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VOLUME 1 Veriano, Pedro, coord ‘A Critica de cinema em Belém; pesquisa e coordenacio de Pedro Veriano. — Belim: Secretaria de Estado de Cultura, Desportos © Turismo, 1983 331 pil 1, CINEMA. Belém. 2 CINEMA. Belém-Histéria © critica. 3, CRONICAS PARAENSES. I Titulo ep - 791. 4309811 DU + 79143811. 5) GOVERNO DO ESTADO DO PARA SECRETARIA DE ESTADO DE CULTURA, DESPORTOS E TURISMO BIBLIOTECA-ETDUFPA\ A CRITICA DE CINEMA EM BELEM PEDRO VERIANO (pesquisa © coordenagso) Pesquisadores.auxilsres JOSE AUGUSTO AFFONSO IL LUZIA MIRANDA. ALVARES MAIOLINO MIRANDA VOLUME 1 BELEM 1983 mindscula, sendo portanto outra historia muito comprida, Com livenga do sr. 9C afirmo que sem medir as qualidades dos filmes tendo como peso unitario “Resgate de Sangue”, nes: te filme encontrei muitas boas qualidades, qualidades essas que voltei a encontrar em “0 Odio E Cego" que, por especial defe: réncia deste jornal, correrei o risco de comentar na proxima 3a. feira PS — Sr, Benedito Nunes: ja havia escrito estas linhas quan: do li sua carta a mim dirigida. Por ela vi que me meti em camisa de onze varas quando falei em cinema sem pedir licenea a vocés, os espectadores. A questo foi morta e nada mais tenhoa dizer, desde que oe? afirma: “Cinema é isso Boulevard do Crime”. Era 0 mesmo que se dissesse: “Literatura ¢ isso: “Os Moedeiros Falsos", ou Poesias 6 isso: T. S. Elliot. Tragédia é isso: "Ham- let’, etc, Uma definiedo que satisfaz apenas a quem a formala, mas que nio 6, realmente, uma defini¢io. "ao descubro a causa de vocé se sentir ofendido, como se eu, ao tomar de pena, tives: se arrancado algo que ndo me pertencesse. Voo® diz que eu so faco critica nas 3 primeiras linhas, quando apenas anuncio 0 meu propésite. A piada ndo é sua, desculpe-me informisto. “Achei notavel a pantomima de Barrault ¢ isto Ihe causou ad miragio “diz-me vocé. Onde leu isso? pergunto-Ihe eu, que ja mais fiquei de boca aberta pelo fato de vocé gostar da pantomi ma de Barrault. Conhecendo 0 seu bom gosto, que aliés ndo po- ho em divida, preferia dirigir a nossa diferenca no modo de apreciar 0 grande filme francés a0 ponto de travarmos uma dis: cussio serena e por esse motivo lamento sua atitude e sua liga: do ao falso humor, que eu poderia devolver, proporcionando 405 outros as mesmas risadas que voce quis mas no conseguiu fazer dar @ minha carta, Concordo finalmente, que na verdade do fui “to inteligente como muitos outros a ponto de concor dar com a boa critica especializada, como faz vocé e os outros, convictos ou no. Considero esta subordinacdo a0 bom gosto alheio uma espécie de burguesia intelectual bastante "comoda”. Acredite que admiro muito vocé e mesmo sem concordar com 0 228 conceito integral que vocé expendeu sobre “O Boulevard do Crime” foi a critica que li com 0 maior prazer. ALC ADELINA LISBOA COIMBRA A Provincia do Paré, UM DIA QUALQUER (filme) © que surpreende em “Um Dia Qualquer” nio é tanto a re- sisténcia aposta pelos atores 8 humilhacio a que foram submeti- dos; 0 que surpreende, tampouco, 6 0 desperdicio de todo um material fotogénico (os aspectos fisicos desta mui querida e leal Santa Maria de Belém), que daria pelo menos um documentario melhorzinho; nem, finalmente, o irrisério do cendrioescrito pelo proprio realizador, a puerilidade e mesmo a matutice com que esquematiza 0 argumento, resolvendo-o na base do pior drama- Ido rédionovelesco. Em verdade, é a direcdo de Libero Luxardo — um nome na historia do cinema brasileiro, com “Retirada da Laguna” / “Al ma do Brasil” & “Aruana” & "Cacando Feras” — a mais descon- certante de todas as surpresas deste melodrama de baixo cali que pe 0 Par’ como participante (ao lado do eixo Rio,, S30 Paulo, Bahia) do esquema nacional de longametragem. Poe no sentido de ter sido concebido e executado, mas no temos aqui uma experiéncia vélida — ainda que defeituosa, priméria mes- me —, sendo um arremédo de “‘longo", arritmcio e insuiso. (Vi de comentarios de nossa coluna diaria). E 0 fato & que, ha vinte e tantos anos afastado das ativida des cinematograticas (veio fazer o Paré em vinte e seis dias, est fazendo em vinte e seis anos), Luxardo anda muito desatualiza: do da realidade do cinema — e, a0 que vemos, por fora de tada 225 a realidade. A desarticulacdo de seu filme é geral, de cinemstico sobrando uma insisténcia mondtona de planos pretenciosos e de wulgares tomadas-de-cena que, no fundo, so repeti¢des de tudo ‘© que ja tem sdo realizado desde a fase herdica do mundo. Ve- Ihissimo logo 20 nascer, cansativo e mal feito, “Um Dia Qual quer” retroage a éra vergonhosa da chanchada, a que inclusive se refere em expressiva citacdo (a de Roberto Reis bancando um subOscarito, na parada de onibus} triste é que, entre a estoria original e a realizacio, 0 