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NF SA nmoncio uversane ve seasiia Reitor: Joo Caio Todorov \Viee-Reitor: Sergio Barroso de Assis Fonseca EDITORA UNIVERSIDADE DE BRASILIA Conseio Etoriat Alexandre Lima ‘Alvaro Tamayo Lombana ‘Aryon Dall Ia Roarigues| DDowrimae Nunes de Moura mantel Araij (Presidente) Euriice Cares de Sardinha Ferro Lucio Benedto Reno Salomon, Marcel Auguste Datdenne Sylva Ficher Vilma de Mendonca Fgustedo Volnei Garrat ‘A Eaitora Universidade de Brat, insti pe Let nf 3998, de 15 de dezembro de 1961, tem como ‘objetivo “editor obrs cena, tenieas ¢ cults, ‘e nivel wniverstio" NORBERTO BOBBIO TEORIA DO ORDENAMENTO JURIDICO Apresemagto: Tercio Sampaio Ferraz Junior Traduca: Maria Celeste Cordeiro Leite dos Santos Revisd0 Técnica: Claudio De Ciceo rt sma Dds SP 6 edigho a Pax (061) 255611 “nto: Teoria alone ghreo Copyright 1982 © by Ete G. Gippcbel. ‘Neu pt dest bape er armen ou pi tiger met sem aonb pr eso air. Ingress no Breil ui ei a ora: Ewanare Maal ior io Googles de Rach Casto Regia Coe Ane Maries Revisdo deter: ‘Aba Ros de Frias Falco he Mores Ge Over ko Sout. de rus Fito. ap: Frasca Regi ISDN: 55.23000765 ich catalog labora el Bibliten Cena te Universi de rain lass Bobbi, Narr "Trin do ordenament jaro / Norio Bobbi: presetayfo “Tei Sampo Fer i, tad. Masa Celeste C. San, ‘Cano De Chet Brin tra Universidade de Drala, cl, 1995 ip oat ere ir, Teco Sampo, pes. Santos, Maria Clete {Cy ta Cina De Co, re te Sumario Apresentagao ... ‘artTuno 1 — Da norma jure so orderamento ridico Novidade do problema do ordenamento ‘Ordenamento jutidico e definicio do Direito ‘A nossa definicdo de Direito .. Pluralidade de normas . + Os problemas do ordenamento juridico Fontes reconhecidas e fontes delegadas .. * de fons formato iss do nde amento .... 7 ‘As fontes do Diteito Constructo escalonada do ordenamento Limites materiais ¢ limites formals .. ‘A norma fundamental Direito e forga CAPITULO 2— A unidade do ordenamento juridico 1 2 CAPITULO 3 — A coeréncia do ordenamento jur- CO sen © ordenamento juridico como sistema ‘Tr8s significados de sistema ‘As antinomias ae Varios tipos de antinomias .... CCritérios para a solugio das antinomias Insuficigncia dos critérios 7 8 capfruto 4 — A completude do ordenamento just 1 2 3 4 5 6 7 8 9. 10. CAPITULO 5 — As retagdes entre 0s ordenamentos ju- Conflito dos critérios (© dever da coeréncia dico f © problema das lacunas .... © dogma da completude A critica da completude (© espago jurfdico vazio ‘A norma geral exclusiva As lacunas ideol6gicas Varios tipos de lacunas Heterointegragio e auto-integragio A analogia (0s prinefpios gerais do Direito ‘idicos A pluralidade dos ordenamentos or. ‘Vitios tipos de relagdo entre ordenamentos Estado ¢ ordenamentos menores Relagdes temporais Relagbes espaciais Relagdes materials, 105 10 15 5 19 122 27 132 139 143 146 150 156 161 161 165 169 173 178 180 [APRESENTAGAO_ © pensamento juridico de Norberto Bobbio ‘Norberto Bobbio pertence a uma cortente jusfilos6- fica que se costuma chamar de “Escola Analitica” ou "Po- sitivismo Analitico”. Suas posigdes, no entanto, slo bas tante matizadas € no € facil incluflo nessa corrente. Desde a década de 50, 0s escritos de Bobbio marcam ‘um nitido programa de reformulacio dos estudos do Di- feito, apertados que estavam numa polémica tornada te- diosa e infecunda entre jusnaturalismo ¢ positivismo. Bob- bio € um dos primeiros a voltarse para a metodologia da Ciencia do Direito em termos de uma analise linguistica ‘Ao posicionar-se desse modo, Bobbio enfrentava wma crise que pairava sobre