Você está na página 1de 47
COLEGAO PORTUGUES NA PRATICA Claudio Cezar Henriques Léxico e SemAéantica Estudos produtivos las RR Rea MESA LLC — CAMPUS © 2011, Elsevier Editora Ltda. “Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei n? 9.610, de 19/02/1998. Nenhuma parte deste livro, sem autorizagao prévia por escrito da editora, poderd ser reproduzida ou transmitida sejam quais forem os meios empregados: eletronicos, mecanicos, fotogratices, gravagéo ou quaisquet outros. Revisao: Jussara Bivar Ecditoragao Eletrénica: Estadio Castellani lustragdes: Leandro Henriques Elsevier Editora Lida, ‘Conhecimento sem Fronteiras Rua Sete de Setembro, 111 ~ 16° andar 2050-006 ~ Centro — Rio de Janeiro — Ru — Brasil Rua Quintana, 753 - 8? andar (04589-011 — Brooklin — Sao Paulo — SP — Brasil Servigo de Atendimento ao Cliente ‘0800-0265340 sac@elsevier.com.br ISBN 978-85-352-4357-4 Nota: Muito zelo e técnica foram empregados na edico desta obra. No entanto, podem ocorrer erros de digitagdo, impressao ou duivida concsitual. Em qualquer das hipdtesas, solicitamos a comunicagao ao nosso Servigo de Atendimento ao Cliente, para que possamos esclarecer ou encaminhar a questo. Nem a editora nem o autor assumem qualquer responsabilidade por eventuais dénos ou perdas a pessoas ou bens, originados do uso desta publicacéo. / CIP-Brasil, Catalogagao-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, FU HadoL Henriques, Claudio Cezar, 1951- Léxico e seméintica : estudos produtives sobre palavra e significacao / Claudio Cezar Henriques. ~ Rio de Janeiro : Elsevier, 2011 il. (Portugués na pratica) ‘Apéndice Inclui bibliogratia ¢ indies ISBN 978-85-352-4957-4 1. Lingua portuguesa — Seméintica. 2. Lingua portuguesa —Lexicografia. |. Titulo. Il, Série. 11-0496. COD: 469.5 COU: 811.134.996, Léxico em Foco os Estudos de Lexicologia do Portugués (1994, p. 9), Mario Vilela fala de uma re- interpretagaio que os estudiosos da linguagem tém dado a definicao tradicional, ‘no plano puramente linguistico, da SEMANTICA como “ciéncia ou estudo do significa- do”. Ela passa a ser apresentada sob trés pérspectivas: (a) como o estudo da mudanca do significado; (b) como 0 estudo da significacao (englobando o proceso ¢ 0 modo de significar); (¢) como 0 estudo do “contetdo” dos signos linguistico'*. E na terceira perspectiva que Vilela entende a semintica que se pode denominar SEMANTICA LIN- GUISTICA. Entretanto, como lembra Alan Ray (1977, p. 112-3), existe uma situacdo muito complexa para ser inteiramente submetida por uma formula breve que corresponda @ uma estrutura nocional capaz de suscitar a elabora¢do do que devia ser, por exemplo, a definigao de um signo linguistico”*. Ray enumera essas dificuldades: (a) a redugéo dos discursos individuais a um denominador comum sociolinguistico; (b) a impos- sibilidade de fazer coincidir a hierarquia das categorias semanticas lexicais com uma hierarquia categérica formal representavel; (c) o cardter fugidio das relagdes entre 0 conceito ¢ signo, ¢ portanto com o significado, relagoes variaveis conforme o grau de abstracao; (d) as interferéncias do sentido e dos valores em casos de polissemia; (e) a relacdo do signo dado e das unidades semanticas que ele envolve com outras lexias ou outros significados; (f) a imprecisao dos critérios de frequéncia e de reparticao social. 1 Ha uma vasta literatura sobre a tipologia dos signos. Nao é pretensio deste livro aprofundar essa questo mais do que ja fez até aqui. Adam Schaff (1968, p. 164-209) trata desse assunto em “A Tentativa de Tipo- Jogia dos Signos, de Husser!”. % Alan Ray faz essas consideracdes no capitulo “A Impossivel Definicao”, no qual discute o trabalho do lexicégrafo a0 elaborar as definicdes. Na perspectiva do estudo dos “contetidos” dos signos linguisticos, parece-nos que as dificuldades sio as mesmas. 74 LEXICO E SEMANTICA O léxico esta exposto a varias operagdes semanticas, como a polissemia, a sinoni- mia, a homonimia, Faraco e Tezza (2003, p. 47) lembram que as palavras s6 ganham pleno significado no momento mesmo em que acontecem: “s6 entio nds saimos do sinal de cédigo, do valor de diciondrio, para a vida real do significado.” Isso signifi- 2 que os signos isolados esto em “estado de dicionério” (para repetir a imagem de Drummond citada no Prefécio). Na realidade do uso, eles aparecem combinados para assumir seu valor significativo, José Carlos de Azeredo (2008, p. 58) tem uma descrigao minuciosa para esse tema: A aparente naturalidade do uso cotidiano da palavra para a comunicacio imediata camufla a complexidade eo potencial da lingua: tem-se a impressdo de que as situacdes cotidianas se repetem sem novidade, e que podemos lidar com elas valendo-nos de fr mulas j conhecidas, praticamente prontas, num entrosamento perfeito entre a rotina da tealidade ea rotina de nossos discursos. Neste caso, a lingua atua fortemente como ume forma de conhecimento que estabiliza nossas percepeses naquilo que podemos chamar de senso comum. Mas hé outras dimensdes do uso da palavra, onde o mundo nao esté pronto mas pre- cisa ser criado, onde as frases ¢ 0s sentidos nao estio disponiveis como produtos nas gon- dolas ¢ prateleiras do supermercado, mas, pelo contrério, precisam ser elaborados, Esta €a dimensio em que se movimentam todos aqueles que tém desafios pela frente, que precisam ir além da realidade 6 construida ¢ aparente, buscando, sob a superficie con- fortavelmente constante da fala de todos os dias, as pistas, as brechas, 08 atalhos que nos dao acesso a territérios ¢ objetos que agucam nossa percepclo, renovam nossas emogdes Gestendem nossos horizontes de compreensio e de comunicaglo. £ nessa dimensio que 4 palavra assume o carter de uma sofisticada tecnologia a ser adquirida e dominada, A tarefa da semantica lexical, como explica Roland Eluerd (2000, p. 46) é estudar © espago relativo & Tinguagem cumprido pelas palavras segundo suas duas diresdes comple- mentares: uma envolve as combinagées sintagmaticas de que as palavras podem participar a outra abrange as diferentes significacoes e empregos que tais combinacSes suscitam. Ja sabemos que o significado de um enunciado resulta da combinagdo dos signif cados das palavras e sintagmas que o compoem. Neste capitulo interessa-nos examinar as palavras como unidades dotadas de forma e significado. E bem verdade que o signi- ficado que uma palavra assume num enunciado resulta também de uma combinacio de formas e de significados. Essa ressalva se refere ao reconhecimento que é preciso fazer acerca de prefixos e sufixos ou de morfemas de género, niimero, pessoa, modo e tempo. Também ao entendimento de que algumas palavras contém mais de um radical e que juntos, eles podem significar algo bem diferente do que separados. (1) Os chefes incapazes admiravam tanto 0 puxa-saco quanto o pisa-mansinho. Como toda expresso remete ao contexto em que foi enunciada, vamos situar esse frase inserindo-a na conversa que um Pai tem com o filho sobre o tempo em que traba~ Ihava numa empresa privada e sobre como era dificil conviver com alguns superiores © com certos colegas. Nesse contexto, o exemplo (1) nao permite que se pense em alguém LéxicoemFoco 75 literalmente “carrega sacos” ¢ em alguém que “pée os pés no chao com amabilidade tileza”. (1a) Os chefes incapazes admiravam tanto o praticante da ago de estender o re- cepticulo que contém 0s testiculos e os epididimos quanto o caminhante sutil eamével. (1b) Os chefes incapazes admiravam tanto o funcionario bajulador quanto o fun- cionario sonso, fingido. ‘Os substantivos compostos, embora combinem morfemas lexicais ¢ seus respecti- conceitos, designam um terceiro conceito. E 0 caso entio de dizer que os compostos sio propriamente unidades morfoldgicas, mas conjuntos sinttico-semanticos pois seus membros se estabelece uma microrrelacao coordenativa ou subordinativa consequéncia é um novo valor de significado. E como se a soma 1+1 resultasse em. or isso, o significado do enunciado (1) sé é reconhecido em (1b), e nao em (1a). Mas e também apresenta outros itens lexicais que combinam significados. Nem sempre significados externos (radicais, prefixos e sufixos): in+capazes, pisa+manso+inho. mos, por exemplo, que a frase se refere a mais de um chefe, que a citada admiragao bajuladores e sonsos tem uma idicacao cronolégica, pois o verbo esta no pretérito erfeito (desinéncia modo-temporal). Além disso, usar determinados morfemas é as uma possibilidade que a lingua nos oferece. Ela também nos permite “nao usar” femas. Se repararmos nos dois Substantivos compostos e os compararmos com 0 iro substantivo da frase, veremos que apenas “chefes” est no plural. Isso significa ha um morfema indicativo explicito (desinéncia de nimero) de que nas reminis- as paternas havia mais do que um chefe incapaz. Entretanto, usar “puxa-saco” e -mansinho” no singular nao quer dizer que s6 havia um bajulador e um sonso na a. A auséncia da marca de plural é suprida pelo contexto, no qual é perfeitamente issivel (e bastante provavel) a dedugdo que esté em (2), sem artigo definido, como lario das explicagdes anteriores. (2) Chefes incapazes admiram funcionérios bajuladores tanto quanto funciondrios sonsos. O enunciado também contém indicagdes marcadas por morfemas selecionados e por lages lexicais. Se observarmos o significado de “admiravam”, veremos que é di- ite de “admiraram”, ou seja, a informagao sobre 0 passado nao é de uma acao que teceu episodicamente num determinado momento da vida paterna. A escolha do no imperfeito leva 0 interlocutor a entender que o comentario do pai se referia a pratica habitual no seu emprego. Por isso, é coerente a inferéncia de (2), com verbo presente indicando uma “verdade permanente”. Outro dado importante é 0 que men- a correlacao comparativa “tanto... quanto”. Seu significado de equiparagao entre .dores e sonsos s6 existe por conta da parceria, Sem o segundo (2a), a frase passaria um advérbio de intensidade no “tanto”; sem 0 primeiro (2b), a frase ficaria invidvel 78 LEXICO E SEMANTICA Como se percebe, as associagées nao sio feitas apenas nas relacdes gramaticais, pois se constroem a partir do raciocinio humano e, portanto, nao ha limites para elas. A razio para o surgimento do verbo “bebemorar” (incorporado recentemente aos dicio- nérios portugueses) é 0 verbo “comemorar”. A associagao semantica que serviu de base para essa criagao é morfologicamente infundada: “comemorar” é derivado de “memo- rar” e ndo de “comer”. Apesar disso, as duas primeiras silabas fazem uma homonimia com 0 verbo “comer” e por esse motivo, “comemorar” pode dar origem a “bebemorar™ (e - por que nao? - a fumamorar ou a dormimorar...), se pensarmos na coeréncia da aproximacao de “comer” com “beber”. Para distinguir os tipos de relagdes associativas entre as palavras, usaremos as ex- pressGes CAMPO ASSOCIATIVO, CAMPO CONCEITUAL e CAMPO SEMANTICO. ~ CAMPO ASSOCIATIVO: expressao genérica que permite reunir palavras a partir de qual-~ | quer associacao coerente (semantica ou nao) que exista ou se faga entre elas: nos sete exemplos | dados a partir da palavra “escravidao’, todas as LINHAS so de campos associativos. | - CAMPO CONCEITUAL: expresso que se refere ao contingente de palavras que se agru- pam, ideologicamente, por meio de uma rede de associagées e interligages de sentido: nos © | oito exemplos dados a partir da palavra “escraviddo’, apenas as LINHAS 1, 5 e 6 sdo de campos ‘ conceituais. | - CAMPO SEMANTICO: expressao que se refere ao contingente de palavras que se agrupam, lin- ' guisticamente, por meio de uma rede de associagdes ¢ interligagdes de sentido: nos oito exemplos dados a partir da palavra “escravidao’, apenas as LINHAS 2 ¢ 3 sao de campos sernanticos. b Por esse raciocinio, a teoria dos CAMPOS CONCEITUAIS (que alguns autores também chamam, por comodidade didatica, de CAMPOS ASSOCIATIVOS) considera os agrupa~ mentos de palavras para construir os esquemas representacionais da sociedade. Jé 2 teoria dos CAMPOS SEMANTICOS privilegia a estrutura lexical como um todo. Convé: porém, advertir que é uma pratica comum usar a expressio CAMPO SEMANTICO gene ricamente, com 0 mesmo sentido que aqui demos apenas para CAMPO CONCEITUAL. Se consultarmos o livro Usos da Linguagem, de Francis Vanoye (1991, p. 34-5), ve- remos que ele fala em CAMPOS SEMANTICOS ¢ CAMPOS LEXICAIS ¢ assim os define: |= CAMPO SEMANTIC enunciado, que tem o objetivo de definir os empregos da palavra e fazer o levantamento dos termos aos quais ela se associa ou se opde. E 0 mesmo que chamamos de CAMPO CONCEF TUAL = CAMPO LEXICAL: conjunto de palavras empregadas para designar, qualificar, caracterizan, significar uma nogao, uma atividade, uma técnica, uma pessoa. F 0 mesmo que chamamos de CAMPO SEMANTICO. As frases (1) e (2), mencionadas por Vanoye, mostram que ele apresenta CAM SEMANTICO como sinénimo do que aqui chamamos de CAMPO CONCEITUAL. Nal de “Januaria” e de “Carolina” (Ip CBH, v. 3, 1968), de Chico Buarque, diz Vanoye, “es tar a janela” tem o sentido de “fugir as emogdes da vida”. Léxico em Foco 79 (1) Toda a gente homenageia Januéria na janela / Até o mar faz maré cheia pra chegar mais perto dela (2) Eu bem que mostrei a ela, o tempo passou na janela / E s6 Carolina nao viu. Para exemplificar os campos lexicais, Vanoye transcreve uma passagem do roman- O Mulato (2005, p. 468-9), de Aluisio Azevedo (1857-1913), a partir da qual organiza listas do mesmo campo lexical. Recendia por toda a catedral um aroma agreste de pitangueira e trevo cheiroso. Pela porta da sacristia lobrigavam-se de relance padrecos apressados, que iam na carreira, vestindo as suas sobrepelizes dos dias de ceriménia. Havia na multidao um rumor impa- ciente de plateia de teatro, O sacristao, cuidando dos pertences da missa, andava de um para outro lado, ativo como um contrarregra quando o pano de boca vai subir. ‘Afinal, deixa fanhosa de um padre muito magro que, aos pés do altar, desafinava uns salmos de ocasio, a orquestra tocou a sinfonia e comecou o espetaculo. Correu logo 0 surco rumor dos corpos que se ajoelhavams todas as vistas convergiam para a porta da sacristia; fez-se um sussurro de curiosidade, em que se destacavam ligeiras tosses e espirros, ¢ 0 conego Diogo apareceu, como se entrasse em cena, radiante, altivo senhor do seu papel e acompanhado de um acélito que dava voltas frenéticas a um turibulo de metal branco. Eo velho artista, entre uma nuvem de incenso, que nem um deus de magica, ¢ co- berto de galdes e lantejoulas, como um rei de feira, langou, do alto da sua solenidade, um olhar curioso ¢ rapido sobre o piblico, irradiando-Ihe na cara esse vitorioso sorriso dos grandes atores nunca traidos pelo sucesso. CAMPO LEXICAL