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A Historia Do Povo Terena

A Historia Do Povo Terena

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Presidente da República: Fernando Henrique Cardoso Ministro da Educação e do Desporto: Paulo Renato de Souza Secretário executivo: Luciano Oliva

Patrício

MEC Secretário de Educação Fundamental: Iara Glória Areias Prado Diretor do Departamento de Política da Educação Fundamental: Walter Kiyoshi Takemoto Coordenadora Geral de Apoio às Escolas indígenas: Ivete Maria Barbosa Madeira Campos MEC/SEF/DPEF Coordenação Geral de Apoio às Escolas Indígenas Esplanada dos Ministérios, Bloco "L". Sala (52(5 CEP: 70.047-900 - Brasília/ DF Tel.: (61) 410 8 6 3 0 / 321 5323, Fax: ((51) 32 1 5864 e-mail: cgaei@sef.mec.gov.br

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO Reitor:
Prof. Dr. Jacques Marcovitch Diretora da. Faculdade de Educação Profa. Dra. Myriam Krasilchik LAPECH - FEUSP

CENTRO DE TRABALHO 1ND1GENISTA - CTI
Presidente: Profa. Dra. Sylvia C. Novaes Coordenadora do Programa Educação Profa. Maria Elisa Ladeira Escolar Indígena

GOVERNO POPULAR DO MATO GROSSO DO SUL
Secretário Estadual de Educação: Prof. Pedro Kemp Núcleo de Educação Indígena

Bittencourt, Circe Maria. A história do povo Terena. / Circe Maria Bittencourt, Maria Elisa Ladeira. - Brasília : MEC, 2000. 156p. : ir.

1.Educação Escola Indígena 2.Cultura Indígena I.Maria Elisa Ladeira. CDU 37(=081:81)

Circe Maria Bittencourt Maria Elisa Ladeira

A Historia do Povo Terena

M E C - S E F - USP

Maio / 2000

REALIZAÇÃO: CENTRO DE TRABALHO INDIGENISTA - CTI FACULDADE DE EDUCAÇÃO - USP
Produção: Programa de Educação Escolar Indígena/CTl Coordenação e elaboração: Circe Maria Bittencourt Maria Elisa Ladeira Pesquisa: Rogério Alves de Rezende Adriane Costa da Silva Professores Terena de Miranda: Severiano Pascoal, Genésio de Farias, Josefina Muchacho Henrique, Nilza Júlio Raimundo, Aríete Bonifácio, Ruy Sebastião, Eulogia de Albuquerque, Elizeu Sebastião, Anésio Pinto, Luzinete Raimundo, Nilo Delfino, Elcio de Albuquerque, Aronaldo Júlio. Paulo Bonifácio. Alunos do Laboratório de Pesquisa e Ensino de Ciências Humanas/USP/Lapech Consultoria: Nidia Pontusck Gilberto Azanha Aryon Dall'lgna Rodrigues Programação Visual: Sônia Lorenz Diagramação, mapas e Antônio Kehl tratamento das imagens:

Revisão: Maria Regina Figueiredo Horta

APOIO INSTITUCIONAL:
Rainforest Foundation - Noruega Centro de Trabalho lndigenista Universidade de São Paulo Secretaria Estadual de Educação do Mato Grosso do Sul

CENTRO DE TRABALHO INDIGENISTA - CTI
Rua Fidalga. 548 - sala 13 Vila Madalena - São Paulo - SP O5432-000 Tel.: (11) 813-3450 e-mail: cti@dialdata. com. br

APRESENTAÇÃO

Este livro de História tem muitos autores. Muitas p e s s o a s participaram, de diferentes formas, de sua criação e confecção. Ele nasceu de um encontro de professores Terena realizado pelo Centro de Trabalho Indigenista, em 1994, na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Os livros de História escrevem pouco sobre as populações indígenas, omitindo muito da participação destes povos na história de toda a nação brasileira. Este livro nasceu, assim, da vontade de deixar uma história escrita de um povo que vive há centenas de anos no território brasileiro, possuidor de um passado de lutas e de conquistas cuja memória histórica precisa ser conhecida, discutida, repensada. Para que e s s e livro p u d e s s e ser escrito foram feitas muitas pesquisas. Os professores Terena pesquisaram com os mais velhos e registraram muitas histórias de um passado que começa no Êxiva, na região do Chaco. Alunos do curso de Prática de Ensino de História da Universidade de São Paulo e a equipe do Projeto de Educação do CTI fizeram levantamento de livros e documentos escritos, pesquisando sobre brasileiros, portugueses e espanhóis que, desde o século XVI, deixaram relatos e desenhos sobre os Terena. Muitas outras pesssoas do CTI e da USP ajudaram a redigir e organizar os diversos capítulos que fazem parte do livro. Especialistas em computação auxiliaram com sua arte a organizar os mapas, as ilustrações do livro. E ainda é importante destacar que esse livro não terminou, porque as crianças e jovens Terena irão completar muitas histórias, fazendo pesquisas junto com seus professores e escrevendo nos espaços reservados para que a história continue sendo escrita, por mais autores.

Na trajetória de construir este livro foram enfrentados muitos desafios e dificuldades, mas também foi muito gratificante participar desse trabalho. As muitas pessoas que se envolveram na sua elaboração criaram laços de respeito e de amizade. Agradecemos a todos que colaboraram direta ou indiretamente para que este livro se tornasse uma realidade. Todos nós, que participamos da elaboração desse livro, esperamos que ele possa contribuir para aumentar os laços de solidariedade entre os Terena, e que ele ajude a reafirmar a identidade histórica de um povo que tem lutado para ser reconhecido como construtor da nação brasileira, sem perder sua autonomia cultural e política, seu modo próprio de ser e sua dignidade.

Circe Maria Bittencourt
Universidade de São Paulo

Maria Elisa Ladeira
Centro de Trabalho Indigenista

SUMARIO
Capítulo I - Começa uma História 1. Os Aruák 2. Povos Aruák no Brasil 3. Povos indígenas no Brasil 4. Histórias da origem do povo Terena 5. Momentos da história do povo Terena Capítulo II - Tempos Antigos 1. Os Guaná no Êxiva 2. Contatos entre Guaná e brancos 3. Os Terena em Miranda e Aquidauana 4. Os Terena na época do Império brasileiro Capítulo III - Os Terena e a Guerra do Paraguai 1. A Guerra do Paraguai 2. Histórias da Guerra: relatos de Taunay 3. Histórias da guerra: Relatos dos Terena Capítulo IV - Tempos da Servidão 1. A Lei de Terras de 1850 e os povos indígenas 2. Os Terena depois da Guerra do Paraguai 3. O governo republicano e os povos indígenas 4. A Estrada de Ferro Noroeste do Brasil Capítulo V - O Território dos Terena 1. O Serviço de Proteção aos Índios. 2. A criação das áreas Terena. 3. Os Terena e os problemas com o SPI 4. A FUNAI e a situação atual. Capítulo VI - Cotidiano nas aldeias: ontem e hoje 1. Vestuário 2. Moradia 3. As artes: cerâmica, cestaria e tecelagem 4. Culinária 5. Roças, pesca, coleta, caça e criação 6. Festas e cerimônias Créditos Fotográficos BIBLIOGRAFIA 9 12 14 18 22 25 33 35 37 38 42 53 55 57 63 73 75 76 79 82 91 93 96 97 98 105 108 l13 119 131 134 140 153 1 55

A história do povo Terena é longa e está ligada às histórias de vários povos indígenas, dos europeus, dos africanos e seus descendentes. O povo Terena, juntamente com os Laiana e os Kinikinau, faz parte da história de grupos indígenas que vivem em várias regiões e países da América. Para se conhecer a história dos Terena é preciso recorrer a várias fontes de informação. Podemos conhecer o passado dos Terena pelos produtos da cultura material, como objetos de cerâmica, de tecelagem, instrumentos musicais, que revelam muito dos hábitos e costumes antigos e que atualmente nem sempre existem mais. Pode-se também recorrer aos textos escritos, desenhos, pinturas, fotografias feitos por brancos que estabeleceram contatos em diversos momentos com os Terena. E ainda, para sabermos sobre a vida passada dos Terena, é muito importante ouvir os relatos orais dos mais velhos. A tradição oral revela os momentos mais significativos da história dos povos indígenas. A língua falada pelos Terena é a mais importante fonte que se tem para se conhecer parte da história mais recente e também do passado mais distante.

A lingua falada pelos Terena conserva elementos em comum com a língua usada pelos Laiana e pelos Kinikinau e que, embora com algumas diferenças, permite reconhecer que ele pertence a uma língua de origem comum denominada Aruák. A identificação dessa língua comum é importante porque, por intermédio dela, podemos saber um pouco sobre a origem dos Terena e localizar o lugar onde vivem e viveram em outros tempos. Pode-se conhecer o lugar de origem das pessoas porque as línguas têm elementos comuns e pode-se perceber que cada povo recebe várias influências no contato com outras populações. Com a convivência são acrescentadas novas palavras, alterando constantemente a língua original. Quando uma comunidade se separa, a convivência entre as pessoas diminui e, em conseqüência, aumentam as diferenças na fala dos habitantes desses lugares. Quando esses grupos mudam-se para outros lugares distantes, perdem todo o contato entre si e não existe a possibilidade de incorporar palavras novas. Desta forma, apesar da língua ser a m e s m a , os Terena de Cachoeirinha, por exemplo, falam de um modo diferente dos Terena de Taunay e, da mesma forma, a língua portuguesa falada pelos gaúchos é diferente da língua portuguesa falada pelos pernambucanos ou pelos habitantes de Portugal. Podemos saber, então, pela fala, o lugar de origem daquela pessoa. Podemos também identificar se um Terena é de Cachoeirinha, de Ipegue, de Bananal ou de outras aldeias.

1. Os Aruák
O nome Aruák vem de povos que habitavam principalmente as Guianas, região próxima ao norte do Brasil e algumas ilhas da América Central, na região das Antilhas. Quando os europeus começaram a dominar a região, os Aruák dividiam e disputavam o mesmo espaço com outro povo indígena, os Karib. E foi com estes dois povos que os europeus tiveram seus primeiros contatos. Tal como aconteceu com o nome Karib, que passou a designar aquela região, o Caribe, também o nome Aruák veio a ser usado pelos europeus para identificar um conjunto de línguas encontradas no interior do continente sul-americano.

Observe com atenção o mapa para localizar a ampla região onde são faladas as línguas de origem Aruák. Podemos observar que se fala o Aruák na região norte da América do Sul, com povos que habitam a área dos rios Orinoco, Negro e s e u s afluentes, principalmente o rio Içana. E existem povos que habitam lugares próximos aos rios Japurá e Solimões, Purus e Juruá até chegar às nascentes do rio Ucaiáli. Os povos que falam a língua de origem Aruák, conforme pode-se verificar pelo mapa, não habitam em um único país. Outros grupos que se utilizam da língua de origem Aruák vivem mais ao sul do continente. Existem povos que vivem na região amazônica da Bolívia, no estado do Mato Grosso e na região do rio Xingu, no Brasil. O povo de língua Aruák que mora mais ao sul do continente americano são os Terena.

2. Povos Aruák no Brasil
Podemos agrupar os povos indígenas que falam a língua Aruák no Brasil de acordo com a região em que habitam. O rio Amazonas delimita as áreas dessas populações. Os grupos Aruák situados ao norte do rio Amazonas são vários. Ao ler sobre eles, procure no mapa a localização de cada um. Os Boníwa do Rio Içana. afluente do Rio Negro, compreendem um grande número de pequenos grupos distribuídos ao longo de todo o curso do rio e de alguns outros rios próximos. Cada um destes grupos fala dialeto próprio, mas com poucas diferenças entre si. Não muito distante vivem os Warekana. que compreendem alguns grupos situados em outro afluente do rio Negro, o rio Xié, e cuja língua difere muito pouco da de seus vizinhos, os Baníwa. Tariána é um outro grupo Aruák, mas que hoje pouco fala seu idioma de origem, porque ao se mudarem do rio Içana para a região do rio Uapés, o povo Tariána adotou a língua de seus novos vizinhos, os Tukano. Parece que apenas o grupo chamado íuemi continua mantendo a língua Tariána, que é também muito próxima da língua dos Baníwa do rio Içana.

Moça

Palikur

Os grupos que vivem próximo ao rio Negro, Baré. Mondawáka e Yabaáno não têm mantido a língua de origem Aruák, s e n d o que a maioria d e l e s fala s o m e n t e o português. Há também os Wapixana que vivem no estado de Roraima, às margens do rio Branco, e os Palikur. situados no estado do Amapá, na bacia do rio Oiapoque, que se utilizam de uma língua falada muito próxima, embora com algumas diferenças, da língua usada pelos povos Baniwa. Os grupos Aruák que vivem ao sul do rio Amazonas podem ser agrupados de acordo com as áreas que ocupam. Existem quatro áreas importantes que podem ser observadas pelo mapa. A primeira dessas áreas está situada no sudoeste do estado do Acre e nelas vivem os Apurínã (ou Ipurinã). com aldeias ao longo do rio Purus: os Kámpa no alto rio Juruá; os Maxinérí e Manitenérí (a língua Piro) no rio Iaco, um afluente do rio Juruá. Uma segunda área fica a oeste do estado do Mato Grosso, na região d o s formadores do rio Juruena, que é um afluente do rio Tapajós, onde vivem os Paresi e os Salumã. Em uma terceira área, no alto do rio Xingu, são faladas línguas

da família Aruák, muito semelhantes entre si. Estes grupos são denominados como Mehináku. Waura e Yawalapití. E, a quarta e última área é a que corresponde aos grupos que vivem na região mais meridional da família Aruák no Brasil. É o povo Terena. que habita na região dos rios Aquidauana e Miranda, afluentes do rio Paraguai, no estado do Mato Grosso do Sul. Na década de 30 um grupo de Terena foi transferido para o estado de São Paulo, numa área onde vivem os Kaingang e Nhandeva (Guarani), na região de Bauru. Em conseqüência desta migração, há meio século que a língua Terena também é falada nesta região. Existe um grupo na Bolívia, os Moxo. que ainda mantém a língua de origem Aruák; e outro denominado Choné, mas este povo atualmente só fala espanhol. No Paraguai há também os Guaná. que aparentemente não falam mais a língua. Todos estes grupos indígenas que falam a língua Aruák têm diferenças entre si, mas possuem uma mesma língua de origem. Além desta proximidade que indica uma origem comum, estes grupos têm semelhanças na forma de sua organização social. Todos esses grupos possuem ou possuíram formas de organização internas características, sendo tradicionalmente agricultores e conhecedores das técnicas de tecelagem e cerâmica.

