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Siranda. Revista de Estudios Culturales, Teoría De

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Siranda. Revista de Estudios Culturales, Teoría de los Medios e Innovación Tecnológica http://grupo.us.

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ISBN : 1989 - 6514 Número 3 Año 2010

FUNDAMENTOS PARA LA UTILIZAÇãO DAS IMAGENS NA PESQUISA EM ANTROPOLOGIA E COMUNICAÇãO LA GROUNDS FOR USE OF IMAGES IN RESEARCH IN ANTHROPOLOGY AND COMMUNICATION Pedro Hellin e José S. Ribeiro Resumo Propomo-nos delinear nesta comunicação as fronteiras entre a antropologia e a comunicação e explorar as questões interdisciplinares nomeadamente as que se referem ao método etnográfico de investigação em antropologia e comunicação e os fundamentos epistemológicos de utilização das imagens em antropologia e comunicação. Palavras-chave: etnografia, antropologia, comunicação, observação, registo, análise de discurso, semiótica. Abstract We propose in this communication to outline the boundaries between anthropology and communication and to explore interdisciplinary issues including those relating to the ethnographic research in anthropology and communication, and the epistemological basis for the use of images in anthropology and communication.

Keywords: ethnography, anthropology, communication, observation, recording, discourse analysis, semiotics.

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1. Afinidades entre antropologia e comunicação – ou falamos de uma só coisa? O termo «etnografia» remete com frequência para o processo metodológico global que caracteriza a antropologia. Para Lévi-Strauss esta prática consistiria na observação e análise de grupos humanos considerados em sua particularidade e visa a reconstituição da vida de cada um deles. Poderemos pois entender a etnografia como fase específica da antropologia mas também como método ou como prática utilizada e desenvolvida em muitas outras áreas científicas - nas ciências sociais, nas ciências da comunicação, nas ciências da educação, etc. Ao considerar a observação como ponto de partida a etnografia remete necessariamente para o trabalho de campo como fase primordial da investigação etnográfica. Em ciências sociais por trabalho de campo costuma designar-se o período e o modo de investigação dedicado à recolha e registo de dados. Como fase primordial, é comum às diversas ciências sociais adquirindo, no entanto, formas de realização variadas e diferenciadas decorrentes da diversidade de disciplinas e mesmo do terreno abordado. Assim poderá ser considerado trabalho de campo a aplicação de um questionário em sociologia, o trabalho no local do jornalista, do cineasta, do documentaristai (autor/realizador de documentários), do criador artístico, do criador literário, do publicitário, do criador e gestor da imagem (e da cultura) institucional, na arquitectura, no design, etc.. Todas estas práticas se baseiam de forma implícita ou explícita no trabalho de campo, no método etnográfica e mesmo na reflexão teórica muito próxima da reflexão antropológica. As bibliografias e referências metodológicas nos trabalhos de uns e outros investigadores são frequentemente as mesmas. Remete-nos esta constatação para as perguntas de Marc Augé “terão ainda sentido certas distinções disciplinares? Quando se fala da antropologia, não estará a evocar investigações muito próximas das da sociologia ou daquilo a que hoje chamamos ciências da comunicação?” (2006: 28). É esta interdisciplinaridade que pretendemos abordar nesta comunicação e naquilo que a antropologia, a sociologia, a comunicação tem em comum – o trabalho de campo a centralidade da observação, a análise da informação produzida neste processo, a produção e análise do discurso. Não esqueçamos porém que as fronteiras disciplinares são social e politicamente situando-se “no contexto das negociações de uma política do saber” (Strozenberg, 2003: 17). A proximidade entre antropologia e comunicação será apenas uma proximidade baseada no método? A antropologia clássica remetia-nos para as tribos, para comunidades isoladas que talvez nunca tenhas existido nessa singularidade radical que parece subjacente nas monografias. Sobretudo hoje o enclave cultural isolado do mundo raramente subsiste “o tempo das tribos e da etnologia tradicional acabou”. A etnologia parece ter perdido seu objecto de referência inicial. 211

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Não perdeu. Alargou o seu objecto de estudo. Marc Augé refere que o mundo mudou e que é a mudança que é preciso estudar – as tribos e as comunidades são outras e as antigas abriramse a influências da globalização pelos media, pelo turismo, pela circulação das mercadorias, pelo escolarização e pelo conhecimento. E Jean Copans afirma que a antropologia se universalizou e ao “universalizar-se, torna possível o estudo da sua própria sociedade. O Outro já não é mais um primitivo exótico, também ou o antepassado rural, mas sim o nosso concidadão e o conjunto dos Outros produzidos pela nossa sociedade (o emigrante, o excluído, etc.). Mas mesmo que a etnologia veja desaparecer as fronteiras geográficas, e depois temáticas, que separavam os seus objectos do resto dos outros objectos das ciências sociais, ela submete-se a reapropriações totalmente inéditas. Nos anos 1960-1970, a ideologia do «Poder vermelho» (calcada do modelo do «Poder negro» dos militantes mais radicais dos direitos cívicos) dos Ameríndios da América do Norte, exigia o prevalecimento de uma taxa sobre os fundos de investigação de uma etnologia considerada como colonial. Hoje em dia, são os autóctones ou os indígenas que utilizam directamente o discurso e os resultados da disciplina para a orientação dos seus debates políticos e «étnicos». Essa reviravolta, onde o Outro se torna, ele próprio, o etnólogo, não pode impor, ainda que provisoriamente, senão uma diferente hierarquização dos objectos” (Copans, xxxx ). Não é pois apenas no espaço local que se definem identidades, “os meios de comunicação são o espaço em que se definem identidades, se marcam diferenças, se negociam alianças. Em outras palavras, onde se definem e redefinem as fronteiras internas da cultura contemporânea” (Strozenberg, 2003: 24). A antropologia como todas as ciências sociais e as ciências da comunicação são profundamente marcadas pelos contextos socio-históricos e políticos em que se realizam como ciências, dos fenómenos sociais que estudam, das temáticas que se tornam relevantes em determinada época histórica ou contextos específicos. Transformaram-se pelas transformações sociais que estudam, pelo “regresso a casa” da antropologia – pela orientação para os estudos da própria sociedade e nesta não o rural e o folclórico mas a mudança em todos os seus aspectos da vida social e cultural, pela utilização saberes antropológicos pelas própria sociedade e cultura estudada, e, finalmente pelo facto de a própria antropologia colonial, do longínquo e do exótico e da sua transformação ser adoptada pelos povos anteriormente estudados e colonizados e a consequente criar uma inversão dos papeis nos estudos dos colonizadores, dos turista, dos media e dos processos de globalização. Há também mudanças metodológicas substanciais. A primeira mudança pela introdução das tecnologias de observação, registo, análise e produção discursiva. Desde o seu início a imagem 212