ce- luldide possui um dos roteiros mais resiveis de que jé soubemos, A comecar pela dupla central, 0 hlarido (Hélio Castro) e a Mu Iher (Lenira Guimardes) — pois o fato & que os personagens fo ram escravizados a essa perspectiva de abstragdo total, desde que Go se descreve nem 0 seu tipo psicolégico nem a sua condicdo social: vé-se, apenas, que “aparecem’* (ndo habitam, porquanto falta vivéncia & casa) em residéncia confortavel e moderna, Néo se Ihes conhece nem fonte de renda nem habitos de vida: ndo teria sido melhor mostrar que so gente de carne e 0380, a0 invés los a recitar discursos piegas que acanhariam até a pré: pria Madame Delly? Unindo isso @ aquilo, Dom Libero apanhou pela gola a quantos rapazes e mocas pode apanhar, empurrou-os para diante da camera (a principio manejada por Rui Santos, @ seguir por Fritz Mellinger) — e mandou para a galhofa coletiva: a jovem estudante gazeteira (Zelia Porpino), que promete um mundo de luxiria dangando na Maloca, porém se arrasa toda a ‘um simples apalpar de busto; 0 irmao idem idem (Alberto Bas: tos), de vozinha irritante e entregue ao azar de um ridiculo que (© vern perseguindy desde entdo, a prostituta motorizede, Mar lene (Maria de Belém) que efetiva a sua operagdo de “streap. tease” 20 som de um chorinho de um radio-de-pitha, humilhan. do-se e humilhando ao seu companheiro de sequéncia (Thomas Barcinsky, com ares de boc6 de beira-de-estrada); 0 romero (Eduardo Abelnor), que pede “pela paz do mundo" no Cirio e ‘em plena sesso de macumba; etc... etc..., A tolice na fixagdo, de caracteres, sua melodramatizagdo ao esquema da mais infima 226 extragio humano-cinematografica, tudo isso revive vicios jé an. tigos, nacionais e estrangeiros, desservidos por um mecanicismo tecnico de qualidade abaixo da critica (dublagem cémica, ‘como no caso do Albertinho, por exemplo). Pois assim & "Um Dia Qualquer”, uma obra de intengdes ocultas, de estrutura inexistente, incrivelmente mediocre. Que, no sendo trabalho wie equipe ~ 0 que ainda poderia salvar alguma coisa da fita ~, destrOi reputagGes: Pixinguinha foi o autor da partitura musi cal, © duas cangSes de Waldemar Henriques constam do''score” da producdo, elenco resiste a fossa, sen duvida — e, a frente dos que resistem, esse inteligente Eduardo Abdelnor, que consegue sair ileso da pele de um pobre diabo fandtico (que da idéia de fugiti vo de um circo de mabembes). Mesmo a despeito da ma orienta Go, os intérpretes resistem, embora nada logrem transmitir, nao por culpa deles, ¢ claro, mas da inexisténcia de papéis a que possam viver. E, entre os melhores, numa “pontinha'" que prima pelo cliché, Marta Goretti. Pena que a dublagem haja estragado @ cena em que intervém Nilza Maria: a voz, que Ihe coube, ja- mais corresponde aquela miscara sofrida de quem, na verdade, & uma das mais completas (e poucas) atrizes que possuimos, A Ginica sequéncia com um certo senso de ritmo é a da apresentagio dos bois bumbas ~ sobretudo ai, com os erros de planos e 0 mau uso da montagem, sente-se a fragilidade inclusive artesanal de Libero Luxardo. O que, em se tratando de um vete- rano com a fama que tem, ndo somente surpreende. Até. per turba, impressionanda vivamente ACYR CASTRO A Provincia do Pard, 1965 E necessario realizar 0 nacionalismo em literatura e arte. Realizar uma emancipacio na ordem da cultura como se fala de 227 emancipagdo econdmica. Precisamos pensar 0 Brasil em termos. rnacionais e em termos de América, principalmente de América do Sul. No nos podemos dar ao lux de sermos “‘cidadios do mundo” porque ainda ndo somos suficientemente homens de nossa regio e de nosso pais, isto é, homens devidamente im pregnados no sentimento da terra, da sociedade, da cultura brasileira (..) Nao podemos aspirar a uma posigao internacional enquanto no houvermos consolidado uma forte situago nacio: nal. Isto em arte como em politica Para atingirmos esse objetivo, porém, impde-se uma atitu de realista e lcida, ao mesmo tempo séria e saudavel, afastados, a igual distancia, tanto dos “porque-me-ufanistas"” em estado de exaltagdo emocional quanto dos “hipercriticos” com um oposto delirio de autodestruicdo ALVARO LINS, 1956 ~ (“Introduco ao Cinema Brasil ro" se Alex Viany. Pagina 7) Ser nacional antes de ser universal devia ser 0 primeiro mandamento do cineasta caboclo, O Brasil ai esta, cheio de as suntos cinematograficos, cheio de gente cinematografica, cheio de lugares cinematograficos, cheio de cinema latente, imploran do uma camera como a donzela preparada para o baile implora um espetho. Sinceramente, gostariamos de ver, um dia qualquer, 0 Para no cinema, Gostariamos de ver 0 Cirio, 0 Bumbé, a macumba, © Mosqueiro, 0 “Ver-o-Peso”, 0 “Ruseu Goeldi” 0 "Bosque Rodrigues Alves”, a nossa querida Belém, tudo que é nosso, tu- do que a gente vé