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ad Imagem e memoria Olga Rodrigues de Moraes von Simson* Res Abstract Résumé Pretende-se aqui discuti as ‘The possibilities and limits of the use L’on prétend discuter icles possbilidades elimitagBes da of historical photographs in possibiltes et les limites de ttilizacdo de Fotografias histricas conjuction with narratives are utilisation de photographies conjugadas a relatos orais nas discussed in researchareas concerned _historiques conjuguées a des réits Pesquisas que se propsem a resgatar with retracing the historical route of orau, dans des recherches qui ‘a teajetoriahistorica de grupos particular social groups. fone Sattachent a retrouver la trajectoire sociais especificas. Pensando a considers culture asbeinga collective historique de groupes sociaux cultura como meméria da ‘memory, then the mannerin which, particulers. Sion accepte de coletividade, a maneira como different social and cultural groups considérer la culture comme une diferentes geupos sociaculturais, sact to their imagetic past, ether mémoirede la colectivit alors la reagem a0 seu passado imagetico, accepting or rejecting it, can furnish maniere dont divers groupes sociaux aceitandoo, valorizandoro, {important indicators for the cet culturels réagissent 3 leur passé resguardando-o ou repudiando-o,a _ researcher interested notonly in imagétique, tant6t 'acceptant,tantdt fotografia pode indicar muitas pitas image, but also inculture and le repudiant, peut offrs bien des importantes para o pesquisador que memory pistes importantes pour le chercheur Tida ao mesmo tempo com imagem, {guise penche en meme temps sur ccltura e meméria, image, la culture et la mémoire * Professora do Departamento de Ciencias Socais Aplicada 8 Educagao e Diretora do Centro de Memria, ambos da Universidade Estadual de Campinas (Unicarp). ‘Alem de artigos em varias publicagdes organizou com coleges e publicow, mais recentemente, duas coleiness: Educagto ado-frmal: Cenirios ds Crago (Campinas Unicamp, 2001) e As miltiplas faces da velhice no Brasil (Campinas: Alines, 200 E tesponsivel pela revista digital do Centro dle Memoria: Savdo: M cultural de Campinas. nine vide " Arlindo Machado, “A Cultura da Vigilancia” Adauto Novaes (org.), Rede Imagindria: Televisto & Democracia (S40 Paulo: Companhia das Letras/ Secretaria Municipal de Cultura, 1991), pp. 85-90. $ avangos tecnol6gicos, 0 isolamento social e a violéncia da sociedade Jcontemporanea tém levado os homens a permear o seu cotidiano com ‘um ntimero cada vez maior de imagens, chegando alguns a preferir viven- ciar, em certas circunst tis incias, uma realidade virtual em lugar de correr cos com relacionamentos sociais imprevisiveis, Freqiientemente nao nos damos conta, mas o registro imagético de nossos comportamentos tem-se tornado uma constante nos espacos ptiblicos das grandes metropoles, tanto do Primeiro como do Terceito Mundo. Arlindo Machado ja nos chamava a atencdo para esse fato em seu artigo “A cultura da vigilancia”,' salientando que 0 mais preocupante no continuo controle através da imagem era a internalizacao, por parte do cidadao P6s-modemo, de tal fato, gerando, depois de algum tempo, a superfluidade do préprio monitoramento pela imagem. Nos aeroportos, nos grandes magazines e supermercados, nas agéncias bancarias ou nos saguées dos edificios, j4 nao nos preocupamos em localizar a pequena cémara que nos vigia. O processo eletrénico de vigilancia e registro automatico do comportamento se tornou tao natural que algumas empresas avisam, quase brincando, que os nossos passos estariam sendo registrados, através de frases jocosas como: "Sortia, vocé esta sendo filmado”, Na verdade, desde os anos trinta e quarenta, com a “democratizacao” do registro fotografico mediante o surgimento de maquinas fotograficas de operacdo muito simples e relativamente baratas, que permitiram a fixacao rapida e fécil de “instantaneos”, a vida dos grupos sociais e dos individuos passou a ser registrada muito mais pela imagem do que pelos livros de memérias, cartas ou disrios, e a memoria individual e familiar Passou a ser construidm tendo por base o suporte imagético. Nao temos muita consciéncia de tal fato, mas, como a replicante de Blade Runner, es- tamos constantemente nos valendo de imagens instantaneas