DA LITURGIA: catedral, sacristia, sobrepelizes, ceriménia, sacristao, mis- “sa, padre, altar, salmos, ajoelhavam, sacristia, cénego, acélito, turibulo, incenso; : "CAMPO LEXICAL DO ESPETACULO, que tem dois subgrupos, (a) teatral: plateia, teatro, © contrarregra, pano de boca, deixa, orquestra, sinfonia, espeticulo, entrar em cena, papel, ar- | “tista, puiblico, atores, sucesso; (b) circense: deus de magica, galdes e lantejoulas, rei de feira, “ nuvem de incenso; © CAMPO LEXICAL DAS PALAVRAS DE CARGA PEJORATIVA: padrecos, fanhosa, desafina- | va, de ocasiao, frenéticas, cara, velho artista. i Ao final, Vanoye faz um comentario léxico-semantico sobre a passagem de O Mu- Jato, mostrando que esse tipo de estudo “é fértil no dominio estético, pois os autores geralmente dao as palavras sentidos singulares, desconhecidos, desconcertantes, real- mente novos”. Na descrigao do que se passa na catedral, os campos lexicais interpenetram-se e com- pletam-se. Assim, a palavra cerimOnia pode ser incluida no campo lexical da liturgia, mas as comparagdes do autor fazem dela um sinénimo de espetaculo (...). A associagao faz daquela ceriménia religiosa 0 equivalente de um espetéculo de mé-qualidade. O campo lexical da igreja ¢ espelhado, via comparagao e metafora, no campo lexical do espetéculo. O sacristdo um contrarregra, os fis sio uma plateia impaciente. No iltimo paragrafo, o espetaculo se caracteriza como circense: os paramentos sio galdes e lantejoulas; o cOnego, um rei de feira. Através do texto todo, os elementos do conjunto de carga pejorativa fazem a ligagio mais concreta entre as ideias de ceriménia — espetaculo ~ e espetaculo barato. que justificam a interpretacao do texto. Por isso... repito: € uma pratica NTICO genericamente, com o mesmo sentido que | 5.2. SINONIMIA E ANTONIMIA Duas das mais conhecidas facetas a explorar nas relac&es semanticas entre: sao a SINONIMIA € a ANTONIMIA. Defini-las é tarefa perigosa, mas podemos sua explicacdo com 0 modalizador “a principio” e dizer que ambas devem ser das a partir da propriedade que dois termos tém de serem empregados come: tos um do outro. Se, a principio, esse emprego nao causar prejuizo no que se comunicar, diremos que ha SINONIMIA entre eles. Sea substituiséo, porém, r significagdes opostas, havera ANTONIMIA entre eles. SINONIMIA, ‘ ANTONIMIA ! equivaléncia/isomorfia semantica (772) ou; oposigo semantica (? { aproximagao dos semas (#22) | incompatibilidade dos semas (722) Vamos exemplificar os dois casos imaginando a situago de um comercian faz. as compras da semana e pede a dois funcionarios que arrumem tudo. Se ele fi dizendo qualquer das frases seguintes, nada mudard na/sua comunicagio: (1) Por favor, alojem os mantimentos num lugar de facil acesso (2) Por favor, guardem os mantimentos num lugar de facil acesso. (3) Por favor, armazenem os mantimentos num lugar de fécil acesso. Os verbos “alojar”, “guardar” e “armazenar”, nesse contexto, sio intercambi sao SINONIMOS. O comerciante nao ouviu, porém, o comentario irénico de um empregados, apés sua saida: (4) A gente aloja num lugar de facil acesso, que fica melhor pro sécio dele vir desalojar alguns itens e levar pra casa dele. 4 (5) A gente aloja num lugar de facil acesso, que fica melhor pro sécio dele vir tirar alguns itens e levar pra casa dele. (6) A gente aloja num lugar de facil acesso, que fica melhor pro sécio dele vir malocar alguns itens e levar pra casa dele. ‘Agora, 08 verbos s4o outros. Também sao intercambidveis e, nessa situacio, serv como SINONIMOS entre si. No entanto, também servem como ANTONIMOS dos trés riores, haja vista que, no primeiro caso, os mantimentos “foram guardados” e, no segui “foram retirados”. no posso mais ficar aqui a esperar que um dia de repente vocé volte para | Vejo caminhées e carros apressados a passar por mim, Estou sentado 4 eira de um caminho que nao tem mais fim ‘Ex nao posso mais ficar aqui esperando que um dia repentinamente tu voltes para mim. Vejo caminhées e carros com pressa passando por mim. Estou sen- tado & beira de um caminho infindavel. (7) estao transcritos os quatro primeiros versos da cangao “Sentado a Beira do sho”, de Roberto e Erasmo Carlos (ep homénimo, 1969). Na reescritura (8), a mia acontece por substituigao sintatica, alterando-se a forma de duas locugées (infinitivo > gerindio), de advérbios e adjetivos (simples, locucionais ou ora- ), mas mantendo-se a significacao original. omo confirmaram os exemplos, as definigdes de ANTONIMLA e SINONIMIA sao » batidas. Talvez fosse melhor reescrever o quadro anterior sem o sinal de igual- Os sin6nimos e antonimos da lingua comum nao so coisa da linguagem técnica, se pode dizer que seis é igual a meia duizia e que uma diizia é 0 mesmo que doze. onimia perfeita assim como essas ¢ muito raro, e aquele antigo conselho do profes- de que “quando nao se quer repetir uma palavra, coloca-se um sin6nimo” é quase apre muito forcado, pois dificilmente encontramos um sinonimo perfeito. Arranja- equivalentes, substitutos. Outro ponto a considerar nos leva de volta & frase (7), a que tem 0 verbo “malocar”. is vezes, n4o usamos a palavra equivalente por razdes de registro, situagao, contexto... omo devemos completar as frases seguintes? (9) A boazuda da novela ficou —_ ontem. (desnuda — pelada) (10) A esposa de V.S# recebeu uma noticia . (auspiciosa — maneira) (11) Olhe na/no do computador (tela - ecra) Semanticamente, qualquer resposta serve, mas a légica do uso (que pode ser des- construida) nao recomenda que se use “desnuda” em (9), pois a palavra muito recatada para o contexto, Também nao recomenga “maneira” em (10), agora pelo motivo inver- so... E, se a frase (11) é dita no Brasil, nao escolhe “ecra”, forma adotada em Portugal. Como tudo na vida, a sinonimia é uma coisa muito relativa. Para fazer a escolha da melhor palavra ou expresso, é preciso avaliar todos os fatores envolvidos no processo de comunicagio. Agora, uma coisa € certa: o jogo é bom de se jogar, como mostram uitas das solugdes que os publicitarios ¢ os jornalistas dao em suas campanhas ¢ man- chetes. Os humoristas idem. Vejamos trés frases de humor: a sinonimia é 0 proprio enunciado. 82 LEXICO E SEMANTICA (12) Marcar é sinénimo de agendar? Ok. O juiz agendou um pénalti inexistente. (13) Complexo é sindnimo de dificil? Ok. Ela tem wm dificil de inferioridade. (14) Virar é sinénimo de inverter? Ok. O chefe inverteu bicho. E agora duas manchetes de jornal que confirmam 0s tiscos de se pensar que ¢ possi- vel usar sindnimos indiscriminadamente. Em (15) a noticia é sobre o titulo de campeio brasileiro obtido pelo Fluminense em 2010; em (16), a surpreendente derrota do Inter- nacional de Porto Alegre para o Mazembe, time do Congo, no campeonato mundial de clubes do mesmo ano: (15) TRICOLOR E CAMPEAO E LAVA A ALMA FLUMINENSE (16) COLORADO DA VEXAME INTERNACIONAL Apesar de sinénimas, as duas palavras destacadas em cada manchete nao podem: trocar de posicao. As reescrituras (15a) ¢ (16a) desvirtuam as intengdes do redator’ quanto aos fatos que precisam ser noticiados. (15a) FLUMINENSE E CAMPEAO E LAVA A ALMA TRICOLOR (16a) INTERNACIONAL DA VEXAME COLORADO Enfim, precisamos estar atentos aos jogos de sentido dos textos. As palavras e fra: podem ser colocadas em equivaléncia, mas também podem se confrontar. Nesse ¢ indicam realidades opostas ¢ a esse fendmeno estilistico se chama “antitese”, palaw sinénima de “anténimo”. (17) Entrei por uma porta e ela saiu por outra. (18) Uma irma é alta; a outra é baixa. (19) Agora vocé fica perto da janela. Depois, vocé fica longe da janela. Em (17), a antonimia de agoes ¢ representada por dois verbos (mas também p riam ser dois substantivos: “entrada” e “saida”); em (18) ha antonimia de qualid: com dois adjetivos; em (19) ha antonimia de relages temporais e espaciais com advérbios.de tempo e dois de lugar. Mas a antonimia também pode acontecer entre expressées. Pode até repres uma situagao especifica, vinculada a algum contexto. Qualquer pessoa pode ex mentar os valores semAnticos, improvisar, subverter a lingua. A linguagem do dia a1 nos dé oportunidades para isso, mas os artistas capricham. Chico Buarque e Ruy Guerra fizeram uma versio para a letra de “Sonho Impossivel” Darlon e M. Leigh, que a compuseram para o musical da Broadway “O Homem de La ¥ cha”. Os versos em portugués mostram opostos e equivaléncias criando um sentido especs Sonhar mais um sonho impossivel Lutar quando é facil ceder Vencer o inimigo invencivel Negar quando a regra é vender Léxico om Foco 83 Sofrer a tortura implacével Romper a incabivel prisio Voar num limite improvavel Tocar 0 inacessivel chao E minha lei, é minha questao Virar esse mundo, cravar esse chao Nao me importa saber se é terrivel demais Quantas guerras terei que vencer Por um pouco de paz Eamanba, se esse cho que eu beijei For meu leito e perdao ‘Vou saber que valeu delirar E morrer de paixao. A miisica foi gravada (por Maria Bethania, no Ip “A Cena Muda”) em plena época da ditadura. A letra explora as imagens de contrastes de um periodo de nossa historia em que “era facil ceder” e “a regra era vender-se”, que se opée a lutar e a negar. As antiteses viram paradoxos de grande sensibilidade. A letra original, em inglés, dizia “to reach the unreachable star” (tocar a estrela inalcancavel). Chico Buarque conseguiu transformar o paradoxo lirico numa dentincia a favor da liberdade “tocar 0 inacessivel chao”. Aqui, “chao” é sindnimo de democracia e paz, um sonho impossivel para os anos de chumbo, mas um sonho que o poeta queria sonhar. Eaassim, seja lé como for Vai ter fim a infinita afligio Eo mundo vai ver uma flor Brotar do impossivel chao E assim, seja ld como for Vai ter fim a infinita aflicao Eo mundo vai ver uma flor Brotar do impossivel chao No trecho final, a mensagem ainda é de esperanca. A metéfora da paz volta a apa- recer na palavra “flor” - a mesma que Geraldo Vandré usou em “Pra nao dizer que no falei das flores”. LA a flor ia vencer 0 canhio. Aqui, a flor vai brotar do “impossivel chio”, absurdo denotativo que se mostra coerenite como 0 sonho impossivel a ser con- guistado e admirado pelo mundo. 5.3. HOMONIMIA E PARONIMIA As palavras tém significante e significado, e isso j& vimos logo no inicio deste li- ‘ro. Acabamos de ver, nas explicagées sobre sinonimia, que palavras diferentes podem ter significados equivalentes ou até intercambidveis (conforme 0 caso). Agora é a vez 84 LEXICO E SEMANTICA de falarmos de palavras cujos significantes tém aproximagao ou identificacéo fono~ ortografica. Pode-se supor, portanto, que a confusao ou a experimentacio lexical tem consequéncias para o significado do enunciado, o que de fato acontece. As duas imagens seguintes nos ajudarao a explicar essas situades: uma exibe anti cio afixado numa padaria; outra é uma capa de jornal: ADRIANO VAI PRA COPA eae agile 0 SS ghiteo x ghiten Copa(cabana) & Copa (do Mundo) Na foto 4 esquerda, o redator desavisadamente confundiu duas palavras que S& parecidas tanto na escrita quanto na prontincia, A consequéncia é algo bizarro (p: ~ dutos contendo nddegas). As palavras glitten e gltiteo siio PARONTMAS. O uso de pela outra pode gerar risadas ou lagrimas, conforme a situagao ocorra num quadro humor ou numa prova de concurso, é dbvio. A outra imagem reproduz a primeira pagina do jornal Meia Hora, noticiando a ironia que o jogador Adriano nao fora convocado para disputar a Copa do Mundo 2010. A manchete diz que Adriano vai 4 Copa, mas o letreiro do énibus desfaz 0 py meiro entendimento e revela que Copa ¢ Copacabana, e nao a de futebol. Sutilmen também se deve perceber a escolha da preposicao: “pra Copa”, em vez de “a Copa”. um indicio de que o verbo ir, no caso de Adriano, tinha na verdade um destino nada dopédico... A palavra Copa da manchete remete portanto a dois significados: (a) co abreviagdo de “Copacabana”; (b) como truncagiio de “Copa do Mundo”. Sao dois ficantes idénticos para significados diferentes: so palavras HOMONIMAS. Os exemplos mostram que a HOMONIMIA ¢ a PARONIMIA” acontecem em deco cia da propriedade que dois termos tém de se aproximarem am virtude de sua composig fonolégica. HOMONIMIA PARONIMIA proximacao fono-ortogrétfica identificagio fono-ortografica % Em Fonética, Fonologia e Ortografia: estudos fono-ortogrificos do portugués (2009, p. 81-6) props uma boa quantidade de exercicios praticos sobre HOMONIMIA e PARONIMIA. Léxico em Foco 85 Ha PARONIMIA quando os vocabulos sao diferentes, mas sua promincia e grafia sao semelhantes. f 0 que ocorre em “ratificar” (confirmar) e “retificar” (corrigir) ou “seg- mento” (pedago de um todo) e “seguimento” (continuidade). {As frases seguintes vao nos servir para examinar a tipologia da HOMONIMIA. (1) © pessoal da segdo em que eu trabalho gosta de fazer ds sextas uma sessio de cinema. Com a cessio do miniauditério do clube, agora temos mais conforto. (2) Ao esticar o brago para pegar a bandeja com a batata cozida, a camisa descostu- rou e agora precisa ser cosida. (3) Pode deixar que eu mesmo encosto o encosto antes de me sentar. (4) A menina me disse: “Eu pelo o pelo do gato pelo simples prazer de pelar.” (5) Nao vou comer aquele bolo todo. A vontade de lhe dar uma parte parte da mi- nha necessidade de fazer dieta. (6) “Veja bem, meu bem. Sinto te informar que arranjei alguém pra me confortar.” (Marcelo Camelo) (7) Eu sonho poder ter um sonho igual ao de Drummond e de Martinho. (8) Se é cedo para pegarmos o trem, eu cedo minha vez e espero a préxima com- posicio. Sao chamados HOMONIMOS HOMOFONOS os vocabulos que se pronunciam da mesma forma, mas cujos sentidos e grafias sao diferentes. B o que temos em (1) com segéio (reparticao), sessdo (espago de tempo) e cessao (ato de ceder) e em (2) com cozida (cozinhada) e cosida (costurada). Sao chamados HOMONIMOS HOMOGRAFOS os que se escrevem com as mesmas letras, mas cujas prontincias e significados sao diferente’, Isso nao deixa de contradizer a definicao, pois a estrutura ortografica é idéntica, mas a estrutura fonoldgica é distinta. De todo modo, a tradicao gramatical assim classifica pares como vimos em (3) encosto (6) e encosto (6) ou pelo (6, verbo) e pelo (é, substantive ou prep.