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Psicologia e Educação na Saúde

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Síntese onde se procuram as origens do conceito de número e contagem. Apresentam-se alguns dos sistemas numéricos da antiguidade, tais como: Babilónia, Maia, Egípcio, Romanos, Hindu/Árabe. Sistemas de contagem: o Ábaco...
© Celeste Duque
Síntese onde se procuram as origens do conceito de número e contagem. Apresentam-se alguns dos sistemas numéricos da antiguidade, tais como: Babilónia, Maia, Egípcio, Romanos, Hindu/Árabe. Sistemas de contagem: o Ábaco...
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- Psicologia e Educação na Saúde

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Determinantes Psicossociais da Saúde

Docentes: Dra. Celeste Duque Discente: Sónia Rodrigues, nº 15067 Curso: Radiologia

Faro, 1 de Junho de 2006

Faro, 1 de Junho de 2006 _________________________________________ (Sónia Isabel do Espírito Santo Rodrigues)

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Resumo

Resumo
O presente trabalho tem como principal objectivo desenvolver um dos temas do programa da disciplina de Psicologia e Educação na Saúde. O tema desenvolvido é referente aos determinantes psicossociais da saúde. Estes determinantes são importantes tal como os factores biológicos para a saúde, existindo uma ligação entre eles. Este trabalho permitiu compreender melhor e aprofundar este tema, uma vez que foi realizada uma investigação e pesquisa em relação ao tema referido.

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Índice

Índice
1. Introdução -------------------------------------------------------------------------------------- 1 2. Perspectiva Biopsicossocial ------------------------------------------------------------------ 2 2.1 Contexto Biológico ------------------------------------------------------------------------- 2 2.2 Contexto Psicológico----------------------------------------------------------------------- 2 2.3 Contexto Social ----------------------------------------------------------------------------- 3 2.4 “Sistemas” Biopsicossociais e Modelo Biopsicossocial ------------------------------- 3 3. Factores Psicossociais na Saúde ------------------------------------------------------------- 5 3.1 Doenças Cardiovasculares ---------------------------------------------------------------- 5 3.2 Sida------------------------------------------------------------------------------------------- 6 3.4 Dor ------------------------------------------------------------------------------------------- 9 3.5 Cancro ------------------------------------------------------------------------------------- 12 3.6 Stress --------------------------------------------------------------------------------------- 13 3.7 Consumo de Tabaco e Álcool ----------------------------------------------------------- 14 3.8 Exercício----------------------------------------------------------------------------------- 17 4. Conclusão ------------------------------------------------------------------------------------- 19 5. Referências Bibliográficas------------------------------------------------------------------ 20

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Introdução

1. Introdução

A psicologia da saúde constitui, provavelmente, o desenvolvimento mais recente no processo de inserção da psicologia na compreensão da saúde. Foi descrita por Matarazzo, em 1980, como “o conjunto de contribuições específicas, educacionais, científicas e práxicas da disciplina da psicologia, para a promoção e manutenção da saúde, prevenção e tratamento da doença e disfunções relacionadas”. A psicologia da saúde veio mais uma vez desafiar a cisão mente-corpo, ao propor um papel para a mente, tanto na causa como no tratamento da doença. No entanto, difere da medicina psicossomática, da saúde comportamental e da medicina comportamental, uma vez que a investigação realizada em psicologia da saúde é mais própria da disciplina da psicologia [1]. Os objectivos da psicologia da saúde podem ser divididos em: compreender; explicar, desenvolver teorias e testar teorias; e colocar em prática essas mesmas teorias. A psicologia da saúde sugere que os seres humanos devem ser vistos como sistemas complexos e que a doença é causada por uma multiplicidade de factores e não por um único factor causal. Por este motivo a psicologia da saúde tenta afastar-se de um simples modelo linear de saúde e sustenta que a doença pode ter origem numa combinação de factores biológicos, psicológicos e sociais. Neste trabalho serão descritos alguns dos factores psicossociais que podem interferir na saúde e na doença do ser humano, ou seja, os factores sociais que podem causar determinados comportamentos, emoções, crenças, stress e dor, os quais podem levar a um estado de doença.

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Perspectiva Biopsicossocial

2. Perspectiva Biopsicossocial
Procurar um factor causal produz uma imagem incompleta da saúde e da doença de uma pessoa, portanto os psicólogos trabalham a partir da perspectiva biopsicossocial (mente-corpo). Esta perspectiva reconhece que forças biológicas, psicológicas e sociais agem em conjunto para determinar a saúde e vulnerabilidade do indivíduo à doença, ou seja, a saúde e a doença devem ser explicadas em relação a contextos múltiplos.

