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Revista Puritana 04-09

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TEOLOGIA
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EDITORIAL

Manoel Canuto

O Culto Simples

T

emos hoje uma verdadeira batalha em torno da defesa da liberdade religiosa. Muitas entidades, até mesmo não religiosas, buscam a defesa da livre prática das muitas crenças. E

homem adorá-lo. Deus sempre colocou diante do homem princípios para a pureza da adoração. Deus não pode ser cultuado segundo as imaginações e invenções humanas, nem através de qualquer representação visível. A ênfase é que Deus não pode ser cultuado através de nenhum outro modo que não seja prescrito ou ordenado nas Escrituras. Por isso o crente não pode pensar como o mundo pensa. Sua liberdade religiosa não deve ser vista como uma liberdade para fazer o que deseja, mas como uma libertação das ciladas e amarras de Satanás que o incita a adorar da maneira que ele pensa; o Cristão é liberto de seus pensamentos carnais para fazer a vontade de Deus revelada na Bíblia. Segundo as Escrituras, o culto não deve ser prestado a anjos, nem a santos, nem a qualquer outra criatura, mas somente a Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Deve ser um culto simples através da oração com ações de graça, da leitura das Escrituras, da sã pregação da Palavra, do cântico dos salmos, pela administração correta dos sacramentos e, em ocasiões especiais, com ações de graça, jejum, votos e juramentos. Assim dizem os teólogos de Westminster. Somos gratos aos reformadores por redescobrirem o culto simples praticado no período apostólico. Dr. Pipa de Greenville ilustra aos seus alunos a simplicidade do culto reformado, dizendo: “Outra maneira de pensar sobre a simplicidade do culto é o que chamo de portabilidade (de portátil) de culto. Portabilidade significa que nós podemos realizar nossa adoração em qualquer lugar. Essa é a simplicidade da adoração, nós apenas precisamos de um púlpito, uma mesa para a comunhão, um livro de louvor, um pequeno frasco de água, um pouco de vinho e um pão ― isso é o suficiente”. Quão diferente dos dias de hoje! Não preciso mencion ar as distorções cúlticas praticadas hoje quando este princípio da simplicidade é esquecido. Deus adverte no 2º mandamento: “porque eu sou o SENHOR,

toda esta batalha gira essencialmente em torno do modo como se

presta culto à sua divindade. O mundo tem defendido, com poucas exceções, que cada pessoa adore livremente ao seu deus. Alguns, e não poucos, manifestam a opinião de que não se deve condenar nenhuma religião, sob pena de incorrer em condenável crime do preconceito contra a cidadania. Todos dizem que qualquer pessoa tem o “direito” de adorar ao deus que deseja e da forma que imagina. I. G. Vos afirma que se esta palavra “direito” não for bem entendida teremos muita confusão e mal entendido. Na verdade há uma diferença entre direito civil e direito moral. O direito civil tem sua validade no âmbito da sociedade humana, mas o direito moral tem validade no âmbito da Lei moral de Deus. Ninguém pode impedir que um homem de muitas posses gaste seu dinheiro em orgias e em práticas mundanas se esse é seu desejo. O que o governo pode e deve fazer é cobrar deste homem, que ele pague seus impostos e não proceda de forma a afrontar ou prejudicar qualquer cidadão. No entanto, quando este homem está diante de Deus, usando destas práticas carnais, ele tem de abandoná-las e pensar naquilo que Deus determinou que não deve ser feito, sob pena de ser condenado ao prestar contas no dia do juízo. Assim, podemos entender que a lei civil garante a qualquer pessoa cultuar seu deus como desejar ou até mesmo nunca cultuar, desde que alguma coisa escandalosa não seja praticada, ou não coloque em risco a vida de alguém ou não degrade a sociedade civil. Mas muitos crentes imaginam que esta lei civil de liberdade religiosa deve ser aplicada nas igrejas de hoje. Esquecem que diante da Lei moral de Deus ninguém tem o direito de adorá-Lo da forma como deseja. O homem tem uma natureza corrompida e esta corrupção o leva sempre a buscar uma forma impura de cultuar a Deus, mesmo que suas intenções sejam sinceras. Desde cedo o homem teve de aprender a cultuar ao Criador. Foi-lhe necessário adorar com fé, para que Deus aceitasse sua adoração ― fé em alguma verdade. O homem tem de adorar crendo na vontade de Deus revelada. Vemos em toda a Escritura que Deus sempre estabeleceu o modo correto do

teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem e faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos” (Ex 20:5-6).
Boa leitura.
OS PURITANOS é uma publicação trimestral da CLIRE — Centro de Literatura Reformada R. São João, 473 - São José, Recife-PE, CEP 52020-120 Fone/Fax: (81) 3223-3642 E-mail: ospuritanos@gmail.com DIRETORIA CLIRE: Ademir Silva, Adriano Gama, Waldemir Magalhães.

REVISTA OS PURITANOS
Ano XVII - Número 4 - 2009
Editor Manoel Canuto mscanuto@uol.com.br Conselho Editorial Josafá Vasconcelos e Manoel Canuto

Revisores Manoel Canuto; Linda Oliveira Tradutores Linda Oliveira; Marcos Vasconcelos, Márcio Dória, Josafá Vasconcelos Projeto Gráfico e Capa Heraldo F. de Almeida Impressão Facioli Gráfica e Editora Ltda. Fone: 11- 6957-5111 — São Paulo-SP

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Adoração Reformada
Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade, porque o Pai procura a tais que assim o adorem (Jo.4:24)
Dr. David Murray
Eles entenderam que nesta área da adoração, a melhor forma de se centralizar em Deus era se centralizar na uitos crentes e igrejas, em todo mundo, estão redescobrindo a verdade a respeito da adoração reformada. Isso é uma providência maraPalavra. Quando eles jogaram fora tudo que era feito pelo homem, isso deixou um vácuo a ser preenchido. Dentro deste vácuo eles tinham de colocar a adoração centrada na Palavra de Deus. Inicialmente vamos focalizar esta área dos cânticos de louvor. A Reforma passou por dois estágios na reforma dos cânticos na Igreja. Em primeiro lugar, Lutero foi o pai do cântico congregacional. Ele viu que por mais de mil anos na Igreja os cânticos estavam nas mãos dos corais, dos monges e das freiras e não nas mãos do povo de Deus. Uma das primeiras coisas que Martinho Lutero fez em 1524 foi introduzir na Igreja o uso do hinário. Lutero trouxe de volta ao povo de Deus o cântico congregacional. Eles não precisavam mais vir ao culto vendo-o apenas como uma forma de simples performance, mas eles vinham para participar. A segunda etapa foi com Calvino. Lutero restaurou o louvor congregacional, mas Calvino restaurou a cântico bíblico. Calvino via que na igreja primitiva, no início do Novo Testamento, a igreja cantava os salmos. Ele percebeu que o coração não apenas deve ser guiado pela Bíblia, mas que a adoração deve ser repleta de Bíblia e que o cântico na adoração bíblica não precisa apenas ser guiado pelos princípios bíblicos, mas deveria ser cheio de conteúdo bíblico. Então, Calvino reintroduziu o saltério na igreja de Cristo. Para Calvino a adoração a Deus deveria ser o encontro com a Palavra, a leitura da Palavra, a pregação da Palavra, o cântico da Palavra. Tudo tinha de ser centralizado na Palavra de Deus. Esta é uma breve história da reforma na adoração bíblica.

M

vilhosa da parte de Deus, mas na maioria das vezes essa verdade reformada tem se limitado apenas à doutrina da salvação. Em outras palavras esta reforma estancou no ponto referente às doutrinas da graça e não foi além, não progrediu para outras áreas, como por exemplo, a vida cristã e o culto cristão. Isto na verdade não é uma reforma plena porque a reforma verdadeira e plena atinge todas as áreas da plenitude de vida dos cristãos e da Igreja. Quero falar sobre o tópico da necessidade de se trazer reforma para toda a área que diz respeito à adoração. Gostaria de tratar de três áreas neste tema. Na primeira gostaria de tratar da história da reforma na adoração. Em segundo lugar tratar da regulamentação da adoração bíblica e em terceiro lugar tratar das razões para termos uma adoração bíblica.

I) A Reforma da Adoração Bíblica → Quando os
reformadores redescobriram o evangelho bíblico, eles também perceberam a necessidade da redescoberta da adoração bíblica. Quando perceberam a salvação em termos de glorificar a Deus, nos termos da centralidade de Deus, então perceberam que a adoração resultante disso também deve ser uma adoração centrada em Deus e que O glorifique. Os reformadores viam muitas coisas e acréscimos humanos colocados na adoração a Deus como os altares, as vestimentas, as velas, os outros sacramentos, incensos, etc. e para retornar a uma adoração centrada em Deus eles teriam de jogar fora todos aqueles acréscimos humanos. Martinho Lutero iniciou este processo. Zuínglio, Martin Bucer e Calvino continuaram depois dele. Cada um deles ia jogando fora mais e mais aquilo que pertencia à imaginação humana e trazendo mais e mais aquilo que era centrado em Deus.

II) A Regulamentação da Adoração Bíblica →
Todo cristão tem algum tipo de regulamentação acerca da adoração. Todo crente coloca uma linha (limite) em algum lugar no culto. De um lado da linha há uma

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adoração aceitável e do outro lado da linha uma que é inaceitável. Todos nós estamos de acordo que existem algumas coisas que são boas para o culto e outras que não devem existir no culto. A única questão é: Como e onde vamos colocar esta “linha” demarcatória? Qual a regra que vamos seguir para saber o que é aceitável e o que é inaceitável? Deixe-me dar algumas regras que são usadas em nossos dias. Todos nós temos alguma destas regras. a. O PASSADO. “Sempre foi assim!”, muitos dizem. E se foi suficiente para as pessoas do passado, será bom para nós também hoje. “Nossos pais adoraram assim então, assim nós adoraremos”. Dessa forma o passado é a regra para o presente. b. A PREFERÊNCIA. Esta a regra do que eu gosto, do que eu quero e do que eu acho agradável. Eu gosto assim; eu me sinto bem com isso; isso está de acordo com minha personalidade; é a minha preferência. c. PRAGMATISMO. Isso funciona, atrai pessoas e é popular? Então, vamos fazer assim! Não fazer de outra forma, porque não seria popular e não atrairia as pessoas. Assim, nossa regra é o pragmatismo: o que funciona. d. PROIBIÇÃO. Tudo é permitido no culto desde que não seja explicitamente proibido na Palavra de Deus. Esse foi o princípio que Lutero usou. Ele basicamente disse: Se a Bíblia não proíbe as velas, então podemos usá-las e assim por diante. Então, se conclui, não havendo uma clara proibição, podemos fazer. Bem, a Bíblia não proíbe em nenhum lugar a dramatização no culto, então pode-se usar o drama, o teatro e assim por diante. Eu diria que estas são as quatro regras mais usadas hoje pelas pessoas para saber o que devem fazer no culto. Mas a pergunta a ser feita é: Elas são Bíblicas? A resposta é: Não! Então, qual é a regra bíblica?

e. PRESCRIÇÃO. É a regra usada por Calvino que a descobriu na Palavra de Deus: Somente aquilo que é ordenado na Bíblia deve ser permitido e usado no culto a Deus. Verdadeira adoração é adoração ordenada nas Escrituras conforme a vontade de Deus. Se não for ordenado, não é autorizado. A Bíblia ordena dramatização, teatro, no culto? Não. A Bíblia ordena o uso de velas? Não. A Bíblia ordena o uso de vestimentas clericais? Não. Então, temos aqui a regra mais radical de todas. É o Princí-

minou. E se os governadores humanos fazem assim, quanto mais o Rei dos Reis e o Senhor dos Senhores. De onde tiramos isso na Bíblia? Vejamos em Levítico 10. 1-3:
“Nadabe e Abiú, filhos de Arão, tomaram cada um o seu incensário, e puseram neles fogo, e sobre este, incenso, e trouxeram fogo estranho perante a face do SENHOR, o que lhes não ordenara. Então, saiu fogo de diante do SENHOR e os consumiu; e morreram perante o SENHOR. E falou Moisés a Arão: Isto é o que o SENHOR disse: Mostrarei a minha santidade naqueles que se cheguem a mim e serei glorificado diante de todo o povo. Porém Arão se calou” (Lv 10:1-3).

pio Regulador. Mas, de certa forma nós
podemos dizer que todas aquelas regras são “princípios reguladores”. Todas elas regulam o culto. Então, todos nós temos algum tipo de princípio regulador. Assim a pergunta é: Será que este nosso princípio regulador é o Princípio Regulador da Bíblia? O Princípio Regulador bíblico, como podemos demonstrar, é a

Vejamos aqui a frase-chave, no final do v. 1: “o que lhes não ordenara”. Estes homens eram religiosos e adoradores; tinham boas intenções e provavelmente eram sinceros, mas fizeram o que não havia sido ordenado por Deus. E também em 1 Crônicas 15.13:
“Pois, visto que não a levastes na primeira vez, o SENHOR, nosso Deus, irrompeu contra nós, porque, então, não o buscamos, segundo nos fora ordenado”.

prescrição. Somente aquilo que foi prescrito e ordenado é permitido. Quando estamos considerando nossa adoração, é esta a pergunta que devemos fazer: Deus ordenou isso? Não devemos perguntar: Ele proibiu isso? Isso foi sempre feito assim? Gostamos disso? Também não devemos perguntar: “isso funciona?”. E assim por diante. Por que Deus fez assim com o culto? Em parte é porque temos corações pecaminosos e corruptos. Nossos corações não são confiáveis! E não podemos confiar em nossos corações para acharmos a forma correta de adorar a Deus. Por isso Deus nos deu direcionamento suficiente para que sigamos. E este direcionamento é uma direção externa a nós. Deus tem o direito de decidir como Ele mesmo quer que seja adorado. Pense no presidente do Brasil. É ele quem decide como funciona seu governo, como as pessoas devem se aproximar dele. Ele decide o cerimonial para receber as pessoas. Se nós desejamos agradá-lo, então vamos seguir tudo aquilo que ele deter-

Lembramos que aqui Davi e o povo de Israel tentaram levar a arca da aliança para Jerusalém e isto era uma coisa boa; estavam com muita sinceridade, tinham boas motivações. Mas eles não fizeram segundo as ordenanças de Deus. Por isso, quando Uzá tentou tocar na arca, Deus o matou. Assim eles disseram: “não o buscamos, segundo nos fora ordenado”. Podemos ver a mesma coisa com o Rei Jeroboão e o Rei Uzias que foram castigados por terem adorado a Deus de uma forma que Ele não tinha ordenado. Deus tem nos dado muitas advertências sobre o que Deus nos fará se não respeitamos aquilo que Ele tem definido. Quando nós realmente abraçamos este princípio de que somente aquilo que Deus tem ordenado é legítimo no culto, o que sobra, então?

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A Confissão de Fé de Westminster que inclui estes dois textos citados, no 2º Mandamento da Lei e no Capítulo XXI, I (Do Culto e do Dia de Repouso), afirma:
“Mas a forma aceitável de cultuar o Deus verdadeiro é instituída por sua própria vontade revelada, de modo que ele não pode ser cultuado segundo as imaginações e invenções humanas, nem segundo as sugestões de Satanás, sob alguma representação visível, ou por qualquer outra forma não prescrita na Sagrada Escritura” (CFW).

não apenas Salmos, mas outros hinos e cânticos também”. Temos duas coisas a dizer em resposta a esta afirmação: 1. OS TÍTULOS DOS SALMOS DO VELHO TESTAMENTO → Primeiro, vejamos os títulos dos Salmos do VT. Eles são traduzidos em grego (na Septuaginta) usando estes três títulos colocados nestes versículos citados. Quando Paulo está falando deste cantar os “sal-

para a nova dispensação, porque acompanhou a última celebração da páscoa e a primeira celebração da Santa Ceia do Senhor. Neste versículo Jesus está dizendo que estes mesmos Salmos do Antigo Testamento são adequados e suficientes no Novo Testamento. Então, como vimos antes, no Velho Testamento nós temos prescrição e exemplo. Mas também no Novo Testamento nós temos prescrição e

mos, cânticos e hinos espirituais”, ele está
se referindo ao livro de Salmos que contém “salmos, hinos

exemplo. Vemos, portanto, como os reformadores restauraram o Princípio Regulador do culto. Sendo assim, o culto precisa ser algo ordenado hoje. Recentemente li uma citação de Ray Lanning que é um perito reformado neste assunto de culto e ele dizia: “Das muitas mudanças implementadas pelos reformadores, nenhuma foi mais dramática do que a mudança do culto público”. Calvino disse: pelo cérebro do homem na religião de Deus sem o Seu expresso mandamento é idolatria”. Estas palavras são bem sérias.

Veja o que lemos aqui. Nós não podemos adorar a Deus usando ídolos ou qualquer outra forma não ordenada na Palavra. Mas alguém poderia dizer: “Eu nunca iria adorar a Deus com ídolos”. Mas aqui a Confissão de Fé de Westminster reúne o ensino bíblico sobre este assunto e diz que qualquer adoração que não encontra prescrição ordenada por Deus na Palavra, é idolatria. Não é que você está adorando ao Deus errado, mas a questão é que você está adorando a Deus de forma errada; de uma forma não ordenada nas Sagradas Escrituras. Então, podemos usar isso também na área do louvor, nos cânticos, porque podemos e devemos aplicar este princípio a todas as áreas do culto. Do início até o fim, Deus tem ordenado esta área ou aquela; Ele ordena isto e aquilo. E nos cânticos de louvor, o que Deus nos ordenou a usar? Segundo o pensamento dos reformadores, Deus nos ordenou o cântico dos Salmos. No Velho Testamento temos exemplos dos Salmos sendo cantados, mas também no Novo Testamento. Por exemplo, Colossenses 3:16 ― “Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração”. Vemos também isso em Efésios 5:19. À primeira vista, vendo estes versículos você pode dizer: “Então eu posso cantar

e cânticos espirituais”. Esta expressão,
“cânticos espirituais”, significa cânticos do Espírito Santo ― Cânticos inspirados pelo Espírito Santo. Pelos títulos dos Salmos, nós entendemos que Paulo está dizendo: “Salmos, Salmos e mais Salmos”. 2. EXEMPLO DO NOVO TESTAMENTO → A segunda coisa é o exemplo que temos

A Verdadeira adoração é adoração ordenada nas Escrituras

no NT. Por exemplo, Mateus 26.30: “E, “Todo serviço a Deus que é inventado

tendo cantado um hino, saíram para o monte das Oliveiras”. Veja: “... tendo cantado um hino”. Aqui Jesus estava sentado com seus discípulos na última Ceia Pascal e na primeira mesa da Santa Ceia. Aqui mais uma vez hino, no grego, significa Salmo. Naquela época, esta era uma prática bem conhecida na igreja judaica. Quando os judeus estavam celebrando a páscoa, eles cantavam os hinos pascais. Esses hinos pascais nós os encontramos dos Salmos 113 ao 118. Jesus cantou com seus discípulos estes hinos. Um comentarista disse que o canto destes Salmos de Hallel, por Cristo e seus discípulos na noite da Sua traição, marca o momento no qual o saltério passa da antiga dispensação

III. As Razões do Culto Bíblico → Por
que tudo isso é importante? Por que estamos enfatizando estas coisas? Por que Deus deseja assim? 1º) Simplicidade Primeiro, porque seguindo este padrão bíblico, conseguiremos ter simpli-

cidade. Todas as decisões sobre o que
deve existir no culto se tornam tão simples. Não importa quantas pessoas, sejam elas jovens ou velhas, cheguem dizendo: “Esta é uma idéia ótima para o culto”. Nós não precisamos consultar

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o passado, não precisamos perguntar se isso vai ser popular, não precisamos perguntar se isso vai funcionar, não é necessário procurar na Bíblia para ver se há uma proibição, mas simplesmente perguntar: “Isso foi ordenado? Isso é requerido?”. Simplicidade! Realmente isso iria simplificar de forma impressionante os cultos de adoração nas igrejas. 2º) Espiritualidade Um segunda razão é a espiritualidater um sistema de culto tão complexo que o povo ficava assistindo apenas aquilo que é externo na adoração. Eles esqueceram que Deus quer ver nosso coração e que é necessário que o culto seja espiritual. Quanto mais tornamos complexo nosso culto, mais externo, mais exterior ele se torna. Mas se tiramos tudo que apela aos nossos olhos e nossos sentidos, nossa visão, nosso tato, então chegarem a ter algo bem simples e assim podemos nos focar no coração e não naquilo que está lá fora. Por isso os reformadores pintaram de cal todas as igrejas, por dentro e por fora. Tiraram todas as janelas com seus vitrais coloridos; aboliram todas as vestimentas clericais; todos os incensos e sinos; tudo que impressionava os olhos. “Vamos simplificar”, eles disseram “para que o povo possa novamente adorar de coração. Isso melhora a espiritualidade”. Já participei de cultos onde a adoração era bem extravagante, bem impressionante aos olhos e aos ouvidos. De fato isso tem sido demasiado para ser provado, vivenciado. Nestas adorações os sentidos têm sido tão estimulados que nos faz perguntar se aqui está sendo realizado um culto que parte do coração. 3º) Unidade A terceira razão é a unidade. Qual é a conseqüência quando as pessoas estão seguindo várias regras quanto ao culto? A consequência é a divisão da igreja de Cristo! Cada igreja faz aquilo que agra-

da aos seus próprios olhos. Um dia você entra em uma igreja, outro dia em outra igreja, e percebe uma diferença enorme entre elas. Uma diferença tão grande que estas igrejas nunca chegarão a se reunir para adorar juntas. Todas aquelas regras não bíblicas têm levado a Igreja às chamadas guerras litúrgicas. Imaginemos se todas as igrejas no Brasil fechassem as suas portas e tivessem uma reunião a portas fechadas. Dissessem: lavra de Deus, vamos decidir o que Deus ordena para estar presente em nossos cultos; se acharmos alguma coisa que é ordenada na Bíblia, isso estará presente; se não acharmos uma ordenança para determinada coisa, isso fica fora”. Não temos dúvida de que muitas coisas seriam colocadas fora. Mas, imaginemos se depois dessa decisão as portas fossem abertas e todos se reunissem para uma adoração conjunta. Todos eles estariam no “mesmo script”. Talvez isso requeresse algum tempo, mas todos chegariam ao mesmo ponto. Isso uniria as igrejas de forma extraordinária e impressionante. Impressionaria o mundo, também. Isso impactaria o mundo mais do que nossas divisões estão fazendo. 4º) A glória de Deus Uma quarta razão é a glória de Deus. Se nós dissermos: “Nós não somos confiáveis para dizer o que é apropriado para o culto; só Deus tem o direito de dizer o que é legítimo na adoração e eu me submeto a tudo aquilo que Ele ordena”, o que isso me diz? Diz que Deus esteja em seu trono e eu esteja no pó! Isso dá a Deus todo o seu direito e nos torna seus servos. Assim Deus é glorificado. Mais uma vez vamos nos focar apenas nos Salmos.