3. Povos indígenas no Brasil
As populações indígenas do Brasil não são um só povo: são constituídos por muitos grupos, diferentes entre si e do conjunto de populações descendentes dos colonizadores europeus, portugueses, dos escravos africanos e dos imigrantes que aqui chegaram em diferentes épocas, como os italianos, árabes, espanhóis, alemães, japoneses, entre outros. A nação brasileira é, assim, constituída por estes povos e o conjunto de diferentes povos indígenas. Os povos indígenas foram as primeiras populações que ocuparam o território que foi denominado Brasil pelos portugueses, mas os m o m e n t o s e a forma d e s s a o c u p a ç ã o ocorreram de maneiras diferentes. Para ocupar o território foram feitas guerras, realizaram-se acordos com autoridades, alianças entre vários grupos, houve a

catequese de missionários, estabelecendo-se contatos diversos, às vezes de forma pacífica e em outras situações de maneira violenta. É importante destacar que esta situação ocorreu no passado, mas ainda acontece atualmente. A história da ocupação do território pelos grupos indígenas, anterior à chegada dos europeus também foi realizada de diferentes formas e m o m e n t o s . A o c u p a ç ã o do território foi s e n d o feita lentamente, durante muito tempo, por migrações de populações indígenas diferentes que estabeleceram contatos entre si, trocaram experiências, realizando alianças que enriqueceram suas heranças culturais ou, então, fizeram guerras para dominar áreas mais férteis ou de fácil comunicação. Desta forma, a população indígena no Brasil é constituída por diversos povos, diferentes entre si, com usos, costumes e crenças próprias, e que falam línguas diferentes. O direito a esta diferença, mantendo a língua e costumes tradicionais é atualmente garantido pela Constituição Brasileira de 1988 pelo Artigo 231: "São reconhecidos aos índios sua organização social costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens." T a m b é m está garantido por lei constitucional o direito de preservação e e s t u d o d a s línguas indígenas n a s e s c o l a s , pelo Artigo 2 10: "O ensino fundamental regular será ministrado em língua portuguesa, assegurada às comunidades indígenas também a utilização de suas línguas maternas e processos próprios de aprendizagem." Existem aproximadamente 200 povos indígenas no Brasil que falam 170 línguas. Esta população corresponde, segundo estimativas, a 250 mil pessoas. Observe no mapa a seguir, a distribuição das populações indígenas no território brasileiro.

É provável que na época da chegada dos portugueses, há 500 a n o s , o n ú m e r o d a s línguas indígenas fosse maior do que é hoje. É t a m b é m difícil saber o número de habitantes indígenas na época da chegada dos europeus. O desaparecimento de muitas línguas indígenas foi maior nas regiões colonizadas mais intensamente e há mais tempo pelos portugueses, como a região sudeste, nordeste e sul do Brasil. As línguas indígenas existentes no Brasil p o d e m ser agrupadas, de um modo geral, em grandes grupos denominados como "famílias lingüísticas" que, em alguns casos, têm falantes também em outros países. Estas "famílias" s ã o Tupi-Guaroni, Korib, Pono, Aruák e Jê. Existem também, além dessas grandes "famílias", outras "famílias" menores como Guaikuru, Tukano, Moku e Yanomami. E ainda existem a s línguas q u e o s e s t u d i o s o s classificam como "línguas isoladas". Por "língua isolada" queremos dizer que os lingüistas, que são os estudiosos das línguas, não sabem a que "família" original esta língua pertence.

4. Histórias da origem do povo Terena
Saber a origem dos povos é muito difícil. Em geral, cada povo cria mitos e lendas para explicar sua origem. O mito sobre como os Terena foram criados pode ser contado de várias maneiras. As diferenças entre as versões narradas estão ligadas ao momento e à situação vivida pelo povo quando contam essa parte da sua história. Os brancos também contam a sua história de vários jeitos, dependendo do tempo, das circunstâncias e d o s grupos que e s t a v a m no poder q u a n d o a escreveram. Por isso, a história de muitos personagens brancos que aparecem nos livros, também tem várias versões. Cada povo tem a sua própria maneira de contar sobre a criação do mundo e de como surgiram enquanto povo. Os povos de tradição judaico-cristã, por exemplo, têm o mito de Adão e Eva. Os Desana, que é um povo de língua Tukano que mora com outros povos de língua Aruák e Maku na região do rio Negro, no estado do Amazonas, contam sobre o Umuri ñhku, o "Avô do Universo". E assim, cada povo tem a sua própria tradição e visão do mundo. Segundo a tradição dos Terena, os professores da aldeia de Cachoeirinha, em 1995, resumiram assim a criação de seu povo: "A criação do povo Terena Havia um homem chamado Oreka Yuvakae. Este homem ninguém sabia da sua origem, não tinha pai e nem mãe, era um homem que não era conhecido de ninguém. Ele andava caminhando no mundo. Andando num caminho, ouviu grito de passarinho olhando como que com medo para o chão. Este passarinho era o bem-te-vi. Este homem, por curiosidade, começou chegar perto. Viu um feixe de capim, e embaixo era um buraco e nele havia uma multidão, eram os povos terenas. Estes homens não se comunicavam e ficavam trêmulos. Aí Oreka Yuvakae, segurando em suas mãos tirou eles todos do buraco. Oreka Yuvakae, preocupado, queria comunicar-se com eles e ele não conseguia. Pensando, ele resolveu convocar vários animais para tentar fazer essas pessoas falarem e ele não conseguia.

Finalmente ele convidou o sapo para fazer apresentação na sua frente, o sapo teve sucesso pois todos esses povos deram gargalhada, a partir daí eles começaram a se comunicar e falaram para Oreka Yuuakae que estavam com muito frio."

Um estudioso do povo Terena, o antropólogo Herbert Baldus, depois de conversar com os Terena, durante as visitas que fez aos postos indígenas do estado de São Paulo em 1947, transcreveu a seguinte versão:
"Diz que antigamente não havia gente. Bem-te-vi, uítuka, descobriu onde havia gente debaixo do brejo. Bem-te-vi marcou o lugar aos Orekajuuakái que eram dois homens e estes tiraram a gente do buraco Antigamente, Orekajuuakái era um só e quando moço a sua mãe ficou brava, pois Orekajuuakái não queria ir junto com ela à roça, foi à roça, tirou foice e cortou com ela Orekajuuakái em dois pedaços. O pedaço da cintura para cima ficou gente, e a outra metade também. Antes de tirar a gente do buraco, Orekajuuakái mandaram tirar fogo, iukú. Pensaram quem uai tirar fogo. Foi o tico-tico, xauokóg. Ele foi e não achou fogo. Depois foi o coelho, kanóu, e tomou o fogo dos seus donos, os Tokeóre. O konóu chegou onde estava os Orekajuuakái e foram fazendo grande fogueira. Gente leuantou os braços e Orekajuuakái tirou do buraco. Toda gente era nu e tinha frio e Orekajuuakái chamaram para ficar perto do fogo. Era gente de toda raça. Orekajuuakái sempre pensaram como fazer falar esta gente. Mandaram-na entrar em fileira um atrás do outro. Orekajuuakái chamaram lobinho, okué, pra fazer rir a gente. Lobinho fez macacada, mordeu no próprio rabo, mas não conseguiu fazer rir. Orekajuuakái chamaram sapinho, aquele vermelho, kalaláke. Este andou como sempre anda e a gente começou a dar risada. Sapinho passou ida e volta ao longo da fila três vezes. Aí a gente começou a falar e dar risada. Orekajuuakái ouviram que cada um da gente falou diferente do outro. Aí separaram cada um a um lado. Eram gente de

toda roça. Como o mundo era pequeno, Orekojuuokái aumentou o mundo para o pessoal caber. Orekajuuakái deu uns carocinhos de feijão e milho e deu mandioca também e ensinou como se planta. Deu também semente de algodão e ensinou como tecer faixa. Ensinou fazer arco e flecha, ranchinho, roçar e plantar, "(relato oral de Antônio Lulu Kaliketé, traduzido para o português por Ladislau Haháoti)

Linha do Tempo dos Terena
Chegada dos Portugueses ao Brasil

5. Momentos da história do povo Terena
Cada povo tem m o m e n t o s importantes m a r c a d o s por acontecimentos que levam a mudanças na vida de toda a comunidade. Esses momentos surgem entrelaçados a vários acontecimentos e permanecem na memória de todos. Relembrar esses momentos e buscar entendê-los é importante para que se possa perceber os acontecimentos presentes e como eles estão ligados a esse passado. Para os Terena, têm sido relembrados três grandes momentos em sua história.

O primeiro deles foi a saída do Êxiva, transpondo o rio Paraguai, e a ocupação da região do atual estado de Mato-Grosso do Sul. Este período foi longo, durando muitos anos, com migrações que foram feitas em todo o decorrer do século XVIII. Foi um período em que os Terena ocuparam um território vasto, dedicando-se à agricultura e estabeleceram alianças importantes com os Guaicuru e com os portugueses. Este foi o período dos Tempos Antigos. Em seguida, um acontecimento importante afetaria a vida dos Terena, a Guerra do Paraguai. O momento mais significativo da vida dos Terena foi a Guerra do Paraguai (1864-1870). Esta guerra, na qual participaram muitos países - Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai envolveu também os escravos de origem africana e povos indígenas habitantes das regiões próximas ao rio Paraguai. Os Terena e Guaicuru aliaram-se aos brasileiros e lutaram para preservar seu território. Após a Guerra do Paraguai, muitas mudanças aconteceram na região e, para os Terena, ela significou a perda da maior parte do seu território, que passou a ser disputado pelos proprietários de terras brancos, que chegavam cada vez mais para plantar e criar gado. Este foi o período denominado Tempos da Servidão. E o terceiro momento correspondeu à delimitação das Reservas Terena, iniciado com a chegada da Comissão Construtora das Linhas Telegráficas chefiadas por Rondon, e continua até o presente. Essa época, do começo deste século até os dias de hoje, é marcada por uma maior proximidade com a população branca, os purutuyé, com m u d a n ç a s nos hábitos e costumes terenas. Os Terena têm sido obrigados a se submeter a trabalhos para os proprietários de terras particulares. Este momento ainda está sendo vivido pelos Terena, que estão fazendo sua história, buscando maior autonomia enquanto povo, e mais direitos como cidadãos brasileiros. Este período não possui ainda um título. Cada criança ou jovem Terena pode denominá-lo como desejar. Depois de ler este livro, dê um título a este terceiro momento da história dos Terena: Tempos

ATIVIDADES
l . O s Aruák Escreva uma relação das fontes para se conhecer a história do povo Terena:

Por que a língua falada pelos Terena é diferente da língua falada dos Salumã, se as duas línguas são da "família" Aruák?

Observando o mapa 1, escreva: o nome dos países da América onde vivem povos de origem Aruák.

o nome de três povos Aruák

2. Povos Aruák no Brasil
Escreva uma característica comum a todos os povos de língua Aruák.

Observando o mapa 2, relacione: o nome dos estados brasileiros onde vivem povos de língua Aruák

nome de alguns dos rios importantes para os Aruák

3. populações indígenas no Brasil
Leia com atenção os Artigos 231 e 210 da Constituição Brasileira de 1988 e escreva com suas palavras os direitos de todos os povos indígenas do Brasil.

Observe o mapa 3 e escolha dois estados brasileiros com um número expressivo de povos indígenas

Quais os povos indígenas com quem os Terena mantêm contato?

Escreva o nome de outros povos de quem você já teve notícias

4. A História da origem do povo Terena
Faça um desenho inspirado pelo mito de Orekajuvakái

Converse com outras pessoas (pais, avós, etc.) sobre a origem dos Terena. Depois compare as versões, e escreva as diferenças.

Procure saber junto aos mais velhos outros mitos Terena. Escreva nas linhas abaixo. Depois leia para seus colegas.

5. Momentos da História do povo Terena
Observe a Linha do Tempo e calcule há quantos séculos os Terena têm contato com os purutuyé.

Explique o que é um século.

Qual o século em que ocorreu a Guerra do Paraguai?

Faça uma Linha do Tempo da história da sua aldeia, localizando: - época em que foi criada - acontecimentos mais importantes

Mulher levando carga em bolsa de Garaguatá

Mulher Lengua tirando água da planta Garaguatá

1. Os Guaná no Êxiva
Os avós contam que os Terena viviam antigamente no Êxiva, lugar conhecido pelos purutuyé como Chaco. As tribos que falavam a língua Aruák eram chamadas, na época em que os europeus chegaram ao Êxiva, de Guaná. Há relatos escritos pelos espanhóis descrevendo os Guaná. Sanches Lavrador escreveu um relato sobre sua viagem pela região do Êxiva, em 1767, e afirmou que: "Em vários partes do Paraguai católico se tem notícia da nação chamada Guaná. Nome que engloba todos os subgrupos. Estes subgrupos usam nomes para se distinguirem entre si. Francisco Aguirre, que percorreu a região em 1793, contou que: "Os Guaná, em seu idioma "Chané", isto é, "muita gente", habitam o Chaco paraguaio... das margens do rio Paraguai até os confins do Peru. É a nação mais numerosa... As nações

Guaná que se conhecem nesta parte oriental são 5. Layana, Etelenoe ou Etelena, Equiniquinao ou Equiliquinao, Neguecatemi e Hechoaladi" Atualmente todos estas nações que compunham os Guaná estão agrupadas sob a denominação de Terena (Efeienoe), apesar de muitos dos velhos saberem se são descendentes dos Layana ou Kinikinaua (Equiniquinao). A história dos Terena no Êxiva ainda é relembrada pelos mais velhos das aldeias: "Meu sogro, pai de minha mulher... ele contou a história do Êxiva, de onde eles vieram fugindo. Meu sogro também veio de lá. Eles não sabiam falar o português, só falavam o Terena e não sabiam ler nem escrever... não sabiam nada, mas sabiam o tempo em que as árvores floresciam todos os anos. No mês de agosto começavam a derrubar o mato para plantar. Plantavam só um pedacinho de terra mas dava uma produção grande, com fartura... Não faltava nada para o índio comer. Tinha bastante peixe e caça. E muita mandioca para comer." (João Martins - 'Menootó' - aldeia Cachoeirinha) Os Guaná não eram a única nação que habitava o Chaco. Lá viviam também os Mbaya Guaicuru e os Guarani, com quem os Guaná estabeleceram vários tipos de contato. Os contatos entre os Guaná e os Guarani nunca foram amistosos, havendo muitas histórias de conflitos. A relação entre os Guaná e os Mbaya Guaicuru foi de aliança. A história das duas nações mostra que as alianças feitas entre elas foram muito importantes nas lutas contra tribos inimigas e contra espanhóis e portugueses. A aliança entre Guaná e Guaicuru foi possível por serem povos com um modo de vida diferente. Os Guanás eram hábeis agricultores que viviam das roças próximas às suas aldeias e os Guaicuru, vivendo da caça e da pesca, controlavam vastos territórios. Atualmente o único grupo de origem Mbaya Guaicuru no Brasil é o Kadiwéu, que vive ao sul

do pantanal do Mato-Grosso do Sul, na fronteira com o Paraguai. Alguns relatos dos Kadiwéu mostram que essas diferentes maneiras de viver sempre existiram: "Quando Deus (Aneotedroni) terminou de fazer cada tribo, ensinou o que eles poderiam fazer: deu enxada para os terena, foice para os brancos e para os Kadiwéu deu a terra, porque para Kadiwéu deu a terra, porque não pode roçar, não sabe roçar" (Basílio Kadiwéu, l989) As diferenças entre os Guaná e os Guaicuru facilitaram as relações de troca. Os Guaicuru aprenderam a utilizar cavalos trazidos da Europa para fazer guerra e protegiam as aldeias aliadas dos ataques dos inimigos Guarani e dos espanhóis. Os Guaicuru forneciam para os Guaná facas e machados que eram utilizados na agricultura. Os Guaná forneciam aos Guaicuru produtos que cultivavam nas roças, roupas de algodão e cobertores. Para consolidar estas alianças, os Guaná e os Guaicuru realizavam casamentos entre si. Vários relatos escritos dos espanhóis comprovam essas trocas. Eis um desses relatos: "Os Guaicuru recebiam dos Guaná algum grão para viagem, um bolo de Nibadana com que pintam de vermelho, e alguma manta de algodão, seja branca ou listrada de várias cores, que com gosto tecem os Guaná." (Sanches Labrador, 1 767)

