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AEWA Oe eS a ae one PPO g eR Oe ) 2015 FUNDACAO FOSE SA wd peo et via Podiames ficar a viver aqui, ev ofereciame para lavar os barcos que vém & doca, e tu, E eu, Tens com certeza um mester, um oficio, uma profissGo, como agora se diz, Tenho, tive, terei se for preciso, mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou quando nela estiver, Ndo o sabes, Se ndo sais de ti, ndo chegas a saber quem és, © filésofo do rei, quando née tinha que fazer, ia sentarse ao pé de mim, a verme passajar as petgas dos pajens, e ds vezes davalhe para filosofar, dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo n@o era comigo, visto que sou mulher, néo lhe dava importancia, tu que achas, Que é necessdrio sair da ilha para ver a ilha, que nao nos vemos se ndo nos saimos de nds, Se ndo saimos de ndés préprios, queres tu dizer, Nao 6 a mesma coisa O Conto da Ilha Desconhecida, José Saramago 040611 4 Lector Ie 79 81 82 93 «, perguntou o monarca. «Para ir & procura da ilha desconhecida», responde o homem. A fabula foi escrita em 1998, cinco anos depois de o escritor ter encontrado a sua ilha WHERE TO FIND US. LEITURAS DO MES. ‘Ana Hatherly Homenagem oa Hatherymoreu no pasado a5 de Agosto wo Pubico sthulod sua arte com um onier dadicedo vida oh brad autora, uj trabaho = Sepa peaiteratura, pele ‘tos pista, polo cinema © pelor modos da crzertodae fra ngungene. Nam dos fests, arsnado els jrnalts Lis igvl Gus 6 Vanesa Rato lve: cfm 2007, uma enrovsta o poeta brasiero Horio Costa, que In pede ue coment sa ert imierta inquontnario poatice™ Ana Hathery i estar convencida de «que ns irshaver comemorario nenhums™, porave os portuguetes costumam clebrar Ccemuvartntan sb epochs taro mora, verse nom sin Esa nt posta portugias da regunda matase co século {que pode quar do nso tar boo rcorbecinent oneenail que merecesa& bom An ther prejuicade palo se pionerimo pela sis propia verssticace Uma multiedade que nines ameagou a coesio da ua obra. O posta e ensasta Manuel Portola Tembra que ‘trabalho de Ana Hatherly val em muitasdireccdes, literatura ae arts plisticas, 8 performance e a0 cinema", ‘mas observa também que “tods sua obra plastica é muito Construida a partir da escrita", © ‘que "mesmo nat suas colgens, desenhos ou gouaches,aescrita runea esta completamante fusente”» Para além do texto Citado, um bom perflbiogrtico ® artistica de Ana Hathery, © ocsier incl textos de Manuel Portela, Luisa Soares de Olvera @ Valter Hugo Mie, “° Herta Muller A Armadilha Biografica pedi de si epebol dortts emai esaarter aan, cortices powcr Seu'a Unvridaedo Bom om 08» srr rte Mller ues ones Pa Presa dor ater o8 dquais dedicou a sua anise nas referidasconferéncias, a autora fala sobre ainfncia 2 meméria, #.omodo como a biografa nao deixa de ser uma armaciha da dual cific fugr: «Sabes que res presa de tu vida, también de tu biografa, que hay hechos {que no se pueden cambiar, que eisten yyaexstian antes detu nacimiento, Telos ponen delante Yyerecen entu cabeza y ahi ti no hacet nada Por ejemplo, que mi padre estaba enlas 5, ahi no puedo hacer nada de hada es una realidad que ya tetis antes de nacer yo. Sin embargo, la tengo que asumiry saber qué signifies dentro de un ran marco historica que abarca practicamente medio mundo, Por esgracia, pues esos estuvieron cas en todas parts. Tantas veces he tenido la sensacién, cuando llegabs aun sito €l ya extuvo ai En todos le lugares donde los nacionaleociltaeestuvieron yydestrozaron todo, mataron ala gate, siempre pensaba mi padre, mi padre. No puedo abstraerme de ello, geémo podria dsenterderme de algo ai? Y 1220 no slo me acurre en lerae, LEITURAS DO MES me pasa en Polonia, en los pleas cescandinavos, en Francia, en cas toda Europa. Supuestamente todo eso os historia [Suepiray hace una pausal. No importa de {qué estemos hablando, siempre hablamas de historia o desde dentro de Is historia. Siempre nos encontramos dentro de lahistria, de ahi no saimos, nos pongamos donde nos pongamos:» “0 Paulo Scott Leitores sem livros No blog da editors brasileira Companhia das Letras, o cescrtor Paulo Scott diserta sobre ofenémeno da iteratura ‘enquanto espetécul social, prosseguindo a sua reflexéo ‘com proportas da producso lterdria contemporinea que poderda meraceralgum tipo de posteridade para além da novidace momentanes que parece animar o mercado tecitaria sLembro, por conta disso, da stuacio aquela do sujeito que se aproxima do autor fem algumafestivdade iteréxia descuidado, projta um lempolgadssimo fe inusitade) “sou seu f desde sempre, f& nimero Um’, recebendo cama rerposta um “obrigado, mas, entéo, me liga a: qua dos meus fvros voc leut” e repicande, o dito, despeia um “ete sigo no Titer, Ieio o que vocé posta’ ou “Ieio (0s seu textbet no Facebook” (“elo a cua colna” ou até lum “lela de ves em quando (© seu blog”. Néo me agrada tietagem teria, tatagem varia, casulstca, a que adquieo vro, ‘ma nia oo lva le nfo se abala {29 dar com o fato de que jamal lord o fro. Nao vou entrar em detalhes, sobretudo por saber que estamos long, eternamente Tonge, dos mundios ideas, apenas vourregistrar:o uiversoIterério brasleiro contemporaneo precisa deleitores,leitores de verdade, ‘ode tists. Eero, até onde eu Si, se consegue com educacéo fundamental de qualidade, educagio de verdade.> a Leonardo da Vinci Rio perde livraria icénica ‘Aivraria Leonardo Da Vin, lum doe feones culture do Rio de Janeiro, com dito a poema dedicado por Carlos Drummond de Ancrade, sanunciou 0 encerramento da sua ative, O motivo &o mesma (que vai encerrando lvaras, independents um pouco por toda a parte: impossbildade cde competir com os gigantes do mercado editorial elurero, cujas regras praticadas no s50 13s mesmas. No jornal pedo, Euler de Franca Belém assina uma crérica sabre o fecho da Leonardo a Vin amentando a perda que a cidade sorerd: «A Livraia Leonard d Vine! torna © Rio de Janeiro mais Rio ~ mais humana, viva e delicado — hi 68 anos. Criada pelo romeno ‘Andrei Duchiade, em 1952, 8 lati vai queimar seu estoque e 100 milexemplaresa partir e cegunda-feira, 1°, pois val fechar a portas. A propretiria Milena Duchiade diese aos repérteres Mateus Campos © Mauricio Meireles, de 0 Giobo, aque no & mais possvel operar no vermalho, Dae de suse quatro salae no Essficio Marques de Herval, na Avenida Rio Branco, ji estao desocupadas.» No mesmo texto, a propretiia da lvraria desabafa: , cz Milena Duchiade Segundo 0 Globo, ctando 2 lvrira, «o modelo de negacios, bbateado em fdeizacio da clientela, titles especialzados @, por conta disso, em um ritmo lento de vendas, egotou-se de vex com 0 protagonismo de oj, vietuas e megalvrarasy LEITURAS DO MES Azkar, o General Dileydi Florez Chili Com Carne © predestinado digg deste iro fca a dever-se perdida. A associacéo Chili Com Carne, igusimenteeditora de banda desenhada, ancou um cancurso inttuiado «Toma La 600 Pause Faz Uma BDI». O vencedor teria o seu vro publicado e um aciantamento de quinhentos euros para poder dedicar-se & tarefa de conclir a obra com algumas condigdee. Dileyd Florez, iustradora e autora de bands decenhada narcids na Colbmbia @ ragicads em Lisboa, nfo venceu 0 concurse ique cstinguiu Francisco Sousa Lobo, eo lvro 0 Desenhodor Detunto), mas a editora gostou tanto deste trabalho que decid publicé-lo também, Akar, o General 8 uma narrativa sobre o poder eas suas armacinae, um exercicio onde 3 Felacio antre texto imagem & profunda e solamente construlda, de tal mado que a sucesso de movimentos e posturas de cada vinhets compse parte considerével ds nha temporal aque aqui se desenrola.O taco de Dileyd Fiorer évsivelmente ddevedor de certa iconografia secociada a0 Mécio Oriente, das tapecarias porsas 20s frescos de Constantinopia tira partido dessa iconografi assumind-Ihe algumas caracterstcas definidoras los rastos quate retineos, femoldurados pelos elmos de guerra, os fundos compostos por tracas ou pontos ondulantes Aue, em conjunto, criam texturas conde apenas o preto ebranco se assoma, a compaticéo de personagens entre frontal 80 perflado, dando aver 2 magietradade da cua postural para com elat encenar 0 e¢p3¢0, 0 tempo e 0 modo de Azkar. Filho do IV Re da Pérsia, Azkar & lum ganeral talhado para a arte da guerra, mas tentado, num determinada momento, pelo poder {que sempre vu depositado no seu pal Destronando o rei, cupa-ine 6 trono,iniciando nesse momento tuma caminhada sangrenta que © levara a frequentar abismos muito mais sombrios do que pensou poder suportar. Em pranchas, {qe tram o melhor partido dos jngos de simetra, da repeticzo de elementos iconografcos © de uma composicéo majestosa (mesmo quando 0 contraste entre os elementor eo fundo parece pedir um pouco mais de distinelo, Florez narra o percurso de Azkar na primeira pessoa, refletindo sobre o desconforto que o poder era num homem que foi tathado para a guerra, e apenas para sso. Nao ce trata de uma narrative moralsta sobre o perigo de 0 poder corromper, mas de uma histéria que, com frases curtas atravessadas pela frieze factual @ imagens que remetem parao Universo iconografica js referido, propée uma leturaintemporal sobre o poder. Aprofundando tum pouco mais aletura, & ctl no encarar a dureza moral que S narrativa de Florez prope 20 assumie que alguém ensinado a uerrear néo sabers vver de outro modo. €apesar da referencia final a uma espécie de caminho do guerreir, algo comum a vrias tradicbes orientais (e iguaimente europeias, se nos reportarmos BS idade Mécia © aoe ideas do cavalarial, © que fica de Azkor, ‘General é ezee ssbor amargo 8 destino imutael, to alheio a tentacdes de grandeza como a iusdee de fogs CESMREA UMA ESPIONAGEM CANASTRONA POR UMA ROMA QUE NAO SUSTENTA MAIS SUA LENDA, UM PREMIO NOBEL PELOS SUBURBIOS DO RECIFE... UM UNIVERSO EM al ES OL J ; pana PREM BRAVO DE LITERATURA DE 1999. Histérias de Nova Torque Enric Bonxdlex Tinta da China Depois das Histéras de Londres fe dae Historias de Roma, a Tints dda Chins raz Enric Gonzslez de regresso com este volume dedicado a Nove lorque. Vvendo ra cidade como correspondents do £1 Pas, ojoralista colecionou episédiosinformacées © Criosidades sobre a cidade que rune dorme ® onde, 20 que parece, «os tive so pedacos (historia viva e merecem tanto respeite como as ruinas da Acrépote sr Beleados s Rimas Salgadas Miguel ost Siete Etor SSowpaéosmastinoe,nt rai anita uttoc mae Clntncor ox que tga Horta ‘arte pstse poor Ds tr srascntm econ wn cad im fatvincuvda,sroncatad, serdar ina blanca da cargioolngsongn corridas de pees dat eitencis fart momentos carver de prday, verge scorned por rataton detanados dos rotagoists. Ente bo fecha etoginqu @ stor deloo oo merece tive ici com Pink Balt, 0 See APresenga de um _| A Capital da Palhaco Vertigem Andrés Barbas Roberto Pompeu de Toledo Biinore Obietiva Romance de um dos grandes Depois ce um volume dedicado omer d Meratursespanhola | S50 Patio dos prméroe, Contemporinea, APrecenga desde as sus orgens até cerca doumPainayorefietesotrea | de 1900, oautorogresa 8 fecledade aual aassungsodo | cidade para revelaro sous polis como creo endo como | contoros e mutagBes ao longo Smododencsorganizarmos” | da primera metade do século fmcomunidadeaidentiede | XA ndustraicagio, a pauatna camomérienquanto narra | mudanga de va pare grande Inagitramente a deambuagSes.