Criador, Cristo o Provedor, Cristo o Guia, Cristo o Defensor, e assim por diante... Então cantaremos estes Salmos de uma forma trinitariana. 2) Em segundo lugar podemos cantar os Salmos de Cristo (acerca de Cristo). Quantos salmos estão profetizando sobre a vinda de Cristo a este mundo? Fiz uma lista rápida. Veja o Salmo 45:6 que fala da divindade de Cristo; Salmo 2:7 que diz que Ele é o Filho eterno; o Salmo 8:5 fala da encarnação de Cristo; os ofícios de Cristo como mediador no Salmo 40:9-10 e Salmo 110:4; Salmo 41:9, que fala da traição do Senhor; o julgamento de Cristo no Salmo 35:11; a rejeição de Cristo no Salmo 22:6; o sepultamento e rejeição de Cristo no Salmo 16: 9-11; a ascensão de Cristo no Salmo 47:5; a segunda vinda de Cristo no Salmo 50:3-4. Como pode alguém dizer que Cristo não está nos Salmos? Está ou não está? Muitos têm a vista curta. Todos os Salmos que estamos entoando, cantam Cristo. Nós cantamos a Cristo e nós cantamos de Cristo. 3) Em terceiro lugar cantamos por

de. A igreja Católica Romana chegou a “Vamos abrir a Bíblia e, baseados na Pa-

meio de Cristo. Quando estamos oferecendo um culto a nosso Deus, devemos oferecê-lo pela mediação de Cristo. 4) Em quarto lugar cantamos com

Cristo. Que hinário Cristo usava quando
esteve neste mundo? Ele usava o livro de Salmos. Isso era o maná da Sua alma. Esses foram os cânticos que sua mãe o ensinou a cantar. Foram os cânticos que Ele tinha na memória quando estava na Sinagoga; foram estes os cânticos que gradativamente lhe revelavam todas as implicações do seu trabalho como Mediador. Portanto, vemos que em momentos críticos e importantes de sua vida, estes Salmos surgem em seu

1) Podemos cantar os Salmos a Cris- coração. Estes Salmos edificavam sua to. Quando lemos a palavra “Deus” ou própria alma. O primeiro Salmo que “Senhor” ou “Rei”, nos Salmos, podemos cantar estas coisas a Cristo o Senhor, Cristo o Rei. Seus títulos e seus nomes se acham em todos os Salmos. Cristo o uma mãe judia ensinava a seu filho era aquele que dizia: “Em tuas mãos entrego

o meu espírito”. Quais foram as últimas
palavras que saíram da boca de Jesus?

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Veja o Salmo 22 e o 69. Eles nos revelam tudo que estava se passando na mente e no coração de Jesus quando ele estava morrendo. Os Evangelhos nos revelam e relatam muitas coisas dos sofrimentos externos de Cristo, mas não chegam a nos informar aquilo que estava se passando no seu coração. Mas os Salmos nos informam disso. Mil anos antes do evento da morte de Jesus estes Salmos profetizam e nos predizem os pensamentos, temores e desejos que encheram o coração de Jesus. Então, quando estamos cantando os Salmos guardemos em nossas mentes o fato de que Cristo cantava estes Salmos, o Senhor meditava neles. Onde e quando Cristo cantou estes Salmos? Como Ele cantou estes Salmos? Você não teria muito prazer e gozo em ouvir o próprio Cristo cantando estes Salmos? Por exemplo, não seria prazeroso ouvi-lo cantando as palavras do Salmo 118.17-19?
“Não morrerei, mas viverei; e contarei as

vilégio podermos tomar estes mesmos cânticos em nossos lábios e podermos cantar com Cristo como Ele cantou. Ele cantou assim e nós cantamos também. Nós cantamos a Ele, nós cantamos Dele, cantamos por meio Dele e com Ele. Deixe-me encerrar com algumas colocações finais: 1) Por que fazemos o que fazemos? Qualquer que seja o modo de nosso culto é preciso que entendamos o porquê estamos fazendo assim. Não é suficiente dizermos que sempre foi feito assim ou que todo mundo faz assim ou que nos agrada fazer assim, porque isso não é uma defesa contra a corrupção do nosso coração. A única defesa contra a corrupção do nosso culto é o seguinte: Isto Deus tem nos ORDENADO! Segure, entenda, examine e aplique este princípio e seja capaz de defender toda a parte da sua adoração à luz deste princípio. 2) Adore de verdade. Uma coisa é dar uma palestra sobre adoração. Uma coisa é lermos muitos livros sobre adoração, e podemos até nos tornar peritos no assunto de adoração. Mas você sabe adorar? Você se dobra a Deus? Em sua vida há uma adoração real, de coração a coração, ao seu amado Salvador? 3) Vamos ter a coragem de fazer uma reforma em nosso culto se assim for necessário. Lembram-se do que Jesus disse em Mateus 15.8-9: “Este povo

homens. Ele diz: “em vão me adoram”. Então, vamos ter a coragem de fazer uma reforma na adoração. 4) Vamos tentar persuadir outras pessoas. É esta a palavra correta: PERSUADIR. Mas não vamos agir de forma a destruir igrejas, mas usar de gentileza, de sabedoria, de forma gradativa, tentando ganhar as pessoas, tendo paciência com elas porque por muitas vezes elas foram abençoadas com outros hinos e corinhos em suas vidas. Você não deve esperar que de uma forma súbita elas entendam tudo isso. De uma forma gradativa vamos introduzindo mais e mais um culto bíblico. Um puritano, William Romaine, disse: “Eu sei que esta adoração é um ponto que dói, por isso eu vou tocar nele de uma forma muito delicada, com a maior gentileza que eu posso, na esperança de fazer algum bem”. Ninguém se achega a um ferimento para magoálo no intuito de curar. Mas vai, como uma mãe ou uma amável enfermeira, com muita habilidade, limpando e cuidando lentamente. Mantenha sempre na mente o grande propósito: Não apenas uma igreja pura e purificada, mas uma igreja unida e cheia de amor. Existem duas formas eficazes para se persuadir e que são muito melhor do que todas as palestras que você possa dar: (a) Cante os Salmos com alegria no coração. (b) Se você é pastor pregue os Salmos. Se olhar para trás, para a história do culto bíblico, verá a época quando os Salmos caíram em desuso e que essas épocas também coincidi-

Lutero restaurou o louvor congregacional, mas Calvino o cântico bíblico

obras do SENHOR. O SENHOR me castigou muito, mas não me entregou à morte. Abri-me as portas da justiça; entrarei por elas, e louvarei ao SENHOR”.

Veja o Salmo 69. 19-21:
“Tu conheces a minha afronta, a minha

vergonha e o meu vexame; todos os meus adversários estão à tua vista. O opróbrio partiu-me o coração, e desfaleci; esperei por piedade, mas debalde; por consoladores, e não os achei. Por alimento me deram fel e na minha sede me deram a beber vinagre”.

São palavras muitíssimo emocionantes. Procure pensar em Cristo cantando estes cânticos no culto doméstico e em particular. Lemos de Cristo saindo à noite para o deserto para orar e clamar a seu Pai. Não teria Ele usado destas palavras em seus lábios santos? Não teria cantados estes cânticos com todo sentimento e paixão? Jesus cantava aquilo que Ele mesmo iria experimentar. Como Ele os cantou? Quando Ele os cantou? Ele era o Salvador dos Salmos. Que pri-

se aproxima de mim com a sua boca e me honra com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim. Mas, em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens”. Notem que
não são os preceitos de Deus, mas de

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ram com o momento quando não se tinha a pregação de Cristo nos Salmos. Quando você estiver pregando Cristo nos Salmos será muito mais fácil persuadir o povo a cantar os Salmos para Cristo. 5) Em último lugar. Toda nossa adoração deve ser uma antecipação do céu. Deve ter um sabor do céu vindouro. Esse é o grande fim da adoração, nos levar ao céu e até trazer o céu até nós. Naquele dia quando não houver mais nenhuma divisão e nenhum argumento restar, todo propósito da adoração aqui na terra deve ser para nos dá um pequeno sabor do céu vindouro. Esperamos e oramos que esta seja nossa experiência.
Transcrição da palestra proferida por Dr. David Murray na Sala de Leitura da CLIRE e do Projeto Os Puritanos em Recife e repetida no Simpósio Os Puritanos em Maragogi/AL/2009. Perguntas e respostas feitas após a palestra em Recife 1ª Pergunta: Na Bíblia existem outros cânticos. O de Maria, o de Ana, o de Simeão, nas cartas de Paulo, em Apocalipse e outros locais. Muitos argumentam contra Salmodia exclusiva afirmando que estes hinos eram cantados, e não eram Salmos. O que dizer deste argumento? Resposta: É sempre bom, em todas as áreas da vida, começar com um princípio e depois tratar dos casos mais difíceis. Mas, por exemplo, no caso do aborto, muitas pessoas começam este tema com os casos mais difíceis como incesto e estupro e concluem que devemos praticar aborto livre (para evitar esta gestação indesejada). Elas não começam com um princípio e, à luz deste princípio, olham para os casos mais difíceis. Então, a primeira pergunta a ser feita é: Isto é um princípio bíblico? Se for, então devemos começar por ele e depois olhar tudo à luz deste princípio; olhar os casos mais difíceis à luz deste princípio. Não devemos olhar para os casos difíceis e jogar fora o princípio. Como nós devemos ver estes cânticos que as pessoas alegam serem cânticos das Escrituras e que não são Salmos? Primeiro, eu acho que muitos dos cânticos que as pessoas alegam serem cânticos na verdade não são cânticos. Por exemplo, em Filipenses 2:6-11, nada indica que seja um cântico, apenas os comentaristas dizem que é um cântico. Em segundo lugar, o cântico de Maria e o cântico de Simeão, foram realmente cânticos de louvor inspirados, mas nunca foram usados no louvor público a Deus. O princípio do qual estamos mencionando fala do culto público, onde Deus é adorado de uma forma organizada e formal. Este princípio não diz que as pessoas, em seus momentos devocionais particulares, não

possam cantar cânticos de louvor a Deus que surgem de seus próprios corações. Não há evidência de que os cânticos de Maria e Simeão tenham sido usados de uma forma geral na igreja primitiva. Há uma ou duas evidências do uso do cântico de Maria na literatura da igreja primitiva, mas considerando a grande quantidade de literatura existente, isso não é considerado como menção. 2ª Pergunta: O que dizer de pastores que usam o livro de Apocalipse e o louvor no céu como modelo de louvor para nós hoje na igreja? Apocalipse é um princípio que devemos usar? Resposta: Aqui há uma diferença grande. Há uma diferença entre o céu e nós. Usar a adoração celestial como modelo para nós hoje é um pecado. O que é seguro para ser permitido no céu, talvez não seja seguro para ser permitido aqui na terra. Se no céu só existe santos perfeitos e glorificados, é muito mais seguro dar a eles liberdade para cantarem o que eles desejam. É muito mais seguro dá-lhes esta liberdade no céu do que a nós na terra. Se a nós, que temos corações pecaminosos, nos for dada esta liberdade, veremos exatamente o que tem sido visto no mundo inteiro. Esta é uma diferença muito grande e sem paralelo.

relutância em usar esta terminologia. Mas onde eu teria uma preocupação a enfatizar é que se você realmente souber o que é errado e mesmo assim faz e continua a fazer, isso é muito grave. Muitas pessoas, por ignorância não estão tão adiantadas nesta escala e eu não devo me aproximar destas pessoas e dizer: é fogo estranho! Devemos de uma forma gentil, sábia, num primeiro tempo, tentar empurrá-las no sentido da perfeição e chamar outros a fazer o mesmo. Há casos difíceis. Se eu tivesse dado esta palestra na Escócia ou nos Estados Unidos eu teria recebido as mesmas perguntas. Todos nós sabemos quais os casos difíceis. Mas não devemos deixar estes casos difíceis nos desviar a atenção da necessidade maior de aplicar os princípios bíblicos.

4ª Pergunta: Quando nos convidam a visitar uma igreja que tem um culto que não é bíblico, do que devemos participar? Como participar dos hinos, das orações e leitura da Palavra? Resumido, quando nos convidam a visitar uma igreja e esta é uma chance que temos de levá-las à nossa igreja como retribuição à nossa visita, como devemos participar deste culto não bíblico? Resposta: Esta é uma pergunta difícil. Depende de onde estamos e onde eles estão na escala. Vinte anos atrás eu passei um período de um 3ª Pergunta: ano no leste europeu. Eu estava ajudando o Qual o princípio que está por trás do uso de tre- pastor numa congregação bem remota na chos da Escritura para fazer cânticos de louvor? Hungria. Um grupo de garotas estava cheganDevemos ver isso como fogo estranho? do para um retiro em um convento católico Resposta: Tenho duas respostas que desejo romano, perto dali. Estas jovens disseram que dar a este tipo de pergunta. Em primeiro lu- poderiam participar do nosso culto naquele dia gar, a Bíblia contém cânticos que Deus nos se, no outro dia, nós participássemos na adodeu para que cantemos, e todo o resto da Es- ração com elas. Nossos jovens e eu pensamos: critura está lá para lermos e pregarmos. Mas o “Isso parece ser muito bom”. À noite elas participreceito para o louvor, tanto no VT como NT, param conosco no culto e durante todo o culto é o cântico dos salmos. Então, se apenas algu- pregamos a graça de Deus. Nenhuma obra, nemas partes das Sagradas Escrituras nos foram nhuma obra, nenhuma obra...! Somente Cristo... dadas para cantarmos, isso não significa que Somente Cristo...! Estávamos ali martelando todas as suas partes nos foram dadas para can- estas verdades. Mas no outro dia, ao amanhetarmos. Então, perguntamos, é fogo estranho cer, logo pensamos: “Puxa, temos hoje de ir à cantarmos o cântico de Maria no culto públi- capela católico-romana”. Então, todos nós foco? Acho que devemos ver as coisas de uma mos lá constrangidos e nunca vou me esquecer forma escalonada (gradação). Por exemplo, da sensação que tive logo ao entrar, porque vejamos o caso do homicídio. Matar alguém vi que teria de pregar debaixo de um enorme é errado. Mas se você mata cem pessoas, isso crucifixo dourado. Havia imagem de Maria, de é bem pior. E matar mil pessoas é mais grave José e, em todo lugar, havia uma imagem de ainda. Aos olhos de Deus algumas coisas são um santo. Percebi que havia tomado a decisão vistas de forma mais grave do que outras. Ve- errada, pois a Bíblia nos diz que devemos fugir jamos nossas roupas. Uma das recomendações da idolatria. Então, todos devemos nos pergunda Bíblia é a modéstia no trajar. Vejamos uma tar: Será que podemos chegar a este nível de ser escala. De um lado da escala há uma pessoa tão ofensivos a Deus? que se veste perfeitamente modesta, e do ou- Há um versículo que acredito ser relevante aqui: tro lado da escala há alguém que nem vestiu Mateus 15:8-9. “Este povo se aproxima de mim qualquer roupa, mas entre estas duas pessoas com a sua boca e me honra com os seus lábios, há alguém que está no meio. Vendo isso, va- mas o seu coração está longe de mim. Mas, em mos considerar a questão do culto. De um lado vão me adoram, ensinando doutrinas que são há um culto perfeito e nenhum de nós chegou preceitos dos homens”. Veja que há duas coia este ponto nesta terra. Olhando na direção sas erradas com este culto. Um culto que não da escala da perfeição, vemos no outro lado o tem coração e não tem ordenanças (prescribezerro de ouro ou o lado de Nadabe e Abiú. ções) divinas. Eles tinham adoração somada Isso é fogo estranho! às ordenanças dos homens. Deus está dizendo Mas há um espectro muito grande entre os dois aqui: “Era melhor fecharem suas bíblias e voltaextremos. Todos nós estamos em algum lugar rem para casa porque sua adoração é vã”. Esta nesta escala e estamos tentando nos aproximar pergunta deve estar sempre em nossas mentes: mais e mais do culto perfeito. O fato de você “Como isto pode me parecer algo muito bom ou não chegar do lado perfeito da escala, isso não lindo?”. Esta não é a pergunta correta e sim: significa que seja fogo estranho. Eu teria muita “Isto é bom aos olhos de Deus?”.