+art.), ‘As frases (5a8) mostram pares de vocabulos de significado diverso e que se pronun- ciam ese escrevem do mesmo modo: parte (substantivo) e parte (presente de “partir”), bem (advérbio) e bem (substantivo), sonho (presente de sonhar) e sonho (substantivo), cedo (ad- vérbio) e cedo (presente de “ceder”). E na frase (3) 0 mesmo acontece com a dupla pelo com timbre fechado (substantivo e prep.tart.). Chamam-se HOMONIMOS PERFEITOS. S80 HOMOGRAFOS IMPERFEITOS os vocdbulos de significado e pronuncia diversos que se distinguem graficamente apenas pela acentuac&o: péde e pode (do verbo “po- der”); camelo (animal) e camglé (vendedor ambulante), premiado (sorteado) e pré-mia- do (neologismo que se refere a etapa que precede o miado). A HOMONIMIA nao deve ser confundida com a POLISSEMIA (que veremos no préxi- mo item deste capitulo). A expansio das frases (6e7) mostra a polissemia combinada com a homonimia: (6a) Veja bem, meu bem. Sinto te informar que arranjei alguém pra me confortar e pra me dar um bem todo dia: uma roupa, um carro, uma casa com piscina. 86 LEXICO E SEMANTICA (7a) Eu sonho poder ter um sonho igual ao de Drummond e de Martinho, mas o maximo que eu consigo é um sonho de padaria, transbordando de chantili. Nessas duas frases, 0 jogo semantico, ainda que de qualidade discutivel, fez com que. em (6a), 0 significado “pessoa muito querida” do substantivo bem fosse contrastado com @ significado “objeto de utilidade material”. Em (7a), 0 substantivo abstrato sonho (fantasias: desenvolvidas durante 0 sono) se contrapée ao substantivo concreto sonho (guloseima re- cheada de creme). Em ambas, uma tinica palavra se recobriu de mais de uma significacao. Repita-se: na HOMONIMIA ha duas palavras (e dois significados), e na POLISSEMIA” ha apenas uma palavra (e mais de um significado). HOMONIMIA POLISSEMIA, ! 2 ou mais palavras, cada uma com a sua significagio | 1 unica palavra com 2 ou mais sentidos A HOMONIMIA e a PARONIMIA sao fendmenos que acontecem nas fronteiras distingdes fonoldgica e semantica e, por isso, é um procedimento natural redobrar: atengao contra os perigos de se empregar um HOMONIMO ou um PARONIMO pelo tro. Os casos de “pao com gliiteos” estio espalhados por toda a parte. | 5.4. TAUTOLOGIA, AMBIGUIDADE E POLISSEMIA Semantica € multiplicidade, duplicidade, univocidade... Pode ser também RED DANCIA, fato que ocorre, como explica Mattoso Camara Jr. (1981, p. 206), quando ~ significado ¢ expresso mais de uma vez na mesma comunicagio linguistica”. Nao interessam aqui as redundancias gramaticais (do tipo “Nés estamos”, “aqueles al ou “ha dois dias atras”). Importam, no Ambito do léxico, as que se aproximam do PI NASMO e da TAUTOLOGIA. tautologia (gr. tautologia ‘o mesmo discurso’ + lat. tautologia) ~ Tero que identifica, @ : cfpio, um tipo especial de redundancia, que consiste na adi¢do de expressio supérflua, nima do que se disse anteriormente. Exs.: Na minha opinido, acho particularmente que’ senhotes tém razdo; O motivo que me traz a esta festa, a razéio de minha vinda até aqui & extremamente pessoal. Os tratadistas, de um modo geral, tém concordado quanto ao & vicioso da tautologia, equiparando-a ao pleonasmo semantico desprovido de intengao tica (exs.: manusear com as mdos; avangar para diante; subit para cima), mas diferenci deste por conter, obrigatoriamente, no minimo um par de termos ou expressdes que se valem quanto ao sentido (ex.: Essa vitiva ndo tem mais 0 marido). O mesmo que TRUE PERISSOLOGIA e BATOLOGIA. Por outro ponto de vista, tautologia €uma figura de ! mento, dotada do carter expressivo da énfase (ex.: Por isto te acuso: és wm homem | um individuo dissoluto), que consiste no desenvolvimento de um mesmo tema por termos diferentes, sindnimo de metabole. Exs.: “Nao chores, meu filho. / Nao chores vida | é luta renhida; | viver é lutar. | A vida é combate / que 0s fracos abate, / que os fo: bravos, / s6 pode exaltar.” (G. Dias, “Cangio do Tamoio”); “Quero um bejjo sem fim, / a vida inteira e aplaque meu desejo!” (O. Bilac, “Beijo Eterno”) Léxicoem Foco 87 O quadro reproduz o que escrevi sobre o verbete TAUTOLOGIA e que esta disponi- vel no E-Diciondrio de Termos Literdrios“, de Carlos Ceia. De sua leitura se tira a cer- teza de que, na semantica, o que pode ser vicio também pode ser virtude. Dai a atengao que se deve ter com 0 trio “pleonasmo/redundancia/tautologia” para nao se achar que sao sempre passiveis de reprimenda ou correcao. O mesmo se dé com a ambiguidade, que se explica a seguir. Em outubro de 2010, 0 jornal Folha de S.Paulo deu desta- — que ao possivel veto do Conselho Nacional de Educagao a obra. + CNE pode vetar de Monteiro Lobato. A chamada, colocada na primeira pagina, Monteiro Lobato 6 dizia isso e remetia o leitor para uma pagina interna do jor- POF’ Preconceito nal. La, se explicava se o preconceito era do CNE ou do “Pai do = Jeca Tatu”, apelido do escritor. No caderno interno, a manchete era “Conselho quer vetar livro de Monteiro Lobato nas escolas”, enquanto o subtitulo esclarecia quem é/seria 0 preconceituoso: “Parecer sugere que obra nao seja distribuida sob alegacao de que é racista”. A chamada de aber- tura identifica o que falta: “Racismo em Cagadas de Pedrinho estaria nas referéncias & Tia Nastacia e a animais como urubu e macaco”. Sea um enunciado é possivel atribuir duas ou mais interpretacées, dizemos que ele caracteriza um caso de AMBIGUIDADE. E dbvio que muitas delas podem ser desfeitas porque o leitor tem conhecimentos implicitos ou pressupostos a respeito do fato ou da expresso empregada. A ambiguidade, como lembra Dubois (1978, p. 45), pode ser do léxico, mas também pode “advir do fato de que a frase tenha uma estrutura sintatica suscetivel de varias interpretacées”. E praticamente o mesmo que diz Ullmann (1964, p. 323), para quem “a AMBIGUIDADE é uma situagao linguistica que pode surgif por varios modos”, mas que do ponto de vista puramente linguistico pode ocorrer por razées fo- néticas, gramaticais ou lexicais - mas acrescentamos: sempre no ambiente pragmatico- discursivo e sempre pela exploragao da massa sonora (e sua representaco grafica).. Entao, organizemos assim o que define e caracteriza a ambiguidade: AMBIGUIDADE ‘ enunciado com duplo sentido em um significante (LEXICAL), um sintagma i + (GRAMATICAL) ou na totalidade do proprio enunciado (FRASAL). O veto a Monteiro Lobato é um caso de AMBIGUIDADE FRASAL ¢ difere da AMBI- GUIDADE GRAMATICAL, que se pode fer no trecho do romance Infincia em que Gra- ciliano Ramos (1892-1953) ironiza o uso da mes6clise ou tmese, colocagéo pouco eufo- nica para 0 ouvido brasileiro. Afinal meu pai desesperou de instruir-me, revelou tristeza por haver gerado um ma- luco e deixou-me. Respirei, meti-me na soletracZo, guiado por Mocinha. E as duas letras % 0 endereco do E-Diciondrio de Termos Literdrios & http://www.edtl.com.pt. 88 LEXICO E SEMANTICA amansaram. Gaguejei silabas um més. No fim da carta elas se reuniam, formavam sen- tencas graves, arrevesadas, que me atordoavam, Certamente meu pai usara um horrivel, embuste naquela maldita manha, inculcando-me a exceléncia do papel impresso. Eu no. lia direito, mas, arfando penosamente, conseguia mastigar os conceitos sisudos: “A pre- guica é a chave da pobreza ~ Quem nao ouve conselhos raras vezes acerta - Fala pouco e bem: ter-te-do por alguém.” Esse Terteéo para mim era um homem, ¢ nao pude saber que fazia ele na pagina final da carta, As outras folhas se desprendiam, restavam-me as linhas em negrito, resumo da ciéncia anunciada por meu pai. = Mocinha, quem é 0 Tertedo? Mocinha estranhou a pergunta. Nao havia pensado que Tertedo fosse homem. Talvez fosse. “Fala pouco e bem: ter-te-Go por alguém.” ~ Mocinha, que quer dizer isso? Mocinha confessou honestamente que nao conhecia Tertedo. E eu fiquei triste. remoendo a promessa de meu pai, aguardando novas decepgdes. Verbo no futuro com pronome atono no meio? Coisa desconhecida pelo menine e pela mocinha, mas parecia mesmo um nome de pessoa. Se ha Gededo, Sebastiao, To~ nhio, por que nao haveria de existir um Tertedo? Mas ninguém conhecia Tertedo, nem o homem nem a colocacao pronominal. Resta a AMBIGUIDADE LEXICAL, que pode se originar de prontincias marcadas por: tracos regionais, sociais ou individuais, 0 que as vezes resulta em dificuldade de com preensao. © desconhecimento de estrutura lexical também pode gerar 0 “apagio” s mAntico. O resultado (na lingua oral) esté representado em (1-4) por piadas, “causos™ trechos que remetem ao folclore nacional: (1) 0 caipira esté em casa, diante da TV com a janela aberta, Um amig6, passan pela calcada, o cumprimenta: ~ Firme, cumpade? ~ Nao, cumpade! Futebor. (2) Querida, meu coracio por ti gela. // Eu aro a terra depois do nascimento planta, mas o Edson Arantes do Nascimento. (3) “A camisinha recebeu a béngao papal. Mas vem cé: camisinha nao é sem papal?” (Agamenon, O Globo: 28/11/2010) (4) “B eu nao fago compras porque nao tenho saco pra Papai Noel. E sabe come) Papai Noel do Congresso da risada? Ho Ho Houbamos muito!” (José Sina Folha de S.Paulo: 19/12/2010) A ambiguidade como efeito de humor se vale de todos os recursos semantico-l cais tratados neste capitulo, em especial a polissemia, a homonimia e a paronimia. (1) “firme” nado se opée a “filme”, porque “filme” é “firme” na promincia do caij AMBIGUIDADE LEXICAL com homonimia fono-ortografica. Em (2), os trocadilhos gela” /"tigela” ¢ “ara antes” / “Arantes” sio resultantes de coincidéncia apenas fonéticn Léxico em Foco 89 AMBIGUIDADE LEXICAL com homonimia fonética. Por esse motivo, esse tipo de ambi- guidade lexical também pode ser chamado de AMBIGUIDADE FONETICA. Em (3) ¢ (4), os colunistas apelaram para significados populares, nem sempre in- formados nos dicionarios gerais. Ou seja, contaram com a capacidade do leitor de reco- nhecer o neologismo de papal (adjetivo derivado do verbo “papar” = comer = possuit sexualmente, para seguir a rede informada pelo dicionario Aurélio) ou de perceber que ‘© sintagma “nao tenho saco” deve e nao deve ser entendido literalmente. Afinal, ambos ‘os trechos sao de colunas de humor. Em (3) 0 neologismo lexical “papal” nao deriva de Papa e cria com o adje- tivo “papal” (derivado de Papa) uma ambiguidade de base homonimica. Em (4) © substantivo “saco” é uma acepgio informal derivada da mesma palavra “saco” (“receptaculo de pano, papel, couro, borracha ou material plastico, aberto apenas por cima” que se expande para “testiculos”, como informa 0 dicionario Houaiss). Nesse caso a ambiguidade ¢ de base polissémica, mas tanto em (3) como em (4) ha AMBIGUIDADE LEXICAL. Vejamos agora uma conhecida crénica de Carlos Drummond de Andrade, intitula~ da “Assalto”, onde 0 contexto cria a duplicidade de sentido. Transcrevemos os trechos de abertura e fechamento. Na feira, a gorda senhora protestou a altos brados contra o prego do chuchu: = Isto é um assalto! Houve um rebulico. Os que estavam perto fugiram-Alguém, correndo, foi chamar 0 guarda, Um minuto depois, a rua inteira, atravancada, mas provida de admiravel servigo de comunicacao espontanea, sabia que se estava perpetrando um assalto ao banco. Mas que banco? Havia banco naquela rua? Evidente que sim, pois do contrério como poderia ser assaltado? — Um assalto! Um assalto! - a senhora continuava a exclamar, e quem nao tinha escutado escutou, multiplicando a noticia. Aquela voz subindo do mar de barracas ¢ legumes como a propria sirena policial, documentando por sew uivo a ocorréncia grave, que fatalmente se estaria consumando ali na claridade do dia, sem que ninguém pudesse evita-la. Barracas derrubadas assinalavam o impeto da convulséo coletiva. Era preciso abrir caminho a todo custo. No rumo do assalto, para ver, no rumo contrario, para escapar. Os grupos diver: gentes chocavam-se, es vezes trocavam de diregao: quem fugia dava marcha a ré, quem queria espiar era arrastado pela massa oposta. Os edificios de apartamentos tinham fechado suas por- tas, logo que o primeiro foi invadido por pessoas que pretendiam, ao mesmo tempo, salvar 0 pélo e contemplar lé de cima. Janelas e balodes apinhados de moradores, que gritavam: ~ Pega! Pega! Correu para la! - Olha ela ali! = Eles entraram na Kombi ali adiante! ~ E um mascarado! Nao, so dois mascarados! Ouviu-se nitidamente o pipocar de uma metralhadora, a pequena distancia. Foi um deitar no chao geral e, como no havia espago, uns caiam por cima dos outros, Cessou 0 ruido. Voltou, Que assalto era esse, dilatado no tempo, repetido, confuso? 90 LEXICO E SEMANTICA ~ Olha o diabo daquele escurinho tocando matraca! E a gente com dor de barriga pensando que era metralhadora! Cafram em cima do garoto que soverteu na multidio. A senhora gorda apareces, muito vermelha, protestando sempre: ~ E um assalto! Chuchu por aquele prego é um verdadeiro assalto! Jé sabemos que a ambiguidade também pode ocorrer quando uma sequéncia de palavras pode gerar mais de um entendimento. A cena narra- da por Carlos Drummond de Andrade aproveita uma coincidéncia linguistica. A frase-interjeicao (Isso é um assalto = Isso é um absurdo) signifi- ca “O prego esta muito caro!”, mas em sentido literal significa que alguém esté apontando uma arma para praticar um roubo. A partir disso, se- gue-se uma sucessio de mal-entendidos e de des- dobramentos semanticos na linha de raciocinio segundo a qual quem conta um conto aumenta um ponto. A leitura da integra do texto** servi- ra para examinar como Drummond descreveu a gradacio do episédio até chegar ao “impeto da convulsao coletiva”. “Isto é um assalto” é um caso de duplo sentido do enunciado, uma AMBI- GUIDADE FRASAL, mas nao podemos deixar de zeconhecer que ha dois propulsores para isso: 0 item lexical “assalto” ¢ 0 contexto descrito por Drummond. A tirinha de Millér Fernandes aborda a mesma frase da crénica de Drummond. Muda o local, mas nao a ambiguidade. “Isto é um assalto”, assim como “nao ter saco”, “chutar o balde”, “acabar em pizza”, “dar um rolé” sao fraseologias que adquirem valores préprios e que permitem que a lingua do dia a dia assuma expressividade e sentido. } - AAMBIGUIDADE £ UM VICIO DE LINGUAGEM? { - “Depende! Diga-me em que texto estd a ambiguidade, e eu te direi se é um vicio ou se & uma “experimentacdo semantica”. Os exemplos de “Tertedo” & “Isso é um Assalto!” mostraram que a ambiguidade pode ter usos intencionais. $6 ha vicio de linguagem na ambiguidade quando 0 uso € acidental ou inexpressivo. Por isso, textos cientificos e informativos devem ser claros € evitar de todo modo qualquer ambiguidade. 