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Monografia - O PORTUGUÊS DA INTERNET NA VISÃO DOS ADOLESCENTES.2

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A língua portuguesa, no Brasil, é provida de alguns tipos de linguagem

praticados pelas diversas classes sociais que compõem a sociedade brasileira. Entre

estes tipos, para a composição deste estudo, tomamos como destaque as gírias, que

se traduzem como linguagem usual participante do cotidiano das pessoas, e também

como modismos lingüísticos e linguagem das ruas. Esta forma de comunicação abriga

termos que nascem de solecismos, vícios de linguagem, neologismos, bordões,

palavrões e calões. (BAGNO, 1999.)

Por apresentar uma grande praticidade na comunicação informal, a gíria tem

crescido no “falar brasileiro”, chegando ao ponto, segundo pesquisas, de ser a segunda

língua do país. Esta grande propagação se deve, principalmente, à prática constante

desta linguagem por diversas “tribos urbanas”, que a utilizam como sendo uma das

armas da comunidade a que pertencem.

Muitas gírias são comuns a todas as sociedades, outras, porém são mais

específicas de cada grupo. Procuraremos, ao longo deste trabalho, estabelecer uma

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separação entre estas e aquelas para que se torne mais compreensível qual a

importância de cada uma para o “falar brasileiro”. (BAGNO, 1999.)

A gíria, no Brasil, tem um acervo de mais de 50 mil palavras, e a cada dia

este acervo aumenta, devido às diversas criações feitas pelas “tribos” que a difundem.

Vários escritores se preocuparam em criar dicionários específicos deste tipo de

linguagem. Entre eles, destacam-se Manuel Viotti (1957), Amadeu Amaral (1922) e

Elysio de Carvalho (1912). As referências sobre gírias percorrem os anos. Em Portugal,

temos, no século XVI, Gil Vicente e Jorge Ferreira de Vasconcelos que se preocuparam

com elas. Depois, no século XVII, Dom Francisco Manuel de Melo; no século XVIII Pe.

Rafael Bluteau e Manoel Joseph Paiva. (ROCHA, 2001.)

O primeiro Dicionário de Gíria publicado no Brasil foi o Dicionário Moderno,

em 1903, com 1.700 verbetes, de José Ângelo Vieira de Brito, o Bock, que entre tantas

atividades exercidas foi Senador da República. Permaneceu desconhecido do grande

público e dos estudiosos até 1984, quando foi resgatado pelo prof. Dino Pretti, da USP,

que o incluiu no seu livro. Não tem o nome de Dicionário de Gíria, mas serve de

referência por conter a gíria falada no Rio de Janeiro, então Capital da República. Há

quem, afirme, entretanto, que o primeiro Dicionário de Gíria publicado no Brasil foi o de

Romanguera, sob o título Vocabulário Sul Riograndense, de 1898, que tende mais a ser

um Dicionário de Regionalismos. (ROCHA, 2001)

1.7.1 A gíria e seus estudos

A gíria, considerada como um conjunto de unidades lingüísticas (itens lexicais

simples ou complexos, frases, interjeições...) que caracterizam um determinado grupo

social, nem sempre mereceu um estudo específico, visto que faz parte,

predominantemente, da modalidade oral da língua e num registro informal. Como, por

tradição, valorizou-se sempre o estudo da língua escrita padrão, não havia lugar para

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esse tipo de vocabulário. Isso é o que se pode ver, consultando gramáticas da língua

portuguesa de épocas diversas. (BAGNO, 1999.)

1.7.2. A gíria na perspectiva gramatical

De forma breve, faz-se uma consulta a algumas gramáticas tradicionais de

português, para observar-se o tratamento que é dado à gíria, vocábulo com empregos e

valores afetivos diversos, que contribui para o enriquecimento da língua portuguesa.

(BAGNO, 1999.)

Foram consultadas oito gramáticas, das décadas de 70, 80 e 90, das quais

apenas três mencionam a gíria, dois com um caráter prescritivo e um, descritivo: 1)

Cegalla, em sua Novíssima Gramática da Língua Portuguesa (1985:535), se refere a

sete modalidades da língua portuguesa, dentre elas, a popular, em que a gíria está

incluída. Na definição de língua popular, esse autor afirma: “é a fala espontânea e

fluente do povo”.