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O que Fazer no Culto no Dia do Senhor?
Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional (Rm.12:1).
Pr. Terry Johnson
quando “apresentamos” a Deus o nosso corpo como um “sacrifício vivo e santo”. Esse é um “culto racional” (Rm ual a importância de respondermos esta questão? Vamos colocar desta maneira: Que importância tem a adoração? Você precisa parar para 12:1). A finalidade do evangelho é tornar pecadores santos, a fim de serem adoradores. Note como o Senhor Jesus passa do tópico adoração para o de salvação no verso 22, “Vós adorais o que não sabeis; nós adoramos o que sabemos porque a salvação vem dos judeus” (Jo 4:22). Ser salvo é ser liberto da ignorância e da opressão da idolatria. Para os judeus, “saber” como adorar, é possuir a “salvação”, nada menos. Talvez não estejamos acostumados a ver a coisa dessa forma, como estou apresentando agora, mas esse é o ensino do Novo Testamento. A finalidade ou o propósito do evangelismo e de missões é criar um povo para adorar a Deus. Os discípulos de Cristo são “pedras vivas”, “edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus” (1Pd 2:5; Ef 2:18-22). Deus criou “um povo para si mesmo” para que “proclamassem as virtudes dAquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1Pd 2:9). Nisso se constitui a obra missionária da igreja, a vida cristã e a vida de adoração. John Piper resume bem nosso ponto:
Missões não é o objetivo principal da igreja, mas sim a adoração. Missões existem porque Deus é o alvo e não o homem. Quando esta era passar e os incontáveis milhões de redimidos caírem com o rosto em terra diante do trono de Deus, não haverá mais missões. Trata-se de uma necessidade temporária, mas a adoração existirá para sempre.2

Q

pensar nisso por um instante, comparando a adoração zermos uma consideração superficial, iremos chegar, indubitavelmente à conclusão de que, nada do que fazemos é tão importante quanto a adoração. Não, nada

com outras várias atividades da vida. E mesmo se fi-

de natureza secular, como trabalho, diversão, ou mesmo a vida familiar, nem mesmo as atividades de cunho religioso, como evangelismo, comunhão, caridade ou qualquer disciplina espiritual particular é tão importante. Não há, portanto, pergunta mais importante a ser respondida que essa! No texto básico que iremos examinar, Jesus diz que o Pai “procura” verdadeiros adoradores (Jo 4:23). É dessa forma que Jesus resume a atividade salvífica do Pai. Qual o interesse do Pai na pregação do evangelho? O que Ele intenta fazer por meio do seu Filho? Qual é o fim último da encarnação, da expiação e de toda a redenção? É o Pai buscando adoradores! Que forma inusitada e não habitual de Deus se dirigir a pecadores! No entanto, é assim. Robert G. Rayburn ressalta que “Em nenhum lugar nas Escrituras lemos que Deus tenha buscado qualquer coisa dos pecadores”. A Bíblia não nos diz que Deus busca testemunhas, servos ou contribuintes. Ele busca adoradores. Rayburn continua, “não é sem motivo que a única vez na Escritura onde a palavra buscar é usada como atividade de Deus, é em conexão com a busca de verdadeiros adoradores”.1 Há, então, um sentido verdadeiro em que o Evangelho Cristão trata da adoração. O “evangelho eterno” que pregamos é resumido pelo anjo em Apocalipse 14:7, como: “Temei a Deus e dai-lhe glória (…) e adorai aquele que fez o céu (…)” Como já vimos, a vida cristã é apresentada pelo apóstolo Paulo como um ato de adoração

A adoração é a nossa “prioridade máxima”, como o título de um recente livro declara. Cada Filho de Deus deveria saber disso. Não é apenas a Bíblia que enfatiza a importância da adoração; a herança Presbiteriana e Reformada faz o mesmo. Muitos historiadores modernos do período da Reforma, têm feito com que a personalidade marcante de Lutero, na sua luta pela fé, acabe obscurecendo o coração da Reforma Suíça e Calvinista. Para Lutero e os

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PR. teRRy JOhnsOn

luteranos, o foco principal era a Justificação pela Fé. “Como pode um homem ser justo diante de Deus?” era a questão fundamental. Mas para Zuínglio, Calvino e a “nata dos Reformadores”, o tema principal não era a justificação, conquanto reconhecessem sua importância. O foco deles era a adoração. “Como Deus deveria ser adorado?” constituía a pergunta crucial. Para os luteranos, o inimigo da fé eram as “obras”. Para os Reformados, a “idolatria”. Carlos M. N. Eire, em seu aclamado War Against the Idols (Guerra contra os ídolos), relembra à nossa geração aquilo que os antigos historiadores já haviam percebido. “O foco central do Protestantismo Reformado foi a interpretação da adoração (…)”. Distinguindo os luteranos dos zuinglianos, ele diz: A diferença principal é que, para os zuinglianos, a proposta Reformada não era encontrar um Deus justo, mas em voltar-se da idolatria para o Deus verdadeiro.3 O mesmo pode ser dito das obras de Heinrich Bullinger (sucessor de Zuínglio em Zurique), Martin Bucer em Estrasburgo, William Farel em Neuchatel, e mais tarde João Calvino em Genebra. A Reforma se espalhou com esses homens pregando contra a adoração medieval idólatra, e o povo respondeu com sua fúria iconoclasta. Vitrais eram quebrados, relíquias eram profanadas, estátuas despedaçadas, altares danificados e igrejas lavadas e caiadas novamente. Farel, diz Eire, “usava as imagens e a missa como tema dos seus sermões para dar curso à Reforma”.4 Em Genebra durante os primeiros anos da Reforma, “o foco da atenção não era o assunto da justificação, mas as missas e as imagens e tudo que dizia respeito aos seus abusos”.5 Ambos, Farel e Calvino descreveram suas conversões, não como sendo salvos das obras de injustiça prioritariamente, mas da idolatria. Como os tessalonissences, eles ti-

nham “deixado os ídolos para servirem ao Deus vivo” (1Ts 1:9). Em 1543, um folheto intitulado On the Necessity of Reforming the Church (Sobre a necessidade de Reformar a Igreja), Calvino lista os dois elementos que definem o Cristianismo, os quais, em suas palavras, constituem “o todo da substância do Cristianismo”. Esses dois elementos são primeiro “um conhecimento de qual é a maneira certa de se adorar a Deus; e o segundo é a fonte de onde emana a salvação”.6 W. Robert Godfrey comenta, “De forma enfática Calvino coloca a adoração à frente da salvação em sua lista dos dois elementos mais importantes do Cristianismo bíblico”. Eire comenta mais adiante:
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de Calvino e os da Igreja Anglicana oficial era a questão da adoração. Por cem anos os Puritanos lutaram para reformar o Livro Comum de Orações de acordo com os padrões de Genebra, culminando com a Guerra Civil, a convocação da Assembléia de Westminster e a aprovação por parte do Parlamento do Diretory for the Public Worship of God (Diretório do Culto Público de Deus)10 para os reinos da Inglaterra, Escócia, Gales e Irlanda. Não, de fato não estamos acostumados a pensar na adoração dessa forma hoje. A situação presente não poderia ser mais irônica, mesmo onde encontramos igrejas que se identificam como herdeiras da Reforma, como a PCA, a qual, em nome da liberdade, falha em prover diretórios para a adoração. Poucos têm disposição para pensar com cuidado a respeito da adoração. Um número menor ainda vê a necessidade disso. Não somente muitos não vêem nenhuma conexão entre doutrina e vida prática, como também não vêem conexão entre adoração e vida prática. Assim, para que regularmos a adoração, quando geralmente se presume que isso só serviria para dividir e é algo que não tem valor prioritário? Nós tendemos a ser como os detratores de Calvino, que o acusaram de fraturar a unidade da igreja com futilidades. Como esses detratores, no entanto, estamos errados acerca disso. Questões acerca de como devemos adorar a Deus são as mais importantes de todas, por direito próprio e por suas aplicações abrangentes.

Calvino define o lugar da adoração como nenhum dos seus predecessores tinha feito antes (…) Adoração, ele diz, deve ser o interesse central dos cristãos. Não é uma questão periférica, mas a “substância última” da Fé Cristã (…) alguém já disse que esta se tornou a definição fundamental que caracteriza o Calvinismo.
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Qual é o ponto central do estudo bíblico e teológico do evangelismo e de missões, do conhecimento de Deus e de toda a religião cristã? A resposta é: a adoração. O verdadeiro conhecimento de Deus leva à adoração correta, que por sua vez, leva ao viver correto. Os teólogos da Reforma pregaram Soli Deo Gloria em todas as áreas da vida, porque eles tinham em vista a adoração.
Fazendo da adoração o componente existencial necessário do conhecimento, Calvino a torna o elo entre pensamento e ação, entre a teologia e a sua aplicação prática. Foi uma teologia eminentemente prática que Calvino desenvolveu como resultado disso. Religião não é meramente um conjunto de doutrinas, mas antes, uma forma de adorar, um estilo de vida.9

Não somente no continente Europeu, mas também na Grã-Bretanha, o coração da batalha entre os seguidores

Pr. Terry Johnson NOTAS: 1. O Come Let Us Worship, pp. 15, 16.; 2 Let The Nations Be Glad, the Supremacy of God in Missions, Grand Rapids: Baker Books, 1993; 3 Carlos M. N. Eire, War Against the Idols (Cambridge: Cambridge University Press, 1986), pp. 2, 85; 4 Ibid., p.119; 5 Ibid., p.143; 6 Ibid., p.126; (também encontrado na Selected Works of John Calvin, vol. 1, p.126); 7 Robert W. Godfrey, “Calvin and the Worship of God” (manuscrito não publicado, s.d.); 8 Carlos M. N. Eire, War Agaisnt the Idols, pp. 232, 233; 9 Ibid., p. 232. 10 Publicado pela Editora Os Puritanos – Diretório de Culto de Westminster

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Os Puritanos e o Quarto Mandamento
O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado. (Mc 2:27)
J.I.Packer
do no mesmo, em seu sentido cristão, que proíba trabalho ou diversão no domingo, com prejuízo do tempo de este ponto, os puritanos iam à frente dos reformadores. Estes últimos tinham seguido Agostinho e o ensino medieval em geral, negando culto. A maior parte dos reformadores falava no mesmo tom. O que há de notável é que suas declarações, em outros contextos, mostram que “os reformadores, como um grupo, defendiam a autoridade divina e a obrigação de se observar o quarto mandamento, requerendo que um dia em cada sete fosse empregado na adoração e serviço de Deus, admitindo somente as obras de necessidade e de misericórdia, em favor dos pobres e aflitos”. É um quebra cabeça, porém, porque eles nunca perceberam a incoerência entre afirmar isso, em termos gerais, ao mesmo tempo em que defendiam a exegese de Agostinho sobre o domingo cristão. Podemos apenas supor que isso se deve ao fato que não queriam entreter a idéia de que Agostinho poderia estar enganado, razão que os cegava para o fato que estavam montando dois cavalos ao mesmo tempo. Os puritanos, contudo, corrigiram essa incoerência. Eles insistiam, de forma virtualmente unânime que, embora os reformadores estivessem certos ao enxergarem apenas um sentido típico e temporário em algumas das prescrições detalhadas no sábado judaico, contudo, eles também percebiam o princípio de um dia de descanso, para efeito de adoração pública e privada a Deus, no fim de cada seis dias de trabalho, como uma lei da criação, estabelecida em benefício do homem, e, portanto, obrigatória para o homem, enquanto ele viver neste mundo. Também destacavam que, figurando entre nove leis indubitavelmente morais e permanentes do decálogo, o quarto mandamento dificilmente teria uma natureza apenas típica e temporária. De fato, eles viam esse mandamento como parte integral da primeira tábua da lei, que aborda sistematicamente a questão da adoração: “O primeiro mandamento fixa o objetivo, o segundo, o meio, o terceiro, a maneira, e o quarto, o tempo”. Também observaram que o quarto mandamento começa com as palavras “lembra-te...”. E

N

que o domingo fosse, em qualquer sentido, um dia de descanso. Eles afiançavam que o sábado, prescrito pelo quarto mandamento, era um mandamento tipicamente judaico, prefiguração do “descanso” da relação da

graça-fé com Cristo. Eis a explicação de Calvino:
“... é extremamente apta a analogia entre o sinal externo e a realidade simbolizada, visto que a nossa santificação consiste na mortificação de nossa própria vontade... Devemos desistir de todos os atos de nossa própria mente a fim de que, operando Deus em nós, possamos descansar nEle, conforme ensina o apóstolo (Hb.3:13;4:3,9). Mas agora que Cristo já veio, o tipo foi cancelado, e seria um erro perpetuá-lo, tal como seria um equívoco continuar a oferecer os sacrifícios levíticos.

Calvino apelava aqui para Colossenses 2:16, que ele interpretava como alusão ao dia semanal de descanso. Ele admitia que, além e acima de sua significação típica, o quarto mandamento também ensina o princípio que deve haver adoração pública e privada, além de servir de dia de descanso para os servos e empregados, pelo que a plena interpretação cristã seria:
Primeiro, por toda a nossa vida podemos ter por alvo um descanso constante de nossas próprias obras, a fim de que o Senhor possa operar em nós por meio do Seu Santo Espírito; segundo, cada indivíduo deveria se exercitar com diligência em meditação devota nas obras de Deus, e... todos devem observar a ordem legal determinada pela Igreja para que se ouça a Palavra, administrando as ordenanças e a oração pública; terceiro, devemos evitar oprimir àqueles que nos estiveram sujeitos.

Mas Calvino falava como se isso fosse tudo quanto aquele mandamento agora prescreve, nada encontran-

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J. i. PackeR

isso nos faz recuar até antes da instituição mosaica. Observaram que o trecho de Gênesis 2:1 ss. representa o sétimo dia de descanso como o próprio descanso de Deus, terminada a criação, e que a sanção atrelada ao quarto mandamento, em Êxodo 20:8 ss., olha de volta para aquele fato, retratando o dia como um memorial semanal da criação, “para ser

que prescreve a adoração apropriada ao Criador), e, como tal, era perpetuamente obrigatória para todos os homens. Assim, quando o Novo Testamento diz-nos que os cristãos se reuniam para adorar no primeiro dia da semana (ver Atos 20:7; cf. I Co.16:1), guardando aquele dia como “o dia do Senhor” (Ap.1:10), isso só pode significar uma coisa: por preceito apostólico, e, provavelmente, de fato, por injunção dominical durante os quarenta dias antes da ascensão, esse tornara-se o dia em que os homens, doravante, deveriam guardar o dia de descanso prescrito pelo quarto mandamento. Os puritanos notavam que essa mudança, do sétimo dia da semana (o dia que assinalara o fim da antiga criação) para o primeiro (o dia da ressurreição de Cristo, que assinala o início da nova criação), não excluída pelas palavras do quarto mandamento, meramente determina que

na doutrina do dia do Senhor, a qual é bem sintetizada na Confissão de Fé de Westminster (XXI: vii-viii):
vii. Como é lei da natureza que, em geral,

uma devida proporção do tempo seja destinada ao culto de Deus, assim também em sua palavra, por um preceito positivo, moral e perpétuo, preceito que obriga a todos os homens em todos os séculos, Deus designou particularmente um dia em sete para ser um sábado (descanso) santificado por Ele; desde o princípio do mundo, até a ressurreição de Cristo, esse dia foi o último da semana; e desde a ressurreição de Cristo foi mudado para o primeiro dia da semana, dia que na Escritura é chamado Domingo, ou dia do Senhor, e que há de continuar até ao fim do mundo como o sábado cristão. Ref. Ex. 20:8-11; Gen. 2:3; I Cor. 16:1-2;
At. 20:7; Apoc.1:10; Mat. 5: 17-18. viii. Este sábado é santificado ao Senhor

observado para a glória do Criador, como dever que temos de servi-Lo, e como um encorajamento para confiarmos naquele que criou os céus e a terra. Por meio da santificação do sábado, os judeus declaravam que eles adoravam ao Deus que criou a terra...”. Assim falou Matthew
Henry, exegeta de um período posterior aos puritanos, mas que os representou em sua própria época ao comentar sobre Êxodo 20:11. Henry também frisou que o mandamento afirma que Deus santificou o sétimo dia (ou seja, apropriou-o para Si mesmo) e o abenmo, encorajando-nos a esperar bênçãos da parte Dele, na observância religiosa daquele dia”); e também frisou que Cristo, embora tivesse reinterpretado a lei sobre o sábado, não o cancelou, mas antes, firmou-o, observando-o Ele mesmo, e mostrando que esperava que seus discípulos continuassem a observá-lo (cf. Mt.24:20). Tudo isso, argumentavam os puritanos, mostra que o descanso do sétimo dia, era mais que um mandamento judaico; antes, era um memorial da criação, parte da lei moral (primeira tábua,

çoou (isto é, “injetou bênçãos no mes- “devemos descansar e guardar, como descanso, cada sétimo dia...mas...de modo algum determina onde deve começar a seqüência de dias... Não há, no quarto mandamento, qualquer orientação sobre como computar o tempo...”. Portanto, coisa alguma impede-nos de supor que o Novo Testamento parece requerer que foram os apóstolos que fizeram a alteração. Nesse caso, tornarase claro que a condenação (em Cl.2:16) do sabatismo judaico nada tem a ver com a observância do dia do Senhor. Essas, em esboço, eram as considerações feitas pelos puritanos, com base

quando os homens, tendo devidamente preparado os seus corações e de antemão ordenado os seus negócios ordinários, não só guardam, durante todo o dia, um santo descanso das suas próprias obras, palavras e pensamentos a respeito dos seus empregos seculares e das suas recreações, mas também ocupam todo o tempo em exercícios públicos e particulares de culto e nos deveres de necessidade e misericórdia. Ref. Ex. 16:23-26,29:30, e 31:15-16;
Isa.58:13.
J. I. Packer

Catecismo Maior de Westminster
P.116 → Que se exige no quarto mandamento?
O quarto mandamento exige de todos os homens o santificar ou o guardar santos para Deus todos os tempos especificados que Deus designou em Sua Palavra, expressamente um dia inteiro em cada sete; que era o sétimo desde o princípio do mundo até à ressurreição de Cristo, e o primeiro dia da semana desde então até ao dia de hoje, e há de assim continuar até ao fim do mundo; o qual é o sábado cristão, e no Novo Testamento é chamado o dia do Senhor (Domingo).
Ref. Gn. 2:3; 1 Co. 16:2; At. 20:7: Jo. 26:19, 26: Ap. 1:10.

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A Natureza da Verdadeira Adoração
Jesus respondeu, e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus (João 3:3)
Geoffrey Thomas
Pai. Disse Jesus: “os verdadeiros adoradores adoram o Pai”. Naturalmente, o Pai só pode ser adorado através do Filho e o objeto da nossa adoração é a divindade como um todo: Pai, Filho e Espírito Santo. Certamente nós adoramos a Jesus, mas é errado adorarmos somente a Jesus e torná-lo o centro de nossa adoração, negligenciando ao Pai.

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40:3).

A verdadeira adoração é prestada a Deus somente por aqueles que nasceram do Espírito de Deus.

“Aquele que é nascido da carne, é carne”, disse

Jesus e, portanto, toda assim chamada adoração feita por pecadores não regenerados é carnal. Somente um coração regenerado pode cantar o novo cântico (Salmo

2. A verdadeira adoração só pode ser realiza- cilmente pensa em Deus durante os seis dias da semana, da através do Espírito Santo → “Os verdadeiros não está apto a adorá-lo corretamente no sétimo dia. Se adoradores adoram o Pai em espírito” disse Jesus e, por- tal pessoa fala o quanto está se “regozijando” na adotanto, unicamente através da iluminação que o Espírito concede às nossas mentes, e os sentimentos dela produzidos em nossos corações é que a nossa adoração pode ser edificante para nós e agradável a Deus. Os dons de liderança concedidos pelo Espírito a pastores e mestres são uma parte essencial de adoração pública. ração, alguma coisa está errada com ele! Ele está se entretendo ou está recebendo aquela vaga sensação de desafio que o homem natural desfruta. Por outro lado, em meio à verdadeira adoração, tal pessoa deveria sentir quanto está afastada de Deus e sentir uma tristeza santa por sua negligência com a glória do Senhor.

5. A verdadeira adoração surge a partir de um contínuo andar com Deus → Um homem que difi-

3. A verdadeira adoração é estruturada pelas Escrituras → “Os verdadeiros adoradores adoram... em verdade”, disse Jesus. A Bíblia nos revela o Deus a Quem devemos adorar e como devemos fazê-lo: “com reverência e santo temor”. As Escrituras produzem a atmosfera e
fornecem os temas, as orações, os louvores e a pregação. Dessa forma, possuímos um padrão para conhecer o que é certo e o que é errado em tudo o que é falado e cantado. Desfrutamos, também, uma maravilhosa liberdade de todas as tradições e artefatos que são introduzidos por homens não espirituais, na inútil tentativa de “tornar” a adoração mais “importante” e “significativa”. A verdadeira adoração é essencialmente simples.

6. A verdadeira adoração requer preparação →
Um homem não pode simplesmente achegar-se à presença de Deus sem qualquer preparação de coração e alma e esperar, então, por uma “adoração instantânea”. Davi disse: “Ao meu coração me ocorre: buscai a minha

presença; buscarei, pois, Senhor, a Tua presença”. (Sl.
27:8). A verdadeira adoração, no dia do Senhor, surge de uma mente preparada para Deus, encorajada por uma oração ardorosa pela bênção do Senhor sobre a noite do sábado e a manhã do dia do Senhor.

7. A verdadeira adoração deveria ser acompanhada pela meditação → Eis por que exortamos as
pessoas a cuidarem da maneira pela qual empregam o seu tempo após o término do culto. Todo o proveito advindo da exposição e aplicação da Palavra de Deus pode ser destruído. A graça é uma planta delicada, pode ser facilmente danificada. Se quisermos aproveitar da

4. A verdadeira adoração é centralizada em Deus → Não é centralizada na “inspiração”, tampouco nos
sentimentos; nem mesmo é centralizada em Jesus ― não somos adoradores só de Jesus. Ela se centraliza no

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GeOffRey thOMas

adoração prestada, isso deve ser feito por meio de uma tentativa verdadeira de reter a principal lição da pregação.

fazer algo inesperado. Não, eles não devem concentrar-se muito nos meios de adoração; seus pensamentos devem estar centralizados em Deus. A verdadeira adoração é caracterizada pelo esquecimento de si mesmo e ausência de qualquer concentração no homem. O publicano permaneceu em pé, distante, abaixou sua cabeça e orou: “Ó Deus,

voravelmente com os argumentos bem construídos e confiantes, acoplados com a reverência constante observados nas orações das gerações anteriores.