a Ciéncia Juridica, tentando, nas pegadas de Kelsen, mas desvinculando-se dos pressupos- tos neokantianos, reelaborar um conceito de Ciéncia Juri- ddica capaz de conferirthe um estatuto prOprio; dentro das ‘iencias empiricas (mesmo porque 0 conhecimento jut No uso hist6rico da filosofia do Direito e da juris: prudéncia parece-me que emergem trés diferentes sig nificados de sistema. Um primeiro significado € 0 mais proximo 20 significado de ‘sistema’ na expressio “sis- tema dedutivo”, ou, mais exatamente, foi baseado ne- le. Em tal acepgio dizsse que um dado ordenamento € um sistema enquanto todas as normas juridicas da- quele ordenamento sio derivaveis de alguns principios gerais (ditos "‘principios gerais do Direito”), conside- rados da mesma maneira que os postulados de um sis tema cientifico. Essa acepe30 muito trabalhada do ter- mo “sistema” (oj referida historicamente somente 20, ordenamento do Direito natural. Uma das mais cons- tantes pretenses dos jusnaturalistas modernos, perten- centes a escola racionalista, foi a de construir 0 Direito, natural como um sistema dedutivo. E uma vez que 0 exemplo clissico do sistema dedutivo era a geometria de Euclides, a pretensio dos jusnaturalistas resolvia-se na tentativa (verdadeiramente desesperada) de clabo- rar um sistema juridico geometrico more demonstra: tum, Civemos um trecho muito significativo de Leib- niz: “De qualquer definigio podem-se tirar consequén- cias seguras, empregando as incontestivels regras dz Logica. Isso é precisamente o que se faz construindo as, ‘cincias necessarias © demonstrativas, que nao depen dem dos fatos mas unicamente da razdo, como a légi- ca, a metafisica, a geometria, a ciéncia do movimento, ‘a Ciéncia do Direito, as quais no si0 de modo nenhum fundadas na experiéncia ¢ nos fatos, mas servem para dar a razo dos fatos ¢ regulé-los por antecipacio: isso valeria para o Direito ainda que nao houvesse no mun- do uma 56 lel".* "A teoria do Direito faz parte do nd- (4) Rieson sl noone comune sta, n Sr pote et rive natrae eet, Ta, 1951, 9209 ‘mero daquelas que nao dependem de experiéncias, mas de definigdes: no do que mostram os sentidos, mas ddo que demonstra a razio."* ‘Um segundo significado de sistema, que nao tem nada a ver com o que foi ilustrado, encontramo-lo na ciéncia do Direito moderno, que nasce, pelo menos no Continente, da pandectstaalema, e vem de Savigay, que € 0 autor, nto por acaso, do célebre Sistema do Diretto romano atuat. & muito freqiente entee 0s ju rista a opiniao de que a ciéncia jurdica moderna nas ‘ceu da passagem da jurisprudéncia exegética 3 jurispru- dencia sistemética ou, em outras palavras, que a juris prudéncia se elevou 20 nivel de ciéncia tornando-se "sis temética’. Parece quase se querer dizer que a jurispru: déncia nao merece nome de ciéncia enquanto nio ‘chega a sistema, mas que € somente arte hermenéuti a, técnica, comentario a textos legisativos. Muitos tra tados de juristas sto intitulados Sistema, evidentemente para indicar que se desenvolveu ali um estudo cientif 0, © que significa nesta acepcio “sistema”? Os juris- tas ndo pretendem certamente dizer que a jurisprudén- Gia sistematica consista na deducio de todo o Dieito de alguns principios gerais, como queria Leibniz. Aqui ‘termo “sistema” € usado, a0 contririo, para indicar uum ordenamento da materia, realizado através do pro- cesso indutivo, isto é, partindo do contetido das sim- piles normas com a finalidade de construit conceitos Sempre mais gerais,e lasificagbes ou divisdes da ma- {éria itera: a consequéncia destas operagdes serd 0 oF-