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A NOCAO DE SITUACAO COLO: Georges Balandier Tradugao de Nicolas Nyimi Campanario Revisao de Paula Montero O problema colonial!, sejam quais fo- rem as aparéncias, continua se impondo a nos- sa atengdo como uma das questées mais im- portantes sobre a qual os especialistas das cigncias sociais tém que se pronunciar. O crescimento de novos nacionalismos ¢ as rea- Ges induzidas pela descolonizagao proporcio- nam a este problema uma acuidade e uma atualidade que nao toleram a indiferenga. As pesquisas antropolégicas consagra- das aos fendmenos de mudanga social pouco trataram da situagdo colonial enquanto uma conjuntura particular, que impée uma certa orientagio aos agentes e processos de trans- formagio. Elas consideraram esses processos separadamente — por exemplo, sob a forma da intervencdo da economia monetaria ¢ do assa- lariado, da difustio do ensino moderno, da ago da evangelizagio, etc.; mas elas nao os consideraram como constituindo um todo ¢ como preparadores da edificagéio de uma soci- edade auténoma e nova. Estes trabalhos, em sua maioria, foram organizados segundo duas orientagdes: ou eles tendem a abordar proble- mas tedricos que concernem a propria natureza da realidade cultural, sua receptividade as in- fluéncias culturais estrangeiras, suas vicissitu- des; ou visam resultados “praticos”, obtidos através de pesquisas de pequena abrangéncia, 1 Este & 0 primeiro capitulo do livro de Georges Balandier, Sociologie Actuelle de 1" Afrique Noire. Dinamique Sociale en Afrique Centrale, Patis, PUP, 1963, 2a. ed.. A primeira edigao é de 1955. contentando-se freqiientemente com um em- pirismo cémodo. Qualquer estudo concreto das socieda- des afetadas pela colonizagao que procure uma apreensio completa sé pode realizar-se, no entanto, através da referéncia a este complexo qualificado de situagao colonial. Ao aprofun- dar a anilise desta iiltima, ao determinar as suas caracteristicas de acordo com o local da pesquisa, ao examinar 0s movimentos que ten- dem & sua negagao, se torna possivel interpre- tar e classificar os fendmenos observados. Esse reconhecimento da situagSo que resulta das relagbes entre “sociedade colonial” “sociedade colonizada” requer do socidlogo um continuo esforgo critico, colocando-o em guarda contra os riscos de uma observagio excessivamente unilateral. O exame dos pro- blemas da atualidade nao deixa de ser afetado pelas “reservas” do observador ou pela sua prépria atitude em relagio a eles; o que tam- bém acontece com relagio aos novos Estados, confrontados com a tarefa da. descolonizagao. Tais observagdes explicam a importincia que atribuimos, logo de inicio, a teoria da situagio colonial. Entre os primeiros trabalhos realiza- dos na Franga, somente os de O. Mannoni de- ram atengio suficiente a esta nogo?, mas eles permanecem essencialmente num plano psico- légico e psicoanalitico. Este autor admite alids, que reteve propositadamente um aspecto até ent%o pouco percebido. Quanto A nds, 2 0. Mannoni, Psycologie de la Colonisation, Paris, 1950. Cadernos de Campo, n° 3, 1993. tomaremos, ao contrario, 0 partido da totali- dade, acreditando que hé algum falseamento da realidade no fato de reter unicamente uma das implicagées da situag0 colonial. I- Algumas abordagens. E possivel apreender a situagdo criada pela expansdo colonial das nages européias a0 longo do século passado, a partir de diversos pontos de vista. Sao muitas abordagens particulares efetuadas pelo historiador da co- lonizagio, pelo economista, pelo politico pelo administrador, pelo socidlogo preocupado com as relagdes entre civilizagdes © pelo psi- célogo ligado ao estudo das relagdes raciais, etc. Parece-nos indispensavel, para arriscar uma descrigiio de conjunto, examinar o que pode ser retido de cada uma dessas contribi Ges particulares, © historiador tem em vista a coloniza- 40 nas suas diferentes épocas e, geralmente, em fungao da metropole. Ele permite apreen- der as modificagdes ocorridas nas relagdes existentes entre esta ultima ¢ os territorios de- pendentes, ¢ mostra como o isolamento dos povos colonizados foi quebrado pelo funcis namento de uma histéria sobre a qual eles ndo tinham nenhum poder. Evoca as ideologias que nos diversos momentos justificaram a co- lonizagio e 0 descompasso que ocorre entre a doutrina e os fatos. Descreve os sistemas ad- ministrativos e econdmicos que asseguraram a “paz colonial” ¢ que proporcionaram a renta- bilidade do empreendimento colonial para a metrépole. Em resumo, 0 historiador nos faz compreender como a nado colonial se inseriu, ao longo do tempo, no scio das sociedades colonizadas. Agindo assim, cle fornece ao so- cidlogo um primeiro e indispensdvel conjunto de referencias; lembra a este que a histéria da sociedade colonizada realizou-se em fungio de uma presenga estrangeira, ao mesmo tempo 108 que mostra os diferentes aspectos assumidos por esta presenga. ‘A maior parte dos historiadores insistiu sobre 0 fato de que a pacificagao, o aprov’ namento, a valorizagdo dos paises colonizados foram realizados “constantemente em relagdo as nagdes ocidentais e nao em vista dos inte- esses locais”3, Eles mostraram como a absor- giao da Asia, da Africa e da Oceania pela Eu- ropa “transformou, pela forga e por reformas freqiientemente audaciosas, a conformagiio da sociedade humana” em menos de uma século. Eles lembraram que a exploragao econémica se apéia sobre 0 controle politico — visto que estes so os dois tragos especificos do fato colonial4, Os historiadores permitem, dessa maneira, entrever até que ponto a sociedade colonizada se tornou um instrumento de uso para a nacdo colonial. Podemos notar uma manifestagdo desse cariter instrumental na politica que consiste em comprometer coop- tando-a, a aristocracia nativo5 e, mais ainda, na politica dos movimentos de populagdo ou de recrutamento de mao-de-obra que esta ligada somente as necessidades da grande economia®. Ao nos lembrar de algumas medidas “audaciosas” — deslocamento de populagdes ¢ criagiio de “reservas”, modificagdes do modo de povomento, transformagao do direito tradi- cional ¢ das relagdes de autoridade, etc. — 0 historiador chama nossa atengdo para 0 fato de que “a colonizaco foi, por vezes, realmente uma cirurgia social”?. E esta indicag%io, mais 3 L. Joubert, Le Fait Colonial et ses Prolongements, in Le Monde non Crétien, 15, 1950. 4CF. R. Kennedy, The Colonial Crisis and the Future, in The Science of Man in the World Crisis, p. 308-309. 5 Colocar a classe dirigente "nos nossos interesses” dizia Lyautey, reduzir os chefes indigenas ao papel de “simples criaturas”, diz R. Kennedy. 6 Como 0s deslocamentos provocados a favor da Office da Nigéria, que produziram as mais vivas polémicas; vejam 0 panfleto de P. Herbart, Le Chancre du Niger, com prefiicio de André Gide, Gallimard, 1939. 