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da era da reprodutibilidade técnica - fotografia e o cinema, actualmente da era da transformação digital – imagem digital nas suas mudanças sucessivas das tecnologias e das linguagens (Ribeiro, 2004). Nos anos de 1950 /60 uma mudança epistemológica substantiva transforma a etnografia – a consideração da dimensão sonora das sociedades e da cultura (a voz humana, a música e o ritmo evocado por Marcel Mauss no seu Manual de Etnografia) ou o facto de, se as cidades (e as sociedades) “soam e ressoam é recomendável que a saibam escutar e escutar-se” (Fortuna, 1998: 39). Ao adquirir e voz e sonoridade das sociedades e culturas, “objecto do discurso tornou-se sujeito e exprimiu-se: é preciso então constatar a intervenção decisiva da imagem directamente captada e transmitida [...] e portanto a totalidade de uma expressão em que se dizem ao mesmo tempo o gesto e a palavra, o movimento do corpo e o do discurso, o tempo e o espaço das relações sociais. Tornava-se cada vez mais difícil deixar falar uns enunciando em seu nome a “verdade” dos outros (Piault, 1982: 7). A segunda alteração profunda tem a ver com a passagem da observação exterior isto é, da prática de terreno a partir do exterior, para lugar de observação e prática de terreno a partir do interior. Esta alteração questiona a posicionalidade do investigador e os paradigmas de investigação. Os paradigmas reflexivos ganham espaço nesta mudança. Parte-se frequentemente do pressuposto de que estamos a investigar algo que nos é exterior, de que o conhecimento que procuramos não pode ser adquirido apenas e simplesmente através da introspecção. Por outro lado, não podemos pesquisar algo com o qual não temos nenhum contacto ou do qual estamos completamente isolados. Todos os investigadores estão, até certo ponto, ligados ao objecto da sua pesquisa. Os resultados da investigação são artefactos da presença do investigador e da sua inevitável influência deste no processo de investigação. A reflexividade tem uma importância fulcral na pesquisa social, na qual a ligação entre o investigador e o campo de investigação – o mundo social – é muito mais estreita e a natureza dos (objectos) sujeitos pesquisados – actores sociais, seres conscientes e auto-conhecedores, que agem sobre o seu espaço e a estrutura social e tem consciência de agir sobre eles – tornam as influências do investigador e do processo de pesquisa menos previsíveis nos seus resultados. Estes aspectos são particularmente importantes para a pesquisa etnográfica onde a relação investigador – (objecto) sujeito da investigação é tipicamente mais íntima (observação – participação) e duradoura e as complexidades introduzidas pela auto-consciência dos objectos de pesquisa têm maior alcance. A reflexividade como tomada de consciência da influência do investigador no processo de pesquisa está presente em todos os métodos, até nos mais objectivos, embora assumindo as mais variadas formas. Em algumas dessas formas, identificadas como metodologias positivistas e naturalistas (Hammersley e Atkinson (1994), há uma relação 213

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estreita com a objectividade. Decorrem destas considerações e da prática etnográfica alguns pontos que consideramos relevantes e do maior interesse para a reflexão sobre os fundamentos da utilização das imagens pesquisa em antropologia e comunicação: 1) A proximidade entre a antropologia e comunicação, a porosidade ou a dissolução das fronteiras metodológicas sem por em causa a especificidade de cada uma das disciplinas. Pela parte da antropologia “o papel essencial que desempenha na nossa compreensão do mundo actual” e mostra “como a continuidade de um esforço de investigação, quer dizer de observação, de análise e interpretação, subjaz á diversidade dos terrenos empíricos e se liga mais precisamente ao incessante vaivém que o investigador efectua da maneira mais ou menos metódica ou espontânea entre o que vê e o que viu, o que vive e o que viveu” (Augé: 2006:28). 2) A fenomenologia e a antropologia da experiência como fundamentos da abordagem e da construção do conhecimento a partir do sensível, da percepção, da percepção, da imagem (Merleau-Ponty, Victor Turner). 3) Os dados ou produção de informação resultantes do trabalho de campo remetem necessariamente para a análise e esta para práticas desenvolvidas nas diversas ciências sociais – a análise de imagem, a análise do discurso, a análise de conteúdo. 4) Finalmente a ciência precisa de comunicar os resultados da investigação aos seus públicos através dos diversos media. Estes públicos são diversificados: os pares da comunidade científica, os actores sociais investigados, os estudantes, o público em geral, as instituições financiadoras da investigação, os editores, jornalistas e críticos. São também diversificados os objectivos de comunicação: partilha e reconhecimento entre os pares da comunidade científica ou com os actores sociais investigados; ensino para os estudantes e indivíduos em situação de iniciação à antropologia; divulgação para o público em geral; obtenção ou justificação de financiamentos junto dos poderes políticos e económicos, das instituições financiadoras da investigação, que acerca dela tomam decisões – avaliam projectos e esperam resultados; ou de publicação junto de editores e divulgação junto dos jornalistas e críticos. Há, pois, uma diversidade de expectativas e de conhecimento em relação à escrita e comunicação científica: "é apenas ciência, a ciência comunicável"... "sem partilha de uma linguagem comum não poderia existir comunidade científica" (Fayard, 1988:13 e 16). No entanto a linguagem especializada que utiliza, constitui como que um tesouro partilhado apenas pelos iniciados, agindo com repulsa em relação aos profanos. Especializa o seu olhar com a elaboração de grelhas de leitura do real e ao fazê-lo produz uma ruptura com as formas da percepção comum. Esta linguagem, afastada do senso comum, necessita no entanto de ser creditada pelas instituições científicas que emitem "os passaportes de entrada no círculo dos pares de uma disciplina" (Moles, 1967). Esta tarefa parece constituir um desafio particular no 214