2.1 Contexto Biológico
Todos os comportamentos, incluindo estados de saúde e doença, ocorrem no contexto biológico. Cada pensamento, estado de espírito e ânsia é um evento biológico possibilitado pela estrutura anatómica, e pela função biológica característica do corpo de uma pessoa. A psicologia chama a atenção para aqueles aspectos que influenciam a saúde e a doença: a nossa conformação genética e o nosso sistema nervos, imunológico e endócrino.

2.2 Contexto Psicológico
A mensagem central da psicologia da saúde é que a saúde e a doença estão sujeitas a influências psicológicas. Os psicólogos da saúde pensam que certas pessoas podem ser cronicamente depressivas e mais susceptíveis a certos problemas de saúde porque revivem acontecimentos difíceis muitas vezes nas suas mentes, o que pode ser funcionalmente equivalente a passar repetidas vezes pelo acontecimento real. As intervenções psicológicas ajudam os pacientes a controlar a sua tensão, diminuindo, assim, as reacções negativas ao tratamento. Aqueles pacientes mais calmos em geral são mais capazes e mais motivados a seguir as instruções médicas.

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Perspectiva Biopsicossocial

As intervenções psicológicas também auxiliam os pacientes a controlar o stress da vida quotidiana, que parece exercer um efeito acumulativo sobre o sistema imunológico. Acontecimentos negativos na vida, como a perda de um ente querido, o divórcio, a perda de emprego ou uma mudança, podem estar ligados à diminuição do funcionamento imunológico e a maior susceptibilidade a doenças. Ensinando aos pacientes de forma a controlar as tensões que são inevitáveis, os psicólogos da saúde podem ajudar o sistema imunológico do paciente a combater as doenças.

2.3 Contexto Social
Os psicólogos da saúde preocupam-se com a maneira como pensamos, influenciamos e nos relacionamos connosco e com o ambiente. Por exemplo, o género da pessoa implica determinado papel social que dá um senso de ser mulher ou homem. Além disso, a pessoa é um membro da família, comunidade e nação, também tem uma certa identidade racial, cultural e étnica, e vive dentro de uma classe socioeconómica específica. Cada um destes elementos do contexto social único da pessoa influencia as suas crenças e comportamentos, incluindo aqueles relacionados coma saúde.

2.4 “Sistemas” Biopsicossociais e Modelo Biopsicossocial
A perspectiva biopsicossocial enfatiza as influências mútuas entre os contextos biológicos, psicológicos e sociais da saúde, estando também fundamentada na teoria sistémica do comportamento. Segundo essa teoria, a saúde é melhor compreendida como uma hierarquia de sistemas, na qual cada um deles é simultaneamente composto por subsistemas e por uma parte de sistemas maiores e mais abrangentes. Assim, cada um de nós é um sistema, ou seja, um corpo formado por sistemas em interacção, como o sistema endócrino, o cardiovascular, o nervoso e o imunológico. Estes sistemas biológicos são, por sua vez, compostos de partes menores, que consistem de tecidos, fibras nervosas,
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Perspectiva Biopsicossocial

fluidos, células e material genético. Por outro lado, somos parte de muitos sistemas maiores, incluindo a nossa família, a nossa cidade, a nossa sociedade e a nossa cultura. Esta abordagem aplicada à saúde enfatiza uma questão fundamental: um sistema de um determinado nível é afectado por sistemas de outros níveis, afectando-os também. Por exemplo, o sistema imunológico enfraquecido afecta órgão específicos no corpo de um pessoa, o que, por sua vez, afecta a saúde biológica geral, afectando, por sua vez, os relacionamentos dessa pessoa com a sua família e os seus amigos. Assim, conceituar a saúde e a doença conforme a abordagem sistémica permite que compreendamos o ser humano de uma forma integral [2]. Engel, em 1977 e 1980, desenvolveu o modelo biopsicossocial de saúde e doença, representado na Figura 1.
Psico Social ! Comportamento ! Classe ! Crenças ! Emprego ! Coping1 ! Etnia ! Stress ! Dor Figura 1 – Modelo biopsicossocial de saúde e doença (1 lidar, confronto ou enfrentamento) [1]. Bio ! Vírus ! Bactérias ! Lesões

