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CANDÉ, ROLAND DE. História universal da música: volume I:

tradução Eduardo Brandão; revisão da tradução Marina Appenzeller. – 2ª Edição. São Paulo: Martins Fontes. 2001

Admite - se em geral que a música é um privilégio da espécie humana. São nossos hábitos de antropomor fismo 1 que nos fazem qualificar de canto o grito dos pássaros, de música o ruído das fontes ou do v ento Melhor o que chamamos de “som musical” sem dúvida não podia existir antes do aparecimento do homem. O som musical é uma variação periódica de pressão, cuja frequência e cuja amplitude são variáveis em limites definidos. Ora, não existe fenômeno des se tipo na natureza, salvo os provocados pelo homem. Observam - se, por certo, fenômenos periódicos (ciclos astronômicos e atômicos, fenômenos eletromagnéticos), mas não são vibrações de pressão (vibrações elásticas), e a mecânica de que decorrem é estranha à da nossa escala.

Os sons complexos e irregulares (ruídos) eram, fatalmente, muito mais prováveis do que os “sons musicais” periódicos formados de elementos harmônicos. Dizê - lo é quase um truísmo 2 , na medida em que a ordem aritmética é sempre, nos acontecimentos naturais, uma hipó tese pouco provável. Sendo impro vável , o som musical exigia uma atividade projetiva, uma contribuição de informação; desde a origem, ele era um artefato. O homem criou - o para agradar não só a seu ouvido, adaptado a todos os fenômenos sonoros indistintamente, mas também a seu cérebro, o que nos leva a um período relativamente recente da evolução da espécie. Esse raciocínio também vale para toda combinação sistemática de ruídos.

Paleolítico A música nasceu quando “combinações criadoras, associações novas , realizadas num indivíduo, puderam, quando transmitidas a outros não parecer mais com ele (J. Monod, Le harsard et la necessite : a propósito da linguagem). Se, como alguns acreditam, se produziu de fato uma ruptura (guerra, genocídio?) entre o homem de Neandertal, que desaparece bruscamente, e o Homo sapiens , as tradições musicais do primeiro talvez não tenham sido transmitidas ao s egundo e deveríamos buscar as origens de nossas civilizações musicais históricas no Homo sapiens , esse ancestral próximo que apareceu há cerca de 50.000 anos . É provável que a emergência de um Homo musicus se tenha produzido um pouco antes, coincidindo com importantes remanejamentos da parte anterior do cérebro.

Entretanto , não se pode falar em música enquanto as manifestações sonoras são esporádicas e individuais. A música supõe o mínimo de organização e um esforço de adaptação dos corpos sonoros a uma fin alidade prática, quando não artística: expressão vocal do querer, mais ou menos adaptada a uma comunicação entre indivíduos, bater as mãos uma na outra ou no corpo, percussão de objetos entre si, com o objetivo de acentuar a

1 Sistema que atribui a Deus forma humana; 2 Verdade banal, evidente, sem alcance.

Periodização da História Ocidental Quando se organiza a linha do tempo de uma sociedade ou
Periodização da História Ocidental Quando se organiza a linha do tempo de uma sociedade ou
Periodização
da História
Ocidental
Quando se organiza a linha do
tempo de uma sociedade ou do
mundo, temos várias
possibilidades de elaboração. Se
sabe que os historiadores
determinam os marcos
cronológicos que consideram mais
relevantes por meio de uma
pesquisa das fontes históricas, que
é conduzida de acordo com alguns
critérios escolhidos pelos
especialistas. Em função disso, no
Ocidente, tornou - se tradicional
seguir a divisão da história baseada
nos marcos da história europeia,
que tem os seguintes: Idade
Antiga. Idade Média, Idade
Moder na e Idade Contemporânea.
O marco inicial corresponde à
invenção da escrita, por volta de
4000 a.C. Toda a trajetória anterior
dos homens, desde o
aparecimento do gênero Homo
sobre a face da Terra, tem sido
tradicionalmente chamada de Pré-
história .
A Pré- história pode ser dividida em
três períodos: o Paleolítico ou
período da pedra lascada, que se
estendeu por 2 milhões de anos; o
Neolítico ou período da pedra
polida, que teve início há mais de
10.000 anos ; e a Idade dos Metais ,
por volta de 5000 a.C.
As etapas da Evolução Humana

força expressiva do gesto “sono rizando - o” (colares, cintos, pulseiras rudimentares), prática coletiva dessa expressão audiovisual.

Essas diferentes atividades pré - musicais podem ter aparecido simultaneamente ou sucessivamente, em várias regiões do globo. Numerosas migrações parecem ter provocado mistura de raças, de sorte que, no paleolítico médio, podem ter coexistido ancestrais bastante evoluídos do Homo sapiens com tipos muito mais rudimentares.

Nenhum dado científico permite estabelecer, nem mesmo aproximadamente, a ordem de aparecim ento dos fenômenos musicais. Pode - se apenas imaginar uma sucessão hipotética de etapas evolutivas, como a seguinte:

1. Organização rítmica rudimentar, por batidas com bastões, percussão no corpo, objetos sacudidos ou entrechocalhos, em função de movimentos vi tais.

2. Imitação dos ritmos ou dos ruídos da natureza , pela boca e pela laringe. O grito também é uma válvula de escape das sensações e emoções primárias, um meio de expressão das necessidades elementares.