7 E. Chancelé, La Question Coloniale, in Critique, n* 35, 1949. ou menos exata segundo as regides e os povos considerados, é de grande interesse para 0 so- cidlogo que estuda as sociedades colonizadas; ela Ihe mostra que estas, num grau varidvel, encontram-se num estado de crise latente, que elas requerem numa certa medida uma sécio- patologia. Depois de determinar esta presséo ex- terior que age sobre as sociedades colonizadas, © historiador nota a diversidade das reagdes subsequentes; aquelas dos povos do oriente, do Islio e da Africa negra foram freqiientemente evocadas em estudos comparativo. Assim a histéria da Africa ao sul do Saara revela dife- rengas importantes na resisténcia a influéncia das nacdes européias. O estudo hhistérico da colonizagio, depois de ter mostrado a impor- tancia do “fator extemo” quanto as transfor- magdes que afetam as sociedades colonizadas, coloca a presenga de um “fator interno”, im- plicado pelas estruturas sociais das sociedades submetidas; ele desemboca, por ai, em pro- blemas nos quais 0 antropdlogo encontra hor zontes familiares. Mas ao fazer 0 quadro das diversas reagdes & situag0 colonial, ele mostra como esta tiltima pode desempenhar 0 papel de um verdadeiro revelador. A colonizacao aparece como uma prova imposta a algumas sociedades ou, se podemos arriscar uma ex- pressdo, como uma experiéncia sociologica grosseira. Uma anilise das sociedades coloni- zadas nfo pode esquecer as suas condigdes especificas; elas revelam ndo somente, como perceberam alguns antropélogos®, os processos de adaptago ¢ de recusa, as condutas ino- vadoras nascidas da destruigao dos modelos sociais tradicionais, mas também manifestam os “pontos de resisténcia” das sociedades co- lonizadas, as estruturas e 0s comportamentos fundamentais — com relagdo a certos aspectos elas nos fazem chegar ao ponto, Um conheci- mento deste tipo possui um interesse teérico 8 CFL. P. Mair, The Study of Culture Contact as 4 Pratical Problem, in Africa, Vil, 4, 1934, 109 ‘Traducdo: Balandier evidente (se considerarmos a situagaio colonial como um fato que diz respeito a observacao cientifica independente dos julgamentos mo- rais que ela provoca) ¢ uma importineia prati- ca real (sugere a partir de que dados funda- mentais todo problema deve ser abordado).. historiador, por outro lado, precisa como © sistema colonial se estabeleceu € se transformou, quais foram, segundo as circuns- tancias, os diversos aspectos politicos, juridi cos ¢ administrativos; ele nos permite também localizar as ideologias que © justificaram?. ‘Numerosos estudos insistem sobre a acentuada distancia que existe entre os principios suces- sivamente defendidos e a praticaentre a mis- sdo civilizatéria (cuja expressio, sob uma forma particularmente enfatica, remonta a Na- poledo Ill) e a wilidade desejada que Eugéne Etienne define em 1894 como “a soma de vantagens ¢ de lucros que devem escoar (de todo empreendimento colonial) para a metré- pole”!0, H. Brunschwig evoca, na sua historia da colonizagao francesa, a longa série de mal entendidos que a balizam. L. Joubert recorda “a discrepancia que existia, a partir da adogao de formulas de responsabilidade civilizatoria, entre a teoria ¢ os fatos; a ruptura entre esses dois dominios, sendo a hipocrisia que justifi- cava através de principios humanitérios uma exploragao pura e simples”!!, Assim, a situa- ¢40 colonial aparece como possuidora, essen- cialmente, de um carater de inautenticidade. R. Kennedy, no scu estudo intitulado La Crise Coloniale et 1' Avenir, mostra como cada ca- racteristica do “colonialismo” — colour line, dependéncia politica e econdmica, realizagdes “sociais” insuficientes, falta de contato entre os nativos e a “casta dominante” — se apdia sobre uma “série de racionalizagdes”. A saber, de 9 Cf J. Harmand, Domination et Colonisation, Flammarion, 1910, como exemplo "cléssico” de justificagdo através das leis da natureza. 10 Citado. em H. Brunschwig, La Colonisation Francaise, Calmann-Lévy, 1949. 11 Op.cit, p. 265. Cadernos de Campo, 0° 3, 1993. modo inteiramente paralelo: a superioridade da raga branca, a incapacidade dos nativos de se autogovernarem, 0 despotismo dos chefes tradicionais e a tentago que teriam os lideres politicos modernos de se constituir em “‘corja ditatorial” , a incapacidade dos autéctones de valorizar os recursos naturais dos seus territérios, os mediocres recursos financeiros, a necessidade de manter o prestigio, etc!2. O socidlogo apreende, gragas a tais indicagdes, 0 quanto a sociedade colonial européia, animada por uma doutrina incerta, cujo desenvolvimen- to histérico ele pode acompanhar, condenada a comportamentos. inauténticos, ligada por uma imagem estereotipada do native, age em fungdo dessas representagées da sociedade colonizada. Destacamos, em outro lugar, a importancia deste fato!3; nao ha sociologia dos povos colonizados sem esta atengdo dada as ideologiay € aos comportamentos mais ou menos estereotipados que elas provocam. © historiador nos lembra que as socie- dades colonizadas sto o produto de uma dupla historia. Assim, no caso da Africa, uma pro- priamente africana — “essas sociedades, to estaveis, to iméveis em aparéncia, resultaram todas, ou quase todas, da combinagao variada de povos diversos que a histéria confrontou, misturou, sobrepés”!4 — que colocou em pre- senga formas sociais homogéneas!, e a outra, Jargamente condicionada pela dominagao eu- ropéia, “que colocou em contato formas sociais radicalmente heterogéneas”!6, Um estudo concreto dessas sociedades nao pode ser feito sem que as “situemos” em relagdo a esta dupla histéria. Habitualmente se reconhece que a 12. Kennedy, op. cit, p. 312.0318 13 G. Balandier, Aspects de I Evolution Sociale chez les Fang du Gabon, in Cah, Intern. de Soc., vol. IX, 1950, p.82, 14 R. Montagne, Le Bilan de It Oeuvre Furopéenne au- deli des Mers, in Peuples d’ Outre Mer et civilisation occidentale, Semaines sociales de France, 1948. 15 G. Balandier, op. cit, p. 78 16G. Balandier, op. cit, p. 78. 110 colonizagdo agi pelo jogo de trés forgas difi- ceis de separar — associadas historicamente vividas como sendo estreitamente solidérias por parte daqueles que as sofrem!7 — a agéo econémica, a administrativa e a missionéria. Foi alias, em fungio desses trés termos de re- feréncia que os antropdlogos habitualmente estudaram as “mudangas sociais”. Mas, a fim de caracterizar a colonizagéo curopéia e de explicar a sua apariggo, alguns historiadores foram conduzidos a privilegiar um desses as- pectos — 0 fator econdmico. “O imperialismo colonial é somente uma das manifestagdes do imperialismo econdmico”, indica Ch. A. Julien num artigo consagrado a este tema!’ A historia desemboca, aqui, sobre um outro ponto de vista, necessdrio 4 compreenstio da situagao colonial. Foi sobre razdes econdmicas que a politica de expansio constituiu, em parte, a sua propaganda. P. Leroy-Beaulieu, em 1874, mostrava a necessidade que a Franga tinha de se tornar uma poténcia colonial. J. Ferry es- crevia em 1890: “A politica colonial ¢ filha da politica industrial... a politica colonial € uma manifestagdo internacional das leis cternas da concorréncia...”