| metropole ee agtaraoatstce do Marcos em busca de e cultural que acomparhou todas repr. tetas midangasertao no conto do nove fro de Pompeu Toledo, may >eANm Casas muito Na Margem doces, rescritas Reta eee infantojuvenis de | encedor deviris prémios, Hansel e Gretel iterrios relevant no panorama Sera Reis da Silva ‘espanhol, Ne Margem contema ‘Tropelias & companhia ‘3 importincia de ndo perder de Depois do estudo sobre oconto | Vista trabalho itrério de Rafael {o capuchinho vermelho, 3 CChiroes. partir da deccoberts investigadora presenta agora | Geis sadbver nar specs de uma leitura comparativa de tim pantano, daveneola-se muta reriagses © adeptacies en eae as o conto Hansel e Grete personagens um retrato amargo criginalmente fixado pelos da vida contemporinea de tantos Le Sr ee nem ee paises mediterrnicos, entre luma resenhahistrica sobre ‘crise fnanceira ea falta de a recetividade portuguese, ahonatnes 8 intertestualdade est na bate do ensaio.e da andize de adaptacées, versbes erecriacdes fem vias inguas @ de momentos itintos O ARABE DO FUTURO, re © Arabe do Futuro Riad Sattouf Teorema Primeiro volume de uma banda desenhada onde o autor, rum registo marcado pela autobiografa, recupera a sua infoncia entre a Lita ea Sia, fazendo ds vida do seu pal um pretexto para refit sobre as Imudancas que se regstaram no mundo arabe ente 1974 91984 (fio de lvros com temitica, semelhante& grande, enem sempre produr obras-primas, mat interessante verifcar que ‘omercado portugues parece, finalmente,interessado pela banda desenhada que s0 val fazendo. Ana de Castro Osério, a mulher que votou na literatura Carla Maia de Almeida Marte Montero Peto Lage, INCM. “Tule da coco Grandes Vidas Portugues, ediedo ana de Castro Oxi. Cala Mala de Aimeida rac oper de uma mulher progresista nas sues facets potia eer, fem esquecer algun valores paradoxaiment racists, sempre enquacradosno contest social dn cttadurasloarita, Marta Montero retrataaépoca nas cores simbsless da bandera nacional O tom no ublatxio nem simpli, conequndo um eau entre intormarzo #2 prosiidade com o eto Falhar melhor GRANTA 5| Falhar melhor rae Peete OF ae of Rato Os maim od, LANZA ROTE FA INTUICQO da ina PHaOt Get NO NEY LANZAROTE A INTUICAO DA ILHA M19 n@o sabia que acabaria por fazer casa no meio do oceano, em Lanzarote, mas algo se agitava de 36 José Saramago intuiu a importancia da ilha, por isso escreveu A Jangada de Pedra, Ainda tal modo no seu inlimo que quando visitou Lanzarote pela primeira vez, em 1991, varias pessoas 0 couviram dizer «esta ilha pode ter importancia na minha vider. Tevea. ‘José Saramago nunca se exilou de Portugal, ao contrério do que as vazes se escreve. Afastouse, sim, de uma forma de governacao incompativel com a sua sensibilidade, mas nGo dos seus amigos e leitores. Também se afastou daquilo a que chamava «ruido social», tao incompativel com o trabalho de esquadrinhar o interior humana, isso que ndo tem nome e que é o que somos, cada um de nés, como deixou dito com palavras mais belas em Ensaio sobre a Cegueira, o primeiro livro que escre veu em Lanzarote. A ilha é 0 lugar adequado para se embarcar na aventura intima de um encontro consigo proprio e, talvez, com o outro. Pade igualmente ser, se assim se decidir, um observatorio privilegiado dos desconcertos do mundo 2 um porto de abrigo de todos os ndufragos, com os seus desesperos e anseios. A dimensdo da ilha mitica parecese muito com a Lanzarote que José Saramago construiu ao escrever vivendo. Se é verdade que as nossas acdes so origem de algo, nao é menos verdade que sGo também consequéncia de outras acdes. O facto de José Saramago ter chegado a Lanzarote pode ter sido consequéncia de antes ter feito da Pe- ninsula Ibérica uma ilha de pecra capaz de se aproximar de oultas ilhas, ainda que maiotes, como o so a Africa e a América. E quem diz ilhas, diz pessoas: tantos amigos no mundo talvez sejam consequéncia das viagens literdrias na sua jangada particular. E sabemos, claro, que as ilhas que navegam sao também livres para rodar sobre o seu proprio eixo e altait, alair interminavelmente, os leitores e os seus sonhos. LANZAROTE A INTUICAO DA ILHA 056 Saramago nao teve dificuldades nem dividas em mudarse para Lanzarote, porque antes da mudanga (4 amava a sua paisagem € o seu siléncio de pedra wulednica. Em menos de 24 horas, quando retumbava © ruido provocado pela censura do governo de Cavaco Silva, aceitou a suges G0 para viver na ilha e seis meses depois jd finha em Lanzarote uma casa «leita de livros», como diria mais tarde, consiruida por Javier Pérez de acordo com a forma de estar na vida que o escritor queria para ele © para os outros. E uma casa que propicia encontros ¢ deixa passar a luz que ali: menta 0 oficio de trevas que é escrever. A vida de José Saramago em Lanzarote nao tinha mistério: madrugar, escrever, passear entre wulcdes, ler, sentarse no jardim pela tarde, fazer festas aos seus cdes - Pepe, Greta e Camées ‘conversar com quem estava por perto. Pode parecer uma rolina sensaborona, mas desta normalidade simples nasceram Ensaio sobre a Cegueira, Todos os Nomes, A Caverna, © Homem Duplicado, As Inlermiténcias da Morte, Ensaio sobre a Lucidez, A Viagem do Elefante, Caim, Alabardas, para além dos Cademos, de As Pequenas Memerias, conferéncias, ensaios, arfigos para jornais e uma correspondéncia impardvel que chegava pelas mais diversas vias. Nao é necess¢- rio ser um bom observador para perceber que a aparéncia tranquila encetrava vulcdes que flufam e fluem em literatura magnifica, humanissima compenetragdo nos outros. A lanzarote também chegavam amigos, e a cozinharsala de refeigdes de «A Casa» converteuse num lugar de encon: tro. Cinco anos depois do ultimo dia de José Saramago esta divisdo continua a acolher tertilias didrias daqueles que visitam a casa do escritor e acariciam os livros como se fossem pessoas. 19 TAN eh net SS LANZAROTE A INTUICAO DA ILHA a janela da sua casa José Saramago vé outta ilha, Fuert guel de Unamuno quando foi de: © memorial de Unamuno em Fuerteventura, e ali se encontrou com uns jo lura, © local que recebeu Mi rrado e despojado da sua cdtedra. Saramago foi visitar 1s bascos que he levavan fk 's. Conservar a meméria dos que se recordam é uma obrigacao. Saramago em Not com os jovens, as flores ¢ Unamuno ¢ contou-o nos Caderos de Lanzarot As vezes José Saramago subia mon luas de pedra abrigando as vinhas ¢ bronco de Lanzarote, acometic-o a paz do trabalho bem has, mas na paisagem rara de La Geria, meias e em breve dardo o vinho de Malvasia, o feito, Filho predileto de Lanzarote, Filho predileto de Tias, o seu titulo pref asim terra sua. Em Lanzarote sentiu a nostalgia de cada dia que aca: ido era o de pode dizer de Lanzarote que, se nao era a sua terra, bava. A sua biblioteca permanece em Lanzarok jardim porque ha gestos que néo se podem perder Da sua casa, diariamente alguém olha o mar e acaricia as drvores do seu EL GOLFO Ulmcelenre OTA el eIAN(e BSR eee SEC TT! lOGO LANZAROTE UM SUBITO PENSAMENTO Um stbito pensamento: seré Lanzarote, nesta altura da vida, a Azinhaga recuperada? As minhas deambulagées inquietas pelos caminhos da ilha, com o seu qué de obsessivo, nao serao repeticdes daquela ansiosa procura (de qué?) que me levava a percorrer por dentro as marachas do Almonda, os olivais desertos e silenciosos ao entardecer, o labirinto do Paul de Boquilobo? Caderno! ‘Que boas estrelas estardo cobrindo os céus de Lanzarote? A vida, esta vida que, inapelavelmente, pétala a pétala, vai desfolhando o tempo, parece, nestes dias, ler parado no berme-quet. Ll Subi onfem a Montaha Blanca. © alpinista do conto tinha razdo: nao hd nenhum motivo sério para subir 4s monta- nhas, salvo o facto de elas estarem ali. Desde que nos instakimos em Lanzarote que eu andava a dizer a Pilar que havia de subir todos estes montes que temos por tras da casa, e onlem, para comecar, fume atrever com o mais alto deles (...} lembro-me de haver pensado, enquanto subia: «Se caio e aqui me mato, acabouse, nao farei mais livros.» Nao liguei a0 aviso. A nica coisa realmente importante que finha para fazer naquele momento, era chegar |é acima. 