todo dia (ou quase todo dia), que a gente ama de verdade (ah o bairrismo paraense...), nas telas dos cine. ‘mas, cintilante do bonito + “Um Dia Qualquer” tem 0 Cirio, tem 0 Bumbé, tem a ma cumba, tem 0 Mosqueiro, tem 0 “Ver-o-Peso”, tem 0 “Museu”, tem 0 “Bosque, tem a cidade, mas ndo gostamos tanto de ver © que faltou ao filme de Luxardo ? Ao “nosso filme” ? Muito simples. Faltou uma estoria nossa, Uma estéria de 228 nossa gente, do povo que vive todos os dias no “decér" fotogra- fado por Rui Santos & Mellanger e Fernande Melo. Seria bom, muito bom, falarmos de “Um Dia Qualquer” sem comentarmos em sua realizagdo. Falarmos do fime, longe dos louvores ao pioneirismo, ao peito de bandeirante, ao pé de Berro de seu temoiso realizador. Sinceramente, desejévamos que fOsse assim. [Mas “Um Dia Qualquer’” no pode ser analisa do honestamente divorciado das lutas travadas nos bastidores do esforco sobrehumano dispendido por Libero e sua brava equipe. Fazer um filme no Brasil ainda é aventura, Alberto Caval canti quando fundou a “Vera Cruz” foi chamado de maluco. Nao Tigou, botou @ maquinaria na terra e arregagou as mangas. Cinco filmes depois ¢ Cavalcanti compreendeu o apelido. Era ‘mesmo um maluco, “Ora direis, fazer Cinema no Brasil...” Hoje em dia, com 0 “cinema novo” distribuindo entusias- mo, @ proauedo, nacional tem aumentado consideravelmente. Os produtores aparecem aos montes. Todos (ou quase todos) sem base industrial, feitos “na raga”, empunhando confiantes a bandeira do amor a sétima arte, to fascinante e tao dificil. 0 resultado da “onda” ndo & promissor como perspectiva de “‘ci- nema-industria”, de cinemamatéria, de cinema que produza sem solugdo de continuidade. Luxardo esteve por mais de duas décadas afastado do seu verdacleiro “matier’. A experiéncia ensina que a inatividade & perigosa. Lima Barreto fez “© Cangaceiro” e oito anos depois © lamentavel “A Primeira Missa". Jorge Heli fez ““Amei um Bi cheiro” @ também oito anos depois 182 0 muitas vezes inferior “'Mutheres e Wilh6es", Avaliem mais de vinte anos nulos na vida de um cineasta ! Considerando os fatores esbocados de “raspio” (as difi culdades técnico-financeiras, ¢ 0 tempo de inatividade do dire- tor), podemos situar “Um Dia Qualquer” num plano especial, imune as pedras “dos que nunca pecaram’', embora sensivel 8s ‘marteladas de um (humano) juiz. 229 0 pior do filme, como dissemos, é a estéria. Um romance ‘que desagua na tragédia para frizar a impossibilidade do amor (0 mais puro amor) no mundo repelente (em varios sentidos) dos nossos dias. Nao condenamos 6 0 mais procurado pelos artistas do século, Ele existe e 6 pal: pavel no diae-dia cosmopolita. Concenamos em primeiro lugar a preferéncia do assunto para um filme brasileiro e mais particu: larmente, um filme paraense. O filme “de cidade’, para nds, exi ge um dominio extraordindrio do complexo conteddo-forma {éia original. © tema, afinal de contas, Um dominio como Walter Hugo Khoury demonsirou no seu re- cente "Noite Vazia’, embora com influéncia estrangeira para reiniciar suas atividades, Liaero devia ter pensado numa estoria bem regional, simples como a boa gente que danga 0 “boi” ou acompanha contrita 0 Cirio, esfregando os pés no asfalto. ‘Além da estoria em si, impossivel de ser sentida pelo espec tador comum, Libero pecou no tratamento cinematogrifico. Fez um filme pretensioso, enderecado as elites, visando possi velmente @ manutencdo de nome, registrado com respeito na ‘Aruana) Historia do cinema brasileiro ("Retirada da Laguna’, “Um Dia Qualquer” no tem continuidade, no obedece 0s recursos académicos para misturar o temipo e 0 espaco (cor “no sentido tra dicional. Faz, queira ou ndo, “nouvelle vague”. Tudo anti-acadé mico, no conceito “arte pela arte” apregoado por alguns “no: vos", europeus ou ndo. Nao vamos discutir a validez das inovacdes formais. O as sunto € vasto, polemico e fascinante. Queremos-spenas frisar tina, dissolvéncia, ete.}, nao segue um “enredi que 0 “anti-academismo” nao 6 - ou no deve ser — um convite & anarquia. Existe muita anarquia cinematografica batizada de ‘obra-prima por esnobistas inveterados. ‘A funcionalidade deve nortear 0 caminho do realizador. A economia de sequéncias (os cortes bruscos), o paralelismo da ‘acdo, as andancas ao tempo e no espaco, os planos, a musica, a 230 fala, tudo enfim deve ter um objetivo, deve “dizer” qualquer coisa, filme de Luxardo, dentro da rebeldia em moda, pouco diz. Qual 0 motivo, por exemplo, dos cortes bruscos em deter- migadas sequéncias quando em outras a ago se arrasta em detalhes superflucos ? Exemplo: a tomada na residéncia de Car- los e Maria de Belém quase no final, de extrema lentidio, em contraste com as tomadas do tipo (indefinido e ridiculo} inter- pretado por Eduardo Abdelnor, répidas e desordenadas no