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TOC 116 - Novembro 2009

F i s c a l i d a d e

Preços de transferência num contexto de crise


Por António Nabo

Com a crise instalada em muitos sectores da economia mundial, as relações existentes


entre as empresas multinacionais estão a ser revistas a todos os níveis e, no futuro, cer-
tamente serão diferentes, pelo que as regras que as suportavam em matéria de preços
de transferência estão a ser questionadas e poderão sofrer alterações.

O
aumento da actividade eco- um conjunto de situações totalmente imprevi-
nómica e a constante des- síveis e adversas que originaram quebras muito
localização de empresas de acentuadas nas vendas e, em consequência, nos
um país para outro teve como con- lucros. Consciente desta situação, a OCDE já
sequência alterações fiscais negativas tem a funcionar um grupo de trabalho para ana-
nas receitas dos governos que viram lisar o impacto das reestruturações empresariais
partir empresas, por contrapartida de nas regras de preços de transferência.
António Nabo
Economista
alterações fiscais positivas nos países Por parte dos governos dos diversos países, a situ-
TOC n.º 9 593 que conseguiram captar mais investi- ação de crise actualmente existente levou a uma
mento estrangeiro. Em épocas de cri- quebra substancial das receitas fiscais sem que
se como a que agora se está a viver, as decisões tenham existido medidas fortes de contenção
relativas a reestruturações, deslocalizações e en- orçamental, pelo que a necessidade de cobrar
cerramento de empresas são tomadas de forma impostos tem de crescer nos próximos tempos.
cada vez mais rápida e mais frequente, com um Neste cenário, os governos, mais tarde ou mais
impacto muito forte na economia das regiões e cedo, vão ter de olhar com mais atenção para
dos países onde estão implantadas. as questões relativas aos preços de transferência,
Se tivermos em consideração que mais de 60 para não deixarem fugir as receitas fiscais, por
por cento do comércio mundial ocorre entre contraponto às empresas que, por sofrerem pre-
empresas multinacionais, esse facto é revelador juízos, não pretendem efectuar pagamentos de
da importância dos preços de transferência, bem impostos nos países onde actuam.
como do impacto fiscal que pode significar em A KPMG já alertou para o aumento da activida-
cada país. de dos governos nesta matéria face à diminuição
A OCDE é o organismo internacional que tem das receitas fiscais, principalmente na China, no
servido de mediador para os conflitos entre pa- Vietname e na Grécia, enquanto vários países
íses em matéria fiscal, tendo os seus princípios europeus estão a introduzir medidas novas em
sido adoptados por todos os membros desta or- matéria de requisitos de documentação que su-
ganização. As regras da OCDE para a prática portam a utilização dos preços de transferência.
de preços de transferência têm por base alguma Neste sentido, os contratos existentes entre as
estabilidade das condições de mercado em que entidades relacionadas e que suportaram as tran-
as empresas operam, de modo a que se consiga sacções relativas a acertos de preços de transfe-
aplicar o princípio de plena concorrência entre rência estão a ser questionados no interior dos
empresas relacionadas, e tratar estas entidades próprios grupos económicos, face aos cenários
como empresas ditas normais. de crise e de prejuízos em que as empresas estão
Ora, o que se passou nos últimos tempos não tem a actuar, pelo que as questões contratuais deve-
nada a ver com estabilidade nem com situações rão ser revistas e adaptadas aos novos e futuros
normais. As empresas, tanto as de maior como as cenários em que as empresas se irão movimen-
de pequena dimensão, enfrentaram desde 2008, tar.