2s LANZAROTE UM SUBITO PENSAMENTO Ld Regresso a Lanzarole. A impressdo, intensissima, de estar a vollar a casa Caderno Il Do allo do Mirador del Rio, com 0 Ultimo sol turvado pela bruma seca aqui denominada calima, como se 0 céu esti- vvesse peneirando sobre Lanzarote uma ténue cinza branca, olhamos — luciana, Rita e ev — a ilha da Graciosa, com 05 seus trés montes quase arrasados pela erosdo, restos de vulcdes antigos, o pequeno porto de pesca, a Caleta do Sebo, a secura absoluta de uma terra espremida pelo vento, calcinada por dentro e por fora [- Em Paris (..] Pensei em Lanzarote, onde a gente & escassa, onde os livias s6 hé pouco deixaram de ser raridade, onde as manifestacdes culturais importantes se contam ao ano pelos dedos, perguntome como é possivel viver [4 sem sentir a falta destas maravilhas (ou as de lisboa, na proporgao...), e penso que esté bem assim, que de todo o modo. nunca poderia ler tudo, ver tudo, que um dos meus pequenos vulcdes levou mais tempo a fazerse que o Arco do Triunfo e que 0 vale de Guinate nao fica a dever nada aos Campos Elisios. Ld Embora ndo creia no destino, perguntome se ao escrever a minha Jangada de Pedra, a outra, ndo estaria ja buscan- do, sem o saber, a rota que sete anos depois me havia de levar a Lanzarote. Caderno Ill lanzarote ndo é sempre o paraiso. Onlem amanhecemos com © céu tapado pela calima, um ar espesso e solurno que transporta para aqui, por cima de cem quilémetros de oceano, a poeira do Sara, e nos pée & beira da sufocagao. © avido que veio de Madrid e a Madrid deveria levarnos foi, por prudéncia, desviado para Las Palmas. Durante seis 7 LANZAROTE UM SUBITO PENSAMENTO horas esperémos no aeroporto que o tempo aclarasse, que outro avido estivesse disponivel, que outra tripulagao se apiedasse dos frusrados viajantes. Percemos 0 voo de ligacio com lisboa, livemos de dormir em Madrid. Caderno IV Tinha pensado que SebastiGo Salgado seria pouco sensivel as lavas ¢ vulcdes de Timanfaya [os olhos dele jé vita tudo...], mas enganeime. «Estou assombrado», disse, e a expresso do rosto confirmava as palavras. Ld Mais curioso ainda é © sentimento de responsabilidade que me leva a desejar que o visitante sé leve de cd boas recordagées, isto 6, que, dia € noite, o tempo, 0 céu, 0 mar ¢ a paisagem tenham estado perfeitos, que o vento nao. tenha soprado demasiado, que nenhum turista distraido ov maleducado tenha atirado ao caminho uma lata de coca- -cola ou um invélucto de cigarros vazio, que nenhum residente — candrio, peninsular ou estrangeiro — tenha infingido ‘0 cddigo no escrito que o manda comportar-se como exemplo de civismo quotidiano, que para isso, acho eu, é que temos o privilégio sem prego de viver neste lugar. [Ll Caderno V Eisme, oficialmente, fiho adotive de Lanzarote. A festa foi no auditério dos Jameos del Agua, enlre os amigos que tenho cé e alguns que vieram de longe — a escritora Josefina Molina, Amaya Elezcano, minha editora em Allaguara, ‘as sempiternas Carmélia e Maria do Céu —, mas também muitas outras pessoas residentes a quem mal conhego e que acharam que ndo perdiam o seu tempo assistindo ao ato de homenagem com que a sua ilha decidira agasalhar o es- ctitor portugués que a ela veio para viver. 29 wie lteelclen~ LWAMOES NA ING QO TM QO MUNGO AS Lo ELA) IVICIIGQOL Z| eer CC eee ee ee es ee eo) Emeuiiro ds 1997 chegevm és beweon dls Breslle patie miners ata revista Bravol. A publicagde, que surgia com © objetivo de Mas, numa attitude também muito masculina, um dia depois estava a dizer: «Talvez nao seja mé idéia.» Em menos de um ano, A Casa estava pronta. Erguida na terra seca do municipio de Tias, em los Topes, 3, é sua primeira propriedade. as LANZAROTE SARAMAGO FE CAMOES NA ILHA DO FIM DO MUNDO REINO MINERAL. Em lanzarote, apenas o que é essencial - essencial como uma pedra, 4 maneira do poeta brasileiro Jodo Cabral de Melo Neto - importa. Quem desce do avido e, do aeroporto de Arrecife, a capital, dirige-se a um dos moderos balnedrios da costa, fatalmente se pergunta: «Onde foram parar os arbustos, as drvores? Mas é tudo casca- Iho, pedta, aridez? Cadé a natureza décil que se imagina em uma ilha silvada na mesma latitude em que a Florida? As pessoas, onde estéo as pessoas?» Saramago nao se abala diante de expectativas que serdo frustradas e explica as razées de seu fascinio pela ilha: «Ao alhar esses vulodes, cerlas pessoas perguntarao pelas drvores, pelos passaros a cantar... procurarao a paisagem tradicional, o carlac-postal... Eu nasci e vivi numa regiGo na qual nao faltam arvores, no faltam rios, mas sempre senfi o lugar mais deserto, seco. Sinfo mais a ruina, o que indica que o tempo passou.» Tempo geolégico, porque Lanzarote é um reino mineral Na quatta maior das ilhas Candrrias, 74 1 quilémetros quadrados ~ metade da érea do municipio de Sao Paulo - que © turismo de massa fenta em vao conquistar, detalhes da fauna ¢ da flora passam quase despercebidos, & sombra do. televo convulsionado, dos restos que a terra verteu. Ruinas, indicios de que o tempo passou, lembra Saramago: «Entre a pedra eo horizonte, que esta ld onde eslao os horizontes, ev prefiro a pedra, o sentido da pedra, a materialidade daguilo que viveu, porque a pedra viveu. Me interessa 0 que veio do funde da terra, © que se moveu, o que se queimou, a escéria, a cinza, a lava. Isso que é essencial, que vern de baixo e sobre o qual andamos com uma inconsciéncia total.» Em Lanzarote, & impossivel caminhar sobre as pedhas sem ter a conscincia plena de que a ilha é resultado de sua nalureza pouco amdvel, que determina como tudo deve ser, da casa ao homem. Em um tempo de dimensdes geolégicas, de 11 a 17 milhdes de anos, em sucessivas emissdes de magma e sub- seqilentes processos erosivos, a ilha surgiu do funde do mar e ganhou seus tragos mais gerais — Lanzarote e a vizinha 7 LANZAROTE SARAMAGO FE CAMOES NA ILHA DO FIM DO MUNDO Fuerteventura so as ilhas mais antigas do vulcdnico arquipélago candrio. Em um tempo mais proximo, de dimensdes histéricas, sabese que grandes erupgdes aconteceram nos séculos 18 © 19, principalmente enite 1730 © 1736, mol dando boa parte da paisagem atual. No dia primeiro de setembro de 1730, contam os cronistas, abriuse na drea centrooeste da ilha uma fenda de 20 quilémetros que expeliu rios de lava por cinco anos e meio, solerrando onze po- voados, centenas de casas e as terras mais férleis, sepullando 0 Unico manancial e afetande um ter¢o do territério, por sorle, sem matar qualquer habitante. As mais recentes erupgdes datam de 1824 e abriram és crateras, que vieram se juntar 4s 300 que existiam. Apesar do repouso, a atividade vulcdnica esté longe da extingao - a dllima erupgao nas Candrias foi em 1971, em La Palma. «Ver esses vuleGes, com as cores que vao do cinzenlo ao negro, as vezes ao vermelho, é uma belezo», enlusiasmase ‘Saramago, que jd incorporou a paisagem rude & sua rotina. Entre uma pagina e outra - quem sabe, reflexdes para a série Cadernos de lanzarote -, escritas de preferéncia 4 tarde, da tempo para pequenos passeios por aquelas terras estéreis: «Goslo de andar nesses campos negros, que ficam um pouco verdes por ocasido das raras chuvas, mas que logo voltam a ser cinzentos, negros, porque esta é uma terra calcinada.» Quando vem um amigo de fora, permitese um passeio de maior félego, vai a regio das Montafas del Fuego, dominada pelo vuledo Timanfaya, centro dos aconteci- mentos cataclismicos do século 18, segue os roleiros oficiais e revela paisagens que o impressionam, como a Cueva del ‘Cuervo, uma cratera pela metade - a outra parte desabou. Entéo, numa attitude ecologicamente reprovavel, é possivel que escolha uma pedia que considere perfeita, mostrando a lava em processo de soldificago, e a dé ao visitante. LANZAROTE SARAMAGO FE CAMOES NA ILHA DO FIM DO MUNDO (© HOMEM E © VULCAO. Lanzarote é 0 vulcdo e a lula do homem contra 0 vuledo. Nem palavras nem fotografias conseguem descrever o que é, em verdade, a primeira ha que enconttavam os navegadores europeus que, no final da Idade Média, aventuravam-se pelo Mar Tenebroso. Para entender o espirito da ilha, e a impossivel lula do homem contra © vuledo, é preciso estar em Lanzarote e, para um curso intensivo, dirigirse ao Parque Nacional de Timanfaya, um dos quatro pargues nacionais do arquipélago espanhol. Timanfaya foi declarado parque nacional ha pouco mais de duas décadas e ocupa uma drea de 5 1km?, um quarto do territério alcangado pelo calaclismo de 17306. logo 4 entrada, a escala assusta, o mar negro de lava solidificada se estende até onde a vista chega e o maximo de vegelagdo que se vé sdo liquens, de um total de 180 espécies catalogadas. Segundo os cientistas, os liquens sao «a base da vegetagao que, no futuro, vollaré a ocupar essa tera estéril. Quem viver verd. PERDIDOS NO ESPAGO. Em Timanfaya, j& chamado pargje ultraterrenal [paragem ultraterrena), é assombro apés as- sombro, um espetaculo natural que prescinde fotalmente do homem, reduzido a mero, e maravilhado, espectador. a nalureza no estado mais selvagem, mais brulo, mais vital, como se percebe no Islote de Hilario, local que acusa a intensa atividade geolérmica do subsolo, com temperatura de 610 a 13 metros de profundidade, ou 140 a dez centi- metros - 0 restaurante E| Diablo, anexo, aproveita o calor da terra na preparagdo dos pratos. Quem quiser fazer turismo e pegar o énibus que faz o tour pelo parque sentir, sem nenhum exagero, que circula por uma paisagem lunar, com aqueles horizontes vastos, salitérios e indagadores. Quem tiver vivas lembrangas da infancia, poderé pensar que tudo ndo passa de um cendrio da série Perdidos no Espago, com a tranqtilidade de néo encontrar nenhum maquiavélico Dr. Smith no caminho. Sem contar que, no horizonte de Timanfaya, a paisagem vulcdnica, intacta como se a explosdo tivesse ocorrido ontem, junta-se ao mar. LANZAROTE SARAMAGO FE CAMOES NA ILHA DO FIM DO MUNDO ‘Como nao péde vencer 0 vuledo, o homem aprendeu a conviver com ele, a ponte de Lanzarote ter se tornado um sinénimo de equilibrio ambiental. Nao s6 os vulcdes, mas fatores climaticos, como as escassas chuvas e 0 vento abra- sador que sopra da Africa, contribuiram para marcar a sua identidade. A arquitetura popular lanzarotenha, cujo espitito se impés frente & invasdo de formas modernas, muilas vezes ligadas & especulago imobiliéria, um exemplo de ade- quagdo aos rigores do tempo. Sao casas muito brancas, que reverberam os raios do sol; telhados sem telhas pintados cal, para guardar sem contaminagées até a tltima gota de chuva; sem janelas exteriores e com ventilagao interior, para isolar o vento. Se a falta de chuva e © vento implacdvel lembram o infemo natural que ocupa o norte de Africa - Lanzarote fica a cerca de 100 km do sul de Marrocos -, a temperatura lembra o paraiso. £ Saramago quem assim cré: «Ao longo do ano, a temperatura média anda entre os 17° e os 22°, o que dé vontade de dizer que é a temperatura do paraiso. Deve ter sido essa.» E na agriculura que a vida difcl dos habitantes do campo se transforma em arte. «A possibilidade de viver nesta itha @ estreitissima», acentua Saramago. «Nao agora, que, enfim, as condigdes