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LUNIVERSIDADEDOESTADODORIODEJANEIRO Revor Amini Cela Alves Peters | : EDTORADALINERSDADE DOES | FENOMENOLOGIA DO BRASILEIRO: Conta arta EmBuscade um on ages Novo Homem Notaries edo) opie Jorge aba in memoriam) Gustavo Bernardo ae ay opp © vm HALEN Sumario "Toes rete eo reer Eh Ue ta do Re dea i spa nm scant ‘Ta (tl Sea) S67.709 ema eee Corunna Parte Roane’ Pre co rites Darrneie a Pret -A Eat earn Em busca de um now homem Imigracto Naturexa Defasagem Alenasio Mira crmatoaagio na route Ccatwra /e artnet ron Manoel blo i Pas Diagnéstico © progndatico, spun, Che Somat“ Roe sre ISoN asses |r Cg. Bed, Cte cou ssaasin) 2 0 59 % 9s ns 1381 153 163 Preficio A EPOKHE BRASILEIRA Ges Beco Um brasileiro realizou a fganha de colocar © Bras! fenire parénteses. Este brasileiro se chamava Vilém Flster, ¢ 30 snaseew'no Bras Vilém Flusser nasceu em Praga, capital da ‘Tehecosloviquia, no dia 12 de mato de 1920, Em 1999, iniciou ‘estudos de filosofia na KarleUniverstt, mas no mesio ano foi for- ‘eado a viajar para a Inglaterra, apés a invasio alema. Toda 4 sua famiia moreeu,assssnada nos campos de concentragio. Em 1940, rmigrou para o Brasil, com Edith Barth. Casaramse no Rio de Janes 10, ese estabeleceram em Sio Paulo. Nos anos 40, nasceram os és fithor do casal. Ao final da década de 30, Fluser iniiow longa colaboragio no joralO Estado de Sio Paulo, eserevendo sobre filosofa da linguagem. Em 1958, wornouse profesor de Filosofia da Ciencia na Universidade de Sio Paulo. No inicio dos anos 60, lecio- ‘not Filosofia da Linguagem, no Departamento de Humanidades do Instituto Teenoldgico da Aeronautica, cm Sao José dos Campos. Em 1965 © 1967, fi eminirio do governo braieio nos Estados Unidos ‘na Europa para projetos de colaboragio cultural, através do. De- partamento de Cooperacio Inteletal do Ttamaray. Desde 1966, Proferia palestas, como convidado, em wniversdades europeiat ¢ Americanas. Em 1972, esceveu a coluna "Ponto Zero" no jortal Folba de Sio Paulo. Em 1972, também, retornou & Europa, etabe- lecendose na Franca. Desde 1975, proferia palesras e minwtrva seminiris na. Ecole d'Art dAiven Provence. Vistava reguarmente (Brasil, En 1991, tornowse profesor convidado na RubrCniverst Bochum, #8 Alemanha, No mesmo ano, porém, morreu em acer te de aitomérel nas proximidades de Praga, a cidade em que mak ‘ce, no ia 21 de-novembro Desde entio, vrios simpésiosinternacionas sobre 0 seu pensamento foram promovides nauropa. Duas ediorasalemis fatto lancando 2 sua obra completa. Fur eine Philosophie der Fotografie, seu livro mais conhecido (publicado em portugues ‘como. Blosofir da caia pret), tem traducso em 1S lingua. Apesat ‘iso, no pait-em que mais tempo vvew produ, Vslem Flaser E praticamente desconhecide. Eo que a publicagio deste Fenomenologia do brasiciro: em busca de um novo home, real zada em bos hora pela Editors da ER], tenta reverie Fm outro momento (no ensaio Eyperando Pluses Prémio Bibliotes Nacional 1997), procure estudar mais det mente a flosofia que cle consiruia. No dmnbito desta inttoducio, abe apenas tacila em linhas bem gerais, para a seguir nos deter. tos (com algum eapante) no Ure. Professores de teoria da literatura, extudamos, com Samuel Coleridge, a suspensio da descrenca ~ she wiling suspension Of disbelief «movimento que todo leitor de poesia precisa fer, pra se permitir“embarcar” no poema que le. Estudatmos,adiante, ‘como © tebrico, oto profesor, leitores de segunda nivel, preci: ‘mos efetuar uma espécie de suspensio da suspensio da descrenca txatamente pars entendermos o proceso que no x6 faults como provoca aquela suspensio da descrenca (procesto que, de resto. nas Imethores histérias, pesstemistrioso), O que Fluser nos prope & algo semelhante, por sm lado; por outro, radicalmente difere ‘Tales se possa chamilo de “nispensio da crenca” ~ suspensio da crenca nor mapas, ale diver, na teora, na filosoia, na cigncia. Ese fexercicio continuo de “supensio da crenca” ¢ 0 principal respon ‘vel pelo misto de fescinagio e verigem que pronoca a leitura dos Tiros de Vilém Fler. 'No jargio filosico, a suspensio da crenca é mais conhecida pelo termo grogocpobbe. Para os greges, representava © estado de repouso mental, pelo qual nio afymamos nem nega ‘mos, o que tanto nos cond 3 tmperturbabiidade, quanto nos deiva aberte a todas a+ perspectias dos fendmenos. Huser, bem mais tarde, revive 0 conceito, tornandoo © eixo da wa redecéo fenomenoidgica (ou reducio cidesica), pela qual “suspendemos © jira acerea do contetido dostinal de toda flowofia determinada € Fealizamon todas at nosas compromacées dentro do quadra desta Ssupensio". A’ dpokie, portano, coresponde 4 suspeno moment net do juito, para xe wentar "ver" @ fenbmen sob nova perspec, std claro que se trata de um arifeio do pensamen to. Em termos abrolutos,€ no limite, trataae de atificio impose, (© pensamento, que se confunde necessariamente como juio, logo, com a crenca, ago tem condigoes de suspender a si mesmo, asin ‘como ima serpente nio pode devorar 0 su proprio corpo. Apesar {da impossibilidade, entretanto, hi 0. wroboro (como horizonte mitico), ¢ ha a fenomenologia. (como alternativa radical a0 Fistoricimo, contendo esta varante, interamente nic, represen tada pelo pensamento de Flaster). Em funcio da impossbilidade mesma, 4 épokhe; a suspensio da crenga, implica uma aposa inte Teetsal de alisimo risen (nos senticos academico, pistemoligic © politico). A histria pestal do fisofo ajuda a exphear por que cle povde © quis fazer esta posta Fluser comecara a estudar filosofia em Praga, na Universidade Caroling. Su formacaofloxdica prosseguiy por aq tingida pela cicunstinca brasileira. Milton Vargas espeeula que talver 0 set meade tenha sido Ortega ¥ Gasset, ela elegincia do texto © embasrmente germinico do pensamento. Eu © aproximaria tambsm, embora 3 wa reveia, de Walter Benjamin, pela rara com binacio, que ambos reliram, de gentler e ironia. Como Kafka Fluser eserevin em alemio ~ naquele alemio peculiar de Praga. No Brasil, paso a redigt 2 maior parte dos seus trabalhos a0 mesmo tempo nas eias Kgs: em alemio © cm portugues. Fenomenologta ‘do brasiliro: em busca de um novo homem foi exito em porte |gues ccm alemio, mas poblicado primeiro em alemao, por Bollmann Verlag, em 1994, 3 0 teslo: Brasilien oder die Suche nach dem neuen Menschen: Fir eine Phinomenologie der Unterentwicklung (irs, o + procura dem novo hiomem: por uma Fenomenotogia fo subdesensolsment). ‘Aqui no Beas ele “olhava” para Praga, com olhos de sudade dcida. Quando “woltou” para a Europa, forgouse a “olhar™ fe Is para o Brasil, com os mesos olbos: de saudade deida. Pa laser, tudo o que brotva das euas torts de Praga, is margens do seu rio torte indicia a secular procura de Deus através do Dabo De longe, no Brat, va su cidade natal vbrando entre dois pos fo enorme castlo, com a catedral gotica ¢ 4 torre barroca, ©-0 faglomerado de torres da "Velha Cidade”, erguidar como Tancas de lam exército contra 0 eéu. A Ponte de Carlos, com at suas eas, seria o elo impossvel, mas realizado, “ente easelo igtea, ene monte ¢ ale, entre o tet e 0 burgués,entee a soberba e & humil dade, entre a ua dos alguimistas © a universidade, ene 0 céu e 4 terra, entre 0 Castelo € aldeia de Katka (conforme escreveu nO Bsudo de Sio Paul, em 8 de outubro de 1961). Praga € uma ‘dade situada na frontera, em todos os sentidor do termo. Na fronteira entre o gotico e o barraco. Na frontcra entre os lems, (8 tchecos ¢ os jueus. Na fronteira entre a fée a demonologa. Por iso, consegue a inimaginvel fusio estética de dois esprit alos, como na catedral gotea de torre barroca ‘Ora, qualquer semelhanca com o Brasil, com as nossas fasdes estccas de esprites alheios, nio seri mera coineidénci, como o filsofo demonstra 20 longo do seu livo. A principal fro teira, para Flusser, € aguela que divide os espritos em intelectuais fe medittvos foreandows 4 coexisir com igual fore, © que prodiir Certo tipo de cinismo, woltade tanto contra intlecto quanto com: tra infuigso, A acusaco corrente de que 0 povo de Praga coopers ‘com qualquer sntema de governo, 0 