da nossa vida, registradas em papel fotogréfico, para detonar 0 processo de re- memorar e, assim, construir a nossa versao sobre os acontecimentos jé vivenciados. Dessa forma é o suporte imagético que, na maioria das vezes, vem orientando a reconstrucdo e veiculagio da nossa meméria, seja como individuos, seja como participantes de diferentes grupos sociais. As fotografias de antanho também exercem funcao importantissima na transmisso para as geracdes mais jovens de informacées sobre o passado familiar. Através das imagens que nos restaram e das histérias que nos chegam pelas tramas da rede familiar, construimos uma interpretacao da figura e da atuagao de nossos antepassados no tecido social e a transmitimos para as novas geragies. Imagem © meméria Nas pesquisas que temos desenvolvido desde a década de oitenta, essa associagio entre imagem e meméria vem sendo explorada, permitindo- nos trabalhar com os relatos do passado para a recuperacao de dados de pesquisa nao registrados de outra maneira, assim como elaborar instru- mentos de didlogo com as populacées estudadas que tém possibilitado avangar no conhecimento da realidade e devolver os resultados finais da pesquisa em linguagem facilmente acessivel aos grupos nela envolvidos. ‘Ao trabalhar, na década de oitenta, com a meméria de velhos dirigentes do carnaval popular para elaborar a pesquisa Brancos e Negros no Carna- val Popular Paulistano, pude acompanhar os caminhos e tramas da meméria e suas relagdes com o suporte imagético. Percebi que um dos meus entrevistados, cuja identidade associava 4 condicao de dirigente (Olga R. de Moraes von son, Brancos e Negros no Carnaval Popular Paulistan, tese de doutorado (S30 Paulo: FFLCH/Departa- mento de Sociologia ~ USP, 1989) Dionisio Barbosa, fundador em 1914 do primeiro corda0 ‘camavalesco paulistano, Camisa Verde e Branco, por ocasiio da coleta de seu depoimento oral em 1976. Desfiles das escolas de samba na Avenida Tiradentes no final da decada de setenta, 0 folguedo jé estava organizado como espeticulo a ser transmitido pela televisio. As cimaras televisivas esto ao lado direito em plano mais elevado, rogistrando o desfile negro, que, de divertimento de algumas familias, se transformara fem "mercadoria” muito valorizada pelos mass Olga R. de Moraes von Simson, "Folguedo Carnavalesco, Meméria e Identidace Sécio-Cultural cem Resgate, n# 3, Campinas, Unicamp, 1991, pp. 3560. ‘Olga Rodrigues de Moraes von Simson carnavalesco a de compositor de sambas, muitas vezes se utilizava do recurso de lembrar-cantando 0 samba-enredo de determinado ano para, em seguida, reconstituir as lutas e dificuldades para “colocar na rua” 0 carnaval daquele ano. A utilizagao do recurso da musica como detonador da memoria deveria ser para cle uma experiéncia jé vivenciada ante- riormente, pois esse entrevistado nao dispensava a companhia do seu pandeiro para realizar a tomada dos depoimentos orais.’ Mas ele mantinha também um volumoso acetvo de imagens, cujo acesso nos franqueado, o que possibilitou aprofundar ¢ enriquecer a anélise da trajet6ria da escola de samba fundada por esse lider do carnaval paulis- tano, através da construgio de uma longa série de imagens retratando 0 surgimento e desenvolvimento da agremiagao sambistica, Um outro depoente, também sambista, preferia valer-se das fotografias que guardara de um passado de glérias para contar sua trajetéria de vida ligada ao carnaval. Mas, depois de muitas sessGes de rememoragio, nas quais foi utilizado até um velho cademno no qual sua mae cuidadosamente anotara letras de sambas e marchas utilizadas para ensaiar o grupo mirim da agremiacao, ele nos confessou que o processo de reconstrugdo do passado, provocado pelo exame das imagens e pela atuagao dos pesquisadores, havia-Ihe trazido inspiragao para mais quatro sambas. Entre os participantes do carnaval branco imigrante, em cuja trajetoria de vida o carnaval nao exerceu papel preponderante e que ndo podiam contar nem com muitas imagens fotogréficas do passado, nem com uma Imagem e meméria criagdo musical prépria, pois elaboravam seus desfiles baseados nas miisicas de sucesso veiculadas pelas emissoras de rédio, o recurso buscado foi o de apoiarem-se mutuamente nas imagens que cada memoria indivi- dual havia elaborado sobre esse passado comum de folides