Mostra-se quase sempre rebelde à disciplina gramatical e está eivada de

“plebeísmos”, isto é, de palavras vulgares e expressões da gíria. É tanto mais incorreta

quanto mais incultas as camadas sociais que a falam.

Rocha Lima, em sua Gramática Normativa da Língua Portuguesa (1972:05),

ao falar da língua-comum (“instrumento de comunicação geral, aceita por todos os

componentes de uma coletividade para assegurar a compreensão da fala)”. (p, 04) e

suas diferenciações, se referem a aspectos que influenciam a língua – o regional e o

grupal – este, subdividido em três modalidades – o calão, a gíria e a língua profissional.

Ao definir gíria, este gramático, preconceituosamente, fala em” língua especial (...) de

um grupo socialmente organizado” com uma “educação idiomática deficiente”;

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Bechara, na edição revista e ampliada da sua Moderna Gramática

Portuguesa, (1999, p. 351), cita a gíria apenas como mais uma forma de renovação

lexical, através de um empréstimo feito por uma comunidade lingüística à outra

comunidade lingüística dentro da mesma língua histórica.

Do ponto de vista dos dicionários de língua, não é outra a postura dos

especialistas. O Dicionário de Filologia e Gramática de Mattoso Câmara Jr. (s/d:197)

conceitua gíria como sendo um vocábulo parasita de um grupo com preocupação de

distinguir-se da grande comunidade falante. Este estudioso inclui a linguagem

profissional dentro da gíria, mas, como aquela é usada por uma classe “culta”, ela não

tem “qualquer intenção de chiste ou petulância”, que caracteriza a gíria de classes

populares. (BAGNO, 1999.)

O dicionário Michaellis (1998) trata a gíria como uma linguagem especial de

um grupo pertencente a uma classe ou a uma profissão, ou como uma linguagem de

grupos marginalizados. O dicionário Aurélio (1999:989) complementa a definição acima

com a expressão “linguagem de malfeitores, malandros etc”, usada para não ser

entendido pelas outras pessoas e fala ainda em “calão” e “geringonça”, que segundo o

próprio Aurélio é “coisa malfeita e de duração ou estrutura precária (op. cit.: 984)”.

Os gramáticos não chegam sequer a mencionar o que seja gíria, onde

encontrá-la ou usá-la e aqueles que a mencionam, tratam-na de forma preconceituosa,

devendo ser eliminada. (BAGNO, 1999.)

1.7.3 A gíria na perspectiva lingüística

O papel da língua é fundamental nas relações humanas. Essa importância é

acentuada, se considerar que qualquer sociedade depende da língua para divulgar

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suas informações – através dos meios de comunicação de massa – para construir um

sistema literário e cultural, para desenvolver tecnologias, enfim, para perpetuar-se.

Ao associar-se língua e sociedade, pode-se recorrer à área de estudos

denominada Sociolingüística, que trata da relação entre as variações da estrutura social

e as variações da estrutura lingüística, para observar-se como a gíria é abordada: é o

termo genérico usado para designar o fenômeno sociolingüístico no qual grupos sociais

formam um vocábulo próprio que posteriormente pode sair dos limites desse

conglomerado de pessoas. Muito comumente ela é confundida com o jargão, porém

aquela abrange este, que é o vocabulário técnico de uma profissão, da mesma forma a

gíria abrange o calão, que é a expressão lingüística grosseira ou obscena.

O Dicionário de Lingüística de Dubois et alii (1999, p. 308) a define como um

“dialeto social reduzido ao léxico, de caráter parasita”. É vista como um vocabulário

marginal, mas também de grupos sociais aceitos ou até mesmo da sociedade em geral.

Com a introdução dos estudos lingüísticos no Brasil, a gíria passou a ser

analisada, aqui, a partir da década de 70, em uma perspectiva descritiva e não

normativamente como faziam os poucos gramáticos que se dispunham a tratá-la. Quem

mais se destaca, nesse estudo, é o professor Dino Preti, que, com sua equipe de

estudo, contribuiu sobremaneira para quebrar a aura pejorativa que cercava o

vocabulário gíria, até a poucos anos.

