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COMF.

N'I'ÄRIOS

DC) A

n

I ICO

l ’ iiS T A M UN I ( )

Com entário de E zequiel - volum e I © 2012 Editora Cultura Cristã. O riginalm ente
publicado em inglês com o título The Book o f Ezekiel - chapters 1-24. Daniel I. Block
© 1998 Wm. B. Eerdmans Publishing Co. - 255 Jefferson Ave. S.E., Grand Rapids.
Michigan 49503. Todos os direitos são reservados.
1* edição 2012 - 3.000 exem plares
C o n se lh o E d ito r ia l
Ageu Cirilo de Magalhães Jr.
Cláudio Marra (Presidente)
Fabiano de Almeida Oliveira
Francisco Solano Portela Neto
Heber Carlos de Campos Jr.
Mauro Fernando M eister
Tarcizio José de Freitas Carvalho
Valdeci da Silva Santos

B65ISC

P ro d u ç ã o E d ito ria l
Tradução
M arcelo Tollentino
Valter Graciano Martins
Revisão
Gecy Macedo
Airton W illiams Barboza
Edna Guimarães
W ilton Lima
E ditoração
Rissato
Capa
Magno Paganelli

Block. Daniel 1.
C om entários do A ntigo T estam ento - E zequiel / D aniel 1. B lock;
traduzido por Valter Graciano e M arcello Tollentino. São Paulo: Cultura
Cristã. 2012.
992 p.
Tradução The book o f Ezequiel
ISBN 978-85-7622-418-1
1. Comentário 2. Estudo Bíblico 3. Exegese 1. Título
CDU 22.07

6DITORR CULTURA CRISTA
R. Miguel Teles Jr., 394 - Cambuci - São Paulo - SP - 01540-040
Caixa Postal 15.136 - 01599-970 - São Paulo - SP
Fones 0800-0141963 / (11) 3207-7099 - Fax (11) 3209-1255
www.cditoraculturacrista.com.br - cep@cep.org.br
Superintendente: Haveraldo Ferreira Vargas
Editor; Cláudio Antônio Batista Marra

PARA ELLEN
mahmad- 'ènay

SUMÁRIO
Prefácio do autor 11
Abreviações 15
INTRO DUÇÃO
I.
II.
III.
IV.
V.
VI.
VII.

Pano de fundo: o mundo de EzequíeI 27
Autor, propósito e métodos: a resposta de Ezequiel 34
A natureza da profecia e o estilo literário de Ezequiel 43
Texto 63
Ezequiel na tradição judaica e cristã 64
A teologia duradoura de Ezequiel 69
Bibliografia selecionada 83
TEXTO E COM ENTÁRIO

P a r t e 1: MENSAGENS DE DESTRUIÇÃO E

QUEDA PARA JUDÁ E ISRAEL (1.1-24.27)
I. O Chamado de Ezequiel para o ministério profético (1.1-3.27) 103

A. O ENDEREÇAMENTO (1.1-3) 106
B. A VISÃO INAUGURAL DE EZEQUIEL (1.4-28a) 114
1. Preâmbulo (1.4) 116
2. Seres viventes (1.5-14) 117
3. As rodas (1.15-21) 120
4. A plataforma e o trono (1.22-27) 122
5.Cólofon conclusivo (1.28a) 124

8

O

L IV R O D t E z e q u i e l

C. O COMISSIONAMENTO DE EZEQUIEL (1,28b-3.11)130
1. Preâmbulo (1.28b-2.2) 133
2. O discurso do primeiro chamado (2.3-7) 134
3. A visão do rolo (2.S-3.3) 140
4. O segundo discurso do comissionamento (3.4-11) 144
D. A PREPARAÇÃO DE EZEQUIEL: SEU RETORNO À
OBRA (3.12-15) 148
E. O DISCURSO DE APRESENTAÇÃO DE YAHWEH
PARA EZEQUIEL (3.16-21) 154
F. A INICIAÇÃO DE EZEQUIEL (3.22-27) 164
n . Sinais e visões de infortúnio para Israel e Judá (4.1-11.25) 174

A. DRAMATIZAÇÃO DA QUEDA DE JERUSALÉM
(4.1-5.17) 176
1. Dramatizações (4.1-5.4) 178
2. A proclamação verbal (5.5-17) 202
B. PROCLAMANDO JULGAMENTO CONTRA AS
MONTANHAS DE ISRAEL (6.1-14) 222
1. Casa limpa: o primeiro anúncio (6.1-10) 224
2. Casa limpa: o segundo anúncio (6.11-14)235
C. SOANDO O ALARME NA TERRA DE ISRAEL (7.1-27) 241
1. O primeiro alarme (7.1 -4) 246
2. O segundo alarme (7.5-9) 249
3. O terceiro alarme (7.10-27) 252
D. PREVENDO A PARTIDA DE YAHWEH (8.1-11.25)267
1. Preâmbulo da visão do primeiro templo (8.1 -4) 272
2. As abominações no templo (8.5-18) 277
3. A resposta de Yahweh às abominações no templo (9.1-11) 290
4. O incêndio de Jerusalém e a partida de Yahweh do templo
(10.1-22)301

S u m á r io

9

5. A panela de came (11.1-13)313
6 .0 evangelho segundo Ezequiel (11.14-21) 326
7. Epílogo da visão do templo (11.22-25) 341
III. Uma coleção de profecias de ais contra Israel (12.1-24.27) 345

A. SINAIS DOS TEMPOS (12.1-20) 346
1. Malas prontas para o exílio (12.1 -16) 346
2. Uma pantomima de horror (12.17-20) 362
B. PROFECIA-VERDADEIRA E FALSA (12.21-14.11) 365
1. Dois oráculos contra os cínicos (12.21 -28) 367
2. Dois oráculos contra profetas falsos (13.1-23) 373
3. O oráculo contra o abuso profético (14.1-11) 397
C. O ALTO PREÇO DA TRAIÇÃO (14.12-15.8) 413
1. Explanação sobre a justiça divina (14.12-23) 414
2. Uma metáfora sobre o julgamento divino (15.1-8) 427
D. A ESPOSA ADÚLTERA: PISOTEANDO A GRAÇA DE
DEUS (16.1-63) 433
1. O chamado para a acusação de Israel (16.1-3a) 444
2. A acusação de Jerusalém (16.3b-34) 444
3. A sentença de Jerusalém: a suspensão da graça (16.35-43) 464
4. Tal mãe, tal filha: A desqualificação de Jerusalém da graça
(16.44-52)469
5. O raio duplo da esperança (16.53-63) 473
E. MENSAGENS DE PECADO E RETRIBUIÇÃO
(17.1-22.31)485
1. A águia e a vinha: uma fábula (17.1 -24) 485
2. Discutindo a justiça de Deus (18.1-32) 509
3. Um “lamento” para a dinastia davídica (19.1-14) 541
4. Reescrevendo a história sagrada (20.1-44) 558
5. A espada vingadora de Yahweh (21.1 -37 [em português,
20.45-21.32]) 600
6. Infortúnio à cidade sangrenta (22.1-31) 630

10

o

LIVRO DE E z e q u ie l

F. OOLÁ! OOLIBÁ! (23.1-49) 656
1. A apresentação do acusado (23.1-4) 659
2. O pano de fundo histórico do caso (23.5-35) 663
3. O caso contra Oolá e Oolibá (23.36-49) 678
G. A PANELA FERVENTE (24.1-14) 685
1. Preâmbulo (24.1-3a) 689
2 .0 dito popular (24.3b-5) 692
3. A disputa (24.6-8) 693
4. A antítese (24.9-13) 696
5. Conclusão (24.14) 699
H. O FIM DE UMA ERA (24.15-27) 701
1. O fim é pré-figurado: a morte da mulher de Ezequiel
(24.15-24)704
2. O fim está à vista! (24.25-27) 710
Notas 717

P r e f á c io

do a u t o r

A publicação deste comentário marca a culminação de uma
aventura laboriosa, mas estimulante, com o profeta Ezequiel. Nos
últimos treze anos Ezequiel tem sido minha companhia constante,
tomando todos os meus momentos de folga e consumindo toda mi­
nha energia de sobra. Eu não percebi quão árduo seria tal projeto
que havia assumido quando, em 1983, aceitei o convite de R. K. Harrison
para escrever um comentário sobre o livro de Ezequiel. O esforço
me deixou sem fôlego não somente em razão da energia gasta, mas
especialmente por causa da vitalidade da mensagem profética exílica.
Ninguém pode passar todo este tempo com uma pessoa tão agar­
rada ao poder do Espírito de Deus, e tão poderosa em sua procla­
mação da mensagem que recebe do Senhor, e permanecer imutá­
vel. Porém, finalmente está concluído! Chegou a hora de ir para
outras aventuras.
Para muitos cristãos, Ezequiel é muito estranho e seu livro muito
complexo e bizarro para merecer uma atenção séria. Assim, o profeta
permanece um mistério. Este comentário foi dirigido por uma paixão
única: fazer esta profecia inteligível e significativa para os leitores
contemporâneos. Ao registrar minhas observações tentei, constante­
mente, imaginar as perguntas que os estudantes da Escritura levan­
tam quando pegam o livro de Ezequiel. Fui grandemente auxiliado e
inspirado nesse processo por centenas de alunos e inúmeros irmãos
da igreja com quem tive o privilégio de compartilhar minhas descobertas.
Enquanto estive “lutando” com este profeta e o registro escrito de seu
ministério, tentando responder as questões que os leitores perguntam,
fui guiado por muitas questões cruciais, dirigidas ao próprio profeta:
(1) Ezequiel, o que você está dizendo? (a questão crítica-textual);
(2) Ezequiel, por que você diz desta maneira? (a questão cultural e
literária); (3) Ezequiel, o que você quer dizer? (a questão hermenêutica
e teológica); (4) Ezequiel, qual é o significado desta mensagem para
mim? (a<]uestão da aplicação). Da mesma maneira, para cada unidade
literária os leitores deste comentário encontrarão uma tradução clara

12

O

I.IV R O

Dt Ezeouiel

do texto hebraico com observações textuais, uma discussão do estilo
e da estrutura da unidade, um comentário versículo por versículo, um
sumário das lições teológicas permanentes da unidade. A tradução
oferecida é a mais próxima possível, mas tão livre quanto necessária.
Onde uma tradução literal do hebraico resulta em vácuos, adições
para completar o sentido foram identificadas com parênteses. Cita­
ções de outros textos bíblicos ocorrem com frequência no comentá­
rio. A menos que a fonte da citação seja destacada, a tradução é
minha. O resumo no fmal da discussão de cada profecia é destinado
para guiar os pastores e professores na proclamação da mensagem
de Ezequiel em nosso tempo.
Enquanto um projeto como este, finalmente, chega ao fim, o pro­
cesso de interpretação bíblica nunca termina. Este é, certamente, o
caso com um documento tão complexo e misterioso como o livro de
Ezequiel. Por conseguinte, muitas das observações e conclusões ofe­
recidas neste comentário são experimentais e provisionais. O presen­
te manuscrito foi submetido aos editores em março de 1994. Embora
pequenas revisões fossem feitas desde então, por causa de compro­
missos com outros projetos foi impossível incorporar todas as novas
ideias que foram publicadas posteriormente a esta data, como jornais
teológicos e monografias. Eu sinto muito especialmente de não ter
sido capaz de tomar mais vantagem das observações literárias e tex­
tuais no impressionante comentário de Leslie Allen de Ezequiel 1-19,
que apareceu após o envio de meu trabalho. Apesar disto, à medida
que meus comentários declaram a verdade da mensagem de Ezequiel
e/ou estimulam investigações posteriores que levam à verdade, eu me
dou por satisfeito.
Este projeto não poderia ter sido terminado sem o apoio
institucional e a assistência de um grupo de indivíduos. Um agradeci­
mento especial ao Bethel Theological Seminary (St. Paul, Minneapolis),
onde tive a alegria de ensinar enquanto estava pesquisando e com­
pondo este comentário. A diretoria foi muito generosa em dar-me um
ano sabático para completar meu esboço final. Agradeço, também, ao
Southern Baptist Theological Seminary (Louisville, Ky.), por fornecer
assistência financeira para um revisor da página de prova. Um agra­
decimento pessoal deve começar com R. K. Harrison, o antigo editor
desta série de comentários, que inspirou uma geração toda de eruditos

P r e f á c io d o a u t o r

13

evangélicos com os próprios escritos e sua liderança nesta série de
comentários. Exceto por sua declaração de confiança em convidar-me
para produzir esta obra, eu não teria participado desta aventura.
E devo também agradecer a seu sucessor, Robert L. Hubbard Jr., em
quem o manto de editor desta série caiu. O Dr. Hubbard ofereceu
uma assistência sem valor ao refinar a força deste trabalho, especial­
mente a introdução. Gostaria de agradecer a todos os outros que me
assistiram durante a caminhada: Gloria Metz, secretária no Bethel,
pelo seu esforço criativo em produzir muitas das figuras e diagramas
neste volume; uma série de alunos assistentes que leram e comenta­
ram partes desta obra enquanto ela tomava forma (Barry Hansen,
Brad Soukup, Kathy Brogan, Bill Odermann, e Greg Mathias); os
membros do SBL Ezekiel Consultation Steering Committee, cuja
parceria no estudo de Ezequiel foi um grande encorajamento com o
passar dos anos (Kathe Darr, Julie Galambush, James Kennedy, Maggie
Odell, John Strong e Steven Tuell); Rick Mansfield por verificar todas
as referências bíblicas neste comentário; e minha esposa Ellen por
sua assistência na preparação dos índices. Um agradecimento espe­
cial ao meu editor, Mr. Gary Lee, por seu cuidadoso trabalho em meu
manuscrito. Em sua busca por excelência ele me poupou de muitos
evidentes erros e me ofereceu inúmeras recomendações para melho­
rar o texto. Por toda essa bondade e a todos esses amigos eu sou
extremamente agradecido. Com tanta contribuição dada a este projeto,
quero dizer que as fraquezas e infelicidades do produto final eu recebo
como todas minhas.
Finalmente, devo agradecer a minha família por aguentar Ezequiel
por tanto tempo. Meus filhos, Jason e Jonelle, cresceram disputando o
meu tempo com este profeta. Eu oro a Deus que os abençoe por sua
paciência comigo e continue a sustentá-los na caminhada da fé.
Mas minha maior dívida de agradecimento vai para a minha esposa
Ellen, “a delícia dos meus olhos” (mahmad- ‘ènay, c f 24.16), cuja com­
panhia e amor preenchem a minha vida com uma alegria indizível. Este
volume é dedicado a ela com uma gratidão profunda.
Minha oração é que os eruditos, pastores e leigos que consulta­
rem este comentário venham a ter um entendimento mais profundo da
profecia de Ezequiel, e, ao fazê-lo, cheguem a um entendimento mais
maduro de Deus, que falou por intermédio desse capacitado profeta.

14

O

L IV R O D E E

z e q u ie l

Todo 0 nosso esforço oferecemos como sacrifício de louvor a Jesus
Cristo. Que o Senhor, que nos redimiu graciosamente e nos falou em
sua palavra, receba a honra e a glória devidas a ele somente.
DANIEL I. BLOCK

ABREVIAÇÕES

AARSR American Academy of Religion Studies in Religion
AB

Anchor Bible

ABD

D. N. Freedman, et al., org. Anchor Bible Dictionary.
6 vols. Nova York; Doubleday, 1992

AfO

Archiv fur Orientforschung

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W. von Soden, Akkadisches Handwörterbuch. 3 vols.
Wiesbaden: Harrassowitz, 1965-1981
American Journal o f Archaeology

AJBA

Australian Journal of Biblical Archaeology

AJSL

American Journal of Semitic Languages

Akk.

Acadiano

ALUOS Annual of Leeds Oriental Society
AnBib

Analecta biblica

ANEP

J. B. Pritchard, org. Ancient Near Eastern Pictures
Relating to the Old Testament. T ed. Princeton:
Princeton University Press, 1969

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AnOr

J. B. Pritchard, org. Ancient Near Eastern Texts
Relating to the Old Testament. 3“ ed. Princeton:
Princeton University Press, 1969
Analecta orientalia

AOAT

Alter Orient and Altes Testament

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D. D. Luekenbill, Ancient Records o f Assyria and
Babylonia. 2 vols. Chicago: University of Chicago
Press, 1926-1927

Arab.
Aram.

Árabe
Aramaico

ARM

Archives royales de Mari

ArOr

Archiv orientalni

16

O LIVRO DE E z F.QUIEL

ASTl
ATANT

Annual of the Swedish Theological Institute
Abhandlungen zur Theologie des Alten and Neuen
Testaments

AusBR

Australian Biblical Review

AUSS

Andrews University Seminary Studies

AV
BA

Authorized (King James) Version
Biblical Archaeologist

Bab.
BAR

Babilónico
Biblical Archaeologist Reader

BARev

Biblical Archaeology Review
Bulletin of the American Schools o f Oriental Research

BASOR
BBB
BBET

Bonner biblische Beiträge
Beiträge zur biblischen Exegese and Theologie

BBR

Bulletin o f Biblical Research

BDB

F. Brown, S. R. Driver, e C. A. Briggs, Hebrew and
English Lexicon o f the Old Testament. Reimpr.
Oxford: Clarendon, 1959

BeO

Bibbia e oriente
Bibliotheca ephemeridum theologicarum lovaniensium

BETL
BHS
BHT
Bib
BibLeb
BibOr
BJRL
BKAT
BN

Biblica hebraica stuttgartensia
Beiträge zur historischen Theologie
Biblica
Bibel und Leben
Biblica et orientalia
Bulletin of the John Rylands University Library of
Manchester
Biblischer Kommentar: Altes Testament

80

Biblische Notizen
Bibliotheca orientalis

BR
BSOAS

Biblical Research
Bulletin of the School of Oriental and African Studies

A

b r e v ia ç õ e s

BTB

Biblical Theology Bulletin

BUS

Brown University Studies

BWANT Beiträge zur Wissenschaft vom Alten and Neuen
Testament
BZ

Biblische Zeitschrift

BZAW

Beihefte zur ZAW

CAD

1. J. Gelb, et al., org. Assyrian Dictionary’ o f the
Oriental Institute o f the University o f Chicago.
Chicago: Oriental Institute, 1956-

CahRB

Cahiers de la Revue biblique

CB

Century Bible

CBC

Cambridge Bible Commentary

CBQ

Catholic Biblical Quarterly

CCSL

Corpus Christianorum Series Latina

CD

Cairo (texto Genizah do) Damascus Document

as

Corpus inscriptionum semiticarum

CML

J. C. L. Gibson, Canaanite Myths and Legends. Ed.
rev. Edinburgo: T. & T. Clark, 1978

ConBOT Coniectanea biblica. Old Testament
CRAIBL Comptes rendus de l ’Académie des inscriptions et
belles lettres
CTA

A. Herdner, ed. Corpus des tablettes en cunéiformes
alphabétiques. vols. Paris: Imprimerie Nationale, 1963

DBSup

Dictionnaire de la Bible, Supplément

DDD

K. vander Toom, et al., org. Dictionary o f Deities
and Demons in the Bible. Leiden: Brill, 1995

DÍSO

C.-F Jean e J. Hoftijzer, Dictionnaire des inscriptions

2

sémitiques de 1lauest. Leiden: Brill, 1965
DNWSl

J. Hoftijzer e K. Jongeling, Dictionary o f the North
west Semitic Inscriptions. 2 vols. Handbook of
Oriental Studies 2. Leiden: Brill, 1995

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EAEHL

M. Avi Yonah e E. Stem, org. Encyclopedia o f
Archaeological Excavations in the Holy Land.
4vols. Englewood Cliffs, N.J.: Prentice Hall, 1975-1978

EB

Echter Bibel

Egyp
EM

Egípcio
Encyclopedia Miqrait

EncJud

Encyclopedia Judaica

ErFor

Erträge der Forschung

Erisr

Eretz Israel

ETL

Ephemerides theologicae lovanienses

ETSMS

Evangelical Theological Society Monograph Series

ExpTim

Expository Times

PB

Forschung zur Bibel

FOTL

Forms of the Old Testament Literature

FRLANT Forschungen zur Religion and Literatur des Alten and
Neuen Testaments
Gk.
Grego

Greg

Cesenius’ Hebrew Grammar Org. E. Kautzsch.
Tr. A. E. Cowley. 2* ed. Oxford; Clarendon, 1910
Gregorianum

GTJ

Grace Theological Journal

HALAT

W. Baumgartner, et al., eds. Hebräisches and
aramäisches Lexikon zum Alten Testament. 4 vols.
Leiden; Brill, 1967-1990

HALOT

W. Baumgartner, et al., eds. The Hebrew and
Aramaic Lexicon o f the Old Testament. Trad, e
org. M. E. J. Richardson. Leiden; Brill, 1994

HAR

Hebrew Annual Review

HAT

Handbuch zum Alten Testament

HBC

J. L. Mays, et al., org. Harper's Bible Commentary.
Sào Francisco; Harper & Row, 1988

GKC

A

b r e v ia ç õ e s

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HBD

P. J. Achtemeier, et al., org. Harper’s Bible Dictionary.
São Francisco: Harper & Row, 1985

Heb.

Hebraico

HS

Hebrew Studies

HSAT

Heilige Schrift des Alten Testaments

HSM

Harvard Semitic Monographs

HSS

Harvard Semitic Studies

HTR

Harvard Theological Review

HTS

Hervormde Teologiese Studies

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Hebrew Union College Annual

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J. D. Douglas, et al., org. Illustrated Bible Dictionary.
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ICC

International Critical Commentary

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K. Crim, org. Interpreter s Dictionary o f the Bible,
Supplementary Volume. Nashville: Abingdon, 1976

lEJ

Israel Exploration Journal

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Interpretação

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Israel Oriental Society

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Bible Encyclopedia. Ed. rev. 4 vols. Grand Rapids:
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Journal of the Ancient Near Eastern Society

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JB

Journal of the American Oriental Society

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R. E. Brown, et al., org. Jerome Biblical Commentary.

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Englewood Cliffs, N.J.: Prentice Hall, 1968

JBL

Journal of Biblical Literature

JBLMS

JBL Monograph Series

JCS

Journal of Cuneiform Studies

20

O

L IV R O D E E

z

E Q U IE I,

JDS

Judean Desert Series

JESHU

Journal of the Economic and Social Histray of the Orient

JETS

Journal of the Evangelical Theological Society

JJS

Journal of Jewish Studies

JNSL

Journal of Northwest Semitic Languages

JQR

Jewish Quarterly Review

JSO T

Journal fo r the Study o f the Old Testament

JSOTSup JSOT Supplements
JSS

Journal of Semitic Studies

JSSEA

Journal of the Society for the Study o f Egyptian
Antiquities

JTS

Journal of Theological Studies

KAI

H. Donner e W. Röllig, org. Kanaanäische und
aramäische Inschriften. 3 vols. Wiesbaden:
Harrassowitz, 1962-1971

KAT

Kommentar zum Alten Testament

KB

L. Koehler e W. Baumgartner, Lexicon in Veteris
Testamenti lihros. 2« ed. Leiden: Brill, 1958

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LD
Les
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Wiesbaden: Harrassowitz, 1972Lectiodivina
Lesonenu
Liddell, Scott, Jones, Greek English Lexicon, 9* ed.
Reimpr. Oxford: Clarendon, 1961
Septuaginta
Mitteilungen des Instituts für Orientforschung

NCBC
NEB

manuscrito (s)
New American Standard Bible
New Century Bible Commentary
New English Bible

NICOT

New International Commentary on the Old Testament

A

b r e v ia ç õ e s

NIV

New International Version

NJPS

New Jewish Publication Society Version

NovTSup Novum Testamentum, Supplements
NRSV

New Revised Standard Version

NTS

New Testament Studies

OBO

Orbis biblicus et orientalis

OBT

Overtures to Biblical Theology

Or

Orientalia

OTL

Old Testament Library

OTP

J. H. Charlesworth, org. Old Testament Pseudepigrapha.
2 vois. Garden City,N.Y.: Doubleday, 1983-1985

OTS

Oudtestamentische Studien

par.

paralelo

PEFQS

Palestine Exploration Fund, Quarterly Statement

PEQ

Palestine Exploration Quarterly

PG

J. P Migne, org. Patrologiae Graeca. 162 vois.
Paris: 1857-1866

PJ

Palästina-Jahrbuch

PL

J. P. Migne, org. Patrologia Latina. 221 vois. Paris:
1844-1864

PRU

Palais royal d ’Ugarit

PTMS
Qad

Pittsburgh Theological Monograph Series
Qadmoniot

RA

Revue d’assyriologie

RAl

Rencontre assyriologique internationale

RB

Revue biblique

REB

Revised English Bible

REJ

Revue des études juives

RevQ

Revue de Qumran

RHR

Revue de l’histoire des religions

21

O

22

i.i v R O D E E

z e q u ie l

RivB

Rivista biblica

RLA

G. Ebeling, et al., org. Reallexikon der Assyriologie.
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RS

Ras Shamra

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Ras Shamra Parallels. 3 vols. AnOr 49 51. Vols. 1, 2
org. L. Fisher; vol. 3 org. S. Rummel. Roma: Pontifical
Biblical Institute, 1972-1981

RSPT

Revue des sciences philosophiques et theologiques

RSV

Revised Standard Version

SANE

Sources from the Ancient Near East

SAOC

Studies in Ancient Oriental Civilizations

SBB

Stuttgarter biblische Beiträge

SBLDS

Society o f Biblical Literature Dissertation Series

SBLMS

SBL Monograph Series

SBLSBS

SBL Sources for Biblical Study

SBLSCS

SBL Septuagint and Cognate Studies

SBS

Stuttgarter Bibelstudien

SBT

Studies in Biblical Theology

ScrHier

Scripta Hierosolymitana

SJLA

Studies in Judaism in Late Antiquity

SJOT

Scandinavian Journal of Theology

SNTSMS Society for New Testament Studies Monograph Series
SOTSMS Society for Old Testament Studies Monograph Series
SR

Studies in Religion/Sciences religieuses

ST

Studia theologica

Sir.

Siriaco

TA

Tel Aviv

Targ.

Targum

TBT

The Bible Today

TCS

Texts from Cuneiform Sources

Pontifical Biblical Institute. Theological Dictionary o f the New Testament. Jenni e C.A b r e v ia ç õ e s 23 TDNT G. Bromiley. org. L. Grand Rapids: Eerdmans. D. Grand Rapids: Eerdmans. W. 1965 UUÂ Uppsala universitetsärsskrift VAB Vorderasiatische Bibliothek VerPort Versão em Português VT Vetus Testamentum VTSup Vetus Testamentum. 3 vols. Botterweck e H. org. org. 1971-1982 TTZ Trierer theologische Zeitschrift TynBuI Tyndale Bulletin TZ Theologische Zeitschrift UF Ugarit Forschungen UT C. Trad. Gordon. et al. Kittel e G Friedrich. 2 vols. AnOr 38. Rome. 1974- TEV Today’s English Version THAT E. 1964-1976 TM Texto Massorético TDOT G. C. Munique: Kaiser. Ugaritic Textbook. Ringgren. Oxford: Clarendon. G. 1971-1976 TLZ Theologische Literaturzeitung TOTC Tyndale Old Testament Commentary TQ Theologische Quartalschrift TSK Theologische Studien and Kritiken TSSI J. Theologisches Handwörterbuch zum Alten Testament. Trad. Textbook o f Syrian Semitic Inscriptions. Westermann. org. Green. Supplements WBC Word Biblical Commentary WMANT Wissenschaftliche Monographien zum Alten und Neuen Testament . Theological Dictionary’ o f the Old Testament. 10 vols. Gibson.

24 O L IV R O DE E z E Q U IE L WTJ Westminster Theological Journal WZKM Wiener Zeitschrift für die Kunde des Morgenlandes ZA Zeitschrift ftir Assyriologie ZAH Zeitschrift ftir Althebraistik ZAW Zeitschrift ftir die alttestamentliche Wissenschaft ZDMG Zeitschrift der deutschen morgenländischen Gesellschaft ZDPV Zeitschrift des deutschen Palästina Vereins ZRGG Zeitschrift für Religions und Geistesgeschichte ZThK Zeitschrift ftir Theologie und Kirche ZWT Zeitschrift Jur wissenschaftliche Theologie .

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a cidade santa. esse homem não somente fundou uma nova dinastia na Babilônia. em 627 a. Is 39. e uma agitação anti-Assíria se acendia repetidamente na terra. alarmado quanto ao crescimento do poder babilônico. e demolindo a cidade. eles também tinham perdido o coração imperial. Nabopolassar avançou numa ofensiva. O desafio mais significante foi colocado por um importante xeque caldeu. tendo produzido em milênios anteriores personagens de expres­ são mundial como Hammurabi (c. A Babilônia havia sido um centro político importante por mais de mil anos. ele obteve uma vitória reverberante fora da Babilônia no último dos ataques dos assírios a essa cidade. No entanto. Os principais perso­ nagens do palco do antigo Oriente Próximo trocavam de papel e nações menores estavam desaparecendo de cena.1).. 1792-1750) e Nabucodonosor I (c.. Mas desde o século 8°. os babilônios estavam domi­ nados por seus vizinhos do norte. tomou-se evidente que os assírios não somente se estenderam exageradamente. os babilônios estavam só esperando a chance de atacar. Merodaque-Baladã. os neoassírios. Em 616. às vezes. também lançou a base para um dos mais brilhantes. ainda que breve. Enquanto isso. impérios do mundo antigo.C. AMBIENTE POLÍTICO Ezequiel nasceu em um mundo turbulento. Por séculos os neoassírios haviam mantido seu poder imperial na região. Surgindo da obscuridade. mudaram de lado e se uniram aos . alcançando até 0 Egito. Em 626. Marduque. os egípcios fizeram o impensável. levando seu exército para a cidade do Eufrates. e em 689 Senaqueribe aplicou um insulto final sobre a Babilônia. um contemporâneo de Ezequias de Jemsalém (2Rs 20. 1133-1116). A velocidade dos eventos histó­ ricos aumentou quando ele entrou em cena.INTRODUÇÃO I. no entanto. Esta situação era claramente um insulto ao orgulho babilônico. trazendo a estátua de seu pa­ droeiro.12. Nabopolassar (625-605). Na época da morte de Ashurbanipal. sob a liderança de Psammeticos 1. PANO DE FUNDO: O MUNDO DE EZEQUIEL A.^ A queda do império assírio coincidiu com a emergência de outro gênio de descendência caldeia.' Mas o poder assírio prevaleceu.

recebeu a notícia que seu pai havia morrido. a centralização da adoração pública em Jerusa­ lém e a reinstauração da Páscoa são atos louváveis (2Rs 23. e o reino de Judá nunca se recobrou da degradação espiritual que ele trouxe à nação. a legendária glória do império deve ser creditada ao seu filho. em 614. e os egípcios foram forçados a retornar à sua terra natal. Mas ele não ficaria distante por muito tempo. mas acabou falhando. 24.28 O LIVRO DE E z e q u i e l assírios para impedir o avanço babilônico. em 610. Em 609. De fato. a eliminação da adivinhação e magia. Sua extensa campanha contra a idolatria dentro do reino do norte . ele perseguiu os egípcios até Hamath. chorando como cães com o rabo entre as pernas. Antes que ele pudesse conseguir o controle sobre o Levante. Com esta vitória os assírios foram apagados do mapa para nunca mais se ouvir falar deles. Nabopolassar conduziu as forças combinadas do Egito e Assíria para fora da cidade. a apostasia judaica estava tão arraigada que as reformas rápidas do bom rei Josias (640-609) não puderam fazer mais do que um risquinho na superfície. O que restou do exército assírio trabalhou duro em Harã.“*Após a vitória sobre os assírios.10-20). a História o destacou como 0 pior rei a sentar-se no trono de Davi (2Rs 21. o qual reinou de 687-642.^ Se Nabopolassar foi o fundador da dinastia. os medos uniram-se à briga ao lado dos babilônios tomando a cidade de Assur. Apesar da aparente conversão de Manassés naqueles dias (2Cr 33. e foi depressa para casa para consolidar seu poder na Babilônia. Os aliados continuaram sua pressão no império decadente. que havia servido como general das forças babilônias na espe­ tacular vitória em Carquêmis. Com o auxílio dos medos. Suas tentativas de romper com meio século de paga­ nismo ao purificar a nação do culto pagão aos objetos. cercando Ninive. Subindo ao trono de Davi numa tenra idade de 8 anos. uma tentativa foi feita para retomar Harã. deste momento em diante. Nabucodonosor II (605562). em 612.2). A batalha decisiva ocorreu qua­ tro anos mais tarde em Carquêmis (Jr46. No entanto. e a derrubando três meses depois.3-4).1-18. Após 45 anos de paganismo patrocinado pelo governo. Josias representava a última espe­ rança de Judá. os assuntos de Judá tornaram-se tão mis­ turados com as atividades babilônicas que para o nosso propósito devem ser examinados juntos. 2Cr 34). mas não por falta de tentativas.

36. Agora Nabucodonosor chegara no limite. o m u n [X) d e E z e q u i e l 29 (2Cr 34.18-23.7).* Mas Jeoaquim não se inclinou a concordar com as exigências de seu novo senhor. em busca de ajuda (2Rs 24. Jeoacaz.20-27). Será que o destino da nação havia sido selado assim tão cedo. Nabucodonosor respondeu às suas tentativas de diálogo com o Egito. as forças de Nabucodonosor levaram Jemsalém a se dobrar. Continuando com as políticas espirituais de seu predecessor. Após a morte inoportuna de Josias. Para manter a lealdade judeia. O Faraó Neco tomou vantagem das incertezas políticas em Jerusalém após a morte de Josias e colocou o próprio fantoche no trono. o suficiente para demonstrar que havia herdado mais qualidades pessoais de seu avô Amon (642-640) do que de seu pai Josias. Algum tempo após 605. assim como seu esforço em 609 de interceptar o Faraó Neco quando a caminho do norte de Carquêmis. deixa-nos curiosos sobre como as coisas poderiam ter sido se não tivesse morrido tão cedo. no trono. e também não poderia ou não queria conduzir seu povo em submissão aos babilônios. com severa indignidade: o rei. 2Cr 35.28-30. a rainha. Com uma multidão de outros exércitos. Mas seu reino foi somente de três meses.’ Jeoaquim foi captu­ rado e.31-37). e Jeoaquim tomou-se um vassalo da Babilônia. suas forças retomaram à Palestina para continuar a ofensiva contra os egípcios. Eles foram expulsos de Judá. de maneira que era necessário Deus levá-lo para prevenir que suas reformas se enraizassem? Estas são questões intrigantes. fora de lugar no tempo em relação aos planos divinos para Judá. Eliaquim. o povo instalou seu filho do meio. aparentemente. os oficiais . para a Babilônia. Mas tudo isto ainda era pouco e era já muito tarde. Nabucodonosor levou alguns dos nobres.P a n o d e f u n d o . e em 598/597 se rebelou. Ou mesmo nos faz pensar que era honrado como Enoque. ele con­ seguiu desfazer a maioria dos efeitos das reformas de Josias. o filho mais velho de Josias. dando-lhe um novo nome. com a idade de 39 anos (2Rs 23. e seu filho Joaquim colocado em seu lugar (2Rs 24.8-17). Jeoaquim como um ato de soberania (2Rs 23.* Sua morte trágica.6-7). como Daniel e seus amigos. Mas ele reinou somente para estabelecer um padrão de maldade.30). executado (Jr 22. quando Nabucodonosor havia consoli­ dado seu controle na Babilônia. após um sítio de três meses. O reino de Jeoaquim foi fatídico. sugerem que ele estava tentando restaurar o antigo reino davídico.

o povo que per­ maneceu sofreu severa depressão expressa na pobreza econômica. 2Cr 36. Em 589. finalmente.A arqueologia confirma a completa devastação da terra. Após mais de um ano. as muralhas. Jr 52. inevitável- . A nação de Judá havia desaparecido. particularmente nos principais centros de população como Jerusalém e Lachish. então seus olhos foram furados.15). Judá foi invadida. os ju­ deus foram encontrados em três localidades principais: Judá. cidadãos de destaque. inclusive Ezequiel. eles declararam uma revol­ ta aberta. na letargia política.). Nabucodonosor colocou o filho mais moço de Josias. foi um fiasco. e com o patrocínio de Edom. incendiou a cidade. e na insensibilidade espiritual. Dos poucos deixados para trás. Desta vez.11.’ No lugar de Joaquim. no canal do Quebar. Os filhos de Zedequias foram mortos enquanto ele assistia a tudo. somente alguns dos “mais pobres da terra” {middallat hã'ãres) foram deixados para trás para cuidar das vinhas e das plantações de azeitona.30 O LIVRO DE E z e q u i e l reais. que era o último descendente de Davi no trono de Jerusalém.C.'* De acordo com o registro bíblico. foram alojados em uma colônia judaica separada. que foi chamado de Zedequias (2Rs 24. e uma vasta quantidade de despojo foram removidos para a Babilônia. Egito e Babilônia.''* Em geral. e foi levado acorrentado para a Babilônia (2Rs 25. próxima a Nipur. Zedequias fez aliança com seus vizinhos em várias ocasiões para lançar fora o domínio babilônico. Zedequias fugiu. reduzindo até o templo a uma pilha de entulhos e deixando somente alguns sobreviventes para tentar a vida entre as ruínas. com Tiro e Amon. Embora uma nova classe de nouveau noblesses (relativamente) emergisse. Nebuzaradã.9-11). Matanias. e as devastações de 588-586 (2Rs 25. os babilônios deporta­ ram virtualmente todos os que haviam permanecido do povo (yeter hã'ãm ) de Judá após o primeiro exílio (597 a.1-21. muitos fugiram para o Egito com o assassinato de Gedalias." B. Dois meses mais tarde. AMBIENTE SOCIAL Durante o exercício de Ezequiel como profeta de Israel.17-18). O reino deste.20.'® e Jerusalém sitiada.* Muitos desses cativos. o governador instalado pelos b ab iló n ico s. mas ele logo foi capturado e levado a Nabucodonosor em Ribla. Nabucodonosor respondeu com uma vingança. o general de Nabucodonosor. Jr 52. foram derrubadas.

(4) sustentar a eco­ nomia da Babilônia. Anathbetel. Primeira. Inscrições babilônias referindo-se a ele como “o rei da terra de Judá” registram que ele e seus filhos receberam rações dos estoques reais. Essas determinações de deportação foram dirigidas por vários obje­ tivos: (1) quebrar a unidade nacionalista e a resistência.1416.'* Esses papiros revelam certa autonomia quanto às questões sociais. Migdol.Anathyahu. O clima religioso era sincretista. eles exibiam a mesma tendência para com a arrogância e a falência espiritual de seus predecessores.P a n o d e f u n d o : o m u n i» de E / e q u ie l 31 mente.” Muitas perguntas permanecem quanto à cena social do exílio. colônias judias foram estabelecidas no Egito em vários locais: Patros.^® Se isto era um tratamento especial por bom comportamento ou para manter a pressão sobre Zedequias na terra natal. Mas a descoberta moderna de vários papiros tem enfatizado como principal a colônia militar na ilha de Elefantine.'* Como essas pessoas chegaram até lá é desconhecido.Nabu. (2) destruir as estruturas políticas ao remover os líderes civis e religiosos. ele parece ter passado relativamente bem na Babilônia. foram descobertos em vários lugares na Judeia com as inscrições . Khnub. mas muitas outras deidades eram também invocadas: Ishumbetel. Sati.'* Nabucodonosor manteve essa política com os da Judeia. De acordo com Ezequiel 11.” A audiência primária de Ezequiel era a comunidade de judeus na Babilônia. ou um tratamento comum para todos os reis estrangeiros residindo na Babilônia é incer­ to. trazendo a nata da população para a Babilônia e sua vizinhança. mas algumas características são claras. Bei. no Nilo. e Nergal. Sahmask. eles não tinham entendimento de sua rica herança religiosa e nenhu­ ma sensibilidade ou piedade para com os compatriotas deportados. provavelmente datando desse período. embora Jeoacaz ficasse no trono de Davi somente três meses. De acordo com Jeremias 44. após a humilhação inicial de deportação. A Páscoa e os sábados eram celebrados a Yahweh (yhw) e um templo foi construído para ele. Tahpanhes e Mêníls. A Mesopotâmia há muito tempo havia sido a patrocinadora da imigração israelita forçada. devem ter chegado tão cedo quanto á época de Manassés. (3) prover recrutas para o exército babilônico. centenas de milhares de cidadãos do reino do norte foram espalhados por todo o império. De acordo com registros neoassírios. Jarros usados para estocar.1.

da última metade do século 5°. Após algumas gerações. sugerindo tanto que o rei continuara a ter o título de acordo com a coroa ou que as pessoas em Judá continuavam a olhar para ele como um governador legítimo.1).2.24.8). De fato. aparentemente.5-7. cf. Jr 29). muitos. sugerem que os judeus rapidamente se envolveram em projetos bancários e mercantis. indica que alguns judeus logo se destacaram e cresceram até o topo da corte babilónica. eles procuraram permanecer como uma comu­ nidade social e étnica distinta. hospedeiro de Yaukin”. a. instituições religiosas israelitas. Esse senso de coesão étnica foi promovido e refletido na cuidadosa manutenção dos registros de família (Ed 2. . em 539. e Joaquim permaneceu como o elo crítico. Documentos do Arquivo Murashu. em vez de datá-los quando da ascen­ são de Zedequias (1.1. Ne 7) e a constante comunicação com Jerusalém. apesar dos pronunciamentos de Jeremias contra Joaquim (ou Conias.^' Ezequiel insulta Zedequias ao insistir em datar seus orácu­ los após o tempo da deportação.g. 40.^^ O Salmo 137 localiza o exílio judaico de maneira generalizada “às margens dos rios da Babilônia”. Tel Abib.C. os exilados parecem ter se engajado na agricultura. “pertencente a Eliaquim. 8.32 O LIVRO DE E z e o u i e l 1'lyqm n^r ywkn. Daniel.-’ Ainda que os exilados judeus se integrassem rapidamente na economia babilónica. 33. eles pros­ peraram tanto que quando Ciro lançou seu decreto.. especialmente antes da queda da cidade (e. preferiram não voltar. em outros pontos Jeconias). e Zedequias sendo visto somente como um regente. Mas a evidência que 0 orgulho na descendência davídica foi mantido mesmo após o exílio é fornecida pela identificação de Sesbazar como “príncipe de Judá” (Ed 1. Referências a “Joaquim da casa de Davi” e à existência de “anciãos do povo/Israel” {ziq?jê hã‘ãm/yisrã’êl) atestam sua autoconsciência pública. 20. os exilados não parecem ter sofrido dureza econômica. permitin­ do que os judeus retomassem a Jerusalém.1. O ministério de Ezequiel se foca­ lizava em uma comunidade específica. Ainda que nós não tenhamos um registro de um templo para Yahweh na Babilônia (que contrasta com a situação no Egito). em 22.21. a família Murashu deve ter se tornado rica. De fato. no canal de Quebar.^“ De acordo com Jeremias 29.. os profetas nunca perderam a esperança na continuação da linha.“ Embora humilhados pela experiência de deportação. capítulo 1.

2-4. 1). como refletido no se­ guinte triângulo. o território (terra de Canaã). denunciassem o povo de Judá por seus caminhos idólatras e socialmente criminosos.P a n o df: f u n d o : o m u n d o d e E zf. esse senso de segurança foi baseado na convicção de uma ligação inseparável entre a deidade nacional (Yahweh). Ez 44-46). o qual eles entendiam ser inviolável: Deidade (Yahweh) Mais especificamente. apoiada em quatro proposições im utáveis. justamente. quatro pilares da promessa divina: a irrevogabilidade do pacto de Yahweh com Israel (Sinai). e o povo (nação de Israel). inclusive suas tendências à idolatria e a todos os tipos de males sociais (ver cap. .13. os exilados sofreram de um intenso choque teológico. Quanto mais perto as forças de Nabucodonosor se aproximavam. 58.o u ie l 33 como a circuncisão e os sábados. Ao manter padrões com base nas perspectivas do Oriente Próximo. no entanto. a posse de Yahweh da terra de Canaã. 18). Das profecias de Ezequiel. Na verdade. tanto mais o povo se apegava às promessas de Deus. O povo parece ter trazido toda a sua bagagem apóstata com ele. o lugar que ele escolheu para o seu nome (ver fig. nós aprendemos que a condição espiritual subalterna era muito diferente. no entanto. ao menos externamente (c f Is 56. foram aparentemente mantidas. Ainda que os profetas. o pacto eterno de Yahweh com Davi. a confiança israelita em Yahweh era baseada em uma ortodoxia oficial. e a residência de Yahweh em Jerusalém. por toda a crise babilônica o povo se manteve confiante na obrigação de Yahweh de resgatá-lo.

Ezequiel enfrentou uma audiência que estava desi­ ludida.34 O LIVRO DE E z e q u ie l Mas Jerusalém caiu. um povo cínico. Baseado em aparências. e ninguém estava lá para ajudá-los.. Assim como muitos nomes hebraicos. 2. 24.“ II. o deus da Babilônia. magoado e irado. AUTOR. havia prevalecido.5-6) havia desmoronado. PROPÓSITO E MÉTODOS: A RESPOSTA DE EZEQUIEL A.3.questões sobre a impotência divina. traição e abandono. o templo foi demolido. e a nação foi exilada em outra terra. yéhezqê 7(1. e.24) representam tanto uma afirmação de fé. levantando muitas ques­ tões sobre Yahweh .g. A vitória de Nabucodonosor deixou os judeus emocionalmente devastados. O PROFETA EZEQUIEL Tudo que sabemos sobre Ezequiel aprendemos da coleção de profecias que leva seu nome. a casa davídica foi derrubada. Marduque. Foi mais difícil lidar com o prejuízo espiritual do que com o tísico. “Deus . A “casa rebelde” {hêt mèrí.

entre muitas outras coisas. Yahweh de fato o fortaleceu. Sua classificação vocacional não precisa ser colocada em dúvida. então. sintomas de devaneio. sua familiari­ dade com o templo.^ Nada se sabe de sua família. Ele foi. 0 filho de Buzi. A menos que “Ezequiel” seja um pseudônimo atrelado a um profeta anônimo baseado na natureza de seu ministério. Ezequiel é identificado mais precisamente como um sa­ cerdote. exceto que sua vocação teve um grande peso em seu próprio casamento.'' uma imaginação literária bárbara. especificamente as questões levíticas/ sacerdotais. viagens “espirituais”. Como um sinal do que Israel estava para experimentar. Não é de surpreender que Ezequiel tem sido assunto de vários estudos psicanalíticos. deixam a impressão de alguém totalmente preparado para a liderança espiritual na tradição do sacerdócio. Yahweh tirou a vida de sua esposa e. o nome Ezequiel é usado no Antigo Testamento somente para outra pessoa. imagens de criaturas estranhas.' Embora relacionado em significado a “ Ezequias” (hizqiyãhfi. e de coisas assustadoras. a r e s p o s ta d e E z e q u ie l 35 fortalece/endurece”. Ezequiel está em uma classe separada. a ortodoxia e as formas dos cultos pagãos. Não é de admirar que KarI Jaspers tenha encontrado . A concentração de tantas características bizar­ ras em um indivíduo é sem precedente: sua nudez. imagens pornográficas. fascinação com fezes e sangue. deitado amarrado e nu. “Que Deus fortaleça/ endureça”.15-27).3. e provavelmente explica o motivo de ele ter sido incluído na deportação de 597 a. Enquanto os profetas eram conhecidos por agir e falar de maneira irregular por propósitos retóricos. proibiu o profeta de externar seu sofrimento (24. provavelmente. a paralisia emocional diante da morte de sua esposa. um dos poucos na linha para o ministério sacerdotal que levaram o chamado a sério. Embora ele pareça não ter assu­ mido responsabilidades sacerdotais antes de seu exílio.16). cavando buracos nas paredes das casas.^ o nome expressa a fé que seus pais tinham na hora de seu nascimento. de olhos. quanto um apelo de fé. Em 1. ouvir vozes e sons de água. Diante do cinismo e da rejeição de seu ministério. um enten­ dimento irreal ou até surrealista do passado de Israel. Mas o profeta honra esse nome durante sua vida.C. p ro p ó s ito e m é to d o s . “Yahweh fortaleceu”).A u to r . também um sacer­ dote de uma geração mais antiga (1 Cr 24. assim como seu interesse pela reconstrução do templo. a herança espiritual de Israel.

’ Enquanto que psicanálises da pessoa possam explicar cer­ tas características do texto. J. e no poder das imagens que encontrou para expressá-la”. esquizofrenia de devaneio. conflito narcisístico-masoquista. também falha em reconhecer que os sintomas autênticos das experiên­ cias proféticas podem. e os pronuncia­ mentos oraculares derivam de encontros com Deus. e uma raiva mais profunda­ mente oculta contra figuras do sexo masculino por causa de alguns abusos experimentados quando criança.* A abordagem psicanalítica foi rejeitada por comentaristas e psi­ quiatras. com frequência. a quem ele percebeu como cruel e poderoso." Não se pode negar a singularidade do estilo de ministério de Ezequiel. as ações simbólicas. o desafio todo é muito especulativo sobre o passado de Ezequiel e muito hipotético sobre seu estado emocional para ser convincente. ele sofria de uma condição paranóica comum em muitos dos grandes líderes espirituais. Não somente isto despreza a função retórica da profecia para mudar o pensamento e o comportamento da audiência. se assemelhar ao que pessoas não iniciadas diagnosticam como uma patologia básica. capaz de mostrar grande discernimento religioso. Halperin atribui as carac­ terísticas extraordinárias da profecia de Ezequiel a uma insuportável raiva inconsciente contra o sexo feminino. D. . Mas atribuir essa singularidade a uma patologia que surgiu de um abuso do passado e um complexo de Édipo interpreta mal a profundidade de sua mensagem e a sensibilidade de sua personalidade.’ E. Broome concluiu que Ezequiel era um verdadeiro psicótico. a fascinação psicológica com a personalidade de Ezequiel foi revivida recentemente. C. Yahweh se toma “uma criação da mente do próprio Ezequiel”. ilusões de grandeza e de perseguição. Em resumo.'® Isto de maneira muito séria muda a evidência explícita do texto de cabeça para baixo. mas reconhece que essa doença veio de uma patologia cultural comum que também afetava os anciãos exilados. mas exibindo uma série de característi­ cas diagnósticas: catatonia.® Ele diz: “Ezequiel foi certa­ mente único na severidade de sua doença.36 O LIVRO DE E z e q u ie l em Ezequiel um caso inigualável para a análise psicológica. A ênfase penetrante do livro está na iniciativa de Yahweh em controlar 0 pensamento e as ações do profeta. mas eram totalmente relacionados ao seu ministério. sedutor e enganador. os quais afetaram todo o seu ser. Suas experiências proféticas.’ No entanto.

27)? Por que o Espírito e a mão de Yahweh atuam com um papel tão dominador na hora de seu chamado e por todo seu ministério profético? A vinda do Espírito sobre ele é particu­ larmente reminiscente da atividade do Espírito no livro de Juizes. por que o próprio Yahweh alimenta o profeta com o rolo (2. finalmente. quando os homens eram mal-dispostos para fazer a vontade de Deus.6. ele é um profundo teólogo.3-7.8)? Por que Yahweh precisa mandar por três vezes Ezequiel comer o rolo? Em função disto. equipa­ do e seguro pela mão de Deus.A u t d r . Por que o prelúdio teofânico ao seu chamado foi tão impressionante (1. E z e q u i e l 37 Assim outros profetas falaram dos sofrimentos de Ezequiel.14)? Quando ele retoma aos exilados.24. nos deixa com contínuas questões sobre sua disposição para o chamado. parti­ cularmente a narrativa de seu chamado ao ministério. outros o amarrarão. Ele é um homem totalmente possuído pelo Espírito de Yahweh. quebra o silêncio. por que ele faz tal aviso duro a Ezequiel contra a falta de obediência ao chamado profético (3. Yahweh fará que sua língua se trave (3. Além do mais. por que senta-se entre eles por sete dias em um estado de choque ou desolação emocional (3. chamado. em muitos aspectos redundantes (2. carregando em seu corpo os oráculos que pro­ clama e redefinindo o adágio: “O médium é a mensagem”.'^ expondo as desilusões de sua audiên­ cia e as reapresentando ao Deus de Israel.8-3. poucos eruditos contemplaram a possibilidade de um profeta re­ lutante ou mesmo rebelde. 27). sendo que sua voz já o havia mandado ficar em pé (2. necessitando da mão forte de Deus sobre ele (3. “sinal. 3. Ao reconhecer a força de Ezequiel como um retórico.24-27)? Por que é o profeta explicitamente proibido de defender ou ser mediador do seu povo (3. 11.4-28)? Por que o Espírito divino {rüah) precisou entrar nele e colocá-lo em pé antes de ouvir a voz de Yahweh. especial­ mente no começo de seu ministério.'“* .15)? Quando Yahweh.4-11)? Por que o profeta emerge do chamamento amargurado na excitação de seu espírito (mar hahâmat rühí). Ezequiel é um môpêt.1-2)? Por que Yahweh o avisa para não ser rebelde como o restante de seus compatriotas (2. e sua estatura como um teó­ logo.3)? Por que Yahweh faz dois discursos de chamamento a Ezequiel. 24. p r o p c > s ito e m é t o d o s : a r e s p o s t a d i.16-21)? Por que tais severas res­ trições colocadas sobre os movimentos do profeta: deve se fechar em sua casa. portento” (12. sua auten­ ticidade como um porta-voz de Yahweh. lendo suas profecias.'^ No entanto.

seu “ciúme” aumenta. transforma-se em ima­ gens de uma figura masculina que “é incapaz de entregar-se ao con­ tato físico com uma garotinha ensanguentada. Essas perguntas não são facilmente respondidas a menos que se reconheça em Ezequiel uma resistência fundamental ao seu chamado. os candidatos ao serviço divino são poucos e brutos espiritualmente.26 explicitamente denuncia os sacerdotes por abandono de suas obrigações profissio­ nais. a eficácia de Ezequiel como um profeta diz menos sobre ele como uma pessoa do que sobre Yahweh. o que alguns têm inter­ pretado como uma das mais impressionantes imagens literárias do amor imerecido.38 O l. Seu contemporâneo. B. fornece o clássico exemplo da resistência ao chamado ao ministério profético (Jr 1). um membro da classe sacer­ dotal (1. Embora o sacerdócio não se tornasse um alvo primário de seus pronunciamentos. somente seu Deus era pior. desprezada e patética que deve ser encorajada a se tomar adulta quando será ‘dominada’ por meio do ato sexual”. É verdade que as apresentações de Ezequiel surgem do evidente zelo divino. talvez em toda a Escrimra. A MENSAGEM DE EZEQUIEL Alguns comentaristas atuais têm avaliado as personalidades dos profetas com base nos “iluminados” padrões da moderna civilização ocidental. e sob o controle de seu Espírito. Não deve surpreender se Ezequiel. também de descendência sacerdotal.'* Assim.’’ Ezequiel 22. necessariamente. Os capítulos 16 e 23 descrevem Deus como revoltado e sanguinário. Da mesma maneira. mesmo um homem como Ezequiel podia se tomar um veículo da revelação divina. Como nos dias dos juizes. foi infectado com a mesma enfermidade espiritual que atormentava o grupo como um todo. De fato. a palavra qin ’â. Diante destas considerações. Ezequiel não era. que é capaz de tomar um vaso incomum e transformá-lo num agente de sua glória.lV RO DE E z e q u i k i . um ho­ mem pior do que Jeremias. sem a “mais elementar compaixão ou decência”. embora apareça somente dez .3).” E quando ela não responde da maneira que ele quer. Jeremias. e pronunciado julgamentos sobre o Deus que representa­ vam. Mas nas mãos de Yahweh. Não é de surpreender se Ezequiel foi tentado a se rebelar contra o seu chamado profético.

ciúme eqüivale a “vingança nascida da frustração sexual”. e ele deve defendê-lo. qannã ’não é meramente um atributo de Deus. uma indisposição a compartilhá-lo com outros. Assim. Em termos psiquiátricos. e ele espera. Porque ele sente tão profundamente por isso deve responder com vigor. Em vez de tratar qin a cinicamente. com todo o direito.^ Yahweh comprometeu-se com Israel. gratidão e lealdade exclusivas em retomo. separadas cronologicamente pelo anúncio do mensageiro de Jerusalém: “Caiu a cidade” (33. e a inter­ pretação da palavra determina a percepção que se tem de Deus a quem a palavra descreve. mas por um ardor pelo bem-estar do objeto do seu amor.’’ Enquanto essas perspectivas percebem “ciúme” como uma qualidade negativa. ou exagerado desejo de posse sobre o que alguém já tem. Contrário à opinião da maioria. O propósito operante de Ezequiel é transformar a percepção de sua audiência do relacionamento deles com Yahweh.21). Para alcançar seu propósito há duas partes discretas.A u t o r . as profecias de Ezequiel consistiam de pronunciamentos negativos de julgamento sobre seu povo pela infidelidade dele ao pacto. a palavra expressa uma resposta inteiramente apropriada de um marido ou esposa quando um “amante” entra em cena. uma devoção expressa numa redenção graciosa da nação da escravidão. .'* expressa a ideia principal de seu ministério. mas também um equívoco. Surge da profun­ didade de seu amor pactuai.-' No Antigo Testamento qin ’â aumenta quando um relacionamento legítimo e saudável está ameaçado por interferências de terceiros. isto é. Seu relacionamento com o seu povo foi violado. expondo desilu­ sões de inocência e oferecendo um entendimento divino da realidade. Em linguagem co­ mum ciúme tende a ser associado tanto com inveja quanto com cobiça. paixão de Deus por alguém que ama. Entender este termo como “ciúme” não é somente inadequado.^^ Desde que a metáfora do casamento fornece a imagem básica para o entendimento do pacto de Yahweh com Israel. deve-se ouvir na palavra a legítima. e mais que impressionante. é duvidoso que Ezequiel aceitasse qualquer dessas visões.^“*A intensidade de sua ira na ameaça desse relacionamento é diretamente proporcional à profundidade de seu amor. p r o p ó s i t o e m é t o d o s : a r e s p o s t a de E z e q u i e l 39 vezes no livro. Antes da queda de Jerusalém.“ Esse amor é alimentado não por uma necessidade de dominar. é um título dele. De fato. 0 desejo de ter o que alguém possui. a descrição de sua resposta à infidelidade como qin a é tanto lógica como natural.

Uma vez que as velhas ilusões de espiritualidade foram destruídas.IVRO DE E z e o u i e i . As estratégias retóricas refletidas nesta coleção são tanto visuais quanto auditivas. mas especialmente a palavra antiga. A palavra de Yahweh é afirmada tanto no julgamento quanto na restauração. Porque eles têm sido infiéis a ele. então. declarada em um ato de redenção do Egito. não somente a palavra imediata.não acontecerá porque Yahweh renegou seu compromisso pactuai.40 O I. todas projetadas para penetrar nas mentes endurecidas de seus ouvintes. Mas o oposto é o caso. 0 povo de Judá não tem razão para esperar o resgate de Yahweh. No processo. . O problema anterior não foi a vera­ cidade da palavra divina. em sua visão do novo dia. pode levar a esperar uma resposta rotineira e branda a esta questão. com Yahweh puxando todas as cordas. Esta mensagem é comunicada nos capítulos 4-24 pelos sistemáticos ataques aos pilares nos quais a ortodoxia oficial construiu suas noções de segurança eterna (ver fig. em última análise. Em minha visão. ele pode olhar para a frente. nenhum profeta é tão criativo na apresentação de sua mensagem.. C.e será . cujo cumprimento confirma o status de Ezequiel como um profeta verdadeiro. Assim. e nenhum é tão rigoroso. e no pacto do Monte Sinai. Ezequiel oferece esperança ao reconstruir sis­ tematicamente os pilares nos quais a segurança da nação se apoiou em primeiro lugar (ver quadro 1). para um novo dia quando a associação tripla será restaurada e todas as três partes experimenta­ rão paz pactuai. mas a apropriação ilegítima dessa palavra por aqueles que falharam em guardar os termos do acordo. 1). o tom e a ênfase das profecias de Ezequiel mudam. Mas como ele procura passar sua mensagem? Que o profeta se manifesta quase como um boneco. os relacionamentos deidadenação-terra devem ser quebrados: ele abandonará seu templo e enviará seu povo ao exílio numa terra estranha. OS MÉTODOS DE EZEQUIEL O programa retórico de Ezequiel é claro: transformar as percep­ ções de sua audiência (os exilados) quanto ao relacionamento com Yahweh e. Ezequiel afirma que a ortodoxia oficial havia de fato sido baseada em um germe de verdade. Se Judá for destruída . As promessas do pacto de Yahweh são eternas.C. Mas após 586 a. mudar o comportamento deles.

35.27.16-38 b.1 -31 c. Lamentos: 19.17-23. 7.1-22 (em português. 22.1-32.1 -34). Discursos figurativos {mésãlím): 17. 19.1-27.20-23.1-14. p r o p ó s it o e m é t o d o s : a r e s p o s t a d e E z e q u ie l 41 Eu discutirei os gêneros de suas profecias especificamente em sua primeira aparição no texto.12-15.1-19. 12. 12.29.1-63.21-25. .1-48. 32.1 -14.17. 29. 11.1-12. 33. 16. refletindo quatro das maiores seções do livro: (1) a narrativa do chamado profético.1-10 f Formas diversas: 6.60-63.14-21. 12.136. Visões: 37. Pronunciamentos diretos: 6. 20. 29. 36.1-26. um chamado verbal e uma limitação física (1. 34.17-21.16-32 e.1-16.1 -16. envolvendo uma visão inaugural.17-22.1-14.8.1 -3. 20.18-27) Discursos de salvação de vários subtipos: a.1-18 d. Discursos legais (r/è): 14.1-5. 27. 32. 21. 27.1-44. Cartuns literários: 38. 28.23-31.23-32 (em português. 30.1-36.114. 22.1-39. 40.32).21. 21.45-21. Ezequiel não está amarrado às formas tradicionais desses gêneros. 33.1-24.1-20. 30. 25. 22. (4) anúncios de salvação e restauração (34.14-21.1^8. 16. Atos sinalizados interpretados: 4.35 d.1-19. (3) oráculos contra nações estrangeiras (25.124.1 -36.10-20.1-16. 28.35). 33.23-29 c. Discursos figurativos: 34.8-10.1-49 b.15. Oráculos de infortúnio: 13. 23. ele mostra uma grande criatividade ao modificar formas ideais e combinar elementos de várias profecias em profecias individuais. mas para o momento pode-se identificar quatro categorias principais de narrativas. Ao contrário.24.A u t o r .27). 13. 18.1-32. Disputas: 11.1-16. 11.26-28.17).20-26 g. 21. A seguinte classificação preliminar do gênero de julgamento e salvação ilustra a amplitude do repertório retórico do profeta: Discursos de julgam ento de vários subtipos: a. (2) pronunciamentos de julgamento contra Judá e Jerusalém (4.31.1-14.

22-25 37. A repulsa com a qual ele vê os cami­ nhos sincretistas de seus compatriotas se reflete na forte linguagem . 19. 21.23-29 18-27). 11-14.1-21. 16. 37. 7.23. 11. o divino pa­ trono de Israel.25-29. 6. 16.6-22 (em português 1-17).30-32 (em por­ tuguês 15-27) 34. 4.4.23-29 34. o patrono di­ vino de Israel entrou numa aliança eterna com seu povo.1-24. O relacionamento entre o julgamento de Ezequiel e os Oráculos de Salvação Pilar da teologia ortodoxa Pronunciamentos de destruição Pronunciamentos de reconstrução Yahweh.1-3.8-22. 39. 14.1-36.120.1-8.20-24. 12.1^6. de onde ele exer­ citará soberania so­ bre o seu povo. 33. 21.30-35 Contribuindo também com a força das profecias de Ezequiel está seu uso evocativo da linguagem. 3. o patrono divino de Israel.21-29 Yahweh.18.1-44.1-16.1-48. 40.1-14. 11.1-32.1-7.114.3738.1-27. 22. Ele é avisado no princípio que estará lidando com uma audiência endurecida. 9-17.16-17. 6. 38.11-14.16-27 Yahweh. 14. 20. 7. 23.1-10. 15. 8.15.17-20.1-49. então ele lança socos para quebrar essa resistência. 33. 23-32 (em por­ tuguês 34. 36.5-15.7.16-21. 12.1-49. 15. 5.33-36.24.42 O L IV R O D E E z e o u ie l Quadro 1.16-32. pro­ meteu à casa de Davi um título eterno e uma ocupação do trono de Israel.26-27.1-31. 37.23-24.12-23. 36. 24.15-21. 24.1-63.1-60. 17.1-23. o patrono di­ vino de Israel.1-39. esco­ lheu Jerusalém como sua residência eter­ na. 48.1-15 Yahweh.22. deu à nação a terra de Canaã como sua possessão territorial eterna.20.1-31.22-25. 25-28. 5.18. 47. 35.

cons­ truções estranhas e infelicidades gramaticais (e.g. DO DISCURSO PROFÉTICO AO LIVRO PROFÉTICO Muitas perguntas permanecem a respeito do relacionamento entre a proclamação oral e a profecia escrita no Israel antigo..g. sua audiência reconheceu nele um ator mestre (33. mas a produção da profecia como literatura ocorreu muito mais tarde. 22].1-14). Eles também entendem que uma grande distância cronológica separa o evento oral de sua forma textual. 4.g. eles tiveram de admitir que um verdadeiro profeta de Yahweh esteve no meio deles. O texto final está..A N A T U R E Z A DA P R O F E C IA E O E S T IL O L IT E R Á R IO D E E z E Q U IE L 43 sexual e fecal (e.30-33).16.27 [em português.. as palavras dos mestres foram aprendidas e recitadas pe­ los discípulos. e quando tudo foi dito e feito. Ezequiel também demonstra grande criatividade ao brincar com palavras in­ dividuais e frases.g. A NATUREZA DA PROFECIA E O ESTILO LITERÁRIO DE EZEQUIEL A. 7). refletindo a cultura da pessoa ou do país referido. Ao lidar com questões culturais particula­ res. 6. De acordo com algumas pessoas. caps. mas então mu­ dando a imagem de cabeça para baixo e expondo as desilusões de seus ouvintes (e. ele toma um cuidado especial para permear o oráculo com uma cor local. geralmente de modo positivo. No estudo erudito recente o tempo entre a . Sua proclamação verbal e comunicação são com frequência chocantes de propósito para acordar sua audiência para a realidade de seu estado (e. Em outros pontos. III.g.^’ Ainda que o livro de Ezequiel contenha pouca evidência de qualquer resposta positiva ao ministério do profeta.1-14). 12). especialmente em seus oráculos contra governantes e nações estrangeiras. 21.. 1.23). convidando sua audiência a interpretar uma mensa­ gem como desejarem. caps. a qual tradutores tendem a suavizar para acomodar a sensibilidade dos ouvintes modernos. rúah em 37.. 24. suas emoções são refletidas em sentenças incompletas. Em geral. mudando suas nuanças dentro de um dado oráculo (e. portanto. caps. muitos estágios de dis­ tância do evento original. ele explora o poder retórico da ambiguidade.' Eruditos têm entendido há muito tempo que aquela profecia foi originalmente toda oral em natureza e que a fase escrita refletiu um nivelamento da insti­ tuição.

e o gênero da coleção. em si mesmas.0 evento profético: o profeta recebe uma mensagem de Deus. resultando em um livro mais ou menos coerente.’ Tomando em consideração que o profeta original era um poeta.’ 7.^ Este não é o texto para responder a todas as questões envolvidas neste assunto. Daqui para a frente muitas alterações representam crítica textual em vez de questões de composição. O evento da transcrição: o oráculo é transcrito. alguns reduziram o envolvimento de Ezequiel a somente alguns fragmentos de oráculos. O evento nominal: um título formal é acrescentado ao livro. O evento retórico: o profeta transmite essa mensagem à sua audiência.'® Teológica e característica- .“' 5. O evento narrativo: a narrativa das circunstâncias do evento profético é acrescentada ao oráculo transcrito. 2. O evento da compilação: as unidades literárias são reunidas. C.* Aqueles que interpretam o livro como um pseudepígrafe negam até a primeira fase de Ezequiel.’ Outros têm proposto que um cerne profético foi transcrito anterior­ mente. identificando o profeta. 6.1). as circunstâncias de ministério. 3. deve ter envolvido ao menos sete cuidadosas fases (algumas das quais.* mas estudos recentes têm atribuído muito mais a Ezequiel. G Howie sugeriu que os capítulos 1-24 e 25-32 foram registrados por um discípulo-escriba no “trigésimo ano” de Ezequiel (cf 1. ocorreram em estágios):^ 1.44 O LIVRO DE E z e o u i e l apresentação oral e a transcrição do texto tem sido drasticamente re­ duzido. mas que o texto existente incorpora muitos acréscimos poste­ riores. 4. e alguns até estão reconhecendo os profetas originais como sendo os próprios escritores. mas a gênese de um livro bíblico. criando uma unidade literária completa. conforme as “escolas” do profeta. Os entendidos de Ezequiel se dividem sobre opiniões a respeito de que fase pode ser atribuída ao profeta. O evento editorial: a coleção é organizada e os oráculos individuais são colocados juntos por intermédio de notas conectivas e correlativas. particularmente um livro profético como Ezequiel.

'’ (7) A prática de transcrever oráculos imediata­ mente após eles terem sido recebidos da deidade. as pessoas nessas escolas eram herdeiras genuínas do seu fundador. o profeta exílico deve encontrar consolo no modo que ele está sendo reabilitado em outros lugares. (1) Todas as profecias são escritas na primeira pessoa.9-3.16).1 -9)." As camadas podem ser isoladas por registrar inconsistência de estilo. 1) oferece uma antecipação da mensagem do profeta (cf caps. antecipa uma forma particular para preservar os oráculos de Ezequiel.'® (3) Em várias ocasiões. é firmemente atestada em fontes extrabíblicas.'’ um fenômeno difícil de reconciliar com as teorias de revisão posterior. sugerindo que elas podem ser baseadas nas memórias pessoais de Ezequiel. ainda que por um escriba. adições explicativas e improbabilidades gramaticais. é conhecido por ter seus oráculos registrados após ele os ter recebido de Deus. (4) A resposta emocional do profeta parece ter deixado sua marca na confusa e errônea forma de alguns textos. estilo autobio­ gráfico. em 2. com o nome do profeta anexado ao documento.'* (6) O predecessor profissional de Ezequiel.A NATUREZA DA PROFECIA E O ESTILO LITERÁRIO DE E z EQUIEL 45 mente. 9-11. Esta é mais do que uma metáfora da ingestão humana da verdade divina. mas aceitaram a responsabilidade de editar e atualizar os pronunciamentos originais do profeta e aplicar seu ensino a novas situações. outros de­ fendem que ele encontrou novos caminhos como o primeiro e princi­ pal profeta literário.'“ Várias considerações ao menos levantam a possibilidade da própria mão do profeta na composição do livro.'. em geral. em geral usando uma exposição teológica mais completa. parece ter disseminado ao menos alguns de seus oráculos em forma escrita (Hc 2. sugere um re­ gistro escrito da pregação do profeta.1-2. Ezequiel é explicitamente ordenado a registrar a informação que recebe de Yahweh (24. Habacuque. 43.3. a menos que os editores fossem relaxados estilistas e literários. 37. (5) Jeremias.“ (8) O conflito de Ezequiel com falsos profetas e a . Alguns vão tão longe quanto reconhecer sua mão em virtualmente todo o livro. assim a visão do rolo escrito. nem mesmo consideram a possibilidade que Ezequiel possa ter colocado a mão no processo de transcrição do texto.'* (2) Assim como a primeira visão da glória divina (cap. contemporâneo de Ezequiel.2).Aqueles que seguem esta abordagem.'’ Enquanto esta abordagem de recortar e colar o texto persiste em muitos círculos. múltiplos inícios e encerramentos.

^' ou preservadas para aquela geração e gerações futuras. os oráculos registrados forneciam um teste da ver­ dade ou da falsidade das afirmações de Ezequiel quanto à sua posição profética.33). predições anteriores. No mundo antigo. Para Ezequiel. Enquanto mensagens proféticas eram registradas com frequên­ cia para que pudessem ser entregues por um mensageiro à audiência destinada. De fato. Embora Ezequiel estivesse. Em minha visão. o estilo narrativo autobiográfico (oposto ao poético) sugere que o próprio profeta provavelmente os registrou. queda de Jerusalém.46 O LIVRO DE E z e q u i e l dureza de sua audiência aumentaram a necessidade pelos registros escritos de seus oráculos. 33. um meio comum de escrita na Mesopotâmia antiga.^’ Um envolvimento posterior do profeta na produção do livro bíblico é mais difícil de ser demonstrado. Na ausência de uma audi­ ência que tivesse uma resposta positiva e diante da oposição dos fal­ sos profetas. uma documentação escrita de uma mensagem profética fornecia os meios mais garanti­ dos de determinar se um mensageiro era verdadeiro ou falso. sem dúvida. era importante não somente que suas profecias fossem cumpridas. no entanto.5. poderiam ser compa­ radas à luz do fato histórico. mas também que a audiência soubesse que os eventos estavam ocorrendo especialmente em cumprimento de suas palavras. se registradas. onde os mensageiros tinham uma reputação por enganar. familiarizado com tábuas de barro. não há uma razão para se duvidar que muitos dos oráculos de Ezequiel foram registrados imediatamente. Pode-se especular.^“' Seu estilo profissional privado e a natureza pessoal de muitas de suas experiências podem até eliminar o uso de um secretário a quem ele pode ter ditado suas mensagens. em particular. embora tábuas de escrever possam ter sido também usadas ocasionalmente. Por conseguinte.“ A dureza de sua audiên­ cia e a falta de sinceridade tomam improvável que qualquer ouvinte o tivesse levado a sério o suficiente para registrar seus pronuncia­ mentos. então. Ezequiel enfrentou um problema especial. uma trans­ crição imediata de suas mensagens era necessária para provar “que um [verdadeiro] profeta [de Yahweh] havia estado no meio [de Israel]” (cf 2. Muitos dos pronunciamentos de Ezequiel sobre julgamento foram feitos anos antes da. ele provavelmente registrou a maioria de seus oráculos inicialmente em couro ou papiro. que o mesmo incentivo que conduziu Ezequiel a registrar seus oráculos .

IDENTIFICAÇÃO E ESTRUTURA DOS ORÁCULOS INDIVIDUAIS Os oráculos no livro de Ezequiel são divididos.^* A correspondência geral entre o padrão do ministério do profeta e o arranjo atual do livro pode derivar do próprio profeta.^’ B.1-32. ele prova­ velmente teve tempo de transferi-los todos a uma série de rolos. 48 das quais são introduzidas por uma data ou fór­ mula palavra-evento (também chamada de palavra profética). O livro consiste de cinquenta unidades literárias.2-3).32). Dado o aparente decréscimo de suas experiências proféticas em direção à sua estabilidade. e que a ordem atual reflete o modo que eles podem ter sido guardados.^* Sem considerar estas óbvias divisões principais. e ocasionalmente correlatando oráculos com frases e palavras-chave. este livro é um dos mais fáceis em todo o cânon de ser esboçado.1-48. com base no tempo e no assunto em quatro partes gerais: o chamado de Ezequiel ao serviço profético (1.A NATUREZA DA PROFECIA E O ESTILO LITERÁRIO DE E Z E Q U IEL 47 pode tê-lo motivado a colecioná-los e guardá-los até que os eventos que predisse ocorressem.27). inse­ rindo anotações em oráculos anteriores à luz das profecias posteriores. esta coleção é distinta em muitos aspectos.1-3.35). geográfica e temperamental entre o profeta e o livro com frequência imaginada pelos eruditos. ESTILO LITERÁRIO Enquanto as profecias de Ezequiel compartilham inúmeras características com outros livros proféticos.^’ . e afirma o respeito pelo texto pre­ parado por transmissores subsequentes aos documentos. graças a clara demarcação individual dos oráculos.g. “A pa­ lavra de Yahweh veio a mim dizendo”. pronunciamentos da destruição das nações (25. particularmente com referência às suas perspec­ tivas sobre a queda de Jerusalém.27). pronunciamentos de esperança para Israel/Judá (33.1-24. 1. E razoável supor que ele os organizou com base no conteúdo e gênero. diminui a necessidade pela distância cronológica. naturalmente. pronunciamentos da destrui­ ção de Israel/Judá (4. 1. Isto não anula as posteriores clarificações editoriais das mãos de al­ guém (e.. No entanto. A clara organização do livro de Ezequiel é amplamente reconhecida.

1 -14).1 -28. 33. os quais intencionalmente respondem a pronunciamentos anteriores de julgamento. no entanto.1 -8).8-10.1-9). mas termina com uma coda que liga elementos das duas partes. e a doutrina da responsabilidade pessoal em relação ao destino de uma pessoa (18. 33. sem desenvolvi­ mento posterior. 23).^' Segunda. 16.1 -19.^Mas pode-se observar este fenômeno dentro do próprio livro de Ezequiel. Primeira.1 -11. o problema da presunção (28.60-63. a tendência de um profeta bíblico ou escritor de tomar um texto antigo ou uma frase tradicional. 8. .C.26-27. tam­ bém 43. a prostituição de Israel apresen­ tada em forma alegórica (caps. Mais tarde no livro.48 O LIVRO DE E / x q u i e l Duas características especiais dos oráculos de Ezequiel são com frequência negadas ou desprezadas. Uma variação desse padrão envolve a breve introdução anterior de um tema. que é então encerrado imediatamente. 29. o assunto é retomado e uma exposição completa é feita.’’ Esta “exegese intraorganizada” é mais óbvia nos oráculos de restauração de Ezequiel. a mudez de Ezequiel (3. As adições de esperança aos oráculos condenatórios de julgamento e infortúnio em 6. e com frequência sem uma total integração dentro do contexto.^® De modo impressionante. 11. 24.22). o livro de Ezequiel está repleto de exemplos do que pode ser caracterizado como uma exposição restauradora. Este livro canônico mostra uma tendência impressionante de usar temas repetidos em contextos posteriores. Mas o fenômeno não está limitado a oráculos de restauração mudando pronunciamentos de jul­ gamento..1 -12. e o segundo segue com outro tema. Os exemplos mais óbvios incluem: a visão do kãbôddivino e o trono-carmagem (1.17-20. 33.10-20).1-9). nós nos tomamos muito sensíveis às evidências da exegese intrabíblica. com frequência anunciando 0 fim dos males que precipitaram a queda de Jemsalém em 586 a. Graças ao trabalho de Michael Fishbane. e uma mudança nos desastres de Israel. a segurança em Jemsalém representada como uma panela (11.25.16-21. temas que foram introduzidos em capítulos anteriores. interpretá-la à luz das circunstâncias e aplicá-la a novas situações. o dever do atalaia profético (3.1-32. 16. isto é. Greenberg observou um padrão de oráculos “de duas partes” de acordo com o qual o pri­ meiro (em geral a parte mais extensa) propõe um tema oracular. padrões si­ métricos são alcançados ocasionalmente por composições de duas partes virtualmente idênticas em extensão.

12.25.47.11.17-20).17. transformando a bele­ za dos ornamentos de Yahweh (7.15-18).10-18.C. 36.12. o chamado ao arrependimento (14. a manifestação da santidade de Yahweh (28. 37. o santuário profana­ do.17-32). a reserva sagrada (45.25-26.8-22).20. Israel/Judá sendo mais ímpio do que as nações (5.1348.15-31). a nova vida por intermédio do Espírito divino (36.44-52).6. o kãbôd se levantando do querubim e movendo-se para a entrada do templo (9.1-31.2. a restauração de Davi (34.16-32).16-38).36). após os oráculos de salvação de 586 a. então é encerrado.24.4. o santuário de Yahweh no meio de Israel para sempre (37.11.1-8.46.1 -14). 16.16-17. 10. o povo de Israel reunido e vivendo em segurança em sua terra (28. espúrios.1 -8.6. No passado. o julgamento de Yahweh contra “todos os que tratam a Israel com desprezo” (28. Estas notas promissórias.13-27). 32.12-20). 18.20. 0 altar no novo templo (40. 21. 14.3. 15. Mas se pode citar outros exemplos deste padrão: o carvão em brasa (1.25-26. 34.8. a descida do acusado ao Sheol (26.26-27).A NATUREZA DA PROFECIA E O ESTILO LITERÁRIO DE E z EQUIEL 49 e 20.15-28). 13. 44. o incêndio de Jerusalém (5. a acusação direta dos líderes de Israel (7. 38-39). a aceitação de Israel por parte de Yahweh na santa e alta montanha (20. Yahweh desembainhando sua espada (5. a partilha da terra (45.35). Em cada caso. 22. parecem fora de lugar em sua localização atual.13.25-31).35).1 -3. 14. 36. 37. eruditos tiveram a tendência de descartar os avisos anteriores como não autênticos. um assunto é brevemente introduzido no texto anterior. 43.18). 10.15-24a).6-8). cujos temas são desenvolvidos completamente mais tarde.1-23. 27.17-18. 48.14. 45. secundários. 40. 45. os efeitos da mão estendida de Deus (6. 31. o problema das falsas visões e adivinhações (12.1-18).17. e inser­ ções prematuras.35). 11.21-A6.3-5). 16. 8.9.23-31).28.148.24.27. 37.1-32). o papel dos sacerdo­ tes zadoquitas (40. a restauração de todo o Israel (37. Enquanto o relacionamento entre as afirmações anteriores e as expansões pos­ teriores requeira mais análise. iniciando o afastamento de Yahweh (5.6-22 [em português.39-44 representam os melhores exemplos deste modelo. e mais tarde iniciado novamente e desen­ volvido. 40.^'* No entanto.1-8). as funções cúlticas do nãsi na nova ordem (44. o lamento sobre Tiro (26. 1-17]). visto antecipadamente este padrão pode . (34.2. 47. o consumo angustiado de pão e água (4.23.1-48.39-44. a presença do fenômeno em todo lu­ gar pede para se considerar uma abordagem mais positiva.

C. Ezequiel nunca tenta esclarecer a relevância política de seus oráculos. como os pronunciamentos de esperança nos oráculos anterio­ res a 586 a. Dada a ênfase radicalmente teocêntrica em sua pregação. fornecendo uma estrutura cronológica para o ministério de Ezequiel (ver quadro 2. DATANDO OS ORÁCULOS O cuidado com que Ezequiel data muito dos seus oráculos é distinto entre os profetas. no sexto mês. sua resposta imediata­ mente eleva a ênfase ao nível de Heils/Unheilsgeschichte . ou que breves avisos anteriores. Qualquer que seja o caso.1.1.’*É.16.”^'’ Embora um agrupamento especial seja evidente na coleção de oráculos contra o Egito (29. 2. catorze oráculos são introduzi­ dos por datas que tendem a ser variações do padrão estereotipado encontrado em 8. as datas são distribuídas por todo o livro.1 -32.. Entretanto.iv R O DE E z e q u i e l ser designado como um “sinal”. difícil determinar se seus . tenham sido dados como arautos de coisas por vir.50 O i. aos cinco dias do mês. tem a aparência de uma “exposição restauradora”. e 3. se o profeta editou os próprios oráculos. 20. 52-53). págs. Em um ou outro caso o leitor deve perguntar se o padrão reflete um princípio editorial consciente.1: wayèhi bassãnâ hassissit bassissi bahãmissâ lahõdes “No sexto ano. Não é difícil entender que Ezequiel tenha lidado com estes e muitos temas não registrados em inúmeras ocasiões.32). com frequência. uma hermenêutica holística tentaria determinar a função retórica des­ sas afirmações anteriores dentro de seu ambiente literário atual. Ao contrário.2-3. esta preocupação em datar os eventos proféticos com base nos eventos históricos terrenos é irônica.’* Sem considerar 1. que é enigmático e geral. ou um artifício retórico deliberado usado na apresentação oral de Ezequiel. retrospectivamente. embora o interesse sobre as questões atuais possa conduzir os anciãos a procu­ rar 0 conselho divino por meio dele (14. que está ligado a 1.’’ e indivíduos citados nos capítulos 8 e 11. pode-se facil­ mente imaginá-lo integrando as formas escritas de seus oráculos pela frequente inserção de referências cruzadas.1).a história da salvação/julgamento. Enquanto se pode reconhecer as alusões às situações contemporâneas em profecias indi­ viduais.

15. sua palavra havia sido cumprida. mas isto no contexto de um discurso divino que em si mesmo tem sido apresentado pela pri­ meira pessoa.24. e reconhecer em Ezequiel um verdadeiro profeta de Yahweh.33). Enquanto Ezequiel em ponto algum explica esse interesse quan­ to à precisão cronológica. Por conseguinte. Toda a história é vista da perspectiva de Deus.“*^Nos outros pon­ tos suas respostas aos ditos populares são traçadas como oráculos divi­ nos.5. Dentre todas as outras passa­ gens o nome do profeta só aparece em 24. ventilando repulsa diante do que vê ou reconhe­ cendo a incompreensibilidade das ações de Yahweh. 12.27.2-3.^' Ironicamente. embora os oráculos sejam apresenta­ dos num estilo narrativo autobiográfico. a primeira pessoa não é usada.^’ Mas as datas também têm uma função autenticadora. são raras as ocasiões em que o profeta. Deus deve começar tudo de novo. a última questão sendo passada de maneira muito séria diante da rejeição de sua mensagem por seus contemporâneos (cf 2. Ezequiel marca a evidência. um profeta de Israel. Somente seis vezes ele ex­ pressa sua reação.'*“ As notas de registro convidam os leitores de todas as idades a reconhecer a vera­ cidade e 0 poder da palavra divina. de fato. PERSPECTIVA AUTOBIOGRÁFICA Desde que virtualmente todos os oráculos de Ezequiel são dados na primeira pessoa. 3. Embora ele deva ter ouvido a conversa do povo. Os even­ tos na terra representam expressões temporais das decisões feitas nos céus. 12.11). 33. leva em conta o leitor. o disse e o fiz”. as da­ tas de Ezequiel no começo dos oráculos correspondem a uma fre­ quente fórmula no final: “Eu o Senhor. A história de Israel que a nação conhecia chegara ao fim. e ainda que ninguém tivesse presta­ do atenção. Ao editar seus oráculos. sem dúvida reflete sua consciência do signi­ ficado dos eventos dos quais ele faz parte. 33. na nota editorial em 1.30-33.A NATUREZA DA PROFFC IA E O ESTILO LITERÁRIO DE EZEQUIEL 5 1 oráculos são dirigidos ao remanescente em Jerusalém ou aos exilados na Babilônia.22. Somente uma vez. os leitores têm a impressão que ganharam acesso às memórias particulares de um homem santo. mesmo sobre a reação deles quanto a seus sinais-atos realizados .26-28. é trocada pela terceira pessoa. Yahweh repetida­ mente relembra-o do que eles estão dizendo (11. documenta que Yahweh lhe dera a palavra bem antes dos eventos. 37.

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o E o(/)5 & 0) *o S U) o Ui <0 0) ■o 0) *o CO •C x> (D o •o O) CNJ w s iCO I E ^ •o ■D s <u o CM lO cd CO E <D ^ (0 C^ o Q. 00 CO CNÍ T— ò <D -o ê Ll. I s E 0) “3 CD "D O o nLUi œ M CO LU c • e « •C © CO ^ 2 ü CO X) c <2 o3 2? E o O § S. (D ■o ^ o 3 SI S -i . 0) (0 (/) (D "Õ CO o ■o o O S 5 OI c r CNJ o5 0) 'S . CO (0 11 2 E s a? ■■ <D E (O o I ö O8 -ga> *g Ü i< •ã -d a (0 t o ll II § 8 Q> g . E E 00 O '£= Q.e l o S Û (0 o CD CM C3> lO a> CM CO CO CM d CO CO CO CO GO iO CO CD CM <0 ë -8 Ü CM LU CO C35 CO lO in CM CO . E o c ▼CM T d CO O “O ü CD N. 1 w CD TD CO XJ CO *D O O CM s O) LU O T3 O KO O C35 LU O ■O 0 •o 3 CM O CNÍ T— T“ CM i n CM Ü 'ÇO ♦CO (/) (I) ■a s E I a.i ‘2 O 5 D> LU O *D O S 2 CM lO to 0 ■O <ß ÇO Ü (D Q 0 •O CO 3 ‘CO (/) 8 (/) s O) LU O X) O ■g. O ■O Q. S CO o 0) (0 ï 3 II •9 N <D CO 0) -S Z £ ii o x: (0 CO c o *> (/) <D 8 Ë .

“*’ O orador humano. isto é. O que vemos é um homem totalmente sob o controle do Espírito de Yahweh. Das 217 ocorrências da expressão.18).“** a expressão não ocorre em nenhum ponto no AT. com o título completo 'ãdõnãy yhw h.'*^ a. que deve ter sido influenciado por Ezequiel 2.19). so­ mente o que Deus diz e faz é que importa. o comunicador divino no livro.“*’ a frase enfatiza a humani­ dade de Ezequiel. ó filho do homem”. cf. Sendo que bên indica um grupo ou uma espécie em expressões como esta. sua filiação na raça de ’ãdãm.17. a rebelião contra Yahweh.IVRO DE E z e q u i e l (12. algumas das quais são comuns entre os profetas. NRSV). TEV.“*“*Ao empregar-se a dupla denominação o profeta enfatiza. 4. 24. 24. 208 aparecem em pontos introdutórios e conclusivos da narrativa divina. Exceto por Daniel 8. ben-’ãdãm de Ezequiel enfatiza a distância entre Deus e o homem. se questio­ na se o verdadeiro Ezequiel alguma vez é apresentado. 12. de uma vez. Formas de referência Ezequiel. particulannente nos capítulos 1-32. Ezequiel.13. 17. Isto pode se encaixar no tom mortuário do livro. “filho do homem”).54 O I.9.1. “filho do homem”. a própria autoridade e se refere ao fundamental ruim de Israel. cuja morte não é antevista em parte . Esta frase ocorre 93 vezes no livro.7.“*’ mas a expressão é apli­ cada exclusivamente ao profeta. geralmente. nunca por seu nome pessoal. “tu.12. que identifica intencionalmente uma figura celestial com os humanos. A forma dupla do nome identifica Deus pelo nome pessoal (Yahweh) e o título oficial (Senhor). semanticamente relativo. “o Senhor Yahweh”. seu divino Senhor. se refere a Yahweh. Pela conveniência se pode dividir estas expressões em várias categorias.25.“** Muitos tradutores usam a fi-ase “mortal” ou “homem mor­ tal” (cf NJPS. é regularmente referido por Yahweh como ben-ãdãm (lit. das quais 23 são reforçadas com wè’attâ ben-’ãdãm. outras próprias de Ezequiel. Diferente do aramaico bar ’ènãs. Mas apesar da forma autobiográfica. ESTRUTURA DA FÓRMULA O leitor dos oráculos de Ezequiel é surpreendido pela preponderân­ cia e a repetição das expressões em forma de fórmula no livro. Somente algumas vezes Ezequiel registra sua obediência à ordem divina de falar ou fazer algum sinal-ato profético (11. em Daniel 7.

Para Ezequiel.” A preferência de Ezequiel pelo bêt pré-fixado parece ter sido proposital. Por conseguinte. mas a maneira de refe­ rir-se a ele escolhida por Yahweh sempre o relembrará a classe a que pertence. sendo fundada em uma con­ vicção de consanguinidade e reinado.’®Ezequiel pode ter sido recrutado como um mensageiro oficial da deidade (1. a parcialidade de Ezequiel em relação a bêt yisrã’él sobre bénê yisrã’êl não deve ser tomada como absoluta. mas sua posição como um mero humano em contraste com a transcendente e gloriosa divindade de Yahweh. Desde que bit mais um nome geográfico era um meio comum de identificar Estados nos documentos na Mesopotâmia. Seu senso de unidade transcendeu as considerações políticas. aparece somente 11 vezes. bénê yisrã’êl. Em contraste. o profeta era livre para usar qualquer das expressões mais apropriada ao contexto. A expressão ocorre 83 vezes no livro.’^ Ezequiel aplica o nome Israel de formas variadas ao reino do norte (ainda que já houvesse desaparecido havia muito tempo). . e não seus últimos reis.A N A TU RK ZA DA PRO FF.” no Antigo Testamento Israel nunca é chamado “a casa de Saul” ou “a casa de Davi”. Assim como em seu uso ocasional de melek. e é com frequência tratada como algo textualmente suspeito. Enquanto no acadiano o bit mais um nome próprio é sempre baseado no fundador famoso de uma dinastia dominante. a preferência de Ezequiel por esta forma do nome expressa de propósito a solida­ riedade da família da nação. literalmente “filhos de Israel. O E S T IL O L IT K R Á R iO D E E z E Q U IE L 55 alguma. não com aquele que o enviou. Ele pode ter sido alguém destacado moral e espiritualmente acima de seus compatriotas.’^ a frase pode refletir um regiona­ lismo intencional do profeta que reside na Babilônia.1-3. aos exilados de Judá na Babilônia. Mas o uso que Ezequiel faz de “casa de Israel” difere fundamentalmente dos textos extrabíblicos.CIA F. Sua identificação primária é com sua audiência. “príncipe”. Estas nações representavam as famí­ lias de seus ancestrais. mas assim como eles. Ezequiel é um mero Homo sapiens. a questão não é sua mortalidade.’* Apesar de tudo. num total de 57®/o do uso da frase no Antigo Testamento (146 vezes no total). e ao remanescente em Jerusalém.” que ocorre 683 vezes no AT. “casa/família de Israel”.15). nem é o reino do norte referido como “a casa de Jeroboão” ou “a casa de Onri”.” A designação favorita de Ezequiel à sua audiência principal é bêtyisrã’êl. em lugar do preferido nãsi’. “rei”.

5.6-7 e 22.*’ Fórmula palavra-evento. Com uma exceção (1.23.27. “palavra. o discurso é dado na primeira pessoa. b. 5. com a própria voz do profeta funcionando em lugar da divina. 55. referida como “fórmula do mensageiro”.56 O L IV R O D E Ezeoi IlU. o livro de Ezequiel raramente ou nunca confunde as fronteiras entre as vozes divina e profética. ocorre aproximadamente 120 vezes em Ezequiel. a fórmula sempre introduz um discurso divino. concreta.29 (51 vezes). a voz de Ezequiel. Esta fónnula é geral­ mente requerida no começo de um discurso profético.*® Mas a única exceção. Variações de né’um ’ãdõnãy yhw h. Por conseguinte. Marcadores do discurso direto Ironicamente. para autenti­ car o profeta (cf também 3. mas ocorre opcionalmente e com frequência dentro da identificação. e o discurso que se segue como as mesmas palavras daquele que enviou o profeta. Variações da fórmula wayèhi dèbar yhw h tla y lè’mõr.*’ Fórmula de intimação. que emana de Yahweh e con­ fronta o profeta (c f também Is 45.5).“ Em sua referência de chamado (2. em 11. A fórmula destaca a fonte divina de revelação sem especificar a forma que ela tomará. comumente referida como uma fórmula palavra-evento. kõh-’ãmar ’ãdõnãy yhw h. Fórmula do assinante. Geralmente. indica a distância de significado ligada à palavra dãbãr.28. 11. 3.10-11). Esta fómiula vê a palavra divina como uma realidade quase objetiva. O interesse claro de Ezequiel para marcar a narrati­ va divina é refletido no uso pesado de três fórmulas proféticas. ou seja. à primeira ocorrência da fórmula no livro.*' Em 20 das citações. apesar da forma autobiográfica penetrante do livro. “Assim diz o Senhor Deus”. ocorre mais de cinquenta vezes no livro.3). com Jeremias (175 vezes) tendo mais da metade e Ezequiel (85 vezes) um quarto do todo.11) Yahweh oferece a Ezequiel uma explanação sobre a necessidade desta fórmula. evento”. Nos livros profé­ ticos esta fórmula destaca o papel heráldico do narrador. A equivalência retórica da fór­ mula de intimação e do assinante é sugerida por 13. “a declaração do Senhor Deus”.1439. Diferente de muitos outros livros proféticos. “veio a mim a palavra do Senhor dizendo”. particularmente. é persistentemente inundada pela voz de Yahweh. que .4. a fórmula aparece no final de um oráculo introduzido pela fórmula de intimação. sendo agrupada. ocorre 365 vezes no AT. questão. o suposto narrador.

. “dizer”. . mas sua função retórica é clara. A adição de ’âdõnãy.3.. . “e diz”) com outro comando verbal. interrompendo o fluxo dos pronunciamentos para aumentar o efeito retórico. M d . Comandos proféticos As ordens para Ezequiel se engajar na atividade profética ocor­ rem de diversas formas.2). No entanto.“ Nas outras ocorrências ela aparece no meio do versículo. embora dabbêr. enfatiza o pa­ pel subserviente do profeta. w è’ãmartã. fala . . 22. mais comum h in n ã b ê’ . Em 27 ocasiões a frase funciona como um marcador de fim de parágrafo.4. requeridas como critérios para isolar camadas de texto no livro. ela funciona como um tipo de assinatura verbal.“ Quer colocada no final de um oráculo ou inserida dentro do discurso divino.*’ Menos fi^equente são dabbêr. w ê’ã m a rtã “Profetiza .** Ezequiel tem o hábito especial de variar o tipo particular de discurso ao prefaciar o verbo (geralmente na forma convertida perfeita. . em geral.2-3. wè’ãmartã. w è’ãm artã. as fórmulas do as­ sinante e de intimação revelam uma preferência decisiva pela forma longa do nome divino. “Senhor”.*’ Estas fórmulas têm sido. colocando o imprimátur divino sobre a palavra oral. esta fórmu­ la acrescenta solenidade ao pronunciamento profético ao indicar sua fonte divina. 33.“ A vocalização e consistente aparição de né’um no construto com outro substantivo. em vez de uma tra­ dução comum verbal.2-3).2-3). hôda'^.“ Em contraste com a fórmula palavra-evento. . . c. ele fala não com a própria autoridade. e diz”. apon­ ta para um significado substantivado para o termo. . 20. De fato. .*^ A etimologia de nè’um permanece incerta. “Profetiza . em geral um substantivo próprio. .4-5. . “diz o Senhor Deus”. wéhinnãbê’ . . “falar”. alertando o leitor sobre uma mudança de tópico dentro de um oráculo. .. w é’ã m artã “Fala . 20. . e diz” (14. . . 27. .O LITERÁRIO DE EZE O IIIEL 57 retratam falsos profetas usando ambas as fórmulas para autenticar suas mensagens. . e diz” (29. mas com a de Yahweh.A NATUREZA DA PROFECIA E O ESTII. ofereça uma ocasional variação estilística. análogo á assinatura ou um selo de uma autoridade por trás de um texto escrito. a presença casual das fórmulas de assinante e de intimação no meio dos oráculos e a irregularidade da última no final diminuem sua confiabi­ lidade como marcadores de camadas literárias. . A ordem de apresentar uma mensagem oral geralmente envolve o verbo 'êmõr. dabbêr . e dize” (16. “Faze conhecer.

’’ os oráculos de Balaão fornecem a melhor ilustração bíblica do significado objetivo original da expressão em um contexto profético (Nm 22-24). 28. 23. . 14). refle­ tindo a disposição psicológica hostil de Yahweh para com o objeto. w attéht ‘^ãlãy . e que o Espírito de Deus não veio sobre ele até que o contato visual foi feito. De fato.. . . o uso que Ezequiel faz é puramente figurativo. . observe também a ocorrên­ cia única de kõh tõ’mar.19 (em português.” Quando a comunicação divina é dada na forma de sinais-atos. d. “Propõe um enigma . sim pãnêkã ’e l/‘^al/derek.13.2-3.2). em 33. wé’ãmartã. isto não quer dizer que o destinatá­ rio jamais ouviu ou leu os pronunciamentos.1.12. 32. .45-48) os endereçados sào entidades inani­ madas. “Levanta um lamento . ele deve procurar {qah lékã.” Ain­ da que os oráculos que seguem esta fórmula tendem a ser dados na segunda pessoa do discurso direto. 19]) para si mesmo objetos para serem usados nas dramatizações.2 e 21. w é’ãmartã. e usa uma parábola . Outras fórmulas proféticas A dimensão física do papel profético de Ezequiel é expressa mais dramaticamente pela fómiula da coerção divina. .1. e dize” (27.’'*Na verdade. “Assim lhes dirás”. Assim. 5.2. como em 21. fazer {‘^ãsêh lékã. em 6. fenômenos físicos e geográficos. 24. Números 23. . . Embora “vira o rosto para” fosse um idioma comum por todo o mundo semita antigo. . “vira o rosto p ara. 4. 21.16). Esta frase idiomáti­ ca deriva do gesto comum de olhar para a pessoa com quem se fala. 12.41.1-4 (em português 20.13 sugere que a maldição não poderia ser propriamente dada a não ser que Balaão tivesse um contato visual com os objetos da maldição. A atitude física do profeta para com sua hipotética audiênciaalvo é prescrita nove vezes com a fórmula de tendência hostil. sã’ qínâ. . Enquanto que “vira o rosto para” possa implicar um movimento físico para um objeto. Onde não é requerido tais recursos a ordem é mais simples. .3). hinnãbê’ wèhak kap ’el-kãp.27). . Três vezes.2-3. “Profetiza e bate com as palmas uma na outra”. as diretrizes a Ezequiel são expressas como ordens dramáticas. e em três locais diferentes. e dize” (17.24 [em português. 24. Balaão tenta invocar uma maldição sobre Israel.58 O LIVRO DE E z e q u i e l úmésõl . sempre com Israel diante do profeta (Nm 22.3). e preparar {sim lékã. 37.

A fórmula da inspiração divina. cf. wattippõl ‘^ãlay rãah yhwh.1. 8.46.” Ezequiel é um homem tomado por Deus. descritivo de uma ação . Conside­ ra sua mobilidade e imobilidade. hôsi’.5a). A primeira. wéyãdé‘^ú ki ‘ãni yhw h “e sabe­ rão que eu sou Yahweh”.“ e. ocorrendo sete varia­ ções dela no livro. o significado de ’ãniyhw h pode ser entendido ao se observar os vários desenvolvimentos da fór­ mula. que descreve a mão de Yahweh cercando e fortalecendo Elias. a aparente loucura de algumas de suas ações. “e ele me trouxe”.’* Em tais contextos “mão” usa-se metaforicamente em relação à pressão demasiada que Deus exerce sobre o profeta. e hêstb.24. Em seis outros exemplos Ezequiel é tomado pelo Espírito/vento divino e carregado para outra localidade (3.14.1. Nas duas circunstâncias o poder do Espírito é demonstrado ao colo­ car em pé 0 profeta prostrado (he'^êmid '^al-raglãy).22.22).A N A T U R E Z A DA P R O F E C IA E O E S T IL O L IT E R Á R IO D E E z E y U l K L 59 yad-yhwK “a mão do Senhor veio sobre mim”. (1) ’ã n i yh w h mais hé mais o construto infinitivo. mesmo transpor­ tando-o de volta e adiante para lugares distantes (8.12. 37. hôlik. a tal ponto que ele é capaz de correr mais que as carruagens de Acabe. A forma mais branda do controle divino é representada por uma fórmula visionária de direção.’* Em Ezequiel a “mão” do Senhor expressa domínio completo sobre os movimentos de Ezequiel (3. o papel do Espírito em sua experiência profética é descrito com expressões como wattãbõ’ bi ruáh. 43. empregando formas de hêbi. a fórmula da autoapresentação e a fórmula do reco­ nhecimento divino. “Eu sou Yahweh”.24. “entrou em mim o Espírito”. “caiu sobre mim o Espírito do Senhor” (11.3. Em outras partes. Este extraordinário controle divino sobre o físico do profeta o distingue de seus colegas profissionais mais do que qualquer qualidade. 40. A fórm ula teológica As profecias de Ezequiel são dominadas por duas profundas fór­ mulas teológicas. 11. representa uma varia­ ção espiritual desta expressão idiomática.*' Enquanto que a importância de ambas é refletida na frequência de suas ocorrências.1).” O uso de Ezequiel da expressão idiomática é reminiscente de 1Reis 18. ‘ãni yhw h.2 e 3. e sua resposta estoica á rejeição. em 2. “e ele me trouxe de volta”. é com frequência incorporada na anterior. A maioria destas pode ser agrupada em três categorias. oposição e ao sofrimento. “e ele me conduziu”.5). 33.1. “e ele tomou-me”.

25). ó casa rebel­ de.14 a certeza da predição que Tiro nunca mais seria reconstruída é baseada no fato que Yahweh é quem o disse. os santifico”.14: “Eu sou Yahweh. quando Yahweh tiver aberto as se­ pulturas. 37. ou “Sou eu. Yahweh. e eu o farei. eu disse e o farei”. “Eu sou Yahweh.®^ Há questionamentos se tais casos deveriam ser traduzidos. Acontecerá. O que fecha esta questão é: “Eu sou Yahweh. ou terei misericórdia ou me arrependerei”. ele faz. que os santifica”.36. eu falei”. então Israel reco­ nhecerá que ele é Yahweh. por exemplo. Terceiro. vários contextos requerem esta interpreta­ ção. Zimmerli admite que a estrutura de ’â n í yhw h méqaddésãm em Levítico 22. a eficácia da palavra divina é ocasionalmente enfatizada de forma explícita ao expandir a fórmula de identificação para ’ãníyhw h dibbarti wé‘^ãsítí.*“ Enquanto que com a tendência de se preferir a pro­ posta do meio.14 a incapacidade dos seres humanos é justaposta com as ações irrepreensíveis de Deus. Em 22.10). diz o Senhor Yahweh” ( 12. introduzido nos esqueletos emergentes o seu Espírito de vida.** (3) ’àní yhw h mais o perfeito. falei”. A distinção parece pequena.12). 24. falarei a palavra e a cumprirei. eu disse. e os tiver trazido de volta à sua própria terra. Primei­ ro. mas uma leitura posterior enfatizaria Yahweh como aquele cuja palavra é sempre efetiva. Em 26. 22. representam a versão mais comum desta forma. ou “Eu. Segundo. 36. e a palavra que eu falar se cumprirá e não será retardada. Falarei. pela qual a pessoa de Yahweh é reconhecida. Pode-se apoiar essa interpretação por vários aspectos. Yahweh. como é costumeiramente feito. “Eu sou Yahweh.** De acordo com 37.14.14. ou “Eu sou Yahweh.“ As catorze ocorrências de ’ãní yhw h dibbard.60 O LIVRO DE E z e q u i e l específica divina.*^ (2) ’àní yhw h mais o particípio. Mas nenhum texto enfatiza a dificuldade de restringir da palavra divina como 24. vários textos enfatizam a certeza da palavra divina ao acrescentar comentários explicativos extensos à fórmula de autoidentificação: “Saberão que sou Yahweh e não disse debalde que lhes faria este mal” (6.14).*’ Novamente se levanta a questão de se traduzir ou não estas frases. Yahweh. . “Porque eu sou Yahweh.14. “Eu sou Yahweh que os santifi­ ca” (20. Eu não demons­ trarei piedade.24.32-33 favorece a primeira. porque. Eu o disse e o fiz” (17. quando ele fala. em vossos dias. “Eu. eu falei”. Uma variedade de verbos é encontrada nes­ ta construção.