2. Contatos entre Guaná e brancos
Os brancos chegaram ao Êxiva navegando pelo rio Paraguai, vindos do porto de Buenos Aires. Vieram atraídos pelas lendas sobre a riqueza das minas de ouro e prata na região dos Andes, onde a mais rica das minas de prata era Potosi, no atual país chamado Bolívia. Esse era o caminho mais curto para chegar até a região das minas. Sabendo disso,

eles organizaram muitas expedições para lá. Assim, a partir do século XVI, começou a história do contato entre os povos indígenas, primeiros habitantes e senhores dessas terras, e os europeus. Schimdel, um escritor europeu que passou pelo Êxiva naquela época, descreveu a vida dos Guaná: "Neste caminho achamos roças cultivadas com milho, raízes e outros frutos (...) Quando eles colhem um roçado, outro já está amadurecendo e quando este está maduro, já se plantou num terceiro, para que em todo se tivesse alimento novo nas roças e nas casas". Nem sempre as relações entre os europeus, os Guaná e seus aliados foram de amizade. Houve muitos conflitos, porque os brancos queriam conquistar as terras próximas ao rio Prata, interessados no ouro e prata. Para os europeus, esses metais tornaram-se produtos muito cobiçados, porque transformavam-se em dinheiro, tornando as pessoas ricas e isso gerou muitas brigas e confrontos. Havia disputas entre os próprios europeus, lutando portugueses contra espanhóis para dominar as regiões com riquezas minerais e havia as guerras contra as populações indígenas que procuravam resistir à conquista de seus territórios. Os espanhóis foram os primeiros a chegar. Logo depois, vieram os portugueses. Construíram vilas para morar. Trouxeram instrumentos de ferro para plantar (machados e facões), alimentos (cana-de-açúcar, manga, café) e animais diferentes (vacas, carneiros, cabritos, cachorros, galinhas e cavalos). A presença dos brancos provocou muitas mudanças na vida dos índios. Vieram os padres missionários, que criaram aldeias para os índios aprenderem a religião cristã e a língua dos estrangeiros.

3. Os Terena em Miranda e Aquidauana
A região do Êxiva ficava próxima das minas de metais preciosos e os colonizadores europeus disputavam esse território. Espanhóis e portugueses faziam guerras para decidir quem ficaria com essas terras.

AS várias tribos da região foram envolvidas por essas lutas. Para defender seu povo e suas terras, os Guaná procuraram fazer aliança com os portugueses. Já os Guarani, procuraram unir forças com os espanhóis contra seus antigos inimigos, os Guaicuru. Durante essas guerras muitas aldeias foram destruídas. Os Guaná, vieram se deslocando acompanhando os seus aliados Mbayá-Guaicuru para o Mato Grosso do Sul, no século XVIII. Os Terena, os Kinikinau, os Laiana reconstruíram suas aldeias perto do forte Coimbra e das vilas das Serras do Albuquerque, entre os rios Paraguai e Miranda. Os Kadiwéu e outras tribos Guaicuru se estabeleceram nas redondezas da Serra de Maracaju. Alguns relatos dos mais velhos contam porque os Terena saíram do Êxiva e como eles atravessaram o rio Paraguai:
"Meu pai cresceu lá mesmo no Êxiva. Meu pai fugiu de lá porque lá havia os índios ('kopenoti') bravos. Eles atravessaram as morrarias atrás de Porto Esperança. Na água quando nadou, amarrou um carandá seco na cintura como jangada." (Antônio Muchacho - aldeia Cachoeirinha) "Minha avó, meu avô são do Êxiva. Eles usaram uma taquara bem grande para atravessar o rio... pelo nome 'taquaruçu' ela é conhecida pelos purutuyé. Eles trançavam com cipó (humomó) para fazer uma canoa para atravessar o rio Paraguai (huveonokaxionó - 'rio dos paraguaios'), quando vieram para a Cachoeirinha." (João Martins - 'Menootó' - aldeia Cachoeirinha)

O trabalho dos Terena nas plantações foi assim lembrado:
"... Quando a gente fazia roça, não tinha enxada. A enxada não era como a de hoje: era de cerne pontudo... era um cerne de árvore que não dava para quebrar. Plantavam melancia, moranga, abóbora, milho, feijão de corda. As árvores eram derrubadas com fogo... não havia ferramentas de metal para fazer esses serviços... instrumentos de ferro são coisas recentes..." (João Martins - 'Menootó' - aldeia Cachoeirinha)

4. A OCUPAÇÃO DE MATO G R O S S O

Na época em que os Terena deixaram o Êxiva, a região de Miranda era desabitada. Eles foram os primeiros a ocupar a área. A ocupação da região pelos portugueses começou depois da descoberta de ouro na região de Cuiabá e em Mato Grosso, no século XVIII. várias povoações foram fundadas pelos portugueses n e s s a época: Cuiabá (1727); Albuquerque e Vila Maria (1778). preocupados em defender s u a s fronteiras dos espanhóis, os portugueses também construíram vários fortes: Forte de Coimbra (1775), Forte Dourado e Presídio de Miranda (1778). Observe no mapa a localização estratégica de alguns destes fortes. Assim, enquanto os espanhóis queriam instalar fazendas de gado para efetivar a posse na região e expulsar as populações nativas, os portugueses procuraram garantir o domínio da região através da construção de fortes e acordos com os índios. Já nessa época os Guaná vendiam no Forte de Coimbra redes e panos, batatas, galinhas e porcos e, em troca recebiam objetos de metais e tecidos. Para dominar a região, os purutuyé precisavam da amizade dos grupos indígenas que aí viviam. Era importante ter gente para garantir a posse das terras e para morar nas novas vilas e cidades. Também precisavam de trabalhadores para as minas e para as fazendas que surgiam, onde plantavam cana-de-açúcar e criavam gado. Para a região foram enviados soldados para vigiarem as fronteiras. Os portugueses fizeram uma lei que proibia a escravização dos indígenas, mas eles eram obrigados a morar em aldeias dirigidas por chefes brancos. Aí, os índios deveriam aprender a viver e a trabalhar de acordo com os costumes do homem branco. Mas os Guaná continuaram levando uma vida independente dos brancos. Graças à aliança com os Guaicuru, conseguiram manter o domínio da região entre os rios Apa e Miranda. Observe no mapa 4 esta região de domínio dos índios. Os colonizadores brancos tentaram de várias maneiras conquistar a amizade dos índios, especialmente dos Guaicuru, pois queriam colonizar a região. Para isso, faziam comércio, distribuíam presentes e davam aos chefes das tribos aliadas patentes do exército. Os "Cavaleiros" (como os purutuyé chamavam os Guaicuru) eram temidos tanto pelos portugueses, como pelos espanhóis. Montados em cavalos, utilizavam sua boiada para atacar os inimigos. Destruíam suas povoações, roubavam seus cavalos e seu gado, e arruinavam suas plantações.

Os Guaicuru, depois de muitos confrontos, tiveram interesse em estabelecer um acordo com os portugueses. Daí foi assinado um tratado entre eles no Real Presídio de Coimbra, em 1791. Esse tratado, assegurava a proteção da coroa portuguesa e transformava os MbayáGuaicuru em súditos da rainha de Portugal. Depois do Tratado de 1791, a aliança entre os Guaicuru e os Guaná começou a se enfraquecer. Os Guaná não necessitavam mais da "proteção" dos Guaicuru e ampliaram o contato com os brancos, principalmente depois da independência do Brasil em relação a Portugal (1822).

4. Os Terena na época do Império brasileiro
Depois que os brasileiros se libertaram de Portugal, o governo estabelecido foi de uma monarquia, sob o poder de um imperador, D. Pedro I, e depois do seu filho, D. Pedro II. Este é o período do Império (1822-1889). Logo depois da independência, o governo permitiu a presença de viajantes e estudiosos estrangeiros em várias partes do país. Uma das expedições estrangeiras que visitou a região de Mato Grosso foi a Expedição Langsdorff, nos anos 1825 a 1829, para estudar os animais e as plantas brasileiras. O desenhista que acompanhava a expedição chamava-se Hercule Florence e ele passou também a escrever sobre as populações indígenas que iam conhecendo na viagem. Sobre os Guaná ele deixou a seguinte descrição: "Os Guanás moram na margem oeste do rio Paraguai, um pouco acima da vila de Miranda: acham-se todos juntos e aldeados numa espécie de grande povoação. Usam de uma língua própria, mas em geral sabem alguma coisa de português, que falam à maneira de quase todos os índios ou dos negros nascidos na costa d'África. De quanta tribo tem o Paraguai, é esta que mais em contato está com os brasileiros. Lavradores, cultivam o milho, o aipim e mandioca, a cana-de-açúcar o

algodão, o tabaco e outras plantas do país.Fabricantes, possuem alguns engenhos de moer cana, e fazem grandes peças de pano de algodão com que se vestem, além de redes e cintas industriais, vão, em canoas suas ou nas dos brasileiros, até Cuiabá para venderem suas peças de roupa, cintas, suspensórios, cilhas de selim e tabaco." (Hercule Florence, 1825-1829) E deixou desenhos, registrando costumes da época:

Moça Guaná e Guanitá, chefe dos Guanás.

Duas pirogas cie Guanás, 182 7

Um outro viajante chamado Francis Castelnau visitou a região em 1845 e escreveu que os Terena viviam mais isolados que os outros Guaná (os Kinikinaua e os Layana). "A 5 de abril fomos visitar o aldeamento dos terenos, índios que pertencem à mesma nação dos precedentes Guanás, mas que até aqui têm tido muitas poucas relações com os brancos. É uma nação guerreira que conserva em toda integridade os costumes de seus antepassados. O aldeamento que íamos visitar fica, em linha reta, duas léguas e um terço a nordeste de Miranda... Compõem-se o aldeamento de umas cento e dez casas, unidas umas às outras. Estas formam um imenso rancho coberto de folhas de palmeira e estão dispostas em círculo, à volta de uma grande praça central. Toda a população, constituída de mil e quinhentos a mil e oitocentos habitantes, ocupava-se ativamente na preparação de uma festa"

ATIVIDADES
l. Os Guaná no Êxiva
Quem foram os Guaná?

Localize no mapa 4 a região do Êxiva. Por que, no relato de João Martins, na época em que os Terena viviam no Êxiva havia fartura?

Escreva o nome de outros povos que habitavam a região do Chaco.

Por que os Guaná fizeram alianças com os Guaicuru?

Pergunte para os avós alguma história sobre os antigos conflitos entre os Terena e os Guarani e depois escreva nas linhas abaixo.

Escreva o que você conhece da vida dos Kadiwéu (pergunte para os pais, avós ou outras pessoas da aldeia)

pedir para os antigos (avós) contarem histórias da vida dos Terena no Êxiva e escreva nas linhas abaixo. Depois faça um desenho.

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Agora faça um desenho sobre essas histórias.

2 contatos entre Guaná e brancos
por que os metais preciosos eram importantes para os europeus?

Escreva sobre as mudanças que ocorreram na vida dos Terena depois da chegada dos europeus.

3. Os Terena em Miranda e Aquidauana
Por que os Guaná saíram do Êxiva?

Faça uma comparação entre os tipos de alimentos que os Guaná plantavam no Êxiva e os que são plantados hoje.

Observe no mapa 4 os fortes construídos pelos portugueses e explique, com suas palavras, por que foram construídos.

Por que foi assinado o Tratado de 1791 entre portugueses e Guaicuru e quais as conseqüências para os Terena?

4. os Terena na época do Império brasileiro
pelo desenho de Hercule Florence, como eram as vestimentas das mulheres Guaná daquela época? Você sabe o nome dessa vestimenta ? (Pergunte às avós)

Como era realizado o comércio entre os brancos e os Guaná ? Compare com os dias atuais.

Qual o transporte utilizado nesse comércio ? Ainda existe essa forma de transporte na região em que você mora?

Desenhe a aldeia descrita por Castelnau.

A Retirada da Laguna.

l. A Guerra do Paraguai
Na América do Sul, a região dominada pelos portugueses manteve;e unida após a Independência em 1822, formando um só país, o
Brasil.

Com as colônias espanholas não aconteceu o mesmo. As regiões dominadas pelos espanhóis, ao se libertarem, formaram vários países independentes. Foi o que ocorreu com o Vice-Reinado do Prata, do qual fazia parte a região do rio Paraguai. Após a expulsão dos espanhóis, esse Vice-Reinado deu origem a quatro países: Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia. Depois da independência houve vários conflitos entre os países da região do rio Paraguai e do rio da Prata para delimitar as fronteiras e organizar seus territórios. Havia também discordâncias entre eles por causa do direito de navegar no rio Paraguai, no rio Paraná e no rio da Prata. A liberdade de navegação era importante para que os países pudessem realizar seu comércio. O Paraguai era um dos países mais poderosos da região naquela época. Não possuía território perto do mar, mas controlava a navegação no rio Paraguai. O desejo dos governantes do Paraguai era obter território

junto ao oceano Atlântico para exportar e importar produtos. Os paraguaios começaram a ter vários problemas com os países vizinhos, principalmente com o Brasil e a Argentina. Os problemas com o Brasil estavam relacionados ao controle sobre a navegação no rio Paraguai, pois o rio Paraguai era o principal caminho que ligava a província de Mato Grosso ao litoral brasileiro. A guerra começou quando o exército de Solano Lopez, o governante paraguaio, invadiu Mato Grosso em dezembro de 1864. Solano Lopez usou como pretexto para a invasão, o fato do governo de D. Pedro II ter ajudado a destituir o presidente do Uruguai que era aliado do Paraguai. Ao mesmo tempo, Solano Lopez tentava conquistar territórios para chegar ao mar. A invasão do território brasileiro pelo exército paraguaio foi feita por dois grupos de soldados. Um atravessou o rio Paraguai em direção ao forte Coimbra e Corumbá, que foram facilmente ocupados. O outro grupo atravessou o rio Apa, em Bela Vista, e avançou em direção de Aquidauana e Miranda. O exército paraguaio também invadiu o território argentino, na província de Comentes, para alcançar a província brasileira do Rio Grande do Sul. O Brasil, a Argentina e o Uruguai uniram-se e formaram a Tríplice Aliança para combater os paraguaios. A Tríplice Aliança recebeu armas dos ingleses, que desejavam ter negócios no Paraguai depois que Solano Lopez fosse vencido. Durante a guerra, parte das tropas brasileiras era formada por escravos negros. A e s s e s escravos o imperador D. Pedro II havia prometido a liberdade quando a guerra acabasse. O governo brasileiro também chamou índios de Mato Grosso para combaterem os paraguaios. Os Guaicuru lutaram ao lado do exército brasileiro, enquanto os Terena, que sempre foram grandes agricultores, além de enfrentar o exército paraguaio, também participaram da guerra fornecendo alimentos para os combatentes. Os exércitos da Tríplice Aliança entraram em Assunción, a capital do Paraguai, em janeiro de 1869, m a s os últimos combatentes paraguaios só foram derrotados em 1870. Após quase cinco anos de luta, o Paraguai estava totalmente arrasado. A maior parte de sua população masculina estava morta ou mutilada. No início da guerra a população paraguaia era de 800. 000

peesoas, mas em 1870, quando a guerra terminou, essa população era de apenas 194. 000 pessoas. O Brasil pôde então dominar a navegação do rio Paraguai e demarcar suas fronteiras da maneira que achou melhor, tomando partes do território paraguaio. A Inglaterra, por sua vez, também pôde explorar as riquezas do Paraguai.