!9, Foi também através de razSes econdmicas que as nagdes coloniais justificaram a sua presenga — 0 investimento ¢ os equipamentos instalados constituindo di- reitos adquiridos - e foram as vantagens econémicas que elas renunciaram em iltimo lugar, quando ja aceitaram reconhecer a inde- pendéncia politica. Algumas andlises antigas do “imperialismo colonial”, revelaram, antes mesmo dos estudos de escritores marxistas, os 17 Cf. a polémica brochura de M. Nkwame Nkrumah, Towards Colonial Freedom. 18 Ch. A. Julien, Impérialisme économique et impérialisme colonial, in Fin de I ere coloniale, p. 25. 19 P. Leroy-Beaulieu, De la colonisation chez les peuples modernes, 1874, 1" ed, J. Ferry, prefécio a Le Tonkin et la Mere-Patrie, 1890. seus mecanismos econémicos?0. Além disso, 0s estreitos lacos existentes entre 0 cresci- mento do capitalismo ¢ a expansto colonial incitaram diversos autores a comparar a “questo colonial” ¢ a “questdo social” (© a constatar “que elas nao sto substancialmente diferentes”), a notar a possivel identificagéo “dos colonizados” com o “proletariado”2!, Para um marxista, esta identidade nao traz ne- nhuma duvida; ela justifica politicamente a ago combinada do proletariado ¢ dos povos coloniais?2. Sem aceitar reduzir a questo colonial somente as suas manifestagdes econdmicas, 0 socidlogo deve tomar com grande considera- fo estas indicagdes. Blas Ihe sugerem que nao séo somente 0s contatos de uma civilizagio de tipo técnico ¢ de uma civilizagdo de tipo “primitivo”, pré-maquinista, que explicam a derrocada das sociedades colonizadas. Elas lhe lembram que sociedade colonial e sociedade colonizada se encontram dentro de certas rela- ‘Ges (assinalamos precisamente 0 carter ins- trumental desta relag3o) que implicam tensdes e conflitos. As caracteristicas econémicas da situa- a0 colonial foram evocadas por alguns antro- pélogos ou por gedgrafos especialistas em pai- ses tropicais. R. Kennedy, em seu estudo jé citado, lembra os dados principais?3: 0 insignificante equipamento industrial; a exploragiio em grande escala e © comércio de importagdo-exportagdo que se encontram quase exclusivamente nas mao das “sociedades” 20 Cf. A. Conant, The Economic Basis of Imperialism, 1898, eJ. A. Hobson, Imperialism, a Study, 1902. 21 Estudos de J. Guitton e P. Reuter, em Peuples d’ outre mer et civilisation occidentale, notadamente p. 61 @ 142. E, mais recentemente, 0 proprio titulo da obra de P. Moussa: Les nations prolétaires. 22 CF. J. Stalin, Le marxisme et la question nationale et coloniale, ed. francesa, Paris, 1949, 23 R, Kennedy, op. cit.,p. 309-31. Wd Tradugao: Balandier estrangeiras?4; a “distancia” entre sociedade colonial e sociedade colonizada, que explica a dificuldade do native “em —_crescer economicamente”; a pobreza das massa nativas que & acentuada pela degradagao das economias tradicionais. Entre os trabalhos de lingua francesa, aqueles consagrados a Indochina permanecem particularmente preciosos. Sdo a obra de gedgrafos (fato bastante significative desta fuga do atual que caracterizou a etnologia francesa), Ch. Robequain e P. Gourou?5, Eles se concentram essencialmente sobre os problemas do campesinato. Fora a atengao inicialmente concedida aos meios técnicos (que foram pouco ou nada aperfeigoados) eles destacam 0 fendmeno da decomposigao da propriedade fundidria?® e de “despossessio fundidria” que implica proletatizagio desenraizamento. Também a constituigdo de uma burguesia de origem agraria que nasceu, “como 0 proletariado, do contato com a civilizagdo ocidental e do enfraquecimento dos valores tradicionais”27. As observagies feitas algures, quanto ao comércio e a industria, confirmam, até uma época recente, o esquema geral proposto por R. Kennedy. Para introduzir uma referéncia africana, evoquemos a situagio criada na Africa do Sul pela minoria européia?®. Ela impoe: se- gregagdo territorial, que se expressa no Native land act de 1913 ¢ segregagio social, legali- zada pelo Colour bar act de 1926, que reduz 24 No que se refere a Africa de lingua francesa, remetemos aos estudos capilais feitos pelo gedgrafo Jean Drech. 28 Cf. notadamente Ch. Robequain, L’ évolution économique de I' Indochine francaise, Paris, 1940, ¢ P. Gourou, L’ utilization du sol en Indochine francaise Les pavs tropicaux, Paris, 1948. 26 Cf. para um estudo de conjunto consagrado a este fendmeno 0 pequeno livro de V. Liversage, Land Tenure in the Colonies, Londres, 1945. 27 Cf. Ch, Robequain, op. cit 28 J. Borde, Le probléme ethnique dans I" union sud- afticaine, in Cahiers d! outre mer, n® 12, 1950. Cadernos de Campo, n° 3, 1993. 0s trabalhadores negros as tarefas do trabalho manual; participagdo inexpressiva dos negros na renda nacional (eles possuem somente 20% em 1950); bases raciais dadas 4 organizagao econémica que ndo cessa, no entanto, de in- centivar 0 éxodo rural, provocando a “proletarizagiio” ¢ a “destribalizagao”. A situ- ago particular — de alguma maneira caricatural = da Africa do Sul mostra como os aspectos econdmicos, politicos ¢ raciais esto estrei- tamente ligados?9 e como um estudo atual dos povos da Unido so pode ser feito conside- rando-se todos estes aspectos. Apreendemos assim a necessidade imperiosa de se considerar a situagdo colonial como um complexo, como uma totalidade. Os antropélogos anglo-saxdes reserva- ram um lugar importante para os fatos econdmicos, considerados entre as principais “forgas” que provocam as mudangas sociais ¢ culturais, Monica Hunter, na sua célebre obra Reaction to the conquest, estuda as transformagdes ocorridas na sociedade Pondo (Africa do Sul) em fungao do fator econdmico, em primeiro lugar, e do fator politico (“que ¢ historicamente de —origem —_econdmica independente do que possam dizer os nio- marxistas”) em seguida. Mas estes estudos, j4 numerosos no dominio afticano, foram freqlientemente conduzidos tendo como referéncia a economia € a organizagéio social “primitivas”, em fungdo das perturbagdes trazidas pela economia “moderna” © dos problemas consequentes. Faltou-Ihes a referencia & economia colonial, & situagdo co- lonial thes faltou o sentido de uma reciproci- dade de perspectivas entre sociedade coloni- zada ¢ sociedade colonial. Os trabalhos inspi- rados por B. Malinowski apresentam estes de- feitos ao maximo: ao examinar somente 0 re- sultado do “contato” entre “instituigdes” de mesma natureza e a0 quase nao ultrapassar a 29 Cf, W. G. Ballinger, Race and Economies in South Africa, 1934. 