E na narrativa da história que seu caráter é procla­ mado.20). “ver. Fortalecer a convenção de Ezequiel é uma consciência perspicaz das narrativas tradicionais do êxodo.A NATUREZA DA PROFECIA E O ESTILO LITERÁRIO DE EZEQ U IEI.19. A fórmula de reconhecimento com yãda‘^. e então tirar as conclusões teológicas óbvias. Eles se tornam ditos de prova profética. dis­ se” obscurece a fórmula de autoapresentação como a base de tais afirmações e se opõe á paixão de Ezequiel em conectar a pessoa de Yahweh com a certeza de seus pronunciamentos. 7.®^ Com base nas narrativas do Êxodo (cf Ex 6. A irrepreensibilidade da palavra divina é uma parte de suas ou­ tras ações irresistíveis: porque Yahweh o acende e não se apagará (21.5]). Este refrão chama atenção do ouvinte dos oráculos de Ezequiel a se afastar e observar Deus agir.21.6-9. de acordo com os quais as ações de Deus são designadas a levar o observador a reconhecer a pessoa de Yahweh e seu soberano envolvimento na experiência humana. Assim como a libertação . Yahweh. esta fórmula trans­ forma os oráculos de Yahweh de meros anúncios de eventos vindou­ ros para anúncios da automanifestação de Yahweh. os quais usam rã’â.48) e 39.4 [em português. como verbo. ocorre 54 vezes em sua forma pura. 6 1 A Última afirmação tem continuação no versículo 28: “Portanto. com frequência percebidos como decretos irrevogáveis. A tradução apositiva de ’ãni yhw h dibbartí como “Eu. 20.*’ Nenhuma tradução portuguesa transmite o significado total da formulação hebraica. Mas a própria reflexão do profeta sobre aquele evento revelatório faz também um uso total do tema principal (ver Ez 20. seja em julgamento ou em salvação.10 [em português.4 (em português 20. 17).7. Os pronunciamentos orais de Yahweh são garantidos pelo caráter do próprio Yahweh. 21. perceber”.1.48]). dize-lhes: Assim diz o Senhor Yahweh: Não será retardada nenhu­ ma das minhas palavras.” Deve-se também acrescentar a estes 21.’®e se ligar a eles num relacionamento pactuai.’^ Ezequiel não fornecerá discursos doutrinários nas descrições da natu­ reza de Yahweh. e a palavra que falei se cumprirá. ela não será embainhada novamente (21. porque ele desembainha a sua espada. e mais 18 vezes na forma expandida. “conhecer”.5. diz o Senhor Yahweh”. de acordo com a qual um dos principais objetivos de Yahweh ao libertar Israel da escravidão do Egito era apresentar Israel a si mesmo. 5.

somando mais que o dobro das profecias de seu contemporâneo. No entanto. 20). muitas das quais refletem proveniência babilônica de onde ele escreve. deve-se observar as expressões que ele evita. 5. e sentenças complexas longas. qébõl. gãbéhã’ (31. 1. sar‘^appâ. 40-48). O frequente uso do paralelismo.15). Enquanto o livro de Jeremias (que é 16% mais longo no número de palavras) contém somente 88 hapaxes. Com mais de 830 palavras. pãrah. ESTILO LITERÁRIO DISTINTO Os oráculos de Ezequiel são distinguidos dos de outros profetas em muitos aspectos. qérôbím.’* Em adição ao vocabulário especial empregado por Ezequiel. 16. as partículas ’e t e ’ãser. ’attiwqêhã’ (41. Um dos mais óbvios é a preeminência das extensas narrativas de vários gêneros proféticos: visões (caps. 8-11. gébal.g.“” A não ser por alguns poemas específicos (e. os egípcios. hôb. assim como imagens colo­ ridas. séculos atrás.” Quanto Ezequiel está distante do discurso comum de Jerusalém é também refletido no número de hapax legomena (palavras que aparecem somente uma vez no Antigo Testamento). e dois terços da extensão de Rute e Cântico dos Cânticos. 19. história revisionista (cap. 26-28). qãram sem mencionar transcrições aramaicas. 14 prováveis e 12 possíveis. mèhi. e o mundo com a presença e o caráter de Yahweh.5). Jeremias. dá aos oráculos um sabor poético.^* Igualmente impressionante é a marca babilônica no livro. had ’et-had. . Ezequiel tem 126. como qayyêm (13. Garfmkel.62 O i.iv R o DE E z e q u i e l de seu povo do Egito. P. assim também seus atos de julgamento sobre um povo rebelde o farão agora.’* Expressões aramaicas encontradas so­ mente em Ezequiel incluem binyãnA>inyâ.” Contribuindo com o tom melancólico do livro está a ausência de palavras para súplica ou louvor. o livro contém 24 acadianismos definidos. havia sido preparada para impres­ sionar os israelitas. é difícil saber se seus oráculos se categorizam como poesia ou prosa. Menos óbvio ao leitor das traduções em português é o vocabulá­ rio distinto de Ezequiel.. caps. tã % kãhal. Encontra-se uma abundância de aramaísmos gramaticais e léxicos. seus escritos são também carregados com elementos prosaicos: waw consecutivos. somente o capítulo 16 é mais longo do que seis dos Profetas Menores.6). kãpan. alegorias (caps. 23). De acordo com S.

“fidelidade pactuai” {hsd). seus es­ critos mostram muitas características fictícias que se estabeleceram no hebraico pós-bíblico. assim como as palavras para “confiar” (bth). TEXTO A pletora de notas textuais em BHS atesta sobre a notória difi­ culdade de muitas passagens em Ezequiel. o caráter transicional do estilo deste profeta exílico. e “amaldiçoar” ( ’rr). a designação comum para o monte do templo. excelentes edições do grego primitivo. mas por outro. “abençoar” (brfc).T exto 63 Siâo. No entanto.'®^ Sua localização na Babilônia. refere-se ao hebraico pós-bíblico. Também são au­ sentes referências à “salvação” (ys^. sem sombra de dúvida. pdh). Não somente teria sua dicção sido influenciada (assim como a de seus amigos exilados) pelo contato regular com estrangeiros. Por um lado. Desde que o próprio AT é um fragmento linguístico (muito pesado na direção da teologia). e “abençoado” (’s o'). “graça” (hnn). “redimir” (gl. Em adição. e pouco ainda se sabe dos padrões literários e orais antigos. “amor” (Tib). “estar firme” (’mn). isolados da terra natal judia. especialmente seus pronun­ ciamentos de julgamento sobre Israel. do qual muitas características se tor­ naram parte do hebraico palestinense pós-exílico.'®' e o Código de Santidade (Lv 17-26) da Torá Mosaica. e versões siríacas . ele e seus compatriotas teriam desenvolvido muitas expressões idiomáticas no­ vas e fornias de discurso. “temor” (yr') do povo para com Deus. especialmente seu contemporâneo mais velho. Felizmente. é omitida. eruditos apreciam muito 0 lugar central de Ezequiel na evolução da linguagem. do aramaico. do latim. sem dúvida. Ezequiel depende muito das formulações tradicionais. mas também Isaías. Sofonias e Naum. que são baseados nas maldi­ ções do pacto em Levítico 26 (e Dt 28). Este livro representa um fragmento do re­ pertório linguístico dos exilados. mas. o estilo e a linguagem de Ezequiel são muito influenciados pelos escritos sacerdotais. IV.'“ Falando em um estilo hebraico distinto. Jeremias. os eruditos estão se tonando mais e mais cautelosos sobre eliminar certas características como não sendo “ezequielianas” com base no estilo. nos oráculos específicos ele se baseia na linguagem de Deuteronômio e seus pre­ decessores proféticos. Vários estudos recentes demonstram.

ganhou muito poder entre os exilados. em 538. E. na ausência de uma regra civil/real centralizada. Algo impressionante deve ter acontecido duran­ te o exílio.' Mas o quadro da condição espiritual do . no entanto. que. quando Jerusalém foi destruída (33.30-33). pois o censo revela que quando Ciro autorizou os judeus a retomarem para a sua terra natal e reconstmírem a comu­ nidade da fé em Jemsalém. no entanto.1 -70).C. Em alguns exemplos parece que a LXX foi baseada em um Vorlage hebraico diferente do nosso texto hebraico. ou com problemas estilísticos.64 O i.. Ezequiel nunca é mencionado no Antigo Testamento fora de seu livro. No entanto. incompreensível. a partir dos documentos de Qumran. Sua audiência permaneceu endurecida ao menos até 586 a.“ V. difí­ cil detectar sua influência a longo termo sobre a vida e a fé dos israelitas. mais de quarenta mil deixaram a fé (Ed 2. Em geral.^ É óbvio. sem críticas. Os eruditos não estão de acordo quanto à causa dessas diferenças. Infelizmente. Jeremias.ivR o DE E z f. que com frequência se distancia do texto hebraico massorético. Apesar disto. somente alguns fragmentos do texto bíblico sobrevivem.o u ie l estão disponíveis para o sério estudante de textos. que o TM sempre reflete a leitura correta. O livro em si mesmo sugere que durante sua vida a influên­ cia de sua pregação na comunidade exílica era mínima. esses frag­ mentos apoiam as leituras do TM em oposição a outras versões. às vezes mesmo conjecturando emendas em função do significado. que o livro de Ezequiel era precioso naquela comunidade.^ Não se pode afínnar. EZEQUIEL NA TRADIÇÃO JUDAICA E CRISTÃ Diferente de seu contemporâneo. algumas das diferenças na LXX podem se derivar de um entendimento errado do texto hebraico diante dos tradutores.' Para propósitos crítico-textuais sem dúvida a mais importante dessas versões é o grego da Septuaginta. em alguns casos mostrando uma preferência decidida pelo TM. portanto. este comentário é baseado no texto hebraico. eu não hesitei em ouvir outras versões. Mas onde o hebraico é não gramatical. recentemente os eruditos têm procurado ser mais ecléticos. Enquanto que no pas­ sado alguns consideraram quase automaticamente a superioridade da LXX sobre o TM. Esta mudança nos compromissos espirituais da situação pré-exílica é geralmente atribuída à atividade da classe sacerdotal.

e sob o ataque de Ezequiel também (Ez 22.C. graças aos escritores cristãos.26). A que se deve atribuir a dramática mudança espiritual na Babilônia? Em meu ponto de vista.C. eles procuraram reconhecer a essência da fé mosaica.17. eles começaram também a tomar seus pronuncia­ mentos morais e espirituais seriamente. Em seu “Rol da Fama” em honra aos notáveis da tradição israelita. opuseram-se ao programa de Yahweh para o seu povo. . Reconhecendo a veracidade de suas palavras a respeito do destino da cidade. este documento judeu do século 1® d. Pode-se reconhecer a influência literária nos escritos apocalípticos de Daniel e Zacarias. 10. e reconstruir a comunidade como povo de Yahweh.33) foram seus colegas de profissão. e que ele deixou dois livros. defendido no Documento de Damasco (CD [ms.1 -2). uma mulher enaltece seu falecido marido como alguém que “afirmava a palavra de Ezequiel. ele parece ter tido em mente “o Apócrifo de Ezequiel”. Na ausência do templo. Ben Sirach comenta: “Foi Ezequiel quem teve a visão da glória. parece que após a queda de Jerusalém os primeiros entre os exilados a reconhecêlo como um profeta verdadeiro (cf.1) que Ezequiel foi o primeiro a escrever (suas profecias?). um documento do século 1» d. Em 4Macabeus 18. rejeitando a mensagem de Jeremias (Jr 20. Somente alguns textos apócrifos e pseudepígrafes mencionam Ezequiel. a resposta mais prová­ vel é a influência de Ezequiel. é especialmente signifícativo por sua eloquente apresentação da doutrina da ressurreição.8. as tradições antigas do Sinai emergiram como uma cola man­ tendo unida a renovada comunidade do pacto. nas afirmações zadoquitas quanto ao sacerdócio. a qual Deus lhe mostrou sobre a carruagem e os querubins” (49. NRSV). 33. da terra e do rei. a influência sobre esta comunidade foi profunda.^ e talvez também na data precisa dos oráculos em Zacarias e em Ageu. A menos que os capítulos 40-48 representem o segundo (que parece ser algo difícil). ‘Estes ossos viverão?’”^ Josefo observa {Ant.. Sendo da classe sacerdotal.E /E O U IK L na T R A D IÇ À O JU D A IC A E C R IS T À 65 sacerdócio na época do exílio estava muito longe do favorável. Inspirados por sua pregação. Embora existente em somente quatro fragmentos. Isto é muito óbvio nos planos para o templo expostos no “Rolo do Templo”. Em geral. A] 3:18-4:4).5.“ Apesar da fraqueza da testemunha textual de Ezequiel nos documentos de Qumram.

o precursor da era messiânica. B. alguns têm reconhecido sua influência na doutrina cristã da ressurreição. no primeiro mês. Aparente­ mente. De acordo com menah 45a. Sem seu símbolo terreno da presença onipotente de Deus.C. o remanescente. em 70 d. Deus estava entronizado nos céus além do alcance de qualquer poder mun­ dano.’ Embora o Novo Testamento nunca mencione Ezequiel..18. e no merkabã (trono-carruagem celestial). a dificuldade do livro é um tema comum. Uma olhadela no trono divino e em seus mistérios é acessível somente ao iniciado. Baí.’ No entanto.* Na tradição rabínica. Ezequiel não poderia tê-lo escrito. Por ter vivido fora da terra de Israel. .’ Mesmo assim.® Assim. em 45. o interesse rabínico em Ezequiel era forte. que pediu trezentos jarros de óleo para ser colocado na câmara superior onde estava enclausurado.66 O LIVRO DE E z e q u i e l na referência da marca na testa daqueles que seriam salvos na era messiânica (CD [ms. o rabino Judas confessa que o texto é impossível de se reconciliar com a Torá. tema nos cânticos do sábado. Sobre a autoria do livro. vários textos se referem a certo Ananias ben Ezequias. 15a reconhece este livro com os profetas menores até os homens da grande sinagoga. Após a queda de Jerusalém nas mãos dos roma­ nos e a dispersão dos judeus. sua polêmica contra seu povo. e a visão do futuro. Conhecedor das obscuridades no livro. e afirma que nós devemos esperar por Elias. Este misticismo merkabâ enfatizava que embora o templo terreno tivesse sido destruído. e que antes que o óleo fosse consumido havia harmonizado Ezequiel com o Pentateuco. No entanto. Jerônimo observou que os judeus abaixo dos 30 anos eram proibidos de ler o começo e o final do livro. pois se não fosse por ele. diretor da escola de Shammai. as inúmeras contradições da Torá Mosaica em Ezequiel levan­ taram algumas questões sobre a canonicidade do livro. teria sido omitido na sinagoga. se crê que esse homem preservou o livro. comentando a referência do profeta aos sacrifícios para a purificação do santuário. h. sua marca é sentida em outros aspectos mais gerais da espiritualidade de Qumran: a concepção da deidade. o livro de Ezequiel teve uma profunda influência na preservação do senso de comunidade judaica. B] 19.11-14). o povo olhava para o trono-carruagem como um símbolo tanto de sua transcendência quanto de imanência. para resolver os problemas. a comunidade da fé.

as exposições de Calvino em Ezequiel são de interesse especial porque representam suas últi­ mas obras escritas. e sua disposição confusa de tópicos. cujo interesse excedente em ler a visão inaugural de Ezequiel era para recapturar a imagem de maneira que pudesse desenhá-la como ele desenhou o templo. a igreja." Enquanto se reconhe­ ce as obscuridades no livro. Moído pela dor. no Apocalipse de João. seus mo­ vimentos desconjuntados nada convencionais. seu corpo emagrecido se rendeu no final do capítulo 20. Se o editor do livro tivesse o leitor moderno em mente ele teria organizado seu material de modo diferente. mas há muitos contatos diretos. poucas pessoas conseguem lidar com suas constantes denúncias.EZKQUIEL n a TRADIÇÀO JUDAICA E CRISTÃ 67 assim como o entendimento paulino da glória divina. Para os interessados em entender o profeta e sua mensa­ gem. Victor. e muitas alusões a Ezequiel. mas também para saber o que ela significava para o povo para quem Ezequiel a registrou. os prêmios são inestimáveis. eu reco­ mendo reordenarem os oráculos encontrados no livro de maneira lógica com base na fomia e no conteúdo.as medidas e regulamentações do plano do templo como um quadro do reino celestial. em vez de estudar os oráculos na seqüência canônica. A razão por trás desta negligência não pode ser atribuída somente à abertura bizarra do livro. seu estilo repetitivo. particularmente a participação de Gogue e Magogue nas batalhas fi­ nais. Pois.'“ Em contraste.'“ A marca de Ezequiel é mais evidente. os pais da igreja ficaram fascinados pelo simbolismo dos números . Lutero mostrou pou­ co interesse em Ezequiel.’^ O interesse me­ dieval é ilustrado por Andrew de St. Um interesse cristão mais conservador no livro tem tendido a mover-se ao redor da visão escatológica de Ezequiel. O profe­ ta não é reconhecido como a fonte das ideias de João. para todos aqueles que estão desejosos em engajar-se no mais misterioso dos profetas de Israel. . Eu já citei como a crítica erudita recente tem lidado com as profecias de Ezequiel.'* Mas esta abordagem não deve obscurecer a lógica retórica fundamental na forma canônica do livro. no entanto. Na verdade.'* Apesar da profundi­ dade de sua teologia e a natureza prática de sua mensagem. e o papel do templo e seu culto no milênio.'^ Dos reformadores. os evan­ gélicos têm tido pouco tempo para este profeta a não ser por este estreito foco escatológico. Seu comentário reflete o vigor de sua mente e sua profunda visão da Escritura.

14.45-21. 33.1-27.14-21. 33. 21.29 O novo Moisés 40. 13. 11. 29.1-20.16-21. 16. 28.1-23.1-18. 7. 18. 32. 33.1-31 0 mensageiro das boas-novas 6. 32. 24.1-14 0 apocalipsista 38. 1.1-13.1-16 0 Pastor 34.1-24. 24.22-25.1-16. 30.20-26.1-10. 6. 28.1-21.24-26.1-11.1-5. 31.35 . 20.10-20. 35. 33.17-32 A consciência dos reis 28. 11.1-14.1-39.8.17.1-63.1-36. 11.15-27.17-22 0 polêmico 11. 19.15.20-23.11-19.17-21.22-27.1-48. 29. 22. 28.15-28 0 malabarista de parábolas e enigmas 17.14-21. 27.28b-3. 22.1-14 0 dramaturgo 4. 43.23-31 A mensagem encarnada 3.1-49 0 Juiz das nações 25.1-19.1-14.12-15. 33.17). 21. 23.23-29 0 acusador 14.1-14.16-38.1-44.22.23-32 (em português 18-27).1-28a. A m ensagem e o m étodo de Ezequiel 0 mensageiro de Yahweh 1. 36. 22.68 O L IV R O D E E z e q u ie l Q uadro 3. 26.1-17.1-36.21-22.1-16.30-33 O visionário 8. 30. 37.15 0 Atalaia 3. 16.1-32.8-10.1-9 0 profeta verdadeiro 12. 37. 12.1-10.21-28.60-63.1-22 (em português 20.

entre seu próprio povo (48. os principais inimigos de Israel ajuntados dos quatro cantos da terra (caps. o onipotente Sustentador. mas o crescimento e a queda dos poderes estrangeiros têm um significado primariamente histórico até o ponto que esses eventos tocam o destino do povo de Yahweh (28.35). 38. interessado em que .24-26). 38-39). e por inter­ médio de sua carruagem celestial seu domínio se estende às mais longínquas extremidades da terra (1. Gogue e sua turba. 25-32) não deixam dúvidas sobre a soberania de Yahweh sobre tudo.' Nesse livro.21) entre as nações.23) e coloca a sua glória (nãtan kèbôdô.AVISÃODEDEUS Em nenhum profeta a grandiosidade e a maravilha de Deus re­ cebem tão eloquente e sublime expressão como em Isaías. A TEOLOGIA DURADOURA DE EZEQUIEL A. Do começo ao fim. VI. para os que procuram anunciar a mensagem de Deus com força e clareza.5-37 [em português 1-32]). Os oráculos contra as nações (caps. faz-se conhecido (nôda*^. de fato. o Deus que confronta o leitor nesse livro é primeiro e acima de tudo o Deus de Israel. não é somente Deus.^ na terra de Canaã/Israel (capítulos 4-48). de fato. 39.A TEOLOGIA DURADOURA DE EZE Q U IEL 69 Ezequiel serve como um modelo homilético para todas as eras. Ele. ele magnifica a si mesmo {hitgaddèl. o lugar de Nabucodonosor na História é de­ terminado por seu papel como aquele que utiliza a espada divina dirigida a Judá e a Jerusalém (21. são bonecos trazidos pelas mãos divinas para provar o compromisso duradouro de Yahweh para com a segu­ rança de seu povo. seu programa está focalizado em Israel.23). Ele está. Mas ele também conduz o leitor para o coração e a santidade de Deus. está assentado como rei cósmico em seu trono nos céus. um assunto para o qual nós agora nos dirigimos. Até onde Ezequiel é considerado. não somente dese­ joso sobre seu relacionamento com seu povo. 38. O universalismo e o interesse cósmico de Isaías se colocam em grande contraste ao paroquialismo de Ezequiel. Mesmo no exercício de sua soberania sobre as nações. o único. Ao eliminá-los. o oniregente Diretor. mas sua residência esco­ lhida está em Jerusalém. o Santo de Israel.1-28). Yahweh. e o onisciente Juiz do universo. ele é também o exclusivo Criador. mas também capaz de arriscar sua reputação a favor de seu destino ou sorte.

A base pactuai para o seu relacionamento com a nação é evidente não somente na designação que faz o profeta a Israel como ‘^ammi.28. 21. 34. “meu povo”. o restaura à sua terra de herança. o profeta escreve dos capítulos 1-24 para tentar reve­ lar esta convicção ilusória. Yahweh é o Deus de Israel.27).IVRO DE E z e q u i e l todo o mundo reconheça sua pessoa e sua presença em suas vidas. 14. Em terceiro lugar. é dirigida pela paixão pela reputa­ ção de seu santo nome.16-32.22. 38. Desde a forma e a vibração da visão inaugural. 39.5-18. 44). Um Israel ímpio se comportando como Sodoma e Gomorra mancha a reputação de Deus. 31. 20. os observado­ res internacionais concluem tanto que Yahweh é incapaz de cuidar de seu povo quanto é deliberado em abandoná-lo. 37.’ até as classificações concêntricas da santidade construída no dese­ nho do templo na visão final (caps. 36. para que seja santificado por intermédio de seu povo entre as nações (20. e vós sereis meu povo” ( 11. 36.20. seus sábados (20. mas em defesa de seu santo nome. Por conseguinte. em particular.11.7.41-42. Ele deve visitá-los com seu julgamento por­ que sua idolatria e outras ações abomináveis têm contaminado (tim m ê/ hillêl) seu templo (5.30-31. 43). 8.9. seu santo nome tem sido manchado. tão comum em Isaías. mas também em várias citações e alusões á fórmula pactuai “Eu serei o seu Deus.39). reúne seu povo. tudo sobre o caráter e ações de Yahweh proclama “Santo! Santo! Santo!” Sua disposição para com seu povo.25.11. 28.® Porque seus compatriotas trataram as pro­ messas do pacto de Yahweh com Israel como garantia incondicional de segurança. o originador e mantenedor do pacto. Mas o mesmo o faz uma nação em exílio e uma terra em ruínas.24. 24). Negligenciando a causa humana.38-39). e seu nome (sêm qodsô. 40-43). 14. mas seu programa é sempre focalizado sobre Israel.^ Segundo.16.70 O I. A não ser pela fé no Senhor do pacto e a .44.'' o atributo à santidade de Yahweh é alto em sua mente. e referências explí­ citas ao próprio pacto. após o julgamento.20-32).23). seu povo (20.7.13. 22. Em ambos os casos.16-18). 23. embora Ezequiel evite o título “Santo de Israel” {qèdôs yisrã ’êt). e por esta razão ele deve restaurar seu povo e sua terra para si mesmo no futuro (20. ele age não de acordo com a deserção dele. quando ele lida com os inimigos de Israel. sua terra (36. Por causa de sua paixão pelo seu santo nome ele não destruiu seu povo no passado (20. 36.23. e o revitaliza pela infusão de seu Espírito.

e muito relacionado ao terceiro aspecto. e na paixão viva de Yahweh pelo bem-estar de seu povo. Ezequiel não oferece nenhuma poesia sublime aos atributos de Deus.36. As profecias de esperança e restau­ ração. que não somente resgatou a Jemsalém (uma referência metonímica a Israel). Porque a nação rejeitou os padrões pactuais (mispãtím) e suas ordenanças (huqqôt). o julga­ mento presente e iminente de Yahweh sobre a nação não deve ser interpretado como um abandono do pacto. cuja maldade excede as práticas abomi­ náveis das nações pagãs (5. Yahweh imporá sobre ela as maldições do pacto apresentadas em Levítico 26 e Deuteronômio 28. e com expressões incontroláveis de amor ele a coloca na posição de rainha (16.A TEOLOGIA DURADOURA DE E z EQUIEL 71 obediência aos termos do mesmo.14). De fato. um Deus que age. de acordo com uma forma específica da fórmula divina autoapresentativa.10. 9.24.44-53). de Ezequiel. “Eu sou Yahweh. uma criança aban­ donada da morte certa.’ Em quarto lugar. 16. Israel é uma “família rebelde” {bêt mèrí). 24.18. . o conhecimento de sua pessoa e caráter é obtido ao se observar sua atuação. A longa alegoria do capítulo 16 apresenta Yahweh como um Deus gracioso e cheio de compaixão. De acordo com Ezequiel. eu disse e farei” (17. Como nos eventos ligados com o êxodo original de Israel do Egito (Êx 1-15). 22.14. essa coleção de profecias deixa a impressão que quando Yahweh age em julgamento contra seu povo não é primaria­ mente para puni-lo. nem sermões soberbos sobre sua personalidade.14. por definição.5-7. Mas Yahweh não pode e não irá abandonar seu compromisso fundamental para com seu povo. 36. Tudo o que Israel é e tem pertence à generosidade de Deus. o furioso lançamento das maldições do pacto que Ezequiel prediz em seus oráculos de julgamento não deve cegar o leitor quanto á disposição fundamentalmente positiva do profeta para com o pacto. A rebeldia do povo tomou-se tão intensa que ne­ nhum grito por socorro o sensibilizará (Ez 8.14). Yahweh é. Israel mesmo trouxe sobre si as maldi­ ções do pacto ao desconsiderar a graça do pacto de Yahweh (16. 'ãniyhw h dibbarti wé‘^ãsiti. 37.1543). No entanto. não há uma segurança em relação aos inimigos humanos ou em relação ao próprio Senhor. mas para que ele e o mundo possam conhecê-lo. mas como um cumprimen­ to dos seus mínimos detalhes. são baseadas na eternidade do pacto.1-14). mas quando cresceu ele a resgata pela segun­ da vez e casa-se com ela. 24.

eliminando pessoas. B. Em sexto lugar. deriva da natureza de juízo de muitas das profecias.16-32). o fogo. enviando-as para baixo para a cova. mas manifestar sua grandeza. glória e santidade. Mas o caráter do tema não significa que Yahweh se agrada com a morte. . não da morte. Este é seu desejo para toda a raça humana. A disposição fundamental de Yahweh está no interesse da vida. consumindo em sua fúria. causando a perdição. “espírito.30-32). como uma bela observação teológica. Em quinto lugar. Ao contrário. se ao menos se arrependessem de seus pecados e voltassem para ele (18. seu objetivo ao restaurar Israel é demons­ trar sua santidade (36.’ Similarmente.'^ (3) como meio de inspiração profética. Ezequiel é um pro­ feta do Espirito. destruindo. obviamente.'* Este tom mórbido.* Seu objetivo primário ao destruir os poderes estrangeiros não é destruir os inimigos de Israel. A VISÃO DE EZEQUIEL QUANTO AO POVO DE DEUS Com sua visão estritamente paroquial. as quais haviam sido anunciadas de antemão." (2) meio de animação.'^ (4) como o sinal de propriedade divina.'*Às vezes.72 O LIVRO DE E z e q u i e l O mesmo é verdadeiro sobre suas ações restauradoras a favor de Israel. sopro”. Ezequiel não tem somente um vocabulário exten­ sivo e impressionante sobre a morte. as pessoas trouxeram este destino sobre elas mesmas ao rejeitar Aquele que as tinha chamado para a vida (16. animais selvagens. para Ezequiel a identidade do “povo de Deus” está ligada intrincadamente com a nação de Israel. causando a queda de pessoas. ele incorporou o poder do Espírito em sua própria pessoa. ele executa a sentença de morte por si mesmo: ele utiliza a espada em suas próprias mãos. a pestilência. ele apresenta o Espírito de Deus como uma assinatura da presença divina em muitos contextos diferentes: (1) como método de transporte. Deus está no lado da vida. o derramamento de sangue.'“ Mas Ezequiel não somente falou do poder do Espírito. o Deus que fala por intermédio dele tem ao seu dispor uma ampla gama de agentes lidando com a morte: a fome.'® Explorando totalmente a palavra rúah. mesmo para o rebelde entre os exilados. mais que qualquer profeta. a espada. apesar do tom mórbido de muito da pregação de Ezequiel.6). vento. e trazendo assim sobre si mesmas as maldições.

ele se refere mais geralmente aos ancestrais da gera­ ção atual (2.A TEOLOOIA DURADOURA DE E zEQ U IK I. Ele não somente entrou em um relacionamento pactuai com ela. 37. em lugar da visão idealista dos contemporâneos do profeta. Jacó três vezes (28. assim como o restante dos profe­ tas.25 Jacó funciona sim­ plesmente como um correspondente de Israel. e ao ocasional bènêyisrã’êl. Ezequiel usa a designação “Israel” para todos quantos são deixa­ dos da nação. um fato refletido em suas frequentes referências a bêt yisrã’êl. trazendo-a á vida. “casa/família de Israel”. O ponto está claro: tudo que Israel é e tem é atribuído á graça de Deus.3. ambas no contexto de longos procedimentos legais iniciados por Yahweh contra a nação. Quando Ezequiel menciona os “pais” Cãbôt). Os versículos 1-15 enfatizam o papel de Yahweh na história de Israel. Quando ela cresceu e se tomou uma mulher Yahweh veio sobre ela pela segunda vez e se casou com ela. elevando-a à posição de rainha (vs. No capítulo 16 a análise histórica de Ezequiel é formada numa extensa alegoria. que começa na terra de Canaã. 73 que consiste primariamente dos descendentes do ancestral epônimo Jacó/Israel.25). “filhos/ descendentes de Israel”. aos israelitas. Isaque nun­ ca. Isaque e Jacó. em cada um dos outros textos os nomes estão associados com a promessa de Yahvk^eh.25.27. As duas descrições são radical­ mente revisionistas. Os patriarcas são citados somente quatro vezes no livro: Abraão só uma vez (33. mas ele também dispensou sua afeição sobre ela com uma generosidade irrestrita.25). reconstruindo o passado da nação do ponto de vista de Deus.2.'’ Embora a nação tenha se dividido em dois reinos no século 10«.24). A PERCEPÇÃO DE EZEQUIEL QUANTO AO PASSADO DE ISRAEL Apesar de sua concepção que as origens étnicas de Israel devem ser traçadas dos patriarcas Abraão. 37. Jerusalém (funcio­ nando de forma metonímica como a nação) era uma criança indefesa. Ezequiel presta pou­ ca atenção à história da nação pré-egípcia. e dez das doze tribos tivessem sido engolidas pelo império neoassírio no século 8®. 20. da libertação da terra de Canaã. Em 39. 18.25. 1. 39. 1-15). Ezequiel oferece duas análises da história de Israel. abandonada por seus pais e deixada para morrer até que Yahweh veio e a resgatou. . correntemente representados em primeiro lugar pelo estado posterior de Judá e a comunidade exílica na Babilônia.

Em vez disto. e prometeu no juramento tirá-los do Egito e levá-los a uma terra gloriosa. “Eu levan­ tei a minha mão”) para ser o Deus da nação. Em resposta a estes atos graciosos ele. 5-7).3). Yahweh evitou uma atitude mais drástica. Apesar disto. agindo em fun­ ção de sua reputação. provocan­ do a sua füria. Yahweh levou Israel para o deserto. Mas Israel ainda rejeitou a sua graça. que ele havia pessoalmente “descoberto” (tür) para eles. Esta ima­ gem da resposta de Israel a Yahweh na terra é consistente com a descrição que Yahweh faz da nação como uma casa em revolta desde 0 começo. 5-9) Ezequiel traça a origem da nação até o Egito. o passado é representado pelas três primeiras fases. fez-se conhecido (Nifal ÚQyãdá) e se com­ prometeu por intermédio de um juramento (wõ’essã’yãdi. Mas Israel pro­ fanou seu nome ao rejeitar o pacto. a quem ele revelou novas ordenanças destinadas a dar vida para Israel. ele escolheu começar tudo novamente com a geração seguinte. em seu primeiro discurso de chamada para o profeta (2. No entanto. em lugar de destruir a nação. Na primeira fase (vs. ele determinou que Israel fosse espalhado entre as nações e substituiu as leis de vida com regulamentos que o conduziria á morte. 27-29) Yahweh finalmente levou Israel à terra que lhes prometera. Agindo novamente por causa de seu nome. provocando sua ira. 18-26). com toda a razão. assim Yahweh recusou levá-lo à terra prometida. Apesar disto. quebrando o relacionamento de fé com Yahweh {m ã‘^al mã^^ãt) por meio de vários tipos de idolatria abomináveis. e na primeira série de sinais do profeta. a história de Israel é dividida em sete eras. Na perspectiva de Ezequiel. Na segunda fase (vs. a mais gloriosa de todas (Canaã). na quarta fase (vs.74 O LIVRO DE E z e q u i e l No capítulo 20.'* . por causa de seu nome santo. Novamente. recusou. exigiu que abandonassem seu comportamento abominável e deixassem os deuses egípcios (vs. de acordo com os quais Israel cometera atos iníquos por 390 anos. 10-17). cada uma é caracterizada pelas ações graciosas de Yahweh a favor de Israel e a rejeição de Israel de seu pacto. seu interesse pelo seu santo nome evitou que fosse destruído no deserto. prometendo-lhe vida em troca de obediência. e num ato gracioso de libertação do Egito revelou-se a si mesmo às nações. onde Yahweh escolheu (bãhar) Israel. e deu-lhe os sábados como um sinal de seu compromisso pactuai. onde lhe revelou sua vontade específica. Mas eles se recusaram a fazê-lo. na fase três (vs.

o nome de Yahweh era manchado.6.1.3). é com frequência contrário às disposições humanas naturais. Primeiro. o povo deve responder ao chamado gracioso de Deus ao relacionamento pactuai com uma devoção graciosa sem reservas ao Senhor do pacto e uma obediência irrestrita à sua vontade. o povo de Deus passa pela escolha soberana e redenção graciosa de Deus. a perspectiva estri­ tamente paroquial de Ezequiel é refletida em 5. uma resposta que seria recompensada com bênção e proteção divinas. Assim. permanece um truísmo que a reputação de Deus na sociedade é determinada pela saúde da igreja e quanto a igreja atinge objetivos espirituais determinados para ela. com países por toda sua volta”. ele estabeleceu seu pacto com ele. Ezequiel oferece pouca informação sobre a motivação de Yahweh pela eleição de Israel.4. quando o povo se rebelava contra Deus. . 60. Pela graça. Pela graça.6. Em contraste com a visão que Isaías tem de Israel. 49. Embora a manutenção do relacionamento deidade-nação-terra fosse claramente motivada pelo pacto de Yahweh por causa de seu santo nome. Segundo. ele o escolheu para ser seu povo. Pela graça. pode-se reconhecer vários princípios duradouros quanto ao relacionamento entre Deus e seu povo.A TEOLOOIA DURADOURA DE E z EQUIEL 75 Em suma. mas para ex­ pressar gratidão e louvor pelo favor já recebido. o dever de Israel era para honrar o nome de Yahweh ao aceitar seu senhorio divino e aderindo fielmente a seu pacto. Enquan­ to avisa contra a interpretação da promessa de Deus de bem-estar material a Israel em promessas de saúde. Pela graça.5. Por intermédio da prosperidade e bemestar do povo de Deus. ele lhe deu a terra de Canaã como possessão. na qual Yahweh a colocou “no centro das nações. não para ganhar o favor de Deus (legalismo). mas à posição de Jerusalém no contex­ to de seus vizinhos. felicidade e sucesso para o cristão dos dias atuais. o relacionamento de Yahweh com Israel começou como um ato absoluto de graça. Deus arris­ ca sua reputação a favor da saúde e bem-estar de seu povo. a reputação positiva do patrono divino seria reco­ nhecida entre as nações. O chama­ do para ser seu povo não é baseado em qualificações a priori ou no deserto. O povo de Deus é caracterizado por uma vida disciplinada de santidade e adora­ ção leal.” Sob a mira das nações vizinhas. A refe­ rência não é a um centro cósmico. Terceiro. Entretanto. 51. como uma “luz às nações” (42. ele lhe reve­ lou sua Torá. e as bênçãos do relacionamento do pacto eram retidas e subs­ tituídas com as maldições do pacto.

Assim como o período do dilúvio.1-14. em Jerusalém. As promessas do pacto de bênção não são garantias incondicionais do favor divino. Mas Ezequiel está descomprometido em sua revela­ ção da hipocrisia da nação. Assim como a arca na época do grande dilúvio (Gn 6-9). e entregou sua espada em suas mãos. aqueles que foram removidos da terra e proibidos de entrar no templo. absolutamente. a região ao redor do rio Quebar tem a chave da existência futura de Israel. etc. Nabucodonosor.1 -2). o povo havia comprometido sua posição como povo de Yahweh ao adorar outros deuses (6. Assim como seus ancestrais. 20. etc.5-17.6-7. ironicamente.76 O LIVRO DE E z e q u i e l 2. do qual emergirá uma nova co­ munidade de fé. na medida em que não alteraram sua conduta . Yahweh enviou seu agente de destruição. Mas os exilados individuais podem não deduzir disto que têm um direito automático em participar na nova obra de Deus.44-52). o futuro está com os exilados.23-29. Yahweh não abandonou suas promessas ou seu povo. 2. 5.3. 23.3-5. padronizando sua conduta conforme os cos­ tumes dos pagãos (na verdade sua maldade excede a dos pagãos 5. 16. Desde que eles falharam tanto em uma como em outra. o destino de Judá e de Jerusalém foi irrevogavelmente selado. particularmente daqueles que ainda residiam em Jerusalém. na estimativa de Ezequiel. Israel é uma casa em revolta {bêt mèrí. Todo o tempo eles estão afirmando um direito à divina proteção. Ao contrário.).). A PERCEPÇÃO DE EZEQUIEL DO MOMENTO ATUAL DE ISRAEL Apesar das afirmações contrárias deles (18.15-22. De fato. a geração atual está sob o tratamento das maldições do pacto. Assim como seus compatriotas. e confiando em poderes estrangeiros para a sua satisfação e segurança (16. Ao mesmo tempo. eles também estão sob a condenação divina.6.5-21). 8. Seu próprio abandono do templo e em seguida a queda da cidade são somente uma questão de tempo. segurança e bem-estar são contingentes na aceitação das afirmações exclusivas de Yahweh à sua lealdade e obediência descomprometida à sua vontade.30-31. baseados nas promessas imu­ táveis de Deus. são vazios na ausência de uma devoção verdadeira a ele. o tempo do exílio representa um período de incubação. Os clamores especiais do povo ao favor de Yahweh. 16. 14.

Depende.C. A participação na es­ perança futura depende da transformação espiritual deles. 32-38).A TEOLOGIA DURADOURA DE EZE Q U IEL 77 desde sua deportação (Ez 14. . onde Yahweh o purifica de seus pecados e o traz de volta “ao compromisso do pacto” (vs. Mas essa história ante-eventu da nação atinge o auge na sétima era quando as riquezas da nação são totalmente restauradas. o período atual (o quinto) do exílio (vs.1-32).’®não é uma surpresa que no levantamento que Ezequiel faz da história de Israel (caps. A PERCEPÇÃO DE EZEQUIEL SOBRE O FUTURO DE ISRAEL Em vista das palavras de esperança colocadas no final das mal­ dições do pacto em Levítico 26. ele é capaz de olhar além do julgamento iminente ou presente para um novo dia quando a nação será restaurada a Yahweh e será próspera na terra de Canaã. o tema da restauração da nação tomará uma parte importante em sua pregação (ver caps. ou se recusam a tomar seriamente todas as suas exigên­ cias éticas e morais. no qual o povo se encontra no “deserto do povo”. 16. o leitor pode tirar algumas con­ clusões teológicas “fundamentais” a respeito do relacionamento entre Deus e seu povo. A mesma sentença de morte que estava sobre seus ancestrais. da adoração a Deus em espírito e em verdade (Jo 4.1 -11). a menos que eles se arrependam de seus caminhos e redirecionem sua devoção a Yahweh (18. Segunda. em 586 a. 3. De acordo com seu esquema de sete partes no capítulo 20. Nós não temos o direito de cantar “Cada promessa da Bíblia é minha” enquanto afirmarmos que “cada privilégio e escolha ética são meus”. Com base nestas observações. antes. o gozo do favor divino não depende do acesso fisico direto á casa de Deus ou à sua terra. Primeira.20)..^' após a queda de Jerusalém. 34—39). ou confiam em outro poder para a sua segurança. está sobre eles. e na participação graciosa às suas exigências morais e éticas. 3031) será seguido pelo sexto. o cristão não tem o direito de reivindicar as promessas de Deus se essa reivindicação não é combinada com a devoção exclusiva a ele e uma obediência fiel à sua vontade. Enquanto o profeta esboçou as caracte­ rísticas principais desse novo dia em vários oráculos anteriores. Deus está livre de todas as obrigações para com aqueles que se voltam a qualquer deus.40-46 e em Deuteronômio. e que está sobre seus parentes.23-24).

36.24b. Ezequiel pinta um quadro de Israel no qual todos os erros do passado são reparados e a nação finalmente vive à altura do potencial prometido no pacto original de Yahweh. 20. Ezequiel oferece uma ima­ gem de um novo Israel espiritual.21b). Yahweh reunirá o povo espalhado pelos países afora (11. transfor­ mada pela obra do Espírito de Deus. que tem sido purificada de suas manchas (11. (3) Yahweh revitalizará seu povo espiritualmente.78 O I.62. assim farei”. para que ande em seus caminhos (11. e derramando-lhe o seu Espírito.17b-18. reunida de todas as nações.22-25).13b-15.29).35). Yahweh não retomará atrás em sua palavra. (6) Yahweh estabelecerá sua residência permanente no meio do povo e reorga­ nizará a adoração da nação (37. 34. (2) Yahweh o trará de volta á sua terra de herança. As características principais da atividade futura de Yahweh a favor de Israel são claramente reconhecidas: (1) Em um novo êxodo. 37.30-31.IVRO DE E z e q u i e l Embora muitos detalhes adicionais sejam oferecidos. como ele mesmo declara.26. 36. 20.41. e gozando de bênçãos espirituais. 34.1^8. 36. 34. As promessas de Yahweh são eternas: (1) Israel é o povo de sua aliança para sempre.23-24. amilenistas tendem a ver estas e outras predições do Antigo Testamento a respeito de Israel como sendo incluídas e herdadas pela igreja.24a. (3) Yahweh habitará no meio de seu povo para sempre.26b-28. 37. Por um lado.42. Como anteriormente observado. . 38.29-30. 36. 37. eu disse. 16. (4) Yahweh restaurará a dinastia de seu servo Davi como um agente de bem-estar e um símbolo de unidade para a nação (34.25-28. 37. 16. Portanto. 40. Eraditos conservadores diferem muito sobre as implicações dos pronunciamentos de restauração para o futuro de Israel e a igreja.21a). Afinal.19-20.23-24. (4) o compromisso de Yahweh ao seu servo Davi permanece para sempre. dando-lhe um novo coração.25-29.1-39. (5) Yahweh abençoará Israel com uma pros­ peridade sem precedentes e garantirá a segurança da nação em sua própria terra (34. 37.16-17a.11-13a. à luz da redefinição do reino de Deus em termos espirituais e supranacionais no Novo Testamento. no processo os mesmos pilares nos quais o povo havia falsamente baseado sua segu­ rança anterior (mas que Ezequiel havia sistematicamente demolido nos oráculos de julgamento) são agora restaurados. “Eu sou Yahweh. renovando seu pacto com ele. (2) a terra de Canaã foi dada a Israel como sua terra natal para sempre.

o Messias. especialmente por pré-milenistas dispensacionalistas. com muitas características bizarras e irreais.CXilA DURADOURA DE E z EQUIEI. ele não negará suas promessas eternas a Abraão. 79 de bem-estar e paz sob o reino de Cristo. sua visão permanece estrita­ mente nacionalista.^“ Se pudés­ semos perguntar a Ezequiel se ele esperava um reagmpamento literal de seu povo.16-38. Não é difícil visualizar o reagmpamento. com os ossos secos funcionando simbolica­ mente para Israel.^^ Por outro lado.15-28). Moisés e Davi. que reinará sobre um Israel reunido e uma terra redimida. o oráculo de Magogue e Gogue (caps. De acordo com esta visão. Ezequiel fomece muito da evidência para o tom judaico do milênio e a sequência de eventos escatológicos reconheci­ dos. 37. a terra da Palestina. No entanto. . mesmo de conspirações universais contra Israel (caps. desde o capítulo 34 até o capítulo 48 as suas profecias de esperança tomam-se muito abstratas e conceituais. nem todas as suas descrições apresentam os eventos literalmente. Com exceção da garantia de proteção de Yahweh. o seu retomo à terra de Israel. a indicação de um Messias davídico.A TEOI. 38-39). 38-39) é lido como revista em quadrinhos.^* De fato. o tempo presente terminará com o retomo de Cristo. a visão final do templo é completamente ideológica. a revitalização da nação como é descrita no capítulo 34 e 36.“ A visão que eu considero neste comentário é que. seu rejuvenescimento espiritual e a restauração de um trono davídico. No entanto.1-14 é lançado como uma visão. e os elementos deveriam ser tomados seriamente (assim como 37. e um período prolon­ gado de paz e prosperidade para a nação. Enquanto Ezequiel sem dúvida alguma vê um retomo real de Israel à terra da promessa. embora os oráculos de restauração de Ezequiel profeti­ zassem eventos literais. com muitos elementos idealísticos e fantásticos que são difíceis de reconciliar com as realidades geográficas e culturais. Satanás será amarrado e o mundo gozará de mil anos de uma paz sem precedentes. Durante esse período. Yahweh deu sua palavra. poderíamos esperar uma resposta sem dúvida afirmativa. o entendimento do próprio Ezequiel de seus oráculos deve ser determinante em nossa interpretação. conceitos milenistas do futuro se apoiam muito em Ezequiel. Ezequiel tem pouco a dizer sobre as implicações cósmicas da nova ordem. Afinal. enquanto o Novo Testamento reconhece os significados atuais em sua leitura de textos do Antigo Testamento (a igreja é herdeira das promessas espi­ rituais de Deus a Israel).

o Messias de Ezequiel é um governador nacional. mas como alguém que tem sido chamado dentre ele para representá-lo. Como nãsV.-* A não ser pelas vagas alusões à ponta do cedro. não como um governador tirano. em 17. com base em 34. ramo”. se não o clímax. ele deriva sua autoridade pela indicação divina em vez de perspicácia pessoal ou eleição democrática. Enquanto as visões messiânicas de outros profetas tendem a ser inclusivistas.22-25. A VISÃO DE EZEQUIEL DO MESSIAS Embora mais de um quarto das profecias de Ezequiel olhe para o futuro glorioso de Israel.23-24 e 11. Mas a visão messiânica de Ezequiel é familiar quanto ao contexto cultural e ideológico da Mesopotâmia antiga.^® Assim.80 O LIVRO DF.22-25P Somente por inferência pode nãsV dos capítulos 40—48 ser identificado como davídico.23-24 e 37. há um cuidado de usar os detalhes em suas descrições de construir um calendário seqüencial dos eventos escatológicos. iden­ tificado como rak. seguindo narrativas do abandono e do julgamento da terra. E z FOUIEL Sendo que ele não oferece uma cronologia clara dos acontecimentos recentes. C. Assim como melek ele é uma figura real.-’ Como ‘^ahdí. que a esperança messiânica de Ezequiel envolve o inverso de seus pronunciamentos de julgamento sobre a casa de Davi na primeira metade do livro. e seu papel é descrito em termos que não são reais. da normalização do relacio­ namento entre a deidade e seu povo/terra. Em vários textos antigos. 34.21. Neste papel fundamentalmente religioso. ele se coloca no topo de seu povo. “renovo. cujas principais características são refletidas nos títulos e nas designações dos cargos que tem. simbolizando a nova unidade .22. “príncipe. e o broto (qeren) em 29. referências claras ao Messias no livro são pouquíssimas. a indicação divina de um rei humano representa um elemento fundamental. incorporando pessoas e terras além de Israel. ele goza um relacionamento especial com Yahweh. É evidente. a antecipação de Ezequiel de um rei (messiânico) sobre seu próprio povo teria sido entendida pelos antigos israelitas e também pelos de fora. chefe”. afirmações explicitamente messiânicas ocorrem somente em dois contextos. Como Davi ele é herdeiro das promessas eternas da dinastia feitas por Yahweh ao maior de todos os reis de Israel por intermédio do profeta Samuel. “meu servo”.

mas seus direitos são também severa­ mente restritos. o príncipe e sua terra estão delibera­ damente separados da cidade que leva o nome “Yahweh está lá” (48. a última visão é planejada. Yahweh pode autorizá-lo a comer antes dele no portão leste. Ezequiel não faz menção alguma do Messias como um agente de paz ou de justiça. o realismo da descrição do “príncipe” se contrasta fortemente com o quadro idealis­ ta glorioso do Messias em 34. Mas a presença pessoal do Messias simboliza o reino de Yahweh na gloriosa nova era. simbólica. E impressionante que ele não tem um papel na restauração da nação. Parece que uma das chaves para interpretar o significado de nãsV nos caps.35) e do templo. protegendo e nutrindo-os confonne o padrão do próprio Yahweh (cap. 40-48 é reconhecer a mudança em gênero entre os oráculos de restauração anteriores^.. muito mais importante do que os “príncipes” do período pré-monárquico.^' Ele é claramente uma figura exaltada. O mais problemático de tudo.^® Ele atribui isto à direta atividade de Deus. ele procurará o bem-estar do rebanho.18). e Sião/Jerusalém parece estar fora do quadro também. antecipando uma reversão total dos eventos que circundam a queda de Jerusalém em 586 a. não somente a autoridade de ndsT’ é ligada à terra de Israel (oposta a um reino cósmico). o Messias de Ezequiel simboliza as realidades da nova era. conceituai. a entrada é reserv'ada para Yahweh. 34). Além do mais.C. e muitas de suas carac­ terísticas são inimagináveis. 40-48) é enigmático.21 -25. as ordenanças específicas os avisam para não explorarem e abusarem dos seus como os reis de Israel o fizeram no passado (46. Enquan­ to a visão anterior é ligada á História. diferente de outros profetas.e a visão idealista final.14-20). “um pastor”. Mas a narrativa da visão é silenciosa sobre a conexão davídica. Como ro'^eh ’ehãd. Todos os outros pretendentes ao trono foram excluídos para que Israel possa ser “uma nação” (gôy’ ehãd) sob o comando de “um rei” (melek 'ehãd) ocupando a terra de Israel. a residência verdadeira de Yahweh.A TEOLOGIA DURADOURA DE E z EQUIEL 81 da nação. a .23-24 e 37. e em cum­ primento da antiga lei mosaica para o reinado (Dt 17. Ele nem ajunta o povo nem o conduz de volta para a sua terra natal. Além do mais. Em to­ dos esses papéis. Não somente as ofer­ tas devem ser apresentadas ao seu favor. De fato. O nãsV na visão final de Ezequiel (caps.^^ Contrário à opinião popular comum. mas como um mortal ele deve entrar por outro caminho.

que per­ verteram a adoração de Yahweh por razões egoístas e apoiaram a adoração de outros deuses. Agora que celebrem. ou indica os sacerdotes. e da terra. não planeja a adoração. Ao apresentar essa constituição teológica para o novo Israel. Ele não somente deixa de participar ativa­ mente no ritual: ele não constrói o templo. Yahweh anuncia o acerto de todos os antigos erros e o estabeleci­ mento do saudável relacionamento entre deidade-nação-terra. e que nãsi’ mostre 0 caminho! . há também ordem e o cumprimento de todas as suas promessas. a preocupação principal nesta visão não é polí­ tica. O nãsT não é responsável pela administração do culto.^“' Nessa apresentação ideológica. A questão central não é o retomo de Davi. empregando expressões idio­ máticas culturais familiares do templo. O Deus de Israel tem cumprido as promessas de sua aliança. aquele que é instalado como pastor por Yahweh somente após ter resgatado Israel pessoalmente. mas a presença de Yahweh. reunindo o povo e os restaurando à sua terra.23-24. e descreve a rea­ lidade espiritual em termos concretos.82 O L IV R O D E E z e o u ie l descrição do templo não é apresentada como uma planta para um prédio ser construído no futuro com mãos humanas. Além do mais. nãsi’. Isto concorda com a imagem de nãsi’ em 34. anunciado em 37. dos sacrifícios. Nessa visão (e so­ mente aqui). Mais importante ainda. com sua imagem radicalmente teocêntrica do futuro de Israel.26-27. o papel do nãsi’ é facilitador. mas cúltica. Por conseguinte. do altar. não soberanamente simbólico. que em si mesma é focalizada na adoração de Deus que vive no meio deles. esse dever de nãsi’ é para promover a adoração de Yahweh em espírito e em verdade. estas prerrogativas pertencem a Yahweh. o nãsi’ emerge como um funcionário religioso. lá está Sião. Essa visão pega o tema da presença divina. servindo à santa comunhão da fé. o nãsi’ funciona como um benfeitor leigo indicado por Yahweh e patrocinador do culto. Onde Deus está. cuja atividade assegura a continuidade de shalom entre a deidade e os sujeitos. Diferente dos antigos reis. ele tem chamado o povo novamente a si mesmo e estabelecido sua residência no meio deles. A visão fmal de Ezequiel apresenta um ideal supremo: onde Deus está.

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24 .27 ) .PARTE 1 MENSAGENS DE DESTRUIÇÃO E QUEDA PARA JUDÁ E ISRAEL ( 1 . 1.

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16-21 faz destes versículos mais intrusivos na narrativa.14-21. Por causa da complexidade literária e.^ .16 sugere que deve ser inter­ pretado á luz das experiências precedentes do profeta.22-27 sugere a alguns que esse segmento descreve o começo do ministério profissional do profeta. 8.22-24. 3. ações simbólicas dramáticas e com frequência chocantes. discussões com seus ouvintes.' parece melhor fixar o térmi­ no adqiiem no final do capítulo 3. da natureza da composição do texto. As formas das mensagens retletem sua importância. 17. obviamente. Mas essa missão de queda e destruição é apresentada com uma observação brilhante com o chamado de Ezequiel ao ministério profé­ tico. 11. 24. De uma série de avisos de datas anexados aos oráculos e às visões (1.15 como a conclusão. 20.C. 20. no tom e no conteúdo em 3.27) ♦ Natureza e desígnio A primeira grande seção do livro de Ezequiel é claramente oca­ sional em natureza. Os efeitos desta crise são aparentes em cada página que o profeta envia suas urgentes admoestações quanto ao desastre iminente.1-3.1 ) nós aprendemos que esta série de mensagens foi recebida e entregue em um período de seis ou sete anos.). Entre­ tanto.1.1. a observação cronológica em 3. a conclusão das instruções pessoais de Yahweh para o profeta. 2-3. o período imediata­ mente precedente à queda de Jerusalém nas mãos de Nabucodonosor. A natureza simbólica das ações em Ezequiel 3. e a tragédia pes­ soal divinamente controlada.16. Mas no fim a cortina cai com o anúncio chocante final de sua inevitabilidade. Ezequiel procura deixar sua mensagem muito clara. eruditos não concordam a respeito dos limi­ tes da narrativa do chamado de Ezequiel.40-44). Embora a maioria dos eru­ ditos reconheça 3.I. 16. Palavras de esperança são poucas. sendo espalhadas como pedras preciosas em um oceano turbulento da fúria divina (6. o CHAMADO DE EZEQUIEL PARA O MINISTÉRIO PROFÉTICO (1.1. imagens alegóricas coloridas. sendo endereçada a um povo específico (Judá) que enfrenta uma crise específica (o colapso da nação) em uma época específica na História (598-586 a. A mudança no estilo. Por intermédio de anúncios diretos de julgamento.60-63.8-10.

os componentes estruturais principais da narrativa são facilmente identificados: A. preparada e equipada por Yahweh para cumprir suas responsabilidades proféticas. Finalmente.22-27) As narrativas do Antigo Testamento de chamados individuais ao serviço divino tendem a ser apresentadas em duas formas: a chamada de protesto e a chamada irresistível. somente no capítulo 4 as ações simbólicas do profeta começam a se relacionar diretamente com a sua mensagem. não para comunicar algum aspecto da mensagem de Yahweh para o povo. O comissionamento de Ezequiel (1. (2) A pessoa mostra verbalmente ou não verbalmente uma resposta estupefata à visão. Além do mais. o advérbio “ali” (que não aparece na versão atualizada em português) (sãm. Tomando em consideração esses limitadores.15. que será observada no comentário.* sugerem que . A visão inaugural (1. pois tem em si as seguintes ca­ racterísticas típicas: (1) A pessoa sendo chamada recebe uma visão de Yahweh em todo seu esplendor e majestade. e quem deixar de ouvir deixe.104 O LIVRO Dt: E z f o u ie i . a tendência a destacar as distinções entre os dois tipos de narrativa de chamada de uma manei­ ra muito fechada tem cegado intérpretes quanto à realidade que am­ bos os tipos se misturam nesta narrativa.28b-3. o desafio conclusivo em 3. As ações simbólicas são destinadas a preparar o profeta para a sua missão. lê-se como uma marca de pontuação verbal final. porque são casa rebelde”.1-3) B. O sobrescrito (1. Várias características da narrativa atual.^ De qual­ quer maneira.“ O chamado de Ezequiel é geral­ mente classificado como exuberante. em vez de relacionarem-se com sua posição.11) D. os eventos descritos envolvem somente Yahweh e seus embai­ xadores. 22) liga o parágrafo ao precedente.4-3. A iniciação de Ezequiel (3. v. (4) A pessoa recebe uma comissão especial de Yahweh.16-21) F. com base no estilo e no conteúdo. No entanto. (3) A pessoa é encorajada. O discurso de instalação de Yahweh (3.4-28a) C. “Quem ouvir ouça. e vários temas no texto ecoam o que tem sido descrito em 1. A preparação de Ezequiel (3.* No entanto.27.12-15) E.

a clássica ilustração de um profeta resistente. a seleção das pessoas para o serviço divino parece. O comissionamento de um profe­ ta era uma experiência muito pessoal. ou sem considerar os dons pessoais (Jeremias). Quinta. Primeira. sem interesse no programa divino (Moisés). De fato. A decisão de chamar uma pessoa era feita somente por Yahweh. que recruta para o serviço embaixadores humanos. e comunicada sem o envolvimento de terceiros. a repetição do discurso de comissionamento. a dura palavra do atalaia. às vezes. elas são diretas e controladas por um diálogo entre Yahwíeh e seu profeta. Por um lado. Por outro lado. A intensidade da visão inicial. expressando suas reações na forma da pri­ meira pessoa do discurso. e a amarra tripla se combinam para suavizar a resistência de Ezequiel e prepará-lo para o papel no qual ele é recrutado pelo soberano Senhor.1 . Aqueles que usaram seu ministério profético para vantagens pes­ soais foram caracterizados como falsos profetas. em 50%. . mas para que uma mensagem divina pudesse ser comunicada a terceiros. Onde temos informação. ter sido completamente arbitrária. geralmente à nação de Israel ou segmentos desta.1 .® Isto ficará mais claro no chamado de Ezequiel. Várias observações gerais adicionais das narrativas do Antigo Testamento podem ser feitas. Quarta. o chamado profético não era um êxtase ou uma experiência em forma de transe.3 . que excede quanto ao número de palavras ao chamado de Moisés. o chamado do profeta era uma questão privativa.2 7 O CHAMAIX) DE E z EQUIEL PARA O MINISTÉRIO PROFÉTICO 105 Ezequiel era um profeta resistente. Ezequiel é um produto de seu tempo e de seu contexto. eles iam com uma mensagem divina e com autoridade divina. e de maneira característica enviou sua co­ missão direta imperativa. como acontece geralmente na narrativa hebraica. De fato. Contribuindo com esta impressão está a extraordinária extensão e o detalhe desta narrativa. Ezequiel podia responder á divina visita. mas também para estrangei­ ros. a ingestão física do rolo. Yahweh falou pessoalmente com seu novo emissário. quando os profetas saíam.’ O chamado não vinha por causa do próprio profeta. Terceira. a confrontação divina ocorreu quando a pessoa estava envolvida em atividades normais da vida. nessas narrativas de chamada Yahweh se apresenta como o grande rei divino. ao menos no começo. mensageiros que levam suas proclamações às audiências determinadas. sem relação com a fé pessoal (Gideão). Segunda. a função do profeta era mediatorial.

cada um contendo a própria data. O ENDEREÇAMENTO (1. uma referência à localiza­ ção geográfica do profeta. no quarto m ê s . Mas a diferença mais ofuscante entre os dois títulos envolve as datas citadas." se abriram^' os céus. o versículo 2 fala especificamente da deportação de Joaquim. 2 No quinto dia do mês (era o quinto ano do exílio do rei Jeoaquim).1-3) 1 Mg'* trigésimo ano. na terra dos caldeus. e eu tive uma visão divina.” enquanto que a outra no versículo 2 envolve uma cláu­ sula parentética. Terceiro. (5) O versículo 1 oferece uma informação pessoal sobre o profeta. o sacer­ dote. este sobrescrito é complexo. e um anúncio da experiência profética. (3) O versículo I descreve a expe­ riência profética como um evento visual. os versículos 2-3 na terceira pessoa. de acordo com os versículos 2-3 foi uma experiência verbal e física. o sobrescrito de Ezequiel aplica-se somente ao contexto literário imediato. o uso da primeira pessoa no versículo 1 dá a esta profecia uma qualidade autobiográfica distinta. O versículo 1 fala de um evento “no trigésimo ano”. (2) O versículo I é produzido na primeira pessoa. . n o quinto dia do mês. o filho de Buzi. junto ao cana! do Quehar. enquanto que em outros pontos os respectivos profetas são referidos na terceira pessoa.106 O LIVRO DE E zequiel A. Segundo. (4) O versículo 1 não tem um terminus a quo. que procura estabelecer o contexto histórico do ministério do profeta em geral. Mas os dois sobrescritos diferem de forma significativa tanto em estilo quanto em conteúdo: (1) A data no versículo 1 segue a forma estereotípica. Primeiro.'* Seu cabeçalho tem como objetivo fixar a data da visão inaugural. 3 veio expressa­ mente'^ a palavra de Yahweh a Ezequiel. estando eu no meio dos exilados. 1 e 2-3.'^ ♦ Natureza e desígnio O sobrescrito com o qual Ezequiel abre difere do de outros livros proféticos em vários aspectos. o versículo 3 o identifica pela família e profissão. junto ao canal Quebar Ali'* a mão de Yahweh veio sobre ele. consistindo de dois títulos distintos (vs. respectiva­ mente). enquanto outros começam com um cabeçalho compreensivo.

1). D. Da variedade de candidatos para este evento que tem sido pro­ posto.S. O que este evento pode ter sido.^’ Ainda que seja provável que o versículo 1 tenha sido originalmente ligado ao versículo 4 e servido como cabeçalho para a narrativa da visão do trono.15 em dois textos separados: a narrativa da visão do trono (1.2. que separa 1.17). Desde que nenhuma proposta que data “o ano trigésimo” do exílio de Joaquim é completamente satisfatória.'* Enquanto que alguns eruditos harmonizam as datas ao emen­ dar o texto do versículo 1 a maioria deles mantém a leitura atual. Certamente.3b-2. Inspirado provavelmente por Isaías 6.15). 3. com outros dados biográficos. O . l-H). W. York encontrou-a no retomo de Yahweh ao seu templo (43.11. a natureza pessoal intensa do chamado de Ezequiel combinada com a dureza de sua audiência faz que se duvide que. a explicação de Orígenes permanece a mais provável: o terminus a quo é o ano do nascimento“ do próprio profeta.1.^' o evento mencionado no versículo 1 deve ter ocorrido uns três anos após o oráculo que trata de Tiro (29.^^ Vários eruditos modemos afirmam ter encontrado a visão perdida dentro do próprio livro. esta solução não só trata a data diferentemente de todas as outras no livro. Primeiro. Gevarjahu propôs que “no trigésimo ano” originalmente funcionava como um cólofon no fim da coleção das profecias que foi transferido secundariamente para o livro. H. Lang.1 -3 O ENDEREÇAMENTO 107 versículo 2 fixa a data “no quinto ano do exílio do rei Joaquim”. Apesar disto. Brownlee propôs a visão dos ossos secos (37. permanece oculto. preferindo relacionar “o trigésimo ano” a alguma era ou evento públi­ co.12-14) e a narrativa do cha­ mado (2. se o ponto de referência para essa data é o mesmo para todas as outras no livro.^“ Uma solução mais prová­ vel é a de B.3-5).“ dois deles merecem uma séria consideração.^. talvez a de Yahweh retomando ao céu após sua residência terrestre ter sido reduzida a cinzas. no entanto. o editor uniu a primeira e a última experiências proféticas de Ezequiel. Spiegel concluiu que em algum tempo o versículo 1 encabeçou uma narrativa de uma visão que se perdeu. ela também deixa uma data com base na própria experiência pessoal particular.1 . A. esta interpretação falha em tomar em consideração o relacio­ namento do texto atual com o capítulo 10. Esta aparente discrepância de 25 anos tem sido explicada de diversas ma­ neiras.1-3.3-3. e cinco anos após a visão final (40.

a inserção afirma que esta data fixa a ocasião na qual o profeta fora chamado ao serviço divino. esta narrativa foi destinada para consumo público. originalmente. 1 Este versículo fomece a perspectiva do próprio profeta em seu chamado ao divino ministério. que explica a refe­ rência ao profeta por seu nome. o editor a sincronizou com o evento pelo qual o próprio Ezequiel data seus oráculos. os versículos 2 e 3 refletem uma grande preocupação em dar ao texto da chamada de Ezequiel um tom inteligível.30. o privilégio do serviço sacerdotal parecia-lhe um sonho inútil. De repente. Os versículos 2 e 3 aparentemente representam uma inserção posterior de um editor das profecias de Ezequiel. Contexto cronológico. e a informa­ ção fornecida na observação.108 O 1. bem longe de Jemsalém e do templo. Longe de ser algo desajeita­ do ou uma intrusão não-natural no texto.^’ e então acrescentou a informa­ ção a respeito da família do profeta e sua posição profissional. para Ezequiel o trigésimo ano representava um marco extremamente significante. Mas Yahweh não esqueceu dele. Pode-se especu­ lar que a(s) pessoa(s) responsável(eis) por compilar os registros do ministério de Ezequiel e formar o livro como o temos atualmente pode ter sido o próprio autor desta nota. O primeiro cabeçalho fomece vários detalhes importantes para o entendimento da narrativa do chamado. esta era a idade que os profetas se qualificavam para entrar no ofi­ cio profético. E inteiramente aceitável que um leitor encontrando o rascunho da visão de Ezequiel teria ficado confuso diante da citação “o ano trigésimo”. Para aqueles que são ten­ tados a ver a experiência visionária de Ezequiel como um voo da ima­ ginação. o uso da terceira pessoa. os versículos 2 e 3 refletem o entendimento de alguém extemo. O uso da primeira pessoa no cabeçalho e a narrativa da visão sugerem que o próprio Ezequiel produziu a narrativa escrita. há suficientes enigmas na visão. o editor enfatiza a localização ao inserir o “ali” enfático (versões em inglês). Para os leitores que achavam incrível o anúncio que os céus haviam aberto a um exilado numa terra estranha. De acordo com Números 4. O profeta sabia de onde falara. Para esclarecer o problema. Para Ezequiel. que teria retirado um ponto de referência após “o ano trigésimo”. o exílio de Joaquim.1VRO DE E z e o u ie i . De qualquer modo. uma segunda pessoa. no quinto dia do .

que. e estavam entre os últimos na região a se submeterem a Nabopolassar.C. A data específica de seu chamado é fixada no quinto dia do quar­ to mês. E obscuro se junto ao rio Quebar significa que Ezequiel estava pessoalmente á beira da água na hora da visão. que ocorre várias vezes nos arquivos da família Murashu de banqueiros na Babilônia. Mas a aparição repentina de Yahweh a Ezequiel entre os deportados nega o famoso mito que a influência do patrono das deidades estava localizada no território sobre o qual tinham jurisdição. o Quebar era um de muitos afluentes de um elaborado sistema de canais que distri­ buía água do Tigre e do Eufi-ates pelas cidades e seus arredores. mesmo em uma terra estrangeira. Ezequiel encon­ trava-se entre aqueles que os atuais moradores de Jerusalém consi­ deravam rejeitados por Yahweh (11. removido de Jerusalém e do templo. “canal Kabaru”.C. o chama­ do veio a ele no quinto dia de Tammuz.^^ Em geral. o lugar do qual a glória de Yahweh havia emanado no passado. A frase entre os exilados {bétôk haggôlâ) não significa que ele estava na companhia de deportados na hora da revelação. e que o acesso de uma pessoa à divindade dependia da presença física de alguém na terra daquele deus.^^ ou se a expressão serve simples­ mente como uma designação geral para a região onde os exilados judeus ficaram. do século 5» a. Ez4.I3). Contexto geográfico. que para o ano 593 a.^’ Antes. O destino dos exilados foi tomado como prova inquestionável da rejeição divina. o rei babilônio repovoou a região com deportados de muitas partes do im­ pério. De qualquer modo.1-3 O RNDEREÇAMENTO 109 quarto mês de seu trigésimo ano.“ Yahweh poderia aparecer quando e onde escolhesse.^' Localizada na vizinhança de Nippur.“ Contexto social. nãr ka b a ri/u . no momento que ele normalmente teria sido comissionado para o ministério do templo. tirar qualquer conclusão destas . entre os quais estava Ezequiel e seus amigos judeus. Depois que destruiu a cidade. os residentes de Nippur haviam favorecido historicamente os assírios sobre os babilônios. Tomando em consideração um ano novo primaveril.17. e talvez supe­ rior. O hebraico néhar kébãr é o equiva­ lente do Akk. enfatiza o fato que ele estava longe de sua terra natal.1. era considerada impura (Am 7. geralmente. Deus aparece na vida do exilado e o chama para um serviço alternativo. se refere ao 31 de julho.15). Ironicamente.

uma observação geográfica. Primeira.2). de todas as maneiras a sua vida escondia a fé e o otimismo expressos em seu nome. no quinto dia do referido mês (bahãmissâ lahõdes). 2Cr 36. “divindade”. o que o profeta testemunha não é tanto uma visão de Deus (somente os últimos versículos do capítulo se referem à própria divindade) como uma visão da divindade. várias considerações vão contra esta interpretação. A predição de Jeremias havia .3. no quinto ano de cati­ veiro do rei Joaquim. Com a abertura dos céus Ezequiel é convidado a observar as realidades gloriosas sobrenaturais normal­ mente inacessíveis aos mortais.^’ No entanto. realidades celestiais. A observação começa com uma frase emprestada do versículo 1. ele também alerta o leitor quanto a maneira de datar as profecias que serão segui­ das consistentemente pelo livro. o próprio sobrescrito de Ezequiel está separado da visão inaugural por uma inserção explanatória editorial.” Em ambos os casos esta é. em Ezequiel geralmente funciona como um apelativo. O uso da primeira pessoa não somente imprime sua própria assinatura à narrativa. mas logo após vem um comentário parentético sincronístico.-’* Se Ezequiel quisesse dizer “visões de Deus” ele provavelmente teria escrito m a r’ô t ’ã dõnãy yhwh. em vez de um nome próprio.^* O gênero da experiência é expresso pela frase m ar’ô t ’è lõhim.^* mas também determina o tom autobiográfico para o livro todo. sua saída do trono e sua deportação representa­ ram uma virada na história de Israel. a forma m ar’ô t não é um plural verdadeiro. Segunda. Terceira.8. Ao fazer isto ele não somente responde ao enigma colocado por “no trigésimo ano” do versículo 1. De fato. permitindo-lhe observar a pró­ pria sala do trono de Deus. 40. mas um “plural de generalização”. 2-3 Como já observado. simplesmente. geralmente traduzida como “visões de Deus”. não somente porque seu exercício como rei de Jerusalém durou somente três meses e dez dias (2Rs 24.^’ e a frase é mais bem interpretada como “visão divina” (como em 8. No entanto. Em uma visão divina Ezequiel observa os céus se abrindo.9). mas também á luz de sua incapacidade de ter qualquer signifi­ cado positivo na História e na cultura de Israel.110 o LIVRO DE E z EOLí IEL possibilidades deve ser tido como pura especulação. Gênero da experiência de Ezequiel. Que todos os eventos devem ser datados com base no reino de Joaquim é algo surpreendente.

'" A evidência extrabíblica sugere que outros também continuaram a considerar Joaquim como 0 rei legítimo até a queda da cidade.C. Três alças de vasos datados do tempo de Joaquim e Zedequias foram descobertas na Palestina do sul. que em 561 tirou Joaquim da prisão e o convidou para tomar uma posição no palácio entre seus amigos reis exilados (2Rs 25.9-10 descrevem a vitória sobre Jerusalém e a deportação de Joaquim de um ponto de vista judeu.1. e não a sua ascensão.31).27-30. o servo de Joaquim”. ele não destaca o evento. “pertencente a Eliaquim. para detalhes nós devemos olhar para três outras fontes.1-3 O ENDERKÇAMENTO 111 sido cumprida. o fim chegara para a linha principal de sucessão na casa de Davi. Ele foi contra a cidade de Judá e no segundo dia do mês Adar ele tomou a cidade (e) atacou o (seu) rei. em relação a Ezequiel. AmelMarduk (Evil-Merodach).“*^ Isto concor­ da com uma série de tábuas da Babilônia datadas de 595-570 a. que se referem a Joaquim com o título real “o rei da terra de Judá”. Seus oráculos expressam um intenso desdém por Zedequias. Ele escolheu um rei de sua própria vontade para a cidade (e) tomando o grande imposto ele o trouxe a Babilônia. Os livros de 2Reis 24. sua autoridade parece ter sido reconhecida mesmo enquanto estava ausente.“®A última observação provavelmente explica por que Ezequiel enfatizou um evento na vida desse governador sem ex­ pressão como seu ponto de referência cronológico. Apesar disto.31-34). a saída de Joaquim do trono e sua deportação. Jr 52. Mesmo assim.'*'* Este trata­ mento especial é continuado pelo sucessor de Nabucodonosor. Jr 52. A perspectiva babilônica é preservada em uma crônica em uma tábua de barro dos primeiros anos de Nabucodonosor no trono: O sétimo ano: no mês de Kislev o rei de Akkad reuniu seu exército e marchou para Hattu [Síria-Palestina]. e o acordo para a subsistência do rei e seus cinco filhos.^’ Com a infonnação fornecida por esses textos a seqüência de eventos conduzindo á deportação de Joaquim pode ser narrada com . a quem ele trata como um mero “príncipe regente” em Jerusalém. todas trazendo a inscrição 1’l yqm n ‘^r yw kn .“*^A menos que os potes tenham sido feitos dentro dos três meses de seu reinado.27. dão um ponto de referência para as suas profecias (c f 2Rs 25.8-17 e 2Crônicas 36.

0 rei e todos os que colocaram suas esperanças nele são repudiados. provavelmente no mês de Nisan. 11. Com isto. 17.21 e40. meio de abril de 597).C. Tanto quanto Ezequiel está preocupado. tradicionalmente.22-24.1 sugere que ele estava entre os oito mil soldados. com uma alta precisão.112 O LIVRO DE Ezequiel uma precisão impressionante: {1) A tomada de Jerusalém começa no mês de Kislev do sétimo ano de Nabucodonosor (novembro-dezembro de 598 a. Pelo cálculo inclusi­ vo. . O chamado de Ezequiel ao serviço profético ocorre no quinto dia. o futuro do povo de Deus agora repousa com eles (c f 6. e ele pode agora entrar em um novo curso de ação com os exilados. 20.“’ Ainda mais significantes foram as implicações teológicas do exí­ lio do rei. o sucessor de Joaquim no trono judeu. (2) A cidade cai nas mãos dos babilônios no segundo dia do mês Adar (16 de março de 597).). A sua presença na capital chegou ao conhecimento dos exilados.“* Mas para Ezequiel o exílio de Joaquim teve também um signifi­ cado pessoal. Embora ele retomasse a Jemsalém e iniciasse seu ofício. visitou a Babilônia. a disposição de Yahweh para com Zedequias é inequívoca. e a esperança de seu retomo a Jemsalém provavelmente aumentou suas próprias expectativas de um retomo iminente à terra natal. De acordo com Jeremias 51.12. centenas de quilômetros de dis­ tância da terra sagrada.59.14-16). do quarto mês. Ele foi vítima de uma antiga política comum do antigo Oriente Próximo para com os povos conquistados: a deportação em massa de toda a população para quebrar a resistência nacional ao remover a liderança política e espiritual. O uso da primeira pessoa em 33. os traba­ lhadores manuais e a nobreza que havia sido levada ao exílio com o rei (2Rs 24. a data pode ser fixada em 31 de julho de 593 a.“®Que isto ocorreu no trigésimo ano do profeta não é a única razão por que o tempo é significante. este foi também o ano no qual Zedequias. Este evento marcou o fim do povo de Deus como os israelitas. do quinto ano da deportação.. Talvez o próprio profeta foi pego nesta expec­ tativa. (3) Joaquim é exilado na virada do ano (2Cr 36.C. e para fortificar a economia e a máquina militar do conquistador da terra. Sua própria deportação provavelmente significou o fim de todos os seus sonhos profissionais. do oitavo ano de Nabucodonosor (2Rs 24. entenderam a si mesmos. No entanto.10). a deteminação de Yahweh de destniir Judá é selada.8-10.40-44).14-21.

sucedeu-se em ganhar indepen­ dência da Assíria para a Babilônia. Sendo que Ezequiel saiu de Jerusalém antes que pudesse ser conduzido ao sacerdócio. em que identifica um membro da linha levítica. a cidade e o templo desapareceriam. dentro de sete anos o rei. Se a expres­ são o sacerdote (hakkõhên) se aplica a Ezequiel ou a seu pai não é claro. 1Cr 5. Nenhum profeta.C. a herança profissional do profeta deixou sua marca no livro.1). tem um significado análogo a Ezequias.6. Nabucodonosor foi o segundo monarca nessa dinastia caldeia. 23. No entanto.23).15.1 . regras sobre pureza cerimonial.’' Exceto por 24.21. A antiga estrutura desapareceria de uma vez por todas.’° Em 625. o sobrescrito editorial também desenvolve a respeito da localização. que está rela­ cionado a Buz(Gn 22. o nom eyéhezqêl. “que El fortaleça/endureça”. Jr 25. Enquanto que babilônico seja uma derivação gentílica da cidade capital da região. a palavra de Yahweh veio expressa­ mente a Ezequiel {hãyâ dèbar-yhwh ’e l-yéhezqêt).13. a expressão aparece . o nome aparece em outra passagem no Antigo Testamento somente em 1Crônicas 24. O rio Quebar está na terra dos caldeus.14). Mas quem foi esse homem a quem Yahweh revelou-se? O edi­ tor o identifica como Ezequiel.2. Nabopolassar.15-31 pode até apontar para a linhagem de Zadoque.Desde que nenhuma comunicação verbal ocorre até 2.*'^ Em Ezequiel o nome “caldeus” é permutado por “babilônios” (12. hizqéyãhú “Yahweh fortaleceu”.1 -3 O ENDEREÇAMENTO 1 13 De fato. o culto. Jó 32. a designação provavelmente refere-se a seu pai. caldeus é uma designação étnica.1. A atenção particular dada aos zadoquitas em 44. Enquanto o versículo 1 falou de um evento visionário. Os caldeus foram um dos vários grupos arameus que haviam mudado para o sul da Babilônia na primeira parte do primeiro milênio a. No entanto.23. O pai de Ezequiel é identificado como Buzi (büzí). Em acréscimo para se esclarecer a data do chamado de Ezequiel ao ministério profético. A menos que este tenha sido um pseu­ dônimo atribuído a ele à luz de seu ministério. expressa a fé de seus pais na hora de seu nascimento. nem mesmo o sacerdote Jeremias (Jr 1.24. mostra tal interesse intenso em questões sacerdotais (sacrifícios. a dimen­ são verbal da experiência inaugural é enfatizada pelo uso que o editor faz da fórmula palavra-evento. um dos números deles. o templo.^.16. a precisão na descrição e nas datas).

obscuridade e dificuldade”. 1) havia identificado esse evento como uma “visão divina”. inserções abruptas). a inscrição (v. o termo dãbãr não precisa se restringir a uma comunicação verbal.IVRO DE E z e o u i e l fora de lugar. sabe da precisão desta afirmação. intrusões influenciadas pelo capítulo 10. ao contrário.^ Mas a solução pode estar numa direção totalmente diferente.^ Os eruditos tendem a atribuir esses problemas aos lapsos na transmissão escribal. Nesse ministério profético a “mão” de Yahweh exerce completo controle sobre seus movimentos. e (4) substância (imagens confusas unidas de forma incoerente). e infinitivo absoluto usado como verbo finito). 3).' Qualquer um que tenha lido o capítulo 1. referindo-se metaforicamente à pressão insuportável que Deus exerce no profeta. B.4-28a) ♦ Natureza e desígnio O renomado erudito puritano William Greenhill caracterizou o livro de Ezequiel como “cheio de majestade. Mais do que qualquer profeta. No entanto. mesmo transpor­ tando-o de volta e o levando a lugares distantes. Deve-se considerar o seguinte: primeiro. A pesquisa no texto hebraico não alivia as dificuldades. e o editor falou da “mão de Yahweh” vindo sobre o profeta (v. Ezequiel é um homem possuído. sentenças irregulares.” um anúncio da mão de Yahweh vindo sobre o profe­ ta. Segundo. de todas as unidades no livro. Esta expressão idiomática enfatiza o aspecto físico do chamado de Ezequiel. Os proble­ mas envolvem quatro categorias: (1) morfologia (inconsistência e or­ tografia incomum). mesmo traduzido.114 O I. a . O sobrescrito termina com a fórmula de coerção divina. (2) gramática (confusão de gênero e número. redundâncias. com respeito ao gênero da experiência profética. ou ex­ pansões de comentaristas posteriores. (3) estilo (construções assindéticas. Pode também denotar o próprio evento revelatório. A VISÃO INAUGURAL DE EZEQUIEL (1. somente o capítulo 41 levantou mais observações textuais na BHS. Mas a escolha do editor pode também refletir a sua cons­ ciência da natureza da narrativa da inauguração profética de Ezequiel. este consistiu tanto de elementos visuais quanto de orais (cf Is 6). Assim como outros chamados.

e “rodas” {’ôpanním) são identificadas especi­ ficamente como galgai ( 10. treze meses mais tarde. com base no conteúdo da estmtura a seguir é prontamente reconhecida: 1. Um estado de alto êxtase geralmente causa descrições de imagens mentais de maneira confusa. Além do mais.1. que conforme se verifica é também o narrador da experiência. faltaram-lhe palavras para registrar adequadamente a visão. c f 1. Quinto.4-28a não flua suavemente. a razão para a forma alterada e obscura da narrativa das visões se deve ao estado emocional do receptor.“ As coisas não podem ser descritas pelo que elas realmente são. a descrição está repleta de expres­ sões conotando fulgor. quando a visão retoma no capítulo 10.’ Embora a narrativa de 1. e o brilho absoluto da primeira visão foi diminuído. A descrição atinge o apogeu no versículo 28 ao compor uma série de analogias. e muito da linguagem analógica desapareceu. erros gramaticais. a descrição das criaturas foi racionalizada (10. 15-21) . Em outras palavras.14. de Ezequiei.10). magnificência. o abstrato tomou-se concreto. com sentenças incompletas. pode ser descrita de maneira mais convencional. mas somente em relação a outras ideias familiares e conceitos.* Quarto.* No caso de Ezequiel. 115 narrativa é dominada pela linguagem analógica. Terceiro. e quando o trono-carmagem retoma no ca­ pítulo 10 ele é capaz de descrevê-lo de maneira coerente e organizada. e detalhes que pareciam fora de lugar no capítulo 1 agora têm uma parte vital na história (as cinzas e as rodas). esplendor. Essas modificações sugerem que as imagens que Ezequiel teve extrema difi­ culdade em descrever e identificar na hora de sua inauguração agora se acomodaram em sua mente. a cena não poderia ser tomada sem o entusiasmo do momento que deixa sua marca na forma do registro escrito. Embora Ezequiel es­ tivesse totalmente consciente. a maior parte das dificuldades gramaticais foi removida. e incoerência estmtural. As rodas (vs. a aparição tem um efeito impressionante e devastador sobre o profeta (v. 4) 2. e ali o material do capítulo 1 é repetido.13). Introdução (v. 28). A expressão indefinida “criaturas” (hahayyôt) foi substituída por uma específica “quembim” (kërûbîm).4-28a A VISÃO inaugurai. Os seres viventes (vs. O narrador sabe agora o que está descrevendo. 5-14) 3.

Os vizinhos de Israel identificaram o Monte Zaphon como a morada de Baal. enfatizando a glória radiante daquele entronizado aci­ ma das criaturas. 22-27) 5. Ezequiel deve ter entendido “o norte” como a montanha de Deus.'* Se algum sentido mitológico deve ser anexado a esse detalhe.4) 4 Olhei. não é em razão de Zaphon ser entendido como a residência de Yahweh. que complementa a exploração da ideia da teofania da tempestade. 1.'^ e eis que um vento'' tempestuoso vinha do Norte. PREÂMBULO (1. a maior parte das características da visão en­ contra analogias na arte iconográfica antiga. O fato de a aparição vir do norte (sãpôn) tem levado alguns a interpretar essa frase mitologicamente. Mas a combinação do fogo e do trono-carruagem também nos dá uma impressão ameaçadora de coisas futuras na mis­ são e na experiência do profeta.'* que saía do meio do fogo. A unidade toda é sustentada pela ideia principal do fogo. 28a) As três partes que compõem o coração da narrativa são aproxi­ madamente iguais em tamanho. A plataforma e o trono (vs. incandescente com uma luz brilhante. no entanto. Estas são observadas no comentário.116 O LIVRO DE E z e q u i e l 4. uma coisa como metal brilhante. mesmo da residência dita ser da deidade da tempestade. Enquanto muitos dos detalhes permanecem obscuros. com fogo a revolver-se. Não há como saber o que Ezequiel estava fazendo na hora desta visão.'^ e um resplendor ao redor dela.’’ .* Muitos leitores acham a imagem e o estilo da visão de abertura tão assombrosos que consideram o livro inteiro de Ezequiel como bi­ zarro e selvagem. e até incompreensível. como também falham em levar em consideração o contexto cultural antigo do Oriente Próximo de onde essa descrição vem.'^ e no meio disto. Cólofon de conclusão (v. Alguns têm interpretado o veículo celestial como uma nave espacial. Seja o que for. mas que Yahweh está livre de vir de qualquer direção que lhe agrade. a sua atenção foi repentinamente apanhada por um vento norte e a visão de uma enorme nuvem.’ Mas tais abordagens não somente se desviam do ponto central da visão. e uma grande nuvem.

(3) O centro dela era aceso como metal derretido em uma fundição. 10 A forma de seus rostos [na parte da frentef^ era humana. sendo que os ventos comuns nessa parte da Mesopotâmia tendem a ser norte-oeste entre maio e outubro.semelhança de tochas. os quatro tinham rosto de leão.*^ o fogo** corria resplendente por entre os seres. “electrum”. Ela foi acesa com um brilho cuja intensidade superlativa é refletida em uma tríade de frases modificadas.5-14 Seres VIVENTES 117 Entretanto.^* seus pés eram como a pata de um bezerró^^ e luzia como o brilho de bronze polido. relacionado. mas do lado direito. que identifica tanto o âmbar quanto uma liga ouro-prata. (1) Foi acompanhada pelo /ôgo ou relâmpagos diversos.*'' . (2) Foi envolvida por um brilho {nõgah) glorioso. cuja aparência era esta: semelhantes a um homem.^^ 2.ia m . \A E os seres viventes ziguezagueavam*^ à semelhança*^ de relâmpagos. à .^ 1 As suas pernas eram retas. Mas a nuvem que foi soprada pelo vento não era uma nuvem comum. talvez. o emprego do ter­ mo raro reflete o brilho da imagem e também enfatiza seu mistério. aos quatro lados.^* 11 Assim eram os seus rostos. O termo hasmal é um hapax.1.^'* 13 O aspecto dos seres viventes“^ era como*' carvão em b r a s a .'® o profeta pode não ter visto qualquer significado especial na direção do vento.^ Elas não se viravam quando se moviam. 12 Cada qual andava para a sua frente.6Ktpov.5-14) 5 Do meio dessa nuvem saía a semelhança de quatro seres viventes. todos os quatro tinham rostos e asas.^^ Suas asas se abriam em cima. Eles não se viravam quando iam. e dele saíam relâmpagos.'’ A LXX traduz como T|A. unidas cada uma à do o u tr o o u tr a s duas cobriam o corpo deles.squerdo. SERES VIVENTES (1.^® O âmbar é provavelmente o referido aqui.'^'' assim. e também rosto de águia [na parte de trás]. ao acadiano elmesu. para onde o espírito queria que fo s s e m .^' Enquanto seu significado permanece um tanto quanto incerto. 8 Debaixo das asas tinham mãos^^ de homem. rosto de boi. todos os quatro.^ 9 As asas se uniam-'’ uma à outra. 6 Cada um tinha quatro rostos. uma pedra preciosa brilhante usada na fabrica­ ção de estátuas divinas para brilhar muito. como também quatro asas. cada ser tinha duas asas. do lado e.^' cada qual andava^^ para a sua frente.

10).31. Eles não somente apare­ ciam com frequência na iconografia e escultura antiga. da esquerda. é o mais dignificado e nobre de todos os seres viventes. A seleção desses animais pode parecer arbitrária para o leitor moderno. respectivamente. Seus pés eram bovinos e brilhantes como o bronze polido. Se o texto for interpretado à luz do contexto cultural no qual Ezequiel ministrou. Conectado aos seus corpos embaixo de suas asas estavam mãos humanas. talvez como fosse esperado. e águia.sôr não especifica o sexo) era o mais valioso dos animais doméstico (Pv 14. alguns dos detalhes começam a fazer sentido. O ser humano. é extremamente difícil visualizar essa bizarra cena.28. mas era per­ feitamente normal para o mundo de Ezequiel. boi. o querubim de quatro cabeças .49. e servia como um símbolo de realeza. assim como funcionava como um símbolo tanto da fertilidade quanto da divindade (c f SI 106. Jr 48. e de trás eram de leão. também ti­ nham significado simbólico para os israelitas.40). SI 8). ferocidade e coragem (Jz 14. sendo criado à imagem de Deus e investido com ma­ jestade divina (Gn 1. O registro teria sido mais coerente se a afirmação a respeito das asas na primeira parte do versículo 9 e as referências de suas faces no começo do versículo 12 estivessem ligadas. O aspecto mais intrigante é sua forma.23. mas as da direita. o profeta descreve as características primárias dos seres que saíram da nuvem com fogo. Is 40. 8b-10 A última frase do versículo 8 funciona como um título geral para o material que se segue: uma descrição mais próxima das faces e das asas. Carregando o trono divino. Na ausência de ferramentas filosóficas abstratas essas ima­ gens expressavam os atributos transcendentes divinos da onisciência e onipotência. O leão era reconhecido por sua força. Isto era possível porque eles tinham quatro cabeças. 2Sm 1.19-20).“’ Mas o significado desses seres excede a soma das partes. v. no entanto. mas cada um tinha quatro faces e quatro asas.''* A águia era o mais rápido e mais majestoso de todos os pássaros (Dt 28. Seus corpos eram humanos {dèmút ’ã dãm. 5). Porque as imagens descritas nesses versículos são totalmente estranhas para o leitor moderno e sem paralelo no Antigo Testamento. 5-8a Nestes versículos.118 O LIVRO DE E z EOLIEI.18.4). O versículo 9b declara que os seres eram capazes de se mover em qualquer dire­ ção sem que movessem seus corpos. 17. As faces da frente de cada figura eram hu­ manas. O boi (ou “bezerro” .

um par ficava para cima a tal ponto de tocar a ponta da asa da criatura imediatamente oposta.*' mas Ezequiel parece não ter feito esta conexão. cabeças de animais. ele se refere a eles pela vaga expressão seres viventes (hayyôt). mas ele oferece uma breve descrição de suas asas. mas ele não afirma explicitamente que era o bater das asas que movia o veículo. Combinando os versículos 8 e 11. o outro tinha um corpo de . Nem que o veículo era movido pelo movimento das pernas.**As gigantescas figuras que guar­ davam as portas do palácio de Ashurbanipal II em Nimrud nos forne­ cem um dos exemplos mais surpreendentes disto. Nos versículos 24-25 Ezequiel observa que quando o veículo parava. a rapidez e a mobilidade da águia. “querubim”. e mamíferos compostos com asas eram comuns. as direções da bússola. com asas podem ser entendidos somente à luz de seu ambiente cultural antigo. quando Ezequiel descreve a propulsão das criaturas (v. como o faz no capítulo 10. O desta­ que sobre usarem um par de asas para cobrir seus corpos lembra a visão inaugural de Isaías (Is 6. O poder de locomoção é fornecido pelo espírito (hãrüah). para tratá-lo completamente no parágrafo seguinte.*“ Corpos humanoides com múltiplas faces. o poder procriativo do boi. as asas dos seres viventes se abaixavam. tendo levantado este assunto. As características principais são bem certifi­ cadas na iconografia Mesopotâmica e Síria. e a sabedoria e a razão do ser humano. Enquanto esta característica não é interpretada.1. Um desses era um boi de asas com uma cabeça de homem.*® 11-14 Ezequiel não comenta sobre a função das mãos das criatu­ ras.2). 12). Nada é dito aqui em Ezequiel sobre a função locomotiva. os seres compostos. multifacetados. No entanto. aquelas criaturas são chamadas sèrãpim. Essa característica é reminiscente do querubim sobre a arca do pacto no Santo dos santos. No entanto. os números parecem representar os quatro ventos. com quatro faces e quatro asas. Em vez de identificálos como kèrubrm. e diversas asas. e elas têm seis asas. nós aprendemos que dos dois pares de asas que cada um possuía. duas das quais são usadas para voar.*^ Na verda­ de. “em chamas”. A aparição toda é do­ minada pelo número quatro: quatro seres.5-14 S e r e s V IV E N T E S 119 declara que Yahweh tem a força e a majestade do leão.*^ Assim como foi anteriormente declarado. Ezequiel imediatamente para de falar a respeito dele. tanto as pernas quanto as asas estão fora de questão.

Em primeiro lugar. Agora. elevavam-se também as rodas juntamente com eles.” As formas desses seres não foram as únicas características que chamaram a atenção do profeta. e relâmpagos (bãzãq) ziguezagueando. Ele compara a visão com cai~vão em brasa (gahàlê 'és bõ^ãrôt). 20 Para onde o espirito queria ir. as mesmas eram cheias^ de olhos ao redor 19 Andando os seres viventes. e as rodas se elevavam juntamente com eles.^ 16 O aspecto das rodas e a sua estrutura^' eram brilhantes como o berilo^^.15-21) 15 ^7 05 seres viventes.120 O LIVRO DE E z e o u i e l leão. também elas se elevavam. brilhos de raios (bãrãq). tochas (lappidím). apareçam em um só contexto. nas quatro ro­ das. AS RODAS (1. e águia. por­ que o espírito da vida estava nas rodas. não há nenhuma figura análoga às figuras de Ezequiel. e as formas leoninas com cabeça humana em adição à cabeça de leão sejam verificadas. tinham os quatro a mesmaf'^ aparência. mas nenhuma dessas imagens é adequada para des­ crever a radiação impressionante do que ele vê. com quatro cabeças diferentes em um corpo. .^ podiam ir^^ em quatro direções. De fato. andavam as rodas ao lado deles. o profeta observa que a aparição é equipada com rodas {’ôpanrãm). bezerro. e não se viravam quando iam. cada ser vivente parece ter tido um conjunto idêntico de rodas. 17 Andando elas. 18 Seus aros eram altos. e. O quebra-cabeça continua nos versículos 15-21. 21 Andando eles. iam. parando eles. ao lado de cada um deles. porque nelas havia o espírito da vida. Embora figuras humanoides com cabeças de leão. elevando-se eles. elevando-se eles da terra. andavam elas e. As rodas eram extraordinárias por si só.^^ e eis que havia uma roda^'* no chão. paravam elas.’* Observa-se que fora do Egito somente esses três animais são representados em tais figuras complexas. 3. A aparição como um todo produziu um brilho estonteante. uma para cada fa c e . e metiam medo^*. cujo aspecto^ e estrutura eram como se estivera uma roda^^ dentro da outra. e. respectivamente. A referência às pernas de bronze polido no versículo 7 descrevem o brilho. mas nos versículos 13-14 Ezequiel parece ter perdido as palavras apropriadas com a cena diante de si.'^'^ pois o espírito’’' os impelia.

Segundo. 4. e isto pode indicar o modo de sua interpretação aqui. 16). o profeta agora expande o seu envolvimento sobre a locomoção do veículo. O cognato acadiano inu. parece mais provável que o uso que Ezequiel faz de '^ayin reflita uma influência babilônica.” Esses “olhos de joia” compõem as rodas que “brilham como berilo” e com a majestade e maravilha que caracteriza o veículo todo. uma observação feita com considerável redundância. o rúah . ou rodas concêntricas girando na mesma direção e dando a aparência de um disco. sem resistência. Elas resplandeciam com um brilho do berilo e seus aros eram mara­ vilhosos. escrito com o determinativo aòa/i. Dois detalhes sobre as rodas impressionam o profeta. o profeta parece visualizar algum tipo de carruagem de quatro rodas.” Algumas pessoas têm explicado a qualidade cintilante dos aros como o brilho de pregos colocados do lado de fora das rodas da carru­ agem quando as rodas giravam. Tomando o assunto do “espírito” do versículo 12. Em terceiro lugar. Os versículos 19-21 fornecem o primeiro exemplo da prática retórico-literária típica de Ezequiel da exposição resumida. Em segundo lugar. Uma roda dentro da outra melhora sua capacidade de mover-se em qualquer direção. denota um “olho em forma de pedra (ou pedra preciosa)”. as rodas parecem ter sua própria fonte de vida. A palavra ‘a yin ']éi foi usada anteriormente para “brilho de raios” (vs. O interesse contínuo no número quatro fala de suas absolutas habilidades de se mover em qualquer direção. Os olhos são difíceis de interpretar. elas eram complexas. Livremente e sem qualquer esforço as rodas mantêm o ritmo com as quatro criaturas. a harmonia entre as rodas e as criaturas (hayyôt) é atribuída ao espirito dos seres viventes (rúah hahayyâ). o tempes­ tuoso rúah que havia produzido a aparição ao profeta (v. as rodas eram magnificentes para se olhar. 18). 4). parece que as rodas estào uma dentro da outra. Primeiro. E difícil visualizar o que Ezequiel viu. Esta interpreta­ ção é preferível à tradicional visão que os olhos simbolizam o caráter de Deus que tudo vê e tudo sabe. pequenas rodas giratórias. seus movimentos são perfei­ tamente sincronizados com os das criaturas. Não é clara a precisa ligação entre este rúah.15-21 A s RODAS 121 assim como as criaturas.1 .’“ No entanto. cheio de olhos ao redor (v. “pedra”. Devemos pensar num giroscópio. ou rodas internas e externas operando em ângulos retos uma em relação à outra? Seja qual for o caso.

122 O LIVRO DE E z e q u i e l que mais tarde lhe daria poder (2. a de uma em direção à de outra. como o rugido de muitas águas. 22-23 Nos versículos 22-27 a atenção do profeta muda das ro­ das embaixo para uma forma acima das criaturas.^ 24 Andando eles.14). como uma safira. a referência serve como um arauto do papel que o rúah terá no ministério de Ezequiel. abaixavam as asas.^^ ouvi o es­ trondo tumultuoso.^* 26 Por cima da plataforma que estava sobre a sua cabeça.24). 23 Por debaixo da pla­ taforma estavam estendidas^' as suas asas. 25 Veio^’’ uma voz de cima da plataforma que estava sobre a sua cabeça. essa não era uma plataforma comum. mas neste parágrafo rúah é melhor interpretado como o poder de Deus doador da vida. como o tropel de um exército. como a voz do Onipotente. seu brilho cristalino era tremendo. abaixavam as asas.22-27) 22 Sobre a cabeça dos seres viventes'’^ havia uma forma. ouvi o tatalar das suas asas.^ Parando eles. 3. e desde os seus lombos e daí para baixo. Mas antes que Ezequiel desenvolva a este respeito. estava sentada uma fig u ra semelhante a um homem. Elas parecem estar suportando uma plataforma sobre suas cabeças. desde o que parecia ser os seus lombos e daí para cima.1) enfatiza que esses objetos inanimados parecem vivos ao profeta como “seres viventes” em si mesmos. estendida por sobre suas cabeças. O fato de nenhum profeta usar a palavra com a frequência que Ezequiel usa e abrange os significados contribui para a sua repu­ tação como “o profeta do espírito”. e o rúah que mais tarde o levantaria e o levaria para longe (3. Cada'^^ uma tinha outras duas asas com que cobria o corpo.^ 27 Vi-a como metal brilhante. 4.” Foi esse espírito da vida que também de­ terminou a direção e a liberdade de movimento do veículo celestial. havia algo semelhante a um trono. uma plataforma. como fogo"*' ao redor dela. No entanto.12.’* No versículo 4 a palavra tinha obviamente denotado “vento”. A PLATAFORMA E O TRONO (1. sua atenção retoma .''^ que brilhava como cristaF brilhante!^ que metia medo.2.^'’ sobre esta espécie de trono. No entanto. Parando eles. A ocorrência du­ pla de: pois o espirito da vida está nas rodas {kí rúah hahayyâ b â ’ô pannîm) nos versículos 20-21 (cf também 10. vi-a como fogo e um resplendor ao redor dela.

5).8-16 (em português. portanto “o que é da monta­ nha”. Ainda mais instru­ tivo é o Salmo 18. 18).C. uma nuvem densa (^ãnãn kãbêd.1. e fogo (’ês. A aparição de Yahweh a Israel no Monte Sinai foi acompa­ nhada por estrondos de trovões (qôlôt). Hackett propõe que sadday representa um cognome de El. um título antigo de Deus. O nome é comumente derivado da raiz td w /y. 7-15). Observe que sdyn é usado intercambiavelmente com T. No entanto. Mas esta declaração é seguida de referências à trovoada de Yahweh (rãqam) nos céus e Elyon se expressando com sua voz (qôl). com as pontas tocando as asas da criatura ime­ diatamente oposta. se não na verdade o próprio significado de sd y’ pode ser encontrada nos textos antigos de Balaão do século 7« a.’“ Mesmo que esta explicação seja correta. e o tumulto ou tropel de um exército. mas sobre qôl sadday não está claro. Shadday é uma abreviatura de El Shadday (c f 10. não esclarece o som associado com Shadday. pois o concilio normalmente se reunia no topo de uma montanha. mas Ezequiel parece ter interpretado sua visão à luz das teofanias de tempestade anteriores de Yahweh.A T A F O R M A E O T R O N O 123 para as criaturas abaixo. raios (bérãqim). o qual o profeta tem dificuldade em descrever. 11 [em português. o trovão ou voz do Onipotente. A primeira e a última comparações são claras. como chefe do concilio.hn para denotar o gmpo de deuses que formam o concilio celestial J.’^ Mais uma vez ele percebe que um par de asas está estendido. 10]). Êx 19.16).o movimento das asas é acompanhado por um bamlho alto. 24-25 tatalar das suas asas. e 0 outro par cobria o corpo da criatura. O nome Shadday não aparece neste texto.’* De qualquer modo. que em ugarítico significava “montanha”.22-27 A P I. v. Pela primeira vez Ezequiel faz um comentário sobre o som . Nenhum comentário sobre o significado do último par que cobria o corpo é feito. pode-se encontrar ajuda em ou­ tros textos teofanicos que associam a aparência de Yahweh com sons específicos. que apresenta inúmeras ligações léxicas com a visão de Ezequiel’* e fala especificamente de Yahweh dirigindo uma carmagem (v. o centro desta descrição é que o . mas se tomará evidente mais tarde. A. mas deve ser aceito que sua etimologia permanece obscura. de Deir ‘Allõ. A associação do gmpo com montanhas é um desen­ volvimento natural. Ele compara o mído ao som de muitas águas {m ayim rabbim).’^ Uma dica sobre o significado.

5. Mas agora não é mais a plataforma de cristal que chama sua atenção. Duas características da imagem são especialmente significantes. Segunda. seu esplendor policromático é estonteante. e olhe Yahweh em todo seu esplendor. a afirmação final indica que o profeta finalmente entendeu o significado da visão: não é mais nada que a glória de Deus! As portas do céu foram escancara­ das. 13).28a) 28 Como o aspecto do arco-íris que aparece na nuvem em dia de chuva. Acima dela ele observa o mais majestoso de todos os tronos imagináveis. A parte superior de seu corpo era radiante como o brilho do âmbar (hasmal)-.’* Ainda vestido com a linguagem da analogia.12 4 O LIVRO DE E z e q u ie l movimento do veículo e o bater das asas das criaturas sempre eram acompanhados por um ruído alto. assim era o resplendor em redor Esta era a apa­ rência da glória do Senhor! Quando eu vi aquilo. pois sentado no trono estava uma figura real impressionante. Mas o profeta não pôde declarar claramente o que vê. não era um homem comum. 26-27 O olhar de Ezequiel volta para a plataforma. O termo kãbôd deriva-se de uma raiz significando “ser pesado”. entronizado acima dos seres viventes. Primeira. A maravi­ lhosa radiação da imagem traz a lembrança ao profeta de um arcoíris. cujas chamas geral­ mente apresentam uma variação impressionante na cor. CÓLOFON CONCLUSIVO (1. a parte inferior do corpo parecia envolvida em um forte brilho também. Mas quando o veículo parava as asas se abaixavam e o som cessava. A descrição da visão termina de maneira gloriosa. mais uma vez ele muda a direção de seu olhar. Assim como o fogo referido no começo (v. eu cai com meu rosto em terra. tudo que pôde fazer é comparar a visão com algum fenômeno conhecido. feito inteiramente de safira. esta visão não veio a Ezequiel de uma forma monocromática. Ezequiel reconhece a forma como sendo a de um ser hu­ mano {’ãdãm).’’ Porém. sugerindo que o termo hannõgah da forma que é usada nesta narrativa descreve muito mais que somente uma luz brilhante. mas quando aplicada á realeza e á divindade denota o . uma das pedras mais preciosas conheci­ das na Antiguidade.

em um trono visível. “aquele que está entronizado acima dos querubins”. por criaturas estranhas.6-11). Yahweh. Mas a não ligação por parte de Ezequiel dessa visão com os movimentos ante­ riores da glória Shekinah força o leitor a procurar em outros pontos por antecedentes dessa teofania. Cenas de animais suportando deidades em forma humana são comuns na arte do Oriente Próximo.’’ Mas as rodas acrescentam uma nova dimensão. De acordo com Êxodo 40. talvez porque ninguém jamais teve a coragem de pintar Yahweh de forma humana. um símbolo da marca de Yahweh no projeto. c f 25. que descrevem Yahweh como rõkêb bâ’^àràbôt. Ezequiel tinha familiaridade com a tradição tabemacular.u s iv o 125 peso completo da majestade da pessoa. esta é uma carruagem divina. eyõsèb kérûbîm. Yahweh apareceu a ele! Ezequiel responde apropriadamente ao cair com o rosto em terra e adorar a Deus.34-38."* Ainda que essas imagens possam nos ajudar a visualizar o que Ezequiel viu. a de Ezequiel lembra antigos selos com o de­ senho do deus da tempestade em uma carruagem de quatro rodas. para uma terra estrangeira.28a C ólofon c o N C i. Sendo de uma família sacerdotal. O profeta tem testemunhado o incrível . algumas pessoas podem opor-se ao apelo que faço a analogias extrabíblicas para o entendimento da ideia principal. . especificamente nos sal­ mos.1. transportado por to­ dos os lados.18-22). “aquele que cavalga nas nuvens”. E sentado no trono. quando a construção do tabemáculo havia sido terminada. aquela qualidade que evoca uma resposta de temor no observador. em forma de homem.'®' Mas Ezequiel parece também não ter feito esta conexão imediatamente. seria duplicado com a finalização do templo de Salomão (IRs 8. Séculos mais tarde este fenô­ meno. Enquanto as car­ ruagens se distinguem. e sobre um veículo de duas rodas. Mas se pode imaginar quatro criaturas como esfinges de asas supor­ tando uma gloriosa plataforma de cristal sobre a qual se levanta um magnificente trono de safira.longe do templo. a glória Shekinah entrou na tenda e tomou seu lugar entre os querubins sobre a arca da aliança dentro do Santo dos santos (débír. entre os exilados numa terra pagã da Babilônia. A figura descrita nos versículos 22-28a é difícil de visualizar. As analogias bíblicas mais próxi­ mas dessa visão estão na poesia de Israel.

mesmo a frustrante busca do profeta pelas formas adequadas de expressões. Yahweh senta-se só em seu trono. Uma figura deste espetáculo multissensorial e policromático teria valido dez mil palavras. muito mais ao invadir a Babilônia. E diferente das imagens pagãs. lá onde estava o centro do reinado de Marduque. nenhuma teofania em todo o Antigo Testamento se iguala à visão inaugural de Ezequiel. Certamente. o trono de safira. Todos os seus servos são criaturas nobres. 0 resplendor das pemas de bronze. a forma âmbar como de fogo do “ho­ mem”. separado de todos os seres inferiores. Ezequiel não ouve os serafins dizendo “Santo! Santo! Santo!” (Is 6. verbal ou visualmente.'“ o brilho de Yahweh emana de seu próprio ser. pois Ezequiel não forneceu uma imagem visual para acompanhar seu texto escrito. a glória de Yahweh desafia a descrição humana. Primeiramente. a visão proclama a glória transcendente de Deus. Se a experiência sensorial fora impressionante. ele permanecerá em total controle. Além do mais. o Rei sobre todos! A universalidade de seu reino é refletida na protuberância do número quatro (para os quatro ventos). com uma visão a Ezequiel. mas.9). que requerem constante cuidado e polidura. Tudo sobre a aparição proclama sua glória: o brilho forte da imagem. por isso as criatu­ ras cobrem seus corpos com um segundo par de asas (v. Diferente dos deuses das nações desenhados em selos antigos e es­ culturas. Segundo. . e especialmente na liberdade absoluta com a qual sua carmagem celestial se move. a visão proclama a santidade transcendente de Yahweh. a plataforma cristalina.12 6 O LIVRO DK E z e q u i e l ♦ Implicações teológicas Com respeito à força e à maravilha.3). Yahweh mostra que apesar do destino de Jemsalém. embora o profeta ainda não entenda. seu sig­ nificado teológico é profiindo.'®^ Mas esta é também uma das funções da plataforma. As esferas divinas e criadas não devem ser confundidas. as joias nas rodas.'®“ mas ele está entronizado. Tudo sobre a visão proclama “Glória!” (cf SI 29. mas a distinção absoluta entre Yahweh e toda a criação é claramente reconhecida. Terceiro. Diferente de Isaías. 11). a visão proclama a soberania de Yahweh. e os leitores modemos podem somente se entristecer. Diferente dos deuses pagãos. que se misturam livremente com seres inferiores e em geral não se diferenciam deles.

mas um reflexo da deidade. esta mensagem fora particu­ larmente satisfatória. impedido de executar o serviço divino no templo. Mais particularmente.26-27. Enquanto que temas extraisraelitas fos­ sem incorporados na visão. a qual descreve o ser humano como criado à “imagem” (selem) e “semelhança” {démút) de Deus. Deus aparece à semelhança de ser humano (dèmút kèm afèh ’ãdãm). longe de todas as criaturas. Quinto. a redundância de “uma semelhança como a aparência de um homem” protege o profeta de quaisquer noções idolátricas. não está definido em termos de residência dentro da terra. Outras narrativas apresentam Yahweh respondendo aos servos hesitantes com um verbal “eu estarei convosco”. ‘lábio’] de Canaã” (Is 19. agora ele adora a arte da Mesopotâmia como seu método de comuni­ cação visual. Deus está com Ezequiel. o povo de Deus está na Babilônia. como um corolário.15). . Contrário à opinião prevalecente de Jerusalém (11. longe de sua terra. Mas isto não impede que se comunique com os mortais. a visão proclama o interesse de Yahweh por seu povo. A glória de Yahweh não pode ser reduzida a uma definição humana ou a uma arte plástica. Não há outro além dele.18) como o veículo do intercurso verbal em um momento revelatório anterior. O que Ezequiel vê não é uma representação real. Mas nesse impressionante papel trocado. Etimologicamente. Sua condescendente aparição em forma humana sem dúvida tem sua base em Gênesis 1. mas é mais abstrata. A palavra dèmút pode também ser usada para ídolos (cf.'®’ a preferência de Ezequiel pelo último parece deliberada.1. Enquanto que Yahweh escolheu “a linguagem [lit.4). no entanto. Apesar disto. Embora os termos se/em e dém út possam ser usados como sinônimos. a visão proclama a presença de Yahweh entre os exilados. Êx 20.'®* Para o profeta exílico. mas esta visão declara a mesma verdade de uma maneira mais forte que as palavras jamais poderiam fazê-lo. Deus está sozinho na plataforma. e maravilhoso em seu brilho. e pode ter estado bem associada com o tipo de idolatria que Ezequiel testemunhou ao seu redor na Babilônia.28a C ólofon C O N C L U S IV O 127 Quarto. que. Deus está com seu povo. Tudo sobre a visão está no modo superlativo. seíem sugere a noção de uma “imagem esculpida”. essa estratégia não representa destaque ao pensamento pagão.