Os estudos sociolingüísticos detectam que a maior aceitação da gíria e a

“permissão” concedida a todos os falantes a fazerem uso dela, provêm do dinamismo

por que passa a sociedade moderna, da velocidade das mudanças e do abandono das

tradições. Esses três conceitos são definidores das características da gíria: dinamismo,

mudança, renovação (PRETI, 1999.)

A gíria, como era relacionada a classes pouco cultas e a grupos

marginalizados, sempre foi cercado por preconceitos lingüísticos, decorrentes de um

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problema mais amplo, o preconceito social (BAGNO, 1999), advindo do pouco prestígio

social que gozam os supostos falantes de gíria (marginais, travestis, toxicômanos,

pessoas iletradas, entre outros). É verdade que o vocábulo gírio surge dentro de um

grupo social restrito antes de vulgarizar-se na linguagem falada por toda a comunidade,

mas esta comunidade cada vez mais fala gíria, em todos os seus níveis sociais, etários,

econômicos e culturais.

Para Preti (1984), o vocabulário gírio está dividido em duas grandes

categorias: a gíria de grupo e a comum. A primeira categoria é específica de grupos

determinados e na maioria dos casos só é acessível aos iniciados naquele grupo. Já a

gíria comum faz parte da linguagem usada por todas as comunidades lingüísticas. Ela

surge como um signo de grupo (Preti, 1984), mas ao incorporar-se à linguagem

corrente perde seu caráter restrito e torna-se uma gíria comum, utilizada por todos os

falantes da língua popular social. O próximo passo neste processo é a migração do

registro informal para o formal, como o usado pelos meios de comunicação.

Como a língua reflete as transformações sociais de uma comunidade e a

parte da língua mais sensível a esse dinamismo é o léxico, o fato de uma grande

quantidade de gírias de grupo migrar para a linguagem comum reflete certa

flexibilização dos costumes sociais, e uma maior integração entre os interlocutores é

cada vez mais usada na comunicação, principalmente se o caráter da interlocução é

descontraído.

1.7.4 A gíria na perspectiva didática

A gíria está presente no cotidiano da vida dos membros de uma sociedade,

em seus diversos setores (escola, família, trabalho, lazer, igreja, dentre outros), embora

usá-la adequadamente implique o domínio das diversas variedades lingüísticas, de

modo que para cada situação use-se um registro pertinente (BAGNO, 2000.)

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Devido à presença da linguagem gíria no dia-a-dia e a uma nova concepção

de língua que envolve variações, os livros didáticos de língua portuguesa começam a

tratar a gíria, não mais como algo errado, de forma preconceituosa, mas como uma

outra maneira de se expressar, adequada a situações especiais.

O gramático Roberto Melo Mesquita (1997. p. 28) divide a linguagem em

níveis e inclui a gíria no que ele chama nível relaxado da linguagem, no qual há desvios

da linguagem-padrão. Sua abordagem é de cunho prescritivo. Já Isabel Cabral (1995),

no seu livro didático Palavra Aberta, trata a gíria de uma perspectiva descritiva.

(BAGNO, 2000.)

1.7.5 Gíria um veículo fantástico para a manifestação cultural de um povo

A linguagem é o veículo mais fantástico para expressão, comunicação e

manifestação cultural de um povo. Por isso, diz-se ser a linguagem o espelho mais fiel

da realidade social. E tanto isso é verdade que se deseja estudar uma sociedade, uma

cultura, grupo social, estude-se a sua linguagem, pois esta apontará todos os matizes

da vida.

Curioso a observar, no campo da linguagem atual, é o uso de gírias e

expressões populares, nascidas em meio aos jovens, que estão sempre a imprimir

dinamicidade, velocidade, criatividade e animação à língua. A essas palavras, dá-se o

nome de gírias. Elas exercem fascínio sobre muitas pessoas e a repulsa a tantas

outras. Mas qualquer que seja o sentimento, elas continuam a surgir no dia a dia, numa

demonstração da dinamicidade cultural da língua portuguesa.