carnavalescos. Assim, a partir de sugestao dos préprios entrevistados, foram montadas sessdes conjuntas para a tomada dos depoimentos orais nas quais um fato ou uma pequena historieta sobre o carnaval, lembrada por um dos participantes, detonava um processo de rememorar que podia acrescentar elementos novos e enriquecedores a hist6ria relatada ou conduzir a novos fatos relacionados a trajet6ria comum dos entrevistados. Mas, durante essas sessdes de registro conjunto da meméria, qualquer pequena fotografia amarelecida pelo tempo, puxada timidamente do fundo do bolso, trazia novo enriquecimento as narrativas e uma seguranga muito maior aos processos de rememoragao. Uma das pesquisas que atualmente desenvolvemos estuda o papel da familia como mediadora entre 0 individuo e a sociedade, por meio do incentivo & educacao, ao lazer e ao consumo cultural, no processo de integragao & sociedade brasileira dos filhos de imigrantes alemaes. Para (@ esquerda) Carro decorado levando a familia Barreto para desfilar no camaval do bairro da Lapa ‘em Sio Paulo, na década de vinte, O desfile lapiano incluia grandes carros aleg6ricos construidos pelos operitios do bairro carros decorados Tevando as familias mais abastadas, (a diveita) Carro da familia Brilhante desfilanda no Corso do Bris, na década de trinta em Sio Paulo. Note-se 0 emprogado da familia desfilando transvestido de mulher, & esquerda da foto, fato que demonstra a maior liberalidade dos comportamentos sociais, pot ocasiio dos festejos camavalescos, Primeira casa construida no inicio da década de setenta do século XIX no bairro rural de Friburgo, em Campinas, pela familia Tamers Esa foi a primeira familia que se Tibertou das exigéncias do sistema de parceria, fixando-se como pequena produtora de café no sertao de Campinas. * Olga R. de Moraes von ‘Simson, “Diversidade ‘Sécio-Cultural, Reconstituigho da Tradiglo € Globalizacao: os Teuto- Brasileiros de Friburgo/ Campinas", em Alice B Lang et ali, Familia en S00 lo: Viewncins ta renga, Colegao Textos, ie 2, n°7 (S20 Paulo: Ceru/Humanitas, 1997). = Miriam Moreira Leite, “O Imaginirio em Terra Conquistada”, em Maria Isaura Pereira de Queiroz (org,), 0 Imaginsrio emt Terra Conquistade, Colesa0 Textos, série 2, 4 (8 Paulo: Ceru, 1993). (Olga Rodrigues de Moraes vor Simson tanto, estamos pesquisando a trajetéria do bairro rural de Friburgo, si- tuado no municipio de Campinas, na regiao limitrofe com Indaiatuba e Montemor. Fundado por alemaes e sufcos de fé luterana, na década de setenta do século XIX, o bairro rural manteve-se relativamente isolado, pois a ma qualidade das vias de transporte para a regio onde se situa 0 bairro criou circunstancias que permitiram sua manutengio, ainda hoje, como um local relativamente isolado. Tal fato possibilitou aos seus membros guardar alguns tragos da cultura e da fé originais, como o platt deutsch, falado pelos membros mais idosos da comunidade, os cultos luteranos, realizados a cada quinze dias na igreja do bairro, além da escola, erigida em terreno comunal e que funciona nos fins de semana como uma espécie de clube, reunindo alguns dos descendentes do primeiro grupo, os quais, vivendo nas cidades prdximas, retornam ao bairro rural para vivenciar aspectos da cultura teuto-brasileira Baseada nos poucos resquicios culturais da tradigao germanica que puderam ser mantidos, depois de quatro ou cinco geracoes jé nascidas no Brasil, e ante 0 acelerado processo de globalizago observado no dia- a-dia da vida urbana numa das regides mais desenvolvidas do pais, a geracio de descendentes dos pioneiros alemaes e sufgos, que agora esta na meia-idade, decidiu, no inicio dos anos noventa, iniciar um processo de reconstrugdo da identidade teuto-brasileira que permitisse aos seus filhos (agora na adolescéncia) poder usufruir os privilégios da dupla cultura e da dupla cidadania, numa sociedade como a paulista, em rapido trajeto rumo 3 modernidade internacionalizada Para reconstruir a identidade teuto-brasileira quase perdida, virias estra- tégias foram experimentadas, entre elas a de buscar 0 apoio da universidade para dar validade a um proceso de reconstrugao do passado que permitisse uma religacdo com a patria de origem. Na busca dos indicios que possibilitassem mostrar a origem teuta comum e a trajet6ria do grupo na nova terra, 0 recurso as