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âmbito das ciências sociais e da comunicação pois a recepção e incorporação do conhecimento pela parte do utilizador/receptor é ele próprio um fenómeno social integrável no próprio processo de investigação. 2. Antropologia e comunicação Antropologia e Comunicação são áreas de saber que, olhadas de perto, são muito próximas. Tem, por vezes objectos/sujeitos de estudo diferenciados. No entanto ambas, a partir de terrenos diferentes, estudam o homem e as suas relações com o outro, a naturezas dos laços sociais os sistemas de símbolos e interacções que constituem as relações, as comunidades, as organizações. Se aproximarmos a definição de comunicação e antropologia dada por Marc Augé e Pierre Levy apercebemo-nos de uma quase coincidência: “A antropologia trata do sentido que os homens, em colectividade, dão à sua existência. O sentido é a relação, o essencial das relações sociais efectivas entre humanos que pertencem a uma colectividade particular” Marc Auge; “O objecto da informação e da comunicação é o estudo do tecido de relações entre seres, signos e coisas que constituem o universo humano” Pierre Levy. São pois as relações ou as interacções directas ou mediadas com o Outro, com o território, o ambiente e suas instituições, e os sentidos e significações destas relações, o objecto central da duas áreas de conhecimento. Lévi-Strauss, Cliford Geertz, Edmund Leach e Jack Goody aproximam cada uma à sua maneira a antropologia da comunicação. Para Levi-Strauss “a antropologia associando-se cada vez mais à linguística para constituir um dia uma vasta ciência da comunicação, a antropologia social pode beneficiar das imensas perspectivas abertas pela linguística pela aplicação do raciocínio matemático ao estudo dos fenómenos da comunicação” (Lardellier, 2003:39). Geertz considera que “o homem é um animal inserto em tramas de significação que ele mesmo teceu” e considera a cultura é uma urdidura (teia) e a análise da cultura é uma ciência à procura de significações. O que procuro é a explicação, interpretando expressões sociais que são enigmáticas na sua superfície” (Geertz, 1991 (1973:20). Leach retoma Geertz afirmando que “a etnografia deixou de ser um inventário de hábitos, tornou a arte da descrição densa, a teia complexa de enredo e contra-enredo, como acontece na obra de um grande romancista” (Leach, 1992:9) e identifica também as trocas económicas como actos de comunicação. Llana Strozenberg refere que “se a antropologia inicia as suas indagações a partir da perplexidade trazida pela descoberta de sociedades distantes, cujo modo de vida parecia exótico aos ocidentais, pode-se dizer que a comunicação tem sua origem na perplexidade causada pelo 215

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desenvolvimento de tecnologias de comunicação, cujo potencial de transformação das fronteiras culturais tradicionalmente estabelecidas e consagradas no interior da própria sociedade ocidental passou a ser objeto de preocupação (Strozenberg, 2003:20).

3. Observação e registo A observação é um ponto de partida comum à antropologia e à comunicação. A observação não é apenas uma actividade visual ou visual e sonora mas com uma actividade complexa que mobiliza os sentidos: — olhar, escutar, cheirar, tocar, saborear, interagir com as outras pessoas —; as emoçõesii — atenção e sensibilidade ao outro, capacidade de espanto e indignação; capacidades intelectuais: — construção do olhar, do ponto de vista, do objecto de estudo. A observação como cinema e também “uma arte do tempo (como a música, por exemplo), já não é só o olho que está certamente em causa e o que denominaremos ainda «olhar», por comodidade, reúne, no cinema, num mesmo todo sensível, a visão, a escuta, a percepção, a memória. Procedendo por blocos de sensações onde tudo se mistura, o olho com o som, a orelha com a imagem, a percepção do instante com o jogo de equilíbrio do esquecimento e da memória, o cinema não pode tratar o espaço separadamente. É-lhe impossível captar ou atravessar pedaços de espaço sem os transformar na passagem em pedaços de tempo. Nenhum movimento, aliás, se conceberia sem este transporte do espaço ao tempo" (Comolli, 1994:16). Esta actividade de observação coloca o observador, no próprio acto de observação, entre o passado — a memória de experiências anteriores de antropólogos e cineastas — e o futuro — a realização do seu projecto, objecto de relação tensa entre os seus objectivos e os espectadores. Colocam-no também, numa situação auto-reflexiva — de análise do seu próprio olhar, do local de observação, das suas opções, do seu conhecimento e do seu desempenho técnico. Nesta situação actuam as referências do passado — dispositivos anteriormente incorporados; a situação presente de análise de resultados obtidos — análise das imagens, “observação diferida”, consciência dos erros e fracassos; os objectivos finais do projecto e seus destinatários. No entanto, a observação não é principalmente uma actividade de identidade pessoal — o desempenho do observador —, nem uma mera actividade técnica, de método ou procedimento de pesquisa ou de mero registo cinematográfico. A observação em antropologia é sobretudo uma actividade relacional e dialógica: “é a relação do etnólogo com o seu sujeito que está em causa no dispositivo fílmico, é o lugar do sujeito que se define de outro modo e dá conta de uma transformação na ordem das preocupações intelectuais” (Piault, 1992:62). As entrevistas, as 216