Indaga-se, então, o que vem ser a gíria? Evanildo Bechara, na edição revista

e ampliada da sua Moderna Gramática Portuguesa, (1999:351), cita a gíria como 'uma

forma de renovação lexical, através de um empréstimo feito por uma comunidade

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lingüística a outra comunidade, dentro da mesma língua histórica'. Dino Preti (1999) diz

que 'a gíria provêm do dinamismo por que passa a sociedade moderna, da velocidade

das mudanças e do abandono das tradições'. Para ele há três fatores definidores das

características da gíria: dinamismo, mudança, renovação.

Para Bechara (1999), entende-se a gíria como uma palavra que surge no uso

diário, na escola, família, trabalho, lazer, igreja. Ela poderá ou não vir a se incorporar ao

léxico da língua. Pois esse léxico ou vocabulário é o componente que mais facilmente

retrata as mudanças e variações lingüísticas, visto possuir como função nomear e

designar fatos, processos, objetos, pessoas etc, reflete necessariamente as

transformações sociais.

Há, em relação às gírias, pessoas que se sentem incomodadas com o uso

delas. Por isso muita gente indaga, nos encontros, seminários, palestras, como nascem

as gírias e se elas são manifestações aceitáveis na língua.

As formas são muitas, aqui se descrevem umas poucas:

PORRADÃO, PORRADA, BALA – Gírias correspondentes, segundo a juventude

noventista, à idéia de "certeiro", de algo que dá certo. As gírias tiveram origem no

imaginário heavy metal brasileiro dos anos setenta, mas hoje foram assimiladas pelo

circuito dance music farofa e até mesmo pela axé-music do carnaval baiano.

GALERA – Expressão sem qualquer vínculo original com o segmento rock. A

expressão "galera" tem como sentido original a idéia de tripulação de navio.

Provavelmente, sua origem no Brasil remete aos anos cinqüenta, através dos bares

localizados em cais e portos, onde o grupo de amigos ou talvez até gangues rivais era

considerado "galeras". Depois, a expressão, já no final dos anos 60, passou a ser

falada pelos hippies, mas, nos anos 80, se tornou uma gíria popularesca.

RAPAZ E VÉIO COMO VOCATIVOS PARA MULHERES – Nos últimos

tempos, rapazes e até moças falam com as amigas usando o vocativo "rapaz"

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(incluindo as corruptelas "rapá" ou "rapais"). Tal hábito vem dos EUA, onde as pessoas

conversam com as moças usando o vocativo "man" ("homem", em inglês). Se aqui se vê

o uso "mas rapaz" e "é véio", lá se tem "hey man". O grande equívoco dessa gíria é o

fato de ela expressar a tendência do machismo numa juventude que se diz arrojada e

moderna, mas é ainda muito conservadora e antiquada.

FUNK – No Brasil tornou-se hábito classificar de funk aquele som tosco, com

letras quase faladas ou gritadas, por pessoas sem talento vocal, e um teclado que

programa um som marcado praticamente por batidas eletrônicas e alguns acordes

melódicos. A rotulação é antiga, década de 80, e veio das equipes de som cariocas que

estavam lançando arremedos que imitam o som eletrônico de Afrika Bambataa, que

fundiu as influências do fundador do funk, James Brown, com a eletrônica do Kraftwerk.

Esse gênero bastardo ganhou o nome de miami bass, pouco difundido. Seria melhor

denominá-lo "batidão".

Diz-se, finalmente, que a língua é rica por apresentar variedades lingüísticas,

por dar aos falantes o poder de criação, liberdade. Essa é a beleza de uma língua que

não precisa ficar estanque, presa às regras, pois o seu papel é vital às relações

humanas. Toda sociedade depende da língua para divulgar suas informações, para

construir um sistema literário e cultural, para desenvolver tecnologias, enfim, para

perpetuar-se. A gíria é um recurso a apontar as variações da estrutura social e as

variações da estrutura lingüística, tão necessária ao processo comunicativo e, portanto,

aceitáveis desde que empregada adequadamente. (BECHARA, 1999.)

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