O modelo biopsicossocial representou uma tentativa para integrar o psicológico (psico) e o meio ambiente (social) no modelo de saúde biomédico tradicional (bio). Isto era feito da seguinte forma: os contributos biológicos incluíam a genética, os vírus, as bactérias e os defeitos estruturais; os aspectos psicológicos da saúde e da doença eram descritos ao nível das cognições (por exemplo, expectativas acerca da saúde), emoções (por exemplo, medo do tratamento) e comportamentos (por exemplo, fumar, fazer dieta, fazer exercício ou consumir álcool); os aspectos sociais ligados à saúde eram descritos através das normas sociais de comportamento (por exemplo, a norma social de fumar ou não fumar), das pressões para a mudança do comportamento (por exemplo, expectativas do grupo de pares, pressão parental), dos valores sociais relativos à saúde (por exemplo, se a saúde era vista como uma coisa boa ou má), da classe social e do grupo étnico.

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Factores Psicossociais na Saúde

3. Factores Psicossociais na Saúde
Os factores psicossociais têm bastante influência no aparecimento de algumas doenças, tais como, doenças cardiovasculares, sida, obesidade, dor, cancro e stress. Alguns hábitos na vida dos indivíduos (consumo de tabaco e álcool, exercício), provocados por factores psicossociais, também podem levar a um estado de doença. O modo como estes factores interferem nestas doenças e hábitos são abordados a seguir.

3.1 Doenças Cardiovasculares
Os cardiologistas, confusos pelo facto de muitos dos seus paciente não serem obesos de meia-idade com colesterol elevado, decidiram que possivelmente estariam a ignorar algo. Assim, eles ampliaram a sua busca por factores de risco que pudessem ajudar a explicar a discrepância: comportamento tipo A, hostilidade e stress. Os cardiologistas há muito suspeitavam de que certos traços de personalidade estão ligados a doenças cardiovasculares. Eles encontraram um padrão de comportamento propenso a problemas coronários que envolvia competitividade, forte senso de urgência e hostilidade, que classificaram de tipo A. Em comparação, as pessoas que são mais relaxadas e que não se sentem pressionadas por considerações relacionadas com o tempo tendem a ser resistentes à doença coronária: tipo B. um grupo secundário de traços, combinando depressão com níveis elevados de ansiedade (ambos ligados de forma independente a doenças cardiovasculares) foi observado em indivíduos do tipo A. Além disso, pessoas deprimidas apresentam quatro vezes o risco de recaída de ataque cardíaco em comparação com sobreviventes de enfartes sem sintomas depressivos. Algumas teorias sustentam que adultos hostis têm vidas mais stressantes, o que, com o passar do tempo, exerce efeito tóxico sobre a saúde cardiovascular [2].

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Factores Psicossociais na Saúde

3.2 Sida
Na ausência de uma vacina eficaz para o HIV, as intervenções psicossociais são a única forma de lutar contra a sida. Os psicólogos de saúde desempenham diversos papéis na luta contra esta doença, incluindo orientar as pessoas sobre fazer exames para o HIV, ajudar os indivíduos a modificar os seus comportamentos de risco elevado, ajudar pacientes de sida a enfrentar perturbações emocionais e cognitivas e conduzir a terapia de luto para aqueles que se encontram na ultima fase da doença, para as suas famílias e para os seus amigos [2]. Os primeiros programas de intervenção psicossocial visavam a grupos de alto risco, como homossexuais masculinos ou usuários de drogas injectáveis, usando intervenções de modificação de comportamentos e educativas para tentar mudar posturas e comportamentos. Os programas nos níveis escolar e universitário normalmente concentram-se em aumentar o conhecimento da doença e promover o sexo seguro. A consciência pública da sida e uma correspondente redução em comportamentos de elevado risco, acompanhada por um nítido declínio de novos casos de infecção por HIV. Base para as intervenções psicossociais A teoria cognitiva social, que sugere relações determinadas de forma recíproca entre eventos do ambiente, processos internos e comportamentos tem servido como estrutura para diversas intervenções. Três factores abordados por este modelo parecem ser particularmente importantes em programas de intervenção bem sucedidos: normas sociais percebidas em relação à aceitação dos amigos acerca de comportamentos que reduzam o risco de contrair o HIV; crenças na auto-eficácia controlando pensamentos, emoções e comportamentos do indivíduo; e habilitações sociais, capacidade de responder de forma assertiva ao negociar comportamentos de risco. O modelo de crenças de saúde, apoiado na ideia de que as crenças do indivíduo predizem o seu comportamento, tem obtido nível modesto de sucesso ao prever o uso de preservativos, o número de parceiros sexuais e o conhecimento da história sexual de parceiros entre uma variedade de grupos de alto risco.