412 simples descri¢&o das mudangas € a enumera- Go dos problemas. Isto explica o interesse concedido somente aos aspectos rurais, as transformagdes que afetam a aldeia ¢ a “familia”, ao problema do despovoamento do campo. Nesse dominio, os antropélogos esta- beleceram esquemas significativos: destruigdo da unidade econdmica da “familia”, novo pre- dominio dos valores econdmicos, emancipagio das novas geragdes, implantagfo de uma economia monetiria que subverte as relagdes pessoais, danos as hierarquias tradicionais, ete. Em contrapartida, fendmenos importantes como os novos modos de agrupamento (incluindo os partidos politicos € os sindica- tos), a aparigao de classes sociais ou de pseu- do-classes, a natureza e o papel do proletari- ado, s6 so evocados em termos muito gerais; @ 0 conflitos que eles implicam so raramente analisados?0, Os antigos estudos de carater politico e admnistrativo concederam a estes tiltimos as- pectos uma atengaio mais minuciosa, apesar de essencialmente pratica e “orientada”. As suas indicagées mostram a que ponto a sociedade colonizada, tanto sob 0 seu aspecto urbano como sob 0 rural, € a sociedade colonial for- mam um conjunto, um sistema; ¢ sugerem a necessidade para qualquer estudo de apenas um elemento, de referir-se ao conjunto. Eles chamam a ateng&io sobre os antagonismos © conflitos que s6 se explicam dentro do quadro da situago colonial. Além disso, a nogéo de “crise” encontra-se implicitamente no centro destas preocupagées. Elas nos fazem encontrar, 30K. L. Little, Social change and social class in the Sierra-Leone Protectorate, in American Journ. of Sociology, $4, julho, 1948. Importante estudo. Foi somente numa época muito recente (depois de 1955), € sobretudo depois do acesso a independéncia de rnumerosos Estados afticanos, que estes fendmenos se tomaram objeto de investigagto cientifica: a sociologia politica progride rapidamente, gragas aos trabalhos de D. Apter, L. Fallers, T. Hodgkin, 5. Coleman, J. Maquet, cde mim mesmo e de diversos outros especialistas. privilegiando-o, exagerando-o talvez, este aspecto patolégico das sociedades colonizadas que jé assinalafnos. I-A importancia dos fatos pol dos métodos administrativos © abandono do empreendimento poli- tico € administrative n&o pode nos fazer quecer a importdncia que ele teve ¢ ainda tem em algumas partes da Africa. Historiadores da colonizagio € antropélogos consideram a ago administrativa como uma das causas principais de transformagao3!, Esta ago confundiu-se, por muito tempo e em sua maior parte, com a agdo econdmica. A pacificagio que a administragao impunha, as trilhas ¢ as estradas que abria com uma mio-de-obra prestatéria serviam inicialmente aos interesses das companhias e dos fornecedors de mao-de-obra. O imposto que cobrava e que obrigava o native 4 busca de numerdrio, abandonava-os aos compradores de “produtos”. Os recrutamentos de mao-de-obra que efetuava, alimentava as construgdes e empreitadas; a regulamentacdo que estabelecia quanto aos salétios, as condigées de trabalho € quanto A circulagao de homens ¢ de mercadorias, favorecia as ex- ploragdes locais. Assim a agdo administrativa teve inicialmente por objetivo favorecer certo investimento, estabelecer, segundo uma expressio atualmente rejeitada, as coldnias de exploragdo, Sobre este assunto ela niio traz a nossa analise outros elementos além daqueles reunidos anteriormente. Mas administrar um pais colonial su- pde outras formas de agdo, outros empreendi mentos; trata-se de controlar o pais, de “té-lo”, € 0 sistema administrativo se insere no préprio 31 CEH. G. Barnett, Anthropology in Administration, Evanston, 1956, e, sobretudo para a Africa, L. P. Mair, Studies in Applied Anthropology, London, 1957. Tradugato: Balandier corago das sociedades colonizadas. Com ra- 20 R. Delavignette escrevia: “Na verdade nao podemos mais separar as sociedades nativas da administragio colonial _territorial”32,_ O aumento crescente do niimero de funcionérios ¢ a multiplicagao dos “servigos” manifestaram a diversidade ¢ a amplitude de tal empreendi- mento; é sobretudo em termos de controle politico, exercido direta ou indiretamente, que esta agiu com mais forga e que menos aceitou contestagao. Entdio aparece este cardter de so- ciedade dominada que é significativo de toda sociedade colonizada, Uma agio deste tipo re- fere-se, de uma maneira mais ou menos ex- plicita, a uma doutrina de.“politica indigena”; visa, segundo os termos clissicos, & assimila- 80, A associagdo (desigual) ou ao compro- miso. Certamente 0 conhecimento de tal contexto doutrinario permanece indispensivel 4 compreensio das sociedades colonizadas; ele completa este estudo de ideologias que mos- tramos ser necessatio ao considerar o ponto de vista histérico. E com relagio a estas doutrinas, € as politicas que elas implicam, que reagem diferentemente povos colonizados de mesmo tipo. Somente na Africa ocidental, as elites negras dos tertitérios de colonizagio briténica e aquelas dos territérios de colonizagao francesa adotaram comportamentos _dife- renciais muito reveladores a esse respeito; a colonizagio nao teve a mesma significagado para estas e para aquelas. As estruturas, os contextos culturais, os tipos de vida e as ma- neiras de pensar resultantes da aco colonial permanecem fortemente enraizados na carne € no espirito dos paises africanos; mesmo depois da independéncia. E na base desta constatagao que B. Boganda, mestre atualmente desapare- 2 R. Delavignette, Les vrais chefs de!" Empire, Gallimard, 1939, © uma digo remanejada € completada sab 0 titulo de Service africain, 1946. Obra rica de experiencia e de compreengao. Traduca ingles Freedom and Authority in French West Africa, London, 1951 Cadernos de Campo, n° 3, 1993, cido da Repiblica Centroafricana, fundava © seu projeto de criagiio dos “Estados Unidos da Africa Latina”. Do mesmo modo, Sékou Touré ¢ Nkwané Nkrumah puderam descobrir, por ocasiio dos seus primeiros encontros como chefes de Estado, quantas evolugdes divergen- tes contrariavam singularmente seus esforgos de unio. Seja qual for a doutrina adotada, as re- lagdes de dominagio e de submissio existentes entre a sociedade colonial ¢ a sociedade colo- nizada caracterizam a situago colonial. E os autores que concentraram sua atengio sobre este aspecto mostram que a dominagao politica € acompanhada de uma dominagao cultural. Um deles pensa que “o problema cultural esta intimamente ligado ao problema geral da evolugdo politica e econémica”, que “a influ- éncia das culturas européias” teve como resul- tado “a opressio do fundo cultural” autéc- tone®3, Tal indicagao deve ser considerada com bastante atenedo; ela coloca o antropélogo em guarda contra a tentagdo de considerar os “contatos culturais”, ou a “interpenetragaio das civilizagdes” agindo de maneira quase mecinica, Por outro lado, insiste-se sobre 0 que ha de arbitrario regendo a partilha entre as na- ges coloniais ¢ os recortes administrativos Estes iltimos conduziram & fragmentagaio de importantes etnias, a quebra de unidades poli- ticas de alguma envergadura ou a constituigao de reagrupamentos attificiais. Também varias, iniciativas tomadas pelos povos colonizados aparecem como a manifestagao de uma vonta- de de reagrupamento. Para a Africa negra do este podemos evocar: as reivindicagées uni- tarias dos Ewé (entao separados entre os dois Togo), as tentativas de federalismo tribal no sul de Camardes, 0 desejo mais ou menos ex- picito de reagrapamento manifestado elas 33 G. d' Arbousier, Les problémes de la culture, in Exrope, Nimeto especial Afrique noire, maio-junho 1949. 