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conversas, as interacções verbais são processos complementares da observação. Um dos primeiros objectivos da etnografia é consequentemente a formação do olhar. Lapalantine refere que o olhar do etnógrafo não é um olhar qualquer, um olhar que baseado no abrir e fechar de olhos, no que salta à vista dos olhos, ao que nos toca. O olhar do etnógrafo deve ser um olhar inquieto, interrogador, que parte à procura das significações e das variações e não um olhar que acredita na estabilidade ilusória do que vê e nega à vista e ao visível o seu carácter inconstante, variável. Isto não significa que o olhar do etnógrafo deva ser um olhar de controlo sobre o seu objecto, o que nos remeteria possivelmente para um trabalho semelhante ao inquérito sociológico, com conotações jurídico-policiais (inquirir, interrogar, obter informações...), mas um olhar simultaneamente distraído e atento, disponível e aberto, seguro e à deriva (Lapalantine, 1996). Para o conhecimento do outro, o etnólogo-observador tem de incluir, na sua investigação, não apenas uma reflexão acerca dos “filtros” que poderão enformar (dar forma) a sua observação, mas ainda uma informação sobre o que depende de si, o que depende do outro e o que os ultrapassa. Ao fazê-lo, está a desenvolver um processo de autoconhecimento e de conhecimento do contexto comum a si e ao observado, uma tomada de consciência das influências recíprocas, um reconhecimento de que “no que diz respeito aos factos humanos, estes produtos inesperados, secundários em relação aos objectivos e ao objecto previstos, são pelo menos tão significativos quanto procurava à partida” (Kohn, 1998: 50). O objecto de observação não é apenas constituído por aquilo que é perceptível directamente pelos cinco sentidos, mas também pelas condições verificadas no momento do encontro observador-observado, a selecção das percepções do observador, as interacções observadorobservado e as interpretações, ou seja, o não observável directamente mas inscrito em determinados comportamentos (gestos, atitudes, palavras ditas, escritas) a que daremos atenção se estivermos atentos e se a eles formos sensíveis. Distinguiremos nesta reflexão três processo de observação: observação exterior, observação implicada e observação/participação. Esta comummente chamada como observação participante constituindo

Observação exterior
Os métodos científicos, por vezes, descontextualizam e (des) historicizam o “objecto” para efectuar o estudo e a compreensão das suas leis naturais e observam-no a partir de uma teoria, 217

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construindo assim um olhar unilateral, exclusivo, unívoco relativamente ao observado. “Escamoteamos os factores que constituem a singularidade de cada situação de vida e de observação, o que pode ser significativo para si e para nenhuma outra. Escolhemos não ver a configuração singular dos factores em jogo, factores ponderados de forma diferente para cada pessoa, assim como para cada um no tempo. Substituímos uma construção dominável por uma realidade que resiste. [...] O quadro de referência teórico e os procedimentos são elucidados enquanto plano de fundo explicativo, justificativos da démarche, explicações que conduzem à reprodução eventual da observação (Kohn, 1998: 51-52) Neste tipo de investigação, o “objecto” observado é considerado como uma totalidade fechada, cujos limites são desenhados pela teoria escolhida, é reificado e (des) historicizado pelo observador que fixa o que se passa nas suas notas. Também o observador é reificado e ignorada a subjectividade das suas escolhas iniciais e das suas grelhas de leitura. Situa-se num fora de campo. Dilui-se por detrás das técnicas de recolha de informações. A sua atenção é focalizada, enquadrada por uma teoria. Tem uma atitude passiva em relação à situação observada. Constrói uma distância entre si e o observado. Acredita não haver interferências entre si e o observado. Esta “visão objectivante comporta, por exemplo, vários momentos de escolha não argumentados, tais como o quadro teórico de partida, as inferências interpretativas em diferentes etapas...” (Kohn, 1998: 222). Assim, no caso em que o projecto do observador seja o de constituir conhecimento não com o outro, mas sobre o outro, a sua atitude no terreno pauta-se pela sua não implicação no “objecto” de observação, pela sua exterioridade, pela sua passagem pelo terreno de forma “neutra”, esforçando-se por reduzir as diferenças de ponto de vista para que aquilo que observa seja visto da mesma forma por todos os observadores. Nesta abordagem, o ver – actividade exclusiva e reificante do observador, sujeito activo que age

sobre o passivo, o observado – é o resultado de um encontro observador-observado, de uma
relação formulada e vivida em termos de activo e passivo:

Observador ↔ observado Vê ↔ visto Ouve/escuta ↔ ouvido/escutado

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Nomeia ↔ nomeado Ordena ↔ ordenado Objectiva (verbo) ↔ objectivado Conhece ↔ conhecido

Se por um lado, a posição de exterioridade do observador pode levar ao não reconhecimento que desejaria ter no terreno junto dos observados, bem como a atitudes de indiferença e de desconfiança destes em relação a si e ainda impedir o acesso à informação que os observados detêm e que lhe interessa para o seu objecto de estudo; por outro lado, é uma posição confortável para os observadores que não querem mostrar-se ou ser postos em causa. “Pela sua não-participação quase total, o observador evita envolver-se nesse lugar. Continua imóvel, não responsável por aquilo que se passa. Não ser interpelado pelos actores é desculpabilizante na medida em que aquele que observa se sente e é, de facto, voyeur” (Kohn, 1998: 61).