melhoraram. Mas antigamente, no. Nesta ilha quase nao chove, sdo sete, oito meses sem cair uma gota d’ agua. E nao hé fontes naturais, ndo hd rios. Ao lado de cada casa foram erguidos reservatérios para recolher a chuva, ¢ a Agua chegava a vir de outtas ilhas, para depois ser revendida por um alto preco — hoje, a ilha conta com uma estagdo dessalinizadora em Arrecife. Os agricultores jé néo cultivam centeio, cevada e trigo como antes, pois custa menos importar das outras ilhas ou do continente. Mas cultivam produtos como batatas e cebolas - «as melhores do mundo», destaca Saramago. E continuam a cultivar as videiras que produzem o vinho de Malvasfa, manifestagao maior da agricultura artesanal lanzarotenha. LANZAROTE SARAMAGO FE CAMOES NA ILHA DO FIM DO MUNDO CINZA ESTERIL. Scramago explica a arte de plantar quando a tera se esconde: «A cinza é estéril, mas a 50, 60 centi- metros ha terra fértil. Ai a videira se enraiza e depois cresce dentro desse funil. Como nao é possivel refirar os milhdes de metros cbicos de cinzas vuleGnicas, é preciso aprender a conviver com elas. A propria cratera, o proprio funil, protege 1 videira do vento, mas ainda se constrdi um pequeno muro de pedra, semicircular, que se opde ao vento e impede que as cinzas cubram a planta. Ha quilémetros de pequenos muros feitos pedia sobre pedra, uma ciéncia da constru- 0 da pedra seca, rabalho de geragdes.» O sereno, endo, fomece o grav de umidade que as plantas precisam. Os s0C0s, Os muros em semicirculo, marca tipica da drea de La Geria e Los Vinos, parecem trabalhos daqueles artistas que infervém na paisagem, embora ndo passem de obra de simples agricultores isolades do mundo. A\é recentemente, os lanzarotenhos sobreviviam dessa agriculura de subsisténcia e da pesca, secando e salgando o peixe. © lanzarotenho vive para dento. Percortese o interior desértico da tha, observerse a dgua verdeesmeralda de El Golfo, caminhase pelas crateras e pela cosla, e é dificil perceber a presenca dos habitantes. No tempo de Lancellatto Moloceli, 0 navegador genovés que participou da primeira ocupagdo das Candrias ~ e legou seu nome & ilha mais a leste, que aparece em um mapa de 1339 como «insula de Lanzeroto Maracellus» -, ainda existiam guanches, os habitantes primitivos, que viviam na Idade da Pedra, néo conheciam metais e nem construiam casas, posteriormente dizimados pelos conquistadores espanhdis. Hoje, a populagto & composia pelos descendentes dos colonos que chegar ram a partir da conquista das ilhas pelo normando Juan de Bethencoutt, a servico do reino de Castela. «O homem de Lanzarote», observa Saramago, «lem uma afabilidade natural, mas 6 ao mesmo tempo reservado. Podese alravessar uma vila endo encontrar ninguém na rua. As pessoas vivem muito dentro de casa. Mas a nova geracdo perlence a ‘outro mundo, tem outro tipo de relagao.» 44 LANZAROTE SARAMAGO FE CAMOES NA ILHA DO FIM DO MUNDO MA-TERRA. Se Lancellotio Malocell (século 14) deu nome ai ilha, foi César Manrique (1919-1992) quem the deu identidade. Originalmente artista plastico, Manrique nasceu em Lanzarote, fez carreira em Madri e Nova York. Um dia resolveu voltar, Contase que queria comprar uma érea do Malpais, a MéTerra, de culivo impossivel, tomada pela lava que, em muitos pontos, guarda a forma de substincia espessa que, no passado, escorreu das crateras. Acabou ganhando a drea e af construiu sua casa, hoje sede da Fundagio César Manrique. Ele aproveitou cinco bolhas vulcdnicas, explodiu tineis entre elas e se espelhou na arquitetura da ilha, com seu reboco tosco, para erguer uma casa Unica. A partir da casa, e fomando por base a arquiletura local, promoveu oulras inlervengdes que, hoje, atraem os olhares de gente de todo o mundo. Manrique teve a sorte de, gragas a sua paisagem pouco atraente, ter encontrado Lanzarote quase intocada, mesmo que nos tltimos tempos tenha se batido contra os que ameagavam impor 4 ilha os cénones de uma arquitetura descaracterizadora. Diz Saramago: «A ilha foi mantida num estado de atraso porque ndo se podia fazer nada dela. E dificil que alguém quisesse titar desta ilha fosse o que fosse, porque ndo havia nada que tirar.» As circunsténcias que levaram Saramago 4 ilha sdo conhecidas, mas ele desautoriza insinuagdes de auto-exilio, coisas assim. Nao. Lanzarote esté a duas horas e quinze minutos de véo de Madri, e, depois, 0 escritor esta ligado a0 mundo por telefone ¢ fax, que néo param de tocar. Recebe amigos e, na condi¢ao de uma das celebridades locais - talvez a maior delas -, é membro de fundagées e participa da vida da ilha. Nao se arrepende de ter mudado, longe disso. «Este um lugar onde vale a pena viver, onde @ expressao “qualidade de vida” tem um sentido real. Quando eu digo qualidade de vida, refiro-me ao siléncio, 4 auséncia total de poluigao atmosférica, 6 LANZAROTE SARAMAGO FE CAMOES NA ILHA DO FIM DO MUNDO € ordenagdo de um territério, que esa preservado, coisa que ndo acontece em todas as ilhas das Candrias. Dou um exemplo sé: ndo se encontra em toda a rede de estradas de Lanzarote um Unico aniincio. Aqui é possivel viver de uma maneira natural.» «QUE ME DIZES?» Saramago esta por ferminar um livroensaio — Tyleroygatra, 0 antigo nome da ilha - sobre o local, mas é com prazer que rouba um tempo da literatura para acompanhar os visitantes a pontos come o auditério de Jame- ‘0 del Agua. Entéo, olha para a inevitavel incredulidade do visitante diante daquele excepcional exemplo de natureza que nao briga com a arquiletura - 0 auditério é basicamente um tine! natural no qual Manrique colocou poltronas e instalou, ao fundo, um paleo, obtendo uma aciistica notével - e pergunta: «O que me dizas®> Ele mesmo se apressa em responder: «Nao, ndo precisas dizer nada.» E segue admirando sem se cansar aquele prodigio de aciistica e arquite- tura. £ com visivel prazer que faz a peregrinagdo aos lugares que fiveram o toque de Manrique, como o Mirador del Rio, um excepcional mirante que se abre para o canal, o «tio», que separa Lanzarote da ilha Graciosa, ou a propria casafundagdo, com seus espacos subterréneos. Mais que ninguém, Saramago sabe que o maior ¢ melhor cartéo-postal da ilha a prdpria ilha, a enorme sensor 0 de isolamento do mundo, as formas que as enlranhas da Terra plasmaram. «Esta ilha de fato 6 um pouco bruxa», confessa. Tudo isso ele colocard em Tyteraygatra. Islo é, se as estripulias e os latidos de Camées e companhia néo o desviarem da misao! Fotografias: os vulcdes da ilha déo o nome a vivendas de arquitetura modemista na Calle Alegranza, Puerto del Carmen, Lanzarote. 4 SARA FIGUEIREDO COSTA IARIO DE UM FESTIVAL 19 TOM DE FESTA 2015 Antes de vir a Tondela pela primeira vez, j4 Ihe conhecia a fama. Uma pequena cidade do interior a destacar- se das outras todas por ter uma associa¢ao cultural e recreativa de fazer inveja a muito ministério da cultura, quando ainda os havia. Sabia de gente que j4 aqui tinha vindo ver espetdculos, gente que por aqui passava sempre que vinha para o Norte, até gente que aqui se instalou por uns tempos para integrar algum dos muitos projetos da tal associagdo € que acabou por ficar por muitos anos. TOM DE FESTA 2015 A ACERT Associaga0Cul- tural e Recreativa de Ton- deta conhecia esta fama e ia lendoas poucas referéncias ‘que a imprensa nacional se dignava a fazer de quando ‘em ver, Sabia do teatroeda musica, do Tom de Festa fe da Queima do Judas, de tantas coisas que pareciam sgrandiosas eirresistiveis mas que nunca vim conhecer de perto por preguica, lonjura, falta de oportunidade. Para além de tudo isto, conhecia Tondela por causa de ‘uma cangao do Samuel tia, muasico que fui descobrin- ddo:n0s velhos ed's caseiros e comprados pelo correio a Flor Caveira, «Ao tom dela», integrado no album Nem {Lhe Tocava, tinha uma letra capaz de comover um ca- Ihau de grant toda a gratidao a0 sitio onde estao as raizes, com aquela emogio cortada por dois ou trés trocadithos verbais que dao para um proprio sem perder a solenidade, Fiquei com Tondela st se rir de si tos anos .guardada no peito por causa desta cangio,m antes de the pisar as ruas e conhecer as manhas. Se isto fosse uma reportagem, teria comecado por falar do concerto que abriu o Tom de Festa deste ano € pouparia os eventuais letores a divagagées emocio- nais, mas como nao é de uma reportagem que se trata, porque a jornalista é, agora, associada da ACERT e a deontologia nao permite (ebem) semelhantes misturas, vangaremos um pouico mais antes de chegar ao dito concerto, & que nio volte! a ouvir o «Ao tom dela nos ‘ultimos tempos. As vezes regressava a0 disco, masisto de ouvirmos muisica em andamento faz com que nem sempre cheguemos a0 fim dos discosea cangioem cau- sa émesmoa altima, Passava pelo «Nao arrastes omeu caixio», trauteando e pensando que no quero saber ‘o que me acontecera depois de morrer, mas se alguém fizer questio de exéquias funebres lembrem-se, por fa- vor de fazer uma festa e passar essa cangio em repeat, 14 seguia sem ameacas de morte, esquecendo Tondela que ainda nao conhecia, Nao imaginava que um dia me TOM DE FESTA 2015 chamariam para acompanhar os saltimbancos de cora- co generoso que compéem o Trigo Limpo na digres- sito de A Viagem do Elefante, esse texto soberbo de José Saramago que os tipos da tal ACERT transformaram rum espetdeulo belo, comovente, capaz de envolver a gente de cada comu a pensar sobre o que vamos fazendo com 0 tempo que nos cabe viver. Cheguei,entio,a Tondelaea ACERT €0 que pensava que tinha percebido da cango de Samuel ‘ria revelou-se pequeno perante tamanhagrandeza de alma, Caramba, a «custédia das historias» que abre a letra é exigéncia mais que justa! Nao ha lugar que ndo guarde um carregamento de historias, mas em Tondela o carregamento da para muitas frotas e alimenta 0 quo idiano de tanta gente. de onde aterra e de nos deixar 3 concerto, entao. De um concerto institu- ional, envolvendo uma C mara Municipal a pretexto de assinalar 0s 500 anos de uum Foral, podin esperar- -se 0 pior. O envolvimento da ACERT € dos musicos, 0s convidados ¢ os residentes, garantiam que nao ha- via nada a temer. Manteve-se a vertente institucional, mas a generosidade dos masicos construiu um concer to que valeu a pena presenciar