0 texto completo esta dispontvel em https /portaldoprofessor-mec gov-br/fichaTecnicaAula html?aula=10274 Léxico em Foco 91 Se o manual que explica como se usa um aparelho eletrdnico contiver alguma am- biguidade, o recurso explicado s6 poder ser usado pelo dono do aparelho se ele pro- curar uma ajuda técnica, pois o texto do manual nao ter4 cumprido o objetivo que lhe cabia. Ou entao o texto de uma lei. Qual a interpretagdo que os advogados buscarao para fazer valer 0 ponto de vista de seu cliente? Vejamos um quadro que reproduz a explicagao sobre 0 uso de um gravador de DVD. Notas sobre a gravacao programada ird piscar quando a unidade nao puder ser ajustada para o modo de espera da gravagao programada. + As gravagdes programadas sero iniciadas quando o horério ajustado chegar, inclusive quando estiver gravando ou reproduzindo. * As gravagoes programadas néio serdo iniciadas quando a cbpia for feita no modo de velocidade normal (p. 42). * Se a unidade for ligada quando a gravagio programade for iniciada, esta permanecera ligada depois de finalizada a gravagao. Nao se desliga automaticamente. E possivel desligar a unidade durante a ‘ravagio programada. + Se estiver fazendo gravacées consecutivas com inicio uma apés @ outra, a parte final (bem no final) do titulo nao poderd ser gravado. «Se DST (Horario de verdo) for ajustado para On quando 0 rel6gio for ajustado manualmente (p. 20), a gravacao programada poder nao funcionar quando o hordrio de verao mudar para o horario normal ou vice-versa, A segunda instrucao diz (5) As gravagées programadas serdo iniciadas quando o horario ajustado chegar, inclusive quando estiver gravando ou reproduzindo. = ‘Como uma gravacao programada poderia estar gravando ou reproduzindo? Certa- mente, esses dois verbos se referem a outro sujeito, o proprio aparelho. Mas o texto em. sino diz isso com clareza. A quarta instrugao diz: (6) Sea unidade for ligada quando a gravagio programada for iniciada, esta perma- neceré ligada depois de finalizada a gravacao. Parece que a gravacao programada permanecerd ligada mesmo apés a gravacio. ‘A explicacao é ambigua: 0 demonstrativo “esta” é 0 motivo da ambiguidade, pois nao remete a unidade (ligada), mas a gravacdo (ligada?). Hé ainda dois pontos a focalizar nessa cartela. Um é 0 que estd na quinta instrugéo. (7) Se estiver fazendo gravagdes consecutivas com inicio uma apés a outra, a parte final (bem no final) do titulo nao poderd ser gravado. Nao hé ambiguidade aj. Temos uma imprecisio vocabular (bem no final?) ¢ um erro de concordancia. Duas coisas inaceitveis para um texto explicativo industrial. Voltemos, porém, ambiguidade. Vamos ler o trecho final da tiltima informagio: 92 LEXICO E SEMANTICA (8) (...) a gravacdo programada poderd nao funcionar quando o horério de verao mudar para 0 horério normal ou vice-versa. O caso agora ¢ de ambiguidade no verbo “funcionar”. A gravacio programada po dera nao funcionar. Isso significa que ela nao vai acontecer ou que vai acontecer for do horario previsto? A logica diz que a gravacao marcada acontecera como seo horarie de verdo ou de inverno continuasse em vigor. Ou seja, a gravacao funcionard. Seré que & isso mesmo? Pois é, sé testando o aparelho, pois o manual nao esclareceu. O manual de grava¢ao de DVD ea manchete sobre Monteiro Lobato contém ambi- guidades viciosas, mas os demais trechos mostraram que a linguagem do humor, como: ‘ou sem literatura, lida com a AMBIGUIDADE de maneira intencional ¢ até expressiva. O mesmo acontece com a publicidade. RESPEITO UMORTE Vocé ESCOLHE 0 CAMINHO. Para divulgar o Dia Nacional de Combate ao Fumo (29 de agosto), a ABRAD lan- gou uma peca comercial com AMBIGUIDADE LEXICAL de base paronimica. Dentro de uma nuvem preta de fumaca oriunda do cigarro, a palavra “cérebro” aparece grafada “célebro”, proniincia com metaplasmo (lambdacismo: r>l) influenciada pela paronimis “cérebro/célebre”. No outra propaganda, a campanha é pela responsabilidade no transito. O cartaz uss a palavra “caminho” com duas acepgées: uma ¢ especifica da linguagem automobilistica (via, estrada, trajeto, rota); a outra tem sentido figurado (tendéncia): hd AMBIGUIDADE: LEXICAL de base polissémica. Semantica é multiplicidade, duplicidade, univocidade... Comecou assim este items do livro. Duplicidade e univocidade remetem para a TAUTOLOGIA e para a AMBP GUIDADE. Multiplicidade remete, para a POLISSEMIA, palavra j4 mencionada varias: vezes aqui, O foco nesse fenémeno comeca com alguns comentérios aplicados a uma cangao de Caetano Veloso, “O Quereres” (Ip “Vel6”, 1984), cujos versos iniciais sag os seguintes: Léxico em Foco 93 ‘Onde queres revélver, sou coqueiro E onde queres dinheiro, sou paixio Onde queres descanso, sou desejo E onde sou sé desejo, queres nao E onde nao queres nada, nada falta E onde voas bem alto, eu sou o chao E onde pisas no chao minha alma salta E ganha liberdade na amplidao. Onde queres familia, sou maluco E onde queres roméntico, burgués Onde queres Leblon, sou Pernambuco E onde queres eunuco, garanhao Onde queres o sim e 0 nio, talvez E onde vés, eu nao vislumbro razio ‘Onde queres 0 lobo, eu sou o irmao E onde queres cowboy, eu sou chinés. Ab, bruta flor do querer... ‘Ah, bruta flor, bruta flor! A letra mostra um confronto da convivéncia amorosa: a antitese do tu contra 0 eu. Essa oposicio se constréi por meio de metonimias. Por exemplo: revélver (meto- nimia de violéncia) contra coqueiro (metonimia de mansidao); Leblon (metonimia de vida requintada) contra Pernambuco (metonimia de vida ristica); lobo (meton{- mia de traic¢ao) contra irmao (metonimia de perdao); cowboy (metonimia de vida ca- pitalista) contra chinés (metonimia de vida socialista). Cada uma dessas metonimias acaba por assumir um valor especifico que vai tecendo a imagem dos dois antagonis- tas da cang4o; o tue o eu. O segundo trecho da musica diz: Onde queres 0 ato, eu sou o espirito E onde queres ternura, eu sou tesao Onde queres o livre, decassflabo E onde buscas o anjo, sou mulher Onde queres prazer, sou 0 que d6i Bonde queres tortura, mansidio Onde queres o lar, revolugio E onde queres bandido, eu sou o hers. Eu queria querer-te amar 0 amor Construirmos dulcissima prisio Encontrar a mais justa adequacdo Tudo métrica e rima e nunca dor Masa vida € real e de viés E vé sé que cilada o amor me armou Bu te quero e nao queres como sou Nao te quero e nao queres como és, 94 LEXICO E SEMANTICA Ab, bruta flor do querer. Ah, bruta flor, bruta flor! © conflito prossegue enumerando uma grande quantidade de significados cada um dos contendores. Ao final, pode-se fazer uma lista com o que vale para o eu espirito, tesdo, verso decassilabo, mulher, mansidao, etc.) € 0 que vale para o tu (0 ternura, verso livre, prazer, tortura). Necessariamente, cada um dos oponentes é t: bém contraditério. Na sequéncia que transcrevemos, “quero mansidio, mas també quero revolucao” e tu “queres ternura, mas também queres tortura”. O contraditério, porém, nao é permanente, pois se disfarca toda vez que o adver rio troca de postura. Parece que o que vale ¢ a regra de ser do contra: tu contra mim eu contra ti, ambos na bruta flor do querer que, paradoxalmente, os aproxima, ‘Vamos a parte final da letrz Onde queres comicio, flipper video Bonde queres romance, rock’n roll Onde queres a lua, eu sow o sol E onde a pura natura, o inseticideo E onde queres mistério, eu sou a luz E onde queres um canto, o mundo inteiro Onde queres quaresma, fevereiro E onde queres coqueiro, eu sou obus. O quereres eo estares sempre a fim Do que em mim é de mim tao desigual Faz-me querer-te bem, querer-te mal Bem a ti, mal ao quereres assim Infinitivamente impessoal E eu querendo querer-te sem ter fim E querendo te aprender o total Do querer que hd e do que nao ha em mim! Dois amantes querendo-se em seus quereres tio desiguais. Uma letra totalmente polissémica na sucessdo de significados para 0 eu e para o tu, sempre antagénicos. Nao ha polissemia nas palavras isoladas, mas no todo do texto. Com isso, a sensibili dade poética de Caetano cria uma polissemia da antitese, do paradoxo, da antonimia © substantivo do titulo “o quereres” faz par com a flexio do verbo “querer”, mas “o quereres” nao é plural de “o querer”. E a substantivacdo da segunda do singular ¢ significa “o (tu) quereres”. O que é isso? Homonimia, polissemia ou um pouco dos dois fendmenos? Como diz a letra: de um lado, o querer que ha; do outro, o querer que nao ha. David Crystal define sucintamente a POLISSEMIA: “termo usado na analise semantica para caracterizar um item lexical com uma variedade de significacées diferentes” (1988, P. 202). Crystal e Ullmann dizem que a maior parte do vocabuldrio de uma lingua é po- lissémica, Ullmann (1964, p. 331) chega a dizer que ela “é um trago fundamental da fala Léxico em Foco 95 ‘bumana, que pode surgir de maneiras multiplas”. Acostumamo-nos a ler explicagdes so- a polissemia e sua principal parceira, a homonimia, sem que ficasse completamente ‘olvida a questo dos significantes de mesma classe gramatical. Parece simples falar em monimia entre duas palavras que tém grafias diferentes (sao dois significantes graficos: conserto & 0 concerto) ou entre um verbo e um substantivo (a saia & ela saia). A ques- do se complica é quando o par é de dois significados ou de dois significantes de mesma se. Por isso, acalma-nos ler a afirmagao de Lyons (1979, p. 430-1): O reconhecimento da distincao entre a identidade e a diferenga de significado nao nos leva muito longe na semantica. Parece claro que alguns significados esto “relacionados” entre si de uma maneira em que outros nao estio relacionados. Esse fato destr6ia simetria da oposigao simples entre sinonimos e homénimos. Qual deve ser a diferenca dos significados associados a uma determinada forma para que se decida que eles sao suficientemente diver- sos para justificar o reconhecimento de duas, ou mais palavras? Didaticamente, o contraste entre a polissemia e a homonimia é facil de explicar. Repito o quadrinho de algumas paginas atras: HOMONIMIA POLISSEMIA 2 ou mais palavras, cada umacomasua —_! 1 “inica palavra com 2 ou mais sentidos : nificas ‘ ‘Vamos seguir com essa explicagdo, mas nao custa ficar atento a mais esta adver- téncia de Lyons, com grifo nosso: “A DISTINCAO ENTRE HOMONIMIA E POLISSEMIA E INDETERMINADA E ARBITRARIA. Depende, em tltima anilise, do juizo do lexicégrafo sobre a plausibilidade da extensdo do significado”, isto é, sobre a extensao da area re- coberta pelo significado de uma palavra além do seu significado “natural” ou “verda- deiro”. Voltando a letra de Caetano, a distincao entre “o quereres” e “tu quereres” é indeterminada ¢ arbitraria: € uma homonimia que chega a ser polissemia. £ uma frase de Kurt Baldinger (1970, p. 43): No plano da sincronia, duas palavras podem ser sentidas como uma palavra com dois significados, e uma palavra com dois significados pode ser sentida como duas palavras. A homonimia pode chegar a ser polissemia, e a polissemia, homonimia. A arbitrariedade da distingao (entre homonimia e polissemia) nao é a mesma coisa que a arbitrariedade do fendmeno (da polissemia). Vamos voltar nossa atencao para ela (a polissemia) e observar dois pontos destacados por Atkins & Rundell (2008, p. 293): o importante ¢ reconhecermos (a) que a polissemia se apresenta de varias formas e ocorre a partir de muitos mecanismos e (b) que ela é, quase sempre, motivada - mais do que arbitraria. = Ullman (1964) cita as fontes que poderiam explicitar esse fendmeno em uma lin- gua. Adaptando-as a lingua portuguesa, transcrevo-as reproduzindo 0 que escrevi em Seméntica e Estilistica (2009, p. 178-80) 96 LEXICO E SEMANTICA ! (a) MUDANGAS DE APLICAGAO: um determinado item lexical pode expandir sua quan | tidade de sentidos gracas ao emprego que ele abarca num determinado contexto de uso. As ‘vezes essas ramificagées semanticas ocorrem em fungao do funcionamento da palavra na fre se, como ocorre muito com os adjetivos. Em portugués podemos dizer que 0 adjetivo “bela 6 sinénimo de “lindo” e significa “dotado de formas e proporgées esteticamente harménicasy tendo como anténimo o adjetivo “feio”. Mas, quando dizemos que uma pessoa apareceu um belo dia na nossa casa ou que vamos receber um belo aumento de salatio, nao haverd risco de alguém pensar que “belo dia” é 0 mesmo que “bonito dia” ou que um “belo aumento” é @ contrario de “feio aumento”. | (b) ESPECIALIZAGAO NUM MEIO SOCIAL: um item lexical pode adquirir um certo numero 3 de significados especificos, cada qual aplicavel em determinado campo de acao € atuacio. A ! palavra “cadeira’, num ambiente académico, nao significa apenas “pega do mobilidrio’, mas” ! pode ser um sinénimo de “disciplina’, palavra que também tem um sentido restrito ao meio ; escolar, onde quer dizer “matéria de ensino’, diferente do significado comum de “obediéncia | as regras e aos superiores” : ! (c) LINGUAGEM FIGURADA: um item lexical pode assumir um ou mais sentidos figurados, © ! que coexistem lado a lado sem se confundirem e sem haver a perda do seu significado original. } Aqui as novas acepcoes ocorrem por agdo da metaférica ou da metonimia, figuras fundamen- tais para a atividade da Kngua. Na linguagem contemporanea, a palavra “monstro” assumiu * o papel de qualificador positivo (liquidagito monstro, comicio monstro), ¢ o verbo “chutat” ex- ! pandin seu uso no jargao esportivo e pode ser usado quando um jogador de basquete arremes- (= chuta) uma bola para a cesta: ambos por metéfora, Uma acepcao nova, por metonimia, | aconteceu com a palavra “trill”, usada para representar a miisica que toca num filme ou numa novela: a “trilha” e o “trilho’, confundidos com os sulcos dos antigos discos de vinil, passam a representar a miisica que passa por esses trilhos, trilhas ou sulcos. { (@) PARONIMOS REINTERPRETADOS: dois itens lexicais de som semelhante e de significa- | glo diferente (de fato ou supostamente) tendem a ser considerados uma dinica palavra com / dois sentidos ou entao passam a ser duas palavras com uma Unica proniincia. Ou seja, mudam do grupo da PARONIMIA para o da POLISSEMTA (1 palavra com 2 sentidos) ou 0 da HOMO- | NIMIA (2 palavras com 1 proniincia), conforme o caso. Bo que se chama “etimologia popular’. | + Assim, “fusivel” vira “fuzil’, “figado” vira “figo” (criando HOMONIMIAS, pois os significados : | nao sao aproximveis) e o verbo “soltar” assume o significado de “soltar” quando uma pessoa : | diz que vai “soltar do dnibus” (neste caso, hd POLISSEMIA, pois a significacao dos dois verbos é aproximavel).. (c) INFLUENCIA ESTRANGEIRA: um item lexical j4 existente na lingua sofre influéncia da importacao do significado de uma palavra estrangeita, 0 que cria a coexisténcia dos dois sig- nificados, 0 antigo e 0 novo, ¢ origina a polissemia. O substantivo “cachorro” é, hoje, no por- tugués, sindnimo de um tipo de sanduiche de salsicha, acepgao oriunda da importacao do Apesar do campo minado da polissemia, & preciso reconhecer que ela serve como um fator de economia e de flexibilidade para o léxico. Como lembra Tlari (2002, p.151), a polissemia “afeta a maioria das construgbes gramaticais”. Seu exemplo mostra 0 caso do aumentativo dos nomes, como acontece com a palavra “Paulo”. As razGes para que alguém LéxicoemFoco 97 seja assim chamado podem ser muitas: “porque é alto, porque é grande, porque é