14 igrejas negras — conhecidas pelo nome de Kimbangistas — agindo em paises ba-congo (nos dois Congo e em Angola). Esta “baleanizagio” mantida ou eriada, as inimiza- des ou rivalidades entre grupos étnicos manti- das ou derivadas de fins administrativos, im- puseram a estes povos uma historia particular cujo conhecimento é indispensivel a toda anilise sociolégica. O controle politico sé péde efetuar-se através dos “chefes” e, numa certa medida, pela intermediag4o das instituigdes nativass. Os chefes tiveram que ser integrados no con- junto do sistema administrativo, direta ou indi- retamente. Mas esta “integragdo” nem sempre foi facil: seja porque a sociedade colonizada, por uma submissdo inteiramente ficticia, es- condesse os chefés reais por detrés de “chefes de palha”, seja porque a administraga0 colo- nial, ao ndo penetrar na realidade do sistema politico nativo, criasse “a chefia ao mesmo tempo que o chefe” ou que chamasse A chefia “um homem que jamais deveria ou poderia pretendé-la"34, Frequentemente a administra- do transtorna 0 arranjo dos poderes, cria no- vos chefes ou chefes investidos de poderes inteiramente novos; assim, na Africa ocidental de colonizagao francesa, 0 chefe de aldeia foi, em principio, um chefe tradicional encarregado de certas tarefas administrativas, enquanto que © chefe de regido se tornava um “funciondrio especializado”. Dois tipos de poder (um deles nascido na historia nativa, e 0 outro da ocupagio européia) foram obrigados a coexistir; 0 primeiro submetido ao segundo; os dois sendo antagénicos. E as relages ad- ministrativas do Gabdo e do Congo, por exemplo, evocam com monotonia a falta de autoridade dos chefes administrativos ou a competi¢ao entre chefes tradicionais e admi- nistrativos. O equilibrio politico das socieda- des colonizadas foi profundamente transfor- mado. M. Fortes, nos seus estudos capitais 34 CE. R. Delavignette, op. cit, p. 130. consagrados aos Tallensi de Gana, mostrou como a instalagéo de chefes oficiais ~ que se estabelecem através do papel, inicialmente oficioso, que eles detém em matéria juridica — deslocou o equilibrio ¢ alterou a originalidade de uma sociedade sem cabesa politica, mas niio desprovida de organizagao real sob a anarquia aparente. E, em parte, contra essa desfiguragio politica que os nacionalismos nascentes reagem. E isto explica, em parte 0 caréter étnico que eles podem ter na sua ori- gem. O exemplo da Nigéria é, sob este aspec- to, significativo: a um nacionalismo nigeriano, que busca a sua via, se opdem uma “tendéncia a ajustar as velhas fidelidades tribais a um novo quadro cujos limites parecem dificeis de fixar” e rivalidades entre “nacionalismos tri- bais” que se exprimem através de partidos politicos concorrentes de base étnica?5, Os estimuladores da antropologia apli- cada prestaram uma atengdo precisa a todos estes fatos — buscando inicialmente esta “adaptagdo cientificamente controlada”, defi- nida por L. Mair. Os minuciosos estudos dos antropélogos ingleses (evocamos, em outro lugar, a importante literatura consagrada aos “sistemas politicos” e 4 organizagao social), 0 lugar acordado aos problemas de ordem politi- ca nos programas de pesquisa € em cerlas re- vistas especializadas, se tornaram significati- vos deste interesse. Os fendmenos mais recen- tes: crescimento dos nacionalismos e dos par- tidos politicos, nascimento de opinides politi- cas, etc., comegam a ser estudados e nio so- mente o equipamento politico tradicional. Tais, problemas submetem a antropologia moderna a.uma rude prova; ela se encontra, por causa de tal pesquisa, no coragao da realidade social mais atual. 35 Ch. P. Mercier, Remarques sur ta signification du “wibalisme” actuel en Afrique noire, in Cah. int. de Soe., XI, 1961 115 Traduedio: Balandier IIT- Contibuigdes da sociologia e da psicologia social. ‘Sociedade colonial ¢ sociedade colonizada. A partir destes primeiros dados torna- se mais facil situar e apreciar as contribuigdes da sociologia e da psicologia social. Numa obra consagrada as “colnias”, E, A. Walcker chama a atengo para o fato de que estas constituem “sociedades plurais"36, Ele precisa que a “colénia” (sociedade global) “é compos- ta, em geral, de um mimero de grupos mais ou menos conscientes de sua existéncia, freqiien- temente opostos uns aos outros pela cor € que se esforgam em levar vidas diferentes nos limi- tes de um quadro politico unico”. E Walcken prossegue: estes “grupos que falam linguas diferentes, tm uma alimentagao diferente, tém freqiientemente ocupagées diferentes que Ihes sio assignadas pela lei ou pelo costume, usam vestimentas diferentes... vivem em diferentes tipos de habitagdes, cultivam tradigdes, diferentes, adoram diferentes deuses, tém idéi- as diferentes sobre 0 bem e 0 mal. Tais socie- dades nao so comunidades”. A estes elemen- tos ele acrescenta uma notago util 2 nossa andlise observando, a propésito do colour bar, que cle “traduz o problema mundial das mi- norias em termos tropicais”. Estas observagdes podem fornecer um ponto de partida, O inte- ressante niio é a observagio do pluralismo, mas a indicago dos seus tragos especificos: a base racial dos “grupos”, a sua heterogeneidade radical, as relagdes antagénicas que cles mantém e a obrigagdo em que se encontram de coexistir “nos limites de um quadro politico finico”. Por outro lado, a atengdo dedicada a sociedade colonial enquanto minoria domi- nante € frutifera. H. Laurentie, por seu lado, 36 Les colonies, passé et avenir: capitulo imitulado “Colonies tropicales et societés plurates”. Cadernos de Campo, n° 3, 1993. num estudo de andamento essencialmente politico, definiu a “colénia” como: “um pais onde uma minoria européia se sobrep6s a uma minoria nativa de civilizag’o ¢ de compor- tamentos diferentes; esta minoria curopéia age sobre os povos autéctones com um vigor des- proporcional ao seu niimero; ele ¢, se quiser- mos, extremamente contagiosa e, por natureza, deformante”37, Esta “minoria” ativa assenta a sua dominagio sobre uma superioridade ma- terial incontestavel, sobre um estado de direito estabelecido vantajosamente para ela, sobre um sistema de justificagdes de fundamento mais ou menos racial (e, para certos autores, como R. Maunier, 0 fato colonial & antes de tudo um “contato” entre ragas). Ela é tanto mais reativa quanto mais ela se tenha enrai- zado e rebelde a fusdio, quanto mais ela se sinta ameagada pelo crescimento demogrifico dos colonizados: assim, na Africa do Sul, onde a populacdo branca vé “em sua situagdo um pro- blema de minoria, enquanto os negros vém na deles um problema colonial e de tutela”38. como também ocorre na Argélia, onde a m noria européia defendeu duramente seu status. Esta observagao ¢ preciosa; ela nos lembra justamente que esta minoria numérica ndo & uma minoria sociolégica, ela s6 corre este pe- rigo se houver um inversdo da situago co- lonial Esta obscrvagao ja foi feita por alguns socidlogos. L. Wirth, a0 definir que ¢ uma minoria e estabelecendo uma tipologia das minorias, insistiu sobre este ponto. Segundo ele, “o conceito nao é de ordem estatistica”. Ele dé o exemplo dos negros que vivem no sul dos Estados Unidos, que sao, em alguns esta- dos, numericamente majoritarios e nao deixam de constituir uma minoria “estando social, politica e economicamente subordinados”, 37 H. Lauremtie, Notes sur une philosophie de ia politique coloniale francaise, in nimero especial de Renaissances, out. 1944 38 J. Borde, Le probléme ethnique dans Union sud- apricaine, op. cit, p. 320. 