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Câmara clara resenha

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Published by: biadrk on Mar 08, 2010
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08/04/2013

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Em A Câmara clara, Roland Barthes tenta decifrar o enigma que é a fotografia e os verdadeiros motivos pelos quais as fotos são

teoricamente objetivas, mas na prática se tornam completamente subjetivas e passíveis a múltiplas interpretações. Barthes está certo de que toda foto representa um fato que realmente ocorreu. Essa certeza não existe mais no século XXI, já que a tecnologia permite forjar fotos em programas de computador e admiti-las como verdadeiras. O semiólogo afirma que é difícil falar da Fotografia e que discorrer sobre uma única foto é menos complicado. Na realidade, o difícil é generalizar uma forma de arte que “repete mecanicamente o que nunca mais poderá repetir-se existencialmente” e que ao mesmo tempo produz uma imagem vazia e sem linguagem própria. A conclusão a que se chega é que as fotos não têm uma identidade robusta e não necessitam apenas do dedo do fotógrafo na câmera – seja ele profissional ou amador – para se concretizar. Para Roland Barthes, nem sempre as fotos se “concretizam”, pois há aquelas que não lhe transmitem sentimento algum, apenas um vazio. Em contrapartida, há fotos que existem e isso ocorre devido à presença de dois elementos heterogêneos: o studium, o motivo pelo qual o autor se interessa por uma foto, e o punctum, um elemento que punge como uma flecha, que transpassa e escandaliza o studium. Apesar disso, até hoje há dúvidas sobre o “gênio próprio” da fotografia, ou seja, se ela realmente existe e se sustenta. Na sociedade pós-moderna em que se vive – na qual a imagem tem valor maior que a essência verdadeira de tudo –, a fotografia não é um grande vazio, e sim um elemento concreto do cotidiano das pessoas. Não se imagina nem ao menos ler um jornal se nele não há nenhum tipo de ilustração. As pessoas são dependentes da imagem, valorizando-a mais que as palavras. As imagens se banalizaram e, atualmente, não se pensa mais nas diferentes formas de percepção da fotografia. Cada foto pode ser objeto de três práticas, de acordo com Roland Barthes, pois há quem a faça (Operator), quem a suporte (Spectrum) e quem a veja (Spectator). É imprescindível considerar que a fotografia digital abalou e modificou grande parte da análise de Barthes. A foto se tornou menos perecível – por não ter mais a mesma validade que a do papel de impressão – e o ato de tirar fotos se transformou em uma ação rápida e simples; é geralmente algo impensado e sem significação alguma. As fotos podem ser deletadas com um simples movimento, ou seja, são produtos facilmente descartáveis. Essa situação é similar à perda da aura com a produção industrial de obras de arte, como Walter Benjamin analisa em seu ensaio A obra de arte

na época de sua reprodutibilidade técnica (1936). Assim como a pintura, a fotografia também está gradualmente perdendo o seu “aqui e agora”, seu aspecto único. A autenticidade das fotos depende do Spectator – quem observa e interpreta externamente. No caso de Roland Barthes, a foto em que reconhece essencialmente sua mãe é especial e o punge de maneira inexplicável, pois a visão de sua mãe criança o faz se lembrar do quão insubstituível essa figura é. Barthes não inclui na seleção de imagens de seu ensaio essa foto de sua mãe, pois sabe que cada pessoa tem uma visão própria de cada foto. Assim, ninguém mais perceberia a essência daquela criança da foto desbotada. Os leitores jamais seriam capazes de sentir a imagem da mesma maneira que Barthes. A foto é encarada eventualmente como uma espécie de morte, pois um de seus efeitos é justamente eternizar momentos efêmeros. Mas também pode ser uma maneira de se perpetuar a existência de uma pessoa já morta, pois aqueles que eram próximos a ela tendem a guardar suas fotos e sempre recorrer a elas para obter lembranças mais nítidas e uma falsa sensação de proximidade. A foto se transforma num resgate “físico”, de certa maneira, daqueles que não vivem mais. Mesmo sendo relíquia, registro de um fato importante de interesse comum, mera distração, derivação da Pintura, produto final de processos químicos, conexão com um passado próximo, elemento de um álbum ou apenas um enfeite nas casas de família, a Fotografia tem a sua importância na vida do homem. Seu caráter multifacetado faz com que se reflita sobre as diversas identidades da sociedade moderna e da pós-moderna. Roland Barthes sintetiza a angústia da reflexão sobre a Fotografia ao relatar que uma foto não passa de “um real que não se pode mais tocar”. Por mais que haja cópias em escala industrial, as fotos vão sempre ser o registro de um momento que nunca mais se repetirá. Essa constatação não tem nada de catártico, não purifica o espectador, apenas o faz perceber que uma visão dialética da Fotografia é algo muito improvável de se ter. Mesmo após a análise de Barthes, ainda permanecem questionamentos sobre a Fotografia, que com o tempo somente se multiplicam e o enigma jamais se soluciona. Como é fruto do esforço tecnológico do homem e o acompanha em sua evolução social, é difícil analisá-la com distanciamento histórico. Talvez seja esse o motivo pelo qual as sociedades não dominam a Fotografia, e sim, deixam-se envolver por ela.

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