grosseiro, porque é desajeitado, porque é uma pessoa com quem todos se sentem a vontade.” Como conclui Ilari, é mesmo “dificil dizer até que ponto vale cada uma dessas explicagdes”, jé que “da ideia de tamanho passa-se 4 de um certo modo de ser e de relacionar-se”. Também encontraremos a POLISSEMIA no ambito morfossintatico. Ela é responsa- vel por alteracdes na regéncia de alguns verbos, como “demorar”, “custar” e “faltar”, em virtude da aproximacio de seus significados. Na linguagem do cotidiano, suas regén- cias se homogeneizassem. F 0 que temos em (9-11) (9) (Ela) demorou a fazer um sinal para nés. (10) (Bla) custou a fazer um sinal para nés [forma prestigiada: Custou-Ihe fazer um sinal para nés./ Custou a ela fazer um sinal para nds]. (11) (Ela) faltou fazer um sinal para nés [forma prestigiada: Faltou-lhe fazer um sinal para nds / Faltou a ela fazer um sinal para nés]. Os trés verbos parece que assumiram 08 significados uns dos outros, ou seja, cada um ganhou uma nova acep¢io, a qual esté em processo de incorporagio a lingua pa- drio. Como mostram esses exemplos, uma anilise voltada para a variagio dos meios ou dos modos de expressio de significados semelhantes leva 4 percepgio de que os fend- menos de transferéncia de significado envolvem tanto a selegao lexical quanto a selecao de estruturas discursivas que sao utilizadas metdforas ou metonimias. E a opiniao de Maria Helena Marques (1990, p. 158), mas é também a nossa. | 5.5. PARAFRASE E PERIFRASE ‘A PARAFRASE é um tipo sofisticado de repeti¢o que ocorre quando um enunciado possui a mesma informaciio que outro enunciado a partir do qual ele se origina. Essa palavra tem dois componentes: PARA (pref. grego: proximidade) + FRASE (elocucao) Geralmente, quem parafraseia uma sentenga, um pardgrafo ou mesmo um texto exe- cuta uma tarefa de reescritura no ambito do léxico e da morfossintaxe, e nao deveria comprometer o teor informativo, descritivo ou opinativo do texto original. As vezes € a necessidade de reexplicacao ou reapresentagao do que se disse antes que pode levar al- guém a fazer uso da pardfrase. No ambiente escolar, por exemplo, professor e aluno esto em permanente atividade da reelaboracao, seja na hora em que o aluno pede ao professor que explique novamente o assunto, seja na hora em que o professor propée numa avalia- cao que o aluno explique como o protagonista conseguiu encontrar o mapa do tesouro. 98 LEXICO E SEMANTICA E improvavel que uma PARAFRASE nao apresente alguma marca estilistica ou ideo- légica de seu autor, que escolhe novos verbos, adjetivos, procura sindnimos, inverte sintagmas, muda os focos dos enunciados. Tudo isso tem alguma consequéncia prag- mitica, discursiva, sendo possivel inclusive que 0 texto parafraseado fique melhor do que o original. Por isso, a pardfrase é, em suma, uma reescritura. Pode ser de suas pré- prias palavras e ideias, mas pode ser também a retomada de qualquer texto. No am- biente académico, ao redigirmos um trabalho fruto de pesquisas e leituras, costumamos fazer citagoes literais, como a que vem logo a seguir, criada a partir da seguinte situagao: alguém escreve um trabalho sobre leitura e precisa apresentar uma informagao que recolheu num texto de Paulo Saenger publicado no livro Histéria da Leitura no Mundo Ocidental, de Guglielmo Cavallo e Roger Chartier. De que maneira essa pessoa deve transferir as informagées do livro? Uma hipétese poderia ser esta: Paul Saenger (1998, p. 147) afirma que “os historiadores esto de acordo que, na Europa do | Norte, 0 século XII foi amplamente reconhecido como o periodo crucial para as inovacées | nos campos do direito, da teologia, da filosofia ¢ da arte, No entanto, para o historiador da | leitura, é antes de tudo um século de continuidade e consolidagao da escrita em palavras se- | paradas, pratica que, no século XI, tinha se tornado padro, ndo apenas nas Ilhas Britnicas, | | mas também na Franca, Lorena e Alemanha. A introdugdo de espacos claramente perceptiveis | | entre cada palavra da frase, inclusive entre as preposigSes monossilébicas, teve como primeira ! } consequéncia diminuir a necessidade de se ler em voz alta para compreender o texto. Esta! { nova apresentagao textual foi complementada por outra alteracdo linguistica igualmente sig- | nificativa: a mudanga das convengées sobre a ordem das palavras e sobre o reagrupamento de { palavras gramaticalmente ligadas.” i A transcrigao foi literal (visivel pela presenca das aspas) e até deveria ter sido colocada numa diagramagao diferente, em pardgrafo com fonte menor, no formato citagao, No entanto, 0 autor do trabalho tem a op¢io de achar que nao deve recorrer a estratégia da citagao literal, porque ja a usou excessivas vezes ou simplesmente porque nao quer fazer isso. Ble pode fazer uma pardfrase do texto de Saenger. Nesse caso, 0 crédito de autoria permanece, mas a forma de escrever é decidida pelo redator do trabalho académico. Poderia ficar assim: Como informa Paul Saenger (1998, p. 147), inovacdes nas areas do direito, da teologia, da } llosofia e da arte ocorrem de modo decisivo na Europa do Norte no século XII, fato que os ' istoriadores confirmam sem contestagdes. Apesar disso, na histéria da leitura esse século tem. nutro tipo de importancia, pois foi nele que se consolidou uma pratica de escrita que ja fora adotada como padrao no século anterior na Alemanha, Franca, Lorena e nas Ilhas Britdnicas, | nde surgiu no século VII: 0 uso de espacos em branco separando nitidamente cada palavra | la frase. Essa maneira de escrever, que sepatava inclusive as preposigdes monossilabicas, fez | om que a leitura em voz alta, antes indispensdvel, fosse sendo deixada de lado. A consoli- dacao da escrita com espacos em branco aconteceu na mesma época em que se alteravam os ! ito das pal: frase. | habitos de organizacao e Léxico om Foco 99 Uma andlise meticulosa dos dois textos deveria observar: (a) se todas as informa- g6es relevantes do texto original estdo na reescritura; (b) se a alteracio da ordem de apresentacao dos dados compromete o significado do original; (c) se o texto original e a pardfrase esto compativeis quanto ao género (ambos so textos académicos); (d) se as substituicoes lexicais ou sintagmiticas efetuadas (por exemplo: campos virou dreas, estdo de acordo virou confirmam sem contestagdes, no entanto virou apesar disso...) so morfossintaticamente adequadas. Qual a melhor solugao? Qualquer das duas, uma outra paréfrase, um misto de cita~ cao literal e parfrase? Como tudo, valerd o bom senso do redator. Casos ha em que a pardfrase tem caracteristicas mais particulares do que essa que vimos na vida de um pesquisador universitétio. Os dois pequenos pardgrafos abaixo contém um texto de divulgacao do filme “A Esposa Japonesa”?s, Um deles é 0 original, feito por uma videolocadora, 0 outro é a paréfrase: (1) As cartas que Snehamoy e Miyage trocam entre si criam em ambos um forte sentimento. Ele mora na India, onde é professor. Ela cuida de uma mercearia no Japao. Os dois acabam se casando por correspondéncia, mas nenhum dos dois pode deixar 0 que faz para que possam morar juntos. Isso nao diminui a forca desse sentimento mantido a distancia, embora Snehamow tenha de lidar com a presenca da bela Sandhya, uma vitiva que est sempre por perto. (2) Snehamoy, professor numa vila da India, encontra uma amiga por correspon- déncia, Miyage, que é gerente de uma mercearia no Japao. O casal, por cartas, constréi uma bela relagao e até se casa. Infelizmente, é uma relacio a distancia, j que os dois nao podem se encontrar devido a restrig6es particulares. Mas isso nao afeta o amor ou a profundidade de seus sentimentos, apesar da presenga da bela vitiva, Sandhya, na vida de Snehamoy. Qual ¢ 0 original? Qual ¢ a pardfrase? Nao é preciso responder, pois 0 objetivo aqui é mostrar que o trabalho de reescrever/repetir 0 que outra pessoa ja disse é uma operacéo comum — e ndo representa falsidade ideol6gica, pois nos casos cientificos académicos o recurso precisa estar devidamente acompanhado dos créditos de autoria (segundo Bakhtin... de acordo com Bechara... para Fiorin...). Voltemos ao pardgrafo do exemplo e imaginemos que a tarefa é reescrever a mesma informagao para publicar numa revista jovem. A pardfrase vai ter de ser diferente, esco- Ihendo palavras que parecam mais adequadas aos leitores da revista: (3) © cara € professor num lugarzinho bem caido que fica na India. A garota toma conta de uma mercearia no Japao. Os dois ainda sio do tempo em que as pessoas ficavam mandando cartas uma pra outra e af acabam se amar- rando, mesmo com tanta distancia. $6 que ela nao pode ir pra India e ele 2“The Japanese Wife” é um filme indiano de 2010, dirigido por Apama Sen. No elenco, Rahul Bose, Raima Sen, Moushumi Chatterjee e Chigusa Takaku, atriz japonesa que faz 0 papel-titulo. 100 LEXICO ESEMANTICA nao pode ir pro Japao. Resumo da épera - e maneiro: os dois continuam curtindo tudo isso numa boa. Acontece porém que tem uma vitiva gatésima que fica dando em cima do cara. Qs exemplos (1-3) mostram que hé variados recursos a serem empregados cumula- tiva e simultaneamente na construgao de trechos, periodos ou pardgrafos inteiros para- fraseados. Como explica Ilari (2001, p. 140-61), uma parte desses recursos consiste em aplicar transformagées de carter sintatico, ¢ outra parte depende do conhecimento do léxico e da capacidade de percepsio das equivaléncias de palavras e construgdes. ‘Vamos examinar, resumidamente, algumas das estratégias de redacao contidas nos exemplos dados: Exemplo (1) Ele mora na {ndia, onde € nehamoy, professor numa —_; O cara é professor num. ! professor ! vila da india ‘ lugarzinho bem caido que i i fica na Indi Ela cuida de uma mercearia _: Miyage cuida de uma ‘VA garota toma conta de uma | no Japao. ! mercearia no Japao. | nenhum dos dois pode ela nao pode ir pra India e ele deixar 0 que faz para que _ encontrar devido a restrigdes } nao pode ir pro Japao possam morar juntos : particulares : tem uma vitiva gatésima que | fica dando em cima do cara a presenga da bela v Sandhya, na vida de Snehamoy ‘ a presenga da bela Sandhya, ‘ uma vitiva que esta sempre | por perto ‘As mudaneas podem ser lexicais (ele, ela x Snehamoy, Myiage) ou locucionais (ne- nhum dos dois x os dois), mas também podem ser morfoldgicas e microssintaticas (Ele mora na India, onde é professor x Snehamoy, professor numa vila da India) ou macrossin- taticas*” (os exemplos 2 e 3 comegam pela identificagao dos personagens x 0 exemplo 1 co- mega falando das cartas). No caso do texto (3), 0 dado que sobressai tem ainda um outro componente, a que chamaremos de “tom”. A pardfrase, nesse caso, depende do dominio de um outro recurso, além dos dois mencionados por Lari. A equivaléncia de palavras e construgées do exemplo (3) como o primeiro ou com o segundo é Iéxico-semantica e morfossintatica, mas nao é pragmitico-discursiva, j4 que o vocabulario agora é mais colo- quial, intimo, jovem. Ele precisa estar adequado ao publico a que se destina a informacao sobre o filme que tem uma viva “gatésima” ~ palavra que uso entre aspas, mas que no pardgrafo hipotético da revista nao precisa desse recurso gréfico, pois ld a giria da juventude 0 coloquialismo si o tom de redagao esperado. A parafrase (3) também opta por nao es- crever os nomes dos dois personagens, talvez irrelevantes para o tipo de leitor da revista. 2 Chamo de relagdes microssintdticas as que ocorrem no Ambito da oracio. Ha relagbes midissintaticas (no Ambito do periodo) e macrossintdticas (no ambito do pardgrafo e do texto). Léxico em Foco 101 Além de ser usada como alternativa de reescritura, a PARAFRASE também pode ser usada como um componente da sequenciacao textual, cuja finalidade é repetir com ou- tras palavras 0 que o préprio texto disse. Nesse caso, a lingua oferece certas expressdes introdutérias tipicas, como “isto é/ ou seja / quer dizer / em outras palavras / em resu- mo / em sintese / em suma / ou melhor / explicando melhor”. No exemplo que segue, a sequenciagao acontece apés 0 trecho “isso significa dizer que” (4) Apés deixar o poder, o presidente Lula planeja pedir recursos a organismos in- ternacionais, como o Banco Mundial, para financiar aces de seu futuro instituto na Africa e na América Latina. Ele deseja envolver a ONG em grandes projetos de infraestrutura, que dependerao de ajuda externa para sair do papel. A ideia é fomentar o desenvolvimento de paises pobres em setores como transporte & energia. O presidente tem dito a auxiliares que o Instituto Lula nao se limitara a coordenar estudos e formular politicas piiblicas, como se discutiu inicialmente. Isso significa que a entidade tera pouco a ver com o antigo Instituto Cidadania, que ele comandou antes de assumir 0 governo. (Folha de S.Paulo; 21/11/2010) Hé uma informagao que é “reexplicada”: (a) o Instituto Lula nao se limitard a coordenar estudos e formular politicas publicas (e isso foi discutido inicialmente) (b) o Instituto Lula (a entidade) tem pouco a ver com 0 antigo Instituto Cidadania A expresso que introduz a parafrase se coloca entre as duas: “Isso significa que”. A intengao é explicar de novo que o Instituto Lula, diferente do que “se discutiu inicial- mente”, tem objetivos maiores do que se dizia antes. Os proximos exemplos mostram outros casos de pardifrase sequencial. (5) Qual foi, entao, o objetivo do énibus espacial? Construir uma estagao espacial, disseram os responsdveis pela politica espacial. E qual era, perguntamos entao, 0 objetivo da estacao espacial? Aprendermos a viver no espago, disse a Nasa. Em outras palavras, vamos ao espaco para aprendermos a estar no espago. Pa~ rece um tanto ou quanto sem sentido. Mas o fato é que, 40 anos atras, havia o aspecto da aventura: os bravos astronautas, 0 foguete retumbante, a ousadia do pouso na Lua, 0 esforgo e o gasto! Séo coisas que nunca vou esquecer. A co- bertura das missdes do programa Apollo foi um dos grandes marcos de minha carreira jornalistica. (Folha de $.Paulo: 19/07/2009) (6) A investigagao da Aneel revelou também falhas dos técnicos de Furnas na operagio do sistema elétrico de transmissio no momento em que se tentava restabelecer 0 fomnecimento, A descoberta da falha levou a um jogo de empurra entre Furnas ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico). Em sintese, os fiscais descobriram que a operagao indevida das linhas cortou o fornecimento em boa parte do pais justamente quando se tentava a recomposicao. (Folha de S.Paulo: 27/10/2010) 102 LEXICO E SEMANTICA (7) As seis unidades prisionais de Ribeirdo e de Serra Azul abrigam 2.304 presos a mais do que a capacidade. Sao cerca de 5.900 presos para 3.596 vagas, ou