Observação implicada
Se considerarmos, porém, que o objecto da observação não é, nem o observado nem o observador, mas as relações entre ambos e ainda o contexto que os envolve, não podemos colocar de um lado o observador com “os seus métodos, as suas referências teóricas, os seus preconceitos” e do outro o observado “actor não pensante”. O observador não existe sem o observado e o inverso. “Esta relação dialéctica cria uma tensão entre o sujeito-objecto observante, metade cego, e o sujeito-objecto que lhe resiste libertando-se. A reflexão epistemológica e metodológica, o olhar que questiona os hábitos de pensamento, dirige-se a todos os sujeitos-objecto” (Kohn, 1998: 62). O objecto de observação é sempre “observável”: agora o observável inclui a situação observada, os comportamentos do observador, as interacções comportamentais observador(es) observado(s). Observamos o que existe “no mundo”, o que se manifesta nos fenómenos e nos actos, assim como a exterioridade-interioridade recíproca que revela o observável. A observação tem também uma dimensão temporal - a progressão da observação no tempo: o olhar é dirigido tanto para o processo de produção de conhecimentos como para os factos. 219

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Tudo e todos se tornam objectos parciais e provisórios, complementos da acção de “observar”, o que implica que todos são potencialmente tanto sujeitos quanto objecto da acção, sujeitos implicados e activos. Isso não conduz nem à sua fusão nem à eliminação de qualquer objecto, mas a uma dialéctica dos lugares e dos papéis, ao diálogo entre pessoas. O objecto de observação já não é independente, totalmente exterior ao observador, uma coisa em si; o observador já não está no exterior, neutro, mas inextrincavelmente misturado com o “objecto”, da mesma “natureza” mas de uma outra existência orgânica, cada situação de observação é diferente, cada objecto-rede é único. Atingem-se “verdades” a partir das quais podemos generalizar, sem ilusão totalizante, sabendo que a verdade única e universal, a verdade-objecto a adquirir, a dominar, não existe. Observador-observado ↔ observar-se Vê-visto ↔ ver-se Ouve/escuta –ouvido/escutado ↔ ouvir-se/escutar-se Nomeia-nomeado ↔ nomear-se Ordena-ordenado ↔ ordenar-se Objectiva-objectivado ↔ objectivar-se Conhece-conhecido ↔ conhecer-se

Enquanto na situação anterior em que o observador ocupava uma posição exterior, era “neutro”, não se implicava com o “objecto”, a observação tinha apenas uma dimensão pragmática de tomada de notas do observador, sujeito-activo relativamente ao observado, sujeito-passivo; na situação em que o observador se posiciona de dentro, se implica, a observação passa a ser concebida como “quadro dinâmico que faz intervir processos cognitivos, construções de linguagens para inscrever os dados com vista a uma finalidade descritiva, interpretativa ou explicativa” (Kilani, 1995: 89-90) e como um processo complexo caracterizado pela complementaridade entre observador-observado e também pela reciprocidade e reflexividade.

Observação ou participação
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Em antropologia e no realaização do trabalho de campo refere-se com frequência a observação “observação participante” como a prática ou a estratégia de trabalho de campo mais frequente. A expressão pode parecer oxímoraiii, no sentido em que as duas actividades, ou os papéis que elas sugerem, não podem ser desempenhados simultaneamente. Gold (1958) sugeriu que, no trabalho de campo, o antropólogo pode adoptar um de quatro possíveis papéis: observador (exterior, distanciado, neutro, objectivo); observador-participante; participante-observador; participante (totalmente inserido). Papel do Observador no Trabalho de Campo Neutralidade Distanciamento Objectividade Observador (total/exterior) Observadorparticipante Observador (exterior) ou observador total (só observador) – procedimento centrado no objecto de observação e no controlo da situação de observação (métodos). Ver acima observação exterior e no limite voyeurismo. Observador totalmente participante – as actividades do investigador permanecem totalmente ocultas podendo juntar-se a uma organização ou investigar as organizações em que se participa. Ver acima observação como interacção. No limite narcisismo. Observador-participante – A focalização é a do observador que participa como estratégia para obter informação. O observado permanece alheio ao processo de pesquisa. Paricipante-observador – Os procedimentos centram-se na negociação com as pessoas investigadas. Investigação partilhada. A situação de inquérito (observação e obtenção da informação) constitui um lugar de negociação de pontos de vista e de saberes – os do antropólogo e dos seus informantes; lugar de tensão e compromisso entre saber local e saber global, entre o eu e o outro, sujeitos inscritos em dois tipos de historicidade. Estes quatro papéis são definidos em função do paradigma (modelo, tradição intelectual) em 221 Participante-Observador Participante (total/interior) Implicação Intersubjectividade Simpatia

