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Manifesto Organicista

Arte, Natureza e Humanidade

Falemos então, primeiro de arte e da sua relação intrínseca com o ser humano e v
ice-versa:
“O Universo não é ordem nem desordem, é vida.” – Alexandra David-Néel.
1. Arte é uma forma de expressão (criativa) exclusiva do ser humano. É ela que n
os identifica e que nos garante a existência enquanto seres humanos – humanos. É
o que nos tira toda a dúvida de sermos robôs ou amibas. Explicitamente a arte e
sfrega-nos na cara a nossa condição e torna-nos ainda mais humanos. A prática ar
tística é a exaltação natural e sincera da nossa própria natureza. O que ocorre
e a justifica é exactamente um círculo cíclico e infindável, pois arte é arte e
existe como tal pura e exclusivamente por nós existirmos como humanos. Somos nós
, humanos, os responsáveis pela criação do conceito abstracto “arte” e apenas nó
s nos debatemos para mantê-lo sustentável, ou seja, dar-lhe uma importância exte
rior a si mesma e deslocá-la da sua natureza, que é também nossa. Tudo bem. “A p
isché humana é o ventre de todas as ciências e artes.” Carl Jung.
2. Só nós podemos perspectivar o mundo e o universo dum ponto de vista artístico
, só nós o conseguimos, pois é a nossa abstracção, só nós a concebemos. Portanto
, só nós conseguimos chamar “arte” ao resultado na tela, da brincadeira de um ma
caco a quem lhe foram oferecidos pincéis e tintas. Mas, aquando isso, devemos es
tar conscientes da pretensão que ostentamos e do insulto intelectual que dispara
mos. Ao chamar arte ao quadro do macaco estamos a personificá-lo tal qual person
agens saídas do País das Maravilhas. A relação é a mesma da imagem cliché do mac
aco com chapéu a fumar um cigarro.
3. O mesmo acontece em relação ao resto da Natureza. Só através do filtro humano
ela se pode transformar em arte. No entanto, ao contrario de tudo o que é human
amente (abstracta e conceptualmente) transformável, ou seja, humanizável – este
é o caso crucial e fulcral onde a humanidade perde a prepotência – nada deixa, n
unca, e, por razão alguma, de ser, NATUREZA!
O ser humano é, sempre foi, e nunca deixará de ser, um ser animal e tão integral
mente parte do Organismo Natural como TUDO (literalmente TUDO) o resto. Desde o
mais pequeno átomo à maior super-nova, desde o maior planeta à maior, insignific
ante explosão atómica que reduza o planeta terra a cinzas. É habitualmente confu
ndido o nosso querido habitat com uma noção abrangida de Natureza. O Organismo é
UM e o seu funcionamento é perfeito, ou melhor, é como é. É necessário abstrair
mo-nos das dicotomias bem/mal, construção/destruição, vida/morte, da ética e dos
valores morais para a compreensão deste assunto, pois é algo que supera a condi
ção humana, não a nível teológico, mas a nível “orgânico”. É claramente impossív
el comunicar isto sem recorrer a abstracções pois é disso que vive a comunicação
, mas é, talvez possível, transmitir as ferramentas de uma possível epifania. Ta
lvez o único conceito menos possível de eliminar é o conceito Natureza/Cosmos, q
ue incha à medida em que se abstrai do resto.
Digamos que fazemos parte de uma massa homogénea que é o Cosmos, que integra tud
o e nada é distinto. A nossa insignificância é também a nossa importância que, t
anto uma quanto outra, são nenhuma. Somos, apenas. E essa é a perfeição das cois
as. O Organismo Natural ignora-nos como nós ignoramos as bactérias existentes na
nossa boca ou as proteínas no nosso sangue.
4. O que produzimos é da mesma maneira Natureza. Apenas, enquanto humanos, valor
izamo-lo por nos dizer mais respeito, enquanto PRODUTO. Ou seja: enquanto humano
s, somos atribuidores de espírito ao que nos diz respeito, ao que tocamos, ao qu
e transformamos. Somos Midas. Tudo o que adquire cunho humano – tudo o que é int
erpretado / tudo o que é ensacado num conceito – é ganhador de espírito, do seu
valor espiritual. Abarcamos o mundo dentro de nós com forma humana.
O erro frequente que cometemos é não considerarmos os nossos produtos artificiai
s parte da Natureza como tudo o resto, quase tomando apenas, ingenuamente, por N
atureza, tudo o que é “verdinho”. Ao fazer isto, estamos a elevar-nos nada mais,
nada menos que, ao nível de deus – o Homem e a sua torre de marfim – o Homem e
a sua capacidade espiritualista de se soberanizar a tudo o resto. O que não deix
a de ter uma certa ironia, tendo “deus” criado o “Homem” à sua imagem... ou vice
-versa?
Um grave erro da humanidade é a recorrente renuncia à matéria/materialismo em pr
ol do espírito/espiritualismo por nós compreendido.