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Ricardo Reis

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Noemi Basanta Llanes

Ricardo Reis (Poeta dos sentidos. A aceptação da vida apesar do pensar)
1. Síntese Biográfica e caracterização literária Podemos considerar que na vida de Pessoa há várias datas de nascimento: a do próprio autor, 13 de junho de 1888, e as de seus heterônimos. Dacordo com a biografia criada por ele mesmo na carta de 13 de janeiro de 1935 a Adolfo Casais Monteiro, Ricardo Reis nasceu em 1887 no Porto “depois de uma deliberação abstracta que subitamente se concretiza numa ode”. Estudou em um colégio de jesuítas, foi médico e fixou residência no Brasil desde 1919. É o heterônimo neoclássico, da métrica perfeita, do estilo denso e construído com ânsias de perfeição onde se concretizará a notável influência de Horacio e a filosofia do Estoicismo misturada com o Epicureísmo. Segundo a avaliação de Pessoa, “Reis escreve melhor do que eu, mas com um purismo que considero exagerado”. A sua concepção da vida parte da consideração do indivíduo como um estrangeiro dentro do mundo que mora, facto que o leva a recolher-se dentro dos seus pensamentos. "Somos estrangeiros/ Onde quer que moremos, Tudo é alheio [...]/ Façamos de nós mesmos o retiro". É muito interesante como explica a ordenação deste mundo abafante sob uma áurea teolóxica neopaganista que conjuga a existência dos deuses do Olimpo materializados nas coisas quotidianas -em consonancia com o gosto pelo mundo clássico que antes já mencionei- com a presença de uma força maior: O Fado. Esta é a deidade que dicta os nossos passos durante vida e até a chegada ineludível da Morte "tanto quanto vivemos, vive a hora/em que vivemos, igualmente morta". Neste sentido, a poesia de Reis, recebe a influência imediata de Horacio que também falava sobre o fluir do tempo como algo irreversível, que não podemos deter, facto do que se deriva a tremenda angústia que sente o sujeito perante o Destino e em última instância, a Morte. O poema que coloco a seguir representa muito bem como o destino " o Fado " consome tudo o que a vida oferece ao ser. Apenas um instante é necessário para perceber que o que acontece já não mas existe “a vida / passa e não fica, nada deixa e nunca regressa”: “Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio” Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio. Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas. (Enlacemos as mãos.)

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Depois pensemos, crianças adultas, que a vida Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa, Mais longe que os deuses. Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos. Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio. Mais vale saber passar silenciosamente E sem desassosegos grandes. Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz, Nem invejas que dão movimento demais aos olhos, Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria, E sempre iria ter ao mar. Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos, Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias, Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro Ouvindo correr o rio e vendo-o. Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as No colo, e que o seu perfume suavize o momento — Este momento em que sossegadamente não cremos em nada, Pagãos inocentes da decadência. Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova, Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos Nem fomos mais do que crianças. E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio, Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti. Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio, Pagã triste e com flores no regaço. Neste sentido, vai encontrar o analgésico -mais uma vez- na sabedoria dos antigos: o carpe diem, como caminho da felicidade. “Coroai-me de rosas [...]/rosas que se apagam[...] E basta”. Acho que neste trecho, dá constancia da fugacidade da vida e da necessidade de viver o momento cumprindo os nossos desejos “coroai-me de rosas”, sendo consciente de que tudo se acaba “rosas que se apagam”, mas sem que isto suponha um problema porque o que importa é viver o momento presente “e basta”. Apesar deste prazer que procura e da felicidade que deseja alcançar, considera que nunca se consegue a verdadeira calma e tranquilidade. Sente que se tem de viver em conformidade com as leis do Destino, indiferente à dor e à falta de prazer, numa verdadeira ilusão da felicidade, conseguida pêlo esforço estóico disciplinado “Melhor destino que o de conhecer-se/ Não frui quem mente frui. Antes, sabendo,/ Ser nada, que ignorando”. De algum jeito, podemos considerá-lo como 2