fotos antigas, quando sugerido, foi prontamente aceito ¢ amplamente utilizado, pois elas ajudaram a reavivar a meméria dos membros mais antigos da comunidade mediante relatos orais, permitiram retracar de forma clara essa saga imigrante e transmiti-la aos adolescentes e criangas, hoje integrados ao proceso de reconstruc do passado através dos grupos foleléricos criados a partir de 1993.4 Para os grupos que emigraram a partir do século XIX, a fotografia representou uma forma de comunicac4o muito eficiente entre os parentes que ficaram na terra mae e os que vieram tentar a sorte no novo mundo, pois permitia’ * trazer um pedacinho da realidade deixada para tras e guarda-la como relicério de um tempo e uma vida a que muitos sabiam, de antemao, era impossivel retornar; + mandar noticias dos sucessos obtidos na nova patria, incentivando assim outros membros da familia a empreender a emigragio em cadeia, que permitiu recriar no novo habitat os grupos de parentesco perdidos; * convencer as noivas, contratadas na aldeia de origem, a empreender a longa viagem em busca do casamento.’ Encontramos assim acervos fotograficos relativamente ricos em poder dos imigrantes, apesar das dificuldades enfrentadas no proceso de Imagem e meméria FeiopuRg TSI instalacao na nova realidade, e observamos que eles tém sido bem conser- vados pelas varias geracdes brasileiras. Em virtude dessas caracteristicas de cunho sociocultural, 0 recurso anilise de fotos antigas, conjugada aos relatos orais, constitui uma fogzma eficiente no estudo dos processos emigratérios, permitindo também a montagem de valiosos instrumentos de devolucao dos resultados de pesquisa as comunidades estudadas. Essa comunidade de origem germanica fixou-se na regiao a partir de 1871. A primeira iniciativa do grupo foi reservar um terreno comunal, onde construiram uma escola com a respectiva casa para abrigar 0 professor. Em 1879 a Escola da Associagio Escolar de Friburgo ja estava pronta e o primeiro professor foi contratado na Alemanha. Por ocasiao do 25* aniversario da fundagio da escola, o grupo de pioneiros que liderou © movimento se fez fotografar em frente ao prédio, registrando a data significativa para a comunidade. Essa foto esta até hoje pendurada na sala de aula da escola de Friburgo, relembrando aos alunos de hoje que a escola surgiu de um esforgo da comunidade e sob a lideranga dos chefes de familia locais. O ano escolar de 1917 foi festivamente encerrado com uma grande comemoracio, quando entao foi encenada uma peca teatral da qual participaram professor e alunos. Esse acontecimento foi registrado, e na foto resultante aparece ao fundo, atrés do grande grupo trajando os disfarces teatrais, no centro da parede enfeitada com folhas de palmeira, (Olga Rodrigues de Moraes von Simson a foto do 25* aniversério [1904], registrando a fundagao da escola e marcando a importincia dos pioneiros da comunidade nesse feito, e, de ambos os lados dessa imagem fundadora, os grandes inspiradores: os retratos do imperador e da imperatriz da Alemanha. Percebemos, pelo exame desse material iconografico, que a meméria da comunidade foi sendo registrada mediante imagens fotograficas que passaram a ser veiculadas e propositadamente expostas em locais estraté- gicos com 0 objetivo de transmiti-la as geragdes mais novas, habito que se prolonga até a atualidade. Por outro lado observamos que o recurso a imagem, como eficiente elemento didético na transmissao de referenciais culturais e valendo-se Servi le Filmes da Associacao Nacional dos Professores Teuto-Brasileiros | Locais de trabalho, Centrais Administrativas, Equipamentos - Inicio de 1936 wa Wi Admintetracso Central do Servigo de Filmes | No Grea de trabatho do LDL - Servico de Filmes se enconfram 20 equipamentos para filmes estreitos Estado R, Gr. do Sul ......11 Estado Minas Gerais ” S. Catarina 3 ” Rio de Janeiro ... ” Parand 0 ” Espirito Santo "Bahia .. Imagem e meméria 7 das mais modernas técnicas, j4 era uma prética exercida nas escolas teuto- brasileiras na década de trinta, por meio de um atuante servico de cinema educativo montado pelo governo alemao, a principio no Rio Grande do Sul, em 1933, mas logo estendido para Sao Paulo. O patrocinio gover- namental vinha através da Representacao do Servigo de Ferrovias do Império Alemao no Brasil, numa parceria