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Factores Psicossociais na Saúde

O apoio para os modelos de estágios provém da evidência de que alguns indivíduos são mais beneficiados do que outros com determinada intervenção. Por exemplo, pessoas mais jovens e menos informadas tendem a ser beneficiadas com intervenções educacionais que preenchem lacunas no conhecimentos sobre como a sida é transmitida, enquanto indivíduos mais velhos em determinados grupos de alto risco parecem ser mais beneficiados com intervenções que os motivem para a acção preventiva.

3.3 Obesidade
A obesidade tem vindo a ser associada às doenças cardiovasculares, diabetes, traumatismo das articulações, dor nas costas, cancro, hipertensão e mortalidade [1]. A obsessão cultural dos dias de hoje em relação à magreza, a aversão à gordura, tanto nos adultos como nas crianças, e a censura aos indivíduos obesos, podem promover uma baixa auto-estima e uma auto-imagem pobre nos indivíduos que não se adaptam com a imagem magra, estereotipicamente atraente. Os aumentos de obesidade coincidem com a diminuição de taxa de energia gasta diariamente devido às melhorias nas redes de transportes (Figura 2) e à mudança de uma sociedade agrícola para uma sociedade industrial, cada vez mais baseada na informação.

Figura 2 – Mudanças na actividade física e obesidade [1]. ______________________________________________________________________________________ Psicologia e Educação na Saúde

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Embora o tratamento mal sucedido da obesidade possa estar relacionado com um estado de humor negativo, constata-se que a perda de peso está associada a mudanças positivas como o entusiasmo, a autoconfiança e o aumento de sentimentos de bem-estar. Isto sugere que, embora as tentativas falhadas de fazer dieta possam ser prejudiciais, as tentativas bem sucedidas podem trazer consigo recompensas psicológicas. Insatisfação com o corpo Um estudo feito examinou o papel dos factores sociais na causa da insatisfação com o corpo em termos dos media, etnicidade, classe social e ambiente familiar. Além disso, o estudo tem explorado o papel dos factores psicológicos que podem traduzir os factores sociais numa insatisfação com o corpo [1]. ! O papel dos media - A crença mais comum nas comunidades laica e científica é que a insatisfação com o corpo é provavelmente uma resposta às representações mediáticas de mulheres magras, em revistas, jornais, televisão, filmes, e até em romances. Seja qual for o seu papel, e seja qual for a existência das mulheres utilizadas pelos media, elas são geralmente magras e é natural que sejam levadas a crer que a magreza não é apenas norma desejada como representa a norma propriamente dita. ! Etnicidade - Embora a insatisfação com o corpo tenha sido predominantemente encarada como um problema das mulheres brancas, há contradição na literatura que examina a relação entre a insatisfação com o corpo e o grupo étnico. Assim, alguns estudos apontam para a existência de uma insatisfação com o corpo maior nos brancos do que nos asiáticos e negros, outros mostram que os brancos estão menos insatisfeitos e, alguns mostram que não há diferença entre grupos étnicos. ! Classe social – também é convicção geral que a insatisfação com o corpo é um problema das classes mais altas. Porém, a literatura sobre a classe social também é contraditória. Vários estudos desta área indicam que os factores que vão da insatisfação com o corpo, distorção corporal e comportamento alimentar até às perturbações de alimentação, são mais prevalecentes nos indivíduos de classes mais altas.

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! Família – A família também tem influência na predição da insatisfação com o corpo, salientando, nomeadamente, o papel da mãe, e sugerindo que as mães insatisfeitas com o seu próprio corpo comunicam às filhas essa insatisfação, o que resulta na insatisfação com o corpo da própria filha. Assim, o estudo que explora o papel dos factores sociais tem posto em relevo o papel dos media, etnicidade, classe social e a insatisfação com o corpo da mãe com o seu próprio corpo. O resultado deste estudo não é conclusivo, primeiro, muitas das provas são contraditórias e torna-se assim problemático tirar conclusões claras. Segundo, mesmo que houvesse uma relação entre factores sociais e a insatisfação com o corpo, a simples verificação das diferenças entre grupos (isto é, branco versus asiático, classe mais baixa versus classe mais alta, mãe versus filha) não explica a forma como surge a insatisfação com o corpo. Talvez a simples observação das diferenças de grupo esconda o efeito de outras causas psicológicas. A investigação tem explorado o papel das crenças, da relação mãefilha e o papel fundamental do controlo.