O ministério é uma vocação diferente das outras.2). “como filho de homem”. Mas a visão em si tem perma­ necido tanto na tradição judaica como na cristã. pois deve ter uma clara visão daquele a quem serve. cuja função não é óbvia com base no contexto. como um portento de eventos futuros.'”* Além do mais. aquele que está assentado no seu tomo glorioso. Por conseguinte. A saída de Yahweh remove­ rá o último obstáculo para a destmição da cidade por Nabucodonosor. APÊNDICE: A VIDAALÉM NA VISÃO INAUGURAL DE EZEQUIEL A visão de Yahweh entronizado numa carmagem celestial se­ guiria Ezequiel até o dia de sua morte. mas também fomece uma orientação quanto á sua mensagem. várias características da visão têm um toque ominoso. Para o momento a carruagem celestial serve como um objetivo positivo. especifi­ camente na referência ao trono fumegante dos dias antigos. mas o profeta ainda não pode saber que dentro de treze meses retomará a transportar a glória de Yahweh fora do templo e fora de Jemsalém. incomparável em majestade e poder. Ezequiel deve ter ficado confuso sobre o tema fogo. Mas quando a visão voltar. no aspecto prático e profissional. “a forma de aparência humana”. e os portões do infemo não prevalecerão contra ele. representa uma conscrição ao serviço do Rei dos reis e Senhor dos senhores. pode-se reconhecer sua influência em Daniel 7. a visão sugere o julgamento iminente de Yahweh.12 8 O LIVRO DF. Sétimo. essa visão não somente serve como um meio para o chamado de Ezequiel ao ministério profético. O reino de Deus será edificado. o profeta testemunhará um homem pegando essas brasas e as espalhando sobre Jemsalém (10. E z k q u i i . que é um pouquinho mais explícita que démút kêm afèh ’ãdãm. com suas rodas de fogo aceso.l Sexto.'“'' Embora a descrição não contenha um anúncio formal dos desastres futuros. particularmente a referência ao carvão queimando no meio dos seres viventes (v. 13). . e seus servos avançarão a seu favor. Dentro do Antigo Testamento. para reafirmar a presença do profeta de Yahweh.'“’ e talvez também a referência á figura divina como kèbar ’énãs. essa visão serve de aviso para quem quer entrar no serviço divino.

13).24)."' A visão era também popular na comunidade de Qumran. devotados ao louvor incessante de Yahweh."^ Esta percepção do merkãbâ tomou-se eventual­ mente tão estabelecida que foi colocada no texto bíblico 1.13). cujos om bros estavam cingidos de ouro puro de Ufaz. o ponto cen­ tral de todo louvor. enquanto se moviam. e (eu ouvi?) a voz do querubim” (14. 1. Uma fascinação com a visão de Ezequiel continuou no período intertestamentário. e como suporte do Deus entronizado. os seus olhos. como o som de muitas águas. os seus braços e os seus pés brilhavam com o bronze polido (ké‘ên nêhõset qãlãl. o seu rosto. 1. o som de suas palavras era como se estivessem dando graças e louvando seu Mestre. Na verdade.A p k n d ic h : a v id a a lé m n a v is â o in a u g u r a l d k E z e q u ie l 129 A evidência da inspiração de Ezequiel é ainda mais evidente na des­ crição da figura celestial em Daniel 10. que Deus reve­ lou-lhe sobre a carruagem dos querubins” (49. como tochas de fogo {lappidê ’ês.sua aparência era como cristal e suas rodas como o brilho do sol. adorando-o e fala também sobre o tro­ no da carruagem.18). Os cânticos do sábado em particular veem merkãbâ como objeto central de culto no templo celestial.C. “carruagem”) em expansão que interpreta os seres viventes de Ezequiel como os serafins de Isaías.. como um relâmpago (kemar’eh bãrãq. o seu corpo (géwiyãtô."® A referência à voz do querubim é nova. como o som das hostes de anjos . Ben Sirach lembra-se de Ezequiel somente pela “visão da glória. como um som diante do Onipotente'. 1.16).5-6 (com as referências de Ezequiel entre colchetes): Levantei os olhos e olhei. 1. Em IEnoque. e a voz das suas palavras era com o o estrondo de m uita gente (qôí hãmõn. 1. O Cântico 12 fala especificamente sobre o querubim se prostrando diante de Deus.11. Em seus elogios a homens famosos. 1.23) era com o o berilo (tarsis. Enoque reconta uma jornada ao céu na qual observa “um sublime trono .7).8). o Rei eterno dos mundos-. e eis um homem vestido de linho.24 no Targum (que acrescenta as palavras em itálico a seguir): E eu ouvi o som de suas asas. mas reflete uma tradição exegética “hínica” merkãbâ (lit. uma obra apocalíptica do século 2® a. há o som de louvor e bênção em todos os movimentos.

E evidente na doutrina de Paulo da “glória” de Jesus.8b-9). muitos intérpretes separam as experiências descri­ tas nestas duas seções."* C. A visão de Ezequiel da carruagem com o trono celestial deixou sua marca no Novo Testamento também.2b-8a. No entanto. encontrando apoio no contraste radical nos estilos literários e na natureza das respectivas experiências profé­ ticas. “visionário”.: os olhos cobriam todo o corpo das criaturas.C.28b-3. Is 6. principalmente porque quando os romanos destruíram Jeru­ salém e seu templo em 70 d. Mas as intenções do apóstolo são claras: a visão de Yahweh entronizado nos céus e envolvido por cria­ turas cantando louvores é destinada a inspirar esperança nos cora­ ções de seus contemporâneos padecendo sob a perseguição romana.. o último argumento só permanece se pressupor­ mos que as experiências proféticas e os registros daqueles eventos . esses dois textos fornecem uma ilustração clás­ sica de dois tipos de papel que os profetas representavam: hõzeh. Algumas das características de Apocalipse são tiradas da última forma da visão de Ezequiel 10 (e. Ap 4. resplendente em glória e inacessível aos poderes militares mundanos.11) ♦ Natureza e desígnio Enquanto o capítulo 1. em vez das rodas somente). Yahweh permanecia entronizado no céu.4-28a considerou completamente o registro das imagens visuais. O COMISSIONAMENTO DE EZEQUIEL (1.g."’ mas ainda mais na descrição de João do trono celestial em Apocalipse 4. Juntos. a visão do merkãbâ ofereceu inspira­ ção e esperança.11 é dominado pela comuni­ cação verbal. e nos corações dos cristãos de todas as eras que se encontram em circunstâncias semelhantes.130 O L IV R O D E E z e q u i e l Algumas pessoas atribuem a própria sobrevivência do povo judeu a Ezequiel. o capítulo 1. “alguém chamado por Deus”. Ele declarou que embora o templo terreno pudesse ser destruído.' Como anterior­ mente observado. que toma emprestado aproxi­ madamente doze expressões diretamente de nosso texto.2) e a tradição mística merkãbâ (o papel glorioso dos querubins. e nãbi. assim como os serafins de Isaías (as criatu­ ras tinham seis asas.28b-3.

2).4-3. Embora a razão peça que a fase de comissionamento de Ezequiel seja verbal. Somente três vezes a pessoa endereçada não é Ezequiel (9. uma das subcategorias primárias das narrativas de chamado envolve uma visão teofanica impressionante.* A maneira como esta expressão é usada no livro é extremamente significante. Is 6). De fato. se o discurso direto (com as introduções estritamente . 0 profeta permanece como um recipiente passivo. ou Yahweh está fornecendo ao profeta uma interpretação de algum aspecto de uma visão que ele está tendo. Miqueias. mas somente em cinco ocasiões seu nome é citado (4. eles seguem o mesmo padrão. Ela reflete a natureza unidirecional da maior parte da comunicação entre Deus e Ezequiel. Segundo. Os exemplos que o profeta responde verbalmente são raros. 7. 44.12). seguida de uma comissão verbal de Deus com o profeta (cf 1Rs 22. a quantidade de discurso direto em 1. uma pessoa provavel­ mente não seria envolvida em experiências visionárias e auditivas ao mesmo tempo. Mas esta opinião é questionável por várias razões.4. Outros falam de palavras ou oráculos que o indivíduo “viu” (Amós.15 conduz o leitor pelas fases envolvidas na inauguração do ofício profético. a expressão ocorre nos con­ textos no qual Yahweh e o profeta estão se relacionando pessoalmente. Obadias. ele aparece sem sujeito e sem a preposição 'eP Em cada uma das ocorrências no livro o sujeito é Yahweh.ll O COMISSIONAMENTO DE E z e q u ie l 131 existam unicamente nas formas puras. 10. Primeiramente.13.^ Somente no capítulo 10.1 . 5). O registro de 1.4. comandando o profeta a proclamar uma mensa­ gem extraída de uma visão. Geralmente. Naum). 9. pro­ fetas que eram reconhecidos por seus pronunciamentos oraculares eram também designados hõzim (Am 7. “e ele me disse”. Habacuque). isto é.2.11 é impressio­ nante. Ezequiel deve ser classificado dentre os que estavam conscientes de ter sido formalmente induzidos para o ofício de profeta na corte do rei divino. Embora a narrativa da visão e o chamado de Ezequiel sejam mais longos e mais complexos que outros. que é textualmente questionável.® Na maioria das ve­ zes.28b-3.2. Terceiro. 23. wayyõ’mer ocorre 41 vezes em Ezequiel. e então enviados como emis­ sários de Deus.2 8 b -3 . vários livros proféticos que consistem amplamente de oráculos são formalmente introduzidos como “visões” dos respectivos profetas (Isaías.36.“ É ocasionalmente seguido por um imperativo. O estilo literário deste texto é dado pela frase wayyõ’mer ’êlay.

e nela se achava o rolo de um livro. estavam escritas lamentações.132 O L IV R O D E E z e o u i e l em forma de fórmulas do discurso) for retirado. continua. E ouvi quem estava falando comigo. e ele me deu a comer o rolo. É difícil caracterizar o discurso direto incorporado na estrutura desta narrativa como um diálogo.2). . Seguindo o preâmbulo que descreve a preparação de Ezequiel para a interação vindoura (1. Enquanto falava comigo. ou surpre­ sa misturada com prazer quando o rolo ingerido tem um sabor doce como o mel na boca do profeta.3-7. 3. ou no nojo sentido diante da ordem de comê-lo. Mas o que surge é a imagem de um profeta passivo. A seção 1.28b-3. Yahweh. aqui ele é uma esponja. A não ser por sua forma biográfica. suspiros e ais escri­ tos no rolo. O horror pode ter sido expressado nos lamentos. a estrutura da narra­ tiva é reduzida a um curto parágrafo: Então eu ouvi a voz de alguém falando.11 é estruturalmente complexa. abri a boca. nem estilo re­ buscado. ainda que não faltassem ocasiões para resposta. não há linguagem floreada. e a surpresa implícita na palavra hinnéh.8-3. suspiros e ais.3). e estava escrito por dentro e por fora. que havia sido aparente na visão anterior. ele foi um espectador. A impressionante dominação de Yahweh. Estas características têm um significado que se apoia na intenção do texto: descrever a conscrição de Ezequiel ao serviço divino. Há somente um orador. Os fatos são recontados com gran­ de economia de palavras. Na visão inaugural. Então percebi certa mão sendo estendida na minha direção. o texto fornece poucas dicas sobre a resposta do autor ao evento. entre os quais é colocado uma breve narrativa de uma visão (2. o corpo principal do texto é dividido em três partes: dois discursos de comissionamento divino (2. nele. Seus termos não são negociáveis.28b-2. A ausência de respostas verbais do profeta é consistente com a falta de reações emocionais e não verbais na narrativa. Estendeu-o diante de mim. o Espírito entrou em mim e me pôs em pé. Então comi e era doce como o mel em minha boca. Então. A narrativa remanescente é composta de uma crônica objetiva e direta da experiência de Ezequiel. Yahweh é o rei divino que chama e determina a natureza da missão que seu emissário está sendo chamado a cumprir.4-11).

^ entrou em mim o Espírito.2 8 b -2 . O primeiro coloca maior ênfase na rebelião de Israel.10-11). quando falava comigo. no segundo caso. A identificação do caráter rebelde de Israel como base para o apelo de não temer. 2 . 7-8) A’.3. 3. 3.4-9) e exortações a Ezequiel (2. 1.9 “Porque são casa rebelde” ( k i bêt m èrí hêmmã) Embora as ligações entre os dois discursos sejam fortes.8. A.1 . A referência dupla da obstinação de Israel. 3. 2. o pro­ feta é avisado a não se conformar aos moldes rebeldes da nação (2.7 Todo o Israel é hizqê mêsah e qésê lêh 3. 3. põe-te em pé.3-5. 2. Além do estilo de prosa rebuscado. pedra e diamante.8). no segundo. 3.4 Os descendentes são qêsêpãntm e hizqê lèb A’.6-7. PREÂMBULO (1. O apelo duplo para não temer sua audiência: A.2 P reâm bulo 133 Os discursos divinos podem ser posteriormente subdivididos em ordens (2. No primeiro caso. A fórmula dupla de comissionamento (com sãlah) A.9).’’ . 3. 3. e falarei contigo "? 2 Então. se­ guem seus próprios caminhos em vários aspectos.5. 2.28b-2. os elos entre os dois discursos são evidentes nos seguintes paralelismos verbais. o segundo. espinhos e escorpiões.6 “Porque são casa rebelde” ( k t bêt m èrí hãmmâ) (Também confonne 2.5. A imagem no primeiro caso envolve sarças. A. três vezes) “Nem te assustes” (’al-tèhãt) A’.6 “Não os temas” Çal-tirã’. 2. Yahweh promete moldá-lo de acordo com seus moldes (3. e ouvi o que me falava. na dureza do coração de Israel. 2.1 Ele me disse: "Filho do homem.6 (apresentado negativa e hipoteticamente) 2. 1.2) 1.28b Então ouvi a voz de alguémfalando.4 (apresentado positivamente em ambos os casos) A’.9 “Não os temas” {lõ’ tirã’) “Nem te assustes” (lõ’ têhat) 4. e me pôs em pé.

O DISCURSO DO PRIMEIRO CHAMADO (2. ele deve . eles e seus pais prevaricaram contra mim. mas estava tomado com o RÚAH e pode . O chamado de Ezequiel para o serviço divino é descrito em uma linguagem real pertencente à corte. uma pessoa demonstraria sujeição com um gesto de prostração. até precisamente ao dia de hoje. 4 Os filhos são obstinados e insubordinados. pronta a ouvir e obedecer.3-7) 3 Ele me disse: “Humano.'^ 2. pois wayyõ’merpç>A&c\2i ser traduzido tanto como “ela [a voz] disse”.'^ E ninguém teria coragem de se levantar até que fosse autorizado a fazê-lo pelo rei. Mas de quem é essa voz? O texto não é claro. '* 5 Eles. o Espírito Santo? O texto observa que o levantamento do profeta ocorre simultaneamente com o som da voz. Deste ponto em diante as lições que ele aprendeu da teofania foram essen­ cialmente teológicas.de fato. e lhes dirás: ‘Assim diz o S enhor Yahweh ’. o que sugere que este rúah pode ser a fonte do poder dinâmico da palavra.o profeta está prostrado. às nações'^ rebeldes que se insurgiram contra mim. E que tipo de rüah é este? Uma rajada de vento repentina? Ou será o Espírito de Yahweh. 20-21. ou “ele [Yahweh?] disse”. hão de saber que estevé^^ no meio deles um profeta. Durante seu estado de prostração. Ezequiel pode ser um ben’ã dãm. e que con­ trolará seus movimentos por todo seu ministério. A questão pode ser acadêmica. eu te envio aos descendentes de Israel.'® Mas ele não tem ideia de quanto este evento será transformador para si mesmo.12. Isto só pode ser o Espírito de Deus.134 O LIVRO DE E z e q u i e l A narrativa do chamado de Ezequiel começa onde a visão inau­ gural termina . Ezequiel é inspirado com um poder rüah que o segura e o coloca em pé. '^porque são casa rebelde. eu te envio a eles. Enquanto isto. O chamado para o serviço que se segue exige uma pessoa ereta." e o rúah que fortalece Ezequiel deve ser o mesmo que havia movimentado as rodas em 1. . com sua face no chão. “um mero homem”.ficar em pé na presença de Deus. quer ouçam quer dei. Tendo sido levado à pre­ sença de um monarca.xem de ouvir. Ezequiel ouve uma voz man­ dando-o se levantar porque o orador deseja conversar com ele. e ele respondeu às lições apropriadamente com um gesto instintivo de admiração ao Rei divino.

“ No uso secular o verbo descreve a ação pela qual uma pessoa (geral­ mente um superior) comissionava um mensageiro (maVãk) para en­ tregar uma mensagem em seu lugar a terceiros.2). Alguns poderiam esperar que Yahweh começasse seu discurso com ’ãniyhw h. e se recusa a referir-se a Israel como “meu povo”. e sãlah’ que ocorre quatro vezes nesta narrativa de comissionamento (2. Yahweh re­ freia-se em usar seu nome pactuai. (3) a audiência-alvo: a nação de Israel. nem temas as suas palavras. .^’ Os profetas eram primariamente mensageiros de Deus. A afirmação introdutória deste discurso dá a informação que seria essencial para qualquer cerimônia de comissionamento: (1) o nome de quem está enviando: Yahweh. O discurso é aberto com Yahweh novamente se dirigindo ao homem como humano (ben-’ãdãm). homem. “Eu sou o Senhor”.2 . A forma da declaração eu te envio aos filhos de Israel deriva-se do estilo oficial da corte.^' porque^' sarças e espinhos^^ estão contigo. 3.5-6).^® Por conse­ guinte. não os temas. e estás sentado com plantas escorpião.^*porque são casa rebelde. pois são rebeldes. a mais séria acusação que poderia ser levantada contra um profeta era “Yahweh não te enviou” (c f Jr 43.3 -7 O D IS C U R S O IX ) P R IM E IR O C H A M A D O 135 6 Quanto a você. se­ guido de um anúncio formal de sua intenção. Mas por que ele deveria começar assim? Ele já não se apresentou na visão anterior como o Rei divino dos céus e da terra? Somente mais tarde revelará seu nome quando ele citar a fórmula “Assim diz o S en h o r Deus” (v. representa o termo-chave na narrativa do chamado. 7 Mas tu lhes dirás as minhas palavras. No entanto. Não temas as suas palavras. quer ouçam quer deixem de ouvir. 4). uma fórmula que aparecerá mui­ tas vezes no livro. desde o começo pode-se perceber que a aliança está ameaçada. (2) a identidade do mensageiro: Ezequiel.^^ A voz não identificada no versículo 1 (agora entendida como a voz de Deus) havia expressado o desejo de falar com Ezequiel. e a questão crítica no conflito entre os verdadeiros e falsos profetas era quanto a quais pessoas haviam de fato sido comissionadas (sãlah) por Yahweh. nem te assustes com o rosto deles. Qualquer israelita teria reconhecido uma referência dupla ao seu Deus da aliança. Nos versículos 3-7 este desejo é realizado.3-4.

A forma atual é apropriada para um contexto que lida com “pais” que transgridem (v.136 O I. expressa . sugerindo uma mudança deliberada aqui do uso costumeiro que Ezequiel faz de bêtyis'râ’êl. E / f. no entanto. Yahweh refere-se a Israel como uma nação (gôy). denota primaria­ mente “insurgir-se em revolta contra um senhor.^' Neste contexto. aqueles que estão no exílio. em que a palavra descreve a rebelião de Joaquim contra o rei da Babilônia (v. b én êy isrâ ’é l aparece somente onze vezes no livro. 3) e “descendentes” obstinados (v. Ezequiel fornece sua própria ilustração de tal disposição no capítulo 17.-’ Embora a nação houvesse se dividido em dois reinos séculos antes.12-15. Somente em dois outros contextos Ezequiel se refere a Israel por este temio. Israel é uma nação em revolta. lit. Sua audiênciaalvo é identificada inicialmente como os descendentes de Israel {bènê yis'râ’èl. recusar lealdade à soberania de alguém”. O estilo da descrição é repetitivo e desconjuntado às vezes.q u i f i . Sem considerar a fé e a fidelidade de Yahweh.“ Terceiro. que se Insurgiram contra). no século 8°. Assim como indica o capítulo 3.11. O primeiro. sua audiência primá­ ria consiste de somente um pequeno segmento da família. Quando a palavra é usada quanto a esta nação. desta­ cando a não distinção de Israel em relação às outras nações. tende a levar um sentido pejorativo. e em 37.. 15). mas não deixa dúvidas sobre o que Yahweh pensa de Israel. A relu­ tância por parte de Ezequiel quanto a referir-se a Israel como um gôy corresponde ao uso geral do Antigo Testamento. Em 36.IVRO DF. mas unidos como um único gôy guiado por um rei.15 ele fala de montanhas de Israel não mais mal­ tratando seu gôy.22 dos dois gôyim não sendo mais dois “reinos”. “os filhos de Israel”). Dois termos expres­ sam esta qualidade.13. assim como o restante dos profetas. mãrad. e dez das doze tribos tivessem sido engolidas durante o domínio neoassírio. 4). 3-5 Estes versículos em sua maior parte se referem à avaliação que Yahweh faz da audiência à qual Ezequiel está sendo enviado. A expressão afirma que a nação representa uma unidade étnica cujos membros clamaram descen­ dência de um ancestral com o mesmo nome: Jacó/Israel. Segundo. e a rejeição de Yahweh. Israel é somente outra nação “pagã”. que ocorre duas vezes no versículo 3 {rebeldes. Ezequiel continua a usar a designação Israel para todos os remanescentes da nação.

casa rebelde (bêt mèrí.3).’* Se “face endurecida” descreve a manifestação exterior da tei­ mosia. Js 22. . “casa de insubordinação/desacato”. tanto mãrad quanto pãsa^ são seguidos por bí. Três expressões descrevem a teimosia dos israelitas. o que enfatiza o fato que neste caso a revolta é contra Yahweh.38.4. os filhos representam a geração atual em contraste com os pais (c f 20. pode se referir aos israelitas como filhos de Yahweh. O terceiro termo. o segundo termo. “casa de Israel”. lit. cf. O segundo termo. lit. “filhos”) é usada ambiguamente no versículo 4.^® De acordo com Deuteronômio 21. Por outro lado. No capítulo 36.3 -7 O D IS C U R S O D () [’R IM K IR O C H A M A D O 137 a resposta de Israel a seu suserano. com a face endurecida”).” A impressão da nação como uma família é fortalecida pelas referên­ cias a Israel como casa (bayit. lit. Israel é uma família insubordinada.9.2 . e a tua cerviz é um tendão de ferro. bêt yisrã’êl. vs. é outra expressão característica de Ezequiel. A primeira é a insubordinação (qêsê pãním. o significado de qãseh é bem ilustrado por Isaías 48. Nm 14.26 Ezequiel compara tal insensibilidade com “um coração de pedra” (léb ha’eben). quebrar relações pactuais”. transgredir uma lei ou princípio”. lit. No entanto. 5-6). este termo foi prontamente adaptado aos contextos do pacto.18-21. 9).^^ Desde que a grandeza dos tratados de suserania consistiam em estipulações pactuais. prevarica­ ram contra mim (pãsa% significa essencialmente “cometer um cri­ me. A palavra descendentes (bãnim.^^ Em nosso contexto (2. Quarto. e tens a testa de bronze. 5. “duro.18. Dn 9. pãsa'^ é.5. “coração/mente dura”). mãrâ refere-se fundamentalmente à insubordinação das crianças para com os pais. vs. com frequência empregado no sentido derivado de “violar os deveres de um vassalo.21). Yahweh (assim como em 20. obstinado (hizqê lèb.18-29. que preci­ sa ser substituído por um “coração de came” (lêb bãsãr). descreve a dureza interior. 6). Por um lado. Com poucas exceções. portanto. contra mim. um contexto que lida com a recusa de Israel em escutar a voz de Yahweh: Porque eu sabia que eras obstinado (qãseh). que ocorre somente aqui em todo o AT. O sentido da família é tomado em duas expressões. uma palavra que aparecerá mais de oitenta vezes na designação favorita de Ezequiel para a na­ ção.

pelos profetas do século 8» (Am 5. Yahweh não oferece a Ezequiel nenhuma oportunidade para responder as or­ dens. a nuança filial geralmente está presente. 5. 5). que com frequência acompanhava esta ad­ moestação para não temerem. 10. para Bethaven. Mas aqui.5). EzcyuiKL no entanto. Os 4. A primeira vista. Em vez disto. “e lhes dirás: Assim diz o Senhor Yahweh” (v. não temas as suas palavras. ó filho do homem {wê’ attâ ben-’ã dãm) mostra uma mudança de foco da audiência para o mensageiro quando Yahweh começa a preparar seu agente para a difícil tarefa adiante.^’ O sarcasmo envolvido na renomeação que Yahweh faz de “casa de Israel” para “casa da insubordinação” é equivalente à renomeação de Beth-el. recusando ouvir sua voz quando fala. a ordem.15. Yahweh oferece a Ezequiel uma base para a sua segurança: ainda que haja sarças e espinhos para contigo. Mas tu lhes dirás as minhas pala­ vras. imediatamente desafia Ezequiel com respeito à atitude com a qual deve conduzir sua tarefa: não t e m a s . Mesmo assim. Eles são uma família insubordinada.11. e tu habites com escorpiões.*- . (wédibbartí ’e t-dèbãray ’à lêhení) quer ouçam quer deixem de ouvir. O modo que Israel expressa sua teimosia é declarado nas duas partes ao lado. pois são rebeldes.138 O LIVRO IJF.8.“*' está ausente nesta narrativa. a fórmula serve como uma abreviação aos próprios oráculos. 5. As pala­ vras divinas de encorajamento desse tipo representaram elementos padrões nas narrativas do chamado. a promessa espe­ rada da presença divina. Mas a imagem de Yahweh da condi­ ção endurecida é muito realista. assim como em 3.'*® No entanto. Em lu­ gar disto. Esta fórmula de elogio normalmente teria apresentado o oráculo a ser entregue. e rapidamente reduz aquela expec­ tativa. Com cer­ teza.5.^* 6-7 Tu. quer ouçam ou não (vs. este comentário parece sugerir que alguns irão prestar atenção às men­ sagens que Ezequiel entregará. a palavra é usada em um sentido teológico para descre­ ver a obstinação de Israel para com Yahweh. 7). Em contraste aos chamados de Moisés e de Jeremias. “casa de iniquidade”. e chama atenção à pessoa de quem a mensagem vem. O profeta não é livre para escolher a sua audiência ou a sua mensagem. “casa de Deus”. já indicou a ordem exigida dele. No versículo 7 Yahweh especificamente ordena.

e confiar em Deus para a sua segurança. os espinhos e plantas representam a promessa de Deus de um muro de proteção para o profeta. os espinhos. ser surpreendido se rejeitarem sua mensagem.““ No entanto. exa­ tamente onde outras narrativas de chamado tiveram promessas da presença divina para o agente comissionado. assim chamada também por causa de sua aparência de escorpião ou por causar ardor. “espinho”: “Para a casa de Israel já não haverá espinho que a pique {sillôn mam'îr). Tudo que permanece é um sinal tradicional de um profeta .“® Mesmo assim. nem abrolho que cause dor (wéqôs m a k’ib)". independentemente da resposta da audiência. Seu chamado é simples: declarar as mensagens de Yahweh. Por um lado. esta afirmação ocorre na descrição. sallôním. O único prêmio oferecido por seu esforço e sofri­ mento é que quando tudo for dito e feito.“®Por outro lado. talvez refletindo a influência babilônica. e provavelmente nem por intermédio da recomendação de outros profetas. e plantas escorpião não devem ser interpretados como ameaças ao profeta.3 -7 O D I S tU R S O D O P R IM E IR O C H A M A IX ) 139 A raridade das expressões usadas ali faz da interpretação da frase um tanto incerta. Yahweh não oferece nenhuma ilusão de glória.24. seu povo reconhecerá que um profeta verdadeiro {nãbí') esteve entre eles (v. 5). mas como símbolos de sua proteção. sorãbím é entendido como alguma forma de “sarça que causa ardor”. as plantas espinhosas. Não deve desanimar. ocorre somente aqui e em 28. o problema da metáfora misturada e uma longa história de interpretações forçadas é resolvido se for interpretado como outra designação para uma planta espinhosa. A prova disto. em que é conjugada com qôs. Israel é uma casa em revolta contra seu Deus. obviamente. como uma variedade palestiniana de artrópodo. tendo duas fortes garras e um rabo torcido para cima com um ferrão na ponta. Ezequiel não deve.“’ Por conseguinte. Neste contexto. A palavra seguinte. não virá por meio de massas de convertidos arrependidos.2. sorãbím é uma hápax legomena e a tradução sarças é determinada por seu ambiente léxico. tradicionalmente. portanto. Mas qual é o centro da predição de Yahweh que Ezequiel estará entre espinhos e plantas espinhosas? A questão pode ser respondida por dois lados. Mas o que fazer com a “terrível mistura de metá­ foras”“^ criadas pela introdução de escorpiões! ‘^aqrabbím tem sido entendido.

Ezequiel deve estar totalmente aberto à voz de Deus e então agir baseado em suas instruções. e eis que certa mão se estendia para mim.^® 3. dá de comer ao teu ventre e enche as tuas entranhas deste rolo que eu te dou. 3. o que achares^^ come. A VISÃO DO ROLO (2. pois quando atravessar esta cena. vai efala à casa de Israel. e nelá^^ se achava o rolo de um livro.140 O L IV R O D E E z e q u ie l verdadeiro . ele testa a vontade do profeta. 10 Ele o desenrolou^^ diante de mim. 8-10 Aparentemente o versículo 8 parece continuar o discurso de comissionamento divino dos versículos 3-7. O profeta é avisado para não se deixar contaminar pela doença dos israelitas .tudo em cumprimento à sua palavra. abre a boca e come o que eu te dou. 3 E me disse: "Filho do homem. Diferente do povo. abri a boca.^* e na boca me era^’’ doce como o mel. seu mundo e o mundo de seu povo terão sido virados de cabeça para baixo . Filho do homem. talvez uma comida que até achasse . Yahweh não tem em mente aqueles oráculos que irá transmitir ao povo. E quando a palavra do profeta se cumprir.3) 8 "Quanto a você.o cumprimento de suas predições.B-3. que foi fundamentalmente expressa em recusar ouvir a Yahweh. mas as instruções pessoais que se seguem. a introdução Quanto a você. ao menos para algumas das profecias de Ezequiel. e provavelmente contrário à sua disposição atual. Assim que Yahweh termina esta exigência. o que achares come.a insubordinação ao Senhor da aliança.“'’ Mas isto requer uma amplitude cronológica limitada. sem reservas. ouve tudo^' o que eu te digo. Ezequiel é admoestado a ouvir cuidadosamente a tudo que Yahweh tem a lhe dizer. filho do homem. Mas as ligações com a anterior são óbvias na pri­ meira sentença. e estava escrito por dentro e por fora. Neste ponto.1 Então me disse: "Humano. filho do homem {w ê’a ttâ ben-’ã dãm). o caráter de Deus será defendido. que com base no conteúdo e estilo pode ser isolado como uma subunidade separada da narrativa de comissionamento. No entanto.^ Come este rolo. ” Eu o comi. estavam escritas lamentações. Ezequiel estava esperando algum tipo de comida. sinaliza o começo de um novo movimento. nele. ” 9 Então. e ele me deu a comer este^^ rolo. Não te insurjas como a casa rebelde.^ suspiros e ais. O profeta não entende muita coisa. vi. " 2 Então.

é mais frequente. Das três. Mas a natureza especial do rolo é destacada de várias maneiras. lamentação”.“ E então.g.“ e pode ser usado para documentos de muitos tipos. hi é um hápax legomena que a LXX.2. “estrondo.“ Antes.6).9. Primeiramente. Mas o contexto pede outro substantivo. de gll. a tradução comum “rolo escrito” (e. as . a técnica de preparar peles para que recebesse a escrita em ambos os lados foi desenvolvida muito mais tarde. denota o objeto no qual um texto é escrito. “lamento. im­ plicando não somente uma mensagem bem definida. NRSV. pois séper não significa “escrito”. expressiva do murmúrio e som associa­ do com o sofrimento. identifica-se como um rolo enrolado (mêgillat séper). é uma expressão onomatopeica paralinguística. mas completa. provavelmente. signifique “rolo”.** nem Deus permite qualquer espaço para ajustes. no entanto. parece ter confundido com a interjeição hôy (cf Ez 13.S-3. Enquanto o próprio profeta raramente expressa essas emoções em sua mensagem. na frente e atrás. Terceiro. porém. feito de papiro e não de pele. murmúrio”.“ Segundo.^* Talvez esta também seja uma expressão onomatopeica. sem uma referência a seu conteúdo. o verbo. o rolo era totalmente escrito. cuja forma deriva-se dos choros de lamento nos funerais.^' À luz da ordem no versículo 8. Esse rolo era. apresentado a ele com uma das mãos estendida. literalmente. era costu­ meira em rolos de papiro nos dias de Ezequiel. ele percebeu um texto um tanto quanto perturbador. qtnâ.3.18) ou ’ôy (24. desde que este fosse um teste de sua obediência a Deus.. Mais importante ainda. as quais traduzem desastre: lamentos. Kat ovai.*“ pois o papiro era o material mais comum nos tempos bíblicos. NJPS) é improvável. na frente e atrás. a mão obviamente per­ tence a Yahweh. ecoando um choro de dor*’ Essas três expressões de­ terminam o tom para o ministério de Ezequiel.3 A v is â o d o r o l o 141 impura. não recebe comida. é a mais comum no AT. Ezequiel não pode modificá-lo com seus comentários.*’ hegeh. suspiros e ais. Ainda que mêgillat.2 e no Salmo 90. um rolo. após o começo da Era Cristã. com qinâ e hegeh. quando Yahweh desenrolou o rolo diante dos olhos de Ezequiel. mas uma substância repulsiva e normal­ mente não comestível. O substantivo ocorre somente em Jó 37. “enrolar”. cuja natureza é descrita com três palavras. enquanto que a prática de escrever em ambos os lados.

Então. Essa repetição não é uma ingestão em dois estágios. “Come este rolo”. vi {wã’er’eh wêhinnêh. Primeira. “E eu olhei e vi”). e “Vá e diga”. 2a). O destaque da resposta do profeta é igualmente suave (v. 3). mas incondicionais: come o que acha­ res. que é rememorativo do começo da visão inaugural (1.9. por isso. Ezequiel passou no teste sem questionamentos. Este incidente é significante por várias razões. O leitor observará uma nebulosidade nas fronteiras que dividem a visão e a realidade nas visões de Ezequiel. a experiência é real . ilustra a natureza da inspiração profética. A primeira afirmação da ordem de Yahweh é formulada em termos vagos. dá de comer ao teu ventre (beten) e enche as tuas entranhas (mê^im) deste rolo que eu te dou (v. 3. a ordem de comer o rolo representa um teste quanto à prontidão do profeta em servir a Yahweh. Segunda. mas sim um padrão ezequieliano. O profeta obedece fielmente e descobre que o repugnante obje­ to que tem de engolir é como mel ao seu paladar. entra em um tema tratado por Jeremias: . Ezequiel.1-3 A redundância aqui é óbvia.™ O documento em si deve ter consistido de sumários de oráculos que Ezequiel seria chamado a proclamar. descrevem os efeitos dos julgamentos que pronunciará sobre o seu povo. A ordem da palavra hebraica no segundo comando é mais enfática e dramática: Filho do homem.142 O L IV R O D E E z e q u i e l palavras qínâ. ime­ diatamente após 0 aviso para não ser rebelde como seus com­ patriotas. por duas vezes.4). que podem ter aparecido como o título do documento escrito no rolo. Será que Ezequiel realmente comeu um rolo feito de papiro? Ou foi simples­ mente uma experiência visionária? O gênero deste evento é sugerido pela introdução em 2. ordena que o profeta coma o rolo.tão real que o poder da palavra divina impulsionará o profeta por mais de meia década enquanto entrega suas incansáveis mensagens de julgamento a uma audiência endurecida. lit.” De qualquer modo. e as duas vezes o profeta obede­ ce. a combinação das ordens. seguido por uma ordem de ir à família de Israel e começar seu ministério. hegeh e hí. E difícil visualizar o que o profeta está vivenciando. Yahweh.

ele incorporará a mensagem que proclama. Ezequiel experimenta pessoalmente. Assim como as "tábuas dos destinos” (tup simati) dos babilônios. no qual Marduque registraria todos os eventos decretados que se tomariam públicos no ano seguinte. ó Yahweh. Aqui.2.8-3. pois pelo teu nome sou chamado. funcionando como um sinal de sua reali­ dade e poder (c f 24. Terceira. Quarta. ele é ordenado a comer tudo o que Deus lhe oferece. Mas a comida é impressionante . o evento demonstra a natureza do ofício profético. Ezequiel não é um psicopata. mas um homem cheio. Mais do que qualquer profeta.24). o que outros descrevem em imagens metafóricas de palavras. . logo as comi. gritos e ais) a sensação doce deve vir do encontro pessoal e direto com a palavra divina. Assim como uma criança à mesa. Entende-se que os oráculos proféticos foram originalmente entregues oralmente e então num segundo momento foram escritos. o que está escrito está escrito.’^ O efeito parece ter sido intencional.” No entanto. descobre o sabor agra­ dável. Deus dos Exércitos (Jr 15. as tuas palavras me foram gozo e alegria para o coração.3 A visAo tx) Roí.” as palavras de Yahweh são irrevogáveis. Uma vez ingerido.o 143 Achadas as suas palavras. Desde que a satisfação não pode derivar do conteúdo da men­ sagem no rolo (lamentos. um meio divino de suavizar a resistência de Ezequiel ao seu chamado.’“ Este aspecto do chamado de Ezequiel pode refletir um colorido local proposital.a própria palavra de Deus escrita em um rolo de papiro. composto de uma forma fixa e inalterável. Além do mais. nutrido e podero­ so pela divina palavra. Aqui está a chave da autoridade do profeta: ele carrega em seu próprio corpo a Palavra de Deus. esta narrativa fornece uma imagem sem igual do rela­ cionamento entre a profecia oral e escrita em Israel. sua rejeição quanto a esse tipo de comida logo desaparece.16). o leitor teste­ munha o inverso: o texto escrito precede a apresentação oral! O discurso divino é recebido como um texto.

ele me disse: "Filho do homem. 4 O discurso começa com um lembrete dos elementos básicos da tarefa de Ezequiel: dize-lhes as minhas palavras. reflete a contínua hesitação de Ezequiel em aceitar o chamado profético de Yahweh.144 O I. não os temas.''* entra na casa de Israel e dize-lhes as minhas palavras. vai. 11 Eia. ao seu próprio povo. com inúmeros ecos de 2.^^ te dariam ouvidos. mete no coração todas as minhas palavras que te hei de falar e ouve-as com os teus ouvidos. e. o SEGUNDO DISCURSO DO COMISSIONAMENTO (3. porque são casa rebelde 10 Ainda me disse mais: "Filho do homem.3-7. Enquanto o primeiro discurso havia caracterizado os israelitas como rebeldes contra . ele deve deixar a mensagem do rolo digerido sair dele. 1 Mas a casa de Israel se recusará a te ouvir. certamente.4-11) 4 Então. nem te assustes com o seu rosto. A ordem reno­ vada de falar em favor de Yahweh não somente reforça o chamado original. com uma pequena alteração na forma da expressão. fala com eles. contra a sua fronte. Diferente de seu contemporâneo Jeremias. 8 Olhe! Eis que fiz duro o teu rosto contra o rosto deles e dura a tuafronte. porque não me quer dar ouvidos a mim.’’^ [masP^ à casa de Israel.®* 5-7 Estes versículos redefinem a audiência-alvo. Ezequiel não é livre para explorar qualquer meio retórico disponível para sensibilizar o povo ao arrependimento. proibido de acrescentar ou subtrair das palavras que recebe de Yahweh. a menos que as estratégias sejam partes integrantes do oráculo. pois. 9 Fiz a tuafronte como o diamante.** O profeta é.IVRO DK E z k q u ie l 4.’’’ 5 Porque tu não és enviado a um povo de estranho"^ falar’’’' nem de língua difícil. vai^ aos exilados. pois. cujas palavras não possas entender. se eu aos tais te enviasse. pois toda a casa de Israel é defronte obstinadcf^ e dura de coração. A própria voz do profeta deve ser silenciada. Yahweh chama para uma repetição literal da mensagem recebida dele. 6 nem a muitos povos de estranho falar e de língua difícil. mais dura do que a pederneira. Esta forma deliberadamente es­ colhida de expressão prepara o caminho para o confmamento e a mudez do profeta. e dize-lhes: Assim diz o S e n h o r Yahweh A necessidade de um segundo discurso de comissionamento. assim. quer ouçam quer deixem de ouvir.

o segundo enfatiza sua falta de reação para consigo. Yahweh assegura a Ezequiel que o equipará totalmente com os recursos emocionais necessários para o desafio Eis que fiz duro o teu rosto contra o rosto deles e dura a tua fronte.*® A referência é simplesmente quanto à linguagem estrangeira.10. ele se tomará “Ezequiel” (yèhezqéT. Ele os havia resgatado do Egito e lhes declarou: “Eu serei seu Deus. Estrangeiros são pessoas com falas ininteligíveis (Hmqê sãpâ. contra a sua fronte. no versículo 7a Yahweh oferece a Ezequiel um pouco de conforto ao relembrá-lo que: mas a casa de Israel não te dará ouvi­ dos.. Embora Ezequiel se encontrasse em uma terra estrangeira cercado por babilônios.*’ mas não têm relação alguma com gagueira ou qualquer impedimento da fala. é estranha e ininteligível. Este comentário é relacionado com 2. Primeiro. as quais Ezequiel certamente encontrou. 8-9 Em segundo lugar. “pesado de língua”). que resiste à Palavra de Deus. Segunda. lit. definido aqui em termos de linguagem.de fronte obstinada e dura de coração (hizqê mesah úqèsê lêb). lit. e vocês serão meu povo”. mas a maneira vil como eles desprezaram sua graça se tomara intolerável. que conhece a linguagem da revelação e as tradições da graça salvadora e pactuai de Yahweh. porque não me quer dar ouvidos a mim. Mas é 0 seu próprio povo. o rejeitar o profeta acontece primeiro como uma rejeição de quem o enviou. os israelitas são descritos como pessoas duras . Primeira. de duas maneiras. pois não há evidência de ser este o caso. De fato.3.4-1 I O S E G U N D O D IS C U R S O IX ) C O M IS S IO N A M E N T O 145 Yahweh. Se os israelitas rejei­ tam Ezequiel.4. Estas ex­ pressões idiomáticas lembram as desculpas de Moisés em Êxodo 4. eles estão também rejeitando a Deus. deve-se in­ terpretar esta afirmação à luz da aliança graciosa de Yahweh. Embora nenhum comentário sobre esta noção seja dado.*’ Esta resposta antecipada pede uma preparação especial. com muitas va­ riações estilísticas. “Deus endurece”) no sentido . Se ele fosse um missionário teria uma grande colheita pelo seu trabalho. Yahweh os compara com pessoas fora da casa de Israel. como o acadiano e o aramaico. E isto também não quer dizer que outras línguas. o seu chamado não é no campo de missões estrangeiras ou de um ministério transcultural. eram mais guturais que o hebraico. “profundo de lábio”) e linguagem difícil (kibdê lãsôn.'^ Em vez de endurecer-se contra Deus.

uma forma coríndon (substância química que contém óxido de alumínio).146 O LIVRO DK E z EOUII:L completo do nome. As referências anteriores à “casa de Israel” podem ter deixado aberto a possibilidade do retomo de Ezequiel a Jemsalém e ao ministério entre o povo que lá ficara. seu alvo é uma audiência composta de seu próprio povo. Por que deveria al­ guém gastar energia com aqueles a quem Yahweh havia obviamente rejeitado (cf 11.Por que os judeus não eram os únicos exilados na Babilônia. pela primeira vez a audiência do profeta é especificamente identificada: eles são os exilados (haggôlâ). tem fortes implicações à majestade. e tinham acesso ao templo. Hu­ manamente falando. emocionalmente destruído. e aqui é descrita como pederneira. Yahweh compara a característica de sua fronte com um abrasivo (sãmír). os próprios compatriotas de Ezequiel. 10-11 O comissionamento que Yahweh faz de seu mensageiro se conclui com um breve discurso. a mais dura substância conhecida na época. e serve para distinguir o gmpo de outras pessoas ao seu redor.^' Esse endurecimento divino transmitiu um desafio realístico de Yahweh a Ezequiel para que não temesse ou estivesse amedrontado {têhat). aqueles que ainda estavam em Jemsalém. A frase bènê ‘^ammekã. As expressões mete no coração (qah bilébãbèkã) e ouve-as com os teus ouvidos {úbé’ ozneykã sèma^) representam uma equivalência verbal da anterior comer do rolo. Para enfatizar o grau superlativo do endurecimento. No entanto. A unidade é encerrada com um lembrete final que o profeta deve anunciar a palavra de Yahweh ao seu povo literalmente. indicado por uma nova referência direta do profeta no versículo 10. pela rea­ ção rebelde de sua audiência. dois avanços são feitos. sob o reino davídico. .15-21)? Mas a ordem no versículo 11 é direta: Vá aos exilados^. e que não deve ser afetado pela reação dele. Yahweh relembra Ezequiel que não está sendo enviado aos estrangeiros. no entanto. Primeiro.toda a palavra.’^ Esse curto parágrafo exige do profeta um compromisso de trans­ mitir a palavra de Yahweh . Muitas das ideias levantadas an­ teriormente são reiteradas nos versículos 10 e 11. literalmente “filhos de seu povo”. ofereciam maior potencial para a recuperação da nação nessa hora crítica.

a preparação primária ocorreu no capítulo 1. o ministério pode ser um fardo. Quanto menos evidente o fmto do ministério de uma pes­ soa. quem servir como um mensageiro de Deus deve reco­ nhecer que o chamado vem de Deus somente.4 -1 1 ♦ O S E G U N D O D IS C U R S O D O C O M IS S IO N A M K N T O 147 Implicações teológicas Se a narrativa da visão inaugural de Ezequiel fomece ao leitor lições importantes sobre Deus.7 . o caso de Ezequiel.4 . Mas o profeta primaria­ mente dá contas a Deus e à palavra divina. A menos que o servo de Deus entre no serviço divino com um sentimento de temor diante do privilégio de representar o glorioso Rei dos céus e da terra. Além do mais. 3 . as personalidades dos agentes de Deus dão cor à maneira na qual o chamado é cumpri­ do. nem os dons de oratória. .4 . e a menos que alguém seja convencido da soberania de Deus sobre toda a terra e toda a história humana.1 0 ) .3 . três vezes o profeta é intimado a falar “minhas palavras” ( 2 . a narrativa do comissionamento ofere­ ce informações vitais sobre o relacionamento entre Deus e aqueles a quem chama para o serviço. Embora Yahweh preparasse Ezequiel para o seu ministério ao endurecê-lo na mesma medida do endurecimento de sua audiência. escolhe o campo de serviço.especialmente quando a oposição é forte e o fmto é ausente. Quarto.1 1 ) . ele serve como um modelo para todos que se levantarem na presença do Senhor e todos que entrarem em seu serviço. Sem uma firme convicção do chamado de Deus o ministério pode ser a mina de alguém . Para ter certeza. quem servir como mensageiro de Deus deve primeiro ter uma visão clara daquele que o envia. nem quaisquer qualificações exter­ nas autorizam alguém a entrar no serviço divino. quem servir como mensageiro de Deus deve ser re­ vestido pelo Espírito de Deus. Primeiro. fomece a mensagem. mais cmcial é a certeza do chamado. 3 . Este foi. Nem a necessidade do campo. o Deus que escolhe seus servos também define a tarefa. Terceiro. Animado e capacitado pela infusão do Espírito Santo de Deus. Ezequiel era “o profeta do Espírito”. e assume a responsabilidade pelo resultado. Segundo. certamente. Duas vezes a palavra de Ezequiel é rotulada “Assim diz o S e n h o r Yahweh” ( 2 . quem servir como mensageiro de Deus deve ser inspi­ rado pela mensagem de Deus.

duas vezes lhe é dito para ouvir o que Deus tem a dizer (2. abalado. .na verdade eleva e melhora essas qualidades. Mesmo assim. De fato. ou de uma reflexão mística. 3). 14 O vento me pegou e me levou. A PREPARAÇÃO DE EZEQUIEL: SEU RETORNO À OBRA (3.1. Meramente ouvir a mensagem não é suficiente: ela deve ser digerida. incorporada e vivida. Cada aspecto do serviço vocacional permanece sob o controle so­ berano de Deus. assume responsabilidade por prepará-los para aquele determinado trabalho. Quando ele determina uma tarefa. Deus está ciente dos desafios que seus agentes enfrentarão. Sexto.148 O LIVRO de E z e q l íie l três vezes lhe é dito para ingerir a mensagem divina. Além do mais. os dons são dados com base na tarefa.8. Ali. por sete dias. enquanto a glória de Yahweh se levantava' do seu lugar . 3. especialmente os resultados. Quinto.12-15) 12 Então. Por conseguinte. a mensagem dos representantes de Deus deriva não de um raciocínio ou lógica particular. O mediador se toma a mensagem. Este privilégio em si deveria fornecer motivação suficiente para um ser­ viço incondicional. assentei-me. a qual deve proclamar (2. um vento me tomou. internalizada. mas da revelação.13 o tatalar^ das asas das criaturas. eufui amargurado*' e profundamente perturbado. D. no meio deles. mas a pressão da forte mão de Yahweh estava sobre mim.^ onde'" habitavam. quem servir como mensageiro de Deus será divina­ mente equipado à altura do chamado. um sucesso aparente não é prova do chamado. nem mesmo um cri­ tério certo pelo qual devamos medir a fidelidade. que locavam umas nas outras.'' 15 Fui ao canal do rio Quebai^ —a Tel-Abibe.10). a “inspiração” pro­ fética não anula ou sobrepõe as qualidades e habilidades naturais .'' e o barulho das rodas juntamente com elas — o som de um grande^ terremoto. quem servir como mensageiro de Deus deve reconhe­ cer que 0 chamado não é para o sucesso. e ouvi por detrás de mim um som de um grande terremoto. mas para a fidelidade. O mensageiro embarca em sua missão como um emissário do Rei divino. mas ao contrário. 3.8. o chamado de Deus para o serviço não é feito com base nos dons.

“na visão. aparentemente como um pedaço de papel levado pelo v e n to . Embora elas tenham diferenças significantes em natureza e conteúdo.16-21.12-15 ♦ A PREPARAÇÃO d e E z e q u ie l: se u r e to r n o ã o b ra í 49 Natureza e desígnio A narrativa do comissionamento formal de Ezequiel é seguida por três pequenas subunidades (3.24 fala de Ezequiel sendo transportado de Jerusalém b a m m a r’eh bérúah ’èlõhim . (2) A parte central é ligada mais de perto com a visão. as criaturas. No entanto.1. particularmente as referências à glória de Yahweh.1-3.5). A primeira subunidade (vs. Por exemplo. aqui o profeta sofre uma ação externa.12-15. apropriadamente liga temas de ambas visões inaugurais (1. elas refle­ tem 0 objetivo do editor de fornecer ao leitor um entendimento com­ pleto do contexto e da natureza do ministério do profeta antes que os oráculos se iniciem.11).A ausência de artigo (como espírito/ vento”) e o emprego de formas verbais femininas neste texto e em contextos relacionados parecem apoiar esta visão (cf 8.2) agora toma seu corpo e o leva para outro lugar.1 -28a) e o comissionamento (1. 11. Os dois últimos textos são também unidos editorial mente à narrativa do chamado.28b-3. e as rodas.” O espí­ rito/vento que havia entrado nele. 24. mas o interesse em integrá-los é reduzido. e o colocado em pé (2. Aqui rúah ’èlõhim poderia ser traduzido como . que leva a narrativa do chamado a uma conclusão ao responder o capítulo 1.'^ E textos posteriores também demonstram que este não é um vento comum. Os versículos 14 e 15 apresentam o cumprimento dos versículos 10 e 11. es­ ses focos são agora invertidos.3. (1) Os versículos 12a. 14-15a fornecem uma estrutura da narrativa descrevendo a mu­ dança do profeta ao seu lugar de ministério. anteriormente. 43. 12-15). sua aparição entre os exilados (haggôlâ). cujas asas tocam umas as outras. isto é. Em contraste à atividade poderosa interna de rúah em 2. apresentando o auditório somente de passagem (1. Este parágrafo contém três elementos principais.22-26). (3) A afirmação conclusiva oferece ao leitor uma rara visão dentro do estado mental do profeta. onde o capítulo 1 havia se concentrado em impressões visuais.24-25). por um espírito/vento divino”. 11. 12 A cena abre com Ezequiel sendo elevado por um rúah.2.1. Estes comentários estão conectados muito de perto à narrativa do comissionamento.

tirando-o de sua experiência visionária.”. A leitura é proble­ mática por muitas razões: (1) A construção mimméqômô. mas é de difícil paralelo. Hitzig propôs que o TM bãrúk. que tem a mão de Yahweh tomando o profeta para fora do vale dos ossos secos bèrúah yhw h.21 oferece a analogia mais próxima.150 O L IV R O D E E z e q u i e l “o Espírito de Deus”.'’ No entanto. mas pela observação de 1.” Além do mais. 14) e vindo (v. “pelo Espírito/vento de Yahweh”. 1. Ezequiel sente estar sendo tomado por um vento de Yahweh. “de seu lugar”. 15). Ao virar-se. . Um século e meio atrás. em nenhum ponto Ezequiel descreve suas próprias respostas verbais às revelações teofônicas.1. Nesta frase idiomática. qualquer desenvolvimento sobre este som deve comunicar ruído. (3) O locutor não é iden­ tificado. “Bendito seja . em Ezequiel ’élõhim geralmente funciona como um apelativo em vez de um nome próprio. Alguns têm sugerido ser o próprio profeta. no qual o vento parece usado como seu agente de remoção.'’ mas isto reque­ reria. “como se levantou”. Esta interpretação não é contrariada em 37. .'’ (2) Desde que em outras partes as “bênçãos” sempre ce­ lebram os feitos salvíficos/beneficentes de Yahweh. Como já foi observado. representava uma corrupção escribal de bêrúm.'* uma doxologia é inesperada e fora de lugar neste contexto. . observa a glória de Yahweh se levantando do chão. “Bendito o seu glorioso nome”. é complicada vindo após uma doxologia. (4) Uma doxologia dirigida para a “glória” é sem precedentes.19. A ana­ logia mais próxima é encontrada em bãrúk sêm kébôdô. Ezequiel ouve o som de um grande abalo atrás de si. 15) e sentando (v. bãrúkyhw h m i^íyôn no Salmo 135. Mas este uso está ligado com “nome” em vez da teologia kãbôd.C. desde que todas as versões con­ cordam com o TM. mas descreve a si mesmo como indo (v. no Salmo 72..'^ (5) Após o aviso do som estrondeante de um terremoto. não um discurso claro. pois reconhece neste ponto uma exclamação doxológica espontânea. De qualquer modo.'“ Enquanto é carregado. aparentemente levando-o de volta à realidade. Deus/ Yahweh é entendido como estando mais diretamente envolvido que no atual contexto. o erro deve ter ocorrido antes do 2» século a. “E eu exclamei/disse.. nosso texto é distinto em observar tan­ to a atividade de rúah sobre Ezequiel quanto sua própria ação. meu entendimento do versículo 12b se distância do entendimento textual tradicional.

4.5). 14-15 Estes versículos descrevem o vento pegando Ezequiel e carregando-o até Tel-Abibe no rio Quebar.^^ Por outro lado. antes da adoção da escrita aramaica quadrada.1) é tida como uma memória viva até o retomo dos exilados (Zc 14. Mas as asas não são a única fonte do mído. Se Ezequiel conhecia o som de um terremoto é algo que só podemos especular. 0 erro foi provavelmente feito muito antes que isto. aqui é o próprio kãbôd que está em movimento.1 -3. popularmente entendido como o dilúvio primitivo. antes da chegada dos judeus. A frase denota um monte de minas.3.24 havia comparado o som das asas das criaturas batendo com o som de corredeiras de águas. Além disto. onde os exilados residiam. no escrito cursivo arcaico que o precedeu. No entanto. como um tropel de um exército. ele pode ter reconhecido o ruído de uma experiência de primeira mão. uma escrita obscura ou um m do estilo antigo poderia ter sido facilmente confundido com um k}^ E aceito que a narrativa teofanica de abertura havia descrito de forma consistente o movimento vertical do trono-carruagem com nãsã’em lugar de rúm. Por um lado. Um adminis­ trador babilônico havia provavelmente designado esta região para os judeus para que reconstruíssem a economia local. De acordo com 1. Mas a remoção de Ezequiel de volta ao canal do Quebar levanta um problema. a voz de Shadday e o estrondo tumultuoso. Enquanto é difícil ver como algum escriba teria confundido um m fínal em lugar de um k neste escrito. e rúm é usado para descrever o movimento de kãbôd yh w h no capítulo 10. o girar das rodas acrescenta ao efeito aural. a memória do tremor que atingiu Judá durante o reinado de Uzias (Am 1. “monte de inundação [sujeira]”.^^ Ainda que Tel-Abibe traduz-se literalmente como “monte dos fhitos da primavera”. aqui a metáfora é mudada para um grande terremoto. como um topónimo mesopotâmico é derivado de til abúbi.^'* Este nome deve ter sido usado aqui quanto à consequência da destmição caldeia da região vizinha a Nippur. nãsã’ só é usado para o trono-carruagem no capítulo 1. rúm pode ter sido escolhido como uma variação estilística. esta objeção pode ser respondida ao observar-se que desde que nãsã’]á fora usado no versículo.12-15 A p re p a ra ç A o d e E z e q u ie l: se u r e to r n o à o b ra 151 De fato. pelo fato de sua terra natal ficar junto ao instável vale do Jordão onde os movimentos do solo não eram incoinuns.^' 13 Enquanto o capítulo 1. a visão divina e o chamado vieram .

O fato de o livro de Ezequiel conter 31 ocorrências de hêmâ. das 85 em todo o AT. substitui a emoção psicológica de ira por um impulso espiritual. “amargura de alma”. A necessidade do retorno é compre­ ensível somente se a superscrição “no canal do Quebar” for interpreta­ da como uma designação geral para a área onde os exilados residiam. a palavra sempre significa “raiva.^“ No atual con­ texto. Ezequiel está profundamente perturbado.^* Segundo. “mente. reflete o tom geral de seu ministério. Presume-se que estava sozinho naquela hora.31 A escolha destas palavras apresenta um contraste intencional entre o humor do profeta nesse momento e a sensação que havia apreciado após comer o rolo (cf mãtôq.152 O L IV R O D E E z e q u i e l a ele enquanto estava no canal. no entanto. prova­ velmente em algum lugar fora da vila. Os moradores encontrariam um mensageiro de Deus que pertencia ao seu próprio povo. os versículos 14-15 oferecem uma significante janela para dentro de sua mente e coração. a vila onde esta comunidade exílica vivia. “estar amargurado”. O uso de hêm â no restante do livro e os requerimentos do contexto atual deter­ minam o significado de hãm atrúhi. ira” (geralmente paralelo com ’ap). “na paixão do meu espírito”. coração”. Primeiro. que ocorre com frequência no AT. no entanto. é mais provável. A localização precisa deste chama­ do não é dada. Têm-se proposto uma conexão entre o uso que Ezequiel faz de m areo ugarítico mrr.25. Para um profeta que não externa muito seus sentimentos.-® A palavra. òpuri xm) Tiveúixaxóç jiot). funciona como uma abreviação para mar nepes.” Eles não teriam vivido necessariamente na margem do canal. especial­ mente a parte inicial. exceto por 23. descreve a si mesmo como amargurado (mar).” A tradução da LXX de hãm at rúhi. literalmente “irado em meu espí­ rito”. o lugar da atividade emocional e mental. prova­ velmente. a palavra sempre se refere à ira divina. fortificar”. nem a descrição requer que a visão de Ezequiel e sua comissão ocorreram enquanto estava ao lado do canal. a emoção é aplicada ao rúah do profeta. a localização de seu ministério é especificamente identificada: Tel-Abibe. Entretanto. mas a derivação tradicio­ nal de mrr. inclusive em Ezequiel 27. 3.3). Em outros pontos em Ezequiel. faz sentido interpretar a frase em seu significado normal: Ezequiel está enfurecido pela imposição divina sobre sua vida . “doce”. que se entende melhor no contexto como uma alternativa a lêb. “fortalecer. Neste caso.

fisicamente exausto e emocionalmente conturbado. que descreve o estado emocional do profeta. Em vez de oferecer consolo ao profeta. por sete dias. choque. expressa explicitamente o que temos visto ser implícito na narrativa até este ponto. Por conseguinte. O profeta de fato compartilha alguns dos comportamentos relutantes de seus com­ patriotas. contra a mensagem que haveria de pregar. desespero.socialmente proscrito. é um homem sob as .3 . em que a raiz carrega o mesmo sentido. Yahweh continua a pressionar o profeta com sua forte mão. “amargurado na excitação do meu espírito”. Ezequiel estava abalado. pois já estou de posse das tuas ameaças” (Jr 15. aterrorizado”. baseado em Esdras 9. e este é seu problema. no meio dos exilados masmím. Por uma semana teve uma luta interna com Yahweh. O que pode ter passado por sua mente durante esse tempo é pura especulação.“ O encontro com Deus. contra seu chamado. estresse. Para ser usado por Yahweh ele deveria se afastar de seus compatriotas. esse distanciamento do profeta de seu povo. S EU R E T O R N O À O B R A 153 e suas implicações da comissão sobre si. Não importa como era o relacionamento do profeta no passado com o restante dos exilados. resistindo ao chamado de Deus.^' Esta interpretação é reforçada pela afirmação seguinte. oprimido por tua mão. Nenhum nem outro trata a forma como um superlativo absoluto Hifil ou como um Poel particípio. Dessa maneira. Terceiro. desolação. mas a visão do profeta sentado entre seus compatriotas lembra uma das “confissões” de Jeremias. mas sentindo a constante pressão da mão de Deus. A narrativa termina com a figura de Ezequiel sentado.17). nem me regozijei. “estar desolado.^^ Esta pala­ vra deve ter sido escolhida intencionalmente por causa da amplitude de nuanças que invoca: silêncio. Mas Ezequiel não se senta sozinho. a frase m ar bahãm at rûhî. está separado. e a pressão da mão de Yahweh sobre Ezequiel o deixaram em um estado desprezível .5. O Hifil intransitivo desta raiz aparece somente em Jó 21. eu me assentei solitário. essa separação. não era fácil. seu contemporâneo: “Nunca me assentei na roda dos que se alegram. No entanto. o endurecimento de sua testa. ele se sentou no meio de seus companheiros de exílio por uma semana. ou prometer sua presença. a digestão do rolo. o som do trono-carruagem. a chamada para ir e pregar para uma audiência não responsiva.3-4. A palavra é formalmente analisada como um particípio Hifil de sãmém.1 2 -1 5 A p r u p a r a ç Ao DE E z e o u ie l . uma vez que se submete.

mas você salvará a sua própria vida.16-21 no contexto literário atual tem sido questio­ nado por várias razões. No fmal."^ isto é. se você não falar para avisar o ímpio^ homem a converter-se de* seu caminho ímpio' para salvá-lo.” E.16^0 final de sete dias a seguinte mensagem de Yahweh veio a mim: 17 “Filho do homem. ‘ 18 eu disser ao ímpio. Quando você ouvir uma mensagem da minha boca você deve avisar o povo a meu respeito. ele emerge como um conscrito para o reino de Yahweh. em termos de gênero. mas eu o responsabilizarei por sua morte. eu te designei como um atalaia sobre a casa de Israel." por sua iniquidade. O DISCURSO DE APRESENTAÇÃO DE YAHWEH PARA EZEQUIEL (3. A partir daqui o povo não poderia esperar ócio ou uma conversa mundana da parte dele. ‘Você certamente morrerá!'e você deixar de avisá-lo^ . mas eu o responsabilizarei por sua morte. mas espiritualmente agiria em outro mundo. de seu caminho ímpio. Seu chamado ao ministério profético não era somente um convite para ser um arauto da glória do Deus de Israel. e evite o pecado. um homem totalmente possuído pelo Espírito de Deus.'* 19 Quanto a você. o homem reto. e eu colocar um tropeço diante dele —ele morrerá. alienação e desolação. '*para que não peque. por causa de seu pecado morrerá (e suas ações retas'^ que fe z não serão lembradas). se avisá-lo. mas ele não se converter de sua impiedade.154 0 LIVRO DE E z e q u i e l ordens de Deus. completamente diferente do estilo dos discursos divinos nos . Fisicamente.^ aquele homem ímpio' morrerápot^ sua iniquidade.salvo a sua própria vida". Primeira.'^ e você terá . se você avisar o ímpio. envolvia também uma sentença para uma vida de solidão. Desde que você não o avisou. 20 E quando um homem reto se converte de sua retidão'^ epratica o mal. ele certamente viverá'^ porque foi avisado.isto é. deve morrer. ♦ Natureza e desígnio O lugar de 3. 2 1 Mas você.16-21 ) 3. vivia entre seu próprio povo. a fórmula palavra-evento no versículo 16b identifica isto como um oráculo formal de Yahweh. uma zona gover­ nada pelas realidades divinas.

^' A primeira mensagem diz respeito a uma sentença de morte ao povo.'* Quinta.1-9 são consideráveis. Quarta. O versículo começa naturalmente com o aviso temporal. a conformidade estilística com os versículos precedentes não é exigida.16-21 e 33. e anexando-o ao fim da narrativa do chamado. Afinal.3. Segundo.^ de­ signado talvez para melhorar a imagem do profeta. de onde são tomados os te­ mas de um oráculo anterior.1-9.10-20). Além disto. e uma reaplicação deste texto. Quarto. expandidos e adaptados numa data nova para se apropriar a uma nova situação. a semana de silêncio o preparou para uma responsabilidade mais bem explicada.wayèhiozoxxe somente aqui no livro de Ezequiel. os dois textos do atalaia funcionam como “apoios de livros”” ao redor dos oráculos de julga­ mento do profeta. os dois textos representam um dos inúmeros exemplos do padrão típico ezequieliano de “reinicio”. o editor enfatizou a responsabilidade de Ezequiel para com Yahweh. a relevância desta subunidade no contexto atual se toma óbvia no momento que se reconhece que toda a narrativa do chamado é dirigida por uma determinação divina para recmtar um .16-21 O D IS C U R S O D E a p r e s e n t a ç ã o DE Y a h w e h p a ra E z e q u ie l 155 versículos precedentes.16-21. a segunda apresenta a possibilidade de arrependimento (cf 33. À luz dessas considerações. a narrativa fluiria suavemente do versículo 16a até o versículo 22. não se pode desconsiderar de imediato a originalidade do argumento atual. De fato. De fato. as diferenças entre 3. a dura sequência wayèhi. e mais óbvio. No entanto. a ligação com o material precedente é estra­ nha. não é de surpreender que a maioria dos eruditos trate esse parágrafo como uma inserção secundária.1-9 e o capítulo 18. a passagem é duplicada numa forma expandida no capítulo 33. esta chamada. Terceiro. Segunda. mas é seguido imediatamente por outra fórmula introdutória. que alguns consideram um segundo comissionamento.1-9 represen­ tasse uma expansão de 3. Ocapítulo 3. . . se os versículos 16b-21 fossem re­ movidos. E como se 33. a narrativa prosaica anterior abre caminho a um estilo semilegal (ver adiante). este evento ocor­ reu sete dias após as experiências anteriores. Ao misturar o material de 33.1-9 é para ser proclam ada para o povo.16-21 foi tirado de um contexto posterior e artificialmente inse­ rido aqui. a mensa­ gem do atalaia em 33. aparece redun­ dante após a antecedente.16-21 é uma mensagem particular para o próprio profeta.” Terceira. Primeiro. sendo que 3.

Longe de melhorar a imagem de Ezequiel. “vida”. . então . 18. assim como mãwet.^® A linguagem pesada emprestada da Torá Mosaica determina a marca para o próprio estilo de Ezequiel.19). “morte” e hayyâ. “Ele viverá!” (v. “ímpio”. A estrutura formal. “Seu sangue de sua mão eu buscarei” (vs. até que a paciência de Yahweh acaba. O vocabulário de culpa ( ’à wõnô. A forma casuísta. . O gênero e a estrutura do capítulo 3. 4. 18). traçadas com sentenças pronunciadas por um juiz: m ôt tãmât. h ü ’rãsã“^ ba^àwônôyãmút. este discurso é formal e propositadamente escrito. . dãmô miyãdékã ’ãbaqqês. vs. emprestados das tradições legais de Israel.^^ 3. ainda que a referência inicial seja feita para a “casa de IsraerV^ 5. que se senta ali por sete dias. . em estilo e propósito podese descrevê-lo como um pronunciamento semilegal. 2.”. 18). baseada em quatro casos hipotéticos. Os seguintes ele­ mentos.20). contribuem para esta impressão do texto: 1. Em contraste com os pronunciamentos de Yahweh na narrativa de comissionamento. “reto”. hãyôyihyeh. 18. familiar de casos legais bíblicos e extrabíblicos.^“ 6 . Apesar disto. o estilo legal sugere que isto é planejado como uma indução formal de Ezequiel . que haviam aparecido com frequência desconjuntados. o tom severo deste discurso e seu aviso brutalmente direto para não evitar responsabilidades profissio­ nais confirmam a realidade dos versículos 14-15: Ezequiel é um ho­ mem teimoso. cada um deles descrevendo diferentes respostas humanas e suas consequências. O uso do singular em vez do coletivo. e saddiq. Além dos comentários introdutórios. Isto não é surpresa alguma dada a herança sacerdotal de Ezequiel.^* 7. “Quando/Se .0 estilo das declarações de responsabilidade. “Aquele homem ímpio deverá morrer por sua iniquidade” (v.16-21 merecem um comen­ tário mais profundo. 21). Ajustaposição das expressões como rãsã'^. “Você morrerá!” (v. o parágrafo consiste inteiramente de um único discurso divino.156 O L IV R O D E E z e q u i e l homem que resiste ao chamado para um ofício profético. A forma das decisões. De fato.

no entanto. O substantivo sõpeh deriva-se de uma raiz comum. Embora a fórmula pala­ vra-evento introdutória no versículo 16b dê ao discurso de Yahweh um sabor de oráculo. De fato. a determina­ ção do tempo na abertura convida o leitor a interpretar o ministério total do profeta com base na narrativa precedente. este dis­ curso pode considerar a seriedade com a qual Ezequiel seguiu seu chamado. Ezequiel teve uma semana para se re­ cuperar do choque de sua conscrição ao serviço divino. que se coloca como o inimigo. Ezequiel é designado por alguém externo.1-6. Yahweh vai direto ao ponto: Eu te designei como atalaia sobre a casa de Israel. 16 Ao fm a l dos sete dias. que costumavam designar oficiais de dentro da comunidade e fazer advertências com base em suas próprias observações. tam­ bém dita a natureza e o tempo {quando você ouvir) dos alarmes.^’ é muito evidente que esse oráculo é para ingestão particular do profeta.3. A posição de Ezequiel com o dever de sentinela se descreve como uma escolha divina (nãtan). Ele tem sete dias para refletir sobre seu chamado e se preparar interiormente para as suas novas responsabili­ dades. Yahweh. Por um lado. com o papel do profeta comparado com o de uma sentinela. a observação do tempo leva o leitor a pen­ sar sobre a distância cronológica entre o discurso da sentinela de Yahweh e o comissionamento anterior. Muitos em Israel teriam achado esta ideia assustadora. Yahweh.-’ O papel de estratégia de defesa do atalaia no Oriente Próximo é melhor ilustrado pela parábola apresentada de forma completa no capítulo 33. Além do mais. vigiar”. agora deve estar pronto para outra experiência profética. “fílho do homem”). O discurso é construído de maneira muito criativa como uma longa metáfora. ben-’ã dãm (lit. Pessoas escolhi­ das para o serviço de sentinela ficavam geralmente localizadas em .^^ Deixando de lado as convenções militares. ao unir o discurso da sentinela de forma cronológica à narrativa precedente. 17 Seguindo a referência direta do profeta. Atalaia. Por outro lado.16-21 O DISCURSO DE APRESENTAÇÃO DE Y a h w e h PARA E z e q u ie l 157 para o ofício profético. observar. Antes que comece seu ministério. sig­ nificando “estar atento. O Deus de Israel é o perigo contra quem o povo deve ser avisado! Ele está vindo como juiz para passar a sentença de morte sobre seu povo. Yahweh formaliza sua instalação com um discurso objetivando imprimir nele sua respon­ sabilidade pastoral.

porém. Esta chamada formal para servir como sentinela é apropriada para Ezequiel não somente por causa da tradição se referir aos profe­ tas como “vigias” (rõTm) que “cuidavam” das nações. profeta do século 8®. No fmal. eles tocariam a buzina (sõpãr). se rebelou (mãrâ) contra os meus juízos (mispãtím). Deste. sob ataque dos babilônios (ver 7. um termo amplamente usado no AT para denotar “ímpio. Os dois primeiros casos referem-se ao acusado como o ímpio (rãsã^). consistia principalmente em soar o alarme para seu próprio povo. O contemporâneo de Ezequiel.158 O I. Isaías 56.19.24). porque re­ jeitaram os meus juízos (m ã ’as) e não andaram nos meus estatutos (lõ’ hãlékú bõhem)".3-6). consciente do que fazer. o que era an­ tigo em Israel (ver 1Sm 9.^‘ As 37 ocorrên­ cias da raiz em Ezequiel representam uma frequência mais alta do que em qualquer livro profético. ou torres fora da cidade (2Rs 9. então. colocando os soldados em prontidão e os civis para se esconderem (Ez 33. Fundamentalmente. E z h q u i e i .5.27). e se refere a ela em 5.6. soou a trombeta repetidas vezes para o seu povo (Jr 4. e telhados de guaritas dos portões (2Sm 18.1. dizendo: Estai atentos ao som da trombeta {sôpãr)\ mas eles dizem: Não escutaremos”. mais de dois terços são encon­ trados nesta passagem e nos capítulos tematicamente relacionados: 18 e 33. 51. faz esta identifícação no capítulo 9.C. O signifícado da raiz é bem ilustrado em 5.1.10 refere-se às sentinelas cegas. em Ezequiel rãsã‘^ . torres de vigia estrategicamente colocadas nos muros da cidade..9). Mas a descrição de Ezequiel se aproxima de Jeremias 6.8 e 8.IVRO DF. visionários que estão dor­ mindo. Diante de um ataque iminente. antes de 586 a. 18-21 O peso que Yahweh coloca sobre Ezequiel é apresentado por intermédio de quatro cenários hipotéticos. mas especialmente porque seu ministé­ rio.17).^® A responsabilidade dos atalaias envolvia prestar atenção cuidadosa aos movimentos do inimigo. vilão”. o aviso não chamaria a atenção e Jerusalém cairia. nos quais ele pede o soar da buzina. que contém a única forma verbal (infinitivo construto): “Ela [Jerusalém]. Mas Ezequiel não foi o primeiro a definir o ofício profético em termos de uma sentinela.1-27). provavelmente profetas falsos e negligentes.17: “Também pus atalaias {sõpim) sobre vós. 21.8. praticando o mal mais (léris‘^â) do que as nações e transgredindo os meus estatutos (huqqôt) mais do que as terras que estão ao redor dela. Oseias. criminoso. 6.

Pode. manter a sua vida. “retidão” (Dt 24.^® O contraste será evidente nos casos hipotéticos que se seguem.^.1 6 -2 1 O D IS C U R S O D E A P R E S E N T A Ç Ã O D E Y ahw eh PARA E z e q u ie l 159 denota um “ímpio”. E você deixar de avisá-lo.6). O justo (saddiq) representa o polo oposto de rãsã‘^. . mas a resposta do profeta ao comando divino. 18. Mq 6.^’ Embora a oportunidade de arrependimento do acusado seja colocada em outro ponto no livro (14. e seu aviso foi rejei­ tado.6.6 pede a pena de morte. Isto é evi­ dente não somente do contexto atual. a culpa de assassino.” que para Israel eram definidas nas estipulações do pacto de Yahweh (ver 5. saddiq é alguém que tem muito respeito por Yahweh e expressa esta disposição ao se mol­ dar alegremente com as estipulações do pacto. 19 0 segundo caso é idêntico ao primeiro. Assim como as ações de Yahweh apoian­ do os relacionamentos são chamadas de seus “justos atos” {sidqôt yhw h\ ISm 12. A raiz sdq representa uma terminologia judicial de tribunal.7. portanto. isto é.” Se rãsã‘^ é alguém que rejeitou o pacto e o Senhor do pacto. desde que a sentença não seja primariamente o destino do ímpio.30-32. relacionando-se especificamente com a conformidade das normas estabelecidas. exceto que o profeta entregou responsavelmente a sentença de morte.^* que de acordo com Gênesis 9.13).11). Enquanto o ímpio morre por sua maldade. v.21. este primeiro caso não oferece qualquer indicação desta possibilidade.3 . alguém que desobedece o pacto do Senhor e mos­ tra esta atitude como uma violação deliberada das estipulações do pacto. da mesma maneira a resposta obediente de Israel constituía sua sèdãqã.5. a sentinela é absolvida da responsabilidade de sua morte. Isto é apropriado aqui. mas da frequência que estas duas palavras ocorrem como um par antitético no Antigo Testamento. 18 O primeiro caso envolve uma situação em que Yahweh manda o profeta entregar ao ímpio a sentença legal de morte que já pro­ nunciara: Certamente morrerás! A forma da sentença é típica dos veredictos declarados por uma autoridade judicial em relação a um criminoso culpado de um crime capital. Deixar de passar a mensagem trará sobre Ezequiel a responsabilidade pela morte.Ele é ostensivamente parte da comunidade do pacto (estes avisos são endereçados à “casa de Israel”.5). 33. 17).^^ A distribuição deste termo no Antigo Testamento assemelha-se ao de rãsã‘^. mas na verdade colocou-se em oposição a ela.

em seu caminho. idolatria ( 14.19). Isaías escreve em 8.21 : Veja. Yahweh o leva à morte ao colocar um obstáculo. seis envolvem a frase miksôl ‘^ãwõn.160 O LIVRO DE E z e o u i e l 20 O terceiro caso envolve uma pessoa que costumava ser reta (saddíq) e que começou a praticar o mal {‘^ãsâ ‘^ãwet).“' Assim o tropeço é um equivalente concreto da sen­ tença de morte. Vizinhos e amigos perecerão. mas como póíaavov. como dinheiro (7.3-4. . quanto aos tropeços nos caminhos dos desviados. mas suas ações demonstram que repudiou o pacto. Em tais formulações miksôl significa o que seja que cons­ titua uma ocasião para atualizar a culpa potencial por intermédio de um comportamento pecaminoso. mas a noção não se origi­ nou com ele. A palavra denota qualquer objeto que pode fazer uma pessoa tropeçar.14: Ele [Yahweh dos exércitos] vos será santuário. algo difícil de entender. laço e armadilha aos moradores de Jerusalém.^’ Oito das catorze ocorrências de m iksôl (de kõsal. quanto mais aceitar. mas será pedra de tropeço (sûr miksôl) e rocha de ofensa às duas casas de Israel. Pais e filhos. ou a influência de pessoas que praticam o mal (44.ov.“” Percepções sentimentais modernas de Deus fazem da atribui­ ção de Ezequiel. E eles tropeçarão nelas. tomando Deus direta­ mente responsável pelo pecado humano. “tormento. Os tradutores da LXX evi­ taram essa sugestão ao traduzir m iksôl não como aKóa>5aX. isto é. juntam ente. Em resposta. Mas o que é esse tropeço? Obviamente. “sofrimento no sentido de punição”. Esse indiví­ duo parece ter sido um membro bona fide da comunidade. Destas. “tropeçar”) no Antigo Testamento são encontradas em Ezequiel. Ainda mais instrutivo é Jeremias 6. eu estou colocando diante deste povo pedras de tropeço.12). uma pedra de tropeço (miksôl).7). não pode ser uma ocasião que faz do pecado algo inevitável. tortura”. “tropeço de iniquidade”.

mas. Os dois textos falam de Yahweh indicando um atalaia sobre seu povo. a resposta e o destino do acusado não segue. pode-se esperar a seguinte afirmação: “Se você avi­ sar o justo desviado. Baseado nos casos citados. o desviado atentou ao aviso. a salvação de sua própria vida. Além disto. se perseverou ou não. por causa de seu pecado morrerá.3 . podese identificar quatro estágios na vida de um desviado: (1) a pessoa é membro fiel da comunidade do pacto. e alcançou para si mesmo a sentença da vida. por ter sido fiel. pois não pode man­ ter-se em qualquer um de seus atos retos anteriores (pl. levando-as à ruína. principal­ mente 0 segundo.16-21. c f Ez 33.. (3) é punida por Deus. que enquanto a resposta e o destino da sentinela no caso 4 segue o padrão esperado. O atalaia anunciou o perigo.“^ Este discurso de instalação mostra ligações óbvias com Jeremias 6. poderia ter influenciado Ezequiel na Babilônia. pode-se compará-los num quadro destacando a história de cada um deles assim: Caso 1 Resposta do profeta - 3 + - 4 + 2 Destino do Resposta do Destino do profeta acusado acusado + + + + E óbvio. Ao examinar os quatro casos brevemente. 21 O quarto caso descreve o destino de uma pessoa desviada que se arrepende.1 6 -2 1 O D IS C U R S O D E A P R E S E N T A Ç Ã O D E Y ahw eh PA R A E 161 z e q u ie l Revendo a biografia espiritual da pessoa em foco aqui. não é o destino do nouveau méchant. De acordo com . (2) ela muda sua retidão e entra no mal. Seu destino está claramente determinado. é um prêmio suficiente. o leitor é lembrado aqui que o interesse pri­ mário. Isto não é credi­ tado ao atalaia. antes.13). (4) morre. mas não pela maneira como começou sua vida. mas ele não se converter de seu pecado. neste caso. com base no quadro citado. e a punição. Podese somente especular como Jeremias. mas você terá salvado sua própria vida”. mas a resposta do atalaia. como nos outros casos. descri­ ta como tropeço nos caminhos das pessoas. que ministrou em Jerusalém. uma resposta negativa da parte deles.

““ Segundo. 18-19). a sua tarefa não é para avisar de uma ameaça militar literal. Embora o ministério de Ezequiel trate primariamente so­ bre o destino da nação. Na pregação fmal. mas entregar ao acusado a decisão legal que Yahweh tem de­ terminado . Muito claras são as seguintes afirmações: “esse perverso morrerá na sua iniqüidade” (vs.).“^ Ezequiel pode ter crescido em um ambiente onde a voz de Jeremias era conhecida. Jeremias começou seu ministério no décimo terceiro ano de Josias (629-628 a. Isto não é algo inesperado para os ímpios. aqueles que repudiam o pacto estão sob julga­ mento diante de Deus. . Enquanto a indicação do profeta como um atalaia para com “a casa de Israel” reforça o escopo corporativo deste princípio.1-32). sabe-se que Jeremias se correspondeu com os exilados (Jr 29. 20). algumas ideias de profetas mais velhos apare­ cem fortemente. Esta noção será considerada mais profundamente no capítulo 18. Ezequiel e Jeremias podem até ter se conhecido antes de Ezequiel ser levado para a Babilônia com Joaquim. a salvação de Israel depende da fidelidade individual dos cidadãos.C. e “no seu pecado morrerá [a pessoa reta que se desviou]” (v.23.162 O LIVRO DE E z e o u ie l Jeremias 1. o salário do pecado é a morte. ♦ Implicações teológicas O discurso que Yahweh faz quanto ao atalaia reforça e modifica vários temas que haviam emergido na visão inaugural e na narrativa do chamado. mas o leitor recebe um sinal anteci­ pado que um indivíduo não pode responsabilizar outros por sua pró­ pria culpa. As inúmeras ligações verbais e ideológicas entre as profecias dos dois homens sugerem que as profecias de Jeremias chegaram até Ezequiel. Segundo sua formação sacerdotal comum. Primeiramente.1-3.a sentença de morte. ao anunciar uma sentença sobre ra /c ^ n o singular (“o ímpio”) a responsabilidade do indivíduo pecador é enfatizada. aproximadamente à época do nasci­ mento de Ezequiel. De qualquer modo. Embora Ezequiel seja designado um atalaia. que são por definição opostos ao pacto e ao Senhor do pacto. O discurso de instala­ ção de Yahweh enfatiza o princípio estabelecido em Gênesis 3 e afir­ mado por Paulo em Romanos 3.

A mensagem de Deus é que o pecado e a impiedade requerem uma prescrição radical: arrependi­ mento e a entrega total à misericórdia de Deus. Este princípio. mas como alguém termina. É.3. este texto afirma. Quarto. Deus está do lado da vida. mas à fidelidade.16-21 O D IS C U R S O D E a presen ta ção DE Y ahw eh PARA E z e q u ie l 163 No entanto. anunciado anteriormente na narrativa do . Embora esta palavra seja primeiramente para Ezequiel. Afinal de contas. mas da maneira como Deus mandou. sobretudo. Ainda que Ezequiel tenha muito mais a dizer sobre este tema no capítulo 18. Quinto. a retidão anterior não será creditada a seu favor. em última análise. a voz de um atalaia simboliza a graça de Deus alcan­ çando aqueles sob a sentença de morte. O fato de Deus falar nesta situação é em si mesmo um ato de graça. aqueles que no passado confiaram em Yahweh e se submeteram ao seu senhorio. Elas podem sair da retidão e praticar o mal. a avaliação de Deus quanto à situação que o condenado precisa ouvir. trope­ çar no obstáculo que Deus coloca em seus caminhos. a expressão saddiq não deveria ser simplificada. mesmo para o ímpio. 0 mensageiro de Deus é chamado não ao sucesso. que com o privilégio de vestir o manto de profeta vem também uma tremenda responsabilidade para a vida e a morte do povo. Neste contexto. o juiz divino tem uma responsa­ bilidade direta e pessoal por sua aplicação. A sua mensagem pode até não ser de sua pró­ pria imaginação ou estar de acordo com seu entendimento das neces­ sidades do povo. A afirmação considera que tais pessoas não são roubadas de sua liberdade de escolher o caminho da morte. e não as opiniões míopes e panaceias de companheiros transeuntes. O profeta deve soar a trombeta não somente quando Deus envia o sinal. Terceiro. Não é como alguém começa a corrida que conta. o princípio é aqui estendido a qualquer um que troque uma vida de retidão por uma vida de pecado. significando meramente “aque­ les que parecem retos externamente”. ela estabelece a seriedade da perseverança na fé. e serem senten­ ciadas à morte. para o momento pode-se observar que se um desviado que era anteriormente reto vem a pecar.“* Onde a pena de morte é pronunciada. Ser negligente no cumprimento do dever profético de alguém é um crime capital.“* O aviso é para os membros da genuína comunidade do pacto. não da morte. e da mesma maneira o mal anterior do pecador não será apresentado contra se ele se arrepender do erro.

26 Mas eu farei a sua lingua grudar no céu de sua boca. deixe-o recusar. O chamado do profeta não é para “salvar almas” (o que é pertencente a Deus).22-27) 3. que ironicamente reprime sua liberdade de expressão em vez de libertá-lo. então abrirei a sua boca. mas pela fidelidade à ordem divina. e eu cai com o rosto em terra. e lá eu falarei contigo”. e você lhes dirá. F. “Filho do homem. 23 Então.28b-3. Padrões sentimentais de justiça são negados quando uma sentinela negligente é responsável pela morte do ímpio. ♦ Natureza e desígnio A mais complexa narrativa de chamado em toda a Escritura se conclui em 3. e fui para um lugar afastado.22-27. porque são casa rebelde. 27 Mas quando eu falar contigo.^ eles colocaram cordas* em ti e te amarraram com elas. Eu percebi^ a glória de Yahweh lá. 24 Então. mas para proclamar a mensagem que recebe de um comis­ sário divino. E me disse: “Vá ”. ele rece­ beu seu comissionamento e foi vestido com recursos necessários para lidar com a rejeição (2. ele foi apresentado à sua audiência (3. e você ficará sem fala. o Espirito* entrou em mim e me colocou em pé. mas isto não é creditado quando vidas são salvas por causa de sua fidelidade. ele me diss^. eu me levantei.4-28a). A visão de abertura havia conduzido Ezequiel á corte celestial para uma audiência com Yahweh (1. Afinal. são casa rebelde ”. e se alguém recusar. Tudo 0 que vem antes de começar sua nova vocação é 0 ritual de iniciação ao ofício profético.11).'’ e você não conseguirá ir para o meio deles. Mas este problema apa­ rece com base em um mal-entendido fundamental do papel do profeta. A INICIAÇÃO DE EZEQUIEL (3. humano.' e me disse. é assim reiterado com muito maior força. a mão de Yahweh veio sobre mim ali. A lealdade em serviço é medida não pela eficácia.164 O L IV R O D E E z e o u i e l comissionamento.16-21). assim como a glória que eu havia visto no canal do Quebar. e ouviu a ordem de Yahweh para o dever fiel para ser ata­ laia (3.22 Agora. levante-se. deixe-o ouvir. Você não servirá como um intercessor a favor deles. e said^ para um lugar afastado. ‘Assim declarou o Senhor Y a h w e h S e alguém ouvir.11 -15). O estado de mudez de . “e se tranque'^ dentro de sua casa. 25 Pois para você.

Ele ainda não está pronto para sair e proclamar a palavra divina.21-22).22-27 A iN ic iA Ç À o de E z e q u ie l 165 Ezequiel durou mais de sete anos.'® A caracterização que Zimmerli faz deste parágrafo como “uma das mais difíceis em todo o livro”" é apropriada.11. seu signifícado como parte da ini­ ciação do profeta no ofício profético toma-se claro. ou quais. porque Yahweh deseja falar com ele lá.'* Mesmo com o envolvimento dos compatriotas de Ezequiel em seu confínamento.27 e 33. dado o número de problemas que levanta: (1) Como o posicionamento do profeta e o travar de sua língua podem ser reconciliados com a comissão anterior e 0 chamado ao dever de sentinela? (2) Por que se diria ao profeta para sair para um lugar afastado e então imediatamente enviá-lo de volta para que se trancasse em sua casa? (3) Qual é o relacionamento entre Ezequiel amarrado por outros e Yahweh travando sua língua? (4) Como pode o amarrar atual do profeta ser reconciliado com a liberdade de movimento exigido pelos sinais-ações no capítulo 4? (5) Qual é o relacionamento entre este texto e 24. o temio geográfico biq‘^ã. esta ainda é uma experiência particular muito intensa.3. 22 A última fase do chamado de Ezequiel se abre com outro ataque da mão divina. muitos duvidam da originalidade da narrativa em seu contexto a t u a l .16) até o dia em que recebeu as notícias de que Jerusalém havia caído (33. e os paralelos estruturais com 1. 1. “lugar afastado”.22. quando este segmento é interpretado à luz de seu pano de fundo cultural do Oriente Próximo. desde uma semana após sua visão inaugural (cf. Ma s os problemas citados tendem a ser mais intuitivos que textuais.28b-3. denota . Embora seja difícil con­ siderar os versículos 24b-26c logisticamente dentro da estrutura lite­ rária atual. saia a um lugar afas­ tado. em que o tema da mudez de Ezequiel aparece novamente? (6) Qual foi a natureza da mudez do profeta? (7) Qual. “cortar. partir”. destinada a esclare­ cer para si mesmo seu papel profético. Dado o número de ecos conceituais e léxicos da narrativa de chamado anterior.'“ a remoção dos versículos 22-24a e 26d-27 da nar­ rativa do chamado como inautêntico é tolice. 3.3.'® Derivado da raiz bãqa‘^. e instmções: levante-se. espírito é mencio­ nado no versículo 24? (8) O que se quer dizer por ’is m ôkiah no versículo 26? (9) O que ou quem é o sujeito de wayédabbêr e wayõ’m er ViO versículo 24?'^ Diante dessas dificuldades.

^^ Continuando a ecoar 2. alucinação. Yahweh ordena que o profeta vá para a sua casa e se tranque (v. e finalmente a qualquer terreno achatado ou nivelado (c f Is 40. o rúah representa o poder divino que capacita e autoriza o mortal a ficar em pé na presença do kãbôd. Longe dos rios e canais. a sua atividade rapidamente resolve a questão. O profeta foi postumamente diagnosticado como sofrendo de uma variedade de males patológicos e psicológicos: catalepsia.IVRO DE E z e o u ie l fundamentalmente uma fissura na paisagem. Assim como aconteceu antes. Embora esta seja a terceira vez que ele vê o kãbôd. o sinal visível daquele que está presente. 24-27 Novamente. 24b). Ezequiel parece ter saído sozinho.-' Como em 2. uma vez que Ezequiel é colocado em pé. Quando chega lá. portanto evitando que perambule entre eles (v. a visão ainda o pega de surpresa (cf hinnéh) e o impressiona com temor.'* 23 Na ausência de qualquer referência ao transporte sobrenatural.2-3.” Ezequiel usa o termo para a ampla planí­ cie mesopotâmica na Babilônia. e planícies aluviais. esquizofrenia catatônica. Mas como essas medidas restritivas devem ser interpretadas? Por um século os psicanalistas gastaram tempo com Ezequiel. anuncia que seus companheiros de exílio o amarrarão com cordas. . epilepsia. como anteriormente. 26).4). cada uma delas referente à ação de um assunto distinto. dei­ xando-o afônico (v. Terceira.166 O I. a ausência do artigo deixa a identidade de rúah aberta. Primeira.mesmo um representante comissionado e autorizado deve se prostrar na presença de Deus.2a. começando de forma abrupta com o costumeiro ben. Yahweh diz que fará que sua língua grude no céu de sua boca. O discurso consiste de três partes. Yahweh começa a falar com ele. como as ravinas da montanha e rios no fundo dos vales como grandes rupturas no terre­ no. neurose. 25). novamente fica impressionado pela aparição da g/ór/a. infundindo nele uma energia e capacitando-o a se lavantar.“ O seu relacionamento com Deus nunca se torna familiar ou informal . o espírito entra nele. essa região era um deserto. Segunda. um lugar apropriado para um encontro particular com Deus. Por consequência é aplicado a vales largos cercados por monta­ nhas. No entanto.” que imediatamente associa com sua visão anterior no canal do Quebar.'ãdãm. histeria e paranóia.

ele é um homem totalmente possuído pelo Espírito de Deus.^* e em momentos menos sérios o tratam como uma curiosidade. a profundidade de sua teologia. a apatia do público para com sua mensagem parece ter sido um problema mais sério do que malevolên­ cia para com a sua pessoa. mas é aceitável que são estressantes o suficiente para resultar em uma situação patogênica.^’ No entanto. ainda que o versículo 25 atribua ao povo o ato de amarrar o profeta. um entretenedor (33. e a qualidade literária de sua obra. (3) não está acostuma­ do ao clima nessa terra baixa e pantanosa (cf as montanhas de Israel).h . o livro não oferece evidência de ações hostis contra Ezequiel pelo público. essa interpretação pede uma análise cuidadosa.^* estados patológicos atribuídos a um trauma emocional cau­ sado pela experiência do exílio.“ (6) provocou uma hostilidade de seus compatriotas sobre si mesmo ao criticar sua políti­ ca pró-egípcia. eles o procuram. Lang interpreta o amarrar com as cordas como uma ex­ pressão referente à paralisia e à língua grudada ao céu da boca como afasia.1 2 -2 1 A INICIAÇÃO DE EzKOL'IKL 167 Embora a abordagem psicanalítica tenha perdido muito apoio nos últi­ mos anos.^° A última associação da mudez de Ezequiel com seu papel como um sinal (MÔPÈT) a Israel (24. Além do mais. e depois sendo arrastado para o exílio com eles.27) exige um entendimento literal de seu silêncio. assim perde a simpatia dos amigos e confidentes. Segundo.^“ a convicção de que Ezequiel era um homem doente ainda se mantém. isto deixa de considerar a grandiosidade e a apatia de suas ima­ gens. De fato. Estas experiências podem não produzir uma paralisia. interpretar a condição de Ezequiel como mudez psi­ cológica ou patológica.^' Entende-se melhor a presente afirmação como um silêncio divinamente imposto. ou ao menos um chamado ao silêncio voluntário autoimposto. (4) está longe do templo.30-33). A expressão “ter a língua de alguém grudada ao céu da boca” (iãsôn dãbaq ’e l/léhék) não requer uma condição . e sem esperança de retornar para casa. (2) nessa terra estrangeira sofre um “choque cultural”. Primeiramente. que o deixou incapaz de se comunicar oral­ mente. perdera sua posição social e profissional na comunidade.” despreza a intensidade da experiência profética de Ezequiel. Ao contrário. (5) sofre pela morte de sua esposa. Ele cita várias razões pelas quais Ezequiel pudesse estar doente: (1) ele está preso em uma terra hostil contra sua vontade.

^* Estas oportunidades podem ser explicadas como suspensões temporárias da enfermidade. Em Jó 29. enquanto a forma adjetiva da raiz pode se referir a uma inabilidade física da fala. o comportamento verbal e não verbal de Ezequiel deve ser dirigido completamente pela vontade divina. quer como um defensor de um .7. fazendo acusações. Em nosso texto você ficará sem fala {ne ’è lamtã) não é meramente uma afirmação indicativa. provavel­ mente porque foi ameaçado ao silêncio.1-4. 26).^^ E. reprova”.” Esta interpretação não é contraditória ao fato de Deus ser responsável por fazer sua língua grudar ao céu de sua boca (v.168 O L IV R O D E E z e q u i e l fisiológica irreversível.8 descre­ ve-se o pobre ou afíito que não consegue falar no tribunal. a raiz Nifal do verbo geralmente descreve uma mudez diante de uma cir­ cunstância imediata. no entanto.25. 28. eruditos têm entendido tradicionalmente a distinta frase ezequieliana 'is môkiah como “aquele que repreende.1. ela impõe silêncio.12 [em por­ tuguês. e quando sua audiência pede explicações das dramatizações (12. Em outras palavras. 20.^’ Terceiro.“" Quer agindo como promotor. 24. o versículo 27b oferece uma explica­ ção. 21.12. Primeiro.23). 24.10 se descreve uma mudez voluntá­ ria provocada pelo respeito dos nobres por Jó.” em Provérbios 31.19). ou que o liberte desta condição ao abrir a sua boca?^ Esta expressão geralmente se refere ao chamado para falar. mas po­ dem também representar expressões voluntárias dos oráculos de Deus. Em procedimentos jurídicos. 25.9. um m ôkiah era um participante num argumento legal. eles entendem que Ezequiel pode falar. entregando mensagens que recebe de Yahweh. 14. Para responder a questão é necessário consi­ derar vários fatores. quando representantes do povo vêm até Ezequiel bus­ cando uma mensagem de Yahweh (8. proibindo Ezequiel de funcionar como um 'is môkiah porque a família de Israel está num estado de rebelião contra Yahweh. uma mudez psicológica é camuflada pelo fato do pro­ feta com frequência se dirigir à sua audiência oralmente. uma pessoa que procura mudar o comportamento de outra ao acusá-la de agir erradamente. 21.^^ Além do mais. Quarto.'"’ isto é. sem qualquer associação com a mu­ dez. Mas permanece a questão do signifícado do confínamento de Ezequiel e sua mudez. Ao se manter o uso de m ôkiah na literatura bíblica de sabedoria (Pv 9.1).^’ e pode ser interpretada como uma autorização divina para falar.7].

Desde que um dos papéis essenciais de Ezequiel será como acusador de Israel.4-6). sofrimento e desgraça não podem ser retiradas. Yahweh impôs um ano de mudez para cada dia que o profeta ficou no meio de seu povo. e o que veio a ser os sete anos de mudez: um ano de mudez divinamente imposto para cada dia de resistência. Tanto a narra­ tiva do chamado quanto o discurso de indução serviram para avisar que o destino da nação estava fechado. Ao impor essa mudez sobre ele.3. O cha­ mado de Ezequiel e a dramatização estão ligados não somente pelo fato do profeta ser amarrado com cordas (c f 3. os contextos específicos o determinarão. Parece haver uma correlação entre os sete dias que Ezequiel ficou entre seus compa­ nheiros exilados.“* Por meio desse silêncio Yahweh irá distanciar o profeta em relação àqueles com quem ficou (viz.“’ Mas uma dimensão mais pessoal da mudez de Ezequiel requer consideração.. O tempo para a intercessão passou. Dali em diante ele deve reprimir qualquer vontade de tomar partido junto a seu povo. 169 inocente. . Esta conclusão pode encontrar apoio em um pe­ queno. mas o sentimento pessoal não irá interferir com sua obrigação oficial como um atalaia. levará a iniquidade de seu povo durante um dia para cada ano de rebelião. ou mediar a favor dele.33.8). Na dramatização. 15). 4. mas potencialmente significante detalhe. embora na ordem inversa. Esta fórmula de um ano para um dia reaparece no capítulo seguinte. Yahweh lhe nega a liberdade de evitar a queda da cidade quer por usar prorrogação quer por chamar o povo ao arrependimento. Ezequiel.** Por causa da rebelião profunda de Israel. na prim eira dramatização de Ezequiel (4. enfatizando a impressão que esta resposta não foi meramente de estresse emocional.25. Com respeito à questão levantada. simbolicamente. aqueles com quem se identificou). o contexto requer um sentido mediatório para môktah. Como em Jó 9. A negação explícita de Yahweh da liberdade intercessória do profeta pode representar mais um meio de lidar com sua resistên­ cia a seu chamado. as sentenças de lamentações.“. mas também pelo motivo da rebelião. Internamente pode chorar por seus compatriotas e desejar a salvação deles. resistindo ao chamado para ser a boca de Yahweh (v.“’ a afirmação atual não pode representar uma proibição quanto à exorta­ ção ou ao pronunciamento da culpa.22-27 A IN IC IA Ç Ã O de E z k q u ie i. seu destino foi decretado irrevogavelmente.

No entanto.24. e seu período de mudez acabará. e o esclarecimento de seu papel vis-á-vis ao povo. Quanto ao povo paganizado: que reconheça que Yahweh não fala por meio de .170 O L IV R O D E E z e q u i e l Um segundo fator a considerar ao se determinar o significado de Ezequiel ficar amarrado é a declaração de Yahweh que ele “abrirá periodicamente a boca” do profeta. autorizando-o a fazer pronuncia­ mentos oficiais a favor de si mesmo. Yahweh tem a intenção de fazer de Ezequiel um “ídolo vivo”.“* Aparentemente. Estranha também é a cons­ trução em 29. Essa associação pode ajudar a explicar o valor do “sinal” pessoal de Ezequiel.16-21) Yahweh enfatizou que ele deveria falar quando recebesse uma mensagem de Deus. De acordo com 24. Mas o modelo é também limitado para concluir que “quando chamado explicitamente de ‘sinal’. o valor do sinal está associado com o comporta­ mento que será imitado pelo povo. à sua iniciação no ofício profético. “te darei que fales livremente no meio deles”.27. Como resultado. primeiramente. a sua boca será aberta. um ritual pelo qual uma estátua sem vida fora transformada em uma imagem possuída pelo espírito do deus que representava.21: Yahweh anuncia a Ezequiel que quando entregar o Egito à Babilônia como um presente. Ezequiel sempre atuava representando o papel do povo e não o de Deus”. Em 16. o valor do “sinal” {môpêt) será reco­ nhecido pelo povo.“'* Em ambos os casos. talvez relacio­ nado ao Akk. primariamente. Enquanto no discurso do atalaia (3.63 a expressão idiomática reaparecerá no anúncio que quando tiver restabelecido seu pacto com seu povo. as restrições atuais enfatizam que ele só deve falar quando Deus tiver uma mensagem específica. O profeta é identificado como môpêtçm dois outros contextos. Israel ficará envergonhado de si mesmo e nunca mais terá “sua boca aberta” por causa de sua culpa. Ao fazê-lo. p ltp i. não está engajado numa conversa casual com seu povo ou adota uma postura defensiva a favor deles.11 e 24. Ele atua. quando Ezequiel receber a pala­ vra sobre a queda de Jerusalém. A estranha expressão sugere algum significado técnico. 12. Israel reconhecerá que ele é Yahweh.“’ Após o versículo 26a. “abrir da boca”. a frase eu abrirei a sua boca {’e ptah ’e t-pikã) dá uma nova nuança ao episódio. o silêncio do profeta se relaciona.*“ Além do mais. e reconhecerão que Yahweh é o Senhor. o retomo da fala de Ezequiel pode ter sido expresso em termos de soltar a língua.6. como um porta-voz de Deus.