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que o investigador se situa, do seu grau de aceitação pelas pessoas estudadas e são gradualmente alcançados no decurso do trabalho de campo de longa duração. Whyte (1955), no seu estudo de um bairro urbano italiano em Boston, diz ter-se transformado de observador exterior (completamente estranho) que não podia (sabia) entender o significado das relações sociais que aconteciam à sua volta, em participante completo quando se envolveu numa campanha política. As oportunidades de participação aumentam normalmente à medida que o investigador desenvolve uma rede social nos locais de pesquisa. Sendo a participação importante no processo de investigação não é a única nem a principal medida do sucesso da pesquisa. O grau de participação pode ser anormalmente elevado no início do trabalho de campo quando as pessoas tentam descobrir quem são estes investigadores e por que é que eles estão ali, e depois decrescer à medida que os investigadores se tornam parte da vida quotidiana, e não mais uma curiosidade. Cumpre ao investigador manter níveis elevados de participação o que lhe exige uma grande capacidade em estabelece e manter relações humanas duráveis. Rabinow, nas suas reflexões sobre a relação entre estes dois aspectos do trabalho de campo em antropologia, propõe um modelo em espiral, mais útil e realista do que o linear. “Observação...é o termo principal no par, já que situa as actividades dos antropólogos. Contudo, quanto mais nos movemos na direcção da participação, dá-se sempre o caso de continuarmos a ser tanto um estranho como um observador... Na dialéctica entre os dois pólos de observação e participação, a participação transforma o antropólogo e condu-lo a uma nova observação, da mesma maneira que esta transforma o modo como ele participa. Mas esta dialéctica em espiral é conduzida no seu movimento pelo ponto de partida que é a observação” (Rabinow 1977: 7980). Ainda que os antropólogos tenham, frequentemente, dado uma grande importância ao grau de participação na pesquisa, sugerindo que essa participação mostra a sua inteira aceitação junto dos sujeitos observados e um grau de reactividade (o grau de influência do etnógrafo nos dados de pesquisa) mínimo, o mais importante indicador de uma boa pesquisa é a natureza, as circunstâncias e a qualidade da observação. Tal observação também deve incluir a observação reflexiva, isto é, o etnógrafo deve ser sensível à natureza da sua participação, em determinadas condições, como uma parte da sua contínua compreensão do grupo em estudo. “Pela sua participação efectiva, experimentando ele próprio uma situação, o observador conseguirá compreender, do interior, os fenómenos observados: do interior da situação observada de que “faz parte”, por um lado, pelo conhecimento das significações concedidas aos seus actos pelos 222

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próprios actores, e, por outro lado, do interior de si mesmo observador-participante, tendo vivido os acontecimentos portanto podendo tirar partido da sua própria sensação observada em retorno” (Kohn, 1998: 70).

Da observação á linguagem
A antropologia decorre, em primeiro lugar, da ideia de que as culturas se revelam através de formas e símbolos visuais subjacentes aos gestos, cerimónias, rituais e artefactos situados em ambientes construídos e naturais (Ruby, 1996). A aprendizagem ou a percepção de uma cultura, longínqua ou próxima, do outro ou a nossa própria cultura, pressupõe pois uma actividade de atenção que mobiliza a sensibilidade do etnólogo, particularmente a vista e mais precisamente o olhar. Olhar é o contrário de generalizar, globalizar, “é ele que constrói o quadro (a vista), que acrescenta, corta, omite, constrói e subjectivisa ” (Dibie, 1998:26). O olhar etnográfico é uma dupla construção: propõe-se ver o mundo e aceita projectar-se retornado a si próprio num percurso reflexivo. Como actividade perceptiva (interior e exterior, de si e do outro) fundada na atenção e orientação do olhar procura uma abordagem micro social, isto é, propõese observar, o mais atenta e minuciosamente possível, “tudo o que se encontra, incluindo e, talvez mesmo e acima de tudo, os comportamentos aparentemente mais insignificantes «os aspectos acessórios do comportamento», «alguns pequenos incidentes» (Malinowski, 1993: 77), os gestos, as expressões corporais, os usos alimentares, os silêncios, os suspiros, os sorrisos, as caretas, os barulhos da cidade os barulhos dos campos” (Laplantine, 1996:13). No entanto, “a percepção etnográfica não é da ordem da dependência imediata da vista, do conhecimento fulgurante da intuição, mas da visão (e, por conseguinte do conhecimento) mediatizada, distanciada, diferida, reavaliada, instrumentada (caneta, gravador, máquina fotográfica, câmara...) e, em todas as situações, retrabalhado na escrita. Ver imediatamente o mundo tal como é, cujo corolário consistiria em descrever exactamente o que aparece sob os olhos, não seria realmente ver, mas crer, e crer nomeadamente na possibilidade de eliminar a temporalidade. Seria reivindicar uma estabilidade ilusória do sentido daquilo que se vê e negar à vista e ao visível o seu carácter inevitavelmente mutável” (Laplantine, 1996:15). Torna-se necessário “transformar o olhar em linguagem” (Laplantine, 1996). Os antropólogos tentaram compreender o olhar passando do visível ao legível. A antropologia era “uma disciplina verbal”, “dependente das palavras” (Mead, 1973) sobretudo quando o antropólogo contava apenas com a memória dos informantes. O ver é, no entanto, indissociável do ouvir, do interagir, da inscrição local (notas de campo, registos visuais e sonoros) - memória do observado e do observador, da análise e da interpretação, um continuum do terreno ao texto e do texto ao público. 223