Filipe Melo, Ana Ba- calhau e Samuel Gria tocaram e cantaram ao lado da banda A Cor da Lingua, da ACERT, do Grupo Coral da Casa do Povo de Tondela, de Pedro Santos, figura essencial da cidade, do Grupo Coral e Instrumental do ‘Agrupamento de Escolas Cindido de Figueiredo e da Sociedade Filarménica Tondelense. Houve memérias partithadas e algumas confidéncias e houve um final ‘em grande, com Samuel Ua cantando «Ao Tom Dela» TOM DE FESTA 2015 com todos os participantes (duas vezes, porque na pr ‘meira enganou-se na letra,o que acabou por impor um segundo encore. ‘Teatro de rua, em movimento constante, levando © piiblico numa espécie de romaria noturna, ¢ coisa a que o Trigo Limpo ja nos habituou. Com Ode & Ceia, a companhia tondelense criou uma narrativa que eruza as epopeias classicas, com Os Lusiadas a cabeca, com indisereto olhar eritico sobre o mundo contempor’- neo € as suas dores. O registo € comico, exuberante, ¢ © ptiblico responde a altura. No fim, assa-se um por- co bisaro, que ha de ser comico com pao a aconchegar os estémagos para a festa noturna. Fica por saber se 0 canguru que surgiu a meio da viagem dos protagonis- tas pelo mundo sempre guardava na bolsa um pi de vinho do Dao que ajudasse a pagar 0 caché dos artis- tas. Nos tempos que correm, era capaz de dar j No'Tom de Festa dorme-se pouco. As noites acabam tarde ~as vezes, cedo, quando o dia jé esta a naseer -, 0 que dificultaa vida matinal. Apesar disso, no falta quem trabalhe pela manha, fazendo ajustes de som e luz paraos 5s nko concertos do dia, limpando o espaco do festival, garantin- do que tudo estara outra veza funcionar quando as portas da ACERT se abrirem para receher 0 pulblico. Ao falta comida no recinto, como mandam as regras de qualquer festival, mas a0 contrario de uma supos- ta tradigao festivaleira que troca patroeinios por ban- cas de comida de plastico, aq hamburgueres processados ou batatas fritas de paco- ‘te, Ha menus completos feitos pelo restaurante3 Pipos e ha petiscos no bar exterior: caldo verde, chouriga as- sada, moelas e varias especialidades com cogumelos silvestres cozinhadas pela Amanita Bunker. Depoi de comer assim num festival de musica, sera muito dificil voltar a tragar cachorros de lata ou burricos de pliistico com alguma especie de prazer. Os Jenny & The Mexicats sao formados por uma in- nao se vislumbram TOM DE FESTA 2015 glesa, um espanhol e dois mexicanos. As cangoes que fui ouvindo na internet, de modo a conhecer a banda ‘o melhor possivel antes de a ouvir ao vivo, prometiam, ‘um palco muito mais animado do que aquele a que ti- vemos direito. Nao 6 que a musica seja pior a0 vivo, ‘nao, mas fica a ideia de estarmos a ver uma banda que nao nos est a ver a nds, Os ritmos mariachis, as gui- tarradas e 0 groave nao faltaram, mas sobrou uma cer~ ta sensagao de saber a pouco. antar com as bandas antes dos con- certos foi a forma mais eficaz. que a equipa de produgao do Tom de Fes- ta encontrou para que eu pudesse cumprir a missdo de gravar peque- nas entrevistas com todas elas. 0 resultado ha de surgir mais adiante, numa publicagao acertina, mas para jf fica registada a estranheza de conversar com gente que se admira em frente a um prato de rojoes. De res- to, © que acontece a mesa fica na mesa, por isso, nada 7 de inconfidéncias. Quanto as entrevistas, a postura geral foi a de grande simpatia e generosidade, tendo sido, provavelmente, a primeira vez que nao tive de correr atrais de (quase) ninguém para conseguir umas palavras. Karyna Gomes tem uma voz cristalina e canta um repertério que anda pelos territorios da miisiea urba- za da Guiné Bissau sem esquecer as raizes. Quando a entrevistei, a conversa saltou da mtisiea para a cons- cigneia social e politica e para um modo de olhar para Africa que nao passe pela visao eurocentrica de sem- pre: Africa nao é um pats, é um continente com tanta diversidade como qualquer outro; as «dlescobertas» 860 foram para quem nao conhecia o que descobriui;a historiografia ainda tem muito para pesquisar e ensi- nar. Parecem nogoes banais, mas para muita gente se- 0 novidade absoluta (¢ inacreditavel), pelo que vale a pena escrever e repetir. No bar ha vodka com laranja de Besteiros, a pri- meira responsavel por alguns passos de danea desa- jeitados desta eseriba, a segunda um dos produtos da Karyna Gomes eee neon) TOM DE FESTA 2015 terra que vale a pena conhecer e consumir desenfrea- damente. Descobri a mtisica de Astor Piazzola por alturas do liceu e foi preciso chegar a Tondela e ao Tom de Fes- ta para descobrir uma banda que parte dessa tradica0 tanguera que Piazzola imortalizou para mudar tudo, desconstruir e voltar a erguer, criando um som capaz de terramotos naquilo aque chamamos alma. Orques- tra Tipica Fernandez Hierro, a Se deixaissemos de os ouvir enquanto tocavam, podia parecer que estvamos num concerto de metal de uma banda obscura. Com som, era o melhor de certa tra- dicao argentina envolto numa bruma de melancolia e com os bandoneons apontados ao futuro que ha de vir. No jardim da ACERT, varias bancas de artesanato, livros eoutras coisas produzidas aquina zona ocupam, ‘seu espago. E Id no meio, a mais pequena das baneas vende um tesouro, um daqueles que qualquer pessoa de bem sabera apreciar, desde que nao confesse 0 mo- ‘mento a nenhum nutricionista. Mulinhos, assim se im se chama a banda, chamam os bolos com ovo, castanha e canela que se produzem artesanalmente na serra do Caramulo. Que as regras tolas da Unido Europeia nunca interfiram na producao de Mulinhos, é 0 que desejo para o futuro, E que os nutricionistas evitem Tondela, é 0 que posso aconselhar, hip hop de Capicua naoen- gana: Iingua afiada, certo, muitas intervengoes entre mtisicas a confir~ marem a intengao de cada letra. Do lado do publico, percebe-se que muita gente ‘conhece as eangdes. Quem nao conhece, facilmente se rende. ‘Uma das bandas que fez.do Tom de Festa deste ano um momento inesquecivel foi o Samba Sem Fron- teiras, No patio do Bar ACERT, o grupo fez desfilar sambas e outros ritmos brasileiros enquanto o publi- Cetera! TOM DE FESTA 2015 0, que comecou o concerto sentado pelas mesas da esplanada, acabou de pé a dangar. Pela minha par- te, posso dizer que ha muito, muito tempo que nao dangava e teria continuado de bom grado, nao fosse o adiantado da hora e a necessidade de terminar mais, ‘um dia de festival sem que os vizinhos se queixassem, do som. or mais tentador que seja encerrar um festival com ima banda estrangeira, as- Jsim como quem diz que um ‘bom cabeca de cartaz. tem de ser importado, dar o paleo a quem sabe do assunto eainda por cima vive aqui tao perto pode ser muito mais recompensador. Os Cla fecharam, © Tom de Festa 2015 com um concerto daqueles que teria direito a muitas linhas elogiosas no jornal, se ainda se praticasse a arte de escrever sobre concertos, com a frequéncia desejavel, eo publico respondeu a, a altura. Houve encores, muitos, uns pedidos pelo publi co, outros pedidos pela propria banda, «deixem-nos tocar s6 mais uma miisica», como se alguém estivesse inclinado para dizer que nao. 25 edigdes do mais antigo festival de musicas do mundo portugués ~ como se as musicas nao fossem todas do mundo... ~ e s6 pode estranhar-se a pouca cobertura jornalistica a que o evento tem direito, Es- tando aqui como participante, e nao como jornalista, custa-me reprimir a vontade de escrever uma repor~ ‘tagem, mas custa-me mais ainda pereeber o tanto que jaconteceu de interessante e relevante neste paleo do ‘Tom de Festa a0 longo dle tantos anos sem que os des- taques noticiosos se tenham mostrado interessados. ‘Tondela é no centro-norte do pais, nao é na lua. Ja nao ‘tem comboio, porque os governos que foram desman- telando a linha férrea que tinhamos a ligar cidades e vilas também por aqui passaram, mas tem autocarros da Rede Expressos. E uma autoestrada que passa aqui ‘mesmo porta. Para o ano, é capaz de valera pena dar cA um salto, digo eu. Fica a sugestao. ey3 SARAMAGO Re Oe ee ee ea er 3 tl Fa f Eo UF APICAR 0 CEREBRO PARA SEMPRE © Gerador & uma plataforma de acco ‘© comunicacio para a cultura portuguesa, ‘Aquela que nos define como portugueses Descobre-nos através da Revista Gerad, nas bancas de todo o pals, ou em facebook com/acgerador Gerader. E a cultura portuguesa. Uma biblioteca de bibliotecas CG com o leitor no centro CASA DEL LECTOR ara chegar a Casa del Lector, ¢ preciso apanhar 0 metro, A estagao Legazpi parece fiear jf nos limites da centralidade de Madrid. Desengane-se o ingénuo visitante: a Casa del Lector (CDL) acompanha, conscientemente, os maltiplos fenomenos de transformagao urbana, nomeadamente ao nivel da desvinculagao do publico dos lugares tradicionais, comas suas colegdes permanentes, como o sao os museus. No Matadero, antigo matadouro municipal a época efetivamente afastado do centro da capital espanhola, agora metamorfoseado em espaco de miiltiplos projetos culturais de cinema, artes cénicas e graficas que alimentam uma intensa programagao, a Casa del Lector beneficia diariamente deste polo fervilhante de ptiblicos motivados. Mas nao s6. Apesar da relativa dis- tncia da Praga Cibelles, a populacao dos bairros envolventes ao Matadero ronda os cem mil habitantes, pelo que também faz sentido pensar nas relagdes de proximidade que se estabelecem por essa vi Exposigées na origem da tela A biblioteca, o audit6rio, as salas de aula e os espagos de exposicdes receberam um média de 17 mil visitantes cada ‘més. Quem sao? Pablicos de todas as idades para quem a programagao ¢ escrupulosamente pensada com uma an- tecedéncia de um ou dois anos. 0 eixo central é justamente as exposicdes e delas se parte para se conceberem visitas, sguiadas, oficinas, ciclos de cinema, sustentaeao do edificio e uma ampla sala no piso térreo, ofereciam-se em julho trés propostas muito distintas. ncontros, debates. Nos mil metros quadrados, que se estendem entre as vigas de ware! Bolaito 1977-2003» trata disso mesmo, de mostrar, a par de outros documentos, material inédito do escritor chileno que integra agora o arquivo dos seus herdeiros. «Nuevos Viajes Extraordinarios: Jules Verne/ Eric Fonteneau» com inte a ver o globo criado pelo escritor, através do qual imaginava as suas viagens fantas- eT CASA DEL LECTOR eT ticas, assim como a maqueta do icénico Nautilus. Para além disso, ha primeiras edigées, manuscritos eas. de Fonteneau a partir deste profuso imaginario, Finalmente, nos corredores que atravessam a nave, no primeiro andar, éa mtisiea que sobe ao paleo: «El Poder de Las Canciones. 