2. Histórias da Guerra: relatos de Taunay
Para conhecermos o envolvimento dos Terena e outros povos indígenas na Guerra do Paraguai existem fontes escritas e orais. A fonte escrita mais importante para a história do povo terena é o conjuntos de textos escritos por Alfredo Taunay.

Relatos de Taunay
Alfredo de Taunay (pronuncia-se "Toné") foi um escritor e engenheiro que participou da Guerra do Paraguai. Entre os escritos que ele deixou, encontra-se a descrição de Miranda durante a Guerra e o livro contando da Retirada da Laguna. Pelo livro "Retirada da Laguna" sabemos que os Terena participaram como soldados na campanha da guerra, junto com os demais soldados, sofrendo as calamidades da guerra. Taunay conta que no caminho para Nioac, tentando proteger a vila de outro s a q u e dos paraguaios, a coluna de soldados foi atacada pela epidemia da cólera que matou muito soldados. Um dos primeiros a morrer pela doença foi um Terena:

Alfredo-Escragnolle

Taunay

"...Pouco depois morrem, com um dia de moléstia apenas, um índio terena recebido na enfermaria de Bella Vista". E depois, continuou Taunay, outros Terena também morreram: "Neste dia fez o cólera nove ultimas. Assinalaram-se vinte casos novos: o chefe dos Terenas, Francisco das Chagas, chegou moribundo numa rede que sua gente carregava. Estavam estes índios no auge do terror; mas não podiam mais abandonar a coluna, ocupado como se achava todo o campo por um inimigo (os paraguaios), que, quando os apanhava, jamais deixava de os fazer parecer nos mais horríveis suplícios". Nessa época podemos saber como viviam os Terena pelos escritos de Taunay em outro livro onde descreveu a região de Miranda. A população indígena do distrito de Miranda na época da Guerra, escreveu Taunay, era formada por duas grandes nações: a Guaicuru e a Chané, que era o outro nome com que eram conhecidos os Guaná. Faziam parte da nação Guaicuru os Kadiwéu e os Beaquieu, que viviam juntos perto dos rios Paraguai e Nabileque, e um grupo que Taunay chamou apenas de "guaycuru", que vivia em Lalima e perto de Nioaque. A nação Chané (Guaná) dividia-se em quatro grupos: os Terena, os Kinikinau, os Layana e os Chooronó (que Taunay, às vezes chamava apenas de "guanás"). No tempo da invasão paraguaia, os Terena moravam no Naxedaxe, no Ipegue, na Cachoeirinha e em uma aldeia chamada "Grande". Os Kinikinau vivam no Euagaxigo (Agaxi) e no Laiuad. Taunay descreveu assim os Terena que encontrou: "O Terena é ágil e ativo: o seu todo exprime mobilidade (...) e conserva arraigados os usos e tradições de sua raça, graças talvez a um espírito mais firme de liberdade. São as mulheres geralmente baixas, têm cara larga, lábios finos, cabelos grossos e compridos (...) e expressão de inteligência. Trazem comumente parte do busto descoberto e uma julata, tanga

ou avental de algodão, cinto abaixo dos seios, com uma das pontas passadas entre as coxas e segura à cintura. Raras dentre elas sabem falar o português: todas porém o compreendem bem, apesar de fingirem não o entenderem."

Taunay na aldeia de Naxadaxe
Em março de 1866, ainda durante a guerra, Alfredo de Taunay, o capitão-engenheiro Antônio do Lago e alguns soldados tentavam escapar dos paraguaios. Perto de um córrego chamado Piranhinha, eles chegaram a uma estrada onde parecia haver passado muita gente. Mais adiante Taunay começou a ouvir barulho:
"Na realidade numa volta além, achava-se a aldeia, cujos ruídos cada vez mais íntimos, denunciavam a vida e a animação do trabalho."

Taunay e seus companheiros haviam chegado à aldeia de Naxedaxe, onde um grande número de Terena havia se refugiado.
"Ouvimos grande vozerio, algazarra contínua, e quando ante de nós surgiram as primeiras palhoças, uma chusma (grande quantidade) de gente armada se atirou ao nosso encontro. (...) Chegaram alguns de tais indivíduos a apontarnos espingardas..."

Pensando que os visitantes brancos pudessem ser paraguaios, os Terena do Naxedaxe foram recebê-los de armas em punho. Mas quando reconheceram alguns dos soldados, festejaram a visita. O povo do Naxedaxe, então, levou os soldados até a casa do capitão da aldeia, que chamava-se José Pedro e sabia ler e escrever. Os Terena do Naxedaxe estavam pintados com urucum e jenipapo e carregavam lanças e espingardas. As espingardas, Taunay ficou sabendo depois, haviam sido tiradas do depósito de armas de Miranda, quando os índios se armaram por conta própria para se defender dos Paraguaios.

O povo do Naxedaxe deu galinha cozida com arroz para Taunay e seus companheiros, que assim mataram a fome que vinham passando em sua marcha. No dia seguinte, Taunay ganhou milho, farinha de mandioca, mel e rapadura dos Terena, que estavam preparando a aldeia para uma festa. Vários curadores cantavam para que o mel fermentasse depressa para fazer a bebida para a festa. Depois de visitar essa aldeia, Taunay escreveu que, apesar do longo contato com o branco, o povo Terena ainda mantinha sua tradição.

Taunay e os koixomuneti
Naquela mesma época, durante os anos de guerra contra o Paraguai, o escritor Alfredo de Taunay pôde observar muitas vezes os koixomuneti Terena em ação. No relato que escreveu, Taunay nos conta que, nos dias em que esteve na aldeia Terena, os koixomuneti cantavam o tempo todo, pelos mais variados motivos: "cantavam para as colheitas, para a chuva parar, para a chuva cair, para o milho pendoar. Cantavam a noite inteira, fazendo previsões e conversando com o macauã". Taunay chamava os koixomuneti de "padre índio": "O padre, para suas vigílias, veste-se de uma julata ornada de lantejoulas e presa à cintura por uma espécie de lalim de contas. Pinta o tórax, braços e cara com jenipapo e urucum. Estende um couro diante da porta de sua choupana e nele caminha, lenta e compassadamente, avançando e recuando a cantar, ora estrondosamente, ora em voz baixa e monótona, com o acompanhamento de um chocalho, que agita à mão direita. À esquerda empunha um espanador de penas de ema, bordado com desenhos caprichosos."

O curador ia cantando pela madrugada afora e então parava por um longo tempo. De repente ouvia-se, bem longe, o grito do macauã, que era respondido pelo curador. Os pios do pássaro iam se aproximando rada vez mais e no final o koixomuneti começava a fazer as previsões. Taunay confessou ter ficado muito impressionado com a conversa entre o koixomuneti e o macauã e desenhou um deles:

Cerimonia religiosa dos Índios Guanás, 1866.

Uma história sobre Pacalalá
Um outro relato de Taunay foi sobre Pacalalá. Taunay escreveu que encontrou, na serra de Maracaju, uma mulher Kinikinau que chorava dia e noite a morte de seu filho. Era a mãe de Pacalalá, um jovem que havia liderado a luta dos índios de Miranda contra os paraguaios. Taunay, então, registrou a história de Pacalalá. No início da Guerra do Paraguai, o Agaxi ainda era território indígena habitado pelos Kinikinau, parentes dos Terena. Quando os soldados sobreviventes do segundo corpo de cavalaria de Nioaque passaram pela aldeia, deixaram os Kinikinau preocupados com a notícia de que os paraguaios estavam se aproximando.

Nessa época o capitão dos Kinikinau de Agaxi era um velho chamado Flávio Botelho que não estava fazendo certo com o povo. Revoltado, o povo do Agaxi destituiu o capitão e colocou Pacalalá em seu lugar. Segundo Taunay, Pacalalá:
"Era rapaz de pouco mais de vinte anos; tipo soberbo de robustez, índio de raça pura, como lhe denunciavam a cor de cobre vermelho, as feições angulosos, os molares salientes, os dentes acerados e magníficos. Os olhos pequenos e vivíssimos, e o queixo acentuado denunciavam-lhe a inteligência e a energia."

Mais recentemente outros estudiosos dos povos indígenas da região, recolheram relatos sobre o período da Guerra do Paraguai e contam que, mesmo antes de ser eleito capitão, Pacalalá denunciava os abusos dos brancos de Miranda contra seu povo. Ele sempre dizia:
"Cuidado com os purutuyé. Não somos seus escravos. Eles são nossos iguais e não nossos senhores. Nesta terra não deve haver duas espécies de gente: uma que manda e outra que trabalhe. Todos devem trabalhar e receber a paga justa de seu trabalho."

A primeira coisa que Pacalalá fez depois de eleito capitão foi pedir que seu povo abandonasse a aldeia em busca de refúgio. Enquanto velhos, mulheres e crianças carregavam o que era possível para as matas da serra de Maracaju, Pacalalá foi com trinta rapazes até Miranda pedir armas às autoridades brancas, para enfrentar os paraguaios que se aproximavam. Chegando em Miranda, Pacalalá e seus companheiros perceberam que ninguém na cidade tinha intenção de resistir aos paraguaios e as autoridades se recusaram a entregar armas aos índios. Alguns dias depois, todos os brancos fugiram de Miranda, deixando o arsenal da cidade cheio de armas e munições. Os Kinikinau, juntamente com os Terena, Layana, entraram no arsenal e se armaram sozinhos, antes que os paraguaios chegassem e foram para a serra de Maracaju. Quando os índios chegaram à serra, os brancos também tinham se refugiado lá e estavam passando fome. Logo os Kinikinau e os

Terena começaram a fazer suas roças e em pouco tempo havia comida para todos. Os paraguaios haviam ocupado toda a região entre o rio Apa e o rio Paraguai. A serra de Maracaju, no entanto, continuava a ser um abrigo seguro contra os p a r a g u a i o s . De lá d e s c i a m Pacalalá e s e u s companheiros para roubar o gado dos paraguaios e assim abastecer os refugiados com carne. Certa vez, e n q u a n t o tocavam os bois para a serra, foram surpreendidos por uma patrulha paraguaia. Pacalalá, então, organizou uma emboscada, matando o comandante da patrulha e levando seu cavalo como troféu. Em 1866, quando as tropas brasileiras ainda estavam muito longe de Miranda, Pacalalá foi com seis Kinikinau e dez Terena até um canavial na margem direita do rio Aquidauana, para fazer rapadura. Passaram lá alguns dias, sem ver nenhum sinal dos paraguaios. Isso fez com que se descuidassem um pouco da vigilância. Mas, foram vistos por uma patrulha inimiga que chamou reforços e foram cercados por quase duzentos soldados paraguaios. Pacalalá animou seus companheiros a enfrentar os inimigos com coragem, e logo nos primeiros disparos os índios mataram uns doze paraguaios e abrigaram-se, então, em uma mata próxima, de onde fizeram os soldados inimigos retroceder. Porém, quando o inimigo já ia batendo em retirada assustado, Pacalalá foi atingido por uma bala certeira. Quando a notícia da morte de Pacalalá chegou à serra, todos choraram. As moças cortaram os cabelos na altura das orelhas e tiraram seus enfeites, em sinal de luto.

3. Histórias da guerra: Relatos dos Terena
Existem as fontes orais que são os relatos dos Terena presentes na memória da população. Os Terena contam que:
"antes da Guerra do Paraguai já habitavam na região de Miranda e mantinham relações com o povoado de Miranda. Quando a cidade de Miranda foi invadida, as aldeias que estavam

situadas nessa região também foram atacadas. Os Terena se organizaram para fazer frente, utilizando as táticas próprias dos índios, como por exemplo, ataque noturno. Os Terena investigavam onde ficava o acampamento dos paraguaios e cercavam no momento em que os inimigos não percebiam, geralmente à noite. Já os paraguaios atacavam só de dia. Foram feitos vários enfrentamentos onde morriam índios Terena e também paraguaios. Conta-se que na aldeia Babaçu, os paraguaios mataram um Terena, pendurando-o num pé de árvore. Os Terena se escondiam nos matos e outros fugiam para a região de Bananal e Limão Verde. Durante a guerra é que foi fundada a aldeia de Limão Verde. Na área de Cachoeirinha existia um povoado chamado "Pulóvo'uti" e esta localidade servia de esconderijo durante a guerra porque era de difícil acesso por ser cercada de mata muito fechada."

Em outro relato ficamos sabendo que:
"Na aldeia Bananal, no município de Aquidauana, os Terena fizeram confronto com a tropa paraguaia, que resultou na morte de vários soldados e de indígenas. O episódio aconteceu no momento em que a tropa estava passando em frente da aldeia, precisamente ao norte. As tropas se dirigiam para a Serra do Maracajá, para conquistá-la e lá seria o fim do fronteiriço, caso os paraguaios vencessem a guerra. Os terena se organizaram convocando os homens corajosos para fazer parte na defessa do território brasileiro, armados simplesmente de flechas em obediência de seu líder. No lugar onde as tropas inimigas iam cruzar havia vegetação chamada "bacuri", muito fechada, justamente um lugar escolhido pelos Terena para fazer confronto utilizando a tática de guerra própria do índio. Os Terena se organizaram nas matas, cuidadosamente camuflados. Sendo bons de manejo com flechas, acertavam mortalmente os adversários. Os paraguaios reagiram ao ataque e foram infelizes, porque quando tentavam entrar na mata para atacar os indígenas

facilitovam os lances certeiros das flechas. Os Terena não dispondo de muitas flechas, em obediência ao cacique desapareceram nas matas. Cessado o ataque os paraguaios tomaram providências para enterrar seus mortos. No local fizeram uma enorme valeta onde enterraram todos os cadáveres juntos. Nesse local os antigos terena da aldeia Bananal acharam por bem usar como cemitério da comunidade (relato de Olímpio Serra da aldeia de Argola)." Rondon, muitos anos depois de terminada a Guerra do Paraguai, no ano de 1904, ao demarcar as áreas Terena de Ipegue e Cachoeirinha, reforça o sofrimento do povo Terena na época da Guerra ao apontar em seu relatório a localização da aldeia de Ipegue destruída pelos paraguaios: "...depois (a linha divisória da área de Ipegue cortou um capão com taquara, entrou novamente no cerrado, até uma lagoa seca onde começam os Campos do Ipégue, vendo-se à esquerda 1.000 m., a tapera do Ipégue, antiga Aldeia destruída pelos Paraguaios"...