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A descrição etnográfica, não só enquanto escrita do visível mas também da relação e da experiência de terreno, “expõe não só a atenção do investigador (atenção orientada e flutuanteiv), mas também uma preocupação particular de vigilância relativamente à linguagem, já que se trata de mostrar com palavras, que não podem ser insubstituíveis, sobretudo quando se tem por objectivo dar conta, da forma mais minuciosa possível, da especificidade das situações, sempre inéditas, com que somos confrontados”. Nesta estão em jogo “as qualidades de observação, de sensibilidade, de inteligência e de imaginação científica do investigador. É aí que se prepara o etnólogo (= o que faz emergir a lógica própria de determinada cultura). É, enfim, a partir deste ver organizado num texto, que começa a elaborar-se um saber: o saber característico dos antropólogos”. Nesta passagem do visível, do multisensorial (multissemiótico) ou da experiência à linguagem há necessidade de estabelecer relações entre o que frequentemente “era considerado como separado: a visão, o olhar, a memória, a imagem e o imaginário, o sentido, a forma, a linguagem”. Este empreendimento é acima de tudo interdisciplinar “apela a uma pluralidade de abordagens, que a antropologia – que não é uma disciplina auto-suficiente mas aberta – tem de frequentar [considerar, de ter em conta]: as ciências naturais, a pintura, a fotografia, a fenomenologia, a hermenêutica, a teoria da tradução, as ciências da linguagem, mas também a literatura [o cinema e o hipermédia], que não é [são] mais do que o pleno exercício da linguagem” (Laplantine, 1996:8). As imagens de terrenos, os objectos, as notas, os registos das conversas, são pois uma matériaprima para a construção do conhecimento antropológico – objecto de análise e classificação e de montagem, entendidas no sentido que Vertovv e W. Benjaminvi dão ao conceito de montagem, de construção do discurso literário, visual, sonoro, audiovisual, hipermediático. Da análise do discurso e das imagens trataremos a seguir. 4. Análise ou semiótica da imagem “Toda cultura se define por lo que decide tener por real. Transcurrido cierto tiempo, llamamos ‘ideología’ a ese consenso que cimenta cada grupo organizado. Ni reflexivo ni consciente, tiene poco que ver con las ideas. Es una ‘visión del mundo’, y cada una lleva consigo su sistema de creencias” (Régis Debray, 1994:299). Cualquier imagen es un producto donde intervienen factores humanos y técnicos que manipulan el producto, aunque como dice Vilches (1999: 14), “los usos y el significado de la imagen parecen depender de la variedad de representaciones de una sociedad que influyen sobre las modalidades de su transformación”. De forma que las imágenes tienen significado porque hay personas que les buscan significado desde su experiencia cultural. 224

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La fotografía muestra la cultura de lo visual desde su dependencia de lo real, porque la fotografía (y los diferentes soportes audiovisuales, aunque con sus propias características) es la imagen más directamente relacionada con el concepto de realidad, a través de la reproducción icónica. Hablar de iconos en nuestra cultura es sintetizar el pensamiento moderno, desde las teorías del referente, las pragmáticas de Pierce, hasta las de la filosofía analítica. Todas se enlazan con las actuales teorías semióticas y textuales y conforman la semiótica de la imagen. La cuestión central de la semiótica gira en torno a la semejanza (un objeto icónico tiene una apariencia semejante al objeto real), de ahí la relación de tipo semiótico, la relación entre signo, significado y objeto. Además del punto de vista estético y filosófico, la investigación de la imagen necesita un punto de vista metodológico para tratar el tema de la iconicidad… (aquí podemos enlazar con la antropología visual, o que achas?) Desde el punto de vista de la cultura partimos de la idea de Eco de que construimos modelos de la realidad mediante la relación que esta tiene con los iconos. El espectador añade su competencia interpretativa a la imagen (que es una forma vacía) para llenarla de contenidos, de experiencia. La imagen es comprensible gracias a las reglas culturales adquiridas. Eco explica para entender la iconicidad hay que plantearse la relación entre los signos y las reglas de contenidos culturales, que regulan la conxión con los objetos. Esto implica “un discurso sobre las modalidades culturales mediante las cuales se constituyen estos objetos” (1977:17). Entendemos mejor esta idea siguiendo el esquema sobre el proceso de modelización icónica de Villafañe (1998):

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XX. La comunicación visual La comunicación visual se basa en lenguajes, lo que divide la perspectiva de análisis en dos grandes corrientes. La primera, representada por disciplinas como los estudios sobre cine, la historia del arte y la semiótica (Metz, Arheim, Eco) asume que la comunicación visual conlleva un complejo proceso de codificación y decodificación. Sin embargo, hasta la fecha, esta corriente no ha elaborado una tipología exhaustiva de códigos específicos para su estudio sistemático. La otra tendencia, la cognitivista, comparte con la anterior que la representación es la base de la cognición humana, aunque desde el punto de vista del interés dirigido a la acción, en un contexto social específico (Bordwell, Winograd y Flores). Las diversas tradiciones de investigación en comunicación visual indican que tampoco los actuales estudios tampoco utilizan el modelo de Peirce de las taxonomías formales de signos posibles, por eso creemos necesario un desarrollo interdisciplinar de la teoría, formada por una variedad de enfoques empíricos. De momento, y por sumar lo defendido por las diferentes posturas (que aquí pretendemos aunar) podemos decir que “el significado es real, emergente y surte efecto en y a través de varios ámbitos de la existencia interrelacionados; el significado es interpretativo, puesto que es un elemento constitutivo de la acción social. El significado establece 226

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una diferencia en la práctica”. (Bruhn Jensen, 1997:281). Por nuestra parte, y como ya venimos defendiendo (Hellín, 2007: 27) creemos que un modelo sociosemiótico abierto a otras disciplinas es el método de análisis más ajustado a estos parámetros.