filduafo responde: "€ tima ‘cooperacio oportnins, roma, cinia, Feta com tama reserva mental ‘nunca percebida pelo potentado”. O mesmo po de cooperacio, ‘ou de relagio, que te pode encontrar tanto no guarda quanto no ‘amponés do conto “Diante da le, de Kafka. Cooperacao, ou re- lacio, semelhantes, Fhaser encontea, para a nos surpresa, no hhomem braileio, Fle econhece, no brasileiro, a mesma especie de “reverva mental”, ox, melhor dizendo, de reserva de cardter~ ainda a salvo do poder c dos aparethor do poder. Como ado conhecemos Flusser? ‘Our come o esquecemos? ‘Vilém Flute lecionou Filosofia, butcando, como um ‘Geof, debater com os seus pares, scm amenizarertcas ~ mas em tum dos periodos mais excuros da histria do. Brasil, Sem civida partcipon de brigas intestinas,revesdae de ideologia, as inst {Ges em que trabalhou. A fata de hires, bem representad pelos Seulos esctros do General Presidente que asinow 0 Ato Insitictoral 10 1° 5 em 1968, nio facitava em nada debate, forgando a ae en xergar 0 pais em no miximo dois tons Ax condigbes micropoliticas ‘de uma época brutalmente infelir da historia braseta, cm termos também macroscdpicon, nio so deceeto irtelevantes para com Preender o “esquecimento", agora entre aspas, de uma obra, Thclusive porque feta, de modo mltiplo e contraditério, © pensamento em sh 'No entanto, dos muitos artigos e livros de Flusser que Jemos, ndo encontramos vestigio daguelas brigasintestinas, O iéso- {fo mip nomeia adversitios (diz que o faria apenas se provacado} ‘Acompanha, neste sentido, a postura de Gilles Delewe, para quem fserever € ui gesto abvolutamente postivo: dizer 0 que se admira fe no combater 0 que se detesta.Bserever para denunciar seria 0 Iais baixo nivel da esrta. Encontramos, eno, mais uma juss tiva, esta de ordem moral, para o metodo fenomenologico e a Sua suspensdo da erenca. Suspender 0 juizo, aqui compreendido como ‘outra maneira de dizer julgamento e crenga, implica resis & feifcagio dos fendmenos,extensvamente, a reileacio do Outro € do Real, para pensar va frente”. Penear, como artista, nSo 0 que aconteceu (segundo tal ou qual perspectiva, necessariamente es ireits), mas o que teria acontecido © 0 nowt discuso nio sabe ( orga por alo saber). (0 filésofo x sentia lancado nas praiasbrasileras como res derelict, no naulrigio de wm mundo. A despeito do nauttigio. fo por causa dele, 0 Bra The reserva a esperanca de uma ci Hiatho nova, transclturl, posvelmente livre dos mitos da raga € dda nacio. Fer grandes amigos por agul, mas foi hostizado pela Gitadura militar e, 30 mesmo tempo, patruthado pela esquerda, ‘om dlifeuldade de entender seu pensamento, io fora dos cliches igentes. Em 1990, cxcrevia, 0'0 Estado de Sio Paulo: “Nac ea Prag ¢ mews antepasados parece er habitado a Gilad Dorada por mais de tl anos. Sou jd e a sentenca “o ano vndoure em eral” acompanhou toda a minha mo Cidade Some abrigato por, plo menos, quato Tinga Seteflewe no eu tabuho ade e retrain constantemente sume das raves pele quis ne interew pelo fendmenos da Comunicaco humana, Refit sobre ov bison que separam 0 homens es ponte que atravest a abies, porque Huta fu proprio, por sia deer, De modo que a tansendéncia das ‘lias ¢ minha vivénca concrets, meu tablho ctidiano € @ ua condicio de imigrante = na Inglaterra, no Brasil ra Franga ~ lewwo a pensar o estatuto do imigrante no mundo, neste século. Entende que imigrante € nio 16.0 intelecial, que migra de seminario em seminavio, mas também 0 refugiado, 0 Magelado, 0 operiio estrangeiro. Nio se considera marginal nem refugo, mas, antes, 8 vanguarda da humanidade. Porque migrar seria stuacio criatva (pela erse de que parte e pela forma que inaugura), da qual fariam parte “os vlemamitas na California, os turcos na Aleman, os palestinos nos emirados, os nordestinon em Sio Paulo, os cientisas poloneses em Hania. Todas os imigrantes seriam “seres tomados de verigem, assumindo, com ou sem cons: Ciencia, 4 angio precipua de promover a desconfianga na patria Esta desconfianca tia como radicslmente necessri, porgue todas 1 pstrias se equialems todas limitam, O patriotism tela nelsto, porque assume € glorifica 0s fos impostos, menosprezando os fos cfiados". Fon imponts seriam aqueles que prendem a coiss, que Saeraliam as coisas. Fios eiados seriam aqueles que prendem & pestoas. Nio hi como nio asumir or fis imposts, mas hs como ‘io glorifies. “Aapren que, pare poder cir fos interes, € preciso sum os Bor mpostn No devo reprimir minha condi de praguene. de judev, de alemio. de anglosaxio, de paulistano, {erobionente, mar devo atti para poder neg eleva to nivel dat minha lagen interes Deo poe oferece or meus oso nis condigde, fim de set por eles alterado © 2 fim de poder altesion. ares dil «2 ser empreendida “empre de nov, Fis a rato pela ql no pos tr soni” Flaster nfo pode ser sionista porque nio pode ser patrioa. Entende que: “mistério mais profindo que 0 da patria ‘eogrifica € 0 que cerca o outro. A patria do apittida € 0 outro Pausotimo, para ele, ¢ sintoma de enfermidade extética, na med dda em que transforma o habito ~ "a camada de algodio que enco- bre os fendmenos ¢ ameniza as rebarbas"~ em algo misteoso, isto €, em algo a ser serahrado,glorfcado, em sim, feichirado, O patriou sempre corre 0 risco de cometer exime ético-poitce a0 1” ‘antificar 0 costume. O contume mistieado encobre a feiira, a rmisria, a doenga da nagio. Sempre que voliza a Sio Paulo de wena gem, chocavase com as eriangas famintas nas Faves © nas esquir nas, mas depots se horrorizava porque, justamente, como qualquer brasileiro, pereebiase ae acostumando com o que Ma" "0 conte patrioizado € crime éicorpliic, ou aja, um peeado que o pati ‘timo glonfica. Confundir morada com patra, costume com mis Fio, es © que me parece sero nileo do patriotismo" (estas palatas {ora publicadas por O Endo de Sio Paulo em devembro de 1991, = Togo’ apés a sua mort) (0 elogio do imigrante, em tiki andlise, do ndmade € do vajane, se relaciona com o elogi, anilogo, da traducio:“sin- terme abrigado por, pelo menos, quatro linguas, isto se reflete no ‘meu trabalho: tradwzo etraduro constantemente”. Ete elogio, fentretanto,nio € simples. A traducio, para ele, € menos wma tare ‘© mais sua prépria condicio exstencal, 0 que o far aproximar 0 ‘estatuto da traducio da definicio ontoldgiea da morte. A. morte implica uma situacio de fronteira: pode ser aleancada, tltrpasiada. Devido a este limite, ¢ tema da morte tende 2 ser Colorado de lado pela lofi, ow ao menos pela Hilosolia anglo- fxonica. Fuser ja agers (em O Estado de Sio Paulo, de 26 de ‘maio de 1962), no entant, situacio ontologicamente semelhante 3 morte © que pode ser perfeitamenteultrapassad, into ¢, apreendt dds © compreendida: a traduco, “Quando wazo do portage par o inglés, iterrompo olen tamenteo fax do incecto, x que corto oo da eas qe fgovermam lingua portgoem. A solencia deste proceso € Simirelment epelhada nor voesbuloralemies e tehecos que Sigiicam "radu, Ubersetren = "sala para outa marge ‘préklidat«recompor uma pia de aa ue ais Replo poranto a pergunta © que sono arto da radar? Sou algo feo pense de um Ea parm Onto So porse mum Fu novo. Propriamente dito, no sou e nao ou ands stow ariqiland-me par eanaigurame. Banos fem face de uma miniauea da itagem da morte. Enuetnt, fsa miniatra tem a vantgem de nada ter de misico, de Inwupervel « de tncompatel. Na taduch, aparenement, & cexisténca superao nada” as [A sequir pst consida no termo alemo, a radus cio seria, popient, ao par 2 ot alge, 0 et Mopar, entetanto, 4 pia contida no term tcheco, adc Caulcria a uma feeonsireqso de sentido, como contequéncia pone du ineviivel desconstugao, wale diter, do desmorons- frento do sentido. Somando-o» doi sentidor« acrescentandose C uocadith taliano,taduttor! trxditor, pademos perceber a farefa da traduclo, mai um ves, am eabalho para Sno, Herder {fie mesmo teadutor de espeito) Jf assnalnes que “ninguém pensa lem do idioms", fazendo eco a Witigenstein € Tess Iniciaie de. Flusser. A. simples exintencia da palavra Weltanchauung, por exemplo, de io diel tadugio nos ido twas rominicon, termina por impor rimo nico a0 