com a iniciativa privada da época (Zeiss, Agfa e Siemens). Esse servico educativo foi organizado na Associagiio Nacional dos Professores Teuto-Brasileiros (LDL) e era deno- minado Servico Teuto-Brasileiro de Filmes Culturais ou DKD (Deutsch- Brasilianischer Kulturfilmdienst beim LDL). O trabalho de divulgacao de filmes educativos tinha como objetivos, de acordo com 0 programa de expansao da ideologia nacional socialista para as colonias germanicas espalhadas pelos cinco continentes, manter a tradigio teuta entre os colonos disseminados por todos os continentes, relatar as conquistas politicas, sociais e educacionais obtidas pelo nazismo na terra mae e divulgar a vida dos colonos teuto-brasileiros na Alemanha, por meio de filmes documentarios rodados no Brasil, estabelecendo assim uma religacdo entre as populagdes emigradas e a patria de origem. As apresentagées se faziam nas escolas teuto-brasileiras e, segundo 0 re- —_* Karl Otto Miller, lat6rio citado, nos primeiros nove meses de funcionamento do servigo no “Kulturfilmdienst in Sto Estado de Sao Paulo, jé haviam sido realizadas 99 Noites de Apresenta- __2zwlo” em Daitadle Sdlude do de Filmes Culturais, 31 no interior do estado e as restantes na cidade 56 schuljakr, S0 Paulo, de Sao Paulo. Os temas abordados nos filmes denotam uma mescla de 1934, pp. 747. influéncias ideolégicas (com filmes como O Dia de Potsdam, 1.° de Maio ou Zeppelin), com documentérios mostrando paisagens de regides da Alemanha (0 Reno, o Elba ou o mar Biltico), ou veiculando as praticas eugénicas, através da gindstica (Festa de Ginéstica em Stuttgart), ou mantendo tradicées culturais (como 0 Dia de Agradecimento pela Colheita), ou, ainda, desenhos animados, contos infantis e filmes de humor, “encontrando tais programas muito variados grande aceitacao entre criancas e adultos” © mapa da pagina anterior, anexo ao Relatério Anual das Es- colas Alemis de Sao Paulo, de 1936, mostra que 0 Servigo de Filmes Culturais ja se havia estendido do Espirito Santo ao Rio Grande do Sul, contando com vinte maquinas dé pro- jecio e geradores de eletricidade, pois muitas das escolas situadas no interior ndo tinham luz.elétrica. A tradic&o na utilizagao da imagem em movimento e seu emprego como forma de transmissao de conhecimentos continuam sendo um recurso utilizado pelos descendentes dos imigrantes. Ao buscar orientagéo para recriar a tradicio germanica, mediante montagem de um grupo de danga folclorica, a comunidade de Friburgo recebeu da Casa da Juventude de Gramado um rico material gravado em video que permitiu Igreja do bairro de Vila aos adolescentes aprender as elaboradas dangas folel6ricas especificas Industrial em Campinas na da regio do Norte da Alemanha, de onde seus antepassados haviam década de tinta. Templo emigrado. {fo tio em fess que Segundo informagdes fornecidas pela diregio da Casa da Juventude de apresentando aspectos Gramado, 0 caso de Friburgo nao é uma experiéncia isolada, pois, com a Teligioeos € profanos ajuda do Consulado Alemdo, essa entidade mantém sob sua orientacao soe aera (Olga Rodeigues de Moraes von Simson Projeto Integrado: Persistencias e Mudangas no Viver Urbano Campineiro: os Bairros de Cambui e Vila Industria Projeto desenvolvido no Centro de meméria da Unicamp desde 1991 com financiamento do CNPq, Coordenadora: Olga R. de Moraes von Simson. Responsaivel pelo enfoque historico: Maria Licia Rangel Ricci, Responsével pelo enfoque antropolégico: Irene M. Ferreira Barbosa. Pesquisadores: Amarildo Camicel, Ema Camilo, Juliana Martins, Valeria Giusti e Vivian Morgato, Rolatério CNPq - abril de 995, Procisso percorrenclo as rruas do bairro da Vila Industrial em Campinas na década de quatenta, mais de 245 instituicdes que praticam danga folel6rica germanica, por meio de mais de mil grupos espalhados pela regiao que vai do Espirito Santo ao Rio Grande do Sul. Os contatos com um elevado ntimero de instituigdes espalhadas por um territ6rio tao extenso se fazem com larga uitilizagao de videos contendo a gravagao das dancas tipicas, complemen- tados por cursos nos meses de férias escolares, encontros em feriados prolongados e visitas entre grupos amigos por ocasiao das festas locais. Constréi-se assim uma rica vivéncia teuto-brasileira que chega a abarcar grupos de descendentes de trentinos e de vénetos, que, nao