5. Análise do discurso La investigación aplicada realizada es de tipo cualitativo, y así lo es. Queremos aclarar, antes de continuar, las similitudes y las diferencias existentes entre el análisis cuantitativo y el cualitativo; porque el análisis de datos puede ser cuantitativo, si la codificación es previa al análisis, o cualitativa, si se codifica de forma simultánea al análisis y se pretende la detección de significados. Para diferenciar ambas técnicas, el término análisis de contenido se aplica al estudio cuantitativo (el primero en establecerse), y análisis cualitativo de textos a las técnicas que prescinden de cualquier tipo de cuantificación en el tratamiento de los datos. En cuanto a los rasgos comunes, Krippendorf (1997:40-44) señala como principales la de manejar un gran volumen de material simbólico, la de no ser una técnica intromisiva, adaptarse al trabajo con material no estructurado previamente y la de ser sensible al contexto. Para establecer las diferencias entre ambos tipos de técnicas de análisis textual nos basaremos en el cuadro elaborado por Clemente Penalva (2003:9), que diferencia entre método, proceso y resultados obtenidos:

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La perspectiva cualitativa tiene como característica la ausencia total de estandarización y sistematización, de forma que no se puede establecer un estándar en el procedimiento del análisis y tratamiento de datos. El método cualitativo es flexible, por lo que la capacidad de decisión del investigador es muy alta. La inexistencia de un procedimiento de precodificación implica que el establecimiento de la categorización se posponga hasta el momento del análisis de datos. Los métodos de análisis empleados no son excluyentes ya que durante el transcurso de la investigación el analista puede ir añadiendo elementos provenientes de distintos modelos. Cuantitativo (Análisis de contenido) MÉTODO Cualitativo (Análisis del discurso) Contenido latente Inductiva Guía de indagación Múltiple, negociado Connotación Grande Mediano, pequeño

Objeto Lógica Hipótesis Relación significante-significado Volumen de datos
PROCESO

Contenido manifiesto Hipotético-deductivo Confirmatoria, significación estadística Único, denotación

Muestreo Unidades

Probabilístico

Intencional conveniencia

o

de

Todas tienen el mismo Todo el texto valor. Descomposición en diferentes unidades niveles de Montones (simúltaneo al análisis)

Sistema de clasificación Codificación
RESULTADOS

Casillas (previo al análisis)

Valor numérico de una Fragmentos que tratan un variable mismo código Interpretación Fiabilidad: variabilidad de discursos y consistencia Validez: correcta interpretación 228

Objetivo Fiabilidad y validez

Descripción Pruebas estadísticas

Reproductividad

Alta

Baja

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Básicamente, el análisis cualitativo realiza dos operaciones sobre los datos. Una es analítica y consiste en descomponer los datos para descubrir las categorías relevantes; la otra es teórica y consiste en reconstruir el texto estudiado agregándole la interpretación. La primera tarea es la de reducción de datos, de forma que para que los datos masivos sean organizados y reconfigurados de forma significativa, hay que conseguir que sean entendibles en los términos que busca el objetivo de la investigación. Desde aquí empieza el establecimiento de categorías, se nombran, se relacionan y jerarquizan. X. Las imágenes y la realidad Conclusões

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Um dos postulados de Robert Flaherty era o de uma “longa duração da experiência no local: o tempo do contacto prévio, do conhecimento do objecto a filmar, da criação de laços de amizade ou confiança que permitam a participação das pessoas filmadas, enfim a rodagem, o visionamento e o feedback” (Ribeiro, 1993: 61). Esta atitude tornou-se também “norma” no filme documental (Gauthier 1995, Piault 1998, MacDougall 1998, Sussex 1973). “Não vejo as emoções e os sentimentos como entidades impalpáveis e diáfanas que tantos insistem que elas são. O tema de que tratam é concreto, e a sua relação com sistemas específicos no corpo e no cérebro não é menos notável que na visão ou na linguagem” (Damásio, 1995:177). “Sentir os estados emocionais, o que equivale a afirmar que se tem consciência das emoções, oferece-nos flexibilidade de resposta com base na história específica das nossas interacções específicas com o meio ambiente” (Damásio, 1995:148).
iii ii

i

É um enunciado contraditório à primeira vista, ou seja, faz-se a conjunção de duas proposições das quais uma é a negação ou implica na negação da outra. O que diferencia o oxímoro da contradição propriamente dita é a intencionalidade do primeiro, a proximidade dos termos contraditórios, a visibilidade flagrante e a admissibilidade de uma decifração. O oxímoro é uma contradição em leitura imediata. É lançado para que se decifre e decifrá-lo envolve dissolver a contradição.

Observação flutuante forma de observar situações em movimento incessante consiste em focar a atenção num objecto preciso sem deixar de flutuar para que não haja filtro, à priori, até que apreçam alguns pontos de referência e de convergência nos quais se consiga encontrar subjacente alguma regras.

iv

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A montagem em Vertov consiste de um complexo método de estudo do visível, de registo do visível, do processo criativo de registo, organização e montagem do visível, de composição sonora e finalmente de elaboração da obra final como resultado deste complexo processo. Constitui um paralelismo perfeito às metodologias de investigação envolvendo todo o percurso de pesquisa do terreno ao espectador (ver o O Homem da Câmara de Filmar (1929)).
vi

v

W. Benjamin procurava na técnica da montagem um método que capaz de justapor fragmentos literários destinados à evocação constelar de imagens dialécticas e cuja manifestação, apreendida conscientemente pelo sujeito histórico de uma determinada temporalidade, permitiria chegar ao abstracto através do concreto. Em outras palavras, diríamos que a noção de montagem benjaminiana traz em si a evocação da imagem, cuja apreensão já permite atingir o domínio escritural de uma reflexão a partir de uma base material, porém, sem mais fazer com que a sua legibilidade prescinda desta materialidade concreta do objecto histórico (Diniz).

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