Uma história sobre Kali Siini
Os Terena também contam as histórias dos heróis de suas aldeias que lutaram na Guerra do Paraguai. Entre esses heróis está Kali Siiní: "Não havia mais líder e o povo começou a fugir. Então Kali Siiní, da aldeia Cachoeirinha, Kali Hoopenó, da aldeia Passarinho e uhaaká, da aldeia Moreira, se juntaram. Os três eram koixomuneti. Eles foram para Cuiabá. Os três queriam ser capitães de suas aldeias: de Passarinho, de Cachoeirinha e de Moreira. Eles haviam fugido do Ângelo Rebuá, o purutuyé bravo de Miranda. E como o Ângelo era bravo, não esperou que os

paraguaios chegassem a Miranda: ele fugiu logo... Ângelo Rebuá era bravo só no meio das pessoas... O pego de Uhaaká era o piê e o peyó de Kali Hoopenó era o gavião. A função de Kalí Siini era cuidar para que ninguém os atacasse pelo fundo do barco onde viajavam. Eu não sei qual era o peyó do Kali Siiní. Eles voltaram de Cuiabá com uma carta. Kali Hoopenó, Uhaaká e Kali Siini, todos os três já eram capitães e chegaram todos vestidos de naatí. (relato de Antônio Muchacho, de Cachoeirinha) Kali Siiní, enquanto lutava contra os paraguaios, preocupava-se com o futuro do povo Terena: Em uma tarde Kali Siiní pegou uma onça. A onça atacou quando Kali Siiní estava brigando sozinho contra os paraguaios. Ele brigava com flecha e lança e é por isso que nós temos esse pedaço de terra. Kali Siiní matou a onça, coureou, fez um manto com o couro e assim chegou à aldeia. Quando ele matou essa onça, fizeram uma festa grande e assaram muita batata e muita mandioca. Quando acabou a guerra, Kali Siini recomendou que a gente não deveria se casar com purutugé, nem falar o português, nem trazer purutugé para a aldeia. Ser sempre Terena e não deixar a meninada sair da aldeia para não perdermos a terra. Todos os anciões se reuniram para o povo não se misturar com o purutgé, para que ninguém saísse. Kali Siini era nosso avô. Ele era baixinho e era koixomuneti. Para seguir a recomendação de Kali Siini todos devem tomar conta da aldeia, não dependendo dos purutugé". (relato de Dona Maravilha, de Cachoeirinha)

ATIVIDADES
1. A Guerra do Paraguai
Sublinhe com lápis, no mapa l, os países que participaram da Guerra do Paraguai. Por que aconteceu a Guerra do Paraguai?

Escreva uma conseqüência da Guerra do Paraguai.

2. Histórias da Guerra: relatos de Taunay
Quem foi Taunay e por que ele foi ajudado pelos Terena da aldeia de Naxedaxe? Pergunte e localize no mapa 4 onde ficava a aldeia de Naxedaxe.

Desenhe, com as informações do texto, como teria sido a aldeia de Naxedaxe.

Por que os koixomuneti são chamados por Taunay de "padres índios"?

3. Histórias da guerra: relatos dos Terena
Como os índios que se refugiaram na serra de Maracaju lutavam contra os paraguaios ? Desenhe uma cena de combate.

Procure saber com seus avós outras histórias sobre a participação dos Terena na Guerra do Paraguai. Escreva no espaço abaixo e conte para seus colegas.

l. A Lei de Terras de 1850 e os povos indígenas
Até 1850 as terras no Brasil eram doadas pelo governo às pessoas de sua confiança. Em 1850 foi decretada a "Lei de Terras" e, a partir desta data, ficou determinado que as terras poderiam ser compradas e vendidas sem precisar de aprovação do governo. As terras tornaramse. então, mais valiosas, porque por intermédio da compra e venda elas poderiam ser transformadas em dinheiro. As terras passaram a dar lucro a seus proprietários, independentemente das benfeitorias nelas existentes. A Lei de Terras tinha como finalidade forçar a colonização de mais ferras e autorizava o governo a vender, por leilão, as terras devolutos, isto é, terras que não possuíam registro de propriedade. Apenas um mês depois da aprovação da Lei de Terras, o Ministério do Império Mandava incorporar como terras devolutas as terras dos índios que já não viviam em aldeamentos.

Muitas terras de posse dos índios foram assim tomadas e vendidas em leilão; justamente daqueles índios que não eram mais "selvagens" e viviam pacificamente com os chamados "civilizados". Esta era uma nova situação da história da propriedade da terra no Brasil e afetou muito a vida dos grupos indígenas. Pela primeira vez o governo do Império estabelecia em lei a diferença entre "índio bravo - índio manso". O "índio bravo" era selvagem porque defendia através das armas a sua terra, e nesse caso o governo reconhecia sua posse. Agora, o "índio manso" não brigava I mais, então podia ser expropriado de sua terra. E esta era a condição I do povo Terena.

2. Os Terena depois da Guerra do Paraguai
A Guerra do Paraguai marcou profundamente a história dos Guaná. I Como vimos, um dos palcos do conflito foi justamente em território deste povo, que aliado dos brasileiros, sofreram ataques e represálias por parte das tropas paraguaias. É quase certo que todas as aldeias então existentes na região dos rios Miranda e Aquidauana desapareceram, com seus habitantes buscando refúgio nas serras de Maracajá e Bodoquena. Quando a Guerra do Paraguai chegou ao fim, em 1870, os Terena começaram a voltar para suas antigas aldeias, destruídas durante os combates. Muitas aldeias haviam sido completamente aniquiladas e nunca mais foram reconstruídas ou recuperadas. O antigo território das aldeias já era disputado por novos "proprietários", em geral oficiais desmobilizados do exército brasileiro e comerciantes que lucraram com a guerra e que permaneceriam na região. Os Terena haviam lutado na Guerra para garantirem os territórios que ocupavam, mas este direito não foi garantido pelo governo brasileiro e a vida do povo Terena seria, a partir daí, bem diferente. Depois de ganhar a guerra contra os paraguaios, o governo brasileiro começou a incentivar a ida de purutuyés de outras regiões do país para Mato Grosso. Assim, o governo poderia controlar melhor a região, guardando a fronteira com fazendas de gado e plantações.

Aqui dois índios Terena que combateram na guerra, com uniformes de oficiais em desuso.

As fazendas começaram a se multiplicar. Na região do Mato Grosso, os Terena viram-se cada vez mais cercados pelas fazendas de gado. Os r e b a n h o s d a s fazendas e s t a v a m s e m p r e destruindo as Plantações dos Terena. A vida nas aldeias ficou muito difícil e boa parte dos Terena foi obrigada a se empregar como trabalhadores nas fazendas.

É por isso que muitos avós que hoje moram nas aldeias nasceram nas fazendas. Os Terena que não queriam se submeter acabavam por sair da região e se refugiaram em lugares mais distantes. Os fazendeiros conseguiam, então, se apossar de mais terras do povo Terena. Os conflitos entre os Terena e os fazendeiros eram constantes. Havia muita exploração dos proprietários brancos sobre o trabalho dos Terena. Um exemplo dos conflitos foi o que ocorreu por volta de 1890. Dois fazendeiros brigavam entre si na região de Miranda. A fazenda Santana, que era disputada pelos dois fazendeiros foi saqueada por um deles, m a s o proprietário resolveu por a culpa nos Terena da região de Cachoeirinha. Por causa dessa acusação, os Terena foram obrigados a trabalhar de graça para o dono da fazenda. O povo de Cachoeirinha se revoltou contra esse fazendeiro e muitas famílias deixaram a aldeia, buscando refúgio em Bananal e na serra do Maracaju. Este período da história do povo Terena é conhecido como os Tempos da Servidão. Os tempos da servidão dos Terena ainda é lembrado nos relatos do povo das aldeias: "Naquela época os Terena se encontravam fora de sua aldeia, trabalhando nas fazendas em condições de quase escravidão. Trabalhavam quase sem remuneração e muitas vezes os fazendeiros simulavam o acerto de contas e diziam, aproveitando-se dos índios: você ainda está devendo, portanto tem que trabalhar mais um ano. E a cada acerto de contas eles repetiam o mesmo." (Genésio Farias) "O pessoal daquela época tinha medo porque ainda se lembrava do patrão que os chicoteava na fazenda. Quem se atrasava para tomar chá de manhã era surrado... foi o finado meu avô quem me contou. Como castigo o pessoal tinha que arrancar o mato com as próprias mãos. Quando a comida estava pronta, eles mediam toda a sua tarefa. Eram quinze braças de tarefa e, mesmo não terminando a tarefa do dia, de manhã mediam outra tarefa, que acumulava." (João Menootó' Martins)

"Meu pai, Belizário Rondon, da aldeia Passarinho, foi cativo da fazenda Sucuri. Para marcar o tempo, era orientado peia lua nova e para acertar a conta com o patrão ele fazia traços na bainha do facão, marcando os dias do mês." (Honorato Rondon da aldeia Passarinho)

3. O govêrno republicano e os povos indígenas
Muitas mudanças aconteceram no país depois da Guerra do Paraguai. Algumas cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro, cresceram rapidamente e surgiram as primeiras fábricas no Brasil. Em 1888, o governo pôs fim ao trabalho escravo e começou a incentivar a vinda de imigrantes da Europa para trabalhar principalmente nas fazendas de café. O café havia se transformado no principal produto de exportação do Brasil. O café era transportado através de estradas de ferro até o porto de Santos, de onde era exportado para outros países. Com parte dos lucros da venda do café, foi possível desenvolver n o v a s técnicas e aperfeiçoamentos nos meios de comunicação. O Governo do imperador D. Pedro II havia também iniciado uma política de instalação de linhas telegráficas. Em 1889, enquanto o povo Terena ainda vivia no tempo da servidão, o imperador D. Pedro II foi tirado do poder por um grupo de militares apoiados por grupos sociais que desejavam mudanças nas leis e na organização econômica do país. O Brasil, então, deixou de ser uma monarquia e se tornou uma república, governada por um presidente. O governo republicano ampliou a política de construção de estradas de ferro e de linhas telegráficas para melhorar a comunicação e o transporte entre o litoral e o interior do país e fortalecer seu controle sobre todo o território brasileiro. As estradas de ferro facilitavam também o transporte de produtos para os portos do Oceano Atlântico, de onde eles seriam exportados para países distantes. A instalação de linhas de telégrafo, ligando o litoral ao interior do país, fazia parte das grandes transformações promovidas pelo governo.

O telégrafo era o meio de comunicação à distância mais rápido e moderno que existia naquela época. Em 1888, um ano antes da República ser proclamada, o imperador D. Pedro II criou a Comissão Construtora de Linhas Telegráficas. o objetivo dessa Comissão era instalar linhas de telégrafo por todo o interior do Brasil e sua primeira missão foi levantar os postes telegráficos da cidade paulista de Franca até a cidade de Cuiabá no Mato Grosso. O governo republicano continuou a instalar os postes telegráficos na região do Mato Grosso. Em 1900 foi organizada uma Comissão para ligar o trecho do telégrafo de Cuiabá até a fronteira com a Bolívia e o Paraguai. Essa Comissão foi liderada por Cândido Mariano da Silva Rondon, que já havia participado de outros trabalhos de construção da linha telegráfica. A construção desse ramal do telégrafo exigia muita mão-de-obra e Rondon passou a convencer os índios para ajudar nos trabalhos de instalação da linha.

"O poste telegráfico vai abrindo caminho à civilização. E. neste caso, duplamente, os operários que o erguem são quase todos recrutados entre os indígenas locais."

Os primeiros índios que participaram dos trabalhos da comissão foram os Bororó. Quando a linha telegráfica chegou à margem do rio Taquari, os Bororo não quiseram mais continuar seu trabalho. Dali para frente, disseram eles, estava o território dos Guaicuru e dos Terena. E, a partir daquele momento, o trabalho dos Bororo foi substituído pelo dos Terena, que participaram das atividades da Comissão até o final. Essa época ainda faz parte da memória dos mais velhos das aldeias: "Quando o finado Marechal Rondon passou por aqui, meu tio mais velho foi com ele. Meu tio se chamava José Henrique. E tinha outro tio meu que acompanhou o Marechal Rondon quando ele passou na terra de Cachoeirinha. Ele se chamava José Marques e era cozinheiro lá onde eles acampavam. Eles passavam na região de Cáceres, Barra dos Bugres, pra lá de Cuiabá, onde meu tio passou acompanhando a medição da terra. Esse era o serviço de meu tio. Rondon gostava muito de andar com José Henrique, meu tio mais velho, porque ele trabalhava muito bem..." (relato do sr. Félix da aldeia de Cachoeirinha) Nas palavras de Rondon, esse tempo de pós-guerra, o tempo da servidão, é assim descrito: "Os Terena são comumente explorados pelos fazendeiros. É difícil encontrar um camarada Terena que não deva ao seu patrão os cabelos da cabeça... Nenhum "camarada de conta" poderá deixar o seu patrão sem que o novo senhor se responsabilize. E, se tem ousadia de fugir, corre quase sempre o perigo de sofrer vexames, pancadas e não raras vezes a morte, em tudo figurando a polícia como co-participante em tais atentados"

4. A Estrada de Ferro Noroeste do Brasil
Depois da Guerra do Paraguai, dois fatos significativos marcariam a história dos Terena, a criação do Serviço de Proteção aos índios/SPi e a construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, esta última responsável direta pelo aumento da população da região sulmatogrossense. O número de habitantes cresceu cinco vezes mais em poucos anos. Em 1904, quando a linha telegráfica até a fronteira com a Bolívia ainda estava sendo construída, foi fundada a Companhia Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Essa Companhia, que foi criada com dinheiro brasileiro, francês el belga, tinha o objetivo de construir uma estrada de ferro ligando a cidade de Bauru, no estado de São Paulo, à cidade de Corumbá, em Mato Grosso. A cidade de Corumbá foi escolhida por estar na fronteira com a Bolívia. O governo brasileiro ainda estava levando adiante o projeto de fortalecer as fronteiras no sul de Mato Grosso. Depois de pronta, essa ferrovia seria ligada a outra estrada de ferro que já estava sendo construída e ligava a cidade de Bauru ao porto de Santos. Com a Estrada de Ferro Noroeste, o sul do Mato Grosso teria um caminho seguro até o mar. O trem também levaria com rapidez os produtos de Mato Grosso para o litoral. Isso faria com que mais purutuyés fossem para a região da fronteira com o Paraguai e Bolívia criando fazendas e cidades. Em 1905 começou a construção da Estrada de Ferro Noroeste. Seus trilhos eram instalados ao mesmo tempo em Mato Grosso e em São Paulo, e se encontrariam no meio do caminho. De Corumbá, a estrada de ferro passaria por Porto Esperança, Miranda, Aquidauana, Campo Grande, Três Lagoas, Araçatuba, Penápolis, até chegar a Bauru. Os Terena que já haviam participado da instalação da linha telegráfica, trabalharam na construção do trecho Mato Grosso da ferrovia, juntamente com os purutuyé pobres. No trecho paulista os trabalhos tiveram que ser suspensos por um bom tempo por causa da resistência do povo Kaingang contra a invasão de seu território. Os Kaingang já estavam em guerra contra os fazendeiros de café quando a ferrovia começou a ser construída. Fazendeiros que queriam plantar café nas terras dos Kaingang estavam invadindo o território desse povo.