espa Parece que a primeira intengdo do cineasta foi fazer uma cronica de Belém, de um dia na vida de Belém, com seus dramas fe suas comédias. Uma idéia relacionada com 0 néorealismo (de quem Luxardo se diz precursor), mas enxertada da preocupagao “antonionésca” da incompreensio, ou melhor, da incomunicabi: lidade (aliés 0 termo “incompreensio” é citado varias vezes no didlogo, legando ao filme 0 tom pesado e pretensioso jé referi- do. Complexo em sua estrutura (idéia, roteiro, objetivo), o fil me ganha terreno perigoso com a inserco dos episédios alheios a0 motivo-chave. Como explicar, por exemplo, a longa sequén- cia de Marlene (Maria de Belém), completamente divorciada do romance Carlos (Hélio Castro) ~ Maria (Lenira Guimardes) ? Tal sequéncia, destocada no tempo (faz parte das recordagées de Carlos, quando procura Maria no ilosqueiro), no encontra jus- tificativa e 36 esta na estoria pelo. fato do carro em que viaja Marlene seguir 0 dnihus em que visjam os enamorados Carlos © Maria ‘A mesma coisa acontece com a estoria do ladrdo de igrejas. Uma estoria completamente independente do filme, embora um dos momentos mais bem feitos de “Um Dia Qualquer Reconhecemos também a inexperiéncia do elenco, coisa muito natural e compreensiva. Mas 6 notorio o desperdicio de talentos latentes com papéis mal esbocados e diélogos pouco naturais. E 0 caso, por exemplo, do Abdelnor, dando 0 que po- 23 dde numa figura alienada (em duplo sentido) Assistimos © filme quase 3 vezes. Queriamos eliminar 0 feito (ruim, no caso) da primeira impressio (sempre apressad, comumente falha). O filme, contudo, pouco acrescenta (de bom) 8 visio de esteia, “Um Dia Qualquer" no fica, como desejévamos sincera mente, entre os filmes representatives do “cinema-novo" brasi Ieiro. Mesmo com a preocupacio de fazer cinema moderno, Lu xardo impregnou a sua obra do sentido mafo de “Viagem aos Seios de Duilia”, o filme que Carlos Hugo Christensen assassi- nou Néo seriamos justos negando qualidades positivas no pri meio longa metragem paraense. Temos, por exemplo, um mo mento de “‘cimera-olho” interessante naquela corrida de Sta ria de Belém e Thomas Barcinsky do igarapé a0 carro, debaixo de chuva. Ainda com Belém e Barcinsky, muito bom o recurso do “champagne” derramado na areia, e de louvével efeito da misica (“Carinhoso"), tocada no inicio do longo “strip-tease"” Gostamos particularmente do episbdio do ladréo de igreas, to do ele bem conduzido, Talvez 0 momento mais auténtico, com 0s atores ({araba e Gelmirez) bem controlados. Decepcionante em sua maior parte, “Um Dia Qualquer" marcou ~ queiram ou no 0 ingresso do Pard na indisteia do filme. Uma estréia violenta, repleta de boas intengées. Um filme cheio de falhas, porém muito melhor que “O Tropeiro”, "0 Cai péra'”e outras produgées de centros mais avancados Luxardo deve continuar. Ele tem @ principal virtude do cineasta: ama o cinema, Quem ama o cinema de verdade, pode fazer cinema. Acreditamos nas proximas tentativas do paraense de coragao. Maos a obra, Luxardo. Mos a obra, Paré PEDRO VERIANO A Provincia do Pars, 1965 232 i Q 4 id! a8 : p i i § “O cinema no & um instrumento, © cinema é uma ‘ontologia’”. Glauber Rocha Quais as intengdes do Sr. Libero Luxardo em realizar “Um. dia qualquer..."? Segundo suas proprias palavras, fazer um filme para intelectuais sobre Belém, isto é, que fosse desvendar o que tem de mais belo a Cidade. Nosso trabalho partira dessa premis- Libero Luxardo no & um estreante na realizagao cinema togréfica, Ha vinte e alguns anos atris realizou “‘Aruana” e “A retirada da Laguna’. Inclusive ha uma correspondéncia da Cine mateca enviada a0 meu amigo Isidoro, solicitando, cast fosse encontrada aqui, uma copia do “Aruand, visto ter sido, a deles destruida por um incéndio que consumiu parcialmente aquele centro de estudos e arquivo cinematogratico. Quer dizer, ha al: guma coisa de positive realizada por ele, que obteve certo realce fem determinado momento da evolugdo cinematogrifica no Bra sil Nao acreditamos, ou pelo menos no acreditivamos, que 0 interesse da Cinemateca venha a ser apenas de natureza histérica € cronoldgica, Mesmo a quando radicado aqui, sabemos de ten: tativas de Libero Luxardo para fazer cinema, Projetos se frustra ram e foram abandonados. Restam apenas fotografias e as nar- rativas, que conhecemos, de Zilda Ferreira, que seria a protago- nista da estoria, talvez, “Amanha nos encontraremos”. Dessa epoca para a atual, 0 cinema brasileiro mudou mui- to. Mudou de tal maneira, que deslumbrou no apenas aqueles que estavam acompanhando sua evolucio, De industria incipien- te © comercializada, a relativa quantidade tornou-se qualitativa- mente melhor. O episodio da Atlantida sofreu declinio rapido. Antes, era o cinema pioneiro, com deficiéncias técnicas e