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Esta questão da alteração dos contratos em adaptação a uma situação de prejuízo, uma
tempos de crise está a suscitar ainda uma ou- vez que tem por base o montante dos custos
tra questão importante e que tem sido, até este suportados ao qual é adicionada a margem
momento, um pilar estruturante do regime de lucro bruto praticada numa operação não
de preços de transferência: o princípio arm’s vinculada comparável. Como é lógico, esta
length. Isto é, as transacções entre empresas abordagem é praticamente impossível de rea-
relacionadas deverão ser efectuadas de acordo lizar numa situação onde a empresa enfrenta
com os princípios de mercado e de plena con- prejuízos.
corrência, ou não? Em Portugal, a Portaria n.º 1 446-C/2001, de
Há quem defenda que um bom contrato so- 21 de Dezembro, continua a dar ao contri-
bre preços de transferência tanto serve para buinte a opção de escolha entre os vários
as épocas de crise como para as épocas de- métodos: preço comparável de mercado,
safogadas, porque o que está em causa, para preço de revenda minorado, custo majorado,
além dos princípios atrás referidos, é apenas fraccionamento do lucro, margem líquida ou
uma questão de definição de funções e de outro método apropriado. O legislador alega
partilha de riscos entre as várias entidades de que o método mais apropriado «é aquele que
um grupo económico e a consequente remu- é susceptível de fornecer a melhor e mais fi-
neração, a dimensão da crise a que se assiste ável estimativa dos termos e condições que
está a levar as empresas a alterar toda a sua seria normalmente acordados, aceites ou pra-
estrutura de funcionamento. Por isso, os riscos ticados, numa situação de plena concorrên-
e as funções que existiam antes da crise não cia.» Contudo, em França, a situação já está a
podem ser os mesmos depois dela. Nenhuma ser alterada, com o Governo francês a preferir
empresa se manterá a funcionar nos mesmos a utilização do método da margem líquida em
moldes de funcionamento antes e depois des- detrimento dos outros.

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ta crise mundial, pelo que todas as funções e Até agora o Governo português, apesar das mui-
riscos a assumir dentro das diversas entidades tas mudanças efectuadas ao Código do IRC, tem
nos grupos económicos acabarão por ser revis- mantido esta situação sem alterações, tendo, nos
tos e reavaliados. últimos tempos, apenas regulamentado a pos-
É ainda de referir que os pressupostos e as ba- sibilidade de acordos prévios sobre preços de
ses em que se definiram os riscos e as funções transferencia, através da Portaria n.º 620-A/2008,
dentro de um grupo económico antes da crise, de 16 de Julho. De salientar que esta situação
certamente que são hoje diferentes, pelo que a está actualmente a ser muito solicitada nos Es-
abordagem às questões relacionadas com o re- tados Unidos, uma vez que dá às empresas uma
gime de preços de transferência também terá de maior estabilidade nesta matéria. Com os acor-
ser diferente. dos firmados não deverá haver acertos à matéria
Face a esta situação, os contratos entre as em- colectável por parte das autoridades fiscais, em-
presas de um mesmo grupo económico po- bora os requisitos em matéria de documentação
dem vir a ser revistos em conformidade, mas se mantenham.
considerando sempre que o objectivo deve ser Em Portugal, os acordos, que podem ter uma du-
a realização de transacções a preços de mer- ração até três anos, consubstanciam um factor
cado e não apenas a simples transferência de de segurança tanto para a administração fiscal
jurisdição tributária, de modo a pagar menos como para as empresas, garantindo a eliminação
imposto, pelo que esta alteração contratual de- da dupla tributação internacional quando reves-
verá ser bem documentada, de modo a manter tem caracter multilateral.
a necessária transparência perante as autorida- Face à crise existente e às posições antagónicas
des fiscais. entre os governos e as empresas em matéria de
As entidades relacionadas existentes nos di- pagamento de impostos, esta situação deverá ser
versos grupos económicos que utilizam o re- alvo de maior atenção por parte das empresas
gime de preços de transferência estão a depa- que utilizam o regime de preços de transferên-
rar-se com alguns problemas de adaptação às cia, no sentido de suportarem adequadamente as
regras existentes, nomeadamente na selecção decisões tomadas e evitarem problemas com as
do método a utilizar para aplicação deste re- autoridades fiscais. ■
gime. Um dos métodos mais utilizados – cus-
to majorado – tem grandes dificuldades de (Texto recebido pela OTOC em Setembro de 2009)

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