encontrando apoio semelhante no Consulado Italiano e ante a similitude da cultura camponesa européia, se valem dos servicos prestados pela instituicao gaticha Uma outra pesquisa, ora em realizagao, pretendendo reconstituir a histo ria de dois bairros de Campinas (Cambufe Vila Industrial) e a constituicao de uma identidade de bairro’ por meio de levantamento bibliografico ¢ documental, mas também utilizando-se de depoimentos orais de velhos moradores, do resgate de imagens fotograficas do passado e do registro fotogréfico do cotidiano atual dos bairros, nos tem feito refletir sobre o significado da imagem para diferentes grupos socioculturais, Nas pesquisas anteriores haviamos introduzido 0 suporte imagético através de fotos coletadas entre os entrevistados, isto 6, trabalhamos sempre com imagens produzidas por outrem e em periodos de tempo anteriores realizacao da propria pesquisa. Nessa pesquisa procuramos ampliar o universo de imagens do passado pelo levantamento em arquivos institucionais que pudessem conter imagens referentes aos dois locais estudados. Assim, todos os arquivos da cidade que contém imagens esto sendo percorridos, ¢ as fotos relacionadas as localidades estudadas, catalogadas e fichadas, tanto quanto & sua condicao técnica, como quanto ao seu contetido sécio-hist6rico-antropol6gico para posterior cépia ampliagao das mais significativas. Imagem e meméria No trabalho acima citado, pela primeira vez nos propusemos a realizar um registro fotografico que acompanha o desenrolar da pesquisa. Para tanto incluimos na equipe do projeto um fotégrafo-antropélogo, que, participando regularmente das reunides da equipe e conhecendo em profundidade o teor dos depoimentos coletados, pode nao s6 construir um olhar que corresponde aos objetivos propostos pela pesquisa como também, ao assenhorear-se do contetido das trajetérias de vida relatadas, perceber quais os locais que, na meméria dos entrevistados, eram representativos da hist6ria local e quais os espagos e as datas nos quais a vida social local se mostra mais intensa. Ao realizar esse registro da atualidade, o fot6grafo-antropdlogo tem dialogado também com as imagens do passado que pudemos reunir e realizado alguns registros fotograficos que indicam transformagées no uso do espaco urbano, ou mesmo a manutengdo de costumes do passado na cotidianidade atual dos bairros. © que, entretanto, mais tem surpreendido a equipe de pesquisadores, pois era um fato nao esperado ao se imaginar o projeto de pesquisa, é a forma completamente diversa como a populacdo de cada bairro tem encarado 0 registro folografico (feito pelo pesquisador-fotdgrafo) do cotidiano do seu local de residéncia.' Na Vila Industrial, bairro de origem proletaria surgido com a chegada da Sao Paulo Railway a Campinas no iltimo quartel do século XIX, e que se manteve sem grandes transfor- magies urbanas, permitindo que familias permanecessem morando na mesma rua por trés ou quatro geragdes consecutivas, o fotdgrafo- antropélogo, ao chegar e explicar os objetivos de sua visita e propor 0 registro imagético do cotidiano local, tem sido muito bem recebido. Espacos pouco conhecidos, mas julgados significativos, sto apontados pelos moradores; festas profanas ¢ religiosas so mencionadas; ¢ personagens importantes da vida local sao buscados para posar, revelando um orgulho em relagao ao seu espago na cidade, uma nitida identificagao com a Vila Industrial e mesmo uma certa preocupagio com 0 registro da trajet6ria de vida e de luta da populacao local. No Cambui, por outro lado, a situagio é muito diversa, Trata-se de um bairro surgido praticamente na mesma época que a Vila Industrial, mas formado pelas chécaras senhoriais que, com 0 advento da estrada de ferro, passaram a abrigar as familias dos grandes fazendeiros de café, pois o répido transporte permitia agora ao senhor controlar a producao mediante visitas regulares & propriedade, mantendo uma residéncia urbana grande e em terreno espacoso. Nas décadas de quarenta e cingiienta do século XX as grandes chadcaras foram sendo loteadas e urbanizadas para receber as residéncias das familias mais abastadas da cidade, que agora incluiam, além dos fazendeiros, os proprietérios de indtistrias em intenso processo de instalagao na cidade. Nas décadas de sessenta e setenta o desenvolvimento