artis- ticas, com a politica de produedo influindo diretamente na difi culdade de realizagio. Os atores, inadaptados a cmera, condu: Ziam o ritmo interpretativo do teatro, vicio capital para o cine- Com 0 episodio da chanchada, tivemos a fase do cinema 233 comercial, feito para ganhar dinheiro, sem nenhum cuidado ar tistico, Era vicio da industria crescente, que para poder se afirmar dentro de um esquema de arte oriundo da divisio ca pitalista de trabalho, tinha que fazer o filme para vender. O financiamento havia, os estudos imbuidos da grandeza hollywo diana moviam-se, desde que houvessem perspectivas certas de lucro. aquito que eles pensavam que era privilégio da chan: chada — levar platéia a0 cinema ~ nada mais era do que a ne- cessidade coletiva de identificar-se com 0s nossos tipos popula res de grandes cidades. Numa visdo retrospectiva, entretanto, temos que aceitar a fase atlantida da chanchada, com seus lados positivos, entre os quais, o de desenvolver o cinema nacional co mo indistria e manté-1o vivo como espetaculo. Com 0 advento do Autor, € da tomada de posicdo deste frente a uma realidade econdmico-social, o que resultou no sur gimento do que passou a ser chamado Cinemanovo, resultou uma direcdo diferente para o cinema brasileiro. E quando a preocupacdo social dirige a ontolagia do Cinemanovo, partindo de uma viso da realidade brasileira, que importava em sua transformacdo. Apoiado, parcialmente, por uma visio nova dos produtores nacionais, tivemos as maiores obras de nosso Cine ma, Demos um salto qualitative dos mais importantes, do qual resultou filmes como “Rio 40 gréus" e “Vidas Sécas", ambos de 'N. P. dos Santos; “Assalto ao trem pagador”” de Roberto Fa rias"; “Os Cafajestes” de Ruy Guerra; “O Pagador de Promessa"" de Anselmo Duarte; “Noite Varia” de W. H. Koury e “Deus eo Diabo na Terra do Sol” de Glauber Rocha. Impossivel tentar uma regressio. “Um Dia Qualquer...", historicamente, se localiza em Be- lem do Par tografico, esté situado na fase atlantida do cinema brasileiro. Ou talvez antes ainda. E filme que teve como finalidade mostrar um episédio, no interpreté-lo, num processo de recriacdo em sintaxe cinemética. Deseja interessar 0 espectador pela visio ser timental, no pela inteligéncia. Criar um clima de alienacdo, co- 4, em 1965. Esteticamente, como fendmeno cinema 234 mo se 0s conflitos humanos, resolvidos na dialética das imagens fossem apenas um mural de luz e sombras na tela, ausentes da realisade, “Um Dia Qualquer...” seria uma estaria de amor. Segundo palavras de seu realizador, o seu grande amor pela cidade, infor mado pela trama, Iilas obra fica apenas na intengSo. L. L. que. ria dizer muitas coisas em seu trabalho, percebe-se que deseja va dizer alguma coisa terna sobre Belém, porém, no conseguiu seu objetivo. Talvez por que desconhega que cinema é arte das imagens em movimento, € que por elas, como exclusivamente através delas ¢ que estabelecemos a comunicacio entre 0 que é © 0 que se quer dizer. O real ¢ 0 irreal. O que acontece no filme € to abscuro, como se 0 poeta que trabalha com a palavra, 20 desejar dizer: "Realmente, eu vivo num tempo sombrio” (B. Brecht), dissesse: Sombrio coisa agora real eu © conflito intencio-realizacdo foi 0 problema fundamen: tal da feitura de “Um Dia Qualquer...” Por que Libero, queren do fazer cinema, desejando compreender e agir sobre 0 mundo através da magia imagética, ndo estava de posse de sua gramati-” cca expressiva,matraqueando uma sintaxe incompreensivel e falsa Teria contado com elementos, condicdes para dizer na tela, aquilo que desejava? Vejamos. Em primeiro lugar, quais os ele. mentos que ele utilizou: texto, atores, cimeras, luz, misica, Finguagem (ritmo, decupagem, continuidade, montagem etc.) Em segundo lugar, o que resultou. Ee Comecemos pelo texto. O Roteiro. Literariamente o Sr. Libero Luxardo nao ultrapassou e até baixou um pouco, 0 nivel de seu “Maraba”. E primério nos didlogos, nas imagens, mas idéias que analisa, inclusive portando coisas inadmissiveis, como aquilo sobre a corrida espacial, a paz, 0 amor, num moralismo equeno burgués, tipicamente exemplificado na cena do banho de igarapé, variando entre 0 obceno e o fanatismo comum. Dis s0 voltaremos @ falar. Os didlogos néo tém fungio expressional, no dizem nada, estarrecem. O roteiro , portanto, aquilo que se. 235 ‘ia transfigurado em imagens, ndo era bom. Exigia-se um talen: to invulgar para salvé-lo. tas o homem que sézinho fez o rotei +o, era quem sozinho iria decupé-lo e tudo o mais, para finalizar na direcao. E 0s atores? No Cinema o ator difere medularmente do de teatro. Chega mesmo a inverter-the a ordem, uma vez que o bom ator de cinema deve ser, o quanto mais, anti-teatral. Quando nos referimos ao ator de teatro sempre dizemos se ele ¢ um bom ou mau