagrado a0 status de “pega preciosa”? Por que aquele espaco adquiriu diferentes papeis sociais no centro da cidade ao longo de quase trezentos anos? Por que nio podemos identificar aspectos dos primeiros moradores do territério que atualmente correspondem ao estado de Santa Catarina e a historia aparece ali datada a partir da chegada dos primeiros _colonizadores europeus ou descendentes desses? Quais os significados de um mobiliério ter sido quase que inteiramente comprado em paises curopeus, quando vivemos em dos paises 2 A problematizagdo acerca dos lugares de memoria coletiva e os criadores ¢ articuladores desses locais & feita em grande profundidade na classica obra Historia ¢ Meméria de Jacques Le Goff, tendo sido utilizeda como referencial te6rieo para nortear as discussbes relativas & visita ao museu. Revista Profissao Docente Uberaba, v. 14, n.30, p. 34-41, Jan.-Jun, 2014. do mundo com maior abundancia em madeira? Além do debate em sala, foi proposto A turma escrever um texto acerca das questdes discutidas apés a visitagio ao museu, onde deveriam aparecer suas impresses, as informagdes que mais thes instigaram durante nossa visita guiada ¢ se existiam diferengas entre as fontes trazidas por eles para a sala de aula e as fontes que haviamos visualizado no museu, O texto faria parte do portflio que foi estabelecido como resultado material do projeto. Como fechamento do projeto, a turma passou por outro momento de socializagio, considerando as atividades desenvolvidas em sala, a busca das fontes histéricas referentes a sua familia e a visita ao museu. © momento de reflexio sobre a pritica educacional, nas palavras da educadora Madalena Freire é fundamental para o professor, pois “toma possivel a ele fazer melhor amanha 0 que fez ¢ pensou hoje” ¢ “nesse aprendizado ganha dimensio da importincia do que faz e desse modo, constréi 0 espago do exercicio da vigildneia, indispensivel, de seu pensar ctitico” (2010, p. 50). Por isso, como encerramento do projeto, além da entrega dos portfolios com os textos produzidos a0 longo do trabalho e fotografias das fontes e da visitagio ao museu, discutimos a necessidade de olharmos os objetos © as informagdes que nos cercam de maneira titica, além da primeira impresso. Consideragies finais Ambas as turmas — 2010 e 2011 — projeto de mancira semelhante, Salvo as particularidades de cada grupo, ambas ndo tiveram resisténcia em trazer para a sala de aula objetos que vivenciaram 0 [NNNNNNNIIZTIN Fontes Histonicas EM SALA DE AULA: instrumentos para a prética dacritcidade fossem entendidos por eles como parte da historia da familia. Exclamages do tipo “nfo sabia que minha casa estava cheia de fontes histéricas” ou “descobri que meu pai tem uma colegdo de moedas antigas” deram vida as aulas ¢ fizeram os alunos de outras, turmas perguntar “o que esté acontecendo na turma do 6° ano? Nos vamos fazer também?”. Um dos maiores desafios quando nos propomos a realizar projetos como esse, com discussdes ¢ saidas de campo esté em controlarmos de forma produtiva 0 tempo das aulas, Estabelecer os momentos de fala € de escuta & uma das priticas que precisa ser relembrada em todas as aulas. Reforgar as datas do calendario das atividades, fazendo uso, por exemplo, de um mural em sala de aula é uma estratégia simples, porém com bons resultados no tocante a compreensdo de que & necessério respeitar prazos ¢ de que para que todos receberem a oportunidade de expor seus objetos o tempo das falas precisa ser delimitado, E de conhecimento geral a realidade das instituiges de ensino brasileiras e as dificuldades que educadores ¢ gestores enfrentam ao buscar realizar determinadas agdes no desenvolvimento de seus trabalhos. As dificuldades so de natur diversas, seja a falta de material ¢ ambientes adequados, a baixa valorizagio profissional bem como as questdes que alunos ¢ alunas trazem de seu ambiente familiar e que, de alguma forma, refletem em seu interesse ¢ aprendizado em sala de aula, Nesse sentido, cabe salientar que mesmo tendo sido desenvolvido em uma escola particular, 0 projeto aqui apresentado pode ser aplicado em escolas da rede pliblica sem grandes dificuldades. Muitos museus possuem dias especificos nos quais escolas podem gratuitamente realizar visitagdes. Os objetos selecionados como S Revista Profissao Docente Uberaba, v. 14, n.30, p. 34-41, Jan.-Jun, 2014. fontes foram trazidos do ambiente doméstico e o material para 0 portfolio foi feito em papel cartéo, sem envolver gastos adicionais. Muitas escolas possuem em seu calendério eventos como mostras culturais, nas quais so socializados trabalhos de diferentes segmentos — ensino infantil, ensino fundamental e ensino médio - que fizeram usos de diferentes linguagens, por meio de produgdes realizadas a0 longo de um determinado periodo, Sugere-se que $ momentos, possa-se compartilhar com a comunidade escolar o resultado final do projeto, por meio do portfilio, exposi¢ao de alguns dos objetos trazidos pelos alunos €, se possivel, registros fotograficos. Essa exposigdo também podera ser realizada em outros momentos, como no dia da reunido de pais e mies. Tendo em vista o perfil colaborativo do projeto € 0 uso da sala de aula como principal ambiente de desenvolvimento dos trabalhos, em face aos resultados envolvimento dos educandos, buscou-se compartilhar as experiéneias com o intuito de estimular ages priticas que visem transformar 0 ensino de histéria em uma experiéneia menos conteudista. Além disso, a anilise dos simples objetos que, por meio da interagdo questionadora transformaram- se em documentos histéricos pode agir como pritica & criticidade, colaborando para a formagao de estudantes, que reflitam a0 longo do processo de aprendizagem e, consequentemente, levem para o seu cotidiano um olhar mais observador © ‘menos passivo ness Referéncias Bibliograficas BITTENCOURT, Circe M. F, Ensino de Histéria: fundamentos e métodos. Paulo: Cortez, 2008. Juliana Miranda da Silva FREIRE, Madalena, Educador, educa a dor. Sao Paulo: Paz e Terra, 2010. GIL, Carmem Zeli de Vargas & ALMEIDA, Déris Bittencourt. 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