8. A verdadeira adoração é sempre um produto e uma perspectiva da grandeza de Deus e da nossa pequenez → O profeta Isaías vê a grandeza de Deus e clama: “Ai de mim! Estou perdido! porque sou homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos!” (Is.6:5).
João, na ilha de Patmos, vê o Senhor e nos diz: “Quando o vi, caí a seus pés,

10. A verdadeira adoração tem seu clímax no dia do Senhor → A liberdade que o povo de Deus desfruta sob a nova aliança não lhes dá o direito de se reunirem somente quando se sentirem conduzidos ou dirigidos a fazê-lo. Na Igreja apostólica, a adoração tinha períodos pré-determinados para ocorrer. No primeiro dia da semana eles se reuniam para partir o pão, ouvir a Palavra de Deus e recolher as ofertas (Atos 20:7; I Co.16:2). Mesmo que eles não sentissem o mesmo ânimo para realizar essas coisas naquele dia e se sentissem mais inclinados às coisas religiosas no terceiro dia, por exemplo, era no primeiro dia que eles deviam reunir-se para adorar. O mesmo pode ser dito hoje. Nós não somos “Adventistas do quinto dia”, daqueles que se reúnem na quinta feira à noite e nos orgulhamos das bênçãos maravilhosas e da fantástica comunhão quando o Senhor “realmente” se reúne com dez de nós. Não, nós devemos reunir-nos no Espírito no dia designado, o dia do Senhor e com todo o povo de Deus.
Em 1994, Geoffrey Thomas era pastor da Igreja Batista Alfred Place Baptist Church em Aberystwyth, Pais de Gales. Ele também trabalhava como editor Assistente da Banner of Truth e do The Evangelical Times (Banner of Truth – Nº 153, junho/1976). *Artigo publicado no Jornal Os Puritanos, Ano II – Nº 5 – Setembro/Outubro - 1994

sê misericordioso comigo, pecador”. Em
nossos cultos, dirigidos pelas Escrituras e dependentes de Cristo, estamos verdadeiramente adorando a Deus; não deixamos simplesmente que as coisas caminhem, mas unicamente queremos adorar; nós adoramos o Deus vivo em espírito e em verdade, sabendo que o Pai está buscando ativamente tais pessoas que o adorem! Nós não cremos que todas essas novas ênfases na espontaneidade e na condução da adoração por homens, mulheres e jovens nos estejam levando a uma conscientização maior sobre Deus e à verdadeira adoração. Pelo contrário, existem abundantes evidências de que a adoração se encontra em declínio. Consideremos, por exemplo, a mudança em nosso modo de nos dirigirmos a Deus, o que tem ocorrido nos últimos vinte anos. Será que isso representa um progresso e um amadurecimento no culto e oração públicos? O que será que significa essa nova linguagem utilizada para orarmos: “Nós só queremos te adorar, Te louvar”; “Somente a Ti, Jesus, queremos adorar”? As frases truncadas e curtas podem ser comparadas desfa-

como morto” (Ap.1: 17). Qualquer coisa
de novo que introduzimos na adoração, que não tenha como objetivo exaltar a Deus é simplesmente uma concessão ao desejo por novidade que, caracteriza todos os homens naturais.

9. A verdadeira adoração sempre é aceita por Deus → Devemos ser muito cuidadosos para não abrigar pensamentos que inferiorizam a nossa adoração! Expressões depreciativas, tais como aquelas que descrevem a adoração como um “sanduíche de hinos”, somente encorajam a atitude que revela que nossa adoração é formal, exterior e sem liberdade e que, se nós estivéssemos realmente adorando, então deveríamos ter barulho, liderança espontânea e excitação. Na realidade, na verdadeira adoração, as pessoas não ficam sempre sentadas na ponta dos bancos imaginando quem será o próximo a dizer ou

P.103 → Que é que Deus requer no quarto mandamento?
Primeiro, que o ministério do Evangelho e as escolas cristãs sejam mantidas1 e que eu, especialmente no dia de descanso, seja diligente em ir à igreja de Deus2 para ouvir à Palavra de Deus3, participe dos sacramentos4, para invocar publicamente ao Senhor5 e para praticar a caridade cristã para com os necessitados6. Segundo, para que em todos os dias da minha vida eu cesse as minhas más obras, deixe o Senhor operar em mim por Seu Espírito Santo, e assim começar nesta vida o descanso eterno7.
1. Dt 6.4-9; 20-25; 1Co 9.13, 14; 2Tm 2.2; 3.13-17; Tt 1.5. 2. Dt 12.5-12; Sl 40.9, 10; 68.26; At 2.42-47; Hb 10.23-25. 3. Rm 10.14-17; 1Co 14.2633; 1Tm 4.13. 4. 1Co 11.23, 24. 5. Cl 3.16; 1Tm 2.1. 6. Sl 50.14; 1Co 16.2; 2Co 8; 9. 7. Is 66.23; Hb 4.9-11..

Catecismo de Heidelberg

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O Supremo Triunfo de Cristo
“Ditas estas palavras, foi Jesus elevado às alturas, à vista deles, e uma nuvem o encobriu dos seus olhos” (Atos 1:9)
John R. de Witt
― Cristo está sendo elevado ― para o céu na presença dos seus discípulos. Em vista aqui, está uma transição o Novo Testamento, nem de longe se fala da ascensão o tanto que se fala da ressurreição de Cristo. A ressurreição é o grande foco do ensino local. Cristo esteve com os seus discípulos. Jesus falou com eles. Cristo passou aproximadamente trinta e três anos nesta terra, mas agora Ele está conosco não mais naquele literal e físico sentido da palavra. Ele foi elevado ao céu, recebido na presença do seu Pai e nosso Pai. Do monte chamado das Oliveiras onde Ele e seus discípulos se encontravam, foi tomado, recebido para dentro do céu. “E uma nuvem o encobriu dos seus olhos” (Atos 1:9). Frequentemente nas escrituras “nuvem” ou “nuvens”, podem ser mencionadas em relação a Deus e à sua majestade e glória. No Antigo Testamento quando Deus mostrava-se para o seu povo ele frequentemente fazia isto por intermédio de uma nuvem. Deus guiou Israel através do deserto naqueles longos e fatigantes anos do seu vaguear, por meio de uma coluna de nuvem durante o dia e uma coluna de fogo durante a noite. Quando Deus se mostrou presente na dedicação do tabernáculo no deserto, a nuvem, a glória, a shekkinah (a manifestação da presença do ser divino) cobriu o lugar e depois disso permaneceu acima da Arca da Aliança no Santo dos Santos. Depois, foi-nos dito também, que quando o Senhor Jesus Cristo foi transfigurado, quando algo da sua glória suprema brilhou através da sua natureza humana, Ele e seus discípulos com Ele foram envolvidos numa nuvem. Então, da nuvem Deus disse: “Este é o meu filho amado

N
nós.

do Novo Testamento. A sua ressurreição dos mortos selou tudo o que ele fizera em obediência ao Pai. Porrealizou de fato aquilo a que se propusera. Mas o Novo que Cristo se levantou da sepultura, sabemos que ele

Testamento fala muito especificamente da ascensão do Senhor aos céus. Devemos tentar compreender um pouco do que a ascensão pode e deve significar para Além disso, pode-se dizer que a ressurreição e a ascensão são da mesma categoria, são uma única peça de tecido, e não podem ser facilmente separadas. F.F. Bruce, em seu comentário sobre Atos, disse:
“Na pregação apostólica a ressurreição e ascensão de Cristo parecem representar um movimento contínuo e ambos juntamente constituem sua exaltação. Mas essa exaltação à mão direita de Deus, aquilo que o Dia da Ascensão de Jesus Cristo de fato comemora [no calendário litúrgico católico], não foi adiada para o quadragésimo dia após seu triunfo sobre a morte”.

A verdade é que o Senhor não entrou primeiro na presença do Pai, não foi primeiro assentado à mão direita do Pai, no dia exato da ascensão. Conquanto Ele estivesse com seus discípulos durante os quarenta dias entre a ressurreição e a ascensão, a maior parte desse período foi passada noutro lugar. Mas como devemos entender esse “outro lugar”? Talvez o Senhor estivesse recolhido num aposento em algum lugar da terra ― numa caverna, numa casa segura, num túmulo? Ele estava e com toda a certeza estivera na presença do seu Pai e à sua mão direita, já exaltado ao mais alto grau. Você observará imediatamente, do que Lucas nos conta nesta passagem, que a ascensão é a subida visível

em quem me comprazo” (Mc. 17:5). Depois há a segunda
vinda: “Eis que vem com as nuvens, e todo o olho o verá,

até quantos o transpassaram. E todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele. Certamente, amém!” (Ap. 1:7).
Podemos entender de que as Escrituras nos falam nestas passagens e em muitas outras, que “nuvem” em relação a Deus, fala de glória, grandeza e majestade. “Nuvem”, nestas circunstâncias, pode ser teofania. E quando nos é dito que o Senhor Jesus foi recebido fora

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JOhn R. De Witt

da sua vista por uma nuvem, não devemos entender que Ele subiu até que passou a barreira fornecida pelas nuvens e depois continuou indo para cima até que seus discípulos não mais puderam vê-Io mas, ao contrário, que Ele foi recebido na glória celestial. Deus, o Pai, tornou-o à si uma vez mais Deus O Filho, e assentou-o à sua própria mão direita com toda a majestade e glória devidas a Ele como Mediador e como Rei. A ascensão é a festa da entronização do nosso Rei Mediador, da sua exaltação para o lugar de honra e preeminência à mão direita de Deus Pai. Mas agora, em segundo lugar, um outro problema tem de ser tratado aqui com relação à ascensão do Senhor Jesus Cristo por causa de um possível mal-entendido ou de uma má interpretação. Neste sentido dois problemas podem levantar-se em nossas mentes ao pensarmos neste ser recebido na glória. O primeiro deles é este: Por que o Senhor precisava de qualquer argumentação de sua majestade quanto a que a ascensão lhe deu? Não era Ele desde a eternidade o próprio Filho de Deus? Quem pode acrescentar qualquer coisa à sua dignidade e poder? “No principio

Mas, se isto é verdade, se Ele está conosco de acordo com sua própria promessa, e mesmo até o fim do mundo, então que devemos entender da ascensão? A ascensão, na natureza do caso, significa que Ele foi levado de nós, que Ele não está mais conosco, que não mais podemos falar com Ele como os seus discípulos eram acostumados a fazer. Ele foi embora. Nós, porém, precisamos compreender muito claro e cuidadosamente em nossas próprias mentes que a ascensão não fala do aumento da glória e majestade dadas ao Senhor Jesus Cristo como a segunda pessoa da Trindade ou de qualquer mudança em seu ser. Da mesma forma devemos entender claramente que a ascensão não significa que, quanto à sua deidade, o Senhor Jesus Cristo, a despeito da sua própria promessa em contrário, não mais está conosco. O que está em jogo aqui é nossa compreensão da exaltação da pessoa do mediador que não é apenas Deus, mas também homem. Ele é o homem-Deus. Ele é Emanuel. E Emanuel significa “Deus conosco” ou “Deus que está conosco”. Ele tomou para si mesmo a nossa natureza. Ele é o eterno Filho de Deus, e é completamente apropriado que devamos nos dirigir a Ele como a deidade. “Meu Senhor e meu Deus” disse-lhe Tomé (Jo 20:28). Mas Ele é também um de nós. Ele é um homem. Ele assumiu nossa natureza. Jesus tem um corpo. Esse corpo está agora glorificado realmente; mas não é menos que um corpo por conta disso. E a transição local que teve lugar; e a subida da terra para o céu da pessoa do Mediador,

fala, portanto, da exaltação dessa pessoa no sentido de que nossa natureza foi glorificada e elevada à posição de honra à mão direita de Deus. Mas, o Senhor Jesus Cristo quanto à sua deidade, sendo Deus como o é, e por essa razão, onipresente, está sempre conosco como prometeu que estaria. Agora vamos refletir um pouquinho sobre o que isto significaria. A ascensão não é meramente uma doutrina que pode interessar aos especialistas no campo da Teologia Sistemática e que não nos toca ou move. Ao contrário, a ascensão do nosso Senhor relaciona-se com a minha experiência e com a sua.

É uma grande coisa ter um amigo na corte, um que pode falar por nós

1. Devemos compreender imediatamente que a ascensão fala da aceitabilidade à vista do Pai, da obra que o seu Filho realizou → O
Salvador completou sua incumbência mediatória e o Pai elevou-o para suprema dignidade e honra. Porque Deus altamente o exaltou, e deu-lhe um nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus todo joelho deverá se dobrar; nos céus, na terra e debaixo da terra, e que toda língua confessará que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai (Fp. 2:9-11). Eu digo que a ascensão é um atestado de aceitabilidade da sua obra redentiva. Que Ele ascendeu e que governa da sua posição de dignidade à mão direita do Pai e deve significar para nós que Deus agradou-se do que Ele fez. O que Ele nos diz no evangelho, no Novo Testamento, na palavra que vem para nós de redenção, a qual é nossa em e através do seu sangue, é verdadeiro. Nós podemos depender dela.

era o verbo, e o verbo estava com Deus, e o verbo era Deus” (Jo 1:1). Desde a eternidade, por definição, na natureza do caso, Ele já tem todo poder e toda glória. O outro, o segundo problema, é simplesmente este: Antes da sua ascensão Ele mesmo prometeu aos seus discípulos:

2. A ascensão de Cristo significa que nós temos um porta-voz na presença de Deus o Pai → É uma
grande coisa ter um amigo na corte, um que pode falar por nós. Deixados por nós mesmos na sala-do-trono de

“E eis que estou convosco todos os dias até à consumação dos séculos” (Mt. 28:20).

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O suPReMO tRiunfO De cRistO

Deus, tendo de responder por tudo que temos feito e tudo o que temos falhado em fazer, nós estaríamos sem voz e sem defesa. Devemos ser cuidadosos a respeito de orar por justiça. Você pede justiça? Deus proíbe que a justiça deve ser feita a mim, pois nesse caso eu devo perecer totalmente e estar para sempre coberto de vergonha e confusão na face. A justiça não é feita a mim a não ser no sentido de que a própria justiça santa de Deus foi satisfeita através da morte, sepultamento e ressurreição do Senhor Jesus Cristo. Daí, eu não tenho que temer na sala do tribunal, a sala do trono de Deus. É uma coisa maravilhosa saber da presença de Cristo ao meu lado, ali. Quando eu tropeço e caio no pecado, quando eu cometo erros, quando eu falho em fazer o que devia, e quando eu faço o que não devia, eu O tenho ali. Aquele que faz intercessão por mim, Aquele que fala a meu favor e cuja influência é infinita porque Ele próprio é o Filho de Deus. O Senhor está ao lado de seu Pai para nos representar e interceder por nós: “Eis que estou convosco sempre”. Ele quis que soubéssemos que, muito embora esteja à mão direita do nosso Pai celestial e não fisicamente conosco, Ele está ali como nosso Mediador e nosso Rei. Por conta disso podemos dormir à noite, podemos levantar dia após dia

e começar nosso trabalho novamente com consciências lavadas e limpas e com coração cheio de grande regozijo. Não importa quão escuro esteja o céu, não importa quão problemática a vida possa nos parecer algumas vezes, não importa quão repleta de dificuldades e com problemas aparentemente insolúveis, há vitória porque o Senhor Jesus Cristo reina à mão direita do Pai.

está dizendo para você? Ele está assegurando a você ― você que crê nele e cuja vida tem sido transformada pelo seu poder ― que porque Ele está lá como ascendeu, o que vive e reina, você também estará lá um dia.

4. A ascensão de Cristo significa que Ele nos enviou o seu Espírito Santo → Dez dias depois da ascensão
ocorreu o Pentecostes. A Igreja recebeu o dom do Espírito Santo em poder. O próprio Senhor disse em tantas palavras que sua ascensão significava ao mesmo tempo o dom do Espírito Santo:

3. A ascensão de Cristo significa que a ressurreição, que agora ainda está em perspectiva para nós, também já nos é uma realidade em princípio → porque o nosso Salvador é, mesmo agora, como nós seremos

“Mas eu vos digo a verdade: Convémvos que eu vá, porque, se eu não for, o um dia. Quando Ele levantou-se dentre consolador não virá para vós outros; se os mortos, Ele assim o fez, não como um porém eu for, eu vo-lo enviarei”. (João
espírito desincorporado, mas em carne e osso (Lc. 24:39). Agora Ele ascendeu aos céus. Além disso, Jesus provou que ainda tinha um corpo, um corpo glorificado mesmo quando comeu peixe e mel 16:7). Assim o Senhor, por meio de sua ascensão, deu-nos uma garantia de que nós teremos a capacitação da qual necessitamos. Ser-nos-á dado o comissionamento que devemos ter, se teremos de fazer sua obra. O Espírito Santo dá vida nova; Ele é o autor da regeneração; Ele é o capacitador do povo de Deus; Ele é aquele que toma a mensagem do evangelho e a comprova de maneira convincente. Veja a ligação, a inelutável ligação, entre a ascensão, por um lado, e o dom do Espírito Santo, por outro lado.
John R. de Witt

(Lc. 24:41-43). Agora Ele ascendeu aos céus e está à mão direita do nosso Pai celestial. Ele está lá como o testemunho, o atestado, a evidência de que nós, um dia igualmente, estaremos lá. Não deixe que o seu coração se perturbe: Vós credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas: se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Eu vou preparar-vos lugar (Jo 14:1-3). Você ouve o que Ele

A Confissão de Fé Escocesa
10º Capítulo
A Ressurreição → Visto que era impossível que as dores da morte pudessem reter cativo o Autor da vida,1 cremos sem nenhuma dúvida que nosso Senhor Jesus Cristo foi crucificado morto e sepultado, o qual desceu ao inferno, ressuscitou para nossa justificação2 e para a destruição daquele que era o autor do pecado, e nos trouxe de novo a vida, a nós que estávamos sujeitos à morte e ao seu cativeiro 3. Sabemos que sua ressurreição foi confirmada pelos testemunhos de seus inimigos4 e pela ressurreição dos mortos, cujos sepulcros se abriram e eles ressuscitaram e apareceram a muitos dentro da cidade de Jerusalém,5 e que foi também confirmada pelos testemunhos dos anjos,6 pelos sentidos e pelo julgamento dos apóstolos e de outros que privaram com ele e com ele comeram e beberam depois da sua ressurreição 7.
1. At 2:24.; 2. At 3:26; Rm 6:5, 9; 4:25.; 3. Hb 2:14-15; 4. Mt 28:4.; 5. Mt 27:52-53; 6. Mt 28:5-6; 7. Jo 20:27; 21:7,12-13; Lc 24:41-43.

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A Escolha da Pessoa do Nosso Redentor
Quando Deus designou a redenção da humanidade, Sua grande sabedoria revelou-se no fato de que Ele mesmo determinou que o Seu Único Filho fosse a pessoa que executaria essa tarefa. Ele era o redentor escolhido pelo próprio Deus e, por essa razão, é chamado nas Escrituras de “O Escolhido de Deus” (Is 42.1). A sabedoria na escolha dessa Pessoa se manifesta no fato dEle ser, em todos os aspectos, a pessoa mais apropriada para executar essa tarefa. Era necessário que a pessoa do Redentor fosse uma pessoa divina. Ninguém, senão um ser divino era competente o suficiente para essa grande obra. Ela era totalmente inadequada para qualquer outra criatura. Era imprescindível que o Redentor dos pecadores fosse infinitamente santo em si mesmo. Ninguém poderia remover a infinita maldade do pecado, senão alguém que fosse infinitamente separado do pecado e contra o pecado. E em relação a esse aspecto, Cristo é a pessoa

mais adequada para ser o Redentor.
Para que a pessoa fosse competente o suficiente para realizar essa tarefa, era imprescindível que ela fosse uma pessoa infinitamente digna e excelente e pudesse ser merecedora de infinitas bênçãos. E em relação a esse aspecto, o Filho de Deus é pessoa mais adequada. Era necessário que essa pessoa fosse alguém com sabedoria e poder infinitos, pois essa era uma obra tão difícil que exigia alguém com esses atributos. E em relação a esse aspecto, Cristo é a pessoa mais adequada para ser o Redentor. Era imprescindível que essa pessoa fosse muito amada por Deus Pai para que Ele concedesse um valor infinito ao acordo feito entre os dois, devido a Sua estima por essa pessoa, de modo que o amor do Pai por essa pessoa pudesse equilibrar a ofensa e a provocação causada pelos nossos pecados. E em relação a esse aspecto, Cristo é a pessoa mais adequada para

ser o Redentor. Somos aceitos pelo Pai, “no Amado” (Ef 1.6).
Era imprescindível que essa pessoa fosse alguém com autoridade absoluta para agir por si mesmo; alguém que não fosse um sevo ou um súdito, pois alguém que não pudesse agir por sua própria autoridade não teria valor algum. Aquele que fosse um servo e não pudesse fazer nada além do que aquilo que era obrigado a fazer não seria digno para essa tarefa. E aquele que não possuía coisa alguma que não fosse absolutamente sua não poderia pagar o preço da redenção de outro.