pensamento Momio. Em decorrencia, taduct seta tnposivel, ot seria por Sivel apenas par 0 peronagem milco que carrogs a pedra mon tana acim, Bas Palo Rona Co ngato que fundou a Asoc fio Brera de Traducore, » Abra) Tembrava, também, que Srobjetvo de toda ate € igo impose “0 posta exprime © inexprimel o pintor reprodus 0 ireproducvel,o exatudio fina © infixivel, Nao € surpreendente, pois, que 0 taditor se tpenhe em rads o intradusive ‘Aprofundando sua condigio de “hontcra" (ow de “eceano", ene os dom continentes existencis qve 0 formaram) em 1969 Vilem Flaser esceveu um rascunho avobiograico ~ publicado em portugués, pelas Edigdes Loyola, em 1976, € Fepublicado em slemi, por European Photography: Neste (exo Fser afm: "ver &ssuminae pars alterarsc”~ ver € presi Inirse, osomente, preuno, em permanente questionarse ha Giregio da mudanga. da taneformacso. “A pergunta “quem vou" & nova toda ver que 3 formula, € ecto de pvt da ua espona € verpre pose radi 30 Ser toma, Formulae, pa pergunta "quem 3042" como fowe pla primera ve, pra (qh?) poder decidir" Fluser pode entender que a tarefapergunta renove se 8 cada momento, A questio "wer bin ici" ~ "quem sou eu”, ou *o que é eu2"~ se pe antes como decisio, 2 cada instante dolorost ce radical, Flho de Praga, intelectual judeu, Fusser expevimentou. 4 infincia € a juventude entre as duas grandes guersas. Sobrevivew 4 bestanasata, masse mundo, sas coisas, seis wares bisicos © “os Seus" no sentido metonimico mais forte do pronome, foram devo. rados. Na Taga para a Inglaterra e para o Bras precsou devorar © gue pastou a querer der “Bras A circunstncla na qual ele fo lancado. Chegando x0 pais, sentinse, na verdade, em algum lugar entre 0s continents, fobre o oceano cercado por horizontes indeterminados. Suu faa original se reconstitfa como falha, na procura de um chio que Servsse de antepato minimo 3s metiforas do sentido (no 4 toa 20 Tivo que atsinaria como sia autobiograia intelectual defini di ria, mais tarde, 0 iulo de Bodenlos, sto €, sem chio, em funda mento, ou: live de fundamentos}. No final da Segunda Guerra, impossbiltado de retornar a Praga (ou preferindo nio retornar a Praga), espan- touse com o misticismo brasileiro, que The pareceu caricatara do seu proprio misticismo. A verborragta grandilogientee irespon sivel (die unverantwordiche Crofrednere), que nos caracteriza- ria, serviadhe de incomodo espelho. Ae mesmo tempo, a situagio fo Brasil sluminava a reverto da medalha: a exterlidade do formalismo, O positivismo, marxismo, 4 excolistica, 0 academicixmo © 0 preciso “3 bratileira”) que marearam os nos 40 e 0 inicio dos anos 50, comecavam a the soar ridiulos ‘as aio 96; também se mostravam advertencias graves. Por le ts suas quests Hlos6ficas do serio ~ por entender a vida como fuma decisho Hlosifica =, admitia ter considerado a possibilidade o suicidio durante anos a fo, enquanto lia e absorvia Katka, Camus © 4 arte do absurdo, Fc aque Vilém Flasser tenha morrido exatamente num acidente de lutomével, como Camus, nas cercanias da sua (€ de Kafka) cid de natal, oto, dramaticamente cures, Quando comegava a entender o ultimo Husser, es ‘reveu 0s seus prmeios ios, Lingua e realidade eA historia do ‘dinbo, Emergia o cerne de toda a sia Hlosofia, condensada no te- tho abaixo, que precisamos spresentar nas duaslinguas que mais 0 informaram formaram: 1s DerUimkrexmeineDentensbepann |] Os contornos do meu futuro sich abruzeichnen; das zenteale |] caminho comegaam 2 deinen, Problem sole de Sprache werden. |] o problema cent sera lingua, Vor llem, natrlch, wei ich die |] Em primeiro lugar, obsiament Sprache leh iheieSchinen, |] porque amo a lingua, Amo sua item Reicha, irGeheimnivind | elera, ua riquera seu miseio © itren Charme. Ichbin nurwirtich, |] seu encanta. $6 sou. verda swemichsprecheschrabe lee,oder |] deiramente quando flo, exrevo, wenn sie in mie flastert um |] cio ou quando ea samure dence Rigeprochen mivenden Aberauch, |] de mim, querendo ser arculada velitesmbolscheFornt Wohnort || Mas sambem porque ela ¢ forma des Seine, welcher verlt und || simbaic, morada do Ser que vcs ill Weg. dermich nitanderen || ¢ revel, canal pelo qual me Igo verbindet Feld der Unstebhenbet || sor outros campo de imortalidade ere perennius Material und || sere perennius, materia ¢ InsrumentderKans.[.JSeistnein || instrumento de are. (1 Ele & Enpgementininrreaiserech mich, || men engapmento, nela me eel lund durch se glee chin Richtung || e por ela desizo ram a0 xen TirestloronteundinresFundament, || horizonte © fundamento, 0 rn SilledesUnsagharen Seitieine || silncio do inariculzvel. Fla & Formder Regist Und-viellcht |} minha forma de religosdade.€, auch ie Form, durch dieich mich || quich também forma pela qual vesere the perce [No lio A hitSre do diabo, laser fae uma longa © ppenosa meditacio sobre a morte — porque a conversa fad sobre a ‘morte jé the parecia a maxima fasidade a ser desta. Semelhan- te conversa fada faz parte das pseudocomunicagées, que amalge- ‘mam 35 soliddes individuals em soliddescoletias, sem se admitirem fenquanto tal Em entrevista, publicada no. sie “Vilém Fluser no Brasil” (wane ftopli com, faster = tats da mais importante lomte de informagées ¢ extidon sobre @ filsofo no Brasil, manta pelo pesquisador da USP, Ricardo Mendes, rvaizando com centenas de hhomepages, dedicadas a Fhnser, que cxistem no mundo toda), o ctico de cinema J. C. Ismael Ihe pergunta 0 que tem pretendido 30 longo da vida. resposta combina a fenomenologia com 4 res- ponsabiidade. pcre ena avn Mo pe sao ml now cnvontraon Sem ter sand ce ‘Shee menido por ipacénl inl una vegunda cpm oa Sul procuro, ma media ar mina forear extemament lin {ids init nasties no seta de un saneanento Coma es dacs Em extras pals, ble emna™ [A partir desta resposta, Ismael coment, com iromia rmesclada de admiragio: “o senhor vem sendo sistematicamente fscusado de 6timo poeta, Agora vejo que or seus acusadores tem Tazio.” A critica a que Ismael se refere costuma singie todos 08 partidrios do pensamento fenomenolégico, tingindo, em particn: Tar, aqueles que de fato constroem ‘um pensamento original, como Fluset. Dizse: "como filsofo, © senhor € um stimo poeta’. A er tic, que se pretendia ofensiva, tomase, no entanto, indus, quam ddo'o pensador a assume como clogio, sto €, como indicacho de que ‘sua meta estd sendo stings ‘A aproximacio da filosofia, e em particular da fenomenologia, com a are, com 4 poesia, & absolutamente pert rente, pelo menor, deude Nietzsche, ma ¥ez que ambos 0s campos fcabam realizando tare muito semelhantes, a0 perspectvizar 0 Teal ~ a0 forgar 0 olkar a ver 6 que nio via. O problema da sua filosofia da linguagem termina por colocarse, de outra parte, come (problema da arte. A tensio cate Kafka © Rilke (dois gigantes praguenses) ajudavvo a representar 0 dilema: num certo wntide fotos, em outta iemdos isepardvels, bem representavam os nivis {a linguagem = o primero, seu carter acétco, punficador, 0 9 igundo, sou carter inebriante, orgasico, No entanto, seriam, no fundo, a mesma belers: "a da poesia enquanto boca do inefivel tem Fuser Tembrava 0 que havia aprendido com Husser, no outro continente: que a vida nio € deatobera: que a vida ©. Sinngeben ~ isto €, doacio de significado. Que a vida € uma Feverente espantada nomeacio dos fendmenos. O cariter relige ‘so dasa “floolia sem religio” pode se entender 4 parir deste termo: Sinngeben. Husserl ja Ihe diners que a fenomenologia se {queria um tipo nove de filorofia transcendental, na esteira da ¥igo- Tosa religiosidade kantiana, Era possivel admithla como um fneocartesanismo, porque radicahea 0 método muito conhecido, de w foutra parte asta extranho, da divda: “tendo apenas como objetivo © conhecimento absoluto, interdiese de admitir como exstente 0 {que nio ests inteiramente a0 abrigo de qualquer possbiidade de ser posto em dida™ ‘Em primino har, quem quer verdadsramente torarse sof deverd “pelo erenor ma ver nana id’ rane par [pp a paride stent dvr toda ena di movimento de suspensio da crenca, do que o movimento fenomenologico por excelénea: a sua epokheé brasileira. Assim, sh rina viriot setores da cena