seja, um deficit de 164% de vagas. Para sanar o problema, seriam necessarias mais trés penitencidrias, que pelo padrdo da SAP tém 768 vagas cada. (Folha de S.Paulo: 05/12/2010) Os recortes de matérias de jornal mostram como o trecho que esta a direita da expressdo destacada repete (por reiteracdo, condensacao ou reajuste informacional) © que foi dito antes. Nao é nenhum delirio associar-se a parafrase como recurso de construcao de um texto com os casos que vimos de tautologia, sinonimia, polissemia. Também nao ha tanta distancia entre a PARAFRASE ¢ a PERIFRASE. O significado do prefixo grego “peri-” ¢ “em torno de”. Isso ja nos da uma pista de que toda pessoa que usa a PERIFRASE fica “em torno da frase, ou seja, da elocugao, da men- sagem”, mas nao entra exatamente no assunto. Essa estratégia pode ser aconselhavel por alguma razao discursiva, retérica. Vamos dizer que 0 escritor ou o falante precisa ganhar tempo, protelar a divulgacdo de uma decisio, valorizar o que vai revelar mais adiante. No entanto, assim como ha a perifrase expressiva, ha a perffrase viciosa, chamada circunléquio (eo prefixo agora € latino “circum-”, que também significa “em volta de”). Nesse caso, 0 efeito vira defeito, e o que poderia ser uma boa estratégia de redagao se transforma num fiasco. Em linguagem polida, o autor faz um “rodeio”; na linguagem popular, precisa mesmo é “encher linguica”. Vamos ver um exemplo de texto “espichado” por perifrase. O que o redator tem para dizer é muito simples: (8) O povo sabe que eleicées livres fortalecem a democracia. Mas... se € para “gastar 0 portugués” e aumentar a quantidade de palavras e de li- nhas, que tal escrever assim? (9) As pessoas que falam a mesma lingua tém costumes ¢ habitos idénticos, afini- dade de interesses, enfim, uma histéria e tradigdes comuns, esses individuos estao convencidos e tém a inabalavel e insofismavel certeza de que a escolha, por meio do voto, de uma pessoa para ocupar um cargo piiblico, majoritério ou nao, torna forte e robustece o regime de governo que se caracteriza, em essén- cia, pela liberdade do ato eleitoral, pela divisdo dos poderes e pelo controle da autoridade, como forma de garantir a soberania popular. O povo sabe que cleigdes livres fortalecem a democracia? O pardgrafo que acaba- mos de ler nao teve a pretensio de dizer isso de modo objetivo e direto. Nem usou as palavras “povo”, “eleicio” e “democracia”. Foi mesmo um CIRCUNLOQUIO.. Léxico om Foco 103 (10) © novo sistema de contribuicéo monetéria deve buscar modelo aderente realidade e evitar experimentalismos tributarios. (11) Na sua multipluralidade significativa, a unidade da lingua escrita situada entre dois espacos em branco muitas vezes vacila ao posicionar-se definitoriamente na conceituagao que expe numa folha de papel Ha um CIRCUNLOQUIO na frase do exemplo (10), que poderia dizer apenas: “o novo imposto deve estar adequado a realidade”. O mesmo acontece em (11). Sera que “a unidade da lingua escrita situada entre dois espacos em branco” nao poderia ser ape- nas “palavra”? No caso de “multipluralidade significativa”, o interessante é uso hiper- bélico do prefixo multi-, pois “pluralidade” ja ¢ algo miltiplo. Por fim, “ao posicionar- se definitoriamente na conceituagio que expée numa folha de papel” ficaria bem mais claro se fosse apenas “ao tentar definir um conceito”. Vamos seguir com mais alguns exemplos de perifrase. O desafio é saber se cada uma delas é expressiva ou viciosa. (12) Hoje, as oito horas, tera inicio, em todo o territério nacional, a colheita de yotos na maior e mais importante consulta popular de toda a histéria repu- blicana. Dos 11 milhdes de eleitores inscritos esperam os partidos que com- parecam as urnas um minimo de 8 milhdes, em todo o pais, Observadores extrapartidarios consideram, entretanto, esses calculos com algum pessimis- mo, levando em conta, sobretudo, a circunstancia de nao ter sido declarado feriado o dia de hoje. (13) A obra ceciliana é, ao mesmo tempo, universal e atemporal, porque pertence ao seleto grupo de autores que se sobrepdem ao seu tempo e a todos os tem- pos, e sua obra se eterniza, Emprega o portugués classico e usa com 0 mesmo desembaraco metros e rimas variados. (14) Quero que o senhor aponte qual é 0 lado maior desse triangulo retangulo. (15) Nao falseie a verdade, menina, Nao é porque seu pai entregou finalmente a alma ao Criador que vamos esquecer que ele enriqueceu por meios ilicitos. O exemplo (12) é transcrigao de uma noticia publicada no dia 3 de outubro de 1950, data em que haveria “a colheita de votos” (elei¢éo) “na maior e mais importante consulta popular de toda a historia republicana” (para Presidente da Reptiblica). A linguagem jorna- listica da época era dada a PERIFRASES, como também se percebe no longo objeto direto que encerra 0 paragrafo. Em (13), 0 texto académico enaltece as qualidades de Cecilia Meireles com um texto de tamanho ampliado. Se fosse para dizer o mesmo em poucas palavras, bas- taria escrever “Cecilia Meireles é uma étima escritora, e sua obra é eterna”. Em (12-13), a PERIFRASE EXPRESSIVA foi usada para valorizar o texto, mas ha casos em que ela pode ocorrer para tornar mais claro o entendimento, como em (14), ou para suavizar uma ideia mais forte, como nas trés PERIFRASES por EUFEMISMO da frase (15). 104 LEXICO E SEMANTICA (14a) Quero que o senhor aponte a hipotenusa desse triéngulo. (15a) Nao minta, menina. Nao é porque seu pai morreu que vamos esquecer ele foi um ladrao. [As perifrases expressivas e as viciosas se caracterizam sobretudo pela substit de uma palavra ou sintagma por verdadeiros “torneios de frase”. £ 0 que se chama RIFRASE LEXICAL. Mas ha também a PERIFRASE MORFOLOGICA, aquela em que se uma locugio como substituta de uma palavra. As LOCUGOES ADJETIVAS, as LOCUG ADVERBIAIS e as CONJUGAGOES PERIFRASTICAS (locugées cujo auxiliar nao cons sua significagao verbal) sao alguns desses casos. (16) Ela mora numa casa simples de subiirbio e pega o trem todos os dias. (17) Foram feitas algumas insinuagGes de que ele voltaré s6 para assistir 4 Copa. (18) O cliente nunca havia entendido bem aquela explicagao. Os exemplos mostram que as perifrases morfolégicas nao tém necessariamente finalidades que vimos nas perifrases lexicais (valorizacao, clateza ou suavizagio). Bm (16), empregou-se a locugao adjetiva “de subiirbio” em lugar de “suburbana” e a locu- ao adverbial “todos os dias” em lugar de “diariamente”. Em (17), a voz passiva verbal “foram feitas” em lugar da pronominal “fizeram-se”, Em (18), a locugao verbal “avis entendido” em lugar de “entendera”. Todas as formas analiticas que aprendemos nos estudos morfossintiticos so peri- frasticas. E, no caso das CONJUGAGOES PERIFRASTICAS, cabe lembrar que 0 vocdbulo da esquerda é o auxiliar gramatical, ¢ 0 vocibulo principal concentra o significado lexical. Em portugues ha os seguintes tipos de locugées verbai ! (a) verbo ter ou haver + participio = tempo composto [tinham ou haviam saido] § (b) verbo ser ou estar + participio de verbo transitivo direto = voz passiva [era, estava ou ficava | ! cercado pelos alunos} : ! (©) verbo ir + infinitivo = aspecto aproximativo de ago ou estado [ia falar / vai ser] | (@) werbo estar + gertindio (ou preposigao ‘a’ + infinitivo) = aspecto durativo [estou escreven- do ou a escrever] : £ (e) verbo ir (sem indicar ago) + gertindio = aspecto durativo [vou escrevendo] ibs.: Os casos descritos excluem as locugdes cujo auxiliar conserva sua significacao verbal. | Nao ha perifrase em locucdes como “fomos conversando até o aeroporto’, “preciso sair’, “te- ! mos de conversar’, etc. Na sociedade contemporanea o fenémeno da perifrase ¢ uma estratégia muito co- mum, Nestes tempos politicamente corretos, a perifrase que disfarca atitudes de dis- criminagio e preconceito chega até a ser institucionalizada, como lemos na seguinte noticia, publicada em O Globo (setembro de 2005): Com o objetivo de chamar a atencdo da sociedade para os “preconceitos nossos de cada dia”, a Secretaria Especial dos Direitos Humanos elaborou ¢ esté distribuindo a cartilha do Léxico em Foco 105 “politicamente correto”. A publicagao retine 96 palavras, expressdes ¢ piadas consideradas pejorativas e que revelam discriminagdes contra pessoas ou grupos sociais, como negros, mulheres, homossexuais, religiosos, pessoas portadoras de deficiéncia e prostitutas. A cartilha do governo foi bastante criticada e recolhida em pouco tempo. Nao nos interessa aqui examinar as implicages ideol6gicas das escolhas lexicais apresentadas nesse “manual”, mas podemos ver pela pequena amostra de alguns verbetes iniciados pela letra C que a mentalidade “politicamente correta” nem sempre é “semanticamen- te correta”, pois o item lexical a ser banido é, na verdade, inocente. Preconceituoso € quem usa a palavra como marca de uma ofensa ou estigma. O vocabulirio politicamen- te correto lembra a piada do sofa da sala: basta retira-lo do léxico que a “infidelidade” desaparece? Eis o recorte da cartilhi Caipira — A pessoa que vive no campo, na roca. O diciondrio Houaiss lista 72 sindni- mos de caipira, quase todos de conotacao pejorativa, refletindo um forte preconceito da sociedade brasileira. O caipira ¢ tachado de nistico, rude, pouco instrufdo, cafona, brega, avesso ao convivio social, em oposigao As pessoas que vivem nas cidades, consideradas cosmopolitas, elegantes, finas, sofisticadas. Essa altima ideia firmou-se no Pais a partir do inicio dos anos 60, com a “Marcha para o Oeste” e a construcio de Brasilia, e foi alimentada pela ideologia da modernizagéo conservadora e do “Brasil Poténcia”, segundo a qual sé haveria progresso e bem-estar social no asfalto das grandes cidades. Depois que esse mito foi destruido pela crise econdmica e os problemas decorrentes do inchago das periferias, urbanas, estd havendo uma grande revalorizagao dos valores culturais da vida no interior, Ceguinho - Expressao de menosprezo, que estigmatiza os cegos. Em geral, as pessoas privadas de visio preferem ser chamadas de cegas em vez de “deficientes visuais”, “por- tadoras de deficiéncias visual” ou expressdes eufemisticas semelhantes. Comunista - Termo utilizado até recentemente para discriminar ou justificar perse- guigdes a qualquer militante de esquerda ou de causas sociais. Desde as revolucdes que explodiram na Europa, no final dos anos 40 do século 19, e principalmente depois da Revo- lugao Russa, em 1917, os adeptos do socialismo e do comunismo tornaram-se os principais alvos das policias dos Estados liberais e dos propagandistas do capitalismo. Contra eles fo- ram inventadas as piores calinias e insultos, para justificar campanhas de perseguicio que resultaram em assassinatos em massa, de cardter genocida, por exemplo, durante o regime nazista na Alemanha; 0 golpe de Estado de 1965, na Indonésia; e todos os golpes militares ocorridos nos paises latino-americanos, incluindo o Brasil, nas décadas de 60 e 70. Coxo - Palavra estigmatizadora da pessoa que anda de maneira irregular por ser por- tadora de deficiéncia em uma ou nas duas pernas. A carga pejorativa do termo também 6 grande por ser essa uma das designagdes populares do diabo. Crioulo - Antiga designacao do filho de escravos, hoje € um termo pejorativo e dis- criminador do individuo negro ou afrodescendente. A hipdlage “palavras preconceituosas” tem um lado perigoso: desloca para o Iéxico um problema da sociedade e insinua a ideia ingénua de que basta substitui-las para que a discriminagdo diminua ou acabe. Abaixo 0 preconceito... mas nao € preciso desqua- lificar as palavras. % Em http://www.dhnet.org.br/dados/cartilhas/a_pdf_dht/cartilha_politicamente_correto.pdf pode-se bai- xara cartilha elaborada pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos. Os intercimbios funcionais entre substantivos préprios e comuns conjugam ideias de “parte” e “todo”, Esse tipo de relagao semantica que costuma ocorrer, exemplo, quando escrevemos um texto sobre uma pessoa ou sobre um lugar Eprova que tenhamos de pensar em algo que nos faga evitar a repeti¢ao desse substantivo p prio - caso em que entra em cena a "ANTONOMASIA. Numa outra situagao, 0 que €s! 4 nossa disposic4o ndo é uma palavra substituta, mas um substantivo proprio (rams formado metonimicamente em comum —~ caso da EPONIMIA. Esses dois recursos ¢s interligados por uma espécie de cruzamento léxico-semantico. ‘Vamos ilustrar isso com a capa da revista Rolling Stone. Logo abaixo do nome de Rita Lee, aparece a expressao “Grande Estrela do Rock Bra- sileiro”. Essa foi a op¢ao da revista na edi noticiava mais um aniversario da cantora. Rita tem porém outras alcunhas: “Musa do Rock”, “Rainha do Rock” e até “Vové do Rock”, como aparece na sua pagina oficial. Seus fis certamente nao vaci- lariam em dizer que uma frase como “Rainha do Rock Brasileiro lanca novo DVD” s6 pode ser atri- buida 4 Musa dos Mutantes (eis ai outa). ‘Alcunhas, apelidos, epitetos, cognomes... Tudo isso é a mesma coisa que ANTONOMASIA, nome da figura que consiste em empregar um substantivo comum ou uma expressao substantiva como subs- tituto de um nome préprio, seja nome de pessoa (ANTROPONIMO) ou de lugar (TOPONI- MO). A motivagao para que se crie uma alcunha é sempre metaférica ou metonimica, mas as razbes para isso nem sempre sio conhecidas. Proponho um teste. Vamos ver se reconhecemos quem sao os escritores baianos que ficaram conhecidos por estas antonomésias: ANTONOMASIA (.) AGUIA DE HATA. () HEMINGWAY DA BAHIA () RASPUTIM DA LINHA JUSTA ! () POBTA DOS ESC) !