E em relação a esse aspecto, Cristo é a pessoa mais adequada para ser o Redentor. Ninguém, senão um ser divino poderia
ser adequado para ser esse Redentor. Essa pessoa deveria ser alguém que possuísse misericórdia e graça infinitas, pois nenhuma outra pessoa, senão alguém como Ele, poderia realizar uma obra tão difícil em prol de uma criatura tão indigna quanto o homem. E em relação a esse aspecto, Cristo é a pessoa mais adequada para ser o Redentor. Era imprescindível que essa pessoa possuísse verdade e fidelidade perfeitas e imutáveis. Caso contrário, não seria uma pessoa adequada, de quem poderíamos depender para realizar tamanha tarefa. E em relação a esse aspecto, Cristo é a

pessoa mais adequada para ser o Redentor.
A sabedoria de Deus em escolher Seu Filho Eterno se manifesta não somente no fato dEle ser a pessoa mais adequada, mas também no fato dEle ser a única Pessoa adequada dentre todas, quer criadas ou não. Nenhum ser criado ― quer fosse homem, quer fosse anjo ― era adequado para realizar essa tarefa… Isso revela a sabedoria divina em saber que Cristo era a pessoa adequada. Nenhum outro, senão Aquele que possui a sabedoria divina poderia conhecer esse fato. Nenhum outro, senão Aquele que possui a sabedoria divina poderia pensar em Cristo para ser o Redentor dos pecadores. Pois, visto que Cristo também é Deus, Ele é uma das Pessoas contra Quem o homem pecou e que foi ofendida pelo pecado de rebelião do homem. Quem, senão o Deus infinitamente sábio poderia pensar em Cristo para ser o Redentor de pecadores que haviam pecado contra Ele, os quais eram Seus inimigos e mereciam o mal infinito de Suas mãos? Quem poderia pensar nEle como Aquele que colocaria o Seu coração no homem e teria amor e compaixão infinitos por ele, exibindo sabedoria, poder e merecimento infinitos pela redenção do homem?

Jonathan Edwards

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A Piedade nas Ordenanças
As ordenanças fortalecem nossa fé, ajudando-nos a nos oferecermos como um sacrifício vivo a Deus
Dr. Joel Beeke
Como crentes, precisamos constantemente de alimento. Nunca atingimos um ponto em que não precisamos mais ouvir a Palavra, ou orar ou ser nutridos pelas ordenanças. Temos de crescer e desenvolver permanentemente. Visto que continuamos a pecar, porque portamos uma natureza pecaminosa, temos necessidade constante de perdão e graça. Assim, a Ceia do Senhor, juntamente com a pregação da Palavra, nos diz vez após vez: precisamos de Cristo, precisamos ser renovados em Cristo, edificados nEle. As ordenanças prometem que Cristo está presente para receber-nos, abençoar-nos e renovar-nos. Para Calvino, a palavra conversão não significava apenas o ato inicial de vir à fé; também significava renovação e crescimento diário no seguir a Cristo. As ordenanças nos guiam a esta conversão diária. Elas nos dizem que precisamos da graça de Cristo todos os dias. Temos de obter forças em Cristo, especialmente por meio do corpo sacrificado na cruz em nosso favor. Calvino escreveu: “Visto que a eterna Palavra de Deus é a fonte da vida, a carne de Cristo é o canal que derrama sobre nós a vida que reside intrinsecamente em sua divindade. Na carne de Cristo foi realizada a redenção do homem; nela, foi oferecido um sacrifício para expiar o pecado, e uma obediência foi rendida a Deus, a fim de reconciliá-Lo conosco. A carne de Cristo estava cheia da santificação do Espírito Santo. Finalmente, tendo vencido a morte, Cristo foi recebido na glória celestial”.4 Em outras palavras, o Espírito santificou o corpo de Cristo, que Ele ofereceu na cruz como expiação pelo pecado. Aquele corpo foi ressuscitado dentre os mortos e recebido no céu. Em cada etapa de nossa redenção, o corpo de Cristo é o caminho para Deus. Na Ceia do Senhor, Cristo vem ao nosso encontro e diz: “Meu corpo ainda é dado em favor de vocês. Pela fé, vocês podem ter comunhão comigo e receber o meu corpo e todos os seus benefícios salvíficos”.

C

alvino define as ordenanças como testemunhos sinal exterior, com atestação mútua de nossa pie-

“da graça divina para conosco, confirmada por um

dade para com Ele”.1 As ordenanças são “exercícios da piedade”. As ordenanças fortalecem nossa fé, ajudandoPara Calvino, assim como para Agostinho, as ordenanças são a Palavra visível. A Palavra pregada nos alcança pelos ouvidos; a Palavra visível, pelos olhos. As ordenanças mostram o mesmo Cristo apresentado na Palavra pregada, comunicando-O de um modo diferente. Nas ordenanças, Deus se acomoda à nossa fraqueza. Quando ouvimos a Palavra pregada indiscriminadamente, podemos indagar: isto é realmente para mim? Isto se aplica a mim? No entanto, nas ordenanças Deus nos atinge e toca de modo individual, dizendo: “Sim, é para você. A promessa se estende a você”. Assim, as ordenanças ministram à nossa fraqueza, tornando pessoais as promessas, para aqueles que crêem em Cristo para a salvação. Nas ordenanças, Deus vem ao seu povo, encoraja-o, capacita-o a conhecer a Cristo, edifica-o e o alimenta nEle mesmo. O batismo promove a piedade como um símbolo do fato de que os crentes estão enxertados em Cristo, que são renovados pelo Espírito e adotados na família do Pai celestial.2 De modo semelhante, a Ceia do Senhor mostra como esses filhos adotados são alimentados por seu Pai amoroso. Calvino gostava de referir-se à Ceia do Senhor como a nutrição para a alma. “Os sinais são o pão e o vinho que representam para nós o alimento invisível que recebemos da carne e do sangue de Cristo”, ele disse. “Cristo é o único alimento de nossa alma; portanto, o Pai celestial nos convida a vir a Cristo, para que, renovados pelo partir dEle, obtenhamos forças, repetidas vezes, até que cheguemos à imortalidade celestial”.3 nos a nos oferecermos como um sacrifício vivo a Deus.

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JOel Beeke

Calvino ensinava que, na Ceia, Cristo não nos dá apenas os seus benefícios, Ele se dá a Si mesmo e os seus benefícios, assim como o faz na pregação da Palavra. Cristo também nos torna parte de seu corpo, quando se dá em nosso favor. Calvino não podia explicar com exatidão como isso acontece na Ceia do Senhor, pois isso é mais fácil de ser experimentado do que de ser explicado.
20

fim alimentar nosso corpo físico, assim também a nossa alma recebe, pela fé, o corpo e o sangue de Cristo para alimentar nossa vida espiritual. Quando temos comunhão com Cristo por meio das ordenanças, crescemos em graça. Essa é a razão por que as ordenanças são chamadas de meios de graça. As ordenanças nos estimulam em nosso progresso em direção ao céu. Promovem confiança nas promessas de Deus, por meio da morte redentora de Cristo, “significada e selada”. Visto que as ordenanças são alianças, elas contêm promessas pelas quais “a consciência pode ser despertada à segurança de salvação”, disse Calvino.8 O Espírito capacita o crente a “ver” a Palavra gravada nas ordenanças e receber a “paz de consciência” que lhe é oferecida nas ordenanças.9 Finalmente, as ordenanças promovem a piedade por nos motivarem a agradecer e louvar a Deus por sua graça abundante. As ordenanças também exigem que “confirmemos nossa piedade para com Ele”. Como disse Calvino: “O Senhor traz à nossa memória a grande generosidade de sua bondade e nos inspira a reconhecê-la; e, ao mesmo tempo, nos adverte a não sermos ingratos em relação a tão profusa liberalidade; antes, devemos proclamar com louvores adequados e celebrar [a Ceia do Senhor] dando-Lhe graças”. 10 Duas coisas acontecem na Ceia do Senhor: o receber de Cristo e o renderse do crente. Do ponto de vista de Deus, a Ceia não é eucarística — disse Calvino, pois Cristo não é oferecido novamente. Tampouco é eucarística em termos dos méritos do homem, pois não podemos oferecer nada a Deus como sacrifício. No entanto, a Ceia é eucarística em termos de nossas ações de graça.11 Esse sacrifício é uma parte indispensável da Ceia do Senhor, que inclui “todos os deveres de amor”.12 A Ceia é uma festa

uns aos outros e testemunham os laços que desfrutam com os outros crentes na unidade do corpo de Cristo.13 Oferecemos esse sacrifício de gratidão em resposta ao sacrifício de Cristo por nós. Rendemos nossa vida em resposta ao banquete celestial que Deus coloca diante de nós, na Ceia. Pela graça do Espírito, a Ceia do Senhor nos capacita, como um sacerdócio real, a nos oferecermos como um sacrifício vivo de louvor e gratidão a Deus.14 A Ceia do Senhor nos impulsiona tanto à piedade da graça como à da gratidão, como mostrou Brian Gerrish.15 A liberalidade do Pai e a resposta de gratidão da parte de seus filhos são um tema recorrente na teologia de Calvino. “Devemos reverenciar grandemente esse Pai, com piedade grata e amor intenso”, Calvino nos adverte, “a ponto de nos dedicarmos totalmente a obedecer-Lhe e a honrá-Lo em tudo”.16 A Ceia do Senhor é a dramatização litúrgica da graça e da gratidão, que estão no âmago da piedade.17 Na Ceia do Senhor, o elemento humano e o divino da piedade são mantidos em tensão dinâmica. Nesse intercâmbio dinâmico, Deus se move em direção ao crente, enquanto o Espírito Santo consuma a união fundamentada na Palavra. Ao mesmo tempo, o crente se move em direção a Deus, por contemplar o Salvador que o revigora e fortalece. Nisso, Deus é glorificado, e o crente, edificado.18
Extraído do livro Vencendo o Mundo, Dr. Joel Beeke, Editora FIEL, pgs. 57-62 Notas: 1. Institutes. 4.14.1; 2. Institutes. 4.16.9. Ver também: WALLACE, Ronald S. Calvin’s doctrine of the Word and sacrament. London: Oliver and Boyd, 1953. p. 175-183. OLD, H. O. The shaping of the reformed baptismal rite in the sixteen century. Grand Rapids: Eerdmans, 1992. 3. Institutes. 4.17.812. 4. Ibid. 5. Institutes. 4.17.24,33. 6. Institutes. 4.17.12. 7. C0. 9:47,522. 8. Institutes. 4.14.18. 9. Commentary, 1 Coríntios 11.25. 10. Commentary, Mateus 3.11; Atos 2.38; 1 Pedra 3.21. 11. OS. 1:136, 145. 12. Institutes. 4.18.3. 13. Institutes. 4.18.17. 14. Institutes. 4.17.44. 15. Institutes. 4.18.13. 16. CALVIN’S eucharistic piety. In: FOXGROVER, David. The legacy of John Calvin. Grand Rapids: CRC, 2000. p. 53. 17. OS. 1:76. 18. GERRISH, Brian A. Grace and gratitude: the eucharistic theology of John Calvin. Minneapolis: Fortress Press, 1993. p. 19-20. 19. GREVE, Lionel. Freedom and discipline in the theology of John Calvin, William Perkins, and john Wesley: an examination of the origin and nature of pietism. Dissertação (Ph. D). 1975. f. 124¬-125. Hartford Seminary Foundation, 1975.

No entanto, Calvino não disse que Cristo deixa o céu para entrar no pão. Pelo contrário, na Ceia do Senhor somos chamados a elevar nosso coração ao céu, onde Cristo está, e a não nos prendermos ao pão e ao vinho externos. Somos elevados ao céu mediante a obra do Espírito Santo em nosso coração. Conforme disse Calvino: “Cristo está ausente de nós no que se refere ao seu corpo; mas, habitando em nós por meio do seu Espírito, Ele nos eleva ao céu, ao encontro dEle mesmo, transmitindo-nos o poder vivificador de sua carne, assim como os raios de sol nos revigoram por meio de seu calor vital”.5 Participar da carne de Cristo é um ato espiritual, e não um ato carnal que envolve uma “transfusão de substâncias”.6 As ordenanças podem ser vistas como escadas pelas quais ascendemos ao céu. “Porque somos incapazes de voar suficientemente alto para nos aproximarmos de Deus, Ele nos ordenou as ordenanças, como escadas”, disse Calvino. “Se um homem deseja pular até às alturas, quebrará seu pescoço na tentativa; mas, se ele tem escadas, será capaz de prosseguir com confiança. De modo semelhante, se temos de chegar ao nosso Deus, temos de usar os meios que Ele instituiu, visto que Ele sabe o que é adequado para nós. Deus nos deu esse maravilhoso amparo, encorajamento e vigor em nossa fraqueza”.7 Nunca devemos adorar o pão, porque Cristo não está no pão. Antes, encontramos a Cristo por meio do pão. Assim como nossa boca recebe o pão a

agape em que os comungantes animam

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A Igreja — Agente da Evangelização
Incontestavelmente, a Igreja cristã é a agente que Deus designou para a obra de evangelização
R. B. Kuiper
(Mateus 16.19; 18.18), autorizando-os deste modo a formular as condições para a relação de membros da ncontestavelmente, a Igreja cristã é a agente que Deus designou para a obra de evangelização. Contudo, ao se afirmar isso, é bom definir o termo Igreja. Sua Igreja. É evidente que, histórica e doutrinariamente, os apóstolos foram o alicerce da Igreja organizada do Novo Testamento. Mudando a metáfora, os apóstolos foram a Igreja em embrião. Conclui-se que, quando Cristo encarregou seus apóstolos de fazerem discípulos de todas as nações, deu essa ordem a eles e à Igreja organizada dos tempos subsequentes. O pentecostes não é a data de nascimento da Igreja Cristã. A Igreja veio à existência no jardim do Éden. Entretanto, aconteceram algumas mudanças verdadeiramente grandes da Igreja quando o Espírito Santo foi derramado sobre ela. Como já foi dito, uma dessas mudanças foi a transição do nacionalismo para o universalismo. Outra mudança, estreitamente relacionada com a anterior, foi a separação de Igreja e Estado. Na velha dispensação a Igreja e o estado, se bem que não identificados, estavam interligados intimamente. Israel era uma teocracia; pode-se dizer um Estado-Igreja. Agora que a Igreja se havia tornado universal, tinha que ser cortada do estado judaico. Pois foi o que ocorreu. E este é um modo de dizer que no Pentecoste a Igreja adquiriu sua organização próp ia e distinta. Não é impróprio afirmar que, embora o Pentecoste não assinale o natalício da Igreja cristã como tal, ele assinala o dia do nascimento da organização da Igreja neotestamentária. Foi nesse sentido que a Igreja recebeu poder do Espírito Santo para testemunhar de Cristo “em Jerusalém, em toda a

I

Neste contexto o vocábulo tem dois pontos de referência que, embora inseparáveis, apropriadamente se

distinguem um do outro. Tanto a Igreja como organização, operando por meio dos seus ofícios especiais, como a Igreja como organismo de crentes, cada um dos quais desempenha um ofício geral ou universal; são agentes da evangelização ordenada por Deus. O que se segue é uma demonstração bíblica e um desenvolvimento dessa proposição dupla.

A Igreja Como Organização → Nem todas as Igrejas têm o mesmo grau de organização. Umas ordenam oficiais, outras não. Nem todas as Igrejas que adotam oficiais reconhecem o mesmo número deles. Todavia, inevitavelmente, toda Igreja tem organização em alguma extensão. E a Escritura o requer. Organizar grupos de cristãos em Igrejas era o invariável costume do missionário Paulo. Na Ásia Menor, ele e Barnabé ordenaram presbíteros em cada uma das Igrejas (Atos 14.23). A Bíblia ensina claramente que a evangelização é tarefa da Igreja organizada. Os apóstolos, a quem a Cabeça da Igreja dera o mandamento missionário, foram o alicerce da Igreja organizada neotestamentária. Quando Pedro, como portavoz dos doze, tinha confessado que Jesus é o Cristo,

o Filho de Deus vivo, disse o Senhor: “Eu te digo que Judéia, em Samaria, e até os confins da terra” (Atos 1.8). tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” Havia uma Igreja organizada em Antioquia da Síria. (Mateus 16.18). A “pedra” de que Jesus falou não era Ela recebeu esta ordem do Espírito Santo: “Separai-me nem Pedro como indivíduo, nem meramente sua confis- agora a Barnabé e a SauIo para a obra a que os tenho são, mas, sim, o Pedro confessante como representante chamado”. A Igreja obedeceu. É significativo que se diz dos apóstolos. E a “Igreja” mencionada era uma organização, como transparece do fato de que foi adiante e confiou “as chaves do reino dos céus” aos apóstolos que Barnabé e Saulo foram enviados como missionários pela Igreja e pelo Espírito Santo. “Então, depois que jejuaram, oraram e lhes impuseram as mãos, os despediram.

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R. B. kuiPeR

Enviados, pois, pelo Espírito Santo, des- ser evangelista, exercesse um segundo ceram a Selêucia e dali navegaram para ofício. Chipre” (Atos 13.2-4). Em resumo, SauEvidentemente o nome evangelista
lo e Barnabé foram ordenados missionários, divina e eclesiasticamente. A argumentação recém apresentada é incontestável. É preciso anotar como fato estabelecido que a Igreja como organização é agente que Deus nomeou para a obra de evangelização. Daí, seus oficiais devem aplicar-se à evangelização, ordenar missionários e enviar trabalhadores para a seara. Não se conclua, porém, que somente os seus oficiais têm o dever de dedicar·se ativamente à evangelização. Sob os seus auspícios, direção e governo os membros da Igreja em geral têm a obrigação de levar o Evangelho aos não salvos. Aqui é preciso dizer algo acerca do uso bíblico do termo evangelista. Aparece três vezes no Novo Testamento. Em Atos 21:8 Felipe é chamado de “evangelista”. Efésios 4:11: “E ele deu era dado às vezes a homens que serviam como pregadores itinerantes. Depois de pregar o Evangelho num lugar, partiam logo para outro. Em rápida sucessão Filipe foi levado pelo Espírito para pregar em Samaria, na estrada de Jerusalém a Gaza, e em Azoto (Atos 8:5,26,40). Assim o evangelista, saindo de uma dada localidade, deixava lugar para um pastor ou mestre. Talvez seja esta a razão porque os pastores e mestres são mencionados logo em seguida aos evangelistas em Efésios 4:11. O fato de que em Efésios 4:11 a função dos evangelistas é introduzida entre as funções temporárias de apóstolos e profetas e as funções permanentes de pastores e mestres, dá surgimento à questão se era para os evangelistas servirem somente à Igreja apostólica ou também à Igreja das eras posteriores. Não é difícil encontrar a resposta. Os evangelistas exerceram autoridade extraordinária, com estreita afinidade com a dos apóstolos. Tinham autoridade para nomear presbíteros (Tito 1:5) e para exercer disciplina individualmente (Tito 3:10). Evidentemente os evangelistas receberam autoridade especial dos apóstolos, com os quais estavam associados intimamente. Poder-se-ia dizer que eram apóstolos por delegação. E isto só pode significar que sua posição na Igreja era temporária, como a dos apóstolos. Se a palavra evangelista não pode ser empregada hoje pela Igreja é outra coisa. Tirar essa conclusão poderia demonstrar um biblicismo doentio. É certo que no presente a Igreja já não tem evangelistas no sentido especial e específico em voga na era apostólica. Mas isto não é razão bastante para levar-nos a evitar aquele nome. Por exemplo, os pregadores ordenados pela Igreja organizada para levar o Evangelho

particularmente aos não salvos, bem podem ser assim denominados. Retirar esse título dos obreiros não ordenados que fazem trabalho evangelizante não deve ser considerado como exigência de princípio. E como será demonstrado a seguir, é próprio afirmar que, num sentido real, todo cristão está obrigado a ser evangelista, por dever sagrado. O assunto recém-considerado é de importância relativamente menor. Resta considerar uma questão decididamente importante. Desde a Reforma do século dezesseis, o protestantismo sempre ensinou que três marcas distinguem a verdadeira Igreja da falsa. São a autêntica pregação da Palavra de Deus, a ministração dos sacramentos de acordo com os preceitos de Cristo, e o fiel exercício da disciplina eclesiástica. Em vista da incondicional exigência da Palavra de Deus de que a Igreja se aplique à evangelização, pergunta-se se não deveria ser acrescentada uma quarta marca, a saber, a evangelização dos não salvos. Esta matéria merece séria consideração. Talvez se possa indagar se existe em algum lugar alguma Igreja que negligencie completamente a evangelização. Mas caso haja uma Igreja assim, ela está-se negando a si mesma abertamente. Para usar uma expressão um tanto banal, a evangelização é essencial, não somente ao bem estar da Igreja, mas à própria existência dela. Evangelizar é da essência da verdadeira Igreja. Contudo, isto não indica que deve ser adicionada uma quarta marca às três tradicionais. Pois a evangelização está implícita na primeira e principal marca. Pregação autêntica é pregação da Palavra de Deus não adulterada, por certo, mas é também pregação de toda a Palavra. Não se pode dizer que a Igreja que deixa por completo de evangelizar os não salvos esteja proclamando todo o conselho de Deus. A evangelização faz

uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres”. Em 2 Timóteo 4:5
Paulo admoesta o seu filho espiritual dizendo: “Faze o trabalho de evangelista”. À luz destas passagens, parecem ter base certas conclusões. O evangelista não ocupou um quarto ofício da Igreja apostólica em acréscimo aos três ofícios de presbítero regente, presbítero docente e diácono. Isso parece que devia ser uma conclusão já evidente, pois Cristo, a Cabeça da Igreja, exerce o tríplice ofício de rei, profeta e sacerdote, e os três ofícios eclesiásticos mencionados acima O representam nesse tríplice ofício. Dificilmente se pode pensar num quarto ofício em coordenação com os três. Esta conclusão é confirmada pelo fato de que Filipe, o evangelista, era diácono (Atos 6:5) e Timóteo, o evangelista, era sem dúvida presbítero (1 Timóteo 4:14; 1 Tessalonicenses 3:2). É improvável que qualquer deles, em virtude de

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a iGReJa, aGente Da evanGelizaçãO

parte integrante da pregação legítima. Quem sabe se poderia reformular a expressão verbalizada da primeira marca da verdadeira Igreja de modo que ressalte essa verdade. Outra matéria de considerável importância precisa ser mencionada. Paulo ordenou ao evangelista Timóteo: “O que de mim ouviste, entre muitas testemunhas, isso mesmo transmite a homens fiéis e também idôneos para instruir a outros” (2 Timóteo 2:2). Uma implicação dessa ordem é que a Igreja precisa fazer provisão para o preparo de evangelistas, particularmente daqueles que têm em mente dedicar a vida toda à apresentação do Evangelho aos perdidos. Neste ponto muitas Igrejas são faltosas. Quase todas as denominações possuem uma ou mais escolas teológicas para a preparação de ministros. O currículo de muitos desses seminários visa principalmente ― quase exclusivamente até ― ao preparo de homens para servirem como pastores de Igrejas estabelecidas. Muitíssimo mais atenção devia ser dada à preparação de evangelistas.