brasileira ~ “imigeagio", *naturesa" “defasagem’, “aienacio", "miseria", "cultura", "ngua” ~, para, 2 guia de conchado, esbocarimultincos“eiagnico”e “prognnico™ No ens, tenta uma deci fenomenoligica de wm Bras vido “para sent de mapa, por analog e conta, a Uma humanidade Eo perdga quanto € 0 proprio ens To capitulo sobre a “migracio" deco para circus crevero seu pont de viva, reconhece que o ambiente rasleo se tferece ao imigrante de forma anbialene:€ um ambiente de fc ppenetagio, mas de diel itegraio. Em outos temmon: € fil ferse no Brasil enquantoInigrate, ¢ desesperadaments die imegrarsenele. Para capac superar a ambialencia, 0 migrante deve liberarse dos precincts que encobrem a reaade, do tipo ‘fats nov” toedade aber Spensor i preconcelor, © Bra aparece na seguinte forma 0 primero comtato se com una mates urbana heterogénes ‘equiae amor ¥verdade que amass fla una nia lingua (0 ports) esto parece davtheesutara, Mas o vido atento ‘Bescobre qi ea ing no inraentrtaa coma no ea dae ocedades europe), que forma Um tet ean a mam, ‘nal experano ow Koine, debs do qual pam snsimerat ata ngs que se eetlten no pio porto de sas ‘Ao se “integrar" na massa, o imigrante pode percebé la ela mesma devenraizada, porque perdeu suas estruturas acaicas, adaptive 4 vida urbana, sem cela novas, a ndo sera estrutura dt miquina © @ ritmo do aparelho. O brasieco nao & “indigena, mas Antes, curopeu decadente, Or brasileiros “no tomaram poste nem ‘da sua ter nem de sl mesmos, mas fltsam, tomados de wm 3t0r- ‘doamento secular chamado saudade, nas sae imensa panics, quis destrogos nas ondas". Mas, a0 olhar 0 caboclo nacional, acocorado rho mato ou na esquina da cidade grande, sofrendo de todas as oenga imaginiveis somadas A maior apatia, Fuster surpreendese reconhecendow capar de ressténcia, inteligéncia e ionia, constitu indo imprevita fonte de uma auténtica cultara do faruro. Sua proveibial paciéncia sera igualmente enganadora, podendo explo- {ir repentinamente em olencia individual ecole, para soucgar ‘gualmente de repente. A sia aparente sibmissio exconde, na ver dade, tm oxgulho e uma dignidadetais que se mostram inaceniveis 41 um “civiizado". © imigrante entio, se percebe ele mesmo inca- paz de compreender "esta gente”, precisndo recorter 2 fontes a2 Iersvias para captar algo dessa mentalidade subierrinea (nomes: ddamente, 4 Iteratura de Guimaries Rosa e Euclides da Cunha) 'A naturezs braneira, cantada em roma e ers0 para fo tursta sedento de exotismos, revelase, para o ctrangeiro que se fecide a abrir os olhos, nacrediavelmente mondtone: "o Tunds ‘mental alleamento que o bralero sente. pela naturera faz com aque a procure derrubar (em verde saientétaarificiamente, como faz o europen para 0 deleite do turita)” Quando o tursta aban ‘dons as prise pars penctraro interior, 4 coisa toda “se Lorna muito tmais terrvel™ paitgem inarculada, raseira e desolada, habitada Priortariamente por meetos. As excecdes na pasager sio acidentes figantescr ioladon, como a cachocira das Sete Quedas, “que con- finuam tediosos devdo 0 gigantismo € tolamento” (0 Ieitor devas linhas que Ihe tentam apresentar 0 pensamento de Vilém Fluser, provavelmente brasileiro nato. pode fe expantar ou se indignat,simplesmente porque nio “enxerga" nenhum aspecto de descricio to erie: @ monotonia, somada 20 habit, fa desaparecer a paisagem por ineto, extandownon apenas on versos bucolicorfanistas, porque, afinal, "os nossos prados tém fais flores" ~ ainda que haja tao poucos prados ¢ 130 poucss flores, ‘no Bras. Fhser afirma, de mancira irnica c exagerada (desde 0 principio nos advertia que o exagero fazia part constitutes do seu Inétodo), que o brasileira nio tvencia sua naturera enquanto palsagem: ignora, mesmo cult, os nomes das plantas e dos anima, Indo te increta pelo teu ritmo bioligico, nio colecona flores ot borboletae, no faz excundes excolares na “matures”, em suma, 240 passcia, Porque 0 amor plas palmeirs © pelos bis, pelos prados peli Mors, em geal pelo berso erpléndido, nao pana de fbteraura (escendente rio e def de um omantm Frances que, ele propa, pose), de oma ateratara que for pare da ieologa burguem © amex tansformarse emt chatvinismo (a parte paiagiviea do chawniamo ae cham ‘imamente,"opiaio"). Que se wat de beats, pron fa werdsdciaIteratre. Na aborn din wene em sequer co templaa ature enquanto puner (por exemplo Machado fe Ai, con romances se passa no Rio, ner segue conten i omar 2 nfo ar para tranformio em paleo de una mote). [A aparente grande excegz, Guimaries Ron, prov tse ag as defends, No canta ele natreraenquante pisgem, mat deserese plo contrite como homemenatrera ve fndem eth toco mistic, de maneira que plantas e amas pasar ase !nwopomotos.e homens pss a ser animals plantas No sew esforco de suspender os juios exitentes sor bre accra brasil, Fuser enxerga io a natutera dadivoss, gene rosa, que nos prové como cornucopia magica desde at palinrss de Pero Var de Caminka, mas sim uma natufera eninentemente per fida, que s¢ opie 30 homem tanto mais quanto este a enfremte apenas com palawras ¢ preconcetos, “Plantand di dase o esexiba; 4e fato, "da", mas no main do que as dust primeiras colheitas, porque 0 solo se esgota com rapider, O exemplo extremo encontra Sena exuberincia amazdnica, que exconde, na sombra, solo pauper fimo: "s aumosfera de estufa ea quantidade disponivel de agua possibiltain o crescimento e o desenvolvimento de irvores gigantes: 35 das madeiras mais nobres que foram a floresa amarénics, mas ‘io possibiltam praticamente outra flora, ¢ a capa formads pela copa dos gigantes esconde o reo de sombra da morte”. Nio € 0 Tinico exemplo: vasas reyides do Nordestesustentam dezenas de rilhdes de pessoas nos anos de chuva, sujeitandoy § condicio de rmendigos desesperados nos anos de seca, Os ros slinos tem a falta de vergonha de correrem todos em diego “eontrara", do oceano. para o-continente, ni formando, portato, atria de transporte, como no resto do mundo, mas obsiculos 40 transporte ‘io precsamos, € claro, concordar com Vik Flue, Profeasores que womos, de Geogrfia ou de Literatura, levantarie- ‘mos com facidade ene argumentos contra os argumenton do flo Sofo. Entretant, o seu texto nio pede exatamente umn "ebate™ justo porque nio se pretend “objetno" ele quer um dilogo, wma onversaclo, o que outra cols, Entre o céu ea texra, entre @ certo € 0 ertado, entre 0 protagonists © o antagonist, entre @ brasileiro e o estangeiro “abusado",existem tantas outras prspect vas. Uma desss perspectivas € a que ele nos oferece, pata acon ppanharmos com a testa franvida, mas, de preferenca, sem reagir fe imediato, de batepronto. Vé 0 Brasil, co brasileiro, como um ‘europeu que vveu entre nds por mais de 30 anos, © portanto nie € curopen, ¢ como um brasleito que nio marcea nem morrew no Brasil, © portanto nio ¢ brasileira, Exa condicio ambivslente, somada 3 condicio naturalmente ambivalent de todo Hato, dei 4 ‘0 num higar rare, de onde pode obserar 0 que nds outros no ‘beervariamos. Por iso, pode astamir um ponte de vista liico, recor nhecendo no brasileira verdadeiro um homem ineapa de odiar € iinvejar 0 outro, “porque toda a sia capacidade para.o ddio, toda a sa energia para vitor e toda diregio da sua agio é mobiliada ‘contra a natirens”O europe, em conteapartda, ie em soceda: {de que jf domina, defniamente, natuteza. Por so, pode as mir a attade extetica do turista, e por isto dispoe de enorme quan fidade de energianio gusta, de ddio nio consumido, de vontade de ‘gir insatfeta~ edge tudo ito contra o outro homem. “no signin omoogicamente que 0 outro homem pasa a er ‘objeto, vesiéncn, problema, e substi onologicamente ma tates ened ransormda etdeamente em abr, Por fati surg 1 ccs humanas que se tomam sempre mak ‘rans salzam com a ici da natrera, Porto cresce 2 ‘ieuldade eo bomen reconhecerse no outa ranaformad tem ajeto onheci emaniplie, 5 ghereconhementoexige ‘descbera do eit ato ewofredor no our, Uma comeqien ‘Gu dso €4 crescent wlan humana (porque 3 verdadeea “ommuncach €0dlogo do reconheciment, «mio 0 discurso ‘enliceeantopoligic sre o“homem")- Outraconseqien- {da €xtendéncn do homem de omarse mesmo