econémico da regido se acelerou ¢ Campinas afirmou-se como um dos pélos industriais aptos a receber empresas multinacionais e, conseqiientemente, sediar uma universidade moderna e tecnologicamente avancada. Assim, nova leva populacional chega a cidade, formada por uma classe média inte- lectualizada, constituida por profissionais liberais, executivos e professores universitarios, todos com alto padrao de consumo. Novamente 0 Cambui sofrera transformacoes para receber 0 novo contingente populacional 29 # Amarildo Carnicel, “Fotografia e Meméria Urbana: Experiéncia Realizada em Campinas", em Revista de Estudos Curso de Jomalisme, Campinas, PUC- Campinas, 1989, pp. 19-22 Francisco Capuano Scarlato, O Real eo Imaginario no Bexign: Autofagia ¢ Reno Urbana no Bairo, tese de doutorado (Sio Paulo: FFLCH/Departamento de Geografia ~ USP, 1988) mimeo.; Maria Isaura Pereira de Queiroz, Bairros Rurais Paulistas (Sao Paulo: Duas Cidades, 1973), ® Francisco Capuano Scarlato, O Real eo Imaginario no Bex... cit, p. 187, (Olga Rodrigues de Moraes von Simson os sobrados e mansées serdo derrubados por ago de intensa atividade imobilidria e o bairro passa a sediar grandes e luxuosos condominios verticais intercalados por um comércio moderno e sofisticado, muito diverso do comércio tradicional do vetho centro urbano campineiro. As familias mais abastadas e que puderam conservar seu patriménio econémico ao longo dos anos, ante to intensa transformacio, mudaram- se do Cambus buscando os novos bairros residenciais que se formaram em direcao ao norte do municfpio: Paineiras, Nova Campinas e os condominios horizontais de alto luxo como Chacara Gramado ou Alto de Nova Campinas, entre outros. Com a crescente atividade imobiliéria acima mencionada, o baitro do Cambui desenvolveu-se nao 6 verticalmente, mas também no sentido horizontal, abarcando nos anos oitenta em seus dominios todas as vilas mais populares com que até entao se delimitava, mas que ndo tinham definicao muito clara no tracado urbano campineiro. Ele se tornou uma espécie de griffe de sucesso, e assim muitas familias recém-ascendidas classe média € & média-alta tém buscado mudar-se para o bairro, como uma espécie de prova de seu sucesso econdmico e social. Das antigas familias tradicionais da Campinas agraria muito poucas testaram no bairro e geralmente so aquelas cujo insucesso econémico das iiltimas décadas as impediu de “migrar” rumo aos novos bairros situados mais ao norte. Tais familias, habitando velhas residéncias geralmente malconservadas e apertadas entre condominios verticais ou entre restaurantes e butiques da moda, nao reconhecem nesse Cambui atual o bairro calmo e aprazivel, onde nos idos de quarenta ou cingtienta, construiram o seu lar, € no se sentem pertencentes a essa “nova tribo” que recentemente invadiu seu bairro. Os novos habitantes do Cambuf, por outro lado, por adotarem um estilo de vida influenciado pela visio burguesa de mundo, também no se dedicam a atividades comunitarias e, ndo tendo vivido por muitas décadas na regido, nao desenvolveram o que os autores que estudam a realidade de bairro’ chamam de sentimento de aderéncia a determinada locali- dade e de pertencimento a uma comunidade local. No presente estado da pesquisa, a Vila Industrial se apresenta aos pesquisadores como um bairro das “antigas cidades, que pelo seu tamanho reduzido e menor complexidade na divisao social do trabalho, ao lado de um ntimero menor de pessoas, permitiam uma maior proximidade entre residéncia e lugar de trabalho”, possibilitando a manutengdo e reafirmacio, através de diferentes geragdes de familias residentes no local, de uma nitida identidade de bairro, o que permite a elas receber bem um pesquisador interessado em conhecer ¢ registrar essa realidade e até orienté-lo e incentivé-lo no seu registro fotografico. © Cambui, entretanto, acompanhando o acelerado proceso de metropo- lizagao por que passa a regiao de Campinas, parece jé estar integrado a essa nova realidade metropolizada, que é definida por Scarlato da seguinte forma: “adensamento central e horizontalizagio pelo crescimento ‘peri- férico’ com suas grandes avenidas, auto-estradas [criando] um cotidiano que passou a ser determinado por dois grandes parametros: velocidade e distancia. Criow-se [assim] uma nova relacdo do individuo com