116 exemplo da situago criada pela expansio co- lonial das nagdes européias que transforma os colonizadores “em grupos dominantes” ¢ os povos de cor em “minorias"39. O volume de um grupo social nao é suficiente para fazer dele uma minoria, apesar de que este “possa ter efeitos quanto ao estatuto ¢ quanto as relagdes com o agrupamento dominante”. © carater de minoria é inerente a uma certa forma de ser dentro da sociedade global, ele implica es- sencialmente uma relago de dominado a do- minante. Encontramos esta relago constante- mente ao longo da analise precedente. carter de minoria (no sentido socio- lgico), que pertence a sociedade colonizada, mostra suficientemente como esta deve set enearada na sua relago com os outros agru- pamentos que compéem a colénia. Mas isto no indica no que a sociedade colonizada se distingue das outras minorias colocadas em situagdes diferentes. Um primeiro passo se impée, determinar qual é o seu lugar na socie- dade global: a “colénia”. Se evocarmos esquematicamente os grupos colocados em cena pela situagao colo- nial, classificando-os a partir da sociedade colonial (agrupamento dominante) até a socie~ dade colonizada (agrupamento submetido), podemos distinguir: a) a sociedade colonial, excluindo os “estrangeiros” de raga branca; b) os “estrangeiros” de raga branca; ¢) os colou- red, conservando a expresso inglesa, que tem um sentido amplo; d) a sociedade colonizada, todos aqueles que os anglo-saxdes denominam de “natives”. Distingdo e hierarquia que re- pousam, de inicio, sobre critérios de raga e de nacionalidade. Elas implicam uma espécie de postulado: a exceléncia da raga branca e mais precisamente desta fragdo que ¢ a nagdo colo- 39 L. Wirth, The Problem of Minority Groups, in The science of Man in the World Crisis, p. 347 a 372. Do ‘mesmo autor, sobre este tema: The Present Position of Minorities in the United States. nizadora; a supremacia sendo vista como fun- dada na histéria e na natureza. Isto € apenas uma visdo grosseira que exige ser completada. R. Delavignette consa- grou um capitulo de sua obra ao estudo da sociedade colonial*9, Ele lembrou alguns dos tragos que a definem: sociedade de “proveniéncia e de ligacao metropolitanas”. constituindo uma minoria numérica, de carater burgues, animada por uma “nogdo de superio- ridade heréica” (fato que se explica, em parte, pelo maior nimero de homens e pela sua ju- ventude, nas colénias ditas de enquadramento ‘ou durante a primeira época da colonizagao). ‘Trata-se sobretudo de uma sociedade que tem a funggo de dominar, politicamente, economi- camente-€ espiritualmente; ela tende a dar & seus membros, segundo a frmula de R. De- lavignette, “o espirito feudal”. O fato impor- tante € que esta sociedade dominante perma- nece uma minoria mum forte grau: o desequil brio é grande entre a massa de colonizadores e a massa de colonizados. Permanece o temor, mais ou menos consciente, de ver a hierarquia se reestabelecer apenas segundo 0 critério das massas, L. Wirth féz, entretanto, um julgamento bastante" simplista quando afirmou que, no caso das situagdes coloniais, “o grupo dom nante pode manter a sua posigao superior fa- zendo simplesmente funcionar a maquina mili- tar ¢ administrativa”; tio enorme é a despro- porgdo entre civilizagdes materiaist!! Ele se- quer entreviu o vigor das descolonizagdes em gestagiio. Também subestimou boa quantidade de aspectos importantes, procedimentos atra- vés dos quais 0 grupo dominante se toma into- cave: reduzindo 0 contato ao minimo (segregago), colocando-se como modelo e, 20 mesmo tempo, no concedendo os meios de 40 Les vrais chefs de I" Empire, nova edigao sob 0 titulo de Service africain, 1946, cap. Il: "La societé coloniale" 41 Op. cit., p. 353. nT sua realizagdo (a assimilagao apresentada como condigio de igualdade — porque a sabemos impossivel ou porque a limitamos); ideologias justificando a posigdo dominante; procedimentos politicos destinados a manter 0 desequilibrio em favor da sociedade colonial (¢ da metrOpole). Aspectos aos quais deve-se acrescentar a transferéncia, mais ou menos dirigida sobre certos agrupamentos, de senti- mentos provocados pela pressao_politico- econémica: como ocorre, por exemplo, com os sirio-libaneses na Africa ocidental, com os indios na Unido sul-africana e com os coloured de uma forma mais geral. Na medida mesma em que a distancia entre as civilizagoes tende a se reduzir, as relagdes das massas ganham um papel mais importante, a forga jé nao é sufici- ente para manter a dominagao € os meios mais indiretos também so utilizados. A sociedade colonial nao ¢ homogénea. Ela tem as suas “facgdes” ou “elds”, que sao mais ou menos fechados uns para os outros, mais ou menos rivais e que possuem a sua propria politica nativa. Esta sociedade ¢, por causa de cada um dos seus elementos, desigualmente distante da sociedade coloni- zada; mas a politica de dominagao ¢ de pres- tigio exige que cla scja fechada e distante: o que nao facilita a compreenstio e impie 0 re- curso facil aos “estereétipos”. O particularismo dos colonizadores. “preponderantes” se exprimiu inicialmente em relag3o aos “estrangeiros” de raga branca. Estes consti- tuem uma minoria no sentido pleno do termo, numérica e sociologicamente. Estes podem ter um estatuto econdmico elevado, mas também esto submetidos a serviddes administrativas. Eles so suspeitos em razo de sua nacionali- dade © sio freqiientemente cortados da “verdadeira” sociedade colonial. Na medida ‘em que sio rejeitados, se constituem em mi- norias nacionais ¢ tém freqdentemente relagdes, mais estreitas com os autdctones. Esta ramiliaridade” maior, € a condigao minorité- ria em que se encontram, explicam as reagdes Cadernos de Campo, n° 3, 1993. ambivalentes dos nativos a seu respeito: uma certa intimidade com nuances de desprezo; os ressentimentos podem cair sobre cles com uma telativa impunidade ¢ cles _ permitem transferéncias de baixo custo. Na escala de descrédito relativo aos agrupamentos dominados, 0 das coloured (mestigos © estrangeiros de cor) ¢ 0 mais des- favorecido. Ele é tanto mais destinado ao iso- lamento por medidas discriminatérias, reduzi- do ao papel de “comunidade exética”, quanto mais evidente vai se tornando sua importincia econémica: assim, 0 problema do indiano na Africa do Sul explica-se sobretudo pelo fato de que alguns dos indianos “sto ricos demais invadem subrepticiamente as posigSes ocupa- das pelos brancos"2. A imbricagio dos fatos de ordem racial e dos fatos de ordem econémica se manifesta, entéo, plenamente. No caso dos mestigos, o isolamento € ainda maior, em razio de seu cardter de “compromisso racial”. Eles sé conseguem se reagrupar, constituir uma sociedade vidvel, em circunsténcias excepcionais - aquela dos “Bastardos de Rehoboth”, no antigo Sudoeste afticano alemao é particularmente conhecida — ¢ impondo-lhe um estrito fechamento. Eles so jogados, como notou A. Siegfried a propésito dos Cape coloured, em diregio a uma raga negra com a qual nao querem ser confundidos; eles visam a assimilagio pela sociedade colonial que thes permanece mais ou menos fechada, segundo circunstancias locais, ou hes concede um estatuto pessoal#3, consagrando de uma maneira legal a sua posieao particular. Embora representem um compromisso racial eles no constituem de maneira alguma um 42 Cf. A. Sicgftied, Afrique du Sud, Armand Colin, 1949, p. 75. Também Handbook on race relations in South Africa, sob a ditegao de E. Hellmann, 1949, € J Borde, op. cit, p. 339-340, 43 Como isto foi tentado antes de 1939 nos territérios de dependéncia francesa: na A.O.F. (1930), em Madagascar (1934), na AEF (1936), na Indochina (1938). 