como obeto fe desateclsifcrse: © braileiro, na sua perspectiva, ainda teria uma chance’, em funcao de sua amabiidade especitiea (que, no et tanto, ¢ ainda bem, alo corresponde a um carater de “polvanna") Florter nos vé como solidarios, si, mas de uma solidariedade. digamos. poliicamente incorrets. A'solidaiedade brasileira no implica, responsabilidade por grupos 08 “pobres", os “ieinamitas", os "aposentades” -, porque nio se tem contato cxistencial com grupos fais que, na verdade, correspondem a formas de objetisizacio do outto, Assumes responsabilidade por krupos, mais ou menos sincera, “porque se eré saber como ‘manipulilos,e porque se cré saber que estio sendo manipulados {de forma errada”, Assimie responsabildade por geupos seria con- twario a esséncia braicira, onde cada qual € responsével apenas por si mesmo, nunea pelos outros 35 A perspectiva flusseriana, no entanto, nio tenta ‘minimisar a Glia de responsabilidade que reina oa sociedade bra. Siler, como © provam 0 vandalsmo ea inacredtivel comscigneia “trangia” perante as injusigas que grim nas cakadas. Sev olhar mais complexo. Grosso modo, asittase com 0 europe, que tem responsabildade "demals, ea partir deste excesso pariu is revo (bes, a8 idcologias totltirias © as guerra, chamando 0 dio de “poltzagio das massas, assim como estranha o brasileiro, que tem responabilidade "de menos", 0 que promove e mantem injustigas tereveis ~ mas admite determinada esperancs ‘Ema esperanca dif. Vlem Fuser sv do Brasil, em 1973, decero por viras ages, Mas assume expictamente, em diver- sos momentos, que via aquela esperanca se encolher no horizonte do cerrado, ern funcio da ideologia do progresso que se disemine- a A direia, principalmente, nos falsos estetores da ditadura mily tar, mas também 3 eaquerda, quer na desasradaluta armada, quer ro desastre epistemologico © pedagigico que asaltva a universe es, mesclando arvogincia norteamencana com estetzagao europeia, Ea fenomenologia do. brasileira foi publicads. na ‘Alemanha em 1994, mas escrita muito antes. Mantém 0 olhar sobre fs anos 70 para “wis, mas de maneira tio abrangente especifiea Go mesmo tempo) que continua espantando 0 brasileiro nato, hnabituado a sever sem se alhar. No penlimo capitulo do seu leo, Fluser tata da lingua brasileira, rellzando in totum ab imo pectore a sua perspectia, simultneamente Aloséfea e religions, Podemos relaconar ete capitulo com © primeico Toro {que publicou, em portugués ~ chamavase Lingus ¢ realidade, In uenciow decisivamente © seu amigo, Jolo Guimaries Rosa, 20 cestudar 2 estrutura de todas as linguas conhecidas pelo metodo fenomenolégico. Combinava assim, de maneira tensa ¢ arrscada, Husser| com Witgenstein, gerando um resultado tinico, unica: mente fluscriano, que ainda precisa ser resgatado, Quatro Tinguas informavam 0 pensamento do flosfo ~ 0 inglés, alemio. o portage: {0 francés, presumimes-, porque ele as dominara ¢ era dominado por els. Para ele, quem fla vas linguas vive em virioe mindos, 0 ‘mundo mesmo se modifica quando muda a Kings Consdera a telacio ‘entre lingua e pensamento tio fore “que tem poveo sentido querer tstinguirse entre ambos”. Duvida que exita pensar em lingua acte- fia que pens, no findo, no pasa de un falar baixo. Por iso, pensar 2 ingua implica a sua forma de relgiosidade. 26 Falando baisinho, como quem tera, reconhece no portugués o eixo da chamada mentalidade latina, que @ clara Gistint em razdo deta da nua sintaxe, da manipulagio espeettica {que far do substantive © do verbo. Mas observa que a clareza © a ‘istingao Intinas suo “compradas” 20 preco da pouea profundidade Conseguida por outras linguas indogermanieas, coma 0 gteKo © & Slemao, pelt colagem de substantivor. O- portugues, enlzo, revela fama Iogiea siniearelatvamente pobre, mas que, paradoxalmen- te, em fungio mesma da son pobrera, pide se deixar penetrar por ‘lementor de linguasindigenss, como o tupi, € de Hnguas africa: fas, como o ban, que nao tertam em prinelpio 0 menor parentes fo estrutural com 0 portugues, de ver que se revelam aglutinantes 4 rigor nio formam senteneas, mas blocos de palavrasaglutinadas por sifios, prefixor ¢ nfixos. A partir dat a lingua portuguesa fe carster areico, lara mas pobre, pobre mas enriquecida por hherangas indigenas e afticanas, se ve dialogando @ forca com ‘ondas sucessvar de imigrantes, de terreno linguistico © mais ‘ariado possvel - por exemplo, 0 polonés, o irabe, 0 japonés, 0 ilemio, 0 italiano, 0 fiche. Asim, nio ha lingua brasileira em fentido extrito: ha varias Hnguas, poranto varios mundos. Logo, fer brasileiro nio pode mesmo ter estado, mas tiosomente pro Cesso: o brasileiro deve assumir com carinho a sensacio. de Irrealidade que o toma, pois pode sirgr aqui wm novo homem (2 despeita das indicacdes em contri). ‘Um novo homem capar de romper por dentro, pela lingua, a reificacio, 2 objetvacio e 4 alienagio. Um novo homem com a chance, propriamente lingitica, portanto existencial, de Superar a discusividade linear indogerminica e semi, reconhe Cendose no mais unidimensional, justo porque vive para além da historicidade do discurso que formos o Ocidente judaleo-cristio, ou seja, justo porque se pode admitir vvendo na péshistoria (todo 0 Coniravio da balela pdemaderna, devese alert). Esta busca de um nov homem, desvelando a exséncia bratilea no brasileiro, nio & todavia messiniea, Embora o Brasil 9 brasileio nio representem 2 nia esperanca da humanidade (considerandose a stuacao ata ‘do pais, "seria 0 caso de desesperarmes todos", nos alerta com le ‘vertda ionia), mostrese um don poucos lugares em que ainda se pode © se povders afimmar a dignidade perante 0 absutdo que € 0 undo, Or pafses histricos sio vtimas de ideologia que comeca @ evelarse delino, ameacando ne apenas a liberdade como ainda & 7 cxiténcia humana. No Brasil a deologia progresiaa (hoje dir ‘mos: globalizada..) também opera, e opera com maior desenvol ' porque ainda no chegamos perto do nivel que torna 0 delirio cvidente. Mas, a despeito disso, a ideologia nos encobse apenas Superfcialmence, deixando espaco para ser rompida: pela lingua, pelo jogo assumido como ta, enfim, pela fiosofia.O novo homem ‘Em Bomo fadens, sim, mas consciemte de que jogs e de que com cle jogam 0 sea homo ludens extd sempre 2 prefer 3 extraté fia “ués". Na esuarégia um, jogase para ganhar, atracando derrot €.0 jogo do norteamericano e, ainda, de algum europe. Na estra ‘égja doss, jogase para ndo perder, diminuindo os ricos tanto de derrota quanto de vitria:€0 jogo dos excltdos e, jé, de algum ccuropes, Na estratégia ts, no entanto,jogese para mudar o jogo. ‘Ora, nas duas primeiras estatégias, 0 engajado se Jintegra tragicamente 20 jogo, que pass a ser todo © univers no qual existe; em conieqiéncia, nfo Consegue mais ver este universo como jogo. Na terceiraextratéia, todavia, 0 jogo nio pasa de ele- ‘mento do universo, eo engajad se encontr “acima do jogo". Fuser 46 alguns exerplos “Se ciéni for jogo 0 ténic we engaja nel pela erates un ou dois, ecient pela exrateia es (procs mda ogo thera nas repre intone ou eliminar elemento), S i tu for jogo, 0 patcipante da convenacao ve eng neta pela ‘sata ou dese 0 poeta pla enrages (pla raze Indicada). © mesmo pode ser anim forma; quem aplca ‘satya um ou dos equecen qu ex joqand (por exempo \eenco participant de conneracio, nda pic, general «lide estudanl exqueceram que esti empenhados em jog). ‘Quem aplica estatépa ués sempre conserva dintinea su ente pata darse conta doaipetolidico da ua atnidade (por ‘exemplo centsta eirico, poeta Blosofo efatursiogo) Tam: ‘em a biéria pode ser considera jogo. Sob tal enfoque, ‘quem pensahistorcamenteesqueced que ext jogando. E ‘quem aplicaeswatégia ues & historia no pens historiamen tes por enar dvancado.” (© nove homem se diverte, muito seriamente, com @ fendmeno que representa e que a sua fala apresent, abdicando de representarse qualquer tipo de mimeno, vale dizer, abdicando de fe apresentar como qualquer exsencia que; de toda forma, nem ha {© novo homem, quem dit: pode sero leitor desta palavas, melhor ainda, 0 letor da Fenomenologia do brasitro. 