() BOCA DO SIGNIFICANTE-BASE, (1) Castro Alves Jorge Amado 5) Rui Barbosa Ives e Gregorio de Matos sio muito conhecidos, “Poeta Os apelidos de Castro Al “Aguia de Haia”, dado dos Escravos” e “Boca do Inferno”. O de Rui Barbosa também, 0 jogo das anton um dos lados ex & pses, a tarcfa € escent Rio de Janeiro é a “Cas “Pais do Sol Nascente™ pelido do estadio cujas bairro do Pacaembu ¢ estidio ¢ uma homens mped do mundo de fs mo antropénimo come Nao serd estranho imagi= tadio Marechal da Viti E assim como acontes ver com uma concorrés sum. Afinal, Claudio €\ compositor, de um jogad ‘um personagem de nove nambuco ou do Rio Gras de Janeiro? Ou seria 0. n9 Antilhas? Bis ai um top® Iugares e mais ainda em ( & claro, em Portugal, ons nao é surpresa falar em¢ Um exemplo de cad LéxicoemFoco 107 ter sido aclamado numa conferéncia de paz realizada em Haia no ano de 1907. Jao Jido “Hemingway da Bahia” para Jodo Ubaldo Ribeiro é mais restrito (quem assim 0 Jidou foi seu amigo Glauber Rocha). E por que Jorge Amado é 0 “Rasputim da Linha a”? Quem assim se referia a ele era o modernista Oswald de Andrade, que adorava Jlocar apelidos ferinos aos seus adversérios. Mas o jogo das antonomiésias pode ser com topénimos. Nosso préximo quadro ixara um dos lados em branco. Em vez de colocar o numero correspondente nos rénteses, a tarefa é escrever o nome do lugar ou a antonomasia. SIGNIFICANTE-BASE ANTONOMASIA 3) PAIS DO SOL NASCENTE # (4) Praia de Copacabana (RJ) _ | (G) TERRA DA GAROA Rio de Janeiro é a “Cidade Maravilhosa”, e Sao Paulo éa “Terra da Garoa”. O Japio €0 “Pais do Sol Nascente”, e a praia de Copacabana é a “Princesinha do Mar”. Mas qual é 0 apelido do estadio cujo nome oficial é Estadio Paulo Machado de Carvalho? Ele fica no bairro do Pacaembu, em Sao Paulo. Dai, por metonimia, o seu apelido, O nome do estidio é uma homenagem ao “Marechal da Vitéria”, chefe da delegacio brasileira camped do mundo de futebol em 1958 e 1962. £ um caso muito peculiar, pois tanto como antropénimo como topénimo, Paulo Machado de Carvalho tem antonomiésia. Nao sera estranho imaginar que um dia alguém possa dizer que vai ver um jogo no “Estadio Marechal da Vitéria”. E assim como acontece com os substantivos comuns, também aqui é possivel con- viver com uma concorréncia semAntica. $40 casos de homonimia (assunto que vimos no inicio deste capitulo). No caso dos antropénimos e dos topdnimos, ela é muito co- mum. Afinal, Claudio é o nome do autor deste livro, mas é também o nome de um compositor, de um jogador de futebol, de um cantor, de um vendedor de pipocas, de um personagem de novela... Santa Cruz é 0 nome de uma cidade da Paraiba, de Per- nambuco ou do Rio Grande do Norte? Ou é 0 nome de um bairro da zona oeste do Rio de Janeiro? Ou seria o nome de uma cidade de Cabo Verde, na Africa, ou de Aruba, nas Antilhas? Eis ai um topdnimo verdadeiramente internacional, que esta em todos esses lugares e mais ainda em Goa, na Jamaica, no Chile, nas Filipinas, nos Estados Unidos ¢, é claro, em Portugal, onde de certo modo boa parte dessa historia comegou. Portanto, nao é surpresa falar em concorréncia de antonomiasias. Um exemplo de cada: 108 LEXICO E SEMANTICA tonomisia de antropénimos: quem é 0 Gordo? (_) Jo Soares [artista de tevé] (_) Oliver Hardy [parceiro de Stan Laurel na dupla “O Gordo e 0 Magro”] () Ronaldo [ex-centroavante da selegao brasileira] : (_) personagem da revista Tico-Tico [que vivi do fusdes] B - Antonomésia de topénimos: onde fica a Suica Brasileira? () no Rio de Janeiro [é a cidade de Nova Friburgo] (_) no Rio Grande do Sul [é a cidade de Gramado] (em Sao Paulo [é a cidade de Campos do Jordao] ( Jem Pernambuco [é a cidade de Garanhuns] Nos dois quadros, podemos marcar as trés primeiras opcées, pois os apelidos “Gor- do” e “Suica Brasileira” sio compartilhados pelos dois trios. A quarta opsao do quadro A é de um menino gordo (adjetivo, com letra minuscula). Ele tem uns 10 anos e sew apelido também decorre de sua aparéncia: ele € 0 Bolota. Nesse caso, a concorréncia segue outro caminho, pois ha mais personagens de quadrinhos com esse apelido (e note que geralmente nem sabemos seu nome), inclusive uma menina comilona (Bolota foi criada em 1953 pela Harvey Comics) que compensa a gula usando sua forga para aju- dar 0 proximo, Quanto a quarta op¢ao do quadro B, Garanhuns, ela é conhecida como “Cidade das Flores”, o que certamente tem também uma boa concorréncia, incluindo Holambra (cidade de Sao Paulo, cujo nome fundiu Holanda e Brasil) e Joinville-SC. Repare como certos apelidos acabam ficando muito mais conhecidos do que os pro- prios nomes: Maracanazinho, Zico, Dinamite, Grande Otelo, Chacrinha, Zé das Medalhas, Chacal, Sarney, Casco... Quanta gente que ficou sem um nome porque ganhou outro. Lugares famosos,vilarejos perdidos no mapa, pessoas comuns, personagens da hist6- ria, politicos, artistas, atletas e escritores — todo substantivo proprio se enquadra da mesma forma nesse processo de combinacio entre nome qualificado e qualificador do nome, Um estidio de futebol pode ser conhecido como o Caldeitéo do Boca tanto quanto uma regio do Brasil pode ser o Pulmao do Planeta. Se um pairro fica famoso como o Berco do Samba, por que nao dizer que a minha cidade é 0 Témulo do Funk? Alguém pode ser 0 Papai Pa- pudo, o Patriarca da Independencia, o Mestre do Suspense, 0 Deus da Raga, a Namoradinha do Brasil, a Musa do Verao, o Nazareno, 0 Careca do 302, a Desinibida do Grajat. Tudo se admite nessa relacdo, desde que se estabelega alguma coeréncia entre os dois componentes: de um lado o substantivo proprio, de outro o seu “apelido”, sua ANTONOMASIA. De todo modo, sempre que se usa uma expresso em vez de uma tinica palavra para se fazer essa substituicao, diz-se que a ANTONOMASIA é também uma PERIFRASE (pois substitui o que poderia ser expresso por um menor nimero de palavras). Isso quer dizer que esses dois termos, embora nao sejam sindnimos, as vezes coincidem. Por exemplo, os ex-jogadores Romario e Socrates tem ANTONOMASIAS (ou apelidos, epitetos, cognomes) muito conhecidas, “Baixinho” e “Doutor” (nao ha PERIFRASE em nenhum dos dois casos). ‘Mas chamar Pelé de “Rei do Futebol” ¢ Zico de “Galinho de Quintino” € 0 que caracteriza uma ANTONOMASIA PERIFRASTICA. Léxico em Foco 109 Os dois trechos seguintes mostram o emprego da ANTONOMASIA como elemento de coesio textual: o primeiro é 0 recorte de uma noticia de jornal; o segundo reproduz os dois paragrafos iniciais de um texto académico. Ambos se referem a Machado de Assis. Ha trés meses, o Ministério da Cultura anunciou que 2008 seré 0 Ano Nacional de Machado de Assis. Em setembro, completam-se 100 anos da morte do escritor carioca. [As editoras se apressam e colocam nas prateleiras, ainda em 2007, os primeiros langa- mentos da comemoracao. ‘A humildade em tom de elegancia, cortesia da mentalidade ainda romantica que 0 escritor cultivava, soa ironica as vésperas do centenério de sua morte. Hoje, quem decla- rar o carioca como 0 maior escritor da Literatura Brasileira vai encontrar poucas pessoas dispostas a discordar. Ao que parece, o Bruxo aprontou mais uma das suas. Adivinhou seu futuro € escondeu sua profecia sob 0 véu da ironia, (0 ANO DO BRUXO, 2007) jogo intertextual é um dos tragos mais fascinantes da prosa de Machado de Assis. E, se éverdade que todo grande escritor €, antes de tudo, um leitor contumaz, isto se aplica perfei- tamente ao nosso Bruxo, cujo intercambio com a literatura universal é um fator constituinte da natureza de seus escritos. HA, na ficgdo de Machado, uma enorme enciclopédia literéria, a que ele faz alusbes, de que faz citagdes (literais ou nao), sempre pressupondo no leitor um parceiro & altura, capaz de decifrar-lhes as significagdes. O repertério é imenso. Desde Contos fluminenses, publicado em 1869, até o ultimo romance, Memorial de Aires, cuja primeira edigao € de 1908, ano da morte do escritor, Machado é um citador incansével. (SENNA, 2008, p. 7) Machado tem um dos EP{TETOS mais difundidos da literatura brasileira. Talvez seja muito dificil encontrar um texto sobre ele que nao recorra a antonomasia “Bruxo do Cosme Velho” ou apenas “Bruxo”. Observe-se porém que, para quem escreve, esse apelido é uma alternativa a mais para se evitar a repetigdo do nome do romancista. Alids, como devemos agir ao escrever um texto longo sobre Machado. Quais os limites para se usar 0 seu nome? E para substitui-lo? Machado e suas anéforas: “escritor carioca”, “o romancista”, “o criador de Capitu”, “o autor de Bras Cubas”, “o fundador da Academia”... ¥% O circuito semantico, como se vé, estd sempre em movimento. Como num tabuleiro de xadrez, 08 significados mudam de lugar, avangam duas casas, ficam parados, recuam até a posicio inicial. Enfim, tudo pode acontecer. No inicio deste item do livro, falamos de dois tipos de cruzamento léxico-semantico entre substantivos préprios e substantivos comuns. Na ANTONOMASIA, 0 substantivo comum vira substantivo proprio para ser seu equivalente. Mas ha também as pessoas e personagens que perderam a propriedade de seu nome. Portanto, se ¢ pertinente falar-se que, numa lingua, existe o processo de “per- sonificacao” (exs.: 0 Hino Nacional, a Patria), também se pode pensar num processo de “coisificagio”. Nesse caso, falamos de EPONIMOS”, fenomeno resultante de uma meto- nimia que se baseia numa relacao de contiguidade entre antropénimos ¢ significagdes que nao tém uma palavra propria para exprimi-las ou para as quais se propde uma nova ® Repitoa informagio de que no livro Morfologia: estudos lexicais em perspectiva sincrénica fago minuciosa anilise ¢ interpretagao do fendmeno da neologizacio pela eponimia no portugués (2011, p. 146-50). “8 LExico EsemAntica denominac’o. Essa passagem a substantive comum nfo caracteriza mudanga de classe. tas de subcategoria (substantivo proprio > substantivo comum). Ha EPONIMOS sincrénicos, os que tém vinculos referenciais ainda muito nitidos co: ‘@antropénimo que lhes deu origem (amélia, barbie, belzebu, camses, cupido, dracula, he- wan”, quixote, sansio, tarza...), ¢ hd EPONIMOS diacrénicos, os que s6 podem ser assim ‘identificados mediante uma informagao histérica que contextualize sua ctiagao a partir de um antropénimo (baderna, carrasco, colt, gandula, gari, gilete, judas... Maricta Baderna: dancarina italiana que esteve no Rio de Janeiro em 1851, provocando “um certo frisson” e cujos admiradores eram chamados de “os badernas”. “baderna’ = arruaca, desordem, confuséo] " Belchior Nunes Carrasco: algoz que teria vivido em Lisboa, antes do séc. XV. + [carrasco = individuo cruel, tirano] Samuel Colt: inventor do revolver dessa marca. {colt = revélver usado nas narrativas do velho oeste] Bernardo Gandulla: futebolista argentino que atuou num clube do Rio de Janeiro no final da ~ década de 1930 e que tinha o habito de buscar as bolas que saiam de campo. + [gandula = apanhador das bolas que saem do campo] Jeixo Gary: incorporador da empresa a cujo cargo esteve o servico publico de limpeza das. Tuas, no Rio de Janeiro do inicio do século XX: igari = varredor de rua] + King Camp Gillette: inventor e primeiro fabricante dessa lamina e aparelho de barbear. {gilete = lamina de barbear, motorista ruim (barbeiro, navalha)] Judas Iscariote: discipulo traidor de Jesus Cristo. [judas = traidor] Os EPONIMOS, no entanto, nao sao criados apenas a partir de pessoas reais. Alguns se inspiram em seres ficticios, como € o caso da palavra amélia (= mulher amorosa, pas- siva e servigal), significagao extraida do contexto do samba “Ai! que saudades da Amé- lia’, de autoria de Ataulfo Alves e Mario Lago, de 1942. A cancdo fala de uma “mulher de verdade”, que “as vezes passava fome ao meu lado / E achava bonito nao ter 0 que comer / Mas, quando me via contrariado, dizia: Meu filho, que se ha de fazer!”. Podemos incluir nesses casos de EPONIMOS de base ficcional as referéncias a per- sonagens de obras do cinema, do teatro, da televisio, da literatura e até da industria de consumo. Esses EPONIMOS dependem da repercussao e permanéncia, na cultura e/ou imaginério da sociedade, dos antropénimos que os originaram. Muitos tém vida curta e saem de cena tio logo cesse sua presenca na midia (cf, Henriques, 2011, p. 147). A partir dessas explicades e exemplos, bem se vé que as relagdes entre a EPONIMIA © a ANTROPONIMIA tém uma condigao que as limita, pois a transposicao de substan- tivo proprio para substantivo comum s6 ocorre mediante a atribuicio de um sentido impessoal a0 nome proprio. E s6 se pode fazer essa “ponte” tomando-se uma certeza ‘0u suposicao a respeito do ser humano real. Assim, ao principio metonimico norteador da criagdo de um EPONIMO, devemos acrescentar a possibilidade de uma interpretagao metafdrica que justifique sua existéncia ou emprego. aE Léxico em Foco 111 E, como nas relagdes seménticas tudo pode acontecer, a roda das significagdes nao Para de girar. Os dois iltimos exemplos focalizam a possibilidade de uma palavra mu- dar sucessivamente de sentido, primeiro por ANTONOMASIA, depois por EPONIMIA. Em ambos, acontece uma situacao bastante comum, na qual o tra¢o fisico de alguém é usado para denomind-lo, como vemos nos nomes dos personagens infantis Brotoeja, Joao Bafo-de-Onca, Capito Gancho, Pereré, Sujismundo. A primeira palavra € CAMOES. O nome do grande poeta portugués ¢ Luis Vaz de Ca- moes (15247-1580), autor de Os Lusfadas. Um. trago fisico se destacava no rosto de Camées: ele era caolho. Por causa disso, seu nome passou a ser usado, por eponimia, para designar Pessoas “cegas de um olho”. A passagem é metonimica e parte do raciocinio: se Camoes (com maitiscula) ¢ caolho, todo caolho é camées (agora com mimiscula). Com isso, pode- mos dizer hoje que Cam@es era camdes. Mas 0 circuito continua, ¢ as metiforas estio no at. Em algumas cidades brasileiras havia um énibus em cuja parte dianteira havia apenas a cabine do motorista, sendo o lado direito recuado. A populacao colocou nesse énibus 0 ape- lido de camoes: era um “Onibus caolho” na interpretagao popular, assim como também & caolho um prato popular que é. simplificagio do bife a cavalo (que leva dois ovos). Quando o bife s6 vem acompanhado de um ovo, diz-se que é um bife a Camoes. nro Camées Datagto: 1919 of. oF? Acepgaes Mi substantivo masculine de dois ndimeros Uso informal 4. hpmam ou animal (esp, cavalo) que 86 enxerga com um oho 2. (1913) Derivacdo: por extensio de sentido individuo vesgo, caolho 4. camBes, 0 bife com ovo 1>2 por eponimia 112 LEXICO E SEMANTICA ‘A segunda palavra é GARRINCHA. Por causa das famosas pernas tortas de sew dono, o substantivo “garrincha” eponimizou-se exatamente com esse sentido, nas refe- réncias coloquiais a pessoas que tém algum tipo de arqueamento nas pernas. Acontece que 0 jogador Garrincha (Manuel Francisco dos Santos: 1933-1983) recebeu esse ape- lido porque gostava de cacar passarinhos (especialmente uma ave chamada garrincha, muito comum na sua cidade), e néo porque tinha as pernas tortas. De posse dessas informagées semanticas, fechamos o circulo: 1. garrincha 2.Garrincha 4.“garrincha” oe 3. pernas do Garrincha (1) gatrincha (subst. comum = passarinho) > (2) Garrincha (subst. proprio = Manuel Francisco dos Santos + (3) 0 “craque das pernas tortas” > (4) “garrincha” (giria, subst. ‘comum = pessoa com as pernas tortas). 