60 Momentos Pop del Siglo XX» perfazem uma antologia audivel nos auscultadores e muitas vezes involuntariamente repetivel nas vozes de quem escuta ese dis- trai, Ao que parece, uma crianca ter-se-4 manifestado contra a auséncia de Michael Jackson. Alguém da CDL Ihe tera respondido com um repto: «Podes ouvir 0 que ele ouvia.» Familias, jovens, adultos, adolescentes, escolas, todo o tipo de publico visita a Casa del Lector e ha efeitos de contagio entre publicos. No entanto, éa diversidade que assegura a sua presenca. ‘«Quero té-los a todos mas sei que nado posso oferecer o mesmo a todos, tenho de ter propostas distintas. Uma instituigao, dentro das suas eapacidades, tem de ir ao encontro dos interesses dos varios ptiblicos. O Matadero é um sitio muito moderno, ha muita gente jovem, é uma espécie de centro alternative, Temos de ter isso em atencao. ‘Vamos dando uma no cravo e outra na ferradura», afirma José Vicente Quirante Rives, diretor de programagao. Para comprové-lo, conta a Blimunda «uma historia exotica». 4 uma novela americana que tem imenso sucesso em Espanha, desde 1982. Chama- -se La Conjura de lo necos, de John Kennedy Toole, ¢ esta publicada pela Anagrama. ‘Jivendeu meio milhao de exemplares e conta com 60 edicoes. ‘Na semana anterior 4 da visita da Blimunda, A Casa del Lector organizou um en- contro.em torno da obra. Surpreendeu os leitores que logo acorreram em massa, crédulos por passados cinquenta anos sobre a morte do seu autor se poderem reunir ce partilharem algo que Ihes € tao caro. Aliestiverama bidgrafa americana do escritor ¢ oeditor para contar a historia da publicacao da obra. Passou-se um documentario a CASA DEL LECTOR inédito em Espanha e ainda algumas imagens eaptadas em New Orleans, a pedido da Casa del Lector. Ouviu-se ‘uma banda de jazz e assistiu-se a um desfile de mascaras de Ignatius Reilly, o protagonista, Foi um encontro feliz. «Ha que usar a imaginagao», declara José Vicente Rives. E acrescenta: «Quando pensimos em Jules Verne, a equipa que faz.as atividades infantis comecou a planificar oficinas a partir de Jules Verne. Um ano antes. Quem se ‘ocupa de cinema, procurou um ciclo sobre Verne, quem se ocupa da literatura procurou livros sobre Verne que se iriam publicar em Espanha para se apresentarem aqui. Trata-se de trabalhar com antecedéncia.» centro sao as exposi¢des, mas elas so ao mesmo tempo o pretexto para criar um grupo de atividades em torno delas, que as acompanham. Programa-se com antecedéneia para se programar em rede, Por exemplo, a exposicao de Bolafto, uma adaptagao daquela que tinha sido concebida para o CCCB em 2013, oferece ao leitor adultoa possibilidade de fa- zer uma visita guiada a0 Archivo através de um jogoem que os visitantes entram na pele de detetives selvagens, personagens do autor. Em novembro, inaugurar-se-8 uma inter- vencao da artista plastica Nuria Mora que tem como base 0 conto de Borges A Biblioteca de Papel. Que relacao tem com Bolaio? O titulo da exposicao revela-o subtilmente: «De camino a Bolafo: A Biblioteca de Babel de Nuria Mora» Jaa exposigdo cedicada A musica pap fez-se acompanhar de ciclos mensais de cinema sobre o tema, um curso sobre esse estilo musical, uma feira do disco comas tiltimas novidades e uma oficina para pais e filhos onde se con- vidam as familias a explorar a guitarra. Para as exposigdes, a entrada ¢ gratuita. As outras atividades podem sé-lo Assim se prevéaleangar uma maior wres ede leituras. Sea exposi¢ao ajuda a interpreta, asua relagdo com outras manifestacdes artisticas, a sua exploracao em oficinas ou seu suporte documental mobilizam rersidade de a eT CASA DEL LECTOR eT paraa intertextualidade, ou seja, do ao leitor mais ferramentas de leitura. Por isso curadoria também é assegura- da internamente, mesmo que ja exista outra exposic2o prévia sobre a qual trabalhar. Porque pensada em funga0 do leitor e este esta no centro deste grande projeto. Animagéo leltora promocao da leitura é muito anterior & eriagao da Casa del Lector, tendo nascido em Salamanca, na Fundagao German Sanchez Ruipérez, onde se desenvolveu um centro de investigagao na Peninsula Thérica sem precedentes na area. Desde um fundo de literatura fantojuvenil espanhola riquissimo a uma vasta bibliogra- fia que resulta ce uma investigagao sistematica disponibilizada online, a equipa da FGSR foi pioneira no desenvolvimento de atividades de promogao da leitura em continuidade, estabelecendo uma relagao de grande proximidade com grupos sscolares, familias, professores e mediadores de outras geografias que ali aporta- vam para aprender. Com a transferén A base continua: investigaeao e trabalho com familias. Das atividades propostas para o ultimo trimestre de 2015, cinco sao para criangas dos 9 meses aos 3 anos. O director de programacao explica o pioneirismo da equipa de vestigacao: «Quando se comega a ler? Aos 0 anos. Agora nao é assim to raro, mas posso assegurar-vos que ha 15, anos atras era muito raro esse trabalho com crianasa partir dos 0 anos.» Hoje, para alem deste puiblico inici equipa trabalha com criangas de dois, trés, quatro, cinco, seis, sete e oito anos. Continua lendo e narrando mas nao apenas no suporte do livro fisico. Agora, nas sessdes com as familias introduzem-se tablets. E.com eles aplicagoes, jogos, ebooks, Para que todos ganhem competéneias de leitura efetivas lendo no ecra, para que todos adquiram el 70 para a Casa del Lector e o encerramento do centro de Salamanca, o projeto nao estagnou. eT CASA DEL LECTOR eT exitérios de selecao e sentido er 6 facil de encontrar noutros sitios.» Tal como aconteceu ha duas décadas com os bebés, os investigadores e media- dores avancam para desbravar terreno noutro campo, desta feita carregado de equivocos e falsa acessil As criancas podem comegar por frequentar oTrio de AsEs: Album, App, Arte aos trés anos, aos quatro Lectores de Pantalla e a0s cinco Teclados & Ratones. Aos seis ganham o direito a um clube exelusivamente para si, onde os pais $6 entram nas duas tiltimas sessoes: Club de creacién y leetura AppTrevid@s. Os intervalos etarios nao so {Ao estreitos nem ¢ to-pouco obrigatério passar por um projeto para participar noutro, No entanto, pensados por forma a cobrir toda esta faixa etaria ¢ possivel criar um envolvimento de longo prazo, nao apenas entre o mediador €0 pliblico infantil mas com os pais e até entre pais e filhos, 0, divertindo-se, «Faz-se animagao com recurso As novas tecnologias, que nao lade. A biblioteca das Bibliotecas Casa del Lector define-se como uma biblioteca de bibliotecas, a pensar no leitor enao na leitura, S6assi se justifica o enfoque dado as exposigdes. O formato da biblioteca foi por isso muito pensado, tendo em consideragao os modelos mais tradicionais, que depencem de fundos fisicos e de um servico de requisigao e con- sulta presencial e outro domiciliario, A reflexao levou a equipa a considerar que este paradigma nos objetivos dlefinidos para chegar ao leitor. Nesse sentido, a biblioteca existe e ranifesta-se de forma mais tradicional mas igualmente de forma totalmente ino- vadora, Do ponto de vista do que existe fisicamente, a CDL alberga fundo de literatura infantojuvenil espanhola que transitou de Salamanea e é 0 melhor de Espanha, Faz sentido que ali esteja por duas razdes: a primeira deve-se el nm eT CASA DEL LECTOR a0 facto de pertencer A FGSR ea segunda a sua inquestionavel riqueza que serve o centro de investigagao e todos aqueles que ali se possam dirigir por reconhecerem como tal. Esta também dispontvel um fundo de novelas populares espanholas. © popular e o infantil tém uma historia de rececao e de marginalizagao comuns e por isso justifica-se que ali se encontrem, ainda que dirigidas, pelo menos teoricamente, a publicos distintos. Exposigées de bibllotecas digitals ‘omo Biblioteca de Bibliotecas, a Casa del Lector langou-se num projeto estratégico sobre as grandes bibliotecas do mundo que consiste em apresentar, anualmente, uma exposicao totalmente digital dedicada a uma grande biblioteca de um pats, de acordo com uma pers- petiva de leitura. © arranque aconteceu no ano passado, com a Biblioteca de Israel que foi apresenta- da como depésito de memoria. Para o efeito criou-se um site que a CDL disponibilizou parcialmente a todos os internautas de forma gratuita. Todavia, para que valesse a pena visitar o espaco, apenas aqui se tinha acesso a totalidade de recursos virtuais. O percurso da exposig&o estava marcado, aqui eali, por painéis retro-iluminados que tinham QR Codes. As pessoas aproxima- ‘vam os seus smartphones do c6dligo e acediam a filmes, documentos, livros, audios, fotografias, videos. José Rives explica a razao da aposta: «Nao se trata apenas de mostrar uma biblioteca importante mas uma bi- blioteca que va construindo o concei ital mas nao sabemos o que fa- zer com isso, Nao basta mostrar um quadro porque isso nao é suficiente. Uma coisa ¢ ter uma exposicao fisiea com ‘um recurso digital - todos o fazem hoje em dia -, outra coisa ¢ uma exposigao criada para ser unicamente digital. O historico de bil joteca. Ha uma moda do eT CASA DEL LECTOR eT digital tem de trazer algo novo, uma linguagem que nao repita o que jf existe e que possamos ver materialmente. & tum territorio por explorar que nos interessa muitissimo porque nos definimos como centro de investigacio em tor- no da leitura, entao.