seus locais de vizinhanga”." Imagem e meméria Aos pesquisadores, 0 bairro do Cambut vem se apresentando, portanto, como um local da cidade que nao péde, em virtude dos movimentos populacionais que sofreu ao longo de seu desenvolvimento e pelas condicdes socioculturais neles envolvidas, permitir a construcao e manutencao, entre os moradores do bairro, de uma identidade local. Isso parece determinar a maneira como o pesquisador-fotdgrafo é visto e recebido pelos habitantes do Cambui: um intruso que, penetrando nos espacos do bairro, destréi a privacidade dos moradores e que, portanto, nao deve ser incentivado e muito menos auxiliado ou orientado na sua tarefa de registro visual da realidade cotidiana local. Turi Lotman, um dos semiélogos mais importantes destas tiltimas décadas, ‘mas muito pouco conhecido por ter desenvolvido suas pesquisas do outro lado da antiga Cortina de Ferro, faleceu recentemente e foi homenageado por um artigo de Jerusa Pires Ferreira publicado na Revisia da USP sob 0 titulo “Cultura é meméria”. Além de explicar a importancia e a origi- nalidade do trabalho desse pesquisador na area da comunicacao, Jerusa Ferreira apresenta as bases gerais do pensamento de Lotman, que afirmou “A cultura éa memoria longeva de uma comunidade [...]e nao um simples depésito de informages: é um mecanismo organizado de modo extrema- mente complexo que conserva as informacées, elaborando continuamente 08 procedimentos mais vantajosos e compativeis. Recebe as coisas, codifica e decodifica mensagens, traduzindo-as a um outro sistema de signos [..] Somente aquilo que foi traduzido num sistema de signos pode vir a ser patriménio da meméria”.” Ora, como diz. Lotman, é através dos signos fornecidos pela cultura que se constréi a meméria de um grupo social, num trabalho seletivo muito complexo que s6 armazena fatos depois de transformados em algum tipo de texto e, mesmo assim, s6 guarda os que possuem uma utilidade e funcionalidade para o grupo. Neste sentido, as pesquisas aqui relatadas parecem indicar que as imagens fotograficas tém exercido papel signi- ficativo nesse proceso de selegao e registro do que deve ser armazenado € se constituem num util sistema de transmissdo da meméria para alguns grupos sociais, Elas indicam também que o registro imagético vem permeando cada vez mais a nossa cultura ocidental contemporanea e se transformando talvez no principal “texto” orientador da construgao das memérias individuais e da meméria coletiva dos grupos s O trabalho de recuperagdo da meméria hist6rico-sociolégica de varios grupos sociais que temos realizado parece indicar também que é impor- tante, nesse tipo de pesquisa, considerar a maneira como as comunidades estudadas encaram 0 uso da imagem no proceso de registro e transmissao do pasado. A forma como esses grupos transformam fatos em textos memorizaveis, por meio de signos fotogréficos, e a importancia que dao a eles na vida social cotidiana podem fornecer pistas importantes para 0 pesquisador entender a prdpria légica interna e a trajet6ria de tais grupos, complementando assim, de maneira enriquecedora, os dados de contetido que tais imagens, ou série de imagens, nos possam oferecer. E por meio da anélise de imagens fotograficas reunidas entre o grupo po gh 8 grup pesquisado ou produzidas no seu processo de pesquisa, imagens essas analisadas nao s6 quanto ao contetido que possam indicar, mas também segundo a maneira como sao socialmente produzidas e consumidas, tudo 2 Jerusa Pires Ferreira, Cultura é Meméria”, em Revista da Us 1 Si0 Paulo, dez--an-fev. de 1994-1995, pp. 116 € 17. Olga Rodrigues de Moraes von Simson isso associado aos relatos orais que as testemunhas-chave da meméria do grupo estudado nos concedam, que construimos as pesquisas de carater sécio-hist6rico que vimos realizando, nas quais o componente da cultura é a mola-mestra na construcdo do processo de conhecimento aqui relatado. Nesse trabalho percebemos também a maneira como os diversos grupos socioculturais reagem ao seu passado imagético: aceitando-o, valorizan- do-o, preservando-o ou repudiando-o. Isso se constitui num dado fun- damental da propria pesquisa, pois pocle fornecer pistas valiosas para o investigador que ousa lidar a0 mesmo tempo com imagem, cultura e meméria.

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