1 > 2 por antonomasia 2+3 > 4 por eponimia ‘A diferenga entre “camées” e “garrincha” é que o primeiro comega o ciclo num substantivo préprio e termina com dois substantivos comuns, e 0 segundo comega termina seu ciclo num substantivo comum. Se fosse 0 caso de fazer uma brincadeira ‘com essas duas palavras, faria sentido reconhecer que o caso de “garrincha” (mais do que o de “camées”) é um verdadeiro drible no circuito semantico da lingua. emFoco 113 {5.7 HIPONIMIA E HIPERONIMIA Estamos vendo neste capitulo que é normal o significado de uma palavra se rela~ cionar com os significados de outras palavras. As relacdes de sentido so o que ainda ha pouco chamamos de “roda da semantica”. Girando a roda passamos por sindni- mos, anténimos, parénimos, homénimos, epitetos, antonomédsias... HA relagdes que dispensam a observa¢ao fono-ortogréfica; ha outras que a exigem. Buscamos vinculos de equivaléncia, inclusio, oposigio, hierarquia. A relagao de sentido que nos interessa neste item do livro conjuga as ideias de “parte” e “todo”. HIPERONIMIA do significado geral para o especifico Como explica Lyons (1979, p. 483), “a HIPONIMIA pode ser definida em funcao de uma implicagao unilateral”. Seus exemplos citam uma série com as palavras flores, tuli- as, rosas e violetas, mostrando que a frase (1) poderia implicar as frases (2-3). (1) Comprei flores. (2) Comprei tulipas. Comprei rosas. Comprei violetas. (3) Comprei tulipas, rosas e violetas. Em vez de implicagao unilateral, prefiro dizer “implicagdo convergente”, pois quero insistir nas ideias de “parte” e “todo” (dai a ressalva sobre a citada unilateralidade). Em (2-3), temos os hipénimos tulipas, rosas e violetas. Em (1) temos 0 hiperdnimo flores. Os trés hip6nimos convergem para o hiperénimo. Ento, uma defini¢ao bem simples para essas palavras dira que o HIPONIMO é a palavra particularizadora e que 0 HIPERO- NIMO éa palavra generalizadora. Hi relagées de hipo-...nimtia e hiper-..onimia quando ocorre a seguinte relagio de sentido: Durante a reda¢ao de um texto, quando precisamos evitar a repetigao de uma pa- lavra, temos a disposicao uma ferramenta coesiva importante: 0s HIPERONIMOS e 0s HIPONIMOS. 1IPO- (prefixo grego) posi¢do superior, elevada (= sobre, super) Por exemplo: se nos pedirem uma pequena lista com o nome de quatro animais, talvez nossas lembrancas imediatas recaiam sobre aqueles com 0s quais convivemos, como 0 ca- chorro, 0 gato, 0 cavalo e o papagaio. Talvez nos venham ideias menos dbvias e a lista seja feita de animais nada amistosos, como o lobo, 0 jacaré, o orangotango eo urubu. também poderiamos fazer um rol apenas com os nomes daqueles que, quando se aproximam, nés 114 LEXICO E SEMANTICA co morcego ea lacraia. Mas nada impediria & que ficamos hostis, como a barata, 0 rato, elabordssemos uma lista-dent em homenagem aos tempos “politicamente corretos”, com nomes de animais ja extintos ou em extingdo, como o dinossauro, 0 mamute, 0 a que e o dodé (extintos) ou o panda, o tucano, aariranha ¢ 0 mico-leao (em extingio). Todos esses substantivos sao especificos, se considerarmos que os tomamos sando num termo genérico dado: a palavra “animal” € 0 HIPERONIMO, e cada bichi HIPONIMOS (X) cachorro, gato, cavalo, papagaio, lobo, jacaré, orangotango, urubu, barata, rato, morcego, lacraia, dinossauro, mamute, aurogue, dodé, panda, tucano, ariranha, mico-leiio No entanto, essa relacio entre o termo geral e o termo especifico pode ser out ‘Uma palavra especifica como “dinossauro”, HIPONIMO em telagao ao conjunto “2 mais”, seu HIPERONIMO, pode fazer parte de um outro conjunto, onde assume 0 paj de termo genérico. £ 0 que mostram o quadro ¢ a figura abaixo, ssauros””” e os HIPONIMOS que listam alguns de seus tipos: com 0 agora HIPERONIMO “dino | HIPERONIMO (¥) HIPONIMOS (X) DINOSSAURO, > | braquiossauro, diplodoco, camptossauro, ancilossauro, hadrossauro, tiranossauro, estegossauro e cel6fise Dinossauros << 8 4, Diplodoco ki Celétise Braquiossauro’ Estegossauro : Fonte: Dicianério Mais (1997 p. 171) Tiranossauro 2% A exemplifcagdo que segue é uma adaptacio do que escrevi em Semantica e Estlistica (2009, p. Léxico om Foco 115 ‘Vamos examinar um texto de informagao cientifica sobre um desses dinossauros, camos em negrito todas as palavras ou expressdes substantivas que se referem es- ificamente aos celdfises. O objetivo é verificar como 0 redator colocou em uso as aces de sentido que o hiperénimo “dinossauro” possui. [1° §] Em 1947, em uma expedigéo ao Ghost Ranch, no Novo México, BUA, pa- Ieontélogos fizeram uma grande descoberta: um grande mimero de fésseis de dinos- sauros, mais tarde denominados celéfises. Esses fosseis eram todos parte de um grupo provavelmente devastado por uma inundagdo no periodo triéssico tardio. Os animais variavam de filhotes recém-saidos do ovo a adultos com pouco mais de dois metros de comprimento. [28 §] O corpo do celdfise tinha uma cauda longa e esguia. Suas mandibulas eram dotadas de dezenas de dentes afiados. O celéfise era um predador incomum, pois vivia em grandes rebanhos, algo que no acontece no mundo atual. Animais como o caribu ou © gnu, que se alimentam pastando, vivem em rebanhos, mas 0 mesmo nao ocorre com os predadores, que nao vivem em grandes grupos. Areas pisoteadas em torno do Ghost Ranch sugerem que os rebanhos de celéfises migravam. [32 §] As patas traseiras do animal eram fortes e ageis. Ele tinha pés com trés dedos longos e um curto, e saltava rapidamente para escapar de predadores de maior porte, como o phytossauro, um animal semelhante ao crocodilo. As patas dianteiras do celéfise eram pequenas e provavelmente nao eram usadas para caminhar. O mais provavel é que fossem usadas para recolher alimentos. A cabeca do animal era grande, com um focinho pontudo e olhos grandes. O celéfise era um mestre da emboscada. ¥ possivel que esse predador com cerca de 45 quilos se alimentasse de peixes e, por isso, vivesse & margem de rios, caminhando entre a vegetacao rasteira e sempre atento a inimigos. Também co- mia insetos, répteis semelhantes a lagartos ¢ outros pequenos dinossauros. [49 §] Além dos esqueletos do Ghost Ranch, no Novo México, foram encontrados celdfises no Painted Desert do Arizona. Os troncos petrificados encontrados l4, muitos com comprimento superior a 30 metros, mostram que aparéncia tinham as florestas pe- las quais esses dinossauros corriam. [5° §] Eles estao entre os mais antigos (se ndo sao os mais antigos) dinossauros da ‘América do Norte. O nome cel6fise quer dizer “forma oca”, em referéncia aos ossos ‘cos de suas pernas, que se assemelhavam aos ossos dos passaros, desenvolvidos para ter ‘0 minimo de peso com 0 maximo de fotga. A tnica espécie conhecida é 0 Coelophysis bauri [6° §] Nas caixas tordcicas de dois adultos encontrades no Ghost Ranch havia es- queletos de jovens celéfises. Eles eram grandes e desenvolvidos demais para que fossem bebés ainda nao nascidos. Isso sugere que os celéfises podem ter sido canibais e que a presa teria sido engolida inteira. [72 §] Os parentes do celéfise incluem 0 podoquessauro; 0 halticossauro ¢ 0 proto- compségnato, da Alemanha; e 0 sintarso do Zimbabue e Arizona. Fonte: http://ciencia.hsw.uol.com.br/celofise htm Sem incluirmos na contagem as ocorréncias em que 0 nome do animal foi substi- tuido por outros processos coesivos (como os pronomes retos, obliquos ¢ possessivos ou a clipse), 0 texto empregou por dezenove vezes uma forma substantiva que nos in- forma algo sobre os celdfises, sendo onze as passagens em que a opgio foi pela propria 31S Lenco e SEMANTICA palavra “celéfise”. Mas 0 redator também usou 0s HIPERONIMOS “amianal” (tres predador e dinossauro (duas vezes cada um) e 0 HIPONIMO SINONIMO Cock pauri (uma vez). A estratégia mostra que, em cada paragrafo, 0 substantive Ps foi usado comedidamente, a saber: I vez no 1°; 3 vezes no 2° 2 vezes no 3 1 ver no 5% 2 vezes no 6% 1 vez no 7. terceiro pardgrafo, que é 0 maior do texto, tem sete informagées sobre 0 & Duas delas aparecem com 0 prdprio HIPONIMO, duas com o HIPERONIMO “animal”, com 0 HIPERONIMO “predador” e duas (indiretas), com as expressées que subl «predadores de maior porte” (o que mostra o celofise como um predador de menor por gutros pequenos dinossauros” (0 que confirma que 0 cel6fise no & de grande porte). ‘A conclusio a que se chega é que o autor do artigo organizou adequadamente jogo alternativo entre 0 HIPONIMO e seus HIPERONIMOS (mais de um, como vi pela explicagao). Afinal, nessa relacio entre o especifico ¢ 0 geral, uma regra de tres reproduz quando pensamos na progressio: assim como todo celéfise ¢ um dinossat texlo dinossauro é€ um predador, e todo predador é um animal. A reciproca (pa do geral para o especifico), porém, é falsa, pois nem todo animal é predador, nem t predador é um dinossauro e nem todo dinossauro é um celdfise. Outro caso de relagdo de sentido que conjuga as ideias de “parte” “todo” é 0 que envolve as palavras a partir da possibilidade de um significante integrar 0 significado de outro significante. HOLONIMIA. Esse par lembra a relacdo entre hip6nimos e pardnimost Sim, mas ha uma diferen- ca bem nitida. Se retornarmos para 0s quadros do item anterior, veremos no primeiro: que todos os hiponimos sio nomes de animais e no segundo que todos os hipoénimos sao nomes de dinossauros. A MERONIMIA ¢ a HOLONIMIA nao partem do principio X faz parte de Y, eX é um tipo de Y, porque X faz parte de Y, mas X nao é Ou seja, “cachorro” e “morcego” fazem parte do conjunto “animais”; “cachorro” e“morcego” sio dois tipos de animais. Isso mostra o que € hiponimia e hiperonimia Quando dizemos que o morcego tem asa, causa, cinco dedos (incluindo o polegar), pata e orelha reconhecemos que esses substantivos fazem parte do conjunto “morcego”, mas essas palavras nao sao tipos de morcegos. LéxicoemFoco 117 Fonte: Diciondrio Mais (1997 p. 376) membrana caudal’ 1 cauda Sea palavra “cozinha” for tamada como holénimo, seus merdnimos podem ser: fogio, pia, mesa, cadeiras, forno de microondas... Mas “cozinha” pode ser um dos meronimos de “casa”, “apartamento” e fazer par com quarto, banheiro, sala, corredor, varanda, Essas relagdes de sentido entre a parte e 0 todo, entre o conjunto e 0 subconjunto repetem sob outra perspectiva o que vimos em capitulo anterior quando falamos de metonimias. Como denominar 0 que ocorre nas frases abaixo? (1) As velas comecam a despontar no horizonte. [‘velas” € um MERONIMO de “embarcacao” - é uma metonimia] (2) Vaticano ainda nao anunciou o nome do novo Papa. ["Vaticano” é um HOLONIMO de “autoridades do Vaticano” - é uma metonimia] Vamos examinar outro texto de informagao cientifica. Ele aborda a cirurgia plastica dos bragos e foi escrito pelo Dr. Alan Landecker, Novamente marcamos em negrito todas as palavras ou express6es substantivas que se referem especificamente aos bragos, pois 0 objetivo ¢ o mesmo: verificar como 0 redator colocou em uso as relagdes de sen- tido que o holénimo “brago” possui. [125] Muito antes de Madonna exibir biceps lapidados, a atriz Jane Fonda, que ganhou © Oscar, em 72, com Klute, O Passado Condena, jé havia se tornado um icone de beleza criada as custas de malhagio: sio dela as primeiras imagens de bragos com contornos defi- nidos, provocando uma verdadeira corrida as academias, Desde entéo, a medicina também avangou, procurando desenvolver técnicas que privilegiam mulheres incapazes de ganhar 0 ‘mesmo shape apenas levantando pesos ~ em muitas 0 envelhecimento natural dos tecidos €.as variagdes de peso produzem depésitos de gordura c/ou flacidez de pele concentrados nas faces lateral e posterior dos bragos. O resultado é um aumento da circunferéncia com perda da definigdo muscular, prejudicando o contorno estético. 118 LEXICO E SEMANTICA [22 §] O tratamento cirtirgico dessa regido evoluiu, principalmente apés a in- clusio da lipoaspiracao como opgéo em casos selecionados. Atualmente é possivel rejuvenescer os bracos com excelentes resultados utilizando as varias técnicas dispo- niveis na especialidade, oferecendo significativas melhoras do contorno com cicatri- zes cada vex menores. [38] A escolha da técnica cirtirgica para o rejuvenescimento dos bracos depende do tipo de alteracao. Quando ha aumento da circunferéncia por actimulo de gordura, a lipoaspiragao oferece resultados excepcionais gracas 4 intensa capacidade de retracio da pele nessa regio. Na verdade, em poucos locais do corpo a pele tem caracteristicas tao favoraveis a esse tipo de tratamento. Mesmo apés a retirada de grandes quantida- des de gordura, a pele remanescente capaz de delinear a musculatura subjacente com étima definigao do contorno local. Fonte; http://sentirbem.uol.com.br {link: colunistas] A contabilidade de palavras do texto que indicam alguma parte do “brago” é gran- de. No 1° paragrafo, aparecem os seguintes MERONIMOS: biceps, contorno (2 vezes), tecidos, gordura, pele, face lateral, face posterior, circunferéncia e defini¢éo muscular. Nos outros dois, a lista s6 recebe um acréscimo, musculatura. No mais, ha a repeti de contorno (mais 2 veres), circunferéncia, pele (2 vezes; nao se incluiu a ocorréncia de “pele” como MERONIMO de “corpo”) e gordura. levantamento mostra que, ao se falar de “brago” no contexto de uma cirurgia plastica, 0 vocabulério envolvido é a principio esse, pois todo brago tem biceps, contor- no, tecidos, gordura, pele, face lateral, face posterior, circunferéncia, definigao muscular e musculatura. texto usou seis vezes 0 HOLONIMO “brago”, quatro vezes com esse substantivo e duas vezes com a perifrase anaférica “essa regio”, na qual 0 substantivo “corpo”, implicito ao lado de “regio”, funciona como HOLONIMO para “braco”. Nessa nova relagao de sentido, o HOLONIMO “brago” vira 0 MERONIMO “brago”. O quadro abaixo ilustra esses comentarios: BICEPS, CONTORNO, TECIDOS, GORDURA, PELE, FACE LATERAL, FACE POSTERIOR, | CIRCUNFERENCIA, DEFINIGAO MUSCULAR € MUSCULATURA fazem parte do BRAGO: | todos esses substantivos sio merdnimos; braco é o holénimo. BRAGO faz parte do CORPO: brago é 0 meronimos Na construgio do texto, o autor empregou com equilibrio o vocabulério especifico da rea. Concentrou no primeiro paragrafo a referéncia aos componentes que impor- tavam para sua argumentacao. Foi bem sucedido no “jogo” da MERONIMIA e da HOLO- NIMIA ¢ favoreceu o entendimento do leitor sobre o que é especifico nas questées que envolvem a cirurgia plastica no braco. Léxieo em Foco 119 ‘Todos os fenémenos que vimos neste capitulo de algum modo nos levaram a ob- servar que as relagées de sentido entre as palavras se fazem a partir de interpretagdes ¢ de representagées. O enunciado dito numa situagao real de comunicagao passa por esse filtro, e todo falante realiza essa operagao diante de cada constituinte de uma frase ¢ de cada uma das partes desses constituintes. Chegar a um resultado satisfatério é colocar em permanente discussao ¢ avaliacdo as seguintes relacées de sentido: equivaléncia, oposicao (e contraste), hierarquia, inclusao. RELAGOES DE SENTIDO FENOMENO- equivaléncia | antonomésia, eponimia, polissemia, | tautologia, polissemia EXCLUSIVAMENTE SEMANTICAS $ oposi ‘ hierarquia (9, contraste oposigio, contraste SEMANTICAS & FONO-ORTOGRAFICAS oposigao,

Você também pode gostar