Deus instituiu oficiais especiais em Sua Igreja. Mas a Escritura também ensina que há um ofício universal de que participam todos os Cristãos. Todo crente em Cristo detém o tríplice ofício de profeta, sacerdote e rei. Esta verdade é afirmada sucintamente em 1 Pedro 2:9: “Vós,porém, sois raça eleita, sacer-

Espírito!” (vers. 29). Esse foi um desejo
profético. Séculos mais tarde, o profeta Joel predisse o cumprimento desse desejo. Deus disse por intermédio dele: “E acontecerá depois que derramarei o

dócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz”.
A Igreja é uma realeza de sacerdotes, um sacerdócio de reis. E cada sacerdote e rei tem o dever de proclamar as excelências do seu Salvador. É sua função como profeta. A experiência de Eldade e Medade narrada em Números 11 é tão instrutiva como interessante. Moisés não podia levar sozinho a carga de julgar os filhos de Israel durante a sua peregrinação no deserto. À ordem de Deus, foram designados setenta anciãos como seus assistentes. Em dada ocasião, eles estavam reunidos no tabernáculo, o Espírito de Deus veio sobre eles, e profetizaram. Entretanto, Eldade e Medade, embora pertencentes aos setenta, estavam fora do tabernáculo, no acampamento. Surpreendentemente, o Espírito veio sobre eles também, e profetizaram. Um jovem correu a contar a Moisés esta flagrante irregularidade. Josué, filho de Num, zeloso servidor de Moisés, exclamou: “Moisés, meu senhor, proíbe-os”. Que foi que Moisés fez? Repreendeu Eldade e Medade? Não fez nada disso. Ao invés, disse: “Oxalá todo o povo do Senhor fosse

meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos velhos sonharão, e vossos jovens terão visões; e também sobre os servos e sobre as servas derramarei o meu espírito naqueles dias” (Joel
2.28,29). Essa profecia cumpriu-se no Pentecostes, quando não só os apóstolos, mas todos os membros da Igreja de Jerusalém estavam reunidos unânimes num mesmo lugar, e “todos ficaram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem” (Atos 2.1,4). Temse dito com acerto que o Pentecostes dá lugar ao sacerdócio universal dos crentes. Pode-se muito bem dizer igualmente que o derramamento do Espírito fez de cada membro da Igreja um evangelista. Assim foi no dia de Pentecoste e assim continua sendo hoje. Cada cristão é um agente da evangelização, ordenado por Deus. Desta maneira, o crente dá testemunho de Cristo aos seus vizinhos, aos seus companheiros de trabalho na loja, no armazém ou no escritório, a seus colegas de estudos e a seus professores, àqueles sobre os quais tem autoridade e àqueles que têm autoridade sobre ele. Convida os seus vizinhos que não pertencem a nenhuma Igreja a que frequentem os cultos de sua Igreja, reúne em casa os filhos deles para contar-lhes histórias bíblicas e coloca

Pregação

autêntica é pregação da Palavra de Deus, mas é também pregação de toda a Palavra

A Igreja como Organismo → A Igreja organizada foi instituída por Deus. Ele é seu fundador. Não declarou o Filho de Deus: “Sobre esta pedra edificarei

a minha igreja”. (Mateus l6.l8)? Por essa
razão os homens deviam escrupulosamente tomar cuidado para não privá-la de suas prerrogativas. E ela não tem prerrogativa mais preciosa do que a de evangelizar o mundo. Apesar disso, não segue que todo empreendimento evangelístico deve estar sob o direto e completo controle da Igreja como organização. A Igreja tem outro aspecto. Além de ser organização, é organismo. Como organização ela opera por meio dos seus oficiais; como organismo ela opera por meio dos seus membros, individualmente considerados.

profeta, que o Senhor lhes desse o Seu

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R. B. kuiPeR

folhetos evangélicos ao alcance de toda gente em lugares públicos. Distribui Bíblias nos lares, hotéis e motéis. Em suma, semeia a semente do Evangelho onde pode e lança o pão do Evangelho a muitas águas. E para fazer isso tudo não tem por que pedir autorização aos oficiais da sua Igreja. Cristo, seu Senhor, o autorizou. Não obstante, ele o faz na qualidade de membro do corpo de Cristo, a Igreja. Aquilo que o crente pode fazer como indivíduo, pode fazer também em colaboração com outros cristãos. Grupos ou associações voluntárias de cristãos podem traduzir, publicar e distribuir as Escrituras, transmitir o Evangelho pela produção e disseminação de literatura cristã, e por muitos e variados meios pode propagar as boas novas da salvação onde esta não é conhecida. Tem-se tentado algumas vezes traçar uma aguda linha de demarcação entre a atividade evangelística da Igreja como organização, e a obra evangelística adequadamente levada adiante pela Igreja como organismo, mas nunca se alcançou pleno sucesso nessas tentativas. Proeminentes teólogos evangélicos chegaram à conclusão de que isto não é nem necessário nem possível. Entretanto, pelo menos um ponto precisa ser estabelecido. Visto que a Igreja organi-

são de origem humana e podem aplicar-se à evangelização, estas devem vigiar sempre no sentido de evitarem que venham a suplantar a primeira em sua qualidade de agente da evangelização. Nestes dias em que ― geralmente falando ― a Igreja organizada não goza tão alta estima como devia, nem mesmo por seus próprios membros, essa advertência está longe de ser supérflua. Não é nem um pouco raro que missões e campanhas evangelísticas sejam dirigidas por juntas ou comissões independentes do controle eclesiástico. Normalmente isto não deveria acontecer. Sabe-se de associações dessas que costumam enviar evangelistas ordenados e mesmo costumam ordenar evangelistas. Em condições normais essas práticas devem ser julgadas completamente irregulares. É evidente que atividades dessa natureza são prerrogativas da Igreja organizada. Se as condições de uma Igreja podem ou não tornar-se tão anormais que justifiquem esses modos de proceder, é outra questão. Quando a Igreja da Inglaterra negligenciou as missões, muitos dos seus membros se congregaram em sociedades missionárias. Elas se encarregaram de fazer o que competia à Igreja, e que esta deixou de fazer. Quando, em meados do século dezenove, a Igreja oficial da Holanda sucumbiu ao modernismo teológico, alguns dos seus membros fundaram uma organização para a direção de missões fiéis à Palavra

de Deus, e aquela organização sentiu-se constrangida a apelar para a ordenação de missionários verdadeiramente evangélicos. Quando, no primeiro quartel do século atual, a Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos da América caiu sob o fascínio do modernismo, homens e mulheres fiéis criaram a Junta Independente de Missões Presbiterianas Estrangeiras. Esses são exemplos de medidas radicais, justificadas porém pelas situações de emergência ― medidas dignas de louvor, verdadeiramente heróicas. Todavia, deve-se reconhecer que são exceções à regra. Antes de se darem tais passos, deve-se fazer todo o possível para persuadir a Igreja organizada a cumprir o seu dever, e a fazê-lo a contento. E, se forem tomadas aquelas medidas extremas, deverão ser postas de lado assim que surgir uma Igreja capaz e desejosa de levar adiante a obra de evangelização verdadeiramente cristã. A Igreja como organização, e a Igreja como organismo são ambas agentes da evangelização, agentes ordenados por Deus. Não podem entrar em conflito uma com a outra, pois são dois aspectos do corpo uno de Cristo. Devem trabalhar harmoniosamente para apressar o dia em que todas as nações que Ele fez, venham perante o Senhor, adorem-no, e glorifiquem o Seu nome (Salmo 86:9).
Extraído com permissão de “Evangelização Teocêntrica”, PES - PP. 93-100

zada foi instituída por Deus e deve aplicar-se à evangelização, ao passo que as

associações voluntárias de cristãos, ainda que legítimas e bem intencionadas,

Segunda Confissão Helvética
16. Da fé e das boas obras, e da sua recompensa, e do mérito do homem
Obras de escolha humana → E na verdade, obras e cultos que escolhemos por nosso arbítrio não são agradáveis a Deus. A estes São Paulo denomina ethelothreskia (CI 2.23). Desses o Senhor diz no Evangelho: “Em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens” (Mt. 15.9). Portanto, desaprovamos tais obras, mas aprovamos e estimulamos aquelas que são da vontade e de mandado de Deus.

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As Escrituras — Nossa Conselheira
“Com efeito, os teus testemunhos são o meu prazer, são os meus conselheiros” (Sl 119:24)
Charles Bridges
Todavia para aqueles que fazem da Palavra seu deleite, sempre haverão de considerá-la seu conselheiro. Uma que mais poderíamos desejar em tempos de lutas senão conforto e direcionamento. Davi possuía estas bênçãos. Como fruto de sua “meleitura superficial nunca nos fará compreender acerca do gozo santo e do conselho nela contidos. Ela deve ser aplicada em nossa experiência particular, em nossa conversação diária e consultada naquelas ocasiões rotineiras quando, esquecidos de nossa necessidade de orientação divina, somos freqüentemente inclinados a seguir nosso próprio conselho. O cristão é um homem de fé em cada passo de sua caminhada. O uso cotidiano e a familiaridade com os testemunhos de Deus (Nm 9:15-23) revelar-se-ão como a coluna e a nuvem em todos os reveses de sua vereda celestial. Para o cristão, a Palavra será como o Urim e Tumim — um infalível conselheiro. Entretanto, algumas vezes a perplexidade se ergue em meio ao conflito, não aquele entre nossa consciência e a indulgência pecaminosa (na qual a sinceridade cristã invariavelmente determinaria o rumo a trilhar), mas entre deveres e deveres. Quando, porém, certas obrigações parecem conflitar-se entre si, o conselho da Palavra definirá a importância relativa delas, conexão e dependência, a disposição da providência, a orientação que tem sido concedida ao povo de Deus em situações semelhantes e a luz que a vida diária de nosso Modelo Maior demonstra diante de nós. A questão principal, porém, é cultivar o hábito mental que se encaixa mais naturalmente com o conselho da Palavra. “Caminhando

“deleite” na angústia e conselheiros na perplexidade. Ele não trocaria este deleite pelo maior dos prazeres terrenos (vv. 14, 97, 103 e 127 com Sl 4:7). Tão sabiamente estes conselheiros dirigiram seus passos, que, não obstante “príncipes se assentaram e falaram contra

O

ditação nos mandamentos do Senhor”, eles eram o seu

ele”, não puderam acusá-lo por nenhum motivo ou falta
(1 Sm. 18:14; Sl 101:2; com Dn. 6:4, 5). Os mandamentos do Senhor foram verdadeiramente “os homens do seu conselho”. Ele se conduziu pelas ordenanças do Livro de Deus, colocadas diante de si, como recurso vindo do mais experiente dos conselheiros. Ou ainda quando os profetas lhe entregavam a Palavra diretamente da boca de Deus. Desta forma, mesmo como súdito ou como Rei, Davi possuía conselhos. De um lado estava Saul e seus conselheiros (v. 23). No outro, Davi e os testemunhos do seu Deus. Pensemos: qual estava mais bem provido daquela sabedoria que é útil para guiar? Posteriormente já como Rei, Davi estava obrigado a fazer dos “testemunhos do seu Deus seus conselheiros” (Dt. 17:18-20); e certamente através da constante consideração à voz destes mandamentos, ele usufruiu grande prosperidade terrena. Em um mundo como este cercado de tentações por toda a parte, precisamos principalmente de conselhos sábios e sadios. Mas em nosso interior, todos nós trazemos um péssimo conselheiro e nossa tolice é dar ouvidos à sua voz. Deus nos tem concedido sua Palavra como um conselheiro infalível e “aquele que dá ouvidos

no temor do Senhor” (veja Salmo 25:12,14) com espírito
humilde de dependência, fugindo da idolatria de tomar conselho com nossos corações, não podemos materialmente errar. Deve haver uma confluência entre nossa disposição e a promessa divina — uma vigilância contra a propensão impetuosa da carne; uma consideração vigorosa pela glória de Deus e uma submissão mansa ao seu gracioso desígnio. Se, contudo, o conselho não se mostrar infalível, a falta não está na Palavra, mas na obscuridade de nossa

ao conselho é sábio” (Pv.12:15)
Pois bem, nós valorizamos o privilégio deste conselho celestial? Cada progresso tem de aprofundar nosso deleite nele. Um interesse leviano impede esta benção.

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chaRles BRiDGes

percepção. Neste caso, não precisamos de uma regra mais clara ou um guia mais seguro, mas de uma visão precisa. E por fim, se não pudermos definir cada ato de nosso dever (já que para tal, até o mundo em si mesmo “não poderia conter os livros que deveriam ser escritos”) mesmo assim o conselho determina o padrão pelo qual a mais insignificante das ações da mente deve ser submetida (1Co. 10:31 e Cl 3:17) e a postura que refletirá a luz da vontade de Deus sobre nossa conduta (Mateus 6:22,23). Porém estejamos apercebidos que qualquer desejo de sinceridade no coração (1Sm 28.6; Ez 14:2-4) qualquer concessão à auto-suficiência sempre bloqueará as avenidas desse conselho e luz divinos. Volta e meia estamos

para

caminharmos

cautelosamente

tivéssemos ouvindo uma revelação direta dos céus. Não queremos uma nova revelação, ou uma voz sensível do alto para cada novo acontecimento. Basta apenas aquilo que nosso Pai nos deu: esta abençoada “lâmpada para nossos

naqueles pontos de dúvida em relação ao conselho celestial, que podem comungar com nossa inclinação natural. No retrospecto de nossas experiências passadas, quantos passos equivocados podem ser atribuídos ao conselho de nossos próprios corações, buscados e seguidos pela nossa negligência ao conselho de Deus (Josué 9:14 Isaías 30:13), ainda que nenhuma circunstância de incerteza tenha nos assaltado, mesmo estando nós em espírito de humildade, simplicidade, santidade, quando aparentemente o conselho do Senhor nos faltava! Uma dependência exagerada do conselho humano (Isaías 2:22), seja ele de vivos ou de mortos, obstrui

pés e luz para nossos caminhos” (Sl 119:
105; compare Pv. 6:23). Deixe-me então inquirir — Qual é o conselho de Deus que me fala diretamente? Se eu sou um pecador adormecido, ele me adverte para deixar o pecado (Pv.1:24-31; Ez. 33:11); convida-me ao Salvador (Isaías 55:1 João 7:37) e me instrui a esperar em Deus (Os. 12:6). Se for um mestre, ensoberbecido na forma da piedade, o conselho me mostra a minha real condição (Ap. 3:17). Ele me educa na completa suficiência de Cristo (Ap.3:18) e adverte acerca do perigo da hipocrisia (Lc.12:1). Se pela graça sou filho de Deus, ainda necessito do conselho paterno para me restaurar da constante apostasia (Jr. 3:12,13), para motivar-me à redobrada vigilância (I Ts 5:6 Ap. 3:2), fortalecer minha confiança na plenitude de sua graça (Is. 26:4) e na fidelidade de seu amor (Hb. 12:5,6). Sempre terei motivo para agradecer e reconhecer - “Louvarei ao Senhor que me aconselhou” (Sl 16:7). Em cada passo da minha caminhada, avançarei glorificando ao meu Deus e Pai pela fidelidade de seu conselho até o fim: “Guiar-me-ás

inconscientemente andando “nas laba- grandemente a influência completa redas do nosso próprio fogo, e entre as da Palavra. Ainda que tais conselhos faíscas, que acendemos” (Isaías 50:11). possam ser de grande valia; ainda que Talvez, de acordo com o que concebemos, buscamos a orientação do conselho do Senhor, supondo que estávamos caminhando nele. Mas, no ato e durante a preparação para a busca, sujeitamos nossas intenções e inclinações a um escrutínio severo, cauteloso, e com uma atitude de auto-suspeita? O coração foi educado na disciplina da cruz? “Cada pensamento foi trazido catipossam estar bem próximos e em concordância com a Palavra, não devemos esquecer que eles não são a Palavra, mas que são falíveis. Portanto não podem ser colocados em primeiro plano ou seguidos com aquela total confiança a que somos advertidos a colocar na revelação de Deus. Por outro lado, o que é ter a Palavra de Deus como nosso Conselheiro? Não é estar nele mesmo, “o único Deus sábio”? Quando nossas Bíblias, em períodos de dificuldade, são buscadas em humildade, oração e espírito dócil, tornamo-nos tão dependentes do Senhor como se es-

vo à obediência de Cristo”? (II Co. 10:5).
Ou nosso coração não foi possuído pelo objetivo almejado antes que o conselho fosse buscado da boca do Senhor? (Jr 42). Oh! Quão cuidadosos devemos ser

com teu conselho, e depois me receberás na glória” (Sl 73:24) .
Charles Bridges

Salmo 84:1-4
1

Quão amáveis são os teus tabernáculos, SENHOR dos Exércitos! 2A minha alma está desejosa, e desfalece pelos átrios do SENHOR; o meu coração e a minha carne clamam pelo Deus vivo. 3Até o pardal encontrou casa, e a andorinha ninho para si, onde ponha seus filhos, até mesmo nos teus altares, SENHOR dos Exércitos, Rei meu e Deus meu. 4 Bem-aventurados os que habitam em tua casa; louvar-te-ão continuamente.

