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Pintura

M
etade da vida foi passada en-
tre pincéis, telas e tintas, de
olhar e alma permanente-
mente despertos para novos
traços, novas sensações, novas formas, no-
vas formas de aplicar a cor, de obter tex-
turas e caminhos. Duas dezenas de anos a
pintar e a expor, de uma carreira que quer
marcar pela busca permanente da sua pró-
pria forma de expressão artística.
“A inspiração vou buscá-la ao trabalho.
Ela não vem ter connosco. A inspiração está,
às vezes, ao fundo de 12 horas de trabalho, à
procura.”
As palavras são de significado restrito
e falam daquilo que, tantas vezes inicia-
do da mesma forma disciplinada e insis-
tente, resulta em novo, embora sabendo
“que há coisas que, no processo criativo,
são cíclicas”.
Fernando Gaspar faz questão de não se
repetir a si próprio. É ponto de honra.
“Ao longo destes 20 anos tem havido
sempre uma procura enorme. Tem havido
pesquisa e é assim que eu me sinto bem. A
procurar.
A buscar coisas constantemente, quanto
menos adquiridas para mim melhor. Tem que
haver uma busca e uma rebusca. Tem que
haver sempre uma revolução muito grande”.
Se a procura é permanente e a busca
um estado de espírito, a renovação não
deixa de guardar os grandes traços e o
acumular de uma obervação inquieta.
Sem contradição, no entanto, porque “não
há duas exposições que se repetem. A caligra-
fia está lá. Eu estou lá, mas as cores não se
repetem, os sítios não se repetem, a forma de
apresentar as coisas não é igual.”
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OS SEUS MELHORES
momentos são aqueles
em que, perdido, busca
intensamente. Próprio de
quem é "essencialmente um
criador". Essa condição de
"buscador permanente" é o
mais importante para Fernando
Gaspar, 20 anos depois de ter
começado a expor

Fernando
Gaspar,
essencialmente
um criador
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A arte de Fernando Gaspar não come-
Pintura

çou na pintura, mas no desenho. Come-


çou por desenhar, num processo “rela-
tivamente académico”, à vista, objectos,
traços de corpos, a realidade que haveria
de reinventar.
“Durante muito tempo tive uma certa
resistencia à pintura. Não achava que fosse
importante.”
Só aos 17, 18 anos as cores fortes e vi-
vas, chocantes até, ganharam vida e, aos
20 anos de idade, começou a expor com
regularidade.
“Sou essencialmente um criador. Não ti-
nha obrigatoriamente que ser pintor. Tinha
é que ser criador e disso não tenho a menor
dúvida. Tenho uma necessidade enorme de
criar constantemente.”
Fernando Gastar confessa o desejo ín-
timo de de ser conhecido como “o pintor
imprevisível”. De quem se espera tudo e,

"O que fazemos é sempre


uma pequenina parte que
passa a físico. Nós somos
muitos mais que as telas
que pintamos"

25 Anos
da Ramos Catarino
“A obra é quadrada. Desenvolve-se a partir do jogo de três man-
chas: terra, betão; no outro lado, madeira, a mais baixa e onde o tra-
balho começa, lendo a obra de baixo para cima. Do centro, lugar de
parto, vestígos vermelhos – a mancha alta, vigorosa, ascendente, nas-
ce por entre as anteriores, por elas amparada e delas se expele num
movimento vertical, eréctil e contínuo. Os limites da tela não revelam
o alcance do seu trajecto. O limite da tela: vinte e cinco anos de prata.
Vinte e cinco anos!
Povoam toda a pintura anotações – algarismos, riscos, linhas de
pensamento, traduzindo estratégias, marcando caminhos, vontades
–, registando sucessos.”
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Fernando Gaspar
Cultura
Quadro comemorativo
do 37.º aniversário da
Catarino, Junho 2005

mesmo assim, não é possível fugir ao de-


safio da surpresa, do que não era suposto
acontecer a seguir. Para criar disponibili-
dade nas pessoas para se interrogarem e
para receberem o que o pintor constrói,
num trabalho antes do mais “muito sério”,
em que as mensagens não são óbvias.
“Não sei se há mensagens por trás. Se há
essa carga política da mensagem... Não sei!
Gosto de desequilibrar as pessoas e, a
partir do momento em que elas estão dese-
quilibradas, ficam disponíveis para qualquer
coisa”.
Criando predisposição interior, espaço
para atenção, o resto é trabalho, pesquisa,
criação, numa luta contra o decorrer dos
dias.
“Sinto que tenho muito pouco tempo
para fazer aquilo que eu queria fazer. Nisto.
E quando eu digo ‘nisto’ não estou a referir-
me à pintura, mas à criação. O meu corpo
não vai aguentar o tempo suficiente para
responder as necessidades da minha cabeça,
da minha alma. Tenho inclusivamente expo-
sições arquivadas que não consigo pintá-las.
Porque materialmente não é possível. Não há
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tempo para isso”.

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