118 “compromisso social”. Dificilmente podem-se ver neles um instrumento de ligagaio entre so- ciedade colonizada e sociedade colonial. A sua alianga politica com a elite da sociedade co- lonizada nao foi duradoura: assim, a Confe- réncia dos ndo-europeus criada em 1927, na Africa do Sul, que tentou, tendo em vista uma ago comum, unir mesticos, indianos ¢ bantos, ndio teve nenhuma agiio eficaz ¢ teve curta du- ago. Os coloured estio mais em conflito — em razio de uma melhor condigao econdmica ¢ politica, em razdo do fator racial ~ do que de acordo com a sociedade colonizada; cles no podem representar o papel de lideres frente a esta ultima’, A sociedade colonizada chama a aten- Go inicialmente por duas caracteristicas: sua superioridade numericamente esmagadora4S e a dominagaio radical que ela sofre. Sendo mai- oria numérica, ela nio deixa de ser uma mino- ria sociolégica j4 que, segundo a expressio de R. Maunier, “a colonizagaio é um fato de po- der” que traz consigo a perda de autonomia, uma “tutela de direito ou de fato"48, Cada um dos setores da sociedade colonial tem como fungo assegurar esta dominag3o num dominio preciso (politico, econdmico e, quase sempre, espiritual). A subordinagao da sociedade co- lonizada é durante muito tempo absoluta em razio da auséncia de técnica avangada, de ou- tro poder material além do nimero; ela se ex 44 Assinalemos, no entanto, que a um certo grau de ameaga comum, 0 que se produziu com as decisdes tomadas pelos governos sulafricanos nacionalisas, responde uma oposi¢a0 mais unida 48 Somente para a Afica negra, R. Delavignette dava, em 1939, as seguintees proporgdes quanto populagio dita curopéia: Unido Sul-africana (25%), antigo Sudoeste afticano alemio (10%), Rodésia (4.5%), Angola (1%), Kenia (0,5%), Congo belga (0.2%). A.OF. € AEF. (0.1%); op. cit. p. 36. No que se refere estes ditimos territérios, desde 1946, 0 crescimento europeu foi importante: de 1946 a 1951 a populagio européia” triplicou em A.EF. e nos Camardes, & duplicou em A..F. no Togo. 46 CER, Maunier, Sociologie coloniale, p. 19, 30, 33. pressa por um estado de direito ¢ de fato. Ela Tepousa, ja assinalamos isto varias vezes, sobre uma ideologia, sobre um sistema de pseudo- justificagdes e de racionalizagdes; ela tem um fandamento “racista” mais ou menos confesso, mais ou menos manifesto. A sociedade coloni- zada sofre a pressio de todos os grupos que constituem a “colénia”, todos tém, sob algum. aspecto, uma preeminéncia sobre ela; ¢ assim, ela experimenta, mais ainda, sua condigao de subordinagao, Para estes tltimos ela é, em primeiro lugar, um instrumento criador de riqueza (4 que ela s6 retém uma parte insignificante do lucto, a despeito do seu niimero). Este papel condiciona em parte as relagdes que ela mantém com os grupos que dela tiram os seus privilégios econdmicos. Relagdes que nao sao simples, no entanto — relagdes de explorador a explorado, de dominante a dominado -, em razo da falta de unidade da sociedade colonizada sobretudo do cardter radicalmente heterogéneo da cultura que ela anima, A sociedade colonizada € dividida et- nicamente; divisdes fundadas na_ historia nativa, mas utilizadas pelo poder colonial ¢ complicadas pela arbitrariedade das “divisdes” coloniais ou dos recortes administrativos. Elas orientam ndo apenas as relagées de cada uma das etnias com a sociedade colonial (assim por exemplo os povos que serviram de “intermedidrios”, na época do comércio escra- vo afticano e das feitorias, tentaram deslocar 0 seu papel do plano econémico para o politico e aparecem como minorias “militantes”), mas também a sua atitude face a cultura importada (alguns grupos étnicos._—s sos mais “assimilacionistas” ou mais “tradicionalistas” que certos grupos vizinhos, em reagao, ao me- nos em parte, contra estes). A sociedade colo- nizada & dividida espiritualmente. Divisdes que podem ser anteriores 8 colonizagao euro- péia e resultar, por exemplo, dos impulsos de conquista do Isléo. Mas a colonizagdo intro- duziu, em muitos lugares, a confusio religiosa, 119 Tradueao: Balandier opondo o cristianismo as religides tradicionais € 08 cristdos das diversas igrejas entre cles. E citamos a esse respeito um afticano de Brazzaville evocando este “estado de coisas que s6 tem por efeito criar uma lamentavel confusio no desenvolvimento moral”. Ele acrescentava: “o negro da Africa, qualquer que ele seja, possui um rudimento de religiao; re- tiré-lo, seja para o ateismo, seja pela confustio das doutrinas religiosas importadas. , com certeza, transformé-lo num descentrado"47, Ele até chegou a pedir ao “colonizador” que impusesse a unidade! Isto mostra 0 quanto estas novas divisdes, acrescentadas as antigas, foram dolorosamente sentidas por alguns'8, Por outro lado, a colonizagao suscitou outras, que poderiamos qualificar de sociais, nascidas da ago administrativa € econdmica, da agao educativa: separacdo entre moradores da cida- de e do campo, entre proletariado e burguesia, entre “elites” (ou “evoluidos”, segundo a fin- guagem convencional) e massas‘9, entre gera- des. Nos as evocamos e sugerimos as suas conseqiiéncias nos diversos momentos de nossa andlise. Cada uma destas fragdes parti- cipa de maneira diferente na sociedade global. 0 contato de ragas ¢ de civilizagdes que a co- lonizagao impie, nao tem nem a mesma signi- ficago nem a mesmas incidéncias para cada uma delas — ele deve ser estudado em fungao desta diversidade. A sociedade colonizada difere da soci- edade colonial pela raga © pela civilizagdo. Nestes dominios a alteridade parece absoluta: ¢ ela que manifestou na linguagem que opés 0 “primitivo” ¢ 0 civilizado, 0 pagio e o cristao, 47,3. R. Ayouné, Occidentalisme et africanisme, in Renaissance, namero especial, outubro 1944, p. 204. 48 Esias divisdes estiveram, por vezes, na origem de verdadeiras "guerras religiosas". Como aconteceu no reino de Ganda (Uganda) por duas vezes, de 1878 a 1888 ¢ de 1890 a 1899. 