Os meus lábios. Um derrame [cerebral] caiu sobre a minha carne. A minha casa se tom ou uma prisão para mim. Enquanto os procedimentos psicodiagnósticos podem oferecer algumas pistas do enigma da mudez de Ezequiel. a “mão de um deus” {qãt üi). A terceira dica do significado do confinamento iniciatório de Ezequiel pode ser encontrada nas comparações extrabíblicas. De modo impressionante. se tom aram como (os de) um surdo e mudo. “amarrar o corpo” {kasã mesêtú) com cordas {qúm)}^ De interesse especial é uma seção do famoso texto literário Ludlul bêl nêmeqi (O poema do justo sofredor). Minhas próprias algemas são meus pés travados." ill-n A fN ic iA Ç À o DE E z e q u i e l 171 esculturas de madeira e pedra. “dominação da boca” {sibitpi). Eu caí aprisionado em uma cama. que descrevem os efeitos de ser possuído por a/tf-demônio: Eles se apoderaram de minha nobre boca como . Os meus braços. que eram normais. mas por intermédio de seu “ídolo hu­ mano”. A rigidez tomou os meus braços. A paralisia tomou todo o meu corpo.’’ Assim também. que ecoa muitos temas de feitiçaria. O meu choro alto [eles fizeram] silenciar. o silêncio de Ezequiel funciona como uma metáfora de sua iniciação no serviço divino. . Os meus pés esqueceram como se mover. tom aram -se paralisados. . As semelhanças entre as experiências do sofredor e as de Ezequiel são mais evidentes nos seguintes excertos. A minha carne é uma corrente. meus braços estão inativos. A debilidade afligiu os meus joelhos. usados para conversar constantemente. em um corredor de dor.’’ . todos os elementos que demarcam este con­ texto ocorrem nos textos de feitiçaria “medicinal” acadiano antigo. E uma barra bloqueia os meus lábios. este acontecimento deve ser inter­ pretado dentro de seu contexto cultural do Oriente Próximo Antigo. Um laço foi colocado em minha boca.

e o profeta é deixado completamente isolado de seus compatriotas. não é uma doença que pede exorcismo.** É possível que aqueles que ouvem e aqueles que se recusam representem dois grupos de pessoas.22-26 foi radicalmente transformado. o signifi­ cado em Ezequiel 3. representam sua iniciação ao ofício profético. A única conversa regis­ trada entre o profeta e a audiência aparece por ordem de Yahweh. 3. em . especialmente à luz da referência a Israel como casa rebelde. Se alguém ouvir . a cortina cai no ato final no chamado de Ezequiel. ca­ racterizados com base em suas disposições positivas e negativas. Os papéis dos vários participantes do drama foram determinados.17 2 O LIVRO DE E z e q u ie l A descrição que Ezequiel faz dos efeitos da pesada mão de Yahweh sobre si teria sido entendida por toda pessoa conhecedora de tais feitiçarias ou modelos literários. Assim. . Ezequiel não é mais visto na rua ou no mercado. toda a verdade.” O que provocou o uso desses temas estranhos (sem considerar a vontade soberana de Deus) não é claro. Nenhuma dica da vida cotidiana dos exilados entra na profecia. mas é impressionante que. Os ou­ vintes e os que recusam são as mesmas pessoas. o sofredor em Ludlul também reclamava da alienação do seu povo.30-33).11 ). que executa dupla tarefa servindo as duas cláusulas. O profeta vive em um mundo separado. Os oráculos registrados em seguida confirmarão essa alienação. No entanto. A imo­ bilidade de Ezequiel não é o resultado da possessão de demônios. sem um contato direto. essas afirmações deveriam ser interpretadas negativamente. Estes são os meios pelos quais Yahweh assegura que seu mensageiro falará a sua verdade.** Apesar disto. mesmo que as formas mesopotâmicas tenham sido emprestadas. Outras pessoas podem se mover para dentro e para fora daquele mundo. A sua experiência de confínamento. à luz da afirmação anterior. como Ezequiel.5. de estar amarrado e a mudez. res­ pectivamente para com a pregação de Ezequiel. mas não a compreendem (cf 33. mas eles pemianecem como meras sombras. . A descrição do cha­ mado de Ezequiel termina com uma observação familiar. eles persistem em recalcitrar. ecoando duas afirmações anteriores (2. A disposição do povo para com Yahweh foi empedernida a tal ponto que eles continuam a ouvir a palavra divina. Ele foi iniciado no seu ofício. se alguém recusar. e nada além da sua verdade.

Terceiro. às vezes.18-24. A sua decisão deve coincidir com a determinação da­ quele cuja mensagem tem de anunciar (cf Ez 5. o coração do mensageiro pode não interferir com sua boca.0 livro de Ezequiel é um diário espiritual do encontro de um homem com Deus. e dedicado à proclamação de sua mensagem. os caminhos do Senhor geralmente são estranhos e inescrutáveis. assim como o barro não questiona o oleiro (Jr 18. Mas a glória simboliza mais do que uma mera presença. mas quando o Senhor envia as ordens. o drama pro­ mulgado na casa de Ezequiel demonstra o domínio completo de Deus sobre seu servo. Primeiro. Ele não se atreve a questionar os caminhos de Deus.11. a narrativa da iniciação de Ezequiel ao ofício profético confirma e fortalece as ideias que anteriomiente foram ouvidas. o Senhor está presente com seu mensageiro. Suas experiências levam o leitor a chorar por ele embora ele nunca chore por si mesmo. o sinal visível da presença divina. Quarto.3. um porta-voz de Deus deve deixar de lado suas emoções e as inclinações de seu coração. do privilégio da vocação. o profeta leva em seu próprio corpo os sinais de seu chamado. e por associação. Semelhante a um desenho animado. A mensa­ gem pode não ser agradável ou saborosa. É um “ídolo vivo” possuído pelo espírito daquele que repre­ senta. os servos de Deus podem se sentir seguros ao saber que tudo está bem para eles nas mãos do Senhor sempre presente. elas devem ser obedecidas. O papel do mensageiro é como o de uma marionete movida pelas cordinhas. etc. Primeiro. Em três estágios significantes no chamado de Ezequiel aparece a glória de Yahweh. ou mesmo pede uma explicação.” ♦ Implicações teológicas Da perspectiva da teologia. ou mesmo compreensível. Às vezes. Segundo. .).1-6). ele chama o profeta para pregar. a seguir o enclausura em sua própria casa e amarra a sua língua.22-27 A in ic ia ç A o DE E z e q u i e l 173 24. Apesar da confusão no ex­ terior. ela traz à memória aquele que está sendo chamado sobre a suprema majestade e a soberania daquele que chama. não permitindo que a preferência pes­ soal interfira com a obrigação divina.

20. consiste de uma variada coleção de visões. pela rebelião persistente. ao minar sistematicamente os quatro pilares sobre os quais foram construídos os (falsos) senti­ mentos de segurança de Judá. Yahweh entrou em aliança com Israel e o povo assumiu que não poderia haver uma separação.1-44. O pacto de Yahweh com Israel. agarrando-se às promessas antigas de libertação e de bênção ainda quando as bate-estacas de Nabucodonosor estavam ba­ tendo nos muros de Jerusalém.14) • Sinal fmal de destruição (24.63. SINAIS E VISÕES DE INFORTÚNIO PARA ISRAEL E JUDÁ (4. 4-7) • Mensagens de destruição para o templo (caps. Uma das tarefas de Ezequiel seria anunciar que.1-24. Formalmente.15-27) Embora eles sejam diferentes em sua extensão. um planejamento editorial baseado no conteúdo é evidente pelo modo no qual os oráculos tendem a ser agrupados. à primeira vista.174 O LIVRO DE E z e o u ie l II. Esquecendo as obrigações que vieram com o privilégio. com mensagens contra povos e nações (A). 22. Além dessas considerações estruturais.25) • Natureza e desígnio No capítulo 4 começam as mensagens de Ezequiel para os seus companheiros exilados.1-11. No entanto. ser feita aleatoriamente. as mensagens de Ezequiel. Israel perdera os benefícios do pacto com Yahweh (cf 12. • Mensagens de destruição para a cidade e a terra (caps. alternando com predi­ ções da destruição do templo (B). A primeira seção. . No Sinai. aceitaram a proteção divina contra adversários estrangeiros como um direito divino. 8-11) • Mensagens diversas de destruição (12. capítulos 4-24.17-16. as três seções prin­ cipais apresentam uma ordem ABA.1-24.' 1. são evidentemente dadas para desman­ telar a teologia jerusalemita oficial. com a visão da partida de Yahweh do templo encaixada entre duas coleções de oráculos de julgamento. cuja orga­ nização parece. com respeito ao conteúdo esses quatro segmentos apresentam um padrão ABAB.14). 18. de destruição. oráculos e dramatizações.1-32.

a mensagem de Ezequiel será que Jerusalém pode. Nenhum rei pagão poderia ameaçar a posição de Yahweh. No entanto. Por Israel ser uma casa em revolta contra Yahweh. O compromisso de Yahweh com sua terra.1-5. e sua hostilidade não acabará até que um cálice de ira seja derramado até a última gota.1 -1 1 .1-7. 20. com a presença divina sendo simbolizada pela glória divina sobre a arca do pacto. Ele certamente era mais forte do que qualquer exército estrangeiro. diferentes em tamanho. Mas Ezequiel insiste que o próprio Yahweh está entregando a sua terra nas mãos de estrangeiros (6. 4-5) tratando da tomada e . Yahweh garantiria o trono e a dinastia. 19. 21.’ O templo era seu palácio. mas a pessoa de Yahweh e as ações serão vindicadas.1-11. e o Santo dos santos no fundo do templo representava a sala de seu trono.1-16. ele está livre de todas as obrigações beneficentes. Isto significava que mesmo que Joaquim ou qualquer membro da dinastia fosse deposto por um rei estrangeiro. 4. também em exílio. De acordo com esse profeta. Yahweh tinha um inte­ resse legal e estava obrigado a defender seu território.27.45-21. os capítulos 4-7. havia se tomado a base mais importante da segurança de Israel. De acordo com 2Samuel 7 Yahweh havia prometido a Davi que ele e seus descendentes teriam um título eterno ao trono de Israel. De fato. Mas Ezequiel anunciaria que esse pacto também fora suspenso (12. se tomou o inimigo da nação. cair (4.^ Como o divino proprietário.17]).1-14). as promessas de Deus não ofereciam segurança para aqueles que se recusavam a levar seriamente as responsabilidades que faziam parte dos privilégios do relacionamento pactuai. tanto a nação quanto a teologia terão sido destruídas. 3. que se estendia para a cidade de Jerusalém como um todo. O compromisso de Yahweh com Jerusalém . Jerusalém era a cidade que Yahweh havia escolhido como residência para o seu nome.25). Yahweh está preparado para o último ato abandono do templo e da cidade (8. Quando isto tiver acontecido.1-24.1-23 [em português. Os israelitas viam a si mesmos como inquilinos de uma região geográfica que per­ tencia a Yahweh. A primeira seção.2 5 S in a is e v is õ e s d e in f o r t ú n io pa r a Is r a e l e J u d á 175 2. ape­ sar disto.17). Mas essas profecias são divididas em duas partes. A noção da inviolabilidade de Sião. 17. O pacto de Yahweh com Davi. a primeira metade (os caps.4 . consiste de uma série de oráculos de julgamento contra Israel em seu foco geográfico princi­ pal.

DRAMATIZAÇÃO DA QUEDA DE JERUSALÉM (4. sinais-atos foram interpretados variavel­ mente como ritos se originando de “mágica simpática”.24. 6-7). com seu acordo com os espias. Essa mudança na ênfase é paralela à mudança em gênero. No versículo 3 a ação do profeta é explicitamente chamada de um “sinal” para a família de Israel.22-27 e o capítulo 4 cria a impressão que Yahweh não gastou tempo em dar a Ezequiel sua primeira responsabilidade ministerial. que reporta fortalezas cercadas mandando “sinais” umas às outras. a evidência para uma interpretação comum de um môpêt como um portento miraculoso ou sinal negativo é puramente circunstancial. a segunda (caps. tratando da desolação da terra de Israel. “Então. eles sa­ berão que eu sou Yahweh”.176 O LIVRO DE E z e q u i e l queda de Jerusalém.0 signifícado de um 'ôtno uso secular é ilustrado por uma corda carmesim com a qual Raabe identificou a sua casa. Para Ezequiel essas expressões funcionam como um sinônimo virtual. e quando eram associados com a fórmula de reconhecimento. evidência de . os “sinais” de Ezequiel eram sensivelmente percebidos. 18).12. o alvo era efetivar um reconhecimento de Deus. da cidade de Lachish. os capítulos 6-7 transcrevem dois pronunciamentos oraculares. A designação do gênero dessas profecias se deriva do próprio texto.* Sem considerar o fato que Ezequiel não se refere a si mesmo como um ’ôt. A. Por intermédio de uma série de dramatizações confusas.6. deve falar diretamente sobre o inevitável desti­ no de Jerusalém.17) ♦ Natureza e desígnio A ligação sintática entre a descrição de Ezequiel sendo amarra­ do em 3. esta expressão parece usada alternadamente com môpét!’ Enquanto a etimologia de /7Z<?/7êifpermanece incerta. 11 e 24. A sua função militar é ilustrada por um desenho em pedra deste período. Os capítulos 4-5 narram uma série de dramatizações seguidas por um discurso esclarecedor. os israelitas pudessem poupar sua família (Js 2.1-5. de maneira que. A palavra 'ôté usada para as atividades proféticas de Ezequiel em três outras circunstâncias: 12. mas retoricamente fortes. No passado profético.“ Por defini­ ção.

" Mas este entendimento.1 -5 . Sinais-atos são melhores interpretados como atuações dramáti­ cas com 0 propósito de visualizar uma mensagem e no processo enfatizar sua força persuasiva para que as percepções dos observa­ dores de uma dada situação pudessem ser mudadas e suas crenças e comportamentos modificados.’ Uma visão mais comum é que os sinais-atos funcionavam como dramatizações eficazes que movimentavam e realizavam os eventos que representa­ vam.11. De acordo com Ezequiel.'^ Ao adotar sinais-atos como meio de comunicar sua mensagem.’ No entanto. sempre será cumprida. 21. Isaías. Fohrer identificou três elementos distinti­ vos em um registro típico de um sinal-ato (ou ação simbólica. com enfatizado poder. em vez de fazê-lo para com o que fala a palavra. (6) uma explicação do relacionamento entre a apresentação dramática e o . Oseias. ou expressões de êxtase profético. obviamente.'* Com respeito á forma.19. deu dez para Jeroboão. Jeremias e Zacarias.1 7 D r a m a t iz a ç ã o d a q u e d a d e J e r u s a l é m 17 7 uma disfunção psicológica. (3) uma interpretação. a noção de um “po­ der eficaz inerente” atribui de maneira errônea a força eficaz de uma declaração à própria palavra. O mais antigo e talvez o mais conhecido sinal-ato foi de Aías. Elementos adicionais geral­ mente incluídos foram (4) referência ao testemunho. 22 [em português. mas porque quem fala é Yahweh. 14.12-15.'® Alguns dos que questionam a visão eficaz defendem que a função primária dos sinais-atos não é forçar eventos. 5.4 . (5) uma promes­ sa divina de realizar o evento representado pelo sinal-ato. como ele prefere chamar): (1) um mandamento para executar.4-5). sejam elas circunstâncias amais do exílio (4. Ezequiel exce­ de a todos eles. Outros profetas que empre­ garam essa estratégia retórica foram Elias. 17]). Ezequiel seguiu uma prática profética an­ tiga. significando que Yahweh estava lhe dando poder para governar sobre as dez tribos de Israel (IRs 11. assim como aquelas que descrevem realidades contempo­ râneas.* Baseado no entendimento que o poder de cumprimento residia na própria palavra divina {dãbãr). Eliseu.2) ou a disposição atual de Yahweh (6. que rasgou sua capa em doze pedaços. quer aural quer visual. (2) um rela­ tório da execução. não porque o pronunciamento é inerente­ mente eficaz.'“ Mas em termos de frequência. mas meramente predizê-los. sinais-atos são considerados pala­ vras visíveis.29-39). não considera ações retrospectivas (Ez 4. a palavra divina. o silonita.

4 e 5. os relatórios tendem a ser limitados às instruções de Yahweh ao profeta.3-4). não menos que nove grupos de ações estão envolvidos: (1) o cerco de tijolo (4. 7-11). principalmente por causa da maneira pela qual os sinais-atos são rela­ tados.1-2) e no exílio (4.4-5). (4) o braço descoberto de Ezequiel (4. O começo do segundo painel é anunciado pela fórmula de citação. o cerco de Jerusalém (4.” O relatório da primeira série de sinais-atos apresentados ao público (4.13 oferece uma pista quanto à intenção de todo este complexo: um reconhecimento de Yahweh pela audiência exílica de Ezequiel.'* Os registros dos sinais-atos de Ezequiel são inconsistentes mesmo em sua aderência aos três elementos básicos. Somente duas vezes se relata que Ezequiel levou a cabo as ações conforme havia instruído (12.3).7). os elementos descritos parecem indicar diferentes eventos ou fa­ ses de eventos: a história da rebelião passada da nação (4. Quarto. Com base no estilo literário. 14-15.8).12 [em português. 12. culminando na destruição de Jenisalém (5.1-3.3-4).7. Segun­ do.17) é muito complexo. 24.6. 1.q u i k l evento representado. 37.4-6).178 O L IV R O DF. Primeiramente. A questão é complicada pelo fato que muitas dessas divisões se subdividem em segmentos menores.14-15).9-11). respectivamente (4. 21.5a. o texto se divide em dois painéis principais: 4.1 -5. kõh ’ã m ar ’ã dõnãyyhw h.1 -5. E z f .1 -2). em 5. (7) comendo bolos.5-17. A fórmula de reconhecimento em 5. (5) Ezequiel amarrado (4. comentários explicativos interrompem os relatos dos sinais-atos em .18). DRAMATIZAÇÕES (4. (6) racionamento de comida e água (4.1-5.4) O primeiro painel apresenta problemas estruturais exagerados.12. cozidos sobre fezes humanas (4. 5. (9) separação de um pouco do cabelo (5. (8) corte e eliminação do cabelo de Ezequiel (5. 24.10. os elemen­ tos não são apresentados numa ordem cronológica coerente.18). Entretanto.19. Somente quatro reconhecem a reação da audiência (12. (3) Ezequiel deitado do lado esquerdo e direito. 7]. Esse discurso explica a série precedente de sinais-atos. (2) levantamento da barreira entre Ezequiel e o tijolo (4.1-2). Terceiro. “ Assim declarou o Senhor Yahweh” . O restante do capímlo 5 é lançado na forma de um discurso de julgamento divino esclarecedor que conclui com uma versão modificada da fórmula de autoapresentação.

que provavelmente tinham um grande interesse no destino da população de Jerusalém. a ameaça do exílio era um tema fre­ quente de Ezequiel em seus pronunciamentos antes de 586 a.'’ Além do mais. Ezequiel procura um tijolo. essa dicotomia entre o cerco e o exílio pode ser artificial. Quinto. rascunha nele o mapa da cidade e levanta a chapa de assar entre o tijolo e sua pessoa (4. Não somente todo o povo do Oriente Próximo antigo teria aceitado a deportação da população como uma consequência natural da queda de Jerusalém.4 D ra m a tiz a ç õ e s 179 4. a audiência de Ezequiel consistia de pessoas exiladas. Enquanto isto.^' Baseado nos dados internos. 4-6)? Qual é o signifícado da “família de Israel” (v. 4)? Como poderia deitar de um lado e de outro por 390 dias (v.C. 5)? Como poderia o profeta executar esses atos sendo que Yahweh o havia amarrado (v. em particular. 7) e deitar de lado (vs. A possibilidade dessas apresentações não terem acontecido na ordem atual toma óbvia a necessidade de harmonizar ações aparentemente irreconci­ liáveis. Qs eruditos tendem a atribuir essa intrincada apresentação lite­ rária a uma série de expansões editoriais envolvendo várias mãos.13 e 16-17. Qual é a relação entre o braço desnudo (v.3). 8)? Se “o que comeres” no versículo 12 se refere ao pão feito com grãos no versículo 9. partira e o espalhara? Entendendo que o relato dos sinais-atos corresponde à sequência em que foram executados.1 -5 . deita-se do lado esquerdo por 390 dias.4 . as metáforas do cerco e do exílio não foram misturadas? Além do mais. desnuda seu braço e profetiza contra Jemsalém (4. as ações confundem.1-3). Em vez de servir como auxílio visual e melhorar a comunicação. talvez com . a forma atual do texto apresenta problemas conceituais e lógicos.'* No entanto.7). O material relacionado ao exílio.3-4) quando já o queimara. eu proponho a seguinte sequência das apresentações: 1. Sinais-atos relacionados ao cerco de Jerusalém . como pode esse pedaço de pão ser chamado bolo de cevada? Como pôde Ezequiel separar um pouco de cabelo (5. Com a face em direção à maquete (4. foi apagado por ser considerado secundário. Uma solução mais apropriada interpreta o texto atual como uma fusão de duas redações de uma série de sinais-atividades separadas-® que devem ter sido conduzidas por um longo período. é difícil ver como uma atividade não verbal teria produzido entendimento na audiência.

Este parágrafo é complexo. Sinais-atos relacionados à destruição de Jeru salém . A terminação desse segmento é confirmada pela interpretação colofônica. ele se vira e deita do seu lado direito por quarenta dias (4. a sua dieta consistiu de rações.180 O L IV R O D E E z e q u ie l comentários explicativos cuja essência é dada em 5. divide-o em três partes iguais.4-8).16-17 e 5. o qual carrega o sinal em sua pessoa. mas o enfoque durante todo o parágrafo está sobre o pro­ feta.1-3). Enquanto as duas fases de sua posição deitada podem indicar aspectos diferentes do destino de .^^ Essa reconstrução esclarece a intenção da atuação de Ezequiel .8-11. pica e espalha no vento.12-13).12-17. 3.6). mas não explicam a forma atual do texto. ’ô t h V lèb êtyisrã ’êl. “isto servirá de sinal para a casa de Israel”. O objetivo do profeta era destruir as falsas ba­ ses do povo quanto à segurança e frustrar toda esperança entre seus compatriotas de um retomo em curto prazo para a terra natal. Ezequiel rapa o cabelo. O sinal do tijolo (4. Tais esforços de reconstmção podem explicar a sequência das ações de Ezequiel. Durante esse prolongado período de cerco. Levando a iniquidade de Israel (4. Para fazê-lo. O destino da população era igualmente crucial. 2. ou mesmo que seria destruída.4 é subdividido nos quatro seguintes formatos. Não seria suficiente anunciar mera­ mente que a cidade seria tomada.a série completa é necessária para descrever os decretos de Yahweh determinados para Jerusalém. respectivamente (5. a sua dieta consistiu de bolos de cevada prepa­ rados sobre fezes humanas queimadas. deve-se prestar atenção às suas características literárias.3-4). Durante esse período. Fonnalmente. A interpretação verbal dessas ações está resumida em 5. e explica suas ações com comentários como os preservados em 4. Sinais-atos relacionados à deportação da população de Jerusalém . as quais estào descritas em 4. b.1-2). Enquanto isto. Antes de espalhar a terceira parte de seu cabelo. Depois do fmal das dramatizações quanto ao cerco. por isso a necessidade das imagens exílicas.10a. o início de cada um sendo assinado pela consideração direta de Yahweh a respeito do profeta:^^ a. ao que ele oferece uma expli­ cação apropriada (4.4.1-5. 10b. Ezequiel pega um pouco dele e coloca na orla de suas vestes (5. as quais ele queima.5-9.

A a dieta do cerco (4. Embora a sua audi­ ência rejeitasse seus pronunciamentos não verbais. A comida do pobre (4.16-17) As duas dietas são intencionalmente ligadas por pronomes femi­ ninos no versículo 12. o cerco e as dietas exílicas.9-11) B a dieta exílica (4. a ação e a interpretação que lidam respectivamente com as dietas apa­ recem em uma ordem quiástica. De fato.C. 5. restrin­ gir as declarações a ações associadas com o cerco poderia ter criado a impressão que a destmição de Jemsalém não era inevitável .1-4). eles estão ligados propositadamente com a nota cronológica no versículo 6.9-17).que ainda havia esperança. que sugere que o próprio Ezequiel pode ter registrado esses eventos proféticos. a chegada do men­ sageiro anunciando “Caiu a cidade!” (33.12) B’interpretação da dieta exílica (4. Enquanto a referência imediata diz respeito à comida exílica.1 -5 . 7-8.4 . Em 586 a. ao integrar os temas de destrui­ ção e exílio esta possibilidade foi eliminada. Na mente do editor. uma distinção que é refletida tanto nos sinais-atos quanto nos comentários explicativos. d. a antecedente é encontrada nas rações do cerco. . Esta subseção lida com duas questões. mas a necessidade de uma confirmação de sua situação profética. As três divisões do cabelo refletem três formas de aniquilação. a mensagem desses sinais-atos foi realizada. c. Outra característica unificadora pode ser reconhecida no estilo autobiográfico da citação. O destino da população de Jerusalém (5.2) fomece um Leitwort que uniflca toda a composição. baseada no cumprimento de seus oráculos.4 D r a m a t iz a v õ k s 181 Jerusalém. sugere uma transcrição recente em vez de tardia.21 -22) justificou seu chama­ do profético e o Senhor divino que havia falado por intermédio dele. No entanto. “Quando tiveres cumprido estas [ações]”. a ocorrência quádrupla da palavra mãsôr{\.l>.13) *— A’ interpretação da dieta do cerco (4. mas as distinções mais significantes são vistas entre o destino da maioria e a do pequeno remanescente. Quando isto aconteceu após as representações é impossí­ vel de ser determinado. Embora esses quatro segmentos sejam identificáveis de imediato.

relaciona-se ao acadiano libittu. Ele deve dramatizar o cerco iminente de Jerusalém ao entalhar em um tijolo um mapa da cidade e então cercar a cidade. “fazer tijolos”.^' O mandamento para talhar um mapa no tijolo provavelmente toma em consideração que o barro ainda está fresco e macio e que se endureceria sob o sol quente da Babilônia. lébènâ. Coloque-o na sua frente. Os versículos lb-2 são construídos propositadamente em estilo paralelístico. Desenhe uma cidade nele. prepare campos de soldados contra ela. você deve cercá-la. Vire sua face contra ela e que assim esteja^* cercada. cerâmica”. Prepare campos de soldados contra ela. construa^^uma rampa contra ela. E um sinal para a casá^ de Israel. a cidade de Jerusalém. Faça um cerco contra ela: construa um muro de cerco contra ela.182 O LIVRO DE E z e q u i e l a.'* 2 Faça um cerco contra ela: comtrua um muro de cerco contra ela. qah wènãtattã wèhaqqôtõ lékã ’ôtãh ‘^ãleyhã lèbênâ lèpãneykã ‘^ir [ ’et-yèrüsãlãim] wènãtattã wêbãnitã ^ãleyhã ‘^ãleyhã mãsôr dãyêq wêsãpaktã ‘^ãleyhã sõlèlâ wènãtattã ‘^ãleyhã mahãnôt wèstm ‘^ãleyhã kãrim sãbib Pegue um tijolo. “tijolo secado no sol. que em troca produz o verbo denominativo labãnu. Coloque bate-estacas contra ela em redor. Sim. filho do homem. O cerco de Jerusalém (4.1 "Agora você. A prática de desenhar o plano de uma cidade em um tijolo . Um colorido babilônico é evidente no primeiro comando. Desenhe nele a cidade [de Jerusalém].1-3) 4. e coloque^^ bate-estacas contra ela-''em redor 3 Toma uma chapa de ferro e põe-na como muro entre você e a cidade.^® A palavra para cerâmica ou tijolo. " 1-2 A narrativa do primeiro sinal-ato público de Ezequiel abre-se abruptamente com um comando de Yahweh para que ele se engajasse em uma atividade projetada para levantar muita curiosidade. pegue um tijolo e o coloque em sua frente. Construa uma rampa contra ela.

^* Essas rampas eram feitas com muita terra.^^ Um deles representa um plano do segundo milênio da cidade de Nippur. então exér­ citos inimigos construíam enormes rampas para que os bate-estacas pudessem ser colocados perto das muralhas. Com uma série de ações. “campos”. As ações de Ezequiel refletiam as séries de estratégias requeridas para alcançar este objetivo. refletidas pela familiaridade com as táticas militares do meio do primeiro milênio. em vez de desenhá-los no próprio tijolo. No entanto. Rampa. os exércitos inimigos ten­ tavam apressar a sua queda ao penetrar pelas muralhas. Ezequiel move-se imediatamente para a próxima fase do sinal-ato. O uso que Ezequiel faz do plural mahãnôt. que eram carregados em cestos e literalmente “derramados” no local.^* Ezequiel provavelmente criou seu modelo de muros ao fazer fileiras de areia ou de terra com suas mãos. Isto presumivelmente teria sido alcançado pela construção de modelos colocados ao redor do tijolo. As fortalezas eram estrategicamente localizadas nos altos dos montes. Dependendo dos recursos dos estoques das cidades e da disponibilidade de água. sugere vários campos de soldados ou divisões militares estrategicamente posicionadas fora dos muros da cidade. em vez de esperar passivamente pela rendição de uma cidade. inacessíveis para as máquinas de guerra.1-3 O CERCO DE J f. A estratégia do cerco de guerra envolvia tomar conta de todos os lados para que nenhum habi­ tante fijgisse e que suprimentos chegassem até a cidade. rochas e lixo.^“ ele dramatiza o cerco de Jerusalém. .” Campos de soldados. Sistema de torres junto aos muros.” Tendo conseguido a atenção dos espectadores com um desenho de sua querida cidade. a predecessora da mesma cidade na vizinhança onde os exilados estavam alojados. Na vida real o sistema de torres junto aos muros consistia tanto de uma série de aterros ou um contínuo amontoado de rocha ou terra ao redor da cidade de onde o atacante poderia observar os movimentos dos defensores nos muros e dentro deles.4. os cercos poderiam levar vários anos.r u s a i . As instruções de Yahweh começam com uma ordem geral de impor um cerco (mãsôr) sobre a cidade.k m 183 de barro é confirmada por vários exemplares descobertos pelos arqueólogos.

Finalmente. .15. mas 0 muro que Yahweh.“^ As seguintes afirmações enfatizam que o cerco da cidade não é simplesmente o resultado de uma hostilidade passiva de Yahweh. virou as suas costas para eles. Jó 30.” 3 Como ato tlnal dessa fase do sinal-ato.9-13). No entanto. tornou-se o inimigo. mesmo nos tempos mais antigos.“' Diferente de Isaías 59. Deus. não exércitos estrangeiros. O mandamento a Ezequiel. enquanto os utensílios de cobre eram usados pe­ los ricos. cer­ cando sua própria cidade. em quem eles confiaram para a libertação. O bateestaca era eficaz por abrir brechas nas muralhas feitas com tijolos de barro ao quebrá-los com um metal. 12).44. Ele não mais ouvirá seus clamores (cf Is 1. que buscava as promessas de Yahweh a Israel como sendo imutáveis e seus mandamentos para com Jerusa­ lém invioláveis. A chapa era um utensílio doméstico usado para assar bolos retos sobre um fogo aberto. Por causa de seu peso e desenho estranho.184 O LIVRO DE E z e q u i e l Bate-estacas. a chapa de Ezequiel em pé não simboliza o pecado que foi colocado entre Israel e o Deus do pacto. foram essenciais na conquista de cidades fortificadas com muros na Palestina. A sua decisão em deixar Jeru­ salém de joelhos foi irrevogável. e a sua decisão não mudará (c f Ez 5. Nos séculos 7» e 6®cha­ pas de metal eram utensílios acessíveis para as pessoas da classe média. colocou entre si mesmo e Jerusalém. No entanto. Ezequiel posiciona os bate-estacas. enfatiza a disposição adversativa de Yahweh para com seu povo. Vire sua fa ce contra ela e que as­ sim esteja cercada. Ao especificar um instrumento de ferro. representado por Ezequiel.20.^* O fato de essas “máquinas de invasão” serem mencionadas nos anais de Ashurbanipal sugere que os assírios provavelmente as inventaram. O Senhor do pacto.8. Yahweh manda Ezequiel colocar uma chapa de ferro {m ahãbat barzet) entre si mesmo e a cidade cercada. uma noção inconcebível por parte dos adeptos da teologia prevalecente. os bate-estacas eram difíceis de mover por longas distâncias.8-9. que havia simplesmente abandonado Jerusalém ao seu des­ tino.2. Lm 3. o sinal-ato não descreve Yahweh como uma deidade passiva. 35. enfatiza a impenetrabilidade da barreira e a firmeza de sua rejeição em relação ao seu povo.“® Por toda a história de Israel o povo comum usava discos de cerâmica como chapas para assar.

4 . Ainda que 0 reino do norte tenha estado fora de cena por mais de um século. À luz da situação exílica deles. A referência a b ê ty isrã ’ê l reflete a perspectiva de Ezequiel sobre a nação de Israel. a menos que reconhecessem a disposição de Yahweh nas ações do profeta. 8 Olhe. sempre houve somente um reino governado por somente uma dinastia. deite-se sobre o seu lado esquerdo. 5 Quanto a mim. mas de todo o Israel. ^ [desta vez] sobre o seu lado direiío. Mas Ezequiel não perde tempo em descar­ tar essa possibilidade. os muitos dias*^ que você se deitar sobre ele você levará as suas iniquidades.** No entanto. De fato.4 -8 C a r r e o a n i x ) a in iq u id a d e d e I s r a e l 18 5 A cena se fecha com uma declaração final resumida sobre o significado da dramatização: É um sinal para a casa de Israel. “ profetiza contra ela. 6 Quando completares os [dias]. Jerusalém é a capital não somente de Judá. a casa de Davi. eu te amarrarei com cordas.^' 7 Então. o lugar da residência de Yahweh no único templo legítimo.^a de Israel. e com seu braço desnudo. e põe*^ a iniquidade da casa de Israel no seu lado. mas até aqui Ezequiel ainda não ofereceu qualquer indicação de seu resultado. vire a sua face em direção ao cerco de Jerusalém. ’' Você deve carregar a punição da casa de Judá por quarenta dias: eu converti para você na relação de um dia para cada ano. política e espiritual com o glorioso passado para todos.^ de maneira que você não poderá virar de um lado para o outro até que tenha completado os dias de seu próprio cerco. Jerusalém. Jerusalém representa a ligação geográfica. ” . [Este é o tempo]*'* que você deve carregar a iniquidade da ca. de acordo com os pronunciamentos de outros profetas (cf. provavelmente identificaram 0 exército inimigo com os babilônios. eu converti^ os ano. po­ deriam até ter antecipado o levante do cerco e o retorno iminente deles para Jerusalém. Nenhuma interpretação a mais é dada. Jr 27-29). De acordo com a visão profética padrão. e pode-se somente es­ pecular que efeito esse sinal-ato teve sobre os observadores de Ezequiel. Carregando a iniquidade de Israel (4. h.s*^ da iniquidade deles ao número correspondente de dias para você: trezentos** e noventa dias. representa a casa espiritual para todas as doze tribos. deves deitar mais uma vez.4-8) 4 "Mas você.

no final do versículo 4. o que Ezequiel quer dizer com casa de Israel {bêt yisrã’êl)‘? Por estar em justaposição com bêtyéhúdâ.** Este parece ter sido o entendimento da LXX. por Jeroboão. versículo 13. ao menos deveria incluir os judeus. Essa interpretação sofre por várias fraquezas sérias.** Apoio para essa visão é encontrado nas posições relativas aos dois reinos. a mais importante é o uso da expressão casa de Israel no contexto imediato. em 586. “Judá” aparece somente 15 vezes. que insere “ 150 anos”. De acordo com a orientação padrão oriental dos antepassados. no versículo 6. significa a duração do exílio judeu. um processo que durou de meados de 730 a 722. 150 anos desde a queda de Jerusalém. Assim. enquanto o nome “Israel” ocorre mais de 180 vezes no livro. e Judá por se deitar sobre seu lado direito. 4-5 Ato 1. Além do mais. Em vez de representar a Yahweh.*’ Além disto. A primeira parte deste mandamento é muito clara. ele agora representa o papel do sacerdote. carregando o jugo dos pecados de seu povo sobre seus ombros. e tomado pelos assírios em 722. Ezequiel recebe a ordem de se deitar sobre seu lado esquerdo (presumivelmente com seu rosto em direção ao tijolo) e dei­ tar sobre si a iniquidade da casa de Israel. a qual é bastante próxima da data da queda do reino do norte. mas também indica um novo papel para Ezequiel. os judeus. estabele­ cido em 931 a. 5.186 O I. mas a segunda levanta várias questões de interpretação. produz a data de 737. então 150. OU “Quanto a você” (wé’attâ). os sobreviventes do colapso de Jerusalém. “casa de Judá”. onde quer que os sinais-atos envolvam somente “Israel”. Primeira. no entanto. Em cada caso onde Judá está justaposto com “Israel”. entende-se isto como uma referência ao reino do norte de Israel. a qual deve carregar por 390 dias. e altera o número de dias de 390 para 190 no versículo 5. não somente anuncia um novo momento na presente série de sinais-atos. o reino . Se o número 40.4.IVRO DE E z e q u i e l Mas você. A narrativa descreve quatro ações separadas. bêtyisrã’êl ocorre mais três vezes nesta série de sinais-atos com as seguintes denotações: versículo 3. no versículo 4. 0 reino do norte foi naturalmente representado pelo profeta deitado em seu lado esquerdo. no versículo 6. os judeus exilados na Babilônia. deve se referir ao exílio do reino do norte. os nomes são usados de forma intercambiável. Calculando-se de trás para a frente.C.

tem que ver com a nação de Israel como um todo.17). qual é o significado de Ezequiel tomar sobre si mesmo a iniquidade {‘^ãwõn) da casa de Israel? A questão é complicada por dois fatores. onde o reino do norte é contrastado com Judá. que começaria com a queda de Jemsalém em 586 . De acordo com a própria afirmação de Yahweh. “carregar a culpa” (c f vs.8). condição humana iníqua (SI 51. Lv 10. a sequência “colocar” e “carregar”. Ao contrário de uma interpretação rabínica.*' Nenhum profeta ou sacerdote no Antigo Testamento jamais cumpriu este papel. sugerindo que Ezequiel é assim chamado para ser um servo sofredor. Por outro lado. um dia para cada ano.“ Desde eras pré-cristãs esse ato era interpretado como um sinal de julgamento futuro. a culpa causada por um comportamento iníquo (Nm 15. e a punição pela iniquidade (Êx 28. rebeliões {pésã‘^im) e pecados (hattõ’t) na cabeça do bode. De acordo com Levítico 16. Traduções atuais (NJPS. De fato. REB) tendem a traduzir ‘^ãwõn como “punição”. a ação de Ezequiel não pode ser interpre­ tada como expiatória.4 . isto é. “iniquidade”. Ez 3. 5-6). o número de dias que o profeta deveria deitar-se do lado esquerdo foi determinado pelo número de anos do ‘^ãwõn de Israel. o uso do verbo lay. reflete uma ordem lógica . neste versículo. 5]). Segundo. 4b. 187 do sul como 0 remanescente da entidade original maior está em vista. Por um lado.21-22. 0 que o animal então saía carregando {nãsã'). Isto pode representar uma variação estilística intencional de nãsã’ ‘^ãwõn. conectado com ‘^ãwõn.4 -8 C a r r e g a n d o A iNiQ uiD A D K DE I s R A t i.31. A ordem atual lembra as ações do sacerdote no Dia da Expiação.7 [em português. ele primeiro colocava (NÃTAN) as iniquidades ( ‘^àwônõt).** Finalmente.18-19). carregando as consequências do pecado de Israel.38. o período de 390 dias não pode significar a duração do exílio do reino do norte. bêt yisrã’êl deve ser entendido similarmente aqui. NRSV. é surpreendente. sim pode ter sido usado aqui em lugar de nãsã’ deliberadamente para prevenir tal má interpretação da atitude de Ezequiel. No entanto. o nome “Israel” é tanto evitado como definido mais particularmente.antes dos pecados serem carregados eles devem ser colocados no carregador.“ Da mesma maneira. ou “colocar.*’ Por­ que Ezequiel usa “ Israel” e “Judá” de forma intercambiável em to­ dos os outros pontos. o termo ‘^ãwõn tem uma gama de signi­ ficados: ações iníquas (SI 90. pôr” (sTm).

Thiering também trata os 390 anos como um “período de ira” {jqs hrwri). o íerminus ad quem do período de 390 anos refletido nos versículos 4 e 5 coincidiu com o levante de Hasidim. e o cálculo deveria ser retrospectivo em vez de olhar para o futuro. e foram como o cego e aqueles que tateiam (seu) caminho <por vinte anos>.188 O LIVRO DE E z e q u i e l e duraria 390 anos. os cálculos posteriores requerem duas modificações: ‘^ãwõn deve ser interpretado como uma designação para o comportamento dos israelitas. Charles. punição) se igualaram com a duração do tem­ plo de Salomão.“ A maioria dos eruditos concorda que os 390 dias de Ezequiel representam 390 anos de ‘^ãwõn. Ela argumenta que quando os anos combinados da iniquidade de Judá e Israel (viz. H. No entanto. E eles reconheceram suas iniquidades e sabiam que eram homens culpados. no entanto.“ Tomando a sua deixa desse texto. de acordo com os reinos dos reis de Judá. que é virtualmente idêntico à duração do primeiro templo. viz. Esta visão é claramente refletida na seguinte cita­ ção do documento intertestamentário de Damasco: E no período da ira {bqs hrwri) <trezentos e noventa anos desde a vitória do rei N abucodonosor da Babilônia> Ele os puniu. e que o cálculo do período em vista deve começar com a queda de Jerusalém. em 586.*“ De acordo com R. mas ele fez uma base para plantas crescerem de Israel <e de Arão> para ocupar sua terra e para flo rescer na bondade de seu solo. chegando à data de 207 para 0 flm desse período. não como punição por aquele comportamento.*’ Uma modificação desse somatório calcula os 390 anos a partir da data da deportação de Joaquim (597).*^ De acordo com o historíador hebreu. Ela observa que ao acrescentar 390 ao lado esquerdo de Ezequiel com 40 em seu lado direito somam um total de 430 anos. que eles o viram com um coração perfeito <e lhes levantou um mestre de justiça para conduzi-|os no cam inho de seu coração>. “iniquidade”. Calculando 390 anos no sentido contrário de 586 chega-se a um ponto de partida para o período da iniquidade de Israel em 976. . Isto é im­ pressionantemente próximo da data na qual a glória {kãbôd) de Yahweh havia mudado do tabemáculo e entrado no Santo dos santos do novo templo constraído.. B. H. Mas Deus entendeu suas obras. então o novo templo pôde ser construído.

9. Aqui. sugerem que se deveria interpretar similarmente o sinal-ato de Ezequiel de . fazendo-o no horário mais movimentado do dia. Nm 18. isto é.38. no qual ele ordena o profeta a virar para o lado direito e carregar os pecados da nação (agora referida como casa de Judá) por quarenta dias. sofrer as consequências das ações iníquas de alguém: um julgamento que se levanta da disposição hostil de Yahweh. o monarca que dera a Yahweh seu templo. Esse ponto é alcançado no versículo 6. 6 Ato 2. nesta passagem. a frase nãsã’ ^ãwõn evidentemente sig­ nifica “carregar a punição”. Apesar disto. e ao fazê-lo ofereceu a acusação verbal apresentada em 5.*® Por 390 anos a partir de então. Durante o descanso do dia. É improvável que Ezequiel tenha deitado no seu lado por 390 dias continuamente. Provavelmente. por meio da adoração simultânea a outros deuses e outros comportamentos apóstatas.*’ Ezequiel caracteriza esse com­ portamento como ^ãwõn. ao carregar o peso do peca­ do de Israel por 390 dias. comparável aos quarenta anos que os israelitas perambularam no de­ serto. O tempo limite determinado por Yahweh sobre a posi­ ção deitada de Ezequiel sugere um limite para a sua paciência. adotou essa postura por várias horas a cada dia.4 . o número quarenta é determinado ao se calcular um dia para cada ano no qual a nação deveria carregar sua ‘^ãwõn. De acordo com Números 14.’' Os ecos do texto de Números.™ os israelitas foram sen­ tenciados a um ano no deserto para cada dia que os espias ficaram explorando a terra de Canaã. programando o momento deste ato para alcançar um máximo efeito retórico. o Senhor do pacto. isto é. até que os corpos de toda essa geração morressem no deserto.33-35. De fato. Ezequiel cumpriu uma função sacerdotal comum (cf Êx 28. ele provavelmente continuava com suas atividades rotineiras na privacidade de seu lar ou se preparava para as dramatizações do dia seguinte. especialmente nas noites. Assim como na fase anterior.6-7.4 -8 C a r r e o a n d o a in iq u id a d e d e I s r a e l 189 Salomão. com o qual este versículo mostra várias ligações estilísticas. Israel provocaria a ira de Yahweh. nem como o profeta colocou-a sobre si. essa correlação oferece a chave para a interpretação desta ação. foi também res­ ponsável por começar a apostasia oficial patrocinada pela corte real.1). “iniquidade”. O texto não oferece qualquer pista sobre a maneira na qual essa iniquidade foi descrita. Pode-se entender que quarenta anos servem como um número redondo para uma geração.

Dado os sentimentos teológicos da época. e a ordem de profetizar contra Jerusalém {nibbã’ ‘^ãleyhã). deitando-se do seu lado esquerdo e do seu lado direito.’’^ descrevem o intento hostil de Yahweh contra a cidade. Quer a audiência de Ezequiel tenha entendido ou não o significado deste ato bizarro. Ezequiel deve deixar seu braço desnudo. especialmente porque a frase idiomática hãsap zérõa’^. a união do gesto com a disposição física da face de Ezequiel. O texto conclui com uma afírmação que Yahweh terá a última palavra no sinal-ato e na história de Israel. e a subse­ quente experiência da ira de Deus. o eco de 3.’*para o leitor o seu significado está claro.” A referência aos quarenta anos de exílio fala quanto à autenticidade do versículo 6. Ao passo que vira o olhar para a cidade cercada. especialmente porque em outras passagens rápidas retrospectivas do exílio reconhecem de modo consistente um período de setenta anos para Judá. o longo período da apostasia de Israel.10). era usa­ da para descrever a ação de Yahweh de se aproximar e libertar seu povo (Is 52. . “desnudar o braço”. O inimigo que os habitantes terão de enfrentar é o próprio Senhor do pacto deles. Eles provavelmente esperavam que Yahweh intervisse no último minuto e resgatasse a cidade do inimigo. 8 Ato 4. correspondendo às suas equivalentes verbais nos oráculos de julgamento profético. Enquanto pode-se somente especular como isto foi feito.^^ Assim como o período original de quarenta anos no deserto. exceto que agora Yahweh.25 na construção do versículo 8 sugere um método semelhante.^“ 7 Ato 3. o propósito do exílio era eliminar uma geração de israelitas que haviam provocado a sua ira e preparar o palco para um novo começo. amarra as cordas. com seu braço desmtdo. Este versículo desvia a atenção novamente ao cerco de Jerusalém. . em vez do povo.190 O LIVRO DE E z e q u i e l carregar a ‘^ãwõn da casa de Judá. respectivamente. Vire a sua fa ce . descrevem eventos sucessivos. No entanto. Assim as duas fases do sinal-ato de Ezequiel. Estes dois atos funcionam como acusações não verbais dramáticas e anúncios de julgamento respecti­ vamente. um gesto militar de um guerreiro se preparando para a bata­ lha. a audiência de Ezequiel pode bem ter interpretado a ação de forma positiva. que havia simbolizado o controle externo sobre o ministério do profeta . simbolizada pelo ato de amarrar Ezequiel com cordas {‘^ãbôtim). Diferente do ato de amarrar anterior.

10 A tua comida será por peso. em lugar de esterco humano. Comida para o fam into (4. nunca comi animal morto por si mesmo.^ e numa determinada hora a beberás diariamente.^ nem dilacerado por feras. 13 Então Yahweh declarou:^^ “Assim comerão osfilhos de Israel o seu pão imundo. o ato de amarrar seu corpo relaciona-se aos sinais-atos. 17 porque lhes'’*faltará o pão e a água. 9 Ato 1.9-17 C o m id a PARA o F A M IN T O 191 como um todo. comerão o pão por peso e. desde a minha mocidade até agora. lentilhas.'*^ sobre ele prepararás o teu pão \6 E me explicou: “Filho do homem. trezentos e noventa dias.9-17) 9 Toma um pouco de trigo.^' II Também beberás a água por medida. a sexta parte de um him.'*^ beberão a água por medida e com espanto. c. favas. eis que tirarei o sustento de pão em Jerusalém. Assim como o abrir e fechar da boca do profeta por parte de Yahweh estava relacionado com suas declara­ ções orais."*' nem carne abominável entrou em minha boca". Yahweh exercita um controle absoluto sobre ele.’*Julgando pela sua . entre as nações para onde os lançarei 14 “Ah! S e n h o r Yahweh! Protestei. com ansiedade. O profeta não pode regular a sua mensa­ gem ao mudar sua posição. espantar-se-ão uns com os outros e se consumirão por causa de'’^ suas iniquidades Após a introdução feita pelo profeta.'''’ cevada. segundo o número dos dias que te deitares sohre o teu lado.4. 12 E comerá'! um bolo^^ de cevada cozido sobre excremento^ de homem.'''’ comerás dele. 15 Então me disse: "Dei-te esterco de vacas. painço e espelta'. vinte siclos por dia. aqui o ato se relaciona especiílcamente a este sinal-ato. Yahweh imediatamente entra nas instruções para uma nova série de sinais-atos. Ezequiel recebe a ordem de procurar seis diferentes tipos de comida e preparar seu pão: ( 1) trigo: h iftâ é a palavra hebraica mais comum para o trigo descascado do tipo duro.^ e numa hora determinada a comerás diariamente. à vista do povo. Ezequiel não está livre para produzir suas próprias mensagens.^^ No entanto.*^ pois. Ao ser amarrado Ezequiel afirma de maneira nâo-verbal a qualidade inalterável de sua profecia. Põe-nos numa vasilha e faze deles pão.’^ Eis que a minha garganta não foi contaminada.

o cultivo desse cereal era amplo. cominho.’’ (2) cevada: sé’^ôrâ deriva-se de sé‘^ãr. denota um feijão grande da família das leguminosas. essa massa é incomum.'®' (6) espelta: geralmente mal-interpretado como um tipo de trigo.C.28 (também com trigo.25 (com salsa. O vegetal. cevada e trigo) e Isaías 28.’*0 ) favas : pôl. que ocorre no Antigo Testamento somente em 2Samuel 17. e oca­ sionalmente moído em forma de farinha e misturado com grãos para fazer pão. trigo e cevada). mas é relacionado ao acadiano duhnu}'^' E um grão do verão que requer irrigação na re­ gião de Israel.192 O LIVRO DE E z e q u i e l freqüente ocorrência em ugarítico e outros textos semíticos do noro­ este do período do primeiro milênio a.'®* mas em nenhum lugar a mistura de farinha de grãos é proibida. uma barba]”.'®^ A forma singular.34. esse grão era comum por toda a região do Oriente Próximo. era usado em sopas e purês. que parece ter sido um dos primeiros de uso doméstico no Oriente Próximo. e assá-la para fazer pão para si.'®’ As palavras na lista estão organizadas na seqüência ABA. pois inclui fava moída e lentilha com farinha de cereal. kussemet.11. kussémím deriva de kãsam.32 (com o linho. Assim como o trigo. com a primeira e a última linhas paralelas compostas de grãos de cereal.'®* O agru­ pam ento de quatro grãos é rem anescente de uma inscrição Panammuwa do século 8® a. entre os quais é intercalado um par de vegetais. ocorre em Êxodo 9.'®“ O espelta era inferior em qualidade tanto em relação ao trigo quanto à cevada.28 e 2Samuel 23. muito cuhivado no mundo antigo.19 proibia os israelitas de semearem um campo com dois tipos de semente.C.'"® (5) painço: dõhan é um hapax. O texto de Levítico 19.'®’ Esta receita foi destinada não como uma comida exótica babilônica.. Gênesis 25. Mesmo assim.. cortar [i. mas fornecia ao povo do Oriente Próximo colhei­ tas de outono. mencionam ‘^ãdãsâ/ ‘^àdãsím. provavelmente para prevenir a transfertilização de diferentes espécies de plantas.'®’ Ezequiel recebe uma ordem para misturar esses grãos e vege­ tais compondo uma massa. O vegetal era cozido e comido intei­ ro ou moído em moedor e misturado com cereal para fazer um mingau ou um pão grosseiro. “cabelo”. A comida seria tão escassa que seria . cevada e lentilhas). que combina trigo (_hth) e cevada {s'‘^rh) com “grão” {s’h ) e sorgo (íVrf).e.2Samuel 17. “tosquiar. mas como uma dieta durante o cerco.” (4) lentilhas: somente três textos adicionais. tanto do tipo duplo quanto do sêxtuplo.

As ações prescritas a seguir descrevem outra dimensão da crise que aguarda Jemsalém ."^ Ezequiel declara com esta demonstração não verbal que a cidade será levada à beira da fome. o sinal-ato prescrito nos versículos 10-11 reforça a mensagem do versículo 9. Mas esta questão é resolvida se interpretar­ mos os sinais-atos nos versículos 9 e 10-11 respectivamente. à noite. a referência ao bolo de cevada {^ugatsé‘^õrím) toma o leitor de surpresa. De acordo com o versículo 9b. retomava às suas atividades normais.9-17 C o m id a PA R A o F A M IN T O 193 impossível conseguir farinha o suficiente e mingau vegetal juntos de qualquer tipo para se fazer um pão. que é equivalente a aproximadamente 240 gramas. mas. 10-11 Ato 2. Segundo. o tamanho do pão não é proporcional às rações diárias especificadas nos versículos 10 e 11.o exílio de sua população.10. São ligadas pela preocupação comum com a falta de alimento. imagi­ nar Ezequiel de bruços por várias horas a cada dia.4. exceto ao “raspar-se o fundo dos tonéis de armazenamento”. que traduzido eqüivale a meio litro de água. Apesar das medidas regulares tomadas por oficiais locais para as­ segurar o suprimento de água e de comida de Jerusalém. Deveríamos. 12-14 Ato 3. e então. Primeiramente. Interpretado assim. cada dramatização segue seu próprio rumo. provavelmente. ninguém poderia sobreviver todo aquele tem­ po com um pedaço de pão feito do pouco que poderia ser obtido dos tonéis de estocagem de cereais."^ A intenção do sinal-ato é esclarecida nos versículos 16-17 e 5. Sua ração diária de comida é especificada como vinte shequéis. O fato de o bolo de cevada . Ezequiel. e então.'" Sua ração diária de água era de um sexto de um him. enquanto a audiência assistia. comia um pequeno pedaço de pão. esse pão era para sustentar Ezequiel durante o período de 390 dias que passaria deitado sobre seu lado esquerdo. Os problemas logísticos que este comando causa são óbvios. deve ter representado alguns aspectos de cada uma a cada dia. além disto. Ezequiel recebe a ordem de assar um bolo de cevada diante de seus companheiros exilados. provavelmente. como duas dramatizações separadas. As instruções apresentadas na forma de duas ordens simétricas"" prescrevem di­ etas extremamente reduzidas para o profeta. Após lidar com um pão feito com muitos tipos de grãos no versículo 9.

Aqui a questão não é a composição do bolo (cevada). as afirmações seguintes. o profeta sacerdotal reage à ordem de Yahweh com desgosto e choque.18 e . Yahweh ordena que Ezequiel grelhe seu bolo sobre /èzes humanas. de doença ou exaustão.17) por causa das práti­ cas abomináveis de seus habitantes.19. especialmente a referência à “minha boca” (pi).194 O 1. relacionado não à tomada de Jerusalém."* denota um bolo chato ou disco de pão. E zf . assado em uma panela sobre pedras quentes. pedem uma interpreta­ ção mais concreta. No entanto.e. i. Seguindo a exclamação inicial. bèsarpiggúl. especial­ mente onde outras formas de combustível eram escassas (como na Mesopotâmia). “garganta. oferecendo uma explicação imediata para este ato no versículo 13.12-14 [em português. mas o sentido é sugerido em Levítico 7. eu”. contaminadas (Js 22. mas 0 combustível: deve ser assado sobre excremento humano. Embora muitas traduções tragam napsi como “minha pessoa. particularmente a idolatria.o u i e l representar a marca das classes mais baixas pode ser somente uma referência feita por Ezequiel ao seu pão pelo nome usado pelo povo comum. Ele começa com uma afirmação de um princípio: Minha garganta nunca fo i contaminada. independentemente de sua composição. e carne contaminada. mas à experiência do exílio.. O uso de estrume para combustível não era algo incomum."® O profeta cita três catego­ rias de tabus de dietas que não violou desde sua juventude: a proibição de se comer da came de animais que morreram de morte natural. Am 7."* Então."“ Mas a questão é mais bem resolvida pela interpretação dos versículos 12-15 como um sinal-ato separado. seu protesto toma a forma de uma apologia pessoal. O fato de cozinhar sobre detritos humanos não era o mesmo que comer comida contaminada.1VRO DF. mas o profeta acha algo igualmente repulsivo. 11-13]). Este ato bizarro prediz o destino dos israelitas:"’ coma seu pão impuro no meio das nações. goela”. A última expres­ são. cientes das prescrições mosaicas para a eliminação dos detritos humanos a fim de se manter o campo israelita santo (Dt 23. Aqui a palavra impuro (tãm ê) se refere à impureza cerimonial e ritual. Havia terras fora de Israel que eram considera­ das impuras. é rara. 14 O desabafo de Ezequiel oferece ao leitor uma rara visão dentro de suas reações emocionais às exigências que Yahweh lhe fez. came de animais que foram mortos ou mutilados por uma besta como presa.

16 A fórmula introdutória no versículo 16a anuncia uma nova subseção. em vez de excremento humano representa uma concessão.'*^ Mas m atteh pode também se referir a “caule. ramo” de grão. A permissão de cozinhar a comida sobre esterco de vaca.”’ As palavras do profeta representam um protesto de ino­ cência em questões pertencentes à santidade e pureza cerimoniais. que fala do “sustento de pão” {mis‘^an lehem) e “o sustento de água” {mis‘^an mayim). seu significado é agora apre­ sentado cristalinamente.4. que talvez não tenha entendido a mensagem da dramatização.'"“ Seja qual for a origem da frase aqui.Alguns derivam a expressão idiomática da prática de se colocar pães em forma de anel ao redor de varas e suspendê-los para que ratos não os comessem. O uso que Ezequiel faz é remanescente de Isaías 3. Na ausência de refrigeração.4. oferecendo uma interpretação verbal do sinal-ato descrito nos versículos 9-11.7. “carne suína”. a “sopa de piggulini’’ é comparada a bésar hahâzír. O fato de a audiência imediata do profeta ser formada por pessoas. em que piggúl refere-se à carne sacrificial que não foi comida no terceiro dia.'^. “quebrar a vara de pão” . reminiscente de Deuteronômio 26. Para a audiência de Ezequiel. sugere que m atteh funciona como um substituto concreto para m is‘^ãn. tal carne obviamente começaria a se decompor. preparar comida em uma terra estranha também contamina a comida.'“ 15 A resposta de Yahweh ao choque de Ezequiel é de compre­ ensão. a única outra ocorrência do termo.'^' As intenções de Yahweh são resumidas na afirmação inicial: Estou a ponto de cortar o suprimento de comida em Jerusalém. “vara de pão” ) não é clara. A intenção de Ezequiel nesta contra­ venção deliberada das leis dietéticas tradicionais chocaria sua au­ diência. já em exílio. sendo muito influenciada pelos castigos do pacto de Levítico 26. A linguagem é estereotipada. fazendo-os levar a sério o tratamento do colapso de Jerusalém e a deportação de sua população. Em Isaías 65. uma atenção às sensibilidades pessoais do profeta enquanto preserva o elemento contaminante da dramatização.1.9-17 C o m id a PARA o F A M IN T O 195 19. O ponto é que assim como cozinhar comida sobre um fogo alimentado por excrementos contamina a co­ mida.26). assim como no texto anterior (Lv 26. reforçava a vergonha do destino deles. da mesma maneira. A derivação da ex­ pressão idiomática m attèh lehem (lit.13-15.

dois novos elementos são acrescentados. . (2) que todas as pessoas sejam escandalizadas (nãsammú)'. que é emparelhado com seu sinônimo jôrie'em Isaías 57.196 O LIVRO DE E z e q u i e l conota a destruição do suprimento de comida. é estranho após as referências aos habitantes comendo e bebendo ansiosamente as porções racionadas. do propósito de Deus: (1) reduzir o suprimento de pão.'^’ continua a ecoar Levítico 26. a expressão idiomática exprime um de uma série de castigos que Yahweh pronuncia sobre seu povo se persistirem em abandonar a fé nele. apresentado em estilo quiástico semipoético. dê’dgâ. Ezequiel reconhece a declaração de Deus como um aviso que a maldição do pacto estará sobre o povo brevemente. pois a dificuldade está na incerteza quanto à palavra nãmaqqú. e então produzindo pão em quantidades racionadas. . No entanto. ocorram 50 vezes nesse l i v r o . Embora a atual combi­ nação dos verbos tenha uma ressonância agradável (wénãsammú. aparece em outro texto somente no capítulo 12.8. Tentativas para se resolver o problema ao se traduzir a palavra “com o resultado que” ou “porque”'” não são somente forçadas. a fim de que. . fazendo que seu povo cumpra os mínimos detalhes da letra da Torá.'^* Na passagem de Levítico. simmãmôn. Ansiedade. lógica. Isto é ilustrado pela imagem de dez mulheres assando pão em um forno. Contrário à citação do povo que Deus fora infiel. O resultado é uma afirmação tripla. Receio. o uso dessa expressão idiomáti­ ca afirma sua determinação em manter o pacto. 17 O relacionamento do versículo 17 com o anterior não é muito claro em razão do que muitos consideram o uso anômalo da partícula lém a‘^an. “temer”. A s palavras descrevem o estresse emocional que a escassez de comida em Jerusalém trará sobre a popu­ lação cercada. mas também desnecessárias se o versículo for tratado como a segunda parte da sentença começada no versículo 16a. e (3) que o povo morra de fome por causa de sua iniqüidade.'“ O que vem a seguir. Palavras-chave como pelo peso (bêmisqãl) e pelo volume (bimsúrâ) amarram intencionalmente estas linhas aos versículos 10 e 11. e se construir as linhas interseccionantes como semipoéticas laterais.26. O sentido comum. embora outras formas da raiz sõm am .11 e Jeremias 17. Sem dúvida. “ser devastado”. deriva-se do verbo d â ’ag.19. Somente a última parte requer comentário.

43. esta expressão parece tom ada em prestada de Levítico 26. ” 1 Assim como em 4. na execução dos sinais-atos pelo profeta.31).3 [em português. Tanto a tomada da cidade quanto o banimento para terras impuras (v. assim como Ezequiel 24.'^’’ 3 Desta terça parte tomarás um pouco e atarás em suas vestes. um novo sinal-ato é apresentado por ordem de Yahweh para que Ezequiel procure um objeto. 36. No seu senti­ do concreto. Ezequiel anuncia que o reconhecimento desta con­ dição repulsiva.1 "Mas tu. que descreve o destino dos exilados abandonados entre as nações em terreno estrangeiro. pega uma espada afiada. m ãqaq refere-se à decomposição da carne (c f Is 3. A narrativa reflete uma dramatização em duas fases: ( 1) o cortar e se desfazer do . que será a chave para a sua representação.9. O destino que esperava a cidade é o resultado de ações deliberadas de Deus. Então.24.10. Zc 14.'^* 4 E pegarás um pouco mais de cabelo e lançarás no centro do fogo. O contexto atual.1-4) 5. e rape''^^ sua cabeça e sua barba. causada pela iniquidade.24. irá levá-los à autoabominação (6. E um terço deve ser lançado ao vento. em cumprimento calculado das maldições do pacto. quando os dias do cerco se cumprirem. obviamente requer uma interpretação figurada. 13) são suas ações. em que a mesma expressão ocorre. Agora desembainharei a espada atrás deles. Dali'^"* o fogo se espalhará'**^ para toda a familia de Israel. O destino dos habitantes de Jerusalém (5.23 e 33. os exilados não reconhecessem o papel de Deus na tomada de Jerusalém. Aproprie-se dela'^' como se fosse uma navalha de barbeiro. e queimarás com o fogo. SI 38. desta vez uma espada.9.5. espalhando-o ao redor da cidade. 20.1-4 O D E S T IN O D O S H A B IT A N T E S D E J E R U S A L É M 197 w énãm aqqú). 2 Um terço'^* deve ser jogado no fogo'^^ dentro da cidade. esta inter­ pretação tiraria qualquer dúvida. homem. pegue uma balança e divida'^^ os cabelos. Mais tarde. Se. pegarás um terço e o picarás'^^ com a navalha. como se fosse um verme. Então.12).1 e 4. d.39 (duas vezes).'^® Talvez a imagem seja a de um defunto sendo comido pela iniquidade. com a explícita inten­ ção de destruir seu povo. 2]. 5.

ocorre três vezes no versículo 1. Segundo. na segunda fase (v. 0 comentário interpretativo. “agora eu desembainharei a es­ pada atrás deles”.13). esta não é a primeira vez que uma narração é interrompida com um comentário explicativo (c f 4.5 e 8. 3) aponta para um antecedente na fase 1.'““ O uso de uma arma militar tão pontiaguda para uma tarefa tão delicada como cortar o cabelo e a barba obviamente requereria extrema habilidade. inapropriado. (2) a preservação do remanescente. “cercar para tomar”. “fogo”. parece intrusivo. em 4. No entanto. Embora alguns a expli­ quem como uma palavra em prestada do acadiano relacionada a gallãbu. Mas a descri­ ção apresenta sinais claros de unidade. no versículo precedente.'“' O instrumento que Ezequiel procura é identificado como uma HEREB. Embora a palavra fosse usada para vários tipos de instrumento de corte. que identifica o instrumento como aquele usado para cortar o cabelo dos nazireus e levitas. é esclarecido em Núm eros 6. como possível exceção. o narrador emprega um inteligente jogo de palavras que atravessa a fronteira dos dois segmentos.198 O LIVRO DE E z e q u ie l cabelo do profeta. ’és. “estar nu” . Apesar destes sinais de coesão. “dali”. O uso que Ezequiel faz de t a ‘^ar. em suas vestimentas como medida de preservação. respectivamente. no fínal do versículo 2. Algumas expressões para “esconder” poderiam ter sido mais naturais neste contexto. o advérbio missãm . a expressão lãqah lékã.7. “espalhar”. em Ezequiel sempre se refere a uma arma militar que. é eliminado de três maneiras diferentes. aquela quantidade. é a espada.'“^ Aqui o profeta deve tomar uma espa­ da e cortar seu cabelo e sua barba. a verificação em textos fenícios e púnicos significa que era provavelmente uma palavra comum semítica. mas o ouvido sensível não perderia a conexão do auditório com o antônimo tizreh. No versículo 3 o profeta recebe a orientação para pegar um pouco de cabelo e “atar” (wèsartã). que deriva de ‘^ãrâ. Terceiro. mas também funciona como uma cortina literária entre as duas cenas em um ato. é um hapax. usando este instrumento como uma navalha de barbeiros (ta ‘^ar haggallãbim). assim como a forma idên­ tica wésartã.'“^ A pa­ lavra para “barbeiros”. é dominada pelo número 3: o cabelo dividido em três partes. A frase não somente lem­ bra o leitor do papel decisivo de Deus na destruição da população de Jerusalém. . “tome para si mesmo'’. Em primeiro lugar.3. ocorre três vezes no versículo 4.

Como foi o caso do comer do rolo (2.'“* Terceiro. toma-se mais e mais evidente que a navalha (espada) estava nas mãos de outra pessoa. De fato.20. Também tirará a barba” (Is 7.3).5.'“’ O fato de Ezequiel cortar os próprios cabelos pode ter sugerido aos que assistiam. Lv 21.26). ao ter cortado o próprio cabelo. Ao passo que a representação contínua.’“’ Existem três outras possibilidades. ‘cabelo dos p és’].5. que aquilo era um sinal de luto ou de uma desgraça autoinfligida.'“’ O texto m ágico-ritualístico babilônico fomece uma analogia interessante. Segundo. De fato. Séculos antes.'“* É difícil achar um antecedente para este ato. cortar o cabelo da própria cabeça era geralmente associado com rituais de sofrimento. no entanto. J eru sa lém 199 De maneira isolada.18).20).1-4 O D E S T IN O D O S H A iiiT A N T K s D i. ou como uma acomodação aos costumes pagãos.15. era o mesmo que experimentar extrema desonra e humilhação. à luz de tabus tradicionais estri­ tos sobre sacerdotes e levitas cortando os próprios cabelos desta ma­ neira (Ez 44. o próprio profeta deve ter ficado chocado com esta ordem de Deus assim como com a ordem de comer pão assado sobre excremento humano (Ez 4. quando alguém tinha seus cabelos cortados por outra pessoa de modo força­ do. 7. Sua audiência poderia ter interpreta­ do aquilo de forma mágica. com o rei da Assíria). inicialmente. a mensagem comunicada pelo corte de cabelo de Ezequiel é polivalente. mas nenhum nem outro parecem os casos.14).9-3. enquanto sua audiência assis­ tia. a cabeça e os pelos púbicos [lit.1). coloque o cabelo da . mas o significado de sua afitude era bem diferente. recebe a ordem para pesá-lo em balança. particularmente a se­ guinte situação: “segure bem alto uma balança. e cuidadosamente dividi-lo em três partes iguais. podem ter entendido a representa­ ção de Ezequiel como um repúdio à sua posição sacerdotal. e que a aparência careca de Ezequiel sim­ boliza a humilhação próxima de seus compatriotas que ainda estavam em Jerasalém ( c f 5. De acordo com o versículo Ib. Mas o desempenho do sinal-ato de Ezequiel vai dois ou três estágios além da metáfora. Absalão costumava pesar o seu cabelo na época de seu corte anual (2Sm 14. podia até ter relembrado uma metáfora usada por Isaías mais de um século atrás: “naquele dia o Senhor raspará (yêgallah) com uma navalha {béta‘^ar) emprestada do outro lado do rio (isto é. Ezequiel usa um ato não verbal para dramatizar imagens verbais criadas por outros profetas. Primeiramente. Dt 14.

mas deliberado e cuidadosamente calculado. Além do mais. de devastar cidades conquista­ das. A segunda porção de cabelo deveria ser distribuída ao redor do tijolo e picada {HIKKA) com a espada. uma carac­ terística tipicamente ezequieliana. Ao identifícar-se a si mes­ mo como o que segura a espada. o tempo representado pelos 390 dias que Ezequiel passara sobre o seu lado esquerdo.2(X) O LIVRO DE E z e q u i e l cabeça [de seu paciente] na dobra de sua roupa e o pese” . O fínal do versículo 2 pega o leitor de surpresa.'*’ A imagem do fogo como símbolo de destruição. 3). ao menos a pesagem sugere que tal atividade era conheci­ da no contexto babilônico na época de Ezequiel. isto é. simbolizando tanto a dispersão quanto o desaparecimento do remanescente da população. A citação da cidade (hã‘^ir) conecta esta dramatização com 0 tijolo onde o mapa de Jerusalém havia sido desenhado (4. Assim como aqueles que caíram ao fogo e à espada. O horário da queima do cabelo é fíxado quando os dias do cerco se completarem. Também envia um sinal àqueles que percebem a signifícância da dramatização.'*^ Yahweh ordena que o profeta queime o cabelo no centro da cidade. é tirada de práticas antigas e também modernas. em Ezequiel e em outros pontos do Antigo Testamento.'“ Ainda que a atitude de Ezequiel não tenha um signifícado mágico semelhante a este texto. Agora a palavra hereb toma um novo signifícado.1.'*’ 2 O sinal-ato continua no versículo 2 com uma descrição do tratamento dado aos três montes de cabelo. A primeira parte deveria ser atirada ao fogo.'*“ Yahweh manda que Ezequiel espalhe a terceira parte do cabelo ao vento. que o julgamento que Yahweh distribui não é aleatório.'** Agora desembainharei a espada. O efeito sucessivo dessas três ações é para enfatizar a totali­ dade do julgamento prestes a ocorrer. metonimicamente representando a morte violenta que aqueles que tentassem escapar da destmição dentro da cidade sofreriam nas mãos dos exércitos de Nabucodonosor. O aviso desse horá­ rio é destinado a acabar com qualquer esperança de socorro para a cidade e o iminente retomo tão desejado pelos exilados. mas não é não gramatical. o uso da balança reflete uma preocupação meticulosa pela precisão. relembrando à audiência que o destino da cidade deles estava em jogo. que deve ter suas raízes em sua he­ rança sacerdotal. eles desaparecerão para sempre da história do povo de Deus. Yahweh chama atenção a si mesmo .

“desencapar. mVãsap-rúah béhopnãyw m i sãrar-mayim bassimlâ m i hêqim kol. Assim como nos atos ante­ riores. este comentário parece inspirado nas maldições do pacto de Levítico 26.'*’ 3 Um novo movimento começa: desta porção de cabelo destinado à dispersão. Ezequiel faz o papel de Deus. uma expressão que tem o seu equi­ valente no acadiano kakke petú. Ainda mais instrutivo é Provérbios 30. que descreve Yahweh embrulhando (sõrãr) as águas nas nuvens de ma­ neira que não derramem. “derramar a espada”). que justapõe esta mesma fi-ase com zãrâ. abrir a espada” .1-4 O D E S T IN O ix)s H A B IT A N T E S D E J eru sa lém 201 como 0 ator principal nos eventos históricos iminentes. No entanto.’apsê. a referência à vestimenta fornece um segundo elo com o nosso texto. Aqueles que sobreviverem quando forem espalhados só sobreviverão por causa da intervenção de Deus a favor deles. kènãpim.8. . especificamente o versículo 33.’ãres Quem encerrou os ventos nos seus punhos? Quem amarrou as águas na sua roupa? Quem estabeleceu todas as extre­ midades da terra? Ainda que uma palavra diferente seja usada.'** Assim como 4. Embora a palavra literalmente signifi­ que “asas”.'*® como o cabelo que Ezequiel separa para representar aqueles poucos residentes de Jerusalém que escaparam do fogo. amarrar”. assim como em nosso texto. é ambíguo. agora toma um novo rumo quanto ao cuidado dos exilados. com frequência denota uma peça de roupa. “espalhar”.'*’ Aqui iden­ tifica as dobras dos bolsos criadas ao se dobrarem os panos soltos da roupa na faixa usada na cintura.4.'** como em Jó 26. Apesar da forma abrupta da referência à própria ação de Yahweh. da espada e do exílio. Ezequiel deve selecionar um pouco de cabelo e guardá-lo na dobra de sua roupa. A tradução desembainhar a espada representa um paralelo idiomático de hêríq hereb (lit. de julgar pelo fogo picando e espalhando o cabelo.16-17. A raiz í / r significa literalmente “atar. este elo e mais a emergência do tema do remanescente nos versículos seguintes justificam a retenção desta cláusula.5. Isto poderia ser usado para carregar pequenos objetos de maneira segura. sua ação simbólica. tra­ duzido como saias. mas é também usada quanto a embrulhar.

kõh ’ã m ar ’ã dõnãy yhw h. a interpretação dos sinaisatos oferecida em 5. “Eu sou o S enmor .202 O LIVRO DE E z e o u i e l 4 Como ato tlnal. à espada do ini­ migo e à dispersão pelas nações não deve ser interpretado como uma garantia de segurança. mesmo aqueles no exílio. Ezequiel havia.5-17 está entre as mais complexas de todo o livro. em sua forma literária atual. Neste ponto. Como Levítico 26.36-39 havia predito. e (2) um desejo de separar a representação não verbal da proclamação verbal. e conclui com uma forma modificada da fónnula de autoapresentação divina. No entanto. de fato. a mão pesada da ira de Deus alcançaria bem além das fronteiras de sua terra. 2. ser interpretadas como fragmentos ou sumários das explicações morais oferecidas em associa­ ção com os vários atos. Embora muitas características das apresentações orais originais tenham sido preservadas. que. à medida que foram realizados. A PROCLAM AÇÃO VER BAL (5.'*' Esta ação serve como um aviso aos exilados conformados. “assim disse o Senhor Yahweh”. eu falei” . ’ã n iyh w h dibbartí. sim­ plesmente ter sobrevivido à conflagração na cidade. Estas afirmações deveriam. é mais bem classificada como um discurso profético complexo de julgamento. Ao separar o restante do cabelo que estava em sua roupa.' Como anteriormente observado. a relevância do sinalato para os observadores do profeta deve ter se tornado aparente. Yahweh ordena que Ezequiel pegue um pouco do cabelo que havia separado e o lance no fogo. provavelmente. Começa formalmente com a fórmula de intimação. As tensões na atual composição se derivam de duas considerações editoriais conflitantes: ( 1)0 compromisso para preservar os comentários interpretativos que foram associados com os respectivos sinais-atos. a natureza intrincada da passagem como um todo surge da preocupação de fornecer interpre­ tações de uma série de sinais exatos em uma única unidade literária. anunciado que o futuro do povo de Deus está com os exilados. O fogo que havia começado em Jerusalém atingiria toda a casa de Israel. os versículos 5 a 17 representam uma síntese literária daquelas .5-17) ♦ Natureza e desígnio Apesar de sua relativa brevidade. O material entrelaçado apre­ senta uma impressionante colagem de ditos.

pois esta identificação fora feita anteriormente (4. Quer a audiência de Ezequiel tenha reconhecido sua cidade no mapa desenhado sobre o tijolo quer não. obviamente. Para o leitor isto aparece sem qualquer surpresa.5 . 14-15) iii. agentes de morte (vs. Eu a coloquei no centro das nações. 9-10) 2) O segundo anúncio (vs. estilo. com paises.6 A AUTUAÇÃO DE J e r u s a l é m 203 explicações verbais.5-6) 5. Apesar de sua natureza fragmentada. e contra meus decretos mais que os paises ao seu redor. .5 . O produto.3). a. 11-13) ii. A autuação de Jerusalém (5.* Pois rejeitaram minhas leis. 11 a) b) A sentença (vs. Era necessária a eliminação de qualquer confusão ou dúvida sobre o significado das dramatizações que se seguiriam. 11 b -17) i.5 Assim disse o S enhor: "esta é Jerusalém. 7-8) b) A segunda acusação e a sentença (vs. 7-17) 1 ) 0 primeiro anúncio (vs. 7-10) a) A acusação inicial e a sentença (vs.ao seu redor 6 Mas ela se rebelou contra minhas leis com maior impiedade^ que as nações. não atinge critérios modemos de ordem e fluxo.5-17 se subdivide em duas partes primárias desiguais e em vários segmentos secundários: a. A autuação de Jemsalém (vs. 11-17) a) A acusação (v. Os anúncios do julgamento sobre Jemsalém (vs. 16-17) Oferecerei observações estmturais e estilísticas específicas ao tratar cada segmento. 5-6) b. A atitude de Yahweh para com Jemsalém (vs. o capítulo 5. e não seguiram meus decretos 5 Seguindo a fórmula de intimação na abertura. é razoável supor que esta declaração foi dada imediatamente após ter desenhado o esboço. Os agentes de Yahweh. esta é Jerusalém. e deveriam ser julgados de acordo com os padrões antigos. O objetivo de Yahweh para Jemsalém (vs. o discurso de julgamento começa com um anúncio formal. com base no conteúdo. e indicadores literários formais.

Destinou-lhe uma posição no centro do universo internacional.13-14. que relata que quando a terra de Israel finalmente descansasse da guerra. 6 As razões dessa perda são resumidas aqui. Jerusalém não era simplesmente uma cidade entre muitas. e a estrutura e o vocabulário deles apresentam uma influência pesada dos procedimentos conduzidos nos tribunais. Yahweh escolheria um lugar para estabelecer seu nome. para estar no “topo do mundo” . e uma descrição da res­ posta sobre seu status. Esta promessa não foi cumprida até que a dinastia davídica foi firmemente instalada no trono de Israel e construiu uma residência para ele no m onte Sião. Como os capítulos 8 a 11 demonstram. Em vez de ser uma luz para as .* A noção da eleição especial de Jerusalém está fundamentada em Deuteronômio 12. que evita a designação tomada em sentido total­ mente teológico. no entanto. e os profetas do século 8« esperavam o dia quando todas as nações se deslocariam para Jerusalém/Sião para ouvir a palavra de Yahweh e gozar o en­ cerramento merecido das disputas. no julgamento. O statiis privilegiado da cidade entre as nações havia sido perdido. Fica claro. havia sido escolhida. especificamente. o juramento de Yahweh à casa de Davi estava especificamente ligado á escolha de Sião como sua residência. Os versículos 5 a 17 são apresentados como um discur­ so profético de juízo.’ Para Yahweh.11. Jerusalém se rebelou contra aque­ le que a havia escolhido e separado. que no passado a cidade havia gozado o status da “cidade mais favorecida” para com ele.41-43).2 ()4 O LIVRO DE E z e q u ie l Em seu contexto literário atual. isto é* impos­ sível para Ezequiel. por intennédio das ações de Yahweh a favor de Jeru­ salém. A apresenta­ ção do ofensor é seguida nos versículos 5b e 6 com um sumário das acusações. Embora os outros pudessem li­ vremente trocar o nome de Sião com o de Jerusalém. para este profeta Jerusalém deixou de ser a residência de Deus. De fato. Ao recusar em viver de acordo com seu chamado. de acor­ do com o Salmo 132. A autuação consiste de duas partes: uma declaração da posição divinamente ordenada de Jerusalém. um anúncio como “esta é Jerusalém” teria apre­ sentado o acusado para as testemunhas. o anúncio recebe um signi­ ficado a mais. Sião não existia mais.’ O potencial para o seu lugar entre as nações foi reconhecido já por Salomão em sua oração dedicatória (1 Rs 8. Nestes contextos.

As leis que os israelitas violaram não eram simplesmente esta­ tutos estabelecidos por tribunais humanos ou juizes humanos. Israel adotou os padrões ímpios de comportamento de seus vizinhos. sugerindo leis formais imutáveis. Jerusalém tinha um conhecimento claro da vontade de seu Deus e da natureza justa. mispãtím e Aí/ççôf representam as estipulações do pacto de Yahweh conforme descrito nos escritos sacerdotais'^ e expostos em Deuteronômio. De fato. e suas nuanças distintas ten­ dem a se misturar. mas com o tempo foi também aplicada a regulam entações costum eiras de legislações. as obrigações pactuais de Israel com Yahweh eram a inveja das nações. inscrever”. em vez de guardar a vontade revelada de Yahweh como sinal da graça divina. de sãpat. por isso a caracterização que Ezequiel faz de seu povo como mais ímpio que as nações se ju s­ tifica. De acordo com Deuteronômio 4. Jerusalém ultrapassou as nações em seus próprios jogos de rebelião e impiedade. No entanto.'® A segunda palavra se deriva do verbo hãqaq. de suas ordenanças. “julgar”. descrevem a infidelidade pactuai da cidade: kl bèmispãtay m ã ’ã sú wèhuqqôtay lõ ’ hãlèkú bãhem Pois rejeitaram minhas leis. ori­ ginalmente. apresentadas em um paralelismo poético. As expectativas de Yahweh em relação a seu povo são sumaria­ das em duas palavras-chave: mispãtím e huqqôt. nenhuma delas recebeu tal com­ pêndio justo {saddiq) de leis de seus deuses. ao falhar em viver na luz da revelação de Deus a cidade escolhida havia se tomado a mancha mais escura do mundo.7-8." Juntos.’ Duas cláusulas. E em meus decretos não an­ daram. Em vez de ser uma luz para o mundo.5.5-6 A AUTUAÇÃO DE J eru sa lém 205 nações e demonstrar diante delas o caráter reto da vontade revelada de Yahweh. geralmente traduzida como “julgam entos”. estes termos cons­ tituem um par padronizado que ocorre com grande frequência nos escritos sacerdotais e deuteronomistas. a veredictos legais de um juiz. A primeira. . “gravar. decretadas por uma legislatura e entalhada na rocha ou tábuas de barro. tomou orientações quanto à sua própria conduta com as nações. singular. referia-se.

O primeiro anúncio de julgamento sobre Jerusalém (5. dependendo de sua associação com outras fórmulas ou afirmações. lãkên.^. a palavra amarra todo o texto dos versículos 7 a 10 de maneira lógica com a porção precedente. “portanto. Como um disposi­ tivo retórico.'"’ e os filhos comerão . e criando um clima de antecipação para o que se seguirá. kõh ’ã m ar ’ã dõnãyyhw h. das quais as duas estruturas e significados são determinados pela sequência ^0/2 .7b-8. “porque . assim disse o S enhor ” . aqui está o que o S enhor Yahweh declarou: 'estou contra vós! Eu mesmo!''' E executarei juízos'^ no meio de vós. 9 Por causa de todas as . em VOS. . Variações desta combinação ocorrem 24 vezes em Ezequiel. sinaliza a transmissão da autuação para o anúncio do julgamento.SO meio os pais comerão seus filhos. ..O lembrete desta subunidade se divide formalmente em duas partes (vs. e ao mesmo tempo sublinha uma função tomada por lãkên ao sinalizar a iminência da resposta de Yahweh..8 portanto. não cumpristes as minhas leis'* .sua conduta nem mesmo'^ chegou aos padrões de conduta das nações'’' ao seu redor . Em tais construções introduz o problema específico. lãkên serve a várias funções diferentes. no versículo 7. 10 Portanto.” A repetição dupla deste padrão dentro dos versículos 7b-10 é caracteristicamente ezequiel iana. portanto” . aumen­ tando a força total da determinação de Yahweh de julgar Jerusalém.^° Executarei juizos em vosso meio e espalharei a todos os sobreviventes em todas as direções' A mudança da terceira pessoa para a segunda pessoa do discurso direto. centralizando a atenção da audiência na resposta divina à situação descrita nos versículos 5-6. A forma verbal hmn. .7-10) 1 Portanto. Aos pecados de rebelião {mãrã) e impiedade {ris‘^ã) é acrescentado o de uma rebelião tumultuada. tumultuar”. 7 Antes de Yahweh anunciar formalmente sua disposição para com Jerusalém no versículo 8. reitera as acusações contra ela.seus pais. geralmente na forma de uma autuação. A primeira (vs.luas abominações farei algo em seu meio que nunca fiz antes. que ocorrerá em duas partes. e nunca mais farei novamente. “explodir.’’ Aqui. à vista das nações. 7-10) abre formalmente com a palavra lãkên mais a fórmula de intimação.9-10).206 O LIVRO DE E z e q u i e l b. assim disse o S enhor Yahweh: “porque sua conduta'^ foi mais rebelde que a das nações ao seu redor: não seguistes os meus decretos.

-* Enquanto a seqüência . eu m esm o” ).. Esta modificação produz o que comumente se conhece como uma fórmula de desafio a um duelo. criar pânico”. “olhe. agora.. ser turbulento” e hãmam. isto é.4 [em português. Jr 5. lãkén .35.^’ 8 A reação de Yahweh à rebelião de sua cidade é apresentada na forma de um desafio a um duelo.^. portanto . geralmente é seguida por uma forma participial do verbo.22. 5).-“ A primei­ ra delas é usada no sentido neutro do rugir das ondas (Is 51. contra você. Jerusalém lançou fora o jugo de seus decretos e leis“ e ousadamente tomou 0 próprio caminho. A expressão seguinte. a fórmula representa o oposto de hinnéni ‘^immãk. O anúncio é aberto com um trovão: estou contra vocês! Eu mesmo! {hinnéni ‘^ãlayikgam ’ã n t lit.. nem mesmo conseguiu viver conforme o padrão das nações. . hinnéni.. “fazer um barulho. . uma expressão de presença e apoio. . Jerusalém é identificada como seu oponente (c f v. mas teologicamente refere-se a “irreverência. O acréscimo de hinnéni a lãkén acentua o caráter enfático da rea­ ção de Deus. em vez de se alegrar com as ex­ pectativas pactuais justas de Yahweh. a nuança de m ispãtím mudou. 6-7). .7-10 O P R IM K IR O A N Ú N C IO D E JU L G A M E N T O S O B R E J k R U S A I.-* Aqui a confusão da rebelião ímpia de Jerusalém pode ser ouvida mais alta que o coro turbulento das nações. arrogância e insolência da parte dos humanos para com Yahweh”. “gritar. “porque . O tumulto de Jerusalém é expresso ao repudiar o pacto de Deus. 31. . as tradições e os costumes de seus vizinhos pagãos. “olhe para m im . SI 46. mas está muito relacionada com hãmâ.15. De fato. olhe para mim”.“ hinnéni ‘^al/’e lpode originalmente ter constituído o grito pelo qual uma pessoa desafiava outra em um combate homem a homem. ’à ni. Essa declaração afirma oralmente o que os sinais-atos comuni­ caram de forma não verbal.Significa o repúdio de Yahweh e suas obrigações protetoras para com o seu povo. A palavra não se refere mais à vontade revelada de Deus (vs. especialmente a maquete da tomada e a panela de ferro (4. os combatentes são identificados: Deus dá um passo à frente como o desafiador.5. À moda ezequieliana. estou contra você”.É M 207 ocorre somente aqui. representa os padrões que governam o comporta­ mento do pagão.” aqui é sucedida por uma forma sufixada da preposição ‘^ãlayik.1-3): Yahweh assumiu a postura de um inimigo com intenção de destruir seu próprio povo.^' Neste contexto. 3]). “eu estou convosco”. Primeiramente.

16). Semelhantemente. A intensidade da temeridade desta possibilidade se tomará aparente ao passo que o discurso progride.9 (em por­ tuguês. lit. no Salmo 88. “em você”. O uso de m isp ã tim para “ punições”” acrescenta uma terceira nuança a esta palavra. que afirma que foi para os egípcios comerem com os hebreus. A escolha que Ezequiel faz desta palavra parece destacar a intenção de Deus para fazer a puni­ ção apropriada ao crime.18 fala da goela de alguém {nepes) achando a comida tô ‘^êbâ. Seu significado secular é ilustrado pelos textos como o de Gênesis 46. Embora a etimologia de tô^^ébâ permaneça incerta. Textos como este . formalmente anuncia outra razão por sua hostilidade para com a sua própria cidade: p o r causa de todas as suas abominações (ya ‘^an kol-tô‘^ãbõtãyik). é apropriado que aqueles cuja con­ duta Jerusalém havia copiado sejam chamados para testemunhar a contenda de Yahweh com seu povo. Em vez de abrir com a charge. no meio da própria cidade. Essa localização é enfatizada pelas preposições sufixadas bêtôkêk. 8) o salmista reclama por ter se tomado tô^^ébâpaxa com seus conhecidos. Reconhecendo que sua reação quanto a seu povo não tem precedentes históricos e nunca será repetida. 9-10 O padrão da acusação e da resposta divinas se repete de maneira modificada. que descreve pastores como tô ‘^ébâ para com os egípcios e de 43. os espectadores são apresentados: o duelo acontecerá à vista das nações {lê‘^ênê haggôyim.^“ Terceiro. reflete a intensidade emocional do desafiador e centra­ liza a atenção da audiência nele.32. que denotava “regu­ lamentos” e “costumes” no versículo 7. “ante os olhos das nações”).34. Yahweh declara sua determinação de agir contra seu povo no coração da cidade. A cidade será transformada de um lugar de refúgio em uma arena de combate. as quais ocor­ rem duas vezes nos versículos 8-10. aparentemente por causa de sua condição física (c f Jó 15. o Salmo 107. Quarto. e bãk. Em segundo lugar. Desde que o relacionamento de Yahweh com seu povo nunca foi um segredo ou um assunto privativo. o lugar da briga é identificado: no meio de ti. o objetivo de Yahweh é anunciado: executar ju ízo s sobre Jerusalém . Usando o verbo denominativo. “em seu meio”.^* seu significado é claro pelo uso no Antigo Testamento.208 O LIVRO DE E z e o u i e l “eu mesmo”.

não a Deus. Ao anunciar que Yahweh visitaria seu povo com uma hostilidade sem precedentes. que o fez. Enquanto que ações como comer comida impura (Dt 14. tomar de volta para si uma esposa divorcia­ da (24.5. com base nas normas do grupo. Todas as ações e objetos idólatras são considerados tô^àbatyhwh. dos quais não se estremeceram seus pais. O uso que Ezequiel faz do termo reflete uma forte influência deuteronomista. Olvidaste a Rocha que te gerou. . O versículo 11 fornecerá esclarecimentos maiores de seu significado no atual contexto. “abomi­ nação para Yahweh”. Deuteronômio 32. novos deuses que vieram há pouco. ilustra seu significado mais comum: Abandonou a Deus. Com deuses estranhos o provocaram a zelos. desprezou a Rocha da sua salvação. os efeitos de suas ações são descritos nos termos mais horríveis possíveis: canibalism o fratricida. O tema do caniba­ lismo aparece principalmente nos tratados de maldições do Oriente Próximo antigo. a deuses que não conheceram. que contém uma das aplicações teológicas mais antigas do termo.29: “Comereis a carne de vossos filhos e de vossas filhas” . Mas na maioria esmagadora dos casos. revoltosos. tô ‘^ébâ é usado teologicamente quanto a ações ou objetos abomináveis a Deus. a palavra é central na polêmica anti-idólatra de Deuteronômio.4).5) são classificadas como tô^^ébâ. repulsivos. e te esqueceste do Deus que te deu o ser.^* De fato. O conceito era obviamente importante para ele. uma forma abreviada é preservada em Levítico 26. e 0 travestir-se (22.15-18.” e esta afírmação encontra lugar na própria m aldi­ ção do pacto de Yahweh. Sacrifícios ofereceram aos demônios.3).7-10 O P R IM E IR O A N Ú N C IO DE j u u i A M R N T O SOBRE J e r u s a l é m 209 sugerem que tô^^êbâ refere-se fundamentalmente a quaisquer ações ou objetos nojentos. com abominações o irritaram (tô‘^ébõt). as 45 ocorrências de todas as formas da raiz neste livro ultrapassam a frequência em todos os outros profetas posteriores em quase 400%. especialmente nos es­ critos deuteronomistas.

O mesmo destino espera os residentes de Jerusalém. que de mimo e delicadeza não tentaria pôr a planta do pé sobre a terra. mas 0 horror da descrição de Ezequiel ultrapassa a todos eles. O mais mimoso dos homens e o mais delicado do teu meio será mesquinho para com seu irmão. uma explicação óbvia para o sinal-ato descrito em 5. porquanto.11-17) 11 "Portanto. e . e para com a mulher do seu amor. nada lhe ficou de resto na angústia e no aperto com que o teu inimigo te apertará em todas as tuas cidades. e para com os demais de seus filhos que ainda lhe restarem. na angústia e no aperto com que o teu inimigo te apertará nas tuas cidades. seguida por uma nota epilógica sobre o destino daqueles que sobreviveriam ao cerco.9. lit.18-20 [em português. que te der Yahweh. 19-21 ]. nem mostrarei misericórdia.^® Esta estrutura termina assim como se os versículos 7b e 8 fizes­ sem uma referência final a Yahweh executando os juízos {wé‘^ãsíti sèpãtim ) dentro da cidade de Jerusalém. “para todos os ventos”). 12 Um terço do povo*' morrerá por praga.9). Yahweh espalharia por todas as direções (lèkol-rúah. na angústia e no aperto com que os teus inimigos te apertarão. teu Deus. de sorte que não dará a nenhum deles da cam e de seus filhos.24-31). da Síria. a declaração do Senhor Yahweh é garantida.2. porque os comerá às escondidas pela falta de tudo. A mais mimosa das mulheres e a mais delicada do teu meio. a carne de teus filhos e de tuas filhas. c. porque profanastes meu santuário com todos os vossos objetos^’’ detestáveis e práticas abomináveis. Estes. então cortarei o cabelo sozinho. que ele comer.210 O LIVRO DE E z e q u i e l Uma afirmação completa do mesmo conteúdo é encontrada na ver­ são deuteronômica das maldições do pacto (Dt 28.26.*^ Meu olho não mostrará piedade. mesquinha da placenta que lhe saiu dentre os pés e dos filhos que tiver. Sem dúvida. e para com sua tilha. Zc 11. ouviu sobre o canibalismo ocorrido em Samaria séculos atrás quando Ben-Hadad. Jr 19. 49. Outros profetas também falaram a respeito de pais comendo seus filhos (Is 9. Segundo anúncio de julgamento sobre Jerusalém (5. será mesquinha para com o marido de seu amor.53-57): Comerás o fruto do teu ventre. por minha vida. e para com seu filho. e se pode afirmar que aconteceu novamente durante o cerco assírio no século 8». cercou a cidade (2Rs 6.

14 Além disto.^^ Eu sou Yahweh.Retoricamente. Em vez disto. como: “portanto. portanto.^'^ 17 Enviarei fome contra vós.^^ assim como bestas-feras que vos deixará . sereis*"’ objeto de zombaria e escárnio.*^ E quando tiver manifestado toda minha fúria contra eles. quando executar meus julgamentos em vosso meio com ira.1 1 -1 7 S e g u n d o ANÚNCIO DE JULGAMENTO SOBRE J f. vos transformarei em ruina. 16 Quando eu mandar as flechas mortais defome^^ contra aqueles^* que estão [condenados] para destruição^^ — [flechas] que despedirei para destrui-los .sem vossos filhos. e trarei a e. tenho falado por minha paixão. " 11a A segunda maior frase deste complexo discurso de julga­ mento abre-se abruptamente com a palavra portanto {lãkên).^'' então tirarei o sustento de pão. O costume e a lógica diriam que o versículo 11 seria construído assim: “Porque tendes profanado meu santuário com vos­ sas práticas detestáveis e abomináveis. . um terço morrerá pela espada ao vosso redor. a ordem àQ ya‘^an e lãkên é invertida. aqui lãkên não contém a explicação antecedente introduzida p o rya ‘^an. Esta introdução liga a passagem seguinte à precedente e leva a série de quatro pronunciamentos lãkên a um clímax. ouça a palavra de Yahweh”.*^ e desembainharei a espada atrás deles. e ti ver externado minha fúria contra eles. seguido primeiramente por uma afirmação com y a ‘^am. após o lãkên introdutório era de se esperar um apelo direto pela atenção da audiência. e com fúria. então ficarei calmo.^. ó Jerusalém. Meu olho não mostrará piedade.*^ à vista de todos que passam por perto.spada contra vój. efarei de vós um objeto de zombaria*'' entre as nações ao vosso redor.5 .r u s a i .intensificareP^ suafome ainda mais. 13 Quando minha ira se completar. A pestilência e o derramamento de sangide vos varrerão. nem pouparei”. no entanto. na analo­ gia de 34. assim como vivo declara o S enhor Yahweh . a atual cons­ trução empurra o iniciador divino dos julgamentos iminentes para o fundo e destaca a irrevogabilidade de sua decisão de punir Jerusalém por sua impiedade. eu falei.7-9.eu mesmo cortarei (o cabelo). 15 Assim. Diferente dos versículos 8 e 10. e então por um anúncio lãkên. um terço espalharei*' por todas as direções. e com furiosos castigos. “porque”. uma horrível lição de objeto^para^' as nações ao vosso redor. falei. b m 211 sucumbirá de fome no meio de vós. saberão**' que eu sou Yahweh.*' Alternativamente. então ficarei satisfeito.** Eu sou Yahweh.

hay yhwh. “certamente. hay ’àni funciona como o equivalente à primeira pessoa de hay yhw h. 34. citadas nos versículos 6-7 e 9.IVRO DE E z e q u i e l A firmeza da determinação divina é distendida por meio de duas fórmulas: por minha vida e garantida. representa uma modificação da fórmula comum de juramento usada pelos israelitas.** tim m ê’ refere-se à profanação daquilo que é sagrado. garantido algo..e. A forma da primeira.™ No momento não é oferecida ne­ nhuma informação específica da natureza das atividades que têm in­ flamado Yahweh. com “assim como Yahwíeh vive”. miqdãs é uma designação geral para o recinto santo. Jr 51. assim como em outros casos (17. como “Pela vida de Yahweh”. é apropriada em contextos polêmicos em que a questão é o poder vivo de Yahu'eh em oposição à impotência de Baal ou outros deuses. incluindo o templo e seus am­ bientes. hay ’áni.*^ Mas no uso pessoal e particular. a declaração do Senhor Deus {né’u m ’ã dõnãy y h w h )P Diferente das charges gerais. reflete uma forte influência deuteronômica. é preferível“ um significado adjetivo ou substantivo de hay.^ Esta frase é traduzida literalmente por “se não”.212 O I. aqui. com ‘àni funcio­ nando impropriamente como um substantivo no genitivo. neste caso pelo contato com todos os tipos de objeto detestáveis (siqqúsim) e práticas abomináveis (tô’àbõt). a fórmula é fortalecida com ’im-lõ’. “Pela vida de mim”. 20.*’ a de Ezequiel. No entanto. mas nos contextos dos juramentos funciona como uma expletiva enfática. 33. apropriadamente escolhida para a presente associação com profanação. A interpretação da última. o assunto será retomado no capítulo 8.8). a acusação refere-se a ofensas cúlticas: Jerusalém havia contaminado o santuário de Yahweh. i.“ Enquanto Ezequiel usa a fómiula com frequência para reforçar afirmações divinas.14). . mesmo”.16. o pronuncia­ mento profético é reforçado com a fórmula signatária.27. abominável”. 19. À moda costumeira ezequieliana. no versículo 11a. quanto a este par padronizado de palavras sobre objetos e práticas idólatras. ou morais. Nos lábios de Yahweh se acumula o juram ento que Jeremias descreve como “O Senhor dos exércitos tem a espada ao seu lado/ao lado de sua vida” (nisba‘^yhwh sebã’ôt bénapsô. em que a fórmula funciona como um verdadeiro juramento. Assim como a aplicação de Jeremias.33. A expressão anterior deriva-se de uma raiz que significa “detestável.

l Ib. Como anteriormente ob­ servado. Ezequiel tem a lembrança do discurso para lidar com a resposta divina. Os pronunciamentos orais de Yahweh são garantidos pelo caráter do próprio Deus. mais ou menos iguais em extensão e cada um concluindo com uma forma expandida da fórmula divina de autointrodução: ’ãniyhw h dibbartí. De fato. molda os divinos pronunciamentos na forma de um decreto irrevogável. Os versículos 1 lb-17 se subdividem em três segmentos. a repetição em três partes de “Eu sou Yahweh. No atual contexto (vs. obscurece a fórmula de autointrodução como a base para tais afirmações e deprecia a paixão de Ezequiel por ligar a pessoa de Yahweh e a certeza de suas afirmações. corta­ rei o cabelo sozinho.1 1 -1 7 S e g u n d o a n ú n c io d e ju l g a m e n t o s o b r e J e r u s a l é m 213 quando o profeta experimenta uma viagem visionária ao templo para observar as abominações em primeira mão. falei”. com um anúncio central dos efeitos das açÕes de Yahweh con­ tra Jerusalém (v. a terceira tem três expressões para expressar a ira. Primeira. 13).15. este primeiro parágrafo dá a impressão que todas as calamidades vêm em três. 1lb-17). Os versículos 11 b13 são divididos em três partes organizadas de acordo com o padrão ABA. 11b Este versículo registra a resposta de Yahweh às terríveis práticas de Jerusalém com três curtas declarações. Yahweh fará o papel de um barbeiro e come­ çará a cortar o cabelo. 13.5 . 12) engavetado entre duas descrições de sua dispo­ sição para com a cidade (vs. Mas cada um destes segmentos também contém a própria divisão em três partes. a segunda parte tem a população de Jerusalém dividida em três. llb -1 7 Ao anunciar a charge no versículo 1 la. a colocação estratégica desta fórmula divide o decreto divino em três partes. Yahweh. cada uma delas sofrendo um destino diferente (com um adendo). A primeira parte descreve a disposição de Yahweh com três afirmações. falei”. “Eu sou Yahweh. Neste discurso. a escolha de gãra^^ para descrever a ação de . culminando na fórmula de reconhe­ cimento (com um adendo). Embora a alusão ao sinal-ato descrito no versículo 1 seja óbvia. falei” (vs. nX ^A tradução comum aposicional da fórmula “Eu. e cada uma delas contém uma ênfase especial. llb -1 3 O padrão tripartido refletido no nível macroscópico na repetição em três partes da fórmula de autointrodução continua tam­ bém nas pequenas unidades. a certeza do juízo divino não depende somente do juramento e da fór­ mula signatária no versículo 11.

A corres­ pondência entre as versões de Isaías e Jeremias quanto a esta afirma­ ção sugere que a ideia para o sinal-ato em Ezequiel deve ter vindo de um dito proverbial que circulava entre os judeus. com '^ayin “olho”. Nenhuma compaixão ou sentimento deve interferir com as exigências da justiça. Segunda. Terceira. que descreve o efeito da visitação de Yahweh às nações estrangeiras. como aquela encontrada em Habacuque 1.214 O l iv r o o e E z e q u ie l Yahweh conecta esta afirmação com Isaías 15. Para a platéia de Ezequiel que pode ter visto no ato do profeta uma alusão aos rituais pagãos.2 e Jeremias 48. “Toda cabeça está rapada. Yahweh não recuará: nem mostrarei misericórdia. especialm ente no derramar de lágrimas numa situação de sofrimento. A população afetada será dividida em três partes. Esta ex­ pressão idiomática hebraica comum foi empregada para desencorajar uma pessoa encarregada de concretizar uma punição por ser benevo­ lente para com o ofensor. ter m isericórdia”.’“' Assim.37. provavelm ente se chocou. Yahweh declara: “Se é um corte de cabelo e de barba que desejam. assim. mostrar compai­ xão”. em termos virtualmente idênticos: kol-rõ’s qãréhâ wékol-zãqãn gèru‘^â. Cláusulas negativas com hãmal. inclui tanto uma reação emocional quanto efetiva.’* 12 A atenção muda momentaneamente do caráter de Yahweh para o seu programa quanto aos efeitos devastadores de suas ações. caracterizam uma pessoa como sem misericórdia.’^ A associação do verbo hüs “poupar. O verbo hãmal. Se a platéia de Ezequiel entendeu o significado do ato. O profeta declara. e explica por que a LXX tem o cabelo tosado dividido .’^ Esta frase afirma o des­ gosto de Yahweh que resolve executar sua decisão para punir a cidade. Um terço morrerá de fome e praga dentro da cidade.17. e toda barba cortada”. Esta interpretação do “fogo” (’úr) do versículo 2 é impressionante. deixe-me fazê-lo para vocês”. deriva do fato das emoções de uma pessoa se refletir em seus olhos. Yahweh declara que não pode haver retomo ou modificação na sentença que pronuncia sobre seu povo. que significa “sofrer por alguém. uma alusão à dramatização da tomada nos sinais-atos. que o tratamento que esperavam de Yahweh em relação a seus inimigos aconteceria com a própria Jerusalém. Yahweh não demonstrará piedade para com suas víti­ mas: Meu olho não mostrará piedade (lõ ’-tãhôs ^èrâ).

nas punições do pacto de Levítico 26. Yahweh ficará calmo. o que significa que já havia se expressado completamente. 13 Este versículo leva a atenção da audiência novamente para a atitude de Yahweh para com Jerusalém. Mas mesmo estes não estarão a salvo da ira divina.5. Primeiramente. pois o próprio Yahweh os perseguirá com a espada em mãos. 24. Yahweh espalhará em todas as direções. Um terço morrerá pela espada é uma referência às casualidades da batalha. Yahweh diz: quando eu esvaziar minha fúria. A imagem é de uma total dizimação da popu­ lação. hitnahém signifi­ ca “respirar com facilidade. hãnihôti hãm ãti literalmente significa “colo­ quei minha fúria de lado”. mas a tradução principal é obscura.’* Para o leitor moderno que analisa Deus somente de um lado.25-26. . O emparelhamento á t fom e e praga reflete fami­ liaridade com os efeitos do cerco da população. ou um sinal de instabilidade emocional. Três frases poderosas são unidas para representar a deidade totalmente consumida pela fúria e determinada a externar completamente sua ira. algo atingido por se lidar completamente com uma situação maligna. uma alusão à deportação da população. A palavra hebraica ’ap pode se referir tanto a “nariz” quanto a “ ira”.3-4).13) fala da ira proposital. Há uma tentação em se interpretar este furioso der­ ramar da ira de Yahweh como algo arbitrário e impulsivo.” Terceiro. atingirá seus objetivos planejados. mas encontra seu antecedente. U -1 7 S e g u n d o a n ú n c io d e ju l g a m e n t o s o b r e J e r u s a l é m 215 em quatro partes. se não total­ mente debatível. Esta fórmula de reconheci­ mento transforma o oráculo de um mero anúncio de um evento em um anúncio da automanifestação histórica de Yahweh.A 2\ 21. estar aliviado”. a ira de Yahweh será esvaziada. 17].” Como os atos poderosos de libertação por parte de Yahweh séculos antes.’* A expressão idiomática kãlâ ’a p{\6. Segundo.22 [em portu­ guês. em última análise. O último terço. a imagem apresentada aqui é difícil de ser compreendida. que quando for executada. caráter e afir­ mação sobre suas vidas. Nada disto fica claro por intermédio da afirmação: saberão que eu sou Yahweh. perdendo até mesmo a alusão ao remanescente representado pelo cabelo guardado nas dobras da roupa de Ezequiel (5. seus atos de julgamento sobre um povo rebelde são intencionalmente designa­ dos para levá-los ao reconhecimento de sua presença.