29 Em busca de um novo homem (© homem é um ente essencialmente perdido e, quando se di conta, procura encontrar, Esta sentenga pode ser lida em virios ives, por exem- plo, no nivel religioto ou no nivel de um bandeirante no serio, € feu sentido € sempre ere! 8 decsio de tomar caminko (ou abrir ‘aminho) depende sempre de um mapa da situacio na qual 0 hhomem se encontra, Isto significa que toda decisio depende nio apenas da posicio das coisas, mar também da imagem que fazemos 4a posico’ das coisas (provavelmente isto tem muito a ver com o problema da liberdade). Pois esa imagem seja ela mais ou menos fil, depende sempre de um ponto de vista, partir do qual lot projet, e este ponto de vinta nfo pode, ele proprio, fee parte a situacio que enfoca 10 fate de o homem atsumir pontot de vita no diz no funda outra coisa no ser que © homem procura encontrarse. Poderiamos dizer que a capacidade para a visio ditanciada & prova ds perdicio humana, porque nio tena sentido afrmar de um ente Incapar de ver sua sitagio que est perdido. No entanto, devemos ser eautelowoe ao tentarestabelecer ulm nexo causal entre a capact ade para a superacio e a perdigdo humana, Exaremos perdidos por podermos nor dstanciar de nor mesmos, ou podemot sir de ‘és mesmor por estrmos perdidos? Provaveimente tratasc de per= {gunta sem sentido, E melhor consatarmos simplesmente que ac pacidade para a imaginacio (inclusive para a imaginacio de si mesmo) caracterra © homem tanto quanto a sensacio de: (a) ‘estar perdido em nio importa que sitiagio; (b) e dever portanto rientarse. Devemos constatar também que a consciéncia da de- sorientagio « da necesidade de orientarse nio esté desperta sem pre, nein em todos, Os asim chamados bem inegrados" (ot “quad fos") no se sentem perdidos, « neste sentido cada um de nds & ‘quadrado" na maior das vers. A sensagio da desoeentario, & angistia do beco sem sida, toma conta de nés apenas por momen fon, © tornaae insuportvel por periods mais extensos.Pois sto, ‘es momentos fagazes que ot movem para darmos o paso pars tras de née meamos. Retroceder, para podermos imaginar © depois compreender e, por fim, para agir decididamente. Pos estas sio 25 fases do encontro consigo mesmo: distancia, imaginagio, cone eit, ato: ou superacio da situacio, projeto de um plano sobre {situagio, adequacio do plano a situacio, modifieagio a situs ‘Gio de acorda com 0 plano, TE abvio que a temtaa de encontrarse pode falhar ‘em nio importa qual desas fses,e ext € 4 rao porque 4 ens mor tio raramente, Na maioria das vezes, permitimon de bom ra: fda que a stvacio nos atordoe, a fm de exaparmos 4 devorientagao cd angistia do momento, A lberdade, por louveda que tej, & incémorts, exige exforco, ¢ nio oferece garanti de suceso. O ator: doamento pela atuacio @ um bom método para evtsla, Este ator: doamento pode ser formulado assim: a siuacio me determina © me pele, ela € incompreensivel c, mesmo se pudesse compreendé ‘io bastariam minhas forgas para oporame a ela. Isto € uma formulacio razoivel ¢ uma temtativa honesta de eviar 9 uso da capacidade para conseguir a liberdade, Via de regra, no entanto, ‘no somos to homestos,e procuramos faercrer que fazemos 0 que fazemos por nos termos decidido livremente para tanto. Sio os momentos de angistia (por fugazes que sejam) que nos revelam {que fazemos o que fazemos por estarmos determinados © empurra- os por fora, Mas até 2 formulacio honesta € em certo sentido indigna, porque € da dignidade human cnesiar a Wberdade. por irraroivel que seja.Portanto:tentar manter a sensacio ds desori- fentacio desperta.Aswumir perdio & a tenth de encontarse, sob pena de fracasarmos. Ese ¢ 0 clina das consieracées seyuintes. ‘Obviamente: ditancianse e projetr planos nio pa sam das duas primeira fases do procesto'do encontrarse, Sioa faxes especuatva ¢ desenguad, © sero ws, se nfo forem seguias pla fase engajada, E certo: nfo basta explcar 0 mundo. Mas igual- Imente cero € que ni podemos modifies, sm tentarmos explick To ato nem sempre sificientemente salientado pelos enysjados) Pois um tal “expliear 0 mundo” depende de pelo menos dots fator res, a saber: da distancia do afaxtamento,e do ponto de vst. Quan to maior a distincia, tanto mais ampla a visi, mas, cambeém, tamo ‘mais indistintos os detalhes tanto menos fil 0 plano da stuagio Concreta E todo pomto de vista projeta uma hur eabre 4 stwacio na ‘gual ae coias laneam sombas especticas, e portanto aparecem dl {erentemente de nio importa que ponto de vst. Ito siaifiea que toda tentativa de vido ¢ individual, © que a vio que se oferece faracerizao viondvio pelo menos tamo quanto caraceriza a sit cio vista Mas ito ndo significa que toda tentatea assim € necessi- Tamente subjeta, © portanto nada comunica. Pelo contriri: da Soma das vies disponvels pode faze tum mapa que se aproxima, infinitamente da "verdade objetva" sem jamais aleancida. claro soma de distncias e de pontos de vista nunca resultard na reprodu Cio fiel do visto, poranto nunca levard a yerdade no sentido ristotelico do term, Mapas verdadeivos no podem exis €, por- Tanto, nio existe. Mas serim desnecessirios, se exisssem. Pelo Contr: mapas nfo devem ser vedadeitos, se quserem orientar- thos. Um mapa de uma cade, que seria fel sea reprodusse por imteiro, seria tio confaw quanta o &a prSpria cidade, © mio veria ttlidade alguma. Um elemento de simplificacio © de exagero € fssencial para todo mapa, e 0 ideal da objetividade € portanto Sumamente duvidaso, Em todo caso, nio sera este o ideal das onsideracbes que se segue. Distnciarse da siuacio e projetar de wm determina 20 ponto de vista im mapa sobre ela, esta 4 meta aqui perseguida Portanto, ete ensto tem meta e limite. A meta é, repitamos, oe recet 20 Tenor um ponte de vista, 3 pare do qual poderd ver, de tim angulo determinado, 4 situagio na qual estamos e actescentar ft isto resultante a outris vider para poder orentarse. O limite € { engajamento, do qual o presente trabalho procurari aproximar- Sesem alcancélo. Pretende este ensaio manterse desengajado, fmbora admita que todo desengajamento ou serve de trampolin & im engajamento, ou € iresponsavel. © engajamento permanecerd {assim esperemes) fora dos limites deste ensao, porque ele pretew Ge contribuir para a decsio do letor, mas nao The dar consehos as Em outros termos: o ensaio recta responsabilidade para asumirse como nio importa que ‘autoridade” (por admit ar incompete pera tanto), mas assume responsabiidade para set "Yonte de info Inacio" (porgue cré postr alguma competencia para tanto) ‘Para rerumir o que foi dite: movida por angistia pela sensagio de estar em beco sem sada, este enso se distancia {a nos stage, assume um ponto de vista especie, procira Drojetar dat uma imagem da sac, na esperanca que ta imagem poss servic, em conjunto com ontras, uma orentagio na siaagio ede wampolim para x sua modifiecio — portanto, para um engajamento, © que significa “nossa stuacio" neste contesto? Pr ieiramente, » stnacio da humanidade neste final do século XX. Mas, obviamente, um tl significado vasto obrigaia a tomar tamanha distincia da sitvaco, a fim de abarcéla, que a visio resultaia em mera generalidade banalidade. Por isso, urge definir 0 termo “noma situagio” um pouco mais razoavelmente. Por exemplo, desta, forma; situacio de un intelectual burgues, proveniente da cultura ‘ocldental, no final do seculo XX, Mas, mesmo asim detiaido, 0 problema é tio amplo que parece convidar a uma queda na conver ‘fia grandiona. Evitar tal perigo sera um das tarefas mais 4rduas deste ena. ‘A esperanca para tanto reside na estreita especifcida de do ponto de vita a ser astumido, Seré 0 ponto de vista de um intelectual brasileira imigrado da Europa. Conforme disse: toda fimagem depende de doe fatores: da ditinca e do ponto de vista [A distincia ssumida por este ensaio € grande, porter ele escolhido jum campo muito ratio. Em compensacio, © ponto de vista € tio ‘esteto que permite experar que lugares comuns sejam evitados. onto de vista a ser smumido nio exige explicacio, ja que resulta fda propria condigin de quem cxereve ese ensaio. Mata decisio de publicar tal visio deve ser expicada. O seguinte item