€ um campo que nos apaixona.» Por isso nao haverd, em nenhuma destas exposigoes, nenhum objeto fisico, tudo & digital. E como reage o piblico? «Os mais novos respondem melhor que os mais velhos. Ficam surpreendidos, espan- tados. Tens de ajudar, porque ha pessoas que tem dficuldade em manusear estas plataformas, Ha sempre quem deseje ofisico. Quando Alberto Manguel aqui esteve, dizi quea exposigao estava muito bem, mas se pucléssemos expor igualmente alguns dos tesouros...Erespondemos-Ihe que essas exposigdes jas tinhamos feito e continuari- amos a fazer. Temos 1000 metros de exposigdes clissicas! Continuamos convencidos de que o papel ¢ bom, somos da geragao do papel, gostamos do papel. Mas investigamos e pensamos no futuro, nas novas geragdes que se esto a formar com outro tipo de recursos.» © caso portugués proxima exposicao digital dedicada a uma biblioteca de um pais est a ser cuida- dosamente preparada, Desta feita, nao se tratara de um site e sim de uma aplica- 0, unicamente possivel de ser descarregada em aparelhos da Apple. A razao é funcional: o sentido intuitivo da aplicagao perde muito quando transposta para android, dado o seu peso ea dificuldade de conversao. Aos visitantes que nao tém nenhum dispositivo da marca serao cedidos ipads para que possam realizar a vi- sita, A exposigdo tem inauguracao prevista em novembro e a Biblioteca exposta 1 justamente a Biblioteca Nacional de Portugal. Depois do Depésito de Mem6- el 4 aa TL Jal eT CASA DEL LECTOR ria, agora explora-se a Viagem pelo Conhecimento, que dara nome A mostra. Parte-se da historia dos navegadores portugueses, especialmente pelo continente africano, A BNP oferece as imagens e os textos estao a ser eseritos por \edo est a ser desenvolvida em Espanha por um grupo de dese- nhadores que também tém vontade de investigar esta area, «Ha cada vez menos dinheiro para a cultura e é cada ‘uma equipa em Portugal. Por seu turno, a a il fazer exposigdes fisicas e tradicionais.» Entao foi um encontro feliz: um projeto que interessava a ambas as partes porque ambas, a sua maneira, refletem sobre o que podera ser uma exposicao digital no futuro, diretor de programas levanta um pouco 0 véu: «Vamos decorar o espaco, 0 elemento fisico principal serao beacons. Quando o visitante aproxima o iPhone ou o iPad desse ‘beacon tem acesso a um contetido que poder ser uma imagem, um video, uma instala- ‘cdo sonora, um texto, uma animagao... Sera um passeio e haverd cerca de 15 surpresas para quea visita fisica tenha sentido, Se fosse s6 pela app podiamos descarrega-lae vé- -la em casa, Tem de fazer sentido vir A Casa del Lector, mesmo que nao se le veja tudo aqui» A navegacio sera muito intuitiva, mas mesmo assim a app inclui um video instrutivo com os quatro passos a seguir: Tal como aconteceu com a exposicao anterior, esta também sera bilingue: em espanhol e portugués (a da biblioteca de Israel tinha sido em espanhol e inglés). Quanto a disponibilizacao gratuita da app, ainda nao ha certezas mas possivelmente s6 acontecera depois de encerrar a exposigao. CASA DEL LECTOR As bibllotecas no futuro 4 j4 alguns contactos para se criarem exposigdes digitais sobre outras bibliotecas do mundo: a do Congresso Americano, em Washington, é uma delas. Outras posst- veis sao a Biblioteca Laurenciana de Florenga, que alberga alguns dos mais precio ‘sos manuscritos para a historia da Europa, como o Codex Squarcialupi ou o Codex Amiatinus; ou a Bodleyan Library, em Oxford. Porém, tudo indica que a préxima exposigao se debruce sobre a Biblioteca de Sa- lamanea. «Como somos um centro internacional, preferlamos optar por bibliotecas fora de Espanha, mas a biblioteca de Salamanca, a mais antiga de Espanha, ainda para mais da regiao do fundador da Fundacdo German Sanchez Ruipérez, assinala uma data importante em 2018. Por isso € possivel que a proxima exposicao digital Ihe seja dedicada.» Em agosto, a Casa del Lector encerra. Reabsira em setembro, para dar continuidade as 1600 ati madas para o ano de 2015, Sejam quais forem, havera certamente uma pensada para cada leitor. idades progra- DICIONARIO nsec Tesouro Transformasao ura dno, pars matas Cuando felamos de ince precoson tudo oescro entice, de Tomps~ Sean mt vats peda no Stomp da metamorose, ae. tempo som dono Robert aus Famer de omerootempo em Stoverson ne soueescos ha Gs on ato bo Tur Topegae Ge oor, mostnos ators tontartocteor opel fos Newshitra eit e, iret tga peta, bvortre ae tide comeracom ttrulrta. Ne ntnl ejwetude suvscoberts deumveto fe no ‘mos st-ei-tlse comtova tun eum ba Tambem Ser Stunts ooreetarenos pales Magahoes corm te poem ccm sudo sarton, odo Aihodo Tosco com sO meu Scronbene Guanes oer terse um io. Os Ceo Shovocequec mundo htoro se Geen Bion wentraremrse cniuprones amare pmos ur a esos ena Co ‘Tréeuon Tons, tetas CoTesur. Mas eames por ‘ranpotm, arse trio to sen Tesoro pode var te, tnt, ato tate = tere ‘Sciade cu pose ade osu Stepan erature cates termes tos come contac cuegame toner tem i por Manel eto Praem 0 Sr Sore dv feeb ress, Totoro sum. teauro Dau me seonteceus pereants terve> Gregor Somes O que me eta scotacert Em eqn me tnatormot ints Via “icons scuiersconshanes Bete de Ensten entan-nos que eTido Sraatvos Maria Teresa Meiretee Atorae irvestigadora ESPELHO_ MEU....... Segredos na Floresta Jimmy Liao Kalandraka Est titulo que aKalandraka agora publica, o segundo do autor em Portugal € efetivamente 0 seu lwo de estreia. rginalmente tecitado em Taiwan em 1998, Segredos na Floresta seria 0 primeiro de muitos sucessos {que Jimmy Liao aleancaria estas quase duas décadas de lustracdo, escritae animacao. O sentido melancdtco da soliddo,ainexorablidade do tempo, aluséo @ 2 evasio sio tpicos recorrentes na sua ‘obra, que tem repetidamente come pano de fundo a urbe ‘desumanizads.O sonho aparece, lento, como recurso diagético, ‘que néo ¢ inovador na histria da iteratura.O topes do sonho come simbolo, imagem, pardbola nica, acontece de forma paradigmitica em Alce no Pols (ae Maravihas, mas nao s2 ‘lve Maurice Senda na trogia Iniciada em Onde Visem o= Monstros 8 finalized com Oque etd I fora, ovo célebre Boneco ‘de Nove de Raimond Briggs. Por isso nfo 6.0 zonho que surpreende, e sim aconsciéncia ‘que dele tom a protagonista. Ko 7» contrério do que acontece nas ‘brat anteriormante referidae, ‘amenina que dorme a sesta Feconhace o aparecimento, do sono, brinca com ele, © ‘domina oprocerso parao fazer regressar. Coma se se tratasse {de um metataxto onto, Jimmy Liao introduz logo em Segredos ra Floresta um elemento que ‘erd.uma marca identtaria noutrasnarrativas:o poder do protagonista. uma espécie Ge ve arbitio aplcado & Vida individuals excolhae {quoticianas, que poder ser tomadas em Iiberdade e:6 dependem de cada um. Neste caso, amenina que se delta sobre duas grandes almofadas junto &janelaaberta no sofre ‘siquer consequénciae regativas om resuitado das suas tscolhas mas em Desencontros tude depende disso, eis também pode sero acaso. Soja camo for, @ ese tavez aja 0 maior compromisso de Jimmy Use coma sus abr iberdade acarreta a responsabiidade e eve implicar uma capacidade Nici simuttanesmente postica de ver o outro, « por ‘outro entenda-ee 0 mundo nat suas infritasindividualdades, sejam elas pessoas, coslhos, pateaderae ou peixes ‘Acomposicéo textual assenta sempre na progressio da acéo. Nesse sentido, o texto ‘caracteriza-se por frases curtas, ‘gm que. verbo 0 motor. Eom torna da acéo que se criam efeitos eanroiale como slevera das cortinas, quando flutuam 20 vento, ou o calor {do sol que rubariza 0 rosto da menina,Igualmente, a contencéo descritva produz uma postica ‘40 movimento e da sugestio que ‘cada quadro materialza, Este passeio pela flresta tom ‘como elementos de pasragem a janela aberta e um dos dois, peluches que scompanham 3 ‘menina na sono veepertina, A partir daqui o percurso faz-se por estiios, sendoo primeira ‘0 do arranque da brincadeira, ‘quando a menina ainda se ‘esconde, fazendo lembrar aquela timidez que constrange aexcitacdo pela aventura. Logo se entra num mundo fantastico, ESPELHO MEU urea no efetvo sentido do ue ssi do sm inequvoca, je ee dio em ‘que bem podem soar tecas de piano ® ‘nal zerem, na cidade coltria {que 2 merina vai descobri a0 ‘corde, ae nas brancas da pasou, a menina sabe que elegeu ‘aquele ugar € la quem temo poder sabre o sono. Tanto assim que num terceiro momento 2 merina js revisita um sonno antigo, ni para. reviver mas pars com le descobrir explorar Neste feticio a menina transforma {3 fungo eo lugar do sono. 7 auto e ties morores Na lustracdo tudo se decide, da protagonistareproduz ‘cootho como tracejado pret, 0 sce toda anarrativa, mas tude materaiza num contexts | um comportamento Kiico ® ‘uso de aguarels esverdeada que io sentido tradicionat.o, fem que as dimensées reforcam ‘espontanee como salar corer, ‘3 espacos preenche figuras, @0 tmomentodo acordar, aquele que | 2ltTealidade espacial, quando o ‘agachar-se,sentar-se num branco como fundo predominante imple afonteiaerestabsiece a | Coelho & muito maior do que 2 ‘degrau, que reforcao sentido ‘conferem ae menins, ae escadas atravessam deliberdade. Contudo, a acéo sunidade dal fordem. Aqui, perante um acordar ineaisaterio a protagonist repete | °F na diagonal da ‘procetso paravoltara sonar, £ | ©85 ébuasde madera utuam leitorconfrma que éela quem | Primeiro,e depois permanecem doming esse outro gar, ode, inertes, no chdo da estrada, muito ‘utio, dabeleza dovoo, do joge. | 2Tumadas.Cadarepresentacéo | preenchimento das drvores e do gina dupa, | que mais se repete é observer, de leveza etéres, Sem ecquecer, todavia, © peso da reaidade © 0 misterio dos segredos qu ‘aque loresta onde as veze 80 NOTAS DE RODAPE Afonso Cruz Prémio Nacional de Hlustraséo ‘onso Cruz venceu 0 Prémio Nacional de lustracao de 2015, tribuido pela DGLAB, como livre Copital. Esta narrativa, fexclucivamenteVeual,recupers fo tépica do monstro que progressivamente garha poder ‘edomina o meste, aqui na pele dde.um porco mealhero, numa critica evident 20 eapitaliemo desumano. A iustragdo & geometrizante ea paleta de ‘cores reduzidaalaranjar@ cinzae. titulo integra acolecéo de natrativas sam texto da Pato Logico. ADGLAB atribuiu ainda dduas mencdes honrosas, ambas ‘livros do Pianeta Tangerina 13 Fera, com ihstragses de Bernardo Carvalho @ Como Tempo, com iustracées de Madalena Matozo, Campanha em Inglaterra E preciso traduzir (Quando se discute aimportancia a dveredade na iterstura infantojwenil ne mundo anglosaxénico,oescritorbriténico Frank Cottrell Boyce visitou ‘8 Bibioteca Internacional de Munique. al viu-se confrontado com seu desconhecimento ‘obra autores e obras relevantar paraa literatura universal e ‘que nunca foram traduzidas para inglés. Esta consciéncia espoletou um apelo, feito pelo autor no jornal The Guardian, para que se sugerissem clssicos 6s teratur infantojaenil de outros pases nunca traduzidos para inglés. Acampanha ects ‘decorrer no Twiter, através te e-mail eno Facebook. 