. “ insultar”. müsãr. que é geralmente associado à inveja. Em vez de o povo receber a bênção do pacto de Deus e Israel ser exaltado entre as nações (ver Dt 28. o entusiasmo de Yahweh por seu relacionamento pactuai com Israel. O anúncio de Yahweh sobre a destruição próxima de Jerusalém e a dizimação de sua população tem sido estimulado por sua paixão. “ser devastado. admoes­ tar”. ela se tom a­ ria um objeto de escárnio e zom baria de todos os que a vissem . desolado”.1-14.48. Mas aqui. aqui também tem uma nuança de aviso. deve-se entendê-lo como a representação do fogo divino da paixão.*’ Lição de objeto. gêdúpâ é um hapax na forma substantivada de gãdap. e por que não dizer a chave do ministério profético de Ezequiel como um todo. vs. 14-15 Agora o foco passa da reação emocional de Yahweh para a infidelidade de Jerusalém. Seu rela­ cionamento com seu povo fora violado. mas o impacto social e psicológico do castigo severo (tõkêhôt hêmâ) de Yahweh será ainda mais terrível. à&yãsar. Como em 23. e não poderia ficar ocioso ao ser ameaçado. deve responder com vigor. no abstrato significa “ser atemo­ rizado.*' Deus não havia entrado neste relacionamento de m aneira descom prom etida. Jerusalém. Quando as nações observarem Jerusalém. como em muitos exemplos. Porque ama tão profundamente. conhecerão o impressionante destino daque­ les que caem nas mãos de um Deus irado.l e 13).*“ Escárnio. retornando aos efeitos que esta ira terá sobre a cidade: uma completa mudança de sorte. A palavra q in ’â ocorre com frequência na pregação de Ezequiel. Os efeitos físicos da ira de Yahweh serão muito duros.216 O LIVRO DE E z e q u i e l A afirmação final no versículo 13 é a chave do capítulo. a palavra identifica os objetos de calúnia.*’ Zombaria. herpâ. Cada expressão identifica Jemsalém como um objeto de horror para observadores extemos. A cidade havia pre­ viamente gozado de uma posição de honra entre as nações e agora se tomaria uma ruína total. A lista de expressões descrevendo a reação dos observadores reflete a riqueza do vocabulário hebraico de desprezo.®“ Em vez de interpretar este termo como “ciúmes”. esp. é uma expressão favorita na literatura de sabedoria. “disciplinar. de sãmam .“ em vez de inspirar as nações. Horrorizar. normalmente significa “calúnia” ou “o ato de caluniar”. horrorizado”. A intensidade de sua ira na corrupção de seu santuário e 0 repúdio de sua vontade provêm da profundidade de seu amor pactuai. mèsammâ.

Porque muitos na audiência de Ezequiel se . o que deve ser feito da frase hissê hãrã‘^ãb h ãrã‘^ím (lit. Destmição amarga (qeteb) E contra eles enviarei garras de feras (bëhëmôt). Esta descrição do papel da fome quando Deus lida com o programa de morte levanta várias questões. Embora nenhuma das frases deste texto seja citada em Ezequiel 5. A que fora elevada para ser louvada. terror (’êmâ). desprender”. O Piei intensivo dá o sentido de “soltar.16-17. As minhas setas esgotarei contra eles (hissay). E dentro. Fora deixará a espada (hereb) as pessoas sem filho. Tanto a criança de peito como ao homem encanecido. Os versículos 16-17 catalogam uma série de agentes à disposição de Yahweh. com Yahweh como sujeito. 16-17 O epílogo do primeiro discurso de julgamento de Ezequiel aborda o legado de Jerusalém de um ângulo diferente.1 7 S e o u n ix ) a n ú n c io d e ju l o a m e n t o s o b r e J e r u s a l é m 217 a capital do povo consagrado a Deus.*’ Cada um dos agentes listados merece um comentário separado. ficará em ruinas.19) se tomará alvo da pior das zombarias. E ardente peçonha de serpentes do pó.13 Ezequiel oferece uma simples definição teológica de râ'^âh como um instrumento de morte: “Estenderei minha mão e destruirei o supri­ mento de pão {lehem) [do país]”.23-25:*’ Amontoarei males sobre eles (rõ ‘ôt). quanto aos meios pelos quais Yahweh atinge seus propósitos. prontos para cumprirem suas missões de morte. Consumidos serão pela fome (rã‘ãb). Todas as três palavras hissê hãrã‘^ãb hârâ’^îm de Ezequiel aparecem nas prim eiras três linhas citadas acima. várias alusões se fazem presentes.“ O que distingue estas calamida­ des como agentes divinos é a presença do verbo sillah.5 . Tanto ao jovem como à virgem. Fome: a raiz Kb ocorre 16 vezes em Ezequiel. 11 . Especificamente. afamada e honrada (Dt 26. mas Greenberg está certo em encontrar a inspiração para esta frase em Deuteronômio 32. “flechas calamitosas de fome”)? Esta combinação de expressões é sem paralelo no Antigo Testamento.** No capítulo 14. Devorados pela peste violenta (resep).

7. O uso do verbo sikkel. no javismo or­ todoxo representado por Ezequiel.21 se assemelha ao texto em questão. lèm ashit é a mesma expressão usada em Êxodo 12. Ct 8. Sua intenção é intensificar a fome na cidade até que fosse destruída. Nesta passagem.6).25.13 ao se referir à morte dos primogênitos do Egito. fom ece mais um eco de Deuteronômio 32. estas expressões têm sido total­ mente demitologizadas e Yahweh tomou para si o papel de Resheph e todos os outros espíritos malignos que podem ter mantido os povos não israelitas em constante medo. Quebrarei seu suprimento de pão.’” Resheph pode também estar por trás de hês y ã ‘^úp. Bestas-feras que os deixará sem filhos. que é combinada com deber. Ezequiel 14. que justapõe rã^ãb com resep e qeteb. e qeteb “flagelo”.26. SI 76. no versículo 17.48. pestilência {deber) e praga {resep) apare­ cem como servos de Deus ao passo que vêm de Temã (ver também Jó 5.5-6. Vários textos extrabiblicos indicam que o símbolo do deus Resheph era a flecha.” As flechas apontadas para Jeru­ salém são do próprio Deus.5 oferece a ilustração mais clara de resep.27 os sobreviventes que permanecem em Judá após a queda de Jerusalém são avisados que aqueles que remexem procurando coisas ao redor das minas cairão .4 [em português. “flecha voadora”. Mas a fonte da referência de Ezequiel aos ani­ mais perigosos {hayyâ rõ ‘^â) como agentes de julgamento é encon­ trada nas maldições do pacto.218 O LIVRO DE E z e q u i e l familiarizariam com este texto clássico. “arrancar as crianças”. Esta ex­ pressão liga estes comentários interpretativos com 4. As conotações mitológicas das duas últimas expressões aparecem ocasionalmente no Antigo Testamento. Mas como Ezequiel pôde assocmx flechas tão diretamente com fome? A resposta a esta questão pode também estar nesse texto de Deuteronômio. “praga”. Condenada a destruição. 3]. ele pode ter esperado que interpretassem as três palavras como uma fórmula oculta para esta porção do cântico de Moisés. 78. no Salmo 91. Ao contrário. mas em 33.16 e com a mal­ dição do pacto de Levítico 26. O caminho seria provavelmente procurar a origem da expres­ são flechas mortais de fom e na mitologia pagã. Mas isto não quer dizer que o salmista ou Ezequiel reconheciam a existência de qualquer destes seres aparentemente semidivinos. Habacuque 3.’^ Ezequiel menciona animais selvagens como agentes dos julgamentos em dois outros textos.

assumem as funções que outros atribuem a deuses rivais. 45. em Ezequiel. 32.9. debern&o tem função mitológica.36.’* De qualquer modo. d ã m / dãmím funciona quase pessoalmente como um agente de morte que Deus envia sobre o ímpio. e dormir em paz na floresta.19). seu sentido é inteiramente compre­ endido pela palavra “pestilência” .” Porque dãm é singular aqui e está asso­ ciado com a praga. Aparece quase 90 vezes no livro. Espada.6. aqui. ou talvez a humanos sendo devorados.. deve ser interpretado como hemorragias associa­ das com uma doença. em vez de uma morte pelas mãos do inimigo.). uma noção muito relacionada à expressão idiomática sãpak dãm. Derramamento de sangue.22. no entanto.7. e os que estiverem escondidos em fortalezas e cavernas morrerão de praga. “pessoa. “derramar sangue”.6.23 e 38. Sem considerar seu uso psicológico literal (16. Referências a deber como um meio de julgamento divino ocorrem 12 vezes em Ezequiel.5-6 e 78. assim como em Oseias 13. conforme anteriormente citado. em­ bora no atual contexto denote aquelas epidemias que atacam uma população já atingida pela fome e pela guerra. assim como em 28. 22.5. 33. vida” (3. A palavra serve geralmente para se referir a uma pestilência fatal que ataca seres humanos e animais domésticos. O uso da palavra dãm em Ezequiel é tão variado quanto o é em qualquer parte do Antigo Testamento. 15.32]. dãm serve como uma alternativa a nephesh.5.13.14.8).11-17 S e c í u n d o ANÚNCIO DE JULGAM ENTO soB R K J e r u s a l é m 219 pela espada. eliminará as bestas-feras para que o povo possa viver segura­ mente no deserto. Enquanto Deus nunca é citado como derramando sangue no livro.37 [em português. A forma singular e a forma plural são usadas metonimicamente para “violento derramamento de sangue” causado por um homem sobre o outro ( 16. Pestilência. 24.48.6.16ss. De acordo com 34. . Salmo 91. 21. No javismo monoteísta normativo os poderes de Yahweh são abrangentes.1 ss. isto pode não ser nada mais que alusões poéticas.’^ geralmente em associação com outros agentes. Deber era o nome do demônio da pestilência. hereb obviamente representa o mais significativo dos agentes de morte de Yahweh.’* No entanto. aqueles que estão nos campos abertos serão entregues por Deus aos animais como comida. o que é um eco ouvido por alguns em Habacuque 3. 22. quando Deus restabelecer seu pacto de paz com o seu povo.’“ Fora de Israel. 44. 21.2531.

assim como nós ficamos confusos diante dos desafios logísticos dos sinaisatos um e meio ou dois milênios mais tarde. Primeiramente. com nossas percepções confortáveis da deidade. Nas palavras de Jesus Cristo: “Aquele. e sua interpretação. Ezequiel assina o oráculo verbalmente ao identificar Yahweh como o verdadeiro falante por trás destes hor­ ríveis pronunciamentos de destruição. De fato. que não soube a vontade do seu senhor e fez coisas dignas de reprovação . podem os ficar tão ofendidos pelo com pleto terror dos pronunciam entos de Yahweh e a violência da disposição divina. Quando Ezequiel anuncia que Deus trará sua “espada” sobre alguém. somente. apresentam ao leitor moderno as mesmas opções disponíveis à audiên­ cia original. agora está claro que a palavra representa o instrum ento m ais m ortal de julgam ento no arsenal de Yahweh.’* Assim. o mesmo aconteceu ali naquele teatro de rua. A declaração reafirma que o destino da cidade está em suas mãos. no contexto do relacionamento pactuai. a acei­ tação do privilégio deve ser acompanhada pela compreensão da res­ ponsabilidade. podemos ser tomados pela vantagem que fomece quanto à análise psicológica.220 O LIVRO DE E z e q u i e l Embora no versículo 1 hereb fora identificado como um instrumento usado para cortar cabelo. qualquer um pode cair na mesma armadilha que os companheiros de exílio de Ezequiel.30-33). e considerar profecias como esta um mero entretenimento (c f 33. 0 discurso é concluído com a amedrontadora imagem de Yahweh passando pela terra e ceifando seus habitantes com a sua espada. Ainda que estas reações possam ser naturais. que ignoraríamos tudo como irrelevante e subcristão. ♦ Implicações teológicas Esta descrição dos sinais-atos de Ezequiel. Em segundo lugar. não devemos deixá-las difamar a natureza profundamente teológica da mensagem comunicada nas primeiras representações dramáticas de Ezequiel. a palavra funciona metonimicamente como a própria “guerra”. Como que para dissipar quaisquer dúvidas sobre a autoridade de sua mensagem. porém. Que tipo de perso­ nalidade assumiria o papel que tomou e representaria estes atos ridículos? Terceiro. hereb significa muito mais que o instrumento. Primeiramente.

como saíram de sua terra?” (36. e poluiu a si mesma. rebelião. Como ela falhou publicamente. aqueles que se aproveitaram da luz da graça de Deus devem contar com a escuridão de sua fúria. Em vez de servir como modelo de pureza.11-1 7 S e g u n d o a n ú n c io d e ju l g a m e n t o s o b r e J e r u s a l é m 221 levará poucos açoites. impiedade e abomi­ nação. é o mestre da vida e da morte. sentirá a agulhada das cínicas blasfêmias: “Este é o povo de Deus. Ele mesmo. a dor se estende no coração de Deus. Enquanto Jerusalém carrega os insultos dos zombadores. o Senhor. somente ela experimentara a revelação de sua vontade. Aqueles que afirmam ser seu povo não o podem trocar por outro deus sem custo para si próprios. em hinêní ‘^ãleykã. Mas o tesouro de Deus.48). Por meio de sua experiência as nações aprenderão que Deus não som ente é gracioso. e àquele a quem muito se confia. Terceiro. o relacionamento entre o Senhor e seu povo está aber­ to aos olhos públicos.5 . O perigo de compreender a Deus somente de um lado está sempre presente e pode levar a uma visão romântica do relacionamento de alguém com ele. Deus colocou Jerusalém no centro das nações para que pudesse ser testemunha da alegria do pacto. Mas Deus não perdoa infidelidade. muito mais lhe pedirão” (Lc 12. Fazer isto é o mesmo que transformar seu hinêni ‘^immãk. estou contra você” . Considera seu pacto com paixão. De acordo com seus próprios mestres. absolutamente exigente e exclu­ sivo quanto à fidelidade.’’ Em segundo lugar. “Vede. mas também tem ao seu dispor uma série de agentes pelos quais suas sentenças contra uma nação ímpia sào executadas. contaminou o santuário. Havia apostado sua reputação naquela cidade. Seu exemplo serve como um aviso rigoroso que “aqueles que têm o nome e a cara de povo de Deus podem se tom ar piores que os pagãos” . Mas àquele a quem muito foi dado. deve também suportar humilhação diante dos olhos do mundo. somente ela era seu san­ tuário para ser descoberto. ganhou a disputa internacional de impiedade. Quarto. estou convosco”. sua nação santa. seu reino de sa­ cerdotes. somente esta na­ ção fazia parte do relacionamento pactuai com Deus. enlameou-se na rebelião. mas também apaixonado. . Não somente empunha uma espada mortal.20). em última análise. “Vede. muito lhe será exigido. Jerusalém havia sido indicada para um papel único entre as nações. e não o deus do mundo dos mortos ou seus agentes demoníacos.

A presença desses sinais formais sugere que estes segmentos podem. Ezequiel pronunciou esta palavra de jul­ gamento. .IVRO DE E z e o u i e l Quinto.1-14) ♦ Natureza e desígnio Os limites desta unidade literária são determinados pela fórmula palavra-evento. 13aß-14. e que a união deles é o resultado de um trabalho editorial. A atual composição mostra outra evidência também do planejamento deliberado. Estrutu­ ralmente. com um painel principal mais longo. E um oráculo complexo da prova profética cuja intenção não é simplesmente anunciar julgamento sobre as montanhas de Israel. B. aqueles avisos estão a ponto de serem cumpridos. 8-10. ter sido apresentados de forma separada.' Após a introdução. respectivamente). a profecia se sub­ divide em duas partes (6.C.1. Cada uma delas começando com um gesto físico hostiP e conclui com a fónnula de reconhecimento. mas declarar o objetivo revelatório da ação divina .222 O I. 3-10) e um reflexo (vs. Várias variações deste padrão são evidentes no texto atual. a palavra do Senhor é certa.2-10 e 11-14). podem também ser assimétricas. O domínio desta fórmula não deixa dúvidas sobre o gênero da profecia. respectivamente) e seu re­ flexo (vs.^ Cada uma destas subdi­ visões maiores e menores conclui com a fórmula de reconhecim en­ to. em 586 sua posição profética foi confirmada. Quando entrou num pacto com seu povo avisou das consequências de infi­ delidade. Primeiramente. como apresentados. cada um dos painéis se subdivide em um segmento principal (vs. “A palavra de Yahweh veio a mim dizendo”. não fala em vão. originariamente. 11-14). Em 593 a. seguido por um “reflexo” mais curto.que a nação venha a reconhecer a pessoa e a presença de Yahweh no evento. 3-7. w ayêhi débar yhw h ’élay le’mör. é dominado pela típica prática ezequieliana de “dividir em dois”. Em segundo lugar.. Ao passo que as duas partes são mais ou menos iguais em extensão. 1 l-13aa. a unidade como um todo consiste de um oráculo principal (vs. como a introdução do oráculo seguinte.1 e em 7. que aparece em 6. PROCLAMANDO JULGAM ENTO CONTRA AS M O N T A N H A S DE IS R A E L (6.

“cidades” (v.6 . “as instala­ ções cúlticas” (vs. dos altares. 5. Lv 26. Lv 26. “lugares altos” (vs. altares. nãtan ’et-hã’ãres sêmãmã úm ésam m ã. especial­ mente no uso dos sinônimos para palavras encontradas em Levítico. rã‘^ãb. 6. Designações quanto aos objetos do culto pagão: bãmôt.* 3. pégãrím.30). Lv 26. Lv 26. não é nomeada]). as subunidades tex­ tuais estão amarradas pelas repetições léxicas e sintáticas e ressunçôes. rêah nihõah.6 . Embora não haja citações diretas daquele texto.30). paralelismos. 13.1 . 6. Lv 26. hãsimmõti ’ãní ’et-hã’ãres). santuários e terra). Este texto com frequência segue seu próprio rumo. 2.25). não está somente . Mas a confiança de Ezequiel no livro de Levítico não é despre­ zada. “praga” (vs. “empunhar a espada contra” (v. Lv 26.30). 6 [hrb como verbo]. “espada”.31). de cidades). 4.10). Lv 26. altares. 0 tom literário para todo o capítulo é determinado por uma série de dispositivos literários/retóricos: rima.31.'* De fato. ham mãnim.’ Mas o aspecto unificador mais importante é a ób­ via dependência que o oráculo tem em relação aos castigos do pacto de Levítico 26.’ O significado dessas observações vai além do apoio a uma inter­ pretação holística desta unidade literária. “ faça da terra um a desolação total” (v.6 .31. nãtan pégãrím. “fome”. 4 . “lugar de mortos” (v. aliteração. Elas refletem uma caracte­ rística fundamental da pregação ezequieliana: os avisos no presente são baseados em termos do pacto que Yahweh fez com seu povo no Sinai: “Sou Yahweh. 3. Lv 26. 4 . Observe também o de­ sastre triplo de hereb.1 4 PR(x:i.25-26 [a fome é descrita. 11-12. “ídolos” (vs. 13.31). de lugares altos. D esignações para os efeitos da ação de Yahweh: sm m . Lv 26. Lv 26. “fragrância” (v. v.30). Designações para a residência do povo: ‘^ãrim. Designações para a atitude de Yahweh: hébV hereb ‘^al.32.AMANrx) ju lg a m e n to c o n t r a a s m o n ta n h a s d e I s r a e l 223 Além dessa óbvia segmentação estrutural. Lv 26. 14. “nivelar” (v. Lv 26. horbã. As áreas de influência podem ser agrupadas assim: 1. gillúlim. cada segmento é entrelaçado com seu vocabulário distintivo.. “cadáveres” (v. “ruína” (v. deber. 4.30). 6. 3. uso de sinônimos. não falei em vão” (6. 5. de cidades.

6 Em todas as áreas residenciais as cidades'^ ficarão desoladas.* 1. suas capelas massacradas — arrojarei suas vítimas diante de vossos idolos. eu. Também os relembra que quando Yahweh começar a agir em julgamento. Profetiza contra eles. Os dois primeiros são familiares. as ravinas e os vales:" Veja. muitos séculos an­ tes.''' T e a vitima em vosso meio caia.1-7) 6. sim. refletindo a disposição hostil de Yahweh para com o recep­ tor da mensagem. Só então sabereis que eu sou Yahweh’". identificado aqui como montanhas de Israel {hãrê yisrã’êl). suas ações nào serão inconstantes.'* A expressão idiomática é figurativa. O terceiro envolve o comando sim pãneykã ’e l/‘^al mais a audiência-alvo. e (5) uma ordem para falar. Jerusalém. Morte nos outeiros (6. que vossos idolos .sfeitos. arbitrárias ou impulsi­ vas.'^ 5 espalharei vossos ossos sobre os altares. para que'^ seus altares fiquem desolados e sejam arruinados. a cidade natal de Ezequiel. 3 e diga: '(T montanhas de Israel. estava . (2) o discurso direto do profeta. vire sua face para as montanhas de Israel.1 A seguinte mensagem de Yahweh veio a mim: 2 “Homem. e vossos acessórios sejam de. (3) a fórmula de tendência hostil.sejam quebrados e extintos. estou segurando uma espada contra vós. Homem (ben-’ãdãm lit. pois apa­ receram anteriormente no livro. 1-3 O texto abre com uma série complexa das fórmulas tipica­ mente ezequielianas: (1) a fórmula palavra-evento. mas em ne­ nhum ponto no AT. estou a ponto de demolir seus altos . mas de acordo com todas as cláusulas em seu pacto.” A frase reflete a topografia da Palestina. ouçam a proclamação do Senhor Yahweh! Pois assim o S enhor Yahweh declarou para"^ as montanhas e os outeiros.4 seus altares serão achatados. sou eu. mas também rogando que se lembrem das promessas do pacto e das observações enviadas por intermédio de Moisés.224 O LIVRO DE E z e o u i e l apelando à sua audiência para que tome suas expressões seriamente. Esta expressão ocorre 17 vezes em Ezequiel. CASA LIMPA: O PRIMEIRO ANÚNCIO (6. (4) uma ordem para profetizar contra um objeto. e os altares serão amassados. que é dominada por uma cadeia de montanhas por toda a extensão do país desde o norte até o sul.1-10) a. vossos altares de incenso eliminados. “filho do homem”).

“O montanhas de Israel”. Ao se referir ao país como “montanhas de Israel”. “minhas montanhas” (e. A fórmula de tendência hostil nunca aparece sozinha em Ezequiel. .7 M o r t e n o s o u t e ir o s 225 localizada nesta cadeia. Em segundo lugar. e seu objetivo principal fosse a transformação . Is 14.. “Assim declarou o Senhor Yahweh” (v.^^ A forma desta intimação (judicial) representa uma adapta­ ção da fórmula onde quer que um anúncio introduza sua proclamação oficial.^' Com seu foco geográfico. . o fato de Ezequiel se dirigir em um oráculo às “montanhas de Israel” reflete a perspectiva geocêntrica não somente destas primeiras mensagens dentro do livro (caps. kõh ’ãmar ’ãdõnãy yhw h. e diz”. 65. em todos os picos de montanhas” (v.^“ Aparecendo pela primeira vez em Josué 3. refletido em outras referências divinas à terra como hãray.“ Embora a audiência real de Ezequiel consistisse de seus com­ panheiros de exílio. as seguintes referências: monta­ nhas e outeiros.6 . É seguida invariavelmente por uma ordem de profetizar.“ Seja qual for a origem da expressão.9. os alta­ res idólatras (bãmôt) “em cada alto monte. “Ouça a palavra do Senhor Yahweh”.g. Duas considerações podem ter influenciado o uso que Ezequiel faz da expressão. foi totalmente explorada pelos profetas para chamar a atenção de suas audiências. wê’ãmartã. viz.25. assim como débar ’ãdõnãy yhw h.“ assim como a fórmula de intimação.9. Ezequiel reconhece o significado do território nacional dentro do complexo pactuai deidade-nação-terra. a cidade natal deve ter parecido uma terra mon­ tanhosa de fato. Aqui a última fórmula está separada da anterior por um apelo direto à audiência. Zc 14. ravinas e vales ampliam o escopo da visão do pro­ feta para com toda a paisagem de Israel. “profecia contra/para . Primeiramente. 4). No entanto. wéhinnãbê’ ’e l/^ a l. ele dá pistas sobre a largura e a expansão do problema religioso..5). sua escolha das “montanhas de Israel” pode também se referir ao assunto deste oráculo. pode refletir a perspectiva da co­ munidade exílica entre aqueles a quem ministrou. mas também as profecias de Ezequiel como um todo.. 13). hãrê yisrã’êl é somente uma de várias expressões hebraicas que Ezequiel usa para se referir ao território de Israel. 1..^* O uso frequente desta fórmula em Jeremias e Ezequiel pode refletir o conflito amargurante quanto à autoridade divina com a qual estes pro­ fetas enfrentaram os falsos profetas. Residindo no plano aluvial da Babilônia. 4-7).

A seqüência dos verbetes é lógica. A palavra bãmâ deriva-se de uma raiz semítica comum que significa “a parte de trás”. O versículo 3 b a oferece uma definição mais precisa de “montanhas de Israel” por intermédio de quatro elementos típicos das paisagens montanhosas de Israel. bãmâ poderia servir como uma designação para qualquer instalação cúltica aberta. Montanhas e outeiros (hãrím.” O oráculo abre no versículo 3bP com um anúncio da iminente invasão da terra por parte de Yahweh. segurando sua espada contra as montanhas de Israel (c f 5. Seus alvos específicos são identificados com a frase do tipo tese: Estou a ponto de demolir seus altos. “stela” uma pedra ereta. a primeira se referindo à elevação maior e a última a ondulações menores.2. como no capítulo anterior.. Algumas descrições da história primitiva da nação não mostram atitudes negativas quaisquer para com tais instalações . Outros elementos associados com altos incluíam ’ãsêrã. 4 2 . A distinção entre as duas é uma questão de grau. terreno alto”. Is 40. para propósitos retóricos ele pretende se d irigir a um terceiro grupo hipotético.^' Na verdade. 17). ocorrendo juntas em 31 das 60 ocorrên­ cias da última palavra (e.IVRO OE E z e q u i e l mental e espiritual deles. especialm ente va­ les montanhosos cujos declives são geralmente mais suaves que os dos ’áp íq ím . e altares nos quais as ofertas seriam apresentadas. objetos de fertilidade feminina esculpidos em ma­ deira.^“ Porque topos de montes geralmente serviram como lugares nos quais rituais cúlticos eram realizados. começan­ do com as características mais altas e mais importantes e concluindo com as mais baixas.226 O I.g.^^ Enquanto que os formatos dos bãmôt variavam de lugar para lugar. nos vales e dentro das muralhas da cidade os altos eram artificialmente construídos. especialmente a parte de trás de um animal. Os altos tinham um lugar importante na vida religiosa de Israel desde o começo. símbolo da divindade masculina. a última é uma expressão mais geral para “vale”.15).^’ Ravinas e vales {’âpíqím.-* A prim eira palavra tem a ver com ravinas de onde corre um fluxo de água. 12. independente da localização. de onde se deriva o significado “cadeia de montanhas. a característica central tendia a ser uma plataforma suspensa na qual os rituais eram realizados. gé’âyôt) identificam os vales entre as m ontanhas e os montes.4. gébã^ôt) repre­ sentam um par padronizado.” uma m a^èbâ. “figuras Asherah”.

IRs 3.^* Capelas. uma deidade citada no texto fenício do século 9« de Zincirli.64. 6). “estar quente”. m a s a cada vez pareciam retomar com maior apoio e vitalidade que antes. ambas etimologias e esta interpre­ tação parecem agora duvidosas. Mas tipos cananitas de ritual. A evidência do ugarítico sugere que a palavra hmm.5. A palavra hammãnim é geralmente tida como deri­ vada do verbo hãm am . ou até de madeira banhada de ouro.1 -7 M o r t e NOS OUTEIROS 227 (ver ISm 9. A última expres­ são é textualmente problemática. e o nome da divindade Hammôn de­ rivam de diferentes raízes. 7. mas se o TM foi seguido.5 . no caso de altares de incenso (Êx 30.^’ No entanto. hêt e bêt. geralmente feitas por homens. IRs 6.1-8. de me­ tal. rituais de copulação.4). desolados e destruídos (yeherbü wèye’sèmü. Serão achatados ou “devastados” (nãsammú. Leis governamentais sincretistas tanto em Israel quanto em Judá eventualmente os sancionaram ofici­ almente ( I Rs 12. O termo se refere principalmente às estmturas. 4-7 Os efeitos da faxina de Yahweh. Altares. o . v. Este oráculo anuncia que o tempo chegou para Yahweh limpar a casa. 4).3.15-20). com seus animais e sacrifícios humanos.6 . Embora a raiz hmm “estar quente” apareça em ugarítico. 2Rs 16. e refeições orgiásticas aparentemente continuaram a ser feitos em muitos dos bãm ôt espalhados por todo o país. A confusão surge do requerimento em Hebreus que a letra hêt representa duas diferentes letras semíticas. Reformadores bemintencionados. eles poderiam ser constmídos de terra ou pedra (Ex 20. A centralidade do altar do ritual pagão é refletida na referência tripla a m izbéhôt. 38. e interpretada tanto como “altares de incenso” ou como algum objeto associado com o culto ao sol representado pela deidade Baal-Hammôn. especialmente bronze (Êx 27. periodicamente. o verbo ’ãsam se refere a uma ação punitiva consequencial. podem ser sumariados ao observar-se o destino de vários itens associados com bãmôt.10-15). 2 3 .31 -33.” Os verbos usados para descrever as ações de Yahweh contra os altares refletem sua violenta antipatia para com eles.8 . v. nas quais ofertas sacrificiais eram queimadas para a deidade.11-25. tentaram erradicar estes m a l e s .1-10.48). 10. e mais tarde adorado como pa­ droeiro de Carthage. “estar quente”.24-25).20. que são descritos em vívi­ dos detalhes nos versículos 4-7. 1Rs 8. retirar da terra a adoração pagã de uma vez por todas.1-7. Dependendo do lugar e da função. 2Rs 2 1.

provavelmente teria identificado estes ídolos com a palavra de cinco letras que usamos para excremento. que ocorre três vezes neste texto. A inscri­ ção base do templo da deusa Allat equaliza hm n’ com nws’ (vaóç). É difícil visualizar altares de incenso nesta descrição. com um massêbâ de Allat entronizada entre dois leões. tem em mente a eliminação de todas as capelas que guardavam deidades pagãs e nas quais seus rituais eram realizados. que fala de derribar os altares de Baal “e os altares de incenso que estavam acima deles”.^*Além do mais. mas se estivesse pregando nos dias de hoje. num lugar aberto.“* Um comentário mais ardente sobre a idolatria não pode ser facilmente imaginado.* e é particularmente útil ao elucidar 2Crônicas 34. A palavra gillúlim. ídolos. O plano desta instalação de culto incluía uma massiva estrutura de pedra.” Esta imagem de ham ãnã’ concorda com todas as ocorrências de hammãn no AT. a evidência de várias inscrições Palmyrene sugere que hmn não deve ser identificado especificamente com os altares de incenso. O mesmo é verdade quanto ao texto atual. Quando Ezequiel fala sobre “destruir” (sãbar) e “derrubar” (gadaO“" o ham mãnim das montanhas de Israel. mas expressa a disposição de EzequielA^ahweh para com eles.4. “rolar”. mas se ham m ãnim são entendidos como construções cúlticas.“A palavra parece um construto artificial derivado do verbo gãíaZ. Em frente do prédio. à forma cilíndrica do excremento humano.228 O LIVRO DH E z e q u i e l nome da deidade Hammôn é escrito com h. A sensibilidade moderna previne os tradutores de usar esta expressão como Ezequiel pretendia que fosse ouvida. O tratamento de Yahweh a estas imagens não somente envolverá o “esmagar” (sãbar) . a afírmação faz perfeito sentido. o fato de que 39 das 48 ocorrências da palavra no AT estejam neste livro indica sua utilidade para seus propósitos. o que é menos provável.““ O nome não tem nada a ver com o formato dos ídolos. Embora não tenha criado o termo. estava um altar. que abre a possibilidade de uma ligação com a raiz semítica hmh.*^ A adoção desta palavra como uma designação para ídolos pode ter sido iniciada pela forma natural semelhante ao estrume e do tamanho de fezes de ovelhas ou. mas vocalizado segundo o padrão de siqqúsim. fornecendo uma evidência convincente que ham ãnã’denota um san­ tuário ou uma capela de algum tipo. representa a expressão favorita de Ezequiel para “imagens”. “proteger”.

A última afirmação no versículo 6 sumariza o objetivo de Yahweh com respeito a todas estas instalações cúlticas: a eliminação de todo vestígio de idolatria. A mesma palavra é usada em Gênesis 6. e com isto à sua distinção dos cananitas. Primeiro. o mandato deles era eliminar todos os cananitas com suas instalações pagãs (Dt 7. este é claramente seu significado aqui.“** Por um lado. Agora. 5).37-39. Yahweh deitará (nãtan) os corpos (pigrê) em frente de seus ídolos (v. são incluídos sob a expressão vossos acessórios (m a‘^ãsêkem.13: Yahweh ameaça limpar Jerusalém assim como alguém limpa um prato sujo.“*^ O objetivo de Yahweh é expressado com um novo verbo. e hãlãlim.24). em 16. cadáver”.“*’ Por outro lado. o profeta falará de Israel assassinando (sãhat) seus filhos (bãnim) e filhas (bãnôt) e fazendo-os passar pelo fogo como se fosse comida para os ídolos {gillúlim). mas na maioria dos casos denota “a ferida mortal”. pode estar se referindo aos filhos de Israel que caíram vítimas das práticas pagãs. Mais tarde. que quer dizer “exterminar.1 -7 M o r t e NOS o u T n iR O S 229 e 0 “exterminar” (sãbat). pode se referir simplesmente ao “ferido” (ver 26.“**e a matança dos devotos à inabilidade dos deuses em defender seus adoradores. A destruição das imagens testifica a impotência das deidades em se defenderem.7 e 7. Vítimas. os filhos de Israel verão a sentença dos cananitas como sendo para eles. Por que Ezequiel se referiria aos israelitas aqui como bènêyisrã’êl não é claro. eliminar {mãhâ.6 . “a matança”.1-5). apagar”). Mas não só as aparelhagens cúlticas deste oráculo são o alvo da ira de Yahweh.4. e todos os outros elementos feitos pelos homens associados com os cultos pagãos. A raiz pgr é comum na língua semítica para “corpo. “ossos”.20-21 e em 23. 23 para descrever a dizimação da raça humana pelo dilúvio. Quando Israel chegou pela primeira vez na terra de Canaã séculos antes. aquelas pessoas mortas na batalha ou executadas.” Dada sua associação com ‘^ãsãmôt. mas a exposição delas como invenções sem poder da imaginação humana. lit. “suas obras”). Seu significado é ilustrado vividamente em 2Reis 21.’® Em segundo lugar. talvez esteja se referindo deliberadamente às suas raízes. que ocorre 36 vezes em Ezequiel. assim .15. O destino que aguarda os israelitas apóstatas é refletido em uma série de expressões bem escolhidas. 30. Os itens previamente citados. Yahweh derrubará (hippil) suas vítimas (hãlãlim) diante de seus ídolos (v. 4). O termo hãlãlim.

por conseguinte. Ao passo que as vítimas da ira de Yahweh caem ao redor dos lugares de culto. um descanso final. No entanto. as vítimas da ira divina não recebem um enterro apropriado e. em que o velho profeta fala dos ossos dos apóstatas de Judá sendo exumados e espalhados diante dos astros celestes que foram objetos de sua adoração. mas também reconhecer o envolvimento e a pessoa de Yahweh. Como eles se tomam os que os fazem.26). agora demolidos. Este destino parece especialmente apropriado à luz das acusações posteriores de Ezequiel quanto aos sacrifícios de crianças (20.30. Têm boca e não falam. Além do mais. obra das mãos dos homens.1-2. têm ouvidos e não ouvem.15-18).*“*A exposição dos corpos nos altos dos morros representa um convite aberto às aves predadoras e outras criaturas. pois não há alento de vida em sua boca.*^ Em terceiro lugar. que se levantem e se defendam. e é sintomático quanto à ruína que está sobre a população pecadora. Documentos do Oriente Próximo Antigo fornecem ampla confirmação quanto à maldição de se jogar corpos em lugares abertos como punição por promessas quebradas de juramentos. como que os desafiando a descer e defendê-los. Yahweh disse: espalharei (zãrâ) vossos ossos sobre os altares. e todos os que neles confiam (SI 135.** Embora a versão sacerdotal . têm olhos e não veem. que inspirou esta passagem. com essa sentença. O anúncio das ações de Yahweh contra essas instalações cúlticas pagãs e contra os adoradores israelitas constitui um desafio direto ao próprio sistema.230 O LIVRO DE E z e q u ie l como em Levítico 26. A imagem que Ezequiel dá dos corpos dos adoradores idólatras pode ter sido inspirada em Jeremias 8. os sobreviventes serão forçados a não somente reconhecer a impotência das deidades que essas imagens supostamente representam. nas palavras do salmista: Os ídolos das nações (‘^ãsabbê haggôyim) são prata e ouro. Este é seu objetivo principal.*^ O desafio de Ezequiel é apresentado às imagens adoradas nos altos: se elas representam deuses de verdade.

que fala da carcaça do povo se tornando “comida para todos os pássaros do céu e todas as bestas da terra. mas real. aqueles que escapam da espada. luz de esperança em um mundo muito sombrio.8-10) 8 '“Mas pouparei alguns. os ouvintes de Ezequiel devem ter relembrado da versão deuteronomista. O exercício de Yahweh de sua soberania se estende além da temível espada que segura para a determinação de quem escapará. o gmpo que sobrevive ao desastre terá pouca semelhança com aquele que havia provocado a fúria de Yahweh. Em segundo lugar.de seus corações promíscuos que se desviaram'’’ de mim. sem que ninguém os espantasse”. entre as nações para onde foram levados cativos. Mas Yahweh continua a funcionar como o ator principal. Um raio de esperança (6. O tom também muda ao passo que esse remanescente que sobrevive representa uma minúscula. Os sobreviventes emergirão da dispersão entre as nações como um povo transformado. No entanto. por causa dos males que cometeram. e por causa de seus olhos. isto é. . por todas^suas obras abomináveis. a renovação espiritual ocorrerá em solo estrangeiro. No entanto.6. mas pouparei alguns.8-10 U m RAIO un ESPERANÇA 231 das maldições do pacto (Lv 26) não faça menção da questão. Terão nojo de si mesmos. os sobreviventes se lembrarão de mim . 0 anúncio de abertura.^' 9 Lá. o fato de os sobreviventes serem identificados como pélitê hereb.como fiquei quebrantado por causcf. Primeiro. 8 Na superfície. arranca esta ideia pela raiz ao oferecer uma interpretação puramente teológica sobre o evento.'^ isto é. O processo de transformação não é livre de ironias.^'^ que escaparam da espada''* entre as nações quando forem espalhados^ entre as nações. virando a atenção do leitor da devastação das “montanhas de Israel” para os sobreviventes espalhados para os quatro ventos. que se prostituíram após seus ídolos. pode implicar que conseguiram sobreviver à crise por iniciativa própria. onde a maioria dos israelitas considerava um lugar impuro ou poluído.** Este castigo é apropriado para os idólatras “executados como criminosos” (hâZãZím). Os versículos 8-10 funcionam como uma nova cena na profecia.*’ b. “deixarei um remanescente”. 10 E saberão que eu sou Yahweh: não ameaço em vão“ para lhes infligir mal ’.

Um entendimento do uso que Ezequiel faz da expressão pode ser auxiliado ao se comparar o versículo 9 com outras duas ocorrências no livro: . A palavra zônâ se refe­ re fundamentalmente a qualquer comportamento sexual imoral. mas é usada na maioria das vezes no contexto da infidelidade marital. e não toleraria interferência de prová­ veis competidores.1 ) implica que previamente escapou à mente de Yahweh. Yahweh era apaixonadamente prote­ tor de seu relacionamento. nem um pouco mais que o fato que a referência à lembrança de Deus de Noé na arca (Gn 8. prestar atenção”. lembrar-se de Yahweh implica uma renovação de relacionamento com ele e a confissão dele como o Senhor do pacto. “Eu me entedio de minha vida!” representa o desabafo de um homem extremamente amargurado..21 descreve a total repugnância dos salmistas para com os inimigos de Deus. o contato com Yahweh dependia de se residir em sua terra.158 e 139. sendo definida melhor pela seguinte frase: desviada de mim (sãr mê^ãlay).** De fato. seus olhos se prostituíram. 9 O renascimento espiritual dos sobreviventes da calamidade nacional ocorrerá em três níveis.. Nos Salmos 119. descrita aqui como meretrício de coração e olhos: por causa de seus corações promíscuos. Sofre diante de sua condição. que descreve a atitude de Yahweh para com Israel sem fé durante sua peregrinação no deserto. Primeiro.20. Porém. Nos outros pontos é usado como raízes nifal e hithpolel. um uso encontrado anteriormente em Ezequiel 3. Em Jó 10.*’ Aqui é empregada teologicamente.1 nãqêtâ napsí bêhayyãy.™ Em segundo lugar. Como redentor de Israel e marido espiritual. como sugere o comentário seguinte. significa “tomar em consideração. Os sentimentos de Yahweh sobre a infidelidade pactuai são comparados às emoções de um esposo que foi abandonado por sua esposa prostituta. Agora aprenderiam que o oposto era o caso .10.a presença continuada na terra significava a rejeição de Deus.232 O LIVRO DE E z i -q u i k l para muitos israelitas. A forma do Qal de qút ocorre somente no Salmo 95. O verbo zãkar não denota relembrar-se de algo que fora esquecido. os sobreviventes terão nojo de si mesmos. se lembrarão de Yahweh. O futuro está colocado sobre os exilados.

Nos dois últimos casos as pessoas sentem repulsa de si mesmas porque consideraram o passado ruim e abominável.9 wëzâkërû pëlîtêkem oti wënâqôtû bipnêhem 'el-hãrã^ôt aser ^asu lêkõl tô‘^ãbõtêhem *«. 10 Em terceiro lugar.6 . No lugar delas haverá um reconhecimento de sua falta de valor absoluta diante de Yahweh. iniquidades isto é.» V f — AA. No contexto atual. E por causa de vossas abominações. Algumas pessoas veem na frase lõ’ ’el-hinnãm dibbarti uma justificativa das ações de Deus. No entanto.43 úzékartem-sãm ’et-darkêkem wè’êt kol-a ’ãlílôtêkem ‘àser nitm ê’tem bãm únèqõtõtem bipnêkem békol-rã‘^ôtêkem ’àser ‘^ãsítem Seus foragidos se lem­ Vos lembrarei ali de seus caminhos e brarão de mim todos seus atos de provocação com os quais vos contaminastes 36.8 -1 0 6. a cláusula seguinte indica que neste caso também a autodepreciação é causada pela tolice do mal dos sobreviventes e de suas abominações. e que não ameacei em vão. . Todas as desilusões quanto á nobreza e qualquer noção de privilégio diante de Yahweh serão derrubadas. o remanescente saberá que eu sou Yahweh.31 üzékartem ’et-darkêkem hãrã‘^im úma ‘^alèlêkem ’àser lõ’-tôbim ünèqõtõtem bipnêkem ^al ^àwõnõtêkem wé^^al tô‘^ãbôtêkem Vos lembrarei de vossos maus caminhos e dos comportamentos inapropriados eles terão nojo de si E sentireis nojo de vós E tereis nojo de vós mesmos mesmos mesmos por causa dos males Por todas as iniquidades Por causa das vossas que cometeram que tendes cometido. Em cada caso o enojar surge de lembrança. por todas suas obras abomináveis. a reação vem em lembrar-se de Yahweh. U m 233 RAIC) D E E S PE R A N Ç A 20.

Terceira.31 -34. Jeremias.16.60-63). Suas ações estarão alinhadas com as ameaças anterionnente lançadas.’^ Por várias razões. apresenta-se claramente como uma possibilidade de um remanescente convertido (Lv 26. O aviso não deveria ser restringido ao oráculo presente somente. .C.234 O I. não manda avisos “sem uma justa causa”. lõ’ hinnãm teria sido seguido por ^õsítí. que não foram apresentadas em vão. cada vez que o conceito aparece é expandido (7. Não há. 11. esta antecipação de uma renascença espiritual entre os que sobrevivem ao julgamento de Deus é encontrada já nos predecessores de Ezequiel. Quando Yahweh começar a executar sua sentença sobre seu povo não agirá impulsivamente ou arbitrariamente. De fato.3 pela preservação de alguns cabelos colocados na dobra de sua roupa. “Eu fiz/agi”. a maldição do pacto. esses versículos são comumente interpretados como um acréscimo após 586 a.15-16. Por causa da esperança que este segmento apresenta para com um remanescente da população. cf. Israel será forçado a reconhecê-lo como o Deus que mantém o pacto. mesmo nojulgamento. 16.3. esta suposição é desnecessária. O relacionamento extenso entre o texto que temos em mãos com Levitico 26 sugere que o profeta tem em mente as maldições ligadas ao pacto original de Yahweh com Israel. deveria relacionar-se a seu aviso oral dado anteriormente. uma esperança cor-de-rosa para um remanescente transformado repetidas vezes aparece nos oráculos de julgamento de Ezequiel. ainda que tivesse sido cumprido dentro de cinco anos. Quinta. razão convincente alguma para se negar a esperança presente de Ezequiel: após a fúria do julgamento divino sobre uma nação idólatra. tendo começado na forma de semente em 5.IV R O D E E z e o iíie i.’' No entanto. Pelo fato da frase ser seguida por dibbartí em nosso texto. pronto para reconhecer não somente a Yahweh como o Senhor do pacto.22-23. o contemporâneo mais velho de Ezequiel. 23.16-21. teve uma visão clara de um remanescente que sobreviveria e seria reunido (Jr 31.23 sugere que se fosse esta a intenção. sob o qual Ezequiel extrai tão profundamente. no entanto. etc. ele prevê um remanescente emergindo. Quarta. 12. mas também a própria miséria diante dele pelos males do passado.40-45). isto é. o paralelo em 14.).3.7-9.’^ Segunda. o próprio Ezequiel já previra este evento em 5. portanto. Primeira. 14.

13).11-14) a. como uma expressão de agrado. respectivamente. 13aa E entào sabereis que eu sou Yahweh’.17]. As ambiguidades emocionais inerentes nos gestos pedem um exame mais minucioso das intenções do profeta. e pela praga: 12 Qí4em estiver longe morrerá pela praga.19. é usado outro verbo. Bata sua mão (hakkèh bèkappêkã. 17) o gesto de Yahweh está associado com o apaziguar de sua ira {wahãnihõtí hãmãtí). A nuança do triunfo por se ter resolvido situações há muito em aberto não está totalmente ausente. O alcance da ira divina (6. lit.®' Em segundo lugar. Antes de Ezequiel entrar em sua proclamação oral propriamente dita. Estes gestos não deveriam ser interpretados como algum tipo de “dança da destruição”. (3) escárnio. (2) Schadenfreude (alegrar-se com o sofrimento de outra pessoa). Dize: ah! por causa de todas as terríveis^* abominações da casa de Israel: pois eles^^ cairão pela espada.6 . Yahweh ordena que expresse uma emoção intensa ao bater palmas. e (4) ira.*" é improvável por várias razões.’’^ Vários verbos para bater palmas são usados em outros pontos.” mas como marcas de exclamação verbal e não verbal. Em outros pontos onde Ezequiel usa o verbo hikkâ de bater palmas. o gesto de abertura deste parágrafo é respondido no fmal com uma referência a Yahweh ventilando sua ira contra o povo (wëkillêtî hãm ãtí bãm). 22.’’ A interpretação comum destes gestos nesta passagem. o bater palmas podia transmitir várias ideias: (1) alegria e celebração. e hikkâ kap. No capítulo 21. enquanto eu ventilar toda minha ira sobre eles. “Dar com a mão”) é uma variação de hikkâ kap ’el-kap. a emoção transmitida é claramente de ira (21. . quem estiver por perto cairá pela espada. e quem permanecer e for preservado’^ morrerá peta fome. bater seus pés.22 (em português. pela fome. Quando uma disposição diferente é desejada. e expressar uma interjeição.1 3 a a O a l c a n c e d a ir a d iv in a 235 2.” 11 A fórmula de intimação Isto é o que o Senhor Yahweh declarou abre uma nova seção neste oráculo de morte.1 1 .22 [em português. CASA LIMPA: O SEGUNDO ANÚNCIO (6. No Israel antigo.11-13aa) 11 "Isto é o que o S e n h o r Yahweh declarou: ‘Baía palma e bata o pé. 14. “dar com a mão na outra”.

20 (em português. Este gesto nào é verificado no AT. deveriam imaginar Deus batendo palmas. é geralmente considerada uma variante de he’ãh. Davi fala de pulverizar e esmagar seus inimigos e “amassar” (rãqa^) como lama nas ruas.2. somente no capítulo 21.*^ Porque esta ação não verbal acompanha o bater das palmas novamente em Ezequiel 25. uma consideração dos contextos de cada ocorrência sugere que Ezequiel tem em mente uma distinção bem clara entre uma e outra. batendo os pés. isto é mais do que um merisma. a forma mais longa expressa alegria*^ ou escárnio de Yahweh. e enquanto a audiência o observa.2. E a pessoa que permanecer e for preservada morrerá de fome. A exclamação do texto deveria. deve-se interpretar ambas de modo similar. que ocorre em outro ponto em Ezequiel. Esta forma de expressão onomatopeica paralinguística. e lembrando com ira de todas as terríveis abominações. Em 2Samuel 22. ou talvez lamento. Ezequiel é também comandado a falar a interjeição Ah! (’ãh).*’ No entanto. Ezequiel anuncia verbalmente o iminente desastre ao reintroduzir três agentes divinos de julgamento: a praga. a espada e a fome. como a construção de três períodos sugere: hãrãhôq baddeber yãm üt wèhaqqãrôb bahereb yippôl wéhannis’ãr wèhannãsúr bãrã‘^ãb yãm út A pessoa que está longe morrerá pela praga.236 O LIVRO DE E z e q u i e l Bata seu pé (réqa‘^ bêraglêkã). 15). Muitos eruditos dividem as vítimas em duas classes. interpretando a combinação daquelas que estão longe (hãrãhôq) e as que estão perto (haqqãrôb) como um merisma referindo-se a todos os mortos. que aparece em 25. portanto.30-33).43. ser entendida como uma expressão de ira. e 36. E a pessoa que está perto cairá pela espada.6. 26. No entanto. A forma mais curta é usada quando a emoção é de indignação. Podemos imaginar os vizinhos do profeta perguntando um ao outro: “Por que será que aquele homem está tão inquieto?” Mas os gestos vão além das travessuras de um entretenedor (33. Depois do desempenho. Ezequiel está fazendo papel de Deus.3.*“ O desempenho gesticulatório de Ezequiel é guiado por dois objetivos retóricos: chamar a atenção da audiência e transmitir a disposição divina para com seu povo. .

1 4 O E F E IT O D A IR A D IV IN A 237 Esse trio de afirmações identifica os objetos da ira de Deus em termos de três círculos concêntricos: aqueles bem longe. Onde “seu” povo havia se reunido para garantir a bênção dos deuses. 14 Estenderei minha mão contra eles e farei sua terra tomarse desolada. isto é. A primeira dica estilística no começo de um novo movimento é encontrada na dura mudança feita da segunda para a terceira pessoa dentro da fórmula de reconhecimento do versículo 13. b. a população espalhada. estes versículos funcionam como reflexos dos versículos 11 a 13aa. Visto por fora. O efeito da ira divina (6. no entanto. o objetivo de Yahweh será alcançado: os exilados o reconhecerão. Neste exemplo.’^ O propósito de ambos reflexos é afirmar a eficácia do julgamento divino em atingir seu propósito revelatório. aqueles fora dos muros. especialmente porque o todo deste seguimento é tomado com um complexo bé mais infinitivo e uma cláusula que estruturalmente representa a conclusão da fórmula de reconhecimento no versículo 13a. no entanto. o isolamento dos versículos 13aß-14 parece artificial.“ No fim. empilhados e espalhados no último ato de profanação. em derredor de seus altares.*^ sob cada árvore verde. pois o objetivo do julgamento de Yahweh é atingir tanto a terra quanto sua população. .'’'^ desde o deserto até Ribla. no mesmo lugar serão ajuntados como cadáveres. semelhante ao papel dos versículos 8 a 10 em relação aos versículos de 1 a 7. Com respeito ao conteúdo. isto é. o foco volta ao território de Israel em vez dos refugiados espalhados entre as nações.l3 a ß . no topo de cada montanha.’^ Este redirecionamento da atenção para um terceiro grupo não é ilógico. E saberão que eu sou Yahweh. em todo alto monte. aqueles por perto."*' em todas as suas áreas residenciais. e aqueles dentro da cidade. e debaixo de todo carvalho frondoso:^'’ lugares onde haviam apresentado uma fragrância suave a todos os seus ídolos. de maneira que o reconheçam. Este parágrafo reforça a imagem do longo braço de Yahweh alcançando o coração do problema espiritual de Israel: as instalações do culto pagão nos altos dos montes.I3aß-I4) 13aß “ 'quando suas^ vítimas aparecerem no meio de seus ídolos.6 .

Juntas em uma frase significam: “uma essência tranquilizante.’* mas também encontrada em alguns textos bíblicos. Ezequiel enfatiza o escopo do julgamento por intermédio de dois pares de linhas paralelas. wè^al-haggèbâ'^ôt yëqattérû e nos montes oferecem incenso. “descansar”. respectivamente: ‘^al-hehãrím hãrãmím wé^ál-haggèbã^ôt wétahat kol-‘^ès ra^^ãnãn No alto das montanhas. e sobre os montes. denota basicamente “essência. Suas quatro afirmações envolvem uma aglutinação de duas formas’“ anteriores encontradas em Deuteronômio 12. tahat ’allôn wëlibneh w ë’ëlâ sob o carvalho.” . A primeira palavra da frase aliterativa rêah níhõah. incorporou uma série de frases padronizadas que ocorrem com frequência no Antigo Testamento para descrever a localização e a amplitude das práticas cúlticas de fertilidade em Israel. ‘^al-rã’sê hehãrím yëzabbéhû Nos picos de montanhas sacrificam. hálito”. A aplicação da fi^se ao cheiro dos sacrifícios é baseada na visão antropomórfíca de Deus que era comum no mundo fora do Antigo Testamento.’*A segunda palavra deriva-se de núah. kî 0 b sülâh pois a sombra delas é agradável. os santuários pagãos se tomarão símbolos de morte. portanto. Em todo topo de montanha e sob cada árvore verde. “espirito. que é derivada da mesma raiz de rúah.238 O I. Ezequiel.2 e Oseias 4. o álamo e o terebinto.13. No Pentateuco. um odor suave”. a expressão é usada quanto a ofertas legítimas a Yahweh. e sob toda árvore verde. A cláusula final do versículo 13 identifica o lugar de culto como o lugar onde haviam apresentado uma fragrâttcia suave a todos os seus ídolos {mêqôm 'ãser nãténú-sãm rêah níhõah lékol gíllúlêhem). ’el kol-gib‘^â rãmâ bèkõl rã’sê hehãrím wétahat kol-‘^és ra^õnãn wêtahat kol-’ëlâ ‘^ãbutâ Em todo cume de monte. odor”. e sob todo carvalho frondoso.IVRO DE E z e o u i e l Em vez de oferecer vida aos devotos.

uma citação baseada em Levítico 26. escritos literários posteriores deliberadamente evitaram referir-se a Deus como “cheirando”.33. a expressão se refere a rituais pagãos. Ribla (traduzido como Dibla na LXX) foi uma cidade em Hamath. em 16.'“® Oferecendo uma definição mais precisa do alcance de Yahweh. a furia de seu julgamento se ergue das profundezas de sua ira quanto ao tratado pactuai.6 . por outro. .17-19 e 20.6. esse oráculo oferece uma evidência vivida do lado apaixonado do caráter de Deus. representa uma equivalente invertida de “Dan até Ber-sheba”. onde quer que os israelitas vivam (môsêbôtêhem). no sul) até Ribla (no norte).1 3 a ß .'®’ embora esta fónnula coloque a fronteira bem mais ao norte do que a forma tradicional. mas a força da mensagem de Ezequiel não deve ser desconsiderada para a igreja da América do Sul no começo do século 21. Assim como em Ezequiel 6. a nação saberá que ele é Yahweh. que Ezequiel 47. “Deus apaixonado”. Não ficará inerte enquanto outros deuses competem pela devoção de seu povo.’* e foi até mesmo omitida em 6. referindo-se ao povo de Israel como uma “fragrância suave” para Yahweh. Por um lado.” Somente em 20. Esta percepção é completamente extirpada da descrição de Ezequiel na restauração do culto.'®' De acordo com 2Reis 23. ele está muito triste com a infidelidade do povo do pacto (v. o versículo 14 visualiza o julgamento que se estende desde o deserto (o Neguebe. e em troca desprezam sua graça.28.13. mas aqui tem um significado metafórico.1 4 O EFK ITO DA IR A D IV IN A 239 Com o crescimento da tendência de eliminar elementos que poderiam ser interpretados como pagãos. De qualquer modo. E quando ela ferir. 9). Duas vezes essa longa descrição da atividade divina se refere explicitamente ao estado emocional de Yahweh. envolve ambos os reinos.17 considera a fronteira do norte de Israel. Em primeiro lugar. no entanto.41 rêah nihõah tem uma conotação positiva. Nenhum canto do país está imune à espada de Yahweh. a maneira comum de se definir o extremo do território cananita ocupado pelos israelitas. Yahweh é El Qanna.31-32. ♦ Implicações teológicas As notícias ruins continuam. “Do deserto até Ribla”.

mas sempre preservou para si um remanescente daqueles que o serviram. Diante de sua pureza imaculável e santidade. representa a devoção à futilidade. qualquer ideologia. O investimento feito pelos israelitas naquele culto (nos lugares altos. Outros deuses são somente excremento.240 O LIVRO DE E z e o u i e l Em segundo lugar. Mas sua vontade soberana e seu pacto eterno não permitem a total aniquilação. e nada proporcionará um realismo maior ao entendimento de alguém que o encontro com ele. Sem o reconhecimento de nossa depravação. ele falou. a misericórdia não tem lugar para agir. que minimiza as afirma­ ções de Yahweh quanto ao seu povo é condenada. Exercer julgamento sobre sua igreja ou sobre a humanidade não é o mesmo que trair seu caráter. o Senhor é fiel ao seu pacto ao pé da letra. mas no caráter do Deus vivo. Mas a idolatria é mais que um adultério espiritual. aos ídolos. nos alta­ res de incenso. invenção da imaginação depravada humana. o oráculo relembra a todos os leitores que devem olhar para si mesmos da maneira como Deus os vê. os pecadores começam a ver o pecado da maneira como de fato é: um terrível mal que contamina todo o ser.'®^ Em terceiro lugar. Apesar de nossa posição elevada dentro da criação como imagem de Deus (Gn 1. Longe de responder à rebelião humana impulsivamente ou arbitraria­ mente. Qualquer coisa. O foco de alguns na bondade inata do homem e o desenvolvimento de uma autoimagem positiva são decepcionantes. de acordo com o seu caráter justo e fiel aos termos do pacto. Em quarto lugar. . com sacrifício) atesta a profundidade do compromisso deles com os falsos deuses. de sua eterna fidelidade e graça imensurável. O curso da história humana está coberto com o restolho da imaginação humana e os de­ funtos dos idólatras iludidos. Em quinto lugar. nos altares. Ser escolhido como objeto da graça divina não é algo que se apoia na bondade do indivíduo. Ele é Yahweh. ele age de acordo com o que falou.2630. ele reage de maneira previsível. é possível ser sincero quanto ao compromisso religioso pessoal e estar sinceramente errado. a ira do Senhor nunca é tanta que anule sua graça. nada dentro de nós mesmos garante o amor de Deus. mas confirmar sua natureza imutável. Pode varrer toda a paisagem com sua espada e visitar a terra com vários julgamentos. SI 8).

O texto hebraico é subdividido em três anúncios de alarme quanto ao fim de Israel: versículos 2aP-4. Contribuindo para essa reação do leitor está a natureza do próprio texto.1 -2 7 S oando o alarm e na terra de Isr a el 241 C. Os dois primeiros começam formalmente com a fórmula de intimação. alusões obscuras. omissão de verbos.^ O alvo dos eventos preditos aqui é convencer a audiência de Ezequiel sobre o caráter de Yahweh e seu envolvimento nos assuntos da nação.9 e 27). Quer se classifique o texto como poesia ou prosa. Esta fórmula de reconhecimento identifica o gênero deste oráculo como sendo um dito comprobatório. refletindo a forte ligação emocional entre a terra e o sentimento nacionalista do povo. Mas talvez a característica mais impressionante seja o uso da repetição. O relacionamento entre os versículos 2aP-4 e 5-9 pode ser destacado pela justaposição dos textos e suas traduções da seguinte forma: .7 . A maneira como esta mensagem é comunicada é algo impressionante. nenhuma destas características é empregada todo 0 tempo. afirmações incompletas e trancadas (v. confiisão de gênero. No entanto. Primeiramente. SOANDO O ALARME NA TERRA DE ISRAEL (7 .' e todas as três concluem com a fórmula de reconhecimento (versículos 4. versículos 5-9. e os versículos 10-27. omissão de artigos. especificamente a reafirmação do centro do sermão nos dois painéis correspondentes. fomece um sabor poético. é endereçada ao território de Israel (’a dm atyisrã’él). Desde o relato da visão inaugural do profeta no capítulo 1 do texto hebraico ele não apresenta tantos problemas. assim como palavras. 11).1 -2 7 ) ♦ Natureza e desígnio A fórmula de abertura do evento-palavra e a designação direta de Ezequiel como ben-’ãdãm nos versículos 1 e 2aa é um cabeçalho para todo o capítulo. formas e construções nunca ouvidas antes em qualquer lugar. E difícil esclarecer o estilo literário do sermão. A passagem é repleta de redundância. A tendência para construções paralelísticas e pronunciamentos curtos. seu objetivo retórico é claro: evocar uma forte reação emocional na audiência. com 0 uso de imagens coloridas e hipérboles.

242 O L IV R O D E E z E O U IK L 7.2ab-4 kõh-’ãmar ’ãdõnãy yhwh lâ’admat yisrâ’ël kõh ’ãmar ’ãdõnãy yhwh rd'^ô qes bã’ haqqis '^al-’arba‘^ãt kanèpôt hã’ãres ’ahat rã‘^ã hinnéh bã’â qês bã’ bã’ haqqês héqís ’élãyik hinnêh bã’ã bã’â ha^ëpîrâ ’éleykã yõsêb hã’ãres bã’ hâ'^êt qãrôb hayyôm mëhûmâ wëlô’ hêd hãrím ‘^attâ haqqês “^ãlayik wësillahtî ’a ppî bãk ûsëpattîk kidérãkãyik wènãtattí '^alayik 'ét kol-tô‘^ãbõtãyik wêlõ’-tãhôs ^êní ‘^ãlayik wélõ’ ’ehmôl kí dèrãkayik ‘^õlayik ’ettén wëtô'^âbôtayik bëtôkëk tihyênã wîda'^tem kî-’ânîyhwh Assim o S enhor Yahweh declarou à terra de Israel: Um fim! O fim chegou Aos quatro cantos da Terra! ‘’a t t â miqqãrôb ’espôk hãmãtí ‘^ãlayik wëkillêtî ’a ppî bãk ûsëpattîk kidrãkãyik wênãtãtí ‘^ãlayik ’êt kol-tô'^ãbôtãyik wêlõ’-tãhôs ’^êní wèlõ’ ’ehmôl kidrãkãyik '^ãlayik ’ettén wêtô‘^ãbôtayik bétôkêk tihyênã wída‘^tem kí ’ãní yhwh makkeh Assim 0 S enhor Yahweh declarou: Um desastre! Um desastre excepcional! Cuidado! Vem vindo! Um fim chegou! O fim chegou! .5-9 7.

Logo logo. Enquanto vossas abom inações persistirem dentro de vós. E os vos responsabilizarei Por todas as vossas abominações. As explicações para essa correspondência impressionante^ têm variado grandemente. Meu olho não terá piedade. embora alguns tenham defendido uma posição de prioridade do segundo painel. Externarei minha ira contra vós. eruditos tinham a tendência de tratar os versículos 6aP-9 como uma inserção secundária. Agora. A questão é complicada pelas distâncias radicais entre a LXX e o TM.7 . Então sabereis que eu sou Yahweh Derramarei minha ira sobre vós. Então sabereis que Eu sou Yahweh que castiga.“ No passado. alguns têm visto isto como variações da mesma mensagem entregue pelo profeta em ocasiões diferentes. Os responsabilizarei Por vossa conduta. Habitantes da Terra! A hora chegou! O dia está às portas Pânico Não mais celebrações de colheitas Nas montanhas. Pelo contrário. Vos responsabilizarei Por vossa conduta. Nem vos pouparei. Enquanto vossas abominações persistirem dentro de vós.’ Entretanto. Nem os pouparei.1 -2 7 Agora S o a n d o o a la r m e n a t e r r a d e Isr a el 243 O fim veio sobre vós! Cuidado! Chegou! O laço veio sobre vós. Eu vos julgarei De acordo com vossa conduta. a possibilidade . Pelo contrário. O fim veio sobre vós! Despejarei minha ira sobre vós. E os julgarei De acordo com sua conduta E os responsabilizarei Por todas as suas abominações.* No entanto. Meu olho não terá piedade de vós.

com a ênfase principal colocada nos efeitos do julgamento de Yahweh sobre sua população. Ezequiel está assim cumprindo seu papel de atalaia soando a trombeta na terra de Israel. assim como no capítulo 1.7a). especificamente a palavra sêpirâ. Muitos dos temas incluídos no capítulo 7 são comuns aos capítulos anteriores. por isso as inúmeras ligações com o primeiro alarme: os anúncios da destmição são com vocabulários similares (vs. parece intencional. com o resultado de tais intervenções sendo determinado somente por ele. uma coisa é certa: quando o nome de Yahweh aparece como o segundo elemento numa frase no construto com^íôm. 3-4. A terra não é mais indicada na segunda pessoa. destacando a urgência da crise como dois assopros de trombetas de um atalaia. 10b. a referência ao julgamento de acordo com a conduta do povo (v. este texto segue a própria direção com uma relativa alta frequência no uso de hápax legomena. sua apresentação se torna mais controlada e seu tom vai se tomando mais solene. bastante abrupto no estilo. os vs.244 O LIVRO DE E z e q u i e l de ambas pertencerem a uma situação singular original merece consideração. As referências vagas quanto ao fim se tornaram agora predições específicas quanto ao dia de Yahweh. 7b). 10a c f v. alguns dos problemas textuais podem refletir o estado emocional do profeta.1-27 foram muito influenciados por oráculos proféticos anteriores a respeito do “Dia de Yahweh”. 27. Além do mais. O fim está às portas. Este grande grupo idêntico de material. etc. A construção yôm yhw h é proveniente de outras frases com .). 2. similaridades léxicas.’ Apesar disto. O “Dia de Yahweh” identifica o momento de sua intervenção na história humana. e com inúmeras expressões que nunca reaparecem no livro. imagens da agricultura e da horticultura (v. é agora referida como um terceiro grupo. c f v. repetições. Embora o terceiro painel seja iniciado numa nota semelhantemente alegre ao passo que o profeta prossegue. o vocabulário e o estilo do capítulo 7. tem-se em mente um “encontro” ou “reunião” com ele. Os versículos 10-27 funcionam como uma exposição intencional do alarme de duas partes que foi soado nos versículos 2-9. cf. Não há tempo para se preocupar com o estilo literário refinado.5-6). 12a.* Como unidade. períodos paralelos.’ Enquanto os eruditos continuam a debater a origem e o significado preciso da noção do “Dia de Yahweh”. c f vs. muito rara (v. a continuidade estilística (linhas curtas. 1Oa. 8-9).

" De fato.3). diz o S enhor Yahweh. ou ‘^êt péquddâtãm.7.'® É comum nos livros proféticos o tema de Yahweh encontrando com 0 seu povo. o contexto sugere que a opinião popular olhava para o “dia” como alguma coisa muito desejada. cuja presença asseguraria a paz e o bemestar. principalmente aqueles que envolvem nomes próprios de lugares.12. Converterei as vossas festas em luto e todos os vossos cânticos em lamentações.'^ sua referência ao desejo que o povo tem pelo “Dia de Yahweh” (5. Lá pelo 8« século a. apropriado para a colheita da maldade deles. 1. a refeição sacrificial (zebah) pode ter estado associada com a vinda de Yahweh .2). naquele dia.9 e 10). será um dia sombrio e perturbador.'^ O encontro teofânico prototípico parece ter ocorrido no Sinai. “É vindo o fim sobre meu povo Israel!” (8.11). Quer Amós tenha sido ou não responsável por criar a f r a s e yhwh. “o dia/hora da visitação/intervenção de Yahweh” (Am 3. .C. Amós inverte a imagem (5. “O momento de sua visitação” (i. farei que o sol se ponha ao meio-dia e entenebrecerei a terra em dia claro.2 7 S O A N f X ) o A L A R M t N A T E R R A D E IS R A E L 245 yôm mais o substantivo próprio.e. o evento pode também ser identificado como yôm pèquddâ.7 .). ao contrário.14. 10. onde a reunião com Yahweh foi concluída com um banquete em sua presença para ratificar e celebrar o pacto (Êx 24. etc. A natureza daquele evento é descrita em termos vividos: Sucederá que. Os 9. que evoca um pronunciamento paronomástico: bã’ haqqês ’el-‘^ammi yisrã’êl.. Jr 8. Is 10. Isto sempre ocorre em contextos que descrevem eventos de uma perspectiva do encontro de uma pessoa com Yahweh. luto cujo fim será como dia de amarguras (Am 8.18-20) indica que o conceito não foi originado com ele.18-20). porei pano de saco sobre todos os lombos e calva sobre toda cabeça. Ao contrário..15.'* Esta associação com a colheita é explicitamente tomada em sua visão da cesta de frutas de verão (kêlúb qãyis). A nação apóstata parece não aguardar a bondade de Deus.'“ Qualquer que fosse o conceito popular do encontro com Yahweh. e farei que isso seja como luto por filho único. de Yahweh.

1 A seguinte mensagem de Yahweh veio a mim: 2 “quanto a v o c ê . O PRIMEIRO ALARME (7. h o m e m . aparece duas vezes (vs. ‘^attâ. As sentenças curtas. com nenhuma ligação com a geração atual. em Sofonias 1.7-18.yãsé’â. “chegou”. quatro \ezes.246 O LIVRO DE E z e o u i e l A imagem apresentada por Ezequiel quanto ao dia de Yahweh demonstra que fora herdeiro não somente de Amós.'® Os paralelos estilísticos e conceituais entre Ezequiel 7 e a profecia posterior pré-exílica de Sofonias. uma vez (v. 7). miqrôb. nenhum dos oráculos de Isaías apresenta tantas ligações com Ezequiel 7 quanto Isaías 13. e qãrôb. 12). No entanto. ” assim declarou o S enhor Yahweh à terra de Israel: . 10). 3 e 8). O problema que Ezequiel parece abordar é refletido em 12. Com referência à violência {hãmãs). que mostram uma clara influência de Sofonias. como se trouxesse uma vindicação final de Israel. Da mesma maneira acontece com o tom e o estilo literário de Ezequiel 7. “chegou”. uma vez (v.1-16.1-4) 7. “logo logo”. “está próximo”. o povo não desejava mais o dia de Yahweh.” 1. higgia. os anúncios breves e os gritos animados de destruição são comuns a ambos os textos. O sabor escatológico da imagem de Sofonias do dia de Yahweh pode explicar a linguagem prevalecente da iminência na mensagem de Ezequiel. hinnéh.22-28. claramente ecoa de Sofonias. uma vez (v.12-22 fala do dia de Yahweh como um momento no qual a orgulhosa e idólatra nação de Israel seria derrubada pelo terror de Yahweh. O capítulo 2. mas de outros que haviam seguido em sua esteira. “foi em frente”. “agora”. aparece nove vezes. “cuidado!”. Também separaram aquele dia da presente situação. Mesmo aqueles que reconheciam a qualidade de julgamento na visitação divina a desconsideraram como um evento escatológico remoto. 8). à futilidade das riquezas (prata e ouro) como segurança e ao terror abnipto do dia. são também muito impressionantes. A ênfase de Ezequiel na iminência e a urgência de seu tom representam sua reação á indiferença do público e à recusa em levarem a sério as ameaças divinas. assim como no tempo de Amós. As consequências desastrosas do encontro com Yahweh preocuparam Isaías em vários textos. uma vez (v. Nos primeiros doze versículos o ameaçador bã’A>ã’â.

O alarme abre com uma nota pontiaguda: Umfim ! Ofim chegou! A forma anártrica do primeiro qês e a ausência do verbo anterior (c f V.4 O P R IM f IR O A L A R M E 247 Umfim! O fim chegou-*^ sobre os quatro cantos-' da terra! 3 Agora o fim chegou sobre vós! Derramarei minha ira sobre vós. Jr 51.1 . onde alguém vive e de onde se tira o sustento. com a qual é geralmente comparada e ocasionalmente substituída. a expressão leva um significado especial. Pelo contrário.13.^* Em comparação com ’eres. do piso. A expressão Terra de Israel {’adm at yisrã ’êl) é distintivamente ezequieliana. terra”. E vos responsabilizarei por todas as vossas abominações. este oráculo continua a concentração geocêntrica das mensagens anteriores com seu respectivo interesse em Jerusalém (capítulos 4 e 5) e às montanhas de Israel (capítulo 6). 4 Meu olho não terá piedade de vós. Eu vos punirei de acordo com vossa conduta. 6) refletem a urgência do anúncio e contribui com sua força retórica.^* Em âmbito nacional ’ãdãmâ representa a base de saúde e de bem-estar econômico do povo.13. ’àdãmâ é uma designação melhor e menos formal para o território nacional. Ser dirigido para fora da ’àdãmâ é ser sentenciado a uma vida de perpétuo e errante vagar. Am 8. Dirigido à terra de Israel.7 . ocorrendo repetidas vezes nesse livro. O que vem a seguir pode ser caracterizado como um som da buzina do atalaia por três vezes alertando a população quanto ao perigo iminente. “solo.sou Yahweh ".18. Vindo da boca de Ezequiel no exílio. Lm 4. 1-2 A atenção do profeta é desviada pela chegada de outra mensagem de Yahweh e a forma de tratamento direto como homem.-^ vos responsabilizarei por vossa conduta.^^ enquanto vossas abominações persistirem dentro de vós. o anúncio “O fim chegou” representa uma fórmula profética padronizada que deveria ter lançado terror sobre qualquer um que a tivesse ouvido (ver Gn 6. mas em nenhum ponto no Antigo Testamento. Então vós^^ sabereis que eu .^’ Por si mesmo o termo fala da terra. Seu significado é refletido na interpretação de Amós quanto à fruta de verão: “Chegou o fim para o meu povo de Israel! . até mesmo sob ameaça de morte.1-2).^nem vos pouparei. Dentro da tradição profética.

A construção da frase seguinte. como que se alguns inimigos estivessem prestes a atacar. “a Terra” em outros contextos. a fim de enfatizar a severidade do desastre que aguarda a terra. concentrando-se na terra em vez do povo como objeto da ira de Deus. depois do padrão hinèni ‘^ãlayik em 5. “o fim está sobre vós”. “liberar”. assim como migalhas de pão de uma toalha de mesa. o fim de Israel pode muito bem ser o fim do mundo.3-14). que significa “responsabilizar alguém por alguma coisa” ao colocar responsabilidades sobre uma pessoa e ao penalizá-la de acordo com o que fez. fará que sintam o peso de suas próprias abominações. trata a ira divina como se fosse uma fiecha a ser lançada (cf 5. Quando combinado com h ã ’ãres. assim.^® Yahweh cessaria de se relacionar com eles com base nas promessas do pacto e traria sobre eles o efeito das maldições (8. No caso de Amós. faz que “o fim” seja quase concreto. adaptou um termo escatológico para uso num contexto não escatológico. uma figura literária derivada da oficina de alguém que trabalha com roupas e estica uma peça retangular de roupa (cf Dt 22. Estas duas sentenças envolvem a expressão nãtan ‘^al. haqqês ^ãlayik.^“ Em segundo lugar.248 O L IV R O D E E z r O L 'I K L Não os tolerarei” mais!” (8. fará que sintam o peso de suas próprias condutas.^* Para Ezequiel. assim como em 36. Similarmente. ou um embaixador a ser comissionado.12). Ezequiel adapta a fórmula para os próprios propósitos. lit.2). Em Jó 38.8.16). punirá a terra por manter aquela conduta (dèrãkím.13 a terra é poeticamente comparada a um lençol que é tomado pelas “pontas” e sacudido de maneira que o perverso é lançado fora. Primeiramente. isto significa que o tempo da graça para a nação acabara. Isto representa uma versão abreviada da forma mais ampla da expressão . “maneiras”).” 3b-4 Ezequiel explica a resposta divina com uma declaração tripla do princípio pelo qual Yahweh usará para lidar com a terra de Israel. a execução da sentença está também em jogo. “ira”. o uso do verbo sillah. Declara inicialmente que o fim envolve os quatro cantos da terra {’arba^at kanèpôt hã’ãres). com ’ap. J« /g ar Emborasõpatgeralmentesignifique “enviar uma decisão judicial”.^' Ezequiel. o contexto sugere que aqui. 3a O agora de abertura (“^atta) enfatiza a iminência da vinda da destruição. Em terceiro lugar. kanèpôt toma um significado universal com insinuações escatológicas.19.

5-9 O SECiU N D O A L A R M E 249 idiomática: “colocar a conduta/abominações de alguém sobre a cabeça (desse alguém)” (9. Enquanto vossas abominações persistirem dentro de vós. mëhûmâ (pânico) em vez de celebração nas montanhas. Não permitirá que qualquer aparência de piedade interfira com sua ação determinada.'" habitantes da terra! A hora chegou! O dia está às portas - Pânico.7.5-9) 5 “Assim declarou^^ o S e n h o r Yahweh: ‘Um desastre! Um desastre excepcionalP^ Cuidado! Chegou! 6 Umfim chegou! Ofimchegou!^^ Ofitm^'’ chegou sobre vós! Cuidado! Chegou!*^ 7 A coleira veio sobre vÓ5. Eu vos punirei de acordo com vossa conduta. 0 povo o reconhecerá como Deus.21. 9 Meu olho não terá piedade. haqqès (o fim). o destino de uma pessoa é meramente o resultado de suas ações. Seis termos diferentes são empregados para identificar a calamidade: rã‘^â (desastre/mal). logo logo.43.31). hassëpîrâ (a correia). Por intermédio de uma série de exclamações fragmentadas. 2.” Com grande economia de vocabulário. Ezequiel declara que assim como as pessoas têm se comportado. Pelo contrário. externarei minha ira contra vós. sabereis** que eu sou Yahweh que castiga ’. O segundo soar da trombeta é ainda mais forte que o primeiro. Então. Eu vos responsabilizarei por todas as vossas abominações. 22. e não celebrações de colheita nas montanhas. hayyôm (o dia).*^ eu vos responsabilizarei por vossa conduta. o profeta leva sua audiência a um frenesi. 11. pessoalmente. derramarei sobre vós minha ira. Acrescentado à emoção . irá garantir que isto aconteça. O SEGUNDO ALARM E (7. 16. da mesma maneira serão tratadas.10. hã‘^ét (o tempo).^^ 8 Agora. Yahweh. Quando concluir tudo. Nem pouparei.

“bode”. em que sèpirat tip’ãrâ significa “diadema/coroa de glória”. do versículo 23. Ainda que a sépirâ de Isaías fosse um tipo de beleza e glória. é baseado no requerimento contextuai de um correlativo para rã‘^â (v. que ocorre novamente no v. e seus herdeiros. e a inserção dupla de hinnêh. embora de um tipo muito diferente. aqui é um símbolo de escravidão e humilhação. Após esta declaração de destruição. enrolar”. Talvez a solução para o enigma de sépirâ esteja na conexão com o texto de Isaías 28. mas uma algema ou corda com a qual os habitantes de Judá seriam conduzidos ao exílio. é incerta porque as duas afínnações em que o tenno ocorre na TM não ocorrem na LXX. “misturar. este profeta parece também ver uma “coroa”. que dificilmente parece se encaixar no contexto de Ezequiel.250 O I. os reis selêucidas. “Olhe!” Várias destas expressões pedem um comentário. a “beleza de seus ornamentos” (sébi ‘^edyô.5. 7). os tradutores da LXX devem ter trabalhado por uma diferente Vorlage ou omitiram a palavra rara porque era incompreensiva. encontrado na maioria das traduções em português deste texto. Uma interpretação precisa do termo ha^êpirâ (v. especificamente o rei da Babilônia. No entanto. 6-7 Correia. Não é um “diadema”. o Grande. “chegou”.'**’ Vários comentaristas modernos sugeriram que as duas ocorrências de sépirâ em Ezequiel representam adições ao TM feitas depois da produção da LXX. Esta ligação apresenta duas possibilidades para se entender o termo em Ezequiel: ou sépirâ representa a “coroa” do invasor. 24).E z k q u ie i. “algema”.“’ Uma vez inserido no texto de Ezequiel. V. 5). Com uma justiça irônica.“’ Se considerarmos a mesma etimologia para a parábola de Ezequiel. 19) se tornou uma corda de vergonhas. Da mesma maneira sépirâ nos versículos 7 e 10 corresponde a rattôq. sêpirâ referiu-se à “pior das nações” que possuiriam as casas (v. O uso de “destruição”. o rei da Babilônia. está a repetição feita por seis vezes do ominoso bã’/ b ã ’â. e a palavra é confirmada em outro ponto no Novo Testamento somente em Isaías 28. O sêpirâ de Isaías é geralmente reconhecido como sendo baseado na raiz spr.IV R O Dl. 10.“®ou Ezequiel criou deliberadamente uma impressionante paródia.5. a série de exclamações é interrompida momentaneamente por um apelo direto aos residentes . inspiradas pela imagem de Daniel feita por Alexandre. como um sãpir.

Esta referência à população parece intrusiva em um oráculo que está. Um dia de trombeta e alarme. este mensageiro da destruição havia soado um aviso semelhante do terrível dia de Yahweh: (1. entretanto. A frase O dia está às portas {qãrôb hayyôm) fomece o primeiro elo léxico à expressão yôm yhwh. Um dia de nuvens e profunda escuridão.16).5-9 O SEG U N D O A LA RM E 251 da terra.7 foi inspirada por Isaías.14-16): qãrõb yôm-yhwh haggãdôl qãrôb úmahér më’ôd qôl yôm yhwh mar sõréah sãm gibbôr yôm ^ebrâ hayyôm hahú’ yôm sãrâ ûmësûpâ yôm sõ’â ûmës’â yôm hõsek wa’âpëlâ yôm ‘^ãnãn wa’^àrâpel yôm sôpãr ûtërû'^â '^al he'^ârîm habbësurôt wê‘^al happinnôt haggêbõhôt O grande dia de Yahweh está próximo Próximo e aproximando-se rapidamente! O som do dia de Yahweh ! Que amargo! Nele clama o guerreiro! Aquele dia será um dia de ira Um dia de problemas e amarguras. “O dia de Yahweh”. A última linha de Ezequiel 7. geralmente em contextos descrevendo os efeitos turbulentos da guerra. Várias décadas antes.5: kí yôm mëhûmâ ûmëbûsâ ûmëbûkâ la’dônâyyhw h sëbà’ôt.5 é muito instrutivo. não é totalmente desnaturai. Contra as cidades fortificadas.“ O segundo livro de Crônicas 15. de atropelamento e confusão!” A palavra mëhûmâ ocorre 12 vezes no Antigo Testamento. no qual mëhûmâ representa o oposto da paz (sõZôm. O estilo e a dicção sugerem uma forte influência de Sofonias. E contra as altas torres E contra as altas defesas. No pânico (mëhûmâ) podemos ouvir um eco de Isaías 22. Um dia de calamidade e desolação Um dia de escuridão e sombras. ver também Provérbios 15.2) e o tumulto atual. preocupado com a devastação da terra. não deveríamos ficar tão surpresos se as preocupações do profeta em relação ao seu povo se levantam num momento de nervosismo. que faz um contraste semelhante entre a cidade sanguinária (22. No entanto. considerando que o destino de um povo seja diretamente afetado pelas riquezas do território que ele ocupa. “pois o S enhor Yahweh dos exércitos tem um dia de alvoroço.7. De qualquer modo. O texto em pauta faz o contraste entre os gritos de pânico e as .

O anúncio do dia de Yahweh (7.. Ainda que estejam faltando claros indicadores estruturais das fórmulas. (c) efeitos religiosos (vs. mas o vocabulário e o estilo do soar da trombeta na abertura ecoam os sons dos alarmes anteriores. (b) efeitos econômicos e psicológicos (vs. Depois. (d) efeitos políticos (vs...^’’ 12a A hora chegou! O dia chegou. avisando a audiência com detalhes amedrontadores sobre a desintegração de todos os aspectos da vida comunitária na chegada do dia de Yahweh. uma referência às exclamações alegres dos colhedores que ecoavam entre os montes enquanto os grãos eram colhidos e as uvas amassadas.. Em primeiro lugar há o externar da ira divina (siíZaft ’ap) que é substituída por um killâ ’ap mais convencional “dispensar a ira de alguém”. 25-27). 10-12a). “derramar a ira de alguém”.10-12a) 10 “Cuidado!^ O dia! Cuidado! Chegou! A correia está à frente!^^ O galho^'’floresceu! A insolência desabrochou! 11 A violência amadureceu e se tornou o galho da maldade!^^ Nenhum deles.” A última expressão idiomática é derivada de uma imagem de um caldeirão fervendo.*' 8-9 O restante deste segundo alarme ecoa o primeiro. a. à fórmula de reconhecimento enfatiza ainda mais que o dia da destruição de Israel é obra do próprio Yahweh. “que castiga”. a adição do particípio makkeh. 12b-18).10-27) O terceiro alarme é muito mais longo e mais complexo que os dois primeiros. Nenhuma de suas turbulências. 19-24). com base no estilo e no conteúdo podemos subdividir esse alamie em quatro partes: (a) anúncio (vs. Nenhum de seus tumultos.. Nenhum dos altos epoderosos entre eles.252 O LIVRO DE E z e q u i e l celebrações da colheita nas montanhas (hêd hãrím). O TERCEIRO ALARM E (7. cujo conteúdo é derramado sobre uma vítima infeliz.. e emparelhada com sãpak hêmâ. no entanto. esse alarme toma o próprio rumo.” .. 3.” Em segundo lugar.. com duas mudanças significativas.

e não um sinal de um mal. mudou o que originalmente era um símbolo positivo da eleição e da legitimação da autoridade em um bastão emblemático de opressão e maldade. e qüm lé. no segundo alarme. Várias explicações deste texto ambíguo são possíveis.*“ A segunda explicação que “o galho floresceu” pode ser constmída como um emblemático das noções expressas nos dois períodos seguintes. assim. a ligação entre esses textos é obscura pelo fato de que no caso de Arão o florescer da vara serviu como sinal da eleição de Arão. o que é requerido no último texto. “brotar”. e finalmente dera nozes maduras. pois tem ações más florescendo antes de brotarem. agora Ezequiel se apresenta mais específico.7. as diferenças entre este alarme e o anterior se tomarão claras. O sentido de “justiça pervertida” (paralelo a dãmím. No entanto. “florescer”.“ e resa’^. produzira brotos e botões. imediatamente pensaram na vara de Arão que havia brotado. “crescer”. e tratado como a forma hapax no capítulo 9.** O verbo sís. hãmãs. especialmente quando começa a enfatizar a causa humana que precipita a destmição iminente. certamente seria apropriado aqui. expressa numa única palavra as noções contidas em pãrah. depois do que foi colocada na tenda do pacto. Ezequiel. “insolência”. Desta vez.“ Tão logo a trombeta soe. “impiedade”. no entanto. O galho floresceu. A primeira é que matteh pode ser tomado como m utteh. esta apresentação causa um problema lógico. Ainda que as ofensas da terra de Israel anteriormente tivessem sido reunidas sob as mbricas gerais “seus caminhos” (darkayik) e “suas abominações” (tô‘^ãbôtayik). O profeta começa com uma analogia botânica cujo significado foi perdido ao longo dos séculos quanto à entrega do oráculo. mantém o próprio hayyôm. “derramamento de sangue”). as correntes da escravidão (a correia. que introduziu o primeiro alarme. O dia do encarceramento chegou. e que foi suplementado por uma palavra mais específica. “o dia”. sépirâ) estão a caminho. em que o galho se refere à vara dos govemantes opressores. “violência”. hayyôm. A terceira explicação é que . Quando a audiência de Ezequiel ouviu esta expressão.9. dada a associação dos termos com zãdôn. o termo haqqês “o fim”. mas a salva de abertura indica claramente que o versículo 10 pertence a esta sequência.“ No entanto. esse terceiro alarme não tem a fórmula de acusação introdutória.IO-I2a O A N Ú N C IO D O D IA D E Y ahw eh 253 Diferente de seus predecessores.*' e cuja ambiguidade continua a refutar certas interpretações.

Ezequiel pode já estar visualizando o agente da ira de Yahweh. o estado confuso do texto reflete 0 caos do dia de Yahweh.2). como é descrito nos versículos seguintes. Como se a audiência ainda não tivesse entendido a urgência da situação. Altoepodemso representam interpretações idiomáticas de nõah. 0 profeta conclui esta abertura bombástica com mais uma exclamação: Chegou a hora! O dia chegou! A exclamação deixa 0 leitor curioso quanto a como será aquele dia. Nabucodonosor. ele é o insolente. (7. As palavras podem significar expressões onomatopeicas de alarme ou sofrimento. No entanto. A resposta vem logo à frente.m hm hm . e contribui para o seu poder retórico. h e n em mhm..'''^ 14 Tocaram''^ a trombeta. Somente a última linha é totalmente sensível.^^ 13 De fato.nh bhm parecem propositais. Isto pode fornecer uma dica para a interpretação do período anterior. Porque [minha] ira está vindo sobre a multidão deles. Embora todos os esforços para recuperar o sentido original sejam provisórios.'^ Ainda que ambos estejam vivos Porque a visão a respeito de toda a multidão não será revertida.^* Fizeram todas as preparações!'^ Mas ninguém vai . o que vende não recobrará a terra que vendeu. Nem o que vende se entristeça.. Quer tenham sido deixadas assim de maneira intencional quer não. um hapax presumidamente derivado de nãwâ. A vara que floresceu é sua.. ou o maligno que criou o tumulto refletido nas linhas seguintes ao versículo 11 Minha tradução é uma tentativa de preservar a obscuridade do restante do versículo 11 por meio de uma série de linhas truncadas. “adornar” (ver Êx 15.. Jr 6.O 254 L IV R O DH E z e o u i l i .. as combinações aliterativas das letras m.'"^ Por causa da iniquidade deles.. Nenhuma pessoa'" terá sua vida preservada. m hm w nm . Porque [minha] ira está sobre toda a multidão.120-18) A economia e os efeitos emocionais do dia de Yahweh 12b "O que compra não se alegre. as sentenças são deixadas sem um término.sair para a batalha. b.2. ou o violento.'"’ .

Este termo.9 [em português.^* 16 alguns sobreviventes restarem. Ezequiel termina cada linha com a palavra que aparecerá não menos que 16 vezes nos capítulos 29 a 32. aqui traduzido como multidão. 30. Primeiro de tudo. O primeiro deles é destacado por um refrão que ocorre em três variações como segue. abundância” (Ez 29. 13) está sobre toda a multidão deles” (v. 18 Eles vestirão pano de saco.4. barulho”. 17 Todas as mãos se tornarão débeis. Novamente. 12) está sobre toda a multidão deles” (v.10. E quem quer que esteja na cidade. a cansa divina por trás do colapso da nação. ou “pompa.42).15). 14) As formas desses refrões apresentam alguns toques literários finos. E a calvície em todas as cabeças. Ec5. 1Cr 29. kl hãrôn ’el-kol-hãm ônãh kí-hãzôn 'el-kol-hãm ônãh kí hãrôní ’el-kol-hãm ônãh “pois a ira “ pois a visào “ pois minha ira está sobre toda a multidão deles” (v.*' Todos eles gemendo. Pode-se entender o texto ao considerar dois aspectos separa­ damente.16). arrogância insolente” (Ez 30. SI 37. como no tumulto de uma multidão em celebração (26. a confusão de um campo de batalha. o ruído alto do povo da cidade (23.^’’ Fugirão para as montanhas^'* como pombas do vale. todos os joelhos fluirão com água. E a tremedeira os cobrirá.19. sentenças abruptas.13.7 . 10]). o contexto atual e seu uso nos . o entusiasmo do profeta pode ser reconhecido por seu estilo.*^ Cada um em sua iniquidade.*^ Mas pode também denotar simplesmente “multidão” (Is 5. ” 12b-14 As exclamações na abertura sinalizam uma nova fase no alarme. a fome e a praga o consumirá. A vergonha estará em toda face.13). “riqueza material. é geralmente usado para “pandemônio. e os efeitos deste evento sobre a população.16. falta de uma progressão suave. hãmônâ. formas raras.12b-18 A e c o n o m ia E os E F E IT O S E M C K 'iO N A is IX ) o i A D E Y ahw eh 255 15 A espada está fora! A peste e a fome estão dentro!’’’’ Quem quer que esteja fora no campo morrerá pela espada. Ainda que Ezequiel convide seus ouvintes a considerar todos estes significados.

na mensagem profética em geral. e o povo será amassado pela fúria da ira de Yahweh. ocorre somente aqui no livro de Ezequiel.10-11).*’ o profeta .*“ Em segundo lugar.*’ Parece ter sido selecionada deliberadamente. O colapso da economia será total. independente da forma que fosse recebida. No meio de sua proclamação. hãzôn. “o dia da fúria de Yahweh”. Um ponto especial é feito. deixando todas as transações de negócios anuladas. no qual aquele evento é identificado como yôm ^ebrat yhwh. de hãzâ. Esta é a única ocorrência da frase em Ezequiel. no entanto. “ver”. o profeta é capaz de afirmar a irrevogabilidade de sua mensagem. embora a palavra para ira.22-28. mas ainda mais importante pela mudança que permite fazer na principal ocorrência do refrão no versículo 13. pelo acréscimo de duas curtas palavras no fmal deste refrão: lõ’ yãsúb. mas fomece outra ligação específica com Sofonias. de onde em troca é derivada a designação de um profeta como um hõzeh “vidente”.** Estas “visões” são percebidas como de propriedade dos profetas tanto no versículo 26 quanto no duro discurso de Ezequiel contra os falsos profetas em 12. O ruído do povo representa uma revolta contra o céu.256 O LIVRO DF E z e o u i e l capítulos 29 a 32 favorecem a interpretação teológica: orgulho em excesso. O comprador não terá tempo ou motivação para se alegrar com um bom negócio que fez. o fato de a palavra ser usada nas aberturas identificando os destinatários de outros livros proféticos demonstra que era comumente usada.** O impacto econômico devastador do dia da ira de Yahweh é ilustrado vividamente nos versículos 12 e 13a e então é retomado no versículo 19. No entanto. “não será revertido”. irreverência e insolência.*’ Aqui se refere à visão de Ezequiel quanto à destruição iminente. hãrôn. Isto marca a primeira vez que as mensagens de Ezequiel são identificadas como uma visão. Ao mudar somente uma única letra. no versículo 19. Na verdade. nem o vendedor se arrependerá pelo fato de ter dividido suas posses. primeiro. uma nova ideia é introduzida de maneira inteligente. numa paródia lúgubre das leis antigas do jubileu. porque tem uma qualidade rítmica com hãmôn. como aqui. que quer dizer que o anúncio profético da ira divina é irrevogável (cf Is 55. O papel de Yahweh na vindoura comoção será destacado mais uma vez no começo da seção seguinte. seja comum em outras partes. de hãrâ “queimar”.

o povo estará paralisado emocionalmente. 15 A tensão do profeta muda. momentaneamente. 6. Embora ambos negociantes possam ainda estar vivos. Eles ouviram 0 som da trombeta do atalaia do alto da torre. mas quando o momento para a ação chega. onde esperam encontrar refúgio nas cavernas e fendas. não encontrarão a paz. as pessoas cairão vítimas de suas próprias iniquidades (v. o que empresta e o que toma emprestado. mas aqui. novamente.12.’®Em resumo. 13c) com o desmoronamento de tudo que as sustentava. o credor e o devedor . Primeiramente.7.12). estão imóveis. a ira de Yahweh provará ser o grande equalizador. Nos versículos 14 a 18 Ezequiel oferece uma descrição pitoresca do impacto psicológico do dia de Yahweh sobre a população. a porta está um pouquinho aberta para alguns fugitivos que foram para as montanhas. a empregada e a senhora. celebrar e sofrer por negociações será irrelevante nesse ambiente em que a infraestrutura econômica entrou em um colapso total.serão reduzidos ao mais baixo denominador comum. o comprador e o vendedor. pois sofrerão pela situação em que estão. e responderam ao fazer as preparações necessárias para defender a cidade. mesmo ali. qualquer procedimento legal para a retomada da propriedade perdida será frustrado pelo inevitável e irrevogável dia de Yahweh. de sua imagem do impacto do dia de Yahweh para a maneira na qual destruirá a terra. Diante da ira expressada por Yahweh não têm coragem de defender a si mesmos.12b-l8 A E C O N O M IA E os EF E IT O S E M O C IO N A IS D O D IA D E Y ahw eh 257 declara que uma dada propriedade patrimonial que foi perdida por uma família não mais retomará. A tríade de aflições que consiste na espada.’' Porém.o povo e o sacerdote. a fome (rã‘^ãb) e a praga (deber) consumirão (’ãkal) cada um deles como bestas vorazes. a ênfase está no escopo do julgamento. o ano do jubileu será cancelado. de . se procurarem refúgio dentro da cidade.28). a espada o perseguirá.2). 16 No entanto. Em tal evento. comprar e vender.’^yônd pode. yônê haggê’ãyôt é comumente entendido como sendo uma espécie de pomba selvagem das rochas (Columba livia) que faz ninhos nas montanhas e nos altos da Palestina (cf Jr 48. pegando emprestada a imagem de Isaías (24. na praga e na fom e é familiar de oráculos anteriores (c f 5. quando estiver acabado com toda a população . o servo e o mestre. De fato. assim como pombas do vale. Se o povo tentar fugir de sua ira.

A expressão de Ezequiel relembra uma descrição neoassíria da fuga de inimigos: “seus corações batem como os das pombas em fuga ao serem perseguidas.’^ Mesmo assim.'’^ No entanto. “vergonha”. . referir-se a pombas selvagens. assim. O que o profeta parece estar visualizando é a total destruição das cidades e vilarejos de Judá. se os pássaros selvagens estavam em casa. Mq 7. forçando aqueles que sobreviveram a procurar refúgio nas montanhas.’’ O segundo significado é mais dificil de ocorrer.’* 18 A resposta não verbal descrita aqui representa as formas bem conhecidas de expressar sofrimento. O tremor é projetado metaforicamente como uma roupa com a qual alguém cobre o corpo. A primeira expressão. ações involuntárias. O primeiro e o último períodos identificam ações voluntárias.'®” A expressão paralela. mas aqui é descrito como uma resposta facial. búsâ.'’* 17 Este versículo descreve os efeitos psicológicos do desastre.” a segunda e a terceira. organizadas aqui numa ordem quiástica. em outros pontos denota uma roupa de sofrimento que era jogada sobre a face de alguém em tempo de dor (Ob 10. dificilmente seria uma analogia apropriada para fugitivos. Hnpoi |ioA. O significado desejado depende dos requerimentos contextuais.sua própria culpa {‘^ãwõn). vivendo nas montanhas. Além do mais. não seriam capazes de fugir do problema fundamental .’’ O profeta está. “e todos os seus joelhos fluirão com urina”. referindo-se à perda do controle da bexiga que ocorre no momento de extrema crise.w0riaovTai ty p a a ía .258 O LIVRO DE E z f q u i e i .46 [em português. Tenho seguido costumes de muitas traduções inglesas ao traduzirem wékol-birkayim télaknâ mãyim literalmente: e todos os joelhos fluirão com água. mas é um termo genérico que identifica pássaros domésticos ou semidomésticos que também vivem em áreas de população. No exemplo que temos é difícil imaginar por que Ezequiel teria falado de “pombas do vale” se havia pensado em pombas das montanhas. SI 89. fato. os tradutores da Septuaginta compreenderam o sentido da passagem: Kaí náinec.10. toda mão estará debilitada (kol-hayyãdayim tirpênâ) interpreta mãos caídas como uma expressão não verbal da força que falhou ou a perda de coragem. 45] [com um verbo diferente]). O som do sofrimento deles seria como o som de pombos. urinam quente”.

e suas barrigas (mê^im) vazias. Nem sua prata nem seu ouro será capaz de os ajudar no dia da fúria de Yahweh. a atenção de Ezequiel para o ouro e a prata nos versículos 19 e seguintes parece um retomo aos aspectos comerciais citados nos versículos 12b-13. enquanto profanam meu tesouro.19-24) 19 "Eles lançarão sua prata nas ruas. A falência desse materialismo é demonstrada de duas maneiras. Seu ouro será tratado como lixo. e como presa para a maioria das pessoas ímpias da terra.' porque a terra está cheia de assassinos judiciais. o dinheiro deles não comprará o apaziguamento da ira divina. porque foram'°^ a causa iníqua de sua queda."* Porei um fim no orgulho do poderoso. 24 Trarei o pior das nações. Foram tomados como chaves para a própria vida.s E F E IT O S R E L IG IO S O S r» DIA DE Y ahw eh 259 C. todos morrerão. o leitor rapidamente descobre que esses metais preciosos representam muito mais que o objeto de valor monetário pago nas transações comerciais. Os efeitos religiosos do dia de Yahweh (7. epossuirão suas casas. as transformarei"^ em lixo para eles. quando Yahweh quebrar a vara de pau que supre. Primeiramente. Portanto."** 20 Fizeram"^ as belezas"^ de ornamentação afonte do seu orgulho.7. 21 Entregarei como despojo para estrangeiros. O apetite deles (nepes) continuará insatisfeito. No entanto.' '® Vândalos o invadirão"' e o saquearão."^ E seus lugares sagrados serão contaminados. Com ela criaram suas imagens abomináveis e nojentas. 19 À primeira vista. A influência de Sofonias 1. Em segundo lugar. a prata e o ouro não poderão comprar comida.'^ 22 Afastarei minhaface deles."^ e a cidade está cheia de violência.18 na terceira linha é óbvia quando as duas afirmações são justapostas: . Não satisfarão seus apetites. 23 Forje uma corrente. nem sentirão seus estômagos. e eles a profanarão. Afinal de contas.19-24 O.

260 O L IV R O D E E z e o u ie l Sofonias 1. poderíamos reconhecer na atual referência uma sombra de Ezequiel 16.'^^ De qualquer modo. Em vista da absoluta desvalorização da prata e do ouro em satisfazer tanto as necessidades físicas quanto espirituais.'“ isto é. A última linha do versículo 19 resume a análise de Yahweh quanto à situação.18 Ezequiel 7. tomou-se o objeto de sua fúria. é melhor ver isto como uma alusão ao templo."* No uso comum ‘^ãdi denotava “decoração”.19 gam-kaspãm gam-zèhãbãm lõ’-yükal lêhassilãm béyôm ‘^ebrat yhwh kaspãm úzéhãbãm lõ’-yükál léha^Mm béyôm ‘^ebrat yhwh Na verdade. O povo tem sido enganado por seu próprio materialismo. assim como no versículo 22. as imagens “feitas nele” provavelmente se referiram a Asherah e objetos ligados a ele.7). destaca o fato que os eventos preditos neste oráculo não são simplesmente ocorrências naturais ou consequências das decisões humanas . lit. 20 Mas o povo tem lidado de maneira errada não somente com a própria riqueza. sua prata e seu ouro não serão capazes de resgatá-los no dia da fúria de Yahweh. criados por Manassés (2Rs 21.17 no contexto em que a natureza das abominações de Jemsalém . Há certa discussão sobre o que Ezequiel quer dizer poríwúr beleza ornamental {sêbí ‘^edyô. e nenhuma quantidade de prata ou de ouro compraria de volta o seu favor. A geração atual não pode se apoiar no amor pactuai de Yahweh."’ É possível interpretar sèbí ‘^edyô como “a glória de seu omamento”. belos ornamentos feitos de ouro e de prata que agora foram derretidos e utilizados para a fabricação de todos os tipos de imagem abomináveis (tô‘^àbôt) e detestáveis (siqqúsim). que seguiram o Targum. especificamente as joias que as mulheres se adornavam.são expressões da ira divina.' ” Neste contexto. profanandoos ao fazerem abomináveis e nojentas imagens pagãs para si. mas também com os tesouros do templo. Sua prata e seu ouro não serão capazes de resgatá-los no dia da fúria de Yahweh. o povo pode também jogá-los fora com o resto de seu lixo. Assim. “a glória de seu omamento”). Esta é a única ocorrência da frase yôm ‘^ebratyhwh em Ezequiel. O amor ao dinheiro tem levado a culpa e provocado a ira de Yahweh.'^' Mas para Rashi e Kimchi.

25-28). Se no ouro pus a minha esperança ou disse ao ouro fino: em ti confio. Nos versículos 21 a 24. e que naquele dia todos os seus ídolos de prata e de ouro seriam rejeitados. e beijos lhes atirei com a mão. Em sua apologia declara. também isto seria um ato iníquo (‘^ãwõn) pois assim negaria eu ao Deus lá de cima (Jó 31. se olhei para o sol. ou para a lua.24-28). A expressão Portanto (‘^al-kên) no versículo 20c sinaliza uma transição no oráculo. se me alegrei por serem grandes os meus bens e por ter a minha mão alcançado muito. Jó estava semelhantemente ciente da conexão entre riqueza e falsa adoração na vida pessoal. os israelitas têm fabricado deuses rivais ao Senhor do pacto. mas o resultado é claro. que fora também refletido anteriormente em alguns avisos (cf. que caminhava esplendente. Essa reação é coerente com seu caráter imutável. Mais de um século antes. Como isto será feito não é especificado. Quatro ações específicas são identificadas. e o meu coração se deixou enganar em oculto. estava chegando.19-24 Os EKEi ros R E L IG IO S O S D O D IA D E Y ahw eh 261 e os tesouros sagrados de Yahweh receberão uma exposição muito maior. Mas também advertiu quanto ao orgulho e arrogância que o dia de acerto de contas. e santificar suas casas com a verdadeira adoração. Em vez de padronizar suas próprias vidas segundo a vontade de Yahweh. de Yahweh. ou com sua determinação em destruí-los.'^^ Então. quando resplandecia. Ezequiel não foi o primeiro a associar a riqueza com a idolatria. Ezequiel concentrou-se na natureza da reação de Yahweh quanto à situação iníqua.7. não deveriam se surpreender com a fúria do zelo de Yahweh. Dt 4. Para o momento Ezequiel simplesmente cita a utilização dos tesouros do templo para a confecção de imagens como a medida da arrogância deles. Isaías havia falado à nação quanto a estar enchendo a terra com prata e ouro. e ídolos feitos pelo homem. cavalos e carruagens. deuses segundo suas próprias imaginações. . Primeira: Yahweh fará que o ouro e a prata sejam repugnantes àqueles que os têm usado de maneira má.

serão impotentes diante da mão de Yahweh. no entanto. Assim como a prata e o ouro contaminados. 22) deriva-se de uma raiz que significa “atravessar”. dando-lhes liberdade para entrar e profanar sua região tão querida. hazzãrím normalmente denota “estrangeiros. 21 ). Corrente.'^* (4) A mais terrível das nações.'^’ (3) Vândalos. 21-24 Em segundo lugar. Os objetos de prazer e de adoração serão profanados (hillêl) e confiscados por esses antigos “vikings” como despojo (baz) e restolho (sãlãl) da guerra. são destruidores nocivos dos tesouros de Jerusalém. 22 Em terceiro lugar.49-57. passando a um apelo quanto aos inimigos foijarem instmmentos de aprisionamento. O caráter destes agentes da fúria divina é refletido em quatro expressões usadas para identificá-los nos versículos 21 a 24: (1) Estrangeiros. A dor no coração de Yahweh é aparente. rã^êgôyím no versículo 24 corresponde a ríl^ê hâ’âres no versículo 21. embora possa também referir-se á cidade de Jerusalém. A terra também deve cair vítima da ira de Deus. 21) expressa o grau superlativo. “inimigo”. pãrísím (v. mas pelo mal de seus habitantes.262 O LIVRO DE E z e q u i e l Objetos que anteriormente foram fonte de orgulho agora serão rejeitados.'^* De fato. Yahweh permitirá que os invasores profanem a terra. Yahweh pessoalmente entregará os metais preciosos e outras propriedades nas mãos dos inimigos mais impiedosos. De antemão. Quanto aos ídolos sobre os quais tanta esperança havia sido depositada. não porque tenha alguma falta em si mesma. ris‘^ê hã’ãres (v. No capítulo 18.'“ (2) O povo niais ímpio da terra. A interpretação do Targum da palavra sépûnî como “a terra na qual está minha presença” respeita os sufixos femininos nas cláusulas seguintes. o contato com os estrangeiros contaminará a terra. Ezequiel pode ter usado zãrím no mesmo sentido do cognato acadiano zâ ’iru. pois o profeta se desvia do padrão das posições de Yahweh como tema. A imagem temerosa dos invasores pintada aqui combina perfeitamente com a predição em Deuteronômio 28. Apalavra . o leitor sabe que Ezequiel está descrevendo os babilônios. Isto é afirmado indiretamente. O versículo 24 observa que tomarão também as residências. Yahweh permitirá que a população seja levada ao exílio. ao virar suas costas'^’ para eles. as pessoas referidas não são simplesmente de fora da terra. 23 Em quarto lugar.10pãrís se define como alguém que derrama o sangue. No contexto atual (v. estranhos à terra”.

e pelo fato de Yahweh bani-los (hiddíah) dentre as nações (4.'^® Como porta-voz de Yahweh. mas também pelo sangue de vítimas inocentes. do destino que aguarda a população. que ecoam e expandem Gênesis 6. o forte é associado muito de perto com lugares sagrados. um termo geral para ações violentas. Agora o leitor aprende sobre o julgamento de outro ponto de vista. que ocorre cinco vezes no livro.11.3. “orgulho de sua força”. Em Naum 3. A primeira delas é assassinatos sangrentos (m isp à t dõm ím ).27.'^. consiste de pessoas das classes mais altas.6 e 22. “fugitivos”. o povo acrescentara crimes sociais dirigidos contra aqueles criados à imagem de Deus. A segunda é violência (hãmõs). A “corrente” seria usada para atar os cativos juntos.'^“ 24 Em quinto lugar. A razão para este tratamento é descrita no versículo 23b por meio de duas linhas paralelas assimétricas.19-24 Os EFEITOS R E U ü i o s o s IX) n iA DF.'^* Quando Yahweh terminar.'” Aqui. Embora Ezequiel tenha previamente mencionado pêlítim. Ezequiel é assim chamado para avisar os inimigos para que façam as preparações apropriadas. em vez de “crimes de violência”. Y a h w e h 263 rattôq é um hapax derivado da raiz rãtaq. os mesmos que Habacuque condenou na Babilônia (Hc 2. A terra foi contaminada não somente pela idolatria. Yahweh acabará com o poder do forte e despedaçará os lugares santos. entende-se melhor a frase como “decisões sangrentas de morte”.'” São crimes contra a humanidade. até aqui.7. 11. . 17). A expressão orgulho do poderoso (gé’ôn ’^azzim) ocorre somente aqui. que ocorre somente aqui. Duas expressões descrevem esta brutalidade. “amarrar”. embora se assemelhe a gé’ôn ‘^uzzãm.'^' Apoiado no uso de mispãtim.6. formando uma longa fila em direção ao exílio.10 esta palavra descreve o tratamento de prisioneiros de guerra.Como sugerem os capítulos 19.13). sugerindo que as instituições religiosas haviam se desenvolvido para apoiar o poder de uma classe especial. estes crimes foram características especialmente dos líderes da comunidade que mantinham as vidas de pessoas comuns em suas mãos. para destacar que estas são instalações estranhas. não santificadas por Yahweh. isto é.8. A estranha vocalização de mèqadêsêhem pode representar uma distorção proposital de miqdêsêhem feita pelos massoretas. nenhuma pista ficará dos cultos pagãos abomináveis. esta é a predição mais explícita. neste exemplo. Além das abominações cúlticas ofensivas a Deus. os lugares de cultos pagãos.