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Não Dê Ouvidos ao Diabo
“Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? (Lucas 12:20)
Edward Donnelly
se a crer no que Ele lhe diz nenhuma exibição de som e luz mudará o seu destino. objetivo de satanás é conduzir você gentilmente para o inferno, e ele é o mestre das trevosas artes da persuasão. Se você tem algum conheSe você ainda é jovem, forte e saudável, o diabo pode indicar a você o absurdo de se incomodar agora com a morte e com o juízo. Ora, você tem muitos anos pela frente! Haverá bastante tempo quando você ficar velho. Mas, como você sabe que viverá até à velhice? A um homem que estava convencido de que contava ainda com muitos anos e que dissera a si mesmo: “descansa, come bebe e folga”, Jesus disse: “Mas Deus lhe disse: louco, esta noite te pedirão a tua alma” (Lucas 12:19,20). Na memorável ilustração de Jonathan Edwards, os ímpios são como pessoas que estão andando sobre um poço cuja cobertura apodrecida em muitos pontos está fraca demais para lhes suportar o peso. Mas elas não sabem onde estão os lugares fracos, e cada passo está cheio de perigo. A qualquer momento você pode escorregar através da estrutura do tempo, e cair no mundo por vir. Deus o está mantendo vivo até agora e, se você não é um convertido, Ele está tão irado com você quanto o está com os que já estão no inferno. Esta noite você vai para a cama nas mãos de um Deus irado. Que motivo você tem para acreditar que vai acordar? E, se não acordar, onde estará você? Talvez você tenha medo de que riam de você. Você sabe que deve fazer as pazes com Deus, mas, e os seus amigos? Eles são espertos, sofisticados, irreverentes. Você tem ouvido as zombarias que eles fazem da religião, e provavelmente se juntou a eles nisso. Que diriam eles, se você se tornasse cristão? Você já pode ouvir as críticas deles, ver as suas expressões de desprezo e dó. Mas você vai deixar que outras pessoas o enviem para o inferno? Vai permitir que o riso escarninho delas o mantenha fora da salvação? Que horrível paródia de amizade! Quantos “amigos” amaldiçoarão uns aos outros no mundo vindouro? “Cristo Se aproximou de mim”, eles rosnarão, “mas eu pensei demais na boa opinião de vocês. Vocês me arruinaram. É em parte por causa de

O

cimento da Bíblia, ele pode adotar uma abordagem teológica, concitando você a esperar por uma experiência tipo “caminho de Damasco”, por alguma intervenção cataclísmica e irresistível de Deus. Aqui está satanás, o estudioso da Bíblia, persuadindo você a raciocinar desta maneira: “Deus é soberano, não é? Ele tem os Seus eleitos, dos quais nenhum se perderá. E ninguém poderá crer, se Deus não lhe der capacidade para isso. Muito bem, pois, se eu sou um dos eleitos, que Deus desça do céu, detenha meus passos, e me desperte e me leve à fé. Quando Ele fizer isso, vou crer. Enquanto não chegar esse momento especial, continuarei como estou”. Você se lembra do rico da parábola que queria um momento especial como esse para os seus irmãos incrédulos? Ele na verdade pediu que lhes fosse enviado um mensageiro do além. “Rogo-te, pois, ó pai, que o mandes à casa de meu pai. Pois tenho cinco irmãos; para que lhes dê testemunho, a fim de que não venham também para este lugar de tormento” (Lucas 16:27,28). Que reunião evangelística sensacional teria sido essa! Imaginemos quão dramático seria o convite impresso: “Na próxima semana, na Igreja Reformada Betânia - Orador Especial,

Vindo Diretamente da Eternidade. Somente uma apresentação. Não deixe de ouvir esse visitante que vem do mundo futuro!” Mas a resposta de Abraão foi água fria na caldeira: “Têm Moisés e os profetas; ouçam-nos. Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite” (Lucas 16:29,31). Para a sua conversão você não pode depender de intervenções extraordinárias de Deus. Nem precisa disso, pois EIe proveu na Bíblia toda a informação de que você necessita para a salvação. Se você recusar-

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eDWaRD DOnnelly

vocês que eu estou aqui”. E se odiarão uns aos outros por toda a eternidade. A condenação eterna é um preço demasiado alto ara pagar pela amizade. Ou talvez você esteja gostando muito dos prazeres este mundo pecaminoso, e reluta em abandoná-los. Há uma terrível ironia nas palavras de Abraão ao rico que estava no inferno: “Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida” (Lucas 16:25). “Os teus bens.” Como essas palavras devem ter raspado angustiosamente a alma daquele ser condenado e atormentado! “Meus bens! Sim eu achava que eram “bens”, que eram “coisas boas” (VA). Eu me entreguei a elas, ao dinheiro, ao luxo e ao egocentrismo. Eu as avaliei colocando-as acima de tudo mais e vendi por elas a minha alma imortal. Contudo, que penso dessas “coisas boas” agora?” Haverá freqüentadores de igreja no inferno. No dia do juízo alguns pregadores, evangelistas e líderes estarão diante de Cristo com anelante sorriso no rosto, esperando receber o Seu “Bem está”. Mas, para seu assombro e horror, Ele dirá: ‘’Apartai-vos de mim”. Eles pro-

testarão: “Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome? E em teu nome não expulsamos demônios? E em teu nome não fizemos muitas maravilhas? (Mateus 7:22,23). Certamente não vamos para o inferno”. Entretanto irão, pois nunca nasceram de novo, nunca foram feitas novas pessoas. Sua fé era superficial e irreal. Pode ser que, mesmo agora, você não creia. Você não vai deixar um pregador intimidá-lo com um espantalho primitivo como esse. Você não aceita - nem aceitará - que existe inferno, ou, se aceita, não admite que vai para lá. Certamente esse é o ponto de vista da maioria. Numa recente pesquisa da Gallup, nos Estados Unidos, não mais que quatro por cento das pessoas consultadas achavam que poderiam acabar indo parar no inferno. Outrora muitas almas perdidas pensavam o mesmo. Não acreditavam no inferno. Acreditam agora porque é onde elas estão. Mas para elas é tarde demais. Para você não é tarde demais - ainda. Deus lhe está dando uma oportunidade de livrarse clamando a Seu Filho para que seja o seu Salvador.

Que mais posso dizer? Pela Palavra de Deus você viu um pouco de como é o inferno. Não posso acreditar que você queira ir para lá. Todavia, se não clamar a Cristo para que o salve, esse é o destino que você estará escolhendo. Estaria você realmente determinado a escolher tal desgraça? E o aspecto mais estulto de todos é que a sua condenação eterna é desnecessária. Pois o Senhor Jesus Cristo está pleiteando com você neste exato momento. Enquanto você lê estas palavras, ele o está chamando a Si, ordenando-lhe que abandone o pecado, que só leva à destruição. Ele é infinitamente misericordioso e bondoso. Se Lhe pedir que seja o seu Salvador, Ele o receberá e lhe perdoará. Ele o lavará e o purificará, e o tornará salvo e seguro para sempre, e você será santo e feliz, aguardando uma eternidade de gozo e glória no céu. “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações” (Hebreus 4:7).

Extraído do livro Depois da Morte — O Quê?, Editora PES, PP. 68-71

Confissão de Fé de Westminster
Capítulo XVII → Da Perseverança do Santos
I. Os que Deus aceitou em seu Bem-amado, os que ele chamou eficazmente e santificou pelo seu Espírito, não podem decair do estado da graça, nem total, nem finalmente; mas, com toda a certeza hão de perseverar nesse estado até o fim e serão eternamente salvos1. II. Esta perseverança dos santos não depende do livre arbítrio deles, mas da imutabilidade do decreto da eleição, procedente do livre e imutável amor de Deus Pai, da eficácia do mérito e intercessão de Jesus Cristo, da permanência do Espírito e da semente de Deus neles e da natureza do pacto da graça; de todas estas coisas vêm a sua certeza e infalibilidade2.
I. Ref. • Fl. 1: 6; João 10: 28-29; I Pe. 1:5, 9. II. II Tm. 2:19; Jer. 31:3; Jo. 17:11, 24; Hb 7:25; Lc. 22:32; Rm. 8:33, 34, 38-39; Jo 14:16-17; I Jo 2:27 e 3:9; Jr. 32:40; II Ts. 3:3; I João 2:19; Jo. 10:28.

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Nosso Lugar de Refúgio
“E será aquele varão como um esconderijo contra o vento, e um refúgio contra a tempestade, como ribeiros de água em lugares secos...”(Isaías 32:2)
Jonathan Edwards
quando estamos debaixo de um bom abrigo, a tempestade que deveria cair sobre nossas cabeças, cai sobre ivemos num mundo pervertido, onde enfrentamos constantemente um exército de tristezas e problemas. Grande parte de nossa vida é gasta o abrigo. Cristo foi escolhido e encarregado pelo Pai para essa obra de amparo das almas desamparadas. Jesus Cristo quis que a ira do Pai fosse descarregada contra sua própria cabeça, e não sobre nós, miseráveis pecadores. Por muitas vezes, Cristo é chamado de eleito de Deus, ou Seu escolhido, por haver sido selecionado pelo Pai para essa obra. Os nomes “Messias” e “Cristo” significam “ungido”, porquanto Deus O nomeou e capacitou para a tarefa de salvar o Seu povo. Cristo disse: “A von-

V

em chorar os males presentes e passados ou em temer os que ainda estão no futuro. Ora, existe um firme alicerce de paz e segurança para aqueles que experimentam tais aflições em favor de outros, ou que, pessoalmente, enfrentam tais peri-

gos. Jesus Cristo é um refúgio em qualquer situação; há uma base para apoio racional e paz na Sua pessoa sem importar o que nos ameace. Aquele cujo coração está firmado e confiante em Cristo não precisa temer más notícias. “Como em redor de Jerusalém estão os montes, assim o Senhor, em derredor do seu povo, desde agora a para sempre” (Salmos 125:2) ― assim está Cristo em derredor daqueles que nEle confiam. Vejamos como Jesus Cristo é um alicerce suficiente para a paz e a segurança. Cristo comprometeu-se a amparar todos aqueles que O temem, contanto que O busquem. Essa é a obra na qual Ele se empenhou antes mesmo da fundação do mundo. É o que sempre ocupou seus pensamentos e intenções; desde a eternidade, encarregou-se de ser o refúgio dos temerosos. Sua sabedoria é tal que jamais tomaria sobre Si um encargo para o qual não fosse idôneo. Aqueles que estão aflitos e na tormenta do medo, se vierem a Jesus Cristo, serão libertados de seus temores, pois Ele tem prometido protegêlos. Ele disse aos seus discípulos: “Não temais” (Mt.10:31). Cristo, por sua livre vontade, se tornou a garantia daqueles que nEle confiam. Espontaneamente se colocou no lugar deles. Por sua própria iniciativa, encarregouSe de ser o responsável por eles, como o bom pastor que dá a vida por suas ovelhas (João 10:11). Se então em Cristo Jesus, a tempestade dos problemas recai sobre Ele e não sobre aqueles; assim como

tade daquele que me enviou é esta: que todo aquele que vê o Filho e crê nele tenha a vida eterna” (João 6:40).
No tocante à salvação, se estamos em Cristo Jesus, a justiça e a lei passam de largo com respeito aos nossos pecados, sem nos atingir. A razão do medo e do desespero do pecador é a justiça e a lei de Deus. Cada letra e cada sinal da lei têm de ser cumpridos (Mateus 5:18). É mais fácil que o céu e a terra sejam destruídos do que a justiça não venha a ser executada; não há possibilidade de que o pecado escape à justiça. Mas, se a alma trêmula e desesperada, temerosa da justiça, correr para Cristo, encontrará nEle um esconderijo seguro. “De maneira que a lei nos serviu de aio

para nos conduzir a Cristo” (Gálatas 3:24). Cristo sofreu
o golpe da justiça, e a maldição da lei caiu toda sobre Ele; Cristo sofreu toda a vingança que se destinava ao pecado que cada um de nós cometeu. “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar” (Gálatas 3:13). Portanto, se Cristo sofreu pelo crente, já não é necessário que este sofra; e por que teria o crente de temer? Se aqueles que temem se aproximarem de Cristo, nada mais terão a temer das ameaças da lei. Ela não lhes diz respeito. O amor de Cristo, sua compaixão e misericordiosos cuidados são tais, que podemos ter a certeza de que

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JOnathan eDWaRDs

Ele está pronto a receber todos quantos vêm a Ele. Ele é tão cheio de amor e bondade, que está disposto a nada menos que nos receber e defender, se formos a Ele. “O que vem a mim, de modo nenhum

em paz conosco. Em Cristo, porém, há um meio de livre comunicação entre Deus e nós, a fim de que possamos ir a Deus e de que Ele se comunique conosco pelo Espírito Santo. Jesus deixou isso claro, ao dizer: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (João 14:6). Cristo infunde forças e um princípio vital e novo na alma cansada que apela para Ele. O pecador, antes de vir a Cristo, está tão enfermo quanto um homem enfraquecido e esgotado, cujo organismo tenha sido consumido por grave enfermidade. Está cheio de dores e tão fraco, que não pode andar nem ficar de pé. Por isso, Cristo é comparado a um médico. “Os são não precisam de

desimpedido. Basta vir a Cristo; é suficiente sentar-se à sombra dEle, a “grande rocha em terra sedenta” (Isaías 32.2). Cristo não exige dinheiro em troca de sua paz. Mas chama-nos para O buscarmos livremente e sem preço. Ainda que pobres e sem dinheiro, podemos ir a Ele. Cristo não se dá por aluguel; Ele deseja tão-somente outorgar-lhe esse descanso. Como Mediador, sua obra consiste em dar descanso aos exaustos. E nisso Ele se deleita. Há em Cristo descanso e doce refrigério para aqueles que estão cansados das perseguições. A maior parte do tempo, o povo de Deus tem sido perseguido neste mundo. Há intervalos ocasionais de paz e prosperidade, mas geralmente acontece o contrário. Satanás tem usado de grande malícia contra o povo de Deus, na medida em que esse povo procura seguir a Deus. Assim, por muitas vezes, o povo de Deus tem sido extremamente perseguido, e milhares têm sido condenados à morte. Satanás está sempre pronto, “como leão que ruge procurando alguém

o lançarei fora” (João 6:37). Cristo está
mais do que pronto a compadecer-se de nós. Seus braços estão abertos para receber-nos. Deleita-Se quando almas desesperadas O procuram. A excelência de Cristo é mais do que suficiente e satisfatória para a alma. A alma busca aquilo que lhe é superior. A alma carnal imagina que as coisas terrenas são excelentes. Alguns dão mais valor às riquezas, outros têm na mais alta estima as honras, e, para outros, os prazeres carnais parecem ser os mais revigorosos. Porém, a alma não pode achar contentamento em nenhuma dessas coisas, pois cedo descobre o fim daquilo que lhe dava algum consolo. A verdadeira excelência acha-se em Jesus Cristo, e quando os homens chegam a conhecê-la, sua busca termina, e suas mentes encontram o descanso. Em Cristo, as suas mentes vêem uma glória transcendente e agradável. Percebem que até então estiveram perseguindo sombras, mas que, agora, encontraram a substância, a realidade. Antes, buscavam a felicidade num riacho, mas agora encontraram-na no oceano. É exatamente como Cristo prometeu. “Vinde a mim, todos os que estais cansa-

médico, e sim os doentes” (Mateus 9:12).
Quando Ele vem e profere uma palavra, instila um princípio vital naquele que antes estava morto (João 11:25-26). Ele transmite o início da vida espiritual e o começo da vida eterna. Cristo proporciona o seu Espírito, o qual acalma o coração e é como uma brisa refrescante. Ele outorga aquela força mediante a qual ampara as mãos prostradas e fortalece os joelhos débeis. Cristo dá profundo consolo e gozo àqueles que vêm a Ele, e isso basta para que se esqueçam de toda a luta anterior. Um pouco de paz verdadeira, um pouco da alegria do evidente amor de Cristo, um pouco da esperança da vida eterna, são todo-suficientes para compensar toda a luta e a fraqueza e para apagá-las de nossa memória. Essa paz, que resulta da verdadeira fé, ultrapassa o entendimento e é um gozo inefável (Filipenses 4:7). Considere a Cristo como um remédio para as suas aflições. Você não precisa de asas de pomba para voar a um refúgio distante e descansar, pois Cristo está bem perto. Não é mister realizar prodígios para obter esse descanso. O caminho está

para devorar” (1 Pedro 5.8).
Cristo tem se dado a nós para ser tudo aquilo de que precisamos. Necessitamos de vestes, e Cristo não apenas nos dá vestes, mas também a Si mesmo, para ser a nossa vestimenta. “Porque to-

dos quantos fostes batizados em Cristo, de Cristo vos revestistes” (Gálatas 3.27).
Em Cristo há provisão para satisfação e pleno contentamento das almas sedentas e necessitadas. Cristo é “como ribeiros de águas em lugares secos” (Isaías 32:2) ou em um deserto ressequido, onde há grande escassez de água e os viajantes morrem de sede. Cristo é um rio de águas, pois há nEle uma plenitude tal, uma provisão tão abundante, que satisfaz a alma mais necessitada e ansiosa. Cristo é suficiente não só para uma alma sedenta, mas também é a fonte que nunca seca, sem importar quantos venham a Ele. Um

dos e sobrecarregados, e eu vos aliviarei”
(Mateus 11:28). A manifestação do amor de Cristo dá à alma satisfação abundante. Entre amigos terrenos tem havido exemplos de grande afeição. Mas nunca houve amor igual ao de Cristo para com os crentes. Sendo Ele o caminho para o Pai, há nEle provisão para satisfazer e contentar a alma sedenta e ansiosa. Estamos naturalmente separados de Deus por causa de nossos pecados; e Deus está longe de nós — nosso Criador não está

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nOssO luGaR De RefúGiO

homem sedento não esgota esse rio, ao saciar nEle continuamente a sua sede. “Aquele, porém, que beber da água que eu

garem a Jesus Cristo! Oh! Que sejamos persuadidos a nos ocultarmos nEle! Que maior segurança poderíamos desejar? Ele se comprometeu a defendernos e salvar-nos. Nada temos a fazer, além de descansar nEle calmamente. Aquiete-se e veja o que o Senhor Jesus fará por você. Se tiver de haver sofrimento, esse será da

parte do Senhor Jesus por você; nada terá de sofrer. Se alguma coisa tiver de ser feita, Cristo há de fazê-la. Você nada terá de fazer, além de permanecer quieto e olhar. “Mas os que esperam

lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna” (João
4.14). Como somos felizes quando nossos corações ficam persuadidos a se ache-

no SENHOR, renovam as suas forças”
(Isaías 40.31).
Fonte: Revista “Fé para Hoje”, número 15, Editora Fiel.

Como Posso livrar-me do Vício em Entretenimento?
Pastor, eu creio que amo a Cristo de verdade, mas a maior parte do tempo eu prefiro passar entretendo-me do que gastá-lo na Palavra de Deus. Como eu quebro essa influência que o entretenimento tem sobre o meu coração? Essa é uma pergunta muito boa. E eu penso que ela é especialmente pertinente porque nós vivemos, eu creio, mais agora do que nunca, em dias em que coisas que entretêm estão imediatamente acessíveis. Eu estava pensando esses dias na diferença entre nossas tentações e, digamos, as tentações de 250 anos atrás, nos dias de Jonathan Edwards. Edwards escreveria sobre a tolice de pessoas jovens que se juntam para ter “conversações frívolas” ou outras coisas ainda piores. (Uma delas chamava-se “Empacotar”: ir juntos para a cama, permanecendo vestidos. Apenas apimentando a vida um pouco. A vida era enfadonha há 250 anos na Nova Inglaterra.) Hoje nós levamos em nossos bolsos, rádio, televisão, internet e jogos e qualquer coisa que seja excitante e cheia de diversão! E “diversão” é uma palavra que é usada hoje na igreja de forma desenfreada! É um adjetivo, é um substantivo, é um verbo, porque nós exercemos o ministério buscando ajustar-nos a essa mentalidade. Estou profundamente preocupado com isso. Eu quero defender a seriedade a respeito de Deus, em vez de torná-lo palatável fazendo com que Ele pareça “divertido”, transformando-O em mais uma peça de entretenimento. Assim, a pergunta é: “Como você se livra dessa dependência?”. 1. Reconhecer que ela existe é um enorme passo na direção certa. 2. Busque a Deus seriamente sobre isso. Ore como um louco para que Deus abra seus olhos para ver coisas maravilhosas na Sua lei. 3. Aprofunde-se na Bíblia, até mesmo quando você não tem vontade, suplicando a Deus que abra seus olhos para ver o que realmente está lá. 4. Entre em um grupo onde se conversa sobre coisas sérias. 5. Comece a compartilhar sua fé. Uma das razões porque nós não somos movidos por nossa própria fé como deveríamos é porque nós quase nunca conversamos sobre ela com os não-crentes. Nossa fé começa a ficar como um tipo de coisa de estufa e então começa a gerar um sentimento de irrealidade sobre si mesma. E então as forças do entretenimento começam a ter maior influência sobre nossas vidas. Portanto essas seriam algumas das coisas, mas no final das contas é um presente da graça poder sentir a glória de Deus. Uma última sugestão: pense em sua morte. Pense muito em sua morte. Pergunte a si mesmo o que você gostaria de estar fazendo no fim da vida, ou nas horas, ou dias, que antecedem o encontro com Cristo. Eu tenho feito muito isso por esses dias. Eu penso no impacto da morte e o que eu gostaria de estar fazendo e como eu me prepararia para encontrá-lO e prestar contas a Ele.
John Piper. Extraído do site Desiring God. Tradução: Juliano Heyse (mail@bomcaminho.com)