A construção da estrada de ferro fez esse conflito ficar mais violento porque os trilhos da estrada d e ferro p a s s a v a m dentro do território Kaingang. Os Kaingang começaram a atacar os trabalhadores da ferrovia, que t a m b é m m a t a v a m o s Kaingang sempre que tinham a oportunidade.

Funcionários do SPI foram mandados para o território dos Kaingang tentar fazer um acordo de paz. Em 1912 um primeiro grupo de Kaingang liderado pelo cacique Vauhin, fez a paz com o pessoal do SPI. Depois dele, outros grupos começaram a depor suas armas. Com o tratado de paz, os Kaingang foram aldeados em reservas muito pequenas, perdendo a maior parte de s u a s terras para os fazendeiros. Nos anos seguintes, a maior parte desse povo morreu de doenças transmitidas pelos brancos. Com o fim da resistência dos Kaingang, a ferrovia seguiu em direção a Mato Grosso, encontrando-se, em 1917, com o trecho construído, com a participação dos Terena, a partir de Porto Esperança. Muitos dos Terena que trabalharam na construção da Estrada de Ferro Noroeste ficaram na memória dos mais velhos:
"Os trabalhos da ferrovia foram feitos praticamente pelos índios. Muitos morreram pelos vários acidentes que aconteceram no período de construção da estrada de ferro. Da aldeia Cachoeirinha participaram José Benedito, Elias Antônio, Félix Candeia e muitos outros. Segundo eles foi um trabalho difícil, arriscando a própria vida na região do Pantanal, onde existem muitos animais selvagens. Félix Antônio, Úli Terena, lembra que participou da construção da ponte do rio Paraguai e quando chegou na cidade de Corumbá, foi realizada uma festa, comemorando a realização do trabalho."

ATIVIDADES
1. A Lei de Terras de 1850 e as terras indígenas
Explique com suas palavras o que foi a Lei de Terras de 1850 e escreva nas linhas abaixo.

Por que as populações indígenas foram prejudicadas pela Lei de Terras de 1850?

2. Os Terena depois da Guerra do Paraguai
Por que o governo incentivou a ida dos purutuyé para Mato -Grosso?

Quais a mudanças que ocorreram com os Terena depois da Guerra do Paraguai?

Escreva sobre algum tipo de conflito entre os Terena e os fazendeiros.

por que este período da história do povo Terena é lembrado como Tempos da Servidão?

3. O governo republicano e os povos indígenas
Qual a diferença entre Monarquia e República?

Quando o Brasil tornou-se uma República?

Qual a importância da construção das ferrovias e das linhas de telégrafo no final do século XIX e início do século XX para o Brasil?

Escreva sobre o tipo de participação dos Terena na construção das linhas de telégrafo.

4. estrada de ferro Noroeste do Brasil
por que nove conflitos entre o governo e os Kaigangs na época da construção da Noroeste do Brasil?

Escreva um benefício que a ferrovia Noroeste do Brasil trouxe para os Terena.

Capítulo V

O Território dos Terena

Esta é a foto da 1ª entrada de Rondon no sertão. 1890

1. O Serviço de Proteção aos Índios.
No início do século XX o governo republicano foi obrigado a se ocupar dos problemas das populações indígenas. Vários povos indígenas se recusavam a ser dominados pelos brancos. E houve muitos confrontos. Muitos grupos indígenas foram exterminados na luta para manter sua independência. Nessa época alguns dos choques entre índios e invasores de seus territórios começaram a ser denunciados pelos jornais, principalmente devido à atuação dos "bugreiros", matadores profissionais de "bugres", como eram chamados os índios por essas pessoas. Os matadores de índios eram contratados por agências para "limpar o terreno" para facilitar a posse das terras por fazendeiros e para a especulação da terra. Esses conflitos começaram a aparecer nos jornais das capitais do país e também no noticiário internacional.

Os Bugreiros

Essas notícias provocaram, até 1910, muitos debates em torno da I "questão do índio", envolvendo intelectuais (advogados, militares, I engenheiros, cientistas), políticos e religiosos que apoiavam muitas vezes os interesses das populações indígenas. Como a situação se agravava, o governo da República precisava criar uma política para resolver os problemas com os índios. A primeira Constituição da República, de 1891, não trazia nenhuma referência aos grupos indígenas, mas a ocupação mais intensa dos purutuyé nos estados de Mato-Grosso e os da região Amazônica obrigava o governo a pensar em novas formas de relação com os diferentes grupos indígenas. O governo precisava criar uma política para resolver o "problema indígena". Era difícil estabelecer uma política que fosse aceita por todos. Havia pessoas que queriam simplesmente exterminar os grupos indígenas

rebeldes à presença do purutuyé. Outros achavam que os índios deveriam ser transformados em trabalhadores, substituindo a mão-deobra escrava nos trabalhos com as lavouras e criação de gado. Havia também discordâncias em relação à educação e controle das populações indígenas. Uns defendiam que a educação deveria ser realizada pelos missionários religiosos. Mas, havia outros que achavam melhor que o governo criasse um órgão especial, sem ligações com a Igreja, para tratar dos assuntos relacionados aos índios. O problema maior do governo era estabelecer o direito dos índios ao seu território. Ficou decidido que os índios teriam suas "reservas" delimitadas e controladas por funcionários do governo. Essas reservas quase sempre foram menores que os territórios anteriormente ocupados por cada nação indígena. E os índios não podiam opinar. Essa proposta de política em relação aos índios começou a ser praticada a partir de 1910, com a criação do Serviço de Proteção aos índios e Localização de Trabalhadores Nacionais (SPI-LTN). Rondon foi escolhido para fundar e dirigir o futuro SPI devido a seu trabalho na Comissão das Linhas Telegráficas. Nesta condição, Rondon, usando de meios não violentos, havia conseguido que muitos povos indígenas que contatou durante os trabalhos de ligação telegráfica permitissem a passagem da linha em seus territórios. Rondon impôs ao SPI as seguintes linhas de atuação: • "pacificar" o índio arredio e hostil, para permitir o avanço dos purutuyé nas zonas pioneiras, isto é, recém abertas para a colonização. • demarcar suas terras, criando "reservas indígenas", lotes de terra sempre inferiores aos territórios anteriormente ocupados pelos índios. A justificativa é que "pacificados" não precisavam mais "correr de um lado para outro". • educar os índios, ensinando a eles técnicas de agricultura, noções de higiene, as primeiras letras e ofícios mecânicos e manuais para que pudessem sair da condição de índio bravo e serem transformados em trabalhadores nacionais. • proteger os índios e assisti-los em suas doenças.

2. A criação cias áreas Terena.
Os Terena nunca aceitaram a servidão nas fazendas e chegaram algumas vezes a se rebelar contra os fazendeiros. Mesmo vivendo fora das aldeias, espalhados pelas fazendas, os antigos nunca se esqueceram que eram Terena, continuando a falar a língua e a sonhar em voltar para suas terras. Algumas poucas famílias Terena conseguiram se manter em pequenos núcleos próximos às fazendas que aumentavam cada vez I mais em Mato Grosso. Foram estes núcleos que os integrantes da Comissão das Linhas Telegráficas, chefiada por Cândido Rondon, encontraram em 1904. Os Terena aproveitaram o trabalho junto a Rondon, quando da instalação das linhas telegráficas, para solicitar-lhe que o governo lhes garantisse a posse de suas terras. Por meio de acordos com os fazendeiros que tinham ocupado terras de forma ilegal, Rondon conseguiu que o governo de Mato Grosso, por meio de decretos, "reservasse" aos índios glebas de terra. Tendo Rondon como intermediário, algumas comunidades, como Cachoeirinha e Bananal/Ipegue, tiveram suas terras demarcadas em 1905 e mais tarde, em 1911, foram reconhecidas pelo SP1. A história da criação destas primeiras reservas é assim lembrada: "Meu pai foi pra lá de Nioaque. Meu pai morou lá e eu e meus irmãos nascemos lá. Eu tinha seis irmãos e três irmãs. Então chegou a notícia do Marechal Rondon. O gerente da fazenda lá de Nioaque avisou meu pai que tinha notícia de que Rondon iria juntar os índios e o fazendeiro tinha que perdoar quem estivesse com dívidas. Era para juntar porque tinha um pedaço de terra para a gente. E então viemos para cá e moramos aqui. Eu tinha dez anos quando chegamos aqui e os outros que vieram comigo eram adultos." (Relato de Antônio Muchacho, aldeia Cachoeirinha) Quase todas as demais áreas Terena, foram delimitadas no tempo do SPI. O tamanho das áreas demarcadas pelo antigo SPI era muito menor do que era o território ocupado pelos Terena antes da Guerra do Paraguai

I

por isso os índios continuaram a trabalhar nas fazendas como mão de obra. Não foi respeitada a idéia de território. A forma de organizar o território pelos Terena, ou seja, a organização do espaço das moradias, das plantações, das cerimônias e demais atividades, não foi respeitada pelos administradores do SPI.

3. Os Terena e os problemas com o SPI
O SPI instalou um posto em Cachoerinha em 1918, com o propósito de proporcionar aos Terena um apoio conforme o que pretendia Rondon. Mas logo essa "proteção" foi sendo transformada em perda de direitos e de autonomia política dos Terena. Rondon pretendia que cada povo indígena tivesse um representante que pudesse ser o interlocutor legítimo para os assuntos externos à aldeia e nomeou com o título honorífico de "capitão" o chefe Terena que comandava Cachoeirinha naquela época, Benedito Polidoro. Porém, passados alguns anos, o funcionário chefe do posto do SPI passou a interferir na escolha do "capitão". O "encarregado do posto", em pouco tempo, passou a interferir em praticamente todos os aspectos da vida Terena: da mediação de conflitos internos entre famílias, guarda dos registros das ocorrências civis (nascimento, casamento e óbitos) e até dos contratos de trabalho. O encarregado do posto criou até uma "guarda indígena" para a manutenção da "ordem", para que os Terena não pudessem fazer protestos. O SPI mostrava para os Terena, que ali, nas reservas indígenas, eles viviam por concessão, como se o governo estivesse fazendo um favor. E, assim o futuro do povo Terena, passou a ser orientado por um purutuyé. Os Terena passaram a ser considerados importantes apenas como mão-de-obra para as empresas agropecuárias da região e o chefe de posto do SPI era quem organizava o trabalho para os fazendeiros. Na década de 50 os dados colhidos por um antropólogo chamado Roberto Cardoso de Oliveira, em Cachoeirinha mostraram que das 127 famílias que constituíam a aldeia em 1957, apenas 19 famílias (17%) viviam exclusivamente da agricultura interna e artesanato, enquanto 58 famílias (46%) viviam exclusivamente do trabalho externo, e outras 50

famílias (37%) combinavam o trabalho em suas roças com o trabalho esporádico externo. Muitos Terena começaram a ir para as cidades em crescimento a partir do final dos anos 50. A saída dos Terena de suas aldeias para as cidades acontecia porque havia um crescimento da população nas reservas e a falta de "futuro" nelas. Em 1960, Roberto Cardoso de Oliveira constatou que haviam 418 Terena morando em Campo Grande.

4. A FUNAI e a situação atual.
O espaço das "Reservas" era insuficiente porque para o SPI o futuro dos Terena, assim como para os demais grupos indígenas, era abandonar sua cultura para trabalhar como mão-de-obra nas lavouras e fazendas dos grandes proprietários ou ainda mudar-se para as cidades, integrando-se ao modo de vida do purutuyé, abandonando sua língua, costumes e tradições. O SPI não estava preocupado em criar condições para favorecer o desenvolvimento das áreas dos Terena, nem incentivar e favorecer o aumento de suas plantações, para que pudessem ter produtos para realizar comércio, obter autonomia financeira e ter condições de ficar mais independentes dos "favores" dos brancos. No período da ditadura militar, que teve início com o golpe de Estado de 31 de março de 1964, o SPI encerrou suas atividades, havendo na época várias denúncias de corrupção, inclusive de venda ilegal de terras indígenas. O SPI foi substituído pela Fundação Nacional do Índio - FUNAI, criada em 1967. O chefe do posto da FUNAI herdou do seu antecessor do SPI o mesmo poder. Contudo, com o aumento da procura da mão-de-obra para as usinas de cana, o chefe do posto, com a concordância do "capitão", passou a cobrar uma taxa dos intermediários das usinas (os chamados "gatos") para cada índio contratado. O dinheiro assim arrecadado era para ser utilizado na "manutenção" de algumas das necessidades do posto. A administração da "changa" (como é chamado regionalmente o trabalho temporário nas fazendas e usinas de açúcar) passou a ser um

dos principais - senão o principal - papel desempenhado pelo núcleo de poder na reserva (chefe PI, capitão e membros privilegiados do Conselho). Mas a "changa" não é s o m e n t e uma fonte de renda para determinados membros da aldeia; hoje ela se tornou importante para resolver o problema da sobrepopulação nas reservas - sobretudo para a imensa maioria dos jovens. Estes jovens, que integram 90 % dos "changueiros", se encontram em um momento difícil. Eles sabem que a changa é o único destino que lhes é reservado, caso queiram construir suas vidas nas aldeias. Sabem também que, com pouca escolarização, estarão competindo em condições de extrema inferioridade num mercado de trabalho nas cidades. A possibilidade de sobrevivência, como atestam muitos dos Terena que saíram das reservas Bananal/Ipegue e Buriti e foram para a cidades, é como prestadores de serviços, trabalhando como empregados domésticos, empregados de comerciantes ou como mão-de-obra para serviços gerais. Veja o que pensam, em 1999, alguns jovens da aldeia Cachoeirinha quando interrogados sobre o futuro: "- Você tem vontade de trabalhar na cidade?
- Eu tenho vontade de trabalhar foro.

- E por que você quer ir trabalhar fora? - Quero fazer minha vida. Construir minha vida." (Salmir de Albuquerque/18 anos) "- Você já saiu para trabalhar fora ?
- Já. Cortando cana.

- Quantas vezes você já fez changa? Você achou ruim?
- Já fui 2 vezes e achei bom, é bom trabalhar.

- Você tem vontade de sair fora da aldeia?
- Tenho, falta trabalho aqui. Aqui não tem trabalho não. É por isso e eu quero cair fora.