“ser agitado.25-27) 25 "O terror™ está a caminho! Buscarão a paz. os sacerdotes não têm o que ensinar (tôrâ). e então passa às autoridades civis. .'*' O príncipe'*' se cobrirá de horror. Ao mesmo tempo a lista se divide em dois grupos de três. E então saberão que eu sou Yahweh. E rumor após rumor Exigirão'^’’ uma visão de um profeta. Começa com os líderes religiosos (sua própria classe). a segunda lista. 27 O rei entrará em sofrimento. A organização que Ezequiel faz destas classes de líderes reflete sua perspectiva quanto à comunidade teocrática. mas os falsos profetas não podem compartilhar visões {hãzôn) de esperança. d.'*'^ A instrução do sacerdote sumirá. aqueles que governam.'““ Sua significação é bem colocada pela Vulgata. os anciãos não são capazes de dar um conselho. sacudir”. angústia. E as mãos dos cidadãos serão paralisadas. Os efeitos políticos do dia de Yahweh (7. o primeiro grupo está falido. Somente as duas últimas palavras requerem um comentário.264 O L IV R C ) D E Ezn. E também o conselho dos anciãos. 26 Desastre virá após desastre.sua conduta.l. O profeta verdadeiro visualiza buscas frenéticas por paz. nas quais o povo experimenta o desastre e as histórias de horror que não têm fim.'“*Diante de tais condições amedrontadoras. mas será em vão. o rei está em sofi'imento. Lidarei com eles de acordo'*^ com . a primeira identificando o grupo de conselheiros.'“* Na visão de Ezequiel. “porco-espinho”. A palavra introdutória terror (qèpãdã) é um substantivo hapax da mesma raiz que qippõd. e o último grupo desmoralizado. E os julgarei com base em seus julgamentos. e os cidadãos livres da terra estão paralisados. e a Siríaca rwgz’. de rgz. “ansiedade”. ” Os três anúncios de alarme de destruição para a terra de Israel têm o seu clímax com um retomo ao estilo destacado de entrega da mensagem. os príncipes (nõsT’) estão vestidos de horror.QUIF. Ezequiel destaca a desesperança da situação ao descrever o colapso completo das bases tradicionais da segurança na sociedade israelita. não haverá sossego.

mas também em 22. reli­ giosas e políticas.6. no entanto. O objetivo de Yahweh não é somente punitivo.14. a perda da visão de Deus e o senso de temor e maravilha de sua graça inevitavelmente leva ao cinismo e à independência. Quando a sociedade esquece suas raízes teológicas. 46. 8-9). possivelmente aqueles que apoiavam a casa davídica. 6. sendo listado aqui entre o rei (melek) e o povo da terra. Primeiramente. quando n õ ií’é justaposto com o povo da terra. e anciãos” no versículo anterior. mas também o colap­ so de toda a ordem social da nação: suas estruturas econômicas.6. não somente aqui. A citação de cidadãos (‘^am-hã’ãres. com batidas corajosas e veementes.16. O comportamento deles terá más repercussões. Onde as mensagens anteriores haviam descrito a desolação e o achatamento da própria terra (5. o mal brota e . No entanto.26-28 e com frequência em Jeremias. Ezequiel 7 acrescenta várias dimensões novas ao entendimento dos leitores quanto aos caminhos de Deus e a natureza do ser humano.7 . lit. Nos capítulos 40 a 48 ‘^am-hã’ã res funciona como uma designação mais ampla para a comunidade cúltica. anunciou não somente a desolação do território. 22. a expressão geralmente se refere ao rei (45.2 5 -2 7 O s EFEITOS p o l ít ic o s IX ) D IA DE Y ahw eh 265 A palavra príncipe (nãsi') apresenta um problema difícil. sugere uma classe especial de pessoas: proprietários de terras e aqueles com influência política.2-3. príncipe(s) e povo da terra”. embora este oráculo tenha começado com uma mensagem para a terra de Israel.'“’ Mas Ezequiel não é consistente quanto ao uso que faz da expressão.14).'“®Este uso não monárquico do termo ocorre em outra parte somente em Ezequiel 22. o título provavelmente serve como um coletivo para um grupo intermediário de nobres. a tríade correspondente é: “profeta. Em outros pontos de Ezequiel. sacerdote. ♦ Implicações teológicas Além de reforçar vários temas desenvolvidos nos capítulos anteriores. também deseja que seu próprio povo reconheça novamente a sua pessoa e sua presença na experiência deles.'“’ De acordo com a tríade “rei. “povo da terra”) com outras classes de líderes.'’® O próprio oráculo conclui com um lembrete fmal amedrontador que a conduta do próprio povo será a base do julgamento de Yahweh.

e ainda dizeis: Em que o enfadamos? Nisto. e desses é que ele se agrada. floresce: arrogância. todas as coisas permanecem como desde o princípio da criação” (2Pe 3.. a transformação dos bons dons de Deus em objetos e costumes vergonhosos. é perfeitamente consistente com os padrões declarados de justiça. Malaquias mostraria isto de novo: “Enfadais Yahweh com vossas palavras. a violência. nem morreu com ele. Até mesmo aqueles que afirmam ser seu povo estão constantemente enfrentando duas tentações: (a) a de entender que Deus deixa de olhar para o pecado e que é obrigado a nos visitar com seu favor.266 O L IV R O D E E z e q u ie i. conforme a insistência pelas ofensas que têm sido cometidas. que de qualquer modo terá a última palavra na história humana. Se alguém segue num curso abominável deve saber que Deus.7). Em terceiro lugar. Aqueles que praticam o mal trazem ruínas sobre si mesmos. No entanto. Uma sociedade não pode violar a vontade moral e espiritual de Deus com im punidade e esperar escapar das consequências de seus comportamentos.3-4). o abuso do poder. Esse problema não era novo na época de Ezequiel. e (b) a de desconsiderar a intervenção do Senhor nos assuntos humanos num evento escatológico distante. a . Em segundo lugar. nos últimos dias. Mais de um século depois. aqueles que plantam o vento colherão tempestade (Os 8. e o vergonhoso desrespeito pela vida humana. em última análise. a eliminação do transcendente e gracioso Deus em troca de imagens que não são nada além de projeções das vãs imaginações humanas. ou: Onde está o Deus do juízo?” Séculos mais tarde. Pedro fez uma previsão dizendo que esta atitude cínica continuaria até o começo do dia escatológico: “ . Em uma sociedade deste tipo o reavivamento deve começar com a renovação da visào e a exaltação do Deus vivo.. Afinal de contas. nem caprichosa. o chamará à responsabilidade e lançará sobre ele os prêmios devidos por suas ações. desde que os pais dormiram. virão escarnecedores com os seus escámios. andando segundo as próprias paixões e dizendo: Onde está a promessa da sua vinda? Porque. que pensais: Qualquer que faça o mal passa por bom aos olhos de Yahweh. a punição pelo pecado humano não é nem arbitrária. a aparente demora da visitação do Senhor não é uma causa para a complacência ou indiferença para com o mal.

e os recursos encontrados nas instituições humanas são anulados. Hc 1-2). Ainda que o fato de usar uma população mais ímpia para punir uma menos ímpia possa criar problemas teológicos para as mentes mortais. em última análise.2 5 P r e v e n ix ) a p a r t id a de Y ahw kh 267 perspectiva de Deus quanto ao tempo difere do nosso conceito mortal de tempo. Sob seu julgamento a riqueza do rico se toma em lixo. A distinção entre o escatom e o presente é falsa. e seu tratamento duro é estimulado. embora nào seja agradecido. instrumentos ímpios e vergonhosos podem ser chamados como agentes da disciplina divina.1 -4) e uma conclusão correspondente (11.1 .22-25).1 a 11. e aqueles que procuram shalom em seus líderes são decepcionados. PREVENDO A PARTIDA DE YAHWEH (8. Deus é capaz de lançar o mal que cometem sobre eles em um momento. por um desejo de aproximar seu povo de volta para si mesmo. os agentes de Deus não são limitados àqueles que 0 reconhecem como patrono divino. Em quinto lugar.1-11.25 fossem tratados como uma única composição. a futilidade da idolatria é exposta. Mas não é que ele se alegra em punir seu povo. Ao contrário. o Senhor tem como acabar com todo o apoio no qual podemos depositar nossa segurança. As fronteiras desta unidade literária são colocadas por uma introdução formal (8.8 . D. O alivio não pode ser comprado. diante de uma rebelião persistente de seu próprio povo. Em quarto lugar. Todos os que praticam o mal estão diante do perigo do julgamento de Deus . No entanto. exerce total autoridade sobre a mais terrível das nações e as usa como instmmento de ira sobre seu povo.agora. é uma atitude consistente com a soberania de Deus acima de tudo (cf. Ele defende o relacionamento pactuai com seu povo.1 1 . e quando o faz. nada os livrará.' Os temas principais parecem ter sido deliberadamente organizados numa ordem quiástica artística: .25) ♦ Natureza e desígnio O editor das profecias de Ezequiel evidentemente queria que os capítulos 8. a liberdade nào pode vir de deuses falsos.

Em quarto lugar. não somente o capítulo 11.1-6 impõe sobre a liderança política (sãrê hã‘^ãm) os crimes sociais.1 tem o profeta levantado e transportado pelo Espírito. 8. Em segundo lugar.1-22. Em terceiro lugar.14. (3) o julgamento infligido sobre Jerusalém (9. (2) as abominações sendo perpetuadas no templo (8.14 a 21 é construído como um oráculo de uma luta separada. Ib 8. 11.25 O contexto da visão (data.11).3.3 e 7 parece que toda a população de Jerusalém fora destruída. Ainda mais impressionante.22-23 C ’. 8.1-13 contradiz a visão em alguns aspectos significativos: (a) do capítulo 9. no entanto.1 a 8.7-11 e 10. 11. enquanto em 8. audiência) O começo da visão (a divina mão sobre ele. também parece totalmente inconsciente á narrativa da visão.1-2.14-21.1 -13 e 11.24b A’. Em primeiro lugar.24a B’. D.5-18).3 8. aparentemente incorporando várias experiências proféticas distintas. 9.”.^ De fato. Sinais de disjunção são evidentes até mesmo para o leitor distraído. são as inserções fora de tempo de uma narrativa de luta em um oráculo de salvação em 11. (b) enquanto a narrativa da visâo está preocupada principalmente com as ofensas cúlticas cometidas por 70 anciões (zëqénîm. No entanto. particularmente a narrativa de visões de ocorrências que acontecem lá em Jerusalém. respectivamente.22-23).4 D’. 4-11).1 e 13 destacam ao menos 26 preeminentes homens que sobreviveram. C..16 os movimentos de Ezequiel dentro do complexo do templo são descritos por meio de uma fórmula de orientação visionária wayyãbê’ ’õtí ’e l . 11.7.8. B.. 11. 11. os versículos 11. localização. .IV R O D E E z e o u i e i . A. “e ele me trouxe.. o capítulo 11. 11. 10. os capítulos de 8 a 11 são dominados pela narrativa.268 O I. com respeito ao gênero. 11. ele viu) O transporte até Jerusalém em visões divinas A aparência da glória divina (kãbôd ’êlõhêyisrâ’èl) A aparência da glória divina (/cebôd’ëiôhêyisrâ’ëi) O transporte de Jerusalém em visões divinas O fim da visão A resposta à visão (libertação dos exilados) O material entre essas duas fronteiras é obviamente composto.. com base no conteúdo e no estilo pode-se identificar três eventos visionários: ( 1) a glória perdida (8.

3. .2 5 P r e v e n d o A PARTIDA DE Y ahw eh 269 Os comentaristas geralmente atribuem essas características a uma série de modificações na redação. e não com seus amigos de exílio. e sua inserção aqui é editorial. 11. Até mesmo o material oracular encontrado no capítulo 11 é integral da visão.8 . no dado momento o evento ainda não havia acontecido.12.22-23). são geralmente ultrapassados. A menos que tenha na verdade executado parte de seu ministério profético em Judá.1 . pela qual o profeta exílico aprende sobre as abominações que ocorreram lá na terra de Jerusalém. Em visões proféticas os princípios da lógica e da cronologia. Para ter certeza. portanto este material descreve a experiência do profeta com o povo de Jerusalém. Racionalizaram duas vezes seu comportamento apóstata de terem dito “Yahweh não nos vê. uma consciência que pode implicar conhecimento visionário. a unidade como um todo é produzida com uma única experiência visionária. 10. Em quarto lugar. esta interação teria sido somente em forma visionária. algumas das quais são posteriores ao profeta em muitos anos. a glória de Deus saindo de Jerusalém. há ampla evidência de costura literária entre seguimentos justapostos. como indiquei no comentário.^ No entanto. A experiência profética descrita no material oracular do capítulo 11 pode bem ter ocorrido independentemente do evento visionário restante. 18-19. os perpetuadores das abominações no templo anunciam o tema principal.9). O estágio para este evento é determinado no princípio pela aparição da glória no templo (8.4. confinnando a intenção editorial de tratar as partes respectivas como intrincadamente ligadas.“ Em primeiro lugar. as evidências da correção literária não deveriam ser desprezadas tão prontamente. toma-se uma profecia que se autocumpre quanto à glória de Deus indo embora em estágios (cf 9. Em terceiro lugar. no entanto. Yahweh abandonou sua terra” (8. que governam a vida real.4).1 1 . as aparentes inconsistências de detalhes não são tão sérias quanto parecem.1-21 compartilha com o mesmo ambiente literário enfocando a disposição espiritual da população deixada para trás em Jerusalém. 9. Ironicamente. Em segundo lugar. Em quinto lugar todo o texto é dominado por um único tema. Apesar disto. O capítulo 11. a jornada de quatro estágios feita pelo profeta ao templo em 8. Mas esta decisão editorial não foi ilógica.5-18 é respondida pelo movimento quádruplo da glória de Yahweh enquanto abre caminho no meio da cidade.

1-11. . as cargas que costumáveis levar são canseira para as bestas já cansadas. eles mesmos entram em cativeiro (Is 46. não podem salvar a carga.1-2). Num satírico ataque quanto à impotência dos deuses da Babilônia. Esses deuses juntamente se abaixam e se encurvam. os ídolos são postos sobre os animais. Talvez a proveniência mesopotâmica de seu ministério tenha um papel neste desenvolvimento.25 elimina o envolvimento pessoal de Ezequiel nas experiências proféticas descritas. Quer o profeta tenha ou não produzido a organização atual. Em Jeremias 48. estás no meio de nós. a maneira que esta série de cenas é ajuntada reflete o extremo respeito do editor(s) quanto aos documentos proféticos de onde são retirados. ou como um viajante {’õrêah) que armou sua tenda para a noite?” De acordo com o versículo anterior a crise havia sido precipitada pelas iniquidades do povo C^ãwõnim). Qbservamos uma recusa em se suavizar inconsistências ou remover fórmulas infelizes (11.270 O L IV R O D E E z e q u i e l ainda que não explicitamente expressado aqui. Nebo se abaixa. sobre as bestas. o contemporâneo de Ezequiel oferece uma descrição semelhante da deidade principal dos moabitas: “Quemos sairá para o cativeiro com os seus sacerdotes e os seus príncipes juntamente”. ó Yahweh.* Ezequiel não foi o primeiro profeta a falar de uma deidade abandonando seus adoradores ou sua cidade cúltica. Além do mais. nada sobre qualquer das subunidades de 8.’ sua partida ou abandono da terra de Israel foi raramente considerada.8: “Por que você é como um estranho (gér) na terra.14) simplesmente por razões estéticas.7. o versículo 9 reflete uma ênfase hebraica mais comum: “Mesmo assim.* Conquanto a noção de Yahweh abandonando seu povo fosse também bem conhecida do pensamento israelita. e somos chamados pelo seu nome. sua apostasia (mésübõt) e pecado {hãtã'). não nos abandone!” É deixado para Ezequiel desenvolver o tema da partida de Yahweh do templo e da cidade de maneira mais completa. Apesar disso. A possibilidade de ser contemplada é sugerida por Jeremias 14. Isaías declara: Bei se encurva.

2 5 P r f VENDO A PARTIDA DE Y ahw eh 271 Na literatura da Babilônia. Uma norma militar-política do Antigo Oriente Próximo fundamentava a noção relacionada à destruição de imagens divinas.8 . M.’ O tema continua em muitos textos acadianos. Histórias de deuses abandonando seus templos datam da época da antiga Suméria. Cogan estabeleceu que: 0 saque [neoassírio] de imagens divinas tinha como propósito mostrar que os inimigos foram abandonados por seus próprios deuses em submissão a um poder de um deus superior da Assíria. (4) Onde o assunto é levantado. Jerusalém e o remanescente de Israel que ainda vivia." Este rei neoassírio associa a ira de Marduque para com sua cidade com “forças malignas” que apareceram na Babilônia e expressadas em todos os tipos de crime social e cúltico. (3) A ira divina foi produzida pela impiedade dos adoradores da deidade. Os efeitos da partida de Marduque e todos os outros deuses foram catastróficos. quer de maneira cúltica quer por meio da perversão moral.'® A narrativa de Esarhaddon quanto à reconstrução da Babilônia. o tema do abandono divino era algo comum. Ashur. O texto continua a descrever a mudança eventual no coração de Marduque e seu retomo à cidade. terra e povo.* Narrativas literárias do abandono divino descrevem estes eventos de uma perspectiva teológica. (1) Assumem um relacionamento simbiótico entre deidade. ou fugiu como exilado procurando desesperadamente algum lugar para se esconder.1 1 . deuses estrangeiros não eram tratados como cativos. um texto datado dentro de um século do ministério de Ezequiel. mostram várias ligações com a narrativa de Ezequiel quanto à partida de Yahweh nos capítulos 8 a 11. (2) Atribuem o abandono divino diretamente à ira dos deuses. especialmente a narração acadiana mais completa. A Babilônia foi reduzida a um deserto. Portanto. mas eles eram mantidos. em alguns momentos. análogo à associação de Yahweh. a partida de Deus sinaliza a oportunidade para exércitos . e a população que sobreviveu foi tomada cativa pelos inimigos.'^ Os textos extrabíblicos. Com base na evidência de endereçamento neoassíria. oferece a mais completa narrativa de tal atividade divina. por perto de suas casas peio tempo necessário para a Assíria ter garantias quanto à lealdade dos derrotados. nem apresentados em templos assírios como troféus.1 .

PREÂMBULO DA VISÃO DO PRIMEIRO TEMPLO (8. esta visão deve ter interrompido a segunda fase daquele sinal-ato.^’ O quinto dia.^' aquele que dá frente para o norte. no nosso calendário. do sexto mês (Elul).^^ 4 Olhei^^ e a glória do Deus de IsraeP* estava ali. estabelece o contexto histórico da experiência profética. se entendermos que os sinais-atos do capítulo 4 ocorreram quase que imediatamente após Ezequiel ser chamado ao ofício profético.^* Ainda que nenhum evento histórico que poderia ter estimulado esta visão seja conhecido. os exilados. do sexto ano. e que o período de 390 dias que se deitou do lado esquerdo e 40 dias do lado direito ocorreu sucessivamente..C. de repente a mão do S enhor Yahweh caiu'^ sobre mim. a expressão da ira divina.^’ quando ocorre.1-4) 8. Então. Para aquela audiência do profeta. Esta cronologia .1 "No quinto dia. a exposição do pecado do povo.'^ enquanto eu estava sentado em minha casa com os anciões de Judá em minha frente. e finalmente o abandono de Yahweh de sua residência e de sua cidade soava-lhes familiar. o Espírito me levantou no an° e me levou em visões a Jerusalém. à entrada do portão do pátio de dentro. Primeira. Ezequiel já tinha tido 14 meses para refletir sobre sua visão inaugural (1. Poderiam até ter se divertido pela adaptação de Ezequiel de um tema popular (33. assim como a aparição que havia visto no vale! " 1 A narrativa da primeira visão do templo de Ezequiel abre formalmente com um preâmbulo que serve para três funções. O tempo da visão é identificado precisamente por meio da formação de uma data estereotipada.272 O LIVRO DE E z e o u ie l estrangeiros invadirem e destruírem a cidade. onde estava colocada a imagem da estátua dos ciúmes. ali.1). ” e da cintura para cima refletia'^ como resplendor de um metal brilhante.30-33). que calculado refere-se ao dia 18 de setembro de 592 a. No entanto. 2 Percebi uma figura semelhante a um homem!'^ De sua cintura para baixo parecia estar nofogo. do sexto mês. Mas o profeta está falando muito sério.''’ 3 Estendeu o que parecia ser a mão e me agarrou por um punhado (de cabelo) de minha cabeça. 1. do sexto ano do exílio de Joaquim.

poderia ter recebido visitantes em sua casa.30-31). no entanto. De qualquer modo. Ao contrário. parecia que não tinham qualquer autoridade formal sobre os exilados. a audiência imediata do profeta se torna totalmente irrelevante. que em troca precipitaram esta visão. embora esta situação fosse mudar em breve (cf Ez 33. um ano após ter sido chamado. os exilados com certeza queriam saber de que lado do debate os profetas se colocavam (cf Jr 28-29). Confirma que o confínamento descrito no capítulo 3 foi mais que um confmamento simbólico ou visionário.8 . talvez confirmando as predições de Ananias e outros falsos profetas de Jerusalém que estavam anunciando um fim iminente do exílio. em sua postura.1-3 e 20. embora 14. em sua consciência quanto . mais tarde referidos como rã’sê hã’ãbôt. nesta ocasião a palavra não demorou para vir. como sugeri. mas se Ezequiel não esteve imobilizado todo o tempo. O versículo 1 também identifica a ocasião desta visão: enquanto eu estava sentado em minha casa. isto não significa que suas experiências proféticas eram meramente assuntos particulares. a visão atual foi precipitada pela presença dos anciãos diante dele. o povo parece estar levando Ezequiel a sério. Se o objetivo deles era receber uma palavra de Yahweh.^" A razão pela presença deles na casa de Ezequiel não é dada.1 -4 P reâm bu lo D A VISÃO DO PRIMEIRO T K M P U ) 273 parece problemática em princípio. Será que os anciãos estavam cientes que o profeta estava experimentando visões? Se sim. com o ancião de Judá (ziqnê yèhúdã) sentado à minha frente}^ A existência e o status deste grupo foram baseados nas estruturas sociais judaicas pré-exílicas. Essa cena na casa de Ezequiel permite que o leitor tire várias conclusões quanto à natureza do ministério profético de Ezequiel. Como as palavras dessas profecias e das profecias de Jeremias chegavam até a Babilônia.1 sugiram que vinham repetidas vezes para procurar uma palavra de Yahweh. Uma vez que esta cena de abertura foi apresentada. No entanto. deixando um vácuo na liderança preenchido pelos cabeças de clãs. “cabeças dos pais”.” Embora o rei Joaquim e seus oficiais estivessem também na Babilônia. e demonstra também que ele não era um orador público que se dirigia às massas como os outros profetas. como a experiência se manifesta em si mesma na expressão facial do profeta. Sem dúvida teriam esperado por uma palavra positiva com respeito ao destino deles. Mas isto levanta uma série de outras questões.

desde a Babilônia até Jerusalém. esta experiência é apresentada como uma jomada espiritual. do versículo 3. embora a ordem esteja invertida. A descrição desta pessoa lembra a narração da última fase da visão inaugural ( 1. Se o rúah de fato transportou Ezequiel. da mesma maneira. e Eliseu. como no 3.17. 6. .a mão do Senhor Yahweh caiu sobre mim. toca nele. obviamente não tem um propósito diante da mensagem que precisa ser ouvida. então a palavra poderia ser traduzida como “vento”. A mudança da forma convencional. para uma forma mais forte w attippõl ‘^ãlay y a d ’ã d õ n ã y y h w h . nem a transportação fisica de Elias. aqui se torna um participante ativo. primeiramente.26-28).^' O significado completo se toma aparente no versículo de número 3.14. seu envolvimento sendo descrito por três ângulos.” O profeta deve ter feito imediatamente a conexão entre as duas aparições. É descrita.1-12.” (2) um rúah o agarra. No entanto. 3 Finalmente.26. a referência da cintura para cima e da cintura para baixo. w a ttë h î ‘^ãlay y a d ’ã d õ n ã y y h w h . (1) a forma {tabnít) de mão emerge da figura de fogo.^^ Com a descida da mão divina sobre Ezequiel.274 O ii v R o D E E z e q u i e l ao mundo real ao seu redor? Como os visitantes reagem ao que estão testemunhando? Ainda que o leitor moderno possa estar interessado nas respostas a estas perguntas. Ezequiel é o único entre os profetas clássicos de Israel. Os profetas que se aproximam de sua experiência são Elias. 2 Esta experiência é também descrita como um evento visionário: percebi. Nesta experiência. em que o profeta havia permanecido como um espectador passivo até o final. Uma segunda função do preâmbulo é identificar a natureza da experiência profética atual de Ezequiel. incerto: a preeminência de termos para o brilho. “e a mão do S e n h o r Yahweh caiu sobre mim”. que possuía impressionantes poderes extrassensoriais (2Rs 5. talvez preparatória para a mão da parte de cima do corpo. 1618). O tenno é ambíguo. “e a mão do S e n h o r Yahweh veio sobre mim”. destaca a natureza repentina e intensa da intervenção de Deus na consciência do profeta. e agarra um tufo de seu cabelo. O vocabulário é. nem a atividade psíquica de Eliseu se comparam com a experiência de Ezequiel.” há centenas de quilômetros. 32-33).12. Um contraste com a visão inaugural. que foi carregado pelo Espírito ( 1Rs 18. em termos de um ataque emocional divino . uma figura humanoide luminosa aparece. 2Rs 2.

o interior e o exterior.8 . No Antigo Testamento esta divindade é geralmente identificada com Astarte e adorada como a deusa da fertilidade com Baal.7. 23. “estátua”. Se os visitantes do profeta de fato testemunharam a levitação. (c f 2Rs 21. “uma forma esculpida de Asherah”. Seu significado pode ser determinado ao referir-se às únicas duas referências da palavra no Antigo Testamento. onde é colocado dentro do templo. denota o caminho através da parede interior pelo qual dá acesso ao pátio ao redor da constmção do templo.1 . só podemos especular.7 se refere a pesei h a ’âsërâ. bn ’trt. o portão do átrio de dentro.5. o deus da tempestade (2Rs 23.4 P re â m b u lo D A V IS Ã O D O p r i m e i r o TEMPLO 275 No entanto. Assim como o templo que o profeta verá nos capítulos 40 a 48.12). provavelmente porque o grande altar do sacrifício era visível por este portão. No versículo 5 o portão em questão é identificado como o portão do altar (sa‘^ar h a m m izb êa h ). inclusive Baal. Em Deuteronômio 4.. que em 2Reis 21. A primeira é uma sem el. Ezequiel se vê no norte. Na religião cananita Asherah era consorte de El. desde que rúah parece ter feito que meramente levitasse entre o céu e a terra. Em 2Crônicas 33.^’ e a mãe de 70 deuses menores. de fora do pátio.16 a frase pesei të m û n a t kol-sãm el.3. pois a figura Asherah de Manassés é relatada como tendo sido destmída 30 anos antes durante a reforma . Especificamente. deve ser interpretado como o Espírito divino.C. localizada na entrada do portão. “o portão do átrio interior”. “filhos de Asherah” . duas visões tomam sua atenção. uma imagem abominável de Manassés.” No entanto. “a forma esculpida de qualquer sem el". nas quais Yahweh e Asherah aparecem na mesma introdução. a. refere-se às imagens físicas de uma deidade que desvalorizam a devoção exclusiva requerida dos israelitas a Yahweh. p e ta h sa ^a r h a p p ë n îm ît. esta interpretação é improvável. Este átrio {hãsèr h a p p ë n îm ît) aparecerá novamente nos versículos 16 e em 10. o templo salomônico tinha dois átrios.^* A recente descoberta das inscrições do século 8°. (3) por meio de visões sobrenaturais é transportado pelo deserto da Arábia até Jerusalém. respectivamente. é identificada como pesei hassem el.4). 15. o maior dos deuses.^® Essa observação conduz à terceira função do preâmbulo: fomece um ambiente para se interpretar os eventos visionários seguintes. tem levado alguns a interpretar esta imagem como uma representação de um consorte de Yahweh. 5. Quando Ezequiel chega. “a forma esculpida da estátua”.

Figuras semelhantes poderiam ter sido reintroduzidas enquanto isto. 11.276 O I.6). “o zelo que provoca ciúmes”). pela emoção que a escultura evoca em Yahweh. identificada como a glória do Deus de Israel (kébôd ‘êlõhê y is rã ’êl).“*®A luz do versículo 10 parece mais provável que o uso que Ezequiel faz de semel é baseado em Deuteronômio 4. sugere tanto uma imagem esculpida sentada em um trono. É provável que este objeto de culto seja designado pelo que provavelmente seja um termo estrangeiro.“' Essa imagem é descrita com mais detalhes como um a imagem dos ciúm es (haqqirCâ h a m m a q n e h . esta afirmação é baseada entre outras considerações no caráter de Yahweh como ’êl q a n n ã ’. De acordo com Deuteronômio 4.28. introduzir outras deidades constitui uma violação do espaço sagrado. de Josias (2Rs 23. este templo é sua residência exclusiva. que está entronizado acima dos querubins dentro do templo. A frase foi deliberadamente escolhida referindo-se ao acordo pactuai de Yahweh e Israel e o absoluto interesse que tem na devoção deles. O reaparecimento da glória divina nesse momento e sua atividade nos episódios seguintes enfatizam o significado da visão inaugural além de sobrecarregar Ezequiel com uma amostra impressionante do esplendor divino.“^ O hapax m ôsab. Yahweh é o patrono divino da nação. O profeta (e o leitor) logo descobrirá o significado ameaçador . “Deus zeloso”. a forma destaca a ameaça espiritual representada por essa imagem pagã e todas as abominações descritas nas cenas seguintes. E z f o u i e i .““ 4 Essa estátua esculpida apresenta um contraste patético com a segunda visão que chama a atenção dos olhos do profeta: a glória divina. uma referência enfática à paixão que o objeto provocava no coração de Yahweh.16.22-23). que significa “assento”. c f 10. quanto simplesmente uma figura sentada. Além do mais.18-19. Israel não tem negócios prostituindo-se com outros deuses. que proíbe todas as formas de idolatria (inclusive imagens semeí).15-24. mas falta evidência de um protótipo como o de Asherah para essa estátua que Ezequiel vê.“^ Posicionado do lado interior do pátio depois do portão. É claramente idólatra e propõe um desafio direto a Yahweh. uma estátua indecente guarda a entrada para o santuário interior. lit. é claro que essa imagem simplesmente não é um ornamento ou um guarda simbólico do templo. Enquanto esta designação pode ser usada de forma intercambiável com kèbôd y h w h . No entanto. “a glória de Yahweh” (1.1 V R 0 DF.

O texto é dividido claramente em quatro partes delimitadas: Cena Cena Cena Cena I: II: III: IV: A estátua indecente As imagens e os incensários Mulheres chorando Tammuz O culto aos astros 8. Numa perspectiva literária. e como a indecência vista pode possivelmente ser ultrapassada por outros atos. 5. não é sem uma causa. O povo de Jerusalém não era somente culpado de ambos os crimes.5-18 forma uma das unidades literárias mais unidas de todo o livro. incentivando o profeta a fazer uma observação cuidadosa em interpretar o que está sendo visto.O 277 de sua primeira experiência profética. o interesse do leitor na narrativa é sustentado por uma combinação do diálogo e do movimento.5-6 8.5-18) ♦ Natureza e desígnio Ezequiel 8.16-18 Cada cena é apresentada num padrão estereotipado. Ao trai-lo.14-15 8.1-20. nosso guia divino nos mantém curiosos quanto ao que encontraremos na sala seguinte. Nesta narrativa. Assim como o próprio profeta. Ao passo que a jornada acontece. Dt 4. Violaram o princípio fundamental do relacionamento do pacto e o seu corolário: “não terás outros deuses diante de mim”. contendo os seguintes elementos: .17). ele destaca os lugares mais importantes.7-13 8. No fmal. havia audaciosamente perpetuado tudo aquilo debaixo de seu nariz (c f 8.5 -1 8 A s ABOM INAÇÕES NO FKMPl.“* 2.3-6. Yahweh se apresenta como um guia turístico conduzindo Ezequiel pelo complexo do templo. As quatro cenas fornecem uma visitação visual da evidência que justifica a resposta radical de Yahweh diante da infidelidade de Israel.7-12). No processo Yahweh está desenvolvendo seu caso contra Israel. e “não farás imagens de escultura para adorares e ser\'ires” (Êx 20.8 . AS ABOMINAÇÕES NO TEMPLO (8. que ocorrerá mais de um ano depois. Ele mantém a curíosidade de Ezequiel ao anunciar de antemão que abominações ainda piores viriam. o povo inflamou seu zelo. Ezequiel ao menos saberá que se Yahweh abandonar seu povo.

9. Ainda que não seja identificado pelo nome. em que o santuário é identificado como miqdãsí. A segunda cena é particular­ mente complexa.11. seguidas por avisos do cumprimento do profeta em relação àquelas ordens. nesta sequência de cenas apresenta a perspectiva do próprio Yahweh diante das abominações perpetuadas em Jerusalém. uma descrição da visão observada“ e. Quem quer que fosse 0 guia. um anúncio da percepção do profeta com hinnéh^ d. A terceira é muito simples. cuja glória o profeta havia acabado de perceber. “meu lugar santo” e o versículo 17 em que a provocação é contra “mim” (lëh a k‘^îsënî)'. A primeira delas é miqdãsí. 14) e “aqui” (vs.” introduzida com a expressão “e ele me disse”* f uma afirmação dos significados provocativos das ações* g. várias características o identificam com Yahweh: ( 1 )0 uso da primeira pessoa. O último versículo do capí­ tulo funciona como uma conclusão ao todo. A narrativa é elaborada deliberadamente para destacar a localização das abominações.* O guia turístico é uma figura misteriosa.. particularmente no versículo 6. e finalmente pelas referências repetidas ao próprio templo. . 17). 18). identificando as posições privilegiadas pelas quais o profeta observa cada cena ao observar o lugar exato onde os atos abomináveis são perpetuados por meio da repetição dos advérbios locativos “ali” (vs.. (2) o antecedente mais próximo de “ele me disse” apareceu no capítulo 8 versículo 5. a exclamação de Yahweh para com Ezequiel: “olhe. referindo-se ao Deus de Israel. 6. que contém uma fórmula ouvida anteriormente da boca de Yahweh (5.9). anunciando a determi­ nação irrevogável de Yahweh de não prestar atenção a qualquer pedido de misericórdia. A primeira e a segunda começam com ordens. (3) a conclusão (v. 7. Três diferentes expressões são usadas para se referir ao recinto sagrado. concentrando-se na própria atividade de Ezequiel ao passo que cava através de uma parede para conseguir entrar em uma sala escura. um aviso da nova jurisdiçãoc.278 O LIVRO DE E z e o u ie l a. um aviso sobre o transporte divino do profeta' b. um comentário de transição que abominações maiores ainda estão por vir’ As cenas não são perfeitamente simétricas.. 3-4.

do culto a objetos e rituais que contaminaram o espaço sagrado. Num oráculo anterior (5. b êt-y h w h .13. Jr 7. A ordem que estas três expressões ocorrem neste texto reflete o aumento no grau de santidade ao passo que se move de um perímetro para o centro do recinto sagrado: m iqdãs.4.16. e sua decisão de não deixar sentimentos interferirem com a sua decisão punitiva.9.'® Assim. 24.4). exceto pela referência ao templo na Babilônia de Esdras 5." No uso secular. este é um lugar sagrado separado para e por Yahweh. Em 1Reis 6-7 e 2Crônicas 3-4. Neste contexto. hêkãl sempre se refere ao palácio de Yahweh. “o palácio de Yahweh” (vs. O escopo do termo não é restrito ao santuário interior.14. 3. Como uma observação preliminar final. o Santo dos santos. A terceira expressão. hêkã l y h w h .4. o templo de Salomão (2Rs 18. b). 23. Ag 2.10. na fase final da visão (Ez 10. expressa a percepção comum do Oriente Próximo antigo quanto aos templos como residências terrenas das deidades.O 279 “meu santuário” (v. e hêkãl y h w h . 16a.1). mas hêkãl é usado mais especificamente quanto ao “lugar santo”. N o uso sagrado no Antigo Testamento. b ê t-y h w h .11. o termo hebraico foi usado principalmente quanto aos palácios r e a i s . a nave ou o rol principal. refere-se a todo o complexo do templo. havia especificamente anunciado sua determinação de se afastar. A segunda expressão. “o Santo dos santos”. a presença de imagens pagãs dentro do recinto significa uma invasão desagradável de seu lugar. “a casa de Yahweh” (vs.3). 14. e o templo pós-exílico (Ed 3. Como no capítulo 5.8 . que reflete a perspectiva divina. “exposição retomada”. 16). Aqui também h êkã l deve ser distinguido de dèbir ou qõdes qèdãstm . nem mesmo ao próprio prédio do templo. onde a arca da aliança ficava e onde o profeta pôde dar uma olhadela.11) Yahweh havia declarado rapidamente que por causa das profanações dos israelitas quanto ao seu santuário com suas idolatrias nojentas e as práticas abomináveis. “casa grande”. Como tal é usado para o tabemáculo em Siló (1 Sm 1.5-18 oferece um exemplo mais antigo do instrumento literário típico ezequieliano conhecido como Wiederaufnahme. relaciona-se ao sumeriano ê-gal. por intermédio do acadiano ek a llu . 6).18). não lhes mostraria misericórdia. Mas o assunto logo foi deixado . 24.5 -1 8 A s ABO M INAÇÕ ES NO TCM Pl.’ As ofensas cúlticas são tão abomináveis por causa das pessoas que não deveriam estar ali. verifica-se que 8. b a yit se refere ao prédio do templo como um todo.

aquele pelo qual um observador teria uma visão clara do altar do lado de fora do pátio.'^ ao norte do portão do altar. mas funcionam como um ambiente ao tema maior: a saída de Yahweh de seu templo. Assim. o olhar do profeta está fixado na imagem. e então olhei em direção ao norte. o u i e l de lado. traduzir o comentário de Yahweh (o guia?) aqui como uma questão é inútil. Mas o comentário é interpretado literalmente melhor.'’’ estava esta estátua de inveja bem na entrada!'^ 6 Ele me disse: “homem. sem maiores desenvolvimentos quanto à natureza das ofensas ou sobre a maneira da partida de Yahweh. 3). É claro que Ezequiel enxerga o que está olhando! Além do mais. Alguns têm percebido no uso de sãpôn. uma alusão a nações pagãs. as abominações do templo são apresentadas em detalhes impressionantes. olhe'^ em direção'* ao norte ”. “norte”. pois a mitologia cananita do monte Zafon era o lugar do palácio de Baal. as grandes abominações que a casa de IsraeP" está cometendo aqui. a. e ali. Respondendo à ordem do guia para olhar ao norte. Não há qualquer referência a ofensores humanos ou a qualquer ação idólatra. A atenção do profeta é simplesmente dirigida à figura estática esculpida guardando a entrada norte do pátio interior.11. talvez mesmo dentro do próprio portão (cf v.5-18 é “iniciar” a discussão ao dar ao profeta uma exposição visual do que falara em 5.“ 6 Apesar de um consenso quase universal. 5 O relatório da primeira cena nessa demonstração de iniquidade cúltica é relativamente simples. olhe'* para o que eles'^ estãofazendo. simplesmente ao refletir no fato do próprio profeta estar situado em algum lugar ao sul da imagem. Um dos propósitos de 8. O capítulo conclui com uma reformulação da decisão divina em derramar sua ira sobre Judá. Até mesmo isto é feito indiretamente. expulsando-me^' do meu santuário! Mas verás abominações ainda maiores ”. O apoio para esta interpretação é dado pela identificação posterior do portão como “o portão do altar”.5-6) 5 E então me disse: “homem.280 O L IV R O DF. uma pergunta neste momento levaria o leitor a antecipar (em vão) uma descrição . Cena I: a estátua indecente (8. E z f .

1 miqdãsi. 4). em fi-ente da imagem provocativa. o efeito desta atividade . .^cada um deles com um incensário^' na mão e o aroma da fumaça do incenso^^ subia. A afirmação é interpretada melhor como uma exclamação divina chamando a atenção do profeta para os procedimentos abomináveis no templo. assim como o tema dominante da visão do templo como um todo (i. Ou somente Yahweh é o Deus de Israel (cf v.e. e lá estava todo tipo de criaturas nojentas rastejando e bestas-'^ e todos os ídolos da casa de Israel esculpidos na parede por todo lugar!^ 11 Setenta homens. havia um buracoF^ 8 Ele me disse: "homem. o que os anciãos da casa de Israel estãofazendo no escuro.com Jaasanias. Cena II: as imagens e os incensários (8. ‘Yahweh não está nos vendoYahweh abandonou a terra'”. Quem está longe do “meu santuário?” Várias respostas a esta questão têm sido propostas: (1) uma referência física a um altar que havia sido levantado fora da área sagrada distante de Yahweh.8.^^ À luz dos versículos 12. a frase é entendida melhor como uma expressão da própria alienação de Yahweh para com seu santuário.. estavam parados em frente a eles . (3) uma alusão à alienação e ao exílio. Também serve ao propósito retórico de chamar a atenção ao aspecto principal.-* na parede. A ausência tanto do sujeito quanto do objeto causa uma ambiguidade na expressão lérohôqâ mê‘^a.9.aquilo alienou Yahweh de seu santuário. que se achava no meio deles .^ Então cavei através da parede: ali estava uma entrada! 9 Ele me disse: "Entre e observe as terríveis^’’ abominações que estão cometendo aqui 10 Então entrei e olhei. cave através da parede". b. Olhei. ou não é sequer seu Deus. "você ainda verá abominações maiores que estão cometendo ”. a saída de Yahweh do templo). 12 Ele me disse: "olhe.7-13) 1 Então me levou à entrada do pátio.^^ homem. e ali.7-13 C ena II: as im a g e n s e o s in c e n s á r io s 281 das atividades idólatras específicas. filho de Safan. representando os anciões da casa de Israel. 13 Então ele me disse. no entanto.^ cada um na carrel de sua imagem! Pois conciliem. A imagem apresenta um desafio direto à presença de Yahweh. 18 e 9. (2) uma referência ao povo como aqueles que mantêm distância do santuário. Mas isto não ocorre.

ou refletia um ritual miste­ rioso secreto.^’ Ou era necessário o escuro para o culto.IV R O D E E z e q u ie l O comentário fmal no versículo 6 prepara Ezequiel para visões ainda mais chocantes. Neste ponto.282 O I.^^ O termo zëqênîm se refere aos líderes leigos que haviam sido levantados a uma posição preeminente em Jemsalém depois da deportação de Joaquim e seus oficiais (2Rs 24. consegue contar setenta homens. Se estivessem tentando se safar com atividades reconhecidas como ofensivas a Deus.5). O número setenta.26) para o govemo da comunidade. (1) A localização das abominações. pois as atividades estão acontecendo no escuro. Neste contexto.16. mas havia sido transformada em um centro de culto. 12) para observar estas estranhas ativida­ des é impressionante. provavelmente incluindo os sãrím. “oficiais”. o número de anciãos parece ter sido determinado pelo número de imagens e não o contrário. O parágrafo abre com uma fórmula de orientação visionária. 9. o comentário seguinte sobre Yahweh nào enxergálos é tanto supérfluo quanto irônico. um grande grupo de oficiais . O segundo estágio de sua jornada é descrito em grandes detalhes e pode ser examinado ao isolarmos os elemen­ tos significativos.12-16). Ezequiel provavelmente estava horrorizado diante do que via. Nm 11. Estes homens eram obviamente importantes na cidade. a natureza visionária desta unidade inteira re­ move a necessidade de um realismo ou de uma consistência lógica. Por causa de sua formação. 24-25). observa um curioso buraco na parede. no entanto. Uma vez que os olhos de Ezequiel se tomam acostumados ao escuro do quarto. relembra o grupo que ajudara Moisés a govemar a nação durante a caminhada no deserto (Ex 24. Enquanto poderia estar confuso quanto a como cavar um buraco na parede ou por que não usaria a entrada já existente desta sala. Ez 7.^* O chamado que Yahweh dá a Ezequiel (v. A sala em questão pode ter sido originalmente projetada como um quarto para estocagem dos vasos ou móveis do templo ( I Rs 6. imediatamente. (2) Os participantes da atividade. o qual é instruído a aumentá-lo e através dele entrar numa sala escura.1. cuja primeira função era oferecer conselho C^ésâ. aberto somente a um grupo exclusivo de iniciados. de acordo com a qual Ezequiel é levado até a entrada do pátio interior. ou seja. que reconhece como representando os anciãos na casa de Israel.

Ezequiel distingue este homem de Jaasanias ben Azur do capítulo 11. Safan.^’ Esta situação tão irregular deve refletir grandes crises cívicas. sugerindo que Ezequiel já o conhecia antes de sua deportação no ano 597 a. não aparece no Antigo Testamento antes do fim do século 7® a. “Yahweh ouve”.8.C. Jaasanias é mais tarde identificado pelo patronímico: filho de Safan. versículo 1. e pode dizer respeito à inserção desta observação intrusiva estilística no versículo 11. e Gemarias. todos os quais são identificados como “filhos de Safan”: Aicão. era o secretário de Estado (hassèper. “escriba”). Seu envolvimento nestas atividades cúlticas abomináveis o distingue espiritualmente de seus irmãos. Durante o reino de Josias. a revelação de seu nome com o patronímico oferece evidência concreta da extensão da podridão espiritual em Jerusalém: havia alcançado os escalões superiores do governo civil. 18) envolve uma brincadeira intencional em relação ao nome. De acordo com o versículo 12. Ezequiel o reconhece imediatamente como Jaasanias. que deveria ser uma figura importante em Jerusalém. que eram simpáticos para com Jeremias. filho de Azalias. cada um dos setenta homens estava parado no vão de sua imagem . que por alguma razão havia sido deixado para trás na deportação de 597. Ele não é somente um homem qualquer em pé no meio dos setenta anciãos.“° Sua emergência e popularidade impressionantes durante os últimos anos críticos de Jerusalém provavelmente refletem um desejo geral ardente em Judá pelo ouvido divino. um assistente de Jeremias (Jr 26. a declaração final de Yahweh nesta jornada ao templo (v.3). pela mão de quem a carta de Jeremias foi enviada aos exilados na Babilônia (Jr 29. e além do mais o reconhece como um dos membros das famílias líderes de Jerusalém.C. (3) O foco das abominações.“*^ Este homem nobre parece ter sido o pai de ao menos três homens. provavelmente supervisionando as atividades cúlticas deles. como a observação parentética no versículo 11 indica.“^ Ao identificar Jaasanias como o filho de Safan.“" De fato. o reconhecido profeta de Yahweh. Mas os olhos do profeta param por alguns minutos numa pessoa.24). Se esta interpretação estiver correta.7-13 C kNA II: A-S IM A G E N S E os IN C E N S Á R IO S 283 civis usurpando prerrogativas sacerdotais ao se apossarem do lugar sagrado e de rituais cúlticos. O nome Jaasanias. que tentou prevenir Jeoaquim quanto a queimar o rolo profético de Jeremias. Elasa.

O uso que Ezequiel faz concorda com Levítico 26.” Ezequiel não explica porque esses homens estão queimando incenso a essas imagens. assim como os homens.284 O LIVRO DU E z e q u i k l {héhadrê maskxtô). A prática em si teve sua fundação na crença que a deidade. e havia fumaça que subia para ser inalada e apreciada pela imagem. figurativamente significa um tipo imaginável de estátua teomórfica. em incensários de mão.“* segurando um incensário em sua mão. Assim. “pelotas de excremento” (v. Os incensos eram queimados tanto nos altares de incensos.“’ a palavra é um hapax de derivação incerta.. 23.52. nas quais se vê homens em pé no alto de muros com os braços esticados em direção aos céus .“*“ O contexto atual visualiza cubículos separados nos quais cada um dos homens pratica seus rituais. mas também pelas referências ao incenso de Yahweh neste livro (16. “vapor. “coisa nojenta” e gillûlîm. Esta interpretação encontra apoio em várias pinturas egípcias em relevo que apresentam o cerco das cidades levantinas. maskít é uma expressão rara e sua etimologia é incerta.1 e Números 33.12-13 (em português. e para não correr quaisquer riscos estavam queimando incensos para todos os demônios. 10).41). esses anciãos da cidade podem ter tido uma premonição quanto ao desastre iminente. fumaça”. Embora algumas pessoas tenham relacionado a palavra traduzida por odor {'^ãtãr) com a siríaca ‘^etra. 16. cada uma com a própria função.47-48).’^ Uma dica quanto à atividade deles pode ser encontrada em Números 17. especificamente a uma câmara interior de um prédio. em que a palavra se refere às imagens proibidas dos cananitas.“**A caracterização que Ezequiel dá a esta visão com expressões do tipo seqes. para expulsar uma praga mortal. Cada um dos homens estava em pé em frente de sua criatura. agrada-se com cheiros. A cena atual parece envolver figuras idólatras esculpidas na parede ou criadas com azulejos decorados. expressa seu choque. Ainda que o número seja real. ou como em nosso caso.’®O lugar do incensário no culto de Yahweh é afirmado não somente pela presença de um altar de incenso dentro do tabemáculo e do templo. O termo heder se refere fundamentalmente a uma área interior que é escondida da visão exterior. de acordo com o que o incenso queimado tinha uma função apotropeica.“*’ O profeta observa que todo o perímetro da sala é tomado pelas setenta imagens. movendo-a de uma forma favorável em relação ao adorador.“*’ (4) A natureza das abominações.18. i.e.

e está desesperado pela ajuda divina de qualquer natureza.” Em tais casos.4. Embora as duas afirmações claramente reflitam a alienação dos anciãos em relação à deidade nacional. O que distingue Yahweh de todos os outros deuses é sua habilidade de ver (Dt 4. no entanto.4-8. Esses rituais abomináveis são. ou se a visão prediz calamidades vindouras. Na cabeça deles há um homem segurando um incensário. Ali era a residência de Yahweh. Ele os livrou de Senaqueribe. atividades não meramente frívolas de zombadores. portanto. E impossível determinar se os anciãos na cena em discussão estão reagindo a uma crise atual.8. e a adoção dessas imagens e práticas abomináveis. 135.** ou a crença que Yahweh está cego diante do que estão fazendo na sala escura. são atitudes de um povo que perdeu a fé no Deus do pacto. .*® A ironia da racionalização do povo quanto às suas açÕes é óbvia. No primeiro caso. mas é verdade quanto às imagens diante das quais estão em pé. o que os homens nessa sala escura estão dizendo sobre Yahweh é. havia evaporado. Certamente. e no segun­ do caso.12. o assento do seu trono eterno. a desatenção serve como um pretexto para buscarem ajuda em outros deuses no momento de crise. os poderes demoníacos a serem eliminados são identificados com o inimigo.** ambas são de alguma maneira.28. tanto mais firmemente o povo de Judá se agarrava à doutrina da inviolabilidade da cidade. de fato. e os livraria de Nabucodonosor. falso sobre ele. O comentário sobre Yahweh não ver pode refletir desespero por terem perdido o cuidado protetor dele.*“ (5) A racionalização das atividades.15-18.21). 7. no qual o incenso é queimado. Por uma razão desconhecida.13.*’ O segundo co­ mentário é igualmente sério em que atinge o coração do relaciona­ mento pactuai de Israel com Yahweh. ambíguas. Por um lado. a confiança anterior. oferece um pretexto para a audácia dos anciãos em entra­ rem em recintos sagrados e usurparem prerrogativas sacerdotais. na imutabilidade das promessas de Deus. não abandonaria sua terra agora! (c f Jr5.7-13 C ena II: AS IMAGENS E os INCENSÁRIOS 285 em oração. O comentário dos anciãos do versículo 12 obviamente representa o clímax do drama sendo re­ presentado diante de Ezequiel: Yahweh não nos vê! Yahweh aban­ donou a terra. 14. SI 115. que afirmam que Deus é distraído em relação às suas atividades. A pregação de Jeremias deixa a impressão de que quanto mais desesperada a crise política em Jerusalém.

mas se toma uma profecia autorrealizável. a afirmação que Yahweh abandonou sua terra é falsa.*^ Como resultado. A descrição desta cena é muito breve. Esta é a única referência de Tamuz no Antigo Testamento. e lá estavam as mulheres. a constmção especial de m ébakkôt ’e t-hattammúz. De acordo com List.C. no final do terceiro milênio a. sem interpretação ou comentário: as mulheres estão sentadas em frente ao pátio do templo lamentando Tamuz. O nome reaparece na lista. quando este documento foi produzido. com o sinal de objeto direto e o artigo sobre Tamuz sugere que “Tamuz” denota um gênero especial de lamento.286 O I. em vez de uma deidade. identificando um rei pós-diluviano de Umk (predecessor de Gilgamesh). Antes de tenninar esta visão o profeta testemunharia sua partida. A literatura se preocupa principalmente com a morte de Tamuz e o fato de ter saído em direção ao infemo. com a racionalização que fizeram. que reinou em Bad-tibira por 36 mil anos.12-20). os anciãos paganizados haviam justificado seus comportamentos e se tomaram porta-vozes do tema principal da visão como um todo. do qual se diz ter reinado por um século. Por conseguinte.*“ Se um ciclo anual comemorativo da . perde seu reinado terreno.“ Dumu-zi-Tamuz havia sido elevado à posição de deidade. E z e q u i e l is 44. c. mas já estava decidido.. o guia o leva ao portão norte do lado de dentro. rei sumeriano.14-15) 14 E então me levou até a entrada do portão norte da casa de Yahweh.IVRO DF.^’’ sentadas e chorando a Tamuz! 15 Ele me disse: “olhe. oferecendo-lhe uma visão com pleta da parte da frente do pátio do templo. homem!^ Você ainda verá abominações maiores que estas Para que Ezequiel pudesse observar claramente a descrição do número três. Ainda não havia abdicado seu trono em Jemsalém. e essa visão afirma que sua vista penetra o mais íntimo lugar do templo e os cantos mais escuros dos corações humanos.*' O determinativo divino diante dessas ocorrências do nome indica que. Tamuz (Dumu-zi) era um rei-pastor antediluviano. Por outro lado. um complexo mitológico foi desenvolvido ao redor deste deus. Cena III: as mulheres chorando a Tamuz (8. Embora a maioria das traduções traga chorando “por” Tamuz. e sua virilidade. seu papel como pastor. Na época sumeriana.

porque tudo isto é uma visão. no meio do verão (junho/julho). No entanto. homemP^ Será que as abominações que estão cometendo aqui são comuns para a casa de Judá. A cena se encerra com outro lembrete. entre o pórtico e o altar. que era celebrado em rituais. ou a convicção de que Yahweh os abandonara era um entendimento recente. Baal-Hadad e o deus grego Adonis. me levou ao átrio interior da casa de Yahweh. os lamentos de Tamuz aconteciam no mês que levava o nome do deus. a ponto . a mudança no tempo representa uma caricatura intencional do sincretismo religioso judaico. O fato de ser feito no templo concorda com a última evidência para o lamento de Adonis. Estavam prostrados'’'’ em direção ao leste'’' e olhando para o sol.*’ No entanto. d. é algo discutível. que pedia uma adaptação rápida de um costume estranho ao que estavam passando no momento. Isto quer dizer que ou o povo no templo entendeu mal a natureza e o significado do festival mesopotâmico. a visão de Ezequiel tem “o Tamuz” sendo lamentado no sexto mês. cada um deles de costas para o palácio de Yahweh. ou estavam expressando seu sofrimento pela partida de suas próprias deidades ao adaptar um ritual Tamuz (assim “à moda Tamuz”). parece que essas mulheres estavam comparando Yahweh com Tamuz.“ A única discrepância entre esta cena e o que é conhecido do ritual de lamento por Tamuz é o tempo. olhando para o leste. Cena IV: o culto aos astros (8.“ Porque esta cena se segue imediatamente após a afirmação que os anciãos de Yahweh abandonaram a terra. Ezequiel não oferece qualquer informação sobre o ritual Tamuz.16-18) 16 Então.8. e ali.^ na entrada do palácio de Yahweh. assim como a participação de mulheres. De qualquer modo. Na Mesopotâmia. e que ainda tem de testemunhar atividades ainda mais ofensivas. estavam aproximadamente vinte e cinco'^ homens. Correspondentes ocidentais a Tamuz são geralmente reconhecidos no deus cananita da tempestade. 17 Ele me disse: "olhe. Ezequiel observa o povo em Jerusalém substituindo a adoração vital do Deus vivo por lamentos pelos mortos. que a jomada de Ezequiel no templo não está acabada.16-18 C e n a IV : o c u l t o a o s a s t r o s 287 morte e ressurreição deste deus corresponde aos ciclos da agricultura.

que construiu altares para toda a hoste celestial nos pátios do templo. A primeira envolve expressões físicas de adoração ao Sol. denotando gestos físicos de prostração diante de um superior. Nenhum nome. é expressamente proibido em Deuteronômio 4. a última fase da jomada ao templo de Ezequiel pode ser analisada ao se observar elementos-chave: {\)A localização das atividades. O verbo histahàwâ.11 -12 pode-se também inferir que Josias demoliu cavalos e carmagens do Sol na entrada do templo.*“ O culto solar.*' Enquanto que nas cenas anteriores a imagem das ofensas cúlticas era seguida por avisos ao profeta para se preparar ou sobre abominações ainda maiores. informa ao . Ao virarem suas costas para o templo e suas faces para o Sol declararam a rejeição de Yahweh a favor do deus Sol.19 e 17. um gmpo que inclui um tal Jaasanias ben Azur e Pelatias ben Benaias. Meu olho não terá piedade. que são designados como sãrê hã‘^ãm.2-5. Com base em 2Reis 23. Os versículos 16 e 17 se referem a três tipos de atitude provocativa.” De acordo com 2Reis 21. todos constmídos por Manassés. agora Yahweh muda o assunto completamente. é dado. O impulso imediato de alguém é associar esses homens com os 25 que aparecem em 11. ainda que gritem em meus ouvidos com voz alta. A última fase da jomada coloca Ezequiel no átrio de dentro do templo (bêt-yhwh). nem pouparei. (2) Os participantes.^'' Assim como a segunda cena.5 parece ter ganhado apoio real durante o reinado de Manassés. A evidência do Antigo Testamento para o culto solar é limitada. não os ouvirei’’. “oficiais líderes do povo”. Deste ponto privilegiado observa um drama ritual sendo executado entre o pórtico (hã’úlãm) e o altar {hammizbêah). (3) A natureza das abominações. nem posição.288 O LIVRO DE E zeouiel de encherem a terra de v io lê n cia p o rta n to me provocando tanto assim?''* Olhe para eles. Mas esta identificação não pode ser confirmada por falta de evidências específicas.1. a postura desses homens envia um sinal dúbio. O gesto foi interpretado como um equivalente não verbal da declaração: “que Fulano de tal viva!”’* Neste exemplo. Shemesh/Shamash. da raiz hwh/hyh.''^ colocando um ramo ao meu narizP'’ 18 Portanto responderei com fúria. representa uma linguagem jurídica. com outros cultos aos astros. Ezequiel estima que uns 25 homens se envolveram neste ritual.

desde a casa de Safa e os anciãos.8. um símbolo de imortalidade relativo à descida de Tamuz ao inferno. mas intencional.*’ No contexto. Os crimes contra a humanidade são ainda mais depravados que as ofensas rituais diante da face de Yahweh. que ele traduz como “perfume”. A jomada do profeta nos muros da iniquidade deixa o leitor curioso quanto ao que aconteceu com as reformas de Josias.16-18 C ena IV: o c u lto ao s a s tro s 289 profeta verbalmente que esses horrores cúlticos são pequenos em comparação aos males sociais do povo.“ A mudança das abominações cúlticas para as abominações éticas é abrupta. O versículo 17 conclui ao introduzir uma terceira ofensa: Yahweh acusa 0 povo de colocar o ramo em meu nariz. e mais que nunca. essa abominação envolve “enviar incenso perfumado às narínas de Yahweh”. Os males de Manassés parecem ter retornado com maior intensidade que nunca. fazendo uma ligação com 7. e um gesto de súplica. Embora muitos intérpretes modernos tenham reconhecido nesta ação outro gesto cúltico. até as mulheres em Israel. a palavra deveria ser associada com uma raiz zmr. relacionada ao ugarítico dmr.23 e preparando o caminho para 9.** Talvez a preocupação dos intérpretes com a interpretação cúltica os levou a deixar de ver a ligação com a referência anterior aos crimes sociais violentos. expressados em termos de violência por toda a terra. 8. como um gesto parte de um culto solar.**Assim. As grandes ameaças para a fé .11 em que a frase zimrat hã’ãres denota “perfumes da terra”.12). zémõrâ já foi interpretado de várias maneiras como um símbolo fálico.*’ Encontra apoio para esta interpretação em Gênesis 43.*^ A ordem da descrição da visão e os avisos explícitos que as ofensas ficarão cada vez piores prepararam o palco para esse pecado ainda mais repreensível de todos.*“Avishur propôs que em vez de se derivar zémõrâ de zãmar. a afirmação sõléhim ’et-hazzèmõrâ ’el-’appi permanece enigmática ainda hoje. Toda nação sucumbiu á podridão espiritual. mas nenhuma delas convincente. “Esticar o ramo no nariz” pode simplesmente descrever um gesto de insulto físico. aqui empregado eufemisticamente para expressar como Yahweh se sente sobre o modo como as pessoas o têm tratado.9 em que os mesmos males morais estão conectados com a saída de Yahweh da terra (cf. esta afirmação parece oferecer um resumo idiomático do complexo todo de crimes descritos nas cenas anteriores.*’ Essas interpretações são todas interessantes. “podar”.

A RESPOSTA DE YAHWEH ÀS ABOMINAÇÕES NO TEMPLO (9. percebi^ . Não permitirá que seu coração controle sua cabeça. virgens. As duas primeiras afirmações são familiares. O capitulo conclui com uma declaração tripla inflexível da decisão de Yahweh de derramar sua ira sobre a nação.’’ e se moveu para a entrada da casa. ” 5 Quanto aos outros. vêm dos capítulos 5. Não deixem que seus olhos mostrem misericórdia. 7 Então lhes disse: "contaminem o prédio. A esperança expressa no nome Jaasanias é vã. Entre eles estava outro homem vestido de linho.'’' . saiam!" Então. e não poupem. assim. Yahweh’’ o instruiu.4. Vão. promovida por sincretistas que procuravam a adoração de novos deuses. Yahweh.seis homens vindo da direção do portão superior. que dá* para o lado norte. carregando um estojo de escriba na cintura. e a terceira é nova. e promoviam novos cultos quando percebiam que seu próprio Deus e as formas nativas de expressão religiosa haviam falhado.1 E então. não haveria regeneração de relacionamento com Yahweh.1-11) 9. crianças e mulheres. 6 Massacrem a todos: velhos e'^ jovens. 3. Mas não toquem a ninguém que tenha a marca do X.^ onde estava situada. 3 (Agora a glória do Deus de Israel havia subido de sohre os querubins. “Faça um X'”na testa daqueles'' que suspiram e gemem pelas abominações que têm sido perpetuadas dentro de Jerusalém. gritou em meu ouvido com alta voz: "Traga' os executores da cidade. e enchei os pátios com as vítimas. 4 "Dê uma volta'' na cidade* de Jerusalém ”. cada um deles carregando sua arma de destruição na mão. A desintegração espiritual cresceu de dentro para fora.’” Mas desta vez não teriam uma segunda chance. disse para que eu ouvisse: "siga-o'^ pela cidade e matem. Que cada um pegue sua arma de destruição em sua mão 2 Então.11 e 7.) Chamou o homem vestido de linho. que tinha o estojo de escriba na cintura. saíram e mataram'^ por toda a cidade. afirma que de agora em diante seus ouvidos estarão fechados a todos os pedidos por misericórdia. Vocês devem começar do santuário Então começaram com os homens mais velhos que estavam cm frente ao prédio.290 O L IV R O D E E / e o u i e l não vêm dos estrangeiros que estavam colocando suas ideologias religiosas em Israel. Entraram e pararam próximo ao altar de bronze.

e não pouparei. fui deixado sozinho}'' Caí com a face no chão''* e chorei: "Que horror! Oh.^ e a cidade está cheia de injustiça. (6) A expressão wattim m ãlê’ h ã ’ãres dãmim. Ligações com a narrativa precedente da jomada ao templo são fortes: (1) a forma wav-consecutivo da primeira palavra representa uma continuação da sequência narrativa do capítulo 8.'’’ a terra se encheu de crimes sangrentos. relembra o leitor que isto ainda é parte das experiências visionárias de Ezequiel. “encheram a terra com violência”. (7) A citação de Yahweh sobre a racionalização do povo (9.1 -1 1 A RESPO. “em meus ouvidos”) faz uma conexão verbal entre 8.9) é uma adaptação das palavras do próprio povo em 8. meus olhos não mostrarão piedade.9 .5 e 10.. Ao ligar os textos deste modo o editor do material convidou o leitor a interpretar o capítulo 9 como uma expansão ou uma exposição do capítulo 8. o homem vestido de linho com o estojo de escriba na cintura reapareceu trazendo seu relatório: "fiz exatamente comome mandaste ♦ Natureza e desígnio O editor das profecias de Ezequiel trabalhou duro para integrar o capítulo 9. Senhor Yahweh! Aniquilarás a todo o remanescente de Israel ao derramar sua fúria em Jerusalém? 9 Então respondeu: "a iniquidade da casa de Israel e Judá chegou ao limite. ecoa m ã lé ’ú ’e t-h ã ’ãres hãm ãs.12.17. em 8.. (4) A fórmula “sem piedade” com a qual o capítulo 8 concluiu é repetida duas vezes. “olhe atentamente”). ainda que os papéis respectivos estejam alterados.9.^' pois disseram: ‘Yahweh abandonou a terra.. (3) A dupla ocorrência de hinnéh (lit.6) são os mesmos homens a respeito dos quais o profeta relatara em 8.18 e 9. em 9. 10 Mas quanto a mim.” e “e me disse.” (2) A expressão b é’o znay {\\i. e lançarei suas próprias condutas sobre suas próprias cabeças 11 E então.18. no capítulo 9.. Mas esse capítulo também antecipa eventos que ainda estão por vir.1. especialmente a alteração de “e me trouxe. “a terra está cheia de crimes sangrentos”. Yahweh não vê'. nos versículos 2 e 11.1-11 com seu ambiente literário.STA DK Y a h w e h AS ABOMINAÇÕES NO TEM Pl.O 291 8 Enquanto estavam matando. O mais notável é que ao introduzir a glória de Yahweh no versículo 3 o editor não somente prepara o palco para a partida da glória (o que toma a maior parte do capítulo 10). mas tem também coordenado . (5) Os anciãos {zéqéním) diante do templo (9.7-13.

(3) suas ordens aos seis homens (vs. 11). interrompidas aqui e ali por comentários verbais. Contribuindo com este estilo jurídico está o emprego do vocabulário legal de um tribunal (qãrebü. a narrativa toma um sabor quase legal. “executores”. v. O peso do capítulo é transmitido por um discurso direto. (5) a explicação de Yahweh (vs. 8b). sem contar a referência intrusiva da glória no versículo 3. para agente da morte.de agente da vida (capítulo 9). derramando as brasas da ira divina sobre a cidade (10. 5-7). o verbo pã q a d tem causado muitos problemas aos tradutores.^^ Embora o capítulo anterior tenha sido dominado por imagens visuais. 1. enquanto que a narração de uma visão obviamente continua. v. e o relatório do agente do julgamento divino que a sentença havia sido executada precisamente como ordenada (v. o capítulo 9 forma uma subunidade fechada com a própria trama narrativa e estilo. (2) Yahweh comissionando o homem de linho (v. independente de quão freneticamente ele clamava a ele (8. 11b).292 O LIV R O D E E z e q u i e l intencionalmente os temas do julgamento divino e o abandono divino. 1). pèquddôt. (6) o relatório do homem de linho (v. A segunda ligação é fornecida pelo homem vestido de linho. marcando todos aqueles que devem ser poupados.1-11 corresponde à ligação entre uma acusação formal e o anúncio das sentenças nos oráculos proféticos de julgamento. o capítulo 9 é dominado por uma atividade aural. “traga”. 1-2 Yahweh evitou mostrar qualquer sinal de misericórdia para com seu povo. o fato de uma pessoa realizar duas tarefas enfatiza a inter-relação destes capítulos.^* .18). 9-10). (1) o chamado de Yahweh pelos executores (v. 3). 1).mas. Seu papel muda . (4) o choro de Ezequiel (v. de maneira que a atenção de Ezequiel é tomada pelo som da alta voz exigindo que os executores sigam adiante-“ e se armem com instrumentos de execução. o cuidado tomado por Yahweh para ser absolutamente justo na administração da sua justiça. Por causa da amplitude de significados. O contexto atual requer que pèquddôt ^q]2l entendido como uma designação semilegal para agentes que são intimados com uma execução de uma sentença.2) . com o profeta tomando um papel semilegal como testemunha dos procedimentos de Israel contra o seu povo.5-18 e 9. Com respeito ao gênero. Aqueles que foram intimados são designados os executores da cidade (pèquddôt hã^^ir). Mesmo assim. O relacionamento entre 8.

“destruir”. mas se deriva de um verbo comum.2).16. seres angelicais. mappês. Serão pragas. mappãs é também um hapax. embora seu papel nos eventos seguintes (10. nãpas. Quer essa pessoa seja uma figura sacerdotal quer angelical. geralmente dois. “instrumento de destruição”.’* Nada mais é dito a respeito desses homens. Linho era o tecido usado para as vestes sacerdotais (Êx 28.“ No versículo 2 as armas são referidas como kèli mappãs. 21. no versículo 1 é claro. mas um cognato relativo. hishít e nãpas.9 . O significado de fcéíímoshêt “instrumento de destruição”. Mas no meio deles há uma sétima figura. ocorrem. Um cognato próximo. A definição mais próxima do portão como “aquele do lado norte” sugere uma identificação com o portão citado em 8. Mas o instrumento visualizado por Ezequiel é provavelmente diferente de uma espada.14. e 25. Em sua cintura carregava um estojo de escriba (qeset hassõpêr).“ Esses sete homens caminhavam para o pátio e pararam em frente do . nkh (Hiphil). um homem vestido de linho e equipado com um estojo de escriba.31). “destruição”.36 (em português.35). A ambigüidade de pèquddôt deixa o profeta e o leitor curiosos sobre quem e o que responderá ao apelo de Yahweh.” É óbvio. denota uma clava de guerra em Jeremias 51. qeset é uma palavra emprestada do egípcio gsty. ou agentes humanos?“ A resposta a esta questão não demora a vir: seis homens emergem do portão superior.20. 12. m ashit.1 -8) pareça argumentar a favor de um ser angelical.29-42) e seres angelicais (Dn 10.5. e reaparece em 9. que sua posição em Jerusalém diferia da dos outros seis homens. “bater”. seja comumente associado com a espada. duas classes de seres diretamente envolvidas no serviço divino. que designava uma palheta com uma abertura para encaixar a caneta e furos para encaixar os potes de tinta. aquele construído por Jotão (2Rs 15. mashét é um hapax. aparece em 5. No entanto. com base no equipamento dessa pessoa.6-7). ou “o portão superior de Benjamim perto da casa de Yahweh”. respectivamente. onde Jeremias fora espancado e colocado em cativeiro (Jr 20. um contexto no qual os dois verbos.1 -1 1 A RESPOSTA DE Y a h w e h À s ABOMINAÇÔES NO TEM PLO 293 Os instrumentos com os quais os executores devem realizar o trabalho são identificados por meio de duas expressões distintas.15. para o vermelho e o preto.6. ainda que o verbo associado com ele. exceto que carregavam armas conforme instruídos. esse portão pode ser também o do pátio exterior. não pode ser determinado. 21.

acima da arca do pacto. 2Cr 4. Ali. o singular citado aqui não deve ser considerado um erro.^'* Dessa posição. cujas asas enchiam a sala. Yahweh era tido como entronizado entre as criaturas.294 O LIVRO DE Ezi-yUIF. Yahweh costumava falar a Moisés (Êx 25. a atenção de Ezequiel muda dos homens no pátio para a visão da glória divina se levantando dos querubins.1). 9. observou a glória de Deus se levantar de seu trono. 4. Sua localização não é especificada. Para Ezequiel.22. que fiinciona como uma variação estilística de “a glória de Yahweh”. e se mover até a entrada do templo. 11). o movimento da glória divina deve ter tido um significado amedrontador.4. Ezequiel tinha familiaridade indubitável com as imagens dos querubins no templo.^^ Não somente concorda com o sufixo da palavra seguinte. 7.18-22 e 37. 3 Nesse momento.^' No entanto.14). dois querubins de ouro olhavam um para o outro das extremidades da tampa especial da arca da aliança (hakkappõret). e abaixo deles estava a arca em seu lugar fixo.7-9. De fato. o capítulo seguinte.16. emprega a forma singular (10. essa visão ofereceu-lhe uma oportunidade que era impossível na vida real . “o querubim”.L altar de bronze. há certa conexão com 0 acadiano kuribu.89). Esse singular pode ser intencional para distinguir essa figura do kèrübim que terá uma parte importante no capítulo 10.^’ Quando Salomão construiu o templo. Aparentemente. entre esses querubins dentro do Santo dos santos. Nm 7. o Santo dos santos. ‘^ãlãyw.” Mas o uso que Ezequiel faz de hakkèrúb. Aquilo sinalizava que a lei de Yahweh fora suspensa e levantava a possibilidade de sua partida daquela cidade.^* Sendo de descendência sacerdotal.2. no interior do palácio divino. uma espécie de seres divinos ou semidivinos. mas deve ser o altar originalmente construído por Salomão (1 Rs 8.pôde dar uma olhada no santo lugar. repetidas vezes. Embora a derivação de kèrúb permaneça um mistério em parte por causa da raiz que não aparece em outras línguas semíticas do oeste. a palavra querubim ocorre aqui pela primeira vez no livro. De acordo com Êxodo 25. é entendido melhor à luz da autêntica tradição israelita. O leitor deve reconhecer a expressão: a glória do Deus de Israel do capítulo 8. Ainda que o plural seja mais comum em outros pontos. A acusação/ . o que parece provável. que Acaz transferiu para o canto nordeste do templo para deixar mais espaço para seu próprio altar pagão (2Rs 16. dentro do Santo dos santos colocou dois querubins gigantes de 4 metros cada um.

A tradução de suspiram e gemem tenta preservar a rima e a sonância de hã’ãnãsim hanne’ènãhim wèhanne’ènãqim?^ ne’énãh reaparecerá em 21.22-25) eram um sinal (c f LXX xd ar|(ieio v ) de esperança. em que o gemido será um sintoma de um coração quebrado e um sofrimento intenso diante da iminente destruição. o autor intencionalmente fez uma correlação com a partida de Yahweh em relação ao julgamento de Jerusalém. colocado na testa. Assim como o sangue nos portais das casas dos israelitas na noite da páscoa (Êx 12) e um fio escarlata na janela de Raabe (Js 2.““ No entanto. reconhecendo a incongruência entre as práticas prevalecentes e aquelas padronizadas na aliança do Senhor. Aqui.1 .pessoas que olham esses males da perspectiva de Deus. o escriba teve de procurar indivíduos que mostram uma emoção semelhante diante de todas as abominações (tô‘^êbôt) sendo perpetuadas em Jerusalém . 6-7). mas ao inserir o tetragrama neste ponto. Ela é preservada até os dias de hoje nos escritos ocidentais como 7^” Este tãw. uma forma que permaneceu essencialmente imutável desde os primeiros estágios da evolução do alfabeto até a adoção da escrita aramaica quadrada.9 .1 1 A RI sp osTA DE Y a h w e h á s a b o m i n a ç õ e s n o t e m p l o 295 racionalização por parte do povo que Yahweh os havia abandonado estava a ponto de se cumprir. o narrador é nomeado pela primeira vez. 6. a possibilidade que esta marca representasse .11-12 (em português. na parte mais visível do corpo. O tãw é a última letra do alfabeto hebraico. Na escrita cursiva antiga tinha um formato de um x maiúsculo ou de uma cruz. Não houve nenhum questionamento quanto à sua identidade antes disto. 4 O papel mais importante na execução da sentença é dado ao escriba com o estojo.17 ne’ènãq descreve o sofrimento que Ezequiel expressa diante da morte de sua esposa.1821. o autor enfatizou que a sentença que está a ponto de ser imposta sobre o povo de Jerusalém vem da deidade que reside e reina no templo. serviria como uma marca distintiva para separar o justo do ímpio. quando isto acontecesse não haveria mais esperança. A narrativa dos executores começa no versículo 3b com Yahweh enviando uma chamada aos seus agentes de julgamento. Ao inserir esta observação aqui. Aqueles que exibem essa reação devem ser marcados com um tãw na testa. desde que o tãw no costume antigo também servia como marca de propriedade.^® No capítulo 24. Deve andar pela cidade procurando por arrependimento.

a própria residência de Yahweh. a santidade da “casa de Yahweh” foi eliminada. As abominações não somente contaminaram todo o complexo do templo. frágeis e inocentes. é o lugar onde a apostasia e a oposição israelitas são mais visivelmente expressadas (8. Yahweh separa os sem defesa.“’ A mesma sentença que Yahweh havia pronunciado previamente sobre as instalações cúlticas pagãs (6. as virgens (bètúlâ). O lugar santo deveria ser destruído e hostilizado ao ser transformado num depósito de defuntos.“' 5-6 Ezequiel ouve as instruções que Yahweh dá aos executores quanto à libertação: devem seguir o escriba pela cidade e matar a todos que ele não marcar. “meu santuário”. Em vez disto. com a saída da glória. até mesmo antes de Yahweh terminar de dar suas ordens começam a atacar os velhos {hã’ãnãsim hazzèqènim) em frente ao templo. provavelmente porque já foram os matadores principais na guerra. A ordem destaca a dureza com a qual devem conduzir sua campanha. o templo deveria sofi-er a violência dos executores.Segundo. nos versículos 6d-7a.“' As omissões nesta lista são tão significantes como os nomes nela listados. Por conseguinte. no versículo 6c. e as mulheres (nãsim) são destacados como alvos principais. Os executores reagem imediatamente. devem “matar a ponto da destruição/aniquilação” (taharègú lèmashit).11) e os 25 adoradores do Sol ou prostrados na frente do templo (8. os jovens (bãhúr). aqueles que procuram refúgio atrás do muro da cidade nos momentos de crise. os 70 oficiais civis envolvidos nas abominações no quarto escuro (8. sua demanda sobre aqueles que eram cidadãos do reino verdadeiro de Deus. Aexpressão aposicional hã’ãnãsim hazzèqènim . Primeiro de tudo. “o prédio”.5-18). Homens fortes (haggibbõrím) ou homens de guerra (’aniê m ilhãm â) não são listados. um processo muito bem refletido na mudança de miqdãsi. Mas quem são esses homens? Existem três possibilidades: os cidadãos idosos referidos no versículo 6a. para habbayit. merece consideração. A questão aqui nào é que o povo se refugiaria no templo como o último lugar de refúgio. 13) agora está sobre sua própria casa. a fórmula “de não piedade” os proíbe de demonstrar misericórdia. os velhos (zãqèn).296 O II V R O D E E Z E y U I E L a assinatura de Yahweii.“. Yahweh instrui os executores a começarem o massacre no meu santuário (miqdãsi). as crianças (tap).4-5.““ mas que o templo.16). Terceiro.

alcançamos uma sutil. 8 Reconhecendo sua isolação (fui deixado sozinho).9 . (2Rs 15. Tudo que sobrou foi um Estado esfacelado.1 -6). Superficialmente. Não há mais esperança! A explosão verbal repentina de Ezequiel e seus gestos de imploração prostrado no versículo 8 demonstram que foi assim que interpretou a visão. mas significante mudança na ênfase. a última palavra em forma de uma citação parece simplesmente repetir a racionalização do povo no capítulo 8.“* Não nos é dito se o escriba descobriu quaisquer pessoas na cidade que sofriam pela condição pecaminosa dela.1 1 A R E Sm ST A Dl: Y aH W K H ÀS ABOMINAÇÕES NO T E M P I. No versículo 11.29).“* 9-11 A resposta de Yahweh á pergunta de Ezequiel parece afirmativa. e agora Ezequiel teme que o derramar da ira divina sinalizará o fim da nação. a nação outrora grande fora trazida à beira da extinção: a perda da Galileia e da Transjordânia e a deportação de suas populações em 733 a. Ele justifica sua ira ao citar quatro casos de provocação: (1) a extensão“’ e intensidade da iniquidade do povo {‘^ãwõn). enquanto que a . e com ela o fim do reino do norte em 722 (2Rs 17. (2) a violência/derramamento de sangue (dãmím) que enche a terra. revertendo as linhas paralelas.0 297 é provavelmente apresentada como uma designação geral para todos os participantes nas abominações do culto no próprio templo de Yabweb. (4) a afirmação ou racionalização que Yahweh abandonou sua terra e não olha mais para o seu povo. a queda de Samaria. No entanto. A visão enfatiza que todos que são culpados serão mortos. centrado em Jerusalém.*® Além do mais.C.12. simplesmente anuncia que levaram a cabo a ordem divina de procurar candidatos para colocarem o sinal tãw na testa.1 . O uso que faz da expressão remanescente de Israel (ïé’érit yisrâ’él) afirma que a população de Judá em Jerusalém representa tudo o que foi deixado de Israel. a possibilidade de isenção do julgamento da justiça é totalmente subordinada à força que a punição é infligida sobre o ímpio. ele pergunta a Yahweh se pretende levar a cabo esse massacre genocídio até que todos sejam exterminados. Por meio de uma série de desastres pela mão de invasores estrangeiros. (3) a injustiça que enche a cidade.“’ Na narrativa. a conquista de Judá por Nabucodonosor e a deportação das classes superiores para a Babilônia (2Rs 24).

” APENDICE: A VIDA FUTURA DAQUELES MARCADOS COM O tãw NA TESTA A imagem de Ezequiel quanto ao escriba pesquisando a cidade de Jerusalém em busca de pessoas justas. Assim como no dilúvio (Gn 6-9). Yahweh reafirma a irrevogabilidade de sua decisão com a fórmula “de não piedade” e sua determinação de lançar a conduta do povo sobre suas próprias cabeças. o chão deve ser totalmente varrido.4 sugere que se tomou uma . afirma a justiça de Deus e o desejo de poupar o justo da devida punição sobre o ímpio. Provavelmente. aqueles que são marcados não são somente os inocentes ou aqueles que desistiram da maldade. Terceiro. Quarto. Primeiramente. aqui racionalizam crimes éticos e imorais. mas aqueles que agem justamente gemem e sofrem com os pecados da cidade.*^ A ordem ao escriba para marcar aqueles que gemem e sofrem com as abominações em Jemsalém serve como um florete para destacar várias características do derramar da ira divina que se aproxima. pelo fato de os justos serem marcados. O foco principal desta fase da visão está claramente sobre a punição do impio. o fato de a destmição começar com aqueles sem defesa destaca a totalidade da depravação de Jemsalém. o testemunho mais antigo disto seja conhecido pelo Documento de Damasco. A adição do artigo a uma palavra que não leva artigo em Ezequiel 9. o destino do ímpio está selado. afirmação anterior havia citado a não atenção de Yahweh e a partida como uma justificação para todas as abominações cúlticas.*' A conclusão é trazida em cena pelo retomo do escriba que anuncia que executou totalmente sua comissão. o jul­ gamento deve ser total. Segundo. um texto sectário do período intertestamentário que tem um papel importante na comunidade de Qumran.298 O LIVRO Du Ezequiei. Em resposta a este mal. Não há espe­ rança de escaparem.*“ Este documento afirma que no momento do julgamento final a cena descrita em Ezequiel 9 se repetirá: somente aqueles que levarem o tãw nas testas serão salvos. e marcando suas testas com um tãw tem tanto um significado especial na tradição judaica quanto na cristã.

** A marca do justo era sem dúvida o tãw. “a morte”. anteriormente citado. sabb.disse a Gabriel : “vá e coloque um tãw com tinta sobre as testas dos justos. . pois sobre suas testas (está) a marca (oripeiov) da destruição.C. Nahmani disse.’’ Há pouco acordo com respeito ao significado verdadeiro do tãw refletido no parágrafo que segue a citação de b. mas o tipo de marca para o ímpio não é indicado.louvado seja . Esse parágrafo relata uma série de sugestões de entendidos no assunto. para que os anjos de destruição tenham poder sobre eles”. o selo do Santo . Samuel b.louvado seja . a espada. o tãw minúsculo [representa] tam uth [morrerá]. R. O Talmud (b. Mas perseguirão os pecadores e os destruirão.louvado seja. “Said Rab. pois os anjos destruidores não terão poderes sobre eles. assim como aqueles perseguidos pela fome. 15 (século 1®a.) considera o destino divergente do ímpio e do justo no dia do julgamento do Senhor.A p ê n d ic e : a v id a f u t u r a d a q u e le s m a r c a iw s c o m o tãw n a te s ta ^99 expressão técnica para a marca de um X. R.’’ Pss. Outra tradição rabínica trata o tãw sobre os justos como um símbolo de liberdade. Sol. Enquanto Resh Lakish disse: o tãw é o fim do selo do Santo . denota o povo que cumpriu a Torá de alef até tãw ”. o tãw maiúsculo [representa] ti/iyeb [viverá]. Samuel disse: o tãw denota que os méritos dos patriarcas já passaram [tamab]. Johanan disse: o mérito dos patriarcas conferirá graça [ta/ion]. sabb. R. e o tãw de sangue sobre as testas dos ímpios. 55a.é emeth [a verdade]. mas a marca sobre os ímpios era um theía representando thanatos. Os versículos 6 -9 m encionam claram ente o tãw de Ezequiel: Pois a marca de Deus (ariixeiov) está sobre o justo para (sua) salvação. A fome. 55a) responde sobre essa marca do ímpio da seguinte forma: O Santo . Serão destruídos como aqueles na guerra. e a morte estarão longe do justo. Hanina disse. pois aqueles que agem sem lei não escaparão do julgam ento do Senhor. pois se afastarão do piedoso.

por causa de sua virtude. e a Cristo. que relembra os leitores que no aspecto mais amplo. e prediz a marca que é colocada sobre as testas dos cristãos. Outra pessoa disse que o tãw simboliza os observadores da lei. O tãw é substituído por um selo que não somente destaca a propriedade da marca. disse que a forma do tãw é um antigo escrito [hebraico] semelhante à cruz [xoí a'KX\. A última consoante.“ Quando estes textos são comparados.0\)ç TCü 0EOÚ). O sangue se tomou sinal de destmição em vez de um sinal de vida.2-3. ele escreve: Depois de pesquisar com os judeus se podiam relacionar [para mim] qualquer ensinamento tradicional com respeito ao tãw. ao comentarem sobre Ezequiel 9. Um terceiro [judeu]. um dos que creem em Cristo. no entanto. que descreve o selo sobre os 144 mil. é tomada como prova da perfeição daqueles que. é um símbolo daqueles que vivem de acordo com a lei. o tãw sobre os justos era agora de tinta.*' A antiga alusão cristã a Ezequiel 9 ocorre em Apocalipse 7. sabb. especialmente pela identificação daqueles que deveriam ser poupados por intermédio de um sinal. Além do mais. ouvi o seguinte. comentaristas judeus antigos.poí)]. Desde que a lei. começa [seu nome] com a consoante tãw.*’ No entanto. 55a. este remanescente de Israel tem uma representação forte e semelhante para todas as tribos. João observa que o anjo encontrou muitos qualificados para o selo. o temor de Ezequiel era infundado. naturalmente se referem ao sangue do cordeiro pascal como uma marca de salvação.300 O LIVRO DE E z e q u i e l Orígenes se identifica com a última sugestão. Assim como em b. .** Diante das extensas ligações de Êxodo 12 e Ezequiel 9. os contrastes são tão significantes quanto os paralelos. portanto. mas também fomece base para a identificação daqueles marcados como servos de Deus (Ô0'úA. que é chamada Torá pelos judeus. Um deles disse que na ordem das letras hebraicas o tãw é a última das 22 consoantes. De fato. João identifica a figura que coloca a marca sobre os justos como um anjo (Õc/ye^OÇ). quando os pais da igreja começam a ligar a marca de Ezequiel ao sangue do cordeiro pascal e à cruz.“ os judeus mudam de posição. gemem e sofrem pelos pecados dentre o povo e sofrem com os transgressores. e sua função era lhes assegurar uma morte rápida e fácil diante dos anjos de destmição que os alcançariam e os torturariam. Registrando os resultados da investigação do entendimento que os judeus tinham do tãw.

talvez tenha sido inevitável que os pais da igreja entendessem o sinal de Ezequiel como um símbolo da cruz. que é nosso T m aiúsculo. e o selou pelo seu Espírito. ele aplicou seu sangue e méritos. mas Tertuliano (séculos 2®e 3«) escreveu sobre os apóstolos e os fiéis sendo marcados e selados do seguinte modo: O Senhor me disse.2 2 O INCÊNDIO DE J e r u s a l é m e a p a rtid a d e Y a h w e h d o te m p lo . e a pureza dos sacrifícios. Ele acrescenta o seguinte: Este sinal não era no corpo. e de fato os distinguiu. Considerando uma dica da LXX (ar||ieíov). A visão de Orígenes já foi citada. Vogt encontra confirmação para isto pela maneira . tem a aparência de uma cruz.. como se o Senhor fizesse uma impressão sobre suas testas.301 Dada a forma de um X maiúsculo do tãw. daqueles que deveriam perecer na destruição da cidade: não foi de casa em casa e colocou uma marca em suas testas. O INCÊNDIO DE JERUSALÉM E A PARTIDA DE YAHWEH DO TEMPLO (10. não era para ser tomado de forma real. e coloque a marca de um tãw sobre as testas dos homens. este exegeta do século 17 argumentou que o tãw não era a última letra do alfabeto.1 .^ Greenhill reconheceu séculos atrás que é difícil sustentá-la exegeticamente. O Senhor Jesus atentou muito a estes. mas no sentido espiritual. mas agora havia uma nova e especial evidência disto. pelo qual os distinguiria dos outros. e os sacramentos das igrejas. deve uma vez por todas afirmar que foi por seu Cristo que o Espírito do criador profetizou.. isto era uma visão.1-22) ♦ Natureza e desígnio Se a observação de Lindblom que "muitas coisas são. isto é especialmente verdade quanto ao capítulo 10. pela providência especial. que deveríamos ter em nossas testas na Jerusalém verdadeira e universal..“ 4. o sinal nas testas. Pois esta mesma letra fãw dos gregos.1 0 . não que não fossem lavados pelo sangue de Cristo anteriormente. E desde que tudo isto é encontrado em uso contigo também. afinal. mas simplesmente um sinal qualquer.*’ Embora essa interpretação receba um considerável apoio popular até os dias de hoje. tão obscuras e confusas que desafiam todas as nossas explicações”' se aplicar à esta visão do templo como um todo. atravesse o portão no meio de Jerusalém..

geralmente sem tentar esclarecer os significados das notas.4 funciona si­ multaneamente como um retomo e uma expansão de 9. no entanto.1-8 examinam o mesmo evento de duas perspectivas diferentes. “quando olhei percebi” (10.1-8) reverte esta ordem. O versículo 4 contém ecos óbvios do capítulo 9.“ Assim. O capítulo 10 se divide formalmente em duas partes. Os capítulos 9. “rodas”.26.1. é uma tentativa de eliminar 9. Estes dois excertos são tratados melhor como variações de uma afirmação-chave que costura as duas unidades maiores nas quais estão incluídas. . num todo intencional. refletido na partida do divino kãbôdàa cidade. ou as bases que levaram a estas inserções. emprestada de 10. Dentro de cada um destes segmentos. A descrição do trono acima da plataforma azul-violeta suportada pela carruagem celestial no capítulo 10. Os versículos 9-17 funcionam como uma exposição de ‘ô pannim. Os versículos 1-8 apresentam o desastre iminente de Jerusalém de duas perspectivas: do julgamento terreno da cidade.302 O LIVRO DE E z e q u i e i . acima de tudo. como se fosse uma interpolação escribal estranha. dois ou três temas se alternam e se misturam. o julgamento celestial. ao custo de se interpretar cada afirmação à luz de seu próprio contexto.1-11 e 10. o versículo lembra o leitor que os eventos descritos nos capítu­ los 9 e 10 não devem necessariamente ser entendidos como consecu­ tivos cronológicos.3. simbolizado pelas ações do homem vestido em linho.3. 10. e o julgamento da cidade como um acessório.4. descritas no capítulo 1. com a partida de Yahweh sendo um tema secundário. e o material julgado como secundário e terciário é geralmente de valor negativo. O primeiro texto destaca o julgamento de Jemsalém diretamente como uma expressão da ira di­ vina. O último texto (10. como os comentaristas têm simplesmente excluído grandes porções deste texto como se fossem notas explicativas.^ Uma atenção extraordinária tende a ser devotada ao fato de isolar estas camadas. tratando a saída do divino do templo como um tema principal. Ao mesmo tempo. O capítulo 10 é impressionante pelos ecos de textos anteriores. convidando o lei­ tor a interpretar este capítulo à luz da visão inaugural.^ O capítulo 10 é obviamente um composto de várias coisas. mas os critérios usados para identificar as camadas da tradição são com frequência subjetivos. cada uma delas é introduzida com w ã’e r’eh wêhinnêh. mas isto destrói a natureza bidimensional dos textos. Como já foi mencionado. 9).3.1 relembra 1.

o signi­ ficado do objeto principal.® eliminações de abreviaturas. é radicalmente transformado pelas adições explicativas.9-22 fomece uma das mais óbvias ilustrações da estratégia do eco literário na Escritura. Nesta narrativa os temas se sobrepõem e se fundem em padrões duplos de exposição de acordo com o seguinte padrão: 9.’ Embora muitas características continuem. é capaz de lidar com o encontro de maneira mais racional.1-11 I ^ 10. r u s a l é m e a p a r t i d a d e Y a h w e h d o t e m p i .i 10. as afinidades entre estes versículos e o capítulo 1.'“ . e detalhes que pareciam fora de lugar no capítulo 1 agora têm um papel vital.® reformatação dos detalhes. mas também sua profundidade.’®frases de identificação. Enquanto que o primeiro encontro de Ezequiel com a carmagemtrono celestial havia deixado o profeta em dificuldades para descre­ ver 0 que via. respeita esta afirmação-chave assim como alivia o homem de um peso literário excessivo que é forçado a carregar. muito da linguagem analógica foi eliminado. Ao insistir que as unidades lite­ rárias ou as camadas da composição possam operar somente em um único plano. como se a função primária deles fosse ilustrar a exegese judaica antiga da primeira visão do profeta.9-22 Ezequiel 10.6-21 são aparentes até mesmo para o leitor distraído. o empréstimo não é sem propósito. ou possam somente lidar com um assunto.” e outras mudanças. e sua descrição é mais calculista. De fato. dificilmente se justifica a sua posição atual no livro. No entanto. o 303 Enquanto as decisões da autenticidade e da interpretação geralmente se centralizam no “homem vestido em linhos” como palavra-chave. quando o veículo reaparece um ano ou mais depois.1-8 I------------------------------.1 . para se lidar com os versículos 9-17 isoladamente. e nos habilita a apreciar seu papel auxiliar no drama teológico. a carmagem-trono celestial. o brilho puro da primeira visão foi apagado.’ reorganização. priva-se não somente a integridade da unidade.’ comentários narrativos vazios. o que era abstrato se tomou concreto.2 2 O r n c Ê N D io DF J f .’^ Muitas dificuldades gramaticais que afligem o capítulo 1 foram suavizadas.1 0 .

) 6 Quando deu a ordem ao homem vestido de linho. Em re­ trospectiva. Enquanto observava.18). Então. sinaliza o começo de uma subunidade transicional. 5 (Agora. 8 Os querubins pareciam-’’ ter a forma de mão humana-* embai. abai.^ "peguefogo de entre as rodas.xo de suas asas. lit. a. Quanto à última fase da jomada. 2 E então. era como a voz do El Shadday quando fala. Além de trazer o kãbôd de Yahweh até ele. ao passo que a glória se move da entrada para o veiculo-trono (10. Agora.1 Enquanto ohsen’ava percebi '^acima da plataforma que estava sobre a cabeça dos querubins algo semelhante'*’ a uma pedra azul violeta. ele fo i enquanto eu observava. que o pegou e saiu. a carruagem celestial chega agora com as brasas do julgamento divino para Jerusalém. falou ao homem vestido de linho. o homem vestido de linho fomece uma ligação com o capí­ tulo 9. dentre os querubins". 7 O querubim estendeu sua mão de debaixo dos querubins-* até o fogo-^ que estava entre os querubins. a glória de Yahweh se levantou de cima dos querubins e se moveu para a porta da casa. fo i e ficou próximo da roda.sas vivas dentre os querubins. do lado de fora do átrio. e o lugar ficou cheio da radiante glória de Yahweh. A casa se encheu com a nuvem. Yahweh abandonando o templo: fase 1 (10. e partirá levando a glória do templo para longe da cidade. percebi (wd’er’e/î wëhinnéh. observará o restante da história.1-8) 10.19). Ezequiel testemunhou a fase preliminar disto em 9. e o versículo 2 parece ter sido cortado do seu antecedente imediato . “e olhei e percebi”).^' e encha as suas mãos com bra. que então é transportada para o portão leste (10. Pegou-^ algum fogo e o colocou nas mãos do homem vestido de linho.22-23). o leitor deve esperar até o capítulo seguinte ( 11. 3 (Agora os querubins estavam parados no lado direito da casa quando o homem entrou.xo^° dos querubins. Disse:'’’ "entre no meio das rodas. que se parecia'’’ com a figura de um trono visível'* acima deles. o som das asas dos querubins era ouvido a uma distância longa.) 4 Então.304 O I.^ e a nuvem havia enchido o pórtico interior. e as espalhe sobre a cidade ".3 quando o kãbôd se levantou do Santo dos Santos e se moveu pela porta do templo.IV R O D E E z e o u i e l Por intermédio dessa visão Ezequiel descobre por que sua visão inaugural havia acontecido de modo sobremaneira brilhante.

11 ) pela inserção do versículo 1. em nenhum ponto no Antigo Testamento os quembins são descritos desta maneira. às quais se referiu vagamente como hayyôt. e as criaturas em cima de tudo (cf 1. o capítulo 10 abre com o reaparecimento da carmagem-trono divina.10.^’ A exposição lidará com estas duas imagens de maneira separada. 3-5). 6-8.1-8 305 Y a h w e h a b a n ix > n a n d o o te m p lo : f a s e (9. O contraste entre a imagem tradicional de Israel quanto aos quembins. nos vs. leão. 1 Como já foi observado. particularmente o querubim de proteção em cima da arca do pacto. representados pelas decorações no templo. O signifícado desta dupla ex­ posição de imagens não deveria ser perdido: o julgamento da cidade ocorre no mesmo momento em que Yahweh abandona seu templo. “criaturas/ seres vivos”. o editor não retomou logo ao centro do assunto do homem e a narrativa é interrompida nova­ mente por um apêndice mais longo (vs. finalmente. Embora a hayyôtàç Ezequiel tenha alguma semelhança com os monstros com asas da iconografia mesopotâmica e da arte de esculpir em pedra. no capítulo 1. Localização. boi. ele reconhece agora como kérûbîm. As criaturas. homem Fora do templo na Babilônia Infinitamente móvel Portador do trono visível de Yahweh . As características principais desta apari­ ção são familiares a Ezequiel em função da visão inaugural: a plata­ forma azul-violeta. o trono. “quembins”. No entanto.26). pode ser destacado ao se comparar suas características: Os querubins sobre a arca Número Número de asas por criatura Número de cabeças por criatura: Forma das cabeças. O reaparecimento da glória de Yahweh e os quembins nos versículos 1 e 3-5 preparam o caminho para os versículos 9-22 nos quais este assunto receberá uma atenção muito forte por parte do profeta. Posição: Função. Sua história é terminada. 2 2 A visão dos querubins de Ezequiel 4 4 1 humana? Santo dos Santos em Jerusalém Estático Portador do trono invisível de Yahweh Águia. Mas a atenção colocada na carruagem-trono divina amarra este parágrafo à narrativa seguinte.

e talvez porque o portão norte estivesse associado com os executores (9. A carruagem estaciona do lado direito (Sul) do templo.5). O versículo 1 simplesmente anuncia a aparição da carruagemtrono. era associada principalmente com as imagens estáticas dentro do Santo dos Santos que cobriam a arca do pacto e portavam o trono invisível de Yahweh.2). o guerreiro divino triunfante. a expressão kérûbîm. o entendimento vem sobre ele.306 O LIVRO DK E z e q u ib l Essas diferenças provavelmente se referem à falha de Ezequiel em fazer a conexão entre as criaturas visionárias e as figuras santas no templo na primeira vez em que aparecem. “querubins”. Elas não eram somente uma espécie de criaturas com asas emprestadas da arte iconográfica babilônica. SI 104. Esta localização é provavelmente determinada pela presença de uma “estátua indecente” provocativa no portão norte (8. SI 18. 1-15]. 1. Não se deve confundir com a nuvem de tempestade do 1. Mas agora. Com esta nova apreciação aplica de forma justificável a mesma designação sobre as imagens estáticas. 2. Esses querubins são as criaturas vivas celestiais que as esculturas estáticas no Santo dos Santos simbolizam! Vieram até a terra do trono celestial para transportar o kãbôd. Mas os versículos 3-5 preenchem os detalhes que faltavam por meio da narração de uma série de eventos dramáticos. 18-22). o profeta sentiu o relacionamento fiincional e formal. A nuvem enche o átrio interior. e sem esperar tal visita do Senhor celestial. para fora do lugar de permanência terrestre. Ezequiel deveria estar ciente que em teoria o templo e seus móveis representavam um modelo modesto da moradia de Yahweh nos céus. montado sobre querubins voadores (2Sm 22. Para alguém da linhagem sacerdotal. quando esta teofania ocorre novamente dentro do complexo do templo. sem qualquer referência á sua função.2-15 par.2-16 [em português. e que as duas imagens esculpidas em ouro simbolizavam os querubins vivos que seguravam o trono de Yahweh no alto. a realidade viva veio tomar lugar da réplica estática (cf vs. a estas criaturas visionárias vivas. “querubins”.“ Também deveria ter familiaridade com a tradição hínica de Israel que cantava sobre Yahweh.3). falhou em fazer as conexões. o artigo definido em “nuvem” . Longe do templo de Jerusalém. Agora.4. um sinal visível da presença de Deus.

e espalhá-las sobre a cidade. O versículo 13 sugere que não foi ideia de Ezequiel chamar por aqueles nomes. quando a arca do pacto foi colocada no Santo dos Santos {débír habbayit)?' 3.1 0 . Este veículo está estacionado ao sul da estrutura enquanto a plataforma do altar e o altar estão a oeste. as imagens da glória divina se misturam com as imagens do homem vestido de linho. agora a função desta frase é esclarecida. sugerindo que os versículos 3-5 se referem ao mesmo evento.” 2 Enquanto isso. O homem é ordenado por Yahweh” para ir para o meio das rodas que giram e agarrar um pouco de brasa ardente dentre os querubins. O som das asas dos querubins reverbera pelo complexo do templo e produz uma impressão de inquietação. em que galgai refere-se a rodas de uma carruagem comum. A glória se levanta da sua posição permanente e acima dos querubins no Santo dos Santos e se move para a entrada do templo. sugerindo que a mobilidade não se refere às rodas da . para as rodas (anteriormente chamadas ’ô pannim).^^ 4. a forma singular carrega um sentido coletivo. Assim como em 23. móvel pelas rodas. Assim como a identificação hayyôt-kérûbîm. “rodas”. O templo fica cheio com a nuvem e o brilho do kãbôd enche o átrio. galgai.1 -8 Y a hw u h a b a n d o n a n d o o t e m p l o : fase 1 307 {he‘^ãnãn) indica uma nuvem familiar associada com a glória Shekinah. a imagem da localização de vários objetos na cena está confusa. O veículo com rodas transportando 0 trono de Deus se tomou o sustentador do julgamento. que havia enchido a casa de Yahweh construída por Salomão.^* Se a referência é ao altar de bronze do capítulo 9. ou ainda irrelevante na teofania inaugural de Ezequiel. Outros rejeitam a identificação áe galgai com ’ô pannim.” No entanto. esta organização requereria uma constração sintática diferente para “entre o galgai e os quembins”.24 e 26.2. Ezequiel agora fornece uma designação mais específica.18.^* Ainda que a referência a brasas ardentes (gahàlê ’ês) parecesse intrusiva.^^ 5. O versículo 4a intencionalmente ecoa 9. uma antecipação para saírem. Alguns têm explicado esta combinação com um altar que ficava entre a carmagem e a plataforma do altar.3a. mas ele ouve outra pessoa (Yahweh?) usando aquela designação.