0 The Guardian compromate- 0. atualzar os dados como rmacanisma de dvulgscio junto oe ecitores, a Revista Emilia Best Off 2014 Agila acaba de dsponibiizar {2 selec dot melhores buns tecitados no Brasil durante o ano de 201d, Num documento que pode ser totalmente visuazado na plataforma issu, apresenta- S023 equipae os criterias que nortearam as escolhas, assim ‘como ee descreve sumariamente fo processo. Aselecdo osté , anotou José Saramago no dia 25 de janeiro de 1997 nos seus Cadernos de Lanzarote (Di- Grio V). Meses depois essa conversa de varios dias transformar-se-ia num livro. Primeira- mente publicado pela Editorial Caminho, Didlogos com José Saramago ganhou nova edi- Ao este ano pelas mios da Porto Editora. O professor catedratico Carlos Reis contou Blimunda sobre os propésitos desses dislogos, as lembrancas que tem daquela visita a Lanzarote e sobre o mo- mento de mudanga pelo qual passava José Saramago aquando da conversa que tiveram. © livre foi uma encomenda ou foi uma ideia sua fazer essa longa entrevista a José Saramago? Olivro foi uma ideia minha, embora deva ser dito que ela no é propriamente original. Existem varios outros casos semelhantes (por exemplo, Borges en didilogo. Conversaciones de Jorge Luis Borges com Osvaldo Ferrari, de 1985), que s6 se tornam possiveis quando um grande escritor se dispde a explanar o seu pensamento literario perante quem o interpela. 63 rn wr) Sree VT No préloge o professor diz que essa conversa é muito distinta daquelas que estamos acostumados a ler em revistas/jornais, e classifica-a de «didlogo» e nao de entrevista. Desde o principio tinha em mente que © que iria fazer seria algo mais profundo? Com o devido respeito, nio se tratou de fazer uma entrevista jornalistica, género para o qual, alids, eu nio tenho competéncia nem rotina adquirida. O procedimento do didlogo tem uma longa tradicfo na cultura ociden- tal, como é sabido, e aponta para uma questionacio que perspetiva questdes menos circunstanciais; ao mesmo tempo, o dislogo implica um processo de descoberta em que quem pergunta e quem responde esto (ressalvadas as distancias, claro) numa posi¢ao de maior equilibrio do que na entrevista convencional. Para que isso fosse possivel, contei, evidentemente, coma generosidade do escritor. Foi facil convencer Saramago a abrir as portas de casa? Abrir-me as portas de sua casa foi, da parte de Saramago, apenas uma parte, digamos, material de uma outra abertura, mais ampla e mais «hospitaleira», que consistiu na disponibilidade para se submeter a uma indagacao cerrada como a que se pode ler nos Didlogos. E curioso porque José Saramago fala nos Cadernos de Lanzarote sobre essa visita e cita os tépicos pro- postes por si para a conversa, e nota-se que fei seguide a risea. Nao teve ventade de sair do guido? as Sree rn wr) Vr) Tive, claro, e admito que isso tenha acontecido em alguns momentos. Mas desde o inicio o que se pretendeu foi contemplar aspetos especificos do pensamento literario e do trajeto cultural de um escritor com uma proje- cio consideravel. E sendo Saramago alguém que tem, nesses ¢ noutros dominios, muito para dizer, fazia sentido tracar um percurso que, sem excessiva rigidez, permitisse «ler» o que ele pensa sobre o romance e sobre as per~ sonagens, sobre a Hist6ria e sobre o Portugal das tiltimas décadas, sobre a condigdo do escritor e sobre a institui- cio literdria, sobre a escrita e sobre a critica, etc. Olhando agora o resultado atingido nos Didlagos, acredito que um estudioso da obra de Saramago encontre neles respostas para muitas questdes, sempre tendo-se em conta, evidentemente, que as posi¢des do escritor configuram uma doutrina, mas nao devem ser entendidas como uma dogmatica. Come definiria José Saramago enquante entrevistado? Fei afavel? Arredio? Falou mais ou menos do que esperava? Saramago, como se sabe, nunca se coibiu de dizer o que pensava, por vezes até num tom de provocacao que Ihe valeu algumas criticas (mesmo minhas) e nao poucos gestos de rejei¢ao. E nao era parco em palavras, bem pelo contrario, Nesse sentido, foi facil fazé-lo falar e dizer o que pensava... Afabilidade? Sempre, mas naquele tom austero que algumas pessoas confundiam com frieza. E a par da afabilidade, muita paciéncia 86 rn wr) Sree VT Come é para si voltar a este livro depois de tanto tempo? Que sensagées Ihe proveca? Quais as recorda- es mais vivas que tem daquela conversa e daqueles dias em Lanzarote? Mantenho desse encontro de varios dias a lembranga vivissima de uma privilegiada oportunidade para ouvir e para desafiar um grande escritor, levando-o a formular, digamos, a sua poética e a sua visdo do mundo e dos ho- mens. Essa é uma recordacaio que nao se apagara da minha meméria. Mas nao estivemos todo o tempoa conversar sobre literatura... Calcorredmos uma boa parte da ilha de Lanzarote (nfo era facil acompanhar o ritmo do Sarama- g0, pormontes e vales...), convivemos coms cies ¢ falémos de tudo ede nada. E almogémose jantamos na cozinha, soba coordenagio eficiente de Dona Pilar, que foi (e é) uma anfitria inexcedivel, a boa moda andaluza. Jo: jaramago que foi entrevistade por si ainda nao era Prémio Nobel. Acha que essa entrevista seria possivel depois do prémio? Acha que 0 galardéo alterou muito a sua vida? Que o Prémio Nobel alterou a vida de José Saramago, é certo e sabido e pude testemunhé-lo algumas vezes. Mas o modo de ser de Saramago nao mudou substancialmente, descontadas, é claro, as mudaneas psicolégicas suscitadas por um prémio daqueles e por tudo o mais que lhe esta associado. £ humano e José Saramago era um_ ser humano... Mas acredito que, ainda assim, os Didlogos seriam possiveis (e certamente mais completos) depois do Nobel. Digo isto por ter conhecido em Saramago uma qualidade que muitos ignoravam nele: a generosidade. 38 Sree rn wr) Vr) Na nota prévia desta nova edigao professor diz que Saramago antecipa algumas obras que vit aes- crever posteriormente. Cré que nessa altura também a transformagao da sua esc (da estatua para a pedra, como ele mesmo definiu) ja ia em marcha? Sem divida e fala-se disso nos Didlogos. O José Saramago de 1997, quando os Didlogos foram gravados, era cada vex mais o escritor «da pedra» e cada vez menos o «da esttua». Era o Saramago que estava em vias de publicar Todos os Nomes ¢ que dois anos antes publicara esse extraordinario romance que é Ensaio sobre a Cegueira. Quem. conhece a obra saramaguiana sabe bem o crucial lugar que estes titulos nela ocupam. Hé alguma pergunta que gostava de ter feito a José Saramago e que, por timidez ou esquecimento ou falta de oportunidade, néo fez? Se sim, qual? Que eu me recorde, nao. Hoje haveria outras mais a fazer, sem diivida. Mas agora é tarde... Temos, contudo, os livros de Saramago para responderem ao que nos falta conhecer. E esses so testemunhos insuperdveis. Fotografias: méscaras de terracota, Casa de José Saramago, Tias, Lanzarote 49 a a Er epee PN Casa Fernando Pessoa Fundagao José Saramago: Casa dos Bicos Bilhetes de € 1,00 na segunda Casa de Autor, mediante apresentacio do bilhete de entrada na primeira Casa visitada. (Desconto com validade de 10 dias) Entrance tickets of €1.00 in the second Author House, ‘on presentation of the entrance ticket of the first home visited. (Discount is valid for 10 days) Entradas a € 1,00 en la segunda Casa de Autor, centa presentacion del billete de entrada en la primera casa visitada, (Eldescuentoes vilido por 10 dias) DO a okay JOSE ~ SARAMAGO José Saramago Ls ALABARDAS, ALABARDAS, Cop OOM se U A ore Cures) Pench cet para agitar consciéncias. ene, L... Mba Bocce A Casa Que boas estrelas José Saramago estarao cobrindo inn os céus de Lanzarote? ‘: Ps 8) lS José Saramago, Cadernos de Lanzarote = eSSa=I69 G2 Ate 29 ago Ate 5 set Ate 13 set Até 26 set Ate 18 out A Arte def ASalade Ruth Zurbaran: Una_ Quarto Interior 196 FotoPRes flustracao Exposicio nueva mirada —_Exposicdo de la Caixa»: em Macau e_ comemorativa Exposicao trabalhos de banda ¢ertamen_ Portugal dostrintaanosda _—_—retrospetiva do desenhada de ecimatges Exposicdo coletiva de trabalhos assinados por lustradores contemporaneos de Portugal e de Macau. Galeria Dama Aflita, Porto, =e Casa das Artes, retine trabalhos de trinta artistas portugueses contemporaneos, Casa das Artes, Tavira “0 pintor Francisco de Zurbarén, nome central das artes do «Siglo de Oro» espanhol, Museo Thyssen- Bornemsyza, Madrid, Até 13 de setembro, -° 93 Francisco Sousa Lobo, Bedeteca/ Biblioteca Municipal Fernando Piteira Santi a mmadora, documental Fotdgrafos: que trabalham nos territérios complexos do documentério, do foto-jornalismo edo registo da realidade, Caixa Forum, Barcelona, ay aS Ate 26 out Lourdes Castro: Todos os livros ~ Quarenta livros de artista feitos por Lourdes Castro. entre os anos 50 do século passado eos nossos dias, alguns deles expostos pela primeira vez, Fundacio Calouste Gulbenkian, Lisboa. a Até 30 out Exposicao documental ‘que reine, fotografias, mapas e documentos varios sobre as transformaces sofridas pelo Rio de Janeiro ao longo dos anos, Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro. “0 Ate ] nov Basquiat: Ahora es el momento Uma centena de pinturas e desenhos de Jean-Michel Basquiat, percorrendo os principais temas do seu percurso artistico, Museo Guggenheim, Bilbao. -° 4 24e 31 ago Confer Sobre la Lu «laliteratura es.un luger en el que llueve & uma das frases deste espetéculo em torno de um bibliotecdrio, com texto de Juan Villorio, levado a0 palco pela Compaiiia Nacional de Teatro. El Colegio Nacional, Maxico DF, a 10a 13 set Todos - Caminhada de Culturas Sétima edic3o do festival isboeta que retine participantes de diferentes culturas e pontos do mundo, Masica, artes performativas, gastronomia, cultura, Varios locais, Lisboa, =e Blimunda, Niimero especial anual / 2014, em papel. disponivel nas livrarias portuguesas. Encomendas através do site loja josesaramago.org