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Verdadeira Educação Através da Educação
Mas, avancemos expondo o que é próprio desta matéria. Paulo escreve que Cristo “deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo; até que cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo” [Ef 4.10-13]. Vemos como Deus, que poderia levar os seus à perfeição num instante, contudo não queria que eles crescessem à idade adulta senão pela educação da Igreja; vemos expressar-se o modo pelo qual esta educação se processa: que aos pastores foi incumbida a pregação da doutrina celeste; vemos que todos, à uma, estão sujeitos à mesma disposição, de sorte que se permitam ser dirigidos, com espírito brando e dócil, pelos mestres criados para esta função. E com esta marca Isaías assinalara outrora o reino de Cristo: “Meu Espírito, que está em ti, e as palavras que pus em tua boca, jamais se apartarão nem de tua boca, nem da boca de tua semente e de seus descendentes” [Is 59.21]. Do quê se segue que são dignos de que pereçam de fome e inanição todos e quaisquer que desprezam o alimento espiritual da alma a si divinamente oferecido pelas mãos da Igreja. Deus instila em nós a fé, mas pela instrumentalidade de seu evangelho, como adverte Paulo, de que “a fé vem do ouvir” [Rm 10.17], assim como também em Deus reside seu poder de salvar, mas, segundo atesta o próprio Paulo, o exibe e o desenvolve na pregação do evangelho [Rm 1.16]. Com este propósito Deus outrora quis que se realizassem assembléias sacras no santuário, a fim de que a doutrina proferida pela boca do sacerdote alimentasse o senso comum da fé. Tampouco visam a outra coisa esses títulos magníficos onde o templo é chamado “o lugar do descanso de Deus” [Sl 132.14], o santuário de seu domicílio [Is 57.15]; onde se diz ele estar assentado entre querubins [Sl 80.1]; donde apreço, amor, reverência e dignidade granjeiem ao ministério da doutrina celeste, aos quais, de outra sorte, derrogaria não pouco a aparência de um homem mortal e desprezado. Portanto, para que saibamos que diante de nós põe um tesouro inestimável em vasos de barro [2Co 4.7], Deus mesmo se apresenta em nosso meio; e visto que ele é o Autor desta ordem, quer ser reconhecido presente em sua instituição. Consequentemente, depois que proibiu aos seus a se devotarem a augúrios, a adivinhações, a artes mágicas, a necromancia e a outras superstições [Lv 19.31; Dt 18.10, 11], acrescenta que dará o que em tudo deva ser suficiente, isto é, que nunca estarão destituídos de profetas [Dt 18.15]. Mas, assim como não delegou aos anjos o povo antigo, pelo contrário, suscitou mestres da terra que, de fato, desempenhassem o ofício angélico, assim também quer ensinar-nos por meios humanos. Com efeito, assim como outrora Deus não se contentou com a mera lei, mas acrescentou sacerdotes que fossem intérpretes, de cujos lábios o povo lhe indagasse o verdadeiro sentido, assim também hoje não quer apenas que lhe estejamos atentos à leitura, mas ainda lhe prepõe mestres por cuja obra sejamos ajudados, coisas tais de dupla utilidade, pois, de um lado, nos prova a obediência por meio de ótimo teste, quando ouvimos seus ministros falando não de forma distinta dele mesmo; por outro lado, também nos socorre em nossa fraqueza quando, para nos atrair a si, nos prefere falar através de intérpretes, em vez de atroar em sua majestade e fazer-nos fugir dele. E de fato, quanto nos convenha esta forma familiar de ensinar, todos os piedosos sentem o pavor com que, com razão, a majestade de Deus os consterna.
João Calvino, Intitutas 4.1.5

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A Inerrância das Escrituras
“Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir”. (Mt.5:17)
Morton H. Smith
a Palavra de Deus escrita. Isso significa que apesar de ela chegar até nós através de autores humanos (o que ara um breve estudo do assunto da inerrância das Escrituras, eu indico a vocês o ensaio que pode ser encontrado na internet se procurarmos nunca se negou), a Bíblia é também a Palavra de Deus, e como Palavra de Deus ela é completamente confiável, a regra infalível de fé e de prática. Alguns têm argumentado que a doutrina da inerrância foi “inventada” no século XIX pelos teólogos de Princeton, B. B. Warfield e A. A. Hodge. É importante lembrar que a formulação de doutrinas particulares ocorre apenas quando há necessidade para isso. Isto é, uma doutrina específica pode ser formulada apenas quando algo que está implícito a esta fé é negado. O falso ensino provoca uma repreensão explícita. Isto é tão verdadeiro com respeito à doutrina da inerrância como o foi com relação às doutrinas da Trindade, ou da justificação pela fé. O conceito da veracidade da Bíblia era assumido implicitamente durante toda a história da Igreja anterior ao século XIX. Esta visão das Escrituras consistia num reflexo da visão dos próprios autores bíblicos. Podemos, dessa forma, concluir, com respeito a todo este assunto do testemunho do Antigo Testamento sobre si mesmo, que ele certamente reivindica ser divinamente originado. Uma porção menciona outra porção como autoritativa. Finalmente, não há contradição entre quaisquer partes do Antigo Testamento. Em virtude disso, alguém bem poderia supor que a visão da inspiração sustentada pelo Antigo Testamento é a que chamamos de inspiração plenária verbal, resultando numa Palavra Infalível. À medida que estudamos o testemunho do Novo Testamento a respeito do Antigo, descobriremos que esta é exatamente a doutrina que nos está sendo apresentada por Cristo e por Seus discípulos. Que esta era a visão predominante do povo judeu pode ser visto na maneira pela qual as declarações de Jesus e dos seus discípulos sobre o assunto não provocam nenhuma reação dos judeus que não seja a aceitação deste ponto de vista.

P

por “inerrância das Escrituras” ou na “Latimer House”,

escrito pelo Dr. Kevin Vanhoozer, Professor Honorário de Teologia e Estudos Religiosos em New College, Uni-

versity of Edimburg. Considero o seu tratamento tão útil, que estou seguindo o seu esboço a respeito desse assunto. Quando falamos da inspiração das Escrituras, estamos falando da maneira pela qual Deus transmitiu a Escritura aos autores humanos. A palavra traduzida por “inspirada” em II Timóteo 3:16 significa literalmente “so-

prada por Deus”. As Escrituras são tidas como “sopradas por Deus”, o que significa dizer que elas são as verdadeiras Palavras de Deus. Assim, a inspiração fala da “origem da autoridade bíblica”, enquanto a inerrância descreve a sua natureza. “Por inerrância nos referimos não apenas ao fato de que a Bíblia “não contém erro”, mas também a sua impossibilidade de errar.” A inerrância e a infalibilidade, definidas positivamente, referem-se à absoluta veracidade da Bíblia. Essa é uma propriedade crucial e central da Bíblia. A base para a doutrina da inerrância bíblica derivase tanto da natureza de Deus como do ensino da Bíblia a respeito dela própria. Em primeiro lugar, a doutrina bíblica e cristã sobre a pessoa de Deus concebe-O perfeito em todos os seus atributos. Ele é, portanto, onisciente, totalmente sábio e totalmente bom. Sendo assim, seguese que Deus fala a verdade. Ele não diz mentiras; Ele não ignora coisa alguma. Dessa forma, a Palavra de Deus está livre de todo erro que provenha de engano consciente ou de ignorância inconsciente. Essa é a confissão unânime do salmista, dos profetas, do Senhor Jesus e dos apóstolos. Em segundo lugar, a Bíblia apresenta a si mesma como “soprada por Deus”, sendo ela, portanto,

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MORtOn h. sMith

O próprio Jesus diz que a Escritura não pode falhar. A visão que Ele tinha do Antigo Testamento era a de que este era verdadeiro, fidedigno, digno de confiança. Os autores do Novo Testamento compartilhavam e refletiram essa mesma estima elevada que possuíam das Escrituras. O testemunho de Jesus referente ao Antigo Testamento como refletido em Mateus 5:17-18 é especialmente relevante num dia e numa época que tem presenciado uma rejeição generalizada da inspiração verbal. Primeiro, os termos “a lei e os profetas” da maneira como foi usado por Jesus aqui, refere-se provavelmente à totalidade do Antigo Testamento. Se, entretanto, alguém insiste que se refira apenas às duas primeiras sessões do Antigo Testamento, não há motivo para a acreditar que Jesus faria qualquer distinção ou trataria a terceira porção de maneira diferente. Essa passagem fornece a visão própria de Jesus sobre o Antigo Testamento, ou pelo menos, sobre uma boa parte dele. Ele não veio para destruí-lo. A palavra para destruir (katalu-

hebraico, e para a minúscula projeção que distingue uma letra da outra. Seria semelhante a nos referirmos ao ponto da letra “i” e ao traço do “t”, no português. O professor J. Murray diz:
Haveria alguma outra maneira de estabelecer de modo mais conclusivo a acuracidade meticulosa, a validade e a verdade da lei do que a linguagem a que Jesus atrela sua própria e única formula de asseveração?... É difícil compreender por que aqueles que aceitam a doutrina

10:33-36. Jesus havia acabado de ser desafiado quanto a sua reivindicação de ser um com o Pai. Ele citou o Salmo 82:6 em resposta ao desafio. É justamente esse apelo às Escrituras o eixo de toda a sua defesa. É difícil achar explicação para isso em qualquer outra base se não que Ele considerava as Escrituras como o irrefutável instrumento de defesa. Pois, “a Escritura não

pode falhar”.
A passagem citada era da porção das Escrituras que pode ter sido omitida de Mateus 5:17 e seguintes. Aqui, ele mostra a mesma alta consideração por esta porção do Antigo Testamento como Ele fez com respeito à Lei e aos Profetas. Ele apela para a Escritura porque ela é verdadeira e intrinsecamente uma finalidade. E quando ele diz que a Escritura não pode falhar, ele está certamente usando a palavra Escritura, no seu sentido mais compreensivo, como incluindo tudo o que os judeus da época reconheciam como Escritura, a saber, todos os livros canônicos do Antigo Testamento. Assim, é ao Antigo Testamento que sem qualquer reserva ou exceção ele se refere ao dizer que ele “não

Por inerrância nos referimos não apenas ao fato de que a Bíblia “não contém erro”, mas também a sua impossibilidade de errar

da inspiração tropecem na doutrina da inspiração verbal. Pois as palavras são as mediadoras do pensamento, e no que diz respeito às Escrituras, as palavras escritas são as únicas mediadoras da comunicação. Se os pensamentos são inspirados, as palavras devem ser... A indissolubilidade da lei se estende a cada um de seus “is” e “tils”. Tal indissolubilidade não seria um atributo da lei

pode falhar”... Ele afirma a infalibilidade
da Escritura na sua totalidade e não deixa lugar para qualquer suposição como a de graus de inspiração ou falibilidade. A Escritura é inviolável. O testemunho do nosso Senhor não significa nada menos que isso. A natureza crucial de tal testemunho enfatizada pelo fato de que é dado em resposta à mais séria das acusações e é em defesa desta mais estupenda reivindicação que ele sustenta tal testemunho. Além dessas passagens específicas, há também uma série de materiais nos Evangelhos que nos levam a concluir que ele mantém esta mais alta avaliação das Escrituras como um todo. Sua atitude é a de meticulosa aceitação e reverência. A única explicação para tal atitude é que o que a Escritura

se esta fosse falível em algum detalhe, pois se assim fosse, ela seria algum dia reduzida a nada. E assim é justo dizer que, em cada detalhe, a lei era considerada por ele infalível e portanto, indissolúvel. É realmente uma estranha predisposição a de professar a aceitação da infalibilidade de Cristo e ao mesmo tempo rejeitar as claras implicações dos seus ensinos. Nada poderia ser mais claro que isso, qual seja, que nos menores detalhes a Lei é tomada por Cristo e encontra, no seu cumprimento, sua permanente personificação e validade. Pela mais absoluta necessidade, existe apenas uma conclusão, qual seja, que a Lei é infalível e inerrante.

sai) significa ab-rogar, demolir, desintegrar ou anular. Jesus afirma aqui que a sua obra messiânica não destruirá a Lei e os profetas, mas os deixará intactos. Positivamente, Ele veio para cumprir. A palavra usada para cumprir (plerosai) fala de um cumprimento completo. No versículo 18, Jesus aplica essa afirmação geral para os detalhes menores da lei. Ele veio para cumprir, não apenas em termos gerais, mas até mesmo as minúcias da lei. O “i” e o “til” referem-se à menor letra do alfabeto

A segunda passagem que nos mostra a visão particular de Jesus com referência ao Antigo Testamento é João

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a ineRRância Das escRituRas

disse, Deus disse, que a Escritura era a Palavra de Deus, que era a Palavra de Deus porque era Escritura e que era ou se tornou Escritura porque era a Palavra de Deus. Como já foi notado, as doutrinas particulares são formuladas com o propósito de refutar erros. A reforma protestante adotou o desenvolvimento da doutrina da autoridade bíblica como parte das confissões protestantes no século XVI em oposição à idéia Católica Romana das tradições humanas como a autoridade suprema na Igreja. A doutrina da inerrância bíblica foi formulada em oposição às negações da veracidade da Bíblia. Essas negações surgiram com o alto criticismo liberal do fim do século XIX. Por trás desse desenvolvimento estavam os tão conhecidos pensadores “iluministas” do século XVII. O Deísmo daquele século aceitou a idéia de que a fonte da verdade era a razão ao invés da revelação. Mais e mais a Bíblia passou a ser vista como qualquer outro livro. As suposições naturalistas dos deístas rejeitavam a possibilidade da ação divina na história. O resultado foi que a crítica Bíblica procurou explicar a origem da Escritura por uma visão naturalista. A origem sobrenatural da Escritura foi assim abandonada. Dentro desta nova visão do mundo, a idéia da autoridade bíblica foi abandonada. Os críticos liberais históricos argumentaram que os autores da Bíblia foram homens do seu tempo, limitados pela visão de mundo/ imaginário daqueles dias. Foi contra essa generalizada rejeição da autoria que a doutrina da inerrância bíblica, implícita de início, foi explicitamente formulada (por Warfield e Hodge). A doutrina da inerrância bíblica, entretanto, não é uma nova doutrina teológica. É a articulação do que sempre fôra a visão implícita e pressuposta da Igreja durante a maior parte da história da Igreja. O que a doutrina da inerrância bíblica estabelece explicitamente? A doutrina

pode ser definida da seguinte maneira: “A inerrância da Escritura significa que a Escritura, em seus manuscritos originais e quando interpretada de acordo com o sentido pretendido, fala verdadeiramente sobre tudo o que afirma”. Essa definição fornece duas qualificações.

ou noutro lugar para que o crente mais simples encontre tal ensino. Quando há conflito a respeito de alguma particular interpretação bíblica, “ela deve ser atribuída ao intérprete falível e não ao texto infalível”. No processo de escrita, Deus usou a instrumentalidade humana dos escritores. Isso incluía o uso do vocabulário e da personalidade dos escritores individuais. Ao fazer isso, ele não permitiu que o erro adentrasse na Bíblia. Ele usou as formas da linguagem humana, da cultura do escritor. Por exemplo, falar do sol se levantando é refletir a experiência humana. Isso não significa que tal expressão tem o propósito de afirmar o entendimento científico completo da relação do Sol com a Terra. Usar formas humanas de comunicação não quer dizer necessariamente que há erro na comunicação. Pode-se sugerir uma analogia com a encarnação da Segunda Pessoa da Trindade. Do mesmo modo que assumir a natureza humana não o envolveu em pecado, assim também a Palavra de Deus foi escrita sem prescindir da sua veracidade. Algumas vezes a doutrina da inerrância é mal representada como se implicasse em que todo o que a sustenta pratica uma interpretação literalista da Escritura. Deve-se fazer uma distinção entre verdade literal e interpretação literal. Alguém pode apegar-se à inerrância, e por conseguinte, à verdade literal das proposições feitas na Bíblia sem sustentar que toda a Bíblia deve ser interpretada de uma maneira literal, quando este não

1) Primeira: só se afirma a inerrância dos textos originais → Se for objetado que agora nós não possuímos os manuscritos originais, deve ser observado que estudos da crítica textual têm sido capazes essencialmente de reconstruir o texto original. Mesmo onde for possível haver mais de uma leitura, que possa ser verdadeira, não há maiores doutrinas da fé cristã que seriam modificadas com a escolha de uma das leituras.

A visão que Jesus tinha do AT era a de que este era verdadeiro, fidedigno, digno de confiança.

2) A segunda qualificação é “quando interpretada conforme o sentido pretendido” → Deve-se ser sempre
bastante cuidadoso ao interpretar a Bíblia conforme o propósito para que ela foi escrita. É tentador reivindicar para as interpretações de alguém a mesma autoridade que tem o próprio texto bíblico. Se for objetado que nós não temos uma sentença definida de qual seja a interpretação de uma passagem, a resposta deve ser encontrada na doutrina da perspicuidade das Escrituras, não na doutrina da inerrância. Ou seja, a Escritura não é sempre igualmente clara, mas pela comparação de Escritura com Escritura, ela se interpreta a si mesma, de modo que tudo o que é necessário para a salvação e para a vida está suficientemente claro num

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MORtOn h. sMith

era “o propósito do autor ou da forma literária do texto”. O contexto de qualquer texto particular deve ser considerado quando buscamos determinar se um erro existe ou não. Por exemplo, na conversa regular nós freqüentemente usamos figuras gerais, ao invés de figuras precisamente exatas. Podemos dizer que uma palestra durou uma hora, quando ela só durou 55 minutos. Por outro lado, se alguém estiver dirigindo um programa de televisão, ele teria que ser mais preciso ao designar a duração da palestra. Dessa forma, o contexto determina o tipo de precisão que deve ser esperado. Em outras palavras, o erro é dependente do contexto. A questão quanto a uma passagem ser interpretada de maneira literal depende do seu gênero literário. Por exemplo, quando Jesus fala de si mesmo como sendo uma “porta” (João 10:1), ele não pretende que procuremos pela maçaneta ou dobradiça. Devemos ser sensíveis ao fato de que isto é uma metáfora, que não se propõe a ser tomada literalmente.

A pergunta que devemos fazer quando interpretamos a Bíblia é: “que tipo de literatura é essa? Ela visa ser histórica e cronológica, ou a ênfase está no conteúdo da mensagem do que fala? A literatura de parábolas é bem diferente tura apocalíptica. Se levantamos a questão com relação a se o texto deve ser tomado literalmente, a resposta será dada em termos do contexto. “O sentido literal é o seu sentido literário: o sentido que o autor tencionava transmitir, na e

diferentes, e não apenas para declarar fatos. A inerrância, então, é um derivado da infalibilidade: Quando o propósito da Bíblia é fazer afirmações verdadeiras, ela o faz também sem falha. Ainda assim, os demais atos pronunciados são infalíveis também. O próprio entendimento da Bíblia sobre a verdade destaca a questão da confiança. A Palavra de Deus é verdadeira, pois ela é digna de confiança ― digna de confiança para atentar, para tornar verdade sua reivindicação e para cumprir seu propósito. Podemos, assim, falar das promessas da Bíblia, das suas ordens, advertências, etc. como sendo verdadeiras à medida que estas sejam também dignas de confiança. Juntos, os termos inerrância e infalibilidade lembram-nos de que a Palavra de Deus é totalmente digna de confiança, não apenas quando fala, mas também quando exemplifica a verdade.
Dr. Morton Smith é Prof. de Teologia Sistemática e Bíblica no Greenville Presbyterian Teological Seminary – SC, USA

de uma narrativa histórica, ou da litera- ― advertências, promessas, questões ―

através de uma forma literária particular. Inerrância significa que cada frase, quando interpretada corretamente (de acordo com o seu gênero literário e seu senso literário), é totalmente confiável. O termo mais antigo para se expressar a autoridade bíblica — infalibilidade—permanece útil. Infalibilidade quer dizer que a Escritura nunca falha no seu propósito. A Bíblia cumpre todas as suas reivindicações da verdade. A Palavra de Deus nunca leva ao erro. É importante relembrar que a linguagem pode ser usada para vários propósitos

A Lei do Culto
... oferecei sacrifício de louvores do que é levedado, e apregoai ofertas voluntárias, e publicai-as, porque disso gostais, ó filhos de Israel, disse o SENHOR Deus. Am 4.5 Ao afirmar que os israelitas gostavam de fazer essas coisas, Deus repreende a presunção de inventarem por conta própria novos modos de culto; é como se ele dissesse: “Não exigi de vocês nenhum sacrifício senão os apresentados em Jerusalém, mas vocês os oferecem a mim em lugares profanos. Por isso considerem os seus sacrifícios como oferecidos a vocês mesmos, e não a mim”. Sabemos verdadeiramente como os hipócritas, quando praticam quaisquer de suas obras e cerimônias frívolas, sempre convertem Deus em devedor deles; pois acham

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que Deus está obrigado a eles. “Vocês deviam ter me consultado e apenas obedecido à minha palavra, deviam ter atentado àquilo que me agrada, o que eu ordenei; mas vocês desprezaram a minha palavra, negligenciaram a minha lei e foram atrás do que lhes agradava e procedia das suas próprias fantasias. Assim, visto que a própria vontade é a lei de vocês, busquem a recompensa em si mesmos, pois eu não admito nada disso. O que eu exijo é submissão implícita, nada mais procuro senão obediência à minha lei; como vocês não cumprem nada disso, mas agem segundo a própria vontade, isso não é adorar o meu nome”.

Concede, ó Deus onipotente, que assim como queres que a nossa vida seja moldada pelo preceito da tua lei, na qual nos revelaste aquilo que é do teu agrado, para não deambularmos na incerteza, mas te prestemos obediência — ó concede que nos submetamos inteiramente a ti e te consagremos não somente toda a nossa vida e todos os nossos labores, mas também te ofereçamos como sacrifício o nosso entendimento e toda prudência e bom senso que tenhamos, de sorte que, ao te servirmos espiritualmente possamos realmente glorificar o teu nome, por meio de Cristo nosso Senhor. Amém.

Oração:

João Calvino. Devotions and prayers of John Calvin, 52 one-page devotions with selected prayers on facing pages. Org. Charles E. Edwards. Old Paths Gospel Press. S/d. Pags. 42 e 43. Tradução: Marcos Vasconcelos, julho/2009. E-mail: mjsvasconcelos@gmail.com; Blog: http://mensreformata.blogspot.com/

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