ator. Enquanto que, ao que diz respeito o de cinema, dize mos se ele est bem ou mau em determinada pelicula. Justamen te porque dentro da linha do espeticulo teatral, o ator mantém a linha de seu personagem estabelecido, a0 passo que, no cinema, cabe ao diretor manté-lo. Em “Um Dia Qualquer. propriamente, nao ha tipos criados, nem uma linha definida aos personagens. Os episodios acontecem, os personagens passam diante da cdmera. Simplesmente. A direedo ndo pode extrair as suas possibilidades, 0 potencial de sua arte. Sendo, vejamos’ Hélio Castro pela primeira vee experimentou a arte de re presentar diante das cimeras. Deveria, portanto, revelar-se para a arte dramética Logo para o cinema, Gerard Philippe questions. do, certa vez, sobre se diria as qualidades do ator, respondeu co. locando 0 talento em terceiro lugar, precedido de inteligéncia memaria. Conhecendo as possibilidades do Diretor de cinema junto ao ator (vide Victor Mac Laglen, dirigido por John Ford em “0 Delator’ e Allan Ladd, por Georges Steaves em “Shanne") supreendemos Hélio Castro perdido no meio das cenas, com as duas permanentes expresses angiistia c riso durante o fil me todo, sem transmitir as nuances de seu personagem sofrido. Lenira Guimardes passeia no filme sua elegancia, sua bele- za, porém, sem estabelecer os postulados de seu personagem e nem convencer 0 grande amor em funcdo do qual, seu persona gem viveu. Maria de Belém Rossard foi usada como a moca que possui um belo corpo, sendo comercial mostré:la quase nua, em uma 236 Cena gratuita, injustificada, num franco desrespeito ao seu talen to, dsua arte, Zélia Porpino, realmente, estreando, ¢ a Gnica revelagdio do filme, sendo, porém, prejudicada, pela indigéncia de seu perso: nagem, embora sobrando a sua sequéncia, como a melhor cons truida na pelicula, Se ela ndo chegou a criar um tipo foi por que no the deram um tipo para criar, mas adivinhamos as possibili dades cinematograficas em sua figura. Eduardo Abdelnor faz um romeiro que consegue transpor um certo ridiculo do personagem, por conseguir imprimir uma certa presenca em tela, mas ndo salva o personagem, nem as si tuagdes em que é largado. Inclusive 0 dispensivel sermio e a sua injustificada presenca na macumba. Nesta sequéncia, enta houve grave falsificacdo ao fendmeno cultural e sua compreen- sio social. Nele, hi a genese de um furto numa Igreja (episodio: piada) a prisio do gatuno, um "'strip-tease” gratuito, para o qual Conceigsio Rodrigues empresta seu belo tipo isico e seu calor humano, assim como a frustraco de um de nossos melhores atores, Claudio Barradas, num Tranca Qua completamente tea: tralizado e anti cinematografico. Nao vou mencionar todos os atores. Lembro mais ainda, Nilza Maria, a que realmente cria algo em frente das cimeras, Ags outros, nos os conhecemos a todos, pessoalmente ou em trabathos de arte, e sabemios que em sua totalidade, sem exce do, tem condiges para representar, desde que Ihes sejam ofere- cidos personagens logicos, coerentes, e, no caso de cinema a di reedo ndo os abandone ao azar de suas cenas, ‘A fotografia, inicialmente a cargo de Ruy Santos e poste riormente de Melanger ¢ como se presume, irregular. iluito na base de fixar paisagem, cenas paradas, quase no funciona em ‘sua condigao de geradora do fendmeno filmico. Tem momentos apenas em que vislumbra caracteres da Cidade, mas no funda: mental, desperdica Belém como décor. Ha duas sequéncias bem fotografadas, embora, mais como registro: a do furto e fuga da 237 igreja e a0 do Bumba Kieu Boi. No mais é completamente dis: persiva A iluminagao de Melanger 6 a melhor coisa do filme. O seu fio de unidade. Unico elemento que resiste a uma andlise exaus tiva e em profundidade ‘A misica de Pixinguinha e Waldemar Henrique no funcio: na, Sublinha decorativamente a trama, Nao interfere em sua ex: pressividade, A linguagem ¢ irregular. A tentativa de montagem numa continuidade descontinua, a0 sistema de Goddard, perde-se por falta de condigées. 0 ritmo inexiste. Libero Luxardo quis fazer um filme de autor, No chegou a conseguir tal pretensio, Construiu uma obra que € 0 resulta do de todo um conflito de ordem econdmica, fruto de um sta tus de cultura alienada da realidade, onde o instrumento de ar te de maior compreensio entre os homens ¢ © cinema, queda apenas como um recreio licido de evasio. O cinema de autor, © que 0 Sr. Libero se propés a fazer, quando isolou-se para rea lizar 0 seu filme, opde-se ao cinema comercial que ele tentou fa: zer. Foi essa contradico fundamental que levou sua obra a der rocada. O cinema de autor tem uma direeio nova, por que é a propria reagdo do cineasta contra 0 processo de divisio capita lista da arte. E 0 modo de fugir ao jogo da bitheteria, aceitando: ‘a condigdo de depender dela, industriaimente. Pertencendo 