o reverso do seu mestre Caeiro. Ele azeita a vida sem pensar e Reis talvez a azeite apesar de pensar. Para Caeiro, existir é um fato maravilhoso por sim mesmo, e o mundo não precisa ser explicado. Ricardo Reis partilha a idéia de azeitar calmadamente a ordem das coisas mas não pode passar pela vida sem reparar nela. Caeiro nega-se a ter qualquer interpretação racional do mundo, no entanto, o “real” para Ricardo Reis incorpora a filosofia estoicista que afirma que o tempo passa e a vida é breve, facto que não deve perturbar-nos porque é possível encontrar a felicidade se se vive em conformidade com as leis do destino que regem o mundo. Considero que estas afirmações são muito claras no poema seguinte: o “sabio”, é aquele que observa o mundo mas que “sabe que a vida passa por ele” e que se contenta com isso. “Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo” Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo E ao beber nem recorda Que já bebeu na vida, Para quem tudo é novo E imarcescível sempre. Coroem-no pâmpanos, ou heras, ou rosas volúteis, Ele sabe que a vida Passa por ele e tanto Corta à flor como a ele De Átropos a tesoura. Neste sentido, também conecta com o Epicureísmo na procura do deleite, o mínimo de dor e na necesidade de viver com lucidez, sem deixar-se tentar pela inconsciência que podem producir algumas substáncias. Na continuação do poema anterior observamos como ante a agústia o “sábio” busca a solução no vinho para que “o seu sabor orgíaco/ apague o gosto às horas”. “Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo” [...] Mas ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto, Que o seu sabor orgíaco Apague o gosto às horas, Como a uma voz chorando O passar das bacantes. E ele espera, contente quase e bebedor tranquilo, E apenas desejando Num desejo mal tido Que a abominável onda O não molhe tão cedo. 3

2. Intertextualidade As figuras de Pessoa em geral e de Ricardo Reis em particular, são muito revisitadas pela crítica e pelos literatos atuais, dando lugar a numerosas composições. Um ejemplo muito conhecido é a obra de José Saramago intitulada O ano da morte de Ricardo Reis. O novelista aproveita o fato de Fernando Pessoa não ter determinado a data da morte do seu heterónimo para recuperar-lo e fazêr-lhe testemunhar o período em que o fascismo pouco a pouco se instalava na sociedade portuguesa. Na biografia criada por Fernando Pessoa, Ricardo Reis partiu para o Brasil em 1919 e não houve mas notícias dele. Mas José Saramago, com a sua prodigiosa imaginação, fê-lo regressar a Lisboa, em 1935 e teve xenial idéia de fazer com que os dois escritores se encontrem: “Vai Ricardo Reis a descer a Rua dos Sapateiros quando vê Fernando Pessoa. Está parado à esquina da Rua de Santa Justa, a olhá-lo como quem espera, mas não impaciente. Traz o mesmo fato preto, tem a cabeça descoberta. [...] Fernando Pessoa sorri e dá as boas-tardes, respondeu Ricardo Reis da mesma maneira, e ambos seguem na direcção do Terreiro do Paço” 2. Relação de poemas aludidos “Lídia” Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros Onde que quer que estejamos. Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros Onde quer que moremos, Tudo é alheio Nem fala língua nossa. Façamos de nós mesmos o retiro Onde esconder-nos, tímidos do insulto Do tumulto do mundo. Que quer o amor mais que não ser dos outros? Como um segredo dito nos mistérios, Seja sacro por nosso. ---------“Não quero recordar nem conhecer-me” Não quero recordar nem conhecer-me. Somos demais se olhamos em quem somos. Ignorar que vivemos Cumpre bastante a vida. Tanto quanto vivemos, vive a hora Em que vivemos, igualmente morta Quando passa connosco, Que passamos com ela. Se sabê-lo não serve de sabê-lo 4

(Pois sem poder que vale conhecermos?), Melhor vida é a vida Que dura sem medir-se. “Coroai-me” Coroai-me de rosas, Coroai-me em verdade, De rosas — Rosas que se apagam Em fronte a apagar-se Tão cedo! Coroai-me de rosas E de folhas breves. E basta. -------------“Melhor Destino” Melhor destino que o de conhecer-se Não frui quem mente frui. Antes, sabendo, Ser nada, que ignorando: Nada dentro de nada. Se não houver em mim poder que vença As Parcas três e as moles do futuro, Já me dêem os deuses o poder de sabê-lo; E a beleza, incriável por meu sestro, Eu goze externa e dada, repetida Em meus passivos olhos, Lagos que a morte seca. --------------“Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo” Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo, E ao beber nem recorda Que já bebeu na vida, Para quem tudo é novo E imarcescível sempre. Coroem-no pâmpanos, ou heras, ou rosas volúteis, Ele sabe que a vida Passa por ele e tanto Corta à flor como a ele De Átropos a tesoura. Mas ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto, Que o seu sabor orgíaco Apague o gosto às horas, Como a uma voz chorando O passar das bacantes. 5

E ele espera, contente quase e bebedor tranquilo, E apenas desejando Num desejo mal tido Que a abominável onda O não molhe tão cedo.

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