49Cf. Dr. L. Aujoulat, Elites et masses en pays d’ outre- mer, in Peuples d’ outre-mer et civilisation occidentale, op. cit. p. 233-272, Cadernos de Campo, n* 3, 1993. as civilizagdes téenicas ¢ as “atrasadas”. Mais do que a situagao colonial foi este fato patente — 0 contato entre civilizagdes heterogéneas ¢ os conflitos que dai decorrem — que atraiu a atengio dos antropélogos ao longo dos tltimos decénios. Estudo dos “contatos” entre culturas A sistematizagao de tais pesquisas s6 foi efetuada, no entanto, tardiamente. Os pri- meiros estudos de B. Malinowski quanto a este problema se situam por volta de 1930 € a sua introdugdo ao volume Methods of Study of Culture Contact in Africa’ é ainda posterior. E neste ensaio que se afirma, sem equivoco, a vontade de estudar as sociedades tal como elas existem (“uma sociedade nativa intacta apa- tecendo como uma ficgo”) ¢ de dar a “antropologia” um cardter pratico, Malinowski define ali, segundo a sua propria expressao, a “situago de contato” (contact situation). Ele precisa a nogdo de cultura “nova”, constituida de elementos “parcialmente fundidos”, mas da qual nao poderiamos dizer que ¢ produto de uma espécie de assimilagdo mecanica dos elementos culturais incorporados. Ele critica tal concepeao insistindo sobre o fato de que a contribuigo da sociedade européia, que con- trola a situacio em larga medida, € “altamente seletiva”. E ele alerta para o risco de uma “abordagem unilateral”; sobre este ponto, no entanto, ele se mostra reservado e toma o cuidado de indicar que a sua intengio nio ¢ nem acusar nem fazer “uma pregagio pré- nativos”. Os fenémenos de mudanga cultural po- deriam ser avaliados a partir de um “ponto zero” que definiria as condigdes de equilibrio 50 Memorandum XV, International Institute of African Languages and Cultures, 1938. 120 social anteriores as intervengdes européias. Isto representaria uma visdo ingénua, que des- conheceria as influéncias 4 distancia, as “discordancias” jé existentes, ¢ que superesti- maria as possibilidades de reconstrugio ¢ de interpretagdo do estado anterior. A referéncia a uma situagdo antiga, onde a tribo teria sido preservada de todo contato, parece perigosa- mente ilus6ria. B. Malinowski se levanta con- tra “a paixdo de reconstrugio” pseudo-histo- rica. A observagio da realidade atual, diz ele, deve bastarS! ao pesquisador engajado no es- tudo do culture contact. As instituigdes con- servadas funcionam no novo contexto de ma- neira diferente do modo como o faziam no an- tigo contexto — 0 especialista ligado a tais problemas deve procurar muito mais os dados comparativos que dados histéricos incertos. Encontramos aqui aquela tendéncia, cedo de- nuneiada por A. Kroeber, segundo a qual 0 funcionalismo recusa a historia, Orientagdo que Malinowski justificou pela falta de infor- mages incontestiveis em niimero suficiente — Ignoramus ignorabimus — reconhecendo 20 mesmo tempo que o estudo dos contatos ¢ mudangas culturais € em certa medida uma micro-hist6ria ¢ uma historia de “curto prazo”. Esta posigio doutrinéria se encontra afirmada, a partir de um exame critico que concerne a obra de dois dos seus alunos (L. Mair e M. Hunter), na sua obra The dynamics of Culture Change; ela aparece ali muito debilmente de- fendida. Num artigo severo que avalia este en- saio te6rico, M. Gluckman mostrou facilmente que as idéias de Malinowski referentes a his- t6ria — misturando historia objetiva ¢ historia subjetiva — s4o confusas®?, E este critico lem- bra, com razio, a existéncia de material (documentos oficiais, livros de exploradores ¢ de missiondrios, etc.) de valor assegurado, 51 Exatamente: “is suficient for all he needs to know", ibid, p. 32. £2 M. Gluckman, Malinowski's Functional Analysis of Social Change, Africa, vol. XVI. 2, abril 1947, p, 103- 121 apontando também a necessidade de recorrer as indicagdes que eles contém, para compreender 0 nascimento de tal ou qual tuagdo particular, 0 desenvolvimento de tal ‘ou qual processo especifico. Desta maneira, quando Malinowski constata que a paz colonial “apagou as antigas hostilidades tribais”S3, e quando joga tal fendmeno para 0 passado abolido, cle se priva de um elemento indispensével para 0 conhecimento do presente. A ocupagdo européia suprimiu a expresso militar dos antagonismos e dos conflitos tribais, mas ela os utilizou para fins, comerciais e politicos, ou acabou por provocar, a0 seu encontro, uma unidade de circuns- tancias, Nao poderiamos apreciar de maneira valida estes dinamismos sem uma referéncia aos seus antecedentes. Nao podemos deixar de concordar com as criticas formuladas por M. Gluckman. Cada vez que isto se tornar possivel daremos um lugar para o plano histérico. A situagao exis- tente no momento em que estudamos as mu- dangas sécio-culturais foi construfda; a anilise que ela requer 6 é frutifera se pesquisarmos os dados essenciais da historia colonial local. Jé evocamos este fato, mas é conveniente lembrar também 0 quanto a nogdo de situagdo & capaz de assegurar a integra¢ao dos diversos pontos de vista (inclusive 0 do historiador) que o atual estado das ciéncias sociais existe, Por outro lado, fomos colocados na’ presenga de processos que se desenrolam num longo perio~ do: tal como o messianismo dos Ba-kongo, ativo desde 1920. Nao ha diivida que o recurso & historia recente se impde em tais circuns- tancias — na medida mesma em que esta mostra como o movimento renovador se organiza, responde as exigéncias do novo estado social ¢ sofre variagSes ligadas as vicissitudes das rela- Ges entre sociedade colonial e sociedade co- lonizada. Finalmente, a permanéncia de certas 53 The dynamies of Culture Change, New Haven, 1945. VUIL, p. 84-85. 121 Traduedo: Balandier instituigdes sé pode ser interpretada plena- mente nos casos privilegiados em que 0 pes- quisador dispe de referéncias quanto a0 seu funcionamento no antigo contexto social Manifestamos este fato na nossa Sociologie des Brazzavilles noires, mostrando como 0 Témo, conhecido principalmente como associ- ago de poupanga, pode preencher em diferen- tes épocas, com uma aparente permanéncia formal, fungGes diferentes resultantes de mu- dangas econdmicas ¢ sociaisS4, Foram estes os momentos de nossa pesquisa onde se impds 0 apelo aos dados de carater histérico. No The Dynamics of Culture Change, as indicagdes teoricas, jd mencionadas, foram submetidas a um exame mais minucioso, mas a orientagao inicial em nada foi modificada. A nogdo de “situagzio de contato™ parece ter ai um valor operacional pequeno: falta especi- almente esta referéncia a sociedade global que €a colénia, Na verdade, é 0 proprio sentido da realidade social, do campo de relagdes com- plexas que a constitui e das relagdes antagoni cas que nela se exprimem, que se encontra em falta, Como M. Gluckman nos fez observar, 0 sistema conceitual elaborado pelo célebre an- tropélogo nio serve para o reconhecimento do conflito (mais ou menos contido) enquanto atributo de toda sociedade. Gluckman escreve: “Em geral, quando negros e brancos cooperam, ele reconhece os fenémenos como “processos de contato € de mudanga social”, mas em todo lugar em que cles entram em conflito, ele considera os fendmenos como distintos ¢ no integrados”55, Estes tltimos aspectos sio excluidos do dominio do culture contact, mesmo quando 0s fatos obrigam Malinowski a levé-los em conta. Devemos notar 0 quanto tal posigdo tedrica é geradora de erros, no caso de uma situagdo caracterizada pela dominagdo e pelas relagdes desiguais que ocorrem entre 54 Cf. G, Balandier, Sociologie des Bra: Paris, A. Colin, 1955, cap. 1V. 55 Estudo critico ja citado, p. 23. willes noires,