3 uma faixa cultural de super estrutura capitalista, o cinema esta belece uma dupla atitude ao autor, género do cineasta brasileiro, como as de conservé-la ou transformé-la. O Sr. Libero, obvi mente, se decide pela primeira, uma vez que sua cimera no é uma lente de compreensio do mundo, na interpretagao dos con: flitos humanos, mas, uma lente que sofre o pralax da alienacéo, quando observa a realidade. O diretor de “Um Dia Qualquer...” deveria lembrar-se que esta lidando com 0 mais diabélico instrumento de penetragdo social de nosso. século. Nenhuma obra de arte no Para, nenhum 238 trabalho fiterdrio, arrastou tante gente para exaurito. Temos obras importantes no rumance como os de Dalcidio Jurandir e Lindanor Celina; no conto “Senda Bruta” de IIdefonso Guima- ‘es; na pintura exposicdes particulares e Saldes de Artes Plisti- cas; @ poesia, embora escondida, mas armando o seu bote; 0 tea tro com periodos de notavel rendimento. Mas, para verificar 0 Filme Paraense, as filas so interminaveis, O montante das criti cas nao oferece imediatamente, saldo positive. Mas pubblico hi. Muito embora a obra de L. L. mantenha-se ainda, numa fase de marginalismo intelectual, 0 que vitimou durante longo tempo 0 nosso cinema. Néo conseque captar tipos reflexos de nossa reali dade, 0 que Ihe daria um certo interesse cultural, "Um Dia Qualquer..." € um filme demasidamente indivi dualista, Quase egoista, mesmo, Mas “a arte nio ¢ um mero pro- duto da arbitrariedade individual” (T. de A.). Deve comunicar- se. E 0 individualismo no cinema 6 a sua propria negacdo. Em scu livro sobre Trucagem no Cinema, Maurice Bessy diz que “o cinema esta longe de ser um “metiér” facil. Ele exige experiéncia, engenhosidade, uma grande paciéncia’. “Um Dia ‘Qualquer...” é um filme que ndo se realiza, Uma tentativa de fa- zer cinema. fas 0 fato do Sr. Libero Luxardo ter errado, signifi- cca que fez alguma coisa, S6 tem possibilidade de errar quem faz. Este € 0 ponto positive de sua realizagdo. Ter sido concluida. Levar 0 povo ao cinema, Permitir uma anlise do fendmeno cinematografico no Para. A possibilidade de surgir uma incipien- te industria cinematografica nossa, para entio se comecar a fa zer cinoma. E nossa divida comLivero, Esperamos que "Mata: 6 barreira do Mar" aproveite a experiéncia do filme analisado, € se realize, JOAO DE JESUS PAES LOUREIRO A Provincia do Pari, 1965 239 UM DIA QUALQUER Nao sou critico de cinema e nem de outra qualquer cousa, mas ndo me furto ao prazer de dizer que gostei do filme de LIBERO LUXARDO, “UM DIA QUALQUER", data venia, 6 claro, dos conspicuos criticos que 0 consideraram abaixo da cri tica, E certo que “UIA DIA QUALQUER” a gente s6 entende 24 horas depois de assisti-lo. Dele pode se dizer o que escreveu VALERY LARBAND a respeito de MERIMEE: “Ele no age imediatamente sobre 0 espirito do leitor. O efeito 36 principia depois de acabada a leitura Depois que volte’ do cinema 6 que compreendi a pelicula. Em um dia qualquer acontecem todas as passagens triviais, dra maticas e tragicas, vividas pelos artistas: namdro, mortes, a cur fa, a cena de macumba, do encontro dos bois bumbis, do idi lio cru do igarapé, do furto sacrilego, ete E um filme simbélico. No tem “estéria” porque tudo acontece num dia qualquer, © puro amor dos principais perso agens, que é fato quotidian, escandalisou mais os criticos, do que as cenas do igarapé e da macumba. Mas, por rais incrivel que pareca ha ainda amores romanticos. LIBERO LUXARDO antes da exibi¢o do seu trabalho fez questo de declarar que acreditava na virtude € isso 0 trans porta ao século XVII, uma vez que foi naquela época que a arte acreditava nela. O produtor abandonau 0 conceita da arte eren. do na razdo, (século XVIII), na paixdo, (século XIX), e no exis: tencialismo, (nosso século). tHlas ¢ um ponto ue vista que deve ser respeitado, E claro que a pelicula peca pelo seu cardter acentuadamen te individualista. E 0 seu grande defeito, Dizer-se, porém, que a produedo de LUXARDO € medio cre, inexistente, que ndo chegou a se realizar 6 ABUSO DE PO. DER CRITICO. 240 Os censores locais agiram com muito rigor, mais como in. Quisidores do que como criticos. Nao faltou o aparato da reu: nido, em programa de televisio, e o julgamento foi o que se viu, de auténticos bispos ortodoxos, a que esteve presente um papa. Sim, ACYR CASTRO é o Pontifice Kidximo de critica cinema - tografica entre nds, Ainda, data venia, “UM DIA QUALQUER” é um filme pioneiro e como tal, com deficidncias, mas, MARCANTE. Chegouse a criticar a fita porque 0 personagem principal no pagara a corrida do taxi ¢ porque dirigindo-se a0 Museu Goeldi, tomara um Onibus que ia além do Largo de Sao Braz. Esses detalhes, porém, ndo diminuem 0 valor do trabalho. Hé outros, que também no influem para desmerecer a produgio. Todos