3.4 Dor
Ao longo do século XX, a Psicologia desempenhou um papel importante na compreensão da dor. O que tinha por base várias observações [1]. Primeiro, foi observado que os tratamentos médicos para a dor (por exemplo, fármacos, cirurgia) só eram úteis para o tratamento de dores agudas (dor de curta duração). Tais procedimentos eram ineficazes no tratamento da dor crónica (dor de longa duração). Isto sugeriu que havia mais alguma coisa envolvida na sensação de dor que não estava incluída nos modelos simples de resposta ao estímulo. Em segundo, foi observado que indivíduos com o mesmo grau de lesão dos tecidos diferiam nos seus relatos da sensação dolorosa e/ou respostas dolorosas. A terceira observação referia a dor do membro fantasma. Cinco a dez por cento das pessoas que foram amputadas têm tendência a sentir dor no membro ausente. Esta dor
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pode realmente piorar após a amputação e continua mesmo depois da cura completa. A dor do membro fantasma não possui qualquer base física, uma vez que o membro está obviamente ausente. Estas observações sugerem, portanto, variações entre os indivíduos, que apontam um papel para a Psicologia. Melzack e Wall (1965,1982) desenvolveram a teoria do portão de controlo da dor (Figura 3), que representou uma tentativa de introdução da psicologia na sua compreensão. A teoria sugere que, embora a dor possa ainda ser compreendida em termos de uma via estímulo-resposta, esta é complexa e mediada por uma rede de processos interactivos. Portanto, a teoria do portão de controlo integrou a psicologia no modelo biomédico da dor e descreveu não só um papel para as causas e intervenções fisiológicas, mas também para intervenções e causas psicológicas. A teoria do portão de controlo e as subsequentes tentativas de avaliar as diferentes componentes da percepção da dor reflectem um modelo dos três processos da dor. As componentes deste modelo são os processos fisiológicos, subjectivos-afectivoscognitivos e comportamentais. Os processos fisiológicos envolvem factores como lesões de tecido, libertação de endorfinas e mudança no ritmo cardíaco. Os processos subjectivos-afectivos-cognitivos e comportamentais envolvem factores psicossociais, e são descritos em pormenor.
Estímulo fisiológico Cérebro ! Expectativas ! Experiência ! Humor ! Comportamento Fibras longas Portão Fibras curtas Figura 3 – Teoria de controlo do portão da dor [1]. Sistema de acção “dor”

Processos subjectivos-afectivos-cognitivos ! Processos de aprendizagem – Condicionamento clássico: Tal como é descrito pelas teorias de aprendizagem associativa, um indivíduo pode associar um ambiente particular com a experiência de dor (por exemplo, a ida ao dentista
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associada à dor devido a uma experiência passada). Condicionamento operante: Os indivíduos podem responder à dor mostrando um comportamento de dor (por exemplo, descansar, fazer caretas, coxear, não ir trabalhar). Estes comportamentos de dor podem ser reforçados positivamente (por exemplo, simpatia, atenção, dispensa de trabalho), aumentando, assim, a percepção da dor. ! Ansiedade – Fordyce e Steger (1979) examinara a relação entre ansiedade, dor aguda e dor crónica. Afirmaram que a ansiedade tinha uma relação diferente com estes dois tipos de dor. Em termos de dor aguda, a dor aumenta com a ansiedade, o tratamento bem-sucedido reduz a dor e, consequentemente, o nível de ansiedade. A ansiedade reduzida causa uma posterior redução na dor. No entanto, com a dor crónica, o padrão é diferente. Uma vez que o tratamento tem muito pouco efeito na dor crónica, esta aumenta a ansiedade, o que pode aumentar ainda mais a dor. ! Neurose – Foi também sugerido que a personalidade, em particular a neurose, pode estar relacionada com a percepção da dor. A histeria, a hipocondria e a depressão têm sido rotuladas tríade neurótica. Sternbach e colaboradores (1973) afirmaram que uma intensificação da tríade neurótica está relacionada com o aumento da dor crónica e pode estar relacionada com a falta de sono, vida social e laboral reduzidas e sentimentos de exaustão. ! Estados cognitivos – Uma das mais importantes influências na dor é o estado cognitivo do indivíduo. Beecher (1956) afirmou que as diferenças na percepção da dor estavam relacionadas com o significado da dor para o indivíduo. Processos comportamentais O modo como o indivíduo responde à dor pode, por si, aumentar ou diminuir a percepção da dor. Os comportamentos da dor, tais como: expressões faciais, postura ou movimentos distorcidos, afectos negativos, ou evitar da actividade, são reforçados através da atenção, reconhecimento e ganhos secundários que suscitam, tais como o não ter de ir trabalhar. Comportamentos de dor reforçados positivamente podem aumentar a percepção da dor. O comportamento de dor pode também causar falta de actividade e

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enfraquecimento muscular, ausência de contacto social e de distracção, conduzindo o sujeito a um papel de doente, o que pode também aumentar a percepção da dor.