Sem qualquer explicação.“®No entanto. o que 0 homem fez com as brasas? Diferente de 9. esta narrativa não relata se executou sua missão ou não.^’ As duas explanações dependem de operações cirúrgicas no texto e o total descrédito do versículo 13. . agora Ezequiel (e o leitor) aprendem que. e derivar sua associação com o trono-carmagem do próprio evento revelatório.“^ A narrativa do homem vestido de linho começa nos versículos 6-8 ao repetir o comando enviado no versículo 2 e registrando a resposta do homem. Enquanto isto.24). a visão fomece uma imagem vivida do destino espiritual. e. mas ao ribombar das nuvens e as brasas ardentes. no entanto. Ao passo que ele entra na carruagem celestial. espalhar {zãraq) as brasas tem sido entendido como um ritual de purificação.11. um dos quembins estende a própria mão. poderiam ser usadas como braços de robô para pegar as brasas do meio do veículo. o homem em linho é instmído a espalhar as brasas sobre a cidade.8. o qual sai do veículo. final da cidade. pega as brasas e as dá ao homem. seu título: Fogo consumidor. Enquanto não há signifícado ligado a elas em 1. Talvez não devêssemos esperar uma resposta. parece melhor ver as brasas ardentes como integrais à teofania. em última análise. Dt 4.“' mas também toma a referência anterior sobre o justo como algo supérfluo. assim como aspergir {zãraq) o altar com sangue. Por causa da superficialidade dos detalhes da narração é difícil visualizar esta seqüência de eventos. Ao associar as brasas espalhadas sobre a cidade com a partida por parte de Yahweh de Jemsalém.308 O L IV R O D E E z e q u i e l carmagem de Yahweh. que com o brilho de luz acompanharam os eventos teofanicos. entre outras funções. Na ausência de uma interpretação explícita. Em que sentido 0 homem entrou {bõ) entre as rodas e saiu (jã sã ) depois que recebeu as brasas? Onde e quando tomou posição próxima às rodas? Qual dos quembins esticou a mão e lhe deu as brasas? E o mais importante. o enigma das mãos do quembim na visão inaugural também foi resolvido. pois os eventos simbolizados por estas ações ainda ocorreriam no futuro. este entendimento não somente introduz um tema inesperado (purificação) numa visão por outro lado pesada. Desde que o fogo está associado com 0 caráter de Yahweh em outro ponto (cf.

e mais importante ainda. percebi*^ que quatro roda. etc.estavam cheias de óleos ao redor.*^ todas as quatro rodas eram idênticas na forma. (Eram as mesmas criaturas vivas^. 12 Agora o corpo inteiro deles.sas para se levantarem do chão. e suas rodas — todas as quatro** . enfatiza o papel da carruagem nos eventos futuros. percebi {w â’e r’eh wéhinnèh. o terceiro era de um leão. sem entortarem ao se moverem.** E a aparência das rodas era como o brilho do topázio. Como foi anteriormente observado. as rodas se moviam com eles. “E olhei e prestei atenção”) sinaliza o começo de outra fase na visão. Em qualquer direção que a roda se encontrava^ as outras iam na mesma direção. O problema não melhora com os pronomes retrospectivos: “seus corpos. 14 Cada uma tinha quatro rostos: o primeiro rosto era de um querubim. 11 Onde quer que se moviam em qualquer das quatros direções. Corpos de quem? Costas de quem? Será que as rodas do parágrafo anterior se transformaram agora em um tipo de figura angelical com quatro faces e partes físicas? Será que as rodas se .9-17 As R O D A S DA C A R R U A G E M 309 b. o segundo rosto era de um homem.semelhantemente com uma roda dentro de outra roda. Pois o espírito dos seres vivos estava nelas. a outra parava: quando uma se levantava.10. mesmo^* assim as rodas não entortavam em relação às suas posições ao lado deles.^' 15 E então o querubim se levantou.s estavam próximas aos querubins .*'' suas costas. suas mãos. As rodas da carruagem (10. o versículo 12 é confuso. 13 Ouvi*“as rodas sendo identificadas^'' como rodinhas. cada uma delas desenhada . com várias modificações significantes. e o quarto era de uma águia. suas costas”. e quando levantavam suas a. ao passo que imagens de rodas parecem se misturar com imagens de querubins. a outra se levantava com ele.9-17) 9 Enquanto olhava. 10 Falando da aparência. o faziam sem se entortarem enquanto se moviam.que eu havia visto no canal do Quebar)” 16 Quando quer que os querubins se moviam. 17 Quando uma^^ delas parava. 12 Primeiramente. Esta descrição satisfaz a curiosidade do leitor quanto à aparência da carruagem. o registro segue o contorno geral do texto paralelo no capítulo 1. Após a referência aos querubins com asas no versículo 8. a narrativa diverge com um longo apêndice sobre o veículo celestial. 9 A frase de abertura enquanto eu olhava. lit.uma roda adjacente a cada querubim. suas asas.

as costas. parece mais natural aplicar os corpos. as cabeças. cobertas com olhos da cabeça aos pés. a descrição das faces dos querubins difere significantemente da narrativa anterior. Enquanto que 1. “seus avos" &gabbêhem. agora cobrem o gabbêhen. 14 Segundo.’* Uma tradição talmúdica babilônica teoriza que desde que o boi estava associado com o bezerro de ouro do incidente no Sinai (Êx 32). 10. e se a parte independente fosse aplicada às faces das rodas. Além do mais. o que é gramaticalmente possível. então era um símbolo do pecado israelita. a leitura livre do hebraico. então Ezequiel implorou misericórdia para Yahweh.” Mesmo se os versículos de 9 a 17 representassem um pedaço de exegese original midráshica. explicando a aparente redundância que a primeira resposta criou ao propor que a diferença entre uma face de um querubim e a de um humano era uma questão de tamanho. A imagem parece bizarra ao leitor moderno. Os rabinos resolveram este problema ao tomar a posição de que os quembins tinham rostos humanos.14 lista como quembim-homem-leão-águia. Enquanto que 1. Esta reorganização levanta duas per­ guntas.10 seguiu uma sequência homem-leão-boi-águia.” Mas isto não responde a segunda questão. e características surrealistas podem ultrapassar o realismo.310 O LIVRO DE E z EQLMEL transformaram em algum tipo especial de anjo. aqui. figuras análogas a estes quembins. as mãos e as asas aos querubins. indica quatro rostos idênticos para cada querubim. No entanto. A face do quembim era como a de um garoto. Por que será que a face de boi foi tirada.10 havia indicado quatro rostos diferentes para cada quembim. ao que Deus respondeu ao trocar 0 boi por um quembim. mas se deve ter em mente que isto é uma experiência visionária. as mãos. e a face do homem a de um adulto. com cada querubim tendo um conjunto diferente de rostos. “suas costas”.18 os olhos haviam se restringido às rodas do tronocarruagem. aos quembins mencionados previamente no versículo 9. um tema que se toma importante no misticismo judaico merkãbâ mais recente?** Enquanto no capítulo 1. Ainda que não possamos ter certeza como os antigos . são encontradas em algumas figuras da mitologia egípcia cujos corpos eram decorados com pedras preciosas. o comentário editorial do versículo 21 teria esclarecido a questão ao atribuir as cabeças. e as asas. e como deve ser a face do querubim ? Q ualquer resposta à prim eira pergunta é especulativa.

A fim de observar o kãbôd se levantando dos querubins de dentro do templo. talvez no portão leste do átrio interior.*' A razão por que a enumeração atual começa com o querubim em vez de uma face humana é obscura. Então. 19 Os querubins levantaram suas asas e se ergueram do chão diante de meus próprios olhos. com as outras três organizadas do seguinte modo: ÁGUIA N LEÃO O L BOI S HOMEM Se os rostos em 10. Pararam na entrada do portão leste de Yahweh.14 também estavam organizados no sentido horário. fa s e 2 311 entendiam de fato as faces dos querubins. c. 20 Estes eram os seres vivos’’*que eu havia visto abaixo do Deus de Israel no canal de Quebar. naturalmente começou com a criatura que estava olhando para ele. a sequência é idêntica. Yahweh abandona o templo: fase 2 (10. e o querubim é colocado no lugar do boi.18-22 Y ahw eh a b a n d o n a o te m p lo .18-22) 18 Então a glória de Yahweh se afastou da entrada da casa''^ e parou em cima dos querubins. Além destas mudanças. Ezequiel provavelmente estava em frente ao prédio. mas pode refletir a visão privilegiada que o profeta tinha pela posição em que observava a carruagem. 21 Cada um deles tinha quatro faces^^ e quatro asas.10. e algo . a visão de frente (sul) teria uma face humana.“ Desta perspectiva. Desde que a visào inaugural se deu para o profeta vindo do lado norte. a contradição. percebi que eram querubins. com a glória do Deus de Israel sobre eles. com as rodas ao lado deles. é mais aparente que real.“ Entretanto. a descrição da carruagem concorda com a descrição anterior e não precisa de comentários mais detalhados. ao menos na or­ dem das faces. algumas evidências sugerem que não eram humanas.

22 Quanto à forma de suas faces. descritas no capítulo 8. reflete a alienação sobre a relação Yahweh e o templo. “a casa”. semelhante a mãos humanas sobre suas asas. mas também fornece o meio pelo qual ele . os querubins se levantam e se transportam para o portão leste do templo. A carruagem não somente serve como veículo a proclamar a glória de Deus e sua soberania (cap. Difamado pelas abominações.7. mover-se para onde a carruagem-trono estava parada. As quatro faces. A expressão bêt-yhwh ocorre mais uma vez em 11. 18-19 Após ter terminado a seção a respeito da carruagem e dos querubins que a conduziam. provavelmente o portão do átrio exterior. Durante todo o tempo.312 O I.1. No versículo 15b a descrição da carruagemtrono havia sido interrompida por um breve anúncio.10. A designação mais simples. a narrativa retoma à correlação por parte do profeta entre as duas visões. habbayit. de Yahweh do templo. havia por tudo isto cessado de ser sua residência. os querubins que Ezequiel viu no templo eram os mesmos que vira no canal do rio Quebar. Agora. 1). são as mesmas criaturas que vira às margens do rio Quebar. Com isto. Vale a pena observar que pela primeira vez desde o capítulo 8 versículo 16 o templo é referido como A casa de Yahweh (bêt-yhwh). O profeta assiste ao kãbôd se levantar da porta. 20-22 Estes versículos oferecem um exemplo mais explícito da exposição inicial do livro. e destruído pela matança de 9. idênticas às que ele viu na primeira vez. O rei divino abandonou sua residência. usada na narrativa do meio.IV R O D E Ezi-ouilil. Com a carga divina no lugar. acrescentou o significado à visão que se toma mais claro para ele.*’ Quaisquer questões que o versículo 14 levantou ao substituir “quembins” por “boi” em 1. aguardando sua viagem fmal. mas a partida da glória sinaliza o fim de um relacionamento que existiu por quase quatro séculos. em ambas aparições a aparência e a função são identificadas. e por baixo delas formas como de mãos humanas. eram idênticas'*' na aparência com aqueles que vi às margens do canal do Quebar Cada um deles se movia em linha reta. em estágios. as quatro asas. o profeta é capaz de observar a glória de Deus de Israel flutuando sobre os querubins. a narrativa principal começa com o anúncio da segunda fase da partida. e a vê descer em cima dos querubins. o versículo 22 afirma a identificação das criaturas atuais com aquelas que viu no canal do Quebar. Sim.

^ 6 Vocês multiplicaram suas vítimas dentro destas cidades. casa de Israel. e encheram suas ruas com assa.11. homem! " 5 Então. Em território israelita eu os julgarei. e a cidade é a panela. 13 Como eu estava profetizando.1-13) 11.1-13 A P A N E I. Então caí com minha face no chão e chorei com uma voz muito alta dizendo: "que horror. Em território israelita vosjulgarei. estes são os homens que estão tramando mal e oferecendo conselhos maldosos dentro desta cidade.25) em vários aspectos significantes.* e me disse: “diga assim: 'assim diz Yahweh: isto é o que você está pensando.'' Mas eu removerei^ vocês deste meio.A D E C A R N E 313 abandonará seu templo. estavam 25 homens. pois vocês se tornarão a carne dentro dela. 3 Estão dizendo: ‘agora não é hora de construir casas. profetize contra eles.' No meio deles. e os entregarei nas mãos de estranhos. na entrada do portão.ssinatos. que vocês colocaram dentro dela. A PANELA DE CARNE (11. pelo qual declara o fim do seu relacionamento especial com Jerusalém e com o povo do pacto. 9 Removerei a vocês deste meio. A cidade é a panela. a espada trarei contra vós . ! 1 A cidade* não se tornará sua panela. 5.1 -13 é determinado pelo contexto mais amplo da visão do templo pelo profeta (8. Profetize. 10 Pela espada vocês cairão. Conheço os pensamentos que vêm às suas mentes." Senhor Yahweh! o Senhor pretende exterminar todo o remanescente da casa de Israel!"'^ ♦ Natureza e desígnio Ezequiel 11. 7 Portanto. 8 A espada que temestes. e saberão que eu sou Yahweh. são a carne.'^ . assim disse o Senhor Yahweh: para suas vítimas. 1 £■então o Espirito me levantou e me levou até o portão leste da casa de Yahweh. percebi Jaasanias filho de Azur.1-11. o Espírito de Yahweh caiu sobre mim. 4 Portanto. 12 para que vocês saibam que eu sou Yahweh. que dá frente para o oeste: e ali. Em vez disso. Executarei juízos entre vocês. e Pelatias.^ e nós somos a carne’.a declaração do Senhor Yahweh. Pelatias filho de Benaias morreu. 2 Elé^ me disse: “homem.'* pois vocês não seguiram meus decretos ou cumpriram minhas leis. filho de Benaias. se comportaram de acordo com os padrões das nações ao seu redor ' ”. oficiais públicos.

19. Terceiro.1-13 é geralmente tratado como uma experiência separada de êxtase.9). “para o portão leste da casa de Yahweh”.'* (2) A afirmação introdutória. mas inserido secundariamente na narrativa da visão do templo. em 11. Essas associações convidam o leitor a interpretar a experiência atual do profeta como parte da visão do grande templo. “E então o Espírito me levantou e me levou”.13b. 8. responde seu protesto interrogatório em 9. Quarto.16-18.7.6 é derivado de 9. wattissã’. sugere uma continuação do que vinha anteriormente. seu interesse com infrações éticas doentias combina com o contexto mais amplo no qual as abominações cúlticas predominaram.1-3 foram parte do passeio pelo templo como descritos nos capítulos de 8-10.IVRO D E E z f . abre com sua própria introdução formal (11. (5) O acúmulo de vítimas nas ruas (millë’tem húsõteyhã hãlãl).” Mesmo que essa passagem reflita uma experiência separada da visão inicial.314 O I. liga o momento atual com aquele da glória em 10. Segundo.'“ Embora muitos identifiquem uma série de adições secundárias. interrompe a estrutura da visão do templo com sua apresentação em estágios da partida da glória divina. expressado no estilo exclamatório declarativo.8.3). Primeiramente. 11. várias ligações com o contexto maior evidenciam uma integração intencional: ( 1) A forma imperfeita de abertura com o uso do M^aw-consecutivo. Por estas razões. (6) O protesto do profeta em 11. possivelmente ocorridas de maneira simultânea. (4) A aparência dos 25 homens no versículo 1 relembra 8. talvez paralelo a 8. Mas isto não significa necessariamente que os eventos de 11. os mortos são vítimas de assassinato realizado pelo sistema judicial.9. wattissã’ ’õtí rúah wattãbê’ ’õtí. Foram provavelmente experiências proféticas paralelas. que falava sobre encher as cortes com as vítimas {malè’û ’et-hahãsérôt hãlãlím). a maioria das pessoas considera o texto autenticamente ezequieliano. ecoa 8. afirma que Jerusalém ainda está em pé. expõe .o u i e i .3b. seguida de sua observação do movimento da glória para o portão leste do templo. Assim como no capítulo 9. Quinto. (3) O transporte do profeta ’el-sa‘^ar bêt-yhwh haqqadmõní.1) descrevendo o transporte do profeta (cf. quando de acordo com os capítulos 9 e 10 sua queda foi vista.16. é elaborada em um gênero literário bem diferente da visão registrada. Esta profecia oferece mais informação sobre a doença social anteriormente citada (9. Em particular.

quando é pego pelo rüah novamente. Em 11. . Mas nos capítulos 9-10 seus movimentos ficaram fora da descrição. 11-12) e. 2) (2) A citação (v. 4-5a) (2) A disputa (v. com a fórmula contratual no versículo 8b.16). mas dentro do contexto de um discurso de defesa de uma tese. As teses (v. Ao ser inicialmente colocado no portão norte pelo Espírito. 1. 3) c. 1) b.'’ Os limites da unidade literária são determinados por dois versículos em estilo narrativo e ligados por uma figura de Pelatias (vs. Preâmbulo (v.2-12 representa um discurso típico de debate. um tema que recomeçara no parágrafo seguinte. estas fórmulas sinalizam transições na unidade literária. e para a entrada do portão do palácio de Yahweh (8. Esta localização permitirá que observe uma nova cena envolvendo 25 homens. Com base nestas transições. 7-10) (b) A segunda refutação (v.13). 7-12)'* (a) A primeira refutação (v. A ocorrência dupla da fórmula de reconhecimento nos versículos 10b e 12a. Com respeito ao gênero. envolvendo uma citação explícita de uma opinião popular que exige uma exposição e uma refutação explícitas. 2-3) (1) Introdução (v. 8) pouca atenção foi dada aos próprios movimentos de Ezequiel. o esquema a seguir pode ser proposto: a. l ) Desde a primeira viagem ao templo (cap. A antítese (v. A refutação (v.Il. Preâmbulo ( l l . 5b-6) d. foi citada como evidência de um acréscimo secundário.l P rkâm bulo 315 atitudes corruptas dos líderes de Jerusalém para com a cidade onde eles habitam. 13) a. 4-6) (1) Introdução (v.1 o profeta retoma à visão. flutuando e se sentando próximo ao portão leste da casa de Yahweh (o átrio interior). foi guiado por estágios pelo complexo do templo até o átrio interior. Epílogo (v. 11.

” Embora nada mais seja dito sobre ele. Pelatias.-® O patronímico Benaias. refletisse o desejo do povo pela intervenção divina a favor deles. indica o status deles entre aqueles que permaneceram em Jerusalém após a deportação de 597 a. era um nome comum por toda a história de Israel.16. Embora em outros pontos a forma singular sar hã^ir identifique o governador ou o prefeito de uma cidade. . o termo se refere a figuras governamentais (corruptas). 0 fato de ser um conhecido de Ezequiel é algo que concretiza e historifica a visão.10-17). que reaparece no versículo 13. As acusações contra eles só podem ser determinadas com base no discurso que se segue. o que sugere que os sãrím foram incluídos entre os “anciãos”.26-27.^“*Então.C.27.316 O LIVRO DE E z e o u i e l Diferente de 8. O primeiro deles não deve ser confundido com Jaasanias filho de Safa. como os nésfim. “oficiais de Judá”.11. os membros deste grupo são acusados de abusar do poder para se beneficiarem com ganhos ilícitos. percebe-se que eram. obviamente. o plural aqui funciona como uma designação geral para oficiais políticos. conselheiros políticos de algum tipo. Jaasanias filho de Azur e Pelatias filho de Benaias. análogo a siãrêjéhúdâ. e não deve ser identificado mais especificamente do que foi feito com o filho de certo Azur. provavelmente porque seu significado. mas com base no debate que vem após Jaasanias e Pelatias. e especialmente em 22. oficiais públicos {sãrê h ã ‘^ãm. No entanto. “líderes do povo”).^^ Embora Ezequiel geralmente associe os anciãos com o pecado da idolatria.^' O título dado a esses dois homens. o nome Pelatias apreciava de uma grande popularidade próxima ao fim da história de Judá. o contexto atual enfatiza o papel deles como conselheiros. neste contexto. “Yahweh resgatou”. O preâmbulo não indica precisamente quais eram seus papéis. lit. e sãrê yisrã’èl. tem um papel mais significante. a descrição não relata as atividades desses homens. envolvido em uma cena cúltica em 8. Sem dúvida. “Yahweh construiu”. Assim como Jaasanias. Ezequiel conhece dois daqueles homens.^^ Este título não aparece na lista de oficiais públicos de Ezequiel em 7. representavam a nouveau nohlesses que preenchia o vácuo político deixado quando Joaquim e a nobreza estabelecida foram deportados para a Babilônia (2Rs 24. “oficiais de Israel”.

2-3) 1 Introdução.. “a distância”.. a colocação se parece com uma citação literal de um dito genuíno. bènôt bottim . O debate a seguir falará por si mesmo. “quem pensa. 3. no Salmo 10. assim como os leitores modernos também ficam..2-3 A TESE 317 b. mas é elaborada como uma formulação própria de Yahweh de um sentimento popular. [pensamentos perversos]”. Primeiramente. Citação. como um sinônimo para miqqãrôb . béqãrôb pode significar “parentes próximos de sangue”. A tese (11. qual é o significado de lõ’bêqãrôb. talvez porque a propriedade longínqua esteja sendo roubada. preparando o clima para a disputa. Diferente do profeta do século 8°.“ Como foi citado. Ezequiel não descreve muito. e a audiência original de Ezequiel provavelmente ficou confusa quanto ao significado. “quem oferece um conselho mau”. As duas primeiras acusações lembram as acusações feitas contra os líderes de Jerusalém mais de um século antes.1. Seus pecados são identificados com três particípios: (1) hahõsébim ’ãwen.11. a questão específica a ser lidada aqui é registrada por meio de uma citação. depois da segunda afirmação é deliberada.^’ (2) hayyõ^^ãsím ‘^àsat-rã’^.. (3) hã’õm èim . neste caso a referência é quanto à reestruturação da construção das casas por perto. Assim como na maioria dos discursos forenses. por Miqueias (2. A localização do mal dentro desta cidade (bã‘^tr hazzõ’t). Aparentemente. uma expressão que não é encontrada em nenhum lugar? Se a expressão seguinte. “quem trama 0 mal”.1).^® Mas béqãrôb é explicado melhor temporalmente. cada elemento da frase é ambíguo.. béqãrôb poderia ser interpretada de forma espacial.^’ Quanto à analogia de bérãhôq. que seguiu esta exclamação de ais com uma descrição detalhada dos esquemas corruptos de homens no poder. hôy hõsébê-’ãwen üpõ^ãlê rã“^ ^al-miskèbôtãm Ai daqueles que tramam o mal E que maquinam a impiedade em suas camas. Yahweh inicia o debate forense com uma palavra de explicação para o profeta que não deixa dúvida sobre sua disposição para com a nova liderança política de Jerusalém. for interpretada como uma referência às famílias fundadoras.

a imagem em outro discurso de debate forense em 24. e dará um novo e sinistro significado a ela. Será que esta panela tem pedaços selecionados de came. bãnâ bayit.^' No entanto. a imagem atual da panela é ambígua. . mas também confiscaram a propriedade dos fracos na cidade. “construir uma casa”. Como a própria citação. por causa de uma satisfação arrogante de uma riqueza recentemente adquirida. pode-se interpretar bottim de várias maneiras.318 O LIVRO DE E z e o u i e l “logo”. particularmente a nouveaux nohlesses representada por ’ãnahnu.” Da mesma maneira. o contraste não é entre o stalus da camada superior e os cidadãos comuns (aqueles que são explorados). ocasionalmente leva um signifícado figurativo de estabelecer uma família. talvez pelo fato da defesa da cidade requerer todos os recursos disponíveis. Os novos govemantes são pedaços de boa came. Assim. A panela (sir) comum de cozinhar forneceu aos profetas um auxílio pedagógico versátil. Não somente tomaram as posições deixadas pelos nobres deportados (c f v. 15). uma interpretação literal é preferível no atual contexto. fica dificil ver como a panela simboliza a segurança que a cidade oferece. o sentido mais provável da citação parece. supostamente invulneráveis dentro dos muros da cidade. encontrado anteriomiente em 7. neste ponto.^“ O próprio Ezequiel usará. “nós”. a citação significa recusa em construir casas.2. Terceiro. Essa interpretação é apoiada pela metáfora que vem a seguir.3-6. produzir descendentes.“ ou. como já foi implicado. protegida de insetos ou animais saqueadores? O contexto apoia a última interpretação. “no momento não há neces­ sidade de se preocupar com a construção de casas”. isto é. oferecendo segurança àqueles que vivem dentro dela.” A afirmação reflete uma complacência e uma característica entusiasmante daque­ les que pensam que têm tudo sob controle. que são os novos líderes emergentes? Se é isto.^Apesar dessas ambiguidades dentro do texto desta profecia. Segundo. não está claro se a sentença deveria ser entendida como uma afirmação declarativa ou uma questão. mas entre esta nova classe de líderes e aqueles que foram levados para o exílio. na qual a came foi colocada de maneira segura. como em Miqueias 2. uma panela com uma tampa bem apertada. o que é mais provável. novamente. Ou será que a panela é um pote para guardar alguma coisa. Esta panela é Jemsalém.8.

6 A R E FU TA C A o 319 em oposição àqueles que foram descartados como lixo (c f v. que ocorre no versículo 19. profetizai. Primeiramente. agora a palavra denota o lugar ou o órgão da atividade mental. “vir sobre”. 5. pensar a esse respeito”. mente”. mas desafiar suas bases. o verbo ’ãmar.7)..4 . descreve aqui a função cognitiva que precede uma decisão e uma ação: “considerar. “coração. A disputa apresenta uma bifurcação aqui. o envolvimento do Espírito enfatiza o papel do profeta como boca de Deus.1 1.status em Jerusalém. e com um terceiro significado. 5b-6 A disputa.^ No contexto atual. 15) e obviamente não apreciam mais a proteção de Deus.“®Mas o ponto central . 14-21) que provocou uma resposta por parte de Yahweh.^* Esta interpretação é confirmada pela referência que vem depois de ma^àlôt rühãkem. e provavelmente em relação a Deus (cf vs.^’ Esta expressão envolve um jogo inteligente com a palavra rúah. a conduta deles violou as leis de Yahweh de tal maneira que eles não têm fundamento algum para sua confiança em sua segurança e invulnerabilidade. Assim como no versículo 3. A função da primeira não é atacar a lógica da tese dos líderes. a força de nãpélâ “cair sobre”. A resposta verbal de Yahweh à citação é dividida formalmente em duas partes. Foi a interpretação errônea por parte dos líderes quanto a seu . Ainda que no versículo 1 rúah tenha funcionado como o agente da transferência de um lugar para outro.. Como uma descrição da atividade do Espírito. mais sossegadamente. O comando á\xp\o.^’ e que ele está ciente dos motivos bases da satisfação dos líderes. e serve como uma variante para lêb. profetizai! com o qual ele pede que Ezequiel responda em seu lugar reflete a intensidade da provocação e o sentimento divino de urgência. que aparece agora pela terceira vez neste texto. e no versículo 5a como 0 agente da inspiração.4-6) 4-5a Introdução. refletir.” Simultaneamente ao comando divino. cada uma delas introduzidas por uma fónnula de recomendação (vs. se coloca entre o sãléhâ ‘^al energético. A refutação (I I . e hãyètâ “^al. “apossar” (1 Sm 10. 0 profeta experimenta uma inspiração especial e um poder profético como quando o Espírito de Yahweh cai sobre ele. c. “os pensamentos que provêm de sua mente”.6). normalmente traduzido como “falar”. Yahweh declara que seu olhar penetra a mente humana.

1-3: . derramando sangue e destruindo a vida em suas buscas impiedosas pelo ganho. geralmente tenha um tom militar. d.27. “a declaração do S e n h o r Yahweh”. “portanto”. e cada uma delas conclui com a fórmula de reconhecimento. 7-10 e 11-12). Yahweh anuncia que os líderes são de fato açougueiros que fizeram carne picada com os cidadãos da cidade. Segundo. hãlãlim . mesmo que suas bocas não sejam sequer abertas para declará-los. no fmal do versículo 8. Yahweh acusa os líderes do povo com um crime que os desqualifica de qualquer pedido por proteção: eles encheram a cidade com defuntos.320 O LIVRO DE E z i í o u i e l do versículo 5b é que Yahweh está ciente dos motivos pelos quais os líderes lideram em Jerusalém. A primeira delas é mais tarde dividida em duas partes iguais (ambas com 21 palavras) pela fórmula signatária n é ’u m ’ã d õnãy y h w h . esses governadores se tornaram alvos de sua ira. Mas governadores exploradores não precisam esperar pelas decisões do tribunal para tomar suas atitudes mortais. o qual explicitamente compara os oficiais de Jerusalém (sãrím) com lobos mortos de fome esfacelando suas presas.3. e em 22. isto é. no versículo 7. A inserção inesperada da fórmula no meio de um discurso reforça o clamor de Ezequiel por inspiração (v. 5) e enfatiza que a palavra que está declarando leva a assinatura do próprio Yahweh. Podem simplesmente eliminar qualquer um que se coloque em seus caminhos. aqueles que foram sentenciados à morte por tribunais corruptos. Longe de serem objetos especiais da proteção divina dentro dos muros de Jerusalém. A antítese (11.7-12) 7-110 começo da antítese de Yahweh é assinalado por um lãkén. A reputação do clamor dos líderes consiste de duas partes (vs. seguramente estocados (a cidade de Jemsalém). em que reis são cobrados como aqueles que devoram seres humanos. Embora a designação para a vítima. Este problema é ilustrado em 19.“' Também denota vítimas de assassinato legal. A afirmação de Ezequiel no versículo 7 representa a versão condensada de Miqueias 3. a palavra não é restrita àqueles que morreram na batalha. 6. assim como Eissfeldt demonstrou. Ainda que a camada superior tenha afirmado serem os pedaços melhores de came.“^ 7-8 A primeira refutação desafia o clamor dos líderes por redefinir de modo inteligente os tennos carne (bãsãr) e panela (sir).

Jerusalém não é mais um vasilhame em que a comida é estocada de maneira segura. Yahweh anuncia que está longe de garantir a segurança deles. e suas cames de seus ossos. 9-10 Estes versículos comentam sobre como os líderes encontrarão seus destinos. Yahweh os tirará da cidade . e amam a impiedade. Yahweh os entregará nas mãos de estranhos. Primeiramente. Por um lado. E que devoraram a came de meu povo.““ As afirmações fínais nos versículos 9 e 10 são interpretativas: as ações de Yahweh contra o seu povo constituem a execução de sua sentença. Ele lançará . seu signifícado muda. e quebraram seus ossos em pedacinhos. Ele assumiu o papel do açougueiro.7-12 A a n títrs e 321 Ouvi agora. Segundo. E que os picaram como came para a panela.“^ Aqueles que se achavam a nata não são nada além de lixo aos olhos de Deus. que pronuncia a sentença e que aponta os executores. Com um simples sopro. toda a reputação enfatiza o papel de Yahweh como juiz de Israel. Que tiram suas peles. líderes de Jacó. De fato. pessoalmente removerá cada um deles da panela e os exporá ao mesmo destino que temiam . e govemantes da casa de Israel! Não devem vocês conhecer a justiça? Que aborrecem o bem. a espada está na mão de Yahweh.11.lá do meio (mittôkãh). e que arrancaram suas peles. Ainda pior. uma referência às forças babilónicas não muito longe dali. A declaração evoca imagens de came refugada que é removida da carcaça num processo de manusear a came. para aqueles que têm vivido sobre a ilusão da segurança dentro da panela. ou o detrito no processo de cozinhar. Embora a identidade da panela permaneça a mesma (Jemsalém). essa afírmação demole dois pilares sob os quais o povo em Jemsalém estava baseando sua segurança. e como came (humana) em um caldeirão.a morte pela espada. é uma panela sobre o fogo em que a came é cozida.

Por extensão. Aqueles que têm sua segurança na panela descobrirão que o significado da panela não foi transformado.2). O versículo 12 representa uma das versões mais expansivas da fórmula de reconhecimento no livro. inviolável pelos de fora.5 e Isaías 60. Em contraste com outros casos. O interesse de Yahweh não se restringia ao templo. e era.“’ O uso que Ezequiel faz de g éb ú l y is r ã ’êl. “terra”. “terra de Israel” (cf 7. portanto. Ao repetir “no território de Israel”. géhül denota uma marca de fronteira.18. 11-12 A segunda refutação começa ao se reiterar que no futuro a cidade não será um lugar de refúgio para os líderes. como em Miqueias 5. Suas vítimas podem ser a carne de hoje. 10 e 11) Yahweh enfatiza que seu julgamento cairá sobre os líderes no território israelita (‘^al-gêbúlyisrã’êl). ou mesmo à cidade de Jerusalém. mas na verdade é mais amplo do que haviam imaginado. mas a própria panela em que serão cozinhados. que reportam ações de Yahweh como a base para a mudança na exposição do povo para com ele. parece uma decisão deliberada. Em seu sentido mais concreto. O efeito retórico é para destacar a . Por outro lado. no entanto. os líderes seriam derrotados dentro da terra natal. Jerusalém não será um vasilhame protetor. enfatiza que mesmo que os israelitas escapassem do massacre dentro da cidade ao cair nas mãos do inimigo. quando a espada vir também receberão um novo entendimento sobre a atividade e a identidade de Yahweh. E então reconhecerão que Yahweh é aquele contra quem se rebelaram. Mas esta não é a única lição que aprenderão. o que tem levado muitas pessoas a excluí-la como uma nota secundária. veio sobre sua proteção. a localização do julgamento é especificada. em vez do convencional ’a d m a tyisrã ’êl.322 O LIVRO DE E z e q u i e l suas decisões judiciais sobre suas próprias cabeças. mas os que fazem a citação terão este destino amanhã. os israelitas basearam sua segurança automaticamente em suas residências dentro do território divinamente dado por Deus (cf vs. e pode ser empregado sinonimicamente com ‘eres. 14-17). Porque também foi reconhecido como a propriedade de Yahweh. no entanto. Nas duas reações (vs. De acordo com a última linha do versículo 10. Não poderão contar com 0 apoio protetor quando os agentes do julgamento chegar. referese ao território definido dentro das fronteiras. À moda pagã sincretista. aqui o discurso oferece mais um lembrete sobre o pecado de Israel.

Pelatias filho de Benaias. Enquanto Ezequiel está profetizando. muitos têm interpretado esta exclamação como sua pergunta anterior em 9.11. No entanto. simbolizava a esperança de Jerusalém. Pelatias morre. Embora o texto indique por que Ezequiel reconhece a morte de Pelatias como tão portentosa. 10). Qualquer que seja o caso. Pelatias morre. os israelitas se degeneraram a um denominador comum com os costumes das nações. Mas esta esperança é fütil. Padrões pagãos regem Jerusalém. As expressões wé‘^ãsiú sèpãtim (v. e reverter os elementos encontrados em 5. a transformação de uma pergunta em uma afirmação parece intencional. e ’espôt (v. significando “levar avante uma sentença”. 13) A conclusão epilógica desta unidade literária relembra o leitor quanto ao contexto visionário dentro do qual esta disputa com os líderes de Jerusalém acontece. e com sua morte desaparece a esperança da nação.8 não somente como uma expressão de choque.“*’ No entanto. em que os “anciãos” (zèqêním ) foram identificados como os alvos principais da fúria de Yahw'eh. em vez da própria punição.7-10. Em vez de deixar o pacto servir como um guia para a conduta. a morte de Pelatias como um precursor do destino dos sãrím responde ao 9. e. mispãtay e mispètê haggôyim no versículo 12 se referem às estipulações do pacto de Yahweh e aos costumes das nações. Em uma rara explosão emocional. . são virtualmente sinônimas. seu nome enfatiza ironia no evento. a morte de Pelatias. 9).6-10 é evidente no uso do substantivo mispãt. as duas muito semelhantes. Entretanto. “executarei julgamentos”. O profeta imediatamente apreende o significado deste evento: a doença do homem funciona como um pagamento de entrada ou um depósito quanto ao destino dos líderes anunciado no discurso.“'* A conexão com 5. em um momento e sem uma causa clara. Epílogo (II. filho de “Yahweh edificou”. no atual contexto literário dos capítulos 8-11. deve ter sido reconhecido simplesmente como uma coincidência na profecia de Ezequiel a respeito do destino dos líderes. “Yahweh entregou”. o significado em relação ao fim triste. Ezequiel expressa seu próprio horror diante da impiedade do julgamento de Yahweh.8. respectivamente.()fi() 323 razão para a punição. Se entendermos 9.6. Apesar de sua construção declarativa.13 Epli. “eu julgarei”.

acrescenta uma nota de realismo a esta visão e sugere que os 25 homens. em 8. Ezequiel pode observar o ajuntamento de Jaasanias. do que criar imagens simbólicas.16 (e seus correspondentes em 11. se pode reconstruir os eventos descritos neste capítulo da seguinte maneira: pelo Espírito. se morreu.1 como sãrê h ã ‘^ãm. Será que Pelatias era uma pessoa real? Ele morreu mesmo? Como Ezequiel. Os 25 de 8. pôde testemunhar isto? Até que ponto sua experiência visionária cessou e uma olhadela na realidade histórica de Jerusalém começou? O que causou a morte de Pelatias? Será que só pelo fato de Yahweh pronunciar aquela palavra já traria a morte dos líderes de Jerusalém? Ou foi uma coincidência com a programação da mensagem por parte do profeta? Infelizmente. Com esta imagem diante de si. especialmente aqueles em homenagem aos líderes da nação.“®O fato de Ezequiel poder identificar Jaasanias e Pelatias pelo nome e pela descendência. Não há necessidade para interpretar a morte de Pelatias simbolicamente. de fato. e em visões divinas. Assim. No entanto. Yahweh. então este discurso trouxe a resposta a Ezequiel. Nenhum santuário deve ser encontrado ali. Se considerarmos que as visões de Ezequiel envolveram visões reais de Deus. mesmo enquanto fala com o profeta. devemos entender que não é mais difícil para Yahweh proporcionar ao seu profeta uma olhadela ao que está acontecendo na vida real em Jerusalém. ou porque foram os dois homens que o profeta reconheceu dos anos pré-exílicos em Jerusalém.7-8 não era simbólica. e os de 11. a realidade e a visão se misturam.“’ Aqui. “oficiais públicos”. O aviso da morte de Pelatias levanta sérias questões a respeito do relacionamento entre a visão e a realidade. Jaasanias e Pelatias devem ter sido destacados como representantes do grupo. em 8. Pelatias e o restante dos 25 no portão leste do templo. pretende destruir o remanescente de Israel.11. Ele o fará dentro da própria terra.1). exceto que prediz o destino de todos os líderes na cidade. Yahweh . assim como Jaasanias ben Safan. ao olhá-los como figuras históricas não significa que a descrição do julgamento sobre a cidade em 9. a ausência da confirmação externa deste acontecimento de morte impossibilita conclusões firmes a respeito do relacionamento entre a visão e o evento.16 foram reconhecidos como anciãos.324 O LIVRO DE E z e q u ie l mas também como uma séria pergunta. são indivíduos históricos.

Pode-se descrever seus poderes proféticos como vidência. Em vez de sofrerem com os pecados de Jemsalém. e considera a opressão do pobre como um desafio direto a si mesmo (cf Pv 14.34). e os 23 homens reunidos no portão leste do templo ilustram o perigo apresentado pelo poder para aqueles que o têm.11.5. suas implicações para o leitor modemo merecem uma consideração especial. pois nisto seu status como profeta de Yahweh é confirmado.13 E p ílo g o 325 pronuncia um julgamento sobre eles lançado na forma de um discurso argumentativo fonnal. Após terminar sua profecia. encheram a cidade com as vítimas que fizeram. Esses homens representam a antítese para o tipo de liderança de servo visualizada em Deuteronômio 17. corromperam-se pelo poder. Jaasanias.31. Segundo. Primeiramente. A morte de Pelatias é significante para Ezequiel pessoalmente. 0 poder absoluto corrompe absolutamente”. Assim como nada foge ao calor do sol (SI 19. 6]). e aqueles que chegam ao topo sobre os cadáveres dos outros aguardam o julgamento certo de Deus. ♦ Implicações teológicas Por causa da natureza especial desse texto e sua função única dentro do contexto da visão do templo. 17. Em vez de usar suas influências para o bem comum. Ele interpreta este evento como uma atitude divina direta do julgamento sobre o homem. onde testemunha a morte real de Pelatias. da mesma maneira nada no mais profundo do coração humano pode escapar ao olhar de Deus. Ezequiel proclama esta mensagem aos anciãos reunidos em sua casa na Babilônia (cf 8.31 -46). a atenção visionária retoma a Jerusalém. e investir em suas posições para modelar os altos padrões da moralidade pactuai. esse oráculo ilustra o adágio: “o poder corrompe. e como o primeiro passo na seqüência de grandes julgamentos que ainda sobrevirão. . Ele é inspirado pelo Espírito de Deus. mas não num sentido mágico ou psicológico. Mt 25.1).7 [em português. o Senhor conhece seus mais profundos pensamentos. Deus criou todos os homens como portadores de sua imagem.1420. Afinal de contas. enquanto os homens conhecem os corações uns dos outros somente por intermédio de discursos e de suas ações (Mt 12. Pelatias. Em resposta à ordem de Yahweh para profetizar. os exilados são a audiência principal de Ezequiel.

mas em Deus.326 O LIVRO DE E z f q u i e l Terceiro. e lhes darei a terra de Israel ’. ' seus parentes. Pedir sua bênção com base em qualquer coisa é uma perversão pagã. '^20 afim de que possam seguir meus decretos e guardar minhas leis e as executar E então. que foi secundariamente integrada na . A fé autêntica afirma que o privilégio de ser o povo de Deus deve concordar com a fidelidade ao seu pacto. ' ' Removerei o coração de pedra de seus corpos. o status. e eu me tornarei o seu Deus. dizei: ‘assim declarou o Senhor Yahweh: eu vos ajuntaref dentre os povos e vos reunirei dentre os paises nos quais fostes dispersos.eu lançarei suas condutas sobre suas próprias cabeças. 2 1 Mas para todos aqueles cujos corações estiverem comprometidos com'^ suas coisas detestáveis e abomináveis . tenho me tornado o santuário deles numa pequena medida* nas terras as quais têm ido 17 Portanto. várias características dos versículos 14-21 sugerem que isto originalmente pode ter sido uma unidade só. todos os seus irmãos. e lhes darei um coração de carne.^ até mesmo toda a casa de Israel. e tenho de fato espalhadoos pelos paises. 18 Quando chegarem lá removerão todas as coisas abomináveis e detestáveis dela. E a declaração do Senhor Yahweh ♦ Natureza e desígnio As fronteiras desta unidade literária são marcadas pela fórmula de abertura evento-palavra no versículo 14 e pela fórmula signatária no fmal do versículo 21. 16 Portanto.14-21) \4A seguinte mensagem de Yahweh veio a mim: 15 "homem. Deus oferece sua proteção e bênção somente àqueles que estão relacionados pactualmente com ele e que expressam esse relacionamento pela obediência alegre à sua vontade. 6. ^ são aqueles de quem os residentes de Jerusalém tem dito: 'estão longe* de Yahweh. No entanto. A segurança não é encontrada na panela.^ A terra fo i dada [para nós] como uma possessão ’. 19 Então lhes darei um só coração.'^ e colocarei dentro deles um novo espirito. diga-lhes:'' ‘assim declarou o Senhor Yahweh: tenho de fato'' espalhado-os entre as nações. se tornarão meu povo. Assim como na passagem anterior. A tradição. ou mesmo a presença em seu templo não garantem seu favor. O EVANGELHO SEGUNDO EZEQUIEL (11. E nossa.

40-44).8-10. ao manter a esperança de restauração após o julgamento. portanto.'* . Esta possibilidade é anunciada formalmente em 6.2 1 O EVANGELHO SEGUNIX) E /E Q L IIE L 327 narrativa da visão do templo: as fórmulas introdutórias e de conclusão são típicas de oráculos proféticos. Enquanto que a integridade de cada um deve ser avaliada conforme seus próprios méritos.3) simbolizava o remanescente que emergiria da destruição de Jerusalém e os espalhados de sua população.22-24. a unidade consiste inteiramente de um discurso divino. um interesse pela corrupção de . e que a inserção desta narrativa reflete uma decisão editorial. a presença de um oráculo de esperança aqui abre a porta para observações positivas em outras profecias de julgamento. e não de registros de uma visão. Terceiro. inapropriada ao caráter condenatório nos capítulos 4-24. Ezequiel está seguindo uma longa tradição profética que é baseada em antigas promessas pactuais (Lv 26. Dt 4. Porque os versículos de 1 a 13 compartilharam com a visão mais ampla. Muitos rejeitam esse oráculo como sendo uma profecia fora de lugar. e entre as “cidades desertas. O sinal-ato envolvendo alguns cabelos que Ezequiel havia juntado e colocado na orla de sua vestimenta (5. 0 conteúdo difere radicalmente do ambiente visionário. e sua população ainda tem bastante autoestima (ainda que colocada no lugar errado). as sementes desta mensagem de esperança foram plantadas em textos anteriores. acrescida depois de 586 a. desoladas e arruinadas” (36.1 4 .27-31 ).40-45. existe uma boa razão para aceitar uma data posterior a 586. Primeiramente. Segundo. Parece.'•* No entanto.C.. e a mensagem é de esperança.'’ Considerando-se que após 586 Jerusalém faz parte de “estes lugares desertos na terra de Israel” (33. a imagem que descreve a comunidade de Jerusalém no versículo 15 se encaixa melhor no período anterior à queda da cidade.lerusalém e o consequente julgamento.59-63. aqui a cidade ainda está habitada. 16. 14-22. Assim como a precedente. Quarto. sem quaisquer características visionárias sequer. aqui 0 interesse é no bem-estar dos exilados. mensagens sem elhantes de esperança repetidamente enfatizarão oráculos de julgamento que se seguem(14. esta narrativa é preparada como um discurso argumentativo independente.24). que a experiência profética refletida aqui ocorreu independentemente da visão do tempo.1 1 . 20.35).11. 17.

no versículo 20. ao justapor esses dois textos. 4.6.2. 21). 8. a cidade de Jerusalém.6. 16-17). Contextualmente falando. a falha dos moradores de Jerusalém em relação a cumprirem os padrões do pacto {huqqim e mispãtím) no versículo 12. e a inversão predita entre os exilados no ftituro.14-21 correspondendo a 8.5-7.16). 11.’’ Estruturalmente. 9.14-20 e 11. entre a decisão absoluta de Yahweh de riscar o nome do remanescente em Jemsalém e sua promessa de um relacionamento renovado com os exilados. 7b-9) e a remoção passada dos exilados para a salvação (vs. ambos levantam a questão da alienação divina {lérãhõqâ. colocada na fórmula.1-11.1-13 são particularmente próximos. Em termos de gênero.9-10. Mas a questão de por que esse oráculo foi inserido aqui permanece.5-10. 8. as duas passagens compartilham de um interesse comum com a presunção arrogante dos líderes políticos de Jerusalém. a argumentação e a antítese são indicadas pela fórmula de acusação.18. 11.25 mostra um amplo padrão quiástico. 3. rãhãqú m ê‘^aíyhwh.6. seguida por uma antítese. 11.'* a referência a mentes pervertidas {rüah) no versículo 5 sendo respondida pela colocação de uma nova mente {rüah) dentro deles no versículo 19. com estruturas obviamente paralelas. ambos são confeccionados como discursos de debates argumentativos. Mas os paralelos entre 11. c f 18-19). Em ambos. Nos versículos 14-21 o fato de continuarem a residir na cidade fomece base para a justificação de confiscarem a propriedade dos exilados. de uma citação popular. para o propósito de julgamento (vs.17-9. 11. 11. o editor destacou o contraste entre a aparência e a realidade.2. o oráculo anterior havia fechado com o choro de Ezequiel ressonando nos ouvidos de Yahweh (e dos leitores) . ambos revolvem sobre o assunto de Yahweh {miqdãs. 7. Ao mesmo tempo. 11. ambos contrastam o julgamento do ímpio (8.328 O LIVRO DE E z e q u i e i . várias expressões comuns ligam estes debates: a assonância de {has)sir . Os dois textos lidam com o nojo e as práticas abomináveis {siqqúsim e tô ‘^õbôt) do povo de Jerusalém (8... Nos versículos 1-13 os oficiais baseiam a segurança deles na presença física dentro da “panela”. Estilisticamente falando.14-20).15).21) com a libertação prometida ao remanescente (9. bãsar{\%. com 11. 8. O assunto é respondido melhor ao se examinar a maneira como foi integrado no relato da visão. 11.7. Ambos abrem com uma frase tese. entre a sua previsão da remoção de Jemsalém. Tematicamente falando.

A ordem é significativa se aceitarmos que o versículo 16 é dirigido para Jerusalém.14-21 dentro de seu contexto atual não cega a ninguém em relação às tensões dentro do texto. em sua posição. mas não abandonará seu povo perpetuamente. o novo texto implica que a dádiva do novo coração ocorre no exílio. a integridade do versículo pode ser defendida pela crítica da forma.Ho SEGUNDO E z e q u i e l 329 com 0 horror diante da provável eliminação total do remanescente de Israel. 11. Yahweh não pretende aniquilar o remanescente de Israel. os de longe e os de perto respectivamente. A alternação da pessoa é necessária pelo fato de Ezequiel estar lidando com duas audiências.11. mas um significante remanescente de seu povo será separado dentre aqueles que já estão no exílio.vANCiKi. uma perspectiva que aparece diante de Ezequiel no capítulo 36 e para Jeremias no capítulo 32. Yahweh respondera uma exclamação similar e uma pergunta a respeito de sua determinação de julgar Jerusalém por suas atrocidades (9. Se olharmos bem mais além. A colocação deste oráculo imediatamente após 0 desabafo de Ezequiel tem o efeito de uma resposta negativa por parte do profeta. Muitos interpretam isto como sinais de uma expansão secundária (embora tenha sido acrescida pelo próprio profeta).“ No entanto. Havia desistido daqueles de Jerusalém.37-41.14-21 O F.7). até mesmo daqueles que sobreviveram à destruição da cidade. mas 0 versículo 17 é endereçado para a audiência exílica. se o versículo 17 for removido. Ainda mais séria é a mudança da terceira para a segunda pessoa nos versículos 14-16 (e nos vs. no começo do versículo 17 parece redundante após sua ocorrência no versículo 16. lãkên ’êmõr.8-11). Anteriormente.^' . 18-21) do discurso direto. pois não é incomum sinalizar o início de uma antítese num discurso forense com lãkên mais a fórmula de acusação (cf. este oráculo representa a penúltima fase numa ampla visão cujo interesse principal havia sido a partida de Yahweh de seu templo e da cidade de Jerusalém. “portanto. Este compromisso de interpretar 11. 16) oferece um fio de esperança em face desta probabilidade depressiva. diga”. e outra real (os exilados). a redundância da segunda ordem ao profeta a fim de que fale ( ’êmõr) pode ser algo mais aparente que real. uma retórica (Jerusalém). A frase “serei seu santuário na terra do Egito” (v. Yahweh pode abandonar sua terra. Além do mais. Além do mais. O versículo 17 é especificamente problemático.

mas cuja linguagem é muito influenciada pelas questões e estilo da narrativa da visão no qual este oráculo é fixado. 17-20) (1) A promessa de um novo êxodo (v. Preâmbulo e tese (11. 18) (3) A promessa de um novo pacto (v. o estilo e o vocabulário se encaixam na narrativa maior da visão do templo. Preâmbulo (v. A tese (v. 16) (1) A afirmação (v.36-44). 14) e a forma de tratamento de Yahweh em relação a Ezequiel . 21).14-15) 14-15 Seguindo a costumeira fórmula de abertura palavra-evento (v. porém. cujo alvo principal é “os exilados dentre os quais Ezequiel vive”. As diferenças da implantação de um novo coração e a renova­ ção do pacto ocorrem em “duas passagens de esperança” que sugerem que aquelas coisas eram elementos fundamentais na visâo profética do ftituro (ver também Jr 32. interpretado melhor como uma conclusão admoestativa final.^^ Alguém. 15a) (2) A citação (v. 15) (1) Introdução (v. Com base nos sinais da transição formal o conteúdo do esboço a seguir pode ser proposto: a. Se o versículo 21 ainda se parecer com um acréscimo. Qualquer que seja a história deste texto (todas as reconstruções são hipotéticas). Se o profeta esteve envolvido de algum modo na edição de seus pró­ prios materiais. Epílogo (v.330 O LIVRO DK E z k o u i e l No entanto. A antítese (v. sua fonna literária atual segue a estrutura de um discurso argumentativo modificado. 14) b. como já observei. 16b) d. 19-20) e. a-b. alguns ainda removem os versículos 18-21 conside­ rando-os um acréscimo secundariamente. pode argumentar o inverso com a mesma força.^ deve-se observar que à parte da confusa primeira linha. 17) (2) A promessa de uma nova terra (v.26-27. A reputação (v. portanto. 15b) c. colocado sob a influência de 36. 16a) (2) O debate (v. este versículo representa uma adição natural. Este versículo é.

1 4 -1 5 P r e â m b u l o e tese 331 como homem {ben-’ã dãm.os exilados. Embora a imagem de todas as responsabilidades de um gõ’êí. no caso de ser feito escravo por um estranho.23-34.^’ A única outra ocorrência nos livros proféticos está em Jeremias 32. São poucos aqueles com quem tem uma ligação consanguínea no aspecto espiritual. “seus irmãos.7-8.^“ mantendo e/ou restaurando. Em terceiro lugar.47-55). . A duplicação enfática da primeira expressão. a fim de preservar sua linhagem (Rt 3. seja provavelmente incompleta. Yahweh identifica o interesse central deste oráculo . Rt 4. “homens de sua redenção” se refere ao círculo dos parentes. O substantivogè’uíZa aparece catorze vezes no Antigo Testamento. o uso de toda esta terminologia consanguínea é irônico. “filho do homem”). as seguintes funções específicas são citadas: (1) comprar a liberdade de um parente. pagando uma taxa de resgate (Lv 25. “o g õ ’èl era um advogado que se levantava para defender membros vulneráveis da família e que também tinha responsabilidade pelos parentes”.1-9). literalmente “homens de sua redenção”. seus irmãos” enfatiza o envolvimento de toda a familia nuclear de Ezequiel. Todo o clã de Ezequiel havia provavelmente sido levado cativo para o exílio. o livro apresenta Ezequiel como um homem alienado de seus compatriotas. “a totalidade” do clã. Fundamentalmente. Embora os exilados incluam muitos dos parentes de sangue do profeta e tenham sido considerados um grupo étnico. do qual Ezequiel é um dos membros. “toda a casa/família de Israel” (kol-bêt yisrã’êl) apresenta os exilados como um clã.6-13). a família maior. no Antigo Testamento. A raiz g l se deriva da arena da lei familiar israelita. (2) comprar uma propriedade patrimonial que por alguma razão havia passado para as mãos de alguém fora da família (Lv 25. No entanto. ’ansê gé’ullãtekã. é menos familiar.1 1 . de acordo com o qual Jeremias é instruído a exercitar seu direito de resgate (m ispat haggé’ullâ) e comprar a propriedade em Anatote como um sinal do retomo eventual dos exilados cativos da Judeia. portanto. ’a heykã ’a heykã. A segunda expressão. lit. (3) casar-se com o parente da viúva.19-28). a quem Ezequiel procurou apoio em momento de necessidade. Três expressões refletindo circulos concêntricos cada vez maiores destacam seu relacionamento com o profeta. e (4) vingar a morte de um parente próximo ao derramar o sangue do que cometeu o crime (Nm 35. No contexto presente.

mas sim os exilados. O exílio de Ezequiel e seus parentes é uma prova clara que Deus os havia rejeitado. Isto era formal e concretamente reconhecido pelo altar construído às margens do Jordão por duas tribos mais e meia.9 e implícita nos estágios da partida de Yahweh do templo como apresentada na visão.12 e 9. defínida como a região entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo.não é Deus que está alienado. Eles foram expulsos da terra. Temendo que não demoraria muito para os ocidentais teologicamente explorarem as barreiras representadas pelo rio Jordão para expulsá-los da comunidade sagrada. Este nome não pode mais ser aplicado àqueles que deixaram Jerusalém para trás.332 O LIVRO DE E z k q u i e l Ao mesmo tempo. Desde o período da conquista. constmíram um altar como um lembrete permanente da relação familiar com as tribos cisjordânias. a questão principal é o requerimento feito por aqueles que ficaram em Jerusalém. a opinião popular entendia que o favor de Yahweh estava.6. conectado com a terra sancta. Esta noção tem uma longa história em Israel. Destacar este comentário é o mesmo que dizer que se aproximar de Yahweh é dependente de sua presença física na terra de Yahweh. As únicas pessoas dignas do nome “Israel” estão no exílio. A própria citação consiste em três partes. Se o foco da atenção está nos exilados. o que obviamente deve significar que também estejam longe de Yahweh. estão longe de Yahweh. O fato de não habitarem a terra . A primeira parte. Mas a alienação recebe uma característica perversa . enquanto retomavam à terra ao leste do rio (Js 22). que não compartilharam deste destino. o fato de continuarem morando em sua própria terra é um sinal óbvio e definitivo de sua posição mais favorecida em relação a Yahweh. O uso desta expressão coletiva mais a adição de kullõh na frase de abertura de Yahweh entrega o alvo de sua simpatia. a afirmação deles levanta o tema da alienação divina que foi introduzida em 8. A ocupação do território fora das fronteiras oficialmente delineadas da terra prometida criou um sério dilema para eles. o escopo da preocupação de Yahweh é ampHado pela expressão toda a casa de Israel (kol-bêt yisrd ’el). de alguma maneira. interpreta teologicamente o compromisso dos exilados. expressada explicitamente em 8. Em vez de expressar sofrimento pela deportação de seus compatriotas com comentários do tipo “eles estão longe de nós”. A citação no versículo 15b reflete a arrogância do povo de Jerusalém e a perspectiva ilusória deles.

Como se já não fosse o suficiente ser obrigado a sair da terra pelos inimigos. Sua ambiguidade é esclarecida pela terceira sentença. Noções similares aparecem em outros pontos no Antigo Testamento. “pertence a nós”. Muitos dos exilados chegaram a conclusões sem dúvida similares quanto à expulsão da terra. “possessão”. Em 1 Samuel 26.“ A seriedade com a qual os estrangeiros (não israelitas) acreditavam nesta conexão entre o território e a deidade é refletida na história de Naamã.^® Embora o preâmbulo tenha sugerido que Yahweh havia informado sobre esses acontecimentos àqueles que ficaram na terra por intermédio de uma revelação direta (Yahweh dá a informação sobre o que aqueles que estão vivendo em Jerusalém estão dizendo).. môrãsâ.14-15 Prkâmbulo E TESF. e usando sua .^’ O verbo nitténú “é dado”. A ausência de um antecedente para o pronome feminino em lãnú hV.15-19).. A rejeição por parte dos compatriotas deve ter devastado o moral dos exilados. e promovem a si mesmos como os únicos verdadeiros herdeiros da promessa patriarcal antiga (Êx 6. dá a impressão de um slogan muito repetido. é uma variação característica ezequieliana da palavra deuteronômica yéruisâ. a perda espiritual dos exilados havia resultado no ganho material daqueles que permaneceram na terra. Mas Davi está determinado a não morrer longe da presença de Yahweh. pela qual os residentes de Jerusalém afirmam serem os herdeiros da terra que os deportados deixaram para trás. isto provavelmente só confinnou o que ele e seus compatriotas estavam aprendendo por meio dos canais comuns de comunicação. levar uma carga de terra de dois mulos. deve ser construído como um passivo divino pelo qual aqueles que ficaram dentro “do território de Israel” repudiam todo o interesse dos exilados para a terra. interpretando o destino deles como um sinal da traição de Yahweh. Em vez disso.11.. De acordo com o segundo e o terceiro elementos na citação.8). Depois que Elias curou o general arameu. 333 poderia evidentemente levar à negação do acesso a Deus. agora são traídos pelo próprio povo. ele expressou sua determinação em continuar o relacionamento com 0 Deus da Terra e pediu que lhe fosse permitido “. recebe a orientação para sair e servir outros deuses.19-20 Davi interpreta a cruzada que Saul levantou contra ele como uma tentativa de impedir que tivesse “parte da herança de Yaweh” (nahãlat yhwh)..” de Israel para Damasco (ver 2Rs 5.

Ironicamente. O anúncio que Yahweh faz no versículo 16b é revolucionário em vários aspectos. é que estavam se alienando de Yahweh por sua conduta diária e afirmações arrogantes.13). Mas não precisavam dessa rejeição por parte de seus compatriotas de Jerusalém. Agora este profeta. A primeira delas. A expulsão da terra de Israel não deve ser interpretada como uma alienação de Deus. para onde tinham sido banidos. Por outro lado. prometendo estar com os exilados em solo estrangeiro. isto é. cujo envolvimento com o clã 0 leva a defender a centralidade do templo.^’ Sem dúvida. “um pequeno . Yahweh promete ser para os exilados o que o templo havia. ele personaliza um lugar de adoração: eu me tornei o santuário deles [dos exilados]. O templo serviu como um sinal visível da presença de Yahweh entre eles e como um símbolo do status deles como povo de Yahweh. Ezequiel mesmo foi herdeiro na tradi­ ção na qual a noção do santuário. por intermédio de duas linhas paralelas enfáticas. quanto 0 canal pelo qual alcança Israel. estava no coração da autoconsciência espiritual de Israel. Por um lado.334 O LIVRO DE E z e o u i e l alienação em relação a eles como um pretexto para o mal. afirma seu envolvimento na expulsão dos exilados da terra que lhes pertencia. mas fiinciona de forma ambígua. no momento. Esta afirmação é sem paralelo no Antigo Testamento. mè'^at obviamente funciona como um modificador minimizador.™ O santuário era normalmente enten­ dido como um lugar de culto ou um prédio destinado ao sagrado pela presença da deidade. muda o lugar de adoração. c. A reputação (11. numa terra imunda (cf 4. sido para eles em Jerusalém. anuncia a possi­ bilidade de um relacionamento com Yahweh longe do templo! Talvez fosse esta ligação com a tradição que levou Yahweh a qualificar a promessa: em pequena medida. A crítica que faz às afirmações cínicas dos de Jerusalém consiste de duas partes. até então. do lugar-sagrado.16) Mas Yahweh não tem nada disto. Segunda: ele desafia suas teorias com respeito à natureza das relações territoriais divino-humanas. Tanto o conteúdo desta afirmação é impressionante.^' Aqui. Pode ser interpretado de fonna adjetiva. aqueles que viviam em Jerusalém. o povo em Jerusalém teria aplaudido este anúncio.

mas seus próprios encontros. a expressão pode também ser entendida adverbialmente. começando com sua visão inaugural. ofereciam prova concreta da verdade da declaração de Yahweh. e com isto o direito de propriedade por parte dos exilados. A antítese (11. a glória já havia saído do santuário. 16) com afirmações indubitáveis da libertação futura (vs. justapõe um lembrete do julgamento passado dos exilados (v. “uma pequena ajuda”.l l . l 7-20 A ANTÍTESE 335 santuário”. a afirmação de Yahweh representa uma refiitação direta em relação às afirmações daqueles que estavam morando em Jerusalém. Apesar desta qualificação. 17-20).No entanto. A tradução “em pequena medida” tenta preservar a ambiguidade. os companheiros de exílio de Ezequiel constituem sua audiência principal. De acordo com o capítulo 10. “por um pouco de tempo”. Yahweh trata diretamente com os exilados. Yahweh não estava somente afimiando seu compromisso com os exilados. Se o kãbôd de Yahweh se mantivesse no templo. O momento dessa afirmação e o local contextual desse oráculo são cruciais. no entanto. A palavra dirigida a eles é dividida em duas partes: uma série de promessas. e um aviso exortativo curto. este oráculo teria sido anacrônico.^“ Como tal. embora a visão do templo como um todo e o atual debate até aqui trataram principalmente sobre a situação em Jerusalém. nem com a mesma permanência como anterionnente. o que é sem dúvida intencional. em Daniel 11. dando uma pista sobre a duração limitada do exílio. no versículo 18 Yahweh recomeça seu estilo de refutação.^. d. comparável a ‘^ézer mé^^at. “por uma extensão limitada”. As promessas divinas nos versículos 17 a 20 infundem nesta discussão um sabor de um oráculo de salvação. ” quer no sentido qualitativo.24. dando àquele prédio um caráter profano como qualquer outro. falando sobre os exilados na terceira pessoa do discurso. quer no sentido temporal.” A mudança temporária da terceira para a segunda pessoa no versículo 17 relembra o leitor que. Ezequiel não oferece pista alguma sobre como os exilados poderiam experimentara presença de Yahweh entre eles.^* No entanto. sugerindo que a presença de Yahweh não seria experimentada nem pelo mesmo grau. ao minimizar o papel do templo em Jerusalém enfi-aquece aos poucos suas afirmações exclusivas para o favor deles. .17-20) Depois de ter rebatido as afirmações arrogantes de Jerusalém.

2). a res­ ponsabilidade por varrer a terra de suas contaminações foi deixada como responsabilidade do povo. significará o desfazer o passado deles. As promessas também enfatizam que como o julgamento foi obra do próprio Yahweh.336 O LIVRO DE E z e o u i e l Visto como um todo.18) e a posse da terra de Israel no comando de Josué (Js 1. e o estabelecimento de toda uma nova ordem. e seu retomo á terra que lhes pertence. Embora estes versículos iniciem com a promessa de um transplante de coração/mente. a construção sintática deixa claro que o objetivo verdadeiro é o estabelecimento da aliança de Yahweh com seu povo.“*®a terra para onde os exilados retornarão havia se tornado poluída . inclusive as causas que leva­ ram ao julgamento. 19-20 A nova aliança. A ordem na qual estão apresentadas é tanto lógica quanto cronológica. Ao fazê-lo. Yahweh anuncia que depois de recompor o povo lhe dará (nãtan) a terra de Israel. lutaram para conquistar dos cananitas. O primeiro passo na renovação de Israel é por meio da restauração do relacionamento território-povo anteriormente rompido. Ainda que Yahweh prometera libertar seu povo ele mesmo. Numa clara contradição das afirmações dos moradores de Jerusalém. da mesma maneira a libertação será resultado de sua própria intervenção direta a favor deles.” Esta declaração será ecoada muitas vezes nos orá­ culos de Ezequiel quanto á libertação. O ajuntamento dos exilados é descrito por meio de duas linhas paralelas intencional e semanticamente constmídas para espelharem o lembrete do julgamento no versículo 16. originalmente. e em termos que lembram a promessa patriarcal (Gn 15. Os versículos 17-20 anun­ ciam cinco mudanças fundamentais no relacionamento de Israel com sua terra e com seu Deus. Isto envolve dois estágios: o reagrupamento dos exilados es­ palhados.“*' Mas o pré-requisito para tal evento é . Assim como o território que os israelitas. 17 O novo êxodo.contaminada pelos séculos de condutas detestáveis (siqqúsim) e abomináveis (tô‘^àbôt). enfatiza o fato que a libertação dos exilados envolverá muito mais que meramente reverter os efeitos do julgamento. mas nào por pagãos. porém pelos próprios israelitas. a antítese de Ezequiel fornece um impres­ sionante resumo compreensivo da natureza e dos efeitos da restaura­ ção de Israel.^® 18 A nova terra.^® Uma terceira coluna completa 0 processo.

l l . em que “um novo espírito” se mistura com “meu espírito”..39).. seu contemporâneo mais velho havia declarado o seguinte (Jr 32. o próprio poder dinâmico de Yahweh. embora à luz de seu uso no versículo 5. em que Ezequiel fará um apelo ao povo para que façam para si mesmos um novo coração (lêb hãdãs) e um novo espírito (rúah hãdãsâ). “. Assim como em 18..3. seus corações foram atrás de seus ídolos”. os corações dos israelitas.26-27.“- A exposição que Ezequiel faz das palavras de Jeremias começa com dois belos comentários apresentados em paralelos quiásticos sobre o tema de um só coração: wènãtattí lãhem lêb ’ehãd wêrüah hãdãsâ ’ettên bêqirbèkem Eu lhes darei um só coração.“’ . Mas a intenção de Yahweh é inculcar em seu povo uma unicidade de coração que se expressa a si mesma ao centralizar e colocar como exclusiva a devoção a ele (Jr 32. Como é comum em outros pontos no livro de Ezequiel. Num contexto similar ao anúncio que Ezequiel faz quanto à restauração. A antítese de lêb ’ehãd é a insinceridade. funciona como o correlativo de lèb. anteriormente. lêb designa “o lugar do desejo moral”.. e terem dois corações. O problema com os corações dos exilados se expressa mais explicitamente em 14.“'^ Ezequiel. l 7 -2 0 A ANTÍTESE 337 uma reconstituição fundamental do povo. ou um coração duplo. “ .31. a questão é claramente antropológica . “espírito”.a transformação do espírito humano. Isto se contrasta com 36. estes homens erigiram seus ídolos em seus corações”. o local da vontade moral. rúah como o local do pensamento não é algo impróprio.39): wènãtattí lãhem lêb ’ehãd wéderek ’ehãd lèyir’â ’ôtí kolhayyãmim Eu lhes darei um único coração e um único caminho para me temerem todos os dias. isto é.16. isto é.“” Na segunda linha. descreveu o cansaço de Yahweh em relação aos “corações promíscuos que se afastaram dele”. e em 20. E um novo espírito colocarei dentro deles. A forma das afirmações de Ezequiel vai contra a influência de Jeremias. rúah. a duplicidade.

As boas-novas para os exilados alcançam o clímax no versículo 20b com 0 anúncio formal da renovação. começando com o compromisso de Yahweh de ser o Deus de Abraão e seus descendentes (G nl7. tanto em Ezequiel quanto em Jeremias. Ap 21. a remoção do órgão defectivo e fossilizado e sua substituição por um coração compreensível e sensível.2-7). previamente descrita como “de coração duro” (hizqê lêb 2.” Embora as nações . Sua preeminência. com base nas palavras de Jeremias. e a formulação do pacto no monte Sinai.“’ Quando Yahweh tiver executado sua operação milagrosa em Israel.“’ esta fórmula expressa um relacionamento de compromisso e intimidade. e o u i e l Ezequiel vai além. a antiga ideia será finalmente realizada. Assim como em 5. “um coração de carne” (lêb bãsãr).7).4) e “coração teimoso” (qèsê lêb. é baseada numa longa história. Derivada de uma tenninologia legal antiga.“**mas na declaração eles se tornarão meu povo. Nesta afírmação. O objetivo desta operação é defmido no versículo 20.39. a fidelidade a Yahweh expressa na obediência de todo 0 coração ao seu pacto.7-8). especialmente o v. e até mesmo no Novo Testamento (2Co 6. Jr 8. 3. O termo bérít não aparece.4-12. especificamente a cerimônia de casamento. que ecoa e reverbera como um refino por todo o Antigo Testamento. e eu me tornarei o seu Deus. Ezequiel também menciona seu total acordo com a declaração anterior de Jeremias: a posse da lei de Yahweh (tôrâ.338 O LIVRO DE E / . pode se interpretar o versículo 20 como uma exposição do “único caminho” de Jeremias (derek ’ehãd).’° O compromisso de Yahweh com os patriarcas forneceu a base para a libertação dos israelitas do Egito (Êx 6. o leitor se depara pela primeira vez com o que é geralmente conhecido como “a fórmula de pacto”.3). esta fórmula. a lei deve ser obedecida.6-7. ao descrever a renovação em termos de um transplante de coração.“* A expressão “coração de pedra” (lêb h ä ’eben) concretiza a disposição dos israelitas. representa um dos temas unificadores de toda a revelação bíblica. de seu pacto com seu povo. A única solução para um povo como este é uma cirurgia radical. por parte de Yahweh.16. Porque o versículo 19 funciona como uma expansão da noção de Jeremias quanto a “um coração único” (lêb ’ehãd) em Jeremias 32.” De fato. os decretos (huqqôt) e as leis (mispãtim) representam a totalidade da vontade divina exposta nas estipulações do pacto. nem é garantia do favor divino. 8) não é prova da verdadeira religião.

Mas o Deus de Israel havia entrado em um relacionamento pactuai com seu povo.” Com a fórmula signatária conclusiva. nem pelo fato de serem exilados. se de fato é assim. assim. é também único. Epílogo (11. 11.’^ e. Quem Yahweh tem em mente quando fala “quanto àqueles cujo coração se compraz em seus ídolos” e “cujo coração vai atrás de suas práticas abomináveis”? Dentro do contexto mais amplo. o relacionamento pactuai de Yahweh com Israel é sem paralelos.2 1 E p íl o c ío 339 do antigo Oriente Próximo tivessem o privilégio de um relacionamento especial com suas respectivas deidades protetoras.’“ e a natureza contingente do relacionamento renovado.1 1 . a atenção de Ezequiel retomou àqueles cujas afirmações havia anteriormente refutado. em segundo lugar como os deuses dos habitantes daquelas terras. Eles também devem abandonar seus caminhos abomináveis para que Yahweh não leve suas condutas sobre suas próprias cabeças. declaração do Senhor Yahweh.14-21 representa uma unidade literária relativamente independente. uma afirmação destas vindo após o anúncio do novo pacto parece destinada principalmente para a audiência imediata de Ezequiel. em vez da terra. pode-se considerar sua . ♦ Implicações teológicas Assim como a unidade anterior. Os compatriotas banidos do profeta não devem esperar herdar as bênçãos do relacionamento pactuai automaticamente. A primeira metade do versículo 21 é textual e conceitualmente problemática. De fato. No entanto. Fora de Israel as deidades eram geralmente entendidas primeiramente como deuses de seus respectivos territórios. O dom da terra foi uma demonstração do pacto. o interesse principal de Yahweh na nação. Sua palavra se coloca como testemunha firme contra aqueles que se manifestariam erroneamente como sendo seu povo especial. a formulação parece sumariar as acusações apresentadas contra os moradores de Jerusalém no capítulo 8.21) O oráculo conclui com um lembrete encorajador que os benefícios prometidos por Yahweh não devem ser desprezados. não um pré-requisito para ele. lembrando aos exilados do perigo contínuo da condição atual deles. Ezequiel sela este debate com uma assinatura verbal de Yahweh.

O vácuo deixado pelo banimento da classe governante estabelecida em Jerusalém por Nabucodonosor fez que muitas pessoas de classes mais simples tivessem a oportunidade para a liderança. violaram tanto as leis comuns da comunidade quanto as leis divinas a respeito da inviolabilidade de patrimônios. Para o verdadeiro israelita a afirmação do relacionamento pactuai com Deus é congruente com a piedade genuína e a compaixão pelos outros. Segundo. o verdadeiro Israel é reconhecido não pelas marcas extemas como a circuncisão (Rm 2. Mas por sua graça. mas não podem resolver o problema fundamental humano . ou sua presença na terra santa próximo ao templo (Ez 11. Deus oferece seu pacto para os pecadores.27-29). transforma o ser interior deles. Todos aqueles que se saem muito bem nestas coisas extemas podem ser aqueles que Deus rejeita. conforme estabelecido em sua vontade revelada.” Mas este oráculo declara que aqueles que são culpados de tal arrogância e abuso enfrentarão rejeição por Deus. assim como o oráculo anterior. este debate afirma que aqueles que ocupam posições de autoridade devem estar atentos sobre a tendência que o poder tem para corromper. 6-7). o desenvolvimento econômico e a renovação das estruturas políticas podem melhorar os sintomas de uma humanidade falida.um coração que é duro e disposto contra Deus. Terceiro. e justiça.8). Ao fazê-lo. Mas esta classe de nouveaux noblesses se tomou tirânica na disposição de suas responsabilidades. moralidade.340 O LIVRO DE E z e q u i e l mensagem teológica permanente de forma separada da narrativa da visào na qual está inserida. se apropriaram indevidamente das propriedades daqueles que já haviam sido cerceados de sua liberdade e dignidade. e os coloca em um novo curso para seguirem uma vida de fé. e caridade para com os outros. A verdadeira espiritualidade não se expressa afimiando-se as promessas de Deus ou repetindo dogmas teológicos de cor. especialmente para com aqueles que têm sido marginalizados. mas por uma obediência deliberada ao Senhor do pacto. mas por um ato transformador de Deus. o fato de possuírem a lei (Jr 8. . a renovação espiritual não é alcançada pelo esforço humano. Primeiramente. terem fidelidade para com sua vontade. Deus valoriza aqueles que demonstram fé por odiarem o mal. compaixão.'* Além de brutalizar seus companheiros (vs. A educação.14-22).

Para aqueles que andam com Deus há sempre uma luz no fim do túnel. este oráculo serve como uma poderosa testemunha da fidelidade pactuai de Yahweh. 25 relatei aos exilados tudo que Yahweh havia me revelado. Esses quatro versículos fornecem uma conclusão formal à pri­ meira visão do templo por parte de Ezequiel.2 2 -2 5 E p Il o ü o u a v i s ã o d o t e m p l o 341 Quarto. Depois que a visão que eu estava observando se foi. com as rodas ao lado deles e a glória do Deus de Israel flutuando sobre eles.’’ Agora. em uma visão [inspirada] pelo Espírito de Deus. 2A Ao mesmo tempo.22-25) 11. e os versículos 24 e 25 narrando o retomo do profeta à realidade. 22-23 Aparentemente. os versículos 22 e 23 descrevendo a cena final da visão atual.22 Então. Como já foi indicado. e teria justificado o fato de ter deixado a nação se perder do conglomerado da população do império. A correspondência verbal entre os versículos 22 e 10.' o Espírito me tomou e mefez flutuar de volta à Caldeia. os querubins levantaram suas asas.’** A infidelidade de Israel isenta Deus de todas as obrigações beneficentes pactuais para com aquela geração. mas reverte a ordem na qual os temas principais são mencionados. quando Yahweh havia tenninado sua refutação das afirmações falsas dos moradores de Jemsalém quanto à propriedade e aos privilégios de seus compatriotas exilados. Sua promessa para restaurar a nação de Israel à sua terra e renovar seu pacto é baseada na irrevogabilidade das promessas feitas aos pais e ao casamento realizado no Sinai.1 -4. Porém. estrutural e conceitualmente este epílogo responde ao prólogo em 8.1 1 . a contemplação do profeta retoma à carmagem-trono celestial. mesmo antes que o cálice da ira de Yahweh fosse esvaziado. envia uma nota promissória de restauração àqueles que foram traídos por seus compatriotas. 7. EPÍLOGO DA VISÃO DO TEMPLO (11. as maldições pactuais antigas haviam impedido alimentarem esperanças de um novo ato de graça para a nação após o julgamento (Lv 26.40-45). 23 A glória de Yahweh ascendeu do meio da cidade e parou na montanha a leste da cidade. Ela fora observada pela última vez parada no portão leste do átrio interior do templo. A conclusão consiste de duas partes. ao menos de acordo com a forma atual da narrativa da visão.19 sugere uma retomada intencional . aos exilados.

^ O voo até a montanha leste da cidade marca o estágio final no itinerário do kãbôd como observado pelo profeta. Será que a glória tomou o mmo da Babilônia em cumprimento à promessa de Yahweh de ser miqdãs mè‘^at.e de volta à realidade. vê a si mesmo pego pelo Espírito e levado de volta á sua casa no exílio . incluindo a visão de Daniel dos Dias Antigos em 7.9-10 e 13-14. Ezequiel viu a glória sair do templo e ir em direção ao oriente.“ mas uma tradição posterior parece entender isto assim. em relação a uma pessoa dentro da cidade. no entanto. que aconteceu mais de um ano mais tarde. nada sobra a não ser uma nota explicativa que o profeta compartilhou toda a experiência com os exilados.® De qualquer maneira.. quando numa maravilhosa visão da esperança futura de Israel a história é invertida e a glória retorna da mesma direção de onde havia saído (43.342 O LIVRO DE E z e o u i e l daquele episódio. oferecendolhes assim 0 mesmo conforto que Ezequiel havia recebido no momento de sua inauguração?^ Parece que não. 16). mas logicamente a seqüência de eventos provavelmente teria sido algo assim: em uma visão inspirada pelo Espírito de Deus. Os dois textos colocam o merkabah nos céus. pois esta solução conecta a visão inaugural do profeta muito de perto com esta visão do templo.* Tendo anunciado o seu retorno à realidade. Nenhuma dica é dada quanto à reação deles.1 -11. uma referência presumivelmente aos anciãos que estavam sentados diante deles. Devemos.1-5). 0 Monte das Oliveiras representa o horizonte oriental. com a glória divina deixando o Monte das Oliveiras e desaparecendo no céu oriental. 24-25 A saída da glória da cidade também sinaliza o fim da teofania. “um santuário limitado”.’ e a visão de João do Senhor entronizado em Apocalipse 4. Ela não reaparece novamente em 20 anos. Mas o final da atual visão reflete sua preocupação principal: a partida de Yahweh do templo. visualizar a carmagem-trono transportando a glória de volta a seu lugar eterno e real nos céus. me deixou fecha a cortina ao drama visionário.’ A constmção do versículo 24a é estranha. A afirmação a visão. para os exilados (v.. De qualquer modo. . Ezequiel não fomece maior informação quanto às viagens do merkabah ou seu destino fínal. Era de se esperar um episódio final. Ezequiel não oferece confirmação alguma desta interpretação.

a falsa idolatria leva à falsa moralidade. Segundo. além do mais. A inter-relação entre adoração e moralidade é mencionada em 8.1 1. Primeiramente. Mas Deus não será zombado. Como Deus pode decretar a eliminação de toda uma população. A menos que o encontro com Deus produza uma determinação mais firme para fazer a vontade de Deus. o capitulo 8 ilustra a falha da duração maldirecionada. Uma adoração formal autêntica permite que Deus seja Deus em seus próprios termos e se submeta a essa divina autodefmição. O que vem a seguir representa sugestões provisionais para a sua relevância hoje.17: as abominações no templo eram acompanhadas de atos sociais de violência. agindo com base na boa vontade do Senhor do pacto. essas expressões somente provocaram sua ira e fecharam seus ouvidos. é uma terrível coisa cair nas mãos do Deus irado. A imagem do julgamento apresentada no capítulo 9 é ofensiva ao leitor modemo. A religião verdadeira é demonstrada não somente na conduta ética. Em vez de responder ao status especial deles com gratidão e humildade. Onde as pessoas presumem defmir o caráter de Deus. Se ele exigiu a eliminação dos cananitas por causa de sua depravação. quando os . No entanto.2 2 -2 5 E p ii.o flo UA vis. estavam sinceramente enganados. também tendem a redefmir os próprios padrões éticos.Ão m tem plo 343 ♦ Implicações teológicas A primeira visão do templo que Ezequiel tem é profunda não somente pela visão que proclama de Deus. mas também na adoração aceitável a Deus. é uma utopia. Qualquer coisa coloca o adorador acima da deidade. Em vez de serem ouvidas por Deus. Terceiro. mas também por sua análise da alma humana. A verdadeira adoração é dirigida pelo Espírito de Deus e centralizada na realidade de sua pessoa. os israelitas se tomaram arrogantes. que é a essência da idolatria. a adoração não foi conduzida em espírito e em verdade. A adoração não somente oferece uma oportunidade para expressar um relacionamento fundamental de alguém com Deus. Os anciãos na sala escura e as mulheres chorando a Tamuz parecem ter sido sinceros em suas expressões rituais. incluindo inocentes? Mas a füria da ira divina deve ser percebida em relação ao pano de fundo de sua graça. também forma o caráter do adorador.

De acordo com Paulo. quando Deus abandona seu povo.19-20). Sexto. Quarto. E nada tem mudado. e para os humanos definir espiritualidade em ter­ mos de proximidade com sua casa é uma ilusão.22-53). De fato escolheu o Monte Sião como o lugar para o seu nome pemianecer. e pelos meios que quer. nenhuma força humana ou angelical poderá defender a cida­ de contra seu agente. e é travada nos céus (Ef 6. de onde pode responder a todos os que invo­ cam 0 seu nome. eles não podem esperar um destino diferente do deles (Dt 8. Uma vez que Yahweh decretou a queda da cidade e partiu de seu templo. não parte como um cativo de algum invasor estrangeiro. A rejeição humana pode fazer que deixe o lugar terreno de sua habitação. desejoso de provar a superioridade de seu deus sobre o residente divino da casa local. e sua glória residiu ali no templo como um sinal visível de sua presença (cf. perde todo o direito a seu favor e à sua proteção. Quinto. na hora que quer. eventos históricos são de fato reflexões de realidades de­ terminadas no plano celestial.1020). Pois sua verdadeira habitação é no céu (IRs 8. mas com a partida da glória do rei dos céus de seu templo. Deus não está amarrado a qualquer lugar ou a qualquer altar. Da perspectiva de Ezequiel. Mas somente os olhos da fé reconhecerão que a queda de Jerusalém pelas mãos dos babilônios não foi um sinal de sua morte. SI 132.344 O LIVRO DE E z e o u i f x israelitas se comportaram como os cananitas. De acordo com a visão de Ezequiel. Somente os olhos da fé reconhecerão que ao abandonar voluntariamente seu templo estava entregando o seu povo nas mãos do inimigo. o invasor. a principal batalha ainda é espiritual.14). Quando sai do templo. . por razões próprias. Yahweh abandona a cidade por decisão própria. mas não será encaixotado por uma casa construída com mãos humanas. mas permane­ ce entronizado nos céus. a virada na história de Israel não veio com a ascensão de Zedequias ao trono ou mesmo com os babilônios capturando Jerusalém. o Senhor permanece soberano sobre seu próprio destino.

1-8.1-16.45-49).1-14 c.23-32 (em português.1 -14.6-22 (em português. Profecia contra o rei da Babilônia: 21. Oráculos de controvérsias: 12. 20. 14. 18-27).1 -22.111. 28-32). 23.21-25. 21.15 (em português. 28-32) h. Sinais-atos dramáticos: 12.1-24. 21. 12.1-14^ c.1-16. 15.1 2 . 17.1-44. extensão e assunto. As profecias organizadas aqui variam grandemente na forma. 18-27) e.1-8.2 7 U ma C O L E Ç Ã O D E P R O F E C IA S D E A IS C O N T R A I s r a e l 345 III.1-14'' g. 24. Profecias parabólicas: 15. Com respeito ao assunto: a. Estudos de casos legais: 14.1-63. 21.45-49). 12.1-16.1-49 e.17-20.12-23.1-11. 14. 24. estilo.23-31 d.1 -49.1-5 (em português.27) ♦ Natureza e desígnio Os capítulos 12 a 24 constituem a terceira seção das mensagens de Ezequiel de destruição e declínio para a sua nação. 22. 1-17). 14.21.22. 13. 16. 17.17-20.21-25. 21.17-23 d.1-63. Profecias contra falsos profetas: 13.1 -2 4 .^20. UMA COLEÇÃO DE PROFECIAS DE AIS CONTRA ISRAEL (12.33-37 (em português. 24.15-27 b. 16. Formas variadas: 21. Oráculo de ais: 13. Profecia a respeito dos filhos de Amom: 21. Pode se agrupar as unidades textuais de várias maneiras conforme a conveniência em relação à repetição tanto do assunto quanto da forma: 1. 1-17).17-22 f Lamentação: 19.6-22 (em português.1-44.33-37 (em português. 18.17-23. 12. 22.’ 22. 19.12-23.23-32 (em português.1-24. Com respeito à forma:' a. Profecias contra a dinastia: 12. 2.23-31 . Um oráculo contra uma nação estrangeira: 21. 12. 13. Profecias contra Jerusalém/Israel: 12. 24.15-27 b. 23.26-28.1-32.1-16.1-32. 20.26-28. 22. 18.1-16.1-24.

à vista deles. assunto e na intensidade do envolvimento profético. para um outro lugar. 3 Agora.21-14. Diferem muito na extensão. mas não ouvem —porque são casa rebelde.19).1-16 e 12. “sinal” (12. mas não veem. Mas você deve ir à tarde.346 O LIVRO DE E z e q u i e l A primeira vista. você está vivendo no meio de uma casa rebelde*" — um povo que tem olhos para ver.116.24).6. mas que é ausente em outros pontos: ( 1) ambos relatam a submissão do profeta com o comando divino (12. confirmando a impressionante criatividade. Talvez vejam. Cinco oráculos a respeito da natureza da profecia verdadeira e da falsa são ajuntados em 12. à vista deles. ï A seguinte mensagem de Yahweh veio a mim: 2 "homem. 24. 5 A vista deles cave um buraco na parede e passe [a m ochilaf' pelo buraco.1-16) 12. homem. para o povo. A. No entanto. versatilidade e também poder retórico de Ezequiel. prepare uma mochila de exílio e vá para o exílio^ em plena luz do dia à vista deles. Entre estas estruturas a coleção de profecias forma um quadro fascinante. vários agrupamentos menores se verificam. MALAS PRONTAS PARA O EXÍLIO (12. ao cair da noite você deve levá-la para fora.11.1-20) A variedade de profecias de julgamento começa com dois sinaisatos. complexidade. (2) ambos citam uma pergunta da audiência requerendo uma explicação do sinal-ato (12. como que saindo para o exílio. 4 Carregue sua mochila. no entanto. (3) ambos identificam o profeta como um môpét.^ Vá para o exílio.18b). SINAIS DOS TEMPOS (12. embora sejam totalmente diferentes na forma. 24. 24. 6 A vista deles você deve carregar'^ a mochila sobre seus ombros. 24. 11.17-20 têm pouco em comum. ” Você .9. Exceto pela natureza dramática semelhante. que apresentam várias características comuns a ambos.15-27). fingindo ser uma mochila cheia para o exílio.6. os oráculos nos capítulos 12 a 24 parecem ter sido organizados ao acaso. ainda que sejam casa rebelde.’’ em plena luz do dia. que tem ouvidos para ouvir. longe de sua residência. 12. dois oráculos que lidam com questões intergeracionais são colocados juntos nos capítulos 18 e 19. Uma indicação posterior de edição intencional pode ser vista pelo fato que esta grande variedade está estruturada por sinais-atos proféticos (12. 1.

8 A seguinte mensagem de Yahweh veio a mim pela manhã: 9 homem. 3-14. introduzida por lãkãn. À noite. a narrativa é mista. Por um lado. 15 E saberão que eu sou Yahweh quando os dispersar por entre as nações e os espalhar por entre as terras. 14 Todos aqueles ao seu redor. Assim como tenhofeito. cujo objetivo é avisar o povo da destruição iminente. Ele cobrirá sua face porque com seus olhos que não verá a terra. a fórmula de reconhecimento na conclusão .12 . 2) seguida pelo anúncio de uma sentença (vs. com sua abertura acusativa (v. espalharei por todos os ventos. da praga pouparei alguns deles. casa rebelde. Então. Por outro lado. da mesmaforma será feito com eles ’. E saberão que eu sou Yahweh ”. de maneira que possam descrever todas as suas abominações entre as nações às quais foram. e ali morrerá. “ Carreguei-a sobre meus ombros à vista deles.'’ 11 Anuncie: ‘eu sou seu sinal.'* fingindo que era uma mochila cheia para o exílio.1 . fiz exatamente como me mandou.-" Eles escavarão^' através da parede para tirar fa ele]^ para fora. segue a estrutura de um típico oráculo de julgamento. o trarei para a Babilônia. junto com toda casa de Israel que está nela ’. ao cair da noite sairá. Com respeito ao gênero. suas forças-* e toda sua tropa. tem te perguntado: 'o que você está fazendo? ’ 10 Diga-lhes: ‘isto é o que o Senhor Yahweh declarou: o príncipe é esta carga'* em Jerusalém. “portanto”.'^ a casa de Israel.16 M a l a s p r o n t a s pa r a o e x íl io 347 deve cobrir sua face de maneira que não veja o chão. a terra dos caldeus. A parada após o versículo 16 é reforçada por uma nova fórmula palavra-evento no versículo 17. 16 Mas da espada.A o cair da noite eu peguei a mochila e sai. pois lenho feito de você uma lição de objeto para a casa de Israel. Para o exílio. sobre seus ombros carregará. 7 Então. para o cativeiro irão.^^ 13 Eu lançarei minha rede aberta sobre ele e será pego em minha armadilha. furei um buraco através da parede com minhas m ã o s . ♦ Natureza e desígnio As fronteiras desta unidade literária são colocadas pela fórmula palavra-evento no versículo 1 e por uma versão complexa da fórmula de reconhecimento nos versículos 15-16. e desembanharei minha espada após eles. De dia peguei minha mochila. da fome. Agora ele não o verá. veja só. 12 Quanto ao príncipe que está no meio deles.

7ab. a narrativa apresenta um estudo fascinante sobre percepção e cegueira. e “escuridão”. e posteriormente ele ter ficado cego (Jr 39. que muitos dos comentaristas referem como erros na transmissão. um inserto secundário. refletindo os estágios na evolução do texto. e (3) uma interpretação do desempenho (vs. ao menos até o versículo 12. Combinado com as observações anteriores da crítica da forma.“ Mais recentemente. 7). 8-14). (2) um relatório de sua execução (v. “luz do dia”. como observo a seguir. e também sua captura e eventual cegueira são comumente interpretadas como vaticinium ex eventu (“uma profecia após o fato”). 15-16) dá uma característica de um dito de prova profética. Mas há mais. Zimmerli reduz o texto básico aos versículos 1-4. prenunciando um evento cuja ocorrência levará o remanescente dos israelitas a um novo reconhecimento de Yahweh. O anúncio do julgamento toma forma de uma apresentação dramática.^* Ao justapor palavras como “olhos”. As alusões à fuga de Zedequias. a repetição e a distribuição destas expressões dentre os respectivos segmentos da narrativa causam a impressão de uma unidade muito bem ajustada. No passado. Primeiramente. em princípio Ezequiel deve ter pennitido . é aconselhado um cuidado em não se excluir segmentos com base na dissonância. várias tensões são refletidas nos desvios em relação à versão do TM. “ver”. estas dificuldades foram atribuídas às distâncias cronológicas entre o desempenho do profeta e a ordem para escreverem. a descrição que é formatada na forma clássica de um sinal-ato profético:“ (1) um comando para executarem uma dramatização (vs. 3-6). levando em consideração que cavar através da parede é uma reflexão posterior da fuga noturna de Zedequias pela brecha no muro da cidade. porque a cegueira dos cativos era uma prática comum no oriente próximo antigo. A nào ser pelo estado confuso dos versículos 1Ob e 12b. Esta unidade traz problemas textuais significantes. O impacto retórico de um trabalho literário é geralmente determinado por surpresas estilísticas e redundâncias.11. 7d -9 . Por exemplo. eruditos têm discutido que as tensões são literárias.^’ Embora os problemas levantados pelo texto sejam óbvios.^ Mas se pode questionar esta abordagem de diversas maneiras.348 O LIVRO DE E z e q u i e l (vs. Estas características são destacadas no comentário. na repetição e nos padrões modernos de consistência.6ac.2-7).

e também deve ter surpreendido Ezequiel. No entanto. Mas isto não limita o significado ou o poder da mensagem. ele seguiu sua missão como alguém dirigido por Deus.30-33). (3) as funções dos respectivos buracos: uma maneira de escapar versus uma maneira de entrar. 5. Embora a audiência de Ezequiel o considerasse um entretedor (33. 8. 12 versus laylâ em Jr 39. 5 versus bãqa^^ em Jr 39. as vagas referências a “ver” e “não ver” não são mais que dicas de como isto poderia acontecer. a maneira na qual estas palavras são cumpridas (isto é. As diferenças dos detalhes desta profecia com os relatos históricos são consideráveis:“ (1) a localização das paredes: uma casa. e quanto ao horário da fuga (bõ‘^ãlõtâ nos vs.2). Cooke estava correto: não era costume dos profetas predizerem o futuro em detalhes. especialmente se a intenção principal do redator fosse explorar literariamente este fascinante tema. e a maneira do seu cumprimento pré-determinado. De fato. para a ação envolvida em fazer o buraco (hãtar no v. Terceiro.1 -1 6 M a L. expressões diferentes são usadas para os muros (qír no v.'\S PRONTAS PARA o EXÍLIO 349 certa liberdade para explorar o assunto. reflete a determinação de Yahweh em eliminá-lo.4). Mas o profeta não tinha tempo para tais luxos.1 2 . o curso antecipado dos eventos foi claro. falavam em termos gerais. se a narrativa de Ezequiel foi influenciada pela de Jeremias (ou do historiador deuteronômico). Segundo. se o redator foi influenciado pelos eventos de 586 a.4). versus hômâ em Jr 32. um dos temas centrais de Ezequiel é que Yahweh é um Deus que fala e que executa da maneira que falou. a cegueira de Zedequias) pega o leitor de surpresa. (2) as pessoas responsáveis pelo buraco: o profeta representando o povo de dentro versus o inimigo com seus exércitos do lado de fora.C.^' Este texto . ter sugerido o tema literário da cegueira que domina esta unidade.. 6. geralmente. isto deveria ser refletido por meio dos elos léxicos no texto. No entanto. admitidamente. No evento. versus fortificações de uma cidade. a narrativa deveria demonstrar uma correspondência mais próxima entre os eventos atuais e os registros posteriores. Isso não significa que a profecia e o eventual destino de Zedequias não têm conexão. A fuga noturna de Zedequias (o que era de se esperar) e sua eventual cegueira poderiam. Ao contrário. e com ele seus associados. Da perspectiva divina. (4) as rotas de saídas tomadas pelos fugitivos: pelo buraco versus pelo portão.

que temos em mãos não é uma exceção disto.350 O I. lit.o u i e i . mas parece ter sido apresentada aos exilados e provavelmente escrita antes da queda de Jerusalém. O anúncio de Ezequiel da destruição do príncipe é alcançado pelo uso enigmático da linguagem. sua mensagem é para o povo na Babilônia.IVRO DE E z f . Embora o assunto dos órgãos sensoriais insensíveis pareça ter sido um elemento preeminente na pregação profética. A profecia em si não tem determinação de data. somente na hora do cumprimento é que a possibilidade correta se estabelecia.^^ A imutabilidade deles é descrita em duas linhas paralelas de forma precisa: ‘^ênayim lãhem lir’ôt wélõ’ rã’ú ’oznayim lãhem lismõa^^ wélõ’ sãmé‘ü Tem olhos para ver. “uma casa/uma família em revolta”. a. mas não ouve. Embora o assunto diga respeito aos eventos em Jerusalém. mas não vê. A profecia começa com uma análise divina da condição espiritual da audiência de Ezequiel. forçando a audiência a refletir quanto a seu significado e a considerar o máximo de aplicações possível. “filho do homem”). não por uma predição específica. No entanto. A ambiguidade de muitas expressões no texto é intencional. o povo que havia compartilhado com o destino do profeta.1-2) Esta unidade literária começa no estilo tipicamente ezequieliano com a fórmula palavra-evento seguida por um tratamento direto com 0 profeta como humano {ben-’ãdãm. A acusação (12. e a queda foi importante para confirmar a posição de Ezequiel como um profeta verdadeiro. Essas afirmações parecem baseadas em um famoso provérbio para destacar o problema fundamental da audiência de Ezequiel: recusam-se a responder a um estímulo extemo. que identifica a audiência como membros da comunidade exílica.” a formulação atual parece ter sido influenciada . caracterizado aqui como bêt-hammerí. Ao passo que a profecia prossegue é importante manter em mente o versículo 2. Tem ouvidos para ouvir.

A interjeição das palavras de esperança para os exilados nas profecias anteriores. 28. Diferente de textos anteriores. 2-13] )? Ou seria a não aceitação sobre a conquista de Jerusalém em 598/597 a. De fato. a construção é idêntica. aqui a questão é ter olhos.21b. mas não ouvir (2. exceto pelos infinitivos no meio da oração. todas estas coisas tivessem certa contribuição. . 22-28). podem dar a impressão que os exilados eram espiritual e moralmente superiores.12. que se concentraram em ter ouvidos.1-12 [em português. 4 e 5) quanto os pronunciamentos orais? Talvez. 29.” Ezequiel não discute a maneira como os exilados demonstraram sua rebelião ou sua falta de entendimento. o Senhor do pacto. que haviam se concentrado na condição apóstata do povo em Jerusalém. No entanto.16. assim.7. O texto atual adverte o leitor das profecias de Ezequiel contra uma consideração superotimista das condições espirituais dos exilados.27). que não tinham sido selecionados para a deportação porque eram inerentemente melhores. e sua própria deportação como atos do julgamento divino sobre eles? Estavam esperando uma reversão em seu destino? Será que haviam ouvido sobre as revoltas de Zedequias contra Nabucodonosor e estavam agora antecipando a iminente libertação de Jerusalém e o chamado para que voltassem (ver Jr 27. 3. mas também reconhece que esta experiência não produziu qualquer mudança na disposição fundamental desse grupo. Yahweh afirma. também introduz o Leitmotif desta passagem. A antiga classe alta e os trabalhadores especializados de Jerusalém continuavam a resistir à vontade do seu Senhor. Mas a função retórica do provérbio não está limitada a ligar esta acusação com profecias anteriores. Será que dizia respeito à recusa fundamental em reconhecer a atividade pactuai e redentora de Yahweh a favor deles (ver Dt 29.31)? Ou este comentário foi provocado pela rejeição da própria mensagem de Ezequiel.C. pois. 2 1a) quanto sua teimosia rebelde (vs. tanto as performances visuais (caps. Jeremias havia empregado 0 dito para explicar tanto a insensibilidade do povo (v.1-2 A ACUSAÇÃO 351 em particular por Jeremias 5.3-4. mas não ver. Ezequiel dá um testemunho consistente do fato de que em essência e caráter os exilados eram um com seus compatriotas que estavam em Jerusalém.

antecipando um breve retomo para Jemsalém.” Por sua própria experiência de exílio ter sido relativamente recente.” O artigo em questão é ilustrado em uma série de relevos monumentais neoassírios que apresentam cativos sendo conduzidos em uma procissão com grandes sacolas a tiracolo sobre seus ombros. Estes versículos dividem-se em duas partes desproporcionais. então . cada uma das quais tinha uma enorme signifícância. sem um esclarecimento verbal. ou por que não dizer que é até mesmo ridícula. quem sabe alguns de seus companheiros de exílio deveriam ter ainda seus sacos e os conteúdos guardados. quatro elementos podem ser isolados. 3-4a Primeiramente. a ordem divina para a execução de um sinal-ato (vs. Se não. elaboradas em uma série de imperativos. O texto fala explicitamente de sair para o exílio (gãlâ). e cheios com necessidades básicas para a sobrevivência durante uma longa caminhada como poderia ser pelas ruínas de uma cidade conquistada. “recipiente de exílio”) faz uso do que deveria ser um item comum nas casas dos exilados. e o relatório do profeta sobre sua execução (v. Ezequiel é ordenado a carregar sua sacola para fora de sua casa.“ Os sacos eram feitos de um pano resistente ou de pele. A dramatização (12. mas o povo podia ter interpretado estas ações de maneira positiva. A utilização de kélê gôlâ (lit. Embora os relacionamentos entre algumas dessas ações sejam obscuros. Ezequiel deve aprontar uma mochila de exílio na preparação para uma longa jornada. 7). prescreve uma série de ações. Sobre o que fez posteriormente. As instruções de Yahweh a Ezequiel.3-7) A estratégica retórica escolhida para abordar a condição dos exilados é criativa. Se a casa de Ezequiel representa seu confmamento. o que é muito ambíguo. onde colocou a sacola. Provavelmente deixou do lado de fora da casa perto da porta para que todos pudessem ver.352 O LIVRO DE E z e q u i f x h. Ezequiel provavelmente ainda tinha alguns dos itens da sacola em mãos. 3-6). não está claro.” Podemos somente especular como o povo reagiu a estas ações.^* Segundo. pois os versículos 3-4a enfatizam que estas ações deveriam ser feitas durante a hora do dia (yômãm) à vista de todos. Parece que neste sinal-ato Ezequiel deve novamente concretizar a ordem retórica que Jeremias havia empregado somente de forma verbal.

e então. os babilônios. Nesta ação Ezequiel parece ter trocado de papéis. Parece que onde quer que Ezequiel carregasse a mochila estava mostrando o destino dos residentes de Jerusalém (ele sempre trabalha de dentro para fora). a maneira da descrição é fundamentalmente incongruente. Além do mais. mesmo que o povo não o visse fazendo o trabalho até que tivesse terminado. A objeção sobre esta explicação ao apresentar o profeta mudando de papéis pode ser respondida pelo que acontece. mas perceber o significado das ações do profeta com suas mentes.2).1 2 . 4b-5 Terceiro. Ezequiel deve. que eram geralmente massivas. mas o inimigo.não somente observar com seus olhos físicos. enquanto o povo o vê. A interpretação nos versículos 8-14 deve contribuir para este objetivo. Homens em fuga normalmente fogem por passagens já existentes.“®Embora eles sejam família rebelde (bêt-mèrí). esta interpretação é problemática porque confunde a imagem de um passeio voluntário com a de um exílio forçado. o desejo é que possam ver . então deveria ter feito o fiiro de dentro da casa para fora. pois casas babilônicas eram tipicamente construídas de tijolos feitos com barro. Se Ezequiel quer representar o rei ou seus súditos tentando fugir da cidade. eles não têm tempo para cavar rotas de escape por fortificações. A maioria dos eruditos interpreta esta ação como representando os esforços desesperados daqueles que estão em Jerusalém. No entanto. Eles foram os que fizeram uma brecha nas fortificações de Jerusalém (bãqa‘^. a imagem é realística“^.“' Ainda que a ação pareça estranha. mas em sua escavação através da parede ele representa o invasor. Não está mais representando o povo dentro da cidade.“^ . Mas Yahweh explicitamente instrui Ezequiel a ir para fora da casa. anteriormente. na série de atos nos capítulos 4 e 5. Jr 39. estar anunciando que a hora para os exilados fazerem novamente as malas e irem para casa chegou. ou de Zedequias e seus assistentes para escaparem do exército invasor. que cave o buraco através da parede. resultando também na diminuição do valor do sinal para a ação. portanto.3 -7 A DRAMATIZAÇÃO 353 a mochila deve simbolizar o seu iminente retomo. No entanto. no entardecer (bã‘^ereb) Ezequiel deve ir para o lado de fora de sua casa e começar a cavar um buraco na parede. a última cláusula do versículo 3 indica que a intenção de Ezequiel ao entregar esta mensagem tem outro propósito.

“um sinal de certificação”. à vista das pessoas. . As instruções de Yahweh quanto ao sinal-ato concluem com um breve comentário sobre o seu significado. Ào anoitecer. A atmosfera criada pela seqüência das palavras yômãm‘^ereb-^âZãtá (luz do dia-tarde-entardecer) é de prenuncio de algo ruim. Et 6. ou mais precisamente o significado do profeta. 19.30. no qual o profeta fora identificado como um ’ôt. 6.3.3-4. Provavelmente. a palavra ocorre somente em Gênesis 15. Nesta hora ainda há um pouco de luz para que os espectadores observem suas ações. o gesto não verbal de cobrir a face de alguém poderia sugerir diferentes significados . Quer isto signifique simplesmente o fato de estar com uma venda nos olhos quer com um capuz. Quarto. Mq 3. Mas o versículo 6b acrescenta mais um detalhe: Ezequiel deve sair do buraco feito na parede com sua face coberta. Diferente de 4. Mas como pode ser isto. pois neste desempenho o próprio Ezequiel é um “sinal”. Et 7.12) ou vergonha (Jr 14. Lição de objeto. Para onde Ezequiel levou a sacola de provisões não é indicado. quando Ezequiel terminou de cavar um furo grande o suficiente para que pudesse passar. mas se pode imaginar que ele estava andando sem destino pela noite afora.354 O LrvR O d e E z e q u ie l . aqui ele é chamado um môpêt.“* O meio se tomou a mensagem. 3-4).um sofrimento intenso (2Sm 15. Mas diferentes formulações são usadas para transmitir estas emoções.27).““ Neste texto é dada a razão do encapuzamento: deveria sair com os olhos cobertos para não poder ver o chão. “portento.24. parou. Neste sinalato 0 profeta funciona como “uma imagem viva do julgamento de Deus e do destino do povo”. em que identifica o período do dia imediatamente após o pôr do sol.17. pegou a mochila de viagem e entrou na casa através do furo. mas através do buraco. ao anoitecer Ezequiel deve carregar a sacola para fora da casa.8. Ao entardecer era para ele sair mais uma vez. desta vez não pela porta (como nos vs. O versículo 5b havia preparado para que esta fase chegasse ao destacar que o furo deveria ser usado para este propósito.7). prenuncio” (o mesmo acontece em 24.5. a escuridão da noite está prestes a chegar. se a mochila já estava do lado de fora? A narrativa parece ter ampliado uma série de ações. A não ser pelas três ocorrências de ‘^áíãtô aqui.“’ O esclarecimento das ambigüidades desta afirmação deve aguardar a interpretação do versículo 12.