sera, pos, fentativa de autojustificata do autor, ¢ deve portanto ser tomado ‘cum grano sais ‘A histria enguanto soma dos ats deciivos (res gestae), « no enquanto tambem soma de sofrimente, se tem desenvolvid Std agora (isto. & nos allimos 8.000 anos, aproximadamente) em larga faa que cinge 0 globo entre os graus 25 ¢ 60 do Hemisfero Norte. Nio'se trata de um perlodo muito amplo, j& que perfas apenas 2% da existencia do homem na Terra. E provivel que a Ihumanidade no sja nati desta fxs, € quicé a histéria toda no pane do método da humanidade para adaptarse a ambiente nio Inteiramente conveniente, Uma mancira de ler a historia € seguir 1 curva tagadas pelos pontos de decisio demo da fata, Eat tal leitura, por exemplo, » abertia do norte da Europa no século IV fe do norte da América no século XVI serdo tomados por momentos Aecisvos, ¢ efetvamente a histvia € geralmente lida desta forma Mas, vitor @ parr de wma distncia maior, is tras e saltos do ponto deciio na faxa no parecem consi a verdadeira medida {a hisira, © uma outra medida se impie, a saber: da relaglo ‘entre a fina hstriea e © resto da humamidade (um resto que pode Ser chamado de ahisérico ow préhistric, no importa). Esta se guna Teitura da hstriaestd se tornando mais comum: a humane flade extrshistorca deiaa de ter exdtiea, o mundo por ela habitado tdetea de ser chamado ine sunt leones e pasa a ser chamado “ter ‘eira mundo", ¢ © problema da rlacio entre histéria © naochistria al problema aparece na consciéncia sob duas for: mas, Uma o vé como deafio de enquadrar na humanidade historia 4 humanidade nioshisoria, e & esta a forma que caracteriza as fociedades hitéricas (por exemplo o Ocidente que “ajuda no de- Senvolvimento’, © 4 China que “ajuda as revolucoes libertadoras") ‘A outra 0 vé como desafio de depor a fxs histria, ¢ esta forma Caracterivaalgumas sociedades nio-histricas (por exemplo “negritide" © 0 black power 1s, no entanto, outras formas de © problema apare- cer na consciéncia, € uma € esta: € poswivel tomar a histéria no entido acima proponto como epiciclo de 8.000 anos sobre un ciclo maior a humanidade, que dura centenas de milhares de anes. E posvel dizerae que existem sintomas que apontarn © prdximo fim Be tal epiciclo, Vito da histéria, nto significa que esta emengia da prehitoria para mergulhar em porhistria, em fururo préximo. E ‘fetvamente ha vores neste sentido no Ocidente (e nio sio apenas ts vores da ova eaquerda dos hippies). Mas, visto da niohistéria, isto significa que o epiciclo hitrico surgiu precariamente da nio- histéria, para nela mergulhar novamente. Porque do ponto de vista dda niotstéria nao tem sentido querer distinguie entre “pré" “pis. 8 que significa o mesmo. Eo problema da relagio entre historia niorhistéria aparece agora como problema de absorver oramente a histdna em adohisoria 38 Este ponto de vista €raras vezes assumido,e € ainda mais raramente publieado. Ito se explie com facade. Porque ssumit al ponto de vista inelectualmente, como ginistiea mental. ‘cosa facil pode tr feta por todo aquele que tem intelecto tm pouico treinado. Mas inistir existencalmente sobge tal ponto de tina €acesivel a poucos, apenas para quem senteo prOximo fim da Instéria em todos os seus nemos,€ simultaneamente vvencia 0s problemas da nio-histria no préprio corpo. Para poder sentir 0 Pameiro, & preciso terse originado em sociedade histoica, © para ‘Vivenciar 0 segundo, € preciso rier em sociedad nio-histria, por ‘exemplo: ser intelectual brasira imigrada da Europa Mas em verdade nem requer ito basta para asturie tal ponto de vista, Nio basta pelasrazdes seguintes: 0 imigeante intelectual tem um papel na vsociedade subdesenvoliida" a 5a ber: propagar os valores hstricos em novo ambiente. Este papel € tio sedutor, que poucos a ele fesstem, e destarte 0 imigrante se transforma, sem se dar conta disso, em catalisador da historicizacio do novo ambiente. Sem se dar conta, porque, s¢ no estivesse atordoado pelo choque da imigracio deveria lem brarse que, afinal de conus, emigrou da historia porque a hiss téria the € problemética a ponto de ser insuportavel, Acontec, € claro, que o imigrante se torna consciente disto e assume 0 fealo de bom grado. Mas neste caso di as cosas & historia, qual Gauguin, e se desiteressa dela, Em ambos os casos € impossvel assumir © ponto de vista aqui proposto, porque o primeiro & frato de um engajamento na historia, € 0 segundo de um Aesengajamento dela Para se poder assumir © ponto de vista proposto, € necessirio que o imigrante te tenha perdido tanto na histéria {quanto na niorhistéria, © que procure orientarse em ambas. Que duvide de ambas, sem desesperar de nenhuma. Fortanto, que nnio deserpere da naohistria (como o faz a maioria dos peas ores do “Terceiro Mundo”, o# quais procuram desesperadamen- te penetrar a histria dentro), nem desespere da hiséria (como © fazer tantos pensadores ocidentas, os quats procuram desesperada mente uma sida dela em diveclo de uma niohistria romantics mente paradisiaca ¢ mentirosa). O autor cré estar na situacio rel tivamente rara de poder asumir existencialmente o ponto de vista proposto. E ex relatvarardade represent, assim o cre, uma jus titieatva para a publicio do seu ponto de vist s Para resumir 0 que ficou dito: este ensio asumicé 0 onto de wsta de um intelectual burguér brasileiro, imigrado da Europa, para tenar imaginar, a partir dele, a stuario do burgues itelectoal ocidental em geral.Nutee a esperanca de que 4 raridade do seu ponto de vsta porters contribuir pare que outros se orien tem e mudem o mundo, Quanto ao método a ser seguido neste ensio: sed empreendida a tentatva de dar um passo para tris com relacdo, 8 situagio de um intelectual brasileiro imigrad, para ver tal stnacio A distancia e permitir que ela propria se arucule. Into significa que Seri feita a tentatva de abandonar todo preconceto e todo valor fntes de dar o pass. Tal método consti, geralmente, 0 método a fenomenologia. Quem j4 procutou aplicsla, sabe que € um método muito penoso, porque exige consiante autocontrole para fevitar que os preconceits e valores (gue sio muito pegajsos) no ‘eontinuem agarrados aquele que se afasta. Mas pode serum métor {do extremamente poderoso, porque, quando aplicado com éxito, revela a propria eséncia das coisas Portanto: este ensaio procurara ver, descrever € rack ‘ocinar despreconceituadamente. “Despreconceituadamente” signi fica mio apenas livre de ideologias, mas prineipalmene tambem lire de conhecimentos, to €, de teers A attude seri poranto rio apenas despida de salore, mas também de instrumentos das léncias especializadas. Nao serd pretendida anslive sciogics,eco- ‘nomica,etnoligca exc, mas, plo conteirio, do posivel conhect ‘mento que porventura existe Ro autor quanto aos métodos« res tados destas dsciplinas ers posto entte paréntesen, a fim de mio Perturbar 0 fendmeno mesmo. Destarie Se procirars comeeder palavra a0 proprio mundo vital do autor, para que isto reste em Imagem via e vivicada, Obviamente o autor ado conseguirs evita aque valores e conhecimentos, tanto “fluor” quanto “verdadeirs", se infirem constantemente e perturbem imagem. Nio conseguirs tvitéto, porgue sabe que a visio ‘purs” nfo € apenas coisa da di Ciplina, mas também de um dom. e que pode ser forcada apenas XE certa medida, O resultado do entaio teri (se este tver pelo Imenos éxito fragmentiio) uma imagem do brasileiro do ponto de vista de um imgrante da Europa. Isto explica 0 stulo do ensao, ‘Quem quiser pote efetmente ler 0 ensso asim: como descricio deur pais seus habitantes. Mas, conforme fot dito, esta nio € meta do ensaio. A meta € fornecer uma imagem, a qual, gracts & 7 analogia « contaste, porta servir de ortentagho 20 ocidental em feral e-em particular a0 burgués intelectual do Oridente Parece exist, todavia, far parte, uma cera contra cdo entre método © mets: 0 método € permitir que as coisas da situagio se artculem expontaneamente; a meta & falar, sotto voce também em coisa nem sequer Vistas e, 2 saber, gragas 30 contrast ff analogia, © método continua nio deiberado, no sentido de nie fmanipular as coisas deliberadamente para