3.5 Cancro
A psicologia desempenha um papel importante no cancro (Figura 4) ao nível das atitudes e das crenças sobre o cancro, na predição de comportamentos como fumar e fazer dieta, que estão implicados no seu aparecimento. Além disso, os que sofrem de cancro relatam as consequências psicológicas com implicações na qualidade de vida. Factores psicossociais no aparecimento e favorecimento do cancro: ! Factores comportamentais – Demonstrou-se que os factores comportamentais desempenham um papel no aparecimento e favorecimento do cancro. Smith e Jacobson (1989) afirmaram que 30 % dos cancros estão relacionados com o consumo do tabaco, 35 % com a alimentação, 7 % com o comportamento reprodutor e sexual e 3% com o álcool. ! Stress – Laudenslager e colaboradores (1983) publicaram um estudo que envolveu a experiência ao stress de ratos com tendência para o cancro (agitando a jaula). Os autores concluíram que havia um decréscimo na taxa de desenvolvimento do tumor se o stressor pudesse ser controlado. ! Acontecimentos de vida – Um estudo por Jacobs e Charles (1980) examinou as diferenças de acontecimentos de vida entre famílias que tinham tipo, ou não, uma morte por cancro. Relataram que nas famílias com uma vítima de cancro tinha havido maior número de membros com mudanças de casa, mudanças de comportamento, deterioração do estado de saúde noutros que não a própria pessoa e divórcios, sugerindo, assim, que os acontecimentos de vida podem contribuir para o aparecimento de cancro. ! Controlo – Tem sido sugerido que o controlo sobre os stressores e os factores ambientais pode estar relacionado com um aumento no aparecimento do cancro. ! Depressão – Bieliauskas (1980) sugeriu a existência de uma relação entre depressão, cancro e stress crónico ligeiro, mas não com a depressão clínica.
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! Personalidade – Temoshok e Fox (1984) sugeriram que os indivíduos que desenvolvem cancro têm uma personalidade passiva, apaziguadora, com sentimento de incapacidade, desesperada, centrada nos outros e emocionalmente expressiva. Eysenk (1990) sugeriu que o cancro é uma característica dos indivíduos que reagem ao stress com desespero e sentimento de incapacidade e que reprimem as reacções emocionais aos acontecimentos da vida. ! Robustez – Kobasa e colaboradores (1982) descreveram o estilo de coping chamado “robustez” com três componentes: controlo, comprometimento e desafio. O baixo controlo sugere uma tendência para apresentar sentimentos de desespero face ao stress. O comprometimento é definido como o oposto da alienação: indivíduos assim encontram significado no seu trabalho, valores e relações pessoais. Indivíduos destes consideram os acontecimentos potencialmente stressantes, como desafios a serem enfrentados com um êxito esperado. A robustez pode ser protectora para o desenvolvimento do cancro.

Figura 4 – O potencial papel da psicologia no cancro [1].

3.6 Stress
As definições actuais de stress consideram stressor o que é causado pelo ambiente externo (por exemplo, problemas de trabalho), como stress a resposta ao stressor ou
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sofrimento (por exemplo, a sensação de tensão), sendo que o conceito de stress é visto como algo que envolve mudanças bioquímicas, fisiológicas, comportamentais e psicológicas [1]. Uma das razões pelas quais o stress tem sido tão insistentemente estudado é o seu potencial efeito na saúde do indivíduo. O stress pode afectar a saúde através de mudanças comportamentais (fumar, álcool, alimentação, etc) ou mudanças fisiológicas (aumento de ácidos no estômago, aumento das catecolaminas, aumento da resposta cardiovascular, aumento dos corticosteróides, etc.). A relação entre o stress e a doença não é linear e existem muitas evidências que sugerem alguns factores que podem mediar essa ligação: exercício, género, estilo de coping, acontecimentos de vida, comportamento/personalidade, maior apoio social e controlo. O apoio social (apoio à estima, apoio informativo, acompanhamento social e apoio instrumental) medeia a ligação stress-saúde, e explicar o papel do apoio social no estado de saúde foram desenvolvidas duas teorias: ! A hipótese do efeito principal sugere que o apoio social é benéfico em si e a sua ausência causador de stress. O que sugere que a simples presença do apoio social reduz os efeitos do stressor e que a ausência age como stressor. ! A hipótese da protecção contra o stress sugere o apoio social ajuda os indivíduos a enfrentar o stress, protegendo o indivíduo do stressor. O apoio social influencia a apreciação do indivíduo acerca do potencial stressor. Este processo sugere que a existência de outras pessoas possibilita o indivíduo exposto ao stressor escolher uma estratégia de coping adequada, através da comparação entre si e os outros.