Ao recusar responder a qualquer pergunta da audiência. Devem ter concluído que a mochila indicava algum tipo de viagem. 8-9 Pela manhã o silêncio foi quebrado. a ignorância mental e a teimosia espiritual deles os preveniam de conseguir entender o significado. mas não conseguiam ver.18. No versículo 10a Yahweh dá ao profeta mais uma ordem: interpretar a dramatização para o povo. curiosos sobre o significado do enigma dramático. O único elemento que falta aqui é a referência a cobrir a sua cabeça. no entanto. 37.“’ A pergunta demonstra que sua estratégica retórica dramática estava funcionando. Começando com a fórmula . Aqui ele quebra com esta característica reticente. Como se não estivesse ciente das reações do povo no dia anterior. Iniciando com um anúncio estereotipado: “eu fiz exatamente como fui mandado” (ver também 24. Aqueles que observavam eram eventualmente forçados a se retirar durante a noite.8-14) O bizarro desempenho de Ezequiel obviamente atingiu seu primeiro objetivo . mas por que e para onde? Ele estava simplesmente dramatizando as próprias experiências em 597 a. e relata o cumprimento das ordens que recebera.C. Falaria somente quando tivesse autorização de Yahweh. ou ele estava anunciando a iminente partida deles da Babilônia? Todo desempenho parece ter sido conduzido em um silêncio insistente. c.. o profeta aumentou o interesse deles enquanto permanecia fiel ao seu comissionamento.provocou a curiosidade dos espectadores. Yahweh o relembrou das perguntas do povo: O que você está fazendo ? Mas má 'attâ ‘^õseh é mais do que uma exigência para saber o que ele estava fazendo. ao entardecer furou a parede (acrescentando que o fez com as mãos). O significado de suas ações é o que está em pauta. No entanto. ao anoitecer ele colocou a sacola nos seus ombros e fez a sua saída.1 2 . resume seu desempenho num estilo autobiográfico breve: durante o dia ele pegou sua mochila de exilado. Mas a descrição cobriu as ações principais e os momentos específicos do dia. Só resta declarar que executou esta sequência de atividades exatamente à vista de seus companheiros de exílio.8 -1 4 A IN T E R P R E T A Ç Ã O 355 Raramente Ezequiel relata ter obedecido a ordem de Yahweh para realizar um sinal-ato. seus olhos viram o suficiente do que havia feito. Tinham olhos.7). A interpretação (12.

os eruditos têm tido dificuldades quanto ao seu significado. que não combina com muitas traduções modernas. pode se dividir o discurso em duas partes. Embora Zedequias estivesse na mente de Ezequiel anteriormente. As dificuldades começam com a frase de abertura do profeta.“* seu lugar no texto deve ser explicado. lOb-12 Porque a primeira parte da interpretação (vs. que trazem “o oráculo”. Friebel entendeu massã’como um substantivo verbal. Esta desaprovação se reflete no contexto presente por uma escolha deliberada do título nãsí’. Para ter certeza. resultando em uma grande gama de resultados.“’ Argumentar contra este uso. o qual Ezequiel deve passar para a sua audiência literalmente. e a segunda (vs. pela primeira vez no livro se tornou o alvo de um oráculo. fardo”. Minha interpretação éfardo. Desde o versículo de abertura ( 1. a primeira delas enfocando o destino dos moradores de Jerusalém da perspectiva de sua própria experiência (vs. “qual é o fardo de Yahweh?” Jeremias responde: ’attem hammassã’. lOb-12) não flui suavemente. Embora muitos apaguem o versículo 10 como se fosse uma nota explicativa secundária. “rei.33. Uma solução mais provável é interpretar massã’ como uma “carga.^^ “você é um fardo”. 13-14) destacando o envolvimento de Yahweh. é um estilo característico de Ezequiel brincar com as palavras.*' Mas o resultado é extremamente estranho. que deve transportar pela cidade. príncipe”. não é somente quanto à sintaxe da sentença. Em resposta à questão mah-massâ’ yhw h. mas já observamos uma mudança similar no papel do profeta durante o desempenho. “este ato de carregar”. “principal.*® Com apoio de 24. em vez de melek. Com base no conteúdo. mantendo o uso comum desta palavra em outros contextos proféticos. em que coloca o foco nas ações do profeta em vez de colocar a ação sobre a própria mochila. no entanto. A cláusula aliterativa hannãsV ham m aisa’é proveniente de Jeremias 23. isto altera o significado da mochila um pouco. e usar conceitos com mais de um signifícado mesmo dentro de uma mesma unidade literária.25. mas também ao fato de Ezequiel nunca se referir à palavra profética como massã’ em outros pontos. Uma questão muito importante é o significado de hammassã’. Ezequiel não é totalmente . monarca”. a explicação é feita na forma de um discurso divino.356 O LIVRO DE E z e o u i e l qualificatória. 10b-12). Além do mais.1 ) o leitor desconfia que o profeta tem pouco respeito pelo atual rei em Jerusalém.

embora a verdadeira resposta não apareça até o versículo 13.todos foram vassalos de imperadores estrangeiros. que. Da maneira como ia o rei.” Após ter dado esse lembrete. Esta justaposição do rei e a nação refletem uma visão antiga do Oriente Próximo quanto ao reino.C. o próprio Yahweh. O rei modelava os ideais da cidadania e incorporava a honra e as aspirações coletivas. serão repetidos. deliberadamente prepara uma armadilha para as suas vítimas. Ao anunciar na abertura. especificamente a função do profeta neste sinal-ato.’* A frase de abertura de Ezequiel pode ter levado sua audiência a concluir que não faziam parte de sua mensagem.8 -1 4 A IN T E R P R E T A Ç Ã O 357 contra o uso de melek. a atenção de Ezequiel retorna a Jerusalém. de acordo com o papel do rei que vai além de conduzir guerras e administrar a justiça.’’ 11 O foco muda de Jerusalém para a situação do exílio. assim também ia a cidade. Se este for o caso. mas sua aversão a Zedequias e posição fundamental antidinastia nos oráculos de julgamento são traídas por sua preferência pela palavra nõsT. A identificação que Ezequiel faz do rei e de seu povo com a mochila descreve-os com tanta bagagem que deve ser removida da casa. toda a casa de Israel é acrescentada. são aqui avisados para refletir nas implicações destes eventos para si mesmos. O que é afirmado por intennédio de termos exatos é que o povo lá em Jerusalém enfrenta o mesmo destino que Ezequiel e seus companheiros de exílio têm experimentado. o príncipe é o seu fardo.*“ Além do mais. Ezequiel força Zedequias para a parte principal da interpretação. Mas pela autoridade da palavra divina o profeta deve anunciar que ele é um aviso para eles.” Este tímlo reduz os líderes à posição de caciques tribais dos tempos antigos. Por conseguinte. o profeta convida a audiência para refletir em quem o agente da remoção será. Ainda que suas dramatizações descrevessem o destino de Jerusalém. havia somente um rei verdadeiro sobre Israel. assim será feito com eles. Mas o príncipe não está sozinho na mochila. A maneira como manipulou a mochila descreve o tratamento que os habitantes da cidade receberão. a captura de um rei se torna o sím bolo de catividade da nação. o profeta deve representar Deus.1 2 . Os eventos de 597 a. . como será observado no versículo 13. e destaca a realidade que nenhum dos últimos reis de Judá teve poder de verdade . Ao mudar para o passivo.

Primeira: Zedequias fará sua mala e deixará Jerusalém ao anoitecer. como uma tentativa de se disfarçar e. 12 Ao abrir o versículo 12 com um nominativo absoluto. de vergonha por ter pecado com seus olhos.IVRO OE E z e q u i e i . De fato. uma alusão prematura á cegueira de Zedequias. o exército invasor romperá o muro para capturar o rei. deve ser mantida a forma plural de yahtérü (“eles cavarão”). e nunca mais verá esta terra novamente” (NRSV). a chave para a interpretação não está no fato de cobrir os olhos. A primeira fase: Yahweh irá capturar Zedequias assim como um caçador captura uma presa. Esta afirmação ambígua tem sido interpretada de várias maneiras: como uma expressão de sofrimento. aprendemos agora que o inimigo real do príncipe não é Nabucodonosor.“ Terceira: o rei sairá com sua face coberta. pássaros e criaturas da terra. Anteriormente. mas o próprío Yahweh. mas se pode reconhecer três afirmações curtas a respeito do destino do príncipe. A imagem é que o rei tenta escapar na calada da noite. No entanto. Jeremias havia predito em termos muito enfáticos a permanência da deportação de Jeoacaz (de Salum). não permitindo que veja a terra. Como as notas da tradução citadas indicam. nem seu povo (incluído metonimicamente com ele) voltariam mais para o seu solo nativo.10-12 conclui: “no lugar para onde o carregaram morrerá cativo. o sujeito não são os servos de Zedequias. Nem 0 rei. Jeremias 22. O príncipe não é mais identificado com a mala ou mochila. Sua atitude é descrita em três fases. mas como aquele que a manipula. A afirmação de Ezequiel deveria ser interpretada semelhantemente. quebrando o muro para capturar o rei (e os seus servos). como é comum nos dias atuais. com o fato de cobrir a sua face como um ato simbólico. Uma rede (reset) foi usada para pegar todos os tipos de presa: peixes. mas na referência à terra. mas os soldados do exército atacante. como uma ex eventu.“ 13-14 Há uma importante mudança na interpretação do sinalato: daqui em diante Ezequiel transfere a atenção de seus ouvintes para a causa divina por trás da morte de Zedequias. Agora seu papel é mudado. descrevendo a permanência do exílio esperado. tomando com ele alguns pertences que pode carregar.*^ O próprio Ezequiel . o versículo é repleto de problemas. Dois instrumentos de captura são nomeados.*' No entanto.358 O I. Como já foi observado.’*o foco é colocado sobre o príncipe. provavelmente.” Segunda: enquanto isto.

e lá morrerá (wë’ôtàh lô’y ir ’eh wèsãm yãm üt). armadilha (mësûdâ). a maioria dos eruditos concorda que a terra que não será mais vista é a Babilônia. Quer se entenda estas frases como originais ou adições posteriores a 586 a. ’eres kasdím. é uma referência a um grupo étnico estranho que emergiu como uma classe dominante. no entanto. e a presença da frase qualificadora. para onde as criaturas seriam enganadas a ir. o nome Babilônia aparece pela primeira vez no livro. “terra dos caldeus”.** Na maioria dos exemplos.™ Esta interpretação é apoiada por uma evidência bem documentada do Oriente Próximo Antigo quanto arrancar os olhos dos cativos. especialmente aqueles que violaram seu pacto. Dagom é citado dizendo: “eu vou ajuntá-lo [o homem de Eshnunna] numa rede** bem apertada. A captura de animais terrestres é feita geralmente com 0 espalhar (paras) da rede sobre um buraco. O último sentido é obviamente requerido aqui por duas razões: os judeus deportados não estavam fixados na cidade de Babilônia (1.*’ E também. a imagem de uma deidade irada envolvida em uma caçada não aparece somente em escritos hebraicos. esta é a forma como ele emprega a metáfora. Assim.8 -1 4 A i> rrr. 32:3) com a reset.1 2 .*’ Ezequiel não foi o primeiro a descrever Yahweh como caçador à procura de uma presa humana. Numa carta revelatória de Mari. 0 significado desta afirmação deve ser derivado principalmente . e à sua propriedade. deriva-se de súd. Assim como outras cidades.C. a terra dos caldeus. a percepção do profeta é extraordinária: ele anuncia de antemão que Zedequias seria capturado e teria seus olhos arrancados! Os oráculos de Ezequiel não são geralmente tão específicos.R P R E T A çA o 359 falará sobre a captura de leões (19. mas era também usado para as áreas ao redor. esta interpretação provavelmente nunca teria aparecido sem o benefício das narrativas históricas ex eventu da captura de Zedequias. que desde os tempos antigos não havia sido destruída.8) e monstros marinhos (Pharaoh. Aqui.*“ A expressão paralela. mas eu a destruirei”. (caçar).*’ A predição da deportação do príncipe é seguida por duas cláusulas circunstanciais.. Colocarei um fim à sua cidade. agora não haverá.1). A segunda fase: Yahweh trará o príncipe para a Babilônia.” Se isto estiver correto. uma eventualidade atribuída ao fato da cegueira de Zedequias depois que fora capturado. o nome é referido primariamente para a cidade.

. ‘^ezrõh. e então como seu país de destino (v. Ezequiel parece ter montado deliberadamente seu anúncio sobre o destino de Zedequias conforme a predição de Jeremias sobre o fim de Jeoacaz.wëhèbë’tî). inicialmente como uma referência à terra de origem de Zedequias (vs. esta interpretação elimina a tensão criada pela explicação da mesma imagem. Num contexto marcial como é o caso aqui.17). 6.10-12 é ouvido nas referências a não se ver a terra nos versículos 6 e 12. a referência poderia incluir os aliados estrangeiros de Zedequias. .12) e divina (2Cr 36. “a terra” referida nos versículos 6 e 12. que é particular para Ezequiel. reafirmam a irrevogabilidade do exílio do rei.8 e 32.’*mas a referência diz respeito.16. “seus ajudantes”. ‘^èzer denota “um vassalo ou aliado sob obrigações militares”.13). a seus próprios homens. também pronuncia a vergonha final sobre esta rebeldia reconhecida contra a autoridade terrena (2Cr 36. isto é. Terceiro. deriva de ‘^ãzar. do atual contexto literário. 13). 12).360 O LIVRO DI-: E z e o u ie l .’“ Trinta e dois reis são identificados como “auxiliares” de Ben-hadad em 1Reis 32. se o fraco eco de Jeremias 22. Não podemos excluir. A palavra paralela. nos quais a interpretação não diz respeito a qualquer cegueira de Zedequias.21. “asa”. isto é. “a terra dos caldeus”. tropas militares. “ajudar”.’^ Primeiramente. suas forças e todas as suas tropas. “ele não a verá [a terra]” e “lá morrerá”.’^ De fato. é emprestada do acadiano kappu/(a)gappu. a possibilidade de um antecedente ainda mais distante. Assim como as formas participiais em 30. o eco parece muito mais claro na atual construção. Yahweh promete remover todo grupo de apoio ao trono precário de Zedequias. O determinante principal do significado para “agora ele não enxergará” normalmente seria o antecedente mais próximo para o pronome objeto. As duas afirmações. '^ãgappím.. Ao espalhar e desembainhar sua espada contra estas forças. Na terceira fase Yahweh espalhará e aniquilará a todos ao redor do rei. no entanto. a cláusula circunstancial e a mudança no sujeito levam a uma disjunção entre estas duas frases e o perfeito par precedente de wawconsecutivos {ûpârastî. Segundo. principalmente. “o fato de não ver a terra”. Duas palavras identificam aqueles que apoiam Zedequias. “tropas”.” No contexto em pauta denota exércitos. a morte em um solo impuro (c f Am 7.” Aqui. No processo.

destacando o desempenho do profeta como somente um meio para um fim retórico. Ao fazê-lo. Numa virada inesperada Yahweh apresenta um fio de esperança. pessoalmente. agindo horrivelmente. Aqueles que não têm ouvidos ou olhos podem ser perdoados por sua falta de consciência quanto à realidade.15-16 O O B JE T IV O do ju l g a m e n t o 361 d. ou sequer algumas. dois pro­ pósitos serão servidos. Ao contrário. . Yahweh será vindicado pela forma como foi duramente tratado pelo seu povo e o povo demonstrará que o problema descrito na acusação foi respondido.12. fome e praga. Ao formatar a conclusão como uma versão modificada da fórmula de reconhecimento.’* o reconheceriam. dicas do próprio sinal-ato permanecem. mas Yahweh.15-16) O interesse continuo na intervenção de Yaiiweli liga esses versículos com as explicações que vêm após o sinal-ato. A necessidade de uma afirmação tão elaborada é criada pela acusação de abertura: o caráter rebelde de Israel. O objetivo do julgamento (12. A tríade dos agentes divinos: espada. Mas diante das expressões generosas do pacto da graça e da paciência de Deus. especial­ mente os versículos 13 e 14. Ezequiel fontiula o objetivo de Yahweh ao dispersar a população: o reconhecimento do seu caráter e sua pessoa. No entanto. a recusa a ouvir e ver não somente resulta numa insensibilidade posterior dos sentidos. mais cedo ou mais tarde a porta da misericórdia divina se fechará. ♦ Implicações teológicas Várias lições instrativas se destacam desse sinal-ato. A primeira é que o perigo da atrofia espiritual é maior para aqueles com uma tradição espiritual mais rica. expresso por uma ignorância espiritual fundamental. Quando Yahweh tivesse terminado a dispersão da população de Judá por entre as nações. intervirá para res­ gatar um remanescente. também reconhecem os próprios pecados. poucas. o sinal-ato oferece um método visual de anunciar a sentença em um oráculo de julgamento.” A afirmação não permite qualquer mérito pessoal por detrás do ato salvador de Deus. Porém há mais. aqueles poucos que são poupados experimentam esta intervenção que podem publicamente reconhecer seu passado abominável. Eles não somente reconhecem o caráter de Yahweh.

O objetivo de sua disciplina.17 ^ seguinte mensagem de Yahweh veio a mim: 18 "Homem.* 20 Às cidades habitadas ficarão em ruinas e a terra será desolada. é que todos possam reconhecer a sua pecaminosidade. no estudo da Palavra de Deus a primazia da intenção autoral deve ser precedente acima de todos os outros princípios hermenêuticos. Podemos nos desesperar diante da calamidade pensando que ele abdicou de seu trono. saberão que eu sou Yahweh’". beberão sua água com trepidação. . Por intermédio de uma evidente racionalização inteligente transformamos as mensagens de reprovação e correção em ilusórias promessas de esperança. em vez de deixá-la nos moldar. Como a audiência de Ezequiel. Mas a Palavra de Deus deve ser entendida em seus termos. UMA PANTOMIMA DE HORROR (12. a consideração principal para o seu atual lugar parece ter sido sua forma. e heha sua água com temor.^ por causa da violência de todos os seus habitantes. Assim como a passagem precedente. Sua estrutura é simples. mas sua mão está presente até mesmo nas circunstâncias mais terríveis.IVRO DE E z e q u i e l A segunda lição é que não importa como alguém trate outros escritos. assim como de seus atos de bondade. o Senhor permanece soberano sobre a História.^ 19 Então. incorporando um sinal-ato do significado ameaçador futuro para Ezequiel apresentar diante de sua ausência exílica. E então. 2. Seu gênero também se parece com o texto precedente. a fórmula de reconhecimento conclusória. assim^ arrancarão da terra'’ tudo o que há. somos também tentados a ajustar a revelação divina para se encaixar com nossos desejos. 'assim declarou o S enhor Yahweh a respeito^ dos habitantes de Jerusalém sobre* a terra de Israel: comerão sua comida com ansiedade. pode atribuir-lhe a qualidade de um oráculo de confirmação profética. coma' sua comida com tremor.362 O I. confessar a justiça dele. ♦ Natureza e desígnio Porque o conteúdo desta vinheta profética tem pouca relação com seu ambiente literário. e se submeter ao seu senhorio. que novamente estabelece 0 objetivo da ação divina. A terceira lição é que apesar de tudo indicar o contrário. diga ao povo da terra.17-20) 12.

18) c. A interpretação do sinal-ato (vs. Pessoas tremem por várias razões: frio. 19-20a) d. rogzâ. A fórmula de reconhecimento concludente (v. dè’ãgâ.7 é também associado com o tremor.’ Mas o tremor que acompanha aquele ato anuncia o oposto.'® O ajuntamento dos ossos secos em 37. 17-18 Após a fórmula palavra-evento. mas tendo grande dificuldade em levá-lo para a boca sem derramar. indo direta­ mente para a interpretação.'^ Esta emoção sem dúvida teria sido apresentada por intermédio de expressões faciais específicas. raiva. sofrimento. o comando para executar o sinal-ato (v.9-17.1 2 . “ansiedade”. Na realidade. é um hapax. Diferente do texto anterior (12. Em si mesmos. alegria. 20b) Um estilo literário compacto e muito entrelaçado foi criado pelo eficiente uso do paralelismo e pela repetição de expressões-chave.1 7 -2 0 U ma P A N T O M IM A D E H O R R O R 363 a. ou lutando para comer carne sem furar a si mesmo com seu garfo. comer e beber representa vida no nível mais básico. o que pode ter levado a audiência para outro lado ao pensar que o objetivo era o mesmo: escrever as condições desesperadas que seriam criadas pela iminente tomada de Jerusalém. As palavras escolhidas para descrever este tremor são impressionantes. um uso refletido numa referência anterior feita por Ezequiel ao tremor físico do chão com a chegada da carruagem celestial. a ordem de Yahweh para executar outro sinal-ato é feita na forma de duas linhas paralelas. Somente no fim da interpretação os observadores descobrem que ele está falando de outra coisa. sua qualidade vaga pode ter pedido uma terceira expressão. a audiência deveria ter imediatamente relembrado um sinal-ato anterior envolvendo comer e beber com mãos trêmulas (4.pegando seu copo d’água nas mãos.7). acontecendo como se tudo estivesse bem. O correspondente deste desempenho é 4. terror. esta narração não faz alusão a um relatório do cumprimento das ordens de Yahweh. ra^as comumente associa-se a um terremoto. Preâmbulo (v." A raiz rgz tem uma amplitude maior de significado. . Com as ações do profeta. a mensagem comunicada por estes gestos era ambí­ gua. mas esta é a única referência na qual ra^as se refere a uma pessoa tremendo.9-17).'^ O substantivo neste texto. 17) b. O leitor é deixado para imaginar as ações exageradas do profeta .

Afinal de contas. lembra o profeta.'^ Serão os que comerão sua comida e beberão água com ansiedade. No entanto. Uma palavra como esta. em vez do esvaziamento de toda a maldade ao acabar com sua população.9) aprofundam o significado da afirmação de Ezequiel.'“ Mas aqui. que fala da terra sendo abandonada por sua população e deixada desolada (Nifal de sãmam) deles. que Deus conhece o clamor dos exilados. e talvez irônica. vindo de Yahweh.23.'** Em relatórios anteriores de sinais-atos o papel do profeta nos desempenhos foi alternado entre representar Deus e representar os objetos da ira de Deus. das maldições do pacto em Levítico 26. referências anteriores à terra sendo preenchida com violência (7. Os exilados podem relaxar porque esta profecia não prediz seus destinos. A interpretação começa ao se determinar a audiência como referente principal no sinal-ato: os habitantes de Jerusalém sohre a terra de Israel. A própria terra será esvaziada de tudo que tem.'* Mas a questão é esclarecida nos versículos 19b-20.364 O LIVRO DE E z k q u i k l 19-20 Os destinatários imediatos do profeta são identificados como o povo da terra ( ‘^am h d ’dres). isto é. o problema da violência que provocou o julgamento também será resolvido. Usualmente expressa a associação próxima de uma nação com seu território reconhecido. em última análise. A ligação literária entre o versículo 19a e 4. A escolha da expressão é impressionante. ao menos. e a resposta da . a dramatização de Ezequiel teria sido apaixonante. uma noção que reaparece em ao menos dois textos posteriores. a reação emocional pessoal do profeta á sua mensagem é irrelevante.43.'’ Este tema se deriva. Embora a eliminação da perversidade da terra esteja geralmente expressa em termos de purificação.16 parece indicar condições de um cerco semelhante. Mas ainda há grande dúvida sobre a causa de tal ansiedade. Está em questão a paixão daquele que havia comissionado o profeta para executar este drama. ele é um sacerdote e os habitantes de Jerusalém são seus companheiros israelitas. quando o foco muda do povo que expressa o horror para a terra que sentirá a pior parte da devastação vindoura. “o povo da terra” é uma referência aos companheiros de exílio de Ezequiel. Apesar disto. E evidente. desta vez. sua identificação com suas vítimas. 9. e será varrida. seus habitantes. Assim como o desempenho de um ator profissional. que por definição são um povo sem terra.

14. deve ser esvaziada novamente. para aqueles que recusam. e como Jesus relembrou o diabo (Mt 4.11 contém cinco profecias que refletem o conflito de Ezequiel com outros do grupo profético profissional.25) não tem favori­ tos.11) ♦ Natureza e desígnio Ezequiel 12.2 1 -1 4 . Os limites da unidade mais ampla são mais ou menos estabelecidos pela referência a mãsãl. PROFECIA-VERDADEIRAE FALSA(12.24-25). Segundo. Primeiramente.1 2 .21-14.encontrando nutrição na revelação de Deus e vivendo por ela. mas em seguir o exemplo de Ezequiel .21-14. ao passo que Deus havia tentado ensinar os israelitas durante os anos em que vagaram no deserto (Dt 8. mas expressam desrespeito por Deus por meio de uma conduta violenta e não humana. então eles (os exilados) reconheceriam a pessoa e a presença de Yahweh. “palavra figurativa” (12. Este complexo de oráculos se divide em três subunidades que lidam com: .22. No entanto. B.1 1 P r o f e c ia . o sistema de Deus de justiça e julgamento é sempre justo. Para aqueles que o fazem. ♦ Implicações teológicas A brevidade dessa profecia não elimina sua força retórica. independente da identidade de seus habitantes. embora o significado desta palavra não seja uniforme em cada contexto. A vida não é encontrada somente na substância física. mas o juiz de toda a terra (18. Comer e beber são necessários para a saúde física.20. 19. enfrentam uma sentença de morte. Deus pronuncia a sentença de vida. nem minimiza seu significado. Quando a terra volta a se encher de violência.8). A conclusão afirma que quando os habitantes das cidades em ruínas e a própria terra for um deserto.v e r d a d e ir a e f a l s a 365 audiência quando os eventos que prenuncia ocorreriam. A tradição israelita sabia sobre o fim violento de Sodoma e Gomorra por causa de suas próprias brutalidades (Gn 18.3).4). mesmo em momentos de crise as pessoas podem viver sob a ilusão de que tudo está bem. as pessoas não vivem só de pão. Esta pas­ sagem serve como um aviso solene para aqueles que se intitulam povo de Deus ou se consideram aculturados.

isto é. esta reação durou até o fim da primeira fase de seu ministério. Uma linha unificadora para essa coleção. mas somente da sua fonte. .“O componente (3) não compartilha este Leitmotif.1. mas esta resposta não deveria tirá-lo de sua missão.1. é fornecida pela raiz hzh (visão). Cada uma destas subunidades apresenta um padrão de “geminação”. que aparece cinco vezes em 12. A resistência real à palavra profética pode ser levantada desde a re­ jeição por parte de Jeroboão I a um profeta sem nome (1 Rs 13. mas tem os próprios indicadores de coesão. A veracidade de sua mensagem não dependeria da acei­ tação pela audiência. “falsa”. mas parecem ter sido menos do que sinceros (c f 8. não podemos determinar. até a queda de Jerusalém. combinado com tentativas de falsos profetas de ganharem influência entre a população por intermédio de pronunciamentos de esperança. Em seu comissionamento foi avisado de antemão que encontraria rejeição (2. De qualquer modo.^ Todas estas palavras aparecem em outros pontos no livro.^ No versículo 24 é modificado por sãw. Em (1) e (2) as subseções paralelas são estruturadas por suas próprias fórmulas conclusórias e introdutórias. e daqueles que se apoiam nele (14. (2) o abuso profissional do ofício (13. Mas esses oráculos não são somente sobre uma falsa profecia em geral. o Deus vivo.8. Estas expressões (com kãzãb substituindo hãlãq) também se agrupam no capítulo 13.1-11).1-23).4-7). 14. particularmente para os componentes (1) e (2). também refletem o conflito pessoal específico entre Ezequiel e sua audiência. Quando esta hostilidade explodiu.21-28. até o extermínio feito por Jezabel contra o grupo como um todo ( 18.4).1).' Em (3) a segunda subseção (14.* Sem a determinação de datas é impossível identificar as cir­ cunstâncias específicas que provocaram esses oráculos.4. mas é marcada pela fórmula de reconhecimento no fím de 14.9-11) não tem a fórmula introdutória.13). “adivinhação bajuladora”.® Ezequiel não foi o primeiro profeta a experimentar rejeição. mas a concentração delas aqui confirma a unidade básica do texto. 20. Os anciãos são vistos repetidas vezes vindos a ele em busca de uma palavra divina. No entanto. e (3) o destino dos que clamam falsamente o ofício.366 0 LIVRO DE E z e o u i e l (1) O cinismo popular para com o ofício (12. percebe-se um grande desencantamento com a profecia em geral. e justaposto com miqsãm hãlãq.21-28).

23-25). Na verdade. diga-lhes: 'assim disse o Senhor Yahweh: colocarei um fim'^ a este provérbio: eles nunca mais o citarão novamente em Israel ’. O texto de IReis 22 fomece a confirmação mais antiga do conflito entre os profetas verdadeiros contra os falsos. 'Declaração do S enhor Yahweh”'. e seria também na queda de Judá (Dn 9.21-25 é a primeira de um grupo de profecias muito relacionadas. durante sua própria vida. 0 profeta verdadeiro.11.2 1 -2 5 Q u a n i x ) a p r o f e c i a f a i.13).’ A resistência popular parece ter se baseado nesta reação oficial (cf 2Cr 24. diga-lhes: 'o tempo está próximo para que toda visão seja cumprida! 24 De fato.7-13). a rejeição dos mensa­ geiros de Yahweh foi um fator fundamental na destruição do reino do norte (2Rs 17. Quando a profecia falha (12. farei um pronunciamento e o cumprirei. embora o desprezo popular dos profetas verdadeiros seja verificado muito antes (2Rs 2. ó casa rebelde. eu declaro o que quero declarar.20-22).'® O 1.21-25) 2 1 A seguinte mensagem de Yahweh veio a mim: 22 “homem. e a oposição que Jeoaquim fez a Jeremias (Jr 36).1 2 . O conflito entre o estabelecimento das religiões (o sacerdócio oficial) e os desafios proféticos. Embora a atenção seja refletida nos escritos dos profetas do século 8» (Mq 2. Pelo contrário.’ Mas profetas falsos.5-7. Não demorará'^ mais. 25 pois eu sou Yahweh. Ezequiel 12. que clamavam ser os porta-vozes verdadeiros de Yahweh. Joás e o apedrejamento de Zacarias (2Cr 24. bateu de frente com toda a casta de profetas profissionais falsos na corte do rei Acabe de Israel.20-22). Em última análise.10). parece ter se tornado especialmente agudo no período imediatamente antes da queda de Jerusalém. Is 28.h a 367 conflito de Acabe com Elias (18. que provérbio é este que você tem circulado na terra de Israel: 'o tempo passa'' e todas'^ as visões falham ’? 23 Portanto. provavelmente se apresentaram como os desafios mais desconcertantes para os emissários autoriza­ dos de Yahweh.16-46). 3. tanto em substância quanto em forma. nunca mais haverá visão vã ou adivinhação enganadora dentro da casa'* de Israel novamente.21-28) a. Miqueias ben Imlah. foi inevitável. e é cumprido. charlatães que se fingiam porta-vozes de Deus.* Aqui. Cada uma delas é um curto oráculo de argumentação lidando com o cinismo popular que . DOIS ORÁCULOS CONTRA OS CÍNICOS (12.

IVRO DE E z e q u i e l vem do aparente não cumprimento dos pronunciamentos proféticos.^^ No texto em pauta. ‘^al. aplicando-se a frases proverbiais curtas. Superficialmente. a referência o tempo passa (ya ’arëkû hayyãm ím .'* O qualificador. É formatado como duas afirmações paralelas. assim como a metáforas literárias longas. O verbo correspondente. O provérbio citado reflete um crescente cinismo popular em relação a ditos de destruição e aos que pronunciam tais ditos. Dentro desta estrutura a passagem segue o padrão normal de um discurso argumentativo. em 14. As duas aplicações são evidentes nos escritos de Ezequiel. aparecendo com ’ôt.8. a palavra pode se referir a analogias longas criadas artisticamente pelo profeta como uin instrumento retórico. isto parece improvável.21-22) O oráculo abre com Yahweh pei^untando a Ezequiel que provérbio está circulando entre o seu povo. em 18. e especialmente em 33. tradicional direto surgindo da experiência humana comum. Além do mais. “os dias se estendem”).^^ De fato. lit. é remanescente de um . E a forma signatária no fmal do versículo 25. Os limites desta unidade são determinados pela fórmula palavraevento no versículo 21. eles se derivam de pessoas comuns e eventos habituais.2. ocorre sete vezes. Um provérbio é popularmente visto como um dito curto. no qual o provérbio curto “como mãe.24.368 O I.” (i) Preâmbulo e citação (12. A referência à citação de um provérbio “em Israel” (béyisrâ’él) no versículo 23 está mais relacionada com a interpretação locativa.44. mãsãl. é ambíguo. “dizer um provérbio”.'’ A palavra que está circulando entre o povo é identificada como um provérbio (mãsãl). significando extensão de tempo. não há motivo de o provérbio citado aqui dever se restringir à terra de Israel. e afirmações aforísticas que encontraram aceitação popular geral. mãsãl é claramente usado no sentido aforístico.’adm atyisrâ’él. “sinal”. como fílha” é citado dentro do contexto de uma alegoria longa. inclusive duas vezes em 16.“ Raramente os provérbios são aparatos literários criados por membros de uma elite cultural.^' Mas o termo hebraico mãsãl carrega uma amplitude muito maior de signifícado. as citações apresentadas são especialmente atribuídas aos habitantes de Jerusalém. Ainda que algumas pessoas o interpretem como “com respeito à terra de Israel” (como faz a NRSV). mãsãl denota “uma lição de objeto”.

perecer”. céticos desafiavam Yahweh a acelerar o cumprimento de suas predições de maneira que pudessem crer em sua palavra (Is 5. é refletida no verbo ’abad. podem ficar tranqüilos e cuidar de seus negócios como se nenhuma palavra de julgamento houvesse sido dita. o vazio. Por conseguinte. O contexto atual não especifica que pronunciamentos proféticos têm em mente.“ A demora no cumprimento das profecias resultou na renovação de um otimismo ilusório.1 2 . Desde os dias de Isaías. é geralmente usada de forma geral quanto à mensagem divina. “falhar. a ordem é . ocasionalmente se referindo também à experiência do auditório. se foi este o caso. para murchar e morrer como a planta de Jonas (Jn 4.4-12 a antítese havia vindo após o debate. Saem da boca do profeta com grande vigor e energia. Por um lado. cujas predições do colapso iminente da nação foram igualmente destacadas. De fato.19). Nas mentes do povo. que havia descrito como muito próximo (7. Mas as palavras de Ezequiel vieram a ser somente fumaça.2 3 a A ANTÍTESE 369 USO deuteronomístico de acordo com o qual a vida longa é o prêmio pela fidelidade a Yahweh. ou a impotência da palavra profética.10). aqui. obviamente. cada uma delas introduzida por uma ordem para o profeta falar ao povo. Jeremias teve mesmo de lidar com a reação cética de sua audiência.^'' Este provérbio. (2) A antítese (12.21-22). relatórios das afirmações do povo no exílio devem ter chegado até Jerusalém. o provérbio pode representar uma rejeição de Jeremias. a maneira como recebem a palavra (dãbãr).2-9).23a) A refutação do provérbio consiste em duas partes. Por outro lado. Na segunda linha do provérbio a mensagem divina é identificada como uma visão (hãzôn). Embora esta palavra se refira nonnalmente à natureza visual da experiência profética. entende a expressão de modo diferente.^’’ A aparente futilidade. Enquanto em 11. O alongamento dos dias se refere à extensão do tempo entre uma predição específica e seu cumprimento. Ezequiel fazia parte de muitos outros que falharam no teste fundamental de um profeta verdadeiro (Dt 18.“ resultando numa aparente diminuição da força desta palavra e eventualmente de sua evaporação. o provérbio pode ter sido um desafio direto do anúncio anterior de Ezequiel quanto ao dia de julgamento.

porém. a expressão é mais apropriadamente aplicada a qualquer número de técnicas manipulativas em que a vontade dos deuses é determinada e o curso de eventos futuros tramados. é emprestada do mundo da bruxaria.^' No entanto.370 O LIVRO DE E z e o u i e l invertida. Com uma ironia aguda. somente em 13. a adivinhação representava “a arte de determinar os propósitos.” A segunda expressão. e todos aqueles que estavam circulando o provérbio foram eliminados. NIV. miqsam hãlãq (lit. não se refere a profecias inventadas. Yahweh afirma que a questão não é a longevidade do não cumprimento dos pronunciamentos “divinos”. Além do mais. a primeira expressão. escorregadias”.23b-25) A réplica do provérbio começa com uma forte adversativa. mais tarde reconhecemos dois cumprimentos: os ávidos preditos de julgamento foram de fato cumpridos. ou as atitudes dos deuses”. Ao refonnular de maneira habilidosa o provérbio. o provérbio cessará de ser citado em Israel. Responde à generalização dos cínicos com respeito ao não cumprimento das profecias (“todas as visões”) com uma generalização própria. geralmente traduzida como “uma visão falsa” (c f NRSV.10-14). Em princípio. (prati­ car a adivinhação). é apropriada porque eram tanto vazias quanto sedutoras. A caracterização dessas profecias como “suaves. “adivinhação escor­ regadia”).“ Considerando que os profetas estavam envolvidos em aprender e de­ clarar a vontade divina. O significado não é especificado. miqsãm. responde as . hãzôn 5ãw’. predições ociosas que não levam a nada. fcí ’im. mas a pronunciamentos vazios. os desejos. mas a vida encurtada da sabedoria humana. ao contrário.7.^® Ezequiel anuncia que “todas as visões” não falharam. (3) O debate (12. deriva-se do verbo qãsam. Neste contexto.” O significado da predição de Ezequiel do fim das vãs visões e adivinhação vazias é algo de dois gumes. NASB. que ocorre em outro ponto. Por um lado. eles poderiam ser considerados adivinhadores.^^ Tal manipula­ ção adivinhatória de Yahweh era algo estritamente proibido como um costume pagão abominável em Israel (Dt 18. “todas as visões” estão para ser cumpridas. a morte de um falso provérbio coincidirá com a temiinação de todas as visões vãs ou adivinhações enganadoras. REB).

. destaca a totalidade de suas declarações . né’um ’àdõnãy yhw h. Mas nada silenciaria tais pronunciamentos do povo como o cumprimento dos pronunciamentos de Ezequiel. A maioria dos comentaristas trata a palavra “Yahweh” precedente de forma aposicional. antes. O versículo 25 é dominado pela raiz dhr. e neste caso ’ãm.^^ “Digo o que quero dizer” não significa que Deus gosta da liberdade de dizer o que deseja.” Apesar disto. um tema desenvolvido mais tarde no capítulo seguinte. A cláusula seguinte relativa começa uma nova sentença “a palavra que eu falo é cumprida”. “eu declararei o que quiser declarar e será feito”) tem sido interpretada de várias maneiras. Para.tudo que diz será cumprido. reiterando em termos diferentes as ideias que já foram expressas no novo provérbio e a base pela qual está apoiado (vs. e a cláusula seguinte como uma construção idem per idem.2 3 b -2 5 O dhuate 371 afirmações do povo que as palavras de Yahweh são vazias. Por outro lado. representa um sujeito enfático para o primeiro ’àdabbêr. A pessoa de Yahweh se levanta por trás das palavras de Ezequiel. No entanto.’’ A última metade do versículo 25 parece um reflexo. Ezequiel anuncia a iminência do dia do julgamento: não será atrasado. “pois sou eu. é preferível interpretar ’àní yhw h como uma versão absoluta da fórmula autointrodutória. Como se este pronunciamento requeresse qualquer afirmação mais forte. que ocorre quatro vezes. A sentença ’àdabbêr ’èt ’àser 'ãdabbèr dãbãr wéyè^ãseh (lit.’* Ao prefaciar esta afirmação com a fórmula autointrodutória. 23-25a). Yahweh. como se para Yahweh falar fosse o mesmo que fazer. o grupo atual de cínicos experimentará o poder da palavra divina em primeira mão. Em resumo. e por extensão as questões da veracidade profética de Ezequiel. também faz uma alusão sobre o fim daqueles que estão atualmente envolvidos na profecia falsa. “eu”. Yahweh apresenta sua própria pessoa como a garantia que sua palavra será realizada. que falo”.^^ mas a declaração apresenta um avanço sobre as afirmações anteriores: o momento do cumprimento será durante a vida da presente geração.sua própria pessoa. o oráculo fecha com um imprimatur divino. A partícula k í introduz as bases para a declaração de Yahweh quanto ao cumprimento iminente da palavra profética e o fim de uma profecia vazia .1 2 .

e ambos levantam a questão da demora do cumprimento dos pronunciamentos divinos. Essa demora leva a uma não verificabilidade e irrelevância dos pronunciamentos para a geração atual.28) A refutação desse desafio consiste numa versão abreviada dos versículos 23-25. tome nota do que a casa de Israel está dizendo: 'a visão que ele vê pertence aos anos vindouros. Enquanto os de Jerusalém haviam acusado os profetas de fazerem afirmações vazias e de não terem poder em suas palavras. Quando a profecia é irrelevante (12. lit. Todo pronunciamento que faço certamente se cumprirá A declaração do S enhor Yahweh Esta miniprofecia tanto ecoa quanto abrevia o estilo e o conteúdo do discurso argumentativo anterior No entanto. “preste atenção”. a profecia diz respeito a um futuro distante '.26-27) Desta vez. diga-lhe. (2) A antítese (12.372 O LIVRO DE E z e q u i e l b. os companheiros de exílio de Ezequiel parecem ter desprezado suas afimiações. Não se sabe quais predições são enfocadas aqui. A resposta cínica da comunidade exílica demonstra que faziam parte dessa casa rebelde de Israel tanto quanto seus compatriotas lá em Jemsalém. como se fossem sem consequência para ele.26-28) 26 A mensagem seguinte de Yahweh veio a mim: 27 "homem. Em vez de desafiar o provérbio que circulava em Jerusalém. embora a referência a Todo pronunciamento que fiz certamente será cumprido faz que seja especialmente destacada. ‘assim declarou o S enhor Yahweh: não haverá mais atraso. a atenção do profeta é conduzida para a conversa entre o povo com a partícula hinnéh.” Mas 0 problema aqui se distingue ligeiramente da questão tratada no texto anterior. A citação é feita na forma de dois conjuntos estmturados quiasticamente. mas provavelmente envolveram anúncios de Ezequiel quanto à queda iminente de Jemsalém. este discurso parece dirigido para os exilados que se tomaram desiludidos com Ezequiel. 28 Portanto. . também oferece a própria ênfase distintiva. (1) Preâmbulo e citação (12.

mas não irrelevantes para todos aqueles que clamam ser povo de Deus. ♦ Implicações teológicas Esses dois discursos do tipo argumentativo são breves. DOIS ORÁCULOS CONTRA PROFETAS FALSOS (13. nós precisamos lembrar que os métodos de Deus de estimar o tempo são diferentes dos nossos.17). este texto . a injunção ainda permanece. Pedro primeiramente relembrou a eficácia da palavra divina na criação do mundo num passado distante.3-7). Dentro de alguns anos.1-23) ♦ Natureza e desígnio Embora a fórmula palavra-evento no versículo 1 introduza uma unidade literária que parece abranger todo o capítulo 13. a fórmula signatária conclusória. “onde está a pro­ messa de sua vinda?” Pedro respondeu à igreja primitiva ao relembrar seus leitores que deveriam continuar a levar seriamente não somente as palavras dos santos profetas. e podemos estar muito mais próximos do dia do que imaginamos. os cínicos seriam silenciados pela terrível verdade de sua palavra. ele age. Enquanto isto. quando aqueles sem Deus serão destruídos (2Pe 3.1 3 . Em todas as eras pessoas têm questionado a eficácia da palavra divina. a frieza espiritual é geralmente expressa no cinismo para com Yahweh e seu porta-voz. Levando-se em consideração que as afirmações do pregador proclamam a mensagem dos profetas e dos apóstolos. a última palavra é de Deus. Nos dias de Malaquias a questão era: “onde está o Deus da justiça?” (2. A certeza do cumprimento da palavra divina é baseada na pessoa e no caráter de Deus. na igreja primitiva. Segundo. 2. Os desafios feitos pelo povo arrogante e rebelde não mudarão o fato de que quando Deus fala. mas também os mandamentos do Senhor e Salvador. a partir desta afirmação. Yahweh registra as palavras de Ezequiel com seu imprimatur.12). Respondendo aos cínicos de seu dia.1 -2 3 D o i s O RÁCULOS C O N TR A PROFETAS FALSOS 373 Novamente. apresentados pelos apóstolos (2Pe 3. Mas também avisou seus lei­ tores que essa mesma afirmação é destinada para o julgamento escatológico fmal do universo. Primei­ ramente. Mas este não é o argu­ mento que Ezequiel usou.

17-23) está envol­ vido com mulheres adivinhas exploradoras. 8-9 vs. 8. os dois painéis seguem a mesma estrutura básica: Elem ento a. 9. Preâmbulo b.. Estruturalmente. esforços editoriais têm sido feitos para causar uma impressão de equilíbrio e simetria entre os dois. 21.íãfcên. “portanto”. 17-18a vs.374 O LIVRO DE E z e o u i e l fomece outro exemplo do típico padrão ezequieliano de oráculos germinantes.’ Os oráculos são do mesmo gênero profético misto. 8. 22-23 Estilisticamente falando. Os preâmbulos incluem um tratamento do profeta como ben-’ãdãm (lit. 3b-7 vs. 23) todos os quatro concluem com a fórmula de reconhecimento wida ‘^tem/n ki ’ãni yhw h. 18b-19 vs. 22.20). O primeiro painel (vs. seguido pela fórmula de intimação. que foram vistos nos capítulos anteriores (12. Esses dois orácu­ los têm obviamente sido trazidos juntos porque têm interesses comuns com a competição profissional com o próprio ministério de Ezequiel. 2-3a vs. 20-23 vs. “porque.. Embora os painéis sejam assimétricos em comprimento e tenham as próprias ênfases distinti­ vas. 13. “então saberão que eu sou Yahweh” (vs. portanto” (vs. “porque” (vs. kõh ’ãmar ’ãdõnãy.. Três dos quatro anúncios de julgamento seguem o padrão >'a‘^an. 22). o segundo (vs. 8-16 vs. 14.10. 23). os painéis usam a mesma fórmula estereotipada. 20-21 vs. 8. Os anúncios de julgamento (1 )0 primeiro anúncio (2) O segundo anúncio Painel I Painel 11 vs..' A quebra entre as duas partes é formalmente marcada pela fórmula signatária no fmal do versículo 16. As acusações contra os profetas c. 10-16 vs. seguida por novo endereçamento do profeta e a renovação da ordem para profetizar.^ A mudança da apresentação das acusações para os anúncios de julgamento é sinalizada nos dois painéis por lãkên. “assim declarou o Senhor Yahweh” (vs.17-28). 10. “filho do homem”). (2) um anúncio . seguido por comandos semelhantes para profetizar. Ambos apresentam os três elementos encontrados numa confirmação típica de um dito profético: (1) uma afirmação da razão pela intervenção divina introduzida comya^^an. 2-16) lida com falsos profetas envolvidos em atividades visionárias enganadoras.

’ O texto atual não oferece informação explícita quanto aos eventos que precipitaram estas afirmações proféticas. .1 3 .“ A presença desses elementos destaca o objetivo comum dos oráculos: que aqueles para quem sào endereçados reconheçam a identidade e a soberania de Yahweh. tenham se oposto* ao ministério que Deus chamou Ezequiel. 21. . v. limétappèrôt. 23). ’àser hõlékim. 9. As profetisas minam a sua missão de anunciar vida ao justo e morte ao ímpio (a menos que deixem seus maus caminhos) ao matar aqueles que não deveriam morrer e manter vivos aqueles que não deveriam viver (v. .’ No entanto. estavam membros de uma classe profética profissional. falsos reivindicadores ao ofício profético. Embora os dois grupos. 19). Os profetas contradizem a mensagem de Ezequiel do julgamento nacional inevitável com mensagens falsas de esperança.* Embora esses oráculos não contenham outras características de oráculos de ais. 3. v. Eles se referem a dois lados de uma mesma questão diante do profeta: como contra-atacar a influência entre os israelitas e charlatões. em quem o rei provavelmente se apoiou. os oráculos incorporados nesta única unidade literária não são obviamente gêmeos idênticos. 23). 15 é evidente que entre os oficiais que haviam sido deportados para a Babilônia com Joaquim. 13. quando a reputação de Ezequiel se espalhou como uma figura profética na comunidade. os dois painéis também incorporam características próprias de oráculos de ais: ( I ) um hôy introdutório. mas com base em Jeremias 29. suas atividades aumentaram. e que aparentemente continuou a buscar suas habilidades dentre os exilados. De fato. “Ai!” (vs. (3) uma declaração do propósito divino envolvendo a fórmula de reconhecimento (vs. 3.’ essas características enfatizam um segundo objetivo comum nas duas profecias: anunciar o fim sofredor dos falsos profetas. “portanto” (vs. A partícula também funciona como uma acusação. pode-se especular que surgem dos encontros pessoais violentos entre o próprio Ezequiel e essas fraudes proféticas. os profetas masculinos e femininos. . 18).18). “aos profetas . 20. Embora esses dois oráculos ataquem falsos profetas no plano profissional. que andam”. 14. .1 -2 3 D o is o r á c u l o s c o n t r a p r o f e t a s f a l s o s 375 vigoroso da intervenção divina introduzida com lãkên. (2) a identificação do endereçado/objeto de julgamento da terceira pessoa e por meio de uma preposição mais um particípio (‘^alhannébnm .1. em 598. 8.

E no registro da casa de Israel. 14 £m demolirei^^ . E para a terra de Israel.^'' e têm visto mentiras —portanto.^^ e grandes chuvas de pedra^"* cairá.376 O LIVRO DE E z e q u i e l a.declaração do S enhor Yahweh.^^ mas outros^* a cobrissem com massa.spirados:" ‘Ouça a mensagem de Yahweh! 3 Assim declarou o Senhor Yahweh: ai dos profetas tolos. embora não viram coisa alguma.^' a parede cairá! Será que. oh Israel. e uma tempestadeforte virá em minha ira. Declare aos profetas autoin. estou desafiando-os! . têm vivido'* como chacais entre as ruinas. Então saberão que eu . 10 Pela mesma razão-.vocês. vocês têm visto uma visão vazia e declarado uma adivinhação enganosa .1-16) 13. e um vento tempestuoso soprará. que c a ir á .1 A seguinte mensagem de Yahweh veio a mim: 2 “homem. quando eu não tenho falado. 9 Minha mão virá-' sobre aqueles profetas que veem coisas vãs e que adivinham mentiras: Na companhia de meu povo. U m a tempestade-^ virá. junto com pedras de gelo. esperam '*que ele (Yahweh) cumpra os pronunciamentos! 1 Certamente.soa construísse uma parede bruta. 6 Aqueles que dizem: “a declaração de Yahweh ”. assim declarou o S enhor Yahweh: mandarei um vento tempestuoso na minhafitria.sou o Senhor Yahweh.'^ 4 Seus profetas. Não voltarão. têm visto o vazio'*' e adivinhação enganosa. profetiza contra os profetas de Israel.que eles têm enganado meu povo ao dizer: “tudo está bem ”.será questionado: ‘onde está a massa que você aplicou? ' 13 Portanto. em ira para destruir.^’’ 12 Então olhe. Não serão registrados.'"’ 8 Portanto. Não serão encontrados. que pode resistir na batalha. 5 Vocês nãoforam para as brechas. Visões vazias.'que seguem seus próprios impulsos. que dizem: 'declaração de Yahweh’. assim declara o Senhor Yahweh: porque vocês têm feito pronunciamento vazio. quando nada está bem —como se uma pes. no dia de Yahweh. você não . que estão profetizando. 11 Diga àqueles que estão cobrindo com a massa. então.''' Embora Yahweh não os tenha comissionado. ” não repararam o muro ao redor da casa de Israel. adivinhação enganosa (13.

os versículos 10-16 parecem ter em mente os seus equivalentes naqueles que moram em Jemsalém es­ pecificamente..1 3 . A redundância é sarcástica: “eles profetizaram sem limites: suas bocas sempre estavam cheias de ‘as­ sim diz 0 Senhor’”.“' Aparentemente. A primeira delas é: são chamados profetas de Israel {nèbVê yisrã’êl). baseadas em suas próprias avaliações da situação e em seus próprios julgamentos. que havia denun­ ciado os falsos profetas com a expressão: hãzôn libbãm yèdabbérú. E então lhes direi:^^ ‘a parede se foi. e que têm visões de bem-estar para ela.16). 16 e 37. seus ouvintes eram ingênuos para fazer a distinção. que estão profetizando.Antece­ dentes a esta referência da autoinspiração aparecem em outros pon­ tos no Antigo Testamento. “pronunciam uma visão de seus próprios corações” (Jr 23. (I) As acusações contra os falsos profetas (13. De fato. e contra aqueles que a cobriram com massa. Opiniões particulares esta­ vam sendo declamadas como pronunciamentos divinos. . Yahweh manda que Ezequiel confronte seus concorrentes profissionais. Três expressões identificam a audiência. Seus pronunciamentos não eram nada mais que tramas próprias.1 -7 A s ACUSAÇÕES contra os fa lso s pr o feta s 377 a parede que vocês cobriram com massa: a derrubarei ao chão^* de maneira que seu alicerce seja exposto. eles são descritos tautologicamente como pro­ fetas. que profetizam sobre Jerusalém. o povo levou estas palavras a sério.“®mas também abre a porta para uma aplicação maior para os seus amigos exilados e para os profetas israelitas em todos os lugares. embora nada esteja bem 'declaração do S enhor Yahweh' ”.“^ mas o uso que Ezequiel faz da expressão reflete a influência de seu contemporâneo Jeremias. Terceiro. 3) para a base do pensamento e a fonte do discurso. 15 Satisfarei minha ira^*’ contra a parede.^^ vocês perecerão no meio dela.. Segundo. Aqui a palavra lêb é usada de forma intercambiável com a palavra rúah (c f V. O que Ezequiel quer dizer é que a inspiração deles não era maior do que a sabedoria de um homem comum.“. Tragicamente.1-7) 2-3a Um preâmbulo complexo fomece o contexto para o oráculo contra os falsos profetas.18). então saberão que eu sou Yahweh.16 os profetas de Israel. uma frase única em Ezequiel (também no v. ejá se foram aqueles que a cobriram'^'’ . Esta desig­ nação não somente distingue os endereçados de Ezequiel em relação aos profetas babilónicos profissionais. Quando cair. são caracterizados como profetas autoinspirados.

tem um tom agourento. tal esperança não aparece aqui. No passado. A interpretação do próprio oráculo. particularmente as acusações formais e o primeiro anúncio de julgamento (vs. .378 O LIVRO DE E z e q u i e l A fim de destacar a distância entre a própria mensagem e a de seus ouvintes. Derivando-se da corte real. é complicada pela mistura entre a segunda e a terceira pessoa do discurso. suas palavras refletem a mente de Deus. Embora outros oráculos de ais possam apresentar alguma expectativa de escape. esta fónnula era usada por um arauto para chamar a atenção do povo para uma proclamação oficial do rei. Ezequiel reforça sua autoridade ao obedecer este comissionamento com a fórmula de intimação. O ataque de Ezequiel contra seus competidores profissionais não se origina dele mesmo.“’ 3b-7 A recitação das acusações de Yahweh contra os falsos profetas é estruturalmente complexa. 8-16) em comparação com a apresentação formal das acusações (vs. A palavra hôy que ocorre em outros pontos em Ezequiel. quando estava engajado tanto na confrontação quanto na exposição daquelas palavras.2. O tom do oráculo é afetado pelo pronunciamento de abertura: Ai. 3b-9). em contraste com os falsos profetas. Assim como em 6. Assim. são tolos.“* mas nos lábios do profeta expressa sofrimento intenso e comiseração diante da inevitável destmição. somente no versículo 18 e em 34. eruditos explicaram essa altemação ao propor a fusão de dois discursos separados. Ezequiei é ordenado a intimar sua audiência com Ouça a mensagem de Yahweh (sim ‘^ú débar-yhwh). Ezequiel deliberadamente se coloca como oficialmente comissionado de Yahweh. Primeiro. a razão do espaço devotado para o anúncio do julgamento (vs. especificamente se os apelos para o arrependimento são o destaque.3 e em outros textos. 3b-7) intensifica o tom lúgubre do oráculo. deriva-se dos lamentos pelos mortos. Fundamentalmente. Ao contrário. 3 O pronunciamento de ai em si mesmo mostra três problemas com os profetas profissionais como uma classe."*“ Mas essa abordagem se desfaz rapidamente diante do desenho literário unificado da passagem. a hostilidade que suas afirmações sem dúvida provocariam não deveria ser dirigida contra ele. e a altemação é descrita melhor tanto quanto uma flutuação do profeta ou uma vacilação entre os papéis do orador e do escritor. aparece como mensageiro confirmado de Yahweh. Ao fazer assim.

hãlak ’ãhêrê. declararem o erro (tô^â) em relação ao S enhor. Assim como lêb no versículo 2.15).. Entretanto. rüah denota a fonte da inspiração profética. “videntes”. A expressão lëbilû râ’û é estranha. 1]) e blasfema Deus (74.1. Embora a frase hãlak ’ahar.“’ difira um pouco da expressão mais comum. 4-5 O profeta emprega duas figuras de linguagem para descrever uma maneira perversa na qual seus profetas levaram avante seus . 33.8). Porque os profetas são também identificados como rõ?m.31 ).5-6 (NRSV) fomece a descrição total de um nãbãl: Um tolo (nãbãl) nunca mais será chamado nobre (nãdíb). esses profetas estavam meramente ventilando as próprias imaginações enganosas. 53. eles não têm inspiração divina: não viram coisa alguma. “seguir. No entanto. mas a ênfase neste contexto refere-se a afimiaçòes proféticas. sua fianção autônoma: seguem seus próprios impulsos. andar segundo” (e.2 [em português.'” Nos salmos nãbãl nega (14. “andar de acordo com”.1 -7 A s a c u sa ç O e s c o n t r a o s f a ls o s p ro f k ta s 379 O adjetivo nãbãl é usado na literatura de sabedoria quanto a um tipo especial de tolo: aquele que é arrogante (Pv 30. suas respostas não representam a perspectiva de Deus. 20. Isaías 32. cruel na palavra (Pv 17. obtuso espiritualmente e moralmente (Jó 2.22). um salafrário (Jó 30.g.10).13 . Atos tolos que dão culpa incluem pecados sexuais“*e irreverência cúltica (Js 7.7) e m ar’eh serviram como designações para visões proféticas. convida os ouvintes a pensarem sobre a conduta pessoal dos profetas em geral. nem um vilão (kílay) será honrado (sôa“^. e suas mentes (libbô) armam iniquidades: para praticarem impiedades. Longe de receber orientações de Yahweh. os falsos profetas “olham” para si mesmos. mas o sentido deve ser algo como “sem visão”. Pois tolos (nãbãl) falam tolices (nébãlâ).*® esta afirmação se junta a outra negação da genuinidade.7). pode-se entender a afirmação como a acusação mais geral de ignorância espiritual.16. Terceiro. Segundo. ou para a situação atual.32). A caracterização de Ezequiel quanto aos profetas como nébãlím enfatiza o caráter ímpio e perverso deles. e os cognatos rô’eh (Is 28.

Estilisticamente falando. que se autosserviam. Num estilo característico ezequieliano. Em vez de se colocarem em pé na brecha ao anunciar o mal. A segunda figura oferece uma imagem diferente de destruição: as fortificações ao redor da casa de Israel se deteriorarão. A imagem é perfeita dada a freqüente associação desses animais. negligenciavam suas responsabilidades sociais. 6-7 Ezequiel abandona as metáforas e vai em direção ao ataque contra os falsos profetas. uma ou duas reações eram requeridas daqueles responsáveis pela segurança da propriedade: ou ir e ficar em pé na brecha. A primeira maneira é comparando-os com chacais no meio das ruínas. Israel não é mais a vinha protegida por uma cerca de pedras. pelo abandono. A metáfora compara Israel a uma vinha. ela é uma cidade cercada. o profeta sacode sua audiência ao mudar a nuança da parede.IVRO DE E z e q u i e l trabalhos. Mas esses profetas. ficavam remexendo as ruínas com intenção de tirar o maior proveito possível para eles. o Deus patrono de Israel. as más notícias são que o inimigo não é somente o exército de algum reino terreno. que normalmente seria protegida de saqueadores humanos e animais por uma parede (gãdér). e reconstruí­ rem o muro ao rogar pela renovação das relações do pacto no qual a verdadeira segurança deveria ser encontrada. mas o próprio Yahweh. e a altemação do discurso de terceira para um discurso de segunda pessoa é uma distração. No entanto.“ Essas imagens lidam com o entendimento comum que o papel do profeta era de manter as defesas espirituais da comunidade de Israel. mas a figura convida os ouvintes a imaginar Israel como uma sociedade em ruínas. De acordo com 20.380 O I.” Ezequiel não dá uma interpretação da símile. o contraste entre a . Quando apareciam brechas (pèrõsôt). No dia de Yahweh. Yahweh. a parede rapidamente se deterioraria. No versículo 5b.29-30 isto deveria ter sido feito ao rogar por uma revitalização espiritual e moral. Como resultado. Em vez de ajudar a reconstruir a nação. tornou-se o ini­ migo mais terrível deles. ou reparar o muro.^^ Quer construído de pedras soltas quer com argamassa. de bando. estes versículos são repetições. ou um campo. Isto pode ser boa-nova. afastando qualquer intruso. noturnos e carniceiros e com as cidades devastadas e as civilizações devastadas. os falsos profetas enfatizam sobre a devastação.

Os profetas tiveram visões vazias e adivinhações enganosas (hãzú sãw ’ wéqesem kãzãb). palavra. A última afirmação do versículo 6 contém duas formas raras. em Ezequiel (o Nifal ocorre em 19. “esperar. usado aqui quanto a uma antecipação esperançosa. cada uma delas começa com . A primeira. colocar a efeito”. voto. Ao transformar uma afirmação descritiva numa questão retó­ rica. e ao mudar da terceira para a segunda pessoa do discurso direto. ordem. mas isto não irá mascarar a futilidade ou a falta de autori­ dade pessoal dos que se intitulam profetas. ou promessa tem sido: “levar avante. No versículo 7 Ezequiel reitera os temas básicos do versículo 6. força seus ouvintes a interagir com suas acusações.** nem mesmo falou com eles (v. Este oráculo é sobre eles! É o pronunciamento deles que foi caracterizado como va­ zio e enganador. 6). com uso do Hiphil de qüm. pregam uma mensagem errada num momento errado.5). plano. lêqayyèm. Yahweh não os comissionou (v. mas que pelo fato de não serem enviados de Yahweh. Ao concluir suas afirmações com a fórmula signatária declaração de Yahweh {nè’um yhwh). aguardar”. é um neologismo. Aqui. pacto. “portanto”. a forma Piei mais antiga comprovada de qw m . A sentença é dividida formalmente em duas partes. Em resumo. representa a única ocorrência da forma Piei de yhl. mas muda a construção para fazer que sua mensagem chegue ao seu destino. 7).” Podem forjar um selo de Yahweh em suas próprias afirmações.” (2) O primeiro pronunciamento de julgamento (13. por outro lado. Ezequiel cria outra expressão para expor uma ideia falaciosa: não se pode manipular Yahweh simplesmente com o uso de sua assinatura no fmal do pronunciamento. o problema de Ezequiel com os falsos profetas não é simplesmente que oferecem esperança ao profetizarem paz (ele mesmo o fará).8-9) 8 Este versículo abre com lãkên. afirmaram publicamente a autorização divina por um lado.^ No hebraico bíblico o método padrão de escrever um juramento. sinalizando a transição da acusação para o anúncio de julgamento. wéyihãlú. como se o próprio imprimatur possuísse algum poder semimágico.8 -9 O P R IM E IR O p r o n u n c i a m e n t o d e j u l g a m e n t o 381 realidade e a pretensão é claro. enquanto procuravam obrigar Deus a cumprir suas proclamações.^* e então selaram seus pronunciamentos com o imprimatur de Yahweh.1 3 .” O infinitivo.

382

O

LiVTio DF. E z e o u i e l

um resumo das bases para a punição, introduzido porya‘^an, “porque”,
seguido por uma especificação da punição. O primeiro anúncio reitera
por meio de dois grupos paralelos de acusações já citados duas vezes
nos versículos 6 e 7. Daqui em diante Yahweh não gasta tempo
declarando sua disposição para com os falsos profetas. Não os tendo
engajado em seu serviço, por intermédio de uma fórmula de desafio,“
afinna sua oposição fundamental a eles. A declaração (lit. “eu estou
contra vocês” ), seguida por sua assinatura autêntica enfatiza a
seriedade da delinquência dos profetas. Que agora se preparem para
um encontro direto com Deus!
9
A sentença em si abre com uma declaração da determinação de
Yahweh de ferir pessoalmente, com sua mão, os charlatões. Ezequiel
faz uma referência frequente a Yahweh esticando sua mão como um
gesto punitivo.*' No entanto, ao se substituir o verbo hãyâ, “ser, acontecer,
tomar-se”, por nãtâ, que é comum para a expressão, a afirmação recebe
um tom irônico. Enquanto em outros pontos Ezequiel usa a expressão
hãyétâ yad-yhwh, “a mão de Yahweh veio”, quanto à capacitação
profética,“ agora Yahweh anuncia que os falsos profetas finalmente
experimentarão aquilo do que tem afirmado até aqui. No entanto, os efeitos
de sua mão sobre eles serão bem diferentes do que qualquer profeta
geralmente esperaria e diferentes do que esses falsos profetas afirmam.
Os efeitos da mão de Yahweh são descritos em um grupo de
três linhas paralelas próximas:
bésôd ‘^ammí lõ’-yihyú
úbiktãb bêt-yisrã’êl lõ’yikkãtêbú
wé’ el-’admat yisrã’êl lõ’ yãbõ’ü

Na companhia de meu povo não permanecerão;
E no registro da casa de Israel não serão registrados;
E para a terra de Israel não mais virão.
Essas três punições vão direto ao coração do que significa ser
um israelita. Primeiro de tudo, Israel consistia de uma comunidade de
fé unida por um relacionamento especial com Yahweh. Porque o verbo
do qual o substantivo sô d é derivado nào é comprovado no hebraico
bíblico,“ nosso entendimento de seu significado depende de 22

1 3 .8 -9

O PRIMHIRO PR O NU NCIAM ENTO DE JULCiAMKNTO

383

ocorrências do substantivo. Em outros pontos é usado quanto a um
grupo de amigos bem chegados (Jr 6.11; 15.17; Jó 19.19), e como
sinônimo de ‘'êdô, “congregação” (SI 111.1, sôd yêsãrím), e qãhãl
“assembleia” (Gn 49.6, assembleia dos filhos de Israel). No Salmo
89.8 (em português, 7) os confidentes de Yahweh, os anjos, são
chamados sôd-qêdõsím, “a companhia dos santos”. Embora Ezequiel
expanda o escopo da expressão, seu uso pode ter sido inspirado por
Jeremias 23.18,22, no qual o grupo dos profetas genuínos é identificado
como sôd yhwh, “os confidentes de Yahweh”. Aqui Ezequiel vai além
ao negar a participação dos falsos profetas no concílio divino;*“ ele
desconsidera a afirmação que fazem de participarem da comunidade
terrena da fé - de ser o povo de Yahweh.
Segundo, os nomes dos verdadeiros israelitas estão registrados
no registro oficial da nação. Este versículo fomece a mais antiga
ocorrência conhecida de kétãb, um equivalente aramaizado dos termos
sêper e miktãb, que ganham grande popularidade no hebraico bíblico
mais recente.*’ Embora kétãb pudesse ser aplicado a qualquer
documento escrito, esta ocorrência encontra seu análogo mais próximo
nos registros daqueles que retomaram do exílio (Ed 2.62; Ne 7.64).
A afirmação de Ezequiel excluiria falsos profetas da lista do censo
civil da casa de Israel.**
Terceiro, os verdadeiros israelitas, mesmo os exilados, conside­
ravam-se herdeiros da promessa divina dos patriarcas e de seus an­
cestrais, que haviam ocupado a terra por séculos. Se os oponentes
profissionais de Ezequiel tivessem levado seus pronunciamentos a sério
teriam achado esta afinnação, em especial, preocupante. Assim como
seus colegas em Jerusalém, parecem ter antecipado um retomo para
a terra que lhes pertencia (cf Jr 8.11; 14.13-18; 29.1-9). Ezequiel
assim anuncia que mesmo que suas predições viessem a se realizar
para a comunidade no exílio como um todo, os falsos profetas não
participariam do retomo.
Com essa sentença tripla Ezequiel estende o veredicto que
Jeremias havia anunciado especificamente sobre Semaias, o neelamita,
(Jr 29.29-32) a todo o gmpo de falsos profetas. Todos eles seriam
excomungados pelo próprio Yahweh da comunidade do pacto. De
acordo com Deuteronômio 18.18, esta sentença sozinha era suficiente
para desacreditá-los como verdadeiros profetas de Yahweh. Com uma

384

O L IV R O DE E / e o u i e l

ironia apropriada, a afirmação fmal declara que quando isto ocorrer,
tlnalmente, o reconhecerão, mas não como a fonte de suas falsas
profecias, e sim como aquele que cumpre a palavra de Ezequiel.
(3) O segundo anúncio de julgamento (13.10-16)
O segundo anúncio de julgamento é muito mais longo e muito
mais complexo que o primeiro. Estruturalmente, divide-se em três
partes: ( I) uma reiteração das acusações contra os falsos profetas
(v. 10); (2) um anúncio da sentença sobre o povo enganado e os
profetas, concluindo com a fórmula de reconhecimento (vs. 11-14);
(3) uma reiteração da sentença, enfocando destinos dos profetas e
finalizando com a fórmula signatária.
10
A força da determinação de Yahweh de lidar com falsos
profetas se reflete na introdução enfática das acusações. Agora as
acusações se tornaram específicas. Em princípio, Yahweh havia
acusado o gnipo falso por fazer pronunciamentos vazios e enganosos,
agora ele é acusado de um crime social: levar o povo a se desviar.
hit^ú é uma forma Hiphil aramaizada de
derivada do hebraico
mishinaico substituindo o
bíblico, “desviar-se”.*’ A expressão
evoca imagens de um pastor que em vez de guiar seu rebanho ao
pasto e à segurança faz que se perca. Ao tomar uma metáfora mais
comumente associada com uma liderança política **Ezequiel colocou a
responsabilidade para o conflito do povo de Yahweh { ‘^ammi)
precisamente sobre os ombros dos falsos profetas. No entanto, em
vez de guiá-los a pastagens autênticas e ao descanso, os tem alimentado
com afirmações vazias de paz. Eles têm, intencionalmente, enganado
para um sentido falso de segurança com seus pronunciamentos de
sãlôm, “bem-estar, salvação”. Ezequiel não comenta o conteúdo de
suas mensagens, mas os impostores exílicos eram, sem dúvida, como
papagaios repetindo as mensagens proclamadas pelos que estavam
em Jerusalém (Jr 6.14; 8.11; 14.13-14; 23.17). Jeremias, especificamente,
denuncia Ananias por predizer um colapso iminente da Babilônia (28.1 11), que significaria libertação e salvação para a nação, o retomo dos
exilados, e a manhã de uma nova era de paz e prosperidade. Tais
mensagens produziram uma complacência ilusória entre a nação. Fingir
que tudo estava bem quando a nação estava à beira do colapso espiritual,
moral e político não mudaria a realidade.

1 3 .1 0 -1 6

O S E O IIN D O A N Ú N C IO D F JU l.(iA M F .N T O

385

Para ilustrar os efeitos enganadores de suas atividades, Ezequiel
introduz uma nova metáfora. O que está acontecendo na casa de Israel
pode ser comparado com a maneira como algumas pessoas constroem
casas. Primeiro, as paredes são fracas, talvez por causa do barro usado
nos tijolos, um barro de baixa qualidade, ou os tijolos não têm fibra
suficiente para segurar o barro, a argamassa é deficiente.*’ Mas em
vez de corrigir os defeitos dos fabricantes do tijolo e dos pedreiros, tão
logo os muros se erguiam, outros trabalhadores vinham e cobriam todas
as evidências da baixa qualidade usando massa. A palavra para massa,
tãpêl, é rara e tem sido interpretada principalmente como “saliva”,™
“qualquer coisa que careça de um ingrediente essencial”, neste exemplo
argamassa sem o ingrediente orgânico essencial para dar liga;” uma
variante de tãpal, “rebocar, espalhar”, que se encaixa com o verbo
tüah, “rebocar, cobrir, espalhar sobre”, associado com tãpêl por toda
essa passagem (vs. 10-12, 14-15) e a afirmação paralela em 22.28;’^
um cognato de tiplâ “vaidade”.’^ Enquanto os profetas do século 6»
encontraram especialmente na palavra tpl uma expressão apropriada
para falsos profetas, aqui Ezequiel parece ter se baseado em Jeremias,
que condenou os profetas enganadores de Samaria usando tiplâ, porque
“levaram meu povo para lugares errados”’“ ao profetizarem por Baal.
É de especial ensino o texto de lamentações 2.14, que, talvez sobre
influência de Ezequiel,’* fala de profetas tendo visões {hãzú) “vazias”
(sãw’) e “futilidades” (tãpêl). Ezequiel oferece sua própria explicação
do termo em 22.28: “eles espalharam (tãhú) tãpêl para eles, vendo o
vazio (sãw’) e adivinhando falsidade (qõsêmtm kãzãb) para eles”.
Em 13.10-14 o profeta não está descrevendo uma visão que teve
dos homens cobrindo as paredes de uma casa; antes, está desenvolvendo
uma metáfora comum quanto à hipocrisia em geral. O que é espalhado
nas paredes, tãpêl, é uma abstração negativa, denotando “futilidade” ou
“vaidade”. A audiência de Ezequiel não perderia o jogo com as palavras
com ípí, “rebocar”, mas tãpêl funciona como um correlativo semântico
de sãw’, “vazio”, e kãzãb, “engano”. No português contemporâneo, o
efeito retórico equivalente pode ser atingido por meio da tradução de
tãpêl como “discurso ridículo”, um termo de gíria para “besteira”, que
faz um jogo com a tradução tradicional de “água caiada”, mas com uma
nuança maior. Ezequiel ainda não identifica aqueles que participam
desse projeto figurativo de construção. No entanto, pensando em 22.28,

386

O L IV R O D E E z e q u i k l

que claramente reconhece os “rebocadores” como os profetas, os
construtores das paredes devem ser o povo, especialmente a comunidade
dos líderes. Em vez de exporem as fraquezas do muro, os falsos
profetas foram manipulados pelas mãos dos construtores. Com suas
predições autoinspiradas de paz, cobriram as deficiências fiindamentais
na sociedade israelita e encorajaram um sentimento ilusório de
bem-estar.
11-12 O anúncio de Yahweh da sentença sobre os falsos
profetas continua com a símile da parede/muro. Mas começa de
forma oblíqua ao ordenar que o profeta informe os rebocadores que
esta casa, cujas paredes parecem tão bonitas do lado de fora, está
para cair diante de uma tempestade violenta. A força da tempestade
é destacada por meio da apresentação de três elementos destrutivos;
chuva pesada (gesem sôtip), pedras de gelo ( ’a bnê ’elgõbis), e ventos
com a força de furacões (rúah sè^ãrôt')?'^ Quando isto ocorrer os
rebocadores da casa serão questionados sobre o que aconteceu ao
trabalho de suas mãos.
A mensagem é clara. Uma aparência externa atrativa não substitui
uma boa condição intrínseca. Os profetas têm passado uma massa
cobrindo uma sociedade que é fundamentalmente corrupta. Em vez
de expor sua decadência, com suas afirmações de “paz”, criaram um
falso sentimento de otimismo e bem-estar. Nenhuma quantidade de
massa pode defender a casa contra a tempestade iminente. Quando o
teste vir, não sobreviverá nem a sociedade nem profecia alguma.
13-14 Estes versículos transformam uma figura hipotética em
uma realidade amedrontadora ao personalizar a tempestade. Esta
tempestade não é um fenômeno meteorológico comum. Os ventos
tempestuosos, a chuva pesada, e o gelo destruidor são impelidos pela
fúria explosiva de Yahweh, que está determinado a destruir (kãlã) a
casa. O versículo 14 descreve o processo em três estágios: Yahweh
derrubará a parede que os charlatões rebocaram, a reduzirá a pedacinhos,
e exporá seu alicerce. A linguagem da última informação deixa claro
que Ezequiel enxerga muito mais que o colapso de uma casa feita de
tijolos de barro, gãlâyésõdô, “expor seu alicerce”, deriva-se de uma
prática militar de destruição em massa das cidades conquistadas
conforme descrito em Miqueias 1.6 (NRSV):

1 3 .1 0 -1 6

O S E G U N D O A N Ú N C IO D E iU L O A M E N T O

387

Portanto farei de Samaria um montão no descampado;
um lugar para se plantar vinhas.
Empurrarei suas pedras para o vale,
e descobrirei seus alicerces.’’
A mudança feita por Ezequiel da ênfase sobre o símbolo para a
ênfase sobre o referente; de casa para a cidade, é reforçada pela
troca de gênero do masculino (muro) para o verbo feminino {nõpélã)
e um sufixo pronominal (bêtôkã). O profeta está obviamente pensando
na queda de Jerusalém, e com este desastre também na eliminação da
falsa profecia em Israel. A aniquilação da nação exporá os falsos e os
forçará finalmente a reconhecer Yahweh em verdade.
15-16 Estes versículos representam um adendo, reiterando o
papel de Yahweh e esclarecendo suas intenções. No julgamento, a ira
de Yahweh para com a parede (Israel) e seus rebocadores (os profetas)
será totalmente exposta. O oráculo alcança seu clímax com Yahweh,
0 juiz e executor, anunciando em discurso direto o total cumprimento
de seus objetivos; não haverá mais parede e não haverá mais rebocadores!
Aqueles que haviam pacificado o povo com afirmações vazias de bemestar encontrarão um fim devastador. Diferente de seus pronunciamentos
enganosos, o oráculo de Ezequiel é selado com uma assinatura autêntica
de Yahweh.
♦ Implicações teológicas

Por toda a História, o povo de Deus tem sido atacado por
charlatões de diversas sortes. Ezequiel 13.1-16 ser\'e como um aviso
para todos aqueles que podem afirmar ser porta-vozes do Deus vivo
ao identificar as marcas de um enganador.
Primeiramente, enganadores caracteristicamente afirmam au­
toridade divina, mesmo quando falam somente de suas próprias inspi­
rações. Os fraudadores dos dias de Ezequiel asseveraram ter tido
visões, mas não viram nada. A perspectiva deles para com a análise
e as soluções para as crises que a nação enfrentava eram simples­
mente opiniões particulares, motivadas politicamente para ganhar
aprovação do povo. Um treinamento bom, dons de oratória, uma
personalidade carismática, e riqueza de experiência podem codifi­
car alguém para ficar em pé atrás de um pódio universitário ou de

388

O I.IV R O D E E z e q u i e l

um palanque político, ou para atuarem dramaticamente em um palco,
mas estas atitudes sozinhas não dão autoridade a alguém para se co­
locar atrás de um púlpito. A mensagem daqueles que afirmam falar de
Deus deve ter a assinatura de Deus. Isto será verdade quanto à nossa
proclamação somente na extensão que declaramos a mensagem de
Deus revelada na Escritura: sola Scriptura!
Segundo, enganadores caracteristicamente proclamam mensa­
gens que as pessoas querem ouvir, especialmente quando a verdade é
dolorosa. Para os exilados e os moradores de Jerusalém, nenhuma
palavra teria sido mais bem-vinda, mas ao mesmo tempo mais mortal
que ouvir que tudo estava bem. Nem a comunidade nem os indivíduos
em declínio espiritual e moral têm vantagens ao ouvir sobre o bemestar. Para muitos, a ilusão se toma realidade, e vivem na terra do fazde-conta, do “tudo está bem” mesmo quando nada está bem. Tal au­
diência aplaudirá um mensageiro por suas palavras agradáveis, e não
por sua fidelidade.
Terceiro, fraudadores caracteristicamente estão mais interessa­
dos em suas próprias posições que no bem-estar da comunidade.
Ezequiel compara os falsos profetas com chacais, revirando entre as
minas à procura de vantagem pessoal, levando vantagem sobre a ca­
lamidade dos outros. Enganadores não se responsabilizam pelo desti­
no do povo; só pensam em si mesmos.
Quarto, as afirmações dos fraudadores caracteristicamente
morrem com eles. Por serem deficientes em autoridade e integridade,
suas palavras também são deficientes em poder. A rapidez que apare­
cem panaceias humanamente esquematizadas que danificam a socie­
dade atualmente é uma testemunha embaraçosa da impotência deles.
Somente a palavra do Senhor permanece (Is 40.7-8) e atinge seus
objetivos de vida (Is 55.10-11).
Quinto, os enganadores caracteristicamente se colocam sob o
julgamento de Deus. Para alguém que é autoinspirado clamar que
está falando por Deus é o máximo da arrogância, e seduzir pessoas
ingênuas com palavras bajuladoras é a maior tolice. Mas Deus não é
zombado. O que os líderes plantam, colherão.

1 3 .1 7 -2 3

B

r u x a r ia

BRU TAL

389

h. Bruxaria bruta! (13.17-23)
17 "Quanto a você, homem, vire sua face contra as mulheres de
seu povo, aquelas que proclamam profecias autoinspiradas.'
Profetiza contra elas 18 e diga: ‘assim o Senhor Yahweh declarou:
ai daquelas que costuram- faixas mágicas em todos os pulsos e
que fazem amuletos para as cabeças de todos os tamanhos* para
fazer armadilhas para as vidas humanas!^ Vocêsfarão armadilhas
pard' as vidas de meu povo,^ mas preservarão suas próprias*
vidas? 19 Vocês me profanaram diante de meu povo em troca de
um punhado de cevada e migalhas de pão - matando vidas que
não deveriam morrer e preservando vidas que não deveriam viver
- através de sua mentira a meu povo que cai em^ mentiras.
20 Portanto, assim declarou o S enhor Yahweh: ‘olhe, estou contra
suas faixas mágicas com as quais'" vocês prendem as vidas." Eu
as arrancarei de seus braços; libertarei as vidas que vocês estão
prendendo'^ de maneira que fiquem livres.'^ 21 Eu arrebentarei
seus amuletos; resgatarei meu povo de suas garras. Então, não
serão mais como uma presa em suas mãos, e vocês saberão que eu
sou Yahweh.
22 Porque vocês deliberadamente'^ desmoralizaram ojusto, quem
eu não machucaria, e tenho encorajado'^ o impio a não sair do
seu mau caminho para que viva, 23 portanto, nunca mais verás
visões vazias ou praticarás adivinhação, pois resgatarei meu povo
de suas garras. Então, saberás que eu sou Yahweh’”.

♦ Natureza e desígnio

Embora um limitado número de oráculos dirigidos para mulheres
seja encontrado no Antigo Testamento,'* esta profecia contra falsas
profetisas é sem igual. A falta de paralelos bíblicos contribui para a
frustração que os intérpretes têm na consideração da confusão de
gênero, nas formas incomuns, e no raro vocabulário técnico, levando-os
a literaturas cognatas pedindo ajuda e iluminação.'® Estas caracterís­
ticas não precisam automaticamente levantar suspeita sobre a integri­
dade do texto. Simplesmente relembram o leitor que o Antigo Testa­
mento como um todo representa nada mais que um fragmento linguístico,
contendo somente uma proporção pequena do total do vocabulário
hebraico antigo, e que nossas regras da lexicografia e gramática
hebraica são baseadas em documentos escritos. Estes não governam

390

O

I.IV R O D E E

z k q u ie l

necessariamente o modo que todas as pessoas escreviam, ou fala­
vam, muito mais do que a teoria gramatical governa hoje a comunica­
ção diária. Assim como a unidade anterior (vs. 1-16), esta passagem
se divide em um preâmbulo e um resumo das acusações contra as
mulheres, seguida de dois anúncios de julgamento.
(I) As acusações contra as bruxas (13.17-19)
17 A maneira como o profeta apresenta a mensagem de Yahweh
e a nova ordem para vire a sua face contra-^ as mulheres de seu
povo sinaliza o começo de um novo oráculo. Embora bênôt ‘^ammèkã
(lit. “suas compatriotas”) represente o relativo feminino de bênê
^<2/w/W(?M(“seus compatriotas”, 3.11), este oráculo não é dirigido para
as mulheres israelitas em geral. As pessoas sob escrutínios são
imediatamente destacadas como aquelas que proclamam profecias
auíoinspiradas {ham m itnabbê’ô t millibbéhen, lit. “aquelas que
profetizam de seus próprios corações”). A presença de um grupo
profético feminino em Israel não é uma surpresa. Profetas do sexo
feminino eram comuns em Israel desde tempos antigos, e eram notáveis
fora de Israel.^' Enquanto a expressão nèbí’â, “profetiza”, é aplicada
pelo menos a cinco mulheres no AT,~ Ezequiel se recusa a dignificar
sua audiência com tal título. No melhor caso, deixa que “atuem como
profetas”, mas como os falsos profetas no oráculo anterior, essas
mulheres são uma fraude. A mensagem delas não tem conexão alguma
com Deus; provém de suas próprias imaginações.
18 A fim de contrastar e confirmar a posição dele como um
profeta de verdade de Yahweh, Ezequiel recebe a ordem para predizer
seus pronunciamentos contra as mulheres com a fórmula de acusação
Assim o Senhor Yahweh declarou (kõh ’ã m a r ’ã dõnãy yhw h).
O pronunciamento de abertura de um lamento determina um tom
para o oráculo, não deixando dúvida sobre a disposição de Yahweh
para com essas mulheres.^^ Na apresentação formal das acusações,
Ezequiel atacará os métodos das profetisas, os seus objetivos e os
seus impactos.
É impossível chegar a um claro entendimento dos métodos das
mulheres por causa da obscuridade das expressões usadas. No entanto,
duas atividades específicas parecem estar envolvidas. A primeira delas
é que estão costurando algo para os braços do povo. Porque kêsã tô t/

13.17-19

As ACUSAÇÒF.S CONTRA AS BRUXAS

391

kissêtôtsp&xQCQ somente aqui e no versículo 20, seu significado é incerto.
O primeiro impulso de alguém é associar o termo com o verbo kãsâ,
“cobrir”, embora na LXX 7ipoaKE(|)dA,aia, “travesseiro”, vá numa
direção diferente, numa direção que continua no hebraico tannaítico.^“
Porque algum modo de poder mágico está envolvido aqui, para melhor
associar-se à forma singular do substantivo, keset, com o verbo
acadiano, kasú, “atar”, e o substantivo kasítu, “ataduras mágicas”,^’
a referência aqui é a faixas mágicas enroladas ao redor dos pulsos e
braços (v. 20) por essas mulheres. No entanto, alguns argumentam
que essas faixas eram também colocadas nos pulsos de suas vítimas
de maneira que as mulheres pudessem manter controle sobre elas
por intermédio de magia/simpatia.^*
Segundo, eles estào fazendo (^õsa) alguma coisa para as cabeças
das pessoas. O significado de hammispãhôt é também incerto, e as
traduções variam: “trapos” (Greenberg), “gorro” (NJPS), “manto”
(LXX, Sir.),^’ e, mais comumente, “véu” (NRSV, NAB, REB, NASB,
NIV, JB). A última interpretação é baseada numa suposta associação
com o acadiano sapãhu, “soltar, espalhar”.^®No entanto, a derivação
de mispãhôt pode estar muito mais próxima, na raiz hebraica sph,
“unir, atar”. Esta raiz nào somente sugere um paralelo melhor com
faixas ao redor dos pulsos; é também associada mais facilmente com
acessórios mágicos, especialmente amuletos amarrados por uma linha
e vestidos como um talismã” na testa, ou, mais provavelmente, passado
sobre a cabeça e pendurado no pescoço. Qualquer que seja a natureza
de késãtôt e mispãhôt, parecem ter sido instrumentos de magia negra,
e aqueles que lidam com estas coisas podem muito bem ser designados
feiticeiros, mágicos malignos, bruxos. Com respeito a onde aprenderam
os truques da magia podemos somente especular, mas dada a presença
da magia na Babilônia antiga e a presença de expressões técnicas
emprestadas do acadiano neste texto, as influências mesopotâmicas
parecem improváveis.“
As mulheres usavam esses objetos a fim de fazer algo agressivo:
ganhar controle sobre toda a comunidade^' exílica. As vítimas são,
primeiramente, referidas como kol-qômâ, que, como kol-’a^ilêyãday,
“todas as juntas de minhas mãos”, é frustrantemente” ambíguo.
A expressão parece idiomática quanto a todas as pessoas, independente
do tamanho físico delas ou da posição social. A ambição dessas

392

O LIVRO iji; Ezequiel

mulheres era do tamanho da energia que tinham. Perseguiam suas
vítimas, designadas népãsôt, assim como caçadores atrás de uma
presa; e como animais ou pássaros enganados para dentro de uma
annadilha mortal, o povo havia sido seduzido, népãsôt funciona como
uma palavra-chave nos versículos 18-21, aparecendo sete ou oito
vezes.” népãsôt tem sido interpretada como “almas” independente
do corpo, análogo ao Bab. ilu, istaru, lamassu, e sédu, “demônios”
espirituais, cuja presença determina a identidade, o destino ou a sorte
de uma pessoa.” Assim, o objetivo de uma bruxa “caçando” almas
seria para ganhar controle sobre esses demônios, e assim exercitar
poder sobre a pessoa humana. Esta interpretação não significa que
Ezequiel havia entendido e adotado a noção babilônica das almas penadas,
pois tais noções não são hebraicas. No entanto, seus compatriotas podem
ter tido tais noções. Porque não tinham escrúpulos sobre adotar ideias
religiosas pagãs de onde estavam, e adaptá-las de forma sincretista aos
próprios padrões de crença e prática, provavelmente também adotaram
muitas noções antropológicas não israelitas. A adoção que Ezequiel faz
desta linguagem representa uma acomodação retórica às noções
prevalecentes naqueles que o ouviam, mas não concordavam, um
padrão observado com frequência no livro. Esta interpretação pode
ser muito atrativa, no entanto, a maioria das pessoas continua a entender
népãsôt em seu sentido hebraico normal, como uma designação
holística para “pessoas”.”
Após identificar os mágicos como o bénôt ‘^ammékã (lit. “as
filhas de seu povo”, v. 17), a referência que Yahweh faz a népãsôt
como meu povo
parece estranhamente simpática. Em
oráculos anteriores já nos acostumamos ao fato de Yahweh desonrar
seu povo por sua infidelidade ao pacto, um padrão que inicia em 14.12ss.
e é mantido até o capítulo 34. No agrupamento atual de oráculos
envolvendo a profecia verdadeira e falsa, no entanto, a disposição de
Yahweh para com seu povo é excepcional. Em 13.11-14.14 ele se
refere a Israel como ^ammi, “meu povo”, não menos que nove vezes,’*
das quais cinco vezes ocorrem nesta curta passagem. Quando Yahweh
vê seu povo ameaçado por charlatães enganadores (cf. vs. 9-10) e
abutres humanos, ele se levanta como patrono deles e vem ao auxílio
deles (ver especialmente 34.1-10). Aqueles que procurariam controlálos e explorá-los se verão discutindo com ele.

13.17-19

As ACUSAÇÕES CONTRA AS BRUXAS

393

A Última linha do versículo 18 é problemática e poderia ser
interpretada de várias maneiras. Minha tradução leva em consideração
que únépãlôt se refere às próprias bruxas, e que estão tomando
decisões a respeito de suas próprias vidas. A pergunta é retórica.
À luz dos avisos de Yahweh a Ezequiel sobre as consequências da
desobediência ao seu próprio chamado profético (3.16-21), a resposta
antecipada é negativa. Esse anúncio de lamento sobre essas mulheres
representa a punição que Ezequiel poderia ter esperado por falhar em
servir como sentinela de Yahweh. Mas se o lamed na palavra lãkênâ
for interpretado como um dativo ético, viz., “para a sua vantagem”, a
palavra népãsôt poderia também se referir às suas vítimas. E então, o
verbo tèhayyeynâ diz respeito às vidas dos outros, provavelmente suas
presas. Enquanto esta interpretação parece improvável, nos dois casos
as profetisas se comportam como parasitas humanos, assegurando suas
próprias vidas à custa de seus companheiros israelitas.
19
Mas os efeitos das atividades nefastas das bruxas vão além
da vitimização de outros seres humanos: também profanaram Yahweh.
A declaração na abertura vocês me profanaram (wattéhallelènâ’õti)
é chocante; o hebraico bíblico tende a suavizar expressões como estas
ao inserirsêm, “nome”, entre o verbo ofensivo e o tetragrama sagrado.^’
Em geral, o nome Yahweh é profanado quando seu povo se engaja em
condutas malignas,’®que certamente é o caso aqui. Com suas invocações
feiticeiras do nome divino, as mulheres denegriram Yahweh publicamente
colocando-o o nível das deidades babilónicas e dos demônios, que se
deixam ser manipulados pela adivinhação e pela bruxaria. Assim como
0 gênio da lâmpada de Aladim, espera-se que Yahweh saia da lâmpada
quando esses mágicos a esfregarem e o chamarem.
Mãos cheias de cevada e migalhas de pão. A preposição bé
em bésa^ãlê sé‘^ãrim e bipétôtê fornece a chave para interpretar
esta referência enigmática. Se for entendido como um beth instrumental,
a cevada e o pão representam os meios pelos quais a vontade dos deuses/
Deus é determinada. Isto pode envolver tanto a adivinhação por
intermédio da leitura das migalhas de pão lançadas como a farinha de
cevada na água. como o fato de oferecer esses elementos como comida
para os deuses em conexão com a adivinhação ou magia.” Mas se a
preposição for tratada como um beth pretii, então a cevada e o pão
significam o preço que os clientes pagam pelos serviços das bruxas.“®

394

O

LIVRO DE E / .e o u i k l

As vidas de suas vítimas se tomam o arroz com feijão das mulheres.
Baseado em seus próprios interesses, o último fato determina quem vive
e quem morre. O resultado é uma ordem ética invertida: aqueles que
deveriam morrer, vivem (provavelmente as mulheres e os clientes que
as buscam procurando vantagem pessoal); e aqueles que deveriam viver,
morrem (as vítimas, ‘^ammi, “meu povo”). Com suas mentiras tortuosas
(kãzãb) tiram proveito da credulidade de um público degenerado.
Agora se toma claro por que Ezequiel se recusa identificar essas
mulheres como profetisas. Agem como profetas pagãos {hitnábbê\
tentando manipular Yahweh enquanto exploram outras divindades,“'
mas seus métodos e objetivos são sinistros. Por meio de encantos,
castigos, palavras mágicas, a mutilação das imagens de suas vítimas,
e pactos com espíritos malignos espreitam a comunidade exílica como
presa e coagem os deuses a servi-las de acordo com seus desejos.
Não são profetas como Ezequiel entende o ofício; são bruxas,
praticantes da magia negra, charlatães.
(2) O duplo anúncio de julgamento (13.20-23)
20-21 Mais uma vez a partícula lãkên (portanto), seguida por
uma fórmula de acusação, sinaliza uma transição retórica, das
acusações contra as bruxas para o anúncio duplo das sentenças contra
elas. Assim como no versículo 8 anteriormente, o primeiro anúncio,
aqui, abre com uma fórmula de desafio, dessa vez expressando a
oposição fundamental de Yahweh a acessórios mágicos que as mulheres
usam para apanhar suas vítimas. A sentença tem a forma de seis linhas
formatadas em um arranjo deliberadamente equilibrado ABCA’B’C’:
A
B
C
A’
ly
C

Ação divina
Objetivo divino
Propósito/ resultado
Ação divina
Objetivo divino
Propósito/resultado

Eu as rasgarei (as faixas) de seus braços.
Eu libertarei as pessoas.
Para que possam voar livres.
Eu destruirei seus amuletos.
Resgatarei meu povo de suas mãos.
Para que deixem de ser presas em suas mãos.

O antropomorfismo é desafiador. Yahweh pessoalmente invadirá
0 mundo espiritual e privativo das bruxas, destmirá os instrumentos de

suas práticas mágicas, e assim anulará o poder delas sobre seu povo.

13.20-23

O

DUPLO ANÚNCIO DE JULGAMENTO

395

Neste processo, por meio de sua ação salvífica a favor de seu povo,
reconhecerão sua pessoa e sua presença.
22-23 O segundo anúncio abre com uma nova acusação que
enfoca o impacto que as bruxas tiveram na condição espiritual do
povo. Como já foi pré-anunciado no versículo 19, seus caminhos
enganosos (seqer) atrapalharam a ordem espiritual e moral. Enquanto
os justos (saddíq) sofrem como vítimas das perseguições do alto
interesse das bruxas, os ímpios (hãrã^) são encorajados por aqueles
que os apoiam.“*^ O oráculo conclui com mais um anúncio do fim das
visões vazias das bruxas e das adivinhações apelativas. Neste oráculo
Yahweh tomou posição ao lado dos explorados em vez dos exploradores.
Ele resgatará seu povo das garras desses parasitas. E eles também
perceberão que ele é Yahweh.
Se olharmos, novamente, esses dois oráculos, o paralelismo formal
é óbvio. No entanto, as diferenças substantivas são significantes. Onde
os profetas profetizaram em formas indistinguíveis do próprio Ezequiel,
as práticas das mulheres tinham tons mágicos; e onde os homens
minaram o destino da nação, as profetisas ameaçaram o bem-estar
dos indivíduos.'*^ O efeito dos dois foi minar o trabalho de Ezequiel, o
profeta verdadeiro entre os exilados.
♦ Implicações teológicas
Embora muitas questões a respeito desse texto ainda permaneçam,
sua mensagem básica é clara.
Primeiramente, o povo de Deus é muito vulnerável a ocultar
influências em momentos de crise. A menos que estejam vigilantes na
caminhada com Deus, experiências difíceis podem levar alguém a
duvidar da presença e do poder de Deus, e criar uma abertura a poderes
sinistros das trevas. O mundo espiritual demoníaco opera em oposição
direta ao reino de Deus, procurando ganhar controle sobre a fraqueza
e destruir o justo. No Novo Testamento, Pedro personaliza o poder
por trás do mau, descrevendo-o como um adversário, o maligno,
rondando como um leão rugindo, procurando a quem possa devorar
(IPe 5.8). Mas o crente pode se animar, sabendo que Deus forneceu
todos os recursos necessários para resistir ao mundo maligno (cf Ef
6.11 -12), e que, em última análise, o reino da luz e vida triunfará sobre
o reino das trevas e morte (cf Jd 24-25).

396

O I.IVRO DE E z e o u ik l

Segundo, o encanto da mágica é uma armadilha usada pelo prínci­
pe das trevas para seduzir vitimas inocentes. Desde o começo da His­
tória, os humanos têm sido encantados pelo mundo espiritual. A mágica
e a bruxaria continuam a ter um papel poderoso em muitos cantos do
mundo, até mesmo no mundo ocidental ftjndamentalmente materialista,
que por muito tempo negou o sobrenatural. A influência do oculto nas
sociedades “iluminadas”, especialmente entre aqueles que têm sido frus­
trados pela cosmovisão prevalecente, e seu fracasso em responder as
questões fiandamentais da vida provam o poder sedutor do reino das
trevas. A mágica oferece poder. Promete controle sobre o destino pes­
soal e sobre os inimigos pessoais. Mas a mensagem de Ezequiel é que a
mágica é enganadora; é uma armadilha que aprisiona em vez de liber­
tar. O profeta exílico também anuncia que a libertação dos poderes
sinistros das trevas está disponível, mas somente no Senhor.
Terceiro, o povo de Deus deve resistir à tentação de explorar
conexões espirituais em busca de vantagem pessoal. Tal exploração é
óbvia quando uma pessoa recorre a palavras mágicas, encantos e
bruxaria que foram condenados por Deus (Dt 18.10-14). É mais sutil
em outros esforços humanos em utilizar o poder divino para finalida­
des egoístas. A visão da fé que trata Deus primariamente como a
chave para a saúde, felicidade e sucesso pode ser feiticeira e profanadora
de seu nome como uma atividade evidentemente oculta. De acor­
do com o paradigma estabelecido por nosso Senhor (Mt 6.9-13), o
antídoto para esta forma de idolatria é uma paixão por honrar o
nome do Senhor.
Quarto, aqueles que ocupam posições de poder responderão a
Deus pela maneira pela qual exerceram autoridade. O padrão de lide­
rança exercido pelas mulheres nesse texto foi repreensivo em dois
aspectos: os motivos delas eram parasíticos, e seus métodos sinistros.
Por um lado, estavam interessadas somente na posição que atingiram;
por outro, dispuseram-se das forças das trevas como suporte para
esse poder. Ambos os problemas continuam a infestar a comunidade da
fé. Homens e mulheres entram no ministério da igreja dirigidos mais por
uma fome de poder do que por uma paixão pelo povo, exercitam o
poder de maneiras geralmente comuns ao mundo lá fora. Mas o reino
de Deus é oferecido ao humilde, não ao arrogante e ao cheio de si.
Quem quer que seja um líder de todos deve ser servo de todos.

1 4 .1 -1 1

O ORÁCULO CONTRA O ABUSO PROFÉTICO

397

3. O ORÁCULO CONTRA O ABUSO PROFÉTICO (14.1-11)
14.1 Alguns' dos anciãos de Israel vieram- a mim e sentaram-se na
minha frente. 2 Então, a seguinte mensagem de Yahweh veio a
mim: 3 “humano, estes homens colocaram seus ídolos^ em seus
corações, e posicionaram suas iníquas pedras de tropeço* bem
em frente de suas faces. ^ Será que eu mesmo deveria me permitir
ser consultado^ por eles?’’
4 Agorafale a eles^ e diga-lhes: ‘assim declarou o S e n h o r Yahweh:
se alguém"^ da casa de Israel, que coloca seus idolos no coração
ou posiciona tuna iniqua pedra de tropeço bem em frente de suas
faces, e então se aproxima do profeta, eu. Yahweh"^ responderei'^
a ele concordemente, de acordo com a multidão'^ de .seus ídolos,
5 de maneira que posso tomar toda'* a casa de Israel, todos os que
têm falhado comigo, com seus corações
6 Portanto, diga à casa de Israel, ‘assim declarou o S e.\hor Yahweh:
arrependa-se e converta-se'^ de seus ídolos! Vire suas faces para
longe de todas as suas abominações! 7 Certamente,'^ se alguém
da casa de Israel, ou dos prosélitos que residem em Israel, falha
comigo'^ ao colocar seus idolos em .seus corações e posicionar
sua iniqua pedra de tropeço bem emfrente de suaface, e então vir
o profeta para perguntar sobre mim'^ por meio dele,eu, Yahweh,
responderei"" a ele diretamente.^' 8 Minha face estará contra
esta pessoa,'^ um sinal e um provérbio.^^ Eu o eliminarei do meio
do meu povo. Então, saberão que eu sou Yahweh.
9 E se um profetcf* for enganado para fazer um pronunciamento,
eu, Yahweh, sou aquele que enganou^^ aquele profeta. Estenderei
minha mão contra ele e o destruirei do meio do meu povo Israel.
10 Eles carregarão a punição deles; o inquiridor e o profeta serão
punidos da mesma forma. 11 De maneira que a casa de Israel
nunca mais se desvie de mim, e nunca mais se contaminem a si
mesmos com suas ações rebeldes. E então, serão meu povo, e eu
serei seu Deus - a declaração do S enhor Yahweh ’ ”.
♦ Natureza e desígnio

Desde 1943, quando Irwin desconsiderou todo o capítulo 14.1 -11,
exceto pelos segmentos do versículo 3 e do versículo 6, como inautêntico,
a opinião erudita quanto à integridade desta passagem tem se tomado
caracteristicamente mais conservadora.“ Os limites do texto são deter­
minados pela introdução narrativa descrevendo o contexto do oráculo.

398

O

LIVRO DE E z e q u ie l

seguido pela fórmula de intimação (vs. 1-2), e a fórmula signatária no
final do versículo 11. A estrutura da passagem é facilmente reconhe­
cida com base nas fórmulas fixadas;
a. Preâmbulo (vs. 1-2, concluído com a fórmula de intimação)
b. A questão dirigida ao profeta (v. 3, dirigida ao profeta)
c. A resposta para o povo (vs. 4-11)
(1) A primeira resposta de Yahweh (vs. 4-5, assinalado com
um lãkén mais uma ordem para profetizar e mais uma
fórmula de intimação)
(2) A segunda resposta de Yahweh (vs. 6-11, assinalada com
um lãkên mais uma ordem para profetizar, mais uma
fónnula de intimação)
A fórmula de reconhecimento, no final do versículo 8, subdivide
posteriormente a segunda resposta em duas partes.
Embora 14.1-11 seja, obviamente, muito mais curto que 8.1-11.25,
os paralelos na sequência dos eventos descritos são impressionantes:
a. Uma delegação de anciãos da comunidade exílica aparece
diante de Ezequiel (8.1; 14.1), sem uma explicação da presença
deles na introdução da narrativa.
b. A presença dos anciãos aparentemente precipita uma reação
divina (8.1 ss.; 14.2ss.).
c. A primeira parte da resposta tem como finalidade a vida do
próprio profeta (8.1-18; 14.3).
d. A resposta inclui uma análise da condição espiritual do povo
representado pelos delegados. Em 8.5-17 a apresentação toma
a forma de uma viagem visionária ao templo; em 14.3 consiste
de uma simples declaração pública.
e. A idolatria é apresentada como um problema fundamental dos
israelitas. Em 8.5-17 os ídolos são externos, localizados no
templo; em 14.3 foram internalizados, no coração.
f. A análise é seguida por uma referência à resposta de Yahweh,
embora a forma desta resposta difira. Em 8.17 Yahweh declara
que mesmo se o povo chorar em seus ouvidos, não ouvirá. Em
14.3b Yahweh apresenta uma pergunta retórica, quer devesse

14 .1-1 I

O

ORÁCULO CONTRA O ABUSO PROFÉTICO

399

responder, quer não, àqueles que têm se apresentado diante
de Ezequiel para ouvir uma palavra dele. No evento, ele
responde, mas não de acordo com o desejo deles.
g. A decisão divina é expressa em anúncios de julgamento do
ímpio. Novamente, o primeiro deles é dado de forma visionária
(9.1-11); 0 segundo é público (14.4-11). No entanto, os dois
anúncios defendem a possibilidade que as pessoas que são
sensíveis ao pecado podem escapar do julgamento (9.4; 14.6).
Essas correspondências estruturais carregam um testemunho de
um esforço editorial consciente para correlacionar aspectos externos
da vida de Ezequiel dentro da comunidade com suas experiências pro­
féticas internas. Também mostram uma consciência da conexão en­
tre a maneira com a qual o povo tentou se relacionar com Deus e a
maneira na qual ele argumentou.
Com respeito ao estilo, assim como na passagem do atalaia, em
3.16-21, esse texto foi pronunciado com um sabor semilegal, várias de
suas características sendo derivadas da lei sagrada casuística. A for­
ma tipicamente envolve uma prótase descrevendo um caso, introduzida
por kí, seguida por uma apódose descrevendo as consequências.^^
Três variações de uma fornia ocorrem no texto (vs. 4-5, 7-8, 9-11).’*
Além do mais, em contraste com a lei irrefutável, que é diretamente
endereçada aos que seriam ofendidos na segunda pessoa do discurso,
a lei casuística adota a forma da terceira pessoa do discurso, uma
forma hipotética. Considerando a herança familiar de Ezequiel, não é
de se surpreender a influência das formas legais sacerdotais que se
estendem além destes elementos. O texto ecoa o vocabulário e o
estilo do famoso Código de Santidade (Lv 17-26), especialmente o
capítulo 17. Estes incluem o seguinte:
a. A ordem dabbér, mais o endereçado, mais w ë’â m a rta ‘àlêhem ,
“falem para X e diga-lhes” (v. 4; c f Lv 17.2).
b. Ts ’ÎS m ib b êt y is râ ’él, “se alguém da casa de Israel” (vs. 4, 7;
c f Lv 17. 3, 8, 10, 13 [m ibbênê y isr â ’èl}).
c. A amplitude do escopo do caso com úm éhaggér ’ãser y ã g ú r
bëyisrâ’ël, “e o estrangeiro que viaja por Israel” (v. 7; c f Lv
17.8,10,12-13).

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O

L IV R O D E E

z e q u ie l

d. A adição de cláusulas de propósito com lèma^an, “a fim de
que” (v. 5; cf. Lv 17.5), e lèma‘^an mais (w é)lõ’ mais ‘^ôd,
“a fim de que nunca mais” (v. 11; cf. Lv 17.7).
e. O anúncio da disposição de Yahweh com wênãtatti pãnay
bã’QA>annepes, “colocarei minha face contra a pessoa” (v. 8;
cf Lv 17.10).
f A identificação da punição como kãrat m ütôk/min/m iqqereb
‘^am mais um sufixo, “eliminar de seu/meu povo” (v. 8;
c f Lv 17.4, 9).
g. A declaração de confiabilidade com nãsã’ ‘■ãwõn, “carregar a
iniquidade/culpa/punição” (v. 10;cf Lv 17.16).
h. A estranha interjeição de ’ã niyhw h, “eu sou Yahweh”, (vs. 4,
7, 9; c f Lv 18.5, etc.).*’ Em muitos casos, esta forma
introdutória é tão intrusiva em Levítico como em nosso texto.
Sua função era relembrar os israelitas que suas leis derivavam
do próprio Yahw'eh, e é a ele que devem dar conta por sua
fidelidade a elas.® As inserções de Ezequiel de “eu sou Yahweh”
estão colocadas estrategicamente em cada exemplo entre a
afirmação da ofensa e o anúncio da punição, enfatizando assim
a força total do envolvimento divino no caso.
Na resposta de Ezequiel aos inquiridores, intencional e ironica­
mente se aprofundou no poço da tradição legal sagrada de Israel.
Os anciãos de Israel vieram a ele procurando uma palavra divina,
provavelmente um novo oráculo de reafirmação quanto ao futuro da
nação. Yahweh, na verdade, não responde, mas dá uma antiga pala­
vra tradicional, bem diferente daquela que esperavam. A inquirição
dos anciãos pode parecer nobre e ortodoxa, mas está de acordo com
suas ofertas ilegítimas e com o comer do sangue. Portanto, em vez de
oferecer encorajamento, Ezequiel conclama toda a nação ao arrepen­
dimento de seus compromissos religiosos sincretistas; caso contrário,
enfrentariam certo julgamento do Senhor da aliança. Yahweh tem um
caso capital contra eles, e seu jul