nos sabemos que a Igreja do Carmo é dirigida pelos Pa. dres Salesianos & aparece como seu vigirio um sacerdote secu: lar. As promessas do CIRIO sdo entreques na Iyreja de Nazaré e © caixdo de defunto foi parar na Iyreja do Carmo, ndo sé sabe porque. So cochilos desculpaveis. OSVALDO ORICO escrevendo um romance sobre a Amazénia, colocou um personagem senta: do no terrago do GRANDE HOTEL esperando a passagem do bonde “Batista Campos”. Ora, aquele bonde no passava por ali ‘Mas 0 valor do_livro do imortal paraense no diminuiu, por isso. Se se tratasse de filme hist6rico, justificava-se a exigéncia de detalhes exatos. saudoso Cecil islille em seu trabalho histérico “AS CRU: ZADAS" cometeu a gafe imperuuivel de fazer aparecer na pri meira cruzada (1095-1100) Ricardo Coragiio de Ledo ao lado de Pedro Eremita e naquela época Ricardo ainda nao havia nascido. Diga-se de passagem que o filme ndo é tdo romantico como muita gente supée. E, aliés, muito realista, sobretudo na cena do espancamento do povo pela Policia, que redundou na morte do principal personagem, Embora o sinal luminoso “NAO VEJA" da critica especia- lisada, “UM DIA QUALQUER” tem agradado aos leigos. 2a Nouvelle vague sem a monotonia das peliculas desse géne: ro, com o desempenho magnifico de HELIO CASTRO e Ge LE NIRA GUIMARAES, com bonito cenario que nos faz sentir que Belém & uma cidade encantadora, com a colaboragdo de tanta gente que jamais havia feito cinema, mas que se saiu muito bem, uma fita que merece ser vista e aplaudida, Os censores do filme tomaram muito a sério a sua missio de mestres da critica cinematografica e se encastelaram no MA- GISTER DIXIT. Isso me faz lembrar um médico naturista que viveu em nossa cidade, pelos idos de 1920 e 1925, que era mate- ialista e que, quando alguém dizia na sua frente que DEUS exis ia, replicava zangado: "EU JA AFIRME| QUE DEUS NAO E. XISTE. E 0 bastante, EGIDIO MARTINS A Fotha do Norte, 14 set 1965 SILVIO HALL DE MOURA publicado na “Folha do Norte” de 14-965, pelo pseudénimo de Egidio Martins. A FELICIDADE NAO SE COMPRA A filme de Frank Capra “A Feliciciade No se Compra’ apresenta muitos defeitos, inclusive uma verdadeira enxurrada de ruidos e excesso de didlogos que tumultuam a imagem preju. dicando-a sem complementé-la, Was, a respeito dos defeitos téc: nicos e também da fragilidade do roteiro como conjunto. 0 fil: me apresenta um problema que, por si s6, jé é um ponto positi- vo a favor de Frank Capra. A localizacéo de um tema que pene- tra em problemas sociais consegue despertar o interesse do es- pectador com maior intensidade, sendo esta afirmagdo de facil 242 justificagdo desde que considerado © grau de esclarecimento da platéia e ainda a identificagJo do espectador com a situagio apresentada no desenrolar do filme. A historia contada por Ca- ra, mesma com as deficiéncias inerentes a algumas incursbes pouco vilidas por demais esquematizadas e até piegas, situa de um modo bem caracteristico a luta entre dois campos opostos aquele que representa unicamente o interesse lucrativo de mais possuir e aquele que coloca, antes de tudo o melhoramento das condigées de vida, de uma classe desfavorecida, De um lado, 0 detentor do dinheiro, a procurar aumenta-lo, desprezando e pro- curando espoliar 05 proprios semelhantes, considerados como al- 90 despreztvel em decorréncia de uma situacdo financeira precé- ria que se reflete na estrutura social do meio, Do outro lado 0 lutador incansével, pugnando para dar um teto e melhores con- digdes de vida a quem no as possui. © conflito entre as duas partes surge como decorréncia natural do desprezo aos valores hhumanos, linha de conduta adotada naturalmente pelo espolia- dor. A posigio de Capra é bem definida e se situa, como no po- dia deixar de ser no trato honesto da questo, na condenacdo vigorosa a exploracdo do homem pelo homem, dando paralela- mente uma li¢do do que é possivel realizar quando se trabalha e se luta pelo bem da coletividade, pela melhoria do padrdo da vida de pessoas que permanecem aprisionadas, no que tange a sua realizacio como seres humanos, por presses econémicas quase_inelutéveis, condicionadas pela abastanca espoliadora de outras. Frank Capra, para melhor caracterizar a importancia do papel desempenhata pele personagem que lutou em favor de melhorias coletivas, lanca mao da fantasia como elemento capaz de melhor esclarecer os pontos positives a que se props defen: der. Tornou possivel ao personagem (James Stewart) pecorrer (05 ambientes onde vivera na situago em que se encontrariam se ele ndo tivesse nascido. E quando se tem oportunidade de ‘examinar a completa disparidade existente entre as condicdes de vida nas duas alternativas. Sem ele a cidade adquiriria, sob 0s impulsos espoliativos do outro, um aspecto caracteristico de 243