3.7 Consumo de Tabaco e Álcool
Têm sido desenvolvidas muitas teorias para explicar a dependência e os comportamentos dependentes, incluindo os modelos morais (que vêem a dependência como resultado de uma fraqueza e falta de fibra moral), os modelos biomédicos (que vêem a dependência como uma doença) e as teorias da aprendizagem social (que encaram
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Factores Psicossociais na Saúde

os comportamentos de dependência como aprendidos de acordo com as regras da teoria da aprendizagem). A teoria é muitas vezes encarada independentemente das mudanças que se dão nas atitudes socais [1]. As atitudes relativas aos comportamentos de dependência têm mudado ao longo dos anos. Nos últimos anos, com o desenvolvimento do comportamentalismo, da teoria da aprendizagem e da convicção de que o comportamento é modulado por interacções, tanto com o ambiente como com os outros indivíduos, vem sendo posta em causa a crença de que os comportamentos excessivos e as dependências são doenças. Desde os anos 70 que comportamentos como fumar, beber e consumir drogas têm sido cada vez mais descritos no contexto de todos os outros comportamentos. Segundo a perspectiva da aprendizagem social, os comportamentos de dependência são aprendidos de acordo como os seguintes processos: condicionamento clássico, condicionamento operante, aprendizagem por observação e processos cognitivos. Condicionamento clássico Os comportamentos são adquiridos através de processos de aprendizagem associativa. Por exemplo, um estímulo incondicionado (EI) pode levar a uma resposta incondicionada (RI). Se o estímulo incondicionado é associado a um estímulo condicionado (EC), então irá levar a uma resposta condicionada (RC). Isto acontece da seguinte forma [1], por exemplo: ! Estimulo incondicionado e resposta incondicionante: ir ao bar ! sentir-se relaxado (EI) ! (RI) ! Associação do estimulo incondicionado e estimulo condicionado: ir ao bar + beber uma bebida (EI) + (EC) ! Estimulo condicionado e resposta condicionada: beber uma bebida ! sentir-se relaxado (EC) ! (RC) Então, o estímulo condicionado leva, agora, a uma resposta condicionada.
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Factores Psicossociais na Saúde

Condicionamento operante A probabilidade de um acontecimento ocorrer aumenta se ele for reforçado positivamente pela presença de um acontecimento positivo, ou reforçado negativamente pela presença de um comportamento negativo. Em termos de um comportamento de dependência como o consumo de tabaco, a probabilidade de fumar aumentará com os sentimentos de aceitação social, confiança e controlo (reforço positivo) e com o desaparecimento dos sintomas de privação (reforço negativo). Aprendizagem por observação Também se aprende através da observação dos comportamentos de pessoas significativas. Por exemplo, os pais serem fumadores, associar o fumo a atractividade e considerar o consumo de álcool como um comportamento de risco podem contribuir para a aquisição do comportamento. Factores cognitivos Factores como a auto-imagem, o comportamento de resolução de problemas, os mecanismos de coping e as atribuições também podem contribuir para a aquisição de um comportamento de dependência. Factores sociais no início e manutenção dos hábitos do consumo de tabaco em crianças Existem quatro fases do consumo de tabaco e álcool (Figura 5): iniciação, manutenção, cessação e recaída. Os factores sociais podem predizer o início e a manutenção do consumo de tabaco. As cognições individuais podem predizer os hábitos do consumo de tabaco, mas elas são produto da socialização do indivíduo. As interacções no mundo social da criança ajudam-na a criar e a desenvolver as suas crenças e comportamentos. O factor mais importante para a predição dos hábitos de fumo é os pais serem fumadores. O aspecto que a seguir tem maior influência é a pressão exercida pelo grupo de pares. Existem altas taxas de consumo de tabaco em crianças líderes de actividades académicas e sociais, com elevada auto-estima e grande popularidade no seu grupo de pares. Um outro factor que
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Factores Psicossociais na Saúde

influencia o facto de a criança fumar ou não é a atitude da escola em relação a esse comportamento. Em resumo, os factores sociais como os comportamentos e as crenças dos pais, dos pares e da escola influenciam as crenças e os comportamentos das crianças.
Crenças: ! Susceptibilidade ! Gravidade ! Custos ! Benefícios ! Expectativas