que sustentem teses preconcebidas. E, enquanto método, persegue, como todo méio- fo, uma meta “Varios setores ds cena brasileira serio escolhidos st cesivamente,a fim de srem slaminados. A escola seré puramente Subjeta, no sentido de obedecer ao inteesse eA vvéncia de quem ‘ccreve cate cnstio. Mas esta na dialéuca da coisa que a escolha ‘ubjeta provoca a coisa para ser objet, isto €: coisa. No final sera fensaiada uma sintexe da imagem sob a égide do ponto de vista. E {al imagem sintetica nio passaré, ela propria, de meto setora ser por sua ver sintetizado exh visio mais ampla de wma siteacso mais fmpla, Apenas em tl sinese maloe adquird a imagem o seu ved feito sentido, «no fundo asim que exe ensto quer ser do. Para formular 0 mesmo fato de outra maneira: 0 presente ensaio é um depoimenta da nowsstuacio do ponto de fist de_um imigrante brasileira, Como depoimento, procura nio tpenas darse conta a si mesmo ¢ ao¥ outros da stuagio na qual fstames, todos, mas também encontrar eaminhos e sadas. Em tal ‘depoimento aparece, expressamente, apenas o mundo vital do favor, 2 saber, 0 Brasil, mas tambem, smplicitamente, a stuacio feral de ne todos. O depoimento procura ser honesto, mas sabe fue a honestidade € um ideal de muito dill aleance. Portanto O depoimento se oferece assim: enquanto ensaio, nao obra — ¢ sim quer ser ldo, Para resumir,finalmente: neste ensaio seré tentada uma descrigio fenomenoldgica de um Brasil vido, para sendin de ‘mapa, por analogia e contrast, a uma humanidade tio perdida {quanto'o &0 proprio ensaio. Ax analogs € os contrases deverio ser fomecides pelo proprio lito, do seu proprio ponto de vista. Por ino, a8 consideracoes que te seguirlo esto neste sentido “aberas™ fo ensaio que pataré a ser obra apenas se encontraleitor que © complete 8 Imigragao Hé na literatura que tata do problema da imigracio uma curiosa lacuna. Patece que poco ot nada tem sido ererito Sobre um tema que se poderia chamar “Filosofia da Imigracio Timigracdo da Filosofia" Embora © fendmeno da imigracio tenha sido exaus- tivamente analiado de numerosos pontos de vista (expecialmente ‘os paises imigratrios), quase aunea o foi do ponto de vista do Inelectual imigrante. Isto € surpreendent, jé que deve ser suposto ser justamente 0 intelectual o mais indicado para articular a situa ‘io existencial do imigrante, A explicagio dito lve seja eta: a Sitwacio imigratria€ de dill generaizacio, ¢ a generabzacio € 3 meta da visio filoséica. Em toda situagio migratoria predominam (0s fatores especificos (por exemplo © background séciocultural © [Reogrifco do migrate. teritério em que imigr, © 0 momento histérico no qual o faz), € estes fatores encobrem a estrutura da sitwacio quase inteiramente. A tarefa de desencobri tal estrutu- ra geral parece condenada x0 fracaeo (jt que existe 0 perigo de ao remover 0 especifico, perdermos © proprio fendmeno), © 0s pensadores estio aparentemente prontos a abandonar 0 estudo fo fendmeno as disiplinas cienifiensexpecilizadas, como sejam 4 sociologia, a economia, bilogia © 4 psiclogia Mas 0 fendmeno da imigragio € im aspecto impor: tante da hintria em geral da atulidade em partis, e, rigor, rio compreenderemos nem a histéria nem a atualidade sem onsiderio, Blondel dir que a verdadeira historia consisted vidas ‘humanas,€ vide humana é metafsica em ato. Pois se “metafsea™ tema ver com “superagio da situaqao", x vida imigratonia ser exem- plo extremo is alirmatva blondelisna, jf que tal superagio the € Eomeco. Portanto uma descrgio fenomenologica da situacio lmigeatria pelo proprio imigrante deveria a rigor poder desvendar ‘estrutra de toda vida humana, isto nio a despeto, mas por Causa dos fates especificas que a caracterizam. Tal descricio fdeverin desenterrar categorise apliciveis 4 situagdes inteiramente Giferentes, Uma tal tentativa sera agora empreendida. Nio no Sentido de visar a0 oferecimento dessus categorias js prontas para ‘oo, mas no sentido de provocar o letor a escolher tis catego fias que the parecam apliesveis 4 situacso na qual ele proprio se (© ambiente braileito se oferece 20 imigrante de for- sma ambivalent, Para eapae 4 ambivalenca,o imigrante deve liber tarse doe preconeeitor que Ihe encobrem a realidad. princi mente dos preconceitos "pais now, "sociedade abeta’ € "terreno lmericano™, mas tambem dos preconcetor “opial” “sociedade Iatina™ Tas preconcetos encobrem a reaidade mio por serem fabs, mae por serem mets vetdades, ¢ melas verdad sio periciows. Retirados os preconceitos, o Brasil aparece 20 imi srante na seguinte forma o primeiro contato se elé com uma massa rbana heterogénen e quase amorfa.E verdade que a massa fala toma snica lingua (0 portgués),« isto parece darthe estrutra Maso onnido atento descbre que ex lingua aio ¢ infeaestutura (como no caso das sociedades européias), mas que forma um eto 4 reunir a maset, qual esperanto ow hoiné, deal do qual pulsam inimeras outras linguas que se refletem no proprio portugues para poder penctrar a massa © ntegrarse nela. Mas, fora disto, cla nio ‘Merece obstécuo digno de nota. E masa num sentido mais radical ‘que & populagio urbana evropéia, A sua monotonia e a fala de fticulagdo (que contrasta com a sua heterogeneidade) € 0 que primeito salts vista, em sua a falta de especiicidade. quando Sio Paulo serve de modelo (o modelo éaplicivel a muita cidade sulina, sas ni a toda cidade branlera, por exemplo no 20 Rio de Janet +0, nio as cidades a Bahia). ‘Ao penetrar na massa, 0 imigrante descobre no min- 0 um arquipélago de ilhas em proceso de decomposicio lena, Toda ih corresponde uma sociedade européia, ou a alguma sociedade do Oriente préximo e extremo, © € habitada por im srantes dene rociedades, seus ios, © no miximo netos As thas Se diluem na massa que as bunha ese ndo se diuiam de todo, & por estarom ainda inigndas por corrente imigratria ja em was de ecat atualmente. Avihas oferecem a imagem das sociedad org nis em virat anes de decadéncia, desde um agarrarse central © rigid a formas trazidas, até urna vga lembranga periférica dos wos f abusos dor antepassados. O ritmo da decadéncia nio depende fpenas da correnteimigratoria renovadora, mas também da right fe complexidade da sociedad original: japonescs se iluem em rt ‘mo diferente dos arabes, udeus da Polonia em ritmo diferentes dos franceses. O imigrante descobre no arquipelsgo também aquela iha que corresponde & sua propria origem, ¢ vvencia» choque da ‘decadéncia, da provincalizagio da primitviagio, 0 que facili para ele a ruptura dos elos que o ligam a sua origem, ‘As ilhas sio banhadas pelo mar proletirio € subproletiio composto de descendentes da populagto rural ras Teira, de descendentes das populacSes das propria thas, e irrigado por constante e crescente imigracio do interior brasileiro, Hi, nese mar, tmbem descendentes de excravonafricanios Hbertos no fim do clo pasado, que formam poreentagem elevada (o que impress fona o imigrante), mas porcentagem nio decsva, A imigracio do Interior far com que as ead cream rapidamente e extravaser seus limites. Tratese de massa humana desenratzada, que per- ‘dew sas estruturasareaicas,inadaptaves A vida urbana, sem eriar howar, x nio ser a estruturs da mig oa € 0 ritmo do aparelho Esta massa humana ¢ alienada de tal modo que o capitulo reser: vado a0 problema neste ensaio nunca poderd exgotblo. Dene mar comeca a erstaliarse uma camada relat= vamente estes de pequena e média burguesia, que por sua ver di forigem a uma finsima camada intelectual e académica, uma espé- ‘le de elt, Poi serdo estas as pestoss que formario 0 mundo val fo imigrante, o campo do seu engajamento, seus amigos e inimigos. seus praveres e sfriments, ¢ 0 desafio para os seus aos. Diferem da burguesia europtia c, comparados com ela, causam impressio agradivel, ler devido 4 sua origem diferente, jf que no desce- dem, como a burguesiaeuropela, de artesos e proletiios, mas de Imigrantes, nto europeus quanto brasileros, em geral campesinos © desentaizamento da populagio proltria se transforma nels em bertura, relative falta de preconceitos © eaptto aventurciro, © qu jo 2 tipica moral burguesa de producio, eria um lima a