- E por que você não vai? - Tem a mãe e eu não tenho estudo. Só fiz até a sétima série." (Nivaldo Albuquerque/23 anos)

Embora existam muitas explicações que podem justificar a saída dos Terena de suas reservas, é importante reconhecer que existe falta de uma área suficiente para a população. Atualmente os Terena aldeados vivem em pequenas "ilhas" de terra e s p a l h a d a s em municípios s u l - m a t o g r o s s e n s e s c o m o Miranda, Aquidauana, Anastácio, Sidrolândia, Dois Irmãos do Buriti e Nioaque também há famílias Terena vivendo em aldeias no estado de São Paulo, para onde foram levadas pelo extinto SPI. Cercadas por fazendas de gado, as áreas Terena podem ser caracterizadas como reservas de mãode-obra para fazendas e usinas, uma vez que a falta de terras cultiváveis obriga o Terena, tradicionalmente um excelente agricultor, a empregar sua força de trabalho em atividades fora da área indígena. Nos últimos anos, importantes segmentos das comunidades Terena vêm se mostrando preocupados em reverter essa situação. Quando os Terena solicitaram a demarcação do território, não estavam pedindo um presente do governo ou de Rondon. O povo Terena havia enfrentado o exército paraguaio para proteger suas terras. A demarcação das áreas Terena foi a confirmação de um direito muitas vezes conquistado no decorrer da sua história. É sobre esse direito que falam os mais velhos:
"Por que nós temos essa terra? Porque nós salvamos o tal da cidade. Por isso nós ganhamos essa terra, quando nós ganhamos a guerra contra os paraguaios. Eu não alcancei essa época, mas eu sei porque ouvi dos finados meus avós."

"Esse vermelho do Bate-Pau é o sangue de nossos avós, dizia meu avô. Por isso nós temos essa Cachoeirinha: por causa do sangue de nossos avós." "Os nossos avós combateram na guerra contra os paraguaios. Os paraguaios queriam tomar esse nosso lugar, mas não conseguiram porque aqueles nossos avós de antigamente se armaram com arco e flecha." E por esse direito as terras reconhecidas deveriam ter sido muito maiores. A própria FUNAI reconhece esse direito. Desde 1984 há uma portaria da FUNAI que elege todas as áreas Terena, com exceção de Buritizinho, Limão Verde e Nioaque, como passíveis de ampliação de área. Desta forma, a FUNAI também não resolveu o problema mais importante da vida dos Terena: o direito à terra para que toda a população possa viver com dignidade. E autonomia. Atualmente a busca de soluções para os problemas enfrentados pelo povo Terena é uma constante preocupação das autoridades Terena que têm consciência da necessidade de se buscar novas alternativas no relacionamento com a sociedade nacional e no usufruto pleno de seus territórios.

ATIVIDADES
Por que o governo republicano criou o SPI?

Escreva um dos objetivos do SPI

por que e quando o SPI foi fechado?

Quais as mudanças que aconteceram com a criação da FUNAI?

por que os jovens Terena têm que trabalhar na "changa"?

Escreva sobre os direitos do povo Terena.

Capítulo VI

Cotidiano nas aldeias: ontem e hoje

A história cio povo Terena tem sido de mudanças no seu modo de viver. Os diferentes contatos que estabeleceram no decorrer de sua história com povos diversos como os Guaicuru, portugueses e brasileiros fez com que muitos costumes e hábitos de vida tenham se transformado. O trabalho e as relações com a terra e seus produtos, as construções das casas, as vestimentas, os alimentos e muitos outros hábitos do cotidiano têm mudado. Mas existem características de vida que são mantidas e permanecem, comprovando a resistência dos Terena em manter sua identidade como povo. A língua, festas, relações familiares e políticas, o artesanato, entre outras manifestações da cultura, são exemplos da manutenção das características dos Terena. Conhecer e refletir sobre as diferentes manifestações culturais da vida cotidiana é importante para o estudo da história do povo Terena. Uma história que tem sido marcada por permanências e mudanças.

índios Guaná. Hércules Florence.

1827.

1. Vestuário
Fernando Altenfelder, um antropólogo que visitou as aldeias Terena por volta de 1940, estudou os relatos escritos dos purutuyé do século passado e recolheu depoimentos de informantes Terena. Baseado nesses documentos, Altenfelder comentou que entre os antigos Terena, "O vestuário mais comum era o xiripá. um saiote que ia da cintura até os joelhos. Em tempo cie guerra usavam um xiripá bem curto, de cor preta. Ainda era assim em 1845. O cabelo era puxado para cima e amarrado atrás da cabeça. Usavam alpercatas de couro com uma tira que descansava no peito do pé. Costumavam depilar inteiramente o corpo, excepção do

Mulheres Terena na década de quarenta.

crâneo, e esta operação estava ligada a crenças mágicas. Durante o inverno protegiam-se do frio com camisas sem mangas repenoti). tecidas de algodão... Usavam colores. pulseiras, e enfeites para a perna. Esses adornos eram feitos pela ligação de sementes, contas ou dentes e ossos de animais, com fios de algodão; os braceletes eram, às vezes, de ouro e prata, possivelmente obtidos dos Mbayá. Nas festas usavam diademas de penas vermelhas e saiotes de plumas de ema. As penas de papagaio, amarelas, somente os chefes podiam usar, pois o papagaio era considerado um "chefe"; o uso da pena de papagaio significava que um inimigo havia sido morto em combate. Na guerra, o chefe de guerra (chuná acheti), vestia uma capa de pele de onça."

Ainda segundo Altenfelder, a pintura do corpo era indispensável nas danças e festas. Pintavam o corpo com riscas, em branco e preto e utilizavam-se do jenipapo e do carvão vegetal. Um dos viajantes que visitou os Terena no século passado, descreveu assim a pintura dos Terena:
"Os desenhos são feitos de uma excessivo fineza e apresentam uma harmonia e uma delicadeza que é impossível de se descrever"

Sobre o cuidado com o corpo e as roupas Taunay fez a seguinte descrição:
"É também comum à todos os índios do distrito o hábito da mais apurada limpeza: lavam o corpo três ou quatro vezes por dia; quer faça calor ou frio ou haja bom ou mau tempo. As mulheres cuidam muito da alvura dos panos e procuram sempre andar muito limpas..."

E ele também escreveu que:
"É geral, a todos os índios aguçarem os dentes, em finas pontas"

Descreva como são os Terena hoje. Em que os Terena diferem na aparência, no modo de vestir e de se comportar, dos purutuyé?

Desenhe baseado nas informações acima, as vestimentas dos Terena de antigamente.

Você leu sobre Kali Siini na parte que trata da Guerra do Paraguai. Os mais velhos contam que ele chegou com uma pele de onça nos ombros Ele seria um "chefe de guerra"?

Desenhe alguns dos motivos que são usados nas pinturas do corpo & dos enfeites da dança do bate-pau. Que tinta é usada nestas pinturas?

2. Moradia

Esta é uma fotografia de 1942 de uma casa Terena da aldeia de Cachoeirinha. A foto mostra os materiais que eram utilizados na construção das moradias e as técnicas de construção. Altenfelder escreveu que os antigos Terena moravam em casas que, em geral, eram longas e de teto arqueado. Eles construíam casas com telhados de duas águas, os quais desciam até as proximidades do solo, descansando sobre paredes de cerca de l, 60 cm de altura; no centro e nos extremos, três postes sustentavam uma viga central sobre a qual se apoiavam caibros e ripas. A cobertura era feita de sapé ou folhas de acurí. As casas eram de forma retangular, e as paredes da frente e dos fundos se apresentavam inclinadas para o interior, no alto. Segundo afirmam alguns informantes, as portas eram simples aberturas, sem outra proteção. As roças, cované, eram feitas por detrás das casas.

Em cada casa viviam várias famílias obedecendo a um chefe. Os Terena habitavam aldeias, oneo, onde as casas se distribuíam em círculo ao redor de uma praça central none-ovocuti. Não havia distinção especial no tocante à casa do chefe da aldeia, nem parece ter havido distribuição especial com referência à localização das metades tribais (Xumonó e Sukirikiano). A aldeia constituía uma unidade política, mas a unidade econômica era a família (a qual abrangia pais, filhos, genros e escravos); a posse de escravos, os Kauti, significava auxílio na guerra e no preparo das plantações.

Você sabe o nome dos materiais utilizados na construção da casa da fotografia de 1942 da aldeia de Cachoeirinha?

Compare agora as casas da sua aldeia com as casas de antigamente, de acordo com uma descrição feita por Altenfelder, de como moravam os antigos Terena.

Desenhe, com as informações dadas pelo texto acima, como seria uma antiga aldeia Terena e compare com a que você mora. Procure construir, em miniatura, uma casa tradicional.

Antigamente "as portas eram simples aberturas, sem outra proteção",E hoje, esta afirmação continua sendo verdadeira? Por que os Terena necessitam de portas trancadas?

Por que o autor afirma que a "unidade econômica" era a família? A família Terena ainda permanece organizada desta forma?

Pergunte aos mais velhos se eles concordam com a afirmação de Altenfelder sobre os Terena utilizarem-se do trabalho dos Kauti no preparo das plantações e na guerra.

Leia em outros livros e compare a escravidão dos brancos sobre os índios e negros com o sistema de cativos dos Terena.

Leia agora sobre o interior das casas dos antigos Terena: Os Terena dormiam sobre jiraus. A plataforma era recoberta com trançados de bambu e couro. Sobre essa armação estendiam-se peles de animais. Não possuíam mesas e nem bancos. No passado eles sentavamse em esteiras de piri, hiturí. Tapetes de pele, panketi, eram usados no passado. Por esse tempo, embora possuíssem o algodão e conhecessem a técnica de tecer, não usavam redes que só adquiririam mais tarde. Os recipientes variavam das cabaças e potes de barro aos trançados de fibras vegetais e cestaria. Os alimentos pendiam do teto ou das paredes; cabaças cortadas ao meio, de vários tamanhos, serviam para guardar água e mel; potes de barro, cestos e bolsas de fibras, pendentes das paredes, completavam o mobiliário. No interior das casas os antigos Terena guardavam ainda peles de animais, armas (arco, flecha, lança, clava e o arco de duas cordas, o bodoque), utensílios (foice, machado - inicialmente de pedra, bastão de cavar), fusos, material para fiar, bem como presas de guerra, enfeites de plumas e material para pintura. O fogo era produzido pela fricção de duas varetas e a maioria dos alimentos era cozida.

Moças Terena descansando em cima do jirait.

Descreva o interior de uma casa Terena atual. Quais são os objetos móveis e utensílios encontrados no seu interior?

Identifique os objetos que aparecem no texto acima e que ainda são utilizados nos dias atuais.

Compare o uso da água e do fogo antes e agora.

3. As artes: cerâmica, cestaria e tecelagem
Nas casas dos antigos Terena, conforme o relato e a foto anterior, havia muitos objetos de cerâmica e cestaria. A fabricação dos vários objetos era feita pelos homens e pelas mulheres. No mito dos gêmeos Yurikoyuvakái, o herói civilizador dá aos homens as armas e os instrumentos agrícolas, e, às mulheres, o fuso, justificando assim a divisão do trabalho masculino e feminino. Se a limpeza da roça e o preparo da terra eram tarefas masculinas, às mulheres cabiam as tarefas de fiação, a cerâmica e cuidados caseiros. Na fiação, tarefa feminina, empregavam-se fibras de algodão, de palmeiras e de um arbusto denominado yuhi. Para fiar o algodão, deixavam-no por alguns dias mergulhado na água. Com esse tratamento

Mulher Terena fiando algodão nativo.

as fibras de yuhi, eram facilmente separadas e depois de secas eram fiadas com o auxílio do uosso-copeti. Com as fibras de yuhi faziam dois tipos de bolsas; uma pequena, uerii, para guardar frutas, pequenas cabaças e outros objetos; e outra maior, nimaquê, para o transporte de mandioca e outros produtos da roça para as moradias. Faixas de algodão, denominadas héo-eti, eram utilizadas para prender os xiripá, amarradas à cintura.

Moça Terena preparando seu enxoval 1957. Na página ao lado, mulher Terena tecendo rede para dormir.

Folhas cie Carandá expostas ao sol para secar, empregadas na confecção cie chapéus de palha e abonos.

Há relatos também sobre a fabricação de cestos e abanicos de carandá ou de piri ou ainda de bambu. Os cestos eram utilizados para guardar e transportar alimentos. Cestos especiais eram feitos para transporte de crianças. Estes últimos eram adaptados às costas das mulheres e presos à cabeça por meio de faixas de algodão.

E as mulheres Terena de sua aldeia continuam tecendo? Por que a tecelagem é uma atividade quase em desuso na maioria das aldeias?

Antes, as mulheres Terena, como descreve o texto, carregavam os filhos nas costas, aconchegados em um cesto próprio. E hoje, como as mulheres carregam seus filhos?Continua existindo uma maneira Terena, diferente da maneira dos purutuyé, de carregar os filhos? Faça um desenho.

Antigamente os homens faziam seus arcos, flechas, lanças, instrumentos agrícolas, de pesca, faziam cestos e abanicos, etc... , e hoje, quais são os artefatos produzidos pelos homens Terena?

índia Terena fazendo pote de barro.

As mulheres Terena, segundo vários relatos, sempre conheceram e empregaram o processo de espirais de argila para fabricação de potes e panelas. Um cientista, de nome Richard Rohde, que dirigiu uma missão científica no Brasil no ano de 1883-84, contou que, quando a peça estava pronta, os Terena faziam incisões no barro ainda mole com uma corda, formando o motivo, e a peça era deixada depois para secar ao sol por uns dias e depois cozida. Depois a louça era retirada e pintava-se o modelo com a resina do pau-santo, com a peça ainda em brasa. Mais tarde com a louça já fria, o desenho era terminado com as cores vermelho e branco.

Mulher Terena pintando peças de cerâmica.

Um outro purutuyé, Kalervo Oberg, que esteve entre os Terena em 1949 escreveu que os potes Terena, depois de queimados, eram decorados com a cor preta para a qual era usada a resina de jatobá.
Queimando cerâmica.

Queimando peças de cerâmica depois de pintadas.

A cerâmica continua sendo uma atividade realizada somente pelas mulheres?

Na sua aldeia as mulheres ainda continuam fabricando a cerâmica? As peças fabricadas são vendidas ? Onde? Por quem?

As fotos apresentando a cerâmica são de épocas diferentes; que mudanças você pode observar nas peças? Por que, no decorrer do tempo, as ceramistas mudam o formato e o tamanho das peças?

para a fabricação da cerâmica, as mulheres continuam utilizando a mesma técnica que suas antepassadas?

Quais são as principais dificuldades que as mulheres Terena enfrentam para fabricar a cerâmica ? E para a sua comercialização?

Que outras atividades são realizadas pelas mulheres, além destas atividades femininas tradicionais, que são a tecelagem e a cerâmica?

Desenhe alguns dos motivos usados pelas mulheres para enfeitar a cerâmica.

4. Culinária

Observando a foto, você saberia dizer o que estas mulheres estão preparando? O texto abaixo, baseado nas informações de Altenfelder, conta um pouco sobre as comidas dos antigos Terena e o modo de prepará-las. Leia. "Das principais plantas cultivadas pelos antigos Terena cabe mencionar como mais importantes o milho, a mandioca, o fumo, a batata doce, o algodão, o cará e várias espécies de abóboras. Os Terena conheciam diversas variedades de milho: o milho amarelo, huanketi'soboró; o milho branco, heopuiti-soboró; o milho de grãos mistos, cuati soboró. Uma outra variedade, de "espiga longa e grão muito macio", era denominada de soboró, simplesmente.

Peneirando farinha de mandioca.

As espigas eram colhidas ainda verdes e tostadas ao fogo, ferventadas ou ainda esmagadas para o preparo de pequenos bolos denominados chipa. O milho era ainda utilizado no preparo de bebidas fermentadas. Embora desconhecessem o processo de fabricação da farinha de mandioca, que só mais tarde vieram a dominar, os antigos terena teriam cultivado a mandioca brava, suáiti-tchupú, a par com as variedades não venenosas, echoti-tchupú. A mandioca mansa era comida cozida ou assada. As variedades venenosas eram utilizadas na fabricação de bolinhos, denominados hihi, ou de bolos maiores, hapape. Depois de raspada a casca da mandioca brava com facas de madeira, peritau, esmigalhavam o miolo em raladores de madeira. A massa assim obtida era envolvida em tecidos de algodão, que eram retorcidos com o auxílio de varetas de madeira. Libertada do caldo venenoso a massa era cozida em panelas de barro até perder o sabor amargoso. A mandioca mansa era muitas vezes cozida de mistura com pedaços de carne ou peixe moqueado." A batata doce, coé, era cultivada no Êxiva pelos Terena, que afirmavam haverem conhecido as seguintes variedades: branca, heopuiti-coé; amarela, huanketí-coé; roxa, haraiti-coé. A batata era comida assada diretamente nas cinzas ou ferventada. Havia ainda uma terceira maneira de prepará-la. O processo consistia em fazer um buraco no solo, enchê-lo de lenha e atear fogo; lançava-se a batata sobre o braseiro e recobria-se o buraco com terra, deixando-o assim por um dia ou mais. O forno subterrâneo era chamado de xuiupu-peno-uti-coé.

Os Terena hoje continuam preparando estas comidas? Quais as comidas dos antigos que ainda são feitas nas aldeias?

Qual é a alimentação básica dos Terena hoje?

Quais são as diferenças entre o que se come hoje nas aldeias e o que os purutuyé comem?

Quais seriam os alimentos que os purutuyé aprenderam a comer com os Terena?

5. Roça, pesca, coleta, caça e criação
. •

A agricultura continua sendo a atividade econômica mais importante para os Terena? Quais são as plantas mais cultivadas hoje pelos Terena?

Homens Terena colhendo feijão,

1998.

Terena marcando

gado,

derrubando

bezeni

Em que época os Terena começaram a lidar com o gado?

Hoje em dia a criação de gado é uma atividade importante para os Terena? Na sua aldeia existem muitos criadores de gado?

Os Terena mais velhos contam que, quando ainda no Êxiva, costumavam caçar, entre outros, a onça, o veado do campo, o veado mateiro, a anta e o jaó. A carne da caça era tostada diretamente no braseiro ou moqueada, o que faziam também com o peixe. Mencionam ainda os Terena uma cobra d'água, denominada tié, bem como caramujos d'água, coeió, os quais constituíam parte de sua dieta. Os Terena ainda caçam? Como? Quais são os animais que ainda são encontrados dentro da área?

Por que a caça diminuiu?

Escreva alguma história sobre animais que são contadas em sua aldeia.

E a pesca é ainda uma atividade importante para os Terena? Quais os lugares em que as pessoas de sua aldeia pescam? Quais os peixes mais apreciados pelos Terena de hoje?

A coleta era tarefa tanto masculina como feminina, e abrangia a apanha de frutas e mel silvestre, bem como de ovos de ema, de tartaruga, palmitos e raízes medicinais. As matas que bordejam o rio Paraguai são abundantes em plantas de valor alimentício, como a algaroba, mee; o evê, fruta semelhante ao jambo; o uaápú, fruto de características semelhantes às da jabuticaba, embora menor. Os antigos Terena apreciavam muito a flor de capim do brejo, lapoienu e a bocaiúva, ecaié. O mel não era só utilizado como alimento, mas também no preparo de bebidas alcóolicas. A coleta é uma atividade importante para os Terena de hoje? Quem são os principais responsáveis por ela, as mulheres? As crianças? Quais são os frutos nativos que ainda existem na sua área?

Terena

tomando

mate

chimarrão.

6. Festas e cerimônias
A relação entre pais e filhos era de muito respeito e afeição. O casamento era uma decisão familiar. Taunay escreveu que "A afeição materna, ou o interesse de um pai pela prole, a amizade que une os irmãos, são entre eles edificantes e até em extremo comovedoras. Verdadeira fraternidade envolve aquelas almas simples levando-as a dedicações extremadas em matéria de solidariedade. Com todo o devotamento servem os pais aos

Índia Terena com seu filho.

filhos que cegamente lhes obedecem... Sujeita-se a moça à imposição paterna, aceitando sem murmurar o esposo que lhe apresentem, ou desprezando aquele cuja separação aconselharam. No casamento regular, escolhe o noivo a futura esposa quando ainda criança. Dela cuida, veste-a, concorre para a alimentação dos pais, por quem é considerado filho. Aos dez anos, mal lhe apontam os peitos, ainda não núbil, é a rapariguinha noiva entregue ao futuro marido. Com ele a enrolam em uma esteira, ao redor do qual dançam os pais, parentes e convidados, cantando, bebendo e comendo os presentes..."

Casal

descansando

após

o

Trabalho.

Faça uma pesquisa sobre como eram os casamentos. Quais eram as obrigações do noivo e da noiva e de suas famílias? Como era a festa que tornava público o casamento? Compare com a situação atual.

Pelo parentesco tradicional Terena, são chamados também de irmãos tanto os filhos dos irmãos de seu pai, como os filhos dos irmãos de sua mãe, e com todos estes que os purutuyé chamam de primos, o casamento era proibido. Esta é uma regra que ainda continua valendo para os Terena de hoje?

A união familiar podia ser percebida também por ocasião do falecimento de um membro da família. Taunay relatou que, na época da guerra do Paraguai, perto de seu rancho de palha, nos Morros (Serra Maracaju) "habitava pobre índia velha que noite e dia lastimava a morte do filho único (que era o Pakalalá), morto em combate pelos paraguaios, no mês de maio de 1866. O seu soluçar mostrava a dor profunda em que jazia... Ora enumerava a pobre mãe as virtudes do filho; ora rogava à lua que lhe recebesse a alma; ora ao sol que aquecesse o lugar em que fora prostrado." Este escritor que participou de perto da guerra do Paraguai, contou ainda como a perda de uma pessoa da família era compartilhada pelo restante da aldeia: "A casa do morto é invadida, e nela prorrompem gemidos e gritos agudíssimos, soltos pelo mulherio e pelas crianças... Fica o cadáver em casa apenas duas ou três horas, é logo amarrado em uma rede enfiada num varapau que vai carregada por dois parentes. Dirige-se o enterro ao cemitério, acompanhado por todas as pessoas das casas, defronte das quais vai passando. Ergue-se assim uma gritaria cada vez mais intensa, todos se lamentam... No ato de se entregar o cadáver à terra, junto à cova matamse os animais mais queridos do morto, que é sepultado com todos os objetos outrora de sua maior afeição. Se neste ato alguém se apresenta pedindo qualquer animal ou objeto obtemno logo, sem dificuldade nem paga, ficando desde aí, o cobiçado móvel propriedade sua. Desta arte cedem os parentes rezes, manadas de éguas, etc... etc... , procurando desfazer-se de tudo o que pertencera ao defunto. De volta do cemitério, é o rancho abandonado: toda a família se muda; entretanto durante muito tempo conservam-se nas palhoças, desocupadas, água, fogo e cigarros para que a alma do morto beba, aqueça-se e fume...

Quando uma mulher morre, cie volta do enterro, quebramse todos os potes, pratos etc... É o seu rancho, também, completamente desmanchado. Meses depois do falecimento de um parente qualquer recordação provoca violentas explosões de dor, logo acompanhadas por todas as velhas da aldeia. A duração do luto varia conforme o grau do parentesco..."

Os Terena mantêm ainda hoje esta cerimônia quando enterram os seus mortos?

Qual o ponto principal que diferencia, segundo a descrição acima, a relação do purutuyé e do Terena com os seus mortos?

Aponte as diferenças, entre os Terena e os purutuyé, em relação à herança deixada pelos mortos.

Flagrante da assistência e do Pajé cantando, evocando os espíritos. O culto começa de noite e termina com o raiar do sol, revezando o Pajé com a sua mulher.

Antigamente havia grandes koixomoneti. Ainda hoje os koixomoneti mantêm um grande poder. Os Terena sempre mantiveram respeito por estes homens que conseguem entrar em contato com os espíritos e desse modo proteger melhor o seu povo.
"Dois koixomoneti estavam se insultando, cada um dizendo que o outro não sabia nada. Um deles para mostrar que sabia mais que o outro, deu um jeito para virar a ema que está no céu. Aí veiou uma tempestade, escureceu muito e começaram a descer do céu, no meio da chuva, passarinhos de duas cabeças, patos de duas cabeças, gansos de duas cabeças, carão de duas cabeças. Estava a nuvem tão baixa que a gente ouvia a fala de criança em meio desta nuvem. Quando o outro koixomoneti viu que não podia com ele, o mais forte sacudiu o chocalho de cabaça, itakaná, e aí parou a

chuva, os pássaros foram embora e limpou o tempo. A ema ficou no céu como o koixomoneti mais forte a tinha virado" (Antônio Lulu Kaliketé, 1947, Araribá, SP) Desenhe a estória contada por Kaliketé.

Culto religioso dos Terena em Cachoeirinha.

Conte outro feito de um grande Koixomoneti.

Acima, dois índios Terena con) sua indumentária da dança do "Bate-Pau". Abaixo, em coluna de dois. as lanças de bambu levantadas, batendo na lança do companheiro ao lado. marcando sempre a cadência.

"E naquele tempo, quando terminou a guerra do Paraguai, as pessoas que começaram a se juntar de novo ficaram alegres e este é o Bate-Paú, vermelho contra azul. E este azul começou a se manifestar de alegria. Por isso criaram a bandeira azul dos purutuyé. E esse vermelho é o sangue de nossos avós, dizia meu avô. Por isso nós ganhamos nossa terra, por causa dos sangue de nossos avós. Então por isso que os dois cabeças do Bate-Pau se perguntam: e daí... nós vamos brigar? "e respondem: Não, nós vamos brincar e começar a ficar alegres!, disseram os lados azul e vermelho" (João Martins Menootó) Faça uma pesquisa e escreva um texto sobre o bate-pau. Pergunte aos mais velhos e discuta com seus professores e colegas. No espaço abaixo você vai fazer o seu relato.

Agora faça um desenho sobre a dança do "Bate-Pau".

Para finalizar este livro, em que vocês também são os autores, escreva sobre os problemas atuais de sua comunidade e como você pensa o futuro de seu povo.

Círculo riscado no chão tendo no centro um machado, com a lâmina enterrada, o que significa: Pedido para que o temporal passe logo.

Créditos Fotográficos
Os desenhos das aberturas de capítulo e atividades são motivos das pinturas da cerâmica Terena. As fotografias da Coleção Harald Schultz, 1942, foram gentilmente cedidas pelo Museu do índio - RJ - FUNAI, Setor de Antropologia Visual. Os negativos foram ampliados e retocados por Sérgio Burghi. As fotografias desta coleção aparecem nas páginas: 10, 109, l13, 117. 119, 121, 122, 124, 125, 126, 127, 131, 132. foto inferior da 135, 139, 140, 141. 145. as duas fotos da 147. idem na 148. 151 e 153. Página 15. foto de Vincent Carelli. Instituto Sócio Ambiental ISA. Página 34. Lamina 62: Mujer transportando la carga en una bolsa de caraguatá (Chaco). Col. Museo, dia. 166. Lamina 23: Mujer Lengua sacando água de la planta "caraguatá". Grubb B. (1): pág. 193. Los Aborígenes del Paraguay IV Cultura Material. Branislava Susnik. Museo Etnográfico Andres Barbero", Asunción Paraguay, 1982.

Página 43, Guanitá, chefe dos guanás. Albuquerque, c. de 1826, aquarela, 28,7 x 25,1 na pg. 44. A Descoberta da Amazônia. Os Diários do Naturalista Hercules Florence. Editora Marca D'Agua. São Paulo, 1995. Página 44, Duas pirogas de Guanás. 1827. nanquim aguado. 19,9 x 30.7 na pg. 43. A Descoberta da Amazônia. Os Diários do Naturalista Hercules Florence. Editora Marca D'Agua. São Paulo, 1995. Página 54, A Retirada da Laguna - Composição de Álvaro Marins ( Seth ) na p g . 2 5 l . A Retirada da Laguna. Alfredo d'Escragnolle Taunay, Visconde de Taunay. Editora Comp. Melhoramentos de S. Paulo, 1935. Página 57. Alfredo D' Escragnolle Taunay, Visconde de Taunay, Rio de Janeiro • 22 de Fevereiro de 1843 - 25 de Janeiro de 1899. A Retirada da Laguna. Alfredo d'Escragnolle Taunay. Editora Comp. Melhoramentos de S. Paulo, 1935. Página 6 1 , Cerimônia religiosa dos índios Guanás (30 de Março de 1866). Entre os nossos índios: Chanés. Terenas. Guanás, Laianas. Cuatós, Guaycurus. Caingangs. São Paulo, Museu Paulista, 1931. Página 77, Aqui dois Terena que combateram na guerra, com uniformes de oficiais em desuso, pg 470, História dos índios no Brasil, São Paulo, Companhia das Letras / SE Municipal de São Paulo, / FAPESP, 1992 Página 80, Na pg. 65 da revista O CRUZEIRO, 15 de junho de 1957. Página 8 3 . Fotos de Gilberto Azanha, Centro de Trabalho Indigenista. 1981. Página 92, Na pg. 61 da revista O CRUZEIRO, 15 de junho de 1957. Página 94, 10. Bugreiros e s u a s vítimas II . Acervo SCS. na pg 4 1 . Os índios Xokleng. Memória Visual, Sílvio Coelho dos Santos. Editora da UFSC - Univali, 1997. Páginas 100 e 101, Foto I de Gilberto Azanha, 1986. As demais de Rogério Alves de Rezende, 1997. Centro de Trabalho Indigenista. Página 108, Índios Guaná, Hércules Florence, na pg. 329, aquarela de novembro de 1827, da povoação de Albuquerque (atual Corumbá) . Expedição Langsdorf Rugendas. Taunay, Florence (1821 - 1829), Rio de Janeiro, Alumbramento. 1998. Página 120, Moça Terena preparando seu enxoval. 1957 na pg.80. Do índio ao Bugre, Roberto Cardoso de Oliveira. Francisco Alves, 1976. Páginas 128 e 129, Acima, fotos de Murilo Santos, 1989. Abaixo, de Rogério Alves de Rezende, 1997. Centro de Trabalho Indigenista. Página 135, Foto superior de Rogério Alves de Rezende, 1997. Centro de Trabalho Indigenista. Página 138, Desenhos de frutas feitos por alunos Terena.

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