Intervenção clínica: ! Perspectiva de doença (p.e., substituição da nicotina) ! Perspectiva de aprendizagem social (p.e., terapia aversiva)

Iniciação

Manutenção

Cessação ! Pré-intenção ! Intenção ! Acção ! Manutenção

Recaída

Factores Sociais: ! Comportamental ! Crenças parentais ! Pressão do grupo de pares

Intervenções de saúde pública: ! Conselhos médicos ! Intervenções no local de trabalho ! Abordagens comunitárias ! Política governamental

Auto-ajuda

Prevenção da recaída: ! Coping ! Expectativas ! Atribuições

Figura 5 – As fases do uso de substâncias [1].

3.8 Exercício
Até aos anos 60, o exercício era praticado por indivíduos jovens e talentosos, a ênfase era colocada na excelência. Mais recentemente, o exercício já não se destina a um elite, nem tem de ser em níveis intensivos e por vezes impossíveis. O exercício físico, para além dos benefícios físicos, tais como, a redução da tensão arterial, redução de peso e obesidade, redução de diabetes, protecção contra a osteoporose e o enfraquecimento dos ossos e a redução da doença coronária, também tem benefícios psicológicos, ou seja, o exercício físico pode melhorar o bem-estar psicológico [1]. O exercício, segundo estudos, resulta na redução da depressão, está relacionado com a
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Factores Psicossociais na Saúde

redução da ansiedade, é um factor mediador em relação à resposta ao stress (quer através da distracção ou diversão) e aumenta a auto-estima e autoconfiança. Os factores sociais e políticos estão relacionados com os benefícios do exercício. Uma maior dependência da tecnologia e uma redução na actividade diária no trabalho remunerado e no trabalho doméstico parecem ter resultado num aumento do número de pessoas com vidas relativamente sedentárias. Além disso, a mudança levou à crença de que o exercício é bom para o bem-estar individual e colectivo preparou o caminho para mudanças sociais e politicas que punham em relevo a prática do exercício. No fim da década de 60, muitas iniciativas governamentais tentaram promover o desporto e o exercício. Factores como a disponibilidade de instalações e atitudes culturais em relação ao exercício podem estar relacionados com a participação dos indivíduos. Uma abordagem recente da adesão à prática de exercício cifra-se num esquema de prescrição com que o clínico geral encaminha determinados doentes-alvo. Por essa razão, estas iniciativas têm tentado desenvolver um clima propício à promoção do desporto. Além disso, em resultado da ênfase governamental posta no exercício, criaram-se programas específicos, na tentativa de avaliar as melhores formas de estimular a participação. O exercício também pode melhorar o bem-estar psicológico. Alguns estudos sugerem a existência de uma associação entre o nível de exercício e os seus níveis de depressão, e uma das conclusões foi que o exercício aeróbico está relacionado com uma diminuição da depressão e que este efeito é maior nos indivíduos com níveis iniciais de sintomas depressivos mais elevados. Estes estudos também sugerem que o exercício pode estar relacionado com uma redução de ansiedade, ao afastar a atenção do indivíduo daquilo que o torna ansioso. O exercício também tem sido visto como um factor mediador em relação ao stress, quer através da distracção ou da diversão. A auto-estima e a autoconfiança também podem aumentar com o exercício, aumentando o bem-estar psicológico do indivíduo.

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Conclusão

4. Conclusão
Este trabalho permitiu estudar e aprofundar um dos temas do programa da disciplina de Psicologia e Educação na Saúde. O tema desenvolvido refere os factores psicossociais como determinantes da saúde. Este trabalho permitiu concluir que a saúde não depende apenas de factores biológicos, mas que os factores psicológicos e os factores sociais também estão relacionados com a saúde e a doença, estando todos estes factores interrelacionados.

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Referências Bibliográficas

5. Referências Bibliográficas
[1] Ogden, J. (2004). “ Psicologia da saúde”. Manuais universitários. Climepsi Editores. 2ª Edição. Lisboa. [2] Straub, R. O.(2002). “Psicologia da saúde”. Artmed Editora S.